VIINova-Orleans é, talvez, a cidade mais importante do sul dos Estados-Unidos.Nosso primeiro cuidado, como era natural foi desembarcar, «ir á terra», ceiar bem e dormir tranquillamente um somno bom e reparador. Nao nos faltariam esplendidos hoteis e magnificosroomsonde podessemos, á vontade, descansar dos trabalhos da viagem.Nossa demora devia prolongar-se ahi mais do que em qualquer outro porto, por causa da Exposição e a instancias dos habitantes da cidade, que nos preparavam deliciosas surprezas.Tinhamos tempo bastante para ver Nova-Orleans, para observar os costumes americanose fazer um juizo mais ou menos approximado d'aquelle bello povo.O porto estava atulhado de barcas de commercio—vastas embarcações de dois e trez pavimentos, duas e trez chaminés negras a deitar fumaça n'uma actividade constante, rodas na pôpa, muito mais amplas que as nossas barcas Ferry do Rio de Janeiro. Atopetadas de saccas de algodão e outros generos do paiz, esperavam o momento preciso e regulamentar de se fazerem ao largo.Emquanto esperavamos, vivamente anciosos, o escaler que nos devia conduzir ao caes, assestavamos o oculo para a cidade quasi silenciosa áquella hora, e cujas ruas não tardariamos a conhecer. Accendiam-se os primeiros bicos de gaz. Ao longe, n'alguma egreja remota, badalava um sino triste. Já não se ouvia quasi o brouhaha quotidiano. Numerosas embarcações cruzavam-se no rio. Ouviamos guinchos de locomotivas e o surdo ruido de carros que ainda labutavam.Alguns officiaes deixaram-se ficar aguardando o dia immediato para mais commodamente satisfazerem sua curiosidade de viajantes em terra extrangeira.entrada de nova-orléansEra fim de inverno. Ameaçava chover. O frio continuava bastante forte ainda e os camarotes doBarrosooffereciam, nessas condições, agasalho confortavel aos mais friorentos.Na manhã seguinte, grupos de officiaes brazileiros, uns fardados, outros á paisana, percorriam Nova-Orleans.OSt. Charles Hotel, um dos melhores estabelecimentos da cidade, e oRoyal Hotel—primeiro em luxo e ornamentação—eram procurados avidamente.Os jornaes davam noticias circumstanciadas de nossa chegada e annunciavam festas em homenagem ao Brazil.Uma vez installados nos hoteis, cada um de nós em seu vasto aposento, onde nada faltava, tão differente dos estreitos camarotes de bordo, dividimo-nos em grupos.Quanto a mim, o meu primeiro cuidado foi munir-me de um guia da cidade, especie depocket-bookmuito commodo, registrandoindicações uteis de estabelecimentos e logares principaes.Meu quarto ficava no segundo andar doSt. Charles Hotelcom frente para a rua do mesmo nome—uma saleta mobiliada com a maxima sobriedade, sem luxuosas decorações, contendo apenas os moveis indispensaveis a um rapaz solteiro, e o fogão a um canto.Depois de magnifico banho morno em bacia de marmore (perdôem-se-me estas innocentes confidencias, aliás de bom gosto) seguido de um valente almoço de ostras crúas, as melhores que eu tenho provado, regadas á Sauterne, mastigando (é o termo, porque não sou lá muito admirador de charutos) mastigando um charuto, que não sei bem si era de Havana, sahi a fazer meu primeiro passeio, minhapromenadematinal, começando pela Canal Street, a rua mais importante de Nova Orleans, que a divide em dois grandes bairros—o francez e o hespanhol.No cruzamento das ruas de St. No cruzamento das ruas de St. Charles e Canal erguia-se a estatua de Clay. É esse oponto principal da cidade e o de maior movimento nos dias uteis.Parei defronte do monumento e consultei meu alcorão, quero dizer meu guia manual.«Estatua de Clay—Inaugurada solemnemente no dia 12 de Abril de 1860. Joêl T. Harl, de Kentucky, o artista que deu forma e proporções á estatua, assistiu ao acto. O orador official foi Wen H. Hemt.».Maldito laconismo! Pouco adiantei com as explicações do livrinho.A estatua é de bronze, sobre pedestal de marmore, e mede, approximadamente, quinze pés inglezes de altura.—Continuam as estatuas! exclamei recordando as que vira em Barbados e Jamaica. Felizmente até agora não vira a de nenhum monarcha. Veio-me então á memoria aquella colossal massa de bronze que se ergue no largo do Rocio, no Rio de Janeiro, em fórma de um monarcha escanchado n'um bello cavallo.Tive pena de não ser aquelle bronze aproveitado para outra cousa mais digna e util.—Que diabo! Aquillo é uma pagina de historia patria, reflecti.—E continuei o meutour.A Canal Street é o centro commercial de Nova-Orleans, é a rua do Ouvidor d'aquella cidade, sem os grandes inconvenientes do nosso querido becco.Larga, bastante espaçosa e comprida, offerece transitos especiaes para a população, para trens, bondes e carruagens.As ruas, na maior parte são mal calçadas, principalmente para o interior da cidade.É, sem duvida, admiravel semelhante incuria em se tratando de americanos do norte, entretanto, é uma verdade que não deve ser esquecida, para consolo de nossas municipalidades.Na Canal se acham os melhores e mais solidos edificios, as mais fortes casas commerciaes, os mais importantes armazens da cidade, cafés, restaurantes, clubs, etc.Convenci-me desde logo que os principaes productos industriaes de exportação eram—assucar e algodão, como bem presumiraao desembarcar, no caes, onde era enorme a accumulação de fardos desses dois generos.De vitrine em vitrine, observando sempre, escrupulosamente, curiosamente, á cata de novidades extrangeiras, posso affirmar que nada vi, surprehendente... Ah! sim, vi umas graciosas caixeiras accudirem pressurosas e desenvoltas, com o desembaraço proprio de sua raça, aos compradores, cousa aliás muito simples, muitissimo natural, mas não no Brazil, onde as senhoras estão eternamente prohibidas de competir com o outro sexo na vida publica.Parece-me que só n'este paiz ainda não se observa nem se permitte esse costume tão natural, tão proprio, tão efficaz mesmo, das senhoras pobres empregarem-se no commercio a retalho. Na Inglaterra, em Franca, na Allemanha, na Italia e nos Estados-Unidos é habito velho, ao que me consta, as senhoras servirem nos balcões, e é de notar que cumprem seus deveres com assombrosa pericia. Ás nove horas da manhã, que digo eu! ás seis horas, depois de ligeira refeição, encaminham-se para o trabalho quotidiano, felizes, satisfeitas, envolvidasem grossas capas de lã no inverno, a bolsa de um lado, sem siquer fazerem-se acompanhar. Vão direitinhas de casa para a loja ou escriptorio, sem que ninguem lhes dirija uma pilheria, sem que ninguem as desrespeite, e, á noite, recolhem-se da mesma fórma, sempre alegres, transpirando saúde, a face rubra.Muitas vezes sahem das lojas, mudam atoilette, fazem seu penteado, perfeitamente dispostas, e d'ahi a pouco estão nos bailes, nos concertos, nos theatros.Rara a casa de modas, o armarinho, a livraria onde se não encontra uma senhora exercendo as funcções de simples caxeira, ou como guarda-livros, silenciosa na sua carteira, escripturando cuidadosamente o Caixa.Em alguns estabelecimentos publicos, no Correio, por exemplo, grande parte do serviço é feito por senhoras. Esse edificio, digamol-o de passagem, na rua Canal, é de apparencia extraordinariamente simples e desgraciosa. O serviço, porém, como em toda estação americana é correcto e sem demora.Individuos de muitas nacionalidades acotovellam-se na grande rua.Em Nova Orleans, como em quasi toda a a Luiziania, fala-se mais o francez que outro idioma qualquer, não sendo raro ouvirem-se negociantes, mesmo senhoras de elevada hierarchia falar, embora mediocremente, o hespanhol.Havia chegado o momento fatal, inevitavel, de nos exhibirmos tambem em lingua alheia.Pouco a pouco, nos iamos familiarisando com a população e com o ídioma d'esse adoravel canto da terra que o Mississipe banha.O dia seguinte ao de nossa chegada á Nova Orleans (31 de Março) estava designado para o encerramento da Exposição das Trez Americas. Avisados d'esta solemnidade, deviamos comparecer a ella em grande uniforme, encorporados.Foi um dia essencialmente brazileiro esse. Nos convites para a festividade lia-se esta impagavel gentilesa:Brasilian day.Todas as attenções convergiam para oAlmirante Barroso (brazilian man of war). br />O palacio da Exposição estava situado a alguns kilometros fóra da cidade, n'um de seus pontos mais pittorescos, o Upper City Park, á margem do Mississipe—largo edificio vistosamente adornado e do alto do qual se avistava toda a cidade e immediações.Na manhã d'esse dia, por signal chuvoso e coberto de nevoeiro, embarcámos em trem especial, que nos fôra destinado pelo presidente da Exposição, Mr. Ed. Richardson, umyankeemuito amavel, todo cortesia, sempre com um bello e espontaneo sorriso a captivar a gente, correcto sempre, irreprehensivelmente correcto.Embarcámos na Canal street, defronte doPickwick Club, em companhia de muitos officiaes da Guarda Nacional, de Mr. Richardson e de officiaes da corveta francezal'Étoile, que se achava no porto de Nova Orleans, dos consules e outras summidades do paiz.O trem abalou como um raio, todo enfeitado de bandeirolas americanas, brazileiras e d'outras nações, ao som de musicas e acclamações delirantes, rasgando, na sua marchavertiginosa, o nevoeiro que cahia sem cessar penetrando os wagons escancarados ao ar frio da manhã, soltando guinchos medonhos...Durante o trajecto não me cansei de observar os sitios que o trem atravessava.De um lado e d'outro da linha estendiam-se vastas plantações de algodoeiros desfolhados pelo rigor do inverno, amontoados de neve, immoveis phantasmas brancos no silencio infinito dos descampados; casas de campo deliciosas para se passar o verão, trancadas á neve, muito brancas e desoladas, riam, como saudando a nossa passagem, e desappareciam rapidamente no horisonte esfumado.É de vêr a simplicidade reunida á graça que apresentam essas habitações: vêr uma é vêr cem, tal a uniformidade de sua architectura. Em geral são de madeira, pintadas de branco e cinzento, com seu terraço para as calidas noites de verão, jardim e horta arranjados com admiravel cuidado e bom gosto.Absorvido completamente pelo aspecto variado da paisagem, sem prestar attenção ao circulo ruidoso dos collegas, eu (lembro-mebem) formava planos de vida socegada, n'algum eremiterio entre a eterna frescura das plantas e o amor eterno d'uma creatura querida.Invejava os simples, os sertanejos, os homens dos campo—esses para quem a vida corre sempre calma, porque seu coração não conhece outro amor senão o da esposa e o dos filhos, esses de quem Boileau diziaHeureux est le mortel qui du mond ignoréVit content de soi même en un coin retiré...E eu me transportava outra vez ao Brazil, outra vez eu tinha a nostalgia da patria, a saudade vaga e inexplicavel de minha terra natal.Parecerá uma phantasia de poeta adolescente isto que acabo de dizer, mas é a verdade, a expressão sincera do que eu sentia ao atravessar a região que ia ter lá, ao palacio da Exposição.A tristeza da neve communicava-se ao meu espirito imprimindo n'elle não sei que despretenciosas ambições de silencio e recolhimento.Alguem já procurou explicar a influencia que exerce o estado hygrometrico da atmosphera no estado psychologico do individuo.Eu de mim só sei que o patriotismo, longe da patria, dupplica.E fechemos esta especie de parenthesis.Uma commissão de cavalheiros, competentemente encasacados, veio receber-nos ao desembarque.Entrámos. Nossa entrada foi verdadeiramente triumphal.Dentro e fóra do edificio era grande a agitação. Ondas de povo entravam e sahiam percorrendo o pittorescoUpper City Park.Felizmente «levantou o tempo», como se costuma dizer.Ao assomar á porta do grande salão de honra o primeiro official brazileiro, o commandante doBarroso, ao lado do consul e do presidente da Exposição, a orchestra de professores, brilhantemente organisada, rompeu lá dentro o hymno nacional americano (não conheciam o nosso hymno aliás tão vulgarisado), os espectadores que enchiam o vasto recintoergueram-se, e uma salva estrepitosa de palmas acolheu o resto da officialidade.Houve um momento de verdadeiro delirio, em que todos batiam palmas sem interrupção levantando vivas ao Brazil.Serenado o enthusiasmo, um enthusiasmo indescriptivel, apopletico, tomou a palavra Mr. Richardson, que proferio o discurso de encerramento, saudando a armada brazileira.Seguiu-se na tribuna o orador official, que, n'um improviso eloquentissimo, patenteou a necessidade de uma união entre todas as nações americanas, desenvolvendo largamente as vantagens que d'ahi proveriam a todas elas.Falou tambem o governador da Luiziania, e, finalmente, os Srs. Salvador de Mendonça e Saldanha da Gama, cujas palavras foram cobertas dos mais significativos applausos.Terminada a ceremonia oratoria, foi-nos franqueado o edificio da Exposição, que percorremos examinando com interesse os differentes pavilhões industriaes.O Brazil—é triste dizel-o—fizera-se representar de modo bem insignificante.Brilhariamos pela ausencia, si o Governo não tivesse a lembrança de mandar oAlmirante Barroso.Amostras de madeiras, café em grão, fumo, artigos de borracha, constituiam os principaes productos brazileiros expostos á curiosidade dos visitantes de quasi todas as partes do mundo civilisado. O pavilhão do Brazil deixava-se ficar em plano inferior aos das outras nações, como si fossemos um pobre paiz, cujos productos não valessem a pena de ser expostos n'um certamen internacional!D'ahi, talvez, o assombro dos americanos ao verem oAlmirante Barroso, esse esplendido vaso de guerra de envergadura possante, capaz de resistir aos mais fortes temporaes e que elles, os extrangeiros, duvidavam fosse obra nossa.—Como? Pois no Brazil tambem se fabricam navios de guerra? Está muito adiantado o Brazil!E repetiam com um ar de duvida e de ironia medindo d'alto a baixo e de pôpa á prôao magestoso cruzador, que balouçava de leve sobre o Mississipe:—Está muito adiantado o Brazil!Entretanto o Mexico, a America Central e as republicas sul-americanas, sem os recursos invejaveis da grande nação, sobresahiam admiravelmente. O pavilhão do Mexico, sobretudo, desafiava a maior parte dos outros não só em abundancia de artigos, mas, principalmente, em belleza e bom gosto, em elegancia e riqueza.Escusado, parece, falar do importante logar que coube aos Estados-Unidos. Que profusão de machinas e instrumentos industriaes de invenção puramente americana! Ali mesmo, á vista do observador, fabricavam-se os mais curiosos objectos de fantasia e de uso domestico; o linho, o algodão, a sêda—eram tecidos rapidamente aos olhos de todos.Imagine-se agora o ruido, a algazarra, a movimentação que devia reinar ali dentro d'aquelle immenso edificio, certamente muito longe de ser comparado aos palacios de exposições universaes, mas ainda assim umdos maiores que se tem levantado n'esse genero.Para dar uma idéa de suas dimensões—não o chamaremos vaticano da industria para não exagerar—basta dizer que o salão de musica—music hall—accommodava 11.000 pessoas, inclusive uma vasta área para 600 figuras.Impossivel descrever as amabilidades, as gentilezas que nos foram prodigalisadas largamente pelas adoraveis americanas de Nova Orleans nessa festa democratica de confraternisação internacional; recordar as phrases deliciosas, os galanteios irresistiveis...O que posso affirmar é que obrazilian dayha de perdurar por muito tempo no coração d'aquelles que tiveram a felicidade de assistir essa bellissima festa.Dias depois voltei ao palacio daExposição, sosinho, como simples curioso que não tivera tempo bastante para examinar tudo no pequeno espaço de doze horas.Nada mais restava senão o esqueleto nú do edificio em via de demolição. Todos os objectostinham sido retirados com assombrosa rapidez. Operarios em mangas de camisa martellavam grandes caixões, assobiando monotonamente, emquanto outros carregavam pesados volumes contendo os ultimos especimens da industria americana.Voltei immediatamente com um ar compungido de quem acaba de acompanhar um enterro, lamentando o tempo perdido e exclamando de mim para mim:—Ah! americanos d'uma figa, sois um povo excepcional!Agora uma pergunta ingenua: Porque é que o Brazil, com os numerosos recursos que tem á mão, timbra em occupar logar segundario em quasi todas as Exposições a que concorre?Indifferença, talvez, simples indifferença de nossos governos.Na celebre Exposição de Philadelphia não sabiamos á ultima hora como e onde accomodar os productos deste paiz, em consequencia de não ter o governo mandado construir um pavilhão especial.Contentamo-nos em enviar objectos bastanteconhecidos, não fazemos selecção na escolha d'elles, não nos importa o modo como devam ser acondicionados.Na Exposição de Vienna ainda o Brazil teve de occupar logar pouco lisongeiro, e si alguns de seus productos principaes tiveram a felicidade de ser premiados foi isso devido, não ao governo, mas tão somente a esforços de muitos negociantes do Rio de Janeiro e do Pará.Annuncia-se para o anno vindouro umaUniversal Great Exhibition, nos Estados-Unidos, cujo successo irá rivalisar, talvez, com o da Exposição Universal realisada ha mezes em Pariz e notavel pela colossal e tão celebre torre Eiffel. Nenhuma razão assiste para que a grande nação da America do Sul, o Brazil, não se faça representar com todo o brilho de sua incontestavel riqueza.Agora que somos republica, torna-se dupplamente preciso que patenteemos ao mundo inteiro a infinita variedade de nossas produções agricolas, a opulencia invejavel da flora brazileira e da industria já bastante adiantadad'este bellissimo paiz, cuja natureza extasiou Humboldt, Agassiz e tantos outros sabios da Europa.Si cada Estado souber cumprir seu dever não poupando esforços para esse nobilissimo fim, certo d'esta vez não teremos que corar perante as outras nações como nos tempos do anachronico imperio do Sr. D. Pedro II.VIIIA grande Exposição Industrial de Nova Orleans prolongou-se até aoAlmirante Barroso. O bello cruzador brazileiro começou desde logo a ser o alvo dos curiosos de todas as nações ali representadas.Comprehende-se o vivo interesse do povo em assumptos d'esta ordem.Não havia na cidade quem não soubesse que estava no porto um navio de guerra do Brazil, e este facto por si só era bastante para que toda a gente ardesse em desejo de vel-o de perto, de o percorrer d'um extremo a outro.—Quantos canhões traz? perguntava-se. A machina quantas milhas vence por hora? Quantas rotações por minuto?E quando affirmavamos que a machina doBarrosoera de ferro Ipanema e d'outros metaes brazileiros, que todo o navio, da pôpa á prôa, era construcção inteiramente nacional, subia de ponto a surpreza dos nossos visinhos.O quê! No Brazil já se constroem navios de guerra?—It is impossible!...E toda a população, tomada de um quasi espanto, duvidando, talvez, da nossa habilidade, affluía ao caes.Todo o cruzador, desde a camara do commandante até ao alojamento dos marinheiros, desde o tombadilho até ao porão, foi exposto á curiosidade publica.O sexo gentil, com especialidade, repetia suas visitas.Desde ás oito horas da manhã, ao içar-se a bandeira, começavam a atracar lanchas a vapor e escaleres cheios de visitantes de ambos os sexos.Grandes lanchas iam e vinham do caes para o cruzador e do cruzadorpara o caes, continuamente, incessantemente, apinhadas de passageiros, que pagavam 5 centimos de ida e volta. Cada uma trazia á prôa, em letrasesparramadas e vivas, a senha:—Brazilian man of war.Á tarde, depois d'uma faina acabrunhadora de receber familias e percorrer duas, tres e mais vezes o navio, dando explicações, descrevendo apparelhos e machinismos com uma paciencia de pedagogos, iamos á terra, distrahir nos cafés, nos theatros, nos bailes, tanto mais quanto multiplicavam-se os convites para todas as diversões publicas e familiares.As familias com que iamos entretendo relações de amizade exigiam que fossemos quotidianamente a suas casas, como si nos sobrasse tempo para isso; e, força é confessar, dispensavam-nos um tratamento quasi paternal.A melhor de todas as recepções que tivemos, não obstante o caracter official que a revestia, foi a do Governador da Luiziania, esplendido baile noRoyal Hotel, no dia 8 de, no dia 8 de Abril, ao qual compareceram todas as autoridades civis e militares da cidade em uniforme de gala.A casaca, o clak, a gravata de sêda branca, o vestido decotado até aonde permitte a decencia, confundiam-se nos salões do hotel ricamente adornados, cheios de luz, escancarados de par em par como um palacio em festa.A joven officialidade brazileira, eximia emcotillons, expandiu-se a valer n'essa magnificasoiréede inverno, fria e clara, constellada de botões d'ouro e brilhante, longe da patria, longe de suas familias, mas no seio d'um povo que nos amava devéras.Saráo principesco esse de que ainda sinto o saibo exquisito ao traçar as reminiscencias da minha primeira ausencia do Brazil.Mesa abundantissima e franca, desde a deliciosa sôpa d'ostras com molho inglez á mais fina champagne Clicot, com escala pelamayonnaisede lagosta, fresca e picante, pelo succulentopoisson à l'itallienne, rubro e apettitoso... e tantos, meu Deus, e tantissimos outros pratos maravilhososinventadospela gula epicurista de todas as gerações desde Luculo até á nossa.Volvemos para bordo seria madrugadinha, tropegos, cansados e somnolentos, palpebras cahidas, supplicando a frescura d'um travesseiro, dentro de nossas inviolaveis capas da Bretanha.Uma noite brazileira com todos os excessos da nossa educação e do nosso caracter; saudosa noite, a primeira de minha vida em que me enfronhei n'uma casaca irreprehensivelmente bem feita...OBarroso, diluído na escuridão da noite, aproado á correnteza que descia rio abaixo cantando uma melopéa de lenda, oBarroso—pedaço da patria longinqua—acenava-nos com a sua luzinha amarella palpitando ás rajadas do vento frio.... E os bailes repetiam-se e nósviviamos cercadosda alegria communicativa d'esse povo americano eternamente jovial!Falemos ainda das mulheres de Nova Orleans.Bellas quasi todas, amaveis e insinuantes, cheias d'uma inexcedivel graça que arrebata e seduz voluptuosamente.Ascréoles, ah! ascréoles... ninguem as vê que não as fique desejando.Caracteres principaes: tez morena, com uns tons de rosa na face, olhos muito negros, criminosos até ao homicidio flagrante, pequenas, delicadas, flexiveis, aereas quasi, conjuncto meigo e melancolico, muito sensiveis... A vaga expressão de seu olhar avelludado derrama não sei que mysterioso fluido, cujos effeitos traduzem-se em voluptuosas sensações, secretos desejos de posse absoluta...Como differem as chamadascréolesdas verdadeiras americanas!Estas—muito rubras, cabello côr de ouro, olhos azues—são frias, quasi indifferentes ao amor, egoistas de sua belleza de estatua, vivendo para o trabalho e para a familia; aquellas—adoraveis com as suas linhas ideaes, com a vaga e communicativa melancolia de seu olhar voluptuoso—fazem lembrar um povo mystico e cheio de bondade d'algum paiz nebuloso e desconhecido...É curiosa a origem da populaçãocréolede Nova Orleans. Ella descende na maiorparte de aventureiros canadaenses ecourreurs des bois—gente ousada e valente, que emigrou do norte para o sul da America septentrional, por terra, atravéz de inhospitos desertos povoados de selvagens perigosissimos. Esses aventureiros chegaram a Luiziania sem familias, depois de uma viagem cheia de trabalhos e fadigas, descansando, por fim, ás margens do Mississipe. A Luiziania era então colonia franceza, e o rei, apiedando-se da sorte dos infelizes immigrantes, que viviam solteiros, longe de sua patria natal, sujeitos a uma castidade quasi absoluta, quiz aproveital-os para a colonisação. N'esse intuito mandou vir de Paris umcarregamentode mulheres, prisioneiras da Salpetrière, que chegaram a Nova-Orleans em ferros, e onde foram postas em liberdade e entregues á concupiscencia da população masculina.Isso, porem, não trazia vantagens á colonia, que precisava de gente. Os canadaenses satisfaziam seus apetites carnaes sem que augmentasse o numero de habitantes—facto este que não passou despercebido aodirectorio da Companhia da Luiziania, cujo principal interesse era a multiplicação das almas.N'estas condições foram dadas outras providencias, e, em 1728, chegou a Nova-Orleans um grupo de raparigas, conhecidas na Luiziania historica pelasfilles de la cassetteoucasket girls, mandadas pelo rei para o convento das Ursulinas afim de se casarem licitamente. A experiencia foi coroada de successos. Em breve tempo começou a crescer a colonia e os descendentes dacassettetinham orgulho em o serem.Tal foi a origem humilde dos primeiros filhos nativos da Luiziania.Seu sangue é uma mixtura de sangue canadaense e sangue francez.A mulher americana do norte é geralmente bem educada. Muitas vimos em Nova-Orleans, que conheciam e falavam dois, tres idiomas, alem do vernaculo.Preoccupam-se pouco com bailes e modas, trajam com simplicidade e elegancia, sem affectação, sem a naturalcoquetterieda mulherparisiense. Seu divertimento predilecto é a musica.O proverbial desembaraço das americanas manifesta-se a todo instante. Promptas sempre a repellir com dignidade um ataque á sua honestidade, ellas se dirigem aos homens em qualquer parte, na rua ou nos salões, com a mesma simplicidade com que o fazem ás amigas. O respeito entre os dois sexos, nas classes superiores, é um dos principaes caracteres do povo americano. Habituados, homens e mulheres, a uma educação livre, vivendo uns e outros em commun desde creança, as americanas não se confundem nunca diante dos homens.Nos Estados-Unidos o bello sexo é respeitado como em parte alguma.Os paes depositam confiança illimitada nas filhas. Deixam, sem escrupulo, que ellas saiam a passeio, de carro ou a pé, só ou em companhia de um amigo da casa, na certeza de que ellas saberão zelar a sua castidade.Os raptos e os defloramentos são raros, nãosei si devido ao temperamento da raça ou si á inflexibilidade da Lei. O que sei é que, si um rapaz gosta de uma rapariga de familia reconhecidamente honesta, não tem mais do que namoral-a escandalosamente ás barbas de quem quer que seja, á vista do mundo inteiro, beijal-a sem ceremonia, como si fossem irmãos, e, d'ahi a pouco, eil-os casadinhos de fresco,bras dessus, bras dessous.E ai! d'aquelle que violar os preceitos decretados pelo governo! Immediatamente vê-se dentro d'este triangulo medonho: o casamento, o dote, ou a cadeia. A Lei é inexoravel e a policia exerce uma vigilancia sem igual.Informados de taes particularidades do caracter americano, nós, brazileiros, pusemos um dique ao nosso temperamento de meridionaes, evitando o mais possivel os compromissos amorosos, as manifestações de sympathia por essas adoraveisladies, que, a falar verdade, inflingiam-nos os maiores supplicios com o maravilhoso poder de suas qualidades physicas.Tantalos do coração, eramos obrigados a conter os impetos ferozes da carne que nos aguilhoava implacavelmente no delicioso convivio das lourasmisse das ternascréoles.Estão verdes, não prestam—era a nossa divisa e d'est'arte escapavamos sempre aos ataques de tão perigoso inimigo...IXO dia 14 de Abril (deixem passar a precisão chronologica) estava destinado pelo commandante doBarrosopara uma excursão fluvial, scientifica, á foz do Mississipe, onde iriamos observarde visuos importantes trabalhos hydraulicos, que ahi se procediam sob a intelligente direcção do notavel engenheiro americano Mr. Jas. B. Eads, um velho respeitavel, encanecido no serviço da engenharia, e cujonome estáligado a muitas obras notaveis de seu paiz.Ás onze horas da noite a barca de passeioKeokuklargou de Nova Orleans, rio abaixo, conduzindo a turma de guardas-marinha, alguns officiaes e o commandante, com destino ásJetties.Uma excellente embarcação aKeokuk, especie de pequena cidade fluctuante, muito larga e espaçosa, avantajando-se em dimensões aos vapores da Companhia Brazileira. Tres pavimentos: o superior, coberto por um grande toldo, onde os passageiros podiam fumar á vontade; o do meio formando um salão-refeitorio, ao lado do qual ficavam os camarotes e o porão, para mercadorias; rodas á pôpa, systema de locomoção que não conheciamos; duas chaminés, e machina possante. Em semelhantes condições eramos capazes de fazer avolta do mundo em oitenta dias...Passámos a noite sobre o rio, navegando á meia força, ao sabor da correnteza.Lá iamos outra vez para a região dos mosquitos! Preparámo-nos para dar quixotesca batalha, apezar da falta impreenchivel do nosso querido companheiro, o barbeiro de Sevilha, quero dizer o barbeiro de bordo, o impagavel hespanhol que tanto nos divertira na caça aos mosquitos.Pela manhã, cedinho, estavamos em Port-Eads,defronte do escriptorio central do respeitavel engenheiro.Café, biscoitos..., e desembarcámos.O bom velho já nos esperava com o seu bello ar de urso domestico, barba muito branca, de barrete e oculos, entre os seus mappas coloridos e os seus prospectos representandosteamerse asjetties.—Folgo bastante em lhes poder mostrar o plano da empreza ha tantos annos iniciada sob minha direcção, disse elle com um amavel sorriso de bonhomia patriarchal.E começou a desenrolar diante de nossos olhos uma serie infindavel de cartas hydrographicas, mappas, desenhos...Vale a pena se admirar essa obra monumental.Tratava-se de cavar o leito do rio, n'um dos braços de sua foz, por modo a effectuar-se a navegação livremente, na linha da correnteza, e terem entrada embarcações de grande calado, desenvolvendo-se assim o já notavel commercio de Nova-Orleans. Com esses trabalhos o porto irá melhorando consideravelmente,sendo para notar o grande movimento de navios que entram e sahem durante o dia.O rio tem pelo menos 16.000 milhas navegaveis que os americanos dia a dia tratam de aproveitar dando sahida a innumeros productos do fertilissimo valle do Mississipe, o qual abrange cerca de 768.000.000 geirasdas mais ricas terras do mundo, como elles lá dizem. Sua emboccadura é, portanto, a passagem natural de todos aquelles productos.Desde 1726 têm sido empregados esforços inauditos a fim de se aprofundar essa parte do famoso rio; mas, foi em 1875 que o governo dos Estados Unidos contratou definitivamente esse serviço com Mr. Eads, e é bem provavel que em futuro não muito remoto esteja o porto franqueado a todos os navios do mundo, graças á perseverança e aos esforços de habeis engenheiros.A visita foi curta, mas proveitosa.Tomámos novamente a barca, e ás cinco horas da tarde atracavamos no forte Jackson, velha fortaleza abandonada, á margem direita do rio. Lá estava ainda, immovel e muda, adescommunal artilharia que Farragut, o velho almirante, commandara na guerra sanguinolenta dos separatistas, que terminou com a tomada de Nova-Orleans.Os velhos canhões dormiam seu somno de bronze, lá dentro, nos corredores escuros como os de uma Bastilha, e a nós, estudantes de historia naval, inspiravam não sei que respeito sagrado. Perante elles falavamos baixo, como para não os acordar...A fortaleza é grande, mas só tem a importancia archeologica que a historia lhe empresta; não resistiria, talvez, ás modernas baterias. Opulenta vegetação rasteira cresce-lhe em derredor. O seu aspecto é sombrio como o de um cemiterio: as grossas paredes denegridas e o silencio que a cerca dão-lhe um cunho mysterioso de crypta subterranea e produzem no visitante uma incommoda sensação de abandono e tristeza. Em cada canto parece surgir a sombra de um confederado clamando vingança.Retirámo-nos em marcha funebre, calados e supersticiosos...Dormimos ainda essa noite sobre o rio para amanhecermos em Nova-Orleans. Já estavamos com saudade doBarroso.Continuaram as manifestações de amisade ao Brazil.O neto do imperador, jovem e irrequieto, embalde procurava fugir ás insistencias da aristocracia local e por diversas vezes desejou ter nascido simples burguezinho, como qualquer de seus collegas.E digamos aqui, muito a discreção, Sua Alteza podia ser um bello moço, um digno cavalheiro, um excellente amigo e camarada, mas... Sua Alteza era um pessimo principe. A sua grande aspiração era a vida livre, sem peias, essa vida alegre e bohemia que se exgota depressa noscafés-concertose nosrestaurants.Não gostava de continencias e despresava o juizo imbecil dos que lhe apodavam de estroina. O certo é que esse juizo em nada o compromettia perante ohigh-lifeamericano que o estimava sufficientemente. Elle era o representante immediato da familia imperial,era o alvo predilecto de todas as manifestações ao Brazil na grande festa internacional.Seria ocioso, senão monotono e fatigante, descrever, uma por uma, em todos os seus detalhes, com todas as suas côres mirabolantes, essas manifestações, profundamente fraternaes e democraticas, com que nos recebeu a distincta sociedade de Nova-Orleans. Bailes, regatas, passeios improvisados, concertos, brindes,—e não raro a tolda do nosso bello cruzador converteu-se em esplendido salão de baile, acordando a sons de orchestra e gritos de alegria o silencio agreste das margens do Mississipe.É este o unico consolo d'aquelles que andam no mar em serviço da patria—o repousar em terra amiga. Vão-se as saudades para dar logar á franca expansão dos corações: a alma do marinheiro transforma-se, como por encanto, n'um hostiario de alegrias de uma ingenuidade incomparavel, e elle ri com os outros, canta e sente-se tão bem como si estivesse em seu proprio paiz, no meio de seus amigos e de seus parentes. Encantadora illusão, que só dura emquanto elle não abreas velas mar em fóra nessa interminavel derrota de argonautas que vão atraz do bezerro de ouro da felicidade...Não direi, não, o que nos divertimos, as multiplas sensações por que passou o nosso espirito n'essa Luiziania que o Mississipe embala com o rithmo nostalgico de suas aguas côr de barro. Seria desdobrar a natureza humana tão complexa e mysteriosa.Vamos adiante, consultemos o caderno de notas.25 de Abril...—Estavamos na Paschoa, a festa risonha e popular da ressurreição do Christo. Até então nenhum desgosto, nenhuma tristeza, nenhuma magoa toldara o céo purissimo de nossas alegrias. Vagavamos em mar de rosa, egoistas de felicidade, sereno o espirito, aberto o coração a todos os influxos bons. Boa vida, por um lado, essa de quem viaja sem grandes preoccupações, no bojo de um navio patricio.Eis que, de repente, uma nota dissonante e sombria chamou-nos á realidade pungente da vida humana: morrera um nosso companheirode bordo, o Leocadio..., que digo eu? um d'esses heróes anonymos que usam gola ao pescoço, um pobre marinheiro que a fatalidade arrebatou de sua terra natal para morrer tysico em paiz estranho.Ninguem imagina a dolorosa impressão que produz a morte de um companheiro de viagem longe da patria, n'um hospital desconhecido.Fez-se o enterro com todas as honras devidas ao obscuro soldado e velho marinheiro, nascido, por assim dizer, sobre o mar e educado na escola das tempestades. Tinha sessenta annos. Era o «cosinheiro da prôa». Sobre o seu corpo foi estendido a bandeira nacional brazileira como symbolo da patria reconhecida.N'esse dia, conforme já estava assentado, toda a guarnição doBarrosodesembarcou a fim de assistir á missa solemne da Paschoa na cathedral de S. Luiz, o mais importante dos templos catholicos da cidade, situado na rua Chartres.Bem que antiga, essa egreja parece resistir ainda por muito tempo. Foi o primeiro edificiocatholico erigido em Nova-Orleans pelos capuchinhos, em 1718, ao tempo da fundação da cidade. Tomou o nome de S. Luiz em homenagem ao rei da França.Mais tarde, em Setembro de 1723, desabou sobre a nascente cidade, cuja população elevava-se a 200 almas, formidavel cyclone, que arrasou todos os edificios, causando uma mortandade incalculavel. Narram os chronistas que foram arrojados á costa trez navios que se achavam fundeados no porto. Em breve, porem, a cidade foi reedificada, sendo em 1724 reconstruida a egreja, essa mesma que ainda hoje ergue seus torreões vetustos na rua Chartres.Naquelle anno o territorio de Nova-Orleans foi dividido em tres grandes districtos sob a administração dos capuchinhos, dos carmelítas e dos jesuitas. De então em diante multiplicaram-se os edificios religiosos, egrejas palacios episcopaes, conventos, etc.O convento das Ursulinas data egualmente da fundação da cidade e é um estabelecimento catholico á maneira do de Ruão conhecido por esse mesmo nome.É um dos ultimos conventos que ainda existem nos Estados-Unidos. Consta de trez andares e ergue-se á margem do rio, para onde abre suas janellinhas atravéz das quaes se vê passar a sombra phantastica das religiosas.XUm bello povo, o de Nova-Orleans—jovial, communicativo, hospitaleiro e sincero. A elle devemos os melhores dias dessa longa viagem ao paiz suggestivo e excepcional dosyankees, universalmente querido e respeitado por sua grandeza industrial e por suas bellas tradições de energia e patriotismo.E emtanto approximava-se o dia da partida: iamos embora rumo de norte, levando comnosco a immorredoura lembrança do Meschasebé, «le roi des fleuves», e das legendarias terras que Chateaubriand poetisara nas suas inimitaveisviagens. Restava-nos, porem, o consolo de que ainda iriamos á sonhada Nova-York dos trens aere. Restava-nos, porem, o consolo de que ainda iriamos á sonhada Nova-York dos trens aereos e das emprezas colossaes.Corações á larga, rapazes! Um homem é um homem!...A saudade, porem, não é uma simples figura de rethorica, pelo amor de Deus! É um estado d'alma como a nostalgia, como o amor, como a tristeza, como a dôr...A saudade existe, é um phenomeno perfeitamente real e determinado na ordem dos factos psychologicos. Não nos venham dizer outra cousa os senhores neologistasfin de siècle. Por ter sido cantada em prosa e verso, nem por isso a saudade deixa de ser o que é na verdade—uma commoção nervosa interessando o mais delicado e sensivel do coração humano, uma dolencia vaga, fluctuante n'alma, intraduzivel como um sonho nebuloso, tocada de doçura e ungida de tristeza...Por que uma pessoa tem barba no rosto e já passou dos vinte annos, segue-se que não deve ter mais saudade, que deve ser um insensivel, uma massa inabalavel?Absolutamente não. A lagrima, expliquem-na como quizerem os doutores da sciencia, hade existir emquanto palpitar em nósesse musculo que se chama coração, emquanto a humanidade soffrer e houver um motivo sentimental para commover os seres dotados de intelligencia. É talvez uma questão de mais ou menos intensidade nervosa. Por que tudo é egoismo neste seculo essencialmente palavroso e mercantil, deve-se concluir que, em futuro não muito longe, a raça humana se transforme n'uma como esphynge, sem affectividade possivel, ou que o systema nervoso passe a exercer funcções negativas na physiologia do porvir? Não o acreditamos...A lagrima hade existirper omnia secula, e a saudade terá sempre a sua lagrima, como sentimento superior ás nossas forças.Chorar sobre o tumulo de um amigo é tão natural, tão humano como chorar porque nos separamos de um ente querido. Não desejo agora, por um velleidade de rabiscador sentimentalista, fazer a psychologia da lagrima. O que eu quero é confessar, embora d'isso me advenha o qualificativo depiégas, que não podiamos—eu e a maior parte dos meus collegas—pensar em deixar Nova-Orleans sem um demoradofremito de palpebras e uma nevoa humida no olhar triste...E, dizendo isto, está dito o que nos merecia a hospitaleira população d'aquella cidade.Entretanto, ainda não estavam satisfeitos os luizianenses. Como ultima prova de verdadeira estima oLuiziania Jockey-Clubdeu-nos um magnifico baile na vespera da partida.Tenho ainda na memoria essa derradeira impressão que me ficou de Nova-Orleans. Fazia um luar soberbo, um luar tropical, um luar de legenda, tão limpido e tão claro que se não viam as estrellas... OJockey-Club, em baixo, fazia um effeito surprehendente com a sua illuminação de mil côres rodeando a grande raia das corridas, com o seu aspecto phantastico de kermesse nocturna, salpicado de pontos luminosos e galhardetes em miniatura, immoveis na calmaria da noite.Em derredor a mudez solemne da floresta acordada de instante a instante pelo echo da musica cortando o ar calmo.Perto doClubtinha-se armado um grandeestrado para a dansa ao ar livre, sem tecto, sem toldo, sob o luar.Cruzavam-se os pares, n'um turbilhão impetuoso, ao som das walsas americanas e dos galopes á brazileira.N'essa noite, e pela primeira vez, conversei longamente com umacréole, Mlle... já me não lembra o nome, um typo ideal de Walkyria de olhos negros com um extraordinario brilho nas pupillas,—microscopica, delgada, flexivel, cintura extremamente fina, certo geito adoravel de pender a cabeça para os lados, n'um abandono irresistivel... Toda de preto.Dansámos uma quadrilha e ella convidou-me a passeiar no Prado.Lá fomos, braço dado, eu muito circumspecto, teso dentro da minha farda de guarda-marinha, levado quasi que machinalmente por essa formosa dama d'olhos negos e seductores, arranjando a custo umas phrases de effeito, que eu não teria coragem de reproduzir; ella, desenvolta e pequenina, muito leve na suatoiletteescura, conduzindo-me n'aquella esplendidapromenade au clair de la lune, para onde... não sei eu...Perguntou-me si as brazileiras eram bonitas e ricas, si no Brazil dansava-se muito, e que tal nós tinhamos achado as americanas. Explicou-me então a differença entrecréolese americanas propriamente ditas.Respondi-lhe como pude, exaltando as nossas patricias, «bellas e ricas, como não ha eguaes no mundo...»Parámos. Tinhamos andado seguramente dois kilometros e não viamos agora senão a parte superior doClub, por traz do arvoredo, toda illuminada ao longe, como uma cousa phantastica.Á proporção que nos afastavamos dos nossos companheiros a conversa tornava-se menos animada, e, por fim, já seguiamos calados, como dois somnanbulos, no silencio da noite enluarada...Depois é que vimos a distancia que nos separava do centro da festa.Na volta encontrámos outros pares em doce confabulação, como nós, longe do ruido.Despedi-me para tomar o trem, e ella, a dama dos olhos negros, disse-me umGood byetão sentido e tão suggestivo que eu não tive geito senão perder o trem.Good bye!Nada mais doce e expressivo que estas simples palavras em bocca de americana. Uma ingleza talvez que as não pronuncie com tanta suavidade, com tão sonora flexão, com tanto sentimento.Good bye... Ha qualquer cousa de avelludado no timbre cantante com que ellas, asmissda Nova-Inglaterra dizem a sua phrase sacramental de despedida. O nossoadeus, aliás tão laconico e singelo não exprime tanto, não caracterisa tão bem esse estado d'alma que se denomina—saudade.E, a proposito de—Good bye, vem-me a memoria um episodio de uma simplicidade primitiva e commovente que a minha indiscrição de observador tagarella não deixa calar.Esqueçamos a rapariga d'olhos negros e narremol-o em toda a sua verdade.Entre osnossos companheirosde viagem havia um, cuja vida estava cheia das mais interessantesaventuras amorosas. Chamava-se Manoel..., o apellido de familia não nos interessa. O joven official de marinha, moço de bella apparencia e excellente coração, apaixonara-se por uma Eva Smith muito conhecida nos cafés-concertos de Nova-Orleans. Até aqui nada mais natural. Ella vira-o uma vez diante de umbock, seus olhos se encontraram, e, desde logo, Manoel ficou sendo a menina dos olhos de Eva. Amaram-se por muitos dias, gosaram todas as delicias imaginaveis, elle prohibiu-a de andar nos cafés, ella prohibiu-o de olhar para outras raparigas, e assim corresponderam-se de commum accordo, sem que nunca houvesse entre elles a menor desavença.—Leva-me para o Brazil, Manoel... (ella só o tratava por Manoel).—Sim, filha, depois havemos de ver isso...—I love you very much...—Oh! yess... I think so...Viviam felizes como um casal de noivos, longe da cidade, n'um quarto d'hotel, onde havia do melhor vinho e da melhor sôpa.Um bello dia:Elle—Olha, sabes? OBarrososuspende ferro amanhã.?.Ella(surprehendida)—What do you say?!Elle(trincando um rabanete)—É o que estou lhe dizendo. Amanhã, por estas horas, o Manoel vai sulcando o golfo do Mexico.Ella(cruzando o talher)—Impossivel! Por que já não me disseste?—Para te poupar o desgosto...—Oh! não, meu querido Manoel, é historia, tu não vás amanhã...—Assim é preciso. São cousas da vida...—Não, não, meu amor (my love) tu não vás, porque eu não quero, do contrario faço escandalo, estás ouvindo?E, ao dizer estas palavras, a pobre Eva deixou cahir uma lagrima...Silencio. Manoel continuou a jantar sem interrupção, muito calmo, com uma fleugma verdadeiramente britannica. Eva, coitada, abriu a soluçar baixinho, fungando a mais não poder, sem se aperceber de que estava fazendo de um guardanapo um lenço.
entrada de nova-orléans
Heureux est le mortel qui du mond ignoréVit content de soi même en un coin retiré...