Ultimo acto, e aqui é que está o aproposito.Scenario: O Mississipe pardo e murmurejante sob a luz moribunda do crepusculo.OAlmirante Barroso, immovel sobre o rio, com a sua mastreação muito alta, fuméga. Ouve-se barulho de cabrestante e de amarras cahindo no convéz. Tremúla a bandeira brazileira na carangueija da mezena... Ultimos preparos.No cáes agita-se uma multidão compacta.De repente surge á tona d'agua o cepo da ancora enlameada, pingando um lodo cinzento, e o navio começa a andar vagarosamente.A guarnição sóbe ás vergas, alastrando-se de um bordo e d'outro, e acena para terra ao som de—vivas!Agitam-se lenços na praia, correspondendo ás saudações de bordo. Um fremito percorre os que estão no cruzador...É o momento decisivo.Um grande rebocador,The Warriaro, vistoso e arquejante, acompanha as manobras doBarroso, á distancia de uma amarra, solitario e sombrio, envolto n'uma nuvem de fumaça, e em cuja tolda assoma a figura desgrenhada de uma mulher.O cruzador segue á vante, magestoso e lento, descrevendo uma bella curva no espelho da agua, e torna a passar defronte da cidade, apressando a marcha.As religiosas das Ursulinas lá cima, nas janellinhas do convento, acenam tambem com os seus lenços brancos.E, no silencio da tarde que a nevoa melancolisa, repercutem estas palavras tocadas de saudade:—Good bye!—Good bye!repete a mesma voz avelludada como um carinho...Olhámos uns para os outros commovidos.Quem seria que se lembrara de levar tão perto sua despedida aos brazileiros?A voz era de mulher, não restava duvida...Com effeito, reconhecemos na figura desgrenhada que viamos a bordo do rebocador Eva Smith, a amante de Manoel..., a apaixonadarapariga muito conhecida nos cafés cantantes de Nova-Orleans, cujo enthusiasmo pelo nosso companheiro tinha chegado a seu auge.E quando oBarrosodesappareceu na primeira curva do rio, ainda ouviamos, tomados de uma tristeza infinita, a mesma voz cheia de desespero, agora abafada pela distancia, soluçada e plangente:—Good bye, Manoel!Good bye!...E dizer que aDama das Cameliasé uma excepção na vida sentimental das filhas de Eva!...O nosso Armando, que aliás nunca pretendeu regenerar ninguem, deixou se cahir n'uma saudade profunda, n'um longo adormecimento d'alma, de que só accordou no alto mar, quando já não se avistava um ponto siquer da costa americana.XIAbençoada ilha de Cuba, direi muito pouco de teus aspectos, de teus costumes, de tua gente, de tua civilisação, mesmo porque a nossa demora em tua bizarra capital, foi curta como um sonho bom. Um epicurista diria que apenas tivemos tempo de mastigar umhavana, d'esses que fabrícas aos milheiros e que fazem a delicia dos consumidores do bom tabaco.Bellas cubanas d'olhos rasgados e sensuaes, acreditamos piamente nas coloridas descripções em que viajantes de todas as nacionalidades gabam as vossas preciosas qualidades physicas, os vossos olhos ardentes, os vossos cabellos negros, a vossa graça incomparavel e seductora... Nos oito curtos dias quepassámos em vossa patria não tivemos a felicidade, a gostosa satisfação de vos contemplar senão de relance, por um acaso verdadeiramente providencial.Dizem outros que sois bellas e irresistiveis, que dansais divinamente osalero, que possuís todos os encantos possiveis, e isto é quanto basta para que dispenseis o desmaiado elogio dos que não tiveram a fortuna de confabular comvosco.E o leitor, por sua vez, contente-se em saber que Havana, com suascallesirregulares, estreitas e pacatas, é uma pequena capital semcapitaes, sobriissima de diversões populares, quasi monotona, mas relativamente adiantada.Não se lhe póde negar certo progresso material e mesmo uma ponta de civilisação européa.Encontram-se nella importantes estabelecimentos commerciaes, grandes tabacarias que fornecem fumo e seus preparados a quasi todos os mercados do globo; excellentes botequins, poucos hoteis.O celebre professor Agassiz, no roteiro deuma de suas excursões á America, disse que toda a architectura brazileira épesada e sombria; eu accrescentarei que no mesmo genero são as edificações de Havana, o que não é para surprehender n'uma cidade antiga, onde se observa ainda o cunho tradicional da velha metropole hespanhola.Entre os monumentos archeologicos notámos a secular cathedral onde (refere a chronica) estão sepultados os ossos de Christovão Colombo.Vimos uma estatua—a de Izabel a Catholica, n'um grande largo que tem o nome da santa rainha.Particularidade interessante: a população dá a vida por gelados, em consequencia do calor excessivo e constante a que vive sujeita.Visitámos tambem (ia-me esquecendo) os aqueductos que fornecem agua á população da cidade. Todos elles vão despejar n'um immenso reservatorio de pedra inteiriça (como os nossos diques da ilha das Cobras), cavado no sólo, formando uma especie de tanque de grande capacidade para comportar muitos emuitos metros cubicos d'agua crystalina. O sitio onde se acha essa importante obra de engenharia, lembra, de relance, a Tijuca com as suas cascatas despejadas do alto de rochedos inaccessiveis, com a extrema frescura de suas montanhas verde-escuras, debaixo de um céo límpido e azul. É um dos melhores passeios de Havana. A viagem até ahi se faz em diligencias puxadas á mulas, arriscando-se otouristea chegar sem bofes ao fim da jornada longa e sem o attractivo das bellas paisagens claras do Brazil.O sol é ardentissimo em Cuba, e, entretanto, as diligencias partem da cidade pela manhã e chegam ás onze horas ao reservatorio, onde não se encontram hoteis nem botequins. Sua-se por todos os póros e, no fim de contas, volta-se fatigado, com a curiosidade satisfeita, mas o corpo moido.O Passeio Publico... Oh! não falemos de cousas tristes. Quem já viu o Passeio Publico da Bahia pode imaginar o de Havana: o mesmissimo cemiterio dezerto e sombrio, o mesmissimo abandono criminoso; arvores colossaes,meia duzia de castanheiros decrepitos, e um silencio, um silencio absoluto de arripiar cabellos. Aos domingos costuma ir chorar p'r'ali uma banda militar. Só então é que a gente se lembra que existe um Passeio Publico em Havana.La Havana, de resto, é o que se póde chamar uma cidade pacifica, socegada e sem attractivos. A impressão que ella deixa no espirito de quem a viu exteriormente é de uma velha capital decadente, muito cheia de sol e poeira.Mas, para que não fosse de todo ociosa e inutil a nossa visita á Cuba, aproveitámos o ensejo de ver uma de suas mais pittorescas e curiosas cidades—Matanzas, onde chegámos depois de algumas horas de viagem costeira. Ahi nos esperava o vice-consul do Brazil, excellente cavalheiro, cujo primeiro cuidado foi pôr á nossa disposição vinte e tantos carros de praça a fim de que não perdessemos opportunidade de contemplar o magestoso panorama do valle de Yumiri, um dos mais bellos do mundo, cerca de uma legua distante da cidade.—Os senhores vão vêr um bellissimo trecho da natureza americana, como talvez não haja igual no Brazil, preveniu-nos o consul. É uma maravilha!E lá fomos, subindo e descendo morros, completamente alheios á topographia do paiz, cheia d'altibaixos, lá fomos caminho de Monserrate, n'uma disparada unica por montes e valles, aos solavancos.Era quasi noite quando parou o ultimo carro, e corremos logo á tal «maravilha» que o diplomata recommendara.Aqui têm os aguarellistasmotivo sensacionalpara uma téla rembrannesca:Crepusculo... Céo pardo com uns tons de azinhavre muito vagos, aqui, ali, bordando nuvens... Embaixo a longa extensão concava do valle afundando-se como o leito de um grande mar, que tivesse desapparecido, verde escuro, indistincto quasi a essa hora do dia.Defronte, no segundo plano, a sombra opaca de uma cordilheira,—larga faixa de velludo cinzento—limita o scenario, confundindo-se com as tintas indecisas da planurasideral. E, sobre tudo isso, uma tristeza religiosa, um vago silencio de abysmo...Vê-se muito ao longe, de um lado da paísagem, rasgando o fundo nebuloso do quadro, uma nodoa escarlate, ao comprido, muito desenhada, muito escandalosamesmo emmeio de toda essa harmonia de côres esmaecidas...Ha muito que o sol tombou na sua eterna circumvolução diurna. A sombra que se alastra, a pleiada phosphorecente dos pyrilampos, o silencio absoluto que nos cerca—tudo inspira respeito: e a gente esquece preconceitos e doutrinas para, instinctamente, levantar uma prece á mysteriosa Força que rege o Universo...Existe no alto da montanha a modesta capella de N. S. de Monserrate, sempre aberta aos crentes, muito branca na sua despretenção de nicho d'aldeia, com a sua torresinha triangular onde vão fazer ninho, no inverno, as andorinhas do valle.Cahio de todo a noite, e, no silencio da estrada que descia em broncas sinuosidades, regressámos para o hotel, cujo salão príncipaltinha agora o aspecto sumptuoso (dados os devidos descontos...) d'um refeitorio de convento em dia de festa paschoal: meza lauta, vinte variedades de vinho excellentes e tudo mais que se faz mister n'um banquete finamente organisado á moderna.O resto é facil de imaginar: brindes, hurrahs, charutos finissimos... e um somno reparador obrigado a pezadelos...Na manhã seguinte acordámos para outro passeio não menos agradavel. Era preciso aproveitar o tempo do melhor modo possivel. Cometteriamos indisculpavel falta si não fossemos ver asCuevas de Bella-mar, essas caprichosas grutas subterraneas, verdadeiros palacios de crystal puríssimo, que se abrem terra dentro em toda a opulencia de suas maravilhosas stalagmites e stalactites. Era mais uma deliciosa surpreza que nos estava reservada. Ir á Matanzas e não ver asCuevasequivale a ir a Roma e não ver o Papa. Cumprimos o nosso dever de viajantes, que não se contentam com a vaidade infantil de pisar solo extrangeiro.Cuevas de Bella-mar... Entre os numerososphenomenos que a geologia registra muitos ha que ainda estão por ser lucidamente explicados, por sua propria natureza complexa e profundamente scientifica.No terreno da geologia subterranea, com especialidade, innumeros são os problemas a destrinçar, e um dos mais curiosos e interessantes é, sem duvida, a formação das cavernas, as excavações produzidas por agentes externos, pela infiltração natural da agua no solo calcareo, formando essas caprichosas pyramides de crystal, que a sciencia denominastalagmitesestatactites.AsCuevas de Bella-marformam um dos mais bellos panoramas que se podem imaginar.Figure-se um grande tunel aberto no subsolo e de cuja abobada pendem crystaes multiformes, cada qual o mais surprehendente, alguns de tamanho admiravel, emquanto do chão constantemente humido sobem outros de egual estructura, ponteagudos quasi sempre, formando, ás vezes, columnatas brilhantes,esplendidos capiteis, tão caprichosamente dispostos que dir-se-iam architectados por mãos humanas.A caverna prolonga-se a perder de vista, deslumbrante como um palacio encantado, á luz dos archotes, porque é impossivel percorrel-a sem luz, e a cada passo uma nova exclamação de surpreza irrompe da bocca do observador, espontanea e enthusiastica.É, com effeito, encantador o aspecto dasCuevas.A athmosphera é quasi insupportavel, apezar da humidade que se reflecte das paredes da gruta: um calor medonho de fornalha acceza!É expressamente prohibido tocar nos crystaes. Um guarda, empunhando um archote, acompanha o visitante, recommendando-lhe de espaço a espaço, todo cuidado, toda cautela para que não dê alguma cabeçada...Desta vez tinhamos sabido preencher o tempo utilmente, compensando as horas perdidas em Havana.N'esse mesmo dia oBarrosofez-se de marcha para opaiz dos yankees, para Nova-York, a bella e maravilhosa cidade que o consenso universal alcunhou de Londres americana.E... foi um dia a ilha de Cuba...XII...Manhã de inverno, fria e nebulosa, sem uma restea de luz confortavel. Estava interdicta a nossa curiosidade, pois que amanhecemos defronte da bahia de Hampton Road, a essa hora coberta de cerração, cheia de nevoeiro, impenetravel. Não podiamos, que pena! ver Nova-York de fóra, do mar, abrangel-a toda com um golpe de vista, stereotypal-a na imaginação para todo o resto da nossa vida. A grande cidade cosmopolita dos trens elevados e das pontes colossaes dormia o somno beatifico da madrugada, envolvida n'um largo capuz de neve atravéz do qual apenas se podia ouvir a sineta de invisiveis embarcações que bordejavam demandandoo porto. Adivinhavamos que muitos vapores transatlanticos aguardavam, como nós, o momento azado para fazerem sua entrada.Felizmente não durou muito esse estado quasi afflictivo. Por traz do nevoeiro compacto e lugubre os primeiros clarões da manhã surgiram como uma apparição bemdita, rompendo a monotonia branca da atmosphera, e pouco a pouco, á proporção que a neve ia se rarefazendo, oBarrosotomava chegada muito lento, e Nova-York destoucava-se n'um fundo luminoso, batida pelas primeiras irradiações do sol, ruidosa e alviçareira, toda cheia de brilhos, como um quadro de malacacheta.Onze horas. Céo limpo e mar chão—como se diz nos diarios nauticos. Nem mais um floco de neve, tudo luz agora, e já podemos ver cheios da mais intima satisfação, com uma surpreza ingenua no olhar, o aspecto risonho da bahia cortada de embarcações á vela e á vapor, com os seus longes de verdura matizando perfis de montanhas indistinctas, muito descoberta, sem o sombrio magestoso daspaisagens americanas do sul, bella na sua simplicidade natural, e, sobretudo, muito clara áquella hora.Á direita destacava, á bocca do Hudson, a grande, a enorme, a colossal ponte que liga Brooklin á Nova-York lembrando-nos que realmente tinhamos chegado outra vez á terra feliz dosyankees, e d'outro lado erguia-se,illuminando o mundo, a estatua da liberdade, bello symbolo de bronze, cujo pedestal occupa toda a ilha de Bedloe.Era um dia de domingo, um desses dias de expansão popular, em que, no mar como em terra, ha quasi sempre uma alegria nova entre os que passaram a semana a trabalhar, a lutar pela vida incansavelmente com a consciencia tranquilla de quem vive honestamente á custa do proprio esforço. A bahia de Nova-York tinha o festivo aspecto de um dia de regatas. Esquadrilhas de hiates, com suas velas quadrangulares, muito elegantes e asseiados, cruzavam na barra, aproveitando a fresca do mar. Passavam barcas de recreio, embandeiradas, conduzindo bandas de musica, que tocavamalegremente oYankee doodle. Á cerração matinal succedera um sol frio d'inverno, que dava vontade a gente improvisar pic-nics á beira-mar, fóra da cidade, longe dos botequins e dasbrasseries, nalgum verde recanto onde houvesse bastante quietação e muita agua, n'um logarejo calmo de suburbio d'onde se podesse ver ao longe, mas muito ao longe, a miniatura da cidade soturna e cansada...OBarrosotinha fundeado em frente á Battery Square e com pouco recebia a visita official do Consul brazileiro e d'outras autoridades do paiz, sendo para notar que uma das primeiras pessoas que pizaram a bordo foi o reporter doNew-York Herald, a importante folha americana tradicionalmente conhecida no mundo jornalistico. Um cavalheiroirreprochable, de cartola e sobrecasaca de panno, bem apessoado, bigode louro e olhos azues, verdadeiro typo deyankee, amavel e expansivo. É escusado dizer, n'um parenthesis, que no dia seguinte a kilometrica folha descrevia, com uma precisão photographica, o cruzador brazileiro, sem esquecer mesmo um carneirode estima que traziamos e que o espirituoso noticiarista incluia na lotação do navio, emprestando-lhe qualidades invejaveis. Creio até que o pobre lanigero figurou na folhayankeeentre os heróes de Humaytá!Satisfeitas asformalidades officiaes da chegada, trocadas as salvas do estylo, nada mais nos restava senão ver de perto a bella cidade.Nova-York estava quieta, muitissimo quieta, com as suas praças dezertas, com os seus parques silenciosos, fechado o commercio a ponto de não se encontrar aberta uma só tabacaria, siquer um botequim. Isso, porém, não nos causou estranheza. Sabiamos que o domingo nos Estados-Unidos é um dia completamente inutil, um dia triste para os centros populosos. Toda a gente dezerta para os arrabaldes em seus trajes domingueiros. As ruas, muito largas e compridas, permanecem ermas e cheias de silencio, entregues á vigilancia dospolicimen. Todas as casas commerciaes, todos os armazens, todas as fabricas, todos os estabelecimentos publicos conservam-se fechadose taciturnos, como n'uma cidade abandonada.Nova-York, a opulenta e alegre cidade cosmopolíta, tinha esguichado para New-Jersey, para Brooklin e para Conney-Island. Toda aquella multidão laboriosa e ourisedenta, que nos dias de trabalho se atropella na Broadway, bebia e cantava nos arrabaldes, expandia-se largamente nos hoteis ambulantes e nas cervejarias suburbanas, folgava e ria com desespero, sem pensar na segunda-feira, sem se inquietar com o futuro.Por isso é que não se deparava ninguem nas ruas, por isso não se ouvia o barulho infernal das carroças e das carruagens.O domingo no paiz dosyankeesé para se divertir, para se descansar, para se jogar ocriket, para se passeiar a cavallo, para se apostar regatas, de modo que o protestantismo americano nada tem de commum com o protestantismo britannico.Emquanto nos domingos (a dar credito na chronica) o inglez reza a Biblia no interior de seuhome, em companhia de sua mulher ede seus filhos, o americano, ou melhor oyankeeexercita os musculos e bebe cerveja fóra da cidade.Não admira semelhante discordancia, quando é sabido que a religião protestante subdivide-se em milhares de seitas. A este respeito leiam-se os bellos capitulos em que Mr. Laboulaye (Ed. Lefèvre), estuda, com uma graça especial e encantadora, cheia de humorismo e de senso critico, as instituições religiosas na America do Norte.Paris en Amériqueé um dos livros mais curiosos e originaes que eu tenho lido sobre os Estados-Unidos.Em taes condições, extrangeiros no meio de uma cidade dezerta, imagine-se o nosso embaraço, a triste situação em que nos collocava a curiosidade.Os rarissimos transeuntes que porventura encontravamos, marinheiros ou vagabundos que desciam para o caes da Battery, olhavam-nos com um ar de surpreza, embasbacados, medindo-nos d'alto a baixo, com si fossemos uns verdadeiros botocudos de tanga e cocar.Entretanto, não perdemos a precisa calma,e, sem mais tirte nem guarte, saltámos dentro do primeiro vehiculo que passava, uma velha carruagem de aluguel, cujo boleeiro custou devéras a comprehender que desejavamos fazer um passeio ao redor da cidade.—Oh! yess! Yess!...E disparou a trote largo por aquellas ruas fóra.De modo que n'esse dia vimos Nova-Yorkà vol d'oiseaue por um prisma de tristeza e monotonia.Em compensação a nossa demora n'aquella cidade ia ser mais longa que em qualquer dos outros portos do intinerario.No dia immediato, uma segunda-feira, recomeçámos, sem perda de tempo, a nossa tarefa de extrangeiros em paiz desconhecido.Eu, por mim, confesso que Nova-York produzia-me vertigens. O desejo immoderado de tudo vêr, de tudo observar, de tudo saber, trazia-me n'uma inquietação continua, tirava-me o somno, arrebatava-me á todas as commodidades, torturava-me o espirito de analyse. Uma cousa, porem, devo dizer: raroé o official de marinha, mormente da marinha brazileira, que sabe aproveitar o tempo n'essas viagens ao extrangeiro. Aproveitar o tempo, entendamo-nos, as horas de folga. Preferiamos a convivencia dos cafés-cantantes aos passeios uteis e ao mesmo tempo agradaveis. Um extrangeiro já teve a coragem de dizer que os officiaes de marinha brazíleiros levavam o tempo, na Europa, a frequentar osconventilhose os cafés-cantantes. Até certo ponto isso é verdade.Em geral elles pouco conhecem dos paizes que têm visitado, a não ser em assumptos de sua profissão, e as suas narrativas entre amigos limitam-se quasi sempre a recordações de aventuras amorosas.Tambem são tão curtas e tão raras essas viagens...Quando se tem a felicidade relativa de viajar sob o commando de um official illustrado e curioso como o Sr. Saldanha da Gama, cujos conhecimentos não se restringem á navegação e á artilharia, o aproveitamento é certo. Elle não é sómente um superior hierarchico—faz-semestre e sabe proporcionar aos seus subalternos a maior somma possivel de excursões uteis e proveitosas.Uma das nossas primeiras visitas foi á estatua da Liberdade, na ilha de Bedloe.O importante monumento ainda não estava completamente prompto, mas já se podia fazer uma idéa do que seria elle depois de concluido. O pedestal, de granito, occupa quasi toda a ilhota e mede, approximadamente, 15 a 20 metros de altura, 154 pés, desde oniveldo mar, formando uma especie de casamata cuja utilidade não souberam nos dizer. Sobre o pedestal ergue-se a estatua, em bronze, armada por meio de vigamentos de ferro, pois que não é inteiriça.Conta-se que dentro d'ella realisara-se, em Pariz, um magnifico banquete de 12 talheres, presidido por V. Hugo.Como se sabe, a estatua foi offerecida aos Estados-Unidos pela França em agradecimento dos serviços prestados por esta nação á sua amiga na guerra franco-prussiana.O pedestal foi mandado construir á custade subscripções populares, que em pouco tempo attingiram a uma somma elevadissima.Não ha por ahi quem não tenha ouvido falar na famosa ponte de Brooklin (Brooklin Bridge), uma das maravilhas da engenharia moderna, que liga a ilha de Brooklin á Nova York.Esta cidade, incontestavelmente o primeiro emporio commercial da America e uma das mais populosas do mundo, fica situada n'uma grande ilha formada por dois braços do rio Hudson. De um lado, á direita de quem olha para o mar, um dos deltas, o North River, separa-a de New-Jersey, e á esquerda o East River separa-a de Brooklin. A travessia para qualquer desses pontos faz-se rapidamente, em barcas que a todo instante largam de Nova-York, e por preço assaz diminuto.A principio, quando se projectou levantar a grande ponte, surgiram mil difficuldades.Parecia impossivel que se podesse levar a effeito obra tão arriscada e dispendiosa. Como assentar as bases do colosso n'uma profundidadede mil e seiscentos pés, que é esta a altura do rio na sua parte mais estreita?Demais era preciso não prejudicar a navegação, construindo a ponte muito acima do nivel do mar de modo a dar passagem livre ás embarcações de commercio.Com tudo isso os americanos metteram mãos á obra e dentro de alguns annos de trabalho assiduo os Estados-Unidos contavam mais uma gloria.O comprimento total d'essa magnifica ponte é de uma milha pouco mais ou menos. As torres onde ella está suspensa erguem-se a 268 pés acima da prêa-mar, de forma que as maiores embarcações de commercio têm passagem facil por baixo.OBarroso, cuja guinda era uma das mais altas que se tem visto em navio de guerra, apenas foi obrigado a «acachapar» os mastaréos de joanetes.Atravessa-se a ponte em vagons movidos á electricidade, em carros de praça ou mesmo a pé. Paga-se um centimo para atravessal-a a pé!O movimento é espantoso. Cruzam-se diariamente as duas populações de Nova-York e de Brooklin, em carros em wagons e a pé, sem risco de se atropellar, por que a cada especie de vehiculos corresponde uma passagem independente e adequada. Os que transitam á pé têm tambem o seu caminho livre e, por consequencia, não correm o perigo de ser pisados pelos carros.Á noite o aspecto da ponte é feerico. Logo ás seis horas da tarde começa a illuminação em toda ella, de um lado e d'outro, destacando-se em alguns pontos fócos de luz electrica, enormes botões de brilhante que encandeiam a vista.Vista do mar, então, o effeito é deslumbrante! Lembra as lendarias pontes de Veneza cortando canaes, projectando n'agua seus reflexos luminosos.Um dos meus divertimentos predilectos era contemplar Nova-York do alto. Muitas vezes punha-me lá de cima da ponte de Brooklin, braços cruzados, n'um extase de fetiche, a olhar para um e outro lado, acompanhandocom a vista a vela das embarcações que singravam no rio, pequeninos, microscopicas.E punha-me, nessa embriaguez do grandioso a pensar no progresso dos Estados-Unidos, d'esse paiz modelo, onde tudo move-se por meio de electricidade e vapor, onde tudo é feito ás carreiras, n'um abrir e fechar d'olhos, sem a menor perda de tempo; vinham-me a imaginação escandecida as descobertas de Franklin, de Fulton e de Edison, as maravilhosas experiencias sobre o telegrapho, sobre o telephone e sobre o phonographo, e eu repetia com os meus botões, mergulhando o olhar na distancia, abarcando a cidade inteira:—Grande paiz! Grande povo, gente feliz, que sabe comprehender a vida e amar a patria!Como era pequeno o meu paiz, com toda a grandeza de suas montanhas e de seus rios, diante do colosso americano do norte!Cahia-me n'alma uma tristeza de desterrado, uma profunda e incomprehensivel melancolia, feita ao mesmo tempo de saudade e descrença...Incansaveis os americanos! Nenhum povo os excede em temeridade e perseverança. Sequiosos de glorias para o seu paiz, ávidos de emprehendimentos que causem assombro ao mundo, elles tem uma grande qualidade—o amor á sua terra, o nativismo instinctivo, ochauvinismo(deixem passar o termo) incondicional, absoluto, e é força confessar que, sem essa qualidade, sem esse egoismo patriotico, as nações vivem, mas não progridem.Ainda ultimamente a camara do Estado de Nova-York approvou, por unanimidade, obillque propoz a construcção de uma nova ponte de ferro sobre o East River, passando sobre a ilha de Blackorel, que ligue Nova-York á Long-Island, e que terá seis mil metros de comprimento e 46 de altura, com uma resistencia de 65 kilometros de velocidade para os trens que a devem atravessar.É o caso de dizer, parodiando o outro: si eu não fosse brazileiro, desejaria ser americano do norte...XIIINunca fui a Londres, apezar do grande e impaciente desejo que tenho de visitar a sombria capital britannica, mas estou bem certo de que Nova-York em muitos respeitos pode ser denominada a Londres americana.Toda nova, toda alegre e pittoresca, sem os bairros immundos que o Tamisa lambe com as suas aguas putridas, onde boiam cadaveres em decomposição, illuminada por um sol que dá vida e confórta, a nova Londres tem um cunho especial de cidade latina. Como em Londres, tudo n'ella é grandioso e opulento, desde a edificação igual, solida e elegante, até ás festividades publicas e ás instituições nacionaes.As ruas, longas e direitas, cruzam-se geometricamente e distinguem-se pela numeração (Fourteen street,Fifteen streetetc).A Broadway é o centro commercial, a rua de maior movimento quotidiano,—equivale á City de Londres.Ahi é que os carros se atropellam, que os transeuntes se abalroam n'uma confusão burlesca e indescriptivel de que a nossa rua do Ouvidor não dá siquer a menor idéa. Negociantes, capitalistas, banqueiros, correctores, operarios e vagabundos, acotovelam-se, empurram-se, pisam-se os callos e vão seguindo adiante, sem olhar p'ra traz, carregados de embrulhos, suando no verão, que costuma ser muito forte em Nova-York. A gente vê-se abarbada para romper aquella multidão cerrada, compacta e egoista.Um cosmopolitismo sem igual em parte alguma.Americanos, inglezes, hespanhoes, francezes, italianos, allemães, gente de todas as nacionalidades, até turcos com os seus costumes exquisitos, confundem-se nas ruas de NovaYork, enchendo-as em ondas successivas e tumultuosas, como em dias de carnaval no Rio. Parece mesmo, á primeira vista, que o elemento extrangeiro absorve o nacional, tão numeroso é aquelle. Custa, porém, a encontrar-se um portuguez ou um brazileiro. Em compensação a raça latina é abundantemente representada por hespanhoes da Europa e da America. Os mexicanos, apezar da natural e occulta ogerisa que têm aos americanos dos Estados-Unidos, encontram-se a cada passo e distinguem-se logo pelo seu typo original: estatura média, rosto anguloso e abolachado, moreno, cabello duro, olhos pequenos; amaveis. Não perdem occasião de dizer mal dos americanos, que, entretanto, dedicam-lhes uma affeição especial.Uma das cousas mais curiosas de Nova-York são os trens elevados (elevated rail road), a complicada rêde de linhas ferreas que rodeia a cidade passando em muitos pontos por cima da casaria, atravessando ruas inteiras sobre grandes columnas resistentes de ferro. Partem todas da Battrey Square, pontomais meridional da ilha de Manhattan (onde fica a cidade) e vão terminar na sua extremidade septentrional, em Barlem River. Segundo o relatorio apresentado pelaNew-York Elevated, o numero de viajantes transportados em 1878 por essa linha foi de 107.079.625. (Sempre a estatistica como base fundamental do progresso entre os americanos!). A linha inteira, que tem seguramente trinta milhas, estava concluida até Harlem. Os moradores das margens d'essas estradas de ferro aereas queixavam-se continuamente da visinhança.Podéra! Ruido, fumo e fagulhas a toda hora sobre a cabeça, não são cousas que agradem a ninguem. A pobre gente fica em risco de perder o juizo, pois não!Felizmente, o que aliás é muito admiravel, os desastres reproduzem-se rarissimas vezes. É que o serviço faz-se com inexcedivel perfeição e as posturas municipaes verificam-se enexoravelmente.As estações são numeradas, como as ruas:Primeira Estação,Segunda Estação, etc.Os passageiros desembarcam em plataformasde ferro gradeadas, que communicam com as estações.O espirito inventivo dos americanos revela-se a cada passo nas grandes cidades dos Estados-Unidos. Em todos os estabelecimentos, em todos os ramos da actividade publica se encontra uma applicação nova de mecanica industrial, um artificio de utilidade pratica, economico e curioso, uma invenção engenhosa...Aproveitar o tempo e economisar osdollars—tal é o principio fundamental da sabedoriayankee.Um domingo em Coney-Island: nada mais pittoresco e hilariante, nada mais suggestivo...Coney-Island aos domingos é para os americanos o que o Bois é para os francezes e Hyde Park é para os inglezes—um interessantissimo microcosmo de incrivel bizarraria, cheio do vago rumor de uma multidão que passeia, que canta, que ri e que bebe ao ar livre, n'umpêle-mêlevertiginoso, com as suastoilettesclaras, com o seu bello ar despretencioso, com os seus gestos largos de quem respira uma atmosphera leve e pura.Essa pequena ilha constitue a principal diversão domingueira dos habitantes de Nova York.Familias inteiras, burguezes de todas as castas,cocottes, affluem para ali n'esses dias. Pela manhã, cedo, largam da Fulton Station grandes barcas embandeiradas conduzindo musicas, cheias de passageiros. Muita gente prefere ir por terra, em trens que partem deBrooklin.Não ha logar para todos nos hoteis. Improvisam-sepic-nicsdefronte do mar, na beira da praia, formam-se pagodeiras, e muitas pessoas ha que não se lembram de comer—preferem a cerveja, obocka qualquer especie de alimento solido.Vimos dois grandes hoteis—oGreat Hotele oGigantic Elephant.Aquelle é um magnifico estabelecimento, todo construido de madeira de lei sobre enorme plataforma que se move em trilhosproprios. Novo genero de hoteis até então desconhecido para nós. N'um dado momento podem ser conduzidos, como qualquertramwayd'um logar para outro.OGigantic Elephant (the monarch of the architectural world, como lá dizem...) mede 175 pés inglezes de altura, é dividido em 31 compartimentos, ventilados por 63 janellas, e illuminado, á noite, por 25 fócos de luz electrica. Figura um elephante colossal, de madeira, em pé, no meio de um jardim. Em cima, no dorso do monstro, existe um terraço d'onde se descortina uma esplendida paisagem rasa e calma.Quer n'um, quer n'outro, opromeneurencontra abundante variedade de petiscos e bebidas.As creanças, com especialidade, fazem de Coney-Island um céo aberto. Ellas, sim, não perdem os cavallinhos que andam á roda ao som de um classico realejo seboso, os passeios aereos, na ponte russa, nas barquinhas, nos trens elevados...Por toda a parte musica, realejos, pregoeiros decousas maravilhosas, gritos, gargalhadas...Tiram-se retratos instantaneos, apostam-se corridas, sobem-se elevadores de duzentos metros acima do solo, pesca-se, alugam-se cavallos de passeio... Emfim, Coney-Island é uma miniatura da vida tumultuosa das grandes cidades.O pobre diabo que não fôr esperto e economico arisca-se a voltar com as algibeiras cheias de vento...Á noite enchem-se novamente os trens e as barcas. Em uns e outros a algazarra torna-se insupportavel. Canta-se aMarselhezaem vozes detestaveis, grita-se, bate-se com a ponteira da bengala no chão, assovia-se, imitam-se animaes de toda a especie... Uma loucura!Entretanto, abençoado paiz! em todas essas pagoderias não se distingue siquer um bonné policial. Não ha conflictos, nem desastres.Tudo corre na maior harmonia, sem intervenção da guarda civica. Ospolicemenpodemcochilar á vontade: a população americana é naturalmente pacata e respeitadora da ordem.Coney-Island é o complemento necessario e indispensavel de Nova-York.Pelo verão reunem-se ali cerca de 5.000 pessoas, segundo o calculo approximado do consul brasileiro.Dias depois da nossa chegada, oBarrosoentrou para o dique de Brooklin, a fim de soffrer alguns reparos no casco.Emquanto isto se dava, emquanto a guarnição occupava-se da limpeza externa do cruzador, com o cuidado, com o desvelo e com o carinho mesmo de amigos dedicados, iamos visitando outras cidades americanas, ligeiramente, de relance.Não nos foi dado, porem, diga-se em parenthesis, ver o mais grandioso espectaculo dos Estados-Unidos—a celebre cascata do Niagara, que Chateaubriand pinta com as maravilhosas côres de sua palheta de artista inimitavel.Não tivemos mesmo a felicidade de verWashington, a bonita capital americana, e tão pouco o presidente Cleveland.Esse previlegio coube quasi que exclusivamente ao ex-principe D. Augusto, que aliás não revelou grande admiração pela Niagara, nem pelo presidente Cleveland.Sua Alteza não era para que digamos muito amigo da natureza, e menos aínda de personagens illustres.Quanto a mim continuei a ver a famosa cascata por um oculo, nos livros do poeta, e o Sr. Cleveland, vi-o casualmente noDaily News, no acto do seu casamento realisado a esse tempo. Pareceu-me um bello typo deyankee: cheio de corpo, cabello penteado p'ra traz, olhar firme, bigode grosso...Assim, contentámo-nos com visitar algumas cidades de importancia e tão depressa que era impossivel apanhar com precisão todos os caracteres por meio dos quaes se pode apreciar a vida de uma população.Vejamos:Baltimore—Cídade aristocratica, pequena, mas extremamente bella na simplicidade,no gosto sobrio de sua edificação, muito asseiada, muito clara, semelhando toda ella, no seu conjuncto gracioso, uma confortavel habitação de outomno, fresca e risonha, boa para se gozar o socego de uma villegiatura sem preoccupaçães mercantis e utilitarias.A gente de Baltimore parece viver uma vida tranquilla e descuidada no calmo interior de seuhome, longe da mentira social, longe de todo o ruido, beatificamente, n'uma paz invejavel, respirando uma atmosphera livre do microbio daminho das civilisações tumultuosas.Baltimore é uma cidade por excellencia aristocratica e hygienica, onde os temperamentos requintadamente pacificos encontrariam o desejado repouso trespassado da incomparavel doçura de um clima raro.Na melhor de suas praças e no mais elevado de seus pontos ergue-se a estatua em marmore do grande Washington, geralmente considerada «um dos mais interessantes monumentos da America» e inaugurada em 1809. Mede 60 pés quadrados na base e 15de altura. Sobre opedestalfoi levantada uma elegante columna dorica de 20 pés de diametro na base e 15 no cimo, onde branqueja a estatua do primeiro presidente dos Estados-Unidos, representando-o no momento de renunciar a sua commissão de general em chefe dos exercitos de seu paiz.Para subir até essa galeria fui obrigado a vencer duzentos degráos (contados) de uma estreita escadaria de pedra, em espiral. De cima vê-se, a olho nú, todo o panorama, realmente bello, da cidade, que lembra uma d'essas paisagens hollandezas, muito claras e suggestivas, taes como descreve Ramalho Ortigão, e onde destacam, n'um fundo de aguarella, linhas de arvoredo e reverberos d'agua parada...Ouvi dizer algures que as mulheres mais bonítas dos Estados-Unidos são as de Baltimore. Durante as poucas horas que ahi nos demorámos vimos alguns rostos femininos na verdade encantadores. É possivel que vissemos com olhos protectores de hospedes em Ouvi dizer algures que as mulheres mais bonítas dos Estados-Unidos são as de Baltimore. Durante as poucas horas que ahi nos demorámos vimos alguns rostos femininos na verdade encantadores. É possivel que vissemos com olhos protectores de hospedes em terra estranha...Era nosso consul n'aquella cidade Fontoura Xavier, o conhecido autor dasOpalas, bom poeta e pessimo republicano, que se apressou em nos proporcionar todas as commodidades possiveis, franqueando-nos os quartos e os salões do melhor hotel do logar. Fez mais: offereceu gentilmente á officialidade brazileira um delicadissimo almoço ao qual compareceram diversos estudantes nossos patricios.Guardamos bellas recordações de Baltimore.Philadelphia—Grande centro de industria e commercio. Altas chaminés caracteristicas. Céo encoberto de fumaça, pesado e lugubre a certas horas do dia. Aqueductos, casas colossaes, ruas largas e atulhadas de barricas e caixotes. Continuo movimento de carros e tramways. Immensa e grandiosa, a cidade vista de qualquer ponto elevado. A lembrança que fica é a de um grande edificio em construcção, cheio de rumor de machinas e de operarios em actividade permanente.—JardimZoologico.—Universidade importantissima, onde vão estudar moços de todas as nacionalidades.—City Hall, edificio monumental, vasto e muito alto, onde funccionam as repartições publicas: dizem ser o maior dos Estados-Unidos.Não ha tempo a perder. Temos apenas trez horas a nossa disposição, pois que o trem deve partir para Annapolis ás cinco da tarde e já são duas...Leio na taboleta de um bond:Zoological Garden... Oh! sim, vamos ao Jardim Zoologico, a mais completa collecção de animaes, que já se conseguiu formar. O meu companheiro, que conhece o Jardim Zoologico de Londres e o de Philadelphia, opta por este. Vejo, de passagem ruas bellissimas, esplendidas filas de casas luxuosas, magnificos jardins particulares, templos em estylo gothico; descampados...Mas, a viagem é longa, o tempo escorre sem a gente perceber, e é preciso contar com a volta, a fim de apanhar o trem.Trabalho perdido! Voltámos no mesmobonde, sem ter visto o appetecido Jardim... Zoologico.Mal tivemos tempo de chegar, embarafustar por entre os passageiros que se accumulavam nagare, e saltar para dentro do vagon.E eu fiz o resto da viagem pensando no assombroso progresso d'aquella cidade enorme, que ainda em 1791 não era mais que uma simples colonia a respeito da qual Chateaubriand exprimia-se d'este modo:—L'aspect de Philadelphie est froid et monotone...Não foi preciso mais de um seculo para que os americanos fizessem d'ella uma das principaes cidades industriaes do mundo.Em Philadelphia tive occasião de ver, pela primeira vez, bondes electricos funccionando com a maxima regularidade.O que será a grande cidade americana d'aqui a cem annos?XIVAbramos capitulo especial para Annapolis, não que esta cidade, a mais antiga dos Estados-Unidos, mereça-nos mais que qualquer das outras, absolutamente não, mas por uma deferencia bem entendida, por um recolhido sentimento de gratidão para com a joven officialidade da marinha norte-americana, que ali recebeu as primeiras lições de disciplina militar e dever civico, e que soube nos acolher em seu seio como verdadeiros irmãos de armas que eramos.A nossa visita coincidía com a festa de formatura dos guardas-marinha, uma das bellas solemnidades annuaes dos Estados-Unidos á qual concorrem centenas de pessoas damais elevada sociedade—a fina flor da aristocracia d'aquelle paiz—movidas pelo nobre enthusiasmo de apertar a mão á mocidade que se despede da escola para entregar-se ás duras lidas do mar.Antes, porem, de dizer o que foi essa festa descrevamos, rapidamente, a cidade.Annapolis é como uma nota dissonante na civilisação americana. Imagine-se um quilombo africano, uma grande aldeia cortada de ruas desiguaes, estreitas e desalinhadas, com um aspecto sombrio e detestavel de velho burgo colonial, onde se move uma população na maior parte negra e atrazadissima—e ter-se-ha essa antithese da cidade moderna. Bridgetown, a capital de Barbados, avantaja-se-lhe mil vezes com toda sua poeira, com toda a imprudencia e mizeria de sua baixa população.Vê-se que os americanos têm-lhe certo respeito e conservam-na esquecida e retrograda por uma especie de devoção archeologica, sacrificando por esse modo o seu bom gosto caracteristico e o seu tradicional amor ao progresso.Insipida, monotona e triste como um cemiterio de pagãos—Annapolis é um protesto, um anathema contra a evolução natural das cousas, uma nodoa antipathica em pleno mappa da Confederação americana. Nada ha ali que interesse e desperte a curiosidade senão a Escola Naval (Naval Academy) situada n'uma das extremidades da cidade, á beira-mar.De anno em anno enche-se de povo; seu unico hotel, um pardieiro, extravasa, e então sente-se um fremito de vida nova percorrer aquellas ruas habitualmente socegadas e tristes. Passeiam bandas de musica, fluctuam bandeiras na frontaria das casas, por toda a parte ouve-se uma vozeria estranha de gente que bebe e canta nos cafés (arremedo de cafés) e todas as janellas abrem-se como para receber o desinfectante da alegria, importado das grandes cidades circumvisinhas.Annapolis accorda, então, de seu pesado somno tumbal para saudar os estudantes que saem da academia para a vida publica.O grande acto, a que assistimos, da distribuiçãode titulos, realisou-se n'um dos vastos salões da Escola, presente numerosissimo auditorio: familias em grandes trajos de luxo, altos funccionarios, estudantes...Ao receberem seus diplomas os noveis officiaes de marinha foram vivamente applaudidos pelos seus companheiros, cahindo sobre elles uma chuva imprevista de flores, no meio de palmas e gritos de enthusiasmo. E, começaram os abraços, as felicitações, os conselhos e as lagrimas de commoção...Abrem-se de par em par as portas do estabelecimento e a multidão de espectadores precipita-se por todos os lados, feliz, alegre, desafogada como si acabasse de assistir a uma festa de amor e justiça.Ainda não estava concluido o programma.Em seguida á solemnidade official,—a festa intima, a festa de despedida que osnaval cadets(aspirantes) offereciam aos seus companheiros.Noite clara e constellada. O largo edificio da Escola de Marinha regorgita de convidados que se cruzam em todos os sentidos nosalão do baile, nos corredores, nosbouffets, nas ante-salas...Nota-se em todas as caras certo ar de intimidade, certo bem estar flagrante, um quer que é communicativo e bom.Uma ou outra casaca solitaria, destoando da linha geral dastoiletteslargas e frescas. Observo curiosamente o apuro de um official japonez que franze as sobrancelhas n'um gesto de enfado.—Por que será?... Julgo de mim para mim que o pobre camarada não se sente á vontade dentro de suas calças de panno com largos galões dourados. A casaca o incommóda visivelmente. O chapéo armado, elle já não sabe como o tenha—si na mão, si debaixo do braço ou mesmo si na cabeça...Desabotoam-se risos gentis em boccas purpurinas. Derramam-se essencias preciosas no ambiente luminoso. Conversa-se alto. Bellasmissde face escarlate abanam-se com os leques de ricas plumas de edredon. Os leques e as joias são as unicas riquezas que conduzem n'um contraste frizante com os vestidos leves e claros.Em um dos lados do enorme quadrilatero, onde reluziam panoplias arranjadas á capricho, estava levantado um pavilhão de aspecto risonho, em cujo frontespicio destacavam em letras de luz