I

IEramos dez, e tinhamos combinado, por desfastio, ir a Cintra, na primavera, ouvir os rouxinoes.Parecerá menos inverosimil este pretexto, quando se disser que todos, então reunidos em Lisboa, haviamos nascido na provincia, onde as volatas dos rouxinoes dulcificaram as nossas primeiras noites de amor, e que o mais velho de nós tinha trinta e sete annos apenas.Ainda assim, como prova involuntaria de que o melhor da nossa vida era já então o passado, não foi approvado o projecto sem uma correcção prosaica. Sim, iriamos ouvir os rouxinoes a Cintra, visto que elles não costumavam fazer-se ouvir nas ruas de Lisboa, mas temperariamos esse devaneio romantico com as queijadas da Sapa, as laranjas do visconde da Arriaga, e oCollaresdo conselheiro Francisco Costa.{6}Como o mais novo de todos era o Gonçallinho Jervis, em cujo espirito bailavam ainda pagens e castellãs n'uma chorea medieval, e em cujo coração ardiam fogos de poetico platonismo, mettemol-o á galhofa convidando-o a procurar na serra de Cintra um cabello da barba que Bernardim Ribeiro haveria arrepellado ao vêr partir a frota com a infanta D. Beatriz.Para falar verdade, nenhum de nós tinha grande confiança na realisação de tão extravagante projecto, mas sobejou-nos motivo para o applaudir, porque durante mais de dois mezes nos forneceu alegrissimo assumpto sempre que nos juntavamos todos ou pelo menos alguns.Deviamos partir em abril, segundo o programma primitivamente approvado em assembléa geral. Não fomos, e acreditavamos já que não iriamos, quando uma noite, noMartinho, resolvemos partir a 20 de maio.O Vasconcellos, muito habituado a viajatas, ficou encarregado de alugar ochar-à-bancs, e elle proprio me disse á puridade que tal não faria senão á ultima hora, porque duvidava que se realisasse uma excursão dependente do accordo de dez pessoas, todas ellas mais ou menos atarefadas.Como se tratava, porém, de um divertimento, de umapartie de plaisir, como lhe chamava o Leotte, aconteceu que, á hora marcada, apenas faltou um, o Callixto, cuja falta, aliás, foi tida como de bom agouro, visto chamar-se elle Callixto.{7}Tivemos que esperar á porta do Passeio Publico, que era o ponto de reunião,rendes-vousdizia o Leotte, que o Vasconcellos fosse alugar ochar-à-bancs, sendo entretanto votada uma moção de censura a este nosso amigo pela falta de confiança que a communidade lhe inspirava. Eu, por estar na posse do segredo, abstive-me de votar. Um Catão!Partimos. Aquillo foi como se todos atirassemos canseiras e trabalhos para traz das costas. Os palacios do Passeio Publico estremeceram nos alicerces, sacudidos por um tufão de alegria. A passarinhada fugiu das arvores precipitadamente, como se ouvisse troar uma peça de campanha. A policia não estava accordada ainda; se fosse um pouco mais tarde, deitava-nos a mão. E affirmava o Vasconcellos que tinha visto as figuras do Tejo e Douro dizerem-nos adeus de dentro do Passeio, muito rapioqueiras.—Nunca, dizia o Leotte, nunca se fez umapartie de plaisirtão honesta. Nove homens... apenas!—Querias mais! replicava o Vasconcellos fazendo-se desentendido. Não cabiam cá. Olha o pobre Gonçallinho, o nosso doce pagem, que teve de ir na almofada ao pé do cocheiro. Onde querias tu metter mais gente, ó Gonçallinho?!—Que é lá? respondia elle do alto da almofada.—Vaes a fazer versos?—Ainda não. Mas já planeei um conto. Este ar de primavera é deliciosamente suggestivo. Vocês{8}verão que a minha ideia não é de todo má. Chamar-se-haA primeira entrevista.—Has de contal-a em Cintra, gritei eu.—Pois sim, respondeu o Gonçallinho, morto, como todos os novatos, por divulgar as suas composições.—Em Cintra, alvitrou o Vasconcellos, sempre o mais auctoritario de todos, cada um de nós ha de contar á noite uma historia. Vá feito?—Menos eu, protestou o Athayde, que era empregado na Junta de Credito Publico. Eu só estou habituado a contar...contos de réis.—Isso é modestia. Não péga.—Has de contar, intimou o Leotte, aquelle caso do principe das Caldas de Vizella, que uma noite te ouvi no Gremio.—Ah! esse era o principe Piratinino.—Não é um conto...de réis; mas é um conto de principe. Bem, já temos dois contos, disse eu.—E tu, propoz o Athayde, dirigindo-se a mim, tu, que andas sempre com as mãos na massa, é que has de abrir o torneio.—Pois seja, com a condição de que onde se lêmassase leiamaçada.—Leia-se lá o que tu quizeres. Mas olhem vocês, observou o Vasconcellos, que é preciso matar de algum modo as noites de Cintra, que são tão grandes como as de Lamego. Em Cintra só devia haver dia. As noites são frias e humidas. Vocês o sentirão.{9}—Queres então ouvir rouxinoes ao meio dia?—Os rouxinoes são o menos...—Pois não viemos nós para os ouvir?—Nós viemos para gosar a liberdade que não temos habitualmente, e a alegria que principia talvez a fugir-nos. Viemos tomar um banho de oxygeneo. Elle é bem mau!—Que vão vocês a dizer? perguntou da almofada o Gonçallinho.—Foi o Vasconcellos que fez uma proposta para supprimirmos do nosso programma os rouxinoes.—Não! nunca! protestou o Gonçallinho. De mais a mais tem vindo a dizer-me o cocheiro que os rouxinoes são aos centos na varzea de Collares.—Tudo se póde conciliar, sentenciou o Vasconcellos. Ouviremos os rouxinoes e os contos. Mas vamos ao lado pratico do assumpto. Quantos dias se querem vocês demorar?—Eu, cinco dias, o maximo.—E eu.—Vá lá, e é de mais.—Oh! incomprehensivel alma portugueza! exclamei eu. Já estragamos a nossa alegria. Ainda não chegámos, e já tratamos do regresso! Se aqui fossem nove francezes...—Ou quatro portuguezes e cinco francezas... reticenciou o Leotte, sempre propenso ao eterno thema feminino. Lembrem-se vocês da historia do nosso amigo conde, quando esteve nos Pyreneos. Ao menos lá não lhe faltavam mulheres!{10}—É verdade! ó Leotte, tu has de contar a historia do conde. Tem graça! já t'a ouvi uma vez.—Vamos ao lado pratico, insistiu o Vasconcellos. Almôço, a que horas?—Ás onze.—E jantar?—Jantar ás seis.—É melhor ás sete.—Tratem vocês de fazer as noites pequenas. Olhem que são o peor que ha em Cintra.—Jantaremos então ás sete.—Isso é melhor. E de dia ou á noite, sentados em Collares, em Seteais ou nas cadeiras doVictoriremos contando o nossoDecameron, respirando um bom ar, e um pouco de alegria, pelo menos...ODecameron! exclamou o Leotte. Sabem acaso vocês que os fugitivos dapeste negrade Florença eram sete mulheres e tres homens? Isso comprehende-se.—Ó diabo! cala-te lá com essa chorata pelas mulheres! replicou o Vasconcellos. Póde ser que o acaso te depare em Cintra alguma boa fortuna.—N'este tempo! objectou, desconsolado, o Leotte. Se fosse no verão!—O verão tambem tem seus inconvenientes. Ha mais espiões, mais fiscaes da moralidade publica. Leve o diabo tristezas. Toca a divertir, rapazes.—Olhem lá! gritou o Gonçallinho.{11}—Que é?—Parece-me que já architectei outro conto.—O que é então?—A morte do bibliophilo.—Vejam vocês, disse o Vasconcellos, o que são os poetas portuguezes. Vae aqui um rapaz, na flôr dos annos, cheio de imaginação, em caminho de Cintra, a pensar na morte da bezerra ou do bibliophilo, que o leve!Rimos todos. E o proprio Gonçallinho, que ouviu o reparo, desatou a rir na almofada.Quando apeamos á porta doVictor, estavamos mais ou menos acabrunhados pela fome.—Por S. Thiago, e aos bifes! berrou o Vasconcellos.E o Victor, muito mesureiro, muito amavel:—Elles hão de estar menos maus.{12}{13}IIO almôço foi uma devastação, uma hecatombe.Dizia o Vasconcellos que assim era preciso, visto que só se tornava a almoçar... no outro dia.Quando saímos do hotel eram quasi tres horas. O que se faria? Por onde se começaria? Os fumos capitosos do almôço accenderam brios quixotescos no espirito da maioria dos nove. A burro e á Pena! era o grito do Vasconcellos, reforçado por mais cinco ou seis vozes.—Mas isso é a semsaboria de toda a gente! disse o Gonçallinho.—Ó meu tolo! replicou com vivacidade o Vasconcellos. Querias talvez fazer versos com o estomago cheio de biffes! A burro e á Pena! insistiu.Os burriqueiros, que nos tinham feito um verdadeiro{14}cêrco, largaram a correr para ir buscar os burros.Emquanto esperavamos, dizia-me em tom de confidencia o Leotte:—Já perguntei noVictor, e não ha lá hospeda nenhuma. Mas ha criadas, ao menos.E d'ahi a pouco dizia-me o Gonçallinho, tambem em tom de confidencia, muito contemplativo, olhando para o castello da Pena e para o arvoredo da encosta:—Como isto é bello!A burricada á Pena foi, como sempre acontece, uma esturdia hilariante, cheia de episodios comicos. Quando o burro não caía, caía o cavalleiro; e as mais das vezes caíam ambos.N'essa folia, que teve muito de carnavalesca, o tempo fugiu despercebido, as horas voaram. Ao fim da tarde, mergulhados n'um verdadeiro banho de aromas primaveris, estavamos nós sentados junto aoChalet de Madame, quando o Vasconcellos alvitrou auctoritariamente:—Agora, sim senhor. Agora é occasião propicia de darmos principio ao nossoDecameron. Tem a palavra o sr. Fulano, como se combinou.Era eu. Pois não houve meio de resistir.—Ora então, senhores e...—Senhoras não ha infelizmente! exclamou o Leotte.—Peço attenção, que eu principio.E principiei.{15}—O morgado de Muxagata, ou simplesmente oMuxagata, como elle era conhecido ha vinte annos no Porto, tinha solar a onze leguas de Lamego, na aldea d'aquelle nome.Por setembro apparecia na Foz do Douro com uma coudelaria inteira, que lhe permittia variar de cavallo seis vezes por dia. Gostava d'isso, e lisonjeava-se de que as mulheres viessem á janella alarmadas pelo tinido aspero das ferraduras nos burgaus da rua Direita e de Cima-de-Villa.Era, de resto, um typo de classe, porque nas praias de Portugal não se perdeu ainda o molde do morgado de provincia com manhas de picador e boleeiro.Ha sempre um para amostra.Todos os dias ia banhar os cavallos á praia dos Inglezes, que era a menos frequentada. Gastava duas horas n'esse trabalho, e elle proprio era o banheiro dos seus animaes que, á força de acicates, acabavam por investir com a onda.O Muxagata encharcava-se dez vezes em cada manhã desde os pés até aos hombros.Sentia-se satisfeito com essa maçada quotidiana, que sempre attraía alguns espectadores. E todo o seu orgulho consistia em saber-se nomeado como o melhor pé de estribo e a melhor mão de rédea que ginetava na Foz.Eu vi-o pela primeira vez na rua Direita, n'um predio fronteiro á rua Bella.{16}Morava eu ali perto. Sabia-se que vinha para aquella casa o Muxagata, e um bello dia começaram a chegar criados e cavallos. No outro dio chegaram cavallos e criados. No terceiro dia chegaram criados, cavallos, e palha.Ao quarto dia correu voz de que chegaria o morgado.Os criados e criadas, todos elles atexugados de bom presunto da Gralheira, fizeram o jantar para s. ex.ªMas s. ex.ª não chegou.No dia seguinte fez-se novo jantar para s. ex.ªE s. ex.ª não chegou ainda n'esse dia.O grande Muxagata principiava a ser um mytho para muitos banhistas da rua Direita e travessas affluentes.Chega o Muxagata! Não chega o Muxagata! Á noite, os criados, vendo que o patrão já não chegava n'esse dia, comiam o jantar que estava preparado para elle.Passou assim uma semana.Na segunda-feira seguinte sentiu-se ruido á porta do Muxagata. Foi muita gente ás janellas. Não era elle, mas um novo cavallo que chegava. Uma belleza de estampa, que os criados estavam admirando em circulo á porta da cocheira. Soube-se a historia do animal. Muxagata já estava no Porto, e havia comprado aquelle bello exemplarpur sangao Côrte Real de Traz da Sé por tresentas libras.{17}Finalmente, á noite, chegou o Muxagata com o Henrique da Perzigueda e outros amigos. Vinham a pé, todos de esporas e chicote. E antes de subir, foram á cocheira examinar os cavallos.Vi o Muxagata. Era alto, forte, moreno: farto bigode preto, e pera. Foram jantar. O Ricardo Brown, o Côrte-Real e outrossportmencaíram logo lá. Depois do jantar, houve jogo. Sentia-se tinir dinheiro. Era omonte. Muxagata, depois das libações do jantar, gostava de fazer o seu berlote.Aquillo devia ter acabado noite velha. No dia seguinte, ás 7 horas, já o Muxagata estava na praia dos Inglezes a dar banho aos cavallos.Varias pessoas foram vêr. Outras deixaram-se ficar na praia do Caneiro á espera dos dois melhores espectaculos que osmironesapanhavam: o banho do fidalgo Padilha, que entrava no mar preso por uma corda, e o banho da Cacilda, filha do banheiro Leão, que nadava para o mar largo.Foi pelo Henrique da Perzigueda, o qual eu vi morrer annos depois n'um sótão da rua de S. João Novo, que travei relações com o Muxagata.Eu tinha os meus dezoito, e lisonjeava-me de que o Muxagata, a flôr dossportmenda Foz, me tratasse mano a mano.Quando elle descia a cavallo a explanada do Castello, sendo admirado no seu garbo de cavalleiro pelos hospedes doHotel da Boa Vista, dizia-me adeus com o chicote, e eu parava muito{18}ancho, dando-me ares de entendedor, até o vêr exhibir-se no Passeio Alegre, em frente da casa acastellada dos Maias da rua das Flores, porque ahi era certo passar ás upas.Havia sempre senhoras no balcão de pedra, que tinha um toldo listrado de branco e escarlate.Mezes depois correu fama de que o Muxagata havia raptado uma menina de Lamego. Falava-se que os irmãos d'ella o queriam matar. Mas não morreu ninguem. Em todo o caso o Muxagata deixara o seu solar e viera estabelecer residencia no Porto, na rua das Fontainhas, com a sua bella raptada. A historia do rapto augmentára-lhe a nomeada de fidalgo extravagante. Algumas vezes vi o Muxagata a cavallo ao lado da famosa lamecense, vestida de amazona. Iam ordinariamente á Foz por Lordello do Ouro; voltavam por Miragaia.Quando recolhiam ao cair da noite pela rua das Flores, os lojistas, sentindo o tropel dos cavallos, vinham á porta. O escandalo d'aquella mancebia publica indignava-os; não obstante, cumprimentavam risonhamente o Muxagata, que era bom freguez dos ourives e dos mercadores de pannos.Na casa das Fontainhas havia batota todas as noites. Criados de casaca e lenço branco serviam o chá. D. Christina, a bella de Lamego, jogava como um homem entre os homens.{19}Saltavanos valetes, efazia cercoás quinas.Ella odiava os valetes, dizia. Na sua confiança nas quinas mostrava-se uma boa portuguesa de Lamego.Vestia bem: rendas, flores e joias. As joias explicavam os cumprimentos dos ourives da rua das Flores ao Muxagata.Usava o cabello apartado ao lado, com duasbellezas. Chamava-sebellezasaos anneis de cabello empastados sobre a fronte. Coisa tentadora, que desappareceu da circulação.—É verdade! obtemperou o Leotte.Prohibiram-lhe que interrompesse.O pó de arroz, continuei eu, era ainda considerado como umdebochedetoillette. D. Christina punha muito pó de arroz na face, no collo e nas mãos, especialmente nas mãos.Tinha predilecção pela essencia de violeta. Ora os perfumes eram n'aquelle tempo outrodebochedetoilette. As mulheres não cheiravam a nada ou cheiravam mal.Podem vocês admirar-se de que uma mulher de Lamego se avantajasse dez annos ás outras portuguezas emmise-en-scènedecoquettismo. D. Christina tinha pendor natural para a vida espectaculosa. Estas aberrações não são das terras; são dos temperamentos. Uma patricia dos presuntos de Lamego póde nascer tãocoquettea dois passos da serra da Gralheira, quanto uma creatura{20}nascida entre os jardins de Harlem póde sair brutalmente apresuntada por fóra e por dentro.De mais a mais o Muxagata, tendo-lhe conhecido a bossa, desenvolvera-lh'a. Educára-a como amante. O idillio de contrabando precisa ganhar em aperitivos acirrantes o que naturalmente lhe falta em tranquillidade sincera. As amantes são actrizes de um palco em que se representa a comedia do amor; as esposas são as sacerdotisas de um culto domestico, que se faz valer por si mesmo. A differença é grande. D. Christina tomava a sério o seu papel de actriz, e esforçava-se por que nos applausos do publico entendido reconhecesse o empresario a conveniencia das aptidões theatraes da artista.Rodaram mais dois annos.A casa da rua das Fontainhas continuava a ser orendez-vousdos estroinas do Porto. Falava-se de perdas e lucros fabulosos na batota do Muxagata, que fazia concorrencia á do D. Marcos. Muxagata galeava ainda o mesmo luxo de cavallos, em competencia com o Ferreirinha; e a mesma pompa de fatos exoticos á porfia com o Ricardo Brown, porque ambos appareciam ás vezes de collete vermelho com botões de ouro.Dizia-se porém que a casa de Muxagata estava empenhada. O milho, sua principal colheita, não chegava para tanto. O vinho não era muito. Legumes, hortaliças, amendoas, sumagre, eram em{21}grande quantidade, mas produziam pequenas receitas. A casa cobrava muitos fóros, n'uma e outra margem do Douro, desde Lamego até Entre-ambos-os-rios, mas andavam atrazados.Um dia deu-se pela falta do Muxagata. Correu que tinha ido apurar rendimentos, que se ficavam por mãos de caseiros e foreiros remissos. Assim fôra, effectivamente. O Muxagata estava no seu solar ou por ahi perto. D. Christina continuava a habitar a casa da rua das Fontainhas. Não saía a pé nem a cavallo.Pelo tempo das colheitas a minha familia ia para uma quinta no concelho de Sinfães. No fim de setembro fazia-se a feira do Escamarão, que mettia os pimpões de muitas leguas em redor: o Nascimento pae, o Tameirão, o fidalgo da Cardia, o José Ignacio de Covas, e outros.Eu tinha que matricular-me nas aulas do Porto. Propunha-me estudar introducção aos tres reinos, da natureza, como então se dizia, com o dr. Almeida Pinto. Fui para a feira, e d'ahi devia embarcar para o Porto, em companhia do meu condiscipulo Alfredo Leão.A feira abrira muito animada. O feminino montesinho concorrera em abundancia. De morgados havia para cima de um quarteirão. E de ourives do Porto estavam armadas sete barracas. Comia-se, bebia-se, batoteava-se á grande. As melancias tinham, como refresco, um consumo extraordinario. O regedor Antonio Pedro, emquanto os{22}cabos de policia dormiam á sombra das arvores,micavano rei.Creio que foi o Tameirão que deu a boa nova de que o Muxagata estava na feira. Disseram-m'o. No meio da minha tristeza por ter que partir para o Porto, agradou-me a noticia. Fui procural-o.—Que sim; que estava ali para cima a jogar.—Mas que veiu elle cá fazer?—Anda aos fóros. Quer dinheiro.N'isto fui abruptamente interrompido pelo Vasconcellos:—Meninos, apostrophou elle, olhem que a Pena já começa a pôr o seu barrete de nevoa. É atoilettede noite. Vamos indo para baixo. Depois de jantar se acabará o conto.—Depois de jantar vamos ouvir os rouxinoes, atalhou o Gonçallinho.—Isso é lá como quizerem. Que não esqueça o fio da historia. O Muxagata estava na feira e queria dinheiro—como eu.—Como nós todos! gritaram uns poucos.—A burro e ao jantar! commandou o Vasconcellos.{21}III—Ó filho! pelo amor de Deus! deixa os rouxinoes para ámanhã, dizia o Vasconcellos, depois de jantar, ao Gonçallinho Jervis.—Aqui da janella não se ouve nenhum! Já estive á escuta.—Pudera! Imaginavas então que uma tão poetica ave principiava a amar logo depois das ave-marias, como um caixeiro que fecha a loja e vae metter-se n'uma escada a gargarejar para defronte! Tem juizo, Gonçallinho. Para irmos a Collares ouvir os rouxinoes, precisavamos ter prevenido os trens. Deixa isso para ámanhã, e vamos á historia do Muxagata.Assim foi resolvido por unanimidade... menos um. Era o Leotte, que foi á cozinha recommendar que lhe puzessem lamparina no quarto: pretexto para ver as criadas doVictor.{24}—Vamos lá ao conto, ordenou o Vasconcellos: o Muxagata estava na feira.—Estava effectivamente na feira, continuei, jogatinando com outros morgados e alguns lavradores ricos de Castello de Paiva e Arouca, n'uma casa humilde do Escamarão, que não as ha lá melhores.Como o jogo nivella todas as condições, os nobres e os ricaços abancavam em familiar camaradagem, como se a uns valesse o direito do nascimento, e a outros o do ouro. As mãos de todos elles eram grandes e queimadas do sol ou do cigarro. Lembrei-me, de repente, das mãos finas e brancas de D. Christina, polvilhadas de pó de arroz. Que falta que ellas faziam ali, as mãos de Christina, para brilharem pelo contraste no meio d'aquelle enorme conflicto de manapulas de granadeiros, que ora se estendiam semeando dinheiro, ora se retraíam recolhendo-o!E pelo meu espirito passou a idéa de que o Muxagata nem por sombras se lembrava, n'aquelle momento, das mãos patriciamente batoteiras da sua bem amada de Lamego.Fui injusto.Uma hora depois, Muxagata punha ponto no berlote. Levantava-se da banca, que por tal signal era de pinho, ganhando cerca de setenta libras. Varios lavradores e outros morgados haviam perdido o valor das suas juntas de bois e das suas varas de porcos. Quasi todos elles, os{25}morgados e os lavradores, estavam congestionados das repetidas commoções do jogo. Mas o sorriso triumphal dos felizes principiava a calmar-lhes as feições perturbadas. O Muxagata estava n'este caso. Irradiava-lhe na face o lampejo aureo de setenta libras.Foi depois de acabada a jogatina que elle me deu maior attenção. Perguntou-me se me demorava na feira ou se recolhia á noite. Disse-lhe que, a meu pesar, partia duas horas depois para o Porto, por causa das matriculas.—O que?! exclamou elle. Você vae para o Porto?!Os seus olhos accusavam uma certa satisfação, que esta noticia lhe causára.Respondi affirmativamente.—Muito bem. N'esse caso ha de fazer-me um favor: levar quarenta libras á D. Christina, que, coitada! deve estar muito precisada de dinheiro. Mas, meu rapaz, pontualidade de cavalheiro: as quarenta libras serão entregues logo que você chegue ao Porto. E em tom de maior confidencia: Eu suspeito até que ella e a pequena (referia-se a uma filhinha de dois annos) não terão tido que comer.Esta revelação causou-me triste surprêsa: caiu como um raio fulminador sobre as roseas illusões que eu nutria relativamente ao romance dos raptos.Pois que?! pensei. É então para não ter talvez que jantar que uma mulher, bem nascida e formosa, abandona o seu farto lar paterno, perdendo{26}todo o direito á estima da familia e ao respeito da sociedade?! Os poetas d'aquelle tempo costumavam dizer:—«O teu amor e uma cabana». Mas a realidade parecia ir muito mais longe do que os poetas, porque, comquanto a casa das Fontainhas não fosse propriamente uma cabana, o que era certo, pela inesperada revelação do Muxagata, era que não havia lá que comer! E depois se eu não tivesse apparecido ali n'aquelle dia e n'aquella hora, D. Christina e a filha ver-se-iam condemnadas a soffrer por mais algum tempo ainda as suas duras privações?! E o esplendor da casa das Fontainhas, os criados de casaca e lenço branco, os cavallos do passeio até á Foz, as joias e as rendas de D. Christina era tudo isso a mascara ficticia da pobreza, o ouropel postiço da ruina, que esperava os acasos felizes da batota para ter pão na mesa e pó de arroz nas mãos?!Eu estava assombrado por todos estes pensamentos que em tropel se precipitavam no meu espirito, e não sabia se devia rir-me da comedia do mundo, se chorar das desgraças e dos raptos alheios.Á hora marcada, o barco rabello do Ramiro descia mansamente o Douro e abicava ao areio do Escamarão. Alfredo Leão fazia as suas despedidas. Eu recebia as quarenta libras do Muxagata, e saltava para dentro do barco. Momentos depois o lenho daespadellarangia, os remos chiavam{27}na madeira secca das cavidades que n'aquella especie de barcos substituem as forquilhas, e nós desciamos o Douro deslisando sobre a grande serenidade das aguas, que montanhas áridas e alcantiladas marginavam silenciosamente.Impressionou-me o contraste d'essa placidez austera com a realidade turbulenta das paixões humanas.E quando a noite começou a cair dos cerros alterosos, que rara casa branca povoava, eu tinha envelhecido moralmente vinte annos.Chegamos ao Porto cerca da meia noite. Desembarcamos no caes da Ribeira, que nunca me pareceu mais triste do que n'essa hora. Subimos os dois a rua de S. João, entramos na rua das Flores, ambos muito solitarios, mas ao chegarmos ao largo da Feira de S. Bento encontramos dois estudantes do lyceu que, tendo andado á tuna, se dirigiam viciosamente para a batota do D. Marcos em Cima de Villa. Convidaram-nos a seguirmol-os. Eu alleguei que tinha de ir á rua das Fontainhas entregar o dinheiro a D. Christina.Responderam-me que áquella hora já D. Christina estaria, como todas as mulheres, raptadas ou não, dormindo profundamente n'um poço de virtude.Que embora, respondi. Iria bater á porta para lhe levar o ouro da perdição.Pois sim, que fosse, mas que não me custava nada passar cinco minutos pela batota do D. Marcos.{28}Fomos. Do dinheiro que eu tinha para despêsa de matriculas, livros e hospedagem, perdi quatro mil réis instantaneamente. Fiquei sobreexcitado com a perda; sedento de desforra. Tive, confesso-o, o pensamento de ir jogando todo o dinheiro que trazia até abrir brecha na banca. Queria uma vingança formidavel. Mas quando eu estava n'esta tortura, hesitante entre a febre e a honra, um braço invisivel, fosse o pulso do anjo da guarda ou o impulso da consciencia, como que me arrastou para fóra, não sem que os pés se me pegassem ao soalho.Nunca me custou tanto ser homem de bem.Corri á rua das Fontainhas. Surprehendeu-me vêr luz na escada e nas janellas. E dizerem os outros que D. Christina dormiria áquella hora como um poço de virtude! Bati. Um criado de casaca e lenço branco, o Miguel, veio abrir.Que sim, que a senhora estava a pé, ceando, e que tambem lá estava o sr. Antonio Falcão, do Marco.Embuchei. Pois a indigencia que o Muxagata me havia annunciado refestelava-se, depois da meia noite, n'uma ceia a dois, servida pelo Miguel de casaca e lenço branco?!Pois as consequencias deploraveis do rapto, o quadro negro da fóme transmudavam-se n'essa orgia de bacchante perdularia, em que o Antonio Falcão do Marco era conviva suspeito?!E emquanto subia as escadas envelheci moralmente outros vinte annos.{29}A mesa da ceia resplandecia de loiças e cristaes. As joias de D. Christina não resplandeciam menos do que os cristaes e as loiças. E ella propria, na sua belleza acirrante, resplandecia mais que tudo aquillo.Disse-lhe eu que era portador de uma encommenda para ella. Não ousei, por uns restos de pudor, dizer que a encommenda eram quarenta libras. D. Christina perguntou quem mandava a encommenda. Esta pergunta foi a minha ultima surpresa. De quem poderia ella esperar encommendas depois da meia noite? Ri-me para dentro, não obstante parecer-me que a pergunta, sendo muito melindrosa para o Muxagata, não o deixava de ser tambem o seu tanto ou quanto para mim.Que era o morgado quem mandava... aquillo.D. Christina não levou a sua impudencia até ao ponto de perguntar qual morgado era esse. Entendeu ou fingiu entender que seria o Muxagata.—Como está elle? perguntou.Eu respondi com alguma atrapalhação, que parecia troça:—Bom. Muito obrigado.E, do lado, o Falcão do Marco:—Esse diabo de homem já se não lembra de nós, nem da filha! Nunca vi uma cabeça assim! Em tendo cartas epontosnão quer saber de mais nada! Pois já tinha motivos para ter juizo! Nem uma carta tem escripto á D. Christina, que estaria{30}para aqui sósinha com a pequena, se não fosse eu!Levantei-me, puz as quarenta libras, descaradamente, á borda da mesa, sobre a toalha.—Ah! é dinheiro! disse D. Christina cortando esquirolas de marmellada.—São quarenta libras, respondi.—Pois então faça-me o favor de lhe mandar dizer que ficaram entregues.—Perdão! repliquei com certa rudeza. A sr.ª D. Christina vae escrever isso mesmo n'um bocado de papel, que eu mandarei ao morgado.—Sim... farei isso. Mas primeiro acompanhe-nos a cear.Agradeci, rejeitando. Então D. Christina disse ao Miguel que lhe trouxesse papel e lapis. E escreveu em lettra de collegial:Recebi as quarenta libras.Tua do coraçãoChristina.Mais nada.Saí, e respirei com soffreguidão a brisa fresca do Douro, que soprava do Passeio das Fontainhas. Uma tenue nebrina emplumava as arvores que ladeiam a rua. E eu, de mãos nas algibeiras, entregava-me dolorosamente, calçada acima, a esta cruel philosophia: «Onde hei de ir arranjar os quatro mil réis que perdi?!»{31}Soube pela manhã que os outros tinham continuado a jogar, e ganharam.Ora no decurso de dois annos succederam cousas que seriam espantosas se não fossem humanas.D. Christina passou definitivamente do Muxagata, quando o sentiu irremediavelmente arruinado, para o Falcão do Marco, que por sua vez se arruinou tambem.A lei de 1863 extinguiu os vinculos em Portugal, mas os ultimos exemplares da raça privilegiada dos morgados ainda hoje florecem, entre as Christinas indigenas, nas praias de Portugal, em proesas tradicionaes de batota, de femeaço e de gineta.No inverno os mais d'elles desapparecem no fundo dos seus solares cultivando as batatas, que no verão seguinte hão de resuscital-os. O morgado nacional, depois que a phylloxera lhe comeu as vinhas, ficou reduzido ás batotas.Mas o Muxagata foi a phylloxera de si mesmo: comeu logo de uma vez as vinhas e as batatas. Como todo o bom morgado, conservou, ainda na pobreza, o seu enthusiasmo pela equitação. E não tendo já cavallos para montar, cavalgava, ao longo dos vastos corredores no ruinoso solar de Muxagata, n'um cabo de vassoura. Um bello dia morreu, e não foi por desastre do seu ultimo cavallo... de pau.Finis, laus Deo, perorei.{32}O Leotte, que tinha voltado á sala e ouvido o final da historia, perguntou:—Da D. Christina nunca mais soubeste!Expludiu uma gargalhada geral.—Olá! exclamei. Que novas nos trazes da tua exploração?—Por ora... nada. Mas opportunamente farei o meu relatorio.—Pois o mesmo não posso eu prometter a respeito da D. Christina. Nunca mais soube d'ella.—E da filha o que foi feito? perguntou sentimentalmente o Gonçallinho.—Tambem não sei. Se viver deve ter agora os seus dezenove annos.—Como era o nome todo do Muxagata?—Nunca lh'o soube. Por morgado de Muxagata era que toda a gente o tratava.{33}IV—Então, se não vamos ainda hoje ouvir os rouxinoes, tambem eu quero contar o meu conto, disse o Gonçallinho Jervis.—Sim, senhor, concordou o Vasconcellos.—Mas qual dos dois contos que nos annunciaste pelo caminho? perguntou o Athayde.—A Primeira entrevista.Tenho porém a prevenir o respeitavel publico, para evitar uma pateada, que o meu conto, ao contrario da historia do Muxagata, não aconteceu nunca. É uma phantasia que só poderia ter-se dado no paiz azul dos sonhos...—Ditosa idade em que se pensam essas tolices! exclamou o Vasconcellos.—Mau! protestou o Gonçallinho.Se ralhas, não conto.{34}—Tem a palavra o poeta, que poderá sonhar á vontade sem que ninguem o interrompa.Fez-se silencio. E o Gonçallinho, romanescamente, depois de ter mettido os dedos pelo cabello para levantar a gaforina, usou da palavra:—Custou muito—disse, elle—a planear a primeira entrevista. Era preciso illudir a vigilancia de tanta gente, inventar tantas mentiras, saltar por cima de tantos embaraços! Mas, finalmente, o programma, laboriosamente organisado, tinha sido acceito pela credulidade das pessoas que se lhe poderiam oppôr. Ainda assim, Fanny não ficou inteiramente tranquilla. Durante os dias que medearam entre o da elaboração do programma e o da entrevista, andava desconfiada, escutava pelos corredores receosa de que falassem d'ella, parecia-lhe ouvir dizer o seu nome e cochichar depois em segredo... O olhar das pessoas de familia incommodava-a, como se todas essas boas pessoas tivessem realmente a intenção de observal-a por desconfiança, de lêr-lhe nos olhos esse audacioso plano de uma entrevista no campo.É verdade que ao mesmo tempo que se sentia atormentada de receios, de vagos sobresaltos, pensava na delicia d'esse primeiro dia de liberdade no amor, sem testemunhas, sem disfarces, sentada comElleá sombra das arvores, ouvindo cantar os passaros a sua canção de estio, vendo doudejar no ar as borboletas de grandes azas coloridas,{35}cujo vôo independente tantas vezes ambicionára...Mas se um obstaculo imprevisto sobreviesse! Quanto esta ideia terrivel a amargurava! A doença de uma pessoa de familia, a carruagem que podia faltar, a chuva que poderia vir n'esse dia... Como isso era horrivel! Mas Fanny lembrava-se, para tranquilisar-se, de que a fortuna ajuda os audazes e de que, como premio á sua audacia, ouviria finalmente cantar os passaros a sua canção de estio nas grandes arvores sombrias.Toda a base do seu programma era essa velha desculpa, sempre acreditada, a doença de uma antiga companheira de collegio, que está a ares no campo, e á qual se quer dizer o ultimo adeus.Fanny tinha effectivamente uma amiga de collegio, que estava tysica, e como as duas familias se não visitavam, o pretexto pareceu-lhe excellente, o segredo não viria a descobrir-se.Mas se a pobre doente morresse antes do dia marcado para a entrevista? O egoismo dos felizes não conhece limites: que morresse no dia seguinte, e tudo seria pelo melhor. Morrer antes, deixar de soffrer menos alguns dias, nem por pensamentos Fanny o queria admittir. E todavia, no collegio, as duas amigas haviam sido muito dedicadas, mas o tempo passára e só de longe a longe, de anno a anno talvez, se lembravam uma da outra.Com o coração de oratorio, como um condemnado{36}que treme de todas as sombras, que tem medo do rumor de todos os passos, Fanny esperou que esse desejado dia chegasse.Dormiu mal, somnos curtos e agitados. Parecia-lhe ouvir assobiar o vento nas ruas, bater a chuva nas vidraças. Um temporal seria o maior de todos os contratempos: não a deixariam sair, e, se deixassem, o campo estaria encharcado, o idillio perderia muito do seu encanto, não poderiam sentar-se os dois debaixo das velhas arvores ouvindo cantar os passaros a sua canção de estio.Mas, ó felicidade! tão certo é que a fortuna protege os audazes: o dia amanhecera esplendido, o sol brilhava no céu como um rubi, e o calor do estio começava a cair como o halito ardente de uma forja.Primeiro dia de liberdade no amor! tu és tão saboroso como a guloseima que o collegial devora em segredo na sombra de um corredor ou n'um recanto da cêrca. Tu és o fructo prohibido em que podemos finalmente saciar a nossa voracidade de Tantalos famintos.A carruagem chegára a horas, a familia, já disposta de ante-mão, não oppuzera obstaculos. Fanny descera unicamente acompanhada de uma antiga criada, que fôra sua ama de leite, e quando entrou na carruagem nem sequer fez reparo n'esse pequeninogroomde cabello louro, faces rosadas, que com os olhos postos no chão, n'uma attitude{37}reverente e humilde, se não era hypocrita, lhe abrira a portinhola do trem.Fôra elle, o pequeninogroomlouro e rosado, que lhe acommodára a orla do vestido dentro docoupée que, fechando-o cuidadosamente, esperára, sempre de olhos postos no chão, ouvir a ordem da partida.O coração de Fanny batia como o de um canario agarrado na mão de uma creança. Ella não via, não ouvia, disse aogroom, sem fazer reparo n'elle, uma palavra. Ogroomsaltou para a almofada com a ligeireza que só as azas podem dar, e a carruagem partiu n'um trote largo, rasgado, batido.As arvores da estrada principiavam correndo aos lados do trem, fazendo os seus cumprimentos n'uma alacridade funambulesca. As arvores pareciam alegres, trocistas, ironicas, como se estivessem de posse d'aquelle doce segredo. Fanny, vendo-as passar rapidamente, cuidava ouvir-lhes dizer:—Mil felicidades, excellencia...E córava de pejo, engolfada em maviosos pensamentos, sem haver trocado com a sua velha ama uma unica palavra sequer.Os passaros cantavam n'uma estridula folia matutina, e toda essa onda de alegria musical parecia inundar o coração feliz de Fanny, enchendo-o de canticos festivos, que resoavam como n'um ecco interior.{38}Ao cabo de hora e meia de caminho a carruagem parára, não á porta da quinta onde a amiga de Fanny agonisava, como ella por disfarce dissera aogroomao sair de casa, mas á porta de um velho castello desmantelado, a que se seguia um parque extenso, coberto de grandes arvores sombrias, onde os passaros cantavam em liberdade a sua canção de estio.Era o logar da entrevista.E Fanny, vendo parar ahi a carruagem, e apear-se ogroom, sempre com a ligeireza de um genio alado, rosado e louro, com os olhos postos no chão, teve uma vaga suspeita de que essegroom, que ella só agora vira, fosse um confidente encarregado expressamente por Edmundo de desempenhar tão alta missão de confiança.E, emquanto ella descera, ogroom, n'uma attitude sempre reverente e humilde, com a mão na portinhola do trem, ajudara-lhe a desprender do estribo a orla do vestido branco e fresco, ligeiramente mosqueado de pequeninas flores de myosote, azues e microscopicas.Uma deliciosa serenidade alegre alastrava-se por todo o parque n'uma solidão encantadora. Dir-se-ia que o fim do mundo era ali e que, dados mais alguns passos, por detraz das ultimas arvores do parque, deveria o ceu pousar na terra.Edmundo lá estava no seu posto, fazendo sentinella á sua propria felicidade e, quando Fanny chegou, a arvore que o abrigava como que distendeu{39}os seus longos braços verdes para envolver tambem na mesma sombra o corpo de Fanny.A velha criada afastou-se, moendo o tempo na contemplação das flores campestres e da larga cóma das arvores, ora dobrando-se, ora olhando para cima, e de vez em quando um melro velhaco—era decerto um melro—zombava da ignara situação moral d'aquella mulher desfeiteando-lhe o asseio do seu antigo chapeu de palha de Italia.Uma ironia de melro!Á sombra da grande arvore, que tinham escolhido, Fanny e Edmundo, enleiados pela cintura, bebiam a pequenos goles de liberdade a sua primeira taça de amor e, quando erguiam a taça aos labios, estalava-lhes na bocca um beijo demorado.As horas passaram rapidamente, a velha criada já não tinha mais hervas que reconhecer, mais arvores que observar, e os proprios melros estavam aborrecidos de troçal-a.Era preciso partir, o sol declinava, a tarde fugia. Mais um gole colhido nos labios, mais um beijo que se arrastava n'uma extensa melodia amorosa.Finalmente, Fanny pôz o pé no estribo da carruagem e ogroom, rosado e louro, com um olhar altivo, triumphante, abriu-lhe, de cabeça erguida, a portinhola docoupée, quando a fechou, antes de subir para a almofada, pousou o dedo pollegar da mão direita sobre a ponta do nariz e espalmou a mão no ar, agitando os dedos.{40}Era o Amor, disfarçado emgroom, que celebrava a sua victoria como um gaiato de collegio.—C'est gentil!exclamou o Leotte.—Bravo! mavioso Gonçallinho! conclamaram sete vozes.E o Vasconcellos, logo reposto nas suas funcções austeras de dirigente, advertiu a assembléa de que onze horas e cinco minutos eram tempo muito conveniente para que em Cintra cada um pensasse em dormir.—Onde estará ogroomda tua ballada, ó Gonçallinho? perguntou o Leotte.—Nos intermundios de Epicuro... respondeu o Athayde.—Em cascos de rolhas... commentou o Vasconcellos.—É que eu queria, concluiu o Leotte, que elle viesse accender-me a lamparina do quarto.E, rindo, cada um de nós foi para a cama—ás onze e dez, noite velha no paraiso de Cintra, a 20 de maio.{41}

IEramos dez, e tinhamos combinado, por desfastio, ir a Cintra, na primavera, ouvir os rouxinoes.Parecerá menos inverosimil este pretexto, quando se disser que todos, então reunidos em Lisboa, haviamos nascido na provincia, onde as volatas dos rouxinoes dulcificaram as nossas primeiras noites de amor, e que o mais velho de nós tinha trinta e sete annos apenas.Ainda assim, como prova involuntaria de que o melhor da nossa vida era já então o passado, não foi approvado o projecto sem uma correcção prosaica. Sim, iriamos ouvir os rouxinoes a Cintra, visto que elles não costumavam fazer-se ouvir nas ruas de Lisboa, mas temperariamos esse devaneio romantico com as queijadas da Sapa, as laranjas do visconde da Arriaga, e oCollaresdo conselheiro Francisco Costa.{6}Como o mais novo de todos era o Gonçallinho Jervis, em cujo espirito bailavam ainda pagens e castellãs n'uma chorea medieval, e em cujo coração ardiam fogos de poetico platonismo, mettemol-o á galhofa convidando-o a procurar na serra de Cintra um cabello da barba que Bernardim Ribeiro haveria arrepellado ao vêr partir a frota com a infanta D. Beatriz.Para falar verdade, nenhum de nós tinha grande confiança na realisação de tão extravagante projecto, mas sobejou-nos motivo para o applaudir, porque durante mais de dois mezes nos forneceu alegrissimo assumpto sempre que nos juntavamos todos ou pelo menos alguns.Deviamos partir em abril, segundo o programma primitivamente approvado em assembléa geral. Não fomos, e acreditavamos já que não iriamos, quando uma noite, noMartinho, resolvemos partir a 20 de maio.O Vasconcellos, muito habituado a viajatas, ficou encarregado de alugar ochar-à-bancs, e elle proprio me disse á puridade que tal não faria senão á ultima hora, porque duvidava que se realisasse uma excursão dependente do accordo de dez pessoas, todas ellas mais ou menos atarefadas.Como se tratava, porém, de um divertimento, de umapartie de plaisir, como lhe chamava o Leotte, aconteceu que, á hora marcada, apenas faltou um, o Callixto, cuja falta, aliás, foi tida como de bom agouro, visto chamar-se elle Callixto.{7}Tivemos que esperar á porta do Passeio Publico, que era o ponto de reunião,rendes-vousdizia o Leotte, que o Vasconcellos fosse alugar ochar-à-bancs, sendo entretanto votada uma moção de censura a este nosso amigo pela falta de confiança que a communidade lhe inspirava. Eu, por estar na posse do segredo, abstive-me de votar. Um Catão!Partimos. Aquillo foi como se todos atirassemos canseiras e trabalhos para traz das costas. Os palacios do Passeio Publico estremeceram nos alicerces, sacudidos por um tufão de alegria. A passarinhada fugiu das arvores precipitadamente, como se ouvisse troar uma peça de campanha. A policia não estava accordada ainda; se fosse um pouco mais tarde, deitava-nos a mão. E affirmava o Vasconcellos que tinha visto as figuras do Tejo e Douro dizerem-nos adeus de dentro do Passeio, muito rapioqueiras.—Nunca, dizia o Leotte, nunca se fez umapartie de plaisirtão honesta. Nove homens... apenas!—Querias mais! replicava o Vasconcellos fazendo-se desentendido. Não cabiam cá. Olha o pobre Gonçallinho, o nosso doce pagem, que teve de ir na almofada ao pé do cocheiro. Onde querias tu metter mais gente, ó Gonçallinho?!—Que é lá? respondia elle do alto da almofada.—Vaes a fazer versos?—Ainda não. Mas já planeei um conto. Este ar de primavera é deliciosamente suggestivo. Vocês{8}verão que a minha ideia não é de todo má. Chamar-se-haA primeira entrevista.—Has de contal-a em Cintra, gritei eu.—Pois sim, respondeu o Gonçallinho, morto, como todos os novatos, por divulgar as suas composições.—Em Cintra, alvitrou o Vasconcellos, sempre o mais auctoritario de todos, cada um de nós ha de contar á noite uma historia. Vá feito?—Menos eu, protestou o Athayde, que era empregado na Junta de Credito Publico. Eu só estou habituado a contar...contos de réis.—Isso é modestia. Não péga.—Has de contar, intimou o Leotte, aquelle caso do principe das Caldas de Vizella, que uma noite te ouvi no Gremio.—Ah! esse era o principe Piratinino.—Não é um conto...de réis; mas é um conto de principe. Bem, já temos dois contos, disse eu.—E tu, propoz o Athayde, dirigindo-se a mim, tu, que andas sempre com as mãos na massa, é que has de abrir o torneio.—Pois seja, com a condição de que onde se lêmassase leiamaçada.—Leia-se lá o que tu quizeres. Mas olhem vocês, observou o Vasconcellos, que é preciso matar de algum modo as noites de Cintra, que são tão grandes como as de Lamego. Em Cintra só devia haver dia. As noites são frias e humidas. Vocês o sentirão.{9}—Queres então ouvir rouxinoes ao meio dia?—Os rouxinoes são o menos...—Pois não viemos nós para os ouvir?—Nós viemos para gosar a liberdade que não temos habitualmente, e a alegria que principia talvez a fugir-nos. Viemos tomar um banho de oxygeneo. Elle é bem mau!—Que vão vocês a dizer? perguntou da almofada o Gonçallinho.—Foi o Vasconcellos que fez uma proposta para supprimirmos do nosso programma os rouxinoes.—Não! nunca! protestou o Gonçallinho. De mais a mais tem vindo a dizer-me o cocheiro que os rouxinoes são aos centos na varzea de Collares.—Tudo se póde conciliar, sentenciou o Vasconcellos. Ouviremos os rouxinoes e os contos. Mas vamos ao lado pratico do assumpto. Quantos dias se querem vocês demorar?—Eu, cinco dias, o maximo.—E eu.—Vá lá, e é de mais.—Oh! incomprehensivel alma portugueza! exclamei eu. Já estragamos a nossa alegria. Ainda não chegámos, e já tratamos do regresso! Se aqui fossem nove francezes...—Ou quatro portuguezes e cinco francezas... reticenciou o Leotte, sempre propenso ao eterno thema feminino. Lembrem-se vocês da historia do nosso amigo conde, quando esteve nos Pyreneos. Ao menos lá não lhe faltavam mulheres!{10}—É verdade! ó Leotte, tu has de contar a historia do conde. Tem graça! já t'a ouvi uma vez.—Vamos ao lado pratico, insistiu o Vasconcellos. Almôço, a que horas?—Ás onze.—E jantar?—Jantar ás seis.—É melhor ás sete.—Tratem vocês de fazer as noites pequenas. Olhem que são o peor que ha em Cintra.—Jantaremos então ás sete.—Isso é melhor. E de dia ou á noite, sentados em Collares, em Seteais ou nas cadeiras doVictoriremos contando o nossoDecameron, respirando um bom ar, e um pouco de alegria, pelo menos...ODecameron! exclamou o Leotte. Sabem acaso vocês que os fugitivos dapeste negrade Florença eram sete mulheres e tres homens? Isso comprehende-se.—Ó diabo! cala-te lá com essa chorata pelas mulheres! replicou o Vasconcellos. Póde ser que o acaso te depare em Cintra alguma boa fortuna.—N'este tempo! objectou, desconsolado, o Leotte. Se fosse no verão!—O verão tambem tem seus inconvenientes. Ha mais espiões, mais fiscaes da moralidade publica. Leve o diabo tristezas. Toca a divertir, rapazes.—Olhem lá! gritou o Gonçallinho.{11}—Que é?—Parece-me que já architectei outro conto.—O que é então?—A morte do bibliophilo.—Vejam vocês, disse o Vasconcellos, o que são os poetas portuguezes. Vae aqui um rapaz, na flôr dos annos, cheio de imaginação, em caminho de Cintra, a pensar na morte da bezerra ou do bibliophilo, que o leve!Rimos todos. E o proprio Gonçallinho, que ouviu o reparo, desatou a rir na almofada.Quando apeamos á porta doVictor, estavamos mais ou menos acabrunhados pela fome.—Por S. Thiago, e aos bifes! berrou o Vasconcellos.E o Victor, muito mesureiro, muito amavel:—Elles hão de estar menos maus.{12}{13}IIO almôço foi uma devastação, uma hecatombe.Dizia o Vasconcellos que assim era preciso, visto que só se tornava a almoçar... no outro dia.Quando saímos do hotel eram quasi tres horas. O que se faria? Por onde se começaria? Os fumos capitosos do almôço accenderam brios quixotescos no espirito da maioria dos nove. A burro e á Pena! era o grito do Vasconcellos, reforçado por mais cinco ou seis vozes.—Mas isso é a semsaboria de toda a gente! disse o Gonçallinho.—Ó meu tolo! replicou com vivacidade o Vasconcellos. Querias talvez fazer versos com o estomago cheio de biffes! A burro e á Pena! insistiu.Os burriqueiros, que nos tinham feito um verdadeiro{14}cêrco, largaram a correr para ir buscar os burros.Emquanto esperavamos, dizia-me em tom de confidencia o Leotte:—Já perguntei noVictor, e não ha lá hospeda nenhuma. Mas ha criadas, ao menos.E d'ahi a pouco dizia-me o Gonçallinho, tambem em tom de confidencia, muito contemplativo, olhando para o castello da Pena e para o arvoredo da encosta:—Como isto é bello!A burricada á Pena foi, como sempre acontece, uma esturdia hilariante, cheia de episodios comicos. Quando o burro não caía, caía o cavalleiro; e as mais das vezes caíam ambos.N'essa folia, que teve muito de carnavalesca, o tempo fugiu despercebido, as horas voaram. Ao fim da tarde, mergulhados n'um verdadeiro banho de aromas primaveris, estavamos nós sentados junto aoChalet de Madame, quando o Vasconcellos alvitrou auctoritariamente:—Agora, sim senhor. Agora é occasião propicia de darmos principio ao nossoDecameron. Tem a palavra o sr. Fulano, como se combinou.Era eu. Pois não houve meio de resistir.—Ora então, senhores e...—Senhoras não ha infelizmente! exclamou o Leotte.—Peço attenção, que eu principio.E principiei.{15}—O morgado de Muxagata, ou simplesmente oMuxagata, como elle era conhecido ha vinte annos no Porto, tinha solar a onze leguas de Lamego, na aldea d'aquelle nome.Por setembro apparecia na Foz do Douro com uma coudelaria inteira, que lhe permittia variar de cavallo seis vezes por dia. Gostava d'isso, e lisonjeava-se de que as mulheres viessem á janella alarmadas pelo tinido aspero das ferraduras nos burgaus da rua Direita e de Cima-de-Villa.Era, de resto, um typo de classe, porque nas praias de Portugal não se perdeu ainda o molde do morgado de provincia com manhas de picador e boleeiro.Ha sempre um para amostra.Todos os dias ia banhar os cavallos á praia dos Inglezes, que era a menos frequentada. Gastava duas horas n'esse trabalho, e elle proprio era o banheiro dos seus animaes que, á força de acicates, acabavam por investir com a onda.O Muxagata encharcava-se dez vezes em cada manhã desde os pés até aos hombros.Sentia-se satisfeito com essa maçada quotidiana, que sempre attraía alguns espectadores. E todo o seu orgulho consistia em saber-se nomeado como o melhor pé de estribo e a melhor mão de rédea que ginetava na Foz.Eu vi-o pela primeira vez na rua Direita, n'um predio fronteiro á rua Bella.{16}Morava eu ali perto. Sabia-se que vinha para aquella casa o Muxagata, e um bello dia começaram a chegar criados e cavallos. No outro dio chegaram cavallos e criados. No terceiro dia chegaram criados, cavallos, e palha.Ao quarto dia correu voz de que chegaria o morgado.Os criados e criadas, todos elles atexugados de bom presunto da Gralheira, fizeram o jantar para s. ex.ªMas s. ex.ª não chegou.No dia seguinte fez-se novo jantar para s. ex.ªE s. ex.ª não chegou ainda n'esse dia.O grande Muxagata principiava a ser um mytho para muitos banhistas da rua Direita e travessas affluentes.Chega o Muxagata! Não chega o Muxagata! Á noite, os criados, vendo que o patrão já não chegava n'esse dia, comiam o jantar que estava preparado para elle.Passou assim uma semana.Na segunda-feira seguinte sentiu-se ruido á porta do Muxagata. Foi muita gente ás janellas. Não era elle, mas um novo cavallo que chegava. Uma belleza de estampa, que os criados estavam admirando em circulo á porta da cocheira. Soube-se a historia do animal. Muxagata já estava no Porto, e havia comprado aquelle bello exemplarpur sangao Côrte Real de Traz da Sé por tresentas libras.{17}Finalmente, á noite, chegou o Muxagata com o Henrique da Perzigueda e outros amigos. Vinham a pé, todos de esporas e chicote. E antes de subir, foram á cocheira examinar os cavallos.Vi o Muxagata. Era alto, forte, moreno: farto bigode preto, e pera. Foram jantar. O Ricardo Brown, o Côrte-Real e outrossportmencaíram logo lá. Depois do jantar, houve jogo. Sentia-se tinir dinheiro. Era omonte. Muxagata, depois das libações do jantar, gostava de fazer o seu berlote.Aquillo devia ter acabado noite velha. No dia seguinte, ás 7 horas, já o Muxagata estava na praia dos Inglezes a dar banho aos cavallos.Varias pessoas foram vêr. Outras deixaram-se ficar na praia do Caneiro á espera dos dois melhores espectaculos que osmironesapanhavam: o banho do fidalgo Padilha, que entrava no mar preso por uma corda, e o banho da Cacilda, filha do banheiro Leão, que nadava para o mar largo.Foi pelo Henrique da Perzigueda, o qual eu vi morrer annos depois n'um sótão da rua de S. João Novo, que travei relações com o Muxagata.Eu tinha os meus dezoito, e lisonjeava-me de que o Muxagata, a flôr dossportmenda Foz, me tratasse mano a mano.Quando elle descia a cavallo a explanada do Castello, sendo admirado no seu garbo de cavalleiro pelos hospedes doHotel da Boa Vista, dizia-me adeus com o chicote, e eu parava muito{18}ancho, dando-me ares de entendedor, até o vêr exhibir-se no Passeio Alegre, em frente da casa acastellada dos Maias da rua das Flores, porque ahi era certo passar ás upas.Havia sempre senhoras no balcão de pedra, que tinha um toldo listrado de branco e escarlate.Mezes depois correu fama de que o Muxagata havia raptado uma menina de Lamego. Falava-se que os irmãos d'ella o queriam matar. Mas não morreu ninguem. Em todo o caso o Muxagata deixara o seu solar e viera estabelecer residencia no Porto, na rua das Fontainhas, com a sua bella raptada. A historia do rapto augmentára-lhe a nomeada de fidalgo extravagante. Algumas vezes vi o Muxagata a cavallo ao lado da famosa lamecense, vestida de amazona. Iam ordinariamente á Foz por Lordello do Ouro; voltavam por Miragaia.Quando recolhiam ao cair da noite pela rua das Flores, os lojistas, sentindo o tropel dos cavallos, vinham á porta. O escandalo d'aquella mancebia publica indignava-os; não obstante, cumprimentavam risonhamente o Muxagata, que era bom freguez dos ourives e dos mercadores de pannos.Na casa das Fontainhas havia batota todas as noites. Criados de casaca e lenço branco serviam o chá. D. Christina, a bella de Lamego, jogava como um homem entre os homens.{19}Saltavanos valetes, efazia cercoás quinas.Ella odiava os valetes, dizia. Na sua confiança nas quinas mostrava-se uma boa portuguesa de Lamego.Vestia bem: rendas, flores e joias. As joias explicavam os cumprimentos dos ourives da rua das Flores ao Muxagata.Usava o cabello apartado ao lado, com duasbellezas. Chamava-sebellezasaos anneis de cabello empastados sobre a fronte. Coisa tentadora, que desappareceu da circulação.—É verdade! obtemperou o Leotte.Prohibiram-lhe que interrompesse.O pó de arroz, continuei eu, era ainda considerado como umdebochedetoillette. D. Christina punha muito pó de arroz na face, no collo e nas mãos, especialmente nas mãos.Tinha predilecção pela essencia de violeta. Ora os perfumes eram n'aquelle tempo outrodebochedetoilette. As mulheres não cheiravam a nada ou cheiravam mal.Podem vocês admirar-se de que uma mulher de Lamego se avantajasse dez annos ás outras portuguezas emmise-en-scènedecoquettismo. D. Christina tinha pendor natural para a vida espectaculosa. Estas aberrações não são das terras; são dos temperamentos. Uma patricia dos presuntos de Lamego póde nascer tãocoquettea dois passos da serra da Gralheira, quanto uma creatura{20}nascida entre os jardins de Harlem póde sair brutalmente apresuntada por fóra e por dentro.De mais a mais o Muxagata, tendo-lhe conhecido a bossa, desenvolvera-lh'a. Educára-a como amante. O idillio de contrabando precisa ganhar em aperitivos acirrantes o que naturalmente lhe falta em tranquillidade sincera. As amantes são actrizes de um palco em que se representa a comedia do amor; as esposas são as sacerdotisas de um culto domestico, que se faz valer por si mesmo. A differença é grande. D. Christina tomava a sério o seu papel de actriz, e esforçava-se por que nos applausos do publico entendido reconhecesse o empresario a conveniencia das aptidões theatraes da artista.Rodaram mais dois annos.A casa da rua das Fontainhas continuava a ser orendez-vousdos estroinas do Porto. Falava-se de perdas e lucros fabulosos na batota do Muxagata, que fazia concorrencia á do D. Marcos. Muxagata galeava ainda o mesmo luxo de cavallos, em competencia com o Ferreirinha; e a mesma pompa de fatos exoticos á porfia com o Ricardo Brown, porque ambos appareciam ás vezes de collete vermelho com botões de ouro.Dizia-se porém que a casa de Muxagata estava empenhada. O milho, sua principal colheita, não chegava para tanto. O vinho não era muito. Legumes, hortaliças, amendoas, sumagre, eram em{21}grande quantidade, mas produziam pequenas receitas. A casa cobrava muitos fóros, n'uma e outra margem do Douro, desde Lamego até Entre-ambos-os-rios, mas andavam atrazados.Um dia deu-se pela falta do Muxagata. Correu que tinha ido apurar rendimentos, que se ficavam por mãos de caseiros e foreiros remissos. Assim fôra, effectivamente. O Muxagata estava no seu solar ou por ahi perto. D. Christina continuava a habitar a casa da rua das Fontainhas. Não saía a pé nem a cavallo.Pelo tempo das colheitas a minha familia ia para uma quinta no concelho de Sinfães. No fim de setembro fazia-se a feira do Escamarão, que mettia os pimpões de muitas leguas em redor: o Nascimento pae, o Tameirão, o fidalgo da Cardia, o José Ignacio de Covas, e outros.Eu tinha que matricular-me nas aulas do Porto. Propunha-me estudar introducção aos tres reinos, da natureza, como então se dizia, com o dr. Almeida Pinto. Fui para a feira, e d'ahi devia embarcar para o Porto, em companhia do meu condiscipulo Alfredo Leão.A feira abrira muito animada. O feminino montesinho concorrera em abundancia. De morgados havia para cima de um quarteirão. E de ourives do Porto estavam armadas sete barracas. Comia-se, bebia-se, batoteava-se á grande. As melancias tinham, como refresco, um consumo extraordinario. O regedor Antonio Pedro, emquanto os{22}cabos de policia dormiam á sombra das arvores,micavano rei.Creio que foi o Tameirão que deu a boa nova de que o Muxagata estava na feira. Disseram-m'o. No meio da minha tristeza por ter que partir para o Porto, agradou-me a noticia. Fui procural-o.—Que sim; que estava ali para cima a jogar.—Mas que veiu elle cá fazer?—Anda aos fóros. Quer dinheiro.N'isto fui abruptamente interrompido pelo Vasconcellos:—Meninos, apostrophou elle, olhem que a Pena já começa a pôr o seu barrete de nevoa. É atoilettede noite. Vamos indo para baixo. Depois de jantar se acabará o conto.—Depois de jantar vamos ouvir os rouxinoes, atalhou o Gonçallinho.—Isso é lá como quizerem. Que não esqueça o fio da historia. O Muxagata estava na feira e queria dinheiro—como eu.—Como nós todos! gritaram uns poucos.—A burro e ao jantar! commandou o Vasconcellos.{21}III—Ó filho! pelo amor de Deus! deixa os rouxinoes para ámanhã, dizia o Vasconcellos, depois de jantar, ao Gonçallinho Jervis.—Aqui da janella não se ouve nenhum! Já estive á escuta.—Pudera! Imaginavas então que uma tão poetica ave principiava a amar logo depois das ave-marias, como um caixeiro que fecha a loja e vae metter-se n'uma escada a gargarejar para defronte! Tem juizo, Gonçallinho. Para irmos a Collares ouvir os rouxinoes, precisavamos ter prevenido os trens. Deixa isso para ámanhã, e vamos á historia do Muxagata.Assim foi resolvido por unanimidade... menos um. Era o Leotte, que foi á cozinha recommendar que lhe puzessem lamparina no quarto: pretexto para ver as criadas doVictor.{24}—Vamos lá ao conto, ordenou o Vasconcellos: o Muxagata estava na feira.—Estava effectivamente na feira, continuei, jogatinando com outros morgados e alguns lavradores ricos de Castello de Paiva e Arouca, n'uma casa humilde do Escamarão, que não as ha lá melhores.Como o jogo nivella todas as condições, os nobres e os ricaços abancavam em familiar camaradagem, como se a uns valesse o direito do nascimento, e a outros o do ouro. As mãos de todos elles eram grandes e queimadas do sol ou do cigarro. Lembrei-me, de repente, das mãos finas e brancas de D. Christina, polvilhadas de pó de arroz. Que falta que ellas faziam ali, as mãos de Christina, para brilharem pelo contraste no meio d'aquelle enorme conflicto de manapulas de granadeiros, que ora se estendiam semeando dinheiro, ora se retraíam recolhendo-o!E pelo meu espirito passou a idéa de que o Muxagata nem por sombras se lembrava, n'aquelle momento, das mãos patriciamente batoteiras da sua bem amada de Lamego.Fui injusto.Uma hora depois, Muxagata punha ponto no berlote. Levantava-se da banca, que por tal signal era de pinho, ganhando cerca de setenta libras. Varios lavradores e outros morgados haviam perdido o valor das suas juntas de bois e das suas varas de porcos. Quasi todos elles, os{25}morgados e os lavradores, estavam congestionados das repetidas commoções do jogo. Mas o sorriso triumphal dos felizes principiava a calmar-lhes as feições perturbadas. O Muxagata estava n'este caso. Irradiava-lhe na face o lampejo aureo de setenta libras.Foi depois de acabada a jogatina que elle me deu maior attenção. Perguntou-me se me demorava na feira ou se recolhia á noite. Disse-lhe que, a meu pesar, partia duas horas depois para o Porto, por causa das matriculas.—O que?! exclamou elle. Você vae para o Porto?!Os seus olhos accusavam uma certa satisfação, que esta noticia lhe causára.Respondi affirmativamente.—Muito bem. N'esse caso ha de fazer-me um favor: levar quarenta libras á D. Christina, que, coitada! deve estar muito precisada de dinheiro. Mas, meu rapaz, pontualidade de cavalheiro: as quarenta libras serão entregues logo que você chegue ao Porto. E em tom de maior confidencia: Eu suspeito até que ella e a pequena (referia-se a uma filhinha de dois annos) não terão tido que comer.Esta revelação causou-me triste surprêsa: caiu como um raio fulminador sobre as roseas illusões que eu nutria relativamente ao romance dos raptos.Pois que?! pensei. É então para não ter talvez que jantar que uma mulher, bem nascida e formosa, abandona o seu farto lar paterno, perdendo{26}todo o direito á estima da familia e ao respeito da sociedade?! Os poetas d'aquelle tempo costumavam dizer:—«O teu amor e uma cabana». Mas a realidade parecia ir muito mais longe do que os poetas, porque, comquanto a casa das Fontainhas não fosse propriamente uma cabana, o que era certo, pela inesperada revelação do Muxagata, era que não havia lá que comer! E depois se eu não tivesse apparecido ali n'aquelle dia e n'aquella hora, D. Christina e a filha ver-se-iam condemnadas a soffrer por mais algum tempo ainda as suas duras privações?! E o esplendor da casa das Fontainhas, os criados de casaca e lenço branco, os cavallos do passeio até á Foz, as joias e as rendas de D. Christina era tudo isso a mascara ficticia da pobreza, o ouropel postiço da ruina, que esperava os acasos felizes da batota para ter pão na mesa e pó de arroz nas mãos?!Eu estava assombrado por todos estes pensamentos que em tropel se precipitavam no meu espirito, e não sabia se devia rir-me da comedia do mundo, se chorar das desgraças e dos raptos alheios.Á hora marcada, o barco rabello do Ramiro descia mansamente o Douro e abicava ao areio do Escamarão. Alfredo Leão fazia as suas despedidas. Eu recebia as quarenta libras do Muxagata, e saltava para dentro do barco. Momentos depois o lenho daespadellarangia, os remos chiavam{27}na madeira secca das cavidades que n'aquella especie de barcos substituem as forquilhas, e nós desciamos o Douro deslisando sobre a grande serenidade das aguas, que montanhas áridas e alcantiladas marginavam silenciosamente.Impressionou-me o contraste d'essa placidez austera com a realidade turbulenta das paixões humanas.E quando a noite começou a cair dos cerros alterosos, que rara casa branca povoava, eu tinha envelhecido moralmente vinte annos.Chegamos ao Porto cerca da meia noite. Desembarcamos no caes da Ribeira, que nunca me pareceu mais triste do que n'essa hora. Subimos os dois a rua de S. João, entramos na rua das Flores, ambos muito solitarios, mas ao chegarmos ao largo da Feira de S. Bento encontramos dois estudantes do lyceu que, tendo andado á tuna, se dirigiam viciosamente para a batota do D. Marcos em Cima de Villa. Convidaram-nos a seguirmol-os. Eu alleguei que tinha de ir á rua das Fontainhas entregar o dinheiro a D. Christina.Responderam-me que áquella hora já D. Christina estaria, como todas as mulheres, raptadas ou não, dormindo profundamente n'um poço de virtude.Que embora, respondi. Iria bater á porta para lhe levar o ouro da perdição.Pois sim, que fosse, mas que não me custava nada passar cinco minutos pela batota do D. Marcos.{28}Fomos. Do dinheiro que eu tinha para despêsa de matriculas, livros e hospedagem, perdi quatro mil réis instantaneamente. Fiquei sobreexcitado com a perda; sedento de desforra. Tive, confesso-o, o pensamento de ir jogando todo o dinheiro que trazia até abrir brecha na banca. Queria uma vingança formidavel. Mas quando eu estava n'esta tortura, hesitante entre a febre e a honra, um braço invisivel, fosse o pulso do anjo da guarda ou o impulso da consciencia, como que me arrastou para fóra, não sem que os pés se me pegassem ao soalho.Nunca me custou tanto ser homem de bem.Corri á rua das Fontainhas. Surprehendeu-me vêr luz na escada e nas janellas. E dizerem os outros que D. Christina dormiria áquella hora como um poço de virtude! Bati. Um criado de casaca e lenço branco, o Miguel, veio abrir.Que sim, que a senhora estava a pé, ceando, e que tambem lá estava o sr. Antonio Falcão, do Marco.Embuchei. Pois a indigencia que o Muxagata me havia annunciado refestelava-se, depois da meia noite, n'uma ceia a dois, servida pelo Miguel de casaca e lenço branco?!Pois as consequencias deploraveis do rapto, o quadro negro da fóme transmudavam-se n'essa orgia de bacchante perdularia, em que o Antonio Falcão do Marco era conviva suspeito?!E emquanto subia as escadas envelheci moralmente outros vinte annos.{29}A mesa da ceia resplandecia de loiças e cristaes. As joias de D. Christina não resplandeciam menos do que os cristaes e as loiças. E ella propria, na sua belleza acirrante, resplandecia mais que tudo aquillo.Disse-lhe eu que era portador de uma encommenda para ella. Não ousei, por uns restos de pudor, dizer que a encommenda eram quarenta libras. D. Christina perguntou quem mandava a encommenda. Esta pergunta foi a minha ultima surpresa. De quem poderia ella esperar encommendas depois da meia noite? Ri-me para dentro, não obstante parecer-me que a pergunta, sendo muito melindrosa para o Muxagata, não o deixava de ser tambem o seu tanto ou quanto para mim.Que era o morgado quem mandava... aquillo.D. Christina não levou a sua impudencia até ao ponto de perguntar qual morgado era esse. Entendeu ou fingiu entender que seria o Muxagata.—Como está elle? perguntou.Eu respondi com alguma atrapalhação, que parecia troça:—Bom. Muito obrigado.E, do lado, o Falcão do Marco:—Esse diabo de homem já se não lembra de nós, nem da filha! Nunca vi uma cabeça assim! Em tendo cartas epontosnão quer saber de mais nada! Pois já tinha motivos para ter juizo! Nem uma carta tem escripto á D. Christina, que estaria{30}para aqui sósinha com a pequena, se não fosse eu!Levantei-me, puz as quarenta libras, descaradamente, á borda da mesa, sobre a toalha.—Ah! é dinheiro! disse D. Christina cortando esquirolas de marmellada.—São quarenta libras, respondi.—Pois então faça-me o favor de lhe mandar dizer que ficaram entregues.—Perdão! repliquei com certa rudeza. A sr.ª D. Christina vae escrever isso mesmo n'um bocado de papel, que eu mandarei ao morgado.—Sim... farei isso. Mas primeiro acompanhe-nos a cear.Agradeci, rejeitando. Então D. Christina disse ao Miguel que lhe trouxesse papel e lapis. E escreveu em lettra de collegial:Recebi as quarenta libras.Tua do coraçãoChristina.Mais nada.Saí, e respirei com soffreguidão a brisa fresca do Douro, que soprava do Passeio das Fontainhas. Uma tenue nebrina emplumava as arvores que ladeiam a rua. E eu, de mãos nas algibeiras, entregava-me dolorosamente, calçada acima, a esta cruel philosophia: «Onde hei de ir arranjar os quatro mil réis que perdi?!»{31}Soube pela manhã que os outros tinham continuado a jogar, e ganharam.Ora no decurso de dois annos succederam cousas que seriam espantosas se não fossem humanas.D. Christina passou definitivamente do Muxagata, quando o sentiu irremediavelmente arruinado, para o Falcão do Marco, que por sua vez se arruinou tambem.A lei de 1863 extinguiu os vinculos em Portugal, mas os ultimos exemplares da raça privilegiada dos morgados ainda hoje florecem, entre as Christinas indigenas, nas praias de Portugal, em proesas tradicionaes de batota, de femeaço e de gineta.No inverno os mais d'elles desapparecem no fundo dos seus solares cultivando as batatas, que no verão seguinte hão de resuscital-os. O morgado nacional, depois que a phylloxera lhe comeu as vinhas, ficou reduzido ás batotas.Mas o Muxagata foi a phylloxera de si mesmo: comeu logo de uma vez as vinhas e as batatas. Como todo o bom morgado, conservou, ainda na pobreza, o seu enthusiasmo pela equitação. E não tendo já cavallos para montar, cavalgava, ao longo dos vastos corredores no ruinoso solar de Muxagata, n'um cabo de vassoura. Um bello dia morreu, e não foi por desastre do seu ultimo cavallo... de pau.Finis, laus Deo, perorei.{32}O Leotte, que tinha voltado á sala e ouvido o final da historia, perguntou:—Da D. Christina nunca mais soubeste!Expludiu uma gargalhada geral.—Olá! exclamei. Que novas nos trazes da tua exploração?—Por ora... nada. Mas opportunamente farei o meu relatorio.—Pois o mesmo não posso eu prometter a respeito da D. Christina. Nunca mais soube d'ella.—E da filha o que foi feito? perguntou sentimentalmente o Gonçallinho.—Tambem não sei. Se viver deve ter agora os seus dezenove annos.—Como era o nome todo do Muxagata?—Nunca lh'o soube. Por morgado de Muxagata era que toda a gente o tratava.{33}IV—Então, se não vamos ainda hoje ouvir os rouxinoes, tambem eu quero contar o meu conto, disse o Gonçallinho Jervis.—Sim, senhor, concordou o Vasconcellos.—Mas qual dos dois contos que nos annunciaste pelo caminho? perguntou o Athayde.—A Primeira entrevista.Tenho porém a prevenir o respeitavel publico, para evitar uma pateada, que o meu conto, ao contrario da historia do Muxagata, não aconteceu nunca. É uma phantasia que só poderia ter-se dado no paiz azul dos sonhos...—Ditosa idade em que se pensam essas tolices! exclamou o Vasconcellos.—Mau! protestou o Gonçallinho.Se ralhas, não conto.{34}—Tem a palavra o poeta, que poderá sonhar á vontade sem que ninguem o interrompa.Fez-se silencio. E o Gonçallinho, romanescamente, depois de ter mettido os dedos pelo cabello para levantar a gaforina, usou da palavra:—Custou muito—disse, elle—a planear a primeira entrevista. Era preciso illudir a vigilancia de tanta gente, inventar tantas mentiras, saltar por cima de tantos embaraços! Mas, finalmente, o programma, laboriosamente organisado, tinha sido acceito pela credulidade das pessoas que se lhe poderiam oppôr. Ainda assim, Fanny não ficou inteiramente tranquilla. Durante os dias que medearam entre o da elaboração do programma e o da entrevista, andava desconfiada, escutava pelos corredores receosa de que falassem d'ella, parecia-lhe ouvir dizer o seu nome e cochichar depois em segredo... O olhar das pessoas de familia incommodava-a, como se todas essas boas pessoas tivessem realmente a intenção de observal-a por desconfiança, de lêr-lhe nos olhos esse audacioso plano de uma entrevista no campo.É verdade que ao mesmo tempo que se sentia atormentada de receios, de vagos sobresaltos, pensava na delicia d'esse primeiro dia de liberdade no amor, sem testemunhas, sem disfarces, sentada comElleá sombra das arvores, ouvindo cantar os passaros a sua canção de estio, vendo doudejar no ar as borboletas de grandes azas coloridas,{35}cujo vôo independente tantas vezes ambicionára...Mas se um obstaculo imprevisto sobreviesse! Quanto esta ideia terrivel a amargurava! A doença de uma pessoa de familia, a carruagem que podia faltar, a chuva que poderia vir n'esse dia... Como isso era horrivel! Mas Fanny lembrava-se, para tranquilisar-se, de que a fortuna ajuda os audazes e de que, como premio á sua audacia, ouviria finalmente cantar os passaros a sua canção de estio nas grandes arvores sombrias.Toda a base do seu programma era essa velha desculpa, sempre acreditada, a doença de uma antiga companheira de collegio, que está a ares no campo, e á qual se quer dizer o ultimo adeus.Fanny tinha effectivamente uma amiga de collegio, que estava tysica, e como as duas familias se não visitavam, o pretexto pareceu-lhe excellente, o segredo não viria a descobrir-se.Mas se a pobre doente morresse antes do dia marcado para a entrevista? O egoismo dos felizes não conhece limites: que morresse no dia seguinte, e tudo seria pelo melhor. Morrer antes, deixar de soffrer menos alguns dias, nem por pensamentos Fanny o queria admittir. E todavia, no collegio, as duas amigas haviam sido muito dedicadas, mas o tempo passára e só de longe a longe, de anno a anno talvez, se lembravam uma da outra.Com o coração de oratorio, como um condemnado{36}que treme de todas as sombras, que tem medo do rumor de todos os passos, Fanny esperou que esse desejado dia chegasse.Dormiu mal, somnos curtos e agitados. Parecia-lhe ouvir assobiar o vento nas ruas, bater a chuva nas vidraças. Um temporal seria o maior de todos os contratempos: não a deixariam sair, e, se deixassem, o campo estaria encharcado, o idillio perderia muito do seu encanto, não poderiam sentar-se os dois debaixo das velhas arvores ouvindo cantar os passaros a sua canção de estio.Mas, ó felicidade! tão certo é que a fortuna protege os audazes: o dia amanhecera esplendido, o sol brilhava no céu como um rubi, e o calor do estio começava a cair como o halito ardente de uma forja.Primeiro dia de liberdade no amor! tu és tão saboroso como a guloseima que o collegial devora em segredo na sombra de um corredor ou n'um recanto da cêrca. Tu és o fructo prohibido em que podemos finalmente saciar a nossa voracidade de Tantalos famintos.A carruagem chegára a horas, a familia, já disposta de ante-mão, não oppuzera obstaculos. Fanny descera unicamente acompanhada de uma antiga criada, que fôra sua ama de leite, e quando entrou na carruagem nem sequer fez reparo n'esse pequeninogroomde cabello louro, faces rosadas, que com os olhos postos no chão, n'uma attitude{37}reverente e humilde, se não era hypocrita, lhe abrira a portinhola do trem.Fôra elle, o pequeninogroomlouro e rosado, que lhe acommodára a orla do vestido dentro docoupée que, fechando-o cuidadosamente, esperára, sempre de olhos postos no chão, ouvir a ordem da partida.O coração de Fanny batia como o de um canario agarrado na mão de uma creança. Ella não via, não ouvia, disse aogroom, sem fazer reparo n'elle, uma palavra. Ogroomsaltou para a almofada com a ligeireza que só as azas podem dar, e a carruagem partiu n'um trote largo, rasgado, batido.As arvores da estrada principiavam correndo aos lados do trem, fazendo os seus cumprimentos n'uma alacridade funambulesca. As arvores pareciam alegres, trocistas, ironicas, como se estivessem de posse d'aquelle doce segredo. Fanny, vendo-as passar rapidamente, cuidava ouvir-lhes dizer:—Mil felicidades, excellencia...E córava de pejo, engolfada em maviosos pensamentos, sem haver trocado com a sua velha ama uma unica palavra sequer.Os passaros cantavam n'uma estridula folia matutina, e toda essa onda de alegria musical parecia inundar o coração feliz de Fanny, enchendo-o de canticos festivos, que resoavam como n'um ecco interior.{38}Ao cabo de hora e meia de caminho a carruagem parára, não á porta da quinta onde a amiga de Fanny agonisava, como ella por disfarce dissera aogroomao sair de casa, mas á porta de um velho castello desmantelado, a que se seguia um parque extenso, coberto de grandes arvores sombrias, onde os passaros cantavam em liberdade a sua canção de estio.Era o logar da entrevista.E Fanny, vendo parar ahi a carruagem, e apear-se ogroom, sempre com a ligeireza de um genio alado, rosado e louro, com os olhos postos no chão, teve uma vaga suspeita de que essegroom, que ella só agora vira, fosse um confidente encarregado expressamente por Edmundo de desempenhar tão alta missão de confiança.E, emquanto ella descera, ogroom, n'uma attitude sempre reverente e humilde, com a mão na portinhola do trem, ajudara-lhe a desprender do estribo a orla do vestido branco e fresco, ligeiramente mosqueado de pequeninas flores de myosote, azues e microscopicas.Uma deliciosa serenidade alegre alastrava-se por todo o parque n'uma solidão encantadora. Dir-se-ia que o fim do mundo era ali e que, dados mais alguns passos, por detraz das ultimas arvores do parque, deveria o ceu pousar na terra.Edmundo lá estava no seu posto, fazendo sentinella á sua propria felicidade e, quando Fanny chegou, a arvore que o abrigava como que distendeu{39}os seus longos braços verdes para envolver tambem na mesma sombra o corpo de Fanny.A velha criada afastou-se, moendo o tempo na contemplação das flores campestres e da larga cóma das arvores, ora dobrando-se, ora olhando para cima, e de vez em quando um melro velhaco—era decerto um melro—zombava da ignara situação moral d'aquella mulher desfeiteando-lhe o asseio do seu antigo chapeu de palha de Italia.Uma ironia de melro!Á sombra da grande arvore, que tinham escolhido, Fanny e Edmundo, enleiados pela cintura, bebiam a pequenos goles de liberdade a sua primeira taça de amor e, quando erguiam a taça aos labios, estalava-lhes na bocca um beijo demorado.As horas passaram rapidamente, a velha criada já não tinha mais hervas que reconhecer, mais arvores que observar, e os proprios melros estavam aborrecidos de troçal-a.Era preciso partir, o sol declinava, a tarde fugia. Mais um gole colhido nos labios, mais um beijo que se arrastava n'uma extensa melodia amorosa.Finalmente, Fanny pôz o pé no estribo da carruagem e ogroom, rosado e louro, com um olhar altivo, triumphante, abriu-lhe, de cabeça erguida, a portinhola docoupée, quando a fechou, antes de subir para a almofada, pousou o dedo pollegar da mão direita sobre a ponta do nariz e espalmou a mão no ar, agitando os dedos.{40}Era o Amor, disfarçado emgroom, que celebrava a sua victoria como um gaiato de collegio.—C'est gentil!exclamou o Leotte.—Bravo! mavioso Gonçallinho! conclamaram sete vozes.E o Vasconcellos, logo reposto nas suas funcções austeras de dirigente, advertiu a assembléa de que onze horas e cinco minutos eram tempo muito conveniente para que em Cintra cada um pensasse em dormir.—Onde estará ogroomda tua ballada, ó Gonçallinho? perguntou o Leotte.—Nos intermundios de Epicuro... respondeu o Athayde.—Em cascos de rolhas... commentou o Vasconcellos.—É que eu queria, concluiu o Leotte, que elle viesse accender-me a lamparina do quarto.E, rindo, cada um de nós foi para a cama—ás onze e dez, noite velha no paraiso de Cintra, a 20 de maio.{41}

Eramos dez, e tinhamos combinado, por desfastio, ir a Cintra, na primavera, ouvir os rouxinoes.

Parecerá menos inverosimil este pretexto, quando se disser que todos, então reunidos em Lisboa, haviamos nascido na provincia, onde as volatas dos rouxinoes dulcificaram as nossas primeiras noites de amor, e que o mais velho de nós tinha trinta e sete annos apenas.

Ainda assim, como prova involuntaria de que o melhor da nossa vida era já então o passado, não foi approvado o projecto sem uma correcção prosaica. Sim, iriamos ouvir os rouxinoes a Cintra, visto que elles não costumavam fazer-se ouvir nas ruas de Lisboa, mas temperariamos esse devaneio romantico com as queijadas da Sapa, as laranjas do visconde da Arriaga, e oCollaresdo conselheiro Francisco Costa.{6}

Como o mais novo de todos era o Gonçallinho Jervis, em cujo espirito bailavam ainda pagens e castellãs n'uma chorea medieval, e em cujo coração ardiam fogos de poetico platonismo, mettemol-o á galhofa convidando-o a procurar na serra de Cintra um cabello da barba que Bernardim Ribeiro haveria arrepellado ao vêr partir a frota com a infanta D. Beatriz.

Para falar verdade, nenhum de nós tinha grande confiança na realisação de tão extravagante projecto, mas sobejou-nos motivo para o applaudir, porque durante mais de dois mezes nos forneceu alegrissimo assumpto sempre que nos juntavamos todos ou pelo menos alguns.

Deviamos partir em abril, segundo o programma primitivamente approvado em assembléa geral. Não fomos, e acreditavamos já que não iriamos, quando uma noite, noMartinho, resolvemos partir a 20 de maio.

O Vasconcellos, muito habituado a viajatas, ficou encarregado de alugar ochar-à-bancs, e elle proprio me disse á puridade que tal não faria senão á ultima hora, porque duvidava que se realisasse uma excursão dependente do accordo de dez pessoas, todas ellas mais ou menos atarefadas.

Como se tratava, porém, de um divertimento, de umapartie de plaisir, como lhe chamava o Leotte, aconteceu que, á hora marcada, apenas faltou um, o Callixto, cuja falta, aliás, foi tida como de bom agouro, visto chamar-se elle Callixto.{7}

Tivemos que esperar á porta do Passeio Publico, que era o ponto de reunião,rendes-vousdizia o Leotte, que o Vasconcellos fosse alugar ochar-à-bancs, sendo entretanto votada uma moção de censura a este nosso amigo pela falta de confiança que a communidade lhe inspirava. Eu, por estar na posse do segredo, abstive-me de votar. Um Catão!

Partimos. Aquillo foi como se todos atirassemos canseiras e trabalhos para traz das costas. Os palacios do Passeio Publico estremeceram nos alicerces, sacudidos por um tufão de alegria. A passarinhada fugiu das arvores precipitadamente, como se ouvisse troar uma peça de campanha. A policia não estava accordada ainda; se fosse um pouco mais tarde, deitava-nos a mão. E affirmava o Vasconcellos que tinha visto as figuras do Tejo e Douro dizerem-nos adeus de dentro do Passeio, muito rapioqueiras.

—Nunca, dizia o Leotte, nunca se fez umapartie de plaisirtão honesta. Nove homens... apenas!

—Querias mais! replicava o Vasconcellos fazendo-se desentendido. Não cabiam cá. Olha o pobre Gonçallinho, o nosso doce pagem, que teve de ir na almofada ao pé do cocheiro. Onde querias tu metter mais gente, ó Gonçallinho?!

—Que é lá? respondia elle do alto da almofada.

—Vaes a fazer versos?

—Ainda não. Mas já planeei um conto. Este ar de primavera é deliciosamente suggestivo. Vocês{8}verão que a minha ideia não é de todo má. Chamar-se-haA primeira entrevista.

—Has de contal-a em Cintra, gritei eu.

—Pois sim, respondeu o Gonçallinho, morto, como todos os novatos, por divulgar as suas composições.

—Em Cintra, alvitrou o Vasconcellos, sempre o mais auctoritario de todos, cada um de nós ha de contar á noite uma historia. Vá feito?

—Menos eu, protestou o Athayde, que era empregado na Junta de Credito Publico. Eu só estou habituado a contar...contos de réis.

—Isso é modestia. Não péga.

—Has de contar, intimou o Leotte, aquelle caso do principe das Caldas de Vizella, que uma noite te ouvi no Gremio.

—Ah! esse era o principe Piratinino.

—Não é um conto...de réis; mas é um conto de principe. Bem, já temos dois contos, disse eu.

—E tu, propoz o Athayde, dirigindo-se a mim, tu, que andas sempre com as mãos na massa, é que has de abrir o torneio.

—Pois seja, com a condição de que onde se lêmassase leiamaçada.

—Leia-se lá o que tu quizeres. Mas olhem vocês, observou o Vasconcellos, que é preciso matar de algum modo as noites de Cintra, que são tão grandes como as de Lamego. Em Cintra só devia haver dia. As noites são frias e humidas. Vocês o sentirão.{9}

—Queres então ouvir rouxinoes ao meio dia?

—Os rouxinoes são o menos...

—Pois não viemos nós para os ouvir?

—Nós viemos para gosar a liberdade que não temos habitualmente, e a alegria que principia talvez a fugir-nos. Viemos tomar um banho de oxygeneo. Elle é bem mau!

—Que vão vocês a dizer? perguntou da almofada o Gonçallinho.

—Foi o Vasconcellos que fez uma proposta para supprimirmos do nosso programma os rouxinoes.

—Não! nunca! protestou o Gonçallinho. De mais a mais tem vindo a dizer-me o cocheiro que os rouxinoes são aos centos na varzea de Collares.

—Tudo se póde conciliar, sentenciou o Vasconcellos. Ouviremos os rouxinoes e os contos. Mas vamos ao lado pratico do assumpto. Quantos dias se querem vocês demorar?

—Eu, cinco dias, o maximo.

—E eu.

—Vá lá, e é de mais.

—Oh! incomprehensivel alma portugueza! exclamei eu. Já estragamos a nossa alegria. Ainda não chegámos, e já tratamos do regresso! Se aqui fossem nove francezes...

—Ou quatro portuguezes e cinco francezas... reticenciou o Leotte, sempre propenso ao eterno thema feminino. Lembrem-se vocês da historia do nosso amigo conde, quando esteve nos Pyreneos. Ao menos lá não lhe faltavam mulheres!{10}

—É verdade! ó Leotte, tu has de contar a historia do conde. Tem graça! já t'a ouvi uma vez.

—Vamos ao lado pratico, insistiu o Vasconcellos. Almôço, a que horas?

—Ás onze.

—E jantar?

—Jantar ás seis.

—É melhor ás sete.

—Tratem vocês de fazer as noites pequenas. Olhem que são o peor que ha em Cintra.

—Jantaremos então ás sete.

—Isso é melhor. E de dia ou á noite, sentados em Collares, em Seteais ou nas cadeiras doVictoriremos contando o nossoDecameron, respirando um bom ar, e um pouco de alegria, pelo menos...

ODecameron! exclamou o Leotte. Sabem acaso vocês que os fugitivos dapeste negrade Florença eram sete mulheres e tres homens? Isso comprehende-se.

—Ó diabo! cala-te lá com essa chorata pelas mulheres! replicou o Vasconcellos. Póde ser que o acaso te depare em Cintra alguma boa fortuna.

—N'este tempo! objectou, desconsolado, o Leotte. Se fosse no verão!

—O verão tambem tem seus inconvenientes. Ha mais espiões, mais fiscaes da moralidade publica. Leve o diabo tristezas. Toca a divertir, rapazes.

—Olhem lá! gritou o Gonçallinho.{11}

—Que é?

—Parece-me que já architectei outro conto.

—O que é então?

—A morte do bibliophilo.

—Vejam vocês, disse o Vasconcellos, o que são os poetas portuguezes. Vae aqui um rapaz, na flôr dos annos, cheio de imaginação, em caminho de Cintra, a pensar na morte da bezerra ou do bibliophilo, que o leve!

Rimos todos. E o proprio Gonçallinho, que ouviu o reparo, desatou a rir na almofada.

Quando apeamos á porta doVictor, estavamos mais ou menos acabrunhados pela fome.

—Por S. Thiago, e aos bifes! berrou o Vasconcellos.

E o Victor, muito mesureiro, muito amavel:

—Elles hão de estar menos maus.{12}

{13}

O almôço foi uma devastação, uma hecatombe.

Dizia o Vasconcellos que assim era preciso, visto que só se tornava a almoçar... no outro dia.

Quando saímos do hotel eram quasi tres horas. O que se faria? Por onde se começaria? Os fumos capitosos do almôço accenderam brios quixotescos no espirito da maioria dos nove. A burro e á Pena! era o grito do Vasconcellos, reforçado por mais cinco ou seis vozes.

—Mas isso é a semsaboria de toda a gente! disse o Gonçallinho.

—Ó meu tolo! replicou com vivacidade o Vasconcellos. Querias talvez fazer versos com o estomago cheio de biffes! A burro e á Pena! insistiu.

Os burriqueiros, que nos tinham feito um verdadeiro{14}cêrco, largaram a correr para ir buscar os burros.

Emquanto esperavamos, dizia-me em tom de confidencia o Leotte:

—Já perguntei noVictor, e não ha lá hospeda nenhuma. Mas ha criadas, ao menos.

E d'ahi a pouco dizia-me o Gonçallinho, tambem em tom de confidencia, muito contemplativo, olhando para o castello da Pena e para o arvoredo da encosta:

—Como isto é bello!

A burricada á Pena foi, como sempre acontece, uma esturdia hilariante, cheia de episodios comicos. Quando o burro não caía, caía o cavalleiro; e as mais das vezes caíam ambos.

N'essa folia, que teve muito de carnavalesca, o tempo fugiu despercebido, as horas voaram. Ao fim da tarde, mergulhados n'um verdadeiro banho de aromas primaveris, estavamos nós sentados junto aoChalet de Madame, quando o Vasconcellos alvitrou auctoritariamente:

—Agora, sim senhor. Agora é occasião propicia de darmos principio ao nossoDecameron. Tem a palavra o sr. Fulano, como se combinou.

Era eu. Pois não houve meio de resistir.

—Ora então, senhores e...

—Senhoras não ha infelizmente! exclamou o Leotte.

—Peço attenção, que eu principio.

E principiei.{15}

—O morgado de Muxagata, ou simplesmente oMuxagata, como elle era conhecido ha vinte annos no Porto, tinha solar a onze leguas de Lamego, na aldea d'aquelle nome.

Por setembro apparecia na Foz do Douro com uma coudelaria inteira, que lhe permittia variar de cavallo seis vezes por dia. Gostava d'isso, e lisonjeava-se de que as mulheres viessem á janella alarmadas pelo tinido aspero das ferraduras nos burgaus da rua Direita e de Cima-de-Villa.

Era, de resto, um typo de classe, porque nas praias de Portugal não se perdeu ainda o molde do morgado de provincia com manhas de picador e boleeiro.

Ha sempre um para amostra.

Todos os dias ia banhar os cavallos á praia dos Inglezes, que era a menos frequentada. Gastava duas horas n'esse trabalho, e elle proprio era o banheiro dos seus animaes que, á força de acicates, acabavam por investir com a onda.

O Muxagata encharcava-se dez vezes em cada manhã desde os pés até aos hombros.

Sentia-se satisfeito com essa maçada quotidiana, que sempre attraía alguns espectadores. E todo o seu orgulho consistia em saber-se nomeado como o melhor pé de estribo e a melhor mão de rédea que ginetava na Foz.

Eu vi-o pela primeira vez na rua Direita, n'um predio fronteiro á rua Bella.{16}

Morava eu ali perto. Sabia-se que vinha para aquella casa o Muxagata, e um bello dia começaram a chegar criados e cavallos. No outro dio chegaram cavallos e criados. No terceiro dia chegaram criados, cavallos, e palha.

Ao quarto dia correu voz de que chegaria o morgado.

Os criados e criadas, todos elles atexugados de bom presunto da Gralheira, fizeram o jantar para s. ex.ª

Mas s. ex.ª não chegou.

No dia seguinte fez-se novo jantar para s. ex.ª

E s. ex.ª não chegou ainda n'esse dia.

O grande Muxagata principiava a ser um mytho para muitos banhistas da rua Direita e travessas affluentes.

Chega o Muxagata! Não chega o Muxagata! Á noite, os criados, vendo que o patrão já não chegava n'esse dia, comiam o jantar que estava preparado para elle.

Passou assim uma semana.

Na segunda-feira seguinte sentiu-se ruido á porta do Muxagata. Foi muita gente ás janellas. Não era elle, mas um novo cavallo que chegava. Uma belleza de estampa, que os criados estavam admirando em circulo á porta da cocheira. Soube-se a historia do animal. Muxagata já estava no Porto, e havia comprado aquelle bello exemplarpur sangao Côrte Real de Traz da Sé por tresentas libras.{17}

Finalmente, á noite, chegou o Muxagata com o Henrique da Perzigueda e outros amigos. Vinham a pé, todos de esporas e chicote. E antes de subir, foram á cocheira examinar os cavallos.

Vi o Muxagata. Era alto, forte, moreno: farto bigode preto, e pera. Foram jantar. O Ricardo Brown, o Côrte-Real e outrossportmencaíram logo lá. Depois do jantar, houve jogo. Sentia-se tinir dinheiro. Era omonte. Muxagata, depois das libações do jantar, gostava de fazer o seu berlote.

Aquillo devia ter acabado noite velha. No dia seguinte, ás 7 horas, já o Muxagata estava na praia dos Inglezes a dar banho aos cavallos.

Varias pessoas foram vêr. Outras deixaram-se ficar na praia do Caneiro á espera dos dois melhores espectaculos que osmironesapanhavam: o banho do fidalgo Padilha, que entrava no mar preso por uma corda, e o banho da Cacilda, filha do banheiro Leão, que nadava para o mar largo.

Foi pelo Henrique da Perzigueda, o qual eu vi morrer annos depois n'um sótão da rua de S. João Novo, que travei relações com o Muxagata.

Eu tinha os meus dezoito, e lisonjeava-me de que o Muxagata, a flôr dossportmenda Foz, me tratasse mano a mano.

Quando elle descia a cavallo a explanada do Castello, sendo admirado no seu garbo de cavalleiro pelos hospedes doHotel da Boa Vista, dizia-me adeus com o chicote, e eu parava muito{18}ancho, dando-me ares de entendedor, até o vêr exhibir-se no Passeio Alegre, em frente da casa acastellada dos Maias da rua das Flores, porque ahi era certo passar ás upas.

Havia sempre senhoras no balcão de pedra, que tinha um toldo listrado de branco e escarlate.

Mezes depois correu fama de que o Muxagata havia raptado uma menina de Lamego. Falava-se que os irmãos d'ella o queriam matar. Mas não morreu ninguem. Em todo o caso o Muxagata deixara o seu solar e viera estabelecer residencia no Porto, na rua das Fontainhas, com a sua bella raptada. A historia do rapto augmentára-lhe a nomeada de fidalgo extravagante. Algumas vezes vi o Muxagata a cavallo ao lado da famosa lamecense, vestida de amazona. Iam ordinariamente á Foz por Lordello do Ouro; voltavam por Miragaia.

Quando recolhiam ao cair da noite pela rua das Flores, os lojistas, sentindo o tropel dos cavallos, vinham á porta. O escandalo d'aquella mancebia publica indignava-os; não obstante, cumprimentavam risonhamente o Muxagata, que era bom freguez dos ourives e dos mercadores de pannos.

Na casa das Fontainhas havia batota todas as noites. Criados de casaca e lenço branco serviam o chá. D. Christina, a bella de Lamego, jogava como um homem entre os homens.{19}

Saltavanos valetes, efazia cercoás quinas.

Ella odiava os valetes, dizia. Na sua confiança nas quinas mostrava-se uma boa portuguesa de Lamego.

Vestia bem: rendas, flores e joias. As joias explicavam os cumprimentos dos ourives da rua das Flores ao Muxagata.

Usava o cabello apartado ao lado, com duasbellezas. Chamava-sebellezasaos anneis de cabello empastados sobre a fronte. Coisa tentadora, que desappareceu da circulação.

—É verdade! obtemperou o Leotte.

Prohibiram-lhe que interrompesse.

O pó de arroz, continuei eu, era ainda considerado como umdebochedetoillette. D. Christina punha muito pó de arroz na face, no collo e nas mãos, especialmente nas mãos.

Tinha predilecção pela essencia de violeta. Ora os perfumes eram n'aquelle tempo outrodebochedetoilette. As mulheres não cheiravam a nada ou cheiravam mal.

Podem vocês admirar-se de que uma mulher de Lamego se avantajasse dez annos ás outras portuguezas emmise-en-scènedecoquettismo. D. Christina tinha pendor natural para a vida espectaculosa. Estas aberrações não são das terras; são dos temperamentos. Uma patricia dos presuntos de Lamego póde nascer tãocoquettea dois passos da serra da Gralheira, quanto uma creatura{20}nascida entre os jardins de Harlem póde sair brutalmente apresuntada por fóra e por dentro.

De mais a mais o Muxagata, tendo-lhe conhecido a bossa, desenvolvera-lh'a. Educára-a como amante. O idillio de contrabando precisa ganhar em aperitivos acirrantes o que naturalmente lhe falta em tranquillidade sincera. As amantes são actrizes de um palco em que se representa a comedia do amor; as esposas são as sacerdotisas de um culto domestico, que se faz valer por si mesmo. A differença é grande. D. Christina tomava a sério o seu papel de actriz, e esforçava-se por que nos applausos do publico entendido reconhecesse o empresario a conveniencia das aptidões theatraes da artista.

Rodaram mais dois annos.

A casa da rua das Fontainhas continuava a ser orendez-vousdos estroinas do Porto. Falava-se de perdas e lucros fabulosos na batota do Muxagata, que fazia concorrencia á do D. Marcos. Muxagata galeava ainda o mesmo luxo de cavallos, em competencia com o Ferreirinha; e a mesma pompa de fatos exoticos á porfia com o Ricardo Brown, porque ambos appareciam ás vezes de collete vermelho com botões de ouro.

Dizia-se porém que a casa de Muxagata estava empenhada. O milho, sua principal colheita, não chegava para tanto. O vinho não era muito. Legumes, hortaliças, amendoas, sumagre, eram em{21}grande quantidade, mas produziam pequenas receitas. A casa cobrava muitos fóros, n'uma e outra margem do Douro, desde Lamego até Entre-ambos-os-rios, mas andavam atrazados.

Um dia deu-se pela falta do Muxagata. Correu que tinha ido apurar rendimentos, que se ficavam por mãos de caseiros e foreiros remissos. Assim fôra, effectivamente. O Muxagata estava no seu solar ou por ahi perto. D. Christina continuava a habitar a casa da rua das Fontainhas. Não saía a pé nem a cavallo.

Pelo tempo das colheitas a minha familia ia para uma quinta no concelho de Sinfães. No fim de setembro fazia-se a feira do Escamarão, que mettia os pimpões de muitas leguas em redor: o Nascimento pae, o Tameirão, o fidalgo da Cardia, o José Ignacio de Covas, e outros.

Eu tinha que matricular-me nas aulas do Porto. Propunha-me estudar introducção aos tres reinos, da natureza, como então se dizia, com o dr. Almeida Pinto. Fui para a feira, e d'ahi devia embarcar para o Porto, em companhia do meu condiscipulo Alfredo Leão.

A feira abrira muito animada. O feminino montesinho concorrera em abundancia. De morgados havia para cima de um quarteirão. E de ourives do Porto estavam armadas sete barracas. Comia-se, bebia-se, batoteava-se á grande. As melancias tinham, como refresco, um consumo extraordinario. O regedor Antonio Pedro, emquanto os{22}cabos de policia dormiam á sombra das arvores,micavano rei.

Creio que foi o Tameirão que deu a boa nova de que o Muxagata estava na feira. Disseram-m'o. No meio da minha tristeza por ter que partir para o Porto, agradou-me a noticia. Fui procural-o.

—Que sim; que estava ali para cima a jogar.

—Mas que veiu elle cá fazer?

—Anda aos fóros. Quer dinheiro.

N'isto fui abruptamente interrompido pelo Vasconcellos:

—Meninos, apostrophou elle, olhem que a Pena já começa a pôr o seu barrete de nevoa. É atoilettede noite. Vamos indo para baixo. Depois de jantar se acabará o conto.

—Depois de jantar vamos ouvir os rouxinoes, atalhou o Gonçallinho.

—Isso é lá como quizerem. Que não esqueça o fio da historia. O Muxagata estava na feira e queria dinheiro—como eu.

—Como nós todos! gritaram uns poucos.

—A burro e ao jantar! commandou o Vasconcellos.{21}

—Ó filho! pelo amor de Deus! deixa os rouxinoes para ámanhã, dizia o Vasconcellos, depois de jantar, ao Gonçallinho Jervis.

—Aqui da janella não se ouve nenhum! Já estive á escuta.

—Pudera! Imaginavas então que uma tão poetica ave principiava a amar logo depois das ave-marias, como um caixeiro que fecha a loja e vae metter-se n'uma escada a gargarejar para defronte! Tem juizo, Gonçallinho. Para irmos a Collares ouvir os rouxinoes, precisavamos ter prevenido os trens. Deixa isso para ámanhã, e vamos á historia do Muxagata.

Assim foi resolvido por unanimidade... menos um. Era o Leotte, que foi á cozinha recommendar que lhe puzessem lamparina no quarto: pretexto para ver as criadas doVictor.{24}

—Vamos lá ao conto, ordenou o Vasconcellos: o Muxagata estava na feira.

—Estava effectivamente na feira, continuei, jogatinando com outros morgados e alguns lavradores ricos de Castello de Paiva e Arouca, n'uma casa humilde do Escamarão, que não as ha lá melhores.

Como o jogo nivella todas as condições, os nobres e os ricaços abancavam em familiar camaradagem, como se a uns valesse o direito do nascimento, e a outros o do ouro. As mãos de todos elles eram grandes e queimadas do sol ou do cigarro. Lembrei-me, de repente, das mãos finas e brancas de D. Christina, polvilhadas de pó de arroz. Que falta que ellas faziam ali, as mãos de Christina, para brilharem pelo contraste no meio d'aquelle enorme conflicto de manapulas de granadeiros, que ora se estendiam semeando dinheiro, ora se retraíam recolhendo-o!

E pelo meu espirito passou a idéa de que o Muxagata nem por sombras se lembrava, n'aquelle momento, das mãos patriciamente batoteiras da sua bem amada de Lamego.

Fui injusto.

Uma hora depois, Muxagata punha ponto no berlote. Levantava-se da banca, que por tal signal era de pinho, ganhando cerca de setenta libras. Varios lavradores e outros morgados haviam perdido o valor das suas juntas de bois e das suas varas de porcos. Quasi todos elles, os{25}morgados e os lavradores, estavam congestionados das repetidas commoções do jogo. Mas o sorriso triumphal dos felizes principiava a calmar-lhes as feições perturbadas. O Muxagata estava n'este caso. Irradiava-lhe na face o lampejo aureo de setenta libras.

Foi depois de acabada a jogatina que elle me deu maior attenção. Perguntou-me se me demorava na feira ou se recolhia á noite. Disse-lhe que, a meu pesar, partia duas horas depois para o Porto, por causa das matriculas.

—O que?! exclamou elle. Você vae para o Porto?!

Os seus olhos accusavam uma certa satisfação, que esta noticia lhe causára.

Respondi affirmativamente.

—Muito bem. N'esse caso ha de fazer-me um favor: levar quarenta libras á D. Christina, que, coitada! deve estar muito precisada de dinheiro. Mas, meu rapaz, pontualidade de cavalheiro: as quarenta libras serão entregues logo que você chegue ao Porto. E em tom de maior confidencia: Eu suspeito até que ella e a pequena (referia-se a uma filhinha de dois annos) não terão tido que comer.

Esta revelação causou-me triste surprêsa: caiu como um raio fulminador sobre as roseas illusões que eu nutria relativamente ao romance dos raptos.

Pois que?! pensei. É então para não ter talvez que jantar que uma mulher, bem nascida e formosa, abandona o seu farto lar paterno, perdendo{26}todo o direito á estima da familia e ao respeito da sociedade?! Os poetas d'aquelle tempo costumavam dizer:—«O teu amor e uma cabana». Mas a realidade parecia ir muito mais longe do que os poetas, porque, comquanto a casa das Fontainhas não fosse propriamente uma cabana, o que era certo, pela inesperada revelação do Muxagata, era que não havia lá que comer! E depois se eu não tivesse apparecido ali n'aquelle dia e n'aquella hora, D. Christina e a filha ver-se-iam condemnadas a soffrer por mais algum tempo ainda as suas duras privações?! E o esplendor da casa das Fontainhas, os criados de casaca e lenço branco, os cavallos do passeio até á Foz, as joias e as rendas de D. Christina era tudo isso a mascara ficticia da pobreza, o ouropel postiço da ruina, que esperava os acasos felizes da batota para ter pão na mesa e pó de arroz nas mãos?!

Eu estava assombrado por todos estes pensamentos que em tropel se precipitavam no meu espirito, e não sabia se devia rir-me da comedia do mundo, se chorar das desgraças e dos raptos alheios.

Á hora marcada, o barco rabello do Ramiro descia mansamente o Douro e abicava ao areio do Escamarão. Alfredo Leão fazia as suas despedidas. Eu recebia as quarenta libras do Muxagata, e saltava para dentro do barco. Momentos depois o lenho daespadellarangia, os remos chiavam{27}na madeira secca das cavidades que n'aquella especie de barcos substituem as forquilhas, e nós desciamos o Douro deslisando sobre a grande serenidade das aguas, que montanhas áridas e alcantiladas marginavam silenciosamente.

Impressionou-me o contraste d'essa placidez austera com a realidade turbulenta das paixões humanas.

E quando a noite começou a cair dos cerros alterosos, que rara casa branca povoava, eu tinha envelhecido moralmente vinte annos.

Chegamos ao Porto cerca da meia noite. Desembarcamos no caes da Ribeira, que nunca me pareceu mais triste do que n'essa hora. Subimos os dois a rua de S. João, entramos na rua das Flores, ambos muito solitarios, mas ao chegarmos ao largo da Feira de S. Bento encontramos dois estudantes do lyceu que, tendo andado á tuna, se dirigiam viciosamente para a batota do D. Marcos em Cima de Villa. Convidaram-nos a seguirmol-os. Eu alleguei que tinha de ir á rua das Fontainhas entregar o dinheiro a D. Christina.

Responderam-me que áquella hora já D. Christina estaria, como todas as mulheres, raptadas ou não, dormindo profundamente n'um poço de virtude.

Que embora, respondi. Iria bater á porta para lhe levar o ouro da perdição.

Pois sim, que fosse, mas que não me custava nada passar cinco minutos pela batota do D. Marcos.{28}

Fomos. Do dinheiro que eu tinha para despêsa de matriculas, livros e hospedagem, perdi quatro mil réis instantaneamente. Fiquei sobreexcitado com a perda; sedento de desforra. Tive, confesso-o, o pensamento de ir jogando todo o dinheiro que trazia até abrir brecha na banca. Queria uma vingança formidavel. Mas quando eu estava n'esta tortura, hesitante entre a febre e a honra, um braço invisivel, fosse o pulso do anjo da guarda ou o impulso da consciencia, como que me arrastou para fóra, não sem que os pés se me pegassem ao soalho.

Nunca me custou tanto ser homem de bem.

Corri á rua das Fontainhas. Surprehendeu-me vêr luz na escada e nas janellas. E dizerem os outros que D. Christina dormiria áquella hora como um poço de virtude! Bati. Um criado de casaca e lenço branco, o Miguel, veio abrir.

Que sim, que a senhora estava a pé, ceando, e que tambem lá estava o sr. Antonio Falcão, do Marco.

Embuchei. Pois a indigencia que o Muxagata me havia annunciado refestelava-se, depois da meia noite, n'uma ceia a dois, servida pelo Miguel de casaca e lenço branco?!

Pois as consequencias deploraveis do rapto, o quadro negro da fóme transmudavam-se n'essa orgia de bacchante perdularia, em que o Antonio Falcão do Marco era conviva suspeito?!

E emquanto subia as escadas envelheci moralmente outros vinte annos.{29}

A mesa da ceia resplandecia de loiças e cristaes. As joias de D. Christina não resplandeciam menos do que os cristaes e as loiças. E ella propria, na sua belleza acirrante, resplandecia mais que tudo aquillo.

Disse-lhe eu que era portador de uma encommenda para ella. Não ousei, por uns restos de pudor, dizer que a encommenda eram quarenta libras. D. Christina perguntou quem mandava a encommenda. Esta pergunta foi a minha ultima surpresa. De quem poderia ella esperar encommendas depois da meia noite? Ri-me para dentro, não obstante parecer-me que a pergunta, sendo muito melindrosa para o Muxagata, não o deixava de ser tambem o seu tanto ou quanto para mim.

Que era o morgado quem mandava... aquillo.

D. Christina não levou a sua impudencia até ao ponto de perguntar qual morgado era esse. Entendeu ou fingiu entender que seria o Muxagata.

—Como está elle? perguntou.

Eu respondi com alguma atrapalhação, que parecia troça:

—Bom. Muito obrigado.

E, do lado, o Falcão do Marco:

—Esse diabo de homem já se não lembra de nós, nem da filha! Nunca vi uma cabeça assim! Em tendo cartas epontosnão quer saber de mais nada! Pois já tinha motivos para ter juizo! Nem uma carta tem escripto á D. Christina, que estaria{30}para aqui sósinha com a pequena, se não fosse eu!

Levantei-me, puz as quarenta libras, descaradamente, á borda da mesa, sobre a toalha.

—Ah! é dinheiro! disse D. Christina cortando esquirolas de marmellada.

—São quarenta libras, respondi.

—Pois então faça-me o favor de lhe mandar dizer que ficaram entregues.

—Perdão! repliquei com certa rudeza. A sr.ª D. Christina vae escrever isso mesmo n'um bocado de papel, que eu mandarei ao morgado.

—Sim... farei isso. Mas primeiro acompanhe-nos a cear.

Agradeci, rejeitando. Então D. Christina disse ao Miguel que lhe trouxesse papel e lapis. E escreveu em lettra de collegial:

Recebi as quarenta libras.

Tua do coração

Christina.

Mais nada.

Saí, e respirei com soffreguidão a brisa fresca do Douro, que soprava do Passeio das Fontainhas. Uma tenue nebrina emplumava as arvores que ladeiam a rua. E eu, de mãos nas algibeiras, entregava-me dolorosamente, calçada acima, a esta cruel philosophia: «Onde hei de ir arranjar os quatro mil réis que perdi?!»{31}

Soube pela manhã que os outros tinham continuado a jogar, e ganharam.

Ora no decurso de dois annos succederam cousas que seriam espantosas se não fossem humanas.

D. Christina passou definitivamente do Muxagata, quando o sentiu irremediavelmente arruinado, para o Falcão do Marco, que por sua vez se arruinou tambem.

A lei de 1863 extinguiu os vinculos em Portugal, mas os ultimos exemplares da raça privilegiada dos morgados ainda hoje florecem, entre as Christinas indigenas, nas praias de Portugal, em proesas tradicionaes de batota, de femeaço e de gineta.

No inverno os mais d'elles desapparecem no fundo dos seus solares cultivando as batatas, que no verão seguinte hão de resuscital-os. O morgado nacional, depois que a phylloxera lhe comeu as vinhas, ficou reduzido ás batotas.

Mas o Muxagata foi a phylloxera de si mesmo: comeu logo de uma vez as vinhas e as batatas. Como todo o bom morgado, conservou, ainda na pobreza, o seu enthusiasmo pela equitação. E não tendo já cavallos para montar, cavalgava, ao longo dos vastos corredores no ruinoso solar de Muxagata, n'um cabo de vassoura. Um bello dia morreu, e não foi por desastre do seu ultimo cavallo... de pau.

Finis, laus Deo, perorei.{32}

O Leotte, que tinha voltado á sala e ouvido o final da historia, perguntou:

—Da D. Christina nunca mais soubeste!

Expludiu uma gargalhada geral.

—Olá! exclamei. Que novas nos trazes da tua exploração?

—Por ora... nada. Mas opportunamente farei o meu relatorio.

—Pois o mesmo não posso eu prometter a respeito da D. Christina. Nunca mais soube d'ella.

—E da filha o que foi feito? perguntou sentimentalmente o Gonçallinho.

—Tambem não sei. Se viver deve ter agora os seus dezenove annos.

—Como era o nome todo do Muxagata?

—Nunca lh'o soube. Por morgado de Muxagata era que toda a gente o tratava.{33}

—Então, se não vamos ainda hoje ouvir os rouxinoes, tambem eu quero contar o meu conto, disse o Gonçallinho Jervis.

—Sim, senhor, concordou o Vasconcellos.

—Mas qual dos dois contos que nos annunciaste pelo caminho? perguntou o Athayde.

—A Primeira entrevista.Tenho porém a prevenir o respeitavel publico, para evitar uma pateada, que o meu conto, ao contrario da historia do Muxagata, não aconteceu nunca. É uma phantasia que só poderia ter-se dado no paiz azul dos sonhos...

—Ditosa idade em que se pensam essas tolices! exclamou o Vasconcellos.

—Mau! protestou o Gonçallinho.Se ralhas, não conto.{34}

—Tem a palavra o poeta, que poderá sonhar á vontade sem que ninguem o interrompa.

Fez-se silencio. E o Gonçallinho, romanescamente, depois de ter mettido os dedos pelo cabello para levantar a gaforina, usou da palavra:

—Custou muito—disse, elle—a planear a primeira entrevista. Era preciso illudir a vigilancia de tanta gente, inventar tantas mentiras, saltar por cima de tantos embaraços! Mas, finalmente, o programma, laboriosamente organisado, tinha sido acceito pela credulidade das pessoas que se lhe poderiam oppôr. Ainda assim, Fanny não ficou inteiramente tranquilla. Durante os dias que medearam entre o da elaboração do programma e o da entrevista, andava desconfiada, escutava pelos corredores receosa de que falassem d'ella, parecia-lhe ouvir dizer o seu nome e cochichar depois em segredo... O olhar das pessoas de familia incommodava-a, como se todas essas boas pessoas tivessem realmente a intenção de observal-a por desconfiança, de lêr-lhe nos olhos esse audacioso plano de uma entrevista no campo.

É verdade que ao mesmo tempo que se sentia atormentada de receios, de vagos sobresaltos, pensava na delicia d'esse primeiro dia de liberdade no amor, sem testemunhas, sem disfarces, sentada comElleá sombra das arvores, ouvindo cantar os passaros a sua canção de estio, vendo doudejar no ar as borboletas de grandes azas coloridas,{35}cujo vôo independente tantas vezes ambicionára...

Mas se um obstaculo imprevisto sobreviesse! Quanto esta ideia terrivel a amargurava! A doença de uma pessoa de familia, a carruagem que podia faltar, a chuva que poderia vir n'esse dia... Como isso era horrivel! Mas Fanny lembrava-se, para tranquilisar-se, de que a fortuna ajuda os audazes e de que, como premio á sua audacia, ouviria finalmente cantar os passaros a sua canção de estio nas grandes arvores sombrias.

Toda a base do seu programma era essa velha desculpa, sempre acreditada, a doença de uma antiga companheira de collegio, que está a ares no campo, e á qual se quer dizer o ultimo adeus.

Fanny tinha effectivamente uma amiga de collegio, que estava tysica, e como as duas familias se não visitavam, o pretexto pareceu-lhe excellente, o segredo não viria a descobrir-se.

Mas se a pobre doente morresse antes do dia marcado para a entrevista? O egoismo dos felizes não conhece limites: que morresse no dia seguinte, e tudo seria pelo melhor. Morrer antes, deixar de soffrer menos alguns dias, nem por pensamentos Fanny o queria admittir. E todavia, no collegio, as duas amigas haviam sido muito dedicadas, mas o tempo passára e só de longe a longe, de anno a anno talvez, se lembravam uma da outra.

Com o coração de oratorio, como um condemnado{36}que treme de todas as sombras, que tem medo do rumor de todos os passos, Fanny esperou que esse desejado dia chegasse.

Dormiu mal, somnos curtos e agitados. Parecia-lhe ouvir assobiar o vento nas ruas, bater a chuva nas vidraças. Um temporal seria o maior de todos os contratempos: não a deixariam sair, e, se deixassem, o campo estaria encharcado, o idillio perderia muito do seu encanto, não poderiam sentar-se os dois debaixo das velhas arvores ouvindo cantar os passaros a sua canção de estio.

Mas, ó felicidade! tão certo é que a fortuna protege os audazes: o dia amanhecera esplendido, o sol brilhava no céu como um rubi, e o calor do estio começava a cair como o halito ardente de uma forja.

Primeiro dia de liberdade no amor! tu és tão saboroso como a guloseima que o collegial devora em segredo na sombra de um corredor ou n'um recanto da cêrca. Tu és o fructo prohibido em que podemos finalmente saciar a nossa voracidade de Tantalos famintos.

A carruagem chegára a horas, a familia, já disposta de ante-mão, não oppuzera obstaculos. Fanny descera unicamente acompanhada de uma antiga criada, que fôra sua ama de leite, e quando entrou na carruagem nem sequer fez reparo n'esse pequeninogroomde cabello louro, faces rosadas, que com os olhos postos no chão, n'uma attitude{37}reverente e humilde, se não era hypocrita, lhe abrira a portinhola do trem.

Fôra elle, o pequeninogroomlouro e rosado, que lhe acommodára a orla do vestido dentro docoupée que, fechando-o cuidadosamente, esperára, sempre de olhos postos no chão, ouvir a ordem da partida.

O coração de Fanny batia como o de um canario agarrado na mão de uma creança. Ella não via, não ouvia, disse aogroom, sem fazer reparo n'elle, uma palavra. Ogroomsaltou para a almofada com a ligeireza que só as azas podem dar, e a carruagem partiu n'um trote largo, rasgado, batido.

As arvores da estrada principiavam correndo aos lados do trem, fazendo os seus cumprimentos n'uma alacridade funambulesca. As arvores pareciam alegres, trocistas, ironicas, como se estivessem de posse d'aquelle doce segredo. Fanny, vendo-as passar rapidamente, cuidava ouvir-lhes dizer:

—Mil felicidades, excellencia...

E córava de pejo, engolfada em maviosos pensamentos, sem haver trocado com a sua velha ama uma unica palavra sequer.

Os passaros cantavam n'uma estridula folia matutina, e toda essa onda de alegria musical parecia inundar o coração feliz de Fanny, enchendo-o de canticos festivos, que resoavam como n'um ecco interior.{38}

Ao cabo de hora e meia de caminho a carruagem parára, não á porta da quinta onde a amiga de Fanny agonisava, como ella por disfarce dissera aogroomao sair de casa, mas á porta de um velho castello desmantelado, a que se seguia um parque extenso, coberto de grandes arvores sombrias, onde os passaros cantavam em liberdade a sua canção de estio.

Era o logar da entrevista.

E Fanny, vendo parar ahi a carruagem, e apear-se ogroom, sempre com a ligeireza de um genio alado, rosado e louro, com os olhos postos no chão, teve uma vaga suspeita de que essegroom, que ella só agora vira, fosse um confidente encarregado expressamente por Edmundo de desempenhar tão alta missão de confiança.

E, emquanto ella descera, ogroom, n'uma attitude sempre reverente e humilde, com a mão na portinhola do trem, ajudara-lhe a desprender do estribo a orla do vestido branco e fresco, ligeiramente mosqueado de pequeninas flores de myosote, azues e microscopicas.

Uma deliciosa serenidade alegre alastrava-se por todo o parque n'uma solidão encantadora. Dir-se-ia que o fim do mundo era ali e que, dados mais alguns passos, por detraz das ultimas arvores do parque, deveria o ceu pousar na terra.

Edmundo lá estava no seu posto, fazendo sentinella á sua propria felicidade e, quando Fanny chegou, a arvore que o abrigava como que distendeu{39}os seus longos braços verdes para envolver tambem na mesma sombra o corpo de Fanny.

A velha criada afastou-se, moendo o tempo na contemplação das flores campestres e da larga cóma das arvores, ora dobrando-se, ora olhando para cima, e de vez em quando um melro velhaco—era decerto um melro—zombava da ignara situação moral d'aquella mulher desfeiteando-lhe o asseio do seu antigo chapeu de palha de Italia.

Uma ironia de melro!

Á sombra da grande arvore, que tinham escolhido, Fanny e Edmundo, enleiados pela cintura, bebiam a pequenos goles de liberdade a sua primeira taça de amor e, quando erguiam a taça aos labios, estalava-lhes na bocca um beijo demorado.

As horas passaram rapidamente, a velha criada já não tinha mais hervas que reconhecer, mais arvores que observar, e os proprios melros estavam aborrecidos de troçal-a.

Era preciso partir, o sol declinava, a tarde fugia. Mais um gole colhido nos labios, mais um beijo que se arrastava n'uma extensa melodia amorosa.

Finalmente, Fanny pôz o pé no estribo da carruagem e ogroom, rosado e louro, com um olhar altivo, triumphante, abriu-lhe, de cabeça erguida, a portinhola docoupée, quando a fechou, antes de subir para a almofada, pousou o dedo pollegar da mão direita sobre a ponta do nariz e espalmou a mão no ar, agitando os dedos.{40}

Era o Amor, disfarçado emgroom, que celebrava a sua victoria como um gaiato de collegio.

—C'est gentil!exclamou o Leotte.

—Bravo! mavioso Gonçallinho! conclamaram sete vozes.

E o Vasconcellos, logo reposto nas suas funcções austeras de dirigente, advertiu a assembléa de que onze horas e cinco minutos eram tempo muito conveniente para que em Cintra cada um pensasse em dormir.

—Onde estará ogroomda tua ballada, ó Gonçallinho? perguntou o Leotte.

—Nos intermundios de Epicuro... respondeu o Athayde.

—Em cascos de rolhas... commentou o Vasconcellos.

—É que eu queria, concluiu o Leotte, que elle viesse accender-me a lamparina do quarto.

E, rindo, cada um de nós foi para a cama—ás onze e dez, noite velha no paraiso de Cintra, a 20 de maio.{41}


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