VNo dia seguinte, quando saímos dohoteldepois de almoço, era quasi uma hora da tarde.Convencemo-nos mais uma vez de que não ha nada tão bom para gastar o tempo... como não ter nada que fazer.Fomos a Collares, em burro. Só o Leotte pediu licença para ficar. Concedida;—sob condição de que daria conta ás côrtes do uso que fizesse d'esta auctorisação legal.—O Leotte traz grande empresa entre mãos.—Empresa de cozinha, que póde esturrar-se facilmente.—Saberemos depois... dizia o Vasconcellos, fustigando as orelhas do burro rebeldemente ronceiro.A varzea de Collares estava realmente encantadora n'aquelle dia. Pairava no ar uma serenidade{42}saturada de bucolismo e de limpidez campestre, capaz de inspirar idillios á alma de um agiota. As arvores floridas perfumavam o ambiente. As aguas do rio das Maçãs dormiam como a superficie de um espelho. Passaros cantavam entre o arvoredo, mas não eram certamente rouxinoes, o que desesperou o Gonçallinho Jervis.Fomos seguindo para o mar, na direcção do Cabo da Roca. Muitos rapazitos de Collares acompanhavam-nos, correndo, pulando adeante de nós. Iam na esperança de que quizessemos vel-os descer pela Pedra de Alvidrar, como aconteceu. A mim horrorisou-me vel-os deslisar ao longo d'esse rochedo empinado, que mergulha no mar; a cada momento me parecia que os pés ou as mãos lhes faltariam, e que, n'um abrir e fechar d'olhos, elles desappareceriam entre a espuma das ondas, que ali se despedaçam com estrondo.Tambem fomos vêr o Fojo, esse grande funil de rocha bruta, que communica com o mar, cujo estampido sinistro exerce em nós uma estranha influencia de repulsão.Foi bello todo esse passeio através de uma região encantadora, onde ninguem nos incommodava n'aquella occasião, e onde insensivelmente tudo haviamos esquecido de quanto nos pudesse n'este mundo dar cuidado ou desgosto.—O tolo do Leotte perdeu isto!—O que térá elle feito?!{43}Soubemol-o depois, quando recolhemos ao Victor, noite fechada.—Foi um achado! exclamou elle, mal que nos viu.—Então?—Isso é para depois. Durante o jantar, nem palavra, por causa dos criados, ouviram?—Está dito.Quando, findo o jantar, viemos para o salão do Victor, soubemos que o nosso amigo Leotte tinha descoberto nohoteluma criada originalissima.—Uma fidalga extraviada do grande mundo! disse-nos elle.—Como assim?!—Chama se Maria de Alarcão, está aparentada com muitas familias nobres do paiz, e viu-se reduzida, pela pobreza que herdou de seu pae, um tal D. Alvaro, a ser criada de todas as suas primas e primos, que venham hospedar-se no Victor.—Mas quem é então esse D. Alvaro?—Morreu. Perguntei-lhe se sabia os nomes dos avós, e ella respondeu-me que os seus avós tinham sidogentis guerreiros.—E ella respeita as cinzas de seus avós?—Ella estava-me contando a sua triste historia, quando outra criada a veiu chamar, gritando: ó Rosa! ó Rosa!—Então é Maria, e chama-se Rosa?—Essa pergunta fiz eu a mim proprio. Mas{44}ella, de relance, percebendo a minha surprêsa, explicou que Rosa era o seu nome de guerra, e D. Maria de Alarcão o seu nome de familia.—Eis o que tu apuraste em todo o dia!—E já não foi pouco. Talvez que vocês tenham achado muitas criadas cujos avós fossemgentis guerreiros!...—Para isto, exclamou o Vasconcellos, deixou este tolo de ir passear a Collares!—Estou vendo, disse eu, que a tua Rosa é tanto Alarcão como era principe aquelle heroe, da historia que sabe o Athayde, que appareceu nas Caldas de Vizella.—É verdade! quero ouvir a historia do Athayde, observou imperativamente o Vasconcellos. Meus senhores, está aberto oDecameron.O Athayde fez-se algum tanto rogado, mas contou:—Era um domingo calmoso de agosto. Todos os hospedes doHotel do Padre, nas Caldas de Vizella, estavam sentados á sombra do parque dohotel, conversando, lendo, jogando,flirtando. Nenhum d'elles ousára ir á estação esperar o comboio. Os passarinhos, se não pudessem encontrar um doce refugio nas arvores marginaes do rio Vizella, cairiam do ceu assados e depennados. Com uma soalheira d'aquellas, não havia nada que apetecesse tanto como o descanso e a sombra.De repente ouviu-se o silvo da locomotiva.—Lá{45}chegou o comboio!—Pois deixal-o chegar!—Quem vier, cá virá ter. Vinte minutos depois, paravam á porta dohotelduasamericanas, poeirentas e escanceladas. E um sujeito de fato de flanella branca, chapeu branco, acompanhado por uma senhora da sua idade—vinte e quatro a vinte e cinco annos—, atravessou olympicamente o parque dohotelsem cumprimentar ninguem. Da segunda carruagem apearam-se duas criadas e dois criados, com pequenas malas na mão.Este acontecimento causou certa sensação entre os hospedes doHotel do Padre, visto não haver acontecimentos de maior polpa.—Quem será isto? perguntava-se.—É um principe! dizia ironicamente um janota de Guimarães.—Um principe e uma princeza, acrescentava do lado um banqueiro portuense.—Com os respectivos veadores e damas, observou bonacheironamente o padre José Maria, que possuia uma graça simples, quasi patriarchal, e que era um dos hospedes mais estimados nohotel.Depois, emquanto a sombra caía das arvores, todos continuaram conversando, lendo, jogando,flirtando.Á hora do jantar, a princeza e o principe foram vistos já sentados á cabeceira da mesa, silenciosos e graves. Os seus dois criados, de casaca, postados por detrás da cadeira doprincipe{46}e daprinceza, conservavam-se immoveis como estatuas.Todos os outros hospedes, que iam chegando, trocavam entre si sorrisos, olhares de intelligencia. Padre José Maria arregalou os olhos, franziu o beiço, sentou-se. As senhoras diziam segredos umas ás outras. Os homens, de vez em quando, arriscavam em voz alta uma allusão disfarçada.Findo o jantar, oprincipee aprincezalevantaram-se; os seus dois criados, muito direitos, arrastaram-lhes as cadeiras. Não cumprimentaram ninguem.Então a galhofa expludiu, os epigrammas estalaram. Padre José Maria teve pilhas de graça. Um hospede aventou a idéa de que se pedisse o registo dohotelpara saber-se o nome do recem-chegado. Veio o registo. Dizia simplesmente isto:Commendador Piratinino e sua esposa.—Pois, srs., observou padre José Maria, é mais a salsa que o peixe!Riram todos, e novos epigrammas rebentaram n'uma grande hilaridade desenfadada.Mas o janota de Guimarães teve uma lembrança feliz: que em tom de confidencia se dissesse aos criados do hotel que o commendador Piratinino era nada mais e nada menos que um principe disfarçado.—E Piratinino é um bello nome para principe! observou uma senhora.{47}—Principe... de magica, pelo menos, acrescentou alguem.—Mas se nos perguntarem d'onde o homem é principe, que responderemos?—Que é principe da Ribária.—E onde ficará geographicamente a Ribária?—Sim... isso...—A Ribária ficará na peninsula dos Balkans, entre a Rumélia e a Bulgária, se quizerem. Nas Caldas de Vizella pode haver tudo, menos um mappa da Europa. Ninguem irá verificar; soceguem.—Magnifico!—Maravilhoso!Ficou tratado que Piratinino era o principe da Ribária, e que a Ribária ficava nos Balkans. Dois minutos depois, fazia-se a revelação aos criados, pedindo-lhes a maxima reserva, para não comprometter oincognitodo principe. Quatro minutos depois os criados tinham revelado o segredo ás criadas dohotele, passada uma hora, constava em toda Vizella que noHotel do Padreestava hospedado um principe estrangeiro muito rico. Á noite, em todos os circulos de conversação, acrescentava-se: Fabulosamente rico. E sabia-se já em toda a villa que, depois do principe, havia chegado uma carroça com bagagens, suspeitando-se que a maior parte das malas traziam joias da princeza, porque um terceiro criado as vinha guardando como o dragão de cem cabeças guardava{48}os pomos de ouro do jardim das Hespérides. Diziam alguns, com uma certeza convicta, que na Ribária havia minas de metaes preciosos, e outros, por inculcarem sciencia ou por espirito de hyperbole, acrescentavam que no principado da Ribária jámais houveradeficit.Corria tudo ás mil maravilhas.N'essa tarde, os principes não saíram a passeio, e d'este modo lográram inconscientemente a justa curiosidade do povo de Vizella, que se tinha agglomerado nas vizinhanças dohotel. Mas no dia seguinte pela manhã suas altezas foram tomar o seu banho á Lameira, o povo pôde vêl-os, contemplal-os, os pobres filaram-n'os, os curiosos seguiram-n'os, e o principe, voltando-se para trás, disse a um dos criados que désse esmolas aos pobres e ás creanças. O criado distribuiu para cima de dezoito vintens em cobre. Por um tris que o principe e o criado não apanharamvivas. Mas desde aquella hora, toda a gente, incluindo os hospedes que tinham inventado ablague, ficou capacitada de que Piratinino era realmente um principe.Suas altezas saíram de tarde a passeio. Os hospedes doHotel do Padreesforçavam-se a explicar que na Ribária a etiqueta era muito rigorosa, e que o principe não podia saudar senão os fidalgos do seu paiz. Foi preciso inventar isto, porque o povo de Vizella, que tinha visto uma vez em Guimarães el-rei D. Luiz cumprimentar{49}toda a gente, estranhava o facto. Em compensação, todos os populares cumprimentavam suas altezas, e eu pendo a acreditar que o proprio Piratinino se ia sentindo principe... cada vez mais.A coisa constou. Vieram pobres de Guimarães, de Negrellos, de Santo Thyrso, de modo que foi preciso, nohotel, prohibir-lhes a entrada no parque. Mas elles, illudindo a ordem, penduravam-se das arvores, para serem os primeiros a lobrigar e a assaltar sua alteza o principe da Ribária. De cada vez que saía, o excelso principe tinha uma despêsa obrigada, de dezoito vintens pelo menos. E os hospedes dohotelsaboreavam em segredo, n'uma risota permanente, o bom exito da sua invenção.Um dia o criado do principe pediu informações aos criados dohotelsobre a navegabilidade do rio Vizella. Aquelle a quem a pergunta fôra feita veio, com a melhor boa fé d'este mundo, dizer aos hospedes que sua alteza ia n'aquella tarde para o rio.—Para o rio! exclamaram os hospedes. E padre José Maria observou do lado:—Para o Rio... de Janeiro, talvez. O principe sente-se arruinado pela mendicidade das Caldas de Vizella e seus arredores. Vai talvez restaurar a fortuna.Mas o criado explicou: Que não. Que o principe tinha dinheiro como milho. Que ia mas era para{50}o meio do Vizella divertir-se com um barco que trouxera.—Onde está o barco? perguntaram.—Está dentro de uma grande mala, que veio na carroça.Com effeito, um dos criados do principe chamou um homem, que foi ao hotel buscar a mala grande, e dirigiu-se com elle para a beira do Vizella. Pouco depois saiu o principe, todo vestido de branco, suatoilettefavorita, pelo que já algumas pessoas lhe chamavam—o principe branco.Deu-se rebate nohotel, e todos os hospedes, repartidos em diversos grupos, se encaminharam para as margens do Vizella, seguindo uns pela Lameira, outros pelo Mourisco.O boato saíra verdadeiro. O principe estava effectivamente no meio do Vizella, pescando á linha dentro de um barco de lona, um pouco similhante áquelle, se bem que mais pequeno, em que o general Caula atravessou o Tejo n'uma experiencia feita em agosto de 1874. Na margem ficára o criado, e a mala cuja tampa estava levantada, aberta. Comprehende-se que um principe não permittisse ao criado a honra de tomar assento a seu lado dentro do mesmo barco. Já sabemos que na Ribária a etiqueta é muito rigorosa.Toda a população de Vizella, a fluctuante e a permanente, pôde saciar seus olhos curiosos na contemplação d'esse quadro inteiramente novo ali: um principe estrangeiro pescando á linha{51}dentro de um barco de lona. Só os hospedes doHotel do Padrese riam, porque os do Cruzeiro do Sul, que não estavam na confidencia, e os bons populares ingenuos tomavam o caso muito a serio, e contemplavam encantados oprincipe brancopescando.Escusado será dizer que sua alteza não pescou coisa nenhuma. Quem pesca são os pescadores, porque teem obrigação d'isso. Os principes divertem-se, e enfadam-se.Foi o que aconteceu a sua alteza, porque, naturalmente enfastiado, quiz abicar a terra. Mas o barco começou a rodopiar, a oscillar, e o principe, já um pouco impaciente, redobrava de esforços, de pressão.Toda a gente sabe com que facilidade, n'estas condições, se volta um barco. Foi o que aconteceu ao do principe. Sua alteza fizera um movimento menos cauteloso, e o barco tombou. Era um vez um principe n'um charco.Grande grita se levantou de entre os populares. Os hospedes doHotel do Padreriam a bandeiras despregadas. Um rapazito atirou-se ao rio, para ir salvar sua alteza, que barafustava na agua. Cheirava-lhe a grande gorgeta, ao rapazito; nadava como um desesperado.Foi-lhe facil trazer para terra o principe, e o barco. Mas o principe, que estava de fato branco, precisava mudar detoilette. A decencia reclamava-o. E emquanto o criado corria aohotel, a pedir{52}outro fato para sua alteza, o desgraçado principe da Ribária, mettido dentro da mala, só com a cabeça de fóra, evitando olhar para qualquer parte, esperava humilhado...{53}VI—E eu que sei quem elle é! apostrophou o Maldonado, que era o mais silencioso de todos nós.Achámos graça á observação, espicaçámos o Maldonado.Elle explicou que tinha estado n'aquelle anno no Porto e que tambem lá tinha apparecido o commendador Piratinino, de fato branco, o qual seguiu d'ali para as Caldas de Vizella.Era... disse-nos o nome, que não vem para o caso.Mas como o Maldonado houvesse quebrado o seu silencio habitual, o Vasconcellos intimou-o a dar qualquer pequeno contingente para o nossoDecameron.Que não; que não sabia historia nenhuma. Que não tinha geito para contar.E a assemblea insubordinada:{54}—Que contasse alguma coisa, senão que o levaria o diabo.—Que de mais a mais o Maldonado não era baldo de gosto litterario: conhecia os poetas gregos, lia muito Theócrito.—Que, finalmente, contasse alguma coisa obrigada a Theócrito.Muito instado, cedeu.—Pois ahi vae um caso, offerecido ao Leotte.—Oh!—Uma lição de moralidade para quando elle fôr avô.—Que genero?—Genero realista. Eu, infelizmente, não tenho a imaginação do nosso Gonçallinho. Conto o que aconteceu. E, sem mais preambulos, ahi vae.—Eram dois velhinhos, seccos e rosados, alegres e gaiatos, muito amigos, socios na patuscada, sempre de mãos dadas, como dois banqueiros do amor, nos sindicatos do prazer.Ambos casados, os marotos, mas azevieiros como Anacreonte. Tendo sugado na flôr do matrimonio todo o mel de uma longa lua nupcial, deitaram a correr aventuras, de braço dado, por amor da variedade, beijando, como borboletas insaciaveis, o nectario de todas as flôres que encontrassem na sua marcha triumphante.Calados como ratos, de muito segredo e de muita ronha, iam saboreando a vida e zombando{55}da velhice, que apenas ousava nevar-lhes os cabellos, respeitando o coração e o mais.Tiveram filhos canonicos e souberam educal-os. Conciliando os seus deveres de chefes de familia com os seus apetites de uma mocidade perpetua.Sempre muito dissimulados, toda a gente os tinha por impeccaveis. Mas elles, a sós, um com o outro, riam-se de toda a gente. Eram solidarios: e confidentes nas suas rapaziadas inverniças, e fechavam a sete chaves o segredo das suas funcçanatas serodias.Um tivera uma filha, que casou; o outro tivera um filho, que tambem casou. Mas a filha do primeiro não casou com o filho do segundo, por accôrdo dos dois velhos.—Não quero o teu filho para a minha filha, disse o primeiro ao segundo, em segredo, porque receio que elle saia ao pae, e largue a fazer infidelidades como tu.E riram os dois, dando-se pansadinhas,—eh!—eh!—como se estivessem em plena verdura da mocidade. Mas em casa, deante do genro e deante da nora, não ousavam falar em Theócrito, a não ser para reproduzir algum verso casto do bucolico grego, como por exemplo aquelle em que a pastora diz a Daphne: «O casamento não tem penas nem dôres; mas sómente alegria e danças.»Secretamente, no fundo da sua consciencia, elles estavam de accôrdo quanto ásdançasdo casamento,{56}porque varias vezes se tinham visto mettidos n'ellas por causa da sua libertinagem, receosos das consequencias de alguma conquista aventurosa.Intimamente, rezavam pela cartilha de Theócrito, não quando elle preconisava as alegrias do casamento, mas quando, por exemplo, fazia o elogio do beijo roubado a uma pastora sem a responsabilidade do matrimonio.Cada um dos dois velhos teve um neto. Agradeceram muito á Providencia o favor de lhes dar netos do sexo masculino, porque os lisonjeava a ideia de que os netos lhes honrariam, por hereditariedade, a tradição patusca.Á medida que os rapazes foram crescendo, mais os dois velhinhos frascarios se fecharam em maior discreção, de modo que das suas aventuras serodias não pudesse chegar noticia aos netos.Pela primavera, quando as arvores rebentavam e os campos erveciam, sentiam-se renascer, vibrar; e sempre que o pé lhes escapava para a folia, cuidadosamente afivelavam a mascara, para não serem apanhados com a bocca na botija.Os rapazes estavam uns homensinhos, de cara penugenta, e os dois avós concertaram entre si ir-lhes dando algum dinheiro, para que não guardassem toda a mocidade para a velhice.—Como nós... dizia um.—Eh! eh! respondia, rindo, o outro.E ao cabo de alguns momentos de meditação:{57}—Isto tem que ser por força... exclamava um.—Isto, o que?—Dar com a cabeça pelas paredes, e fazer tolices. Portanto, quanto mais cedo a tempestade passar, melhor. Eu bem o sei... Comecei muito tarde, é o que foi...—E eu!... ponderava o outro.Ora a verdade era que elles tinham começado desde o principio, que é a maneira mais logica e chronologica de começar.Os rapazes gastavam dinheiro, que os velhos lhes davam, e como a mocidade não é mais do que a primavera da vida, elles tinham, a respeito dos avós, a vantagem de não precisarem esperar pelo calendario.Atiravam-se.A primavera do anno chegára, e os dois velhos, galvanisados por ella, deitaram-se a farejar conquistas por toda essa Lisboa galante.Mas, como dois gastronomos do amor, que sempre foram, já estavam um pouco aborrecidos de bons petiscos, e o que elles agora queriam, a proposito de petiscos metaphoricos, era achar iguarias optimas.—Achei! disse uma vez um velho ao outro.—Aonde?—Longe, mas bom.—Aonde?—Á Penha de França.—Irra! que é longe! Mas dize lá.{58}—Vinte e quatro annos. Formas redondas, linhas esculpturaes, frescura, belleza, mocidade. Uma alface, que a gente tem vontade de trincar, para refrescar-se.—Já o sabes?—Suspeito-o, pelo que vejo. Mas tenho aqui um bilhete de apresentação para nós ambos.—Bravo! excellente! Lá iremos...E á noite, das nove para as dez horas, os dois velhinhos passaram por entre filas de lojas illuminadas, desceram honestamente o Chiado sem olhar para asestrellas cadentes, que lhes davam encontrões, tão honestamente como se fossem áBaixacomprar bolos moles para as esposas desdentadas.Muita gente os cumprimentava, e elles correspondiam ao cumprimento com a gravidade austera de duas pessoas idosas que fossem caminhando para umlausperenne.Mas, lá por dentro, no que elles pensavam era no alto da Penha: uma casinha de um andar, menos mal alfaiada, com rotulas verdes norez-de-chaussée.E n'um passinho curto, mas rendoso, atravessaram a Baixa, passando honestamente por entre filas de lojas illuminadas, foram andando, andando, ganhando o largo do Intendente, galgando para Arroyos, sempre a rir lá por dentro—eh! eh!—até que começaram a marinhar lentamente pelo Caracol da Penha, aonde o perfume do prazer{59}lhes parecia chegar já, como o bom cheiro de uma cozinha, que se sente ao longe. Chegaram ao alto da Penha.—É ali, disse um.—Ha luz norez-de-chaussée, observou o outro.E espionaram, que não fosse alguem suspeital-os. Depois, cautelosamente, aproximaram-se das janellas de rotulas verdes. Ouviram conversar, rir. Na Penha de França, ás dez horas da noite, o vicio tem confiança na solidão: não é preciso fechar as portas das janellas.—Espreitemos e ouçamos.—Sim... ouçamos e espreitemos.E após um momento de silenciosa contrariedade:—Ha homens, e eu conheço as vozes. Depois, puxada a gola ás faces, os chapeus enterrados na cabeça, continuaram escutando.E, de subito, caminhando para o intervallo das janellas, medrosos, desapontados, disseram, com os labios colados á orelha um do outro:—São os nossos netos!De repente, como se ambos obedecessem ao mesmo pensamento, deitaram a descer por ali abaixo, a descer, fazendo da fraqueza forças.Só na rua direita de Arroyos tornaram a parar. Certificando-se de que não eram seguidos, exclamaram de novo:—E esta! Eram os nossos netos!...{60}Foi abraçado o chronista, que realmente nos soubera prender a attenção. O seu numeroso amigo Leotte, em agradecimento da dedicatoria, pegou no Maldonado ao collo. Uma ovação!A breve trecho, o relogio do Victor dava meia-noite.—Mas então, apostrophou o Gonçallinho, a gente ha de ir-se embora sem ouvir os rouxinoes?!Vozes, ao levantar da feira:—Amanhã!—Amanhã!O Gonçallinho Jervis disse-me que ia para o seu quarto escrever.—O que vaes tu escrever, meu lyrico?—Vou, antes que me esqueça, dar forma ao outro conto que pensei pelo caminho.—Ah!A morte do bibliophilo? Pois vae, e ámanhã o lerás.Ia eu para deitar-me, quando o Leotte, muito intrigado ainda com a historia de D. Maria de Alarcão, entrou no meu quarto, procurando certificar-me de que, para desenvencilhar mysterios de mulheres, tinha elle faro como ninguem. Que eu veria; que ou a rapariga tinha falado com sinceridade ou que elle era um grande tolo, do que não estava convencido.Depois pegou a contar casos do seu tempo de Coimbra, memorias de condiscipulos e já eu tinha perdido o somno quando elle abordou a historia do seu condiscipulo Barcellos.{61}—Quem era esse? perguntei.Como lhe dei trella, foi um gosto ouvil-o.Barcellos, o grande, passou quasi desconhecido fóra de Coimbra, onde se doutorou, e fóra de Salvaterra de Magos, onde nasceu.Bohemio e improvisador como Bocage, fez a sua lenda em Coimbra, no meio de uma sociedade de rapazes em que a falta de talento era tida como rarissima falha de toque denunciada na contrastaria intellectual da Universidade. Na terra dos cegos, quem tiver um olho é rei. Mas o Barcellos galgou ao primeiro premio e ao primeiro logar através de uma basta legião de sujeitos em que os anonymos eram pequenissima excepção.O Barcellos apenas differia de Bocage em não reproduzir pela escripta as suas composições. Falou; toda a sua vida se foi n'isso: falar. Teve improvisos felicissimos, extraordinarios, principalmente em prosa.Verba volant.Os seus discursos não foram fixados pela stenographia. Não são conhecidos no paiz. Mas aquelles que lh'os ouviram, jámais poderão esquecel-os.De copo em punho, a graça, a verbosidade, a satyra e a anecdota emergiam da onda rubra do Bairrada como Venus do seio da vaga azul do oceano. Uma belleza! um primor!A Universidade quiz doutoral-o. Elle respondeu que em Salvaterra de Magos um capello era a insignia mais inutil d'este mundo. Redarguiram-lhe{62}que um capello equivalia a uma cathedra. Lá isso não! elle só tinha geito para ser estudante, respondeu. Visto que deixava de ser estudante, iria para Salvaterra annullar-se. Mas a Universidade teimou em dar-lhe o annel de doutor. Elle enfiou-o no dedo, e tratou de annullar-se em Salvaterra.Metteu-se em casa. Saía da cama para ir jantar, e ás oito horas da noite, de charuto ao canto da bocca, apparecia na botica, que o esperava com interesse. Tomava a palavra, monopolisando-a, logo que lhe lembrassem um assumpto, qualquer que fosse.Falou-se uma noite da intelligencia dos cães. Um caçador da localidade contou, como quem lança á terra uma semente para que se reproduza, a historia de uma perdigueira, que tinha a idolatria da caça. Em passando um caçador de arma ás costas, ainda que lhe fosse desconhecido, a perdigueira seguia-o. Em ouvindo assobiar, punha-se de orelha fita, e partia. Era um estranho que a chamava? Não se lhe dava d'isso: acompanhava-o. O seu gosto, o seu enthusiasmo era a caça. O caçador disparava o primeiro tiro. Acertava? caía uma perdiz? A perdigueira pulava de contente, estava alegre e interessada para todo o dia. Falhava o tiro? A perdigueira começava a olhar desconfiada para o caçador. Falhava um segundo tiro? A perdigueira amuava, aborrecia-se. Mas se o terceiro tiro falhava, a perdigueira{63}desandava para casa, abandonando o caçador.O grande Barcellos ouvia sorrindo, aquecendo, vibrando, como Bocage nos mais felizes raptos da improvisação. Lançado o assumpto, apanhava-o no ar, senhoreava-o, fréchava-o de glosas em que a imaginação refervia torrencial.—Não me admiro, disséra n'essa noite o Barcellos, erguendo-se e passeando, muito peripoletico e muito jovial. Eu lhes conto o que me aconteceu em Coimbra, a proposito da intelligencia dos cães. Era no meu sexto anno. Estava-me preparando para defender theses. Uma estopada que a Universidade me metteu pela porta dentro! Recolhia uma noite para casa, na rua do Correio, paredes meias do predio onde oMata-fradesnasceu. Á esquina da Sé Velha, oiço ganir dolorosamente um canito na escuridade. Aproximo-me, curvo-me...E, de cocoras, elle representava, como um actor consummado, a sua narrativa.—Encontro effectivamente um cão, um pequeno cão vadio, um desherdado da fortuna, com uma perna partida. Pobre animal! Levanto-o cautelosamente, chego-me a um candeeiro, examino a fractura. Sinto na minha alma esse generoso impulso de caridade que todo o racional completo sente pelo irracional incompleto. A gente ri-se ás vezes de um homem coxo: mas sente-se abalado perante um cão que anda de perna no ar. São segredos{64}da nossa incomprehensivel natureza, que difficultam o principio theorico da fraternidade universal. Entro em casa, deponho delicadamente o canito sobre a minha cama. Vou á estante. Tiro o primeiro livro encadernado em que puz os dedos. Era um Michelet. Deixal-o ser. Tanto melhor! Um philosopho humanitario estava a calhar para uma acção meritoria. Rasgo a encadernação. Corto-a em tiras, e applico as talas á perna quebrada. Ligo-a. Ponho o cão sobre uma cadeira, cubro-o com a minha capa de estudante. Deito-me. Adormeço.O grande Barcellos accendeu outro charuto, afastou do pescoço o seu alto collarinho engommado, e proseguiu:—Ao cabo de vinte dias de tratamento, a fractura tinha solidificado. Tiro ao cão o apparelho cirurgico, e elle, sem lamber a mão que o havia beneficiado, rompe pela porta fóra, desce a escada, safa-se pela rua abaixo de rabo caído. A ingratidão dos cães! meditei eu. Nem um olhar, nem uma caricia, uma demonstração qualquer de agradecimento! Fosse um homem, e abraçar-me-ia. Fosse uma mulher, e beijar-me-ia. Era um cão: safou-se como quem era. Ah! meus amigos, que errado juizo este! Cerca de dez dias depois, estava eu, de papo para o ar, lendo uma d'aquellas coisas que a gente só lê em Coimbra: um doutor. Um doutor que tem escripto é a praga maior que se conhece. Sinto arranhar na porta do quarto:{65}primeira vez, segunda vez, terceira vez. É um gato! disse eu. Atirei fóra o doutor, saltei da cama, pego no meu bastão da noite e abro a porta disposto a enxotar o gato impertinente. Sabem os srs. quem era? Era omeucão da perna partida, são como um pêro. Mas trazia outro, trazia outro cão, que tambem quebrára uma perna. Achei-lhe graça. «Com que então, disse eu voltando-me para o ingrato canito de que tão cuidadosamente havia tratado, tu pensas que isto aqui é casa de algebista? Achas mais barato do que ir aoendireita? Abriste conta corrente comigo? Mas quando pagas tu, refinadissimo tratante? Safaste-te á franceza: nem uma, nem duas! e trazes-me agora um amigalhote coxo para que eu o concerte?» E omeucão crivava o seu vivacissimo olhar em mim, como a perguntar-me se eu entendia o sentido da sua visita. O outro, de perna no ar e focinho no chão, esperava pela consulta. «Mas no fim de contas, disse eu, tu tens ao menos uma qualidade nobre: és amigo do teu amigo. Elle quebrou uma perna, é teu parceiro na bohemia, sabes que eu concerto pernas, e vieste cá. Pois vamos lá a isso, meu ingrato de uma figa.» Tiro outro livro da estante, e ponho duas talas de papelão na fractura do canito. Deito-o sobre uma cadeira, mando-lhe dar de comer, mas emquanto espero que a servente traga umas sopas, o introductor safa-se pela escada abaixo. Não está má esta! reflexiono. Com que então isto é chegar, vêr e vencer! Mas... mas{66}pensei que talvez um sentimento de delicadeza obrigasse omeucão a retirar-se: quereria porventura poupar-me ao sacrificio de sustentar dois hospedes. Seria ou não seria. No dia seguinte vejo-o entrar de repente. Põe-se do chão a olhar para o outro, que estava na cadeira, certifica-se de que elle tem as talas, de que está em tratamento, de que eu sou umendireitaacabado e um philantropo inexgotavel. Sái. Durante oito dias ninguem o vê mais, talvez para me significar que confiava plenamente na minha cirurgia. Ao nono dia volta a visitar o amigo. Olha para elle, parece dizer-lhe com os olhos—Isso vae bem—e raspa-se. O curativo chegou a seu termo, e omeucão nunca mais voltou. Levantei o apparelho com a mestria que dá a pratica. Lembrei-me até de abrir um consultorio para cães; mas tive receio de que a faculdade de medicina me fizesse instaurar processo, visto que eu só podia abrir consultorio para demandistas. O cão safou-se como o outro, sem um olhar, uma caricia, uma qualquer manifestação de agradecimento.—E nunca mais os viu? perguntaram ao grande Barcellos.—Lá vamos, respondeu elle. Fiz exame de licenciado, defendi theses, tomei capello. Dia cheio na Universidade, o do capello. Puz na cabeça uma borla doutoral, e recebi auctorisação solemne para acrescentar ao meu nome mais seis lettras. A Universidade confirmou o tratamento que a minha{67}servente me dava desde o primeiro anno. Abraços dos lentes e de toda a mais doutorança; abraços dos estudantes, abraços dos archeiros. A propriaCabraparecia dizer-me: Se eu pudesse descer, mettia-te os tampos dentro. Vou a casa para descansar do capello, emquanto n'umhotelda baixa se prepara o jantar do doutoramento. Desço até á Sé Velha, entro na rua do Correio, aproximo-me de casa e vejo á minha porta, cada um de seu lado, os dois cães que eu concertei, e que me iam dar os parabens! Aqui teem os senhores o que é a intelligencia do cão.Tal foi—exclamava o Leotte enthusiasmado—a improvisação do grande, do immortal Barcellos n'uma noite da botica. E todas as outras noites eram assim.—Ó homem! atalhei eu. Vae deitar-te e deixa-me dormir, que são duas horas da noite!{68}{69}VIIDepois de um terceiro dia passado no mais delicioso pantheismo vadio de que ha memoria, e em que o Leotte, sempre intrigado com a historia da criada, houve por bem,malgrê lui, acompanhar-nos, reunimo-nos, depois de jantar, no salão do Victor para continuarmos os nossos serões litterarios, a que, seja dito de passagem, já todos mais ou menos iamos tomando gosto.As reluctancias que alguns, a principio, manifestavam, quando o presidente Vasconcellos e osabio congressoos intimavam a falar, iam desapparecendo. Com mais um mez de Cintra, saía d'ali um enxame de oradores. Que desgraça, se tal acontecesse!Durante o dia, mettemos á bulha o Leotte por causa do seu supposto achado de uma fidalga na cozinha do Victor. Elle estava um pouco azoinado{70}com a nossa troça. E, por orgulho ou convicção, promettia, protestava tirar o caso a limpo.Já n'aquelle mesmo dia, pela manhã, apesar de se ter deitado tarde como eu, havia trocado com a rapariga algumas palavras, poucas: e ella asseverara-lhe, dizia elle, que havia falado verdade na vespera.—A rapariga tem um certo ar de ingenuidade, que me convence! insistia elle.—Contou-te o seu romance, como todas, exclamou o Vasconcellos. Parece que não conheces o genero! Muito tolo és!—Conheço o genero, conheço, mas, por isso mesmo, acho que ella fala mais verdade do que todas as outras que costumam impingir-nos oseuromance. Emfim, veremos. Deixem-me vocês em paz.Á noite, no Victor, não houve duvidas sobre quem primeiro falaria. Pois que o Gonçallinho Jervis havia escripto já o seu segundo conto, como de manhã confessára, foi-lhe concedida a palavra, e, em verdade, outra coisa não desejava elle.Ouvimos pois, no meio do silencio regulamentar, que o Vasconcellos não deixava interromper, a narrativa que o nosso bom Gonçallinho planeara na almofada dochar-á-bancsao lado do cocheiro. O que é o poder da imaginação juvenil! Foi ao lado de um cocheiro de praça, que naturalmente cheirava a aguardente e suor, que elle{71}phantasiou essa em verdade joiasinha litteraria, por elle proprio denominadaA morte do bibliophilo.—O bibliophilo Joseph, contou, era uma alma antiga, um espirito classico, que vivia no pó dos livros e no pó das ruinas.Todo o mundo da sua actividade intellectual, concentrada e profunda, havia passado já, mas elle resuscitava-o, nas suas cogitações luminosas, tão vivo e tão perfeito, como se a idade-média, que de preferencia amava, fosse um ramo de flôres, de que pudesse sentir ainda o perfume longinquo.Barbaros que invadiam a Europa, cavalleiros e trovadores, castellãs e pagens, guelfos e gibelinos, cruzados que partiam para a Terra Santa, burguezes que levantavam o grito da insurreição communal contra os senhores feudaes, exercitos que se despedaçavam n'uma guerra de cem annos ergendo os pendões da França e da Inglaterra, o imperio succumbindo perante o papado no parque do castello de Canossa, para resurgir depois triumphante na batalha de Volksheim; Roma desabando na sua grandeza moribunda, ao passo que as monarchias modernas palpitavam na primeira vibração da sua vitalidade autónoma, mares tenebrosos que se estavam offerecendo á quilha das primeiras naus descobridoras, como um terreno inculto ao dente fecundador da charrua, vagas revoltas de uma grande epopêa maritima,{72}que espumavam anciosas da apparição de um Gama dominador, tudo isso rolava no seu espirito, como no sonho de uma febre permanente, passando, agitando-se, baralhando-se tumultuariamente sobre a tela historica de dez seculos de civilisação medieval.Em torno da sua alta cadeira de braços, a que estava sempre preso como Prometheu ao rochedo, longas filas silenciosas de canções de gesta e de novellas de cavallaria, in-folios de capas de pergaminho levemente rugoso, grossos volumes de encadernação tão dura como um arnez, formavam disciplinarmente, á espera que elle, com um simples volver de olhos, os chamasse á refrega de todos os dias, lhes désse a voz de commando, o grito de alarma.Sorriam-lhe do alto da estante, como que constituindo a ala dos namorados n'aquelle exercito de livros, os poemas carlovingeos, cheios da poesia dos combates, como naCanção de Rolando, cheios de ingenuidade heroica, como naCanção do Figueiral; os poemas daTavola-redondaem que o espirito cavalheiresco pairava, como a borboleta na indecisão de dois nectarios, entre a lenda do rei Arthur e a tradição do Santo Graal.Depois galopavam para elle, mal que os chamasse com os olhos, os esquadrões interminaveis dos cavalleiros andantes, fazendo flammejar no ar a espada nua, desembainhada em honra{73}de uma dama, que á noite, nas côrtes de amor, emquanto dois trovadores se digladiassem improvisandotensões, lhes havia de dar n'um sorriso, feito de rosas e perolas, o premio da victoria.Ah! como o bibliophilo Joseph amava tão de dentro, tanto do imo peito, esse galante mundo aventuroso que divinisava a mulher a ponto de que, derrubado o altar por Cervantes, toda a realidade da belleza parecia tão pallida como o reflexo do sol agonisante resvalando nas vidraças coloridas d'uma janella gothica.Foi por isso que bibliophilo Joseph passára toda a sua vida sendo um celibatario sem familia, longe do calor absorvente das fundas affeições domesticas, na solidão sepulcral que só os livros povoavam.Herdára de um velho tio todas as preciosidades bibliographicas que completavam o thesouro da sua bibiotheca. Abrira, por desfastio, o primeiro livro, como um operario insciente que experimenta a medo a engrenagem de uma machina. Impellido por uma especie de dever sagrado, que lhe era imposto pela posse de um legado querido e precioso, foi voltando pagina sobre pagina, mas, a meio da leitura, como o viajante que fica encantado de encontrar um bello paiz desconhecido, sentiu-se preso pelo interesse e pela curiosidade e, chegando á ultima pagina, reconheceu que, tendo penetrado n'um palacio maravilhoso, o seu espirito exigia d'elle que não parasse no vestibulo.{74}Foi assim que a pouco e pouco devassou os segredos do passado fechados n'esses cofres de pergaminho, n'esses velhos codices poeirentos, que lhe deram a clara noção do cyclo cavalheiresco, em que a mulher, poetisada pela imaginação, perdia toda a mundanidade vulgar, para se exalçar pelo amor que a divinisava.Purificados no crisol da idade-média, todos os sentimentos humanos pareciam nobilitar-se de uma peregrina fidalguia, de uma lealdade heroica, de uma abnegação sobrenatural, que nenhuma outra civilisação pudera reproduzir nem copiar integralmente.Amadiz era para elle um symbolo epico da alma antiga.Ferido em combate, mas fortalecido pelo seguro amor que Oriana lhe inspirara, elle havia recusado a mão de Briolanja porque, n'aquelles tempos de fé imperturbavel, o coração era feito de diamante para resistir aos golpes da tentação e para no seu proprio brilho conservar inalteravelmente lucida a imagem uma vez gravada.Bibliophilo Joseph vivia absorvido como um rei excentrico na sua vasta côrte de livros, rodeado apenas de Amadizes e Palmeirins imaginarios, com os quaes praticava longas horas, ouvindo-os e respondendo-lhes, inquirindo do passado com uma devoção fanatica.Um criado que o servia, o velho Leão, era a unica pessoa que podia entrar no recinto sagrado{75}da bibiotheca, mas tendo comprehendido intuitivamente a paixão dominante do amo, impuzera-se o dever de não a perturbar jámais.Leão, de origem castelhana, havia passado na mocidade pela casa dos Medina-Sidonia, e tomára desde então um gesto de grave compostura, que não perdera nunca.Vestindo todos os dias a sua casaca, atando a sua gravata branca, para servir o sabio, como o havia feito, na mocidade, para servir os Medina-Sidonia, Leão cumpria religiosamente o seu dever de grande escudeiro de uma côrte sem cortezãos.Não dirigia nunca a palavra a seu amo se não para responder concisamente ás perguntas que elle lhe fazia. Entrava na bibliotheca sempre em bicos de pés, quando o amo lá estava, e muitas vezes, por já ter passado a hora do jantar, pousava ao de leve sobre a vasta escrivaninha de castanho, a que o bibliophilo se sentava, uma pequena bandeja contendo uma ligeira refeição, que o amo tomaria se quizesse. Leão retirava-se silenciosamente, deixando ao bibliophilo toda a plenitude do goso de jantar no meio dos seus livros com o Bimnarder daMenina e moçae com o Danteo daDianade Montemayor.O mais que Leão se permittia fazer, depois de ter deixado ficar a bandeja, era espreitar pela fechadura da porta, receoso de que o amo se houvesse esquecido de estender o braço para aproximar a refeição.{76}Leão tinha uma grande dedicação antiga por aquelle homem cheio de sciencia e de virtude, que atravessava a existencia sem se contagiar das paixões mundanas, conservando intacto um coração de ouro e um espirito de luz.Se via o amo ingerir á pressa a refeição, tranquillisava-se, e só voltava tempo depois a espreitar pela fechadura da porta para o vêr dar um pequeno passeio hygienico, enrijecendo as pernas, em roda da bibliotheca, como se andasse passeando n'um jardim, batendo os pés deante dos canteiros, parando a observar as etiquetas latinas das plantas.O que bibliophilo Joseph examinava era a sua collecção preciosa de rosas bibliographicas, de raras tulipas litterarias. Demorava-se olhando a lombada dos quatro in-folios daVita Christi; tirava da estante, para acarinhal-a, aHistoria do mui nobre Vespasiano; fazia uma rapida visita aoPentateuco hebraicoe aoAlmanach perpetuus, que eram proximos vizinhos; folheava, envolvendo-o n'um olhar em que gorgeavam beijos paternaes, o seu queridoBoosco deleytuoso, que lhe exhalava nas mãos, como um lirio aberto, todo o perfume da antiguidade quinhentista.Leão via o bibliophilo entregue a esse bom passeio hygienico, que tanto lhe deleitava o espirito, e acabava de tranquillisar-se pela saude de seu amo, que, muitas vezes, quando não alternava com a leitura o menor exercicio muscular, tinha{77}tido, ao levantar-se da cadeira, depois de longas horas de vida sedentaria, vertigens gastricas.Quando a noite principiava a cair, Leão entrava com o enorme candieiro de tres bicos, cuja luz uma larga pantalha de latão afrouxava. Poisava-o sobre a escrivaninha, com o leve ruido de uma mosca que passasse, e ia accender, ao fundo da bibliotheca, o fogão de sala, fortemente chapeado de ferro, para não communicar calor ás paredes.Cá fóra, na rua, principiavam, d'ahi a pouco, a rodar as carruagens que batiam para os theatros, para as festas frivolas da noite. Umas vezes por outras passavam fanfarras, folias populares, que iam para os clubs operarios improvisados ao ar livre. Outras vezes sentia-se o estrondo de bombas de incendio, que passavam, arrastadas vertiginosamente; e os sinos da cidade, alvoroçados, ouviam-se badalar, pedindo soccorro.Mas nunca esse movimento exterior eccoava na habitação solitaria do bibliophilo de modo a perturbar a paz do seu espirito. Parecia que ao sol posto se tinha erguido a ponte levadiça de um castello, bem defendido por um cinto negro de ameias e de fossos.Só excepcionalmente bibliophilo Joseph fozia soar a campainha para chamar o seu velho Leão.Comprehende-se, pois, a angustia com que o{78}dedicado escudeiro ouviria uma noite dois toques de campainha consecutivos.Correu á bibliotheca.Bibliophilo Joseph, quando elle entrou, forcejava por levantar-se da sua alta cadeira de braços, mas as forças traíam-n'o, as pernas dobravam-se-lhe, e o sabio, muito pallido, encostou-se, vencido pela doença, sobre o espaldar.Leão acudiu-lhe carinhosamente, levantou-o nos braços tremulos, foi depôl-o no leito, chorando.O bibliophilo sentiu-lhe as lagrimas, colheu-lhe docemente a mão, abriu os olhos, demorou-os fitando-o, e disse-lhe:—Não chames ninguem, que ámanhã estarei melhor.Toda a noite o velho Leão velou junto ao leito de seu amo, que, levemente anciado, parecia de vez em quando, com os olhos abertos, querer fixar o pensamento n'um ponto vago, que lhe fugia.Ao romper da manhã, Leão, sentindo um movimento nervoso do doente, interrogou-o.Bibliophilo Joseph, com a face marmorisada n'uma pallidez terrena, disse-lhe abrindo um sorriso triste:—Queria, meu velho amigo, que me realisasses um desejo.Leão, pendido ao leito, o peito offegante, escutava reverente.{79}—Que me amparasses com o teu carinho até á bibliotheca.O velho criado levantou-o nos braços, envolto nas roupas do leito, e foi sental-o, entre almofadas, na alta cadeira de respaldo.Um cansaço extremo parecia aniquilar o bibliophilo, ao passo que Leão sentia rijos os seus braços como se fôssem de ferro.Com doloroso esforço, bibliophilo Joseph disse ao velho escudeiro, indicando-lhe uma estante:—Traze d'ali oD. Quichotede Miguel Cervantes. Abre-o, e lê onde entenderes melhor.Leão correu á estante, tirou oD. Quichote de la Mancha, e, aproximando-se da cadeira do amo, caiu de joelhos, com o livro aberto.Lentamente, a voz embargada pelos soluços, começou a ler, e emquanto elle lia, o bibliophilo, cerrados os olhos, escutava cada vez mais anciado...Foi assim que aquella alma cristallina, para quem a idade-média tinha sido uma delicia, exhalou o derradeiro suspiro, emquanto o velho Leão, sempre de joelhos, lia oD. Quichotede Cervantes,—o epitaphio eterno da idade-média.Os applausos foram unanimes, postoque nem todos os ouvintes gostassem sinceramente d'esta especie de contos, a que o Vasconcellos, com maior ou menor propriedade, chamava phantasticos. Elle, por exemplo, preferia a escola realista: estava mais no seu genio, aliás pouco propenso a idealisações romanescas. Mas a verdade era que,{80}afastada a questão de assumpto, o Gonçallinho Jervis lográra dar á sua narrativa uma forma litteraria, que revelava um escriptor.Do Leotte sabia o Vasconcellos que não viriam phantasias, fabulações romanticas; que, pelo contrario, quando o Leotte falasse, seriam assumpto obrigado as mulheres. Ora no conto do Gonçallinho, segundo a expressão do Vasconcellos, nem meia mulher apparecia.{81}
VNo dia seguinte, quando saímos dohoteldepois de almoço, era quasi uma hora da tarde.Convencemo-nos mais uma vez de que não ha nada tão bom para gastar o tempo... como não ter nada que fazer.Fomos a Collares, em burro. Só o Leotte pediu licença para ficar. Concedida;—sob condição de que daria conta ás côrtes do uso que fizesse d'esta auctorisação legal.—O Leotte traz grande empresa entre mãos.—Empresa de cozinha, que póde esturrar-se facilmente.—Saberemos depois... dizia o Vasconcellos, fustigando as orelhas do burro rebeldemente ronceiro.A varzea de Collares estava realmente encantadora n'aquelle dia. Pairava no ar uma serenidade{42}saturada de bucolismo e de limpidez campestre, capaz de inspirar idillios á alma de um agiota. As arvores floridas perfumavam o ambiente. As aguas do rio das Maçãs dormiam como a superficie de um espelho. Passaros cantavam entre o arvoredo, mas não eram certamente rouxinoes, o que desesperou o Gonçallinho Jervis.Fomos seguindo para o mar, na direcção do Cabo da Roca. Muitos rapazitos de Collares acompanhavam-nos, correndo, pulando adeante de nós. Iam na esperança de que quizessemos vel-os descer pela Pedra de Alvidrar, como aconteceu. A mim horrorisou-me vel-os deslisar ao longo d'esse rochedo empinado, que mergulha no mar; a cada momento me parecia que os pés ou as mãos lhes faltariam, e que, n'um abrir e fechar d'olhos, elles desappareceriam entre a espuma das ondas, que ali se despedaçam com estrondo.Tambem fomos vêr o Fojo, esse grande funil de rocha bruta, que communica com o mar, cujo estampido sinistro exerce em nós uma estranha influencia de repulsão.Foi bello todo esse passeio através de uma região encantadora, onde ninguem nos incommodava n'aquella occasião, e onde insensivelmente tudo haviamos esquecido de quanto nos pudesse n'este mundo dar cuidado ou desgosto.—O tolo do Leotte perdeu isto!—O que térá elle feito?!{43}Soubemol-o depois, quando recolhemos ao Victor, noite fechada.—Foi um achado! exclamou elle, mal que nos viu.—Então?—Isso é para depois. Durante o jantar, nem palavra, por causa dos criados, ouviram?—Está dito.Quando, findo o jantar, viemos para o salão do Victor, soubemos que o nosso amigo Leotte tinha descoberto nohoteluma criada originalissima.—Uma fidalga extraviada do grande mundo! disse-nos elle.—Como assim?!—Chama se Maria de Alarcão, está aparentada com muitas familias nobres do paiz, e viu-se reduzida, pela pobreza que herdou de seu pae, um tal D. Alvaro, a ser criada de todas as suas primas e primos, que venham hospedar-se no Victor.—Mas quem é então esse D. Alvaro?—Morreu. Perguntei-lhe se sabia os nomes dos avós, e ella respondeu-me que os seus avós tinham sidogentis guerreiros.—E ella respeita as cinzas de seus avós?—Ella estava-me contando a sua triste historia, quando outra criada a veiu chamar, gritando: ó Rosa! ó Rosa!—Então é Maria, e chama-se Rosa?—Essa pergunta fiz eu a mim proprio. Mas{44}ella, de relance, percebendo a minha surprêsa, explicou que Rosa era o seu nome de guerra, e D. Maria de Alarcão o seu nome de familia.—Eis o que tu apuraste em todo o dia!—E já não foi pouco. Talvez que vocês tenham achado muitas criadas cujos avós fossemgentis guerreiros!...—Para isto, exclamou o Vasconcellos, deixou este tolo de ir passear a Collares!—Estou vendo, disse eu, que a tua Rosa é tanto Alarcão como era principe aquelle heroe, da historia que sabe o Athayde, que appareceu nas Caldas de Vizella.—É verdade! quero ouvir a historia do Athayde, observou imperativamente o Vasconcellos. Meus senhores, está aberto oDecameron.O Athayde fez-se algum tanto rogado, mas contou:—Era um domingo calmoso de agosto. Todos os hospedes doHotel do Padre, nas Caldas de Vizella, estavam sentados á sombra do parque dohotel, conversando, lendo, jogando,flirtando. Nenhum d'elles ousára ir á estação esperar o comboio. Os passarinhos, se não pudessem encontrar um doce refugio nas arvores marginaes do rio Vizella, cairiam do ceu assados e depennados. Com uma soalheira d'aquellas, não havia nada que apetecesse tanto como o descanso e a sombra.De repente ouviu-se o silvo da locomotiva.—Lá{45}chegou o comboio!—Pois deixal-o chegar!—Quem vier, cá virá ter. Vinte minutos depois, paravam á porta dohotelduasamericanas, poeirentas e escanceladas. E um sujeito de fato de flanella branca, chapeu branco, acompanhado por uma senhora da sua idade—vinte e quatro a vinte e cinco annos—, atravessou olympicamente o parque dohotelsem cumprimentar ninguem. Da segunda carruagem apearam-se duas criadas e dois criados, com pequenas malas na mão.Este acontecimento causou certa sensação entre os hospedes doHotel do Padre, visto não haver acontecimentos de maior polpa.—Quem será isto? perguntava-se.—É um principe! dizia ironicamente um janota de Guimarães.—Um principe e uma princeza, acrescentava do lado um banqueiro portuense.—Com os respectivos veadores e damas, observou bonacheironamente o padre José Maria, que possuia uma graça simples, quasi patriarchal, e que era um dos hospedes mais estimados nohotel.Depois, emquanto a sombra caía das arvores, todos continuaram conversando, lendo, jogando,flirtando.Á hora do jantar, a princeza e o principe foram vistos já sentados á cabeceira da mesa, silenciosos e graves. Os seus dois criados, de casaca, postados por detrás da cadeira doprincipe{46}e daprinceza, conservavam-se immoveis como estatuas.Todos os outros hospedes, que iam chegando, trocavam entre si sorrisos, olhares de intelligencia. Padre José Maria arregalou os olhos, franziu o beiço, sentou-se. As senhoras diziam segredos umas ás outras. Os homens, de vez em quando, arriscavam em voz alta uma allusão disfarçada.Findo o jantar, oprincipee aprincezalevantaram-se; os seus dois criados, muito direitos, arrastaram-lhes as cadeiras. Não cumprimentaram ninguem.Então a galhofa expludiu, os epigrammas estalaram. Padre José Maria teve pilhas de graça. Um hospede aventou a idéa de que se pedisse o registo dohotelpara saber-se o nome do recem-chegado. Veio o registo. Dizia simplesmente isto:Commendador Piratinino e sua esposa.—Pois, srs., observou padre José Maria, é mais a salsa que o peixe!Riram todos, e novos epigrammas rebentaram n'uma grande hilaridade desenfadada.Mas o janota de Guimarães teve uma lembrança feliz: que em tom de confidencia se dissesse aos criados do hotel que o commendador Piratinino era nada mais e nada menos que um principe disfarçado.—E Piratinino é um bello nome para principe! observou uma senhora.{47}—Principe... de magica, pelo menos, acrescentou alguem.—Mas se nos perguntarem d'onde o homem é principe, que responderemos?—Que é principe da Ribária.—E onde ficará geographicamente a Ribária?—Sim... isso...—A Ribária ficará na peninsula dos Balkans, entre a Rumélia e a Bulgária, se quizerem. Nas Caldas de Vizella pode haver tudo, menos um mappa da Europa. Ninguem irá verificar; soceguem.—Magnifico!—Maravilhoso!Ficou tratado que Piratinino era o principe da Ribária, e que a Ribária ficava nos Balkans. Dois minutos depois, fazia-se a revelação aos criados, pedindo-lhes a maxima reserva, para não comprometter oincognitodo principe. Quatro minutos depois os criados tinham revelado o segredo ás criadas dohotele, passada uma hora, constava em toda Vizella que noHotel do Padreestava hospedado um principe estrangeiro muito rico. Á noite, em todos os circulos de conversação, acrescentava-se: Fabulosamente rico. E sabia-se já em toda a villa que, depois do principe, havia chegado uma carroça com bagagens, suspeitando-se que a maior parte das malas traziam joias da princeza, porque um terceiro criado as vinha guardando como o dragão de cem cabeças guardava{48}os pomos de ouro do jardim das Hespérides. Diziam alguns, com uma certeza convicta, que na Ribária havia minas de metaes preciosos, e outros, por inculcarem sciencia ou por espirito de hyperbole, acrescentavam que no principado da Ribária jámais houveradeficit.Corria tudo ás mil maravilhas.N'essa tarde, os principes não saíram a passeio, e d'este modo lográram inconscientemente a justa curiosidade do povo de Vizella, que se tinha agglomerado nas vizinhanças dohotel. Mas no dia seguinte pela manhã suas altezas foram tomar o seu banho á Lameira, o povo pôde vêl-os, contemplal-os, os pobres filaram-n'os, os curiosos seguiram-n'os, e o principe, voltando-se para trás, disse a um dos criados que désse esmolas aos pobres e ás creanças. O criado distribuiu para cima de dezoito vintens em cobre. Por um tris que o principe e o criado não apanharamvivas. Mas desde aquella hora, toda a gente, incluindo os hospedes que tinham inventado ablague, ficou capacitada de que Piratinino era realmente um principe.Suas altezas saíram de tarde a passeio. Os hospedes doHotel do Padreesforçavam-se a explicar que na Ribária a etiqueta era muito rigorosa, e que o principe não podia saudar senão os fidalgos do seu paiz. Foi preciso inventar isto, porque o povo de Vizella, que tinha visto uma vez em Guimarães el-rei D. Luiz cumprimentar{49}toda a gente, estranhava o facto. Em compensação, todos os populares cumprimentavam suas altezas, e eu pendo a acreditar que o proprio Piratinino se ia sentindo principe... cada vez mais.A coisa constou. Vieram pobres de Guimarães, de Negrellos, de Santo Thyrso, de modo que foi preciso, nohotel, prohibir-lhes a entrada no parque. Mas elles, illudindo a ordem, penduravam-se das arvores, para serem os primeiros a lobrigar e a assaltar sua alteza o principe da Ribária. De cada vez que saía, o excelso principe tinha uma despêsa obrigada, de dezoito vintens pelo menos. E os hospedes dohotelsaboreavam em segredo, n'uma risota permanente, o bom exito da sua invenção.Um dia o criado do principe pediu informações aos criados dohotelsobre a navegabilidade do rio Vizella. Aquelle a quem a pergunta fôra feita veio, com a melhor boa fé d'este mundo, dizer aos hospedes que sua alteza ia n'aquella tarde para o rio.—Para o rio! exclamaram os hospedes. E padre José Maria observou do lado:—Para o Rio... de Janeiro, talvez. O principe sente-se arruinado pela mendicidade das Caldas de Vizella e seus arredores. Vai talvez restaurar a fortuna.Mas o criado explicou: Que não. Que o principe tinha dinheiro como milho. Que ia mas era para{50}o meio do Vizella divertir-se com um barco que trouxera.—Onde está o barco? perguntaram.—Está dentro de uma grande mala, que veio na carroça.Com effeito, um dos criados do principe chamou um homem, que foi ao hotel buscar a mala grande, e dirigiu-se com elle para a beira do Vizella. Pouco depois saiu o principe, todo vestido de branco, suatoilettefavorita, pelo que já algumas pessoas lhe chamavam—o principe branco.Deu-se rebate nohotel, e todos os hospedes, repartidos em diversos grupos, se encaminharam para as margens do Vizella, seguindo uns pela Lameira, outros pelo Mourisco.O boato saíra verdadeiro. O principe estava effectivamente no meio do Vizella, pescando á linha dentro de um barco de lona, um pouco similhante áquelle, se bem que mais pequeno, em que o general Caula atravessou o Tejo n'uma experiencia feita em agosto de 1874. Na margem ficára o criado, e a mala cuja tampa estava levantada, aberta. Comprehende-se que um principe não permittisse ao criado a honra de tomar assento a seu lado dentro do mesmo barco. Já sabemos que na Ribária a etiqueta é muito rigorosa.Toda a população de Vizella, a fluctuante e a permanente, pôde saciar seus olhos curiosos na contemplação d'esse quadro inteiramente novo ali: um principe estrangeiro pescando á linha{51}dentro de um barco de lona. Só os hospedes doHotel do Padrese riam, porque os do Cruzeiro do Sul, que não estavam na confidencia, e os bons populares ingenuos tomavam o caso muito a serio, e contemplavam encantados oprincipe brancopescando.Escusado será dizer que sua alteza não pescou coisa nenhuma. Quem pesca são os pescadores, porque teem obrigação d'isso. Os principes divertem-se, e enfadam-se.Foi o que aconteceu a sua alteza, porque, naturalmente enfastiado, quiz abicar a terra. Mas o barco começou a rodopiar, a oscillar, e o principe, já um pouco impaciente, redobrava de esforços, de pressão.Toda a gente sabe com que facilidade, n'estas condições, se volta um barco. Foi o que aconteceu ao do principe. Sua alteza fizera um movimento menos cauteloso, e o barco tombou. Era um vez um principe n'um charco.Grande grita se levantou de entre os populares. Os hospedes doHotel do Padreriam a bandeiras despregadas. Um rapazito atirou-se ao rio, para ir salvar sua alteza, que barafustava na agua. Cheirava-lhe a grande gorgeta, ao rapazito; nadava como um desesperado.Foi-lhe facil trazer para terra o principe, e o barco. Mas o principe, que estava de fato branco, precisava mudar detoilette. A decencia reclamava-o. E emquanto o criado corria aohotel, a pedir{52}outro fato para sua alteza, o desgraçado principe da Ribária, mettido dentro da mala, só com a cabeça de fóra, evitando olhar para qualquer parte, esperava humilhado...{53}VI—E eu que sei quem elle é! apostrophou o Maldonado, que era o mais silencioso de todos nós.Achámos graça á observação, espicaçámos o Maldonado.Elle explicou que tinha estado n'aquelle anno no Porto e que tambem lá tinha apparecido o commendador Piratinino, de fato branco, o qual seguiu d'ali para as Caldas de Vizella.Era... disse-nos o nome, que não vem para o caso.Mas como o Maldonado houvesse quebrado o seu silencio habitual, o Vasconcellos intimou-o a dar qualquer pequeno contingente para o nossoDecameron.Que não; que não sabia historia nenhuma. Que não tinha geito para contar.E a assemblea insubordinada:{54}—Que contasse alguma coisa, senão que o levaria o diabo.—Que de mais a mais o Maldonado não era baldo de gosto litterario: conhecia os poetas gregos, lia muito Theócrito.—Que, finalmente, contasse alguma coisa obrigada a Theócrito.Muito instado, cedeu.—Pois ahi vae um caso, offerecido ao Leotte.—Oh!—Uma lição de moralidade para quando elle fôr avô.—Que genero?—Genero realista. Eu, infelizmente, não tenho a imaginação do nosso Gonçallinho. Conto o que aconteceu. E, sem mais preambulos, ahi vae.—Eram dois velhinhos, seccos e rosados, alegres e gaiatos, muito amigos, socios na patuscada, sempre de mãos dadas, como dois banqueiros do amor, nos sindicatos do prazer.Ambos casados, os marotos, mas azevieiros como Anacreonte. Tendo sugado na flôr do matrimonio todo o mel de uma longa lua nupcial, deitaram a correr aventuras, de braço dado, por amor da variedade, beijando, como borboletas insaciaveis, o nectario de todas as flôres que encontrassem na sua marcha triumphante.Calados como ratos, de muito segredo e de muita ronha, iam saboreando a vida e zombando{55}da velhice, que apenas ousava nevar-lhes os cabellos, respeitando o coração e o mais.Tiveram filhos canonicos e souberam educal-os. Conciliando os seus deveres de chefes de familia com os seus apetites de uma mocidade perpetua.Sempre muito dissimulados, toda a gente os tinha por impeccaveis. Mas elles, a sós, um com o outro, riam-se de toda a gente. Eram solidarios: e confidentes nas suas rapaziadas inverniças, e fechavam a sete chaves o segredo das suas funcçanatas serodias.Um tivera uma filha, que casou; o outro tivera um filho, que tambem casou. Mas a filha do primeiro não casou com o filho do segundo, por accôrdo dos dois velhos.—Não quero o teu filho para a minha filha, disse o primeiro ao segundo, em segredo, porque receio que elle saia ao pae, e largue a fazer infidelidades como tu.E riram os dois, dando-se pansadinhas,—eh!—eh!—como se estivessem em plena verdura da mocidade. Mas em casa, deante do genro e deante da nora, não ousavam falar em Theócrito, a não ser para reproduzir algum verso casto do bucolico grego, como por exemplo aquelle em que a pastora diz a Daphne: «O casamento não tem penas nem dôres; mas sómente alegria e danças.»Secretamente, no fundo da sua consciencia, elles estavam de accôrdo quanto ásdançasdo casamento,{56}porque varias vezes se tinham visto mettidos n'ellas por causa da sua libertinagem, receosos das consequencias de alguma conquista aventurosa.Intimamente, rezavam pela cartilha de Theócrito, não quando elle preconisava as alegrias do casamento, mas quando, por exemplo, fazia o elogio do beijo roubado a uma pastora sem a responsabilidade do matrimonio.Cada um dos dois velhos teve um neto. Agradeceram muito á Providencia o favor de lhes dar netos do sexo masculino, porque os lisonjeava a ideia de que os netos lhes honrariam, por hereditariedade, a tradição patusca.Á medida que os rapazes foram crescendo, mais os dois velhinhos frascarios se fecharam em maior discreção, de modo que das suas aventuras serodias não pudesse chegar noticia aos netos.Pela primavera, quando as arvores rebentavam e os campos erveciam, sentiam-se renascer, vibrar; e sempre que o pé lhes escapava para a folia, cuidadosamente afivelavam a mascara, para não serem apanhados com a bocca na botija.Os rapazes estavam uns homensinhos, de cara penugenta, e os dois avós concertaram entre si ir-lhes dando algum dinheiro, para que não guardassem toda a mocidade para a velhice.—Como nós... dizia um.—Eh! eh! respondia, rindo, o outro.E ao cabo de alguns momentos de meditação:{57}—Isto tem que ser por força... exclamava um.—Isto, o que?—Dar com a cabeça pelas paredes, e fazer tolices. Portanto, quanto mais cedo a tempestade passar, melhor. Eu bem o sei... Comecei muito tarde, é o que foi...—E eu!... ponderava o outro.Ora a verdade era que elles tinham começado desde o principio, que é a maneira mais logica e chronologica de começar.Os rapazes gastavam dinheiro, que os velhos lhes davam, e como a mocidade não é mais do que a primavera da vida, elles tinham, a respeito dos avós, a vantagem de não precisarem esperar pelo calendario.Atiravam-se.A primavera do anno chegára, e os dois velhos, galvanisados por ella, deitaram-se a farejar conquistas por toda essa Lisboa galante.Mas, como dois gastronomos do amor, que sempre foram, já estavam um pouco aborrecidos de bons petiscos, e o que elles agora queriam, a proposito de petiscos metaphoricos, era achar iguarias optimas.—Achei! disse uma vez um velho ao outro.—Aonde?—Longe, mas bom.—Aonde?—Á Penha de França.—Irra! que é longe! Mas dize lá.{58}—Vinte e quatro annos. Formas redondas, linhas esculpturaes, frescura, belleza, mocidade. Uma alface, que a gente tem vontade de trincar, para refrescar-se.—Já o sabes?—Suspeito-o, pelo que vejo. Mas tenho aqui um bilhete de apresentação para nós ambos.—Bravo! excellente! Lá iremos...E á noite, das nove para as dez horas, os dois velhinhos passaram por entre filas de lojas illuminadas, desceram honestamente o Chiado sem olhar para asestrellas cadentes, que lhes davam encontrões, tão honestamente como se fossem áBaixacomprar bolos moles para as esposas desdentadas.Muita gente os cumprimentava, e elles correspondiam ao cumprimento com a gravidade austera de duas pessoas idosas que fossem caminhando para umlausperenne.Mas, lá por dentro, no que elles pensavam era no alto da Penha: uma casinha de um andar, menos mal alfaiada, com rotulas verdes norez-de-chaussée.E n'um passinho curto, mas rendoso, atravessaram a Baixa, passando honestamente por entre filas de lojas illuminadas, foram andando, andando, ganhando o largo do Intendente, galgando para Arroyos, sempre a rir lá por dentro—eh! eh!—até que começaram a marinhar lentamente pelo Caracol da Penha, aonde o perfume do prazer{59}lhes parecia chegar já, como o bom cheiro de uma cozinha, que se sente ao longe. Chegaram ao alto da Penha.—É ali, disse um.—Ha luz norez-de-chaussée, observou o outro.E espionaram, que não fosse alguem suspeital-os. Depois, cautelosamente, aproximaram-se das janellas de rotulas verdes. Ouviram conversar, rir. Na Penha de França, ás dez horas da noite, o vicio tem confiança na solidão: não é preciso fechar as portas das janellas.—Espreitemos e ouçamos.—Sim... ouçamos e espreitemos.E após um momento de silenciosa contrariedade:—Ha homens, e eu conheço as vozes. Depois, puxada a gola ás faces, os chapeus enterrados na cabeça, continuaram escutando.E, de subito, caminhando para o intervallo das janellas, medrosos, desapontados, disseram, com os labios colados á orelha um do outro:—São os nossos netos!De repente, como se ambos obedecessem ao mesmo pensamento, deitaram a descer por ali abaixo, a descer, fazendo da fraqueza forças.Só na rua direita de Arroyos tornaram a parar. Certificando-se de que não eram seguidos, exclamaram de novo:—E esta! Eram os nossos netos!...{60}Foi abraçado o chronista, que realmente nos soubera prender a attenção. O seu numeroso amigo Leotte, em agradecimento da dedicatoria, pegou no Maldonado ao collo. Uma ovação!A breve trecho, o relogio do Victor dava meia-noite.—Mas então, apostrophou o Gonçallinho, a gente ha de ir-se embora sem ouvir os rouxinoes?!Vozes, ao levantar da feira:—Amanhã!—Amanhã!O Gonçallinho Jervis disse-me que ia para o seu quarto escrever.—O que vaes tu escrever, meu lyrico?—Vou, antes que me esqueça, dar forma ao outro conto que pensei pelo caminho.—Ah!A morte do bibliophilo? Pois vae, e ámanhã o lerás.Ia eu para deitar-me, quando o Leotte, muito intrigado ainda com a historia de D. Maria de Alarcão, entrou no meu quarto, procurando certificar-me de que, para desenvencilhar mysterios de mulheres, tinha elle faro como ninguem. Que eu veria; que ou a rapariga tinha falado com sinceridade ou que elle era um grande tolo, do que não estava convencido.Depois pegou a contar casos do seu tempo de Coimbra, memorias de condiscipulos e já eu tinha perdido o somno quando elle abordou a historia do seu condiscipulo Barcellos.{61}—Quem era esse? perguntei.Como lhe dei trella, foi um gosto ouvil-o.Barcellos, o grande, passou quasi desconhecido fóra de Coimbra, onde se doutorou, e fóra de Salvaterra de Magos, onde nasceu.Bohemio e improvisador como Bocage, fez a sua lenda em Coimbra, no meio de uma sociedade de rapazes em que a falta de talento era tida como rarissima falha de toque denunciada na contrastaria intellectual da Universidade. Na terra dos cegos, quem tiver um olho é rei. Mas o Barcellos galgou ao primeiro premio e ao primeiro logar através de uma basta legião de sujeitos em que os anonymos eram pequenissima excepção.O Barcellos apenas differia de Bocage em não reproduzir pela escripta as suas composições. Falou; toda a sua vida se foi n'isso: falar. Teve improvisos felicissimos, extraordinarios, principalmente em prosa.Verba volant.Os seus discursos não foram fixados pela stenographia. Não são conhecidos no paiz. Mas aquelles que lh'os ouviram, jámais poderão esquecel-os.De copo em punho, a graça, a verbosidade, a satyra e a anecdota emergiam da onda rubra do Bairrada como Venus do seio da vaga azul do oceano. Uma belleza! um primor!A Universidade quiz doutoral-o. Elle respondeu que em Salvaterra de Magos um capello era a insignia mais inutil d'este mundo. Redarguiram-lhe{62}que um capello equivalia a uma cathedra. Lá isso não! elle só tinha geito para ser estudante, respondeu. Visto que deixava de ser estudante, iria para Salvaterra annullar-se. Mas a Universidade teimou em dar-lhe o annel de doutor. Elle enfiou-o no dedo, e tratou de annullar-se em Salvaterra.Metteu-se em casa. Saía da cama para ir jantar, e ás oito horas da noite, de charuto ao canto da bocca, apparecia na botica, que o esperava com interesse. Tomava a palavra, monopolisando-a, logo que lhe lembrassem um assumpto, qualquer que fosse.Falou-se uma noite da intelligencia dos cães. Um caçador da localidade contou, como quem lança á terra uma semente para que se reproduza, a historia de uma perdigueira, que tinha a idolatria da caça. Em passando um caçador de arma ás costas, ainda que lhe fosse desconhecido, a perdigueira seguia-o. Em ouvindo assobiar, punha-se de orelha fita, e partia. Era um estranho que a chamava? Não se lhe dava d'isso: acompanhava-o. O seu gosto, o seu enthusiasmo era a caça. O caçador disparava o primeiro tiro. Acertava? caía uma perdiz? A perdigueira pulava de contente, estava alegre e interessada para todo o dia. Falhava o tiro? A perdigueira começava a olhar desconfiada para o caçador. Falhava um segundo tiro? A perdigueira amuava, aborrecia-se. Mas se o terceiro tiro falhava, a perdigueira{63}desandava para casa, abandonando o caçador.O grande Barcellos ouvia sorrindo, aquecendo, vibrando, como Bocage nos mais felizes raptos da improvisação. Lançado o assumpto, apanhava-o no ar, senhoreava-o, fréchava-o de glosas em que a imaginação refervia torrencial.—Não me admiro, disséra n'essa noite o Barcellos, erguendo-se e passeando, muito peripoletico e muito jovial. Eu lhes conto o que me aconteceu em Coimbra, a proposito da intelligencia dos cães. Era no meu sexto anno. Estava-me preparando para defender theses. Uma estopada que a Universidade me metteu pela porta dentro! Recolhia uma noite para casa, na rua do Correio, paredes meias do predio onde oMata-fradesnasceu. Á esquina da Sé Velha, oiço ganir dolorosamente um canito na escuridade. Aproximo-me, curvo-me...E, de cocoras, elle representava, como um actor consummado, a sua narrativa.—Encontro effectivamente um cão, um pequeno cão vadio, um desherdado da fortuna, com uma perna partida. Pobre animal! Levanto-o cautelosamente, chego-me a um candeeiro, examino a fractura. Sinto na minha alma esse generoso impulso de caridade que todo o racional completo sente pelo irracional incompleto. A gente ri-se ás vezes de um homem coxo: mas sente-se abalado perante um cão que anda de perna no ar. São segredos{64}da nossa incomprehensivel natureza, que difficultam o principio theorico da fraternidade universal. Entro em casa, deponho delicadamente o canito sobre a minha cama. Vou á estante. Tiro o primeiro livro encadernado em que puz os dedos. Era um Michelet. Deixal-o ser. Tanto melhor! Um philosopho humanitario estava a calhar para uma acção meritoria. Rasgo a encadernação. Corto-a em tiras, e applico as talas á perna quebrada. Ligo-a. Ponho o cão sobre uma cadeira, cubro-o com a minha capa de estudante. Deito-me. Adormeço.O grande Barcellos accendeu outro charuto, afastou do pescoço o seu alto collarinho engommado, e proseguiu:—Ao cabo de vinte dias de tratamento, a fractura tinha solidificado. Tiro ao cão o apparelho cirurgico, e elle, sem lamber a mão que o havia beneficiado, rompe pela porta fóra, desce a escada, safa-se pela rua abaixo de rabo caído. A ingratidão dos cães! meditei eu. Nem um olhar, nem uma caricia, uma demonstração qualquer de agradecimento! Fosse um homem, e abraçar-me-ia. Fosse uma mulher, e beijar-me-ia. Era um cão: safou-se como quem era. Ah! meus amigos, que errado juizo este! Cerca de dez dias depois, estava eu, de papo para o ar, lendo uma d'aquellas coisas que a gente só lê em Coimbra: um doutor. Um doutor que tem escripto é a praga maior que se conhece. Sinto arranhar na porta do quarto:{65}primeira vez, segunda vez, terceira vez. É um gato! disse eu. Atirei fóra o doutor, saltei da cama, pego no meu bastão da noite e abro a porta disposto a enxotar o gato impertinente. Sabem os srs. quem era? Era omeucão da perna partida, são como um pêro. Mas trazia outro, trazia outro cão, que tambem quebrára uma perna. Achei-lhe graça. «Com que então, disse eu voltando-me para o ingrato canito de que tão cuidadosamente havia tratado, tu pensas que isto aqui é casa de algebista? Achas mais barato do que ir aoendireita? Abriste conta corrente comigo? Mas quando pagas tu, refinadissimo tratante? Safaste-te á franceza: nem uma, nem duas! e trazes-me agora um amigalhote coxo para que eu o concerte?» E omeucão crivava o seu vivacissimo olhar em mim, como a perguntar-me se eu entendia o sentido da sua visita. O outro, de perna no ar e focinho no chão, esperava pela consulta. «Mas no fim de contas, disse eu, tu tens ao menos uma qualidade nobre: és amigo do teu amigo. Elle quebrou uma perna, é teu parceiro na bohemia, sabes que eu concerto pernas, e vieste cá. Pois vamos lá a isso, meu ingrato de uma figa.» Tiro outro livro da estante, e ponho duas talas de papelão na fractura do canito. Deito-o sobre uma cadeira, mando-lhe dar de comer, mas emquanto espero que a servente traga umas sopas, o introductor safa-se pela escada abaixo. Não está má esta! reflexiono. Com que então isto é chegar, vêr e vencer! Mas... mas{66}pensei que talvez um sentimento de delicadeza obrigasse omeucão a retirar-se: quereria porventura poupar-me ao sacrificio de sustentar dois hospedes. Seria ou não seria. No dia seguinte vejo-o entrar de repente. Põe-se do chão a olhar para o outro, que estava na cadeira, certifica-se de que elle tem as talas, de que está em tratamento, de que eu sou umendireitaacabado e um philantropo inexgotavel. Sái. Durante oito dias ninguem o vê mais, talvez para me significar que confiava plenamente na minha cirurgia. Ao nono dia volta a visitar o amigo. Olha para elle, parece dizer-lhe com os olhos—Isso vae bem—e raspa-se. O curativo chegou a seu termo, e omeucão nunca mais voltou. Levantei o apparelho com a mestria que dá a pratica. Lembrei-me até de abrir um consultorio para cães; mas tive receio de que a faculdade de medicina me fizesse instaurar processo, visto que eu só podia abrir consultorio para demandistas. O cão safou-se como o outro, sem um olhar, uma caricia, uma qualquer manifestação de agradecimento.—E nunca mais os viu? perguntaram ao grande Barcellos.—Lá vamos, respondeu elle. Fiz exame de licenciado, defendi theses, tomei capello. Dia cheio na Universidade, o do capello. Puz na cabeça uma borla doutoral, e recebi auctorisação solemne para acrescentar ao meu nome mais seis lettras. A Universidade confirmou o tratamento que a minha{67}servente me dava desde o primeiro anno. Abraços dos lentes e de toda a mais doutorança; abraços dos estudantes, abraços dos archeiros. A propriaCabraparecia dizer-me: Se eu pudesse descer, mettia-te os tampos dentro. Vou a casa para descansar do capello, emquanto n'umhotelda baixa se prepara o jantar do doutoramento. Desço até á Sé Velha, entro na rua do Correio, aproximo-me de casa e vejo á minha porta, cada um de seu lado, os dois cães que eu concertei, e que me iam dar os parabens! Aqui teem os senhores o que é a intelligencia do cão.Tal foi—exclamava o Leotte enthusiasmado—a improvisação do grande, do immortal Barcellos n'uma noite da botica. E todas as outras noites eram assim.—Ó homem! atalhei eu. Vae deitar-te e deixa-me dormir, que são duas horas da noite!{68}{69}VIIDepois de um terceiro dia passado no mais delicioso pantheismo vadio de que ha memoria, e em que o Leotte, sempre intrigado com a historia da criada, houve por bem,malgrê lui, acompanhar-nos, reunimo-nos, depois de jantar, no salão do Victor para continuarmos os nossos serões litterarios, a que, seja dito de passagem, já todos mais ou menos iamos tomando gosto.As reluctancias que alguns, a principio, manifestavam, quando o presidente Vasconcellos e osabio congressoos intimavam a falar, iam desapparecendo. Com mais um mez de Cintra, saía d'ali um enxame de oradores. Que desgraça, se tal acontecesse!Durante o dia, mettemos á bulha o Leotte por causa do seu supposto achado de uma fidalga na cozinha do Victor. Elle estava um pouco azoinado{70}com a nossa troça. E, por orgulho ou convicção, promettia, protestava tirar o caso a limpo.Já n'aquelle mesmo dia, pela manhã, apesar de se ter deitado tarde como eu, havia trocado com a rapariga algumas palavras, poucas: e ella asseverara-lhe, dizia elle, que havia falado verdade na vespera.—A rapariga tem um certo ar de ingenuidade, que me convence! insistia elle.—Contou-te o seu romance, como todas, exclamou o Vasconcellos. Parece que não conheces o genero! Muito tolo és!—Conheço o genero, conheço, mas, por isso mesmo, acho que ella fala mais verdade do que todas as outras que costumam impingir-nos oseuromance. Emfim, veremos. Deixem-me vocês em paz.Á noite, no Victor, não houve duvidas sobre quem primeiro falaria. Pois que o Gonçallinho Jervis havia escripto já o seu segundo conto, como de manhã confessára, foi-lhe concedida a palavra, e, em verdade, outra coisa não desejava elle.Ouvimos pois, no meio do silencio regulamentar, que o Vasconcellos não deixava interromper, a narrativa que o nosso bom Gonçallinho planeara na almofada dochar-á-bancsao lado do cocheiro. O que é o poder da imaginação juvenil! Foi ao lado de um cocheiro de praça, que naturalmente cheirava a aguardente e suor, que elle{71}phantasiou essa em verdade joiasinha litteraria, por elle proprio denominadaA morte do bibliophilo.—O bibliophilo Joseph, contou, era uma alma antiga, um espirito classico, que vivia no pó dos livros e no pó das ruinas.Todo o mundo da sua actividade intellectual, concentrada e profunda, havia passado já, mas elle resuscitava-o, nas suas cogitações luminosas, tão vivo e tão perfeito, como se a idade-média, que de preferencia amava, fosse um ramo de flôres, de que pudesse sentir ainda o perfume longinquo.Barbaros que invadiam a Europa, cavalleiros e trovadores, castellãs e pagens, guelfos e gibelinos, cruzados que partiam para a Terra Santa, burguezes que levantavam o grito da insurreição communal contra os senhores feudaes, exercitos que se despedaçavam n'uma guerra de cem annos ergendo os pendões da França e da Inglaterra, o imperio succumbindo perante o papado no parque do castello de Canossa, para resurgir depois triumphante na batalha de Volksheim; Roma desabando na sua grandeza moribunda, ao passo que as monarchias modernas palpitavam na primeira vibração da sua vitalidade autónoma, mares tenebrosos que se estavam offerecendo á quilha das primeiras naus descobridoras, como um terreno inculto ao dente fecundador da charrua, vagas revoltas de uma grande epopêa maritima,{72}que espumavam anciosas da apparição de um Gama dominador, tudo isso rolava no seu espirito, como no sonho de uma febre permanente, passando, agitando-se, baralhando-se tumultuariamente sobre a tela historica de dez seculos de civilisação medieval.Em torno da sua alta cadeira de braços, a que estava sempre preso como Prometheu ao rochedo, longas filas silenciosas de canções de gesta e de novellas de cavallaria, in-folios de capas de pergaminho levemente rugoso, grossos volumes de encadernação tão dura como um arnez, formavam disciplinarmente, á espera que elle, com um simples volver de olhos, os chamasse á refrega de todos os dias, lhes désse a voz de commando, o grito de alarma.Sorriam-lhe do alto da estante, como que constituindo a ala dos namorados n'aquelle exercito de livros, os poemas carlovingeos, cheios da poesia dos combates, como naCanção de Rolando, cheios de ingenuidade heroica, como naCanção do Figueiral; os poemas daTavola-redondaem que o espirito cavalheiresco pairava, como a borboleta na indecisão de dois nectarios, entre a lenda do rei Arthur e a tradição do Santo Graal.Depois galopavam para elle, mal que os chamasse com os olhos, os esquadrões interminaveis dos cavalleiros andantes, fazendo flammejar no ar a espada nua, desembainhada em honra{73}de uma dama, que á noite, nas côrtes de amor, emquanto dois trovadores se digladiassem improvisandotensões, lhes havia de dar n'um sorriso, feito de rosas e perolas, o premio da victoria.Ah! como o bibliophilo Joseph amava tão de dentro, tanto do imo peito, esse galante mundo aventuroso que divinisava a mulher a ponto de que, derrubado o altar por Cervantes, toda a realidade da belleza parecia tão pallida como o reflexo do sol agonisante resvalando nas vidraças coloridas d'uma janella gothica.Foi por isso que bibliophilo Joseph passára toda a sua vida sendo um celibatario sem familia, longe do calor absorvente das fundas affeições domesticas, na solidão sepulcral que só os livros povoavam.Herdára de um velho tio todas as preciosidades bibliographicas que completavam o thesouro da sua bibiotheca. Abrira, por desfastio, o primeiro livro, como um operario insciente que experimenta a medo a engrenagem de uma machina. Impellido por uma especie de dever sagrado, que lhe era imposto pela posse de um legado querido e precioso, foi voltando pagina sobre pagina, mas, a meio da leitura, como o viajante que fica encantado de encontrar um bello paiz desconhecido, sentiu-se preso pelo interesse e pela curiosidade e, chegando á ultima pagina, reconheceu que, tendo penetrado n'um palacio maravilhoso, o seu espirito exigia d'elle que não parasse no vestibulo.{74}Foi assim que a pouco e pouco devassou os segredos do passado fechados n'esses cofres de pergaminho, n'esses velhos codices poeirentos, que lhe deram a clara noção do cyclo cavalheiresco, em que a mulher, poetisada pela imaginação, perdia toda a mundanidade vulgar, para se exalçar pelo amor que a divinisava.Purificados no crisol da idade-média, todos os sentimentos humanos pareciam nobilitar-se de uma peregrina fidalguia, de uma lealdade heroica, de uma abnegação sobrenatural, que nenhuma outra civilisação pudera reproduzir nem copiar integralmente.Amadiz era para elle um symbolo epico da alma antiga.Ferido em combate, mas fortalecido pelo seguro amor que Oriana lhe inspirara, elle havia recusado a mão de Briolanja porque, n'aquelles tempos de fé imperturbavel, o coração era feito de diamante para resistir aos golpes da tentação e para no seu proprio brilho conservar inalteravelmente lucida a imagem uma vez gravada.Bibliophilo Joseph vivia absorvido como um rei excentrico na sua vasta côrte de livros, rodeado apenas de Amadizes e Palmeirins imaginarios, com os quaes praticava longas horas, ouvindo-os e respondendo-lhes, inquirindo do passado com uma devoção fanatica.Um criado que o servia, o velho Leão, era a unica pessoa que podia entrar no recinto sagrado{75}da bibiotheca, mas tendo comprehendido intuitivamente a paixão dominante do amo, impuzera-se o dever de não a perturbar jámais.Leão, de origem castelhana, havia passado na mocidade pela casa dos Medina-Sidonia, e tomára desde então um gesto de grave compostura, que não perdera nunca.Vestindo todos os dias a sua casaca, atando a sua gravata branca, para servir o sabio, como o havia feito, na mocidade, para servir os Medina-Sidonia, Leão cumpria religiosamente o seu dever de grande escudeiro de uma côrte sem cortezãos.Não dirigia nunca a palavra a seu amo se não para responder concisamente ás perguntas que elle lhe fazia. Entrava na bibliotheca sempre em bicos de pés, quando o amo lá estava, e muitas vezes, por já ter passado a hora do jantar, pousava ao de leve sobre a vasta escrivaninha de castanho, a que o bibliophilo se sentava, uma pequena bandeja contendo uma ligeira refeição, que o amo tomaria se quizesse. Leão retirava-se silenciosamente, deixando ao bibliophilo toda a plenitude do goso de jantar no meio dos seus livros com o Bimnarder daMenina e moçae com o Danteo daDianade Montemayor.O mais que Leão se permittia fazer, depois de ter deixado ficar a bandeja, era espreitar pela fechadura da porta, receoso de que o amo se houvesse esquecido de estender o braço para aproximar a refeição.{76}Leão tinha uma grande dedicação antiga por aquelle homem cheio de sciencia e de virtude, que atravessava a existencia sem se contagiar das paixões mundanas, conservando intacto um coração de ouro e um espirito de luz.Se via o amo ingerir á pressa a refeição, tranquillisava-se, e só voltava tempo depois a espreitar pela fechadura da porta para o vêr dar um pequeno passeio hygienico, enrijecendo as pernas, em roda da bibliotheca, como se andasse passeando n'um jardim, batendo os pés deante dos canteiros, parando a observar as etiquetas latinas das plantas.O que bibliophilo Joseph examinava era a sua collecção preciosa de rosas bibliographicas, de raras tulipas litterarias. Demorava-se olhando a lombada dos quatro in-folios daVita Christi; tirava da estante, para acarinhal-a, aHistoria do mui nobre Vespasiano; fazia uma rapida visita aoPentateuco hebraicoe aoAlmanach perpetuus, que eram proximos vizinhos; folheava, envolvendo-o n'um olhar em que gorgeavam beijos paternaes, o seu queridoBoosco deleytuoso, que lhe exhalava nas mãos, como um lirio aberto, todo o perfume da antiguidade quinhentista.Leão via o bibliophilo entregue a esse bom passeio hygienico, que tanto lhe deleitava o espirito, e acabava de tranquillisar-se pela saude de seu amo, que, muitas vezes, quando não alternava com a leitura o menor exercicio muscular, tinha{77}tido, ao levantar-se da cadeira, depois de longas horas de vida sedentaria, vertigens gastricas.Quando a noite principiava a cair, Leão entrava com o enorme candieiro de tres bicos, cuja luz uma larga pantalha de latão afrouxava. Poisava-o sobre a escrivaninha, com o leve ruido de uma mosca que passasse, e ia accender, ao fundo da bibliotheca, o fogão de sala, fortemente chapeado de ferro, para não communicar calor ás paredes.Cá fóra, na rua, principiavam, d'ahi a pouco, a rodar as carruagens que batiam para os theatros, para as festas frivolas da noite. Umas vezes por outras passavam fanfarras, folias populares, que iam para os clubs operarios improvisados ao ar livre. Outras vezes sentia-se o estrondo de bombas de incendio, que passavam, arrastadas vertiginosamente; e os sinos da cidade, alvoroçados, ouviam-se badalar, pedindo soccorro.Mas nunca esse movimento exterior eccoava na habitação solitaria do bibliophilo de modo a perturbar a paz do seu espirito. Parecia que ao sol posto se tinha erguido a ponte levadiça de um castello, bem defendido por um cinto negro de ameias e de fossos.Só excepcionalmente bibliophilo Joseph fozia soar a campainha para chamar o seu velho Leão.Comprehende-se, pois, a angustia com que o{78}dedicado escudeiro ouviria uma noite dois toques de campainha consecutivos.Correu á bibliotheca.Bibliophilo Joseph, quando elle entrou, forcejava por levantar-se da sua alta cadeira de braços, mas as forças traíam-n'o, as pernas dobravam-se-lhe, e o sabio, muito pallido, encostou-se, vencido pela doença, sobre o espaldar.Leão acudiu-lhe carinhosamente, levantou-o nos braços tremulos, foi depôl-o no leito, chorando.O bibliophilo sentiu-lhe as lagrimas, colheu-lhe docemente a mão, abriu os olhos, demorou-os fitando-o, e disse-lhe:—Não chames ninguem, que ámanhã estarei melhor.Toda a noite o velho Leão velou junto ao leito de seu amo, que, levemente anciado, parecia de vez em quando, com os olhos abertos, querer fixar o pensamento n'um ponto vago, que lhe fugia.Ao romper da manhã, Leão, sentindo um movimento nervoso do doente, interrogou-o.Bibliophilo Joseph, com a face marmorisada n'uma pallidez terrena, disse-lhe abrindo um sorriso triste:—Queria, meu velho amigo, que me realisasses um desejo.Leão, pendido ao leito, o peito offegante, escutava reverente.{79}—Que me amparasses com o teu carinho até á bibliotheca.O velho criado levantou-o nos braços, envolto nas roupas do leito, e foi sental-o, entre almofadas, na alta cadeira de respaldo.Um cansaço extremo parecia aniquilar o bibliophilo, ao passo que Leão sentia rijos os seus braços como se fôssem de ferro.Com doloroso esforço, bibliophilo Joseph disse ao velho escudeiro, indicando-lhe uma estante:—Traze d'ali oD. Quichotede Miguel Cervantes. Abre-o, e lê onde entenderes melhor.Leão correu á estante, tirou oD. Quichote de la Mancha, e, aproximando-se da cadeira do amo, caiu de joelhos, com o livro aberto.Lentamente, a voz embargada pelos soluços, começou a ler, e emquanto elle lia, o bibliophilo, cerrados os olhos, escutava cada vez mais anciado...Foi assim que aquella alma cristallina, para quem a idade-média tinha sido uma delicia, exhalou o derradeiro suspiro, emquanto o velho Leão, sempre de joelhos, lia oD. Quichotede Cervantes,—o epitaphio eterno da idade-média.Os applausos foram unanimes, postoque nem todos os ouvintes gostassem sinceramente d'esta especie de contos, a que o Vasconcellos, com maior ou menor propriedade, chamava phantasticos. Elle, por exemplo, preferia a escola realista: estava mais no seu genio, aliás pouco propenso a idealisações romanescas. Mas a verdade era que,{80}afastada a questão de assumpto, o Gonçallinho Jervis lográra dar á sua narrativa uma forma litteraria, que revelava um escriptor.Do Leotte sabia o Vasconcellos que não viriam phantasias, fabulações romanticas; que, pelo contrario, quando o Leotte falasse, seriam assumpto obrigado as mulheres. Ora no conto do Gonçallinho, segundo a expressão do Vasconcellos, nem meia mulher apparecia.{81}
No dia seguinte, quando saímos dohoteldepois de almoço, era quasi uma hora da tarde.
Convencemo-nos mais uma vez de que não ha nada tão bom para gastar o tempo... como não ter nada que fazer.
Fomos a Collares, em burro. Só o Leotte pediu licença para ficar. Concedida;—sob condição de que daria conta ás côrtes do uso que fizesse d'esta auctorisação legal.
—O Leotte traz grande empresa entre mãos.
—Empresa de cozinha, que póde esturrar-se facilmente.
—Saberemos depois... dizia o Vasconcellos, fustigando as orelhas do burro rebeldemente ronceiro.
A varzea de Collares estava realmente encantadora n'aquelle dia. Pairava no ar uma serenidade{42}saturada de bucolismo e de limpidez campestre, capaz de inspirar idillios á alma de um agiota. As arvores floridas perfumavam o ambiente. As aguas do rio das Maçãs dormiam como a superficie de um espelho. Passaros cantavam entre o arvoredo, mas não eram certamente rouxinoes, o que desesperou o Gonçallinho Jervis.
Fomos seguindo para o mar, na direcção do Cabo da Roca. Muitos rapazitos de Collares acompanhavam-nos, correndo, pulando adeante de nós. Iam na esperança de que quizessemos vel-os descer pela Pedra de Alvidrar, como aconteceu. A mim horrorisou-me vel-os deslisar ao longo d'esse rochedo empinado, que mergulha no mar; a cada momento me parecia que os pés ou as mãos lhes faltariam, e que, n'um abrir e fechar d'olhos, elles desappareceriam entre a espuma das ondas, que ali se despedaçam com estrondo.
Tambem fomos vêr o Fojo, esse grande funil de rocha bruta, que communica com o mar, cujo estampido sinistro exerce em nós uma estranha influencia de repulsão.
Foi bello todo esse passeio através de uma região encantadora, onde ninguem nos incommodava n'aquella occasião, e onde insensivelmente tudo haviamos esquecido de quanto nos pudesse n'este mundo dar cuidado ou desgosto.
—O tolo do Leotte perdeu isto!
—O que térá elle feito?!{43}
Soubemol-o depois, quando recolhemos ao Victor, noite fechada.
—Foi um achado! exclamou elle, mal que nos viu.
—Então?
—Isso é para depois. Durante o jantar, nem palavra, por causa dos criados, ouviram?
—Está dito.
Quando, findo o jantar, viemos para o salão do Victor, soubemos que o nosso amigo Leotte tinha descoberto nohoteluma criada originalissima.
—Uma fidalga extraviada do grande mundo! disse-nos elle.
—Como assim?!
—Chama se Maria de Alarcão, está aparentada com muitas familias nobres do paiz, e viu-se reduzida, pela pobreza que herdou de seu pae, um tal D. Alvaro, a ser criada de todas as suas primas e primos, que venham hospedar-se no Victor.
—Mas quem é então esse D. Alvaro?
—Morreu. Perguntei-lhe se sabia os nomes dos avós, e ella respondeu-me que os seus avós tinham sidogentis guerreiros.
—E ella respeita as cinzas de seus avós?
—Ella estava-me contando a sua triste historia, quando outra criada a veiu chamar, gritando: ó Rosa! ó Rosa!
—Então é Maria, e chama-se Rosa?
—Essa pergunta fiz eu a mim proprio. Mas{44}ella, de relance, percebendo a minha surprêsa, explicou que Rosa era o seu nome de guerra, e D. Maria de Alarcão o seu nome de familia.
—Eis o que tu apuraste em todo o dia!
—E já não foi pouco. Talvez que vocês tenham achado muitas criadas cujos avós fossemgentis guerreiros!...
—Para isto, exclamou o Vasconcellos, deixou este tolo de ir passear a Collares!
—Estou vendo, disse eu, que a tua Rosa é tanto Alarcão como era principe aquelle heroe, da historia que sabe o Athayde, que appareceu nas Caldas de Vizella.
—É verdade! quero ouvir a historia do Athayde, observou imperativamente o Vasconcellos. Meus senhores, está aberto oDecameron.
O Athayde fez-se algum tanto rogado, mas contou:
—Era um domingo calmoso de agosto. Todos os hospedes doHotel do Padre, nas Caldas de Vizella, estavam sentados á sombra do parque dohotel, conversando, lendo, jogando,flirtando. Nenhum d'elles ousára ir á estação esperar o comboio. Os passarinhos, se não pudessem encontrar um doce refugio nas arvores marginaes do rio Vizella, cairiam do ceu assados e depennados. Com uma soalheira d'aquellas, não havia nada que apetecesse tanto como o descanso e a sombra.
De repente ouviu-se o silvo da locomotiva.—Lá{45}chegou o comboio!—Pois deixal-o chegar!—Quem vier, cá virá ter. Vinte minutos depois, paravam á porta dohotelduasamericanas, poeirentas e escanceladas. E um sujeito de fato de flanella branca, chapeu branco, acompanhado por uma senhora da sua idade—vinte e quatro a vinte e cinco annos—, atravessou olympicamente o parque dohotelsem cumprimentar ninguem. Da segunda carruagem apearam-se duas criadas e dois criados, com pequenas malas na mão.
Este acontecimento causou certa sensação entre os hospedes doHotel do Padre, visto não haver acontecimentos de maior polpa.
—Quem será isto? perguntava-se.
—É um principe! dizia ironicamente um janota de Guimarães.
—Um principe e uma princeza, acrescentava do lado um banqueiro portuense.
—Com os respectivos veadores e damas, observou bonacheironamente o padre José Maria, que possuia uma graça simples, quasi patriarchal, e que era um dos hospedes mais estimados nohotel.
Depois, emquanto a sombra caía das arvores, todos continuaram conversando, lendo, jogando,flirtando.
Á hora do jantar, a princeza e o principe foram vistos já sentados á cabeceira da mesa, silenciosos e graves. Os seus dois criados, de casaca, postados por detrás da cadeira doprincipe{46}e daprinceza, conservavam-se immoveis como estatuas.
Todos os outros hospedes, que iam chegando, trocavam entre si sorrisos, olhares de intelligencia. Padre José Maria arregalou os olhos, franziu o beiço, sentou-se. As senhoras diziam segredos umas ás outras. Os homens, de vez em quando, arriscavam em voz alta uma allusão disfarçada.
Findo o jantar, oprincipee aprincezalevantaram-se; os seus dois criados, muito direitos, arrastaram-lhes as cadeiras. Não cumprimentaram ninguem.
Então a galhofa expludiu, os epigrammas estalaram. Padre José Maria teve pilhas de graça. Um hospede aventou a idéa de que se pedisse o registo dohotelpara saber-se o nome do recem-chegado. Veio o registo. Dizia simplesmente isto:Commendador Piratinino e sua esposa.
—Pois, srs., observou padre José Maria, é mais a salsa que o peixe!
Riram todos, e novos epigrammas rebentaram n'uma grande hilaridade desenfadada.
Mas o janota de Guimarães teve uma lembrança feliz: que em tom de confidencia se dissesse aos criados do hotel que o commendador Piratinino era nada mais e nada menos que um principe disfarçado.
—E Piratinino é um bello nome para principe! observou uma senhora.{47}
—Principe... de magica, pelo menos, acrescentou alguem.
—Mas se nos perguntarem d'onde o homem é principe, que responderemos?
—Que é principe da Ribária.
—E onde ficará geographicamente a Ribária?
—Sim... isso...
—A Ribária ficará na peninsula dos Balkans, entre a Rumélia e a Bulgária, se quizerem. Nas Caldas de Vizella pode haver tudo, menos um mappa da Europa. Ninguem irá verificar; soceguem.
—Magnifico!
—Maravilhoso!
Ficou tratado que Piratinino era o principe da Ribária, e que a Ribária ficava nos Balkans. Dois minutos depois, fazia-se a revelação aos criados, pedindo-lhes a maxima reserva, para não comprometter oincognitodo principe. Quatro minutos depois os criados tinham revelado o segredo ás criadas dohotele, passada uma hora, constava em toda Vizella que noHotel do Padreestava hospedado um principe estrangeiro muito rico. Á noite, em todos os circulos de conversação, acrescentava-se: Fabulosamente rico. E sabia-se já em toda a villa que, depois do principe, havia chegado uma carroça com bagagens, suspeitando-se que a maior parte das malas traziam joias da princeza, porque um terceiro criado as vinha guardando como o dragão de cem cabeças guardava{48}os pomos de ouro do jardim das Hespérides. Diziam alguns, com uma certeza convicta, que na Ribária havia minas de metaes preciosos, e outros, por inculcarem sciencia ou por espirito de hyperbole, acrescentavam que no principado da Ribária jámais houveradeficit.
Corria tudo ás mil maravilhas.
N'essa tarde, os principes não saíram a passeio, e d'este modo lográram inconscientemente a justa curiosidade do povo de Vizella, que se tinha agglomerado nas vizinhanças dohotel. Mas no dia seguinte pela manhã suas altezas foram tomar o seu banho á Lameira, o povo pôde vêl-os, contemplal-os, os pobres filaram-n'os, os curiosos seguiram-n'os, e o principe, voltando-se para trás, disse a um dos criados que désse esmolas aos pobres e ás creanças. O criado distribuiu para cima de dezoito vintens em cobre. Por um tris que o principe e o criado não apanharamvivas. Mas desde aquella hora, toda a gente, incluindo os hospedes que tinham inventado ablague, ficou capacitada de que Piratinino era realmente um principe.
Suas altezas saíram de tarde a passeio. Os hospedes doHotel do Padreesforçavam-se a explicar que na Ribária a etiqueta era muito rigorosa, e que o principe não podia saudar senão os fidalgos do seu paiz. Foi preciso inventar isto, porque o povo de Vizella, que tinha visto uma vez em Guimarães el-rei D. Luiz cumprimentar{49}toda a gente, estranhava o facto. Em compensação, todos os populares cumprimentavam suas altezas, e eu pendo a acreditar que o proprio Piratinino se ia sentindo principe... cada vez mais.
A coisa constou. Vieram pobres de Guimarães, de Negrellos, de Santo Thyrso, de modo que foi preciso, nohotel, prohibir-lhes a entrada no parque. Mas elles, illudindo a ordem, penduravam-se das arvores, para serem os primeiros a lobrigar e a assaltar sua alteza o principe da Ribária. De cada vez que saía, o excelso principe tinha uma despêsa obrigada, de dezoito vintens pelo menos. E os hospedes dohotelsaboreavam em segredo, n'uma risota permanente, o bom exito da sua invenção.
Um dia o criado do principe pediu informações aos criados dohotelsobre a navegabilidade do rio Vizella. Aquelle a quem a pergunta fôra feita veio, com a melhor boa fé d'este mundo, dizer aos hospedes que sua alteza ia n'aquella tarde para o rio.
—Para o rio! exclamaram os hospedes. E padre José Maria observou do lado:
—Para o Rio... de Janeiro, talvez. O principe sente-se arruinado pela mendicidade das Caldas de Vizella e seus arredores. Vai talvez restaurar a fortuna.
Mas o criado explicou: Que não. Que o principe tinha dinheiro como milho. Que ia mas era para{50}o meio do Vizella divertir-se com um barco que trouxera.
—Onde está o barco? perguntaram.
—Está dentro de uma grande mala, que veio na carroça.
Com effeito, um dos criados do principe chamou um homem, que foi ao hotel buscar a mala grande, e dirigiu-se com elle para a beira do Vizella. Pouco depois saiu o principe, todo vestido de branco, suatoilettefavorita, pelo que já algumas pessoas lhe chamavam—o principe branco.
Deu-se rebate nohotel, e todos os hospedes, repartidos em diversos grupos, se encaminharam para as margens do Vizella, seguindo uns pela Lameira, outros pelo Mourisco.
O boato saíra verdadeiro. O principe estava effectivamente no meio do Vizella, pescando á linha dentro de um barco de lona, um pouco similhante áquelle, se bem que mais pequeno, em que o general Caula atravessou o Tejo n'uma experiencia feita em agosto de 1874. Na margem ficára o criado, e a mala cuja tampa estava levantada, aberta. Comprehende-se que um principe não permittisse ao criado a honra de tomar assento a seu lado dentro do mesmo barco. Já sabemos que na Ribária a etiqueta é muito rigorosa.
Toda a população de Vizella, a fluctuante e a permanente, pôde saciar seus olhos curiosos na contemplação d'esse quadro inteiramente novo ali: um principe estrangeiro pescando á linha{51}dentro de um barco de lona. Só os hospedes doHotel do Padrese riam, porque os do Cruzeiro do Sul, que não estavam na confidencia, e os bons populares ingenuos tomavam o caso muito a serio, e contemplavam encantados oprincipe brancopescando.
Escusado será dizer que sua alteza não pescou coisa nenhuma. Quem pesca são os pescadores, porque teem obrigação d'isso. Os principes divertem-se, e enfadam-se.
Foi o que aconteceu a sua alteza, porque, naturalmente enfastiado, quiz abicar a terra. Mas o barco começou a rodopiar, a oscillar, e o principe, já um pouco impaciente, redobrava de esforços, de pressão.
Toda a gente sabe com que facilidade, n'estas condições, se volta um barco. Foi o que aconteceu ao do principe. Sua alteza fizera um movimento menos cauteloso, e o barco tombou. Era um vez um principe n'um charco.
Grande grita se levantou de entre os populares. Os hospedes doHotel do Padreriam a bandeiras despregadas. Um rapazito atirou-se ao rio, para ir salvar sua alteza, que barafustava na agua. Cheirava-lhe a grande gorgeta, ao rapazito; nadava como um desesperado.
Foi-lhe facil trazer para terra o principe, e o barco. Mas o principe, que estava de fato branco, precisava mudar detoilette. A decencia reclamava-o. E emquanto o criado corria aohotel, a pedir{52}outro fato para sua alteza, o desgraçado principe da Ribária, mettido dentro da mala, só com a cabeça de fóra, evitando olhar para qualquer parte, esperava humilhado...{53}
—E eu que sei quem elle é! apostrophou o Maldonado, que era o mais silencioso de todos nós.
Achámos graça á observação, espicaçámos o Maldonado.
Elle explicou que tinha estado n'aquelle anno no Porto e que tambem lá tinha apparecido o commendador Piratinino, de fato branco, o qual seguiu d'ali para as Caldas de Vizella.
Era... disse-nos o nome, que não vem para o caso.
Mas como o Maldonado houvesse quebrado o seu silencio habitual, o Vasconcellos intimou-o a dar qualquer pequeno contingente para o nossoDecameron.
Que não; que não sabia historia nenhuma. Que não tinha geito para contar.
E a assemblea insubordinada:{54}
—Que contasse alguma coisa, senão que o levaria o diabo.
—Que de mais a mais o Maldonado não era baldo de gosto litterario: conhecia os poetas gregos, lia muito Theócrito.
—Que, finalmente, contasse alguma coisa obrigada a Theócrito.
Muito instado, cedeu.
—Pois ahi vae um caso, offerecido ao Leotte.
—Oh!
—Uma lição de moralidade para quando elle fôr avô.
—Que genero?
—Genero realista. Eu, infelizmente, não tenho a imaginação do nosso Gonçallinho. Conto o que aconteceu. E, sem mais preambulos, ahi vae.
—Eram dois velhinhos, seccos e rosados, alegres e gaiatos, muito amigos, socios na patuscada, sempre de mãos dadas, como dois banqueiros do amor, nos sindicatos do prazer.
Ambos casados, os marotos, mas azevieiros como Anacreonte. Tendo sugado na flôr do matrimonio todo o mel de uma longa lua nupcial, deitaram a correr aventuras, de braço dado, por amor da variedade, beijando, como borboletas insaciaveis, o nectario de todas as flôres que encontrassem na sua marcha triumphante.
Calados como ratos, de muito segredo e de muita ronha, iam saboreando a vida e zombando{55}da velhice, que apenas ousava nevar-lhes os cabellos, respeitando o coração e o mais.
Tiveram filhos canonicos e souberam educal-os. Conciliando os seus deveres de chefes de familia com os seus apetites de uma mocidade perpetua.
Sempre muito dissimulados, toda a gente os tinha por impeccaveis. Mas elles, a sós, um com o outro, riam-se de toda a gente. Eram solidarios: e confidentes nas suas rapaziadas inverniças, e fechavam a sete chaves o segredo das suas funcçanatas serodias.
Um tivera uma filha, que casou; o outro tivera um filho, que tambem casou. Mas a filha do primeiro não casou com o filho do segundo, por accôrdo dos dois velhos.
—Não quero o teu filho para a minha filha, disse o primeiro ao segundo, em segredo, porque receio que elle saia ao pae, e largue a fazer infidelidades como tu.
E riram os dois, dando-se pansadinhas,—eh!—eh!—como se estivessem em plena verdura da mocidade. Mas em casa, deante do genro e deante da nora, não ousavam falar em Theócrito, a não ser para reproduzir algum verso casto do bucolico grego, como por exemplo aquelle em que a pastora diz a Daphne: «O casamento não tem penas nem dôres; mas sómente alegria e danças.»
Secretamente, no fundo da sua consciencia, elles estavam de accôrdo quanto ásdançasdo casamento,{56}porque varias vezes se tinham visto mettidos n'ellas por causa da sua libertinagem, receosos das consequencias de alguma conquista aventurosa.
Intimamente, rezavam pela cartilha de Theócrito, não quando elle preconisava as alegrias do casamento, mas quando, por exemplo, fazia o elogio do beijo roubado a uma pastora sem a responsabilidade do matrimonio.
Cada um dos dois velhos teve um neto. Agradeceram muito á Providencia o favor de lhes dar netos do sexo masculino, porque os lisonjeava a ideia de que os netos lhes honrariam, por hereditariedade, a tradição patusca.
Á medida que os rapazes foram crescendo, mais os dois velhinhos frascarios se fecharam em maior discreção, de modo que das suas aventuras serodias não pudesse chegar noticia aos netos.
Pela primavera, quando as arvores rebentavam e os campos erveciam, sentiam-se renascer, vibrar; e sempre que o pé lhes escapava para a folia, cuidadosamente afivelavam a mascara, para não serem apanhados com a bocca na botija.
Os rapazes estavam uns homensinhos, de cara penugenta, e os dois avós concertaram entre si ir-lhes dando algum dinheiro, para que não guardassem toda a mocidade para a velhice.
—Como nós... dizia um.
—Eh! eh! respondia, rindo, o outro.
E ao cabo de alguns momentos de meditação:{57}
—Isto tem que ser por força... exclamava um.
—Isto, o que?
—Dar com a cabeça pelas paredes, e fazer tolices. Portanto, quanto mais cedo a tempestade passar, melhor. Eu bem o sei... Comecei muito tarde, é o que foi...
—E eu!... ponderava o outro.
Ora a verdade era que elles tinham começado desde o principio, que é a maneira mais logica e chronologica de começar.
Os rapazes gastavam dinheiro, que os velhos lhes davam, e como a mocidade não é mais do que a primavera da vida, elles tinham, a respeito dos avós, a vantagem de não precisarem esperar pelo calendario.
Atiravam-se.
A primavera do anno chegára, e os dois velhos, galvanisados por ella, deitaram-se a farejar conquistas por toda essa Lisboa galante.
Mas, como dois gastronomos do amor, que sempre foram, já estavam um pouco aborrecidos de bons petiscos, e o que elles agora queriam, a proposito de petiscos metaphoricos, era achar iguarias optimas.
—Achei! disse uma vez um velho ao outro.
—Aonde?
—Longe, mas bom.
—Aonde?
—Á Penha de França.
—Irra! que é longe! Mas dize lá.{58}
—Vinte e quatro annos. Formas redondas, linhas esculpturaes, frescura, belleza, mocidade. Uma alface, que a gente tem vontade de trincar, para refrescar-se.
—Já o sabes?
—Suspeito-o, pelo que vejo. Mas tenho aqui um bilhete de apresentação para nós ambos.
—Bravo! excellente! Lá iremos...
E á noite, das nove para as dez horas, os dois velhinhos passaram por entre filas de lojas illuminadas, desceram honestamente o Chiado sem olhar para asestrellas cadentes, que lhes davam encontrões, tão honestamente como se fossem áBaixacomprar bolos moles para as esposas desdentadas.
Muita gente os cumprimentava, e elles correspondiam ao cumprimento com a gravidade austera de duas pessoas idosas que fossem caminhando para umlausperenne.
Mas, lá por dentro, no que elles pensavam era no alto da Penha: uma casinha de um andar, menos mal alfaiada, com rotulas verdes norez-de-chaussée.
E n'um passinho curto, mas rendoso, atravessaram a Baixa, passando honestamente por entre filas de lojas illuminadas, foram andando, andando, ganhando o largo do Intendente, galgando para Arroyos, sempre a rir lá por dentro—eh! eh!—até que começaram a marinhar lentamente pelo Caracol da Penha, aonde o perfume do prazer{59}lhes parecia chegar já, como o bom cheiro de uma cozinha, que se sente ao longe. Chegaram ao alto da Penha.
—É ali, disse um.
—Ha luz norez-de-chaussée, observou o outro.
E espionaram, que não fosse alguem suspeital-os. Depois, cautelosamente, aproximaram-se das janellas de rotulas verdes. Ouviram conversar, rir. Na Penha de França, ás dez horas da noite, o vicio tem confiança na solidão: não é preciso fechar as portas das janellas.
—Espreitemos e ouçamos.
—Sim... ouçamos e espreitemos.
E após um momento de silenciosa contrariedade:
—Ha homens, e eu conheço as vozes. Depois, puxada a gola ás faces, os chapeus enterrados na cabeça, continuaram escutando.
E, de subito, caminhando para o intervallo das janellas, medrosos, desapontados, disseram, com os labios colados á orelha um do outro:
—São os nossos netos!
De repente, como se ambos obedecessem ao mesmo pensamento, deitaram a descer por ali abaixo, a descer, fazendo da fraqueza forças.
Só na rua direita de Arroyos tornaram a parar. Certificando-se de que não eram seguidos, exclamaram de novo:
—E esta! Eram os nossos netos!...{60}
Foi abraçado o chronista, que realmente nos soubera prender a attenção. O seu numeroso amigo Leotte, em agradecimento da dedicatoria, pegou no Maldonado ao collo. Uma ovação!
A breve trecho, o relogio do Victor dava meia-noite.
—Mas então, apostrophou o Gonçallinho, a gente ha de ir-se embora sem ouvir os rouxinoes?!
Vozes, ao levantar da feira:
—Amanhã!
—Amanhã!
O Gonçallinho Jervis disse-me que ia para o seu quarto escrever.
—O que vaes tu escrever, meu lyrico?
—Vou, antes que me esqueça, dar forma ao outro conto que pensei pelo caminho.
—Ah!A morte do bibliophilo? Pois vae, e ámanhã o lerás.
Ia eu para deitar-me, quando o Leotte, muito intrigado ainda com a historia de D. Maria de Alarcão, entrou no meu quarto, procurando certificar-me de que, para desenvencilhar mysterios de mulheres, tinha elle faro como ninguem. Que eu veria; que ou a rapariga tinha falado com sinceridade ou que elle era um grande tolo, do que não estava convencido.
Depois pegou a contar casos do seu tempo de Coimbra, memorias de condiscipulos e já eu tinha perdido o somno quando elle abordou a historia do seu condiscipulo Barcellos.{61}
—Quem era esse? perguntei.
Como lhe dei trella, foi um gosto ouvil-o.
Barcellos, o grande, passou quasi desconhecido fóra de Coimbra, onde se doutorou, e fóra de Salvaterra de Magos, onde nasceu.
Bohemio e improvisador como Bocage, fez a sua lenda em Coimbra, no meio de uma sociedade de rapazes em que a falta de talento era tida como rarissima falha de toque denunciada na contrastaria intellectual da Universidade. Na terra dos cegos, quem tiver um olho é rei. Mas o Barcellos galgou ao primeiro premio e ao primeiro logar através de uma basta legião de sujeitos em que os anonymos eram pequenissima excepção.
O Barcellos apenas differia de Bocage em não reproduzir pela escripta as suas composições. Falou; toda a sua vida se foi n'isso: falar. Teve improvisos felicissimos, extraordinarios, principalmente em prosa.Verba volant.Os seus discursos não foram fixados pela stenographia. Não são conhecidos no paiz. Mas aquelles que lh'os ouviram, jámais poderão esquecel-os.
De copo em punho, a graça, a verbosidade, a satyra e a anecdota emergiam da onda rubra do Bairrada como Venus do seio da vaga azul do oceano. Uma belleza! um primor!
A Universidade quiz doutoral-o. Elle respondeu que em Salvaterra de Magos um capello era a insignia mais inutil d'este mundo. Redarguiram-lhe{62}que um capello equivalia a uma cathedra. Lá isso não! elle só tinha geito para ser estudante, respondeu. Visto que deixava de ser estudante, iria para Salvaterra annullar-se. Mas a Universidade teimou em dar-lhe o annel de doutor. Elle enfiou-o no dedo, e tratou de annullar-se em Salvaterra.
Metteu-se em casa. Saía da cama para ir jantar, e ás oito horas da noite, de charuto ao canto da bocca, apparecia na botica, que o esperava com interesse. Tomava a palavra, monopolisando-a, logo que lhe lembrassem um assumpto, qualquer que fosse.
Falou-se uma noite da intelligencia dos cães. Um caçador da localidade contou, como quem lança á terra uma semente para que se reproduza, a historia de uma perdigueira, que tinha a idolatria da caça. Em passando um caçador de arma ás costas, ainda que lhe fosse desconhecido, a perdigueira seguia-o. Em ouvindo assobiar, punha-se de orelha fita, e partia. Era um estranho que a chamava? Não se lhe dava d'isso: acompanhava-o. O seu gosto, o seu enthusiasmo era a caça. O caçador disparava o primeiro tiro. Acertava? caía uma perdiz? A perdigueira pulava de contente, estava alegre e interessada para todo o dia. Falhava o tiro? A perdigueira começava a olhar desconfiada para o caçador. Falhava um segundo tiro? A perdigueira amuava, aborrecia-se. Mas se o terceiro tiro falhava, a perdigueira{63}desandava para casa, abandonando o caçador.
O grande Barcellos ouvia sorrindo, aquecendo, vibrando, como Bocage nos mais felizes raptos da improvisação. Lançado o assumpto, apanhava-o no ar, senhoreava-o, fréchava-o de glosas em que a imaginação refervia torrencial.
—Não me admiro, disséra n'essa noite o Barcellos, erguendo-se e passeando, muito peripoletico e muito jovial. Eu lhes conto o que me aconteceu em Coimbra, a proposito da intelligencia dos cães. Era no meu sexto anno. Estava-me preparando para defender theses. Uma estopada que a Universidade me metteu pela porta dentro! Recolhia uma noite para casa, na rua do Correio, paredes meias do predio onde oMata-fradesnasceu. Á esquina da Sé Velha, oiço ganir dolorosamente um canito na escuridade. Aproximo-me, curvo-me...
E, de cocoras, elle representava, como um actor consummado, a sua narrativa.
—Encontro effectivamente um cão, um pequeno cão vadio, um desherdado da fortuna, com uma perna partida. Pobre animal! Levanto-o cautelosamente, chego-me a um candeeiro, examino a fractura. Sinto na minha alma esse generoso impulso de caridade que todo o racional completo sente pelo irracional incompleto. A gente ri-se ás vezes de um homem coxo: mas sente-se abalado perante um cão que anda de perna no ar. São segredos{64}da nossa incomprehensivel natureza, que difficultam o principio theorico da fraternidade universal. Entro em casa, deponho delicadamente o canito sobre a minha cama. Vou á estante. Tiro o primeiro livro encadernado em que puz os dedos. Era um Michelet. Deixal-o ser. Tanto melhor! Um philosopho humanitario estava a calhar para uma acção meritoria. Rasgo a encadernação. Corto-a em tiras, e applico as talas á perna quebrada. Ligo-a. Ponho o cão sobre uma cadeira, cubro-o com a minha capa de estudante. Deito-me. Adormeço.
O grande Barcellos accendeu outro charuto, afastou do pescoço o seu alto collarinho engommado, e proseguiu:
—Ao cabo de vinte dias de tratamento, a fractura tinha solidificado. Tiro ao cão o apparelho cirurgico, e elle, sem lamber a mão que o havia beneficiado, rompe pela porta fóra, desce a escada, safa-se pela rua abaixo de rabo caído. A ingratidão dos cães! meditei eu. Nem um olhar, nem uma caricia, uma demonstração qualquer de agradecimento! Fosse um homem, e abraçar-me-ia. Fosse uma mulher, e beijar-me-ia. Era um cão: safou-se como quem era. Ah! meus amigos, que errado juizo este! Cerca de dez dias depois, estava eu, de papo para o ar, lendo uma d'aquellas coisas que a gente só lê em Coimbra: um doutor. Um doutor que tem escripto é a praga maior que se conhece. Sinto arranhar na porta do quarto:{65}primeira vez, segunda vez, terceira vez. É um gato! disse eu. Atirei fóra o doutor, saltei da cama, pego no meu bastão da noite e abro a porta disposto a enxotar o gato impertinente. Sabem os srs. quem era? Era omeucão da perna partida, são como um pêro. Mas trazia outro, trazia outro cão, que tambem quebrára uma perna. Achei-lhe graça. «Com que então, disse eu voltando-me para o ingrato canito de que tão cuidadosamente havia tratado, tu pensas que isto aqui é casa de algebista? Achas mais barato do que ir aoendireita? Abriste conta corrente comigo? Mas quando pagas tu, refinadissimo tratante? Safaste-te á franceza: nem uma, nem duas! e trazes-me agora um amigalhote coxo para que eu o concerte?» E omeucão crivava o seu vivacissimo olhar em mim, como a perguntar-me se eu entendia o sentido da sua visita. O outro, de perna no ar e focinho no chão, esperava pela consulta. «Mas no fim de contas, disse eu, tu tens ao menos uma qualidade nobre: és amigo do teu amigo. Elle quebrou uma perna, é teu parceiro na bohemia, sabes que eu concerto pernas, e vieste cá. Pois vamos lá a isso, meu ingrato de uma figa.» Tiro outro livro da estante, e ponho duas talas de papelão na fractura do canito. Deito-o sobre uma cadeira, mando-lhe dar de comer, mas emquanto espero que a servente traga umas sopas, o introductor safa-se pela escada abaixo. Não está má esta! reflexiono. Com que então isto é chegar, vêr e vencer! Mas... mas{66}pensei que talvez um sentimento de delicadeza obrigasse omeucão a retirar-se: quereria porventura poupar-me ao sacrificio de sustentar dois hospedes. Seria ou não seria. No dia seguinte vejo-o entrar de repente. Põe-se do chão a olhar para o outro, que estava na cadeira, certifica-se de que elle tem as talas, de que está em tratamento, de que eu sou umendireitaacabado e um philantropo inexgotavel. Sái. Durante oito dias ninguem o vê mais, talvez para me significar que confiava plenamente na minha cirurgia. Ao nono dia volta a visitar o amigo. Olha para elle, parece dizer-lhe com os olhos—Isso vae bem—e raspa-se. O curativo chegou a seu termo, e omeucão nunca mais voltou. Levantei o apparelho com a mestria que dá a pratica. Lembrei-me até de abrir um consultorio para cães; mas tive receio de que a faculdade de medicina me fizesse instaurar processo, visto que eu só podia abrir consultorio para demandistas. O cão safou-se como o outro, sem um olhar, uma caricia, uma qualquer manifestação de agradecimento.
—E nunca mais os viu? perguntaram ao grande Barcellos.
—Lá vamos, respondeu elle. Fiz exame de licenciado, defendi theses, tomei capello. Dia cheio na Universidade, o do capello. Puz na cabeça uma borla doutoral, e recebi auctorisação solemne para acrescentar ao meu nome mais seis lettras. A Universidade confirmou o tratamento que a minha{67}servente me dava desde o primeiro anno. Abraços dos lentes e de toda a mais doutorança; abraços dos estudantes, abraços dos archeiros. A propriaCabraparecia dizer-me: Se eu pudesse descer, mettia-te os tampos dentro. Vou a casa para descansar do capello, emquanto n'umhotelda baixa se prepara o jantar do doutoramento. Desço até á Sé Velha, entro na rua do Correio, aproximo-me de casa e vejo á minha porta, cada um de seu lado, os dois cães que eu concertei, e que me iam dar os parabens! Aqui teem os senhores o que é a intelligencia do cão.
Tal foi—exclamava o Leotte enthusiasmado—a improvisação do grande, do immortal Barcellos n'uma noite da botica. E todas as outras noites eram assim.
—Ó homem! atalhei eu. Vae deitar-te e deixa-me dormir, que são duas horas da noite!{68}
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Depois de um terceiro dia passado no mais delicioso pantheismo vadio de que ha memoria, e em que o Leotte, sempre intrigado com a historia da criada, houve por bem,malgrê lui, acompanhar-nos, reunimo-nos, depois de jantar, no salão do Victor para continuarmos os nossos serões litterarios, a que, seja dito de passagem, já todos mais ou menos iamos tomando gosto.
As reluctancias que alguns, a principio, manifestavam, quando o presidente Vasconcellos e osabio congressoos intimavam a falar, iam desapparecendo. Com mais um mez de Cintra, saía d'ali um enxame de oradores. Que desgraça, se tal acontecesse!
Durante o dia, mettemos á bulha o Leotte por causa do seu supposto achado de uma fidalga na cozinha do Victor. Elle estava um pouco azoinado{70}com a nossa troça. E, por orgulho ou convicção, promettia, protestava tirar o caso a limpo.
Já n'aquelle mesmo dia, pela manhã, apesar de se ter deitado tarde como eu, havia trocado com a rapariga algumas palavras, poucas: e ella asseverara-lhe, dizia elle, que havia falado verdade na vespera.
—A rapariga tem um certo ar de ingenuidade, que me convence! insistia elle.
—Contou-te o seu romance, como todas, exclamou o Vasconcellos. Parece que não conheces o genero! Muito tolo és!
—Conheço o genero, conheço, mas, por isso mesmo, acho que ella fala mais verdade do que todas as outras que costumam impingir-nos oseuromance. Emfim, veremos. Deixem-me vocês em paz.
Á noite, no Victor, não houve duvidas sobre quem primeiro falaria. Pois que o Gonçallinho Jervis havia escripto já o seu segundo conto, como de manhã confessára, foi-lhe concedida a palavra, e, em verdade, outra coisa não desejava elle.
Ouvimos pois, no meio do silencio regulamentar, que o Vasconcellos não deixava interromper, a narrativa que o nosso bom Gonçallinho planeara na almofada dochar-á-bancsao lado do cocheiro. O que é o poder da imaginação juvenil! Foi ao lado de um cocheiro de praça, que naturalmente cheirava a aguardente e suor, que elle{71}phantasiou essa em verdade joiasinha litteraria, por elle proprio denominadaA morte do bibliophilo.
—O bibliophilo Joseph, contou, era uma alma antiga, um espirito classico, que vivia no pó dos livros e no pó das ruinas.
Todo o mundo da sua actividade intellectual, concentrada e profunda, havia passado já, mas elle resuscitava-o, nas suas cogitações luminosas, tão vivo e tão perfeito, como se a idade-média, que de preferencia amava, fosse um ramo de flôres, de que pudesse sentir ainda o perfume longinquo.
Barbaros que invadiam a Europa, cavalleiros e trovadores, castellãs e pagens, guelfos e gibelinos, cruzados que partiam para a Terra Santa, burguezes que levantavam o grito da insurreição communal contra os senhores feudaes, exercitos que se despedaçavam n'uma guerra de cem annos ergendo os pendões da França e da Inglaterra, o imperio succumbindo perante o papado no parque do castello de Canossa, para resurgir depois triumphante na batalha de Volksheim; Roma desabando na sua grandeza moribunda, ao passo que as monarchias modernas palpitavam na primeira vibração da sua vitalidade autónoma, mares tenebrosos que se estavam offerecendo á quilha das primeiras naus descobridoras, como um terreno inculto ao dente fecundador da charrua, vagas revoltas de uma grande epopêa maritima,{72}que espumavam anciosas da apparição de um Gama dominador, tudo isso rolava no seu espirito, como no sonho de uma febre permanente, passando, agitando-se, baralhando-se tumultuariamente sobre a tela historica de dez seculos de civilisação medieval.
Em torno da sua alta cadeira de braços, a que estava sempre preso como Prometheu ao rochedo, longas filas silenciosas de canções de gesta e de novellas de cavallaria, in-folios de capas de pergaminho levemente rugoso, grossos volumes de encadernação tão dura como um arnez, formavam disciplinarmente, á espera que elle, com um simples volver de olhos, os chamasse á refrega de todos os dias, lhes désse a voz de commando, o grito de alarma.
Sorriam-lhe do alto da estante, como que constituindo a ala dos namorados n'aquelle exercito de livros, os poemas carlovingeos, cheios da poesia dos combates, como naCanção de Rolando, cheios de ingenuidade heroica, como naCanção do Figueiral; os poemas daTavola-redondaem que o espirito cavalheiresco pairava, como a borboleta na indecisão de dois nectarios, entre a lenda do rei Arthur e a tradição do Santo Graal.
Depois galopavam para elle, mal que os chamasse com os olhos, os esquadrões interminaveis dos cavalleiros andantes, fazendo flammejar no ar a espada nua, desembainhada em honra{73}de uma dama, que á noite, nas côrtes de amor, emquanto dois trovadores se digladiassem improvisandotensões, lhes havia de dar n'um sorriso, feito de rosas e perolas, o premio da victoria.
Ah! como o bibliophilo Joseph amava tão de dentro, tanto do imo peito, esse galante mundo aventuroso que divinisava a mulher a ponto de que, derrubado o altar por Cervantes, toda a realidade da belleza parecia tão pallida como o reflexo do sol agonisante resvalando nas vidraças coloridas d'uma janella gothica.
Foi por isso que bibliophilo Joseph passára toda a sua vida sendo um celibatario sem familia, longe do calor absorvente das fundas affeições domesticas, na solidão sepulcral que só os livros povoavam.
Herdára de um velho tio todas as preciosidades bibliographicas que completavam o thesouro da sua bibiotheca. Abrira, por desfastio, o primeiro livro, como um operario insciente que experimenta a medo a engrenagem de uma machina. Impellido por uma especie de dever sagrado, que lhe era imposto pela posse de um legado querido e precioso, foi voltando pagina sobre pagina, mas, a meio da leitura, como o viajante que fica encantado de encontrar um bello paiz desconhecido, sentiu-se preso pelo interesse e pela curiosidade e, chegando á ultima pagina, reconheceu que, tendo penetrado n'um palacio maravilhoso, o seu espirito exigia d'elle que não parasse no vestibulo.{74}
Foi assim que a pouco e pouco devassou os segredos do passado fechados n'esses cofres de pergaminho, n'esses velhos codices poeirentos, que lhe deram a clara noção do cyclo cavalheiresco, em que a mulher, poetisada pela imaginação, perdia toda a mundanidade vulgar, para se exalçar pelo amor que a divinisava.
Purificados no crisol da idade-média, todos os sentimentos humanos pareciam nobilitar-se de uma peregrina fidalguia, de uma lealdade heroica, de uma abnegação sobrenatural, que nenhuma outra civilisação pudera reproduzir nem copiar integralmente.
Amadiz era para elle um symbolo epico da alma antiga.
Ferido em combate, mas fortalecido pelo seguro amor que Oriana lhe inspirara, elle havia recusado a mão de Briolanja porque, n'aquelles tempos de fé imperturbavel, o coração era feito de diamante para resistir aos golpes da tentação e para no seu proprio brilho conservar inalteravelmente lucida a imagem uma vez gravada.
Bibliophilo Joseph vivia absorvido como um rei excentrico na sua vasta côrte de livros, rodeado apenas de Amadizes e Palmeirins imaginarios, com os quaes praticava longas horas, ouvindo-os e respondendo-lhes, inquirindo do passado com uma devoção fanatica.
Um criado que o servia, o velho Leão, era a unica pessoa que podia entrar no recinto sagrado{75}da bibiotheca, mas tendo comprehendido intuitivamente a paixão dominante do amo, impuzera-se o dever de não a perturbar jámais.
Leão, de origem castelhana, havia passado na mocidade pela casa dos Medina-Sidonia, e tomára desde então um gesto de grave compostura, que não perdera nunca.
Vestindo todos os dias a sua casaca, atando a sua gravata branca, para servir o sabio, como o havia feito, na mocidade, para servir os Medina-Sidonia, Leão cumpria religiosamente o seu dever de grande escudeiro de uma côrte sem cortezãos.
Não dirigia nunca a palavra a seu amo se não para responder concisamente ás perguntas que elle lhe fazia. Entrava na bibliotheca sempre em bicos de pés, quando o amo lá estava, e muitas vezes, por já ter passado a hora do jantar, pousava ao de leve sobre a vasta escrivaninha de castanho, a que o bibliophilo se sentava, uma pequena bandeja contendo uma ligeira refeição, que o amo tomaria se quizesse. Leão retirava-se silenciosamente, deixando ao bibliophilo toda a plenitude do goso de jantar no meio dos seus livros com o Bimnarder daMenina e moçae com o Danteo daDianade Montemayor.
O mais que Leão se permittia fazer, depois de ter deixado ficar a bandeja, era espreitar pela fechadura da porta, receoso de que o amo se houvesse esquecido de estender o braço para aproximar a refeição.{76}
Leão tinha uma grande dedicação antiga por aquelle homem cheio de sciencia e de virtude, que atravessava a existencia sem se contagiar das paixões mundanas, conservando intacto um coração de ouro e um espirito de luz.
Se via o amo ingerir á pressa a refeição, tranquillisava-se, e só voltava tempo depois a espreitar pela fechadura da porta para o vêr dar um pequeno passeio hygienico, enrijecendo as pernas, em roda da bibliotheca, como se andasse passeando n'um jardim, batendo os pés deante dos canteiros, parando a observar as etiquetas latinas das plantas.
O que bibliophilo Joseph examinava era a sua collecção preciosa de rosas bibliographicas, de raras tulipas litterarias. Demorava-se olhando a lombada dos quatro in-folios daVita Christi; tirava da estante, para acarinhal-a, aHistoria do mui nobre Vespasiano; fazia uma rapida visita aoPentateuco hebraicoe aoAlmanach perpetuus, que eram proximos vizinhos; folheava, envolvendo-o n'um olhar em que gorgeavam beijos paternaes, o seu queridoBoosco deleytuoso, que lhe exhalava nas mãos, como um lirio aberto, todo o perfume da antiguidade quinhentista.
Leão via o bibliophilo entregue a esse bom passeio hygienico, que tanto lhe deleitava o espirito, e acabava de tranquillisar-se pela saude de seu amo, que, muitas vezes, quando não alternava com a leitura o menor exercicio muscular, tinha{77}tido, ao levantar-se da cadeira, depois de longas horas de vida sedentaria, vertigens gastricas.
Quando a noite principiava a cair, Leão entrava com o enorme candieiro de tres bicos, cuja luz uma larga pantalha de latão afrouxava. Poisava-o sobre a escrivaninha, com o leve ruido de uma mosca que passasse, e ia accender, ao fundo da bibliotheca, o fogão de sala, fortemente chapeado de ferro, para não communicar calor ás paredes.
Cá fóra, na rua, principiavam, d'ahi a pouco, a rodar as carruagens que batiam para os theatros, para as festas frivolas da noite. Umas vezes por outras passavam fanfarras, folias populares, que iam para os clubs operarios improvisados ao ar livre. Outras vezes sentia-se o estrondo de bombas de incendio, que passavam, arrastadas vertiginosamente; e os sinos da cidade, alvoroçados, ouviam-se badalar, pedindo soccorro.
Mas nunca esse movimento exterior eccoava na habitação solitaria do bibliophilo de modo a perturbar a paz do seu espirito. Parecia que ao sol posto se tinha erguido a ponte levadiça de um castello, bem defendido por um cinto negro de ameias e de fossos.
Só excepcionalmente bibliophilo Joseph fozia soar a campainha para chamar o seu velho Leão.
Comprehende-se, pois, a angustia com que o{78}dedicado escudeiro ouviria uma noite dois toques de campainha consecutivos.
Correu á bibliotheca.
Bibliophilo Joseph, quando elle entrou, forcejava por levantar-se da sua alta cadeira de braços, mas as forças traíam-n'o, as pernas dobravam-se-lhe, e o sabio, muito pallido, encostou-se, vencido pela doença, sobre o espaldar.
Leão acudiu-lhe carinhosamente, levantou-o nos braços tremulos, foi depôl-o no leito, chorando.
O bibliophilo sentiu-lhe as lagrimas, colheu-lhe docemente a mão, abriu os olhos, demorou-os fitando-o, e disse-lhe:
—Não chames ninguem, que ámanhã estarei melhor.
Toda a noite o velho Leão velou junto ao leito de seu amo, que, levemente anciado, parecia de vez em quando, com os olhos abertos, querer fixar o pensamento n'um ponto vago, que lhe fugia.
Ao romper da manhã, Leão, sentindo um movimento nervoso do doente, interrogou-o.
Bibliophilo Joseph, com a face marmorisada n'uma pallidez terrena, disse-lhe abrindo um sorriso triste:
—Queria, meu velho amigo, que me realisasses um desejo.
Leão, pendido ao leito, o peito offegante, escutava reverente.{79}
—Que me amparasses com o teu carinho até á bibliotheca.
O velho criado levantou-o nos braços, envolto nas roupas do leito, e foi sental-o, entre almofadas, na alta cadeira de respaldo.
Um cansaço extremo parecia aniquilar o bibliophilo, ao passo que Leão sentia rijos os seus braços como se fôssem de ferro.
Com doloroso esforço, bibliophilo Joseph disse ao velho escudeiro, indicando-lhe uma estante:
—Traze d'ali oD. Quichotede Miguel Cervantes. Abre-o, e lê onde entenderes melhor.
Leão correu á estante, tirou oD. Quichote de la Mancha, e, aproximando-se da cadeira do amo, caiu de joelhos, com o livro aberto.
Lentamente, a voz embargada pelos soluços, começou a ler, e emquanto elle lia, o bibliophilo, cerrados os olhos, escutava cada vez mais anciado...
Foi assim que aquella alma cristallina, para quem a idade-média tinha sido uma delicia, exhalou o derradeiro suspiro, emquanto o velho Leão, sempre de joelhos, lia oD. Quichotede Cervantes,—o epitaphio eterno da idade-média.
Os applausos foram unanimes, postoque nem todos os ouvintes gostassem sinceramente d'esta especie de contos, a que o Vasconcellos, com maior ou menor propriedade, chamava phantasticos. Elle, por exemplo, preferia a escola realista: estava mais no seu genio, aliás pouco propenso a idealisações romanescas. Mas a verdade era que,{80}afastada a questão de assumpto, o Gonçallinho Jervis lográra dar á sua narrativa uma forma litteraria, que revelava um escriptor.
Do Leotte sabia o Vasconcellos que não viriam phantasias, fabulações romanticas; que, pelo contrario, quando o Leotte falasse, seriam assumpto obrigado as mulheres. Ora no conto do Gonçallinho, segundo a expressão do Vasconcellos, nem meia mulher apparecia.{81}