VIIIFoi pois o Vasconcellos, que n'essa noite excedia o seu bom humor habitual, quem lembrou que, para contrapor ao Gonçallinho, só havia um homem entre nós, e que esse homem era o Leotte.Estavamos n'isto, quando o Victor, dono dohotel, appareceu á porta da sala, pedindo-nos licença para entrar.—Era negocio urgente, dizia elle.Convidámol-o a entrar, sentar-se, e dizer.No fim de contas, o negocio era simples.Do proprietario doHotel Braganza, de Lisboa, recebera elle um telegramma pedindo-lhe que na manhã seguinte tivesse promptos, pelo menos, um quarto e uma sala, contigua ao quarto, para um brazileiro e sua esposa.Precisava portanto que um de nós, o Maldonado, mudasse de aposento, porque occupava justamente o que preenchia aquellas condições.{82}Despachado favoravelmente o requerimento, logo. A uns alegrou—e foi d'este numero o Leotte—a chegada de novos hospedes, especialmente de uma mulher; a outros, que estavam saboreando a liberdade da solidão, contrariou a noticia. Eu pertencia a estes ultimos.Apanhando o Victor a geito, falámos-lhe nacriada fidalga, como nós diziamos. Pedimos informações.—Ella conta sempre essa historia, acho eu, disse-nos o Victor, mas isso tem-me interessado pouco. São lá coisas dos criados uns com os outros. O que eu posso dizer é que a Rosa tem, effectivamente, algum ar de não ser tão grosseira como as outras criadas. Mas, se v. ex.aso desejam, perguntem-lhe a ella mesma por isso, quando quizerem, menos hoje, porque ella está engommando roupa. Póde ser ámanhã ou quando v. ex.asquizerem, se fazem tenção de se demorar.Agradecemos a concessão que o Victor nos fizera, naturalmente para equilibrar a concessão que nós lhe fizemos do quarto do Maldonado.O Leotte estava triumphante: que não se tinha enganado; que já iamos vendo que quem tinha razão era elle, porque o proprio Victor confessára que a Rosa não era tão grosseira como as outras criadas.E alegre por esta revelação, teve ainda menos duvida do que a principio em contar uma tolice qualquer que lhe lembrasse, dizia elle.{83}—Vou-vos dizer um caso engraçado e verdadeiro, annunciou o Leotte.—Isso é que se quer, approvou o Vasconcellos.—-Com mulher? perguntou o Maldonado.—É dos autos... respondeu o Leotte.Toujours la femme.—A historia do conde? perguntei eu.—Não; essa fica para outra vez. É uma que me lembrou agora.Ouvimos.—Voltavam de uma praia, não muito distante de Lisboa, tres amigos que na melhor das intimidades tinham feito juntos a sua estação de banhos.Vocês de certo os conhecem pessoalmente, mas a mim corre-me o dever de lhes occultar a individualidade sob a mascara do pseudonymo.Poderia, é certo, chamar-lhes os amigosTres estrellas, mas as estrellas sempre tiveram fama de romanticas, e o conto é seu tanto ou quanto realista. Uma coisa brigaria com a outra. Prefiro pois inventar tres nomes de guerra e charmar-lhes:Arthur Reinaldo.Leopoldo Ambrosio.Jacinto Procopio.E, declarados os nomes, a ninguem será licito duvidar dos recursos da minha imaginação.Os nossos tres heroes pagaram a sua conta de{84}hotel, fecharam as suas malas, e dirigiram-se para a proxima estação do caminho de ferro.Chegando ahi, encontraram na sala de espera uma senhora distinctamente elegante, vestida de preto, coberto o rosto com um espesso véu.Todos tres arderam em curiosidade de vêr-lhe a face, e de saber quem fosse.Mas o véu era impenetravel á perspicacia de seus olhos.Quando chegou o comboio, offereceram-se, como bons cavalleiros andantes, para conduzir ao wagon as malas da mysteriosa dama. Simples pretexto para entrarem na mesma carruagem.A traça vingou, vieram juntos. A dama mostrou-se amavel, espirituosa até, mas o véu, sempre pendente, continuava a occultar-lhe o rosto, que elles tanto desejavam vêr.A distancia não era grande, e, graças á boa companhia em que vinham, ainda mais pequena lhes pareceu.Chegaram a Santa Apolonia depois da meia noite, despediram-se da sua companheira de viagem, que lhes agradeceu a amabilidade com que a trataram, mas, como era natural, todos elles desejavam seguil-a para ficarem sabendo onde morava em Lisboa aquella mysteriosa dama, que tanto lhes dera no goto.Pensaram comtudo que seria inconveniente seguirem-n'a todos tres ao mesmo tempo, e de commum accordo resolveram delegar n'um só esta{85}empresa, sob compromisso solemne de que narraria aos outros com a maxima exactidão tudo quanto se passasse.Jacinto Procopio foi o escolhido para tão importante commissão de confiança.Feito o accordo, despedidos os tres, Jacinto Procopio, investido nas suas funcções de espião galante, vê a dama aproximar-se da fila de trens que estacionavam no Largo dos Caminhos de Ferro.E ouvindo rodar uma das carruagens, que devia ser aquella que a mysteriosa dama havia tomado, entra n'outra carruagem, ordena ao cocheiro que largue sem perda de vista aquelle trem que acabava de partir.O cocheiro assim fez, guiado pelas lanternas da carruagem que o precedia. De vez em quando Jacinto Procopio, pondo a cabeça fóra da portinhola, espreitava; e, como visse as lanternas a brilharem como dois pharoes no trem da frente, tranquillisava-se.Haviam chegado ao Terreiro do Paço, e o cocheiro da primeira carruagem parou de repente, fazendo signal ao do segundo trem para que passasse adeante.Jacinto Procopio disse com os seus botões:—É ella que não quer ser seguida. Pois tenha paciencia, porque eu não estou resolvido a fazer-lhe a vontade.E falando para o cocheiro:{86}—Não faças caso. Deixa-te ficar.Houve um momento de espera. O primeiro trem continuou rodando, e o segundo tambem. Seguiram um atraz do outro ao longo do Aterro, subiram a rampa de Santos, entraram na rua de S. João da Matta.Jacinto Procopio ia jubiloso: a caça não conseguira fugir-lhe.E depois, ficando a saber onde a dama morava, diria a verdade aos outros ou não diria. Havia ainda de pensar n'isso. Não fosse tão tolo que, depois de tanto trabalho, désse lenha para se queimar.O primeiro trem parou á porta de um predio na rua da Santissima Trindade; e o segundo trem parou logo apoz o primeiro.Jacinto Procopio salta precipitadamente do estribo, quer vêr apear-se a dama, mostrar-se-lhe, para que ella reconheça aquelle dos tres que pareceria ter tido maior interesse em seguil-a.Abre-se a portinhola da primeira carruagem e Jacinto Procopio vê descer, de mala na mão, quem? A dama que elle julgava haver seguido, e á qual queria mostrar-se? Não! Vê apear-se Leopoldo Ambrosio!E os dois desatam a rir como possessos, quebrando hilariantemente o silencio pacato da rua da Santissima Trindade.A dama havia tomado outro trem, se é que tomou algum.{87}O logro fôra completo.Tanto quanto a alacridade que lhes desconjuntava as costellas o permittiu, os dois trocaram explicações, contaram um ao outro como as coisas se haviam passado depois que se separaram no Largo dos Caminhos de Ferro.As revelações de Leopoldo Ambrosio foram interessantissimas.Afigurou-se-lhe que era a dama que o seguia no segundo trem. E este caso intrigava-o.—Então é ella que me segue?! dizia elle com os seus botões.E um fumosinho de vaidade passava no seu espirito, cegando-lhe o entendimento.No Terreiro do Paço, como o segundo trem viesse sempre na piugada do primeiro, Leopoldo Ambrosio quiz desenganar-se, e ordenou por isso ao cocheiro que dissesse ao do segundo trem que passasse adeante.As duas carruagens, como já contei, pararam quasi ao mesmo tempo.E como o cocheiro do segundo trem não obedecesse ao convite que lhe fazia o do primeiro trem, Leopoldo Ambrosio mais se convenceu de que era effectivamente a dama que o seguia.Então, todo ancho d'essa estranha aventura, em que elle parecia ser o galanteado, deixou-se conduzir ao longo do Aterro, sonhando sonhos côr de rosa na escuridão de uma noite negra.E não fazia senão espreitar pelo oculo da carruagem{88}a vêr se a dama mysteriosa e distincta continuava a seguil-o.O seu trem subiu a rua de S. João da Matta e chegou, finalmente, á da Santissima Trindade. Parou no numero que elle havia indicado ao cocheiro e que era o da sua residencia.N'isto o outro trem pára logo.—O que! exclama Leopoldo Ambrosio. Entãoellapára tambem! Apea-se! Vae talvez cair-me nos braços, dizendo n'uma grande allucinação de amor: «Segui-te, porque quero ser tua!»Tirou a mala para fóra do trem; que não fosse esquecer-lhe na anciedade febril d'essa proxima explosão de amor.Abre-se immediatamente a porta da segunda carruagem, e Leopoldo Ambrosio vê apear-se, não a dama que elle imaginava vir seguindo-o, mas o seu amigo Jacinto Procopio, de que se havia separado momentos antes no Largo dos Caminhos de Ferro.E quando no dia seguinte se reuniram todos tres, e os dois contaram os episodios grotescos d'aquella aventura mallograda, Arthur Reinaldo, desapontado, rogou nove mil novecentas noventa e nove pragas aos seus dois amigos, que haviam estragado todos os bellos sonhos de conquistador feliz que tinha sonhado.O caso é authentico e garantido pelo testemunho insuspeito de tres cavalheiros tão acreditados nos seus respectivos bairros como são os srs.{89}Arthur Reinaldo, Leopoldo Ambrosio e Jacinto Procopio, tres pessoas distinctas e um só logro verdadeiro.—Bravo!—Bravo!—Um dos tres eras tu...—Pois já se deixa vêr que era.Gargalhadas, ápartes, commentarios. A atmosphera aqueceu; o proprio orador estava vibrante, excellentemente disposto. Que contasse a historia do conde, que ainda era cedo. Que contaria, mas que precisava primeiro um copo de cognac. Veio cognac para todos.—Pois então, meus caros, disse o Leotte, ahi vae a historia do conde.Silencio geral.{90}{91}IXImaginem vocês que é o proprio conde que está falando.Eu lhe conto, disse-me o conde.E, accendendo vagarosamente o seu charuto, cruzando a perna direita sobre o fémur da esquerda, contou, com o seu habitual sorriso, levemente malicioso:—Estava eu em Pariz, onde tinha ido mais uma vez com o pretexto de assistir ás festas de 14 de julho. Oito dias depois, como os jornaes me avisassem de que todo o Pariz—o Pariz doente e o Pariz são—havia desertado para os Pyrineus, resolvi partir tambem, para fazer alguma coisa, e para não ficar... só! Tomei o primeiroexpresso, e, ao cabo de 19 horas de viagem, apeava-me na estação de Pierrefite.Achei-me, mal puz o pé em terra, em plena vida: a grande vida dos Pyrineus no estio.{92}Bastas massas de verdura engrinaldavam pittorescamente os rochedos, e a paisagem formosissima do valle de Argelès, contrastando com as aguas revoltas do Gave, seria capaz de me inspirar uma écloga, se eu tivesse a bossa de poeta bucolico.Na estação havia uma espessa agglomeração de gente, um borborinho estridulo, que me fez acreditar que todos os doentes que se sobrescriptavam para Cauterets iam de perfeita saude, a começar por mim...Osomnibus dos hoteissolicitavam-me, na razão de 2 francos e 50 centimos, por duas horas de caminho; os cocheiros dascaléchesdisputavam-me a cabeça por dez francos. Preferi osomnibus, por nada menos de tres razões:1.ª Eu detesto a solidão, e osomnibus, como o seu nome indica, garantiam-me duas horas de viagem alegre, em companhia da gente que mais fala no mundo: os francezes.2.ª Eu relacionara-me noexpressocom tres francezes e quatro francezas, a duas das quaes, alternadamente, e ás vezes simultaneamente, principiei a fazer um pequenino pé de alferes, como nós cá dizemos.3.ª Esta razão é futil: era mais barato.As minhas duas francezas saltaram para dentro de umomnibus, e eu parodiei os carneiros de Panurge, saltando para onde ellas saltaram.Duas horas deliciosas!{93}As francezas eram amigas de collegio: uma d'ellas, cunhada de mr. Bourgoin, um burguez rico, viajava para se divertir acompanhando a irmã casada; a outra viajava, tambem para se divertir, acompanhando a sua amiga, cunhada... do cunhado.Apenas o burguez precisava das aguas de Cauterets por causa do rheumatismo, que é uma doença de todos os burguezes. Se não fosse isso, como elles seriam felizes, especialmente... os ricos!Só elle, pois, tomava tudo aquillo a sério, falando-me da composição das aguas, das differentessourcesde Cauterets, em que predominava o elemento alcalino.As duas amigas, por sua vez, encareciam-me a belleza dos passeios de Cauterets, citavam-mela Promenade des Oeufs, vasta explanada onde todas as tardes toca no kiosque a musica do Casino e onde a variedade dos divertimentos—bailes infantis, jogos, tiro ao alvo—e oschaletsdos vendedores põem em todo o recinto uma nota de animação movimentada, gárrula, que a enorme concorrencia dastationcompleta; da montanha deCambasque, ao fundo daPromenade des Oeufs, á qual se sóbe em zig-zags, para descobrir um ponto de vista encantador; doMarmelon Vert, a dois kilometros de Cauterets, orendez-vousdosport; doParque, sombreado de bellas arvores seculares; daGrange de la Reine Hortense, d'onde se avistam os valles de Argelès e Lourdes; e da{94}Glacière, a estreita garganta nunca visitada por um raio de sol...Planeavamparties de plaisir,repas champêtres, que nós desdoiramos com o vocabulo plebeu de merendolas, mas que, na graça delicada da lingua franceza, principiavam a ter sabor antes da realidade.Se fôsse em Portugal, dizia eu com os meus botões, estas duas meninas, ambas de uma mocidade estonteadora, viriam aqui esmagadas pela auctoridade dictatorial do unico homem que as acompanha; não diriam palavra ou responderiam com simples monosyllabos, muito acanhadas e muito hesitantes, ás minhas perguntas.Mr. Bourgoin, a ser portuguez, encarregar-se-ia, algum tanto constrangido, de fazer todas as despesas da conversação, visto ter a infelicidade de haver encontrado, contra os estilos do nosso paiz, um companheiro de viagem tagarella.Madame Bourgoin tão depressa estimulava as esperanças do marido na cura radical do seu rheumatismo, adiada de anno para anno, como se intromettia na conversação da irmã, e da outra, lembrando a belleza doLac Bleu, espelhado de aguas limpidas, e contornado de ruinas, dando assim a entender que, superior á prosa do rheumatismo conjugal, pairava no seu espirito a poesia dos lagos...Perguntaram-me as duas amigas se eu me demoraria muito em Cauterets.{95}Respondi que não havia nada tão incerto para um homem de boa saude como saber quando a sua doença o abandonaria.As duas francezas riram longo tempo, comprehendendo, com a sua fina intuição gauleza, que eu principiava a estar indeciso, no meu pé de alferes, entre uma e outra.Se viajassemos em Portugal, era certo, certissimo, que começariam a ter ciumes, a mostrar-se reservadas, um poucochinho azedas, porque uma portugueza não comprehende facilmente que um homem possa estar ao mesmo tempo namorado de duas mulheres.Portugal, a despeito do feliz systema que nos rege, como dizia o Garrett, é, pela tradição, um paiz absolutista... até no amor.Uma das francezas, M.elleSuzanne, lembrou-me a conveniencia de encontrar qualquer doença ligeira que me obrigasse a demorar-me um pouco mais em Cauterets do que a saude.M.elleDenise foi de parecer que todo o fumista deve soffrer mais ou menos da garganta.Achei acertado o alvitre e, uma vez installado em Cauterets, comecei a tomar as aguas por minha conta e risco, escolhendo asourceao acaso. Arranjei, como o dr. Serrand pôde verificar por meio do laryngoscopo, uma congestão thermal da larynge, o que me fez convencer de que as aguas de Cauterets são excellentes, não tanto para dar saude, como para tiral-a.{96}Na impossibilidade de continuar cultivando as aguas, comecei a cultivar o amor—o amor de Cauterets, meu amigo, que parece colorido por um pintor decorativo n'um fundo de paisagem em que as naiades e as driades emergem do seio alpestre dos Pyrineus bailando de mãos dadas em torno de nós.Uma fascinação... em francez.Consegui ser, dentro em quinze dias, um homem conhecido pelas mulheres, um millionario do amor... ideal.Não chegava para as encommendas platonicas que de toda a parte me solicitavam. Palavra de honra: não chegava. Uma vez encontrei-me no Pic de Gabietou, sem eu saber como, com mademoiselle Rosine Hubert, uma loira, irmã gemea da aurora. Tomei a altura do Pico, e achei que estava só no mundo com ella. Lembrou-me então uma certa aventura de HenriqueIV, no alto de uma torre, com a filha do sineiro. Tentei fazer de HenriqueIV, e beijei-a. Mademoiselle Rosine Hubert partiu-me o leque na cara. Ensaiei nova tentativa. Ella ameaçou-me de se despenhar do Pico, arrastando-me comsigo. O lance pareceu-me tragico de mais para uma simples aventura de estio. Descemos; eu amparava-a, acudia-lhe quando ella, rindo, rindo sempre, hesitava na descida.Já de longe olhei para o Pic de Gabietou, e vi n'elle o monumento informe da minha cobardia ou da minha inepcia.{97}Mademoiselle Rosine, espanejando-se na sua alegria, parecia não conservar o menor resentimento da scena de Gabietou. Falava-me com a mesma graça amavel, sorria-me ainda com a mesma confiança que eu parecia haver-lhe inspirado antes.Se Rosine fosse portugueza, ter-se-ia ido queixar á mamã, que contaria tudo ao papá. Haveria em Cauterets um escandalo medonho, e eu teria de adoptar um de dois extremos violentos: fugir ou casar.Nada d'isto aconteceu. Rosine não contou a ninguem, decerto, a scena de Gabietou, em que me fez muita falta um Mephistópheles e um cofre de joias. Conhecendo que eu a desejava um pouco, procurou, como boa franceza que era, fazer que a desejasse muito. Sorria-me, attraía-me.E eu teria talvez queimado as azas, se n'essa noite não houvesse apparecido no Casino outra franceza mais adoravel ainda que Rosine, a qual franceza devia ser d'ahi a tres mezes minha legitima mulher.Fiz-lhe namoro durante mez e meio, até ao fim de setembro. Depois, vesti a minha casaca, puz a minha gravata branca, e fui pedil-a á mãe, que teria quarenta annos, e uma carnação sadia, que não conseguira perder, sem embargo de tomar as aguas de Cauterets todos os annos. Parece incrivel!O conde descruzou as pernas, accendeu de novo{98}o charuto, e, batendo uma palmada com a mão esquerda sobre a perna, disse-me:—Fui muito feliz aquelle anno em Cauterets. Imagine que de uma vez combinei com dois portuguezes, que lá estavam, com oito francezes, um allemão e uma ingleza velha, fazermos uma excursão ao Pico de Balaïtous. Partimos de madrugada. Na vespera á noite a nossa excursão annunciara-se no Casino, fizera sensação; a noticia correra todos os grupos.Ao nascer do sol—uma manhã deliciosa dos Pyrineus—quando cheguei á porta dohotel, fiquei encantado de encontrar á janella, esperando por mim, para me verem partir, todos os meus namoros de Cauterets. Tinham madrugado sobreposse para me enviar, nas azas d'um sorriso, o seu adeus. Eu sentia-me feliz, ufano. Imagine que só n'uma das janellas estavam duas mulheres, impulsionadas pelo mesmo pensamento: o de me verem partir! Uma d'essas mulheres foi d'ahi a tres mezes minha noiva.—E a outra? perguntei eu.—A outra? repetiu o conde com o seu habitual sorriso levemente malicioso. A outra era minha sogra.Todos nós conheciamos o conde, o seu genio alegre, o seu viver mundano, os seus ditos de espirito, a que muitas vezes sacrificava as conveniencias sociaes, as suas proprias conveniencias até; de modo que nos foi muito agradavel ouvir{99}mais uma vez a historia do seu casamento com o sabor picante que elle proprio lhe dava, quando, sem poupar a sogra, não punha duvida em contal-a.O Gonçallinho Jervis, que tambem era amigo do conde, havia-se levantado, emquanto o Leotte falava, e encostára-se ao vão de uma janella olhando para fóra.Démos por isso.—O que estás tu ahi fazendo?—Que bello luar! exclamou elle. Que bella noite de primavera para irmos ouvir os rouxinoes!—Não seja piegas, atalhou o Vasconcellos. Que bella hora para a gente ir deitar-se!...{100}{101}XEra certo que tinhamos ido a Cintra com o pretexto de ouvir os rouxinoes. Mas era certo tambem que nenhum de nós, com excepção do Gonçallinho Jervis, estava já n'esse periodo agudo de romanticismo, que exalta allucinadamente a imaginação.Parariamos de boa vontade para ouvir um rouxinol, que nos houvesse surprehendido no caminho. Mas ser-nos-ia pesado qualquer incommodo que, a não ser por surpresa, isso nos pudesse custar.O que principalmente nós quizemos gozar indo a Cintra, era a liberdade, o descanso, que não tinhamos habitualmente. O projecto de ouvir os rouxinoes lisonjeára por momentos a vaga saudade, que todos alimentavamos, dos annos felizes da vida, passados na provincia. Mas, uma vez postos a caminho, a doce liberdade, que principiamos{102}a saborear, bem depressa nos fez esquecer dos rouxinoes, que não pensamos mais em ouvir.Só o Gonçallinho Jervis não podia tão facilmente esquecel-os como nós outros. A idade desculpava-o. Estava ainda na sezão da poesia, era uma alma em ebulição, um coração em flôr, via os rouxinoes através do prisma da lenda que tinha talvez lido em Bernardim Ribeiro, frei Luiz de Sousa e outros poetas da prosa ou do verso.Todos nós, mais ou menos, haviamos passado por isso.Todos nós haviamos tido uma quadra da vida em que nos impressionára o caso do rouxinol de Bernardim Ribeiro, que morre de cansaço cantando.«Não tardou muito—diz a novella—que, estando eu assim cuidando, sobre um verde ramo que por cima da agua se estendia, se veio poisar um rouxinol; e começou a cantar tão docemente, que de todo me levou após si o meu sentido de ouvir.«E elle cada vez crescia mais em seus queixumes, que parecia que, como cansado, queria acabar, senão quando tornava, como que começava então.«Triste da avesinha, que, estando-se assim queixando, não sei como se cahiu morta sobre aquella agua. Cahindo por entre as ramas, muitas folhas cahiram tambem com ella.»Na idade do Gonçallinho Jervis, toda a alma é{103}pouco mais ou menos como o rouxinol da novella: esgota-se cantando.Eu não sei se seriam rouxinoes as aves que na cêrca do convento de Bemfica provocaram a desafio os homens, chegando uma d'ellas a morrer extenuada.«Assim nos tempos que a natureza esperta as linguas das aves, a louvar com mais harmonia o Creador, é quasi morada continua (a cêrca) das que por mais musicas são conhecidas. E é tradição, que juntando-se n'ella uns seculares de boas vozes, e começando a cantar ao som de instrumentos bem accordados, acudiram as que se tinham por senhoras do sitio, a desafiar a melodia humana, e artificial, com a sua natural. E isto com tamanha porfia, que vencidas as vozes dos homens não cansaram as pobres avesinhas de seguir as violas que ficaram supprindo por ellas; e uma se deixou levar tanto do impeto, e affecto de cantar, que veio a desfallecer, e á vista de todos cahiu em terra sem alento, como dizendo, que antes queria perder o bem da vida, que a honra de perseverar cantando.»Deviam, effectivamente, ser rouxinoes, porque frei Luiz de Sousa se refereás que por mais musicas são conhecidas, e o rouxinol é, no mundo alado da Europa, o cantor por excellencia.Na idade do Gonçallinho Jervis, se uma alma responde á nossa n'umduettode encantador lyrismo, pouco se nos dá de perder a vida comtanto{104}que possamos morrer exhalando a alma n'um cantico.Eu proprio já havia prestado tambem o meu culto aos rouxinoes, principalmente ao de Bernardim Ribeiro. Aos dezoito annos—Deus me perdoe!—compuz um poema cuja heroinaAcabára, cantando, o captiveiroTal como é fama ter acontecidoAo rouxinol de Bernardim Ribeiro!Mas, no anno em que fômos a Cintra, já propendia a estimar mais as perdizes do que os rouxinoes, sobretudo se as perdizes eram temperadas com molho de villão.Um bom petisco!O Gonçallinho Jervis, felizmente para elle, amava tanto os rouxinoes como poeta que era, que até sabia a lenda mythologica d'aquella princeza que por suas desventuras fôra convertida em philomela, nome que os antigos deram ao rouxinol.Eu tinha só uma vaga ideia d'essa lenda pagã por a haver lido naArte da caça da altenaria, composta por Diogo Fernandes Ferreira.«Contam as fabulas que Tereo, filho de Marte e de Bistonida, sendo rei de Thracia, casou com Progne, filha d'el-rei d'Athenas, e a trouxe para o seu reino. N'ella houve um filho lindissimo, a que chamavam Itêns, tão desejado no reino, que o dia que nasceu se festejava como festa solemne.{105}Teve a rainha Progne saudade de vêr a sua irmã Filomena: pediu ao marido licença para a ir vêr, ou fôsse elle em pessoa para a trazer, que seu pae e mãe lhe concederiam licença para a irmã vir. Tereo aprestou naus, partiu, chegou a salvamento, foi bem recebido dos sogros, rei e rainha e da cunhada Filomena, a qual, em Tereo a vendo, se incendeu de amores por sua formosura. Então com mais efficazes palavras pediu aos paes lhe dessem a licença que pretendia. Fez-se-lhe a vontade. Embarcados, vieram a salvamento, e, chegados a um porto do reino de Tereo, sahiram em terra elle e a cunhada, dizendo elle que o fazia para n'aquella floresta descansar do trabalho do mar. E sendo longe das naus e gente, não tanto como o elle estava da virtude, trabalhou por persuadir a cunhada áquelle intento que desejava; e vendo que nenhumas promessas nem palavras bastavam para ella consentir em seu desejo, acolheu-se á força e com ella, muito contra vontade da afflicta princeza, de donzella a tornou dona. Queixando-se ella a Deus e ao mundo de tão grande maldade, que havia de ser pregoeira de tamanha villeza e traição, e se havia de tomar vingança de tal aleivosia, ordenou elle outra maior maldade arrancando-lhe a lingua, e assim a levou a casa de um criado seu e vassallo, não lhe declarando o caso. Aos das naus disse que as feras a mataram, e chegando a sua casa se fizeram muitas mostras de tristeza pela morte fingida da{106}cunhada, a qual, estando em poder do vassallo de Tereo, pediu por acenos lhe dessem hollanda e seda de côres, que queria entreter-se. Trazida, em letras gregas conta á irmã o caso, e por acenos rogou a uma mulher levasse aquella toalha assim lavrada á rainha Progne, que lhe havia de ser bem pago o trabalho que n'isso tomasse. Dada a toalha á rainha, sabida a historia, dissimulou. N'aquelle tempo se faziam umas festas que de tres annos se celebravam n'aquelle reino. Disse Progne ao marido que desejava ir a ellas. Ida, foi aonde a irmã estava, a qual achou privada da lingua e falla, e assim a trouxe para sua casa em trajo demudado. Ambas determinaram a vingança do marido bem extraordinaria, e foi que tomaram Itêns, o principe filho de entre ambos, e lhe cortaram a cabeça, pés e mãos, e do corpo mandaram fazer manjares differentes. E tendo isto ordenado, pediu Progne ao marido lhe concedesse jantarem ambos, ao modo dos reis de sua terra, que era comerem sós. Foi-lhe feita a vontade. Partiu Tereo os manjares e guizados feitos do corpo do filho; depois de comer d'elles, pediu á mulher lhe mandasse vir o principe Itêns, seu filho, que elle muito amava. Então sahiu Filomena de uma camara com a cabeça, as mãos e os pés do filho, desejando ter lingua para mostrar a ira que contra elle tinha. Tereo, vendo o caso, deu com a mesa em terra, e lançou mão á espada. Ellas fugiram, Progne convertida em andorinha, e Filomena{107}em rouxinol; Itêns em avião, e Tereo em poupa.»Esta fabula, copiada dos poetas pagãos, fazia trasbordar de poesia a alma do Gonçallinho Jervis, que julgava ouvir na voz do rouxinol toda a colera tragica da princeza Filomena, a qual princeza, convertida em ave canora, parecia vingar-se eternamente da falta que no seu tempo lhe fizera a lingua, cortada pelo cunhado.Gonçallinho ia na esteira de Camões, que dizia nosLusiadas:Ao longo da agua o niveo cysne canta,Responde-lhe do ramo philomela.Na varzea de Collares não faltavam agua, verdura, rouxinoes. Por isso elle tanto desejava que, soltando a sua voz de cysne defrak(certamente mais melodiosa do que aquella de que os cysnes podem dispôr) lhe respondesse de um ramo a princeza atheniense, convertida em rouxinol.Diogo Fernandes Ferreira explica a razão por que as quatro personagens da lenda foram metamorphoseadas n'aquellas aves.«Ordenou o poeta esta fabula de vêr que o rouxinol quasi não tem lingua, e a andorinha ser vestida de preto, e no peito ter umas nodoas vermelhas, e ter o canto triste, como que conta a historia da maldade do marido, e as pennas rôxas como sangue da crueldade que teve em matar o{108}filho em vingança da irmã. E do canto do rouxinol a saudade com que viveu a vida a forçada Filomena, e do avião porque no seu canto parece que grita como menino, e na poupa pela significação da corôa da cabeça, e na formusura das pennas pintadas de que se vestem finge ser el-rei, porque a poupa, tomada na mão, tem mau cheiro, e o ninho d'ella o mesmo: em que se dá a entender que os maus feitos, ainda que sejam commettidos por reis e pessoas graves, se ha de fugir d'elles e virar-lhes o rosto, como coisa abominavel e fedorenta.»Este processo da moralidade pelo fedor não deixa de ser convincente.Disse isto uma vez ao Gonçallinho. E elle, muito despeitado, chamou-me barbaro.{109}XIINo dia seguinte, quando recolhemos para jantar, soubemos pelo Leotte, que tinha ficado de atalaia, tudo o que se passára com relação á chegada dos dois novos hospedes—o brazileiro e a mulher.Não era o nosso amigo Leotte homem que, em se tratando de uma mulher, curasse por informações. Queria vêr a brazileira: ficou.—Já não é nova—disse-nos elle—mas considero-a ainda acirrante. Dou-lhe quarenta annos, pouco mais, e está menos mal conservada. Bonitos olhos, bons dentes, cabello magnifico. Reforçada de carnes, sem se poder dizer nutrida. Mulher capaz de satisfazer o ideal de um brazileiro, que a idade principia a tornar decadente. Disse-me a Rosa, que está de serviço á brazileira, que elles irão jantar á mesa redonda.—Estás n'um sino, Leotte! Pois bem! Veremos isso.{110}Quando chegamos á mesa, contamos onze talheres. A informação fornecida pela Rosa era, pois, exacta. D'ahi a pouco tempo, o brazileiro e a mulher entraram.O Leotte descrevera com exactidão e verdade o typo da brazileira. Era, effectivamente, o que se costuma chamar—umas bellas ruinas. Não dessas ruinas brutalmente realisadas por um cataclismo, que não deixa pedra sobre pedra; mas as que o tempo lentamente costuma ir augmentando e dulcificando com um vago perfume de poesia do passado.Nos olhos da brazileira, principalmente, brilhavam uns como lampejos de formoso occaso de outono. A noite negra da velhice, que apaga o clarão das pupillas, estava ainda longe. E sentia-se n'essa organisação de mulher, que devia ter sido ardentissima, o que quer que fôsse de rescaldo tepido e demorado de um incendio devorador.Atoiletteera distincta, gentil, sem ser severa nem petulante. Denunciava um velho habito de vestir com esmero. O unico defeito que se poderia notar era um certo excesso de pó de arroz nas mãos e de anneis nos dedos.O brazileiro principiava a resvalar pelo plano inclinado da velhice cansada. Mas havia na sua face um reflexo de bondade credula, de alma sincera, capaz de um sacrifício nobre e de um acto de generosidade fidalga.{111}No momento de entrar na casa de jantar, percebeu-se que o contrariou achar-se com sua mulher no meio de uma sociedade de homens. Mas a breve trecho o seu sobresalto dissipou-se, reconhecendo que nenhum de nós ignorava o que era jantar em companhia de uma dama.E a proposito da dama... Cinco minutos depois d'ella se ter sentado á mesa, começou-me a impressionar a sua physionomia, na qual me parecia encontrar feições de uma mulher que eu já vira não sabia quando nem onde.Por mais que evocasse as minhas recordações, por mais que folheasse esse volumoso livro de biographias que cada pessoa tem archivado no espirito para o consultar de quando em quando, não me era possivel encontrar um nome que correspondesse áquella physionomia: todavia, eu iria jurar que já tinha visto algures a mulher do brasileiro, que a havia encontrado, conversado talvez, mas não sabia, não podia dizer quando isso fosse.Seria em Lisboa? Não, decerto. Visivelmente haviam decorrido muitos annos, porque, de contrario, a minha memoria não seria tão rebelde.Na provincia? Aonde? Eis a questão. Vel-a-ia eu no Porto? Tel-a-ia visto em Braga, onde tantas vezes fui passar as férias? No Bom Jesus do Monte, onde, no verão, abundavam os brazileiros emvillegiatura? Nas Caldas das Taipas ou{112}de Vizella, que um anno por outro visitei de passagem?Deus meu! Era certo que eu tinha visto aquella mulher, mas não podia lembrar-me onde nem quando.Dominado por esta preoccupação, passei todo o jantar. Procurava observar a brasileira sem comtudo offender a susceptibilidade do marido. Elle não repelliu a conversação em que principalmente o Leotte o queria envolver. Disse alguma coisa da sua vida, pouco. Estava doente. Ella falou muito menos do que o marido, mas a sua voz, que conservava ainda vestigios da accentuação das provincias do norte, augmentou a minha preoccupação. Decididamente, eu já tinha ouvido falar aquella mulher.Sem termos sido mutuamente apresentados, estabeleceu-se para o fim do jantar, graças aos esforços empregados pelo Leotte, um certo convivio de expansiva camaradagem. Leotte, rindo sempre, contou ao que tinhamos ido a Cintra: ouvir os rouxinoes.O brazileiro e a mulher acharam muito graça a esta excentricidade collectiva.—Ouvir os rouxinoes! exclamou elle. Na minha terra, por este tempo, os rouxinoes são aos cardumes!O Gonçallinho Jervis sublinhou com um olhar, que me enviesou, oscardumes de rouxinoes, que tinham saído da bocca do brazileiro.{113}Mas o Leotte aproveitou logo a occasião para perguntar:—Então v. ex.ª é portuguez?—Nado e creado na freguezia de Santa Maria de Bouro, concelho de Amares, comarca de Villa Verde, districto de Braga, respondeu elle.—Ah! Por ahi, como em toda a provincia do Minho, são abundantissimos os rouxinoes.—Que no Brazil, onde estive mais de trinta annos, tambem ha muitos passaros que cantam bem: o sabiá sica, o corrixo, que imita todos os outros passaros, o bem-te-vi, etc. Mas o que no Brazil ha de mais notavel é que muitos passaros falam.—Falam? perguntou o Leotte.—Eu só sabia do papagaio, observou o Vasconcellos.—Nada, não sr., continuou o brazileiro. O bem-te-vi, por exemplo, canta dizendo o seu nome. O tico, que é do tamanho d'um pardal, anda sempre a dizer—tico, tico. E o curiangú, que se põe de noite adeante dos cavallos, costuma dizer de madrugada: João, corta pau!—Mas os indigenas hão de dar alguma explicação a essa phrase...—Isso agora é que eu não sei, meu caro sr. Lá que elle o diz, diz, porque eu, sendo caixeiro e andando a cobrança, ouvi muitas vezes cantar o curiangú. Punha-se á frente do meu cavallo e, quando o sentia perto, tornava a voar, e esperava-o dizendo: curiangú.{114}—Então não diz sempre a mesma coisa?—Não, sr. De noite diz—curiangú; e de madrugada—João, corta pau.—É curioso! Pois nós viemos para ouvir os rouxinoes, e a verdade é que ainda os não ouvimos, com grande magua do nosso amigo Jervis, que tomou muito a sério o pretexto d'esta digressão. Mas temos passado as noites tão entretidos nohotel, que nos tem faltado tempo para irmos ouvir os rouxinoes.—Entretidos! Aqui? perguntou ironicamente a mulher do brazileiro.—Sim, minha senhora, respondeu o Leotte, muito agraciado do semblante. Entretidos a contar historias.—Da carochinha? perguntou ella com o mesmo tom de ironia.Então o Leotte explicou largamente o compromisso, que todos nós haviamos tomado, de contar uma historia ao serão para aligeirar as noites de Cintra.Tanto o brazileiro como a mulher acharam muita graça a mais esta excentricidade.—Pois eu, disse ella, vinha com medo ás noites de Cintra, que principalmente n'esta época do anno devem ser horrorosas de comprimento. Mas o Araujo tem passado agora peor, e o medico aconselhou-o a que viesse tomar os ares de Cintra.—Pois se v. ex.asnos quizerem dar essa honra, acrescentou o Leotte sempre amabilissimo, poderão concorrer aos nossos serões.{115}—Da melhor vontade. Tanto mais que o Araujo precisa muito distrair-se. V. ex.asdemoram-se?—Fazemos tenção de ir ámanhã embora, respondeu o Vasconcellos na qualidade de chefe da caravana.—Não é sangria desatada, minha senhora, atalhou o Leotte. E de mais a mais ainda nem sequer ouvimos os rouxinoes.O Vasconcellos, sorrindo, encolheu os hombros.—Pois então, disse a mulher do brazileiro levantando-se da mesa, eu e meu marido faremos parte do auditorio. Não é assim, Araujo?—Sim, filha, como tu quizeres.O Leotte, despedindo-se:—Os nossos saraus litterarios principiam depois das oito horas da noite, na sala de visitas.—Até logo, disse a mulher do brazileiro saindo da sala de jantar, seguida pelo marido.Saímos tambem, accendemos as nossas cigarrilhas e fomos dar um passeio até á Praça para fazer o chilo, como sempre dizia o Maldonado.É claro que o assumpto do passeio, insensivelmente prolongado pela estrada de Villa Estephania, se circumscreveu ao brazileiro e á sua mulher.Todos eram de opinião, quanto á mulher, que ella representava umas ruinas muito menos antigas que as do convento do Carmo, mas não menos pittorescas. O Leotte—já era de esperar—exagerava{116}a belleza da brazileira, como todos lhe chamavamos, e acrescentava que, quem quer que ella fosse, vinha da escóla da experiencia, da escóla pratica do mundo. Eraabelha-mestra, concluia elle.Todas as phrases que ella disséra suscitavam-nos commentarios mais ou menos maliciosos.Notava-se a facilidade com que acceitára o nosso convite, não sem disfarçar habilmente o seu espirito mundano com a allegação de que o marido precisava distrair-se. O seu horror pela extensão das noites de Cintra revelava que ella, todavia, amava mais o mundo que o marido.Eu insisti na minha preoccupação de a ter já visto algures. Alguns dos meus amigos, o Vasconcellos por exemplo, riram-se d'isto.—É que ella tem a phisionomia tipica de todas as mundanas quarentonas que foram parar ás mãos de brazileiros. O que tu conheces é o genero, não é a pessoa.—Póde ser que seja assim, comtudo eu apostaria que já a vi, não sei onde.—Mas, lembrou o Gonçallinho, ella ouviu dizer o teu appellido sem dar o menor indicio de conhecer-te.—Ora! isso é da tabella, tolinho! Então ella havia de mostrar ao brazileiro que conhecia alguem n'este mundo além do seu querido Araujo?—Que tinha isso? insistiu o Jervis. Pois as mulheres, por mais honestas que sejam, estão{117}inhibidas de reconhecer um homem que era das relações da sua familia?—O caso é outro, pateta. Uma scena de reconhecimento importaria explicações que ella teria de dar ao marido. E quem sabe se elle as acceitaria sem uma suspeita, justa ou injusta? Aqui tens o busilis. Decididamente, tu não sabes nada do mundo!Chegou depois a vez de discutirmos o brazileiro, um bajojo, diziamos, anesthesiado pelos ultimos prazeres capitosos de uma velhice cansada. Recordamos a phrase d'elle: «Sim, filha, como tu quizeres». Mas, em todo o caso, boa pessoa, sincero pelo que respeitava á sua biographia: «Natural da freguezia de Santa Maria de Bouro, concelho de Amares, etc.»—Hei-de saber a historia d'este casamento e d'esta mulher. O Pessanha, que é deputado por Villa Verde, ha-de conhecer o Araujo, se elle effectivamente é de Amares.—Estás tolo! Ha lá algum deputado que conheça o circulo!—Mas é que o Pessanha tem casa em Villa Verde.—N'esse caso já deve dinheiro ao Araujo e dirá só o que lhe fizer conta.—Qual historia! Se lhe deve dinheiro, diz tudo.O Gonçallinho Jervis lembrou a phrase—cardumes de rouxinoes. Outro, não sei qual, recordou-se{118}dotico, tico. O caso do passaro—já nenhum de nós lhe atinava com o nome—que cosstuma dizer «João, corta pau», despertou grande galhofa.—Mas é que os brazileiros, disse o Athayde, têem a mania de que todos os passaros dizem alguma coisa.Gargalhada geral.—É isto, insistiu elle. O Rodrigues, que vae muito áHavanesa, já uma vez me contou que ha no Brazil uma especie de rôla, que diz sempre: «Fogo pagou.»—Pegou, é que ha de ser.—Elle disse «Fogo pagou».—E ha de ser assim. Julgavas então que no Brazil eram as rôlas que davam o signal de incendio!Novas gargalhadas.O Leotte lembrou que já passava das oito horas. Se não havia de ser elle que o lembrasse! Desandamos para oVictor, porque havia chegado o momento de começar o nosso sarau litterario—com a assistencia do brazileiro e de sua esposa.Devia ter-se sentido em todo ohotel, quasi solitario, o ruido da nossa chegada. Installamo-nos na sala de visitas, como era costume. D'ahi a pouco, o brazileiro e a mulher entravam na sala.Madame Araujo tinha feitotoilettepara o sarau, umatoiletteque envergonhava, pelo esplendor{119}elegante, a nossa humilde academia detouristes. Mas um certo excesso de anneis de preço, enfiados nos dedos tambem excessivamente jaspeados de pós de arroz, prejudicava um pouco o bom gosto datoilette.De mim para comigo dizia eu: «Já vi estas mãos e estes anneis, não sei onde!»A mulher do brazileiro mostrava-se encantada com a surpresa de um sarau, que a nossa excentricidade, como ella disséra, lhe havia preparado.O Araujo, muito resignado, parecia dizer com os olhos, explicando a sua presença ali: «Sim, filha, o que tu quizeres».{120}{121}
VIIIFoi pois o Vasconcellos, que n'essa noite excedia o seu bom humor habitual, quem lembrou que, para contrapor ao Gonçallinho, só havia um homem entre nós, e que esse homem era o Leotte.Estavamos n'isto, quando o Victor, dono dohotel, appareceu á porta da sala, pedindo-nos licença para entrar.—Era negocio urgente, dizia elle.Convidámol-o a entrar, sentar-se, e dizer.No fim de contas, o negocio era simples.Do proprietario doHotel Braganza, de Lisboa, recebera elle um telegramma pedindo-lhe que na manhã seguinte tivesse promptos, pelo menos, um quarto e uma sala, contigua ao quarto, para um brazileiro e sua esposa.Precisava portanto que um de nós, o Maldonado, mudasse de aposento, porque occupava justamente o que preenchia aquellas condições.{82}Despachado favoravelmente o requerimento, logo. A uns alegrou—e foi d'este numero o Leotte—a chegada de novos hospedes, especialmente de uma mulher; a outros, que estavam saboreando a liberdade da solidão, contrariou a noticia. Eu pertencia a estes ultimos.Apanhando o Victor a geito, falámos-lhe nacriada fidalga, como nós diziamos. Pedimos informações.—Ella conta sempre essa historia, acho eu, disse-nos o Victor, mas isso tem-me interessado pouco. São lá coisas dos criados uns com os outros. O que eu posso dizer é que a Rosa tem, effectivamente, algum ar de não ser tão grosseira como as outras criadas. Mas, se v. ex.aso desejam, perguntem-lhe a ella mesma por isso, quando quizerem, menos hoje, porque ella está engommando roupa. Póde ser ámanhã ou quando v. ex.asquizerem, se fazem tenção de se demorar.Agradecemos a concessão que o Victor nos fizera, naturalmente para equilibrar a concessão que nós lhe fizemos do quarto do Maldonado.O Leotte estava triumphante: que não se tinha enganado; que já iamos vendo que quem tinha razão era elle, porque o proprio Victor confessára que a Rosa não era tão grosseira como as outras criadas.E alegre por esta revelação, teve ainda menos duvida do que a principio em contar uma tolice qualquer que lhe lembrasse, dizia elle.{83}—Vou-vos dizer um caso engraçado e verdadeiro, annunciou o Leotte.—Isso é que se quer, approvou o Vasconcellos.—-Com mulher? perguntou o Maldonado.—É dos autos... respondeu o Leotte.Toujours la femme.—A historia do conde? perguntei eu.—Não; essa fica para outra vez. É uma que me lembrou agora.Ouvimos.—Voltavam de uma praia, não muito distante de Lisboa, tres amigos que na melhor das intimidades tinham feito juntos a sua estação de banhos.Vocês de certo os conhecem pessoalmente, mas a mim corre-me o dever de lhes occultar a individualidade sob a mascara do pseudonymo.Poderia, é certo, chamar-lhes os amigosTres estrellas, mas as estrellas sempre tiveram fama de romanticas, e o conto é seu tanto ou quanto realista. Uma coisa brigaria com a outra. Prefiro pois inventar tres nomes de guerra e charmar-lhes:Arthur Reinaldo.Leopoldo Ambrosio.Jacinto Procopio.E, declarados os nomes, a ninguem será licito duvidar dos recursos da minha imaginação.Os nossos tres heroes pagaram a sua conta de{84}hotel, fecharam as suas malas, e dirigiram-se para a proxima estação do caminho de ferro.Chegando ahi, encontraram na sala de espera uma senhora distinctamente elegante, vestida de preto, coberto o rosto com um espesso véu.Todos tres arderam em curiosidade de vêr-lhe a face, e de saber quem fosse.Mas o véu era impenetravel á perspicacia de seus olhos.Quando chegou o comboio, offereceram-se, como bons cavalleiros andantes, para conduzir ao wagon as malas da mysteriosa dama. Simples pretexto para entrarem na mesma carruagem.A traça vingou, vieram juntos. A dama mostrou-se amavel, espirituosa até, mas o véu, sempre pendente, continuava a occultar-lhe o rosto, que elles tanto desejavam vêr.A distancia não era grande, e, graças á boa companhia em que vinham, ainda mais pequena lhes pareceu.Chegaram a Santa Apolonia depois da meia noite, despediram-se da sua companheira de viagem, que lhes agradeceu a amabilidade com que a trataram, mas, como era natural, todos elles desejavam seguil-a para ficarem sabendo onde morava em Lisboa aquella mysteriosa dama, que tanto lhes dera no goto.Pensaram comtudo que seria inconveniente seguirem-n'a todos tres ao mesmo tempo, e de commum accordo resolveram delegar n'um só esta{85}empresa, sob compromisso solemne de que narraria aos outros com a maxima exactidão tudo quanto se passasse.Jacinto Procopio foi o escolhido para tão importante commissão de confiança.Feito o accordo, despedidos os tres, Jacinto Procopio, investido nas suas funcções de espião galante, vê a dama aproximar-se da fila de trens que estacionavam no Largo dos Caminhos de Ferro.E ouvindo rodar uma das carruagens, que devia ser aquella que a mysteriosa dama havia tomado, entra n'outra carruagem, ordena ao cocheiro que largue sem perda de vista aquelle trem que acabava de partir.O cocheiro assim fez, guiado pelas lanternas da carruagem que o precedia. De vez em quando Jacinto Procopio, pondo a cabeça fóra da portinhola, espreitava; e, como visse as lanternas a brilharem como dois pharoes no trem da frente, tranquillisava-se.Haviam chegado ao Terreiro do Paço, e o cocheiro da primeira carruagem parou de repente, fazendo signal ao do segundo trem para que passasse adeante.Jacinto Procopio disse com os seus botões:—É ella que não quer ser seguida. Pois tenha paciencia, porque eu não estou resolvido a fazer-lhe a vontade.E falando para o cocheiro:{86}—Não faças caso. Deixa-te ficar.Houve um momento de espera. O primeiro trem continuou rodando, e o segundo tambem. Seguiram um atraz do outro ao longo do Aterro, subiram a rampa de Santos, entraram na rua de S. João da Matta.Jacinto Procopio ia jubiloso: a caça não conseguira fugir-lhe.E depois, ficando a saber onde a dama morava, diria a verdade aos outros ou não diria. Havia ainda de pensar n'isso. Não fosse tão tolo que, depois de tanto trabalho, désse lenha para se queimar.O primeiro trem parou á porta de um predio na rua da Santissima Trindade; e o segundo trem parou logo apoz o primeiro.Jacinto Procopio salta precipitadamente do estribo, quer vêr apear-se a dama, mostrar-se-lhe, para que ella reconheça aquelle dos tres que pareceria ter tido maior interesse em seguil-a.Abre-se a portinhola da primeira carruagem e Jacinto Procopio vê descer, de mala na mão, quem? A dama que elle julgava haver seguido, e á qual queria mostrar-se? Não! Vê apear-se Leopoldo Ambrosio!E os dois desatam a rir como possessos, quebrando hilariantemente o silencio pacato da rua da Santissima Trindade.A dama havia tomado outro trem, se é que tomou algum.{87}O logro fôra completo.Tanto quanto a alacridade que lhes desconjuntava as costellas o permittiu, os dois trocaram explicações, contaram um ao outro como as coisas se haviam passado depois que se separaram no Largo dos Caminhos de Ferro.As revelações de Leopoldo Ambrosio foram interessantissimas.Afigurou-se-lhe que era a dama que o seguia no segundo trem. E este caso intrigava-o.—Então é ella que me segue?! dizia elle com os seus botões.E um fumosinho de vaidade passava no seu espirito, cegando-lhe o entendimento.No Terreiro do Paço, como o segundo trem viesse sempre na piugada do primeiro, Leopoldo Ambrosio quiz desenganar-se, e ordenou por isso ao cocheiro que dissesse ao do segundo trem que passasse adeante.As duas carruagens, como já contei, pararam quasi ao mesmo tempo.E como o cocheiro do segundo trem não obedecesse ao convite que lhe fazia o do primeiro trem, Leopoldo Ambrosio mais se convenceu de que era effectivamente a dama que o seguia.Então, todo ancho d'essa estranha aventura, em que elle parecia ser o galanteado, deixou-se conduzir ao longo do Aterro, sonhando sonhos côr de rosa na escuridão de uma noite negra.E não fazia senão espreitar pelo oculo da carruagem{88}a vêr se a dama mysteriosa e distincta continuava a seguil-o.O seu trem subiu a rua de S. João da Matta e chegou, finalmente, á da Santissima Trindade. Parou no numero que elle havia indicado ao cocheiro e que era o da sua residencia.N'isto o outro trem pára logo.—O que! exclama Leopoldo Ambrosio. Entãoellapára tambem! Apea-se! Vae talvez cair-me nos braços, dizendo n'uma grande allucinação de amor: «Segui-te, porque quero ser tua!»Tirou a mala para fóra do trem; que não fosse esquecer-lhe na anciedade febril d'essa proxima explosão de amor.Abre-se immediatamente a porta da segunda carruagem, e Leopoldo Ambrosio vê apear-se, não a dama que elle imaginava vir seguindo-o, mas o seu amigo Jacinto Procopio, de que se havia separado momentos antes no Largo dos Caminhos de Ferro.E quando no dia seguinte se reuniram todos tres, e os dois contaram os episodios grotescos d'aquella aventura mallograda, Arthur Reinaldo, desapontado, rogou nove mil novecentas noventa e nove pragas aos seus dois amigos, que haviam estragado todos os bellos sonhos de conquistador feliz que tinha sonhado.O caso é authentico e garantido pelo testemunho insuspeito de tres cavalheiros tão acreditados nos seus respectivos bairros como são os srs.{89}Arthur Reinaldo, Leopoldo Ambrosio e Jacinto Procopio, tres pessoas distinctas e um só logro verdadeiro.—Bravo!—Bravo!—Um dos tres eras tu...—Pois já se deixa vêr que era.Gargalhadas, ápartes, commentarios. A atmosphera aqueceu; o proprio orador estava vibrante, excellentemente disposto. Que contasse a historia do conde, que ainda era cedo. Que contaria, mas que precisava primeiro um copo de cognac. Veio cognac para todos.—Pois então, meus caros, disse o Leotte, ahi vae a historia do conde.Silencio geral.{90}{91}IXImaginem vocês que é o proprio conde que está falando.Eu lhe conto, disse-me o conde.E, accendendo vagarosamente o seu charuto, cruzando a perna direita sobre o fémur da esquerda, contou, com o seu habitual sorriso, levemente malicioso:—Estava eu em Pariz, onde tinha ido mais uma vez com o pretexto de assistir ás festas de 14 de julho. Oito dias depois, como os jornaes me avisassem de que todo o Pariz—o Pariz doente e o Pariz são—havia desertado para os Pyrineus, resolvi partir tambem, para fazer alguma coisa, e para não ficar... só! Tomei o primeiroexpresso, e, ao cabo de 19 horas de viagem, apeava-me na estação de Pierrefite.Achei-me, mal puz o pé em terra, em plena vida: a grande vida dos Pyrineus no estio.{92}Bastas massas de verdura engrinaldavam pittorescamente os rochedos, e a paisagem formosissima do valle de Argelès, contrastando com as aguas revoltas do Gave, seria capaz de me inspirar uma écloga, se eu tivesse a bossa de poeta bucolico.Na estação havia uma espessa agglomeração de gente, um borborinho estridulo, que me fez acreditar que todos os doentes que se sobrescriptavam para Cauterets iam de perfeita saude, a começar por mim...Osomnibus dos hoteissolicitavam-me, na razão de 2 francos e 50 centimos, por duas horas de caminho; os cocheiros dascaléchesdisputavam-me a cabeça por dez francos. Preferi osomnibus, por nada menos de tres razões:1.ª Eu detesto a solidão, e osomnibus, como o seu nome indica, garantiam-me duas horas de viagem alegre, em companhia da gente que mais fala no mundo: os francezes.2.ª Eu relacionara-me noexpressocom tres francezes e quatro francezas, a duas das quaes, alternadamente, e ás vezes simultaneamente, principiei a fazer um pequenino pé de alferes, como nós cá dizemos.3.ª Esta razão é futil: era mais barato.As minhas duas francezas saltaram para dentro de umomnibus, e eu parodiei os carneiros de Panurge, saltando para onde ellas saltaram.Duas horas deliciosas!{93}As francezas eram amigas de collegio: uma d'ellas, cunhada de mr. Bourgoin, um burguez rico, viajava para se divertir acompanhando a irmã casada; a outra viajava, tambem para se divertir, acompanhando a sua amiga, cunhada... do cunhado.Apenas o burguez precisava das aguas de Cauterets por causa do rheumatismo, que é uma doença de todos os burguezes. Se não fosse isso, como elles seriam felizes, especialmente... os ricos!Só elle, pois, tomava tudo aquillo a sério, falando-me da composição das aguas, das differentessourcesde Cauterets, em que predominava o elemento alcalino.As duas amigas, por sua vez, encareciam-me a belleza dos passeios de Cauterets, citavam-mela Promenade des Oeufs, vasta explanada onde todas as tardes toca no kiosque a musica do Casino e onde a variedade dos divertimentos—bailes infantis, jogos, tiro ao alvo—e oschaletsdos vendedores põem em todo o recinto uma nota de animação movimentada, gárrula, que a enorme concorrencia dastationcompleta; da montanha deCambasque, ao fundo daPromenade des Oeufs, á qual se sóbe em zig-zags, para descobrir um ponto de vista encantador; doMarmelon Vert, a dois kilometros de Cauterets, orendez-vousdosport; doParque, sombreado de bellas arvores seculares; daGrange de la Reine Hortense, d'onde se avistam os valles de Argelès e Lourdes; e da{94}Glacière, a estreita garganta nunca visitada por um raio de sol...Planeavamparties de plaisir,repas champêtres, que nós desdoiramos com o vocabulo plebeu de merendolas, mas que, na graça delicada da lingua franceza, principiavam a ter sabor antes da realidade.Se fôsse em Portugal, dizia eu com os meus botões, estas duas meninas, ambas de uma mocidade estonteadora, viriam aqui esmagadas pela auctoridade dictatorial do unico homem que as acompanha; não diriam palavra ou responderiam com simples monosyllabos, muito acanhadas e muito hesitantes, ás minhas perguntas.Mr. Bourgoin, a ser portuguez, encarregar-se-ia, algum tanto constrangido, de fazer todas as despesas da conversação, visto ter a infelicidade de haver encontrado, contra os estilos do nosso paiz, um companheiro de viagem tagarella.Madame Bourgoin tão depressa estimulava as esperanças do marido na cura radical do seu rheumatismo, adiada de anno para anno, como se intromettia na conversação da irmã, e da outra, lembrando a belleza doLac Bleu, espelhado de aguas limpidas, e contornado de ruinas, dando assim a entender que, superior á prosa do rheumatismo conjugal, pairava no seu espirito a poesia dos lagos...Perguntaram-me as duas amigas se eu me demoraria muito em Cauterets.{95}Respondi que não havia nada tão incerto para um homem de boa saude como saber quando a sua doença o abandonaria.As duas francezas riram longo tempo, comprehendendo, com a sua fina intuição gauleza, que eu principiava a estar indeciso, no meu pé de alferes, entre uma e outra.Se viajassemos em Portugal, era certo, certissimo, que começariam a ter ciumes, a mostrar-se reservadas, um poucochinho azedas, porque uma portugueza não comprehende facilmente que um homem possa estar ao mesmo tempo namorado de duas mulheres.Portugal, a despeito do feliz systema que nos rege, como dizia o Garrett, é, pela tradição, um paiz absolutista... até no amor.Uma das francezas, M.elleSuzanne, lembrou-me a conveniencia de encontrar qualquer doença ligeira que me obrigasse a demorar-me um pouco mais em Cauterets do que a saude.M.elleDenise foi de parecer que todo o fumista deve soffrer mais ou menos da garganta.Achei acertado o alvitre e, uma vez installado em Cauterets, comecei a tomar as aguas por minha conta e risco, escolhendo asourceao acaso. Arranjei, como o dr. Serrand pôde verificar por meio do laryngoscopo, uma congestão thermal da larynge, o que me fez convencer de que as aguas de Cauterets são excellentes, não tanto para dar saude, como para tiral-a.{96}Na impossibilidade de continuar cultivando as aguas, comecei a cultivar o amor—o amor de Cauterets, meu amigo, que parece colorido por um pintor decorativo n'um fundo de paisagem em que as naiades e as driades emergem do seio alpestre dos Pyrineus bailando de mãos dadas em torno de nós.Uma fascinação... em francez.Consegui ser, dentro em quinze dias, um homem conhecido pelas mulheres, um millionario do amor... ideal.Não chegava para as encommendas platonicas que de toda a parte me solicitavam. Palavra de honra: não chegava. Uma vez encontrei-me no Pic de Gabietou, sem eu saber como, com mademoiselle Rosine Hubert, uma loira, irmã gemea da aurora. Tomei a altura do Pico, e achei que estava só no mundo com ella. Lembrou-me então uma certa aventura de HenriqueIV, no alto de uma torre, com a filha do sineiro. Tentei fazer de HenriqueIV, e beijei-a. Mademoiselle Rosine Hubert partiu-me o leque na cara. Ensaiei nova tentativa. Ella ameaçou-me de se despenhar do Pico, arrastando-me comsigo. O lance pareceu-me tragico de mais para uma simples aventura de estio. Descemos; eu amparava-a, acudia-lhe quando ella, rindo, rindo sempre, hesitava na descida.Já de longe olhei para o Pic de Gabietou, e vi n'elle o monumento informe da minha cobardia ou da minha inepcia.{97}Mademoiselle Rosine, espanejando-se na sua alegria, parecia não conservar o menor resentimento da scena de Gabietou. Falava-me com a mesma graça amavel, sorria-me ainda com a mesma confiança que eu parecia haver-lhe inspirado antes.Se Rosine fosse portugueza, ter-se-ia ido queixar á mamã, que contaria tudo ao papá. Haveria em Cauterets um escandalo medonho, e eu teria de adoptar um de dois extremos violentos: fugir ou casar.Nada d'isto aconteceu. Rosine não contou a ninguem, decerto, a scena de Gabietou, em que me fez muita falta um Mephistópheles e um cofre de joias. Conhecendo que eu a desejava um pouco, procurou, como boa franceza que era, fazer que a desejasse muito. Sorria-me, attraía-me.E eu teria talvez queimado as azas, se n'essa noite não houvesse apparecido no Casino outra franceza mais adoravel ainda que Rosine, a qual franceza devia ser d'ahi a tres mezes minha legitima mulher.Fiz-lhe namoro durante mez e meio, até ao fim de setembro. Depois, vesti a minha casaca, puz a minha gravata branca, e fui pedil-a á mãe, que teria quarenta annos, e uma carnação sadia, que não conseguira perder, sem embargo de tomar as aguas de Cauterets todos os annos. Parece incrivel!O conde descruzou as pernas, accendeu de novo{98}o charuto, e, batendo uma palmada com a mão esquerda sobre a perna, disse-me:—Fui muito feliz aquelle anno em Cauterets. Imagine que de uma vez combinei com dois portuguezes, que lá estavam, com oito francezes, um allemão e uma ingleza velha, fazermos uma excursão ao Pico de Balaïtous. Partimos de madrugada. Na vespera á noite a nossa excursão annunciara-se no Casino, fizera sensação; a noticia correra todos os grupos.Ao nascer do sol—uma manhã deliciosa dos Pyrineus—quando cheguei á porta dohotel, fiquei encantado de encontrar á janella, esperando por mim, para me verem partir, todos os meus namoros de Cauterets. Tinham madrugado sobreposse para me enviar, nas azas d'um sorriso, o seu adeus. Eu sentia-me feliz, ufano. Imagine que só n'uma das janellas estavam duas mulheres, impulsionadas pelo mesmo pensamento: o de me verem partir! Uma d'essas mulheres foi d'ahi a tres mezes minha noiva.—E a outra? perguntei eu.—A outra? repetiu o conde com o seu habitual sorriso levemente malicioso. A outra era minha sogra.Todos nós conheciamos o conde, o seu genio alegre, o seu viver mundano, os seus ditos de espirito, a que muitas vezes sacrificava as conveniencias sociaes, as suas proprias conveniencias até; de modo que nos foi muito agradavel ouvir{99}mais uma vez a historia do seu casamento com o sabor picante que elle proprio lhe dava, quando, sem poupar a sogra, não punha duvida em contal-a.O Gonçallinho Jervis, que tambem era amigo do conde, havia-se levantado, emquanto o Leotte falava, e encostára-se ao vão de uma janella olhando para fóra.Démos por isso.—O que estás tu ahi fazendo?—Que bello luar! exclamou elle. Que bella noite de primavera para irmos ouvir os rouxinoes!—Não seja piegas, atalhou o Vasconcellos. Que bella hora para a gente ir deitar-se!...{100}{101}XEra certo que tinhamos ido a Cintra com o pretexto de ouvir os rouxinoes. Mas era certo tambem que nenhum de nós, com excepção do Gonçallinho Jervis, estava já n'esse periodo agudo de romanticismo, que exalta allucinadamente a imaginação.Parariamos de boa vontade para ouvir um rouxinol, que nos houvesse surprehendido no caminho. Mas ser-nos-ia pesado qualquer incommodo que, a não ser por surpresa, isso nos pudesse custar.O que principalmente nós quizemos gozar indo a Cintra, era a liberdade, o descanso, que não tinhamos habitualmente. O projecto de ouvir os rouxinoes lisonjeára por momentos a vaga saudade, que todos alimentavamos, dos annos felizes da vida, passados na provincia. Mas, uma vez postos a caminho, a doce liberdade, que principiamos{102}a saborear, bem depressa nos fez esquecer dos rouxinoes, que não pensamos mais em ouvir.Só o Gonçallinho Jervis não podia tão facilmente esquecel-os como nós outros. A idade desculpava-o. Estava ainda na sezão da poesia, era uma alma em ebulição, um coração em flôr, via os rouxinoes através do prisma da lenda que tinha talvez lido em Bernardim Ribeiro, frei Luiz de Sousa e outros poetas da prosa ou do verso.Todos nós, mais ou menos, haviamos passado por isso.Todos nós haviamos tido uma quadra da vida em que nos impressionára o caso do rouxinol de Bernardim Ribeiro, que morre de cansaço cantando.«Não tardou muito—diz a novella—que, estando eu assim cuidando, sobre um verde ramo que por cima da agua se estendia, se veio poisar um rouxinol; e começou a cantar tão docemente, que de todo me levou após si o meu sentido de ouvir.«E elle cada vez crescia mais em seus queixumes, que parecia que, como cansado, queria acabar, senão quando tornava, como que começava então.«Triste da avesinha, que, estando-se assim queixando, não sei como se cahiu morta sobre aquella agua. Cahindo por entre as ramas, muitas folhas cahiram tambem com ella.»Na idade do Gonçallinho Jervis, toda a alma é{103}pouco mais ou menos como o rouxinol da novella: esgota-se cantando.Eu não sei se seriam rouxinoes as aves que na cêrca do convento de Bemfica provocaram a desafio os homens, chegando uma d'ellas a morrer extenuada.«Assim nos tempos que a natureza esperta as linguas das aves, a louvar com mais harmonia o Creador, é quasi morada continua (a cêrca) das que por mais musicas são conhecidas. E é tradição, que juntando-se n'ella uns seculares de boas vozes, e começando a cantar ao som de instrumentos bem accordados, acudiram as que se tinham por senhoras do sitio, a desafiar a melodia humana, e artificial, com a sua natural. E isto com tamanha porfia, que vencidas as vozes dos homens não cansaram as pobres avesinhas de seguir as violas que ficaram supprindo por ellas; e uma se deixou levar tanto do impeto, e affecto de cantar, que veio a desfallecer, e á vista de todos cahiu em terra sem alento, como dizendo, que antes queria perder o bem da vida, que a honra de perseverar cantando.»Deviam, effectivamente, ser rouxinoes, porque frei Luiz de Sousa se refereás que por mais musicas são conhecidas, e o rouxinol é, no mundo alado da Europa, o cantor por excellencia.Na idade do Gonçallinho Jervis, se uma alma responde á nossa n'umduettode encantador lyrismo, pouco se nos dá de perder a vida comtanto{104}que possamos morrer exhalando a alma n'um cantico.Eu proprio já havia prestado tambem o meu culto aos rouxinoes, principalmente ao de Bernardim Ribeiro. Aos dezoito annos—Deus me perdoe!—compuz um poema cuja heroinaAcabára, cantando, o captiveiroTal como é fama ter acontecidoAo rouxinol de Bernardim Ribeiro!Mas, no anno em que fômos a Cintra, já propendia a estimar mais as perdizes do que os rouxinoes, sobretudo se as perdizes eram temperadas com molho de villão.Um bom petisco!O Gonçallinho Jervis, felizmente para elle, amava tanto os rouxinoes como poeta que era, que até sabia a lenda mythologica d'aquella princeza que por suas desventuras fôra convertida em philomela, nome que os antigos deram ao rouxinol.Eu tinha só uma vaga ideia d'essa lenda pagã por a haver lido naArte da caça da altenaria, composta por Diogo Fernandes Ferreira.«Contam as fabulas que Tereo, filho de Marte e de Bistonida, sendo rei de Thracia, casou com Progne, filha d'el-rei d'Athenas, e a trouxe para o seu reino. N'ella houve um filho lindissimo, a que chamavam Itêns, tão desejado no reino, que o dia que nasceu se festejava como festa solemne.{105}Teve a rainha Progne saudade de vêr a sua irmã Filomena: pediu ao marido licença para a ir vêr, ou fôsse elle em pessoa para a trazer, que seu pae e mãe lhe concederiam licença para a irmã vir. Tereo aprestou naus, partiu, chegou a salvamento, foi bem recebido dos sogros, rei e rainha e da cunhada Filomena, a qual, em Tereo a vendo, se incendeu de amores por sua formosura. Então com mais efficazes palavras pediu aos paes lhe dessem a licença que pretendia. Fez-se-lhe a vontade. Embarcados, vieram a salvamento, e, chegados a um porto do reino de Tereo, sahiram em terra elle e a cunhada, dizendo elle que o fazia para n'aquella floresta descansar do trabalho do mar. E sendo longe das naus e gente, não tanto como o elle estava da virtude, trabalhou por persuadir a cunhada áquelle intento que desejava; e vendo que nenhumas promessas nem palavras bastavam para ella consentir em seu desejo, acolheu-se á força e com ella, muito contra vontade da afflicta princeza, de donzella a tornou dona. Queixando-se ella a Deus e ao mundo de tão grande maldade, que havia de ser pregoeira de tamanha villeza e traição, e se havia de tomar vingança de tal aleivosia, ordenou elle outra maior maldade arrancando-lhe a lingua, e assim a levou a casa de um criado seu e vassallo, não lhe declarando o caso. Aos das naus disse que as feras a mataram, e chegando a sua casa se fizeram muitas mostras de tristeza pela morte fingida da{106}cunhada, a qual, estando em poder do vassallo de Tereo, pediu por acenos lhe dessem hollanda e seda de côres, que queria entreter-se. Trazida, em letras gregas conta á irmã o caso, e por acenos rogou a uma mulher levasse aquella toalha assim lavrada á rainha Progne, que lhe havia de ser bem pago o trabalho que n'isso tomasse. Dada a toalha á rainha, sabida a historia, dissimulou. N'aquelle tempo se faziam umas festas que de tres annos se celebravam n'aquelle reino. Disse Progne ao marido que desejava ir a ellas. Ida, foi aonde a irmã estava, a qual achou privada da lingua e falla, e assim a trouxe para sua casa em trajo demudado. Ambas determinaram a vingança do marido bem extraordinaria, e foi que tomaram Itêns, o principe filho de entre ambos, e lhe cortaram a cabeça, pés e mãos, e do corpo mandaram fazer manjares differentes. E tendo isto ordenado, pediu Progne ao marido lhe concedesse jantarem ambos, ao modo dos reis de sua terra, que era comerem sós. Foi-lhe feita a vontade. Partiu Tereo os manjares e guizados feitos do corpo do filho; depois de comer d'elles, pediu á mulher lhe mandasse vir o principe Itêns, seu filho, que elle muito amava. Então sahiu Filomena de uma camara com a cabeça, as mãos e os pés do filho, desejando ter lingua para mostrar a ira que contra elle tinha. Tereo, vendo o caso, deu com a mesa em terra, e lançou mão á espada. Ellas fugiram, Progne convertida em andorinha, e Filomena{107}em rouxinol; Itêns em avião, e Tereo em poupa.»Esta fabula, copiada dos poetas pagãos, fazia trasbordar de poesia a alma do Gonçallinho Jervis, que julgava ouvir na voz do rouxinol toda a colera tragica da princeza Filomena, a qual princeza, convertida em ave canora, parecia vingar-se eternamente da falta que no seu tempo lhe fizera a lingua, cortada pelo cunhado.Gonçallinho ia na esteira de Camões, que dizia nosLusiadas:Ao longo da agua o niveo cysne canta,Responde-lhe do ramo philomela.Na varzea de Collares não faltavam agua, verdura, rouxinoes. Por isso elle tanto desejava que, soltando a sua voz de cysne defrak(certamente mais melodiosa do que aquella de que os cysnes podem dispôr) lhe respondesse de um ramo a princeza atheniense, convertida em rouxinol.Diogo Fernandes Ferreira explica a razão por que as quatro personagens da lenda foram metamorphoseadas n'aquellas aves.«Ordenou o poeta esta fabula de vêr que o rouxinol quasi não tem lingua, e a andorinha ser vestida de preto, e no peito ter umas nodoas vermelhas, e ter o canto triste, como que conta a historia da maldade do marido, e as pennas rôxas como sangue da crueldade que teve em matar o{108}filho em vingança da irmã. E do canto do rouxinol a saudade com que viveu a vida a forçada Filomena, e do avião porque no seu canto parece que grita como menino, e na poupa pela significação da corôa da cabeça, e na formusura das pennas pintadas de que se vestem finge ser el-rei, porque a poupa, tomada na mão, tem mau cheiro, e o ninho d'ella o mesmo: em que se dá a entender que os maus feitos, ainda que sejam commettidos por reis e pessoas graves, se ha de fugir d'elles e virar-lhes o rosto, como coisa abominavel e fedorenta.»Este processo da moralidade pelo fedor não deixa de ser convincente.Disse isto uma vez ao Gonçallinho. E elle, muito despeitado, chamou-me barbaro.{109}XIINo dia seguinte, quando recolhemos para jantar, soubemos pelo Leotte, que tinha ficado de atalaia, tudo o que se passára com relação á chegada dos dois novos hospedes—o brazileiro e a mulher.Não era o nosso amigo Leotte homem que, em se tratando de uma mulher, curasse por informações. Queria vêr a brazileira: ficou.—Já não é nova—disse-nos elle—mas considero-a ainda acirrante. Dou-lhe quarenta annos, pouco mais, e está menos mal conservada. Bonitos olhos, bons dentes, cabello magnifico. Reforçada de carnes, sem se poder dizer nutrida. Mulher capaz de satisfazer o ideal de um brazileiro, que a idade principia a tornar decadente. Disse-me a Rosa, que está de serviço á brazileira, que elles irão jantar á mesa redonda.—Estás n'um sino, Leotte! Pois bem! Veremos isso.{110}Quando chegamos á mesa, contamos onze talheres. A informação fornecida pela Rosa era, pois, exacta. D'ahi a pouco tempo, o brazileiro e a mulher entraram.O Leotte descrevera com exactidão e verdade o typo da brazileira. Era, effectivamente, o que se costuma chamar—umas bellas ruinas. Não dessas ruinas brutalmente realisadas por um cataclismo, que não deixa pedra sobre pedra; mas as que o tempo lentamente costuma ir augmentando e dulcificando com um vago perfume de poesia do passado.Nos olhos da brazileira, principalmente, brilhavam uns como lampejos de formoso occaso de outono. A noite negra da velhice, que apaga o clarão das pupillas, estava ainda longe. E sentia-se n'essa organisação de mulher, que devia ter sido ardentissima, o que quer que fôsse de rescaldo tepido e demorado de um incendio devorador.Atoiletteera distincta, gentil, sem ser severa nem petulante. Denunciava um velho habito de vestir com esmero. O unico defeito que se poderia notar era um certo excesso de pó de arroz nas mãos e de anneis nos dedos.O brazileiro principiava a resvalar pelo plano inclinado da velhice cansada. Mas havia na sua face um reflexo de bondade credula, de alma sincera, capaz de um sacrifício nobre e de um acto de generosidade fidalga.{111}No momento de entrar na casa de jantar, percebeu-se que o contrariou achar-se com sua mulher no meio de uma sociedade de homens. Mas a breve trecho o seu sobresalto dissipou-se, reconhecendo que nenhum de nós ignorava o que era jantar em companhia de uma dama.E a proposito da dama... Cinco minutos depois d'ella se ter sentado á mesa, começou-me a impressionar a sua physionomia, na qual me parecia encontrar feições de uma mulher que eu já vira não sabia quando nem onde.Por mais que evocasse as minhas recordações, por mais que folheasse esse volumoso livro de biographias que cada pessoa tem archivado no espirito para o consultar de quando em quando, não me era possivel encontrar um nome que correspondesse áquella physionomia: todavia, eu iria jurar que já tinha visto algures a mulher do brasileiro, que a havia encontrado, conversado talvez, mas não sabia, não podia dizer quando isso fosse.Seria em Lisboa? Não, decerto. Visivelmente haviam decorrido muitos annos, porque, de contrario, a minha memoria não seria tão rebelde.Na provincia? Aonde? Eis a questão. Vel-a-ia eu no Porto? Tel-a-ia visto em Braga, onde tantas vezes fui passar as férias? No Bom Jesus do Monte, onde, no verão, abundavam os brazileiros emvillegiatura? Nas Caldas das Taipas ou{112}de Vizella, que um anno por outro visitei de passagem?Deus meu! Era certo que eu tinha visto aquella mulher, mas não podia lembrar-me onde nem quando.Dominado por esta preoccupação, passei todo o jantar. Procurava observar a brasileira sem comtudo offender a susceptibilidade do marido. Elle não repelliu a conversação em que principalmente o Leotte o queria envolver. Disse alguma coisa da sua vida, pouco. Estava doente. Ella falou muito menos do que o marido, mas a sua voz, que conservava ainda vestigios da accentuação das provincias do norte, augmentou a minha preoccupação. Decididamente, eu já tinha ouvido falar aquella mulher.Sem termos sido mutuamente apresentados, estabeleceu-se para o fim do jantar, graças aos esforços empregados pelo Leotte, um certo convivio de expansiva camaradagem. Leotte, rindo sempre, contou ao que tinhamos ido a Cintra: ouvir os rouxinoes.O brazileiro e a mulher acharam muito graça a esta excentricidade collectiva.—Ouvir os rouxinoes! exclamou elle. Na minha terra, por este tempo, os rouxinoes são aos cardumes!O Gonçallinho Jervis sublinhou com um olhar, que me enviesou, oscardumes de rouxinoes, que tinham saído da bocca do brazileiro.{113}Mas o Leotte aproveitou logo a occasião para perguntar:—Então v. ex.ª é portuguez?—Nado e creado na freguezia de Santa Maria de Bouro, concelho de Amares, comarca de Villa Verde, districto de Braga, respondeu elle.—Ah! Por ahi, como em toda a provincia do Minho, são abundantissimos os rouxinoes.—Que no Brazil, onde estive mais de trinta annos, tambem ha muitos passaros que cantam bem: o sabiá sica, o corrixo, que imita todos os outros passaros, o bem-te-vi, etc. Mas o que no Brazil ha de mais notavel é que muitos passaros falam.—Falam? perguntou o Leotte.—Eu só sabia do papagaio, observou o Vasconcellos.—Nada, não sr., continuou o brazileiro. O bem-te-vi, por exemplo, canta dizendo o seu nome. O tico, que é do tamanho d'um pardal, anda sempre a dizer—tico, tico. E o curiangú, que se põe de noite adeante dos cavallos, costuma dizer de madrugada: João, corta pau!—Mas os indigenas hão de dar alguma explicação a essa phrase...—Isso agora é que eu não sei, meu caro sr. Lá que elle o diz, diz, porque eu, sendo caixeiro e andando a cobrança, ouvi muitas vezes cantar o curiangú. Punha-se á frente do meu cavallo e, quando o sentia perto, tornava a voar, e esperava-o dizendo: curiangú.{114}—Então não diz sempre a mesma coisa?—Não, sr. De noite diz—curiangú; e de madrugada—João, corta pau.—É curioso! Pois nós viemos para ouvir os rouxinoes, e a verdade é que ainda os não ouvimos, com grande magua do nosso amigo Jervis, que tomou muito a sério o pretexto d'esta digressão. Mas temos passado as noites tão entretidos nohotel, que nos tem faltado tempo para irmos ouvir os rouxinoes.—Entretidos! Aqui? perguntou ironicamente a mulher do brazileiro.—Sim, minha senhora, respondeu o Leotte, muito agraciado do semblante. Entretidos a contar historias.—Da carochinha? perguntou ella com o mesmo tom de ironia.Então o Leotte explicou largamente o compromisso, que todos nós haviamos tomado, de contar uma historia ao serão para aligeirar as noites de Cintra.Tanto o brazileiro como a mulher acharam muita graça a mais esta excentricidade.—Pois eu, disse ella, vinha com medo ás noites de Cintra, que principalmente n'esta época do anno devem ser horrorosas de comprimento. Mas o Araujo tem passado agora peor, e o medico aconselhou-o a que viesse tomar os ares de Cintra.—Pois se v. ex.asnos quizerem dar essa honra, acrescentou o Leotte sempre amabilissimo, poderão concorrer aos nossos serões.{115}—Da melhor vontade. Tanto mais que o Araujo precisa muito distrair-se. V. ex.asdemoram-se?—Fazemos tenção de ir ámanhã embora, respondeu o Vasconcellos na qualidade de chefe da caravana.—Não é sangria desatada, minha senhora, atalhou o Leotte. E de mais a mais ainda nem sequer ouvimos os rouxinoes.O Vasconcellos, sorrindo, encolheu os hombros.—Pois então, disse a mulher do brazileiro levantando-se da mesa, eu e meu marido faremos parte do auditorio. Não é assim, Araujo?—Sim, filha, como tu quizeres.O Leotte, despedindo-se:—Os nossos saraus litterarios principiam depois das oito horas da noite, na sala de visitas.—Até logo, disse a mulher do brazileiro saindo da sala de jantar, seguida pelo marido.Saímos tambem, accendemos as nossas cigarrilhas e fomos dar um passeio até á Praça para fazer o chilo, como sempre dizia o Maldonado.É claro que o assumpto do passeio, insensivelmente prolongado pela estrada de Villa Estephania, se circumscreveu ao brazileiro e á sua mulher.Todos eram de opinião, quanto á mulher, que ella representava umas ruinas muito menos antigas que as do convento do Carmo, mas não menos pittorescas. O Leotte—já era de esperar—exagerava{116}a belleza da brazileira, como todos lhe chamavamos, e acrescentava que, quem quer que ella fosse, vinha da escóla da experiencia, da escóla pratica do mundo. Eraabelha-mestra, concluia elle.Todas as phrases que ella disséra suscitavam-nos commentarios mais ou menos maliciosos.Notava-se a facilidade com que acceitára o nosso convite, não sem disfarçar habilmente o seu espirito mundano com a allegação de que o marido precisava distrair-se. O seu horror pela extensão das noites de Cintra revelava que ella, todavia, amava mais o mundo que o marido.Eu insisti na minha preoccupação de a ter já visto algures. Alguns dos meus amigos, o Vasconcellos por exemplo, riram-se d'isto.—É que ella tem a phisionomia tipica de todas as mundanas quarentonas que foram parar ás mãos de brazileiros. O que tu conheces é o genero, não é a pessoa.—Póde ser que seja assim, comtudo eu apostaria que já a vi, não sei onde.—Mas, lembrou o Gonçallinho, ella ouviu dizer o teu appellido sem dar o menor indicio de conhecer-te.—Ora! isso é da tabella, tolinho! Então ella havia de mostrar ao brazileiro que conhecia alguem n'este mundo além do seu querido Araujo?—Que tinha isso? insistiu o Jervis. Pois as mulheres, por mais honestas que sejam, estão{117}inhibidas de reconhecer um homem que era das relações da sua familia?—O caso é outro, pateta. Uma scena de reconhecimento importaria explicações que ella teria de dar ao marido. E quem sabe se elle as acceitaria sem uma suspeita, justa ou injusta? Aqui tens o busilis. Decididamente, tu não sabes nada do mundo!Chegou depois a vez de discutirmos o brazileiro, um bajojo, diziamos, anesthesiado pelos ultimos prazeres capitosos de uma velhice cansada. Recordamos a phrase d'elle: «Sim, filha, como tu quizeres». Mas, em todo o caso, boa pessoa, sincero pelo que respeitava á sua biographia: «Natural da freguezia de Santa Maria de Bouro, concelho de Amares, etc.»—Hei-de saber a historia d'este casamento e d'esta mulher. O Pessanha, que é deputado por Villa Verde, ha-de conhecer o Araujo, se elle effectivamente é de Amares.—Estás tolo! Ha lá algum deputado que conheça o circulo!—Mas é que o Pessanha tem casa em Villa Verde.—N'esse caso já deve dinheiro ao Araujo e dirá só o que lhe fizer conta.—Qual historia! Se lhe deve dinheiro, diz tudo.O Gonçallinho Jervis lembrou a phrase—cardumes de rouxinoes. Outro, não sei qual, recordou-se{118}dotico, tico. O caso do passaro—já nenhum de nós lhe atinava com o nome—que cosstuma dizer «João, corta pau», despertou grande galhofa.—Mas é que os brazileiros, disse o Athayde, têem a mania de que todos os passaros dizem alguma coisa.Gargalhada geral.—É isto, insistiu elle. O Rodrigues, que vae muito áHavanesa, já uma vez me contou que ha no Brazil uma especie de rôla, que diz sempre: «Fogo pagou.»—Pegou, é que ha de ser.—Elle disse «Fogo pagou».—E ha de ser assim. Julgavas então que no Brazil eram as rôlas que davam o signal de incendio!Novas gargalhadas.O Leotte lembrou que já passava das oito horas. Se não havia de ser elle que o lembrasse! Desandamos para oVictor, porque havia chegado o momento de começar o nosso sarau litterario—com a assistencia do brazileiro e de sua esposa.Devia ter-se sentido em todo ohotel, quasi solitario, o ruido da nossa chegada. Installamo-nos na sala de visitas, como era costume. D'ahi a pouco, o brazileiro e a mulher entravam na sala.Madame Araujo tinha feitotoilettepara o sarau, umatoiletteque envergonhava, pelo esplendor{119}elegante, a nossa humilde academia detouristes. Mas um certo excesso de anneis de preço, enfiados nos dedos tambem excessivamente jaspeados de pós de arroz, prejudicava um pouco o bom gosto datoilette.De mim para comigo dizia eu: «Já vi estas mãos e estes anneis, não sei onde!»A mulher do brazileiro mostrava-se encantada com a surpresa de um sarau, que a nossa excentricidade, como ella disséra, lhe havia preparado.O Araujo, muito resignado, parecia dizer com os olhos, explicando a sua presença ali: «Sim, filha, o que tu quizeres».{120}{121}
Foi pois o Vasconcellos, que n'essa noite excedia o seu bom humor habitual, quem lembrou que, para contrapor ao Gonçallinho, só havia um homem entre nós, e que esse homem era o Leotte.
Estavamos n'isto, quando o Victor, dono dohotel, appareceu á porta da sala, pedindo-nos licença para entrar.
—Era negocio urgente, dizia elle.
Convidámol-o a entrar, sentar-se, e dizer.
No fim de contas, o negocio era simples.
Do proprietario doHotel Braganza, de Lisboa, recebera elle um telegramma pedindo-lhe que na manhã seguinte tivesse promptos, pelo menos, um quarto e uma sala, contigua ao quarto, para um brazileiro e sua esposa.
Precisava portanto que um de nós, o Maldonado, mudasse de aposento, porque occupava justamente o que preenchia aquellas condições.{82}
Despachado favoravelmente o requerimento, logo. A uns alegrou—e foi d'este numero o Leotte—a chegada de novos hospedes, especialmente de uma mulher; a outros, que estavam saboreando a liberdade da solidão, contrariou a noticia. Eu pertencia a estes ultimos.
Apanhando o Victor a geito, falámos-lhe nacriada fidalga, como nós diziamos. Pedimos informações.
—Ella conta sempre essa historia, acho eu, disse-nos o Victor, mas isso tem-me interessado pouco. São lá coisas dos criados uns com os outros. O que eu posso dizer é que a Rosa tem, effectivamente, algum ar de não ser tão grosseira como as outras criadas. Mas, se v. ex.aso desejam, perguntem-lhe a ella mesma por isso, quando quizerem, menos hoje, porque ella está engommando roupa. Póde ser ámanhã ou quando v. ex.asquizerem, se fazem tenção de se demorar.
Agradecemos a concessão que o Victor nos fizera, naturalmente para equilibrar a concessão que nós lhe fizemos do quarto do Maldonado.
O Leotte estava triumphante: que não se tinha enganado; que já iamos vendo que quem tinha razão era elle, porque o proprio Victor confessára que a Rosa não era tão grosseira como as outras criadas.
E alegre por esta revelação, teve ainda menos duvida do que a principio em contar uma tolice qualquer que lhe lembrasse, dizia elle.{83}
—Vou-vos dizer um caso engraçado e verdadeiro, annunciou o Leotte.
—Isso é que se quer, approvou o Vasconcellos.
—-Com mulher? perguntou o Maldonado.
—É dos autos... respondeu o Leotte.Toujours la femme.
—A historia do conde? perguntei eu.
—Não; essa fica para outra vez. É uma que me lembrou agora.
Ouvimos.
—Voltavam de uma praia, não muito distante de Lisboa, tres amigos que na melhor das intimidades tinham feito juntos a sua estação de banhos.
Vocês de certo os conhecem pessoalmente, mas a mim corre-me o dever de lhes occultar a individualidade sob a mascara do pseudonymo.
Poderia, é certo, chamar-lhes os amigosTres estrellas, mas as estrellas sempre tiveram fama de romanticas, e o conto é seu tanto ou quanto realista. Uma coisa brigaria com a outra. Prefiro pois inventar tres nomes de guerra e charmar-lhes:
Arthur Reinaldo.
Leopoldo Ambrosio.
Jacinto Procopio.
E, declarados os nomes, a ninguem será licito duvidar dos recursos da minha imaginação.
Os nossos tres heroes pagaram a sua conta de{84}hotel, fecharam as suas malas, e dirigiram-se para a proxima estação do caminho de ferro.
Chegando ahi, encontraram na sala de espera uma senhora distinctamente elegante, vestida de preto, coberto o rosto com um espesso véu.
Todos tres arderam em curiosidade de vêr-lhe a face, e de saber quem fosse.
Mas o véu era impenetravel á perspicacia de seus olhos.
Quando chegou o comboio, offereceram-se, como bons cavalleiros andantes, para conduzir ao wagon as malas da mysteriosa dama. Simples pretexto para entrarem na mesma carruagem.
A traça vingou, vieram juntos. A dama mostrou-se amavel, espirituosa até, mas o véu, sempre pendente, continuava a occultar-lhe o rosto, que elles tanto desejavam vêr.
A distancia não era grande, e, graças á boa companhia em que vinham, ainda mais pequena lhes pareceu.
Chegaram a Santa Apolonia depois da meia noite, despediram-se da sua companheira de viagem, que lhes agradeceu a amabilidade com que a trataram, mas, como era natural, todos elles desejavam seguil-a para ficarem sabendo onde morava em Lisboa aquella mysteriosa dama, que tanto lhes dera no goto.
Pensaram comtudo que seria inconveniente seguirem-n'a todos tres ao mesmo tempo, e de commum accordo resolveram delegar n'um só esta{85}empresa, sob compromisso solemne de que narraria aos outros com a maxima exactidão tudo quanto se passasse.
Jacinto Procopio foi o escolhido para tão importante commissão de confiança.
Feito o accordo, despedidos os tres, Jacinto Procopio, investido nas suas funcções de espião galante, vê a dama aproximar-se da fila de trens que estacionavam no Largo dos Caminhos de Ferro.
E ouvindo rodar uma das carruagens, que devia ser aquella que a mysteriosa dama havia tomado, entra n'outra carruagem, ordena ao cocheiro que largue sem perda de vista aquelle trem que acabava de partir.
O cocheiro assim fez, guiado pelas lanternas da carruagem que o precedia. De vez em quando Jacinto Procopio, pondo a cabeça fóra da portinhola, espreitava; e, como visse as lanternas a brilharem como dois pharoes no trem da frente, tranquillisava-se.
Haviam chegado ao Terreiro do Paço, e o cocheiro da primeira carruagem parou de repente, fazendo signal ao do segundo trem para que passasse adeante.
Jacinto Procopio disse com os seus botões:
—É ella que não quer ser seguida. Pois tenha paciencia, porque eu não estou resolvido a fazer-lhe a vontade.
E falando para o cocheiro:{86}
—Não faças caso. Deixa-te ficar.
Houve um momento de espera. O primeiro trem continuou rodando, e o segundo tambem. Seguiram um atraz do outro ao longo do Aterro, subiram a rampa de Santos, entraram na rua de S. João da Matta.
Jacinto Procopio ia jubiloso: a caça não conseguira fugir-lhe.
E depois, ficando a saber onde a dama morava, diria a verdade aos outros ou não diria. Havia ainda de pensar n'isso. Não fosse tão tolo que, depois de tanto trabalho, désse lenha para se queimar.
O primeiro trem parou á porta de um predio na rua da Santissima Trindade; e o segundo trem parou logo apoz o primeiro.
Jacinto Procopio salta precipitadamente do estribo, quer vêr apear-se a dama, mostrar-se-lhe, para que ella reconheça aquelle dos tres que pareceria ter tido maior interesse em seguil-a.
Abre-se a portinhola da primeira carruagem e Jacinto Procopio vê descer, de mala na mão, quem? A dama que elle julgava haver seguido, e á qual queria mostrar-se? Não! Vê apear-se Leopoldo Ambrosio!
E os dois desatam a rir como possessos, quebrando hilariantemente o silencio pacato da rua da Santissima Trindade.
A dama havia tomado outro trem, se é que tomou algum.{87}
O logro fôra completo.
Tanto quanto a alacridade que lhes desconjuntava as costellas o permittiu, os dois trocaram explicações, contaram um ao outro como as coisas se haviam passado depois que se separaram no Largo dos Caminhos de Ferro.
As revelações de Leopoldo Ambrosio foram interessantissimas.
Afigurou-se-lhe que era a dama que o seguia no segundo trem. E este caso intrigava-o.
—Então é ella que me segue?! dizia elle com os seus botões.
E um fumosinho de vaidade passava no seu espirito, cegando-lhe o entendimento.
No Terreiro do Paço, como o segundo trem viesse sempre na piugada do primeiro, Leopoldo Ambrosio quiz desenganar-se, e ordenou por isso ao cocheiro que dissesse ao do segundo trem que passasse adeante.
As duas carruagens, como já contei, pararam quasi ao mesmo tempo.
E como o cocheiro do segundo trem não obedecesse ao convite que lhe fazia o do primeiro trem, Leopoldo Ambrosio mais se convenceu de que era effectivamente a dama que o seguia.
Então, todo ancho d'essa estranha aventura, em que elle parecia ser o galanteado, deixou-se conduzir ao longo do Aterro, sonhando sonhos côr de rosa na escuridão de uma noite negra.
E não fazia senão espreitar pelo oculo da carruagem{88}a vêr se a dama mysteriosa e distincta continuava a seguil-o.
O seu trem subiu a rua de S. João da Matta e chegou, finalmente, á da Santissima Trindade. Parou no numero que elle havia indicado ao cocheiro e que era o da sua residencia.
N'isto o outro trem pára logo.
—O que! exclama Leopoldo Ambrosio. Entãoellapára tambem! Apea-se! Vae talvez cair-me nos braços, dizendo n'uma grande allucinação de amor: «Segui-te, porque quero ser tua!»
Tirou a mala para fóra do trem; que não fosse esquecer-lhe na anciedade febril d'essa proxima explosão de amor.
Abre-se immediatamente a porta da segunda carruagem, e Leopoldo Ambrosio vê apear-se, não a dama que elle imaginava vir seguindo-o, mas o seu amigo Jacinto Procopio, de que se havia separado momentos antes no Largo dos Caminhos de Ferro.
E quando no dia seguinte se reuniram todos tres, e os dois contaram os episodios grotescos d'aquella aventura mallograda, Arthur Reinaldo, desapontado, rogou nove mil novecentas noventa e nove pragas aos seus dois amigos, que haviam estragado todos os bellos sonhos de conquistador feliz que tinha sonhado.
O caso é authentico e garantido pelo testemunho insuspeito de tres cavalheiros tão acreditados nos seus respectivos bairros como são os srs.{89}Arthur Reinaldo, Leopoldo Ambrosio e Jacinto Procopio, tres pessoas distinctas e um só logro verdadeiro.
—Bravo!
—Bravo!
—Um dos tres eras tu...
—Pois já se deixa vêr que era.
Gargalhadas, ápartes, commentarios. A atmosphera aqueceu; o proprio orador estava vibrante, excellentemente disposto. Que contasse a historia do conde, que ainda era cedo. Que contaria, mas que precisava primeiro um copo de cognac. Veio cognac para todos.
—Pois então, meus caros, disse o Leotte, ahi vae a historia do conde.
Silencio geral.{90}
{91}
Imaginem vocês que é o proprio conde que está falando.
Eu lhe conto, disse-me o conde.
E, accendendo vagarosamente o seu charuto, cruzando a perna direita sobre o fémur da esquerda, contou, com o seu habitual sorriso, levemente malicioso:
—Estava eu em Pariz, onde tinha ido mais uma vez com o pretexto de assistir ás festas de 14 de julho. Oito dias depois, como os jornaes me avisassem de que todo o Pariz—o Pariz doente e o Pariz são—havia desertado para os Pyrineus, resolvi partir tambem, para fazer alguma coisa, e para não ficar... só! Tomei o primeiroexpresso, e, ao cabo de 19 horas de viagem, apeava-me na estação de Pierrefite.
Achei-me, mal puz o pé em terra, em plena vida: a grande vida dos Pyrineus no estio.{92}
Bastas massas de verdura engrinaldavam pittorescamente os rochedos, e a paisagem formosissima do valle de Argelès, contrastando com as aguas revoltas do Gave, seria capaz de me inspirar uma écloga, se eu tivesse a bossa de poeta bucolico.
Na estação havia uma espessa agglomeração de gente, um borborinho estridulo, que me fez acreditar que todos os doentes que se sobrescriptavam para Cauterets iam de perfeita saude, a começar por mim...
Osomnibus dos hoteissolicitavam-me, na razão de 2 francos e 50 centimos, por duas horas de caminho; os cocheiros dascaléchesdisputavam-me a cabeça por dez francos. Preferi osomnibus, por nada menos de tres razões:
1.ª Eu detesto a solidão, e osomnibus, como o seu nome indica, garantiam-me duas horas de viagem alegre, em companhia da gente que mais fala no mundo: os francezes.
2.ª Eu relacionara-me noexpressocom tres francezes e quatro francezas, a duas das quaes, alternadamente, e ás vezes simultaneamente, principiei a fazer um pequenino pé de alferes, como nós cá dizemos.
3.ª Esta razão é futil: era mais barato.
As minhas duas francezas saltaram para dentro de umomnibus, e eu parodiei os carneiros de Panurge, saltando para onde ellas saltaram.
Duas horas deliciosas!{93}
As francezas eram amigas de collegio: uma d'ellas, cunhada de mr. Bourgoin, um burguez rico, viajava para se divertir acompanhando a irmã casada; a outra viajava, tambem para se divertir, acompanhando a sua amiga, cunhada... do cunhado.
Apenas o burguez precisava das aguas de Cauterets por causa do rheumatismo, que é uma doença de todos os burguezes. Se não fosse isso, como elles seriam felizes, especialmente... os ricos!
Só elle, pois, tomava tudo aquillo a sério, falando-me da composição das aguas, das differentessourcesde Cauterets, em que predominava o elemento alcalino.
As duas amigas, por sua vez, encareciam-me a belleza dos passeios de Cauterets, citavam-mela Promenade des Oeufs, vasta explanada onde todas as tardes toca no kiosque a musica do Casino e onde a variedade dos divertimentos—bailes infantis, jogos, tiro ao alvo—e oschaletsdos vendedores põem em todo o recinto uma nota de animação movimentada, gárrula, que a enorme concorrencia dastationcompleta; da montanha deCambasque, ao fundo daPromenade des Oeufs, á qual se sóbe em zig-zags, para descobrir um ponto de vista encantador; doMarmelon Vert, a dois kilometros de Cauterets, orendez-vousdosport; doParque, sombreado de bellas arvores seculares; daGrange de la Reine Hortense, d'onde se avistam os valles de Argelès e Lourdes; e da{94}Glacière, a estreita garganta nunca visitada por um raio de sol...
Planeavamparties de plaisir,repas champêtres, que nós desdoiramos com o vocabulo plebeu de merendolas, mas que, na graça delicada da lingua franceza, principiavam a ter sabor antes da realidade.
Se fôsse em Portugal, dizia eu com os meus botões, estas duas meninas, ambas de uma mocidade estonteadora, viriam aqui esmagadas pela auctoridade dictatorial do unico homem que as acompanha; não diriam palavra ou responderiam com simples monosyllabos, muito acanhadas e muito hesitantes, ás minhas perguntas.
Mr. Bourgoin, a ser portuguez, encarregar-se-ia, algum tanto constrangido, de fazer todas as despesas da conversação, visto ter a infelicidade de haver encontrado, contra os estilos do nosso paiz, um companheiro de viagem tagarella.
Madame Bourgoin tão depressa estimulava as esperanças do marido na cura radical do seu rheumatismo, adiada de anno para anno, como se intromettia na conversação da irmã, e da outra, lembrando a belleza doLac Bleu, espelhado de aguas limpidas, e contornado de ruinas, dando assim a entender que, superior á prosa do rheumatismo conjugal, pairava no seu espirito a poesia dos lagos...
Perguntaram-me as duas amigas se eu me demoraria muito em Cauterets.{95}
Respondi que não havia nada tão incerto para um homem de boa saude como saber quando a sua doença o abandonaria.
As duas francezas riram longo tempo, comprehendendo, com a sua fina intuição gauleza, que eu principiava a estar indeciso, no meu pé de alferes, entre uma e outra.
Se viajassemos em Portugal, era certo, certissimo, que começariam a ter ciumes, a mostrar-se reservadas, um poucochinho azedas, porque uma portugueza não comprehende facilmente que um homem possa estar ao mesmo tempo namorado de duas mulheres.
Portugal, a despeito do feliz systema que nos rege, como dizia o Garrett, é, pela tradição, um paiz absolutista... até no amor.
Uma das francezas, M.elleSuzanne, lembrou-me a conveniencia de encontrar qualquer doença ligeira que me obrigasse a demorar-me um pouco mais em Cauterets do que a saude.
M.elleDenise foi de parecer que todo o fumista deve soffrer mais ou menos da garganta.
Achei acertado o alvitre e, uma vez installado em Cauterets, comecei a tomar as aguas por minha conta e risco, escolhendo asourceao acaso. Arranjei, como o dr. Serrand pôde verificar por meio do laryngoscopo, uma congestão thermal da larynge, o que me fez convencer de que as aguas de Cauterets são excellentes, não tanto para dar saude, como para tiral-a.{96}
Na impossibilidade de continuar cultivando as aguas, comecei a cultivar o amor—o amor de Cauterets, meu amigo, que parece colorido por um pintor decorativo n'um fundo de paisagem em que as naiades e as driades emergem do seio alpestre dos Pyrineus bailando de mãos dadas em torno de nós.
Uma fascinação... em francez.
Consegui ser, dentro em quinze dias, um homem conhecido pelas mulheres, um millionario do amor... ideal.
Não chegava para as encommendas platonicas que de toda a parte me solicitavam. Palavra de honra: não chegava. Uma vez encontrei-me no Pic de Gabietou, sem eu saber como, com mademoiselle Rosine Hubert, uma loira, irmã gemea da aurora. Tomei a altura do Pico, e achei que estava só no mundo com ella. Lembrou-me então uma certa aventura de HenriqueIV, no alto de uma torre, com a filha do sineiro. Tentei fazer de HenriqueIV, e beijei-a. Mademoiselle Rosine Hubert partiu-me o leque na cara. Ensaiei nova tentativa. Ella ameaçou-me de se despenhar do Pico, arrastando-me comsigo. O lance pareceu-me tragico de mais para uma simples aventura de estio. Descemos; eu amparava-a, acudia-lhe quando ella, rindo, rindo sempre, hesitava na descida.
Já de longe olhei para o Pic de Gabietou, e vi n'elle o monumento informe da minha cobardia ou da minha inepcia.{97}
Mademoiselle Rosine, espanejando-se na sua alegria, parecia não conservar o menor resentimento da scena de Gabietou. Falava-me com a mesma graça amavel, sorria-me ainda com a mesma confiança que eu parecia haver-lhe inspirado antes.
Se Rosine fosse portugueza, ter-se-ia ido queixar á mamã, que contaria tudo ao papá. Haveria em Cauterets um escandalo medonho, e eu teria de adoptar um de dois extremos violentos: fugir ou casar.
Nada d'isto aconteceu. Rosine não contou a ninguem, decerto, a scena de Gabietou, em que me fez muita falta um Mephistópheles e um cofre de joias. Conhecendo que eu a desejava um pouco, procurou, como boa franceza que era, fazer que a desejasse muito. Sorria-me, attraía-me.
E eu teria talvez queimado as azas, se n'essa noite não houvesse apparecido no Casino outra franceza mais adoravel ainda que Rosine, a qual franceza devia ser d'ahi a tres mezes minha legitima mulher.
Fiz-lhe namoro durante mez e meio, até ao fim de setembro. Depois, vesti a minha casaca, puz a minha gravata branca, e fui pedil-a á mãe, que teria quarenta annos, e uma carnação sadia, que não conseguira perder, sem embargo de tomar as aguas de Cauterets todos os annos. Parece incrivel!
O conde descruzou as pernas, accendeu de novo{98}o charuto, e, batendo uma palmada com a mão esquerda sobre a perna, disse-me:
—Fui muito feliz aquelle anno em Cauterets. Imagine que de uma vez combinei com dois portuguezes, que lá estavam, com oito francezes, um allemão e uma ingleza velha, fazermos uma excursão ao Pico de Balaïtous. Partimos de madrugada. Na vespera á noite a nossa excursão annunciara-se no Casino, fizera sensação; a noticia correra todos os grupos.
Ao nascer do sol—uma manhã deliciosa dos Pyrineus—quando cheguei á porta dohotel, fiquei encantado de encontrar á janella, esperando por mim, para me verem partir, todos os meus namoros de Cauterets. Tinham madrugado sobreposse para me enviar, nas azas d'um sorriso, o seu adeus. Eu sentia-me feliz, ufano. Imagine que só n'uma das janellas estavam duas mulheres, impulsionadas pelo mesmo pensamento: o de me verem partir! Uma d'essas mulheres foi d'ahi a tres mezes minha noiva.
—E a outra? perguntei eu.
—A outra? repetiu o conde com o seu habitual sorriso levemente malicioso. A outra era minha sogra.
Todos nós conheciamos o conde, o seu genio alegre, o seu viver mundano, os seus ditos de espirito, a que muitas vezes sacrificava as conveniencias sociaes, as suas proprias conveniencias até; de modo que nos foi muito agradavel ouvir{99}mais uma vez a historia do seu casamento com o sabor picante que elle proprio lhe dava, quando, sem poupar a sogra, não punha duvida em contal-a.
O Gonçallinho Jervis, que tambem era amigo do conde, havia-se levantado, emquanto o Leotte falava, e encostára-se ao vão de uma janella olhando para fóra.
Démos por isso.
—O que estás tu ahi fazendo?
—Que bello luar! exclamou elle. Que bella noite de primavera para irmos ouvir os rouxinoes!
—Não seja piegas, atalhou o Vasconcellos. Que bella hora para a gente ir deitar-se!...{100}
{101}
Era certo que tinhamos ido a Cintra com o pretexto de ouvir os rouxinoes. Mas era certo tambem que nenhum de nós, com excepção do Gonçallinho Jervis, estava já n'esse periodo agudo de romanticismo, que exalta allucinadamente a imaginação.
Parariamos de boa vontade para ouvir um rouxinol, que nos houvesse surprehendido no caminho. Mas ser-nos-ia pesado qualquer incommodo que, a não ser por surpresa, isso nos pudesse custar.
O que principalmente nós quizemos gozar indo a Cintra, era a liberdade, o descanso, que não tinhamos habitualmente. O projecto de ouvir os rouxinoes lisonjeára por momentos a vaga saudade, que todos alimentavamos, dos annos felizes da vida, passados na provincia. Mas, uma vez postos a caminho, a doce liberdade, que principiamos{102}a saborear, bem depressa nos fez esquecer dos rouxinoes, que não pensamos mais em ouvir.
Só o Gonçallinho Jervis não podia tão facilmente esquecel-os como nós outros. A idade desculpava-o. Estava ainda na sezão da poesia, era uma alma em ebulição, um coração em flôr, via os rouxinoes através do prisma da lenda que tinha talvez lido em Bernardim Ribeiro, frei Luiz de Sousa e outros poetas da prosa ou do verso.
Todos nós, mais ou menos, haviamos passado por isso.
Todos nós haviamos tido uma quadra da vida em que nos impressionára o caso do rouxinol de Bernardim Ribeiro, que morre de cansaço cantando.
«Não tardou muito—diz a novella—que, estando eu assim cuidando, sobre um verde ramo que por cima da agua se estendia, se veio poisar um rouxinol; e começou a cantar tão docemente, que de todo me levou após si o meu sentido de ouvir.
«E elle cada vez crescia mais em seus queixumes, que parecia que, como cansado, queria acabar, senão quando tornava, como que começava então.
«Triste da avesinha, que, estando-se assim queixando, não sei como se cahiu morta sobre aquella agua. Cahindo por entre as ramas, muitas folhas cahiram tambem com ella.»
Na idade do Gonçallinho Jervis, toda a alma é{103}pouco mais ou menos como o rouxinol da novella: esgota-se cantando.
Eu não sei se seriam rouxinoes as aves que na cêrca do convento de Bemfica provocaram a desafio os homens, chegando uma d'ellas a morrer extenuada.
«Assim nos tempos que a natureza esperta as linguas das aves, a louvar com mais harmonia o Creador, é quasi morada continua (a cêrca) das que por mais musicas são conhecidas. E é tradição, que juntando-se n'ella uns seculares de boas vozes, e começando a cantar ao som de instrumentos bem accordados, acudiram as que se tinham por senhoras do sitio, a desafiar a melodia humana, e artificial, com a sua natural. E isto com tamanha porfia, que vencidas as vozes dos homens não cansaram as pobres avesinhas de seguir as violas que ficaram supprindo por ellas; e uma se deixou levar tanto do impeto, e affecto de cantar, que veio a desfallecer, e á vista de todos cahiu em terra sem alento, como dizendo, que antes queria perder o bem da vida, que a honra de perseverar cantando.»
Deviam, effectivamente, ser rouxinoes, porque frei Luiz de Sousa se refereás que por mais musicas são conhecidas, e o rouxinol é, no mundo alado da Europa, o cantor por excellencia.
Na idade do Gonçallinho Jervis, se uma alma responde á nossa n'umduettode encantador lyrismo, pouco se nos dá de perder a vida comtanto{104}que possamos morrer exhalando a alma n'um cantico.
Eu proprio já havia prestado tambem o meu culto aos rouxinoes, principalmente ao de Bernardim Ribeiro. Aos dezoito annos—Deus me perdoe!—compuz um poema cuja heroina
Acabára, cantando, o captiveiroTal como é fama ter acontecidoAo rouxinol de Bernardim Ribeiro!
Acabára, cantando, o captiveiroTal como é fama ter acontecidoAo rouxinol de Bernardim Ribeiro!
Mas, no anno em que fômos a Cintra, já propendia a estimar mais as perdizes do que os rouxinoes, sobretudo se as perdizes eram temperadas com molho de villão.
Um bom petisco!
O Gonçallinho Jervis, felizmente para elle, amava tanto os rouxinoes como poeta que era, que até sabia a lenda mythologica d'aquella princeza que por suas desventuras fôra convertida em philomela, nome que os antigos deram ao rouxinol.
Eu tinha só uma vaga ideia d'essa lenda pagã por a haver lido naArte da caça da altenaria, composta por Diogo Fernandes Ferreira.
«Contam as fabulas que Tereo, filho de Marte e de Bistonida, sendo rei de Thracia, casou com Progne, filha d'el-rei d'Athenas, e a trouxe para o seu reino. N'ella houve um filho lindissimo, a que chamavam Itêns, tão desejado no reino, que o dia que nasceu se festejava como festa solemne.{105}Teve a rainha Progne saudade de vêr a sua irmã Filomena: pediu ao marido licença para a ir vêr, ou fôsse elle em pessoa para a trazer, que seu pae e mãe lhe concederiam licença para a irmã vir. Tereo aprestou naus, partiu, chegou a salvamento, foi bem recebido dos sogros, rei e rainha e da cunhada Filomena, a qual, em Tereo a vendo, se incendeu de amores por sua formosura. Então com mais efficazes palavras pediu aos paes lhe dessem a licença que pretendia. Fez-se-lhe a vontade. Embarcados, vieram a salvamento, e, chegados a um porto do reino de Tereo, sahiram em terra elle e a cunhada, dizendo elle que o fazia para n'aquella floresta descansar do trabalho do mar. E sendo longe das naus e gente, não tanto como o elle estava da virtude, trabalhou por persuadir a cunhada áquelle intento que desejava; e vendo que nenhumas promessas nem palavras bastavam para ella consentir em seu desejo, acolheu-se á força e com ella, muito contra vontade da afflicta princeza, de donzella a tornou dona. Queixando-se ella a Deus e ao mundo de tão grande maldade, que havia de ser pregoeira de tamanha villeza e traição, e se havia de tomar vingança de tal aleivosia, ordenou elle outra maior maldade arrancando-lhe a lingua, e assim a levou a casa de um criado seu e vassallo, não lhe declarando o caso. Aos das naus disse que as feras a mataram, e chegando a sua casa se fizeram muitas mostras de tristeza pela morte fingida da{106}cunhada, a qual, estando em poder do vassallo de Tereo, pediu por acenos lhe dessem hollanda e seda de côres, que queria entreter-se. Trazida, em letras gregas conta á irmã o caso, e por acenos rogou a uma mulher levasse aquella toalha assim lavrada á rainha Progne, que lhe havia de ser bem pago o trabalho que n'isso tomasse. Dada a toalha á rainha, sabida a historia, dissimulou. N'aquelle tempo se faziam umas festas que de tres annos se celebravam n'aquelle reino. Disse Progne ao marido que desejava ir a ellas. Ida, foi aonde a irmã estava, a qual achou privada da lingua e falla, e assim a trouxe para sua casa em trajo demudado. Ambas determinaram a vingança do marido bem extraordinaria, e foi que tomaram Itêns, o principe filho de entre ambos, e lhe cortaram a cabeça, pés e mãos, e do corpo mandaram fazer manjares differentes. E tendo isto ordenado, pediu Progne ao marido lhe concedesse jantarem ambos, ao modo dos reis de sua terra, que era comerem sós. Foi-lhe feita a vontade. Partiu Tereo os manjares e guizados feitos do corpo do filho; depois de comer d'elles, pediu á mulher lhe mandasse vir o principe Itêns, seu filho, que elle muito amava. Então sahiu Filomena de uma camara com a cabeça, as mãos e os pés do filho, desejando ter lingua para mostrar a ira que contra elle tinha. Tereo, vendo o caso, deu com a mesa em terra, e lançou mão á espada. Ellas fugiram, Progne convertida em andorinha, e Filomena{107}em rouxinol; Itêns em avião, e Tereo em poupa.»
Esta fabula, copiada dos poetas pagãos, fazia trasbordar de poesia a alma do Gonçallinho Jervis, que julgava ouvir na voz do rouxinol toda a colera tragica da princeza Filomena, a qual princeza, convertida em ave canora, parecia vingar-se eternamente da falta que no seu tempo lhe fizera a lingua, cortada pelo cunhado.
Gonçallinho ia na esteira de Camões, que dizia nosLusiadas:
Ao longo da agua o niveo cysne canta,Responde-lhe do ramo philomela.
Ao longo da agua o niveo cysne canta,Responde-lhe do ramo philomela.
Na varzea de Collares não faltavam agua, verdura, rouxinoes. Por isso elle tanto desejava que, soltando a sua voz de cysne defrak(certamente mais melodiosa do que aquella de que os cysnes podem dispôr) lhe respondesse de um ramo a princeza atheniense, convertida em rouxinol.
Diogo Fernandes Ferreira explica a razão por que as quatro personagens da lenda foram metamorphoseadas n'aquellas aves.
«Ordenou o poeta esta fabula de vêr que o rouxinol quasi não tem lingua, e a andorinha ser vestida de preto, e no peito ter umas nodoas vermelhas, e ter o canto triste, como que conta a historia da maldade do marido, e as pennas rôxas como sangue da crueldade que teve em matar o{108}filho em vingança da irmã. E do canto do rouxinol a saudade com que viveu a vida a forçada Filomena, e do avião porque no seu canto parece que grita como menino, e na poupa pela significação da corôa da cabeça, e na formusura das pennas pintadas de que se vestem finge ser el-rei, porque a poupa, tomada na mão, tem mau cheiro, e o ninho d'ella o mesmo: em que se dá a entender que os maus feitos, ainda que sejam commettidos por reis e pessoas graves, se ha de fugir d'elles e virar-lhes o rosto, como coisa abominavel e fedorenta.»
Este processo da moralidade pelo fedor não deixa de ser convincente.
Disse isto uma vez ao Gonçallinho. E elle, muito despeitado, chamou-me barbaro.{109}
No dia seguinte, quando recolhemos para jantar, soubemos pelo Leotte, que tinha ficado de atalaia, tudo o que se passára com relação á chegada dos dois novos hospedes—o brazileiro e a mulher.
Não era o nosso amigo Leotte homem que, em se tratando de uma mulher, curasse por informações. Queria vêr a brazileira: ficou.
—Já não é nova—disse-nos elle—mas considero-a ainda acirrante. Dou-lhe quarenta annos, pouco mais, e está menos mal conservada. Bonitos olhos, bons dentes, cabello magnifico. Reforçada de carnes, sem se poder dizer nutrida. Mulher capaz de satisfazer o ideal de um brazileiro, que a idade principia a tornar decadente. Disse-me a Rosa, que está de serviço á brazileira, que elles irão jantar á mesa redonda.
—Estás n'um sino, Leotte! Pois bem! Veremos isso.{110}
Quando chegamos á mesa, contamos onze talheres. A informação fornecida pela Rosa era, pois, exacta. D'ahi a pouco tempo, o brazileiro e a mulher entraram.
O Leotte descrevera com exactidão e verdade o typo da brazileira. Era, effectivamente, o que se costuma chamar—umas bellas ruinas. Não dessas ruinas brutalmente realisadas por um cataclismo, que não deixa pedra sobre pedra; mas as que o tempo lentamente costuma ir augmentando e dulcificando com um vago perfume de poesia do passado.
Nos olhos da brazileira, principalmente, brilhavam uns como lampejos de formoso occaso de outono. A noite negra da velhice, que apaga o clarão das pupillas, estava ainda longe. E sentia-se n'essa organisação de mulher, que devia ter sido ardentissima, o que quer que fôsse de rescaldo tepido e demorado de um incendio devorador.
Atoiletteera distincta, gentil, sem ser severa nem petulante. Denunciava um velho habito de vestir com esmero. O unico defeito que se poderia notar era um certo excesso de pó de arroz nas mãos e de anneis nos dedos.
O brazileiro principiava a resvalar pelo plano inclinado da velhice cansada. Mas havia na sua face um reflexo de bondade credula, de alma sincera, capaz de um sacrifício nobre e de um acto de generosidade fidalga.{111}
No momento de entrar na casa de jantar, percebeu-se que o contrariou achar-se com sua mulher no meio de uma sociedade de homens. Mas a breve trecho o seu sobresalto dissipou-se, reconhecendo que nenhum de nós ignorava o que era jantar em companhia de uma dama.
E a proposito da dama... Cinco minutos depois d'ella se ter sentado á mesa, começou-me a impressionar a sua physionomia, na qual me parecia encontrar feições de uma mulher que eu já vira não sabia quando nem onde.
Por mais que evocasse as minhas recordações, por mais que folheasse esse volumoso livro de biographias que cada pessoa tem archivado no espirito para o consultar de quando em quando, não me era possivel encontrar um nome que correspondesse áquella physionomia: todavia, eu iria jurar que já tinha visto algures a mulher do brasileiro, que a havia encontrado, conversado talvez, mas não sabia, não podia dizer quando isso fosse.
Seria em Lisboa? Não, decerto. Visivelmente haviam decorrido muitos annos, porque, de contrario, a minha memoria não seria tão rebelde.
Na provincia? Aonde? Eis a questão. Vel-a-ia eu no Porto? Tel-a-ia visto em Braga, onde tantas vezes fui passar as férias? No Bom Jesus do Monte, onde, no verão, abundavam os brazileiros emvillegiatura? Nas Caldas das Taipas ou{112}de Vizella, que um anno por outro visitei de passagem?
Deus meu! Era certo que eu tinha visto aquella mulher, mas não podia lembrar-me onde nem quando.
Dominado por esta preoccupação, passei todo o jantar. Procurava observar a brasileira sem comtudo offender a susceptibilidade do marido. Elle não repelliu a conversação em que principalmente o Leotte o queria envolver. Disse alguma coisa da sua vida, pouco. Estava doente. Ella falou muito menos do que o marido, mas a sua voz, que conservava ainda vestigios da accentuação das provincias do norte, augmentou a minha preoccupação. Decididamente, eu já tinha ouvido falar aquella mulher.
Sem termos sido mutuamente apresentados, estabeleceu-se para o fim do jantar, graças aos esforços empregados pelo Leotte, um certo convivio de expansiva camaradagem. Leotte, rindo sempre, contou ao que tinhamos ido a Cintra: ouvir os rouxinoes.
O brazileiro e a mulher acharam muito graça a esta excentricidade collectiva.
—Ouvir os rouxinoes! exclamou elle. Na minha terra, por este tempo, os rouxinoes são aos cardumes!
O Gonçallinho Jervis sublinhou com um olhar, que me enviesou, oscardumes de rouxinoes, que tinham saído da bocca do brazileiro.{113}
Mas o Leotte aproveitou logo a occasião para perguntar:
—Então v. ex.ª é portuguez?
—Nado e creado na freguezia de Santa Maria de Bouro, concelho de Amares, comarca de Villa Verde, districto de Braga, respondeu elle.
—Ah! Por ahi, como em toda a provincia do Minho, são abundantissimos os rouxinoes.
—Que no Brazil, onde estive mais de trinta annos, tambem ha muitos passaros que cantam bem: o sabiá sica, o corrixo, que imita todos os outros passaros, o bem-te-vi, etc. Mas o que no Brazil ha de mais notavel é que muitos passaros falam.
—Falam? perguntou o Leotte.
—Eu só sabia do papagaio, observou o Vasconcellos.
—Nada, não sr., continuou o brazileiro. O bem-te-vi, por exemplo, canta dizendo o seu nome. O tico, que é do tamanho d'um pardal, anda sempre a dizer—tico, tico. E o curiangú, que se põe de noite adeante dos cavallos, costuma dizer de madrugada: João, corta pau!
—Mas os indigenas hão de dar alguma explicação a essa phrase...
—Isso agora é que eu não sei, meu caro sr. Lá que elle o diz, diz, porque eu, sendo caixeiro e andando a cobrança, ouvi muitas vezes cantar o curiangú. Punha-se á frente do meu cavallo e, quando o sentia perto, tornava a voar, e esperava-o dizendo: curiangú.{114}
—Então não diz sempre a mesma coisa?
—Não, sr. De noite diz—curiangú; e de madrugada—João, corta pau.
—É curioso! Pois nós viemos para ouvir os rouxinoes, e a verdade é que ainda os não ouvimos, com grande magua do nosso amigo Jervis, que tomou muito a sério o pretexto d'esta digressão. Mas temos passado as noites tão entretidos nohotel, que nos tem faltado tempo para irmos ouvir os rouxinoes.
—Entretidos! Aqui? perguntou ironicamente a mulher do brazileiro.
—Sim, minha senhora, respondeu o Leotte, muito agraciado do semblante. Entretidos a contar historias.
—Da carochinha? perguntou ella com o mesmo tom de ironia.
Então o Leotte explicou largamente o compromisso, que todos nós haviamos tomado, de contar uma historia ao serão para aligeirar as noites de Cintra.
Tanto o brazileiro como a mulher acharam muita graça a mais esta excentricidade.
—Pois eu, disse ella, vinha com medo ás noites de Cintra, que principalmente n'esta época do anno devem ser horrorosas de comprimento. Mas o Araujo tem passado agora peor, e o medico aconselhou-o a que viesse tomar os ares de Cintra.
—Pois se v. ex.asnos quizerem dar essa honra, acrescentou o Leotte sempre amabilissimo, poderão concorrer aos nossos serões.{115}
—Da melhor vontade. Tanto mais que o Araujo precisa muito distrair-se. V. ex.asdemoram-se?
—Fazemos tenção de ir ámanhã embora, respondeu o Vasconcellos na qualidade de chefe da caravana.
—Não é sangria desatada, minha senhora, atalhou o Leotte. E de mais a mais ainda nem sequer ouvimos os rouxinoes.
O Vasconcellos, sorrindo, encolheu os hombros.
—Pois então, disse a mulher do brazileiro levantando-se da mesa, eu e meu marido faremos parte do auditorio. Não é assim, Araujo?
—Sim, filha, como tu quizeres.
O Leotte, despedindo-se:
—Os nossos saraus litterarios principiam depois das oito horas da noite, na sala de visitas.
—Até logo, disse a mulher do brazileiro saindo da sala de jantar, seguida pelo marido.
Saímos tambem, accendemos as nossas cigarrilhas e fomos dar um passeio até á Praça para fazer o chilo, como sempre dizia o Maldonado.
É claro que o assumpto do passeio, insensivelmente prolongado pela estrada de Villa Estephania, se circumscreveu ao brazileiro e á sua mulher.
Todos eram de opinião, quanto á mulher, que ella representava umas ruinas muito menos antigas que as do convento do Carmo, mas não menos pittorescas. O Leotte—já era de esperar—exagerava{116}a belleza da brazileira, como todos lhe chamavamos, e acrescentava que, quem quer que ella fosse, vinha da escóla da experiencia, da escóla pratica do mundo. Eraabelha-mestra, concluia elle.
Todas as phrases que ella disséra suscitavam-nos commentarios mais ou menos maliciosos.
Notava-se a facilidade com que acceitára o nosso convite, não sem disfarçar habilmente o seu espirito mundano com a allegação de que o marido precisava distrair-se. O seu horror pela extensão das noites de Cintra revelava que ella, todavia, amava mais o mundo que o marido.
Eu insisti na minha preoccupação de a ter já visto algures. Alguns dos meus amigos, o Vasconcellos por exemplo, riram-se d'isto.
—É que ella tem a phisionomia tipica de todas as mundanas quarentonas que foram parar ás mãos de brazileiros. O que tu conheces é o genero, não é a pessoa.
—Póde ser que seja assim, comtudo eu apostaria que já a vi, não sei onde.
—Mas, lembrou o Gonçallinho, ella ouviu dizer o teu appellido sem dar o menor indicio de conhecer-te.
—Ora! isso é da tabella, tolinho! Então ella havia de mostrar ao brazileiro que conhecia alguem n'este mundo além do seu querido Araujo?
—Que tinha isso? insistiu o Jervis. Pois as mulheres, por mais honestas que sejam, estão{117}inhibidas de reconhecer um homem que era das relações da sua familia?
—O caso é outro, pateta. Uma scena de reconhecimento importaria explicações que ella teria de dar ao marido. E quem sabe se elle as acceitaria sem uma suspeita, justa ou injusta? Aqui tens o busilis. Decididamente, tu não sabes nada do mundo!
Chegou depois a vez de discutirmos o brazileiro, um bajojo, diziamos, anesthesiado pelos ultimos prazeres capitosos de uma velhice cansada. Recordamos a phrase d'elle: «Sim, filha, como tu quizeres». Mas, em todo o caso, boa pessoa, sincero pelo que respeitava á sua biographia: «Natural da freguezia de Santa Maria de Bouro, concelho de Amares, etc.»
—Hei-de saber a historia d'este casamento e d'esta mulher. O Pessanha, que é deputado por Villa Verde, ha-de conhecer o Araujo, se elle effectivamente é de Amares.
—Estás tolo! Ha lá algum deputado que conheça o circulo!
—Mas é que o Pessanha tem casa em Villa Verde.
—N'esse caso já deve dinheiro ao Araujo e dirá só o que lhe fizer conta.
—Qual historia! Se lhe deve dinheiro, diz tudo.
O Gonçallinho Jervis lembrou a phrase—cardumes de rouxinoes. Outro, não sei qual, recordou-se{118}dotico, tico. O caso do passaro—já nenhum de nós lhe atinava com o nome—que cosstuma dizer «João, corta pau», despertou grande galhofa.
—Mas é que os brazileiros, disse o Athayde, têem a mania de que todos os passaros dizem alguma coisa.
Gargalhada geral.
—É isto, insistiu elle. O Rodrigues, que vae muito áHavanesa, já uma vez me contou que ha no Brazil uma especie de rôla, que diz sempre: «Fogo pagou.»
—Pegou, é que ha de ser.
—Elle disse «Fogo pagou».
—E ha de ser assim. Julgavas então que no Brazil eram as rôlas que davam o signal de incendio!
Novas gargalhadas.
O Leotte lembrou que já passava das oito horas. Se não havia de ser elle que o lembrasse! Desandamos para oVictor, porque havia chegado o momento de começar o nosso sarau litterario—com a assistencia do brazileiro e de sua esposa.
Devia ter-se sentido em todo ohotel, quasi solitario, o ruido da nossa chegada. Installamo-nos na sala de visitas, como era costume. D'ahi a pouco, o brazileiro e a mulher entravam na sala.
Madame Araujo tinha feitotoilettepara o sarau, umatoiletteque envergonhava, pelo esplendor{119}elegante, a nossa humilde academia detouristes. Mas um certo excesso de anneis de preço, enfiados nos dedos tambem excessivamente jaspeados de pós de arroz, prejudicava um pouco o bom gosto datoilette.
De mim para comigo dizia eu: «Já vi estas mãos e estes anneis, não sei onde!»
A mulher do brazileiro mostrava-se encantada com a surpresa de um sarau, que a nossa excentricidade, como ella disséra, lhe havia preparado.
O Araujo, muito resignado, parecia dizer com os olhos, explicando a sua presença ali: «Sim, filha, o que tu quizeres».{120}
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