III«D. Maria Peregrina Alvares de Lorena e Villa-Verde, filha de D. Maria de Lorena Eannes de Castro e Villa-Verde e de D. Antonio Alvares Muito Nobre Leite Moniz de Sá, nasceu em 31 de outubro de 1880.O brasão da muito illustre Casa de Lares explica alguns daquelles appellidos. Consta dum escudo esquartelado, tendo no primeiro quartelas armas reaes de Portugal, pelo appellido Alvares, e, no opposto, as reaes de Castella, pelos appellidos de Lorena e Villa-Verde, lavradas em mantelado de prata e circuitadas de negro. Destacam neste leões de purpura batalhantes, bordados de oiro e veiros de côr, á volta.Por timbre usa a Familia de Lares um cysne, armado de oiro, segurando no bico uma aspa vermelha, com escudos alternados de Portugal e Castella.»Assim o escreveu D. Antonio nasMemorias genealogicas e Nota Privativada Casa.Os escudos lavrados na cantaria do edificio attestavam a historia do velho solar de Lares, confirmando os archivos.Maria Peregrina sentia-se extranha ao mais da sua linhagem. E se a devassava era para averiguar amores pouco fidalgos. Comprazia-se em ler, para além dos escudos, romances de ligações humildes.A sua alma, exquisitamente vincada e polychroma, sobrepunha-se aos esquartelados dos brasões.Talento, physionomia, fraquezas—tudo reflectia a sua figura de contrastes, que o Destino urdira de nevrose e sombras.Amava instinctivamente as fraquezas como os talentos. Sentia que umas e outros lhe espiritualizavam a figura, tocada de Desgraça,e dahi o perdoar ás duas avós judias que tinham vindo enlear-se na velha arvore dos seus, frondosa de santos, doidos e poderosos.Por entre a rêde azulada de linhas que lhe prendiam os appellidos, destacava as malhas vermelhas dos erros de amor.Respeitava estes erros pelo que a explicavam. Entre as linhas de bom sangue que a submettiam e o systema de linhas que lhe dava a figura, sentia o conflicto de duas raças. Era pela desenvoltura do seu corpo de garça, talhado em ambar macio e tostado,—expressão de um povo que vive na penumbra um eterno outomno de genio triste...Que lhe importava que o sangue semita viesse gafar a sua origem fidalga, se ella vivia, sobretudo, essas gotas de sangue, que em revolta com os globulos de raça, a reflectiam numa casuistica tão diversa da que inculcava a outra gente?No seu perfil moreno, tocado de sonho e de tristeza, parece que o Destino tinha escripto uma parte da sua historia.Perdera cedo o pae, aos nove annos. Da mãe, victima do nascimento della, ficaram-lhe memorias, casos de bondade que toda a gente repetia. Manoel de Sousa Campello e Pamplona, senhor do vinculo e Casa de Soutello, fôra seu tutor por disposição testamentaria de D. Antonio. Mandou vir uma professorainglesa para a instruir em linguas, lição de coisas e principios de Arte.Duma grande precocidade, Maria Peregrina seguia, com excepcional aproveitamento, as lições de Louisa Huley.A inglesa era uma aventureira intelligente, prendada, que, tendo approximadamente trinta annos, tirocinára o ensino pela Allemanha, Austria e França. Tinha de seu uma grande mala com seis vestidos de passeio, o talento das linguas e o ar de quem ensina prendas e vicios para gastar nervos.Maria Peregrina e Louisa afeiçoaram-se profundamente, excessivamente.Lamentava a ama de Peregrina, a velha Clara, a indiscreta afeição da extrangeira, que viera roubar-lhe os carinhos damenina...E, da mesma forma, a Salomé, a filha dos morgados, mais nova cinco annos do que Peregrina, se sentia desfalcada nas attenções da prima, muito carinhosa e prodiga de entretenimentos antes da vinda da Huley.Os de Soutello exultavam.—Que felicidade darem-se bem, dizia D. Maria Helena para o marido; com o genio voluntarioso de Peregrina o que seria se assim não fosse...Manoel Pamplona concordava.A alumna estudava com vantagem. Quando acabou o contrato com a Huley (cinco annos)falava e lia correctamente o inglês, francês e allemão, entrando com uma acuidade que mal se comportava na sua edade nas obras que marcam o genio das linguas. E, da mesma forma, comprehendia e executava musica, surprehendendo a inglesa, muito pratica no seu ensino.—É um talento precoce, uma sensibilidade! dizia o Tio Manoel, admirado dos progressos de Peregrina, sobretudo da forma porque ella commentava trechos de poesia, esparsos nas selectas, extremando por si a belleza, como os pontos fracos ou extravagantes dalgumas passagens.Era elle quem a leccionava em português. E ninguem poderia fazê-lo com mais competencia.Dizia-se modestamente um philologo amador, apesar de ser um estudioso e discorrer Philologia naRevista Luzitana,Instituto,Portugaliae em algumas publicações extrangeiras.Era muito acreditado pelas diversões eruditas e conhecimentos miudos dos segredos das linguas antigas.—Os classicos, explicava ao abbade e ao visinho Thomé, parceiros certos dobridgenas longas noites de Soutello, são os meus antepassados em Letras.E o abbade, concordando, dizia que o morgadoera o representante legitimo dos velhos cultores do Humanismo; que não era comprehensivel o talento sem a grammatica, que lêra ultimamenteA Idéa de Deusde Arimathéa Coelho—e concluira que Deus torcêra a Idéa do auctor obrigando-o a dá-la em prosa de saca-rolhas; que lia, ás vezes, por desopilar, a chronica dum gazeteiro de Lisboa, pae dum livro—Horas tôrpes,—coisas pelintras, que estavam abaixo dos alumnos do seu tempo, quando iam a meio da Arte; que as Letras iam dizendo bem com o resto...O Thomé interferia a favor do chronista—que não era tanto como dizia o abbade, que auctor dasTôrpesexteriorizava em parte as suas idéas, que elle, Thomé, escrevêra antes para um semanario de Pindamonhangaba, quando era ainda moço de loja no Tijuco. Manoel Pamplona intervinha sempre, ordeiro, temendo perder os parceiros; sorria intelligentemente para o abbade como a pedir-lhe clemencia para as idiotices do chronista, em que Thomé era commanditario, e depois dalguns rodeios cahia a fundo, muito socio em idéas com o abbade, na ignorancia do grande numero dos plumitivos, e ainda na obra daquelles que não eram idiotas como o exemplar preferido pelo Thomé.Maria Peregrina, que precisava encher as noites de Soutello, lia quasi sempre, mau gradoas observações da Tia e as reprimendas carinhosas de Manoel Pamplona.Preferia ler traducções de poesia latina ou grega. De vez em quando, levantava-se a inquirir o Tio sobre casos complicados. Queria apprehender a Poesia no mais largo significado. E irritava-se porque, apercebendo-a no rhythmo, na idéa simplista da imagem, no trocadilho das passagens extravagantes, não podia desde logo penetrar a rêde do maravilhoso que envolve a tessitura classica e jogar com o conflicto dos deuses, e todo o genero de sobrenaturalismo. O Morgado entremeava osrobersde explicações, pigarreando quando tinha de fugir a qualquer ponto escabroso, posto em discussão pela sobrinha.Quando a educanda completou quinze annos reuniu o conselho de familia para deliberar sobre o complemento da educação. O curador dos orphãos, homem novo, sabedor da precocidade de Maria Peregrina e vendo o montante da sua fortuna, entendeu que devia promover o fim da educação della no extrangeiro, longe dos preconceitos nacionaes, e dahi ter requerido ao conselho que fosse internada num collegio inglês, segundo o costume das educandas no seu nascimento. Os Morgados protestaram, e Manuel Pamplona pôs á prova toda a importancia e empenho, a ver se impedia o que elle chamava «as modernicesimpertinentes do bacharel-curador».Não obteve coisa alguma. Em outubro de 1895 partia com Maria Peregrina para Inglaterra a cumprir as ordens do Conselho.IVAnno de 1898.Nesta data chegou a Petersfield, collegio de St. James, onde Maria Peregrina fôra installar-se, a noticia da morte de Manuel Pamplona.Tinha ella dezoito annos.O Collegio de St. James era uma das primeiras casas de educação da Inglaterra, com destino á aristocracia inglesa e a extrangeiros e nacionaes de fortuna.Havia quatro annos que Maria Peregrina entrára, sendo a primeira alumna do collegio, apesar das extravagancias de genio, que a disciplina britanica não conseguira modificar e ia indulgenciando em attenção aos seus talentos.Recebeu a noticia da morte do Tio com tristeza. Lembrava-se da velha bulha dobridgenas noites de inverno do Mosteiro, entre o Abbade e o Thomé, a que elle acudia ordeiroe conciliador; das suas lições de português e rudimentos de latim, das velhas recitações que elle fazia sob os arvoredos de Soutello e Lares das obras de Homero, que ao tempo amava por instincto no seu hellenismo genial; de Sophocles, o poeta que em si summariava a maravilhosa cultura e floração da Belleza grega, de tudo emfim que Manuel Pamplona lhe ensinara ou suggerira debaixo das arvores do Minho—ou nos salões dos velhos solares, duma pretenção architectural tão portuguesa e ingenua.—Coitado, dizia á predilecta Helen, como era bom na simpleza de provinciano, e sabio de coisas classicas, de que sentia sómente o pautado e regramento do periodo—numa pretenção humanista adoravel!E lembrar-me de que fui eu quem o obrigou á unica viagem que fez! Ah! a confusão que sentiu ao entrar em Londres, memorava. E ainda bem, pois que esse aturdimento lhe anesthesiou o desgosto de deixar-me. Sinto no peito o seu abraço de despedida, o ultimo abraço, como elle disse a chorar. Tinha de ser!...E Helen Green, uma linda adolescente de dezasseis annos, muito enleada em Peregrina:—Dize-me, mas a morte do Tio Manuel não prejudica a tua estada aqui, não é verdade?—Não. Sei vagamente que posso emancipar-me. Vou escrever á Tia Helena, a tomar parte no seu lucto—deve estar consternada! e ao procurador a mandar que promova a minha emancipação immediatamente. Depois traçarei, á vontade, o novo plano de vida.—E a emancipação não te pode ser recusada? inquiriu Helen.—Pode, mas não o será, porque vou recommendar ao José Lourenço que se entenda com os do conselho da familia, estimulando-os, sem olhar a despesas. Confio absolutamente nelle. É fino, ladino, e... minhoto. E olha que o Codigo de expedientes do Minho, minha querida, vale as leis inglesas, concluiu beijando Helen.** *Passaram mêses sobre a morte de Manuel Pamplona.Maria Peregrina trabalhava no quarto, segundo o costume áquella hora, quatro da tarde, escrevendo vagarosamente, quando vieram annunciar-lhe a visita dum português. Desceu ao salão, intrigada. Quem seria o português? Teve a maior das surprêsas! A um canto do salão, discreto, attento á decoração das paredes, dando voltas ao chapeu, de roda de palmo, estava o procurador.—Oh José Lourenço! exclamou Peregrina, como quem chama por uma visão a desapparecer, pois és tu? Em Petersfield! E, vendo-o caminhar para ella:—Venha um abraço; quero abraçar o Minho nas abas de Londres!E o José Lourenço, com os olhos e a voz rasos de lagrimas, baixando-se para a abraçar na cintura, reverente:—É verdade, senhora Morgada, vim dar conta do recado de V. Ex.ª e receber novas ordens. A Maria tambem queria vir, mas lá me pareceu de mais.Que, a bem dizer, o que aqui me trouxe foram as saudades. Ha tanto tempo que não via a Fidalga. E a Maria, tinha tantas saudades como eu, coitada! Lembra-se todos os dias do tempo em que a apartou. Ainda outro dia lá appareceu um senhor a pedir colheita e ella esteve todo o serão a falar da senhora Morgada, a ponto que se ia zangando porque elle se riu, quando ella disse que V. Ex.ª era a menina mais linda que havia no mundo. E, a falar verdade, que féra está! Dá gosto vê-la assim. Que linda! Como a Maria havia de gostar de vê-la!O tempo córre. E o que faz o sangue! As raparigas do Mosteiro da creação da Fidalga estão umas lambisgoias. A não ser a prima de V. Ex.ª que tambem, não desfazendoem ninguem, está um anjo. Das outras nem falar...—Pára, José, disse Maria Peregrina desnorteada com a loquacidade do procurador. Havemos de falar muito do Mosteiro, das pessoas que temos pelo Minho, mas antes de mais, interessa-me saber como déste com Petersfield.—Muito facilmente, senhora Morgada. O vinho do Mosteiro é, como a Fidalga sabe, o melhor vinho de Portugal e creio até que do mundo, pois que elle vae para toda a parte...—José! Não te esqueças da minha pergunta. Queria eu saber como déste com Petersfield, observou Maria Peregrina, impaciente e medrosa da longa historia dos vinhos verdes...—Perdôe a Fidalga, a gente não sabe falar, mas era o que eu ia para dizer. Ia contar que o vinho do Mosteiro é muito procurado, e dahi vendê-lo cedo a uma casa do Porto, que tem agentes inglêses. Entendi-me com um agente, que todos os annos vem a Inglaterra. Fizemos viagem juntos e estou certo de que se o perdesse já não ficava por cá. Ia direito para o Minho. Eu podia ter escripto a V. Ex.ª e forrar o dinheiro da viagem, mas tinha saudades da Fidalga, além de que tinha gosto em vir dar parte a V. Ex.ª de que está emancipada e ninguem mais mandano que lhe pertence. Os homens a principio oppunham-se á emancipação, que era cedo, e não constava um caso assim, demais tratando-se da maior fortuna do Minho... Afinal, tudo se remediou.—És um letrado, disse Maria Peregrina. Espera: quero mostrar-te a uma pessoa amiga!E, levantando-se, foi chamar Helen, que entrou, passados minutos, quedando, curiosa, deante do Lourenço, que a cortejava, mesureiro.—Que curiosa figura! dizia Helen, passeando os olhos de turquesa sobre o corpo athletico do velho, cingido no burel grosso do vestuario, de calça em polaina, bota de prateleira, jaqueta alamarada, e um grilhão de oiro á laia de corrente.—Que curiosa figura! repetia a inglesa, approximando-se mais do Lourenço.E voltando-se para Peregrina:—Que vaes fazer delle?—Primeiramente, hei de passeá-lo por Londres. Sabes que estou emancipada—o que equivale a dizer que mando em mim. Heide levá-lo a toda a parte. Quero sentir as suas impressões no Hyde-Park e Camara dos Communs. Tenho pena de que o humor inglês não vença as complicações do protocolo da tua Côrte, pois fazia gosto em apresentá-lo em Windsor!E dando pela attenção baldada do velho á conversa em inglês:—Estava a dizer que iamos passear muito. Quero que leves que contar para o Minho.—Sim, minha senhora, como a Fidalga quizer, mas eu precisava de estar lá para as malhas, de amanhã a três semanas, arriscou o Lourenço, reverente.—Estarás, havemos de arranjar tudo. Descansa.E ficaram os três, á puridade, no salão do collegio, estudando, discutindo o Minho.—Aproveita, Helen! dizia Peregrina. Eu traduzo-te o velho. Olha que é a primeira vez que o Minho authentico atravessa a Mancha...** *O Collegio de S. James dava á instrucção literaria o logar competente. As aulas de letras começavam ás nove horas.Rapazes e alumnas tinham educação conjuncta em varios ramos de ensino, e designadamente emsport. Entendeu a Pedagogia que era preciso preparar creaturas fortes. O Collegio de S. James executava á risca os votos dos congressos. Facultava a mais vasta educação, instruindo pelo livro, pratica de laboratorios, trabalho de officinas, jardinagem, etc.,isto na maior liberdade de acção compativel com a ordem, no proposito de extremar vocações e especializar talentos. Rapazes e raparigas aproveitavam as sombras do arvoredo, que abraçava o collegio, conversando, pintando do natural, jogando, á vontade, numa confiança mutua de professores e alumnos.Para o inglês o culto da natureza livre é a razão maxima da sua forma de sentir a Liberdade. Maria Peregrina, uma peninsular, com sangue de casas reinantes decahidas, caldeado de globulos extranhos, e uma imaginação escandecida pela sobreexcitação dos talentos, recebeu de começo com mau senho aquella imposição de força ingenua, que dominava o collegio.Mas, pouco a pouco, foi-se achando bem. Como tinha caracter nos defeitos adquiridos e congenitos, aproveitou o que lhe pareceu de molde a serví-los, relegando o ensino que toldava o seu hellenismo nascente, collidindo com o genio do Sul de que ella era expressão.—Ah! dizia em conversa de camaradas, nohall, ri muito dos do conselho de familia, quando me destinaram paramenina de collegio. Coitados, entendem que todas as aves se dão em gaiola. E que na mesma cabem pardaes e aguias...Afinal, vim na idéa de ver a Inglaterra e seguir mundo. Com o pretexto de experimentarcollegios, ia vendo terras e educando-me por mim e para mim, como sempre desejei; mas certo é que me tenho achado bem...—É que as gaiolas na Inglaterra são folgadas, disse Edgar Buckley, um bello rapaz do bando, dezoito annos, loiro, irlandez de nascimento e coração, de physionomia severa e sympathica.—Não é isso, advertiu, meigamente, Peregrina, fitando Helen. É que achei em Petersfield a creatura que me deu alentos á exteriorização da minha Arte. Eu tinha latente um amor exotico que não achava apoio algum fóra de mim, e, portanto, não podia vir a publico sobre forma alguma. A Arte é sempre uma expressão de amor. Só produz quem ama. Que esse amor seja bom, ou mau, que importa! O que é preciso é amar.—Maria Peregrina! arriscou Edgar, sabes que commungo comtigo na admissibilidade do amor extravagante; mas parece-me que este amor deve ser accidental. Ámanhã, quando sahirmos do collegio, iremos todos cahir no amor vulgar; e, a falar verdade, supponho que sobretudo áquelles que têem talento isso convém. Pois não é certo que o amor extravagante nos degenera e gasta?—Eu te digo, Edgar, ha duas maneiras de considerar a Vida:—vivê-la para o espirito, para a Arte—numa tensão firme de Belleza,e vivê-la como o commum da gente—almoçando, dormindo, trabalhando á hora, realizando num dia trabalho egual ao do dia seguinte, e talhando em vinte e quatro horas o programma, a obra de vinte e quatro ou quarenta e oito annos. Para estes não importa o amor exotico. E convenho que os prejudique se o tentarem... Mas para os outros, os da vida superior, muito longe de lhes prejudicar a obra e o destino, creio que lhes dá em Belleza o que perdem em felicidade. Não leste de certo, o que ha escripto ácerca da cultura dos homens na Grecia? Nietzche, por exemplo, affirma a supremacia do vicio; esclarece—«que as relações eroticas dos homens com os adolescentes foram, duma forma que nem nós chegamos a comprehender, a condição unica, necessaria de toda a educação viril; que todo o idealismo da força na natureza grega se baseou em taes relações; que o commercio sexual regular baixava ao passo que se ia elevando a concepção daquellas relações».—E parecem-te, perguntou Edgar, certas, essas theses?—Absolutamente verdadeiras. Condizem com os estudos a que me tenho dado da civilização grega, e de o entender assim a minha concepção nova de Hellenismo, o Poema que estou urdindo e vou publicar.—Já agora, Peregrina, como teus admiradores, creio que temos direito a saber o entrecho do Poema. A tua Arte é tambem nossa.—Claro, insistiram os do grupo, que eram o companheiro constante de Edgar, Hugh, um adolescente de olhar quebrado, vago; Violet, uma rapariga tambem inglesa, de olhos e cabellos castanhos, de andar suave, e fala cantada; e Helen, a predilecta de Maria Peregrina.—Pois vou explicar-vos o Poema, já que desejaes interessar nelle, disse a portuguesa, sentando-se.Conheceis, de certo, até pelas nossas conversas, a poetisa Sapho. Muito se tem escripto sobre ella. Não ha noticias claras da sua vida e obras. Pertence, principalmente, á lenda. As suasOdes, como cerca de setenta fragmentos reunidos nasLyrici graecide Bergk—não são de molde a dar notas seguras acerca do que foi.Um facto é assente—o valor da sua extrema figura. Qual a reproducção mais legitima segundo a Arte? O Vaticano possue uma estatua de Sapho, sentada num rochedo, meditando; em Napoles ha uma pintura encontrada em Herculanum e um busto em bronze; modernamente occuparam-se della muitos auctores. Tenho reproducções dos trabalhos de Gros, Ramey, Duret, Diebolt, Clesinger, etc.Trataram em opera a tragedia de Sapho—Angier (musica de Gounod); e Salm (musica de Martini). A idéa dos seus presumidos defeitos deu ainda logar a um romance de Daudet—aliás inferior, pois que o artista trata incidentemente de Sapho em duas linhas, dando a Fanny Legrand, a heroina, aquelle nome, porque ella veste uma historia que tanto podia ser a de Sapho, como a de qualquer nevrotica, dada a volupias e violencias. O que é assente, emfim, é que a critica tem oscillado na sua maneira de entender a poetisa, sem ver nella o contraste do espirito grego num largo instincto de generalização e triumpho pelo amor exotico.Assim a considero e vou cantá-la.Para mim, Sapho foi a mulher de genio que acceitou como um facto a homosexualidade grega, o desprezo transitorio pela mulher, e tirou dahi estimulos para a sua campanha de amor, independentemente de preconceitos de sexo—fundando a sua escola para levar á civilização áttica a quota parte que lhe devia a adolescencia feminina, o mundo-feminino, em uma demonstração de vicio e genio que eram parallelos ao genio e vicio que contrastavam as maiores figuras do hellenismo.Ver do conflicto entre o seu valor e o desprezo pelo sexo, sentir o culto de si propria,historiar e reproduzir a hypercivilização grega e fazer dessa mulher sublime o ponto culminante, a expressão de synthese da sensualidade dum povo que aspirava aocontrôleda civilização do mundo—tal é, meus amigos, a razão do meu Poema, a concepção do livro que tenciono publicar com o titulo—Nova Sapho. Porque é uma novaSapho, concluiu, a que espero desvendar.Os presentes, desde muito industriados no amor lesbico por Peregrina, com leituras tendentes a desculpar-lhes o peor da vida hellenica, tinham preparação bastante a comprehender a tessitura do Livro. Applaudiam-no, sobretudo, pelo arrojo de lançar a publico a idéa dissolvente do amor extravagante.Todos se mostraram surprêsos, mas cheios de admiração pela creatura invulgar que supremaciava sempre na roda em que estivesse, e que decididamente ia dar que discutir.—Curiosa faina! dizia Edgar, baixando o olhar...E todos se deram a commentar a intenção e episodios em que a auctora repartia os cantos, até que vieram as trez horas dissolver aquella inesperada academia, num collegio, a poucas leguas da utilitaria Londres!A campainha badalára o signal para o banho. Alumnos e alumnas separaram-se em direcção ás respectivas piscinas.** *As casas de banho eram distanciadas, nas extremas do recreio. A dos rapazes era um alpendre espaçoso, com dois panos de tijolo, columnas e um coberto escuro de lousa miuda, que dava, de longe, por entre a ramaria, a impressão selvagem dum enorme dorso de crocodilo.Naquella tarde, segundo o costume, os rapazes correram todos para o alpendre. Em minutos, professor e alumnos tinham despido os fatos. Tudo mergulhou. Só Edgar e Hugh se deixaram ficar junto ao tritão;—Edgar muito triste, distrahido, de busto inclinado, parecendo desembaraçar-se da roupa com desgosto; Hugh muito mirado no corpo do companheiro, já nu, de pé, attento e á espera para mergulharem juntos.Soberbo quadro o dos rapazes que á beira do lago acamaradavam com o tritão, num grande contraste de belleza!O Tritão era a força rude, o abraço forte da terra e do mar, meio-peixe e meio-homem, o genio mysterioso, assistindo interessado ao que os dois diziam, num silencio de confidente.Hugh era a belleza vulgar, a media da belleza adolescente, firme nos traços, dumacarnação que era um calendario a marcar-lhe a edade, sem uma nota de imprevisto.Pelo contrario, Edgar era a excepção:—a belleza áparte, no contornado do seu corpo branco, suavemente tatuado de veias roxo-lirio, sem um traço a mais, uma flaccidez destoante, um descuido de lançamento.Inclinado, repuxava as pernas, deixando adivinhar as rocas perfeitas de seus musculos, que tão bem lhe jogavam a gentileza do corpo, forte e airoso, flectindo-o numa harmonia suprema de linhas.—Que formoso és! disse o companheiro.—De que vale sê-lo, reflectiu Edgar com tristeza. A natureza quando nos engendra devia logo equilibrar a alma com o corpo e eleger com as nossas tendencias a mulher de tendencias equivalentes que tivesse de pertencer-nos.—Ah! exclamou Hugh, percebo. Estás apaixonado por Maria Peregrina. E querias que a natureza te destinasse em Londres uma companheira de Portugal...—Não brinques. Sei que me é fatal o amor que tenho por ella.—Que fazem? inquiriu o professor de natação, por entre os gritos e o espadanar da agua que sahiam daquelle lago.Subito, os dois rapazes moveram-se como duas estatuas que resolvessem partir; levantaramas mãos em seta e mergulharam na primeira clareira.A piscina era um lago de carne. Curioso espectaculo! Ephebos de jaspe, remando corpos desenvoltos... Eram os amantes aguerridos do heroe de Carthago; Apollo, Adonis, Ganymedes! Memorias tomando banho...As piscinas destinadas ás alumnas eram abrigadas por uma casa ampla, repartida em cellas, com mobiliario e objectos ligeiros detoilette.Havia duas tinas quadradas de dez metros e de diversa altura, para receber as alumnas, segundo o adeantamento em natação.Abastecia-as de agua uma Esphinge de lavrado exotico:—cabeça de escocêsa, peito amplo montado em corpo de leão escanzelado, e tendo á laia de asas pennas ralas de milhafre. Era o monstro de Thebas peorado pelo canteiro inglês, vingando as victimas do Enigma.Certo é que a filha de Typhão parecia ter resurgido do mar e, esquecida do aggravo de Œdipo, golphava da boca larga e mal talhada columnas de agua.Á hora do curto dialogo de Edgar e Hugh desciam as raparigas ás piscinas.Lestas, seguiram quasi ao mesmo tempo para o patim da tina alta. Entre Helen e Violet ia a portuguesa. A brancura das inglesasemprestava luz ao corpo de mel de Maria Peregrina, que sobresahia pela desenvoltura de linhas. Todas usavam um calção curto e camisolim decotado, justos. A malha de Peregrina era de seda morena, como o corpo que apertava. Não o escondia, sophismava-lhe a obrigação do vestuario, tornando-a mais bellamente nua.No patim as três hesitaram; depois foram descendo. A ultima a entrar foi Peregrina que impelliu Helen, suavemente, pelas ancas; segurou, distrahida, o cabello farto, anelado e selvatico, e ficou-se a seguir com o olhar o corpo branco da companheira, a boiar na tina funda.Só, de pernas colladas, braços levantados como segurando a cabeça esbelta, Maria lembrava um gomil precioso de olaria rica que um principe tivesse ido encher ao lago e ahi esquecesse.Foi a ultima a entrar e a primeira a sahir. Deu volta ás duas tinas, arando a agua em sulcos dum desenho desmanchado e sahiu, mau grado os protestos das companheiras.Um quarto de hora depois partiam todas para as cellas-barracas.Helen ia a entrar para a sua, mas recuou, suppondo enganar-se. Estava occupada por Maria Peregrina que acudiu a chamá-la.—É esta a tua barraca, informou, abraçando-a.Sahi mais cêdo do banho e vim para aqui para te enxugar com beijos.—Olha que estou molhada, dizia Helen, achegando-se do lençol.—Estás molhada? Não importa. Deixa morder o teu corpo velludoso de asclepia. Tenho sêde para te beber toda, dizia de olhos chammejantes, fremindo os labios pelo corpo branco-humido da inglesa.E sorvendo-lhe as extremidades crestadas do peito:—Sabes a historia destas lindas nodoas? Não sabes, minha tonta, vou contar-ta.São dois peccados. Deus tinha apartado uma nuvem branca para fabricar petalas de magnolia. Sabes que não se pode tocar em taes flores; escurece-as um carinho.A sua mão deu-se a modelar-te, por capricho daquella massa—a das flores sensiveis.Pôs um cuidado especial no peito que te repartiu em globos medidos pela sua mão divina, e a que deu a maciez das petalas e o calor das rôlas.Pois o maroto de um anjo que o viu distrahido foi, guloso, dar-lhe dois beijos. São estes pedacitos crestados, rematados por agulhetas finas, que ainda ha pouco pareciam romper-te a malha e me beijaram quando as beijei.—Muito interessante o conto, commentou a inglêsa, rindo.E abrindo os braços:—Venha de lá esse lençol de beijos. Quero sentir os labios que dizem tão lindas historias...** *Passaram mêses. Uma tarde, estava Peregrina no quintal a tocar violino junto á Fonte Verde, de costas para a alameda, quando ouviu a folhagem...Voltou-se.—Ah! és tu? disse com enfado a Edgar, que avançava para junto della, sentando-se á beira da Fonte.—Sou eu que estou aqui a ouvir-te ha muito tempo. Que bem comprehendes o violino!—Então, dize o contrario, que bem que o violino me comprehende, respondeu ella, pois que improvisava musica sobre motivos meus.—Era uma despedida—a despedida de Helen, não é verdade?—Era, sim:—anesthesiava-me. As ondas de musica podem ser ondas de ether para a Artista que pudér bem mergulhá-las. Por mim não posso. Não sei esquecer, pois que despendo bastante trabalho a fixar... E o culto que tenho pela musica não vae até apagar-me os defeitos ou virtudes do temperamento.—Tens então muitas saudades de Helen? Dentro de breve tempo estará ella nos braços dumgentleman. Conheço John Brooke de casa de meu pae. É um diplomata muito querido da aristocracia. É bastante mais velho do que ella, mas hãode ser felizes. O casamento foi arranjado pelos paes. Mas, a proposito, deve dizer-se que ha paes que acertam... A que melhor podia aspirar? Bem sei que te dóe a sua ida. Persistes em negar a natureza. No fim ha de succeder-te o mesmo; regressarás a ella mais cedo ou mais tarde.—Não fales assim, Edgar, se tens algum empenho em ser-me agradavel. Tem caridade comtigo.—Sabes, Maria, que é por caridade para commigo que penso assim. Por caridade commigo e por amor de ti. Ha que tempos te amo! Chegava a ter ciumes de Helen, que entrava passivamente nas tuas loucuras. Conversava-a sobre os vossos delirios. Tinha um prazer amargo em acompanhar pela dor o vosso fremir de corpos, que nunca podiam casar-se. De toda a tua philosophia só para mim resultou um bem:—estar ao pé de ti, ouvindo os echos duma alma a despedaçar-se num conflicto que tem um unico suppuradouro—o teu talento. O encanto que derramas não podia vencer a natureza, subjugando a mulher que escolheste. Conversa-a daqui a mêses. Creioque o casamento é breve. Verás que mal se recorda do amor em que a usavas. Ah! mas o encanto das tuas palavras, como o talento dos teus defeitos não se perdeu. Tenho tudo no peito. Tinhas ao teu lado alguem que te amava religiosamente...—Sem me comprehender, objectou Peregrina.—Não digas isso. Amar é comprehender. Vê como eu, do Norte, me sinto meridional ao pé de ti, só para te pedir um pouco de tolerancia para este amor que recebes como um peccado. Dize o que queres que faça para merecer-te!Queres que a teu lado seja o pregoeiro do amor exotico, explicando que os nossos corpos se não entendem; que os nossos laços são um commercio do espirito? Comprarei essa mentira por toda a casta de infamia, e irei, de alma lavada, prostituir-me ás casas de pederastia que houver ou tivermos de inventar. Como esbanjas a fortuna dos teus encantos! Tens o talento de te fazer amar, mas não sabes amar...—Basta, Edgar! Bem dizia eu:—não me comprehendes. Não extranho. Eu sou, de facto, um enigma, o arremêdo da Esphinge, que o capricho dum canteiro exprimiu em pedra á beira do lago. Sou o monstro de Thebas, que resurgiu em fórmas novas. O que vês é omeu avêsso. Não me percebes! Não te devorarei, como o antigo monstro fazia a quem lhe não decifrava o enigma. Petersfield não é bem o monte de Thebas e a Esphinge de hoje tem de ser uma Esphinge civilizada...Vou explicar-te o enigma que sou. Dizer-te como sou.Tenho a cabeça das mulheres de Granada, talhada em sombra e sonho; o peito é português; assento o busto no torso de Leão, que é do escudo das minhas armas e das armas da Peninsula,—a bravura do Ocidente; as minhas asas são o genio judaico—a tara duma raça, perseguida, que ninguem acceita, que não acceita ninguem...—Vamos daqui, Edgar, concluiu num riso amargo.—Maria, pediu o irlandês, um instante apenas!—Vamos!E partiram os dois, silenciosos, perdendo-se no borborinho dos que batalhavam otennisnum recanto do recreio...** *Passou um mês. Chegou a noite de nupcias de Helen.Meia noite. Maria escrevia sem cessar desdeas 9 horas. Subito sentiu mexer na porta. Levantou-se e foi abrir.Á porta estava Edgar, a tremer de commoção, cingindo uma capa leve, redonda pelos joelhos.—Entra, disse-lhe Maria.—É então certo, meu amor, que te condoeste de mim? Imaginei ao ler o teu bilhete que não era verdadeiro. Não podia ser. Tu não podias querer-me. Quasi me não falavas depois que te revelei o meu amor. E assim, de repente, um recado para que te viesse possuir... Que estranha és! Que abençoado momento te inspirou, dizia elle abraçando-a... Foi o genio do amor que preside a tudo, que sabe quanto a minha vida te merece.Mas, vejo-te tão morna, depois duma resolução tão nobre...Maria, sê minha devéras. E conta-me o que te levou a chamar-me. Dize-me que me queres. Que sou o escravo do teu amor...E, solto da capa, apertava-a contra o corpo, despindo-a, e listrando a beijos a sua carne morena...E ella, afastando-o com mansidão, deslumbrada:—Deixa-me ver-te com olhos de Artista. És bello, realmente!E desapertando-lhe a malha lilaz:—Despe tudo isso, quero ver-te bem. Ahistoria do bilhete é simples. Recebi esta manhã carta de Helen. Casou hoje. A esta hora deve estar com o noivo; lembrei-me de tirar uma copia do casamento... Quiz ser possuida ao mesmo tempo que ella, e lembrei-me de ti!Demais, sempre no meu ponto de vista de Arte, não me é indifferente noivar com um rapaz tão bello como tu.—Maria! Despe a intelligencia e entrega-te! Veste, como eu, o espirito de animalidade, e deixa que a nossa carne se entenda.E, abraçando-a, lançou-a sobre a cama estreita, collando a sua boca á della, e emmaranhando-se-lhe nos cabellos, que, desmanchados, desceram como uma segunda noite, a agasalhá-los...Sobre a madrugada Maria Peregrina afastou, suavemente, os braços de Edgar e disse-lhe com fleuma:—Vamos, arranja-te. Creio que não quererás que te procurem aqui.—Conforme, disse elle, se o facto de nos encontrarem aqui nos obrigasse á união para sempre, gritaria já daquella janella o meu triumpho. Porque foi um triumpho para mim esta noite, não é verdade? dizia mordendo os labios vermelhos de Maria. Quebrei o Enigma. A Esphinge era uma mulher, embora a mais preciosa das mulheres, a unica que Deuspoderia dar-me e tambem a unica, Elle sabe, que eu lhe pedi!Eu andava ha muito a procurar-me. Perdera-me a sonhar... Encontrei-me em ti. Vi-me á luz negra do teu olhar, fluido de amor e perdição. Os teus olhos são como o genio da aventura:—reflectem amor, lucto, Belleza dolorosa... Como sinto os enleios negros do seu fulgor, penumbras de sonho e loucura!Vejo atravez delles a alma da tua raça—aquella que elles discorrem, fataes de amor.Adivinho-me junto de ti na primeira hora em que viveste, aquella em que odiaste outra luz, e exclamo:—Ahi está a Artista, uma Raça que vae chorar, cantando; recemnasceu o crepusculo do grande povo, aquelle que viveu madrugadas e vae morrer Poeta, amortalhado na sua alma de sombra.No teu corpo de marfim e sêda, realizou o Divino da Belleza um sonho luxurioso, aquelle sonho que Elle viveu um momento, confundindo-se em ti, em mim. Escreveu na tua boca de dahlia a nova redempção—a prophecia de prazer que o universo syllába a mêdo e que os teus labios franzem, reprêsos de amor. A Vida é o Amor, o nosso Amor... Como recordo a Noite! Tudo o que havia de voluptuoso ella atrahiu e teceu, descendo, interessada, a possuir-nos.Sinto o roçar velludoso do seu tecido de mysterio e vicio. E chego a ter zelos das suas caricias. Só tu devias ser presente. Eu proprio queria ser ausente... em ti. Houve no nosso amor um erro, o genio da tua carne que um momento interessou tudo!—Oh! como odeio a Noite, a sombra immensa de todos os delictos e volupias que o Ceu espectra para vingar a pureza, a abstinencia eterna...Soffro e amo o teu genio—o genio do erro que me faz abdicar de mim, mirado nos encantos da tua figura de chamma, ateada de imprevisto.Como te amo! Transformas tudo. Se até solves a nevoa que turva o olhar da minha raça!...Vê como eu, que sou da nublosa Irlanda, me sinto peninsular ao pé de ti...Mas que passividade é agora a tua? Então, minha querida, fala! Olha que já não és a Esphinge...E, tocando uma minitura de esmalte, florida de diamantes:—Deixa ver isto; quero ver, com vagar, o teu unico traje desta noite. É lindo vestir sómente uma joia na noite de nupcias.E reparando:—Ah! é a Sapho de Pradier.Perdôo-lhe porque esteve calada... Foi discreta.—A peor Sapho para ti, Edgar, não foi ella, fui eu. Digo-te, com desgosto, que a Esphinge permanece. Nem um só minuto vasei a minha alma na tua!Não me arrependo do que fiz, pois que consegui o que esperava,—soffrer. Foi uma noite que sacrifiquei á minha saudade. E deu-me volupia o soffrimento, como dá sempre. Mas lembra-te de que te vejo hoje peor do que nunca. Eu sou como os aleijados que não perdôam aos que possuem corpos sãos. A minha alma é doente, não perdôa a tua alegria em possuir-me á custa dum prazer de que eu soffri o avêsso—ondas dum horror que hade durar...—Por quem és, não me relegues ao inferno depois de possuir-te. Irei para onde fôres. Já ninguem nos separa. Respeitar-te-ei todos os caprichos, até loucuras, que eu sei que o genio as tem... Só uma coisa quero—o direito de fundir a beijos o teu corpo...—Basta, Edgar! disse ella, dando-lhe a capa e acompanhando-o até á porta. Deixa-me! Não exasperes a minha sensibilidade, duplicando o meu horror por ti. Vae!...E, fechando a porta sobre Edgar, que descia cauteloso e somnambulo a escadaria, foi, semi-nua, como estremunhada, procurar no segredo dum movel o retrato de Helen, que ficou a fitar por largo tempo.** *No dia seguinte tentou Edgar falar-lhe. Queria discorrer sobre a noite antecedente, aquella noite que lhe custara canseiras e milagres, pois que teve de atravessar pavilhões ás escuras, saltar e assaltar janellas, resolver difficuldades, até que, vencida a mulher dos seus desejos, a via, de subito, despedi-lo como uma creatura desprezivel, porque a amava!...Que extranha aventura! Podia ser? Mas quando ia para se approximar, sentia uma tal commoção... depois, parecia tão firme o proposito de Maria em afastá-lo, que elle proprio, sentindo por si a repugnancia que lhe inspirava, era o primeiro a fugir, corrido.Succediam-se os dias até que Edgar soube por Violet que Maria Peregrina ia sahir do collegio no sabbado seguinte. Assim o fôra participar ao director. Era uma segunda-feira.Edgar, desesperado, tentou o ultimo reducto. E, decidido, procurou a hora em que Maria, segundo o costume, ia abancar junto á Fonte.Estava lá, de facto. Viu Edgar e baixou os olhos sobre um livro que tinha aberto, sem ler.Elle chegou junto della e começou a falar-lheresoluto. Mas, pouco e pouco foi perdendo a serenidade, ao passo que ia lendo na physionomia da amante o horror que lhe inspirava.—Queria saber, começou, se era verdade que ella ia sahir do collegio. Tinha o direito de sabê-lo, pois que o acaso os juntára, e elle estava resolvido a seguí-la; uma palavra sua de amor, de benevolencia apenas, era sufficiente...—Basta! disse ella, fitando-o com decisão. Não me canses.E levantando-se:—Respeita a minha sensibilidade, mesmo que não a comprehendas. Deixa-me!E metteu pela ala da esquerda, deixando Edgar aturdido, junto á Fonte.Na manhã immediata, elle levantou-se cedo. Foi para a casa de estudo e escreveu durante dois quartos de hora; a seguir foi á sala das armas e dahi para a quinta, onde passeou até ao almoço—oito horas e meia.Acompanhou as aulas até á uma hora. Foi ao dormitorio vestir um fato ligeiro defootball, mas mal entrou no jogo. Falou por espaço de meia hora com Hugh; e emquanto este seguiacom os demais alumnos para otennis, Edgar desceu rente ao muro, a internar-se nas sombras.Passado tempo ia Maria Peregrina para junto da Fonte. Levava o violino para tentar um trecho de Wagner, em que Edgar tinha falado.Momentos antes, dissera a Violet:—Afinal, é sensibilizante a amargura do pobre rapaz, mas não posso soffrer o horror que me causa a perfeição daquelle systema de nervos tão bem ajustados a um corpo magnifico, e tudo ao serviço dum amor normal, duma animalidade de cavador!De repente avistou a Fonte, e, a seguir, um corpo estendido a alguns palmos da vasa. Apressou o passo: era Edgar!—Edgar! Edgar! chamou.Nada...Sacudiu-o, e o corpo abandonou-se-lhe. Maria Peregrina, recuou; pôs-se a examiná-lo: estava de bruços, com o ouvido direito collado á areia, o braço esquerdo ao longo do torso e o direito estendido para a frente, tendo na mão um revólver.Percebeu então; estava morto:—suicidára-se.—Pobre rapaz! disse a meia voz. Que lindo!...Edgar vestia simplesmente:—camisola de sêda preta, calção de linho branco, e sapatosde camurça cinzenta, solados de borracha.Assim viera do recreio dos jogos.Maria Peregrina ajoelhou junto ao cadaver e metendo a mão pelo calção largo, pôs-se a afagar-lhe a coxa luzente. Depois flectiu-o, voltou-o, subiu-lhe a camisola até ao peito. Subito, deu com três cartas. Leu os endereços: uma era para ella! Lá estava na letra muito firme de Edgar, escripto o seu nome; as outras duas eram—uma para o director, outra para o pae, o sr. Buckley.—Pobre Lord, exclamou, como hade ficar!...Guardou a carta que lhe era destinada, e ficou a contemplar aquelle corpo, côr de tocha.—Que bello, no seu ar de crepusculo! murmurou. Mas que rictus o da sua boca dolorosa!E, de repente, como obedecendo a uma força intima, baixou-se mais, beijando-lhe a pelle de cera; cahiu sobre o cadaver, soergueu-lhe a cabeça, collou os labios á boca-lilaz do morto, e ficou por minutos como que adormecida sobre elle...Depois levantou-se, examinando a mão e o braço com que o soerguera. Sentira na mão um liquido; era o sangue que borbulhára do ouvido direito do suicida.Pousou outra vez na areia, a cabeça deEdgar. Foi lavar-se á Fonte; compôs o cadaver e ficou ainda uns minutos a contemplá-lo.—Que lindo estás! disse-lhe, quasi ao ouvido; e como gostaste dos ultimos carinhos! Já não tens o rictus de ha pouco...Leio as nossas pazes á luz roxa do teu sorrir de morto!E beijando-o:—Parto contente. Adeus!
«D. Maria Peregrina Alvares de Lorena e Villa-Verde, filha de D. Maria de Lorena Eannes de Castro e Villa-Verde e de D. Antonio Alvares Muito Nobre Leite Moniz de Sá, nasceu em 31 de outubro de 1880.
O brasão da muito illustre Casa de Lares explica alguns daquelles appellidos. Consta dum escudo esquartelado, tendo no primeiro quartelas armas reaes de Portugal, pelo appellido Alvares, e, no opposto, as reaes de Castella, pelos appellidos de Lorena e Villa-Verde, lavradas em mantelado de prata e circuitadas de negro. Destacam neste leões de purpura batalhantes, bordados de oiro e veiros de côr, á volta.
Por timbre usa a Familia de Lares um cysne, armado de oiro, segurando no bico uma aspa vermelha, com escudos alternados de Portugal e Castella.»
Assim o escreveu D. Antonio nasMemorias genealogicas e Nota Privativada Casa.
Os escudos lavrados na cantaria do edificio attestavam a historia do velho solar de Lares, confirmando os archivos.
Maria Peregrina sentia-se extranha ao mais da sua linhagem. E se a devassava era para averiguar amores pouco fidalgos. Comprazia-se em ler, para além dos escudos, romances de ligações humildes.
A sua alma, exquisitamente vincada e polychroma, sobrepunha-se aos esquartelados dos brasões.
Talento, physionomia, fraquezas—tudo reflectia a sua figura de contrastes, que o Destino urdira de nevrose e sombras.
Amava instinctivamente as fraquezas como os talentos. Sentia que umas e outros lhe espiritualizavam a figura, tocada de Desgraça,e dahi o perdoar ás duas avós judias que tinham vindo enlear-se na velha arvore dos seus, frondosa de santos, doidos e poderosos.
Por entre a rêde azulada de linhas que lhe prendiam os appellidos, destacava as malhas vermelhas dos erros de amor.
Respeitava estes erros pelo que a explicavam. Entre as linhas de bom sangue que a submettiam e o systema de linhas que lhe dava a figura, sentia o conflicto de duas raças. Era pela desenvoltura do seu corpo de garça, talhado em ambar macio e tostado,—expressão de um povo que vive na penumbra um eterno outomno de genio triste...
Que lhe importava que o sangue semita viesse gafar a sua origem fidalga, se ella vivia, sobretudo, essas gotas de sangue, que em revolta com os globulos de raça, a reflectiam numa casuistica tão diversa da que inculcava a outra gente?
No seu perfil moreno, tocado de sonho e de tristeza, parece que o Destino tinha escripto uma parte da sua historia.
Perdera cedo o pae, aos nove annos. Da mãe, victima do nascimento della, ficaram-lhe memorias, casos de bondade que toda a gente repetia. Manoel de Sousa Campello e Pamplona, senhor do vinculo e Casa de Soutello, fôra seu tutor por disposição testamentaria de D. Antonio. Mandou vir uma professorainglesa para a instruir em linguas, lição de coisas e principios de Arte.
Duma grande precocidade, Maria Peregrina seguia, com excepcional aproveitamento, as lições de Louisa Huley.
A inglesa era uma aventureira intelligente, prendada, que, tendo approximadamente trinta annos, tirocinára o ensino pela Allemanha, Austria e França. Tinha de seu uma grande mala com seis vestidos de passeio, o talento das linguas e o ar de quem ensina prendas e vicios para gastar nervos.
Maria Peregrina e Louisa afeiçoaram-se profundamente, excessivamente.
Lamentava a ama de Peregrina, a velha Clara, a indiscreta afeição da extrangeira, que viera roubar-lhe os carinhos damenina...
E, da mesma forma, a Salomé, a filha dos morgados, mais nova cinco annos do que Peregrina, se sentia desfalcada nas attenções da prima, muito carinhosa e prodiga de entretenimentos antes da vinda da Huley.
Os de Soutello exultavam.
—Que felicidade darem-se bem, dizia D. Maria Helena para o marido; com o genio voluntarioso de Peregrina o que seria se assim não fosse...
Manoel Pamplona concordava.
A alumna estudava com vantagem. Quando acabou o contrato com a Huley (cinco annos)falava e lia correctamente o inglês, francês e allemão, entrando com uma acuidade que mal se comportava na sua edade nas obras que marcam o genio das linguas. E, da mesma forma, comprehendia e executava musica, surprehendendo a inglesa, muito pratica no seu ensino.
—É um talento precoce, uma sensibilidade! dizia o Tio Manoel, admirado dos progressos de Peregrina, sobretudo da forma porque ella commentava trechos de poesia, esparsos nas selectas, extremando por si a belleza, como os pontos fracos ou extravagantes dalgumas passagens.
Era elle quem a leccionava em português. E ninguem poderia fazê-lo com mais competencia.
Dizia-se modestamente um philologo amador, apesar de ser um estudioso e discorrer Philologia naRevista Luzitana,Instituto,Portugaliae em algumas publicações extrangeiras.
Era muito acreditado pelas diversões eruditas e conhecimentos miudos dos segredos das linguas antigas.
—Os classicos, explicava ao abbade e ao visinho Thomé, parceiros certos dobridgenas longas noites de Soutello, são os meus antepassados em Letras.
E o abbade, concordando, dizia que o morgadoera o representante legitimo dos velhos cultores do Humanismo; que não era comprehensivel o talento sem a grammatica, que lêra ultimamenteA Idéa de Deusde Arimathéa Coelho—e concluira que Deus torcêra a Idéa do auctor obrigando-o a dá-la em prosa de saca-rolhas; que lia, ás vezes, por desopilar, a chronica dum gazeteiro de Lisboa, pae dum livro—Horas tôrpes,—coisas pelintras, que estavam abaixo dos alumnos do seu tempo, quando iam a meio da Arte; que as Letras iam dizendo bem com o resto...
O Thomé interferia a favor do chronista—que não era tanto como dizia o abbade, que auctor dasTôrpesexteriorizava em parte as suas idéas, que elle, Thomé, escrevêra antes para um semanario de Pindamonhangaba, quando era ainda moço de loja no Tijuco. Manoel Pamplona intervinha sempre, ordeiro, temendo perder os parceiros; sorria intelligentemente para o abbade como a pedir-lhe clemencia para as idiotices do chronista, em que Thomé era commanditario, e depois dalguns rodeios cahia a fundo, muito socio em idéas com o abbade, na ignorancia do grande numero dos plumitivos, e ainda na obra daquelles que não eram idiotas como o exemplar preferido pelo Thomé.
Maria Peregrina, que precisava encher as noites de Soutello, lia quasi sempre, mau gradoas observações da Tia e as reprimendas carinhosas de Manoel Pamplona.
Preferia ler traducções de poesia latina ou grega. De vez em quando, levantava-se a inquirir o Tio sobre casos complicados. Queria apprehender a Poesia no mais largo significado. E irritava-se porque, apercebendo-a no rhythmo, na idéa simplista da imagem, no trocadilho das passagens extravagantes, não podia desde logo penetrar a rêde do maravilhoso que envolve a tessitura classica e jogar com o conflicto dos deuses, e todo o genero de sobrenaturalismo. O Morgado entremeava osrobersde explicações, pigarreando quando tinha de fugir a qualquer ponto escabroso, posto em discussão pela sobrinha.
Quando a educanda completou quinze annos reuniu o conselho de familia para deliberar sobre o complemento da educação. O curador dos orphãos, homem novo, sabedor da precocidade de Maria Peregrina e vendo o montante da sua fortuna, entendeu que devia promover o fim da educação della no extrangeiro, longe dos preconceitos nacionaes, e dahi ter requerido ao conselho que fosse internada num collegio inglês, segundo o costume das educandas no seu nascimento. Os Morgados protestaram, e Manuel Pamplona pôs á prova toda a importancia e empenho, a ver se impedia o que elle chamava «as modernicesimpertinentes do bacharel-curador».
Não obteve coisa alguma. Em outubro de 1895 partia com Maria Peregrina para Inglaterra a cumprir as ordens do Conselho.
Anno de 1898.
Nesta data chegou a Petersfield, collegio de St. James, onde Maria Peregrina fôra installar-se, a noticia da morte de Manuel Pamplona.
Tinha ella dezoito annos.
O Collegio de St. James era uma das primeiras casas de educação da Inglaterra, com destino á aristocracia inglesa e a extrangeiros e nacionaes de fortuna.
Havia quatro annos que Maria Peregrina entrára, sendo a primeira alumna do collegio, apesar das extravagancias de genio, que a disciplina britanica não conseguira modificar e ia indulgenciando em attenção aos seus talentos.
Recebeu a noticia da morte do Tio com tristeza. Lembrava-se da velha bulha dobridgenas noites de inverno do Mosteiro, entre o Abbade e o Thomé, a que elle acudia ordeiroe conciliador; das suas lições de português e rudimentos de latim, das velhas recitações que elle fazia sob os arvoredos de Soutello e Lares das obras de Homero, que ao tempo amava por instincto no seu hellenismo genial; de Sophocles, o poeta que em si summariava a maravilhosa cultura e floração da Belleza grega, de tudo emfim que Manuel Pamplona lhe ensinara ou suggerira debaixo das arvores do Minho—ou nos salões dos velhos solares, duma pretenção architectural tão portuguesa e ingenua.
—Coitado, dizia á predilecta Helen, como era bom na simpleza de provinciano, e sabio de coisas classicas, de que sentia sómente o pautado e regramento do periodo—numa pretenção humanista adoravel!
E lembrar-me de que fui eu quem o obrigou á unica viagem que fez! Ah! a confusão que sentiu ao entrar em Londres, memorava. E ainda bem, pois que esse aturdimento lhe anesthesiou o desgosto de deixar-me. Sinto no peito o seu abraço de despedida, o ultimo abraço, como elle disse a chorar. Tinha de ser!...
E Helen Green, uma linda adolescente de dezasseis annos, muito enleada em Peregrina:
—Dize-me, mas a morte do Tio Manuel não prejudica a tua estada aqui, não é verdade?
—Não. Sei vagamente que posso emancipar-me. Vou escrever á Tia Helena, a tomar parte no seu lucto—deve estar consternada! e ao procurador a mandar que promova a minha emancipação immediatamente. Depois traçarei, á vontade, o novo plano de vida.
—E a emancipação não te pode ser recusada? inquiriu Helen.
—Pode, mas não o será, porque vou recommendar ao José Lourenço que se entenda com os do conselho da familia, estimulando-os, sem olhar a despesas. Confio absolutamente nelle. É fino, ladino, e... minhoto. E olha que o Codigo de expedientes do Minho, minha querida, vale as leis inglesas, concluiu beijando Helen.
** *
Passaram mêses sobre a morte de Manuel Pamplona.
Maria Peregrina trabalhava no quarto, segundo o costume áquella hora, quatro da tarde, escrevendo vagarosamente, quando vieram annunciar-lhe a visita dum português. Desceu ao salão, intrigada. Quem seria o português? Teve a maior das surprêsas! A um canto do salão, discreto, attento á decoração das paredes, dando voltas ao chapeu, de roda de palmo, estava o procurador.
—Oh José Lourenço! exclamou Peregrina, como quem chama por uma visão a desapparecer, pois és tu? Em Petersfield! E, vendo-o caminhar para ella:
—Venha um abraço; quero abraçar o Minho nas abas de Londres!
E o José Lourenço, com os olhos e a voz rasos de lagrimas, baixando-se para a abraçar na cintura, reverente:
—É verdade, senhora Morgada, vim dar conta do recado de V. Ex.ª e receber novas ordens. A Maria tambem queria vir, mas lá me pareceu de mais.
Que, a bem dizer, o que aqui me trouxe foram as saudades. Ha tanto tempo que não via a Fidalga. E a Maria, tinha tantas saudades como eu, coitada! Lembra-se todos os dias do tempo em que a apartou. Ainda outro dia lá appareceu um senhor a pedir colheita e ella esteve todo o serão a falar da senhora Morgada, a ponto que se ia zangando porque elle se riu, quando ella disse que V. Ex.ª era a menina mais linda que havia no mundo. E, a falar verdade, que féra está! Dá gosto vê-la assim. Que linda! Como a Maria havia de gostar de vê-la!
O tempo córre. E o que faz o sangue! As raparigas do Mosteiro da creação da Fidalga estão umas lambisgoias. A não ser a prima de V. Ex.ª que tambem, não desfazendoem ninguem, está um anjo. Das outras nem falar...
—Pára, José, disse Maria Peregrina desnorteada com a loquacidade do procurador. Havemos de falar muito do Mosteiro, das pessoas que temos pelo Minho, mas antes de mais, interessa-me saber como déste com Petersfield.
—Muito facilmente, senhora Morgada. O vinho do Mosteiro é, como a Fidalga sabe, o melhor vinho de Portugal e creio até que do mundo, pois que elle vae para toda a parte...
—José! Não te esqueças da minha pergunta. Queria eu saber como déste com Petersfield, observou Maria Peregrina, impaciente e medrosa da longa historia dos vinhos verdes...
—Perdôe a Fidalga, a gente não sabe falar, mas era o que eu ia para dizer. Ia contar que o vinho do Mosteiro é muito procurado, e dahi vendê-lo cedo a uma casa do Porto, que tem agentes inglêses. Entendi-me com um agente, que todos os annos vem a Inglaterra. Fizemos viagem juntos e estou certo de que se o perdesse já não ficava por cá. Ia direito para o Minho. Eu podia ter escripto a V. Ex.ª e forrar o dinheiro da viagem, mas tinha saudades da Fidalga, além de que tinha gosto em vir dar parte a V. Ex.ª de que está emancipada e ninguem mais mandano que lhe pertence. Os homens a principio oppunham-se á emancipação, que era cedo, e não constava um caso assim, demais tratando-se da maior fortuna do Minho... Afinal, tudo se remediou.
—És um letrado, disse Maria Peregrina. Espera: quero mostrar-te a uma pessoa amiga!
E, levantando-se, foi chamar Helen, que entrou, passados minutos, quedando, curiosa, deante do Lourenço, que a cortejava, mesureiro.
—Que curiosa figura! dizia Helen, passeando os olhos de turquesa sobre o corpo athletico do velho, cingido no burel grosso do vestuario, de calça em polaina, bota de prateleira, jaqueta alamarada, e um grilhão de oiro á laia de corrente.
—Que curiosa figura! repetia a inglesa, approximando-se mais do Lourenço.
E voltando-se para Peregrina:
—Que vaes fazer delle?
—Primeiramente, hei de passeá-lo por Londres. Sabes que estou emancipada—o que equivale a dizer que mando em mim. Heide levá-lo a toda a parte. Quero sentir as suas impressões no Hyde-Park e Camara dos Communs. Tenho pena de que o humor inglês não vença as complicações do protocolo da tua Côrte, pois fazia gosto em apresentá-lo em Windsor!
E dando pela attenção baldada do velho á conversa em inglês:
—Estava a dizer que iamos passear muito. Quero que leves que contar para o Minho.
—Sim, minha senhora, como a Fidalga quizer, mas eu precisava de estar lá para as malhas, de amanhã a três semanas, arriscou o Lourenço, reverente.
—Estarás, havemos de arranjar tudo. Descansa.
E ficaram os três, á puridade, no salão do collegio, estudando, discutindo o Minho.
—Aproveita, Helen! dizia Peregrina. Eu traduzo-te o velho. Olha que é a primeira vez que o Minho authentico atravessa a Mancha...
** *
O Collegio de S. James dava á instrucção literaria o logar competente. As aulas de letras começavam ás nove horas.
Rapazes e alumnas tinham educação conjuncta em varios ramos de ensino, e designadamente emsport. Entendeu a Pedagogia que era preciso preparar creaturas fortes. O Collegio de S. James executava á risca os votos dos congressos. Facultava a mais vasta educação, instruindo pelo livro, pratica de laboratorios, trabalho de officinas, jardinagem, etc.,isto na maior liberdade de acção compativel com a ordem, no proposito de extremar vocações e especializar talentos. Rapazes e raparigas aproveitavam as sombras do arvoredo, que abraçava o collegio, conversando, pintando do natural, jogando, á vontade, numa confiança mutua de professores e alumnos.
Para o inglês o culto da natureza livre é a razão maxima da sua forma de sentir a Liberdade. Maria Peregrina, uma peninsular, com sangue de casas reinantes decahidas, caldeado de globulos extranhos, e uma imaginação escandecida pela sobreexcitação dos talentos, recebeu de começo com mau senho aquella imposição de força ingenua, que dominava o collegio.
Mas, pouco a pouco, foi-se achando bem. Como tinha caracter nos defeitos adquiridos e congenitos, aproveitou o que lhe pareceu de molde a serví-los, relegando o ensino que toldava o seu hellenismo nascente, collidindo com o genio do Sul de que ella era expressão.
—Ah! dizia em conversa de camaradas, nohall, ri muito dos do conselho de familia, quando me destinaram paramenina de collegio. Coitados, entendem que todas as aves se dão em gaiola. E que na mesma cabem pardaes e aguias...
Afinal, vim na idéa de ver a Inglaterra e seguir mundo. Com o pretexto de experimentarcollegios, ia vendo terras e educando-me por mim e para mim, como sempre desejei; mas certo é que me tenho achado bem...
—É que as gaiolas na Inglaterra são folgadas, disse Edgar Buckley, um bello rapaz do bando, dezoito annos, loiro, irlandez de nascimento e coração, de physionomia severa e sympathica.
—Não é isso, advertiu, meigamente, Peregrina, fitando Helen. É que achei em Petersfield a creatura que me deu alentos á exteriorização da minha Arte. Eu tinha latente um amor exotico que não achava apoio algum fóra de mim, e, portanto, não podia vir a publico sobre forma alguma. A Arte é sempre uma expressão de amor. Só produz quem ama. Que esse amor seja bom, ou mau, que importa! O que é preciso é amar.
—Maria Peregrina! arriscou Edgar, sabes que commungo comtigo na admissibilidade do amor extravagante; mas parece-me que este amor deve ser accidental. Ámanhã, quando sahirmos do collegio, iremos todos cahir no amor vulgar; e, a falar verdade, supponho que sobretudo áquelles que têem talento isso convém. Pois não é certo que o amor extravagante nos degenera e gasta?
—Eu te digo, Edgar, ha duas maneiras de considerar a Vida:—vivê-la para o espirito, para a Arte—numa tensão firme de Belleza,e vivê-la como o commum da gente—almoçando, dormindo, trabalhando á hora, realizando num dia trabalho egual ao do dia seguinte, e talhando em vinte e quatro horas o programma, a obra de vinte e quatro ou quarenta e oito annos. Para estes não importa o amor exotico. E convenho que os prejudique se o tentarem... Mas para os outros, os da vida superior, muito longe de lhes prejudicar a obra e o destino, creio que lhes dá em Belleza o que perdem em felicidade. Não leste de certo, o que ha escripto ácerca da cultura dos homens na Grecia? Nietzche, por exemplo, affirma a supremacia do vicio; esclarece—«que as relações eroticas dos homens com os adolescentes foram, duma forma que nem nós chegamos a comprehender, a condição unica, necessaria de toda a educação viril; que todo o idealismo da força na natureza grega se baseou em taes relações; que o commercio sexual regular baixava ao passo que se ia elevando a concepção daquellas relações».
—E parecem-te, perguntou Edgar, certas, essas theses?
—Absolutamente verdadeiras. Condizem com os estudos a que me tenho dado da civilização grega, e de o entender assim a minha concepção nova de Hellenismo, o Poema que estou urdindo e vou publicar.
—Já agora, Peregrina, como teus admiradores, creio que temos direito a saber o entrecho do Poema. A tua Arte é tambem nossa.
—Claro, insistiram os do grupo, que eram o companheiro constante de Edgar, Hugh, um adolescente de olhar quebrado, vago; Violet, uma rapariga tambem inglesa, de olhos e cabellos castanhos, de andar suave, e fala cantada; e Helen, a predilecta de Maria Peregrina.
—Pois vou explicar-vos o Poema, já que desejaes interessar nelle, disse a portuguesa, sentando-se.
Conheceis, de certo, até pelas nossas conversas, a poetisa Sapho. Muito se tem escripto sobre ella. Não ha noticias claras da sua vida e obras. Pertence, principalmente, á lenda. As suasOdes, como cerca de setenta fragmentos reunidos nasLyrici graecide Bergk—não são de molde a dar notas seguras acerca do que foi.
Um facto é assente—o valor da sua extrema figura. Qual a reproducção mais legitima segundo a Arte? O Vaticano possue uma estatua de Sapho, sentada num rochedo, meditando; em Napoles ha uma pintura encontrada em Herculanum e um busto em bronze; modernamente occuparam-se della muitos auctores. Tenho reproducções dos trabalhos de Gros, Ramey, Duret, Diebolt, Clesinger, etc.Trataram em opera a tragedia de Sapho—Angier (musica de Gounod); e Salm (musica de Martini). A idéa dos seus presumidos defeitos deu ainda logar a um romance de Daudet—aliás inferior, pois que o artista trata incidentemente de Sapho em duas linhas, dando a Fanny Legrand, a heroina, aquelle nome, porque ella veste uma historia que tanto podia ser a de Sapho, como a de qualquer nevrotica, dada a volupias e violencias. O que é assente, emfim, é que a critica tem oscillado na sua maneira de entender a poetisa, sem ver nella o contraste do espirito grego num largo instincto de generalização e triumpho pelo amor exotico.
Assim a considero e vou cantá-la.
Para mim, Sapho foi a mulher de genio que acceitou como um facto a homosexualidade grega, o desprezo transitorio pela mulher, e tirou dahi estimulos para a sua campanha de amor, independentemente de preconceitos de sexo—fundando a sua escola para levar á civilização áttica a quota parte que lhe devia a adolescencia feminina, o mundo-feminino, em uma demonstração de vicio e genio que eram parallelos ao genio e vicio que contrastavam as maiores figuras do hellenismo.
Ver do conflicto entre o seu valor e o desprezo pelo sexo, sentir o culto de si propria,historiar e reproduzir a hypercivilização grega e fazer dessa mulher sublime o ponto culminante, a expressão de synthese da sensualidade dum povo que aspirava aocontrôleda civilização do mundo—tal é, meus amigos, a razão do meu Poema, a concepção do livro que tenciono publicar com o titulo—Nova Sapho. Porque é uma novaSapho, concluiu, a que espero desvendar.
Os presentes, desde muito industriados no amor lesbico por Peregrina, com leituras tendentes a desculpar-lhes o peor da vida hellenica, tinham preparação bastante a comprehender a tessitura do Livro. Applaudiam-no, sobretudo, pelo arrojo de lançar a publico a idéa dissolvente do amor extravagante.
Todos se mostraram surprêsos, mas cheios de admiração pela creatura invulgar que supremaciava sempre na roda em que estivesse, e que decididamente ia dar que discutir.
—Curiosa faina! dizia Edgar, baixando o olhar...
E todos se deram a commentar a intenção e episodios em que a auctora repartia os cantos, até que vieram as trez horas dissolver aquella inesperada academia, num collegio, a poucas leguas da utilitaria Londres!
A campainha badalára o signal para o banho. Alumnos e alumnas separaram-se em direcção ás respectivas piscinas.
** *
As casas de banho eram distanciadas, nas extremas do recreio. A dos rapazes era um alpendre espaçoso, com dois panos de tijolo, columnas e um coberto escuro de lousa miuda, que dava, de longe, por entre a ramaria, a impressão selvagem dum enorme dorso de crocodilo.
Naquella tarde, segundo o costume, os rapazes correram todos para o alpendre. Em minutos, professor e alumnos tinham despido os fatos. Tudo mergulhou. Só Edgar e Hugh se deixaram ficar junto ao tritão;—Edgar muito triste, distrahido, de busto inclinado, parecendo desembaraçar-se da roupa com desgosto; Hugh muito mirado no corpo do companheiro, já nu, de pé, attento e á espera para mergulharem juntos.
Soberbo quadro o dos rapazes que á beira do lago acamaradavam com o tritão, num grande contraste de belleza!
O Tritão era a força rude, o abraço forte da terra e do mar, meio-peixe e meio-homem, o genio mysterioso, assistindo interessado ao que os dois diziam, num silencio de confidente.
Hugh era a belleza vulgar, a media da belleza adolescente, firme nos traços, dumacarnação que era um calendario a marcar-lhe a edade, sem uma nota de imprevisto.
Pelo contrario, Edgar era a excepção:—a belleza áparte, no contornado do seu corpo branco, suavemente tatuado de veias roxo-lirio, sem um traço a mais, uma flaccidez destoante, um descuido de lançamento.
Inclinado, repuxava as pernas, deixando adivinhar as rocas perfeitas de seus musculos, que tão bem lhe jogavam a gentileza do corpo, forte e airoso, flectindo-o numa harmonia suprema de linhas.
—Que formoso és! disse o companheiro.
—De que vale sê-lo, reflectiu Edgar com tristeza. A natureza quando nos engendra devia logo equilibrar a alma com o corpo e eleger com as nossas tendencias a mulher de tendencias equivalentes que tivesse de pertencer-nos.
—Ah! exclamou Hugh, percebo. Estás apaixonado por Maria Peregrina. E querias que a natureza te destinasse em Londres uma companheira de Portugal...
—Não brinques. Sei que me é fatal o amor que tenho por ella.
—Que fazem? inquiriu o professor de natação, por entre os gritos e o espadanar da agua que sahiam daquelle lago.
Subito, os dois rapazes moveram-se como duas estatuas que resolvessem partir; levantaramas mãos em seta e mergulharam na primeira clareira.
A piscina era um lago de carne. Curioso espectaculo! Ephebos de jaspe, remando corpos desenvoltos... Eram os amantes aguerridos do heroe de Carthago; Apollo, Adonis, Ganymedes! Memorias tomando banho...
As piscinas destinadas ás alumnas eram abrigadas por uma casa ampla, repartida em cellas, com mobiliario e objectos ligeiros detoilette.
Havia duas tinas quadradas de dez metros e de diversa altura, para receber as alumnas, segundo o adeantamento em natação.
Abastecia-as de agua uma Esphinge de lavrado exotico:—cabeça de escocêsa, peito amplo montado em corpo de leão escanzelado, e tendo á laia de asas pennas ralas de milhafre. Era o monstro de Thebas peorado pelo canteiro inglês, vingando as victimas do Enigma.
Certo é que a filha de Typhão parecia ter resurgido do mar e, esquecida do aggravo de Œdipo, golphava da boca larga e mal talhada columnas de agua.
Á hora do curto dialogo de Edgar e Hugh desciam as raparigas ás piscinas.
Lestas, seguiram quasi ao mesmo tempo para o patim da tina alta. Entre Helen e Violet ia a portuguesa. A brancura das inglesasemprestava luz ao corpo de mel de Maria Peregrina, que sobresahia pela desenvoltura de linhas. Todas usavam um calção curto e camisolim decotado, justos. A malha de Peregrina era de seda morena, como o corpo que apertava. Não o escondia, sophismava-lhe a obrigação do vestuario, tornando-a mais bellamente nua.
No patim as três hesitaram; depois foram descendo. A ultima a entrar foi Peregrina que impelliu Helen, suavemente, pelas ancas; segurou, distrahida, o cabello farto, anelado e selvatico, e ficou-se a seguir com o olhar o corpo branco da companheira, a boiar na tina funda.
Só, de pernas colladas, braços levantados como segurando a cabeça esbelta, Maria lembrava um gomil precioso de olaria rica que um principe tivesse ido encher ao lago e ahi esquecesse.
Foi a ultima a entrar e a primeira a sahir. Deu volta ás duas tinas, arando a agua em sulcos dum desenho desmanchado e sahiu, mau grado os protestos das companheiras.
Um quarto de hora depois partiam todas para as cellas-barracas.
Helen ia a entrar para a sua, mas recuou, suppondo enganar-se. Estava occupada por Maria Peregrina que acudiu a chamá-la.
—É esta a tua barraca, informou, abraçando-a.Sahi mais cêdo do banho e vim para aqui para te enxugar com beijos.
—Olha que estou molhada, dizia Helen, achegando-se do lençol.
—Estás molhada? Não importa. Deixa morder o teu corpo velludoso de asclepia. Tenho sêde para te beber toda, dizia de olhos chammejantes, fremindo os labios pelo corpo branco-humido da inglesa.
E sorvendo-lhe as extremidades crestadas do peito:
—Sabes a historia destas lindas nodoas? Não sabes, minha tonta, vou contar-ta.
São dois peccados. Deus tinha apartado uma nuvem branca para fabricar petalas de magnolia. Sabes que não se pode tocar em taes flores; escurece-as um carinho.
A sua mão deu-se a modelar-te, por capricho daquella massa—a das flores sensiveis.
Pôs um cuidado especial no peito que te repartiu em globos medidos pela sua mão divina, e a que deu a maciez das petalas e o calor das rôlas.
Pois o maroto de um anjo que o viu distrahido foi, guloso, dar-lhe dois beijos. São estes pedacitos crestados, rematados por agulhetas finas, que ainda ha pouco pareciam romper-te a malha e me beijaram quando as beijei.
—Muito interessante o conto, commentou a inglêsa, rindo.
E abrindo os braços:
—Venha de lá esse lençol de beijos. Quero sentir os labios que dizem tão lindas historias...
** *
Passaram mêses. Uma tarde, estava Peregrina no quintal a tocar violino junto á Fonte Verde, de costas para a alameda, quando ouviu a folhagem...
Voltou-se.
—Ah! és tu? disse com enfado a Edgar, que avançava para junto della, sentando-se á beira da Fonte.
—Sou eu que estou aqui a ouvir-te ha muito tempo. Que bem comprehendes o violino!
—Então, dize o contrario, que bem que o violino me comprehende, respondeu ella, pois que improvisava musica sobre motivos meus.
—Era uma despedida—a despedida de Helen, não é verdade?
—Era, sim:—anesthesiava-me. As ondas de musica podem ser ondas de ether para a Artista que pudér bem mergulhá-las. Por mim não posso. Não sei esquecer, pois que despendo bastante trabalho a fixar... E o culto que tenho pela musica não vae até apagar-me os defeitos ou virtudes do temperamento.
—Tens então muitas saudades de Helen? Dentro de breve tempo estará ella nos braços dumgentleman. Conheço John Brooke de casa de meu pae. É um diplomata muito querido da aristocracia. É bastante mais velho do que ella, mas hãode ser felizes. O casamento foi arranjado pelos paes. Mas, a proposito, deve dizer-se que ha paes que acertam... A que melhor podia aspirar? Bem sei que te dóe a sua ida. Persistes em negar a natureza. No fim ha de succeder-te o mesmo; regressarás a ella mais cedo ou mais tarde.
—Não fales assim, Edgar, se tens algum empenho em ser-me agradavel. Tem caridade comtigo.
—Sabes, Maria, que é por caridade para commigo que penso assim. Por caridade commigo e por amor de ti. Ha que tempos te amo! Chegava a ter ciumes de Helen, que entrava passivamente nas tuas loucuras. Conversava-a sobre os vossos delirios. Tinha um prazer amargo em acompanhar pela dor o vosso fremir de corpos, que nunca podiam casar-se. De toda a tua philosophia só para mim resultou um bem:—estar ao pé de ti, ouvindo os echos duma alma a despedaçar-se num conflicto que tem um unico suppuradouro—o teu talento. O encanto que derramas não podia vencer a natureza, subjugando a mulher que escolheste. Conversa-a daqui a mêses. Creioque o casamento é breve. Verás que mal se recorda do amor em que a usavas. Ah! mas o encanto das tuas palavras, como o talento dos teus defeitos não se perdeu. Tenho tudo no peito. Tinhas ao teu lado alguem que te amava religiosamente...
—Sem me comprehender, objectou Peregrina.
—Não digas isso. Amar é comprehender. Vê como eu, do Norte, me sinto meridional ao pé de ti, só para te pedir um pouco de tolerancia para este amor que recebes como um peccado. Dize o que queres que faça para merecer-te!
Queres que a teu lado seja o pregoeiro do amor exotico, explicando que os nossos corpos se não entendem; que os nossos laços são um commercio do espirito? Comprarei essa mentira por toda a casta de infamia, e irei, de alma lavada, prostituir-me ás casas de pederastia que houver ou tivermos de inventar. Como esbanjas a fortuna dos teus encantos! Tens o talento de te fazer amar, mas não sabes amar...
—Basta, Edgar! Bem dizia eu:—não me comprehendes. Não extranho. Eu sou, de facto, um enigma, o arremêdo da Esphinge, que o capricho dum canteiro exprimiu em pedra á beira do lago. Sou o monstro de Thebas, que resurgiu em fórmas novas. O que vês é omeu avêsso. Não me percebes! Não te devorarei, como o antigo monstro fazia a quem lhe não decifrava o enigma. Petersfield não é bem o monte de Thebas e a Esphinge de hoje tem de ser uma Esphinge civilizada...
Vou explicar-te o enigma que sou. Dizer-te como sou.
Tenho a cabeça das mulheres de Granada, talhada em sombra e sonho; o peito é português; assento o busto no torso de Leão, que é do escudo das minhas armas e das armas da Peninsula,—a bravura do Ocidente; as minhas asas são o genio judaico—a tara duma raça, perseguida, que ninguem acceita, que não acceita ninguem...
—Vamos daqui, Edgar, concluiu num riso amargo.
—Maria, pediu o irlandês, um instante apenas!
—Vamos!
E partiram os dois, silenciosos, perdendo-se no borborinho dos que batalhavam otennisnum recanto do recreio...
** *
Passou um mês. Chegou a noite de nupcias de Helen.
Meia noite. Maria escrevia sem cessar desdeas 9 horas. Subito sentiu mexer na porta. Levantou-se e foi abrir.
Á porta estava Edgar, a tremer de commoção, cingindo uma capa leve, redonda pelos joelhos.
—Entra, disse-lhe Maria.
—É então certo, meu amor, que te condoeste de mim? Imaginei ao ler o teu bilhete que não era verdadeiro. Não podia ser. Tu não podias querer-me. Quasi me não falavas depois que te revelei o meu amor. E assim, de repente, um recado para que te viesse possuir... Que estranha és! Que abençoado momento te inspirou, dizia elle abraçando-a... Foi o genio do amor que preside a tudo, que sabe quanto a minha vida te merece.
Mas, vejo-te tão morna, depois duma resolução tão nobre...
Maria, sê minha devéras. E conta-me o que te levou a chamar-me. Dize-me que me queres. Que sou o escravo do teu amor...
E, solto da capa, apertava-a contra o corpo, despindo-a, e listrando a beijos a sua carne morena...
E ella, afastando-o com mansidão, deslumbrada:
—Deixa-me ver-te com olhos de Artista. És bello, realmente!
E desapertando-lhe a malha lilaz:
—Despe tudo isso, quero ver-te bem. Ahistoria do bilhete é simples. Recebi esta manhã carta de Helen. Casou hoje. A esta hora deve estar com o noivo; lembrei-me de tirar uma copia do casamento... Quiz ser possuida ao mesmo tempo que ella, e lembrei-me de ti!
Demais, sempre no meu ponto de vista de Arte, não me é indifferente noivar com um rapaz tão bello como tu.
—Maria! Despe a intelligencia e entrega-te! Veste, como eu, o espirito de animalidade, e deixa que a nossa carne se entenda.
E, abraçando-a, lançou-a sobre a cama estreita, collando a sua boca á della, e emmaranhando-se-lhe nos cabellos, que, desmanchados, desceram como uma segunda noite, a agasalhá-los...
Sobre a madrugada Maria Peregrina afastou, suavemente, os braços de Edgar e disse-lhe com fleuma:
—Vamos, arranja-te. Creio que não quererás que te procurem aqui.
—Conforme, disse elle, se o facto de nos encontrarem aqui nos obrigasse á união para sempre, gritaria já daquella janella o meu triumpho. Porque foi um triumpho para mim esta noite, não é verdade? dizia mordendo os labios vermelhos de Maria. Quebrei o Enigma. A Esphinge era uma mulher, embora a mais preciosa das mulheres, a unica que Deuspoderia dar-me e tambem a unica, Elle sabe, que eu lhe pedi!
Eu andava ha muito a procurar-me. Perdera-me a sonhar... Encontrei-me em ti. Vi-me á luz negra do teu olhar, fluido de amor e perdição. Os teus olhos são como o genio da aventura:—reflectem amor, lucto, Belleza dolorosa... Como sinto os enleios negros do seu fulgor, penumbras de sonho e loucura!
Vejo atravez delles a alma da tua raça—aquella que elles discorrem, fataes de amor.
Adivinho-me junto de ti na primeira hora em que viveste, aquella em que odiaste outra luz, e exclamo:
—Ahi está a Artista, uma Raça que vae chorar, cantando; recemnasceu o crepusculo do grande povo, aquelle que viveu madrugadas e vae morrer Poeta, amortalhado na sua alma de sombra.
No teu corpo de marfim e sêda, realizou o Divino da Belleza um sonho luxurioso, aquelle sonho que Elle viveu um momento, confundindo-se em ti, em mim. Escreveu na tua boca de dahlia a nova redempção—a prophecia de prazer que o universo syllába a mêdo e que os teus labios franzem, reprêsos de amor. A Vida é o Amor, o nosso Amor... Como recordo a Noite! Tudo o que havia de voluptuoso ella atrahiu e teceu, descendo, interessada, a possuir-nos.
Sinto o roçar velludoso do seu tecido de mysterio e vicio. E chego a ter zelos das suas caricias. Só tu devias ser presente. Eu proprio queria ser ausente... em ti. Houve no nosso amor um erro, o genio da tua carne que um momento interessou tudo!—Oh! como odeio a Noite, a sombra immensa de todos os delictos e volupias que o Ceu espectra para vingar a pureza, a abstinencia eterna...
Soffro e amo o teu genio—o genio do erro que me faz abdicar de mim, mirado nos encantos da tua figura de chamma, ateada de imprevisto.
Como te amo! Transformas tudo. Se até solves a nevoa que turva o olhar da minha raça!...
Vê como eu, que sou da nublosa Irlanda, me sinto peninsular ao pé de ti...
Mas que passividade é agora a tua? Então, minha querida, fala! Olha que já não és a Esphinge...
E, tocando uma minitura de esmalte, florida de diamantes:
—Deixa ver isto; quero ver, com vagar, o teu unico traje desta noite. É lindo vestir sómente uma joia na noite de nupcias.
E reparando:
—Ah! é a Sapho de Pradier.
Perdôo-lhe porque esteve calada... Foi discreta.
—A peor Sapho para ti, Edgar, não foi ella, fui eu. Digo-te, com desgosto, que a Esphinge permanece. Nem um só minuto vasei a minha alma na tua!
Não me arrependo do que fiz, pois que consegui o que esperava,—soffrer. Foi uma noite que sacrifiquei á minha saudade. E deu-me volupia o soffrimento, como dá sempre. Mas lembra-te de que te vejo hoje peor do que nunca. Eu sou como os aleijados que não perdôam aos que possuem corpos sãos. A minha alma é doente, não perdôa a tua alegria em possuir-me á custa dum prazer de que eu soffri o avêsso—ondas dum horror que hade durar...
—Por quem és, não me relegues ao inferno depois de possuir-te. Irei para onde fôres. Já ninguem nos separa. Respeitar-te-ei todos os caprichos, até loucuras, que eu sei que o genio as tem... Só uma coisa quero—o direito de fundir a beijos o teu corpo...
—Basta, Edgar! disse ella, dando-lhe a capa e acompanhando-o até á porta. Deixa-me! Não exasperes a minha sensibilidade, duplicando o meu horror por ti. Vae!...
E, fechando a porta sobre Edgar, que descia cauteloso e somnambulo a escadaria, foi, semi-nua, como estremunhada, procurar no segredo dum movel o retrato de Helen, que ficou a fitar por largo tempo.
** *
No dia seguinte tentou Edgar falar-lhe. Queria discorrer sobre a noite antecedente, aquella noite que lhe custara canseiras e milagres, pois que teve de atravessar pavilhões ás escuras, saltar e assaltar janellas, resolver difficuldades, até que, vencida a mulher dos seus desejos, a via, de subito, despedi-lo como uma creatura desprezivel, porque a amava!...
Que extranha aventura! Podia ser? Mas quando ia para se approximar, sentia uma tal commoção... depois, parecia tão firme o proposito de Maria em afastá-lo, que elle proprio, sentindo por si a repugnancia que lhe inspirava, era o primeiro a fugir, corrido.
Succediam-se os dias até que Edgar soube por Violet que Maria Peregrina ia sahir do collegio no sabbado seguinte. Assim o fôra participar ao director. Era uma segunda-feira.
Edgar, desesperado, tentou o ultimo reducto. E, decidido, procurou a hora em que Maria, segundo o costume, ia abancar junto á Fonte.
Estava lá, de facto. Viu Edgar e baixou os olhos sobre um livro que tinha aberto, sem ler.
Elle chegou junto della e começou a falar-lheresoluto. Mas, pouco e pouco foi perdendo a serenidade, ao passo que ia lendo na physionomia da amante o horror que lhe inspirava.
—Queria saber, começou, se era verdade que ella ia sahir do collegio. Tinha o direito de sabê-lo, pois que o acaso os juntára, e elle estava resolvido a seguí-la; uma palavra sua de amor, de benevolencia apenas, era sufficiente...
—Basta! disse ella, fitando-o com decisão. Não me canses.
E levantando-se:
—Respeita a minha sensibilidade, mesmo que não a comprehendas. Deixa-me!
E metteu pela ala da esquerda, deixando Edgar aturdido, junto á Fonte.
Na manhã immediata, elle levantou-se cedo. Foi para a casa de estudo e escreveu durante dois quartos de hora; a seguir foi á sala das armas e dahi para a quinta, onde passeou até ao almoço—oito horas e meia.
Acompanhou as aulas até á uma hora. Foi ao dormitorio vestir um fato ligeiro defootball, mas mal entrou no jogo. Falou por espaço de meia hora com Hugh; e emquanto este seguiacom os demais alumnos para otennis, Edgar desceu rente ao muro, a internar-se nas sombras.
Passado tempo ia Maria Peregrina para junto da Fonte. Levava o violino para tentar um trecho de Wagner, em que Edgar tinha falado.
Momentos antes, dissera a Violet:
—Afinal, é sensibilizante a amargura do pobre rapaz, mas não posso soffrer o horror que me causa a perfeição daquelle systema de nervos tão bem ajustados a um corpo magnifico, e tudo ao serviço dum amor normal, duma animalidade de cavador!
De repente avistou a Fonte, e, a seguir, um corpo estendido a alguns palmos da vasa. Apressou o passo: era Edgar!
—Edgar! Edgar! chamou.
Nada...
Sacudiu-o, e o corpo abandonou-se-lhe. Maria Peregrina, recuou; pôs-se a examiná-lo: estava de bruços, com o ouvido direito collado á areia, o braço esquerdo ao longo do torso e o direito estendido para a frente, tendo na mão um revólver.
Percebeu então; estava morto:—suicidára-se.
—Pobre rapaz! disse a meia voz. Que lindo!...
Edgar vestia simplesmente:—camisola de sêda preta, calção de linho branco, e sapatosde camurça cinzenta, solados de borracha.
Assim viera do recreio dos jogos.
Maria Peregrina ajoelhou junto ao cadaver e metendo a mão pelo calção largo, pôs-se a afagar-lhe a coxa luzente. Depois flectiu-o, voltou-o, subiu-lhe a camisola até ao peito. Subito, deu com três cartas. Leu os endereços: uma era para ella! Lá estava na letra muito firme de Edgar, escripto o seu nome; as outras duas eram—uma para o director, outra para o pae, o sr. Buckley.
—Pobre Lord, exclamou, como hade ficar!...
Guardou a carta que lhe era destinada, e ficou a contemplar aquelle corpo, côr de tocha.
—Que bello, no seu ar de crepusculo! murmurou. Mas que rictus o da sua boca dolorosa!
E, de repente, como obedecendo a uma força intima, baixou-se mais, beijando-lhe a pelle de cera; cahiu sobre o cadaver, soergueu-lhe a cabeça, collou os labios á boca-lilaz do morto, e ficou por minutos como que adormecida sobre elle...
Depois levantou-se, examinando a mão e o braço com que o soerguera. Sentira na mão um liquido; era o sangue que borbulhára do ouvido direito do suicida.
Pousou outra vez na areia, a cabeça deEdgar. Foi lavar-se á Fonte; compôs o cadaver e ficou ainda uns minutos a contemplá-lo.
—Que lindo estás! disse-lhe, quasi ao ouvido; e como gostaste dos ultimos carinhos! Já não tens o rictus de ha pouco...
Leio as nossas pazes á luz roxa do teu sorrir de morto!
E beijando-o:
—Parto contente. Adeus!