VDias depois do drama de Petersfield, estava Maria Peregrina installada na Praça de Trafalgar, em Londres, no Hotel Metropol.Acompanhava-a Violet, que sahira do Collegio com ordem da familia, ordenado estabelecido, e auctorização de seguir com ella durante o tempo do contrato—cinco annos.Ás tres horas, veiu um creado annunciar a chegada duma carruagem.Violet compôs atoilettede Maria e esta sahiu depois de breves recommendações.—Manda seguir para a avenida Northumberland, n.º 1013, disse ao trintanario.Pouco tempo depois parava a carruagem.Maria Peregrina entrou no vestibulo da casa indicada.Perguntou se estava Helen Brooke e entregou um bilhete.—Vou ver, disse o porteiro.Voltou dahi a pouco, e informou:—Está, mas não recebe.—Como assim? inquiriu Maria.—Foi a ordem que me deram...—Manda andar para o Hyde Parck, disse ao trintanario, já na rua, voltando as costas ao porteiro.A carruagem seguiu.** *Na manhã seguinte, ás nove horas, trabalhava no gabinete de estudo, quando chegou o correio.Dentre o maço de correspondencia, foi extremando as cartas de letra conhecida. Leu-as com vagar e interesse, sobretudo as que vinham de Petersfield, dos antigos companheiros de collegio.Passou a abrir as revistas, maços de livros, etc. Dentre as cartas desconhecidas tomou uma, ao acaso. Foi ver a assignatura. Leu com extranheza: John Brooke.A carta dizia:«Estava hontem em casa quando V. Ex.ª veiu para visitar minha mulher. Fui eu quemprohibiu que fosse recebida. Helen pôs-me ao facto das antigas relações entre V. Ex.ª e ella. Porque me não convem nesta casa, entendi dever dar-lhe parte da minha resolução».Maria Peregrina leu com attenção a carta. Releu-a, como se quizesse certificar-se da primeira leitura e escreveu por minutos.Depois chamou:—Violet!A inglesa appareceu quasi logo.—Lê; e estendeu-lhe a carta de Brooke. Ahi tens a explicação da forma porque fui recebida.Agora vê a resposta, e deu-lhe a folha recem-escripta.Violet leu alto:Meu caro Senhor!Sei o que Helen lhe disse, porque sei o que ella, incapaz de mentir, podia dizer-lhe—a verdade. Não posso culpá-la. Ella teve a sinceridade duma confissão que V. não merecia, pois a ouviu sem a comprehender. A circumstancia da minha visita e o supplementar da sua carta são para mim coisas minimas.Não tenciono voltar a procurar Helen. E como será a ultima vez que me dirijo a V., vou aproveitar o ensejo para lhe vaticinar que a sua conducta para commigo pode ter realizadoa intenção de magoar-me, mas não o defende.O temperamento de Helen não se fecha com prohibições e ordens como as que deu. E, se proseguir com ellas, peor lhe será. Helen dar-lhe-á o amor legal com um horror que no fim hade amargar aos dois.Da inalteravel amiga de Helen:Maria Peregrina.—Podes fechar a carta e sobrescritá-la, disse, quando Violet acabou de ler.E como falando só:—Que infelicidade a minha e a dos que me rodeiam! Comecei por matar minha mãe, para entrar no mundo! Perdi meu pae aos nove annos.Tenho no ouvido as suas ultimas palavras:—Hasde ser, como todos os nossos, infeliz. Não tive tempo de te quebrar o motivo das maiores desgraças—o orgulho. Demais, tens talento.Peor ainda:—talento e orgulho—o que terás de supportar!Cêdo o Acaso me accendeu a sensibilidade.A pobre Louisa Huley foi a primeira a soltar os amores doentios que eu tinha em mim.A fatalidade mandou-me da Inglaterra uma creatura para tentar-me.Acabo de receber carta della.Está perdida, vae para a Suissa tratar as ultimas esperanças de tuberculosa, e pede-me uma esmola!...E fitando Violet:—Não te esqueças de remeter-lha.Helen, que foi a suprema alegria da minha vida, porque nós só nos alegramos quando satisfazemos vicios,—ahi está nas mãos dum inglês bruto, incomprehendida, bloqueada de ciumes e grossarias.Edgar—morto tragicamente junto á Fonte Verde, em Petersfield, e eu a detestá-lo quando o seu lindo corpo se encapellou na minha posse e a ter por elle, a partir da hora em que o vi morto, uma quasi paixão...Não imaginas como estava lindo, e sem se mexer, ali, á minha ordem. Ah! senti-o bem meu naquella hora que encherá uma parte da minha vida.Como soube ler-lhe o corpo!De quando em quando sentia barulho. Eram as folhas a bisbilhotar horrores contra mim!Eu tinha mêdo que revivesse, que a sua alma regressasse ao amor.Tu nunca amaste um morto!...Elle, muito languido, côr de sêda crua,a dar-se-me, passivamente, movendo aos meus delirios o seu corpo de ambar.Eu, muito collada a elle, falando-lhe, emprestando amor aos seus membros perros, lendo as linhas de sua nobre belleza—um Apollo de morte, a sentí-lo a sós, sem que houvesse ali mais do que eu propria e a sua carne...Oh! o delirio daquella tarde!—Nunca me mostraste a ultima carta delle.—Ah! queres vê-la?E depois de levantar-se a buscá-la:—Ahi a tens.Violet leu:Minha querida Peregrina!Morro amando-te. Quiz que soubesses que te comprehendi. Beijo-te ao partir. Olha que não levo resentimentos. Sei que não podias amar-me. Que me concedeste o mais que podias conceder-me. Mas eu não podia ficar. Era doloroso sentir que te afastavas tanto de mim, quanto eu de ti procurava approximar-me.Creio que morto te não merecerei a repulsa que me tens dado.Presumo que sejas a primeira a visitar-me. Irei suicidar-me junto á Fonte, na idéa de que sejas a primeira a ver-me!Se assim fôr, ao menos então hasde pensarem mim. E podes vêr-me outra vez com os olhos de Arte, que já me não magôas. Pelo contrario, onde estiver, heide exultar de orgulho—se o meu corpo te der linhas perfeitas que entretenham por minutos a tua sensibilidade.Procura bem. Olha que a morte é carinhosa com a adolescencia. Eu heide ser bello, ao menos na hora do teu encontro.Vê-me bem! Se a minha carne te merecer um carinho, heide soffreá-la onde quer que esteja. Não quero que dês pela sua sensibilidade, encapellando-se de restos de amor, porque heide deixar-lhe ainda amor... Nem poderia levá-lo todo, tão grande elle é!Adeus, Peregrina. Parto com a alma que foi o teu pesadelo. Perdôa-lhe. O corpo deve estar em breve junto á Fonte. Tu amas a passividade, as linhas que podes submetter e emendar nos teus nervos.Possue-me, que eu devo ser um exemplar excepcionalmente tratado pela Morte. A Morte é tambem como tu—delicia-se, ceva-se na belleza passiva...Adeus, Peregrina!** *Um anno depois da sahida de Petersfield publicava a Artista aNova Sapho. O poemaacordou em Portugal applausos e protestos. Havia a corrente dos moralistas, escandalizados com os desvairamentos da Poetisa; e havia os camaradas serenos e prestes ao movimento idealista, em que o poema se integrava. Aquelles aferravam-se á conjectura historica e explicavam que a Sapho segundo os sabios não era a lesbia vicienta que a tradição tinha fabulado, mas uma viuva honesta, com filhos e netos, erudita e moral. Para os homens de letras mais attentos aos casos de sensibilidade, o poema era uma affirmação de temperamento—padrão de Arte excepcional que, pondo em foco a vida hellenica, devassava o fio conductor dessa vida atravez das civilizações.Certo foi que o poema, a despeito dos ataques á moral, desafrontada pelos folhetinistas dos diarios portuguêses, foi lido; a critica acceitou-o, e Maria Peregrina foi consagrada entre um cenaculo pequeno, mas escolhido de cultores e admiradores das Letras.Quando lhe falavam nos ataques dizia:—Estou como Liszt—Não me custa esperar. Não escrevo para a gente de hoje.Enviou exemplares a varios escriptores latinos e ainda a alguns da Allemanha e Inglaterra.Encontrou de tudo:—applausos, repulsa, bemquerença.De vez em quando, os diarios portuguêses insistiam nas primeiras campanhas, em homenagem ao lyrismo de 1850, e ás letras declamatorias do momento. Datam daquelle tempo as suas relações com alguns escriptores inglêses e designadamente com Oscar Wilde, com quem se correspondia.Em março de 1895 foi o escriptor prêso por accusações do Marquês de Queensbury. O perseguidor muito aferrado aoCriminal Law Amendment Act—fê-lo prender e julgar.Os debates deste processo, escandalosos pelas accusações e categoria do R., apaixonaram a opinião.Foi condemnado á pena de prisão por dois annos, que cumpriu em 1897.Maria Peregrina, defensora de Wilde, escreveu em inglês artigos e opusculos sobre o escabroso processo, já quando elle tinha cumprido a pena e abandonado a Inglaterra. Conhecida no meio intellectual de Londres, frequentava os salões onde se conversava Arte; ia aosclubs, especialmente aos de gymnastica, praticando estesport, e privando com camaradas em que descobria affinidades de vicio ou belleza.A edade não lhe contraordenava os propositos da adolescencia. Adulta, crescia em talentos e vicio.Aos intimos explicava:—Os meus talentos são os meus vicios, tratados pela imaginação.Horas tardas, quando Londres deixa osclubs,restaurantse theatros, Maria Peregrina sahia só ou com Violet a frequentar o que ella chamava os Templos da Noite.—A Noite faz em mim o dia, affirmava. Á hora em que tudo está alegre soffro eu a minha Arte. É nella que emprego os dias, pois que é de todos os soffrimentos o mais voluptuoso.Horas mortas tornejava a oeste deTrafalgar square, porHaymarket,Picadilly, sob as arcadas dePall Mall, errante por entre o rancho de bacchantes, perdida na onda de luxuria que é Londres a taes horas.Frequentava tudo—oSavoy,Empire,S. James,Alhambra, as ruas onde as retardatarias entretêem a fome, sorrindo a quem passa, os logares onde havia luxo, miseria, erotismo, alcool...Os inglêses, affirma Stendhal, serão os ultimos a acreditar no inferno. E, por isso, elles, sem o entrave religioso que embaraça os outros povos, soltam á vontade o seu desejo animal, num desdobramento que excede tudo.Eram estes requintes que Maria Peregrina apercebia e queria viver.Wilde tinha-lhe escripto um dia:—«Aquelle que se entrega absolutamentea si proprio, não sabe nunca aonde vae parar».Queria lá saber aonde iria ter?O que desejava era calar os nervos, a sêde de imprevisto, que a queimava intimamente. Sahia a explorar a noite. Pelas ruas havia renques de mulheres, duma fealdade de arrepiar, ao lado de creaturas mal crestadas do tempo, nas quaes a belleza persistia, apesar do vicio e das doenças.Não era a belleza graciosa, que contrastava a mulher de alguns paizes, nem a classica, nem a sensual que caracterisa o mundo feminino do Oriente, ou a belleza crepuscular do Ocidente e Sul—a belleza que ella encontrava nas poucas mulheres formosas da Inglaterra.Era uma belleza especial—a que adstringia á raça, expressiva de falsa innocencia e suavidade.Tratava de afogar os desgostos em sensações novas, e dahi andar pelas ruas onde excepcionaes figuras erravam como sombras, a commerciar toda a casta de prazeres. Mulheres duma brancura de linho, carnações de lirio e dahlia, de olhos anilados e estrigas de cabello oiro-fulvo, passavam bebadas nas esquinas, dispersando a alma em risos idiotas. Ia no seu encalço, interessada pela historia daquellas marafonas, que pareciam ter descidodo Ceu por tentarem santos e que os homens desprezavam...—Ah! o peccado da terra está em não aproveitar bem as creaturas, dizia. Estas, são as flores da rua, que valem bem mais do que as que se abrigam sob o crystal das melhores casas de Londres.Colleccionava as mais perfeitas para uma especie de harem, onde passava em serão algumas noites, emmaranhando, tecendo a sua vida com a desgraça dellas.Conhecia a geographia dos bairros mais mesquinhos da City, percorrendo-os a miudo, bem como os prostibulos onde se vendiam as mulheres de preço.Ora arrastavatoilettesda maior elegancia pelo Savoy, ora ia, modesta, irmã das sombras, conversar as mulheres que viviam os prazeres da noite, mais rasteiros e humildes.De longe em longe, combinava com Violet e iam as duas pernoitar com moços de acaso.Percebia que as relações naturaes lhe acalmavam os nervos.Então, deixava-se abordar pelo mais novo dos presentes ás sucias da noite.Guardava silencio sobre o nome. Preferia mesmo entregar-se a viajantes, que ao outro dia perdesse na confusão de Londres.E sahia, enjoada, com odio ao sexo, exasperada daquellas horas batalhadas com extranhos,duma luxuria que lhe era necessidade e tormento.—Usei hoje o meu amargo, dizia para Violet.O amargo era o commercio sensual com o homem, que tinha como remedio.Do mesmo passo que percorria o peor de Londres, partilhando o muito que ali havia de perversão animal e vida exotica, tinha em cuidado não perder uma nota da vida superior do grande centro—instruindo-se, apontando tudo, e adaptando-se ao luxo e requinte aristocratico da terra tradicionalista por excellencia.Tão depressa era a mulher que se confundia por entre o bosque de gente que se apertava nas ruelas miseraveis de Whitechapel, como a mulher de aspectos nobres, com geitos de duquesa, que passeava a sua prosapia de peninsular para além doStrand.No meio em que era conhecida fazia-se excepcionalmente admirar pela fidalguia de maneiras e talentos e pelo encanto da sua palavra de superior.Apesar dos desequilibrios de creatura insexuada, delirando perversões, nunca perdera o geito fidalgo da sua bondade.—A bondade, dizia sempre, creio que virá a ser a minha jangada de salvação.E, de facto, no privar com gente miseravel,que recrutava nas ultimas camadas, jámais deixava de ferir a nota da commiseração, estipendiando o infortunio com dadivas que lhe inculcavam fidalguia e a procedencia portuguesa.Um facto havia a salientar nesta maneira de praticar beneficios:—a predilecção pelos desgraçados mais abjectos.Para ella não havia criminosos, havia desgraçados. E os que cahiam na alçada da justiça ou no odio da opinião eram sempre os mais sympathicos e dignos de affecto.Londres é a cidade do apostolado. Planta-se uma Religião a cada esquina. Confundem-se nella cultos, ritos, seitas. É a Babel da Alma. O ceu da alma inglesa é nevoento como o ceu de Londres. Segundo uma estatistica de poucos annos, havia em Inglaterra e Galles 34:467 casas de religião—das quaes 14:077 eram officiaes.Maria Peregrina ia muitas vezes assistir ás praticas e devoções religiosas.—Ando a procurar a minha religião, dizia, e não encontro senão farrapos della em credos oppostos!O ultimo tempo que viveu em Londres foi num torvelinho de misteres desencontrados, á mercê dos nervos.A sobreexcitacão não lhe dava treguas.—Se me aquieto, morro do mal-de-viver, acudia ás observações de Violet.Frequentava cursos de linguas, de Philosophia, de Arte e deSport; escrevia; passava, invariavelmente, duas ou tres horas—procurando «o aperitivo sensual da noite»—um caso exotico que lhe aquietasse a ancia infinita de viver, de soffrer, e recolhia tarde a dormir pesadelos,—rebates das canseiras do dia.Adoeceu. Era inevitavel, diziam os medicos. Não sabe quem é, para onde segue. Precisamos de tratar-lhe a sensibilidade.E receitavam calmantes, repouso—o inverso da vida que levava.Um mês depois levantou-se. Estava alquebrada, mas o tempo primava em lhe conservar a belleza, em desconto das infelicidades.Deu-se por esse tempo um acontecimento decisivo para ella.Paris intellectual, benevolo e esquecido das miserias intimas de Wilde, offereceu-lhe uma festa.Peregrina encontrou no acontecimento um ponto de sahida da antiga vida de Londres. Associou-se aos camaradas de Paris e partiu a tomar parte na homenagem.—Adeus, meus amigos, dizia abraçando diversos artistas, despedindo-se. Não voltarei. E, no entanto, presinto que serei tanto maisinfeliz quanto mais me desviar da Inglaterra. Aqui deixo o melhor e o peor da mocidade...VIDepois de curta passagem por Paris, Berlim, Scandinavia, Roma e Napoles, entrou Maria Peregrina em Athenas, na tenção de demorar-se. Violet acompanhava-a.Vivendo a Grecia antes mesmo de a ver, sentiu á chegada uma grande commoção de quem encontra uma terra desde muito seguida em espirito.O mar da Grecia não tem a côr desbotada da massa de agua no mar alto. Toma, á approximação do Archipelago, nova designação e tinta, como prestando homenagem á velha Hellada.É um mar de lazulita, seguindo o recorte da Grecia em que salienta a gloriosa Athenas, branca em seus edificios de marmore de Pentelico e Paros.Aportou a Phalero.A breve trecho, entrou na antiga capital da Attica, que se estende num desenho largo—terra de neve pela brancura do marmore, e uma verdadeira Heliopolis, plena de sol.As casas são a renovação da architectura grega, copias das antigas marcas do genio hellenico, a que preside a Acropole, vasta cidadella dos tempos gloriosos, da edade de oiro.Maria Peregrina e Violet foram hospedar-se no melhor hotel da rua do Stadio.Dentro de breve tempo Maria tinha entrado em sua vida normal, despendendo nervos e tempo no encalço duma felicidade que só de passagem encontrara.A mais do que as outras cidades que percorrêra, Athenas dava-lhe as sombras dum passado que ia referindo aos pontos que lhas recordavam.—É aqui que eu tenho de estudar, dizia, a geographia da Belleza hellada—synthese de toda a Belleza terrea, com parentesco no Ceu.Suppunha-se nos velhos tempos de Athenas e ia pela Acropole, ao entardecer, memorar espiritos desencontrados, poesias fragmentadas de Sapho, a catechese do segundo genio da Egreja—Paulo, tudo o que podia acquiescer ao seu talento aventuroso, perdido na ancia duma perfeição morta.Deu-se a estudar a lingua grega; ia visitar os museus; matriculou-se na aula de Arte; procurou a todo o transe encher o tempo, a ver se a occupação obrigatoria lhe entravava os nervos.Nos dias em que tinha de feriar o espirito de lucubrações eruditas ou artisticas, ia visitar as ilhas proximas, ou até Phalero, ouvir o mar.Mas não havia occupação, por mais interessante ou impertinente, que lhe aquietasse o gosto, exigente de origem.Por toda a parte encontrava suggestões á pratica do vicio lesbico, sem que volvesse a encontrar a passividade amoravel de Helen, dando-se-lhe num corpo que era o sonho da sua alma ocidental de decadente.Pelas ruas deparavam-se-lhe moços espartanos ao lado de raparigas esbeltas, de saiaes tufados, redondos pelo joelho, com o kepi grego de borlas, de jalecas curtas, segurando peitos cheios.Mulheres e rapazes de Corfú, e demais ilhas proximas, passeavam corpos e trajes bizarros, que prendiam aos restos duma civilização de requinte.Tambem a flora de Athenas parecia prender-se á decadencia daquelle solo que fôra a joia do vicio no reinado da Attica.Tudo a inculcava como um marco da velha cidade da carne e da orgia.No entretanto, Peregrina, admirando aquella belleza, prodiga de imprevisto, não a sentia. Era uma belleza que suggeria, não a apaixonava.—Toda a parcella de belleza se gasta ou transforma, dizia. Não ha belleza em porções, permanente. Ha unidade no Bello, o que é diverso.A velha Hellada desmanchou-se em holocausto ao mesmo hellenismo. Era preciso assim. O proprio desmancho e renovação de civilizações, o caldeamento do sangue, transfusão das raças, e mistura de genios, é que asseguram a unidade da Belleza, na sua concepção liberta.Em rasão desta unidade, explicava a Violet, foi que eu, do Ocidente, encontrei o meu elemento affim numa raça que me era apparentemente opposta. Posso encontrar noutras creaturas condições de maior belleza, á face da Arte. Mas o meu defeito de superior faz que o meu procedimento seja cego em materia de sensibilidade. Ha em mim uma força cujo motivo mal sinto no vago da consciencia, e que é cega e me cega, que escapa á minha reflexão e não me consulta, caminha, não pede, exige.—É que te apaixonaste por Helen, não vês mais ninguem, considerava Violet.—Mas sei lá porque me apaixonei por ella. Se ao vê-la hoje não sentiria afundar-se todo o meu passado num mar de nojo feito do amor que lhe tive e das complacencias que me deu...Violet procurava sondar os desesperos de Peregrina, e tomar o logar de Helen. Impossivel! Violet era para Peregrina a escrava, que usava á falta doutra em suas perversões.Helen era um abysmo de alegria, um corpo de risos com nervos de seda.Era o melhor e peor duma raça que, junta a ella, estreitava o abraço de duas civilizações a suicidarem-se...—Ah! se ella tivesse vindo commigo, dizia Peregrina, como eu reveria a velha Hellada!... Só vê bem quem recebe suggestões para produzir. Mas só produz quem ama. E só ama quem possue...** *Havia em sua alma, sedenta de exotismos, intervallos duma ternura de creança, em que se dava ao culto da simplicidade, tecendo obra ingenua.Datam da sua estada na Grecia, e mercê daquellas horas, os versos que juntou num livro curioso, a que chamou—O Livro das Creanças.Os titulos dos capitulos indicam a sua indole. Assim, havia nelle—A historia duma gota de agua,Aventuras de uma aresta,Aconta de crystal,Hostia de oiro,A camelia côr de mel, etc., assumptos innocentes, pontos pequenissimos de partida a uma philosophia de desvairamentos para auxiliar os vôos da imaginação infantil, isto vasado num metro facil, dicção correntia.Mas sobre esta innocencia apparente, todas aquellas historias eram um hymno á Fatalidade, tecidos dum maravilhoso novo,—expressões simplistas dum espirito doente.AArestada historia era uma heroina, de formas pequenissimas e de alma grande que o vento, as chuvas, a tempestade metiam em aventura á mercê do Acaso, que é o genio das coisas.AHostia de oiroera o Sol que um negro do Senegal perseguia no poente, andando de terra em terra a ver se o colhia para commungar com os da sua tribu—caminhando por montes altos quando elle tombava, até que morreu de desespero e saudades em uma terra do Norte, deixando-se matar e enterrar pela neve quando viu que, depois de dois mêses, a linda hostia não apparecia. No dia seguinte, veiu o Sol a sorrir, desenterrando o negro, solvendo a neve, envolveu-o num resplendor de luz e fez delle uma estrella, que ficou no ceu a velar a sua raça côr de fuligem e muito especialmente aquella tribu.A historia daCamelia côr de melresumiao episodio duma rosa do Japão que se condoeu dos amores dum indio desprezado por uma mulher branca e trocou a côr com ella. E assim as restantes.** *Passado pouco tempo da entrada na Academia, já Maria Peregrina estava relacionada com varios camaradas, que logo deram pelo seu talento.Era o tempo em que os extrangeiros mais acudiam a Athenas a seguir os cursos de Arte. A mesma razão que levára ahi Peregrina detinha lá tambem alguns delles, vivendo por educação ou atavismo memorias da velha Grecia.Não lhe foi difficil dar por aquelles que mais se lhe approximavam em perversão e requintes.Dentro de pouco era intima da Princesa de Tuscolo, uma italiana de 35 annos, principalmente gastos em passeios de luxo e prazer e dum russo, pouco talentoso, mas culto, homem de 29 annos, com grande fortuna e ancia de imprevisto.Iam muitas vezes para Corintho e Corfu, inventando romarias a que não faltavam luxurias.Mas sempre a mesma sombra de tedio vinha escurecer a imaginação de Maria Peregrina, findos os passeios; é que tinha de roçar as scenas vulgares do que ella chamava a torpeza civilizada.Uma tarde em que foram todos ao Stadio, vasto circo de feitura recente, para arremêdo dos antigos exercicios olympicos, Maria propôs que se arranjasse uma casa onde pudessem commungar sensualidades.Foi a proposta acceite. E a casa ficou a chamar-se desde logoTemplo de Amor.Era nas immediações de Athenas, a caminho de Kefissia.Ficava numa encosta, emmaranhada de arvores.Tinha por fóra o geito grego—cujo risco fôra executado com escrupulo.Dentro, o aspecto dum templo.Havia ali reproducções em marmore da Venus do museu de Napoles, de Milo, Medicis, Capitolio e Troia; de Apollo, e três estatuas de Sapho, salientando-se a de Pradier, que, dum estrado alto, curvada, parecia presidir ás danças orgiacas, que a sua memoria suggeria; finalmente, uma larga profusão de espelhos, luzes, e instrumentos de musica, sobresahindo harpas, lyras e psalterios.Astoilettesda chegada, no dia da inauguração, lembravam as das velhas festas daHellada, pelo esmero com que haviam sido reproduzidas.Só Maria Peregrina puzera um pouco da sua originalidade no vestuario, aliás riquissimo.Entrou coberta por umafalteta, á maneira das que usam as mulheres de Malta, refulgente de finissima renda e pedraria.Quando appareceu já oTemploestava povoado de adolescentes nús; tocavam as harpas muito casadas aos violinos.As luzes num grande desacordo de côr davam aoTemplouma refulgencia que fazia esquecer a Terra...A Princesa de Tuscolo e Ivanwitch, que tinham vindo antes, observavam os adolescentes. Alguns eram do Stadio, gymnastas ejongleursprecoces.Outros eram ingenuos camponezitos de Corfu; havia lindas raparigas de Corintho e um anão de Colonia, resgatado havia pouco a uma companhia de zingaros.Tocaram as harpas oCanto de Saphoe depoisRhythmos de dança, numa harmonia dolente.Maria Peregrina chamou duas negras, que, a um canto, cortavam aquelle mar de luz com os corpos de sombra, e entregou-lhes afalteta.O resto datoiletteera uma simples fitalarga, de velludo-musgo, que a enroscava desde o busto aos quadris.Tirou-a, mostrando as lindas formas em que sobresahia um ventre perfeitissimo, especie de salva de metal moreno fulgente, peitos de formas certas, que não temiam desmanchar-se no ardor da dança, e ancas sumidas, contrastes do typo extranho defemme-garçon, de geito a servirem a flexura rara do seu corpo resumante de sensualidade e adolescencia...Todos se desembaraçaram dos vestuarios. Era madrugada.Começou a orgia pelasDanças sensuaes. Extranha gente! Eram rapazes, flectindo corpos de belleza sobria, linhas puras de desenvoltura suave, sonhos de Aphrodite, animados; raparigas multiplicando as curvas ideaes de corpos de amphora, tudo o que havia de excepcional na concepção excelsa—a melhor argila, modelos supremos do Divino Oleiro.E, em contraste, como a desenhar o arabesco entre aquella floração de carne, diversamente colorida, volteava o anão, corpo curto, pernas rectas, movimentos perros mas certos, carne côr de cerveja, face de fauno que surgisse do bosque, avido de luxurias e se perdesse num labyrintho movediço de Belleza...Começaram as danças em homenagem aos manes da velha Hellada. A Athenas do vicioestava ali. A outra, a cidade nova, dormia somnos brancos, côr do casario.Peregrina dizia, rindo, para os tangedores das harpas:—De vagar, moderae os dedos.E para Tuscolo e Ivanwitch:—Se chega ao Parthenon o echo desta festa, temos ahi Socrates, a remir-se pela culpa, com uma fileira de sabios, deuses e artistas.E como falando comsigo:—No Parthenon é que a festa maxima terá de dar-se. É a primeira joia de Arte do mundo. Os deuses não a conservaram senão para que ahi fosse a grande festa pelo definitivo triumpho hellenista.Mas quando será?!** *Em 1900 resolveu sahir de Athenas.A 28 de novembro recebeu um telegramma de Robert Ross, annunciando que Oscar Wilde se encontrava em Paris, moribundo.O romancista, depois duma larga tragedia, seguida de peregrinações varias por Napoles, Corsega, Sicilia e Roma, foi fixar-se num modesto Hotel da rua das Bellas-Artes (Hotel d'Alsace), e ahi foi atacado da meningite que pôs ponto nas suas desventuras.Apenas recebeu o telegramma, Maria Peregrina partiu com Violet. E chegou a Paris quando Wilde entrava na agonia.Não o abandonou até 3 de dezembro, em que foi com raros amigos acompanhá-lo a Bagneux.Era uma triste manhã de dezembro.Á porta do cemiterio desceram a urna os amigos do Artista, conduzindo-o até á modesta sepultura, por entre fileiras de cruzes e arvores nuas de folha. Assim fez aquella travessia boa, decerto para elle a melhor. O tempo calára o vento e a chuva, como por gratidão ao amigo que tanta vez lhe emprestára alma.Maria Peregrina seguia o grupo, num passo senhoril, mas hesitante, pallida, arrastando sobre a greda um vestido negro cahido em tulipa.Era ao longe uma figura extranha! Dir-se-ia representar ali a vida do Poeta—misto de genio, perversão, orgulho.VIIDecorreram dez annos.Maria Peregrina passou á Scandinavia e depois aos pontos mais extranhos, errando pelaAsia e pela America, e vindo a fixar-se em Roma, onde viveu os ultimos dois annos. Não voltou á Grecia nem a Inglaterra.Em qualquer dos dois paizes espalhára vicios e mocidade, que lhe seria grato reviver, se o reverso das provações lhe não aguasse a saudade. Não era a desgraça da sua vida que ella culpava; era o rebate della nos meios que tentára, e tivera a ingenuidade de suppor benevolos.Ainda ultimamente lhe tinham sido devolvidos volumes daNova Sapho, que mandára para as Academias de Londres e Athenas.Esta devolução desgostou-a. Suppunha ter ali admiradores, amigos, que, afinal, a abandonavam, a vexavam.A dor é nos superiores dum effeito extravagante:—não os convulsiona, magôa-os ou transmuda-os. Ha casos, na apparencia pequenos, que lhes decidem o aspecto, que não mais os deixam rir sinceramente.Não era o caso: Maria Peregrina tirocinára desgraças desde muito nova, para succumbir inteiramente. No entretanto, sentiu-se devéras.Não a incommodava o debate que a publicação do seu livro havia levantado em Portugal. Considerava medianamente as letras da sua terra. Mas o significado daquella devolução nos meios deéliteque frequentára abateu-aextranhamente, profundamente. Queria reagir. Mas por mais que considerasse a justiça que lhe fora feita como Artista, sentia-se desfalcada, vexada, pelo desprezo que lhe votavam como mulher. Ella propria sentia em si duas entidades diversas—a que produzia, creava, e a outra, a que não conseguia libertar-se das offensas e intrigas das Academias. Um dos contrastes da creatura de genio é uma nota inferior—a crença na fatalidade.Muitas das infelicidades lançam-nas á conta do destino:—acceitam-nas serenos. Não assim as que batalham o seu amor proprio.A superioridade, é, como observa Nietzsche, o que está para além do homem. Mas isto que este pensa ao definir o valor alheio não o sente quando se contempla.Dahi o conflicto. O que produz, o que cria é o que está para além delle. O que discute competencias, e barulha vaidades é elle proprio,—o homem.Acceitar os talentos e discutir o caracter duma creatura superior é levantar competencias com ella propria:—desdobrá-la em duas figuras que o mais das vezes se desentendem.A superioridade é uma força áparte. O homem é que intenta dispor a seu talante daquelle valor; e, pois que reflecte a elevação duma intelligencia poderosa, pretende chamá-la a derimir os conflictos da sua sensibilidadede semi-Deus com a que inculca a sua qualidade humana.Afinal, por si se liberta. A sensibilidade do Artista é um excesso de vida emotiva, uma doença que lhe dá altas e baixas bruscas, e o quiéta quasi sempre num fundo de melancholia, que é a dor reflectindo a aspiração intangivel da fusão perfeita do homem e do Deus que elle apercebe para além de si.A valvula aberta a este estado unico de dor reside para o Artista na propria exteriorização da Arte. É então o semi-Deus, o creador librando-se para além da miseria humana...** *Maria Peregrina, ao receber os livros devolvidos, cahiu num torpor de doente.Demais sabia ella que no meio literario conhecido, por entre os applausos dos que a cercavam, havia más vontades, denunciadas em insinuações, e palavras equivocas.Dava por todos, pelos que lhe não perdoavam o talento e faziam da moral uma arma contra ella, e pelos outros, os que sinceramente a repulsavam pelo seu caracter de degenerada.No meio que frequentára em Londres, sentira dia a dia o reflexo dessa má vontade. Ultimamente, para não ser vexada, deixára de todo os salões particulares, onde perdera relações sem motivo, e donde se afastou para que a não afastassem.Na Grecia era tambem conhecida no meio academico pelo titulo do seu livro—Nova Sapho.Em Portugal continuavam as mais exasperadas campanhas.Impossibilitados de discutirem a obra no ponto de vista artistico, os jornalistas, a quem a critica estava affecta, davam-na como documento de autopsychologia, fundibulando grossarias sobre a mulher que tivera o ousio de escrever um livro, indice do mais torturado temperamento.Ah! ella perdoava que lhe não sentissem a obra. Mas o que lhe doia era o odio que lhe votavam pelos vicios, que amava além de tudo.—E nós a tentarmos obrigar o mundo a ver-nos com olhos differentes daquelles porque se vê a si proprio, commentava! Como se elle interpretasse a differença que fazemos em nosso favor! Emfim, heide ver se, ao menos, posso salvar o orgulho...** *Estes e outros factos, denunciativos da fórma por que era tida nos meios conhecidos, fizeram que nos ultimos tempos em que viveu em Roma se esquivasse aos homens de letras e demais candidatos ás generosidades dos seus talentos, e de sua fortuna. Não queria relações; cansavam-na os empresarios de festas particulares ou publicas.—Conheço, dizia a Violet, o bastante em cada cidade para me torturar sem prejuizo do amor-proprio.Sei de cór a geographia do vicio e da moral de todas as terras onde tenho demorado quarenta e oito horas. Dispenso informadores. Que necessidade tenho de acotovelar-me com as más vontades dos paladinos das convenções, uns tôrpes a occultas que nem têem a grandeza do bem, nem a coragem do mal?E, fiel ao programma, firmava-se no orgulho das fraquezas, tratando de alto os que se lhe abeiravam e fugindo a conviver.Foi neste tempo, nos ultimos três mêses que viveu em Italia, que urdiu o livro—A Emparedada, entre quedas bruscas do temperamento,dias de doença e horas de rememoração do drama de Petersfield e Londres.Este livro era a expressão maxima dos seus talentos, pois que era a dor dum temperamento doente, consumindo-se numa ancia de Arte. E, como tal, realizou o maximo de sinceridade.Era a Dor, traduzindo-se em melancholia e expressões imprevistas a beirarem a loucura, no encalço de soluções que derivava da tyrannia dos nervos, incendidos de desejo. O Poema foi escripto, composto e impresso rapidamente.—Não quero que a razão me estrague a obra, dizia.O seu valor, se algum tiver, deve ser o defeito que sou eu propria. Se me désse a scismar ácerca destes versos, emendava-os. Então o Poema não era eu, era toda a gente, a obra-synthese da Moral, da Arte, da Intelligencia que por ahi corre nas livrarias, academias, nos parlamentos, por toda a parte.Ah! não,A Emparedadaheide ser eu em conflicto com isso tudo.ANova Saphoha de vingar-se da estupidez com que a tratam, librando-se acima da torpeza moral dos que a reputam abjecta...E nervosamente, sempre que os maiores abatimentos lhe davam tregua, escrevia, desdobrando-se no drama das suas melancholias.** *Em abril de 1910 estava a obra impressa e distribuida.Dois mêses depois entrava Peregrina em Lisboa, seguindo immediatamente para o Minho, acompanhada de Violet e de Jacob, o anão resgatado á companhia dos zingaros.Foi em junho que nos encontramos em viagem e depois em Lares.Pouco tempo demorou ali.Dias depois de termos estado em Lares, morreu D. Maria Helena duma lesão cardiaca. Havia muito que a medicina de Guimarães tinha endossado aos santos esta cliente, excepcionalmente piedosa.E ella, muito de mal com a medicina, e sempre affecta ao Ceu, conseguiu viver seis ou sete annos mais do que a sciencia annunciava.O acaso, complacente com a devota, fez que a doença a victimasse a uma sexta-feira, depois dos exercicios do Coração de Jesus, confortada pelos sacramentos, indulgencias e rezas da Congregação de que era presidenta e benemerita.Entretanto, foi annunciada ordem de suspensão de missa a monsenhor Andrada.Chegára ao Paço archiepiscopal de Braga a noticia das suas homilias. Escandalizou-se o Arcebispo Primaz das doutrinas com que elle enchia as predicas; e, cuidando ser victima de informações erradas, officiou ao accusado para que as explicasse.Sinceramente respondeu Andrada, enviando resenha de algumas predicas, e o commentario dos pontos em que se desencaminhava dos sermonarios que tinham o beneplacito do Paço de Braga.E, insistindo nas suas maneiras de apostolar, declarava não se submeter a emendas em questões doutrinarias, pois que, accrescentava, tinha para si que os erros emendados ficavam mais compridos, e era peorar os seus humildes discursos—contradizê-los, aspando-lhes o unico merecimento que tinham,—a sinceridade que os urdira e expressavam.Não se fez esperar a suspensão. Foi para Lares, onde Maria Peregrina o tratava como pessoa de familia. Pouco tempo ali demoraram. Passados mêses partiam para Lisboa:—Maria Peregrina, Salomé, Violet, o padre e Jacob.
Dias depois do drama de Petersfield, estava Maria Peregrina installada na Praça de Trafalgar, em Londres, no Hotel Metropol.
Acompanhava-a Violet, que sahira do Collegio com ordem da familia, ordenado estabelecido, e auctorização de seguir com ella durante o tempo do contrato—cinco annos.
Ás tres horas, veiu um creado annunciar a chegada duma carruagem.
Violet compôs atoilettede Maria e esta sahiu depois de breves recommendações.
—Manda seguir para a avenida Northumberland, n.º 1013, disse ao trintanario.
Pouco tempo depois parava a carruagem.
Maria Peregrina entrou no vestibulo da casa indicada.
Perguntou se estava Helen Brooke e entregou um bilhete.
—Vou ver, disse o porteiro.
Voltou dahi a pouco, e informou:
—Está, mas não recebe.
—Como assim? inquiriu Maria.
—Foi a ordem que me deram...
—Manda andar para o Hyde Parck, disse ao trintanario, já na rua, voltando as costas ao porteiro.
A carruagem seguiu.
** *
Na manhã seguinte, ás nove horas, trabalhava no gabinete de estudo, quando chegou o correio.
Dentre o maço de correspondencia, foi extremando as cartas de letra conhecida. Leu-as com vagar e interesse, sobretudo as que vinham de Petersfield, dos antigos companheiros de collegio.
Passou a abrir as revistas, maços de livros, etc. Dentre as cartas desconhecidas tomou uma, ao acaso. Foi ver a assignatura. Leu com extranheza: John Brooke.
A carta dizia:
«Estava hontem em casa quando V. Ex.ª veiu para visitar minha mulher. Fui eu quemprohibiu que fosse recebida. Helen pôs-me ao facto das antigas relações entre V. Ex.ª e ella. Porque me não convem nesta casa, entendi dever dar-lhe parte da minha resolução».
Maria Peregrina leu com attenção a carta. Releu-a, como se quizesse certificar-se da primeira leitura e escreveu por minutos.
Depois chamou:
—Violet!
A inglesa appareceu quasi logo.
—Lê; e estendeu-lhe a carta de Brooke. Ahi tens a explicação da forma porque fui recebida.
Agora vê a resposta, e deu-lhe a folha recem-escripta.
Violet leu alto:
Meu caro Senhor!
Sei o que Helen lhe disse, porque sei o que ella, incapaz de mentir, podia dizer-lhe—a verdade. Não posso culpá-la. Ella teve a sinceridade duma confissão que V. não merecia, pois a ouviu sem a comprehender. A circumstancia da minha visita e o supplementar da sua carta são para mim coisas minimas.
Não tenciono voltar a procurar Helen. E como será a ultima vez que me dirijo a V., vou aproveitar o ensejo para lhe vaticinar que a sua conducta para commigo pode ter realizadoa intenção de magoar-me, mas não o defende.
O temperamento de Helen não se fecha com prohibições e ordens como as que deu. E, se proseguir com ellas, peor lhe será. Helen dar-lhe-á o amor legal com um horror que no fim hade amargar aos dois.
Da inalteravel amiga de Helen:
Maria Peregrina.
—Podes fechar a carta e sobrescritá-la, disse, quando Violet acabou de ler.
E como falando só:
—Que infelicidade a minha e a dos que me rodeiam! Comecei por matar minha mãe, para entrar no mundo! Perdi meu pae aos nove annos.
Tenho no ouvido as suas ultimas palavras:
—Hasde ser, como todos os nossos, infeliz. Não tive tempo de te quebrar o motivo das maiores desgraças—o orgulho. Demais, tens talento.
Peor ainda:—talento e orgulho—o que terás de supportar!
Cêdo o Acaso me accendeu a sensibilidade.
A pobre Louisa Huley foi a primeira a soltar os amores doentios que eu tinha em mim.A fatalidade mandou-me da Inglaterra uma creatura para tentar-me.
Acabo de receber carta della.
Está perdida, vae para a Suissa tratar as ultimas esperanças de tuberculosa, e pede-me uma esmola!...
E fitando Violet:
—Não te esqueças de remeter-lha.
Helen, que foi a suprema alegria da minha vida, porque nós só nos alegramos quando satisfazemos vicios,—ahi está nas mãos dum inglês bruto, incomprehendida, bloqueada de ciumes e grossarias.
Edgar—morto tragicamente junto á Fonte Verde, em Petersfield, e eu a detestá-lo quando o seu lindo corpo se encapellou na minha posse e a ter por elle, a partir da hora em que o vi morto, uma quasi paixão...
Não imaginas como estava lindo, e sem se mexer, ali, á minha ordem. Ah! senti-o bem meu naquella hora que encherá uma parte da minha vida.
Como soube ler-lhe o corpo!
De quando em quando sentia barulho. Eram as folhas a bisbilhotar horrores contra mim!
Eu tinha mêdo que revivesse, que a sua alma regressasse ao amor.
Tu nunca amaste um morto!...
Elle, muito languido, côr de sêda crua,a dar-se-me, passivamente, movendo aos meus delirios o seu corpo de ambar.
Eu, muito collada a elle, falando-lhe, emprestando amor aos seus membros perros, lendo as linhas de sua nobre belleza—um Apollo de morte, a sentí-lo a sós, sem que houvesse ali mais do que eu propria e a sua carne...
Oh! o delirio daquella tarde!
—Nunca me mostraste a ultima carta delle.
—Ah! queres vê-la?
E depois de levantar-se a buscá-la:
—Ahi a tens.
Violet leu:
Minha querida Peregrina!
Morro amando-te. Quiz que soubesses que te comprehendi. Beijo-te ao partir. Olha que não levo resentimentos. Sei que não podias amar-me. Que me concedeste o mais que podias conceder-me. Mas eu não podia ficar. Era doloroso sentir que te afastavas tanto de mim, quanto eu de ti procurava approximar-me.
Creio que morto te não merecerei a repulsa que me tens dado.
Presumo que sejas a primeira a visitar-me. Irei suicidar-me junto á Fonte, na idéa de que sejas a primeira a ver-me!
Se assim fôr, ao menos então hasde pensarem mim. E podes vêr-me outra vez com os olhos de Arte, que já me não magôas. Pelo contrario, onde estiver, heide exultar de orgulho—se o meu corpo te der linhas perfeitas que entretenham por minutos a tua sensibilidade.
Procura bem. Olha que a morte é carinhosa com a adolescencia. Eu heide ser bello, ao menos na hora do teu encontro.
Vê-me bem! Se a minha carne te merecer um carinho, heide soffreá-la onde quer que esteja. Não quero que dês pela sua sensibilidade, encapellando-se de restos de amor, porque heide deixar-lhe ainda amor... Nem poderia levá-lo todo, tão grande elle é!
Adeus, Peregrina. Parto com a alma que foi o teu pesadelo. Perdôa-lhe. O corpo deve estar em breve junto á Fonte. Tu amas a passividade, as linhas que podes submetter e emendar nos teus nervos.
Possue-me, que eu devo ser um exemplar excepcionalmente tratado pela Morte. A Morte é tambem como tu—delicia-se, ceva-se na belleza passiva...
Adeus, Peregrina!
** *
Um anno depois da sahida de Petersfield publicava a Artista aNova Sapho. O poemaacordou em Portugal applausos e protestos. Havia a corrente dos moralistas, escandalizados com os desvairamentos da Poetisa; e havia os camaradas serenos e prestes ao movimento idealista, em que o poema se integrava. Aquelles aferravam-se á conjectura historica e explicavam que a Sapho segundo os sabios não era a lesbia vicienta que a tradição tinha fabulado, mas uma viuva honesta, com filhos e netos, erudita e moral. Para os homens de letras mais attentos aos casos de sensibilidade, o poema era uma affirmação de temperamento—padrão de Arte excepcional que, pondo em foco a vida hellenica, devassava o fio conductor dessa vida atravez das civilizações.
Certo foi que o poema, a despeito dos ataques á moral, desafrontada pelos folhetinistas dos diarios portuguêses, foi lido; a critica acceitou-o, e Maria Peregrina foi consagrada entre um cenaculo pequeno, mas escolhido de cultores e admiradores das Letras.
Quando lhe falavam nos ataques dizia:
—Estou como Liszt—Não me custa esperar. Não escrevo para a gente de hoje.
Enviou exemplares a varios escriptores latinos e ainda a alguns da Allemanha e Inglaterra.
Encontrou de tudo:—applausos, repulsa, bemquerença.
De vez em quando, os diarios portuguêses insistiam nas primeiras campanhas, em homenagem ao lyrismo de 1850, e ás letras declamatorias do momento. Datam daquelle tempo as suas relações com alguns escriptores inglêses e designadamente com Oscar Wilde, com quem se correspondia.
Em março de 1895 foi o escriptor prêso por accusações do Marquês de Queensbury. O perseguidor muito aferrado aoCriminal Law Amendment Act—fê-lo prender e julgar.
Os debates deste processo, escandalosos pelas accusações e categoria do R., apaixonaram a opinião.
Foi condemnado á pena de prisão por dois annos, que cumpriu em 1897.
Maria Peregrina, defensora de Wilde, escreveu em inglês artigos e opusculos sobre o escabroso processo, já quando elle tinha cumprido a pena e abandonado a Inglaterra. Conhecida no meio intellectual de Londres, frequentava os salões onde se conversava Arte; ia aosclubs, especialmente aos de gymnastica, praticando estesport, e privando com camaradas em que descobria affinidades de vicio ou belleza.
A edade não lhe contraordenava os propositos da adolescencia. Adulta, crescia em talentos e vicio.
Aos intimos explicava:
—Os meus talentos são os meus vicios, tratados pela imaginação.
Horas tardas, quando Londres deixa osclubs,restaurantse theatros, Maria Peregrina sahia só ou com Violet a frequentar o que ella chamava os Templos da Noite.
—A Noite faz em mim o dia, affirmava. Á hora em que tudo está alegre soffro eu a minha Arte. É nella que emprego os dias, pois que é de todos os soffrimentos o mais voluptuoso.
Horas mortas tornejava a oeste deTrafalgar square, porHaymarket,Picadilly, sob as arcadas dePall Mall, errante por entre o rancho de bacchantes, perdida na onda de luxuria que é Londres a taes horas.
Frequentava tudo—oSavoy,Empire,S. James,Alhambra, as ruas onde as retardatarias entretêem a fome, sorrindo a quem passa, os logares onde havia luxo, miseria, erotismo, alcool...
Os inglêses, affirma Stendhal, serão os ultimos a acreditar no inferno. E, por isso, elles, sem o entrave religioso que embaraça os outros povos, soltam á vontade o seu desejo animal, num desdobramento que excede tudo.
Eram estes requintes que Maria Peregrina apercebia e queria viver.
Wilde tinha-lhe escripto um dia:
—«Aquelle que se entrega absolutamentea si proprio, não sabe nunca aonde vae parar».
Queria lá saber aonde iria ter?
O que desejava era calar os nervos, a sêde de imprevisto, que a queimava intimamente. Sahia a explorar a noite. Pelas ruas havia renques de mulheres, duma fealdade de arrepiar, ao lado de creaturas mal crestadas do tempo, nas quaes a belleza persistia, apesar do vicio e das doenças.
Não era a belleza graciosa, que contrastava a mulher de alguns paizes, nem a classica, nem a sensual que caracterisa o mundo feminino do Oriente, ou a belleza crepuscular do Ocidente e Sul—a belleza que ella encontrava nas poucas mulheres formosas da Inglaterra.
Era uma belleza especial—a que adstringia á raça, expressiva de falsa innocencia e suavidade.
Tratava de afogar os desgostos em sensações novas, e dahi andar pelas ruas onde excepcionaes figuras erravam como sombras, a commerciar toda a casta de prazeres. Mulheres duma brancura de linho, carnações de lirio e dahlia, de olhos anilados e estrigas de cabello oiro-fulvo, passavam bebadas nas esquinas, dispersando a alma em risos idiotas. Ia no seu encalço, interessada pela historia daquellas marafonas, que pareciam ter descidodo Ceu por tentarem santos e que os homens desprezavam...
—Ah! o peccado da terra está em não aproveitar bem as creaturas, dizia. Estas, são as flores da rua, que valem bem mais do que as que se abrigam sob o crystal das melhores casas de Londres.
Colleccionava as mais perfeitas para uma especie de harem, onde passava em serão algumas noites, emmaranhando, tecendo a sua vida com a desgraça dellas.
Conhecia a geographia dos bairros mais mesquinhos da City, percorrendo-os a miudo, bem como os prostibulos onde se vendiam as mulheres de preço.
Ora arrastavatoilettesda maior elegancia pelo Savoy, ora ia, modesta, irmã das sombras, conversar as mulheres que viviam os prazeres da noite, mais rasteiros e humildes.
De longe em longe, combinava com Violet e iam as duas pernoitar com moços de acaso.
Percebia que as relações naturaes lhe acalmavam os nervos.
Então, deixava-se abordar pelo mais novo dos presentes ás sucias da noite.
Guardava silencio sobre o nome. Preferia mesmo entregar-se a viajantes, que ao outro dia perdesse na confusão de Londres.
E sahia, enjoada, com odio ao sexo, exasperada daquellas horas batalhadas com extranhos,duma luxuria que lhe era necessidade e tormento.
—Usei hoje o meu amargo, dizia para Violet.
O amargo era o commercio sensual com o homem, que tinha como remedio.
Do mesmo passo que percorria o peor de Londres, partilhando o muito que ali havia de perversão animal e vida exotica, tinha em cuidado não perder uma nota da vida superior do grande centro—instruindo-se, apontando tudo, e adaptando-se ao luxo e requinte aristocratico da terra tradicionalista por excellencia.
Tão depressa era a mulher que se confundia por entre o bosque de gente que se apertava nas ruelas miseraveis de Whitechapel, como a mulher de aspectos nobres, com geitos de duquesa, que passeava a sua prosapia de peninsular para além doStrand.
No meio em que era conhecida fazia-se excepcionalmente admirar pela fidalguia de maneiras e talentos e pelo encanto da sua palavra de superior.
Apesar dos desequilibrios de creatura insexuada, delirando perversões, nunca perdera o geito fidalgo da sua bondade.
—A bondade, dizia sempre, creio que virá a ser a minha jangada de salvação.
E, de facto, no privar com gente miseravel,que recrutava nas ultimas camadas, jámais deixava de ferir a nota da commiseração, estipendiando o infortunio com dadivas que lhe inculcavam fidalguia e a procedencia portuguesa.
Um facto havia a salientar nesta maneira de praticar beneficios:—a predilecção pelos desgraçados mais abjectos.
Para ella não havia criminosos, havia desgraçados. E os que cahiam na alçada da justiça ou no odio da opinião eram sempre os mais sympathicos e dignos de affecto.
Londres é a cidade do apostolado. Planta-se uma Religião a cada esquina. Confundem-se nella cultos, ritos, seitas. É a Babel da Alma. O ceu da alma inglesa é nevoento como o ceu de Londres. Segundo uma estatistica de poucos annos, havia em Inglaterra e Galles 34:467 casas de religião—das quaes 14:077 eram officiaes.
Maria Peregrina ia muitas vezes assistir ás praticas e devoções religiosas.
—Ando a procurar a minha religião, dizia, e não encontro senão farrapos della em credos oppostos!
O ultimo tempo que viveu em Londres foi num torvelinho de misteres desencontrados, á mercê dos nervos.
A sobreexcitacão não lhe dava treguas.
—Se me aquieto, morro do mal-de-viver, acudia ás observações de Violet.
Frequentava cursos de linguas, de Philosophia, de Arte e deSport; escrevia; passava, invariavelmente, duas ou tres horas—procurando «o aperitivo sensual da noite»—um caso exotico que lhe aquietasse a ancia infinita de viver, de soffrer, e recolhia tarde a dormir pesadelos,—rebates das canseiras do dia.
Adoeceu. Era inevitavel, diziam os medicos. Não sabe quem é, para onde segue. Precisamos de tratar-lhe a sensibilidade.
E receitavam calmantes, repouso—o inverso da vida que levava.
Um mês depois levantou-se. Estava alquebrada, mas o tempo primava em lhe conservar a belleza, em desconto das infelicidades.
Deu-se por esse tempo um acontecimento decisivo para ella.
Paris intellectual, benevolo e esquecido das miserias intimas de Wilde, offereceu-lhe uma festa.
Peregrina encontrou no acontecimento um ponto de sahida da antiga vida de Londres. Associou-se aos camaradas de Paris e partiu a tomar parte na homenagem.
—Adeus, meus amigos, dizia abraçando diversos artistas, despedindo-se. Não voltarei. E, no entanto, presinto que serei tanto maisinfeliz quanto mais me desviar da Inglaterra. Aqui deixo o melhor e o peor da mocidade...
Depois de curta passagem por Paris, Berlim, Scandinavia, Roma e Napoles, entrou Maria Peregrina em Athenas, na tenção de demorar-se. Violet acompanhava-a.
Vivendo a Grecia antes mesmo de a ver, sentiu á chegada uma grande commoção de quem encontra uma terra desde muito seguida em espirito.
O mar da Grecia não tem a côr desbotada da massa de agua no mar alto. Toma, á approximação do Archipelago, nova designação e tinta, como prestando homenagem á velha Hellada.
É um mar de lazulita, seguindo o recorte da Grecia em que salienta a gloriosa Athenas, branca em seus edificios de marmore de Pentelico e Paros.
Aportou a Phalero.
A breve trecho, entrou na antiga capital da Attica, que se estende num desenho largo—terra de neve pela brancura do marmore, e uma verdadeira Heliopolis, plena de sol.
As casas são a renovação da architectura grega, copias das antigas marcas do genio hellenico, a que preside a Acropole, vasta cidadella dos tempos gloriosos, da edade de oiro.
Maria Peregrina e Violet foram hospedar-se no melhor hotel da rua do Stadio.
Dentro de breve tempo Maria tinha entrado em sua vida normal, despendendo nervos e tempo no encalço duma felicidade que só de passagem encontrara.
A mais do que as outras cidades que percorrêra, Athenas dava-lhe as sombras dum passado que ia referindo aos pontos que lhas recordavam.
—É aqui que eu tenho de estudar, dizia, a geographia da Belleza hellada—synthese de toda a Belleza terrea, com parentesco no Ceu.
Suppunha-se nos velhos tempos de Athenas e ia pela Acropole, ao entardecer, memorar espiritos desencontrados, poesias fragmentadas de Sapho, a catechese do segundo genio da Egreja—Paulo, tudo o que podia acquiescer ao seu talento aventuroso, perdido na ancia duma perfeição morta.
Deu-se a estudar a lingua grega; ia visitar os museus; matriculou-se na aula de Arte; procurou a todo o transe encher o tempo, a ver se a occupação obrigatoria lhe entravava os nervos.
Nos dias em que tinha de feriar o espirito de lucubrações eruditas ou artisticas, ia visitar as ilhas proximas, ou até Phalero, ouvir o mar.
Mas não havia occupação, por mais interessante ou impertinente, que lhe aquietasse o gosto, exigente de origem.
Por toda a parte encontrava suggestões á pratica do vicio lesbico, sem que volvesse a encontrar a passividade amoravel de Helen, dando-se-lhe num corpo que era o sonho da sua alma ocidental de decadente.
Pelas ruas deparavam-se-lhe moços espartanos ao lado de raparigas esbeltas, de saiaes tufados, redondos pelo joelho, com o kepi grego de borlas, de jalecas curtas, segurando peitos cheios.
Mulheres e rapazes de Corfú, e demais ilhas proximas, passeavam corpos e trajes bizarros, que prendiam aos restos duma civilização de requinte.
Tambem a flora de Athenas parecia prender-se á decadencia daquelle solo que fôra a joia do vicio no reinado da Attica.
Tudo a inculcava como um marco da velha cidade da carne e da orgia.
No entretanto, Peregrina, admirando aquella belleza, prodiga de imprevisto, não a sentia. Era uma belleza que suggeria, não a apaixonava.
—Toda a parcella de belleza se gasta ou transforma, dizia. Não ha belleza em porções, permanente. Ha unidade no Bello, o que é diverso.
A velha Hellada desmanchou-se em holocausto ao mesmo hellenismo. Era preciso assim. O proprio desmancho e renovação de civilizações, o caldeamento do sangue, transfusão das raças, e mistura de genios, é que asseguram a unidade da Belleza, na sua concepção liberta.
Em rasão desta unidade, explicava a Violet, foi que eu, do Ocidente, encontrei o meu elemento affim numa raça que me era apparentemente opposta. Posso encontrar noutras creaturas condições de maior belleza, á face da Arte. Mas o meu defeito de superior faz que o meu procedimento seja cego em materia de sensibilidade. Ha em mim uma força cujo motivo mal sinto no vago da consciencia, e que é cega e me cega, que escapa á minha reflexão e não me consulta, caminha, não pede, exige.
—É que te apaixonaste por Helen, não vês mais ninguem, considerava Violet.
—Mas sei lá porque me apaixonei por ella. Se ao vê-la hoje não sentiria afundar-se todo o meu passado num mar de nojo feito do amor que lhe tive e das complacencias que me deu...
Violet procurava sondar os desesperos de Peregrina, e tomar o logar de Helen. Impossivel! Violet era para Peregrina a escrava, que usava á falta doutra em suas perversões.
Helen era um abysmo de alegria, um corpo de risos com nervos de seda.
Era o melhor e peor duma raça que, junta a ella, estreitava o abraço de duas civilizações a suicidarem-se...
—Ah! se ella tivesse vindo commigo, dizia Peregrina, como eu reveria a velha Hellada!... Só vê bem quem recebe suggestões para produzir. Mas só produz quem ama. E só ama quem possue...
** *
Havia em sua alma, sedenta de exotismos, intervallos duma ternura de creança, em que se dava ao culto da simplicidade, tecendo obra ingenua.
Datam da sua estada na Grecia, e mercê daquellas horas, os versos que juntou num livro curioso, a que chamou—O Livro das Creanças.
Os titulos dos capitulos indicam a sua indole. Assim, havia nelle—A historia duma gota de agua,Aventuras de uma aresta,Aconta de crystal,Hostia de oiro,A camelia côr de mel, etc., assumptos innocentes, pontos pequenissimos de partida a uma philosophia de desvairamentos para auxiliar os vôos da imaginação infantil, isto vasado num metro facil, dicção correntia.
Mas sobre esta innocencia apparente, todas aquellas historias eram um hymno á Fatalidade, tecidos dum maravilhoso novo,—expressões simplistas dum espirito doente.
AArestada historia era uma heroina, de formas pequenissimas e de alma grande que o vento, as chuvas, a tempestade metiam em aventura á mercê do Acaso, que é o genio das coisas.
AHostia de oiroera o Sol que um negro do Senegal perseguia no poente, andando de terra em terra a ver se o colhia para commungar com os da sua tribu—caminhando por montes altos quando elle tombava, até que morreu de desespero e saudades em uma terra do Norte, deixando-se matar e enterrar pela neve quando viu que, depois de dois mêses, a linda hostia não apparecia. No dia seguinte, veiu o Sol a sorrir, desenterrando o negro, solvendo a neve, envolveu-o num resplendor de luz e fez delle uma estrella, que ficou no ceu a velar a sua raça côr de fuligem e muito especialmente aquella tribu.
A historia daCamelia côr de melresumiao episodio duma rosa do Japão que se condoeu dos amores dum indio desprezado por uma mulher branca e trocou a côr com ella. E assim as restantes.
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Passado pouco tempo da entrada na Academia, já Maria Peregrina estava relacionada com varios camaradas, que logo deram pelo seu talento.
Era o tempo em que os extrangeiros mais acudiam a Athenas a seguir os cursos de Arte. A mesma razão que levára ahi Peregrina detinha lá tambem alguns delles, vivendo por educação ou atavismo memorias da velha Grecia.
Não lhe foi difficil dar por aquelles que mais se lhe approximavam em perversão e requintes.
Dentro de pouco era intima da Princesa de Tuscolo, uma italiana de 35 annos, principalmente gastos em passeios de luxo e prazer e dum russo, pouco talentoso, mas culto, homem de 29 annos, com grande fortuna e ancia de imprevisto.
Iam muitas vezes para Corintho e Corfu, inventando romarias a que não faltavam luxurias.
Mas sempre a mesma sombra de tedio vinha escurecer a imaginação de Maria Peregrina, findos os passeios; é que tinha de roçar as scenas vulgares do que ella chamava a torpeza civilizada.
Uma tarde em que foram todos ao Stadio, vasto circo de feitura recente, para arremêdo dos antigos exercicios olympicos, Maria propôs que se arranjasse uma casa onde pudessem commungar sensualidades.
Foi a proposta acceite. E a casa ficou a chamar-se desde logoTemplo de Amor.
Era nas immediações de Athenas, a caminho de Kefissia.
Ficava numa encosta, emmaranhada de arvores.
Tinha por fóra o geito grego—cujo risco fôra executado com escrupulo.
Dentro, o aspecto dum templo.
Havia ali reproducções em marmore da Venus do museu de Napoles, de Milo, Medicis, Capitolio e Troia; de Apollo, e três estatuas de Sapho, salientando-se a de Pradier, que, dum estrado alto, curvada, parecia presidir ás danças orgiacas, que a sua memoria suggeria; finalmente, uma larga profusão de espelhos, luzes, e instrumentos de musica, sobresahindo harpas, lyras e psalterios.
Astoilettesda chegada, no dia da inauguração, lembravam as das velhas festas daHellada, pelo esmero com que haviam sido reproduzidas.
Só Maria Peregrina puzera um pouco da sua originalidade no vestuario, aliás riquissimo.
Entrou coberta por umafalteta, á maneira das que usam as mulheres de Malta, refulgente de finissima renda e pedraria.
Quando appareceu já oTemploestava povoado de adolescentes nús; tocavam as harpas muito casadas aos violinos.
As luzes num grande desacordo de côr davam aoTemplouma refulgencia que fazia esquecer a Terra...
A Princesa de Tuscolo e Ivanwitch, que tinham vindo antes, observavam os adolescentes. Alguns eram do Stadio, gymnastas ejongleursprecoces.
Outros eram ingenuos camponezitos de Corfu; havia lindas raparigas de Corintho e um anão de Colonia, resgatado havia pouco a uma companhia de zingaros.
Tocaram as harpas oCanto de Saphoe depoisRhythmos de dança, numa harmonia dolente.
Maria Peregrina chamou duas negras, que, a um canto, cortavam aquelle mar de luz com os corpos de sombra, e entregou-lhes afalteta.
O resto datoiletteera uma simples fitalarga, de velludo-musgo, que a enroscava desde o busto aos quadris.
Tirou-a, mostrando as lindas formas em que sobresahia um ventre perfeitissimo, especie de salva de metal moreno fulgente, peitos de formas certas, que não temiam desmanchar-se no ardor da dança, e ancas sumidas, contrastes do typo extranho defemme-garçon, de geito a servirem a flexura rara do seu corpo resumante de sensualidade e adolescencia...
Todos se desembaraçaram dos vestuarios. Era madrugada.
Começou a orgia pelasDanças sensuaes. Extranha gente! Eram rapazes, flectindo corpos de belleza sobria, linhas puras de desenvoltura suave, sonhos de Aphrodite, animados; raparigas multiplicando as curvas ideaes de corpos de amphora, tudo o que havia de excepcional na concepção excelsa—a melhor argila, modelos supremos do Divino Oleiro.
E, em contraste, como a desenhar o arabesco entre aquella floração de carne, diversamente colorida, volteava o anão, corpo curto, pernas rectas, movimentos perros mas certos, carne côr de cerveja, face de fauno que surgisse do bosque, avido de luxurias e se perdesse num labyrintho movediço de Belleza...
Começaram as danças em homenagem aos manes da velha Hellada. A Athenas do vicioestava ali. A outra, a cidade nova, dormia somnos brancos, côr do casario.
Peregrina dizia, rindo, para os tangedores das harpas:
—De vagar, moderae os dedos.
E para Tuscolo e Ivanwitch:
—Se chega ao Parthenon o echo desta festa, temos ahi Socrates, a remir-se pela culpa, com uma fileira de sabios, deuses e artistas.
E como falando comsigo:
—No Parthenon é que a festa maxima terá de dar-se. É a primeira joia de Arte do mundo. Os deuses não a conservaram senão para que ahi fosse a grande festa pelo definitivo triumpho hellenista.
Mas quando será?!
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Em 1900 resolveu sahir de Athenas.
A 28 de novembro recebeu um telegramma de Robert Ross, annunciando que Oscar Wilde se encontrava em Paris, moribundo.
O romancista, depois duma larga tragedia, seguida de peregrinações varias por Napoles, Corsega, Sicilia e Roma, foi fixar-se num modesto Hotel da rua das Bellas-Artes (Hotel d'Alsace), e ahi foi atacado da meningite que pôs ponto nas suas desventuras.
Apenas recebeu o telegramma, Maria Peregrina partiu com Violet. E chegou a Paris quando Wilde entrava na agonia.
Não o abandonou até 3 de dezembro, em que foi com raros amigos acompanhá-lo a Bagneux.
Era uma triste manhã de dezembro.
Á porta do cemiterio desceram a urna os amigos do Artista, conduzindo-o até á modesta sepultura, por entre fileiras de cruzes e arvores nuas de folha. Assim fez aquella travessia boa, decerto para elle a melhor. O tempo calára o vento e a chuva, como por gratidão ao amigo que tanta vez lhe emprestára alma.
Maria Peregrina seguia o grupo, num passo senhoril, mas hesitante, pallida, arrastando sobre a greda um vestido negro cahido em tulipa.
Era ao longe uma figura extranha! Dir-se-ia representar ali a vida do Poeta—misto de genio, perversão, orgulho.
Decorreram dez annos.
Maria Peregrina passou á Scandinavia e depois aos pontos mais extranhos, errando pelaAsia e pela America, e vindo a fixar-se em Roma, onde viveu os ultimos dois annos. Não voltou á Grecia nem a Inglaterra.
Em qualquer dos dois paizes espalhára vicios e mocidade, que lhe seria grato reviver, se o reverso das provações lhe não aguasse a saudade. Não era a desgraça da sua vida que ella culpava; era o rebate della nos meios que tentára, e tivera a ingenuidade de suppor benevolos.
Ainda ultimamente lhe tinham sido devolvidos volumes daNova Sapho, que mandára para as Academias de Londres e Athenas.
Esta devolução desgostou-a. Suppunha ter ali admiradores, amigos, que, afinal, a abandonavam, a vexavam.
A dor é nos superiores dum effeito extravagante:—não os convulsiona, magôa-os ou transmuda-os. Ha casos, na apparencia pequenos, que lhes decidem o aspecto, que não mais os deixam rir sinceramente.
Não era o caso: Maria Peregrina tirocinára desgraças desde muito nova, para succumbir inteiramente. No entretanto, sentiu-se devéras.
Não a incommodava o debate que a publicação do seu livro havia levantado em Portugal. Considerava medianamente as letras da sua terra. Mas o significado daquella devolução nos meios deéliteque frequentára abateu-aextranhamente, profundamente. Queria reagir. Mas por mais que considerasse a justiça que lhe fora feita como Artista, sentia-se desfalcada, vexada, pelo desprezo que lhe votavam como mulher. Ella propria sentia em si duas entidades diversas—a que produzia, creava, e a outra, a que não conseguia libertar-se das offensas e intrigas das Academias. Um dos contrastes da creatura de genio é uma nota inferior—a crença na fatalidade.
Muitas das infelicidades lançam-nas á conta do destino:—acceitam-nas serenos. Não assim as que batalham o seu amor proprio.
A superioridade, é, como observa Nietzsche, o que está para além do homem. Mas isto que este pensa ao definir o valor alheio não o sente quando se contempla.
Dahi o conflicto. O que produz, o que cria é o que está para além delle. O que discute competencias, e barulha vaidades é elle proprio,—o homem.
Acceitar os talentos e discutir o caracter duma creatura superior é levantar competencias com ella propria:—desdobrá-la em duas figuras que o mais das vezes se desentendem.
A superioridade é uma força áparte. O homem é que intenta dispor a seu talante daquelle valor; e, pois que reflecte a elevação duma intelligencia poderosa, pretende chamá-la a derimir os conflictos da sua sensibilidadede semi-Deus com a que inculca a sua qualidade humana.
Afinal, por si se liberta. A sensibilidade do Artista é um excesso de vida emotiva, uma doença que lhe dá altas e baixas bruscas, e o quiéta quasi sempre num fundo de melancholia, que é a dor reflectindo a aspiração intangivel da fusão perfeita do homem e do Deus que elle apercebe para além de si.
A valvula aberta a este estado unico de dor reside para o Artista na propria exteriorização da Arte. É então o semi-Deus, o creador librando-se para além da miseria humana...
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Maria Peregrina, ao receber os livros devolvidos, cahiu num torpor de doente.
Demais sabia ella que no meio literario conhecido, por entre os applausos dos que a cercavam, havia más vontades, denunciadas em insinuações, e palavras equivocas.
Dava por todos, pelos que lhe não perdoavam o talento e faziam da moral uma arma contra ella, e pelos outros, os que sinceramente a repulsavam pelo seu caracter de degenerada.No meio que frequentára em Londres, sentira dia a dia o reflexo dessa má vontade. Ultimamente, para não ser vexada, deixára de todo os salões particulares, onde perdera relações sem motivo, e donde se afastou para que a não afastassem.
Na Grecia era tambem conhecida no meio academico pelo titulo do seu livro—Nova Sapho.
Em Portugal continuavam as mais exasperadas campanhas.
Impossibilitados de discutirem a obra no ponto de vista artistico, os jornalistas, a quem a critica estava affecta, davam-na como documento de autopsychologia, fundibulando grossarias sobre a mulher que tivera o ousio de escrever um livro, indice do mais torturado temperamento.
Ah! ella perdoava que lhe não sentissem a obra. Mas o que lhe doia era o odio que lhe votavam pelos vicios, que amava além de tudo.
—E nós a tentarmos obrigar o mundo a ver-nos com olhos differentes daquelles porque se vê a si proprio, commentava! Como se elle interpretasse a differença que fazemos em nosso favor! Emfim, heide ver se, ao menos, posso salvar o orgulho...
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Estes e outros factos, denunciativos da fórma por que era tida nos meios conhecidos, fizeram que nos ultimos tempos em que viveu em Roma se esquivasse aos homens de letras e demais candidatos ás generosidades dos seus talentos, e de sua fortuna. Não queria relações; cansavam-na os empresarios de festas particulares ou publicas.
—Conheço, dizia a Violet, o bastante em cada cidade para me torturar sem prejuizo do amor-proprio.
Sei de cór a geographia do vicio e da moral de todas as terras onde tenho demorado quarenta e oito horas. Dispenso informadores. Que necessidade tenho de acotovelar-me com as más vontades dos paladinos das convenções, uns tôrpes a occultas que nem têem a grandeza do bem, nem a coragem do mal?
E, fiel ao programma, firmava-se no orgulho das fraquezas, tratando de alto os que se lhe abeiravam e fugindo a conviver.
Foi neste tempo, nos ultimos três mêses que viveu em Italia, que urdiu o livro—A Emparedada, entre quedas bruscas do temperamento,dias de doença e horas de rememoração do drama de Petersfield e Londres.
Este livro era a expressão maxima dos seus talentos, pois que era a dor dum temperamento doente, consumindo-se numa ancia de Arte. E, como tal, realizou o maximo de sinceridade.
Era a Dor, traduzindo-se em melancholia e expressões imprevistas a beirarem a loucura, no encalço de soluções que derivava da tyrannia dos nervos, incendidos de desejo. O Poema foi escripto, composto e impresso rapidamente.
—Não quero que a razão me estrague a obra, dizia.
O seu valor, se algum tiver, deve ser o defeito que sou eu propria. Se me désse a scismar ácerca destes versos, emendava-os. Então o Poema não era eu, era toda a gente, a obra-synthese da Moral, da Arte, da Intelligencia que por ahi corre nas livrarias, academias, nos parlamentos, por toda a parte.
Ah! não,A Emparedadaheide ser eu em conflicto com isso tudo.
ANova Saphoha de vingar-se da estupidez com que a tratam, librando-se acima da torpeza moral dos que a reputam abjecta...
E nervosamente, sempre que os maiores abatimentos lhe davam tregua, escrevia, desdobrando-se no drama das suas melancholias.
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Em abril de 1910 estava a obra impressa e distribuida.
Dois mêses depois entrava Peregrina em Lisboa, seguindo immediatamente para o Minho, acompanhada de Violet e de Jacob, o anão resgatado á companhia dos zingaros.
Foi em junho que nos encontramos em viagem e depois em Lares.
Pouco tempo demorou ali.
Dias depois de termos estado em Lares, morreu D. Maria Helena duma lesão cardiaca. Havia muito que a medicina de Guimarães tinha endossado aos santos esta cliente, excepcionalmente piedosa.
E ella, muito de mal com a medicina, e sempre affecta ao Ceu, conseguiu viver seis ou sete annos mais do que a sciencia annunciava.
O acaso, complacente com a devota, fez que a doença a victimasse a uma sexta-feira, depois dos exercicios do Coração de Jesus, confortada pelos sacramentos, indulgencias e rezas da Congregação de que era presidenta e benemerita.
Entretanto, foi annunciada ordem de suspensão de missa a monsenhor Andrada.
Chegára ao Paço archiepiscopal de Braga a noticia das suas homilias. Escandalizou-se o Arcebispo Primaz das doutrinas com que elle enchia as predicas; e, cuidando ser victima de informações erradas, officiou ao accusado para que as explicasse.
Sinceramente respondeu Andrada, enviando resenha de algumas predicas, e o commentario dos pontos em que se desencaminhava dos sermonarios que tinham o beneplacito do Paço de Braga.
E, insistindo nas suas maneiras de apostolar, declarava não se submeter a emendas em questões doutrinarias, pois que, accrescentava, tinha para si que os erros emendados ficavam mais compridos, e era peorar os seus humildes discursos—contradizê-los, aspando-lhes o unico merecimento que tinham,—a sinceridade que os urdira e expressavam.
Não se fez esperar a suspensão. Foi para Lares, onde Maria Peregrina o tratava como pessoa de familia. Pouco tempo ali demoraram. Passados mêses partiam para Lisboa:—Maria Peregrina, Salomé, Violet, o padre e Jacob.