VIII

VIIIUm dos escriptores de mais talento era então um rapaz de vinte e nove annos, que se isolava propositadamente das confrarias literarias para viver e reflectir pelo livro impressões que eram o sentir intimo duma figura áparte. Esse escriptor era D. Nuno Alvaro de Sousa e Villar, III.º Conde de Nevogilde.Oriundo duma familia nobre de Traz-os-Montes, com um bom patrimonio em terras, repartidas por três provincias, vivia, habitualmente, em Lisboa, reservando dois mêses para passar numa quinta em Entre-os-Rios, e viajando outro tanto tempo, approximadamente, todos os annos, pelo extrangeiro.Os livros de Nuno de Villar, como elle os assignava, revelando um temperamento, eram provas do movimento idealista contemporaneo em Portugal, provas raras entre uma flora arrepiada de pessimas letras, reflexo de auctores dessorados, perdidos em liturgias de Arte, ingenuas e pelintras.Era alto, de cabellos escuros, parco em rir, olhos negros, serenos e profundos, nariz de feitio judaico, em bico de aguia, pallido, expressão triste, um pouco desmanchado demaneiras, que lhe inculcavam lassidão de animo, sem prejuizo da gentileza de linhas que lhe contrastavam a raça.Escrevendo, exprimia aquella lassidão numa prosa sua, duma suavidade e rythmica novas, muito senhor de todos os processos, que coava, conscientemente, pelo seu criterio, numa ou outra notula erudita, para se librar, logo, segundo o temperamento, ás creações e pontos de vista proprios.Processos seus, idéas extravagantes, fórmas singulares—taes as qualidades e defeitos que o extremavam.Os ultimos livros—O Genio do Acaso,Symbolos,Os Sensuaes(romance), e aVida plastica, eram documentos claros do seu talento e distincção de escriptor.Profundamente individualista, esmaltava os escriptos de dizeres pessoaes, que lhe inculcavam o orgulho, que era o fundo do seu caracter de homem de raça. Em todos os livros marcava o traço do seu declivar de decadente; era, fundamentalmente, um negativista. Cria na Arte. Era ella a sua religião, o seu refugio e tormento.Áquem della, via a burguesia, que appellidava de utilitaria e estupida, a moral, a ficção. Para além... nada.Typo esquisito de superior, era difficil nas relações.Horrorizava-o a descoberta duma grossaria nova. E tinha para si que conhecimento novo era cabaz aberto a novas grossarias que tinha de supportar.Ignorava-se em Lisboa a sua vida. Os mais alviçareiros sabiam vagamente que uma ou outra vez era visitado por mulheres de reputação suspeita, que variavam nas dependencias do Palacio-Foz, na Avenida, onde vivia.Andava quasi sempre só. E nos theatros e livrarias em que apparecia, era difficil abordá-lo, pois se mantinha numa reserva educada, que afastava os mais ousados em relações.Entre o publico e elle estava o editor.—Os editores, affirmava, são vulgarmente calumniados de pessimas creaturas. Eu prefiro-os ao resto da gente. Não quero saber do publico, nem dos reclamos das folhas, nem dos criticos das redacções, nem do que podem pensar as academias que por ahi praceiam bacharelices.Basta-me o editor para me relacionar com algum espirito que me entenda, ou qualquer geração por vir que lave a Idiotia que por ahi corre.E, de facto, não mandava livros ás redacções, nem ás academias, nem ás bibliothecas, nem a pessoa alguma.—Escrevo para mim e para alguem que não conheço.Os conhecidos não valem uma linha, informava, noPreludio da Vida Plastica.Em volta da sua figura, duma gentileza doentia, de aspecto simples, mas mysteriosa, dum retrahimento religioso, mal disfarçado na distracção que affectava, cresciam lendas mais ou menos exoticas a que vivia alheio.Ainda em casa, era pouco communicativo.Unicamente conversava com o mordomo, um velho de confiança, egualmente discreto, fechado a qualquer esclarecimento que lhe pedissem acerca da casa.Para o mordomo, o silencio era um ponto de honra, em tal assumpto. O seu programma era obedecer sem discutir, e calar comsigo qualquer ordem que lhe fosse dada; assim servira o II.º Conde de Nevogilde, um excentrico, e assim servia o filho, D. Nuno de Villar.Era, de resto, bem simples o seu trato, pois que afora coisas minimas, era de natural indulgente e carinhoso para os inferiores. Esquisitamente methodico, tinha horas proprias para tudo.Quando fechado no gabinete não permittia que fossem interrompê-lo.—Se á hora em que leio ou estudo, houver fogo em casa, deixa-me morrer assado—recommendava ao mordomo.Não havia ordem, nem visita, nem telegramma ou acontecimento que absolvesse um creado que lhe alterasse as ordens.—Que tudo lá fóra mude, dizia, nesta casa só a minha vontade póde variar, e depois a dos outros segundo ella.**      *Ás onze horas tomava o primeiro almoço.A seguir, via a correspondencia.Num dia em que folheava os jornaes, á hora do costume, leu uma noticia de segunda pagina, ácerca dos trabalhos de Ruy Augusto, em exposição nas dependencias de S. Carlos. A folha reproduzia alguns trabalhos e o retrato mal zincographado do auctor.Tratava-se de um pintor precoce, tambem estatuario, rapaz de dezenove annos, que merecia as benevolencias da gazeta em artigo banal, salvo uma ou outra nota biographica.—Ha de ser um prodigio como os do costume, pensou Nuno. Artista de merito desde os 15 annos!Emfim, tenho curiosidade em ver as obras do rapaz.Chamou:—José!Appareceu o mordomo.—Vae mandar preparar a carruagem para ir a S. Carlos.O creado sahiu a cumprir as ordens, e meia hora depois Nuno entrava no Theatro.A exposição abria por um grupo de intenção inferior e execução horrivel. Denunciava um motivo pagão que o auctor não havia comprehendido.Seguiam-se outras obras detestaveis.De subito, foi Nuno surprehendido por duas figuras, que diziam no suppedaneo—Ganymedes servindo Jupiter.Curiosas figuras! Jupiter era uma creação impossivel, desproporcionado, numa atitude artificialissima. Pelo contrario, Ganymedes era um marmore a resumar candura. A sua atitude, offerecendo a taça do nectar, as curvas delicadas do corpo, as minucias, como o desenvolvimento geral do busto e membros, confusos numa indecisão de sexo—tudo era de molde a devassar o artista que tinha concebido e executado tão extremada obra.Mas poderia aquelle trabalho ser do mesmo auctor do Jupiter, e do destacamento de estatuetas que tinha visto? Foi andando. Por entre a collecção de obras inferiores deparou, a breve trecho, com dois trabalhos que não desmentiam oGanymedes,—oVagabundoe aFigura errada.OVagabundo, notavel de formas e expressãode alheamento, era um pequeno bronze de meio metro, harmonico, e que ajustava, absolutamente, ao dizer da peanha.AFigura erradaera o mais notavel dos trabalhos apresentados. Jehovah, pensativo, encostando a cabeça á mão esquerda e tendo na direita uns restos de barro, contemplava, indeciso e descontente, a figura que acabára de fazer. Esta figura era a expressão suprema duma alma que conseguira emprestar ao bronze todo o valor, realizando uma alta intenção.Reproduzia um adolescente das mais bellas formas, corpo idealmente flexuoso, talhado em linhas suaves, duma musculatura branda, dum boleio irreprehensivelmente plastico.Mas na sua physionomia, como talhada em sombra, havia uma tal expressão de dor que o bronze parecia ter fixado ali a alma do artista que lha vazara.Lembrava a estatua deHermes, de Praxiteles, numa atitude nova de horror e desespero. Era uma figura de expiação!**      *Nuno passou aturdido pelas suggestões daquella estatueta á segunda sala—a da pintura.Os demais objectos de estatuaria eram inferiorissimos:—bustosmal acabados, atitudes mal surprehendidas, assumptos quasi idiotas.Na sala de pintura esperava-o nova surpresa.Havia a considerar as figuras que eram pessimas e as paisagens, bellas, sem discrepancia.—Que extraordinario artista! dizia Nuno comsigo: tão desegual!E passando mentalmente as figuras que tinha extremado:—É curioso que dão o mesmo typo em differentes edades.São reproducções duma unica figura! E quasi que só as reproducções dessa figura são notaveis.O resto é intoleravel!E, vendo as paisagens, ia recolhendo impressões.—É, em pintura, dizia comsigo, um raro apostolo do movimento contemporaneo. A sua paisagem não se filia em escolas passadas. É a belleza nova através dum grande temperamento.**      *Tinha passado hora e meia depois da entrada de Nuno.Este viu o relogio e chamou o empregado, mandando apartar as estatuetas escolhidas e três paisagens.A seguir perguntou:—O artista não está?—Está além, vou chamá-lo, informou o empregado, dirigindo-se a um compartimento da extrema.Pouco depois appareceram os dois:—Ruy Augusto, seguido do empregado.Nuno de Villar teve um movimento de surpresa.O apparecimento do esculptor foi uma revelação. As figuras apartadas eram variantes dum modelo, que era o proprio Artista.Elle dirigiu-se a Nuno com passo hesitante, flectindo-se, desordenadamente, num enleio de creança. Nuno attentou-o com curiosidade.Era uma figura pequena, duma gentileza effeminada, moreno, olhos verdes; abria os labios grossos num sorriso triste, e tinha o cabello em ondas negras e compridas.Quando Nuno de Villar deu a razão de o ter procurado, elle, confuso, numa grande perturbação, declarou-se muito honrado com a visita de tão grande artista á sua obra, e pelas acquisições feitas; pediu-lhe para que deixasse estar no salão os trabalhos comprados, durante alguns dias, e recusou-se a receber logo o preço.Nuno, cada vez mais interessado, ficou a conversar.Ruy, parco de palavras, flectia-se em gestos de attenção, sorrindo aos elogios do interlocutor.Quando, porém, Nuno lhe observou as desegualdades, a expressão branda dos seus olhos de esmeralda transformou-se.O olhar, até ahi fixo em Nevogilde em expressões suaves duma galantaria senhoril, volveu-se rapido numa espectração selvatica, vazando em tonalidades extranhas sentimentos de tal melancholia e dor que mal se comportavam nos seus olhos de verdete, normalmente de esmeralda desbotada.E Nuno, educado e tolerante:—Afinal as desegualdades são naturaes nos artistas. A Arte tem os seus caprichos, as suas horas.—Não é isso, replicou Ruy, em voz sumida. Perdôe-me V. Ex.ª a confissão que vou fazer-lhe e que só a um grande artista póde fazer-se.A razão de taes desegualdades prende á minha maneira de ser. Vejo-me na Arte como num espelho. Melhor do que num espelho, pois me vejo intimamente.Eu pertenço a uma raça que vive odiada e odiando.Exprimo o povo,—o bastardo duma fidalguiaheroica e devassa, que nem talentos, nem sangue pode medir. Sou o acaso, a torrente vermelha do Destino, com uns laivos anilados de sangue nobre...Degenerei em Arte, a feição bella do Odio.Veja que nem tenho appellidos. O meu nome é Ruy Augusto.Sou rude convivendo.Como vejo com horror ou indifferença as creaturas, não tenho modelos que me impressionem. Toda a obra tem um fundo de photographia. Mas a minha objectiva recebe mal as imagens. A sua qualidade deforma, sobretudo, as que geralmente passam por preciosas. E se algumas affinidades mostra é pelas mais humildes: aproximação de raça.Depois, a alma soffre com os esforços da vontade. Não sente quem quer. Eu desço de olhos fechados a escada que vae dar ao incerto. Isto na vida, assim tambem na Arte. Sigo o temperamento. A paisagem, não me apparece turvada com a figura humana. É a belleza que não magôa. Amo, quero dizer, sinto a paisagem. V. Ex.ª, provavelmente, não sabe, pois que me não conhece, como sou indicado nos meios que frequento?Chamam-me oVagabundo. Creio justissima a etiqueta.Fechado em Lisboa, onde trabalho ao acaso, quasi sem recursos, realizo, de facto, essafigura extranha, que cansada de caminhar por entre paredes, desvaira na paisagem reminiscencias e nostalgias dos descampados da sua terra, que é a terra da sua raça.Ahi tem V. Ex.ª, concluiu, a razão porque entre uma feira de estatuas encontrou três boas e porque na pintura o meu processo é mais harmonico e o reputo supremo como documento dos meus talentos.—Muito curiosa a informação, disse Nuno.E, de repente, fixando Ruy, a sorrir:—Sabe que conheço o seu modelo preferido?Ruy ruborizou-se, commentando, enleado:—Veja V. Ex.ª que, a despeito do cuidado que ponho em disfarçá-lo, o talento de sentir-me tutela-me absolutamente; não tenho meio de o esconder, de me esconder.E Nuno, muito curioso de mais notas, ácerca do artista:—Diga-me, é certo o que affirmam os jornaes quanto á sua precocidade?—Absolutamente certo. Um dos quadros que V. Ex.ª escolheu é dos meus quinze annos.Mas isso não tem valor, accrescentou,—cada um amadurece quando tem necessidade de amadurecer. Sou fructa outonada. Meu pae era um velho, um morgado de vinculos perdidos, que me engendrou aos sessenta annos numa lavadeira da sua casa, uma raparigaforte como as armas, segundo lá dizem em Villa Alva, donde sou natural.Não conheci pae, nem mãe. Melhor assim! A miseria é a independencia quando bate á porta de um só, quando não temos de reparti-la...E confuso:—Mas estou a incommodá-lo.—Não está, contrariou Nevogilde. Adeus! Tenho de sahir, mas quero pedir-lhe a fineza de jantar hoje commigo.—Muito obrigado, concordou Ruy.**      *Dias depois estava Nuno tomando o pequeno almoço no gabinete de trabalho, sumido numa cadeira larga, conversando com Ruy.O mordomo pediu licença.—Entra! mandou Nuno.—Vieram trazer esta carta e um volume.E Nuno, depois de abrir tudo:—Quando veiu isto?—Antes de hontem, informou o mordomo, mas V. Ex.ª entrou depois do correio, hontem sahiu antes da hora do correio...—Sim, disse Nuno, podes sahir.E para Ruy:—É que sou escrupuloso nas horas de receber. Abri excepção para o Ruy.E apontando a carta:—Sabe que é escripta por sua causa?É de Maria Peregrina, que tambem me offerece aNova Sapho, a pedir para lhe ceder um dos trabalhos que lhe comprei. Quer oVagabundo.Fica o Ruy encarregado de lhe pôr opertenceem favor da cobiçosa. Escusado seria dizer-lhe que saldarei a importancia.Ella lamenta-se por não ter apparecido primeiro em S. Carlos, gaba o seu talento, e pede-me a cedencia, desculpando-se por se me dirigir sem apresentação. Mera formula. Lisonjeia-me ser-lhe agradavel.—É uma mulher notavel, affirmou Ruy.A Emparedadaé um bello livro.—Sim, esclareceu Nuno. A sua obra ficará. Não leu este volume—Nova Sapho? E dando pela negativa: pois offereço-lhe um exemplar que ali tenho. Ficarei com este que tem a dedicatoria. Leia-o!E sorrindo:—É o Vicio illuminando a Arte—Sodoma e Lesbos resurgindo a arder...—É parallelo em belleza áEmparedada, inquiriu Ruy?—Não, disse Nuno. Os dois trabalhos completam a artista. Mas esta obra accusa tranquilidade.Parece equivaler a uma quadra feliz da escriptora. Presente-se ali um fio, embora tenue, de amor a dirigir o poema.É a belleza harmonica, com apoio numa razão intima da vida.AEmparedadaé um poema superior. É talvez a sombra daquella paixão, projectada pelo talento. A auctora viveu nelle desesperos e melancholias. E, como nada disto soffre razões, o poema attingiu o Genio, que, fundamentalmente, é o talento transpondo a primeira zona da loucura.—Será verdadeiro, Conde, perguntou Ruy, o romance que por ahi corre a respeito da auctora?!...—Julgo que não, disse Nevogilde; corre um romance inferior ao seu talento. Mas creio, absolutamente, que tenha raiz na moral nova que apostoliza.—É que só a noticia da chegada della surprehendeu a curiosidade de Lisboa. E, a partir dahi, não ha dia em que não corra um episodio novo a seu respeito.—Pouco sei della, concluiu Nuno de Villar. No entanto, interessa-me bastante tudo que lhe respeita pois que mulher e auctora parecem fundir-se nas obras.Tenciono ir agradecer-lhe o livro. Veremos se tratada irá desmentir-me impressões.—Tenho pena de não estar em S. Carlosquando lá foi. Soube que appareceu hontem, disse o pintor.—Vê-la-á mais tarde, se nos auctorizar a visitá-la.—Ah! disse oVagabundo, enleado, nem me faltava mais nada. Tenho boa disposição e presença para apparecer no palacete do Alecrim, por entre as maltas de tom...—Engana-se Ruy. O nome que lhe advem do talento, e encanto da sua figura, como as immunidades de artista, fazem que todos o recebam bem.E, se lá fôr, vae para conversar a mulher excepcional. Que vale o resto?Ruy levantou-se e foi ler perto as horas dum relogio-Imperio que sobre o fogão pulsava o tempo.—É tarde, disse, vou deixá-lo. O Conde dá-me licença...—Dou, disse Nevogilde, mas espero-o para jantar. Appareça. Não esqueça a recommendação sobre a estatueta. Mande mudar opertence.IXHavia mêses que a Artista se installára em Lisboa, num palacete da rua do Alecrim. Não lhe foi indifferente aos nervos a curta estadano Minho; socegou. Mas o Minho deu-lhe todos os attractivos em pouco tempo; cansou-a a serenidade.Estava grata á pobre terra que lhe dera um arremêdo da antiga felicidade na companhia da prima, a Salomé, ingenuamente linda, condescendente.Mas o Minho pareceu-lhe pequeno para theatro das novas aventuras, que lhe traziam, sem enthusiasmo, um bem-estar, que não sentia ha muito.Em volta de Peregrina, mexeu-se Lisboa. Appareceram os que desejavam folgar na casa do Alecrim, como pertencendo á sua parentela, e havia os recem-vindos das letras, que thuribulavam a Artista na presença e andavam pela cidade contando as extravagancias que derivavam da sua conversa livre.Ella, conformada pelos novos amores, mal dava pelo cisco que remoinhava nos seus salões.E, aos certames do sabbado, acquiescia, benevola, dispensando attenções e espirito. Entretinha-a brandamente aquelle gaudiar de gente que ia ali explorar-lhe o luxo e destinava a prender a futilidade da Salomé. Entretanto, para si preferia outros dias, aquelles em que tratava á puridade os intimos, que eram os da casa, Nuno de Villar e Ruy.Nuno de Villar procurou-a, para agradeceraNova Sapho, e offerecer o trabalho de Ruy; e ficou, desde logo, um amigo da casa, a quem Peregrina tratava com distincção e affecto.Ruy apparecia esquivo, cobrindo o orgulho de humildades.Peregrina tratava-o por tu; gabava-lhe o talento; tomava-o, carinhosamente, por uma creança que era preciso amimar; ria dos seus enleios, a ver se conseguia dar-lhe á alma selvatica tranquillidade e estados mais felizes.Não havia meio.Era, como frisava Nuno, o genio do povo, o Principe da Plebe, irreconciliavel com outras camadas.Frequentava os meios aristocraticos, por curiosidade. A Arte dava-lhe admissão nos salões. Mas trocar affectos com outras raças, não podia. A sua obra era a concepção do homem que conversa de perto a natureza e a exterioriza, sonhando alto.Elle sonhava em tela e bronze. Era poeta, pintando á sua maneira. Os pastores da sua provincia, vagabundeavam com os gados com os quaes trocavam expressões de olhar. Mas estas expressões davam-nas entre si, misturando, desvairando a alma, na alma livre dos campos.Reflectiam-nas, desgarrando cantares impregnados de nostalgia arabe. Fóra dos descampados, eram outros.Tambem Ruy, ainda nos salões, distrahido, usava expressões mansas de cordeiro.Se o chamavam á vida e fixava os que o cercavam, espectrava logo denuncias duma alma irreconciliavel.Quasi sempre calado, brando á vibração das inferioridades, como dos talentos alheios, era nos salões de Maria Peregrina como um alumno que apparecesse a tirar a falta.Entretanto, a casa da artista era uma verdadeira academia, aos sabbados.Romancistas em começo de vida, homens de Estado, jornalistas, pintores, poetas de primeiro vôo, tudo ia ali privar um pouco com a Poetisa, e dizer discursos de Arte, de philosophia e até de politica.Maria Peregrina, tolerante, ia acompanhando aquella Babel de convenções. E a Nuno, que a increpava, educadamente, da generosidade, accusando-a de subsidiar os apostolos do que chamava a philosophia do Pôdre, respondia:—A collecção dos sabbados é o meu narcotico. Aquelle barulhar de idéas disparatadas, auxilia-me a esquecer o passado, a viver o presente.**      *Uma noite estava no Salão-verde, só e muito attenta a um volume de Spinoza, quelia havia horas, quando entrou um creado a annunciar:—O sr. Conde de Nevogilde e o sr. Ruy.—Que entrem! mandou.E vendo-os:—Como vão?E para Nevogilde:—Não quiz vir hontem? A noite esteve desagradavel... Tem escripto muito? Que bello o ultimo folhetim para oJornal do Rio!Como o Nuno consegue ser original sem diatribe, crear sem demolir. Como se excede, escrevendo!A puridade, na conversa, tem ainda impertinencias. Escrevendo, só edita o homem superior. Admiro-lhe, sobretudo, o alheamento da vida commum; a elevação do espirito, exotico quasi a frio; a forma por que consegue percorrer notas tão extranhas dentro da mais perfeita serenidade do dizer.—É que a conversa é para mim uma distracção, um vicio. Pratico-a, como pratico os demais vicios, tal como os nervos, as influencias ma suggerem. A conversa não sou eu; são os outros e eu.Tenho para mim que a companhia desdobra de nós uma creatura differente da que formamos intimamente. E, quanto mais intelligentes somos ou nos julgamos, peor é—maisingenuos somos tambem, mais facilmente cahimos na tal rêde de suggestões...Até Maria Peregrina é, acompanhada, uma pessoa tão diversa de si propria!—É verdade, Nuno, confirmou. E quando estamos sós, é que mais soffremos!Por mim, contrariando o proloquio, prefiro estar mal acompanhada a estar só. Contudo, convenho em que precisava de viver isolada.E premindo o botão da campainha:—Vou mandar chamar a Salomé e Violet; com a leitura não sei dellas ha muito...Veiu Jacob, fez uma mesura a distancia e quedou, cabisbaixo, á espera de ordens.—Anda cá, disse meigamente Maria Peregrina, passando-lhe os dedos pela face de pergaminho, tu vaes, meu velho, dizer ás senhoras que as espero, sim?Voltando-se para Nevogilde:—Gosto muito deste anão porque é menor do que a sua maldade, e a maldade delle profundamente legitima dentro do destino. Não imagina, paga a pena conversá-lo a sós. O Mal não tem que ensinar-lhe coisa alguma. Depois, tão intelligente e commodo nas suas formulas. Veja como entrou respeitoso. Eu uso-o como uma extravagancia, de longe em longe; a alma delle vale um frasco de essenciaexotica que entorno sobre mim ás temporadas...Salomé e Violet chegaram á sala ao mesmo tempo.Nuno, levantou-se para cumprimentá-las, mas antes que tivesse tempo de fazê-lo, já Salomé o inquiria sobre a falta da vespera e aversão ás reuniões do sabbado.—Estava agora para explicar a Maria Peregrina a razão da minha falta.Ainda bem que a sua chegada me salva de repetir-me. Ia dizer que não gosto das reuniões do sabbado porque me aborrece a collecção de letrados que geralmente juntam. Além do chronista, que é sujo, tão effectivo na immundicie como nos serões, ha os dois poetas, que reputo duma pelintraria intellectual abaixo de tudo, deputados, os dois ministros—todo o indice da familia portuguesa que trato a distancia. Não sei como pode aturá-los, concluiu, olhando para Peregrina.—Aturo-os bem, e divertem-me: são originaes na sua ingenuidade. E eu quando vejo alguem original exulto. A vida é tão monotona, a gente escorreita tão pouco interessante...—Sabe? interveiu Salomé, voltada para Nuno: tambem esteve hontem a mulher do pintor...Vinha pasmosa de côres etoilette. As tintasdo cabello e da cara, desacreditavam, de vez, o marido.—Se é o marido quem a pinta ou lhe inspira a côr, o que nunca ouvi, objectou Violet. O contrario é que parece verdadeiro; é ella o modelo, a razão da arte como dos infortunios do pintor.—Coitada, commentou Peregrina, que pena me dá! Deus deu-lhe um cerebro estreito, que mal chega para a moral burguesa. E teima em seralguem! Quando, afinal, nem tem vontade de ser boa, nem talento para ser má.O horror que deve ser o conflicto da carne escandecida pelo temperamento sem a menor centelha de genio que o aproveite!—Ah! commentou Nevogilde, essa, apesar de tudo, é sympathica no seu remoinhar detoilettesde rainha pobre de tragedia...Quem eu não aturo são os outros.Umas creaturas tão enfezadas, tão pobres de corpo, como de alma... Que miseria!—Nuno! observou a Artista, delindo as palavras num sorriso:—não me faça arrepender do conceito em que o tenho. Demais, esse luxo de parecer forte denuncia fraqueza...Que mal lhe fizeram as minhas visitas de sabbado? Seja bom! A inferioridade dos outros é que faz o nosso talento.Nevogilde ia a replicar, quando sentiu refolharo reposteiro e surgir a cabeça quasi branca de José d'Andrada.—Olá, monsenhor! Então que vae?—Uma optima temperatura nesta sala, replicou o padre. Estou certo de que é o unico compartimento civilizado de Lisboa, pois que tem tudo—espirito, luxo, calor...E sorria, numa expressão boa, encarando Peregrina e os companheiros de serão.—É verdade, observou Nuno. E, entretanto, se o monsenhor não viesse de fóra, do frio, já nem agradecia esta temperatura e companhia.Eu creio que até no ceu haverá dezembros para que haja camaras mais reconditas onde Deus alumie e aqueça os escolhidos. Não lhe parece, monsenhor?—Sei lá! respondeu Andrada. Nunca me dei a averiguar se o ceu tinha calendario, mas creio que não, pois que, apesar de relapso, segundo os vigarios de Deus na Terra, quando leio o Breviario não dou pelo tempo...—O monsenhor quando morrer não chega a estanciar no purgatorio, tão lavada é a sua vida neste mundo!—Não sei, sr. Conde, como Deus vê as nossas obras! Se as avalia pelas intenções, estou certo de que nos absolverá a todos, seja qual fôr o conceito que o mundo faça de nós.Elle vê-nos ainda informes. Sabe o que odestino vale contra as creaturas. Creio que castigará a maldade, mas será bom para a desgraça, perdoará os nossos erros.De certo, ha de prosperar-nos no ceu segundo as intenções.Por ellas saberá quem são os limpos de coração.—Como poderá passar no ceu sem a Mouraria? perguntou Nuno, rindo, voltado para Ruy.E dirigindo-se a Maria Peregrina:—Não imagina, é uma sereia bohemia. Como sente a vida humilde dos que viciam por essas ruelas e sabe insinuar os imprevistos que por lá existem!—Ahi está um emprego que me dirá bem, affirmou Ruy, em sua voz cantada: serei o informador junto de Deus da miseria que sei.—Deus dispensa-o de tal trabalho, disse Andrada, sorrindo. Vive na consciencia de cada um. Julga os nossos julgamentos e joga para isso com factos que nos são despercebidos. Mas deixemos o assumpto se V. Ex.aso permittem.Discutir Deus é estragá-lo. Basta crer nelle, acceitá-lo no maximo de bondade que pudermos pedir ao temperamento.Uma novidade:—acaba de chegar a Lisboa o novo ministro inglês; vae ao Paço na proxima semana apresentar as credenciaes.—E quem é? perguntou Nuno.—É, deixe V. Ex.ª vêr se me lembro: É... John Brook.—Brook! disseram a um tempo Peregrina e Violet.—Conhecem? perguntou Nuno.—Sim, conheço; quero dizer, sei quem é, informou Peregrina. Uma pessoa da familia delle foi do nosso tempo em Petersfield.E, disfarçadamente, olhou para Salomé, que conversava baixo com Violet.Appareceu um creado.—Está lá em baixo o sr. dr. Amaro Sanches; pergunta se V. Ex.ª pode recebê-lo.Peregrina fez um gesto de cansaço e disse de vagar, hesitante:—Que entre...Nuno ia a levantar-se.—Ah! fique, peço-lhe, implorou Peregrina.—Se assim o deseja, fico. Mas custa-me muito aturar um capello, e então aquelle—lente, filho de lente, neto de lente. Tem as caldas todas.—Deixe lá, replicou Peregrina. O genero é antipathico em Coimbra. Fóra de portas é toleravel. Verá que é discreto...Momentos depois entrava na sala o dr. Amaro Sanches, pequenino, precioso, á buscade expressões, anecdotico, preoccupado com a maneira de estar.Explicou que partia no dia seguinte para Coimbra a reger cadeira. Falou das aulas e contou de enfiada as partidas do velho Lourenço, José Braz e casos do Quental.E Maria Peregrina, que via, disfarçadamente, a atitude admirada de Nuno, como a desviar-lhe a palavra:—Esteve na Granja, não é verdade? Divertiu-se? Agora vae extranhar; muito trabalho...—Ah! não imaginam. Este anno a praia esteve animadissima. Disse lá umas conferencias na Assembléa sobre a Pedagogia na Allemanha. Sou um apostolo deste grande país. Fiz lá o melhor do meu apprendizado scientifico. Estou gratissimo ao ensino allemão. Será o meu guia na aula. Os meus collegas na Faculdade vêem de maus olhos este exclusivismo pela Allemanha. Mas V. Ex.assabem que é a primeira em tudo:—em Medicina, Philosophia, Arte, Politica, etc. Sou tradicionalista como um allemão. Quero Sciencia, Arte e Politica tudo á allemã. As creaturas disciplinadas a uma só ordem—á auctoridade, que é no governo uma individualidade de poder, na aula o professor... Por mim serei um ditador. Um mestre é na cathedra um governante. Tem de impor os methodos.E, numa confusão de assumptos, verboso, descrevendo methodos de ensino, as dansas da Granja, tudo o que lhe ia lembrando, passou uma hora. Até que pediu licença para retirar:—tinha de levantar-se cêdo...Houve um movimento que tanto podia ser de attenção á despedida, como de allivio.Nuno, vexado, abreviava os agradecimentos ás offertas do professor, muito importante, convidando-o a ir a Coimbra ver os progressos do ensino.—Que fosse; o ensino estava ao par do que vira no extrangeiro; não era só a Medicina que honrava Coimbra, a antiga capital intellectual do país; honravam-na todas as faculdades, destacando-se a de Direito, onde o professor Alves, que ensinava Direito Patrio, remontava o estudo da sua cadeira ás edades paleolithicas;—que fosse ao menos assistir á festa dum capello, aconselhava com interesse: era a festa academica por excellencia.E para Maria Peregrina e Salomé:—Porque não vão V. Ex.astambem? Deviam gostar. Haveria em breve o capello dum rapaz que se doutorava ao mesmo tempo em philosophia, mathematica e medicina e ia ostentar na festa um capello tricolor; não imaginavam:—era uma summidade, com vinte e cinco annos!Que fossem, insistia; já o pae e o avô, que tambem tinham capello, falavam com uncção da grandiosa festa.E os presentes á uma, para que se calasse:—Que tinham o maior desejo de ver a tal zebra insigne. Era possivel apparecerem. Haviam de combinar...Enquanto falava, Amaro Sanches fitava Salomé, que parecia a unica a interessar-se por aquella lôa coimbrã.Afinal despediu-se, promettendo voltar em breve. Ia muito sensibilizado pelas reuniões dos sabbados.E, depois de salamaleques varios, arrastando cadeiras, lembrando ainda os ditos do Dr. Lourenço, sahiu muito contente de si e da Universidade, após um aperto de mão prolongado á Salomé, que o fitava com ternura.Quando sahiu tudo se calou. Nuno levantou-se, esfregou os olhos, como se tivesse acordado dum pesadelo, e disse, voltando-se para Ruy:—Vamos!—Já? inquiriu Peregrina. É cêdo; são onze horas.—Estou fatigado, contuso. Tenho a impressão de que o homem varreu sobre mim toda a caliça dos paços de João III.Quando a torre cahir não faz tamanha bulha!A cabeça deste lente rehabilita o chaos. Aquelle craneo é uma terrina de salada russa!Adeus, Maria Peregrina!—Espere um pouco! disse ella, fixando-o.Coitado! Depois das sabbatinas nas aulas, dos successos na Granja, triumphos em theses, do capello amarello, retrato entre o papá e o avô, dos cumprimentos dos rapazes, num meio pêco e idiotamente romantico, que queria V. que o homem fosse?—O que eu me perguntava, no decurso daquelle desapontoado de coisas, era no que redundaria a geração que tem educadores de tal jaez?Que viveiro!XDias depois, escrevia Peregrina, quando foi interrompida por Jacob, que lhe trazia um bilhete.Leu: Helen Broock.—Está no vestibulo esta senhora? perguntou.—Está, informou o anão.—Acompanha-a aqui.Momentos depois entrava Helen, e abraçava Peregrina num transporte de alegria.—Ha que tempos nos não vemos!E beijava a antiga companheira na boca e nos olhos, incendida de côr.Maria Peregrina recebeu-a com moderado enthusiasmo. Quando ella se distanciou, mirou-a curiosamente.Helen não era já a esbelta rapariga de Petersfield. Era uma figura quasi vulgar. Debalde Maria Peregrina procurava nella a linda pelle de seda que a tinha arrebatado tanta vez, as fórmas excepcionaes, a flexuosidade e candura do movimento.—Estou mudada, não é assim? Tu não estás resentida commigo?! Sabes que tive um grande desgosto com a carta do John. Coitado, agora é um cordeiro. Tenho vingado a grossaria que praticou comtigo.Então, minhaSapho! dize alguma coisa á tua velha amiga, abraça-me!E beijava-a com ternura.—Que queres que diga? Que és junto de mim o passado! O acaso, veiu juntar-nos, quando estamos tão longe do que fomos.Não imaginas o estado de indecisão de espirito em que ando. Depois que te deixei, a nostalgia de Petersfield pautou-me toda a sorte de extravagancias. Queria encontrar alguem que te substituisse; e, entretanto, ia enchendo o tempo, pervertendo-me, para não pensar no perdido.Não encontrei quem procurava. Nem tu, segundo acabo de verificar, podes substituir-te.Não sei se sabes que vive commigo Violet. É uma pobre creatura que me é docil como a minha carne. Talvez por isso a vejo com amargura. Está ahi outra rapariga, minha parenta.Já percebi que amo nella a simples frescura da mocidade, talvez a ingenuidade dos seus enleios de provinciana.Mas o vago duma aspiração suprema, persiste em mim. Eu queria, sabes?—o goso tranquillo, pôr um fim onde só encontro o indeterminado...Um horror!Não tento uma aventura que me pague a imaginação de urdí-la...—Pois calculei que eras feliz. Tinham-me dito que recebias a melhor gente de Lisboa; que davas festas...—A melhor gente de Lisboa é pessima. Excepcionalmente encontrei uma figura rara, o Conde de Nevogilde, um excentrico, escriptor de merecimento, por quem sinto a melhor devoção. Vale-me nalguns serões.Vou por estes dias passar algum tempo á sua casa de Entre-os-Rios, a Villa-Feia.—Extranho logar, disse Helen, se o titulo não mente.—Não mente, creio. Aquella Villa é umcapricho da natureza em favor do proprietario.É um scenario novo, com uma flora especial, cheia de imprevisto. Tudo ahi é curioso. E não imaginas o enthusiasmo de Nuno Nevogilde pela sua Villa, como sabe estimar o encanto do Feio.É um rapaz adoravel. O seu interesse vale mais do que o seu talento.Ser interessante é ser tudo para os outros. O interesse é bem mais raro do que o talento.Este pode ser monotono, impertinente; o interesse é o imprevisto, o encanto derramado naturalmente, filho duma razão que escapa, adstricto a um genio cujo enredo nos move sem que possamos defender-nos das suas más consequencias.Não é o que elle diz, é a forma porque diz. É insinuante, muito crestado de viver, apagando-se junto dos humildes, pasmando perto dos tolos, soffrendo o que vê, o que adivinha...—Vaes então passar uma optima temporada? disse Helen triste e morna aos enthusiasmos de Peregrina.O que te não lembra é Petersfield! Outros tempos, novos amores...Pois eu, minha querida, vivo ainda na recordação dos velhos tempos. Não te enganavas quando respondias ao John, annunciando-lheque eu permaneceria fiel aos teus ensinamentos. Cada vez tenho mais horror ao homem, sobretudo ao que me deram por companheiro. Ainda bem que adiabétespromette liquidá-lo breve... É a sua nota sympathica—a doença.—Olha que nos meus ensinamentos não cabe tal ferocidade. Ha coisas que podemos pensar, mas devemos envergonhar-nos de dizer. O pensamento nem sempre joga com a vontade.Eu sou feroz commigo: tenho-me desejado a morte. Gosei a morte de Edgar, como nunca esperei gosar coisa alguma no mundo. Mas não lha desejei. Ter-lha-ia evitado, se a adivinhasse. Ante o facto consummado o meu espirito exultou. Espirito e corpo, num abraço como jámais se deram, possuiram aquelle lindo morto ou antes a Belleza-morte, no maior elasterio de sensualidade... Mas, vigiar dia a dia o que vae dar-nos a felicidade de morrer, perscrutar-lhe os passos da doença, porventura promover-lha, isso não é digno de ti.—Ah! minha Peregrina, tu não sabes o que é sentir o amor do homem que detestamos. Olha que é peor do que o contrario, amar a pessoa que nos detesta!—Mas afasta-te delle. Deixas de ser ministra de Inglaterra, mas és a mulher digna, ainda que vivas como uma rameira, de amorescom outras rameiras. Sê a mulher livre; nada ha peor do que a honestidade forçada.Só a hypocrisia é crime!Os olhos de turquesa da extrangeira nublaram-se de lagrimas; cahiu a soluçar sobre o peito forte de Peregrina, que a afagava friamente. Bateram á porta.Era Violet e Salomé.—Esperae um pouco! disse a Artista.E, dentro de breve tempo, sahiam as duas a encontrar-se com a antiga condiscipula e Salomé.

Um dos escriptores de mais talento era então um rapaz de vinte e nove annos, que se isolava propositadamente das confrarias literarias para viver e reflectir pelo livro impressões que eram o sentir intimo duma figura áparte. Esse escriptor era D. Nuno Alvaro de Sousa e Villar, III.º Conde de Nevogilde.

Oriundo duma familia nobre de Traz-os-Montes, com um bom patrimonio em terras, repartidas por três provincias, vivia, habitualmente, em Lisboa, reservando dois mêses para passar numa quinta em Entre-os-Rios, e viajando outro tanto tempo, approximadamente, todos os annos, pelo extrangeiro.

Os livros de Nuno de Villar, como elle os assignava, revelando um temperamento, eram provas do movimento idealista contemporaneo em Portugal, provas raras entre uma flora arrepiada de pessimas letras, reflexo de auctores dessorados, perdidos em liturgias de Arte, ingenuas e pelintras.

Era alto, de cabellos escuros, parco em rir, olhos negros, serenos e profundos, nariz de feitio judaico, em bico de aguia, pallido, expressão triste, um pouco desmanchado demaneiras, que lhe inculcavam lassidão de animo, sem prejuizo da gentileza de linhas que lhe contrastavam a raça.

Escrevendo, exprimia aquella lassidão numa prosa sua, duma suavidade e rythmica novas, muito senhor de todos os processos, que coava, conscientemente, pelo seu criterio, numa ou outra notula erudita, para se librar, logo, segundo o temperamento, ás creações e pontos de vista proprios.

Processos seus, idéas extravagantes, fórmas singulares—taes as qualidades e defeitos que o extremavam.

Os ultimos livros—O Genio do Acaso,Symbolos,Os Sensuaes(romance), e aVida plastica, eram documentos claros do seu talento e distincção de escriptor.

Profundamente individualista, esmaltava os escriptos de dizeres pessoaes, que lhe inculcavam o orgulho, que era o fundo do seu caracter de homem de raça. Em todos os livros marcava o traço do seu declivar de decadente; era, fundamentalmente, um negativista. Cria na Arte. Era ella a sua religião, o seu refugio e tormento.

Áquem della, via a burguesia, que appellidava de utilitaria e estupida, a moral, a ficção. Para além... nada.

Typo esquisito de superior, era difficil nas relações.

Horrorizava-o a descoberta duma grossaria nova. E tinha para si que conhecimento novo era cabaz aberto a novas grossarias que tinha de supportar.

Ignorava-se em Lisboa a sua vida. Os mais alviçareiros sabiam vagamente que uma ou outra vez era visitado por mulheres de reputação suspeita, que variavam nas dependencias do Palacio-Foz, na Avenida, onde vivia.

Andava quasi sempre só. E nos theatros e livrarias em que apparecia, era difficil abordá-lo, pois se mantinha numa reserva educada, que afastava os mais ousados em relações.

Entre o publico e elle estava o editor.

—Os editores, affirmava, são vulgarmente calumniados de pessimas creaturas. Eu prefiro-os ao resto da gente. Não quero saber do publico, nem dos reclamos das folhas, nem dos criticos das redacções, nem do que podem pensar as academias que por ahi praceiam bacharelices.

Basta-me o editor para me relacionar com algum espirito que me entenda, ou qualquer geração por vir que lave a Idiotia que por ahi corre.

E, de facto, não mandava livros ás redacções, nem ás academias, nem ás bibliothecas, nem a pessoa alguma.

—Escrevo para mim e para alguem que não conheço.

Os conhecidos não valem uma linha, informava, noPreludio da Vida Plastica.

Em volta da sua figura, duma gentileza doentia, de aspecto simples, mas mysteriosa, dum retrahimento religioso, mal disfarçado na distracção que affectava, cresciam lendas mais ou menos exoticas a que vivia alheio.

Ainda em casa, era pouco communicativo.

Unicamente conversava com o mordomo, um velho de confiança, egualmente discreto, fechado a qualquer esclarecimento que lhe pedissem acerca da casa.

Para o mordomo, o silencio era um ponto de honra, em tal assumpto. O seu programma era obedecer sem discutir, e calar comsigo qualquer ordem que lhe fosse dada; assim servira o II.º Conde de Nevogilde, um excentrico, e assim servia o filho, D. Nuno de Villar.

Era, de resto, bem simples o seu trato, pois que afora coisas minimas, era de natural indulgente e carinhoso para os inferiores. Esquisitamente methodico, tinha horas proprias para tudo.

Quando fechado no gabinete não permittia que fossem interrompê-lo.

—Se á hora em que leio ou estudo, houver fogo em casa, deixa-me morrer assado—recommendava ao mordomo.

Não havia ordem, nem visita, nem telegramma ou acontecimento que absolvesse um creado que lhe alterasse as ordens.

—Que tudo lá fóra mude, dizia, nesta casa só a minha vontade póde variar, e depois a dos outros segundo ella.

**      *

Ás onze horas tomava o primeiro almoço.

A seguir, via a correspondencia.

Num dia em que folheava os jornaes, á hora do costume, leu uma noticia de segunda pagina, ácerca dos trabalhos de Ruy Augusto, em exposição nas dependencias de S. Carlos. A folha reproduzia alguns trabalhos e o retrato mal zincographado do auctor.

Tratava-se de um pintor precoce, tambem estatuario, rapaz de dezenove annos, que merecia as benevolencias da gazeta em artigo banal, salvo uma ou outra nota biographica.

—Ha de ser um prodigio como os do costume, pensou Nuno. Artista de merito desde os 15 annos!

Emfim, tenho curiosidade em ver as obras do rapaz.

Chamou:

—José!

Appareceu o mordomo.

—Vae mandar preparar a carruagem para ir a S. Carlos.

O creado sahiu a cumprir as ordens, e meia hora depois Nuno entrava no Theatro.

A exposição abria por um grupo de intenção inferior e execução horrivel. Denunciava um motivo pagão que o auctor não havia comprehendido.

Seguiam-se outras obras detestaveis.

De subito, foi Nuno surprehendido por duas figuras, que diziam no suppedaneo—Ganymedes servindo Jupiter.

Curiosas figuras! Jupiter era uma creação impossivel, desproporcionado, numa atitude artificialissima. Pelo contrario, Ganymedes era um marmore a resumar candura. A sua atitude, offerecendo a taça do nectar, as curvas delicadas do corpo, as minucias, como o desenvolvimento geral do busto e membros, confusos numa indecisão de sexo—tudo era de molde a devassar o artista que tinha concebido e executado tão extremada obra.

Mas poderia aquelle trabalho ser do mesmo auctor do Jupiter, e do destacamento de estatuetas que tinha visto? Foi andando. Por entre a collecção de obras inferiores deparou, a breve trecho, com dois trabalhos que não desmentiam oGanymedes,—oVagabundoe aFigura errada.

OVagabundo, notavel de formas e expressãode alheamento, era um pequeno bronze de meio metro, harmonico, e que ajustava, absolutamente, ao dizer da peanha.

AFigura erradaera o mais notavel dos trabalhos apresentados. Jehovah, pensativo, encostando a cabeça á mão esquerda e tendo na direita uns restos de barro, contemplava, indeciso e descontente, a figura que acabára de fazer. Esta figura era a expressão suprema duma alma que conseguira emprestar ao bronze todo o valor, realizando uma alta intenção.

Reproduzia um adolescente das mais bellas formas, corpo idealmente flexuoso, talhado em linhas suaves, duma musculatura branda, dum boleio irreprehensivelmente plastico.

Mas na sua physionomia, como talhada em sombra, havia uma tal expressão de dor que o bronze parecia ter fixado ali a alma do artista que lha vazara.

Lembrava a estatua deHermes, de Praxiteles, numa atitude nova de horror e desespero. Era uma figura de expiação!

**      *

Nuno passou aturdido pelas suggestões daquella estatueta á segunda sala—a da pintura.

Os demais objectos de estatuaria eram inferiorissimos:—bustosmal acabados, atitudes mal surprehendidas, assumptos quasi idiotas.

Na sala de pintura esperava-o nova surpresa.

Havia a considerar as figuras que eram pessimas e as paisagens, bellas, sem discrepancia.

—Que extraordinario artista! dizia Nuno comsigo: tão desegual!

E passando mentalmente as figuras que tinha extremado:

—É curioso que dão o mesmo typo em differentes edades.

São reproducções duma unica figura! E quasi que só as reproducções dessa figura são notaveis.

O resto é intoleravel!

E, vendo as paisagens, ia recolhendo impressões.

—É, em pintura, dizia comsigo, um raro apostolo do movimento contemporaneo. A sua paisagem não se filia em escolas passadas. É a belleza nova através dum grande temperamento.

**      *

Tinha passado hora e meia depois da entrada de Nuno.

Este viu o relogio e chamou o empregado, mandando apartar as estatuetas escolhidas e três paisagens.

A seguir perguntou:

—O artista não está?

—Está além, vou chamá-lo, informou o empregado, dirigindo-se a um compartimento da extrema.

Pouco depois appareceram os dois:—Ruy Augusto, seguido do empregado.

Nuno de Villar teve um movimento de surpresa.

O apparecimento do esculptor foi uma revelação. As figuras apartadas eram variantes dum modelo, que era o proprio Artista.

Elle dirigiu-se a Nuno com passo hesitante, flectindo-se, desordenadamente, num enleio de creança. Nuno attentou-o com curiosidade.

Era uma figura pequena, duma gentileza effeminada, moreno, olhos verdes; abria os labios grossos num sorriso triste, e tinha o cabello em ondas negras e compridas.

Quando Nuno de Villar deu a razão de o ter procurado, elle, confuso, numa grande perturbação, declarou-se muito honrado com a visita de tão grande artista á sua obra, e pelas acquisições feitas; pediu-lhe para que deixasse estar no salão os trabalhos comprados, durante alguns dias, e recusou-se a receber logo o preço.

Nuno, cada vez mais interessado, ficou a conversar.

Ruy, parco de palavras, flectia-se em gestos de attenção, sorrindo aos elogios do interlocutor.

Quando, porém, Nuno lhe observou as desegualdades, a expressão branda dos seus olhos de esmeralda transformou-se.

O olhar, até ahi fixo em Nevogilde em expressões suaves duma galantaria senhoril, volveu-se rapido numa espectração selvatica, vazando em tonalidades extranhas sentimentos de tal melancholia e dor que mal se comportavam nos seus olhos de verdete, normalmente de esmeralda desbotada.

E Nuno, educado e tolerante:

—Afinal as desegualdades são naturaes nos artistas. A Arte tem os seus caprichos, as suas horas.

—Não é isso, replicou Ruy, em voz sumida. Perdôe-me V. Ex.ª a confissão que vou fazer-lhe e que só a um grande artista póde fazer-se.

A razão de taes desegualdades prende á minha maneira de ser. Vejo-me na Arte como num espelho. Melhor do que num espelho, pois me vejo intimamente.

Eu pertenço a uma raça que vive odiada e odiando.

Exprimo o povo,—o bastardo duma fidalguiaheroica e devassa, que nem talentos, nem sangue pode medir. Sou o acaso, a torrente vermelha do Destino, com uns laivos anilados de sangue nobre...

Degenerei em Arte, a feição bella do Odio.

Veja que nem tenho appellidos. O meu nome é Ruy Augusto.

Sou rude convivendo.

Como vejo com horror ou indifferença as creaturas, não tenho modelos que me impressionem. Toda a obra tem um fundo de photographia. Mas a minha objectiva recebe mal as imagens. A sua qualidade deforma, sobretudo, as que geralmente passam por preciosas. E se algumas affinidades mostra é pelas mais humildes: aproximação de raça.

Depois, a alma soffre com os esforços da vontade. Não sente quem quer. Eu desço de olhos fechados a escada que vae dar ao incerto. Isto na vida, assim tambem na Arte. Sigo o temperamento. A paisagem, não me apparece turvada com a figura humana. É a belleza que não magôa. Amo, quero dizer, sinto a paisagem. V. Ex.ª, provavelmente, não sabe, pois que me não conhece, como sou indicado nos meios que frequento?

Chamam-me oVagabundo. Creio justissima a etiqueta.

Fechado em Lisboa, onde trabalho ao acaso, quasi sem recursos, realizo, de facto, essafigura extranha, que cansada de caminhar por entre paredes, desvaira na paisagem reminiscencias e nostalgias dos descampados da sua terra, que é a terra da sua raça.

Ahi tem V. Ex.ª, concluiu, a razão porque entre uma feira de estatuas encontrou três boas e porque na pintura o meu processo é mais harmonico e o reputo supremo como documento dos meus talentos.

—Muito curiosa a informação, disse Nuno.

E, de repente, fixando Ruy, a sorrir:

—Sabe que conheço o seu modelo preferido?

Ruy ruborizou-se, commentando, enleado:

—Veja V. Ex.ª que, a despeito do cuidado que ponho em disfarçá-lo, o talento de sentir-me tutela-me absolutamente; não tenho meio de o esconder, de me esconder.

E Nuno, muito curioso de mais notas, ácerca do artista:

—Diga-me, é certo o que affirmam os jornaes quanto á sua precocidade?

—Absolutamente certo. Um dos quadros que V. Ex.ª escolheu é dos meus quinze annos.

Mas isso não tem valor, accrescentou,—cada um amadurece quando tem necessidade de amadurecer. Sou fructa outonada. Meu pae era um velho, um morgado de vinculos perdidos, que me engendrou aos sessenta annos numa lavadeira da sua casa, uma raparigaforte como as armas, segundo lá dizem em Villa Alva, donde sou natural.

Não conheci pae, nem mãe. Melhor assim! A miseria é a independencia quando bate á porta de um só, quando não temos de reparti-la...

E confuso:

—Mas estou a incommodá-lo.

—Não está, contrariou Nevogilde. Adeus! Tenho de sahir, mas quero pedir-lhe a fineza de jantar hoje commigo.

—Muito obrigado, concordou Ruy.

**      *

Dias depois estava Nuno tomando o pequeno almoço no gabinete de trabalho, sumido numa cadeira larga, conversando com Ruy.

O mordomo pediu licença.

—Entra! mandou Nuno.

—Vieram trazer esta carta e um volume.

E Nuno, depois de abrir tudo:

—Quando veiu isto?

—Antes de hontem, informou o mordomo, mas V. Ex.ª entrou depois do correio, hontem sahiu antes da hora do correio...

—Sim, disse Nuno, podes sahir.

E para Ruy:

—É que sou escrupuloso nas horas de receber. Abri excepção para o Ruy.

E apontando a carta:

—Sabe que é escripta por sua causa?

É de Maria Peregrina, que tambem me offerece aNova Sapho, a pedir para lhe ceder um dos trabalhos que lhe comprei. Quer oVagabundo.

Fica o Ruy encarregado de lhe pôr opertenceem favor da cobiçosa. Escusado seria dizer-lhe que saldarei a importancia.

Ella lamenta-se por não ter apparecido primeiro em S. Carlos, gaba o seu talento, e pede-me a cedencia, desculpando-se por se me dirigir sem apresentação. Mera formula. Lisonjeia-me ser-lhe agradavel.

—É uma mulher notavel, affirmou Ruy.A Emparedadaé um bello livro.

—Sim, esclareceu Nuno. A sua obra ficará. Não leu este volume—Nova Sapho? E dando pela negativa: pois offereço-lhe um exemplar que ali tenho. Ficarei com este que tem a dedicatoria. Leia-o!

E sorrindo:

—É o Vicio illuminando a Arte—Sodoma e Lesbos resurgindo a arder...

—É parallelo em belleza áEmparedada, inquiriu Ruy?

—Não, disse Nuno. Os dois trabalhos completam a artista. Mas esta obra accusa tranquilidade.Parece equivaler a uma quadra feliz da escriptora. Presente-se ali um fio, embora tenue, de amor a dirigir o poema.

É a belleza harmonica, com apoio numa razão intima da vida.

AEmparedadaé um poema superior. É talvez a sombra daquella paixão, projectada pelo talento. A auctora viveu nelle desesperos e melancholias. E, como nada disto soffre razões, o poema attingiu o Genio, que, fundamentalmente, é o talento transpondo a primeira zona da loucura.

—Será verdadeiro, Conde, perguntou Ruy, o romance que por ahi corre a respeito da auctora?!...

—Julgo que não, disse Nevogilde; corre um romance inferior ao seu talento. Mas creio, absolutamente, que tenha raiz na moral nova que apostoliza.

—É que só a noticia da chegada della surprehendeu a curiosidade de Lisboa. E, a partir dahi, não ha dia em que não corra um episodio novo a seu respeito.

—Pouco sei della, concluiu Nuno de Villar. No entanto, interessa-me bastante tudo que lhe respeita pois que mulher e auctora parecem fundir-se nas obras.

Tenciono ir agradecer-lhe o livro. Veremos se tratada irá desmentir-me impressões.

—Tenho pena de não estar em S. Carlosquando lá foi. Soube que appareceu hontem, disse o pintor.

—Vê-la-á mais tarde, se nos auctorizar a visitá-la.

—Ah! disse oVagabundo, enleado, nem me faltava mais nada. Tenho boa disposição e presença para apparecer no palacete do Alecrim, por entre as maltas de tom...

—Engana-se Ruy. O nome que lhe advem do talento, e encanto da sua figura, como as immunidades de artista, fazem que todos o recebam bem.

E, se lá fôr, vae para conversar a mulher excepcional. Que vale o resto?

Ruy levantou-se e foi ler perto as horas dum relogio-Imperio que sobre o fogão pulsava o tempo.

—É tarde, disse, vou deixá-lo. O Conde dá-me licença...

—Dou, disse Nevogilde, mas espero-o para jantar. Appareça. Não esqueça a recommendação sobre a estatueta. Mande mudar opertence.

Havia mêses que a Artista se installára em Lisboa, num palacete da rua do Alecrim. Não lhe foi indifferente aos nervos a curta estadano Minho; socegou. Mas o Minho deu-lhe todos os attractivos em pouco tempo; cansou-a a serenidade.

Estava grata á pobre terra que lhe dera um arremêdo da antiga felicidade na companhia da prima, a Salomé, ingenuamente linda, condescendente.

Mas o Minho pareceu-lhe pequeno para theatro das novas aventuras, que lhe traziam, sem enthusiasmo, um bem-estar, que não sentia ha muito.

Em volta de Peregrina, mexeu-se Lisboa. Appareceram os que desejavam folgar na casa do Alecrim, como pertencendo á sua parentela, e havia os recem-vindos das letras, que thuribulavam a Artista na presença e andavam pela cidade contando as extravagancias que derivavam da sua conversa livre.

Ella, conformada pelos novos amores, mal dava pelo cisco que remoinhava nos seus salões.

E, aos certames do sabbado, acquiescia, benevola, dispensando attenções e espirito. Entretinha-a brandamente aquelle gaudiar de gente que ia ali explorar-lhe o luxo e destinava a prender a futilidade da Salomé. Entretanto, para si preferia outros dias, aquelles em que tratava á puridade os intimos, que eram os da casa, Nuno de Villar e Ruy.

Nuno de Villar procurou-a, para agradeceraNova Sapho, e offerecer o trabalho de Ruy; e ficou, desde logo, um amigo da casa, a quem Peregrina tratava com distincção e affecto.

Ruy apparecia esquivo, cobrindo o orgulho de humildades.

Peregrina tratava-o por tu; gabava-lhe o talento; tomava-o, carinhosamente, por uma creança que era preciso amimar; ria dos seus enleios, a ver se conseguia dar-lhe á alma selvatica tranquillidade e estados mais felizes.

Não havia meio.

Era, como frisava Nuno, o genio do povo, o Principe da Plebe, irreconciliavel com outras camadas.

Frequentava os meios aristocraticos, por curiosidade. A Arte dava-lhe admissão nos salões. Mas trocar affectos com outras raças, não podia. A sua obra era a concepção do homem que conversa de perto a natureza e a exterioriza, sonhando alto.

Elle sonhava em tela e bronze. Era poeta, pintando á sua maneira. Os pastores da sua provincia, vagabundeavam com os gados com os quaes trocavam expressões de olhar. Mas estas expressões davam-nas entre si, misturando, desvairando a alma, na alma livre dos campos.

Reflectiam-nas, desgarrando cantares impregnados de nostalgia arabe. Fóra dos descampados, eram outros.

Tambem Ruy, ainda nos salões, distrahido, usava expressões mansas de cordeiro.

Se o chamavam á vida e fixava os que o cercavam, espectrava logo denuncias duma alma irreconciliavel.

Quasi sempre calado, brando á vibração das inferioridades, como dos talentos alheios, era nos salões de Maria Peregrina como um alumno que apparecesse a tirar a falta.

Entretanto, a casa da artista era uma verdadeira academia, aos sabbados.

Romancistas em começo de vida, homens de Estado, jornalistas, pintores, poetas de primeiro vôo, tudo ia ali privar um pouco com a Poetisa, e dizer discursos de Arte, de philosophia e até de politica.

Maria Peregrina, tolerante, ia acompanhando aquella Babel de convenções. E a Nuno, que a increpava, educadamente, da generosidade, accusando-a de subsidiar os apostolos do que chamava a philosophia do Pôdre, respondia:

—A collecção dos sabbados é o meu narcotico. Aquelle barulhar de idéas disparatadas, auxilia-me a esquecer o passado, a viver o presente.

**      *

Uma noite estava no Salão-verde, só e muito attenta a um volume de Spinoza, quelia havia horas, quando entrou um creado a annunciar:

—O sr. Conde de Nevogilde e o sr. Ruy.

—Que entrem! mandou.

E vendo-os:

—Como vão?

E para Nevogilde:

—Não quiz vir hontem? A noite esteve desagradavel... Tem escripto muito? Que bello o ultimo folhetim para oJornal do Rio!

Como o Nuno consegue ser original sem diatribe, crear sem demolir. Como se excede, escrevendo!

A puridade, na conversa, tem ainda impertinencias. Escrevendo, só edita o homem superior. Admiro-lhe, sobretudo, o alheamento da vida commum; a elevação do espirito, exotico quasi a frio; a forma por que consegue percorrer notas tão extranhas dentro da mais perfeita serenidade do dizer.

—É que a conversa é para mim uma distracção, um vicio. Pratico-a, como pratico os demais vicios, tal como os nervos, as influencias ma suggerem. A conversa não sou eu; são os outros e eu.

Tenho para mim que a companhia desdobra de nós uma creatura differente da que formamos intimamente. E, quanto mais intelligentes somos ou nos julgamos, peor é—maisingenuos somos tambem, mais facilmente cahimos na tal rêde de suggestões...

Até Maria Peregrina é, acompanhada, uma pessoa tão diversa de si propria!

—É verdade, Nuno, confirmou. E quando estamos sós, é que mais soffremos!

Por mim, contrariando o proloquio, prefiro estar mal acompanhada a estar só. Contudo, convenho em que precisava de viver isolada.

E premindo o botão da campainha:

—Vou mandar chamar a Salomé e Violet; com a leitura não sei dellas ha muito...

Veiu Jacob, fez uma mesura a distancia e quedou, cabisbaixo, á espera de ordens.

—Anda cá, disse meigamente Maria Peregrina, passando-lhe os dedos pela face de pergaminho, tu vaes, meu velho, dizer ás senhoras que as espero, sim?

Voltando-se para Nevogilde:

—Gosto muito deste anão porque é menor do que a sua maldade, e a maldade delle profundamente legitima dentro do destino. Não imagina, paga a pena conversá-lo a sós. O Mal não tem que ensinar-lhe coisa alguma. Depois, tão intelligente e commodo nas suas formulas. Veja como entrou respeitoso. Eu uso-o como uma extravagancia, de longe em longe; a alma delle vale um frasco de essenciaexotica que entorno sobre mim ás temporadas...

Salomé e Violet chegaram á sala ao mesmo tempo.

Nuno, levantou-se para cumprimentá-las, mas antes que tivesse tempo de fazê-lo, já Salomé o inquiria sobre a falta da vespera e aversão ás reuniões do sabbado.

—Estava agora para explicar a Maria Peregrina a razão da minha falta.

Ainda bem que a sua chegada me salva de repetir-me. Ia dizer que não gosto das reuniões do sabbado porque me aborrece a collecção de letrados que geralmente juntam. Além do chronista, que é sujo, tão effectivo na immundicie como nos serões, ha os dois poetas, que reputo duma pelintraria intellectual abaixo de tudo, deputados, os dois ministros—todo o indice da familia portuguesa que trato a distancia. Não sei como pode aturá-los, concluiu, olhando para Peregrina.

—Aturo-os bem, e divertem-me: são originaes na sua ingenuidade. E eu quando vejo alguem original exulto. A vida é tão monotona, a gente escorreita tão pouco interessante...

—Sabe? interveiu Salomé, voltada para Nuno: tambem esteve hontem a mulher do pintor...

Vinha pasmosa de côres etoilette. As tintasdo cabello e da cara, desacreditavam, de vez, o marido.

—Se é o marido quem a pinta ou lhe inspira a côr, o que nunca ouvi, objectou Violet. O contrario é que parece verdadeiro; é ella o modelo, a razão da arte como dos infortunios do pintor.

—Coitada, commentou Peregrina, que pena me dá! Deus deu-lhe um cerebro estreito, que mal chega para a moral burguesa. E teima em seralguem! Quando, afinal, nem tem vontade de ser boa, nem talento para ser má.

O horror que deve ser o conflicto da carne escandecida pelo temperamento sem a menor centelha de genio que o aproveite!

—Ah! commentou Nevogilde, essa, apesar de tudo, é sympathica no seu remoinhar detoilettesde rainha pobre de tragedia...

Quem eu não aturo são os outros.

Umas creaturas tão enfezadas, tão pobres de corpo, como de alma... Que miseria!

—Nuno! observou a Artista, delindo as palavras num sorriso:—não me faça arrepender do conceito em que o tenho. Demais, esse luxo de parecer forte denuncia fraqueza...

Que mal lhe fizeram as minhas visitas de sabbado? Seja bom! A inferioridade dos outros é que faz o nosso talento.

Nevogilde ia a replicar, quando sentiu refolharo reposteiro e surgir a cabeça quasi branca de José d'Andrada.

—Olá, monsenhor! Então que vae?

—Uma optima temperatura nesta sala, replicou o padre. Estou certo de que é o unico compartimento civilizado de Lisboa, pois que tem tudo—espirito, luxo, calor...

E sorria, numa expressão boa, encarando Peregrina e os companheiros de serão.

—É verdade, observou Nuno. E, entretanto, se o monsenhor não viesse de fóra, do frio, já nem agradecia esta temperatura e companhia.

Eu creio que até no ceu haverá dezembros para que haja camaras mais reconditas onde Deus alumie e aqueça os escolhidos. Não lhe parece, monsenhor?

—Sei lá! respondeu Andrada. Nunca me dei a averiguar se o ceu tinha calendario, mas creio que não, pois que, apesar de relapso, segundo os vigarios de Deus na Terra, quando leio o Breviario não dou pelo tempo...

—O monsenhor quando morrer não chega a estanciar no purgatorio, tão lavada é a sua vida neste mundo!

—Não sei, sr. Conde, como Deus vê as nossas obras! Se as avalia pelas intenções, estou certo de que nos absolverá a todos, seja qual fôr o conceito que o mundo faça de nós.

Elle vê-nos ainda informes. Sabe o que odestino vale contra as creaturas. Creio que castigará a maldade, mas será bom para a desgraça, perdoará os nossos erros.

De certo, ha de prosperar-nos no ceu segundo as intenções.

Por ellas saberá quem são os limpos de coração.

—Como poderá passar no ceu sem a Mouraria? perguntou Nuno, rindo, voltado para Ruy.

E dirigindo-se a Maria Peregrina:

—Não imagina, é uma sereia bohemia. Como sente a vida humilde dos que viciam por essas ruelas e sabe insinuar os imprevistos que por lá existem!

—Ahi está um emprego que me dirá bem, affirmou Ruy, em sua voz cantada: serei o informador junto de Deus da miseria que sei.

—Deus dispensa-o de tal trabalho, disse Andrada, sorrindo. Vive na consciencia de cada um. Julga os nossos julgamentos e joga para isso com factos que nos são despercebidos. Mas deixemos o assumpto se V. Ex.aso permittem.

Discutir Deus é estragá-lo. Basta crer nelle, acceitá-lo no maximo de bondade que pudermos pedir ao temperamento.

Uma novidade:—acaba de chegar a Lisboa o novo ministro inglês; vae ao Paço na proxima semana apresentar as credenciaes.

—E quem é? perguntou Nuno.

—É, deixe V. Ex.ª vêr se me lembro: É... John Brook.

—Brook! disseram a um tempo Peregrina e Violet.

—Conhecem? perguntou Nuno.

—Sim, conheço; quero dizer, sei quem é, informou Peregrina. Uma pessoa da familia delle foi do nosso tempo em Petersfield.

E, disfarçadamente, olhou para Salomé, que conversava baixo com Violet.

Appareceu um creado.

—Está lá em baixo o sr. dr. Amaro Sanches; pergunta se V. Ex.ª pode recebê-lo.

Peregrina fez um gesto de cansaço e disse de vagar, hesitante:

—Que entre...

Nuno ia a levantar-se.

—Ah! fique, peço-lhe, implorou Peregrina.

—Se assim o deseja, fico. Mas custa-me muito aturar um capello, e então aquelle—lente, filho de lente, neto de lente. Tem as caldas todas.

—Deixe lá, replicou Peregrina. O genero é antipathico em Coimbra. Fóra de portas é toleravel. Verá que é discreto...

Momentos depois entrava na sala o dr. Amaro Sanches, pequenino, precioso, á buscade expressões, anecdotico, preoccupado com a maneira de estar.

Explicou que partia no dia seguinte para Coimbra a reger cadeira. Falou das aulas e contou de enfiada as partidas do velho Lourenço, José Braz e casos do Quental.

E Maria Peregrina, que via, disfarçadamente, a atitude admirada de Nuno, como a desviar-lhe a palavra:

—Esteve na Granja, não é verdade? Divertiu-se? Agora vae extranhar; muito trabalho...

—Ah! não imaginam. Este anno a praia esteve animadissima. Disse lá umas conferencias na Assembléa sobre a Pedagogia na Allemanha. Sou um apostolo deste grande país. Fiz lá o melhor do meu apprendizado scientifico. Estou gratissimo ao ensino allemão. Será o meu guia na aula. Os meus collegas na Faculdade vêem de maus olhos este exclusivismo pela Allemanha. Mas V. Ex.assabem que é a primeira em tudo:—em Medicina, Philosophia, Arte, Politica, etc. Sou tradicionalista como um allemão. Quero Sciencia, Arte e Politica tudo á allemã. As creaturas disciplinadas a uma só ordem—á auctoridade, que é no governo uma individualidade de poder, na aula o professor... Por mim serei um ditador. Um mestre é na cathedra um governante. Tem de impor os methodos.

E, numa confusão de assumptos, verboso, descrevendo methodos de ensino, as dansas da Granja, tudo o que lhe ia lembrando, passou uma hora. Até que pediu licença para retirar:—tinha de levantar-se cêdo...

Houve um movimento que tanto podia ser de attenção á despedida, como de allivio.

Nuno, vexado, abreviava os agradecimentos ás offertas do professor, muito importante, convidando-o a ir a Coimbra ver os progressos do ensino.

—Que fosse; o ensino estava ao par do que vira no extrangeiro; não era só a Medicina que honrava Coimbra, a antiga capital intellectual do país; honravam-na todas as faculdades, destacando-se a de Direito, onde o professor Alves, que ensinava Direito Patrio, remontava o estudo da sua cadeira ás edades paleolithicas;—que fosse ao menos assistir á festa dum capello, aconselhava com interesse: era a festa academica por excellencia.

E para Maria Peregrina e Salomé:

—Porque não vão V. Ex.astambem? Deviam gostar. Haveria em breve o capello dum rapaz que se doutorava ao mesmo tempo em philosophia, mathematica e medicina e ia ostentar na festa um capello tricolor; não imaginavam:—era uma summidade, com vinte e cinco annos!

Que fossem, insistia; já o pae e o avô, que tambem tinham capello, falavam com uncção da grandiosa festa.

E os presentes á uma, para que se calasse:

—Que tinham o maior desejo de ver a tal zebra insigne. Era possivel apparecerem. Haviam de combinar...

Enquanto falava, Amaro Sanches fitava Salomé, que parecia a unica a interessar-se por aquella lôa coimbrã.

Afinal despediu-se, promettendo voltar em breve. Ia muito sensibilizado pelas reuniões dos sabbados.

E, depois de salamaleques varios, arrastando cadeiras, lembrando ainda os ditos do Dr. Lourenço, sahiu muito contente de si e da Universidade, após um aperto de mão prolongado á Salomé, que o fitava com ternura.

Quando sahiu tudo se calou. Nuno levantou-se, esfregou os olhos, como se tivesse acordado dum pesadelo, e disse, voltando-se para Ruy:

—Vamos!

—Já? inquiriu Peregrina. É cêdo; são onze horas.

—Estou fatigado, contuso. Tenho a impressão de que o homem varreu sobre mim toda a caliça dos paços de João III.

Quando a torre cahir não faz tamanha bulha!

A cabeça deste lente rehabilita o chaos. Aquelle craneo é uma terrina de salada russa!

Adeus, Maria Peregrina!

—Espere um pouco! disse ella, fixando-o.

Coitado! Depois das sabbatinas nas aulas, dos successos na Granja, triumphos em theses, do capello amarello, retrato entre o papá e o avô, dos cumprimentos dos rapazes, num meio pêco e idiotamente romantico, que queria V. que o homem fosse?

—O que eu me perguntava, no decurso daquelle desapontoado de coisas, era no que redundaria a geração que tem educadores de tal jaez?

Que viveiro!

Dias depois, escrevia Peregrina, quando foi interrompida por Jacob, que lhe trazia um bilhete.

Leu: Helen Broock.

—Está no vestibulo esta senhora? perguntou.

—Está, informou o anão.

—Acompanha-a aqui.

Momentos depois entrava Helen, e abraçava Peregrina num transporte de alegria.

—Ha que tempos nos não vemos!

E beijava a antiga companheira na boca e nos olhos, incendida de côr.

Maria Peregrina recebeu-a com moderado enthusiasmo. Quando ella se distanciou, mirou-a curiosamente.

Helen não era já a esbelta rapariga de Petersfield. Era uma figura quasi vulgar. Debalde Maria Peregrina procurava nella a linda pelle de seda que a tinha arrebatado tanta vez, as fórmas excepcionaes, a flexuosidade e candura do movimento.

—Estou mudada, não é assim? Tu não estás resentida commigo?! Sabes que tive um grande desgosto com a carta do John. Coitado, agora é um cordeiro. Tenho vingado a grossaria que praticou comtigo.

Então, minhaSapho! dize alguma coisa á tua velha amiga, abraça-me!

E beijava-a com ternura.

—Que queres que diga? Que és junto de mim o passado! O acaso, veiu juntar-nos, quando estamos tão longe do que fomos.

Não imaginas o estado de indecisão de espirito em que ando. Depois que te deixei, a nostalgia de Petersfield pautou-me toda a sorte de extravagancias. Queria encontrar alguem que te substituisse; e, entretanto, ia enchendo o tempo, pervertendo-me, para não pensar no perdido.

Não encontrei quem procurava. Nem tu, segundo acabo de verificar, podes substituir-te.

Não sei se sabes que vive commigo Violet. É uma pobre creatura que me é docil como a minha carne. Talvez por isso a vejo com amargura. Está ahi outra rapariga, minha parenta.

Já percebi que amo nella a simples frescura da mocidade, talvez a ingenuidade dos seus enleios de provinciana.

Mas o vago duma aspiração suprema, persiste em mim. Eu queria, sabes?—o goso tranquillo, pôr um fim onde só encontro o indeterminado...

Um horror!

Não tento uma aventura que me pague a imaginação de urdí-la...

—Pois calculei que eras feliz. Tinham-me dito que recebias a melhor gente de Lisboa; que davas festas...

—A melhor gente de Lisboa é pessima. Excepcionalmente encontrei uma figura rara, o Conde de Nevogilde, um excentrico, escriptor de merecimento, por quem sinto a melhor devoção. Vale-me nalguns serões.

Vou por estes dias passar algum tempo á sua casa de Entre-os-Rios, a Villa-Feia.

—Extranho logar, disse Helen, se o titulo não mente.

—Não mente, creio. Aquella Villa é umcapricho da natureza em favor do proprietario.

É um scenario novo, com uma flora especial, cheia de imprevisto. Tudo ahi é curioso. E não imaginas o enthusiasmo de Nuno Nevogilde pela sua Villa, como sabe estimar o encanto do Feio.

É um rapaz adoravel. O seu interesse vale mais do que o seu talento.

Ser interessante é ser tudo para os outros. O interesse é bem mais raro do que o talento.

Este pode ser monotono, impertinente; o interesse é o imprevisto, o encanto derramado naturalmente, filho duma razão que escapa, adstricto a um genio cujo enredo nos move sem que possamos defender-nos das suas más consequencias.

Não é o que elle diz, é a forma porque diz. É insinuante, muito crestado de viver, apagando-se junto dos humildes, pasmando perto dos tolos, soffrendo o que vê, o que adivinha...

—Vaes então passar uma optima temporada? disse Helen triste e morna aos enthusiasmos de Peregrina.

O que te não lembra é Petersfield! Outros tempos, novos amores...

Pois eu, minha querida, vivo ainda na recordação dos velhos tempos. Não te enganavas quando respondias ao John, annunciando-lheque eu permaneceria fiel aos teus ensinamentos. Cada vez tenho mais horror ao homem, sobretudo ao que me deram por companheiro. Ainda bem que adiabétespromette liquidá-lo breve... É a sua nota sympathica—a doença.

—Olha que nos meus ensinamentos não cabe tal ferocidade. Ha coisas que podemos pensar, mas devemos envergonhar-nos de dizer. O pensamento nem sempre joga com a vontade.

Eu sou feroz commigo: tenho-me desejado a morte. Gosei a morte de Edgar, como nunca esperei gosar coisa alguma no mundo. Mas não lha desejei. Ter-lha-ia evitado, se a adivinhasse. Ante o facto consummado o meu espirito exultou. Espirito e corpo, num abraço como jámais se deram, possuiram aquelle lindo morto ou antes a Belleza-morte, no maior elasterio de sensualidade... Mas, vigiar dia a dia o que vae dar-nos a felicidade de morrer, perscrutar-lhe os passos da doença, porventura promover-lha, isso não é digno de ti.

—Ah! minha Peregrina, tu não sabes o que é sentir o amor do homem que detestamos. Olha que é peor do que o contrario, amar a pessoa que nos detesta!

—Mas afasta-te delle. Deixas de ser ministra de Inglaterra, mas és a mulher digna, ainda que vivas como uma rameira, de amorescom outras rameiras. Sê a mulher livre; nada ha peor do que a honestidade forçada.

Só a hypocrisia é crime!

Os olhos de turquesa da extrangeira nublaram-se de lagrimas; cahiu a soluçar sobre o peito forte de Peregrina, que a afagava friamente. Bateram á porta.

Era Violet e Salomé.

—Esperae um pouco! disse a Artista.

E, dentro de breve tempo, sahiam as duas a encontrar-se com a antiga condiscipula e Salomé.


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