XIA Villa-Feia, sobranceira a Entre-os-Rios, assenta na encosta que domina a juncção do Douro com o Paiva.Este ribeiro desce obliquamente, como um fio de platina a fundir-se nas aguas de oiro do Rio, que segue, como um grilhão mysterioso, a perder-se no mar.O antigo paço senhorial da Villa-Feia é um systema de torres e torreões extravagantes, casas afiladas de frestas altas e seguidas, que dão de longe a impressão de linhas pontoadas; e quadrados enormes, atarracados, beiradosde ameias grotescas, e frestas em losango, que põem na cantaria verde-negra um recorte de retinas extranhas, attentas ao mechanismo liquido das correntes e á paisagem roxa dos montados.Tanto o paço torreado como o plantio da maior parte do arvoredo da Villa-Feia, foram obra dum velho templario que, segundo a Lenda, veio esquecer ali as canseiras da guerra.Aquella architectura, informam os do povoado, foi idéa do templario. A deformação das arvores e outrossignaesda Villa maldita, foram castigo de Deus, irritado com o porte de D. Alvaro de Castro Leite de Villar, um dos maioraes da Ordem que, em 1312, Clemente V aboliu.Corre a fama de que o grande cavalleiro fôra um dos que mais justificaram a liquidação da Ordem militar e religiosa dos Templarios, pois que escureceu o brilho dos feitos mais ousados com actos de desenfreada sodomia.O seu temperamento, fóra do natural, delineara um castello desproporcionado, alheio á architectura do seculo.A natureza requintou em lhe deformar as arvores, dando á Villa-Feia uma flora monstruosa, invertendo o tempo das flores e dos fructos e afeiando as plantas de melhor raça. Mas não é sómente nas velhas arvores, que os dopovo inculcam como plantadas pelo Templario, que as deformações se notam. É em todas as arvores que ahi se disponham. Quanto mais formosas são fóra, mais afeiam lá dentro. Ha-as chloroticas, abraçando-se numa adherencia de enxerto; outras, communicando serpentes de ramaria e abraços a muitos metros dos troncos; raças humildes, attingindo desenvolvimentos notaveis; eucalyptos, geralmente desenvolvidos e que ali figuram de anões, enfezados, exiguos.Desenvolvimento, florescencia e fructos, parecem obedecer a leis especiaes. A Villa-Feia é um capricho da Natureza; uma pagina de Pathologia vegetal.Os fructos são acres; as flores, em meios tons, e dum recorte esquisito, não têem aroma, o que faz que os camponios supponham que a sua approximação lhes veda o olfacto.Tudo ali é extranho. Cada arvore toma um aspecto diverso das mais da sua raça em outras terras. O choupo-chorão abre em traços rectos; oulmus pendula, de braços geralmente curvos no sentido do tronco, revira os ramos em hastes de novilho; cactos prodigiosos, vestem o sopé da encosta, formando cordões farpados; pinheiros bravos abrem-se em umbellas rôtas, de agulharia verde-escura; os cedros parecem arvoresitas de Natal, ramos de presepio; cyprestes bastos,tragicos e colossaes, põem pontos de admiração na paisagem; chorões, flexiveis como vimes, descem em tufos emmaranhados as suas lagrimas verdes, longas até aos pés; medronheiros de grandes troncos, herpeticos de musgueira, de folha sêca, mal vestidos, ostentam, simultaneamente, floritas brancas e fructos exiguos de coralina.Os sobreiros jámais deixam o tom acastanhado que usam noutras terras ao abandonarem a cortiça:—põem na Villa-Feia umanuancede sangue velho, erguendo-se, rachiticos, como adolescentes morenos alcançados pela tisica.Nos recantos mais sombrios o chão é hirsuto de tojeira, cerdoso de espinhos bravos, bastos como pellagem de javali, salvo nas ruelas, abertas em lacetes, tortuosos, duma colleação mysteriosa de labyrintho.Domina a Villa um penedo enorme, simulando uma figura-gigante, deitada na tojeira, que se desdobra em volta como uma pelle.É uma figura nua, guarnecida de musgos, ostentando signaes nitidos dos dois sexos; lembra a figura de Hermaphrodita que um artista ensandecido tivesse trabalhado ha muitos seculos, e postado ali como um amuleto maldito do mundo sensual.Corre entre os lavradores que o Penedo fôra cinzelado por D. Alvaro em noites brancasde janeiro, de collaboração com o Demonio, que, em baixo, no Ribeiro de Cobre, referve coleras.E rapazes gastos e velhos sensuaes, crentes na sua virtude, vão horas mortas, pedir-lhe forças desbaratadas.O Encommendado não se cansa de predicar o peccado em que incorrem os que veneram o mysterioso granito.E velhos menos confiados contam casos de creaturas tolhidas, quando foram de romaria ao Penedo, depois de encontrarem a alma-penada do Templario, em companhia do Demonio, revendo a obra.O Ribeiro de Cobre ganha a primeira altura da encosta dum salto, borbulhando tufos de agua escura, que rasam em madría pela açude. Dali partem levadas que cortam em leque os campos baixos.Vogam na madría aves de agua, pequenos cysnes e enormes gansos, de pescoços de cobra e bicos de fava, remando de vagar os corpos gondolosos, vestidos de pennas, tufadas como ramos de chrysantos negros.Tracto singular de paisagem, onde esparsos olivedos põem nodoas de saudade em cinza!Parece haver o maior parentesco entre o Ribeiro de Cobre, assim chamado em razãoda côr e o arvoredo, em que predomina o acastanhado dos sobreiros.O povo guarda-se cautelosamente de pescar no Ribeiro, se bem que seja abundante em peixe e, sobretudo, em trutas, que lembram desenhos fugidos dalgum jarro precioso do Japão, a refulgirem escamas de prata e oiro por entre o cobre liquido do humilde corrego.É que desde muito se conta na aldeia que D. Briolanja, a ultima morgada da Villa, fôra victima de peixes ahi pescados:—que ceara as endemoninhadas trutas numa vespera de Anno-Bom e amanhecera sem fala, muito branca, fazendo esgares, até que morreu, depois duma agonia mysteriosa, ao cabo de poucas horas.Para além da madría, ha um velho moinho redondo, de grande circumferencia e pedra tosca, de juntas tomadas a verdura, com janellas oblongas e uma roda de dentes podres.Semelha um carão horrivel, de olhos azeitonados, comidos de ophthalmias, sobrancelhas rentes de musgueira verde-limo e boca enorme, a que a roda de dentes cariada dá a expressão confrangida dum riso diabolico de dor.A agua que a boca do moinho espúma, em camarinhas escuras, través da roda gasta, vae sumir-se a distancia, no lagedo amarello das alluviadas, que escondem o Ribeironum tracto de dez passos. E é, sob o lagedo, que a agua espadanada contra a penedia baixa referve coleras de inferno, resoando naquella abobada de acaso as presumidas falas do diabo, segundo a voz corrente na aldeia.Sobranceira ao moinho, na outra margem, fica aEira de Vidro, uma escama natural de mica luzente, que, ao meio dia, quando o sol a veste, refulge, a meio da Penedia-amuleto, cordas de luz branca.Circuita o exotico miradouro uma escarpa de granito rendilhado, que lembra o espaldar e braços de uma cadeira gothica de Cathedral.Finalmente, é deste poiso extranho que os valles proximos escutam e repetem os dizeres dos que ahi falam.Condições de acustica desconhecidas põem no espaço trios de arremêdo!Tal a descripção da Villa-Feia, conforme um inedito de Nuno de Villar, III.º conde de Nevogilde e ultimo representante do Templario.Era ahi que o escriptor villegiava quando a Cidade o aborrecia, ou sentia necessidade de dar asas á sua erudição e Arte. Ahi escreveuOs Sensuaes, o melhor dos seus livros, e varios capitulos daVida Plastica, opusculos criticos, afora artigos. Dava-se bem com a paisagemque o cercava, e, sorria, benevolo, sempre que perguntava e ouvia a historia do Templario. Os camponeses interrogados é que o não indulgenciavam pela transigencia com o execrado cavalleiro. E, á puridade, aventavam suspeitas:—Que o representante de D. Alvaro parecia seguir-lhe as pisadas; que não era facil fugir ás leis do sangue; que na Villa-Feia tudo se deformava, os homens como as arvores...E discutiam as figuras que pernoitavam no velho casarão senhorial.Maria Peregrina tinha dito a Nuno que ia ser hospeda delle, quando este falou em ir para Entre-os-Rios.Nuno, cortês, agradeceu a visita e acceitou-a. Intimamente aborreceu-a.Convidára oVagabundopara o acompanhar. Queria mostrar-lhe aquellas sombras. Não sabia porque impressionava-o bem a convivencia daquelle desequilibrado, que alternava com elle grossarias e carinhos, que ora o abordava com humildades de rafeiro, ora o perseguia, desdenhando da sua Arte e nobreza, dos seus privilegios de singular.Maria Peregrina era a mulher absorvente que, apesar de tudo, receava, com quem não queria intimidades.Era preciso attendê-la. Era uma creatura excepcional. Mas, por isso mesmo, horrorizava-oo excessivo carinho que lhe notava. Admirava-a como mulher, mas temia-a. Era uma sensual que tinha percorrido a gamma do mais extravagante teclado da vida. Quereria porventura matar um novo capricho? E elle que só usava creaturas inferiores, que percorria altas horas os becos mais suspeitos a recrutar mulheres de acaso, como se haveria deante da mulher invulgar?!Ah, se encontrasse pelos prostibulos mulheres daquellas formas!Mas ter relações sensuaes com ella, uma intellectual, que havia de estar a ver, a frio, as suas atitudes de animal enfraquecido, cahindo, segundo o costume, na hysteria, que é a carne entregue a si propria, a velocidade adquirida do prazer a derivar na loucura!Isto, se a commoção lhe deixasse ver nella amulher!E, muito triste com a ida da Artista, ia contando os dias, num horror de frade que treme da primeira tensão da carne.Ah! elle era bem culpado, pensava. Podia ser como toda a gente. Se se deixasse de requintes não temeria mulher alguma. Mas degenerára-se.Exigia sempre nas relações uma certa liturgia; dahi o seu pessimismo litterario, o pessimismo em tudo.E, involuntariamente, lembrava as palavras de Lichtenberger:«O pessimista é um degenerado, um doente que deve curar-se ou partir, mas que não tem o direito de empeçonhar a existencia dos sãos, de desmoralizar os potentes, de calumniar a vida».Como sentia aquellas verdades!Era assim... Claro que tambem Peregrina era uma doente; mas por isso mesmo lhe não perdoaria. Demais, o seu horror por ella ferir-lhe-ia o amor proprio.—A doença odeia a doença. O que nós procuramos nos outros são as qualidades que não temos, pensava Nuno.Por isso elle era um forte, entre uma seara de mulheres, castanholando modas e vendendo alegrias.Mas, na Villa-Feia, com Maria Peregrina a trocar beijos e impressões de Arte—que horror!E era fatal a sua ida. Equivoca situação! Já tinha percebido que ella o desejava.Por sua vez Peregrina, enthusiasmada, nem parecia a mesma.—Tu lembras a antiga alumna de Petersfield, dizia Violet.E vendo-a cuidadosa com astoilettes:—Já percebi, vaes noivar...—Talvez, disse Maria Peregrina, rindo; não sei. Os programmas nunca antecipam muito os meus desvarios. Geralmente vicío sem elles. A surpresa é, afinal, o melhor da vida. Irei ver como as arvores da Villa-Feia me recebem. Corre que o antigo Paço tem a fortuna de afeiar o que é bello e engrandecer o que é humilde...** *Passados dias partiram os dois, Nuno e Peregrina, os creados do Palacio-Fóz e Jacob.Nuno esteve inquieto até á hora da partida; esperava Ruy.Esperou debalde: minutos antes da sahida, recebeu carta delle, explicando a falta com o motivo de ter de seguir nesse dia á tarde para Villa Alva. Era-lhe impossivel ir a Villa-Feia, informava. Esperaria Nuno em Lisboa.Nevogilde, contrariado, entrou para a carruagem.Ficaram em Lisboa Violet, Salomé, e José de Andrada.XIIDecorreu um mês sem que ao palacete da rua do Alecrim chegasse qualquer noticia de Villa-Feia.Salomé partiu para o Mosteiro, a pretexto de visitar as propriedades e passar ali algum tempo.José de Andrada recolheu á cama myelitico, dias depois da sahida da Artista.Violet, á vontade, senhora da casa, deu-se a receber aos sabbados a velha collecção de hospedes, e mais assiduamente Manuel Brito de Miraz, daFolha da Noite, continuador do publicista dasHoras Tôrpes. Em breve tempo se entenderam intimamente, o chronista e a inglesa. A fatalidade fez amante de Violet o mais crapuloso do bando que passeava os salões de Maria Peregrina. Horas tardas, se o chronista não apparecia, sahia ella a visitar os bairros suspeitos, trocando-o por fadistas.Um dia chegou Peregrina, sem prevenir.Violet correu a abraçá-la, e a saber da villegiatura em Villa-Feia. Achava Peregrina cansada, mas alegre.—Então, muito conciliada com o sexo feio? perguntou. Era certo que Nuno podiaexcluir-se da designação do seu sexo—pois que não era feio; e ria para a Artista, que a ouvia serena.—É verdade, disse por fim, estive bem.Nuno resume hoje para mim tudo! E eu a correr mundo á procura dealguem. Achei, sabes? A minha selvajaria amedronta-o, perturba-o; é um animalsinho, lindo de formas e docilidades, a submeter-se-me, a gostar dolorosamente os meus maus tratos, porque o maltrato, e a entregar-me, assustado, o corpo de raça, que veste naquellas horas uma alma de mulher e de lacaio. Ah! sei, afinal, o que é o amor...Mas não sei porque lembro-me de que não pode durar a nossa felicidade... E por cá?—O peor, informou a inglesa. Salomé foi quasi logo depois da tua partida para o Minho a tratar de negocios que me pareceram pretexto para sahir.O monsenhor está no quarto, impossibilitado de andar, inutilizado por toda a vida, segundo o medico.—Uma noticia triste—a do padre, disse Peregrina. A de Salomé nem vale discuti-la; chegou-lhe a nostalgia do Minho. Foi folgar as cirandas do Mosteiro, contar a differença que vae desta á sua aldeia.Mas o padre, coitado! Vamos vê-lo.E subiram as duas até aos aposentos do doente.—Então que tem, monsenhor? perguntou Peregrina da porta.E, depois, correndo para elle a abraçá-lo, enxugando-lhe, commovida, as lagrimas:—Não se excite, ha de melhorar...—Não melhoro, minha senhora. Os milagres nunca desmentem a razão. O que fazem é escondê-la, ás vezes. Ora a razão contribuiu-me irremissivelmente com uma doença incuravel. Eu devia adivinhá-la. Tê-la como fatal derivação da minha vida.Tenho o mal dos que passaram a vida a vibratilizar os nervos.Ainda na oração e no culto vivi uma tolerancia que escandalizou os meus superiores. Como não havia de ser tolerante para os peccados alheios, se sabia, por experiencia, o que era o inferno e a penitencia de soffreá-los.Emfim, aqui tem V. Ex.ª o mais acabado exemplar de miseria que podia recorrer á generosidade da sua nobre estirpe, a pedir a esmola dum quarto e dum talher.Sou oindexde faltas e excessos. Se algum dia escrever o romance da sua vida,—e creio que terá assumpto,—peço-lhe que se não esqueça de associar á sua peregrinação de mulher nobre, tão nobre que tem nos escudos symbolos de duas nacionalidades, a tragedia simples dum padre que batalhou deveres e nervos para vir acabar, miseravel, entregrandezas—as que V. Ex.ª quiz repartir com elle. Pois que está em moda o romance social, não deixaria de representar bem o clero de duas Potencias historicas a desfazerem-se...Maria Peregrina e Violet commoveram-se. A confissão daquelle homem, precocemente velho, a trasbordar amarguras, veiu aguar o enthusiasmo da Artista, que pensava encontrar nos amores de Nuno uma nova epocha. Quem é feliz ou imagina sê-lo quer ver em tudo felicidades. E magôa-se se os fados lhas desmentem. Mal encontrava palavras a consolar Andrada.E vingava-se, prodigalizando-lhe cuidados, andando em volta delle a adivinhar-lhe os desejos.—Quero tornar-lhe superfluos os movimentos, dizia.Ha de ver:—quando pudér mover-se dispensar-se-á de fazê-lo. Terá a vontade confortada de preguiça, com pouca vocação para ordenar lidas.E abraçava-o, carinhosamente, enquanto Andrada lhe beijava as mãos a chorar.** *—Vou a casa de Nuno, disse ella a Violet, no segundo dia depois da chegada.Estou surprehendida com o socego delle. É de admirar que não tenha vindo. Está a abeberar os excessos de amor que trouxe da Villa-Feia.Nuno recebia aquellas caricias duma sensualidade selvagem, medroso, de olhos baixos, humilde.—É um exame de consciencia que naturalmente está a fazer. Tem medo de que não saiba dar-lhe impressões novas. Como é creança em amores. Mas vou educá-lo. Hei de pagar com usura os seus encantos de noviço. Vá, Violet, manda preparar o carro.Um quarto de hora depois chegava ao palacete-Foz.Nuno estava no quarto que communicava com o gabinete. Á hora do correio entrou o mordomo, segundo o costume; e, depois de entregar a correspondencia, informou que havia meia hora que Maria Peregrina esperava no salão.—Ah! disse Nuno, admirado, porque não mandaste entrar?E depois:—Mas, não; como te não tinha prevenido... Olha, quando vier manda logo subir.Mas não, depois falaremos ácerca das visitas. Convida-a a entrar. Já!...E, confuso, levantou-se quando lhe presentiu os passos.Peregrina entrou, encarou-o a distancia, e, depois de curto exame, foi beijá-lo nas palpebras. Começou a cofiar-lhe o cabello, duma negrura luzente; ora o abraçava, ora o repellia...—Então não recebes antes desta hora? Nem a mim que sou senhora dos teus nervos e posso subjugar-te num momento! Anda cá, deixa morder a tua boca! É um fructo de desejo...E mordia-a suavemente.Depois, afastando-se:—Vae buscar aquella pelle de urso. Cobre o escudo dessa alcatifa. Extranha idéa—brasonar tapetes! Que os outros pisem os nossos brasões vá, mas nós! Deita-te aqui, minha creança.E desabotoando o vestido côr de hortensia:—Faze o mesmo que estou fazendo! Despe-te! Já!... Vê como as sedas da pelle do urso se levantam. E olha que são dum urso do pólo!Nada resiste ao genio sensual!E, de repente, enlaçou-o pela cintura, fazendo-o tombar, passivo e tremente, sobre a pelle branca.A physionomia de Peregrina espectrava a alegria selvagem da louca, que, numa anciade luxuria, se preparasse para devorar o amante, depois de esfarrapá-lo.A expressão de Nuno era de dor acceite. Lembrava um religioso a deixar-se maltratar, sorrindo aos cilicios, crente num ceu a apparecer!De subito ergueu-se sobre o corpo de cobra da amante, e, num momento, desmanchou-o uma extranha furia; cahiu em coma, voltou a soffrer, sereno, o martyrio daquella mulher, cilicio de amor, simultaneamente divina e infernal, sagrada pelas fórmas e demoniaca no capricho das perversões! Até que cresceu, de novo, em tempestade; e, sobreexcitado, inconsciente, sacudiu-se em crise hysterica, e impelliu Peregrina, que tombou, exánime, ao longo da alcatifa...XIII—Quem é? perguntou a Poetisa, ouvindo a porta do gabinete, e suspendendo a escripta duma folha de papel que levava em meio. Não recebo a esta hora.—Está lá fóra, informou Jacob, o sr. Miraz que pede para entrar; promette demorar pouco.—Bem, disse Peregrina, aborrecida, manda subir.Miraz chegou, muito desmanchado, cumprimentou, abrindo a boca num riso enigmatico e sujo, e sentou-se, cruzando as pernas.—Que deseja? perguntou ella.—Venho propor a V. Ex.ª um negocio.É um negocio que não deve parecer-lhe pesado. Entro nelle sem rodeios, pois que V. Ex.ª conhece o mundo, sabe o que é a vida.Quando a necessidade entra pela porta, diz o proloquio, sae a virtude pela janella. Eu creio que nunca tive virtude para baldear da janella. O que tenho são miserias.Mas estou de posse dum manuscripto que vale dinheiro. E digo que vale, pois que fui ver por quanto um editor o pagava. Offereceu-me vinte libras. Para editor é bastante; mas para V. Ex.ª vale mais.Eu preciso dum conto de réis. A V. Ex.ª não lhe faz differença esta quantia e a mim aproveita-me. É uma somma salvadora. Verá que jámais comprou socego por tal preço...—Mas de que se trata?—A publicação vae intitular-se—Sapho em Lisboa. Insere episodios que V. Ex.ª especialmente conhece, documentados com uma carta do ministro inglês.E desdobrando um rôlo de papeis:—Leia V. Ex.ª:—confio-lhe os manuscriptos, na minha presença.Ella tomou o maço, muito serena. Leu a primeira folha:—era a carta de Broock, despedindo-a de casa. Viu algumas paginas com vagar.—Onde e como obteve esta carta? perguntou depois.—Permitta-me que não responda já.É segredo. Posso vendê-lo tambem, mas caro, pois que interessa terceira pessoa.—Esse segredo escuso de pagar-lho, replicou ella.E continuou a ler. Passou algumas paginas e de repente disse, fitando-o:—É uma historia incompleta, pessimamente feita. Não me perturba a idéa de ver praceados os meus delictos. Mas a historia ha de apparecer mais tarde, honestamente documentada e escripta.Isto, accrescentou, é uma torpeza idiota. Vale, como documento para v., bem mais do que para mim. É um caso simples dechantagea illustrar a vida dum jornalista de terceiras paginas, tambemsouteneure ladrão! Está bem naFolha, enquanto não houver casas de reclusão bastantes...—Pode V. Ex.ª pensar e dizer o que quizer. O que não quero é demorar-me; precisode saber se tenho de contratar o manuscripto com o editor...—Demais, estupido... Então imaginava que eu, de posse desta carta, que é minha, lha daria sob qualquer ameaça ou violencia?E, destacando-a, atirou-lhe com as tiras sujas do manuscripto, premindo o botão da campainha.Miraz levantou-se, derrubou um pequeno movel que o separava de Peregrina e cresceu para ella, que amarfanhou a carta, preparando-se para defendê-la, e encarando-o num misto de arrogancia e nojo.Elle deitou-lhe as mãos aos pulsos e ia a torcer-lhos, quando se abriu a porta e entrou o creado, surpreso.—Põe lá fóra este velhaco! ordenou Peregrina.Immediatamente o creado agarrou o chronista pela golla do casaco, arrastando-o ao primeiro patamar e fazendo-o rolar sobre a passadeira até á porta.—Não o maltrates, avisou Peregrina, do gabinete.Era ao tempo em que elle, já da porta, confundido com o tapete, bolsava para o alto os peores adjectivos daFolha.Mas, sentindo o creado, sahiu rapido, tapando com as mãos grossas os rasgões do fato, esfrangalhado.Peregrina mandou chamar Violet.Ella entrou, confusa.—Vejo que déste pela scena. Leio-te na côr o delicto...E mostrando a carta de Broock:—Quanto recebias do conto de réis que elle queria por esta carta? Devias ter a melhor parte...—Perdôa-me. Não lha dei, roubou-ma, num dia que veiu ahi ficar. É um miseravel. Pois que me faltava aqui? Dinheiro?!Elle sim, era precisado. Imagina que o satisfazia ir ao Tavares commigo, cear. Só tinha comido lá seis vezes, confessou. Que miseravel! E sujo!Oh! perdôa-me Peregrina. Não sei que loucura foi a minha. Estive a conversar demoradamente ácerca de ti. Contei-lhe, de boa fé, a historia da tua vida. Mostrei-lhe a carta. E elle, o miseravel, roubou-a quando sahi do quarto, á mistura com uma trancelim de platina e umas notas de banco que tinha na mesma boceta. Perdôa-me!—Perdôo. Contudo, não podes continuar aqui.O que succedeu foi uma fatalidade, mas eu dou por toda a indicação! Irás abraçar os teus. Tambem vou sahir de Lisboa, desta villa, com pretenções a terra civilizada e que só tem de civilização o peor:—alfobres de litteratos—genero-Miraz,gafos de toda a ordem, a especular escandalos.Vaes para Londres. Eu vou escolher um ponto retirado, á beira mar, esquecer-me...Na mesma tarde conversava Nuno com a Poetisa, acerca dos episodios do dia. E combinavam ir os dois passar o outomno á Figueira, a viver o socego da praia, á hora em que os banhistas retiravam.Nuno demoraria em Lisboa quinze ou vinte dias, a liquidar negocios. Maria Peregrina partia immediatamente.XIV—Porque és tu tão esquivo aos meus affectos, depois da convivencia que temos tido? perguntava Nuno a Ruy, sentados ambos num banco de azulejo arabe, no parque do Palacete-Fóz.Vês a incondicional devoção que tenho por ti, como sei ouvir os teus casos...Senti o prazer amargo das tuas confidencias:—os amores innocentes com Paulina, aos treze annos; e as luxurias de dois annos de collegio com escolasticos anemicos. Viste a cordura com que ouvi tudo—sonhos e miseriasadolescentes. Estimo-te como o destino te engendrou. Que prevenção é, pois, a tua contra mim? A cada momento sinto que me repelles...—Sim, disse oVagabundo, separa-nos a raça. Attribuo as mais das batalhas intimas aos fios de sangue nobre que me laivam o temperamento. Vejo mal as figuras de privilegio; como já te disse, só vivo os affectos que me não melindram. Não sei o que vale a amizade. Dou pelo interesse extranho, e raramente por uma ou outra figura de Belleza humilde. Propriamente culto não tenho por ninguem.Nem sei porque, seduz-me o teu espirito, mas vexa-me o teu affecto. É um caso de sensibilidade que não apercebo bem. Mas não falemos nisso. Conta-me os teus delirios com Peregrina.—Sei lá o que hei de contar:—amarguras. Tambem nos afastam razões intimas. Deante della, sinto-me abdicar de mim. Sou uma força que o seu amor explora. Goso e soffro segundo o seu capricho. Dá-me um amor que me faz ganhar a eminencia de sensualidades supremas, e me despenha, cégo, ás minhas fraquezas, onde tropeço com nervos e hysterias. Ainda bem que partiu. O mêdo que me causava!Vou escrever-lhe a denunciar-lhe este mêdo e o proposito de jámais a encontrar. Dóe-mea desillusão que vae sentir. Mas, deixemos isso...Agora sou eu quem relega o assumpto que deste.Canta alguma coisa; quero ouvir-te oFado triste...—Vá lá, disse o Vagabundo, tangendo a guitarra que levantára da extrema do banco.E interrogando-se:—Que lettra ha de ser? Será uma velhaCantiga, a ultima que me ouviu Paulina, em Villa Alva.E, desviando os olhos de Nuno para os espalhar, num além de reminiscencias, cantou em voz branda, os treze versos:«Senhora, partem tão tristesMeus olhos por vós, meu bem,Que nunca tão tristes vistesOutros nenhuns por ninguem!Tão tristes, tão saúdosos,Tão doentes da partidaTão cançados, tão chorosos;Da morte mais desejosos,Cem mil vezes que da vida!Partem tão tristes os tristes,Tão fóra d'esperar bemQue nunca tão tristes vistesOutros nenhuns por ninguem»!1Nuno fixava, perturbado, oVagabundo.—Vaes deixar-me abraçar-te, disse quando elle acabou.—Não, contrariou Ruy, esquivo e já de pé, entornando o olhar verde pela folhada mysteriosa do arvoredo...É tarde, vou sahir.—Espera um pouco.E, dando por detonações, longe:—Que é? Ouço barulho...—Deve ser o desabar dum regimen, informou oVagabundo. Já vês que não perdia o tempo enquanto conspirava pelas alfurjas, no segredo e abraço dos meus irmãos de crime.—Ah! então conspiravas com essas figuras de patibulo com que ás vezes te via, ás noites, pela rua? Tenho prazer com a confissão. Não sabia que um artista, como és, podia tropeçar em coisas politicas, e suspeitava das tuas companhias. Pensava coisas peores...O odio que me causavas quando te via encarar esses homens esguios, alvacentos, de torso recurvo, que o vicio planta nas esquinas, como postes de infamia, electrizando, vendendo-se á nevrose dos que passam...Num dia em que o teu olhar se misturou no riso duma figura assim, senti gelar a alma, todos os sentimentos, no riso que te desafiou. Confundi-te com a larva que me pareceu essa figura...Afinal, não podia ser; tu não podias dar-te áquelles farrapos.Mas intrigava-me, profundamente, o mysterio que encobria os teus serões.Em que passavas o tempo? Era o que me perguntava em vão. Como havia de suppor-te a conspirar! Tu a urdires a desgraça dum regimen!Vem cá, minha creança. Deixa lá os regimens. Elles são o que valem; e valem os povos que inculcam.Os povos são como as mulheres feias; culpam os espelhos que lhes reproduzem a hediondez!Alegra-te aquelle barulhar de cobiça? Não é um systema que tomba. É o desabar das monarchias do Ocidente, dos povos que ellas inculcam, das tradições que resumem.Mas que vale uma tal quéda, se a Arte e os artistas ficam! Não teem patria as grandes memorias...Ainda te entretens com a cabala publica? Para que? Qualquer quota de esforço que lhe dês te deminue. Comicios, revoluções, conjuras, que é isso? Que valem, que entravam?Nada. Uma nação moribunda afazerphrases...Coincidencia curiosa:—sonhei esta noite que tinha ido ao Paço das Côrtes, que não servia já o actual regimen, mas um outro.Entrei. Havia deputados e senadores, escolhidos dentre a primeira gente e a ultima corja da nação—dispostos atabalhoadamente, pela sala, emCarrara, granito e gesso. Vi-me afflicto entre aquellas figuras de museu politico, que mal conhecia, com quem não queria privar.A um canto barafustava um velho a elegia do Passado. Era uma figura moldada pelo tempo em granito e gesso.Subito, vi mexer o busto do Propheta, que estava ao centro do salão,—nariz em bico de aguia, testa alta, repas finas e ralas. Jorrou dos olhos redondos de mocho velho duas columnas obliquas de negrura, desfranziu a boca de satyro, e falou assim:—Nacionalidades! Patrias! mentiras de poetas...Heroes são poetas de mentiras!Systema latente é trapaça a chocar.Videntes são loucos a sonhar, cegos vendendo luz!A Vida é o que cada um quer. Só a Arte vale, a Arte, o fio-mestre da Vida!Nacionalidades! Patrias!—mentiras de Poetas. Portugal! Hespanha!—Versos, trastes velhos!—Não achas curiosa, Ruy, a coincidencia? E como no fundo o sonho é verdadeiro?Sabes o que vae ficar, provisoriamente? Quem vae governar?Não sabes. Vae ser um arremêdo do Grão-Lama.Não conheces, nem imaginas quem seja?Vou explicar-te essa figura, já que não lês o Escriptor-santo, em cujas obras vem retratada.O Grão-Lama é uma figura que os chineses conceberam perduravel, um homem eleito Deus por uma casta da China antiga, rodeado de ritos, uncções e virtudes, substituido cautelosamente, secretamente, apenas morto, por outro, semelhante em parecer; no nosso caso, sê-lo-á por outro semelhante em manhas, até que o Destino funda, providencialmente, embustices e embusteiros, em sacrificio a uma civilização por vir...O Grão-Lama do Ocidente ha de ser um litterato que somme a idiotia das Academias, e tenha a presumpção da visão dos tempos, um misto de Bandarra e Gongora, prenhe de democracia e lettras.Se era esta a figura que trabalhavas...—Sei lá para que trabalhava. Sentia necessidade de privar, já te disse, com os meus eguaes; não se foge ás affeições que o Destino impõe. A affeição é do Destino...O Destino pode ser a Raça. De politica nada sei, nem quero saber. A Raça mandou-mesuppurar na Politica o odio innato, viver na loja secreta a miseria intima.Ahi tens a razão da minha solidariedade com as revoluções. Sou affim de todos os que odeiam!Ha pouco discorrias suspeitas sobre as minhas fraquezas. Exquisitos reparos! Que direitos podes arrogar-te para discutir-me? Convenho que repugne a tua Arte a minha predilecção pela Belleza humilde, que me discutas como artista... Mas aventar alto suspeitas, a generalização das minhas miserias! Nego-te esse direito!Em todo o caso, quero dizer-te que, no momento, curo, sobretudo, de vingar principios, e, no numero das liberdades que batalho, entra a liberdade do Vicio. É a prevenção do doente, que não sabe bem onde os nervos, a educação e as taras podem arrastá-lo...Adeus, Nuno!** *No dia seguinte, passeava Nevogilde no gabinete de trabalho.Parou por momentos deante de um contador, e esteve a afagar um gomil esguio e depois as curvas puras de dois boiões, pó-de-pedra,esmaltados de flores de linho. Volveu a passear a diagonal da sala, e foi junto da secretária premir o botão da campainha.Veiu um creado.—Ainda não chegou o mordomo? perguntou.—Veiu ha instantes.—Que appareça, immediatamente, a falar-me.Minutos depois entrava o mordomo.—Tão grande demora? Recommendei-te pressa!—Ah! sr. Conde, estava a ver que não dava com o paradeiro do sr. Ruy. Que mais valera não trazer noticia alguma... Sei quanto V. Ex.ª se interessava por elle! Coitado...—Está doente?!—O sr. Ruy, informou o mordomo, morreu ha poucas horas... Cahiu ás primeiras balas das tropas fieis, junto ao monumento da Restauração, na Avenida, entre os revoltosos...XVMaria Peregrina, que chegou á Figueira muito fatigada e doente, no começo de outubro, foi installar-se na pequena vivenda de Mira-Mar,—á extrema da cidade.Passou os primeiros dias num torpor de contemplativa de quem mal dá pela vida externa.O mirante e os alegretes de Mira-Mar eram pontos de vôo á sua imaginação triste para um paiz de bruma, que nem bem sabia onde era, e, a bem dizer, só existia em si propria.Esse paiz era ella mesma, nevoenta como o espirito que o creára para si.De Mira-Mar avistam-se as terras barrentas do Cabo Mondego, morrendo na agua, o lindo casario da serra, branco e religioso como um systema de ermidas, bellos poentes, tudo o que o abraço do mar e da serra pode dar de grande, como expressão de paisagem voluptuosa.Do Mirante distingue-se, nitida, a linha do Cabo, que lembra as navalhas recurvadas que usa a gente do norte, e em que o mar figura como uma lamina, resplandecente de sol, a certas horas.A Cidade, rica de luz e notas imprevistas, é das que mais convidam a noviciar amores.Mas Peregrina, crestada pela vida, muito oxydada de alma, passou os primeiros dias do outomno recolhida numa rememoração de si propria, que nem o mar, nem toda a belleza da terra seriam capazes de delir.Havia uma grande affinidade entre ella e o tempo. Reflectia o outomno na sua physionomiade sombra, vincada de traços melancholicos, que signalavam uma belleza de occaso, especie de imagem de marfim antigo, vivendo o seu crepusculo de idolo abandonado...Aquella physionomia, talhada em sombra e chamma suave, não era já o involucro, a mascara; era a mulher toda,—a alma a esbater-se em luz de outomno.Na segunda quinzena de outubro fez-se-lhe no espirito alguma trégua.Sahia, ás tardes, a percorrer a praia, embevecida no scenario discreto da linda terra de pescadores.Aves marinhas andavam aos bandos, misturando o som rouco da sua voz á voz da agua inquieta, e esvoaçando sobre o mar que parecia uma geleira arada, muito riscado de fitas brancas, ondas regulares, certas, espreguiçando-se, com volupia, numa luxuria rhythmica.Quasi toda a adolescencia morena da praia, afrontava nua o mar, confundindo a sua carne côr de mel com as vagas serenas daquelles restos de oceano.E Peregrina, de olhos fitos naquellas formas, batidas pelas ondas, vivia então sua belleza em massa, irmã em amor dos bronzes que para ali boiavam doidamente, sentindo na alma aquelle mar, aquelles corpos humidos e macios, tudo...Ia ao outro lado numa bateira branca aos areaes de Lavos, muito sensivel á musica dos remos, espadanados por dois moços fortes.Tardes côr de graphita.Era á hora em que as gaivotas, as rôlas e as negrelas põem accentos circumfléxos na tarde, limitando a altura, num sob-ceu de asas.Passava horas nas praias fronteiras á Figueira, esquecendo-se, até se deixar dominar por aquella belleza de chromo, vivendo as cambiantes do ceu de outubro, duma belleza intima e serena.Nuvens côr da terra accrescentavam o Cabo até ao sol, que primeiro se projectava em amphora de luz, e depois morria numa brasa, a boiar no mar.Já noite, tomava um remo, ao lado dos moços da bateira, e ahi vinham todos, muito certos e irmãos naquella labuta embaladora, de olhos fitos no pharolim, que se ergue entre o Mondego e o Oceano—um polyedro verde que lembra um pedacito de mar-esmeralda, gelado, para nortear noctivagos da agua.Nalgumas tardes ia até á explanada, junto do Forte, para sentir a maré contra a muralha e avistar o recolher do sol.Passava o tempo a ler as côres em que se dispersava o dia, as tonalidades roxas que preparam a passagem para a treva.Marcam a extrema do Cabo o casario da mina e o pharol alçado em redoma.Noite alta, mandava o pensamento em derrota pela agua, e figurava-se a passear por entre as arcadas da mina ou pelas escarpas do fim da serra.Vieram as chuvas e as primeiras tempestades.A Figueira, no verão tão cheia de luz, veste de escuro o outomno. Abrem os dias num ceu de cinza que pouco e pouco melancholiza os campos.Rompem-se em agua a cada hora nuvens de chumbo, enquanto o vento revólta a paisagem, arremessando, escramalhando as pedras, a areia e os ramos.Em tardes de granizo e trovoada, quando os elementos se assanhavam, Peregrina recolhia ao Mirante a vivê-los de perto, emparedando-se ahi como num biombo de vidro.A tempestade, aquella agua batida, a dispersão electrica do fogo das trovoadas, davam-lhe impressões que ella casava aos estudos de sua alma em desarranjo.E, então, nostalgica das tardes da Grecia, procurava viver uns trechos do passado; e, fazendo do Mirante uma réplica doTemplo de Amor, mandava vir adolescentes dos mais formosos, fundindo-se com elles numa tempestade esteril ás tempestades de fóra.Juntavam as vozes em orpheão, cantando as modas creadas pela toada undisona da bahia. Tudo ali condiz:—a voz das aves, o canto rouco da marinhagem, a surdina do mar.Mas os arrancos da trovoada abriam clareiras naquella toada de porão, pois que as creanças a suspendiam a espaços, agoirando castigos.Os relampagos, que pareciam abrir o vidro em letras chinesas, quebravam em linhas de fogo contra os bellos corpos de topazio.Havia sempre na ronda um predilecto com quem Peregrina trocava especiaes lascivias...Illuminada pelo fogo duma paixão inconsumivel transfigurava-se, fundindo a alma em corpos eleitos, que vestia de delirios em dispersão de beijos. Beijos mudos, impressivos como a alma que os mandava, parecendo romper a seda-lacre dos labios que os praticavam...No entanto, as dansas continuavam, como um pretexto de enleio daquelles corpos atarantados, rematados por faces pallidas, esbatidas de penumbra, de risos brancos e gelados, inculcando o torvelinho a que se entregavam por mero capricho duma artista louca.Ia para o mar num yacht oriundo dos estaleiros de Portsmouth. Vivendo na attracção dos perigos, sahia de preferencia em horasde tempestade, pondo á prova a coragem dos companheiros, em geral ephebos.Era em dias em que o mar respira fundo, erguendo-se em violencias de desejo.As ondas, que na praia são rolos brancos, morrentes em torvelinhos de catarata, tomam na barra a expressão aguda de fundos verdes, quebrados, de garrafa, esfarrapando cambraias.Seguia o yacht, côr de turqueza, desenhando letras de alphabeto liquido, mysterioso.E Peregrina, irmã pela alma daquelle tumulto verde, ia afogando pensamentos no remoinhar de agua em desespero.O barco, ora arremettia contra as ondas, despedaçando-as, ora as subia, suavemente.Se subia, era arfante e lento, num rumor de dyspneia que attingia o alto daquellas cordilheiras de agua. Ao descê-las, quasi cahia de chofre, sacudindo e batendo os corpos da tripulação extranha.Cada onda que partia espiralava alto camarinhas de leite que morriam num veu sem côr.Nos postos, os da tripulação systematizavam o trabalho aos signaes do mestre.E Peregrina da camara roxa de crystal, que simulava na amurada uma amethysta, ia seguindo e vivendo aquellas violencias, anesthesiando-seem ondas de som, crente de que uma tal instabilidade a destinára, para o seu caso, o Deus das almas que lhe pedem esquecimentos.Animava-se a barra, e havia lugres, escunas, a solicitarem para terra a intervenção da pilotagem.Peregrina, que conhecia o significado das côres, lia de prompto as bandeiras alternadas nas barcas, senhoreando-se do programma de manobras.Seguia com interesse aquella faina á procura de incidentes, aliás vulgares.Assistia ao arranco das ondas, despedaçando de raiva os troncos de corda que atavam as barcas aos rebocadores. Interessava-a o espectaculo das suas refregas.É então que a marinhagem se méde com o mar, e amargura suas intimidades, gosadas em marés suaves...As ondas empoadas, atravessando as barcas, em doceis de espuma, quebram dentro os seus abraços. Enquanto estas, escramalhadas, apparecem, desapparecem, nas differenças da agua, que ainda ha pouco era planicie e logo se abriu em sulcos de quebrada e montanhas de cordilheira movediça.Segue a labuta da marinhagem em litigio com o mar.As tripulações enxergam ao largo leguasde terra; e, apesar de correrem perigo de abalroarem, não se vêem.Lançam os do rebocador a nova amarra a cada approximação das barcas; e a amarra, que fluctua ao acaso um traço de oiro, colleia, desmanchada, as cristas das ondas que a retorcem, simulando enguli-la.A meio da faina, passada entre um cyclone de odios e orvalhos transparentes, ha grita da tripulação. Mas esta desordem é suggestão do mar. É a voz de quem vive o elemento, syllabando forte, em ondas roucas, a linguagem da agua.Afinal, lá vingam atar de novo a amarra. Sôa o grito aspero da sereia do vapor, abrindo notas de falsete na tempestade.E as barcas, uma a uma, lá vão transpondo a barra.Se a tempestade acalma, ceu e mar invertem-se nos tons:—o mar simúla uma caixa azul, em que o ceu branco, fofo de brumas, tampa o espaço.Chega a noite, passando a sombra as figuras tragicas dos maritimos. Aves longas flecham o espaço em traços rectos. Patos bravos, em bandos negros, como gondolas á ventura, regressam ás aguas fundas.Peregrina regressava ao caes. Era á hora em que os lampiões dos molhes zebravam de luz a ultima agua.A Artista ia a sahir ao molhe do nascente, junto ao candieiro roxo.E era ahi, áquella luz de alecrim, sob o docel mysterioso do arvoredo, que despedia os companheiros, recolhendo cedo e só a Mira-Mar.** *Recebia cartas de Nuno de quando em quando. E escrevia-lhe todos os dias.Elle, sem coragem para dizer o seu tormento, mentia por cobardia, e ainda por amor della.Contemporizava. Ella, sentindo as sombras da antiga tristeza, curava de illudir-se, enchendo o tempo com passeios, e ritos de velhos cultos. Chegaram novas de Lisboa e do Mosteiro.Helen tinha resvalado ao ultimo degrau da torpeza, fugindo do marido para ir viver num pateo com aManola, marafona e bebada.O marido pedira transferencia para uma legação de inferior classe e sahira penitente das vergonhas da mulher.A Salomé dava-lhe parte do casamento proximo. Resvalára aos braços do lente Amaro, avido de cevar a sensualidade erudita naquellaloira de carnes brancas e pennugentas, e prompto a embolsar os duzentos contos que tinham ficado dos Pamplonas, em terras e inscripções.Maria Peregrina via fugir tudo o que a prendera, á excepção de Nuno.Mas, ao mesmo tempo que sentia o correr dos dias, via avisinhar-se, cada vez mais, a antiga melancholia, uma tristeza que mal explicava.Uma tarde, conduzia pelo braço, segundo o costume, monsenhor Andrada até o eirado eminente ao mar.Seguia-os Jacob com duas cadeiras leves, fechadas.O ataxico movia as coxas com esforço, atirando ao acaso as pernas de fantoche, dondas como travesseiros de moinha. Sentaram-se os dois, o padre muito amparado por Peregrina.—Sabe, disse esta, que escrevi ha duas noites o meu testamento? Posso morrer breve...—Suggestões da minha miseria, disse o monsenhor. Eu hospédo metade da morte. Sou o caixão de metade do que fui. V. Ex.ª a pensar em morrer, uma creança! Isso é para os velhos e doentes, como eu.—Engana-se. É tão facil morrer, sobretudo quando temos o culto da Morte! Entendique devia empreitar obras posthumas. Vou dizer-lhe a minha ultima vontade.E, desdobrando três folhas de papel azul, leu:—Eu, Dona Maria Peregrina Alvares de Lorena e Villa-Verde, filha de Dona Maria de Lorena Eannes de Castro e Villa-Verde e de Dom Antonio Alvares Muito Nobre Leite Moniz de Sá, natural do Mosteiro, cidade de Guimarães, resolvi fazer o meu testamento pela forma que segue:Primeiramente elévo a alma a Deus, sagrado em si e nas minhas desventuras; foi reflectindo-o, que soube sentir a majestade do Infortunio. Que ninguem cuide dos meus funeraes; o Acaso os cuidará.Dos bens de fortuna disponho assim:Lego o usufructo de cem contos de réis ao antigo prior do Mosteiro, Monsenhor José de Andrada, presentemente em minha companhia.Á sua morte passará este capital para o meu procurador José Lourenço.Lego o usufructo de cento e cincoenta contos ás minhas antigas condiscipulas Helen Green, residente na Mouraria, em Lisboa; e a Violet Ioung, actualmente em Londres.O capital passará á morte da ultima para a administração de Petersfield, Inglaterra, que pelo seu juro creará uma aula de musica coma designação—Instituto-Edgar, destinado a adolescentes musicos.Lego cincoenta contos aos creados que me servirem ao tempo da minha morte, e vinte e cinco contos ao anão teutão Jacob.Finalmente, instituo minha herdeira a cidade de Coimbra para que liquide a minha fortuna, resto das maiores casas da Peninsula, e faça construir uma grandiosa Escola de Arte grega com a designação—Parthenon do Ocidente, tendo na fachada os symbolos heraldicos de Portugal e Castella, cujos desvarios e sangue represento.Haverá annualmente premios para os dois adolescentes mais bellos do Parthenon. Serão eleitos pelo collegio dos alumnos da Cidade. O premio destinado ao alumno designar-se-á—Edgar, em homenagem a um antigo companheiro de Petersfield; o outro chamar-se-á—Helen, em memoria do meu antigo culto por Helen Green.Faço meu testamenteiro a D. Nuno Alvaro de Sousa e Villar, IIIº Conde de Nevogilde, natural de Traz-os-Montes, escriptor, actualmente em Lisboa, a quem offereço as minhas obras, á excepção do Poema que vou urdir, e desejo fique no Archivo do Parthenon. Na sua falta zelará as clausulas deste testamento a Municipalidade de Coimbra.(Segue a approvação, e assignatura dastestemunhas e testadora. Foi rubricado nas tres folhas).Quando Maria Peregrina acabou de ler, o padre soluçava.Ella passou-lhe a mão pela cabeça encanecida e disse-lhe num sorriso triste:—Chora, antecipadamente, a minha morte?—Não: abençôo em V. Ex.ª a mulher sagrada por toda a especie de tortura. É preciso ter soffrido para subscrever um testamento assim. Sou insuspeito. Irei adeante para informar o Ceu dos peccados doshonestos, e das virtudes darelapsa. É preciso pecar muito para ser bom... Mas quando tivesse de ficar, não podia receber o que V. Ex.ª me lega. Apesar de condemnado segundo a Egreja, considero-me da Egreja. Sou frade. Não infringirei o voto da pobreza. É tão facil ser pobre!...Emfim, uma herança recebo eu, que essa não ma veda nenhuma religião,—os carinhos que V. Ex.ª quer protelar além da morte.E soluçava, abalando a cadeira leve.Na extrema do eirado, Jacob, de pé, firme, numa mudez de esphinge, fixava o olhar amarelo-metal sobre o collo alto de Peregrina. E dos seus olhos de azeite, exiguas lampadas de altar-mór, expedia filetes de luz duma melancholia lubrica e mortiça.O padre e Maria Peregrina conversavam.
A Villa-Feia, sobranceira a Entre-os-Rios, assenta na encosta que domina a juncção do Douro com o Paiva.
Este ribeiro desce obliquamente, como um fio de platina a fundir-se nas aguas de oiro do Rio, que segue, como um grilhão mysterioso, a perder-se no mar.
O antigo paço senhorial da Villa-Feia é um systema de torres e torreões extravagantes, casas afiladas de frestas altas e seguidas, que dão de longe a impressão de linhas pontoadas; e quadrados enormes, atarracados, beiradosde ameias grotescas, e frestas em losango, que põem na cantaria verde-negra um recorte de retinas extranhas, attentas ao mechanismo liquido das correntes e á paisagem roxa dos montados.
Tanto o paço torreado como o plantio da maior parte do arvoredo da Villa-Feia, foram obra dum velho templario que, segundo a Lenda, veio esquecer ali as canseiras da guerra.
Aquella architectura, informam os do povoado, foi idéa do templario. A deformação das arvores e outrossignaesda Villa maldita, foram castigo de Deus, irritado com o porte de D. Alvaro de Castro Leite de Villar, um dos maioraes da Ordem que, em 1312, Clemente V aboliu.
Corre a fama de que o grande cavalleiro fôra um dos que mais justificaram a liquidação da Ordem militar e religiosa dos Templarios, pois que escureceu o brilho dos feitos mais ousados com actos de desenfreada sodomia.
O seu temperamento, fóra do natural, delineara um castello desproporcionado, alheio á architectura do seculo.
A natureza requintou em lhe deformar as arvores, dando á Villa-Feia uma flora monstruosa, invertendo o tempo das flores e dos fructos e afeiando as plantas de melhor raça. Mas não é sómente nas velhas arvores, que os dopovo inculcam como plantadas pelo Templario, que as deformações se notam. É em todas as arvores que ahi se disponham. Quanto mais formosas são fóra, mais afeiam lá dentro. Ha-as chloroticas, abraçando-se numa adherencia de enxerto; outras, communicando serpentes de ramaria e abraços a muitos metros dos troncos; raças humildes, attingindo desenvolvimentos notaveis; eucalyptos, geralmente desenvolvidos e que ali figuram de anões, enfezados, exiguos.
Desenvolvimento, florescencia e fructos, parecem obedecer a leis especiaes. A Villa-Feia é um capricho da Natureza; uma pagina de Pathologia vegetal.
Os fructos são acres; as flores, em meios tons, e dum recorte esquisito, não têem aroma, o que faz que os camponios supponham que a sua approximação lhes veda o olfacto.
Tudo ali é extranho. Cada arvore toma um aspecto diverso das mais da sua raça em outras terras. O choupo-chorão abre em traços rectos; oulmus pendula, de braços geralmente curvos no sentido do tronco, revira os ramos em hastes de novilho; cactos prodigiosos, vestem o sopé da encosta, formando cordões farpados; pinheiros bravos abrem-se em umbellas rôtas, de agulharia verde-escura; os cedros parecem arvoresitas de Natal, ramos de presepio; cyprestes bastos,tragicos e colossaes, põem pontos de admiração na paisagem; chorões, flexiveis como vimes, descem em tufos emmaranhados as suas lagrimas verdes, longas até aos pés; medronheiros de grandes troncos, herpeticos de musgueira, de folha sêca, mal vestidos, ostentam, simultaneamente, floritas brancas e fructos exiguos de coralina.
Os sobreiros jámais deixam o tom acastanhado que usam noutras terras ao abandonarem a cortiça:—põem na Villa-Feia umanuancede sangue velho, erguendo-se, rachiticos, como adolescentes morenos alcançados pela tisica.
Nos recantos mais sombrios o chão é hirsuto de tojeira, cerdoso de espinhos bravos, bastos como pellagem de javali, salvo nas ruelas, abertas em lacetes, tortuosos, duma colleação mysteriosa de labyrintho.
Domina a Villa um penedo enorme, simulando uma figura-gigante, deitada na tojeira, que se desdobra em volta como uma pelle.
É uma figura nua, guarnecida de musgos, ostentando signaes nitidos dos dois sexos; lembra a figura de Hermaphrodita que um artista ensandecido tivesse trabalhado ha muitos seculos, e postado ali como um amuleto maldito do mundo sensual.
Corre entre os lavradores que o Penedo fôra cinzelado por D. Alvaro em noites brancasde janeiro, de collaboração com o Demonio, que, em baixo, no Ribeiro de Cobre, referve coleras.
E rapazes gastos e velhos sensuaes, crentes na sua virtude, vão horas mortas, pedir-lhe forças desbaratadas.
O Encommendado não se cansa de predicar o peccado em que incorrem os que veneram o mysterioso granito.
E velhos menos confiados contam casos de creaturas tolhidas, quando foram de romaria ao Penedo, depois de encontrarem a alma-penada do Templario, em companhia do Demonio, revendo a obra.
O Ribeiro de Cobre ganha a primeira altura da encosta dum salto, borbulhando tufos de agua escura, que rasam em madría pela açude. Dali partem levadas que cortam em leque os campos baixos.
Vogam na madría aves de agua, pequenos cysnes e enormes gansos, de pescoços de cobra e bicos de fava, remando de vagar os corpos gondolosos, vestidos de pennas, tufadas como ramos de chrysantos negros.
Tracto singular de paisagem, onde esparsos olivedos põem nodoas de saudade em cinza!
Parece haver o maior parentesco entre o Ribeiro de Cobre, assim chamado em razãoda côr e o arvoredo, em que predomina o acastanhado dos sobreiros.
O povo guarda-se cautelosamente de pescar no Ribeiro, se bem que seja abundante em peixe e, sobretudo, em trutas, que lembram desenhos fugidos dalgum jarro precioso do Japão, a refulgirem escamas de prata e oiro por entre o cobre liquido do humilde corrego.
É que desde muito se conta na aldeia que D. Briolanja, a ultima morgada da Villa, fôra victima de peixes ahi pescados:—que ceara as endemoninhadas trutas numa vespera de Anno-Bom e amanhecera sem fala, muito branca, fazendo esgares, até que morreu, depois duma agonia mysteriosa, ao cabo de poucas horas.
Para além da madría, ha um velho moinho redondo, de grande circumferencia e pedra tosca, de juntas tomadas a verdura, com janellas oblongas e uma roda de dentes podres.
Semelha um carão horrivel, de olhos azeitonados, comidos de ophthalmias, sobrancelhas rentes de musgueira verde-limo e boca enorme, a que a roda de dentes cariada dá a expressão confrangida dum riso diabolico de dor.
A agua que a boca do moinho espúma, em camarinhas escuras, través da roda gasta, vae sumir-se a distancia, no lagedo amarello das alluviadas, que escondem o Ribeironum tracto de dez passos. E é, sob o lagedo, que a agua espadanada contra a penedia baixa referve coleras de inferno, resoando naquella abobada de acaso as presumidas falas do diabo, segundo a voz corrente na aldeia.
Sobranceira ao moinho, na outra margem, fica aEira de Vidro, uma escama natural de mica luzente, que, ao meio dia, quando o sol a veste, refulge, a meio da Penedia-amuleto, cordas de luz branca.
Circuita o exotico miradouro uma escarpa de granito rendilhado, que lembra o espaldar e braços de uma cadeira gothica de Cathedral.
Finalmente, é deste poiso extranho que os valles proximos escutam e repetem os dizeres dos que ahi falam.
Condições de acustica desconhecidas põem no espaço trios de arremêdo!
Tal a descripção da Villa-Feia, conforme um inedito de Nuno de Villar, III.º conde de Nevogilde e ultimo representante do Templario.
Era ahi que o escriptor villegiava quando a Cidade o aborrecia, ou sentia necessidade de dar asas á sua erudição e Arte. Ahi escreveuOs Sensuaes, o melhor dos seus livros, e varios capitulos daVida Plastica, opusculos criticos, afora artigos. Dava-se bem com a paisagemque o cercava, e, sorria, benevolo, sempre que perguntava e ouvia a historia do Templario. Os camponeses interrogados é que o não indulgenciavam pela transigencia com o execrado cavalleiro. E, á puridade, aventavam suspeitas:
—Que o representante de D. Alvaro parecia seguir-lhe as pisadas; que não era facil fugir ás leis do sangue; que na Villa-Feia tudo se deformava, os homens como as arvores...
E discutiam as figuras que pernoitavam no velho casarão senhorial.
Maria Peregrina tinha dito a Nuno que ia ser hospeda delle, quando este falou em ir para Entre-os-Rios.
Nuno, cortês, agradeceu a visita e acceitou-a. Intimamente aborreceu-a.
Convidára oVagabundopara o acompanhar. Queria mostrar-lhe aquellas sombras. Não sabia porque impressionava-o bem a convivencia daquelle desequilibrado, que alternava com elle grossarias e carinhos, que ora o abordava com humildades de rafeiro, ora o perseguia, desdenhando da sua Arte e nobreza, dos seus privilegios de singular.
Maria Peregrina era a mulher absorvente que, apesar de tudo, receava, com quem não queria intimidades.
Era preciso attendê-la. Era uma creatura excepcional. Mas, por isso mesmo, horrorizava-oo excessivo carinho que lhe notava. Admirava-a como mulher, mas temia-a. Era uma sensual que tinha percorrido a gamma do mais extravagante teclado da vida. Quereria porventura matar um novo capricho? E elle que só usava creaturas inferiores, que percorria altas horas os becos mais suspeitos a recrutar mulheres de acaso, como se haveria deante da mulher invulgar?!
Ah, se encontrasse pelos prostibulos mulheres daquellas formas!
Mas ter relações sensuaes com ella, uma intellectual, que havia de estar a ver, a frio, as suas atitudes de animal enfraquecido, cahindo, segundo o costume, na hysteria, que é a carne entregue a si propria, a velocidade adquirida do prazer a derivar na loucura!
Isto, se a commoção lhe deixasse ver nella amulher!
E, muito triste com a ida da Artista, ia contando os dias, num horror de frade que treme da primeira tensão da carne.
Ah! elle era bem culpado, pensava. Podia ser como toda a gente. Se se deixasse de requintes não temeria mulher alguma. Mas degenerára-se.
Exigia sempre nas relações uma certa liturgia; dahi o seu pessimismo litterario, o pessimismo em tudo.
E, involuntariamente, lembrava as palavras de Lichtenberger:
«O pessimista é um degenerado, um doente que deve curar-se ou partir, mas que não tem o direito de empeçonhar a existencia dos sãos, de desmoralizar os potentes, de calumniar a vida».
Como sentia aquellas verdades!
Era assim... Claro que tambem Peregrina era uma doente; mas por isso mesmo lhe não perdoaria. Demais, o seu horror por ella ferir-lhe-ia o amor proprio.
—A doença odeia a doença. O que nós procuramos nos outros são as qualidades que não temos, pensava Nuno.
Por isso elle era um forte, entre uma seara de mulheres, castanholando modas e vendendo alegrias.
Mas, na Villa-Feia, com Maria Peregrina a trocar beijos e impressões de Arte—que horror!
E era fatal a sua ida. Equivoca situação! Já tinha percebido que ella o desejava.
Por sua vez Peregrina, enthusiasmada, nem parecia a mesma.
—Tu lembras a antiga alumna de Petersfield, dizia Violet.
E vendo-a cuidadosa com astoilettes:
—Já percebi, vaes noivar...
—Talvez, disse Maria Peregrina, rindo; não sei. Os programmas nunca antecipam muito os meus desvarios. Geralmente vicío sem elles. A surpresa é, afinal, o melhor da vida. Irei ver como as arvores da Villa-Feia me recebem. Corre que o antigo Paço tem a fortuna de afeiar o que é bello e engrandecer o que é humilde...
** *
Passados dias partiram os dois, Nuno e Peregrina, os creados do Palacio-Fóz e Jacob.
Nuno esteve inquieto até á hora da partida; esperava Ruy.
Esperou debalde: minutos antes da sahida, recebeu carta delle, explicando a falta com o motivo de ter de seguir nesse dia á tarde para Villa Alva. Era-lhe impossivel ir a Villa-Feia, informava. Esperaria Nuno em Lisboa.
Nevogilde, contrariado, entrou para a carruagem.
Ficaram em Lisboa Violet, Salomé, e José de Andrada.
Decorreu um mês sem que ao palacete da rua do Alecrim chegasse qualquer noticia de Villa-Feia.
Salomé partiu para o Mosteiro, a pretexto de visitar as propriedades e passar ali algum tempo.
José de Andrada recolheu á cama myelitico, dias depois da sahida da Artista.
Violet, á vontade, senhora da casa, deu-se a receber aos sabbados a velha collecção de hospedes, e mais assiduamente Manuel Brito de Miraz, daFolha da Noite, continuador do publicista dasHoras Tôrpes. Em breve tempo se entenderam intimamente, o chronista e a inglesa. A fatalidade fez amante de Violet o mais crapuloso do bando que passeava os salões de Maria Peregrina. Horas tardas, se o chronista não apparecia, sahia ella a visitar os bairros suspeitos, trocando-o por fadistas.
Um dia chegou Peregrina, sem prevenir.
Violet correu a abraçá-la, e a saber da villegiatura em Villa-Feia. Achava Peregrina cansada, mas alegre.
—Então, muito conciliada com o sexo feio? perguntou. Era certo que Nuno podiaexcluir-se da designação do seu sexo—pois que não era feio; e ria para a Artista, que a ouvia serena.
—É verdade, disse por fim, estive bem.
Nuno resume hoje para mim tudo! E eu a correr mundo á procura dealguem. Achei, sabes? A minha selvajaria amedronta-o, perturba-o; é um animalsinho, lindo de formas e docilidades, a submeter-se-me, a gostar dolorosamente os meus maus tratos, porque o maltrato, e a entregar-me, assustado, o corpo de raça, que veste naquellas horas uma alma de mulher e de lacaio. Ah! sei, afinal, o que é o amor...
Mas não sei porque lembro-me de que não pode durar a nossa felicidade... E por cá?
—O peor, informou a inglesa. Salomé foi quasi logo depois da tua partida para o Minho a tratar de negocios que me pareceram pretexto para sahir.
O monsenhor está no quarto, impossibilitado de andar, inutilizado por toda a vida, segundo o medico.
—Uma noticia triste—a do padre, disse Peregrina. A de Salomé nem vale discuti-la; chegou-lhe a nostalgia do Minho. Foi folgar as cirandas do Mosteiro, contar a differença que vae desta á sua aldeia.
Mas o padre, coitado! Vamos vê-lo.
E subiram as duas até aos aposentos do doente.
—Então que tem, monsenhor? perguntou Peregrina da porta.
E, depois, correndo para elle a abraçá-lo, enxugando-lhe, commovida, as lagrimas:
—Não se excite, ha de melhorar...
—Não melhoro, minha senhora. Os milagres nunca desmentem a razão. O que fazem é escondê-la, ás vezes. Ora a razão contribuiu-me irremissivelmente com uma doença incuravel. Eu devia adivinhá-la. Tê-la como fatal derivação da minha vida.
Tenho o mal dos que passaram a vida a vibratilizar os nervos.
Ainda na oração e no culto vivi uma tolerancia que escandalizou os meus superiores. Como não havia de ser tolerante para os peccados alheios, se sabia, por experiencia, o que era o inferno e a penitencia de soffreá-los.
Emfim, aqui tem V. Ex.ª o mais acabado exemplar de miseria que podia recorrer á generosidade da sua nobre estirpe, a pedir a esmola dum quarto e dum talher.
Sou oindexde faltas e excessos. Se algum dia escrever o romance da sua vida,—e creio que terá assumpto,—peço-lhe que se não esqueça de associar á sua peregrinação de mulher nobre, tão nobre que tem nos escudos symbolos de duas nacionalidades, a tragedia simples dum padre que batalhou deveres e nervos para vir acabar, miseravel, entregrandezas—as que V. Ex.ª quiz repartir com elle. Pois que está em moda o romance social, não deixaria de representar bem o clero de duas Potencias historicas a desfazerem-se...
Maria Peregrina e Violet commoveram-se. A confissão daquelle homem, precocemente velho, a trasbordar amarguras, veiu aguar o enthusiasmo da Artista, que pensava encontrar nos amores de Nuno uma nova epocha. Quem é feliz ou imagina sê-lo quer ver em tudo felicidades. E magôa-se se os fados lhas desmentem. Mal encontrava palavras a consolar Andrada.
E vingava-se, prodigalizando-lhe cuidados, andando em volta delle a adivinhar-lhe os desejos.
—Quero tornar-lhe superfluos os movimentos, dizia.
Ha de ver:—quando pudér mover-se dispensar-se-á de fazê-lo. Terá a vontade confortada de preguiça, com pouca vocação para ordenar lidas.
E abraçava-o, carinhosamente, enquanto Andrada lhe beijava as mãos a chorar.
** *
—Vou a casa de Nuno, disse ella a Violet, no segundo dia depois da chegada.
Estou surprehendida com o socego delle. É de admirar que não tenha vindo. Está a abeberar os excessos de amor que trouxe da Villa-Feia.
Nuno recebia aquellas caricias duma sensualidade selvagem, medroso, de olhos baixos, humilde.
—É um exame de consciencia que naturalmente está a fazer. Tem medo de que não saiba dar-lhe impressões novas. Como é creança em amores. Mas vou educá-lo. Hei de pagar com usura os seus encantos de noviço. Vá, Violet, manda preparar o carro.
Um quarto de hora depois chegava ao palacete-Foz.
Nuno estava no quarto que communicava com o gabinete. Á hora do correio entrou o mordomo, segundo o costume; e, depois de entregar a correspondencia, informou que havia meia hora que Maria Peregrina esperava no salão.
—Ah! disse Nuno, admirado, porque não mandaste entrar?
E depois:
—Mas, não; como te não tinha prevenido... Olha, quando vier manda logo subir.
Mas não, depois falaremos ácerca das visitas. Convida-a a entrar. Já!...
E, confuso, levantou-se quando lhe presentiu os passos.
Peregrina entrou, encarou-o a distancia, e, depois de curto exame, foi beijá-lo nas palpebras. Começou a cofiar-lhe o cabello, duma negrura luzente; ora o abraçava, ora o repellia...
—Então não recebes antes desta hora? Nem a mim que sou senhora dos teus nervos e posso subjugar-te num momento! Anda cá, deixa morder a tua boca! É um fructo de desejo...
E mordia-a suavemente.
Depois, afastando-se:
—Vae buscar aquella pelle de urso. Cobre o escudo dessa alcatifa. Extranha idéa—brasonar tapetes! Que os outros pisem os nossos brasões vá, mas nós! Deita-te aqui, minha creança.
E desabotoando o vestido côr de hortensia:
—Faze o mesmo que estou fazendo! Despe-te! Já!... Vê como as sedas da pelle do urso se levantam. E olha que são dum urso do pólo!
Nada resiste ao genio sensual!
E, de repente, enlaçou-o pela cintura, fazendo-o tombar, passivo e tremente, sobre a pelle branca.
A physionomia de Peregrina espectrava a alegria selvagem da louca, que, numa anciade luxuria, se preparasse para devorar o amante, depois de esfarrapá-lo.
A expressão de Nuno era de dor acceite. Lembrava um religioso a deixar-se maltratar, sorrindo aos cilicios, crente num ceu a apparecer!
De subito ergueu-se sobre o corpo de cobra da amante, e, num momento, desmanchou-o uma extranha furia; cahiu em coma, voltou a soffrer, sereno, o martyrio daquella mulher, cilicio de amor, simultaneamente divina e infernal, sagrada pelas fórmas e demoniaca no capricho das perversões! Até que cresceu, de novo, em tempestade; e, sobreexcitado, inconsciente, sacudiu-se em crise hysterica, e impelliu Peregrina, que tombou, exánime, ao longo da alcatifa...
—Quem é? perguntou a Poetisa, ouvindo a porta do gabinete, e suspendendo a escripta duma folha de papel que levava em meio. Não recebo a esta hora.
—Está lá fóra, informou Jacob, o sr. Miraz que pede para entrar; promette demorar pouco.
—Bem, disse Peregrina, aborrecida, manda subir.
Miraz chegou, muito desmanchado, cumprimentou, abrindo a boca num riso enigmatico e sujo, e sentou-se, cruzando as pernas.
—Que deseja? perguntou ella.
—Venho propor a V. Ex.ª um negocio.
É um negocio que não deve parecer-lhe pesado. Entro nelle sem rodeios, pois que V. Ex.ª conhece o mundo, sabe o que é a vida.
Quando a necessidade entra pela porta, diz o proloquio, sae a virtude pela janella. Eu creio que nunca tive virtude para baldear da janella. O que tenho são miserias.
Mas estou de posse dum manuscripto que vale dinheiro. E digo que vale, pois que fui ver por quanto um editor o pagava. Offereceu-me vinte libras. Para editor é bastante; mas para V. Ex.ª vale mais.
Eu preciso dum conto de réis. A V. Ex.ª não lhe faz differença esta quantia e a mim aproveita-me. É uma somma salvadora. Verá que jámais comprou socego por tal preço...
—Mas de que se trata?
—A publicação vae intitular-se—Sapho em Lisboa. Insere episodios que V. Ex.ª especialmente conhece, documentados com uma carta do ministro inglês.
E desdobrando um rôlo de papeis:
—Leia V. Ex.ª:—confio-lhe os manuscriptos, na minha presença.
Ella tomou o maço, muito serena. Leu a primeira folha:—era a carta de Broock, despedindo-a de casa. Viu algumas paginas com vagar.
—Onde e como obteve esta carta? perguntou depois.
—Permitta-me que não responda já.
É segredo. Posso vendê-lo tambem, mas caro, pois que interessa terceira pessoa.
—Esse segredo escuso de pagar-lho, replicou ella.
E continuou a ler. Passou algumas paginas e de repente disse, fitando-o:
—É uma historia incompleta, pessimamente feita. Não me perturba a idéa de ver praceados os meus delictos. Mas a historia ha de apparecer mais tarde, honestamente documentada e escripta.
Isto, accrescentou, é uma torpeza idiota. Vale, como documento para v., bem mais do que para mim. É um caso simples dechantagea illustrar a vida dum jornalista de terceiras paginas, tambemsouteneure ladrão! Está bem naFolha, enquanto não houver casas de reclusão bastantes...
—Pode V. Ex.ª pensar e dizer o que quizer. O que não quero é demorar-me; precisode saber se tenho de contratar o manuscripto com o editor...
—Demais, estupido... Então imaginava que eu, de posse desta carta, que é minha, lha daria sob qualquer ameaça ou violencia?
E, destacando-a, atirou-lhe com as tiras sujas do manuscripto, premindo o botão da campainha.
Miraz levantou-se, derrubou um pequeno movel que o separava de Peregrina e cresceu para ella, que amarfanhou a carta, preparando-se para defendê-la, e encarando-o num misto de arrogancia e nojo.
Elle deitou-lhe as mãos aos pulsos e ia a torcer-lhos, quando se abriu a porta e entrou o creado, surpreso.
—Põe lá fóra este velhaco! ordenou Peregrina.
Immediatamente o creado agarrou o chronista pela golla do casaco, arrastando-o ao primeiro patamar e fazendo-o rolar sobre a passadeira até á porta.
—Não o maltrates, avisou Peregrina, do gabinete.
Era ao tempo em que elle, já da porta, confundido com o tapete, bolsava para o alto os peores adjectivos daFolha.
Mas, sentindo o creado, sahiu rapido, tapando com as mãos grossas os rasgões do fato, esfrangalhado.
Peregrina mandou chamar Violet.
Ella entrou, confusa.
—Vejo que déste pela scena. Leio-te na côr o delicto...
E mostrando a carta de Broock:
—Quanto recebias do conto de réis que elle queria por esta carta? Devias ter a melhor parte...
—Perdôa-me. Não lha dei, roubou-ma, num dia que veiu ahi ficar. É um miseravel. Pois que me faltava aqui? Dinheiro?!
Elle sim, era precisado. Imagina que o satisfazia ir ao Tavares commigo, cear. Só tinha comido lá seis vezes, confessou. Que miseravel! E sujo!
Oh! perdôa-me Peregrina. Não sei que loucura foi a minha. Estive a conversar demoradamente ácerca de ti. Contei-lhe, de boa fé, a historia da tua vida. Mostrei-lhe a carta. E elle, o miseravel, roubou-a quando sahi do quarto, á mistura com uma trancelim de platina e umas notas de banco que tinha na mesma boceta. Perdôa-me!
—Perdôo. Contudo, não podes continuar aqui.
O que succedeu foi uma fatalidade, mas eu dou por toda a indicação! Irás abraçar os teus. Tambem vou sahir de Lisboa, desta villa, com pretenções a terra civilizada e que só tem de civilização o peor:—alfobres de litteratos—genero-Miraz,gafos de toda a ordem, a especular escandalos.
Vaes para Londres. Eu vou escolher um ponto retirado, á beira mar, esquecer-me...
Na mesma tarde conversava Nuno com a Poetisa, acerca dos episodios do dia. E combinavam ir os dois passar o outomno á Figueira, a viver o socego da praia, á hora em que os banhistas retiravam.
Nuno demoraria em Lisboa quinze ou vinte dias, a liquidar negocios. Maria Peregrina partia immediatamente.
—Porque és tu tão esquivo aos meus affectos, depois da convivencia que temos tido? perguntava Nuno a Ruy, sentados ambos num banco de azulejo arabe, no parque do Palacete-Fóz.
Vês a incondicional devoção que tenho por ti, como sei ouvir os teus casos...
Senti o prazer amargo das tuas confidencias:—os amores innocentes com Paulina, aos treze annos; e as luxurias de dois annos de collegio com escolasticos anemicos. Viste a cordura com que ouvi tudo—sonhos e miseriasadolescentes. Estimo-te como o destino te engendrou. Que prevenção é, pois, a tua contra mim? A cada momento sinto que me repelles...
—Sim, disse oVagabundo, separa-nos a raça. Attribuo as mais das batalhas intimas aos fios de sangue nobre que me laivam o temperamento. Vejo mal as figuras de privilegio; como já te disse, só vivo os affectos que me não melindram. Não sei o que vale a amizade. Dou pelo interesse extranho, e raramente por uma ou outra figura de Belleza humilde. Propriamente culto não tenho por ninguem.
Nem sei porque, seduz-me o teu espirito, mas vexa-me o teu affecto. É um caso de sensibilidade que não apercebo bem. Mas não falemos nisso. Conta-me os teus delirios com Peregrina.
—Sei lá o que hei de contar:—amarguras. Tambem nos afastam razões intimas. Deante della, sinto-me abdicar de mim. Sou uma força que o seu amor explora. Goso e soffro segundo o seu capricho. Dá-me um amor que me faz ganhar a eminencia de sensualidades supremas, e me despenha, cégo, ás minhas fraquezas, onde tropeço com nervos e hysterias. Ainda bem que partiu. O mêdo que me causava!
Vou escrever-lhe a denunciar-lhe este mêdo e o proposito de jámais a encontrar. Dóe-mea desillusão que vae sentir. Mas, deixemos isso...
Agora sou eu quem relega o assumpto que deste.
Canta alguma coisa; quero ouvir-te oFado triste...
—Vá lá, disse o Vagabundo, tangendo a guitarra que levantára da extrema do banco.
E interrogando-se:
—Que lettra ha de ser? Será uma velhaCantiga, a ultima que me ouviu Paulina, em Villa Alva.
E, desviando os olhos de Nuno para os espalhar, num além de reminiscencias, cantou em voz branda, os treze versos:
«Senhora, partem tão tristesMeus olhos por vós, meu bem,Que nunca tão tristes vistesOutros nenhuns por ninguem!Tão tristes, tão saúdosos,Tão doentes da partidaTão cançados, tão chorosos;Da morte mais desejosos,Cem mil vezes que da vida!Partem tão tristes os tristes,Tão fóra d'esperar bemQue nunca tão tristes vistesOutros nenhuns por ninguem»!1
—Vaes deixar-me abraçar-te, disse quando elle acabou.
—Não, contrariou Ruy, esquivo e já de pé, entornando o olhar verde pela folhada mysteriosa do arvoredo...
É tarde, vou sahir.
—Espera um pouco.
E, dando por detonações, longe:
—Que é? Ouço barulho...
—Deve ser o desabar dum regimen, informou oVagabundo. Já vês que não perdia o tempo enquanto conspirava pelas alfurjas, no segredo e abraço dos meus irmãos de crime.
—Ah! então conspiravas com essas figuras de patibulo com que ás vezes te via, ás noites, pela rua? Tenho prazer com a confissão. Não sabia que um artista, como és, podia tropeçar em coisas politicas, e suspeitava das tuas companhias. Pensava coisas peores...
O odio que me causavas quando te via encarar esses homens esguios, alvacentos, de torso recurvo, que o vicio planta nas esquinas, como postes de infamia, electrizando, vendendo-se á nevrose dos que passam...
Num dia em que o teu olhar se misturou no riso duma figura assim, senti gelar a alma, todos os sentimentos, no riso que te desafiou. Confundi-te com a larva que me pareceu essa figura...
Afinal, não podia ser; tu não podias dar-te áquelles farrapos.
Mas intrigava-me, profundamente, o mysterio que encobria os teus serões.
Em que passavas o tempo? Era o que me perguntava em vão. Como havia de suppor-te a conspirar! Tu a urdires a desgraça dum regimen!
Vem cá, minha creança. Deixa lá os regimens. Elles são o que valem; e valem os povos que inculcam.
Os povos são como as mulheres feias; culpam os espelhos que lhes reproduzem a hediondez!
Alegra-te aquelle barulhar de cobiça? Não é um systema que tomba. É o desabar das monarchias do Ocidente, dos povos que ellas inculcam, das tradições que resumem.
Mas que vale uma tal quéda, se a Arte e os artistas ficam! Não teem patria as grandes memorias...
Ainda te entretens com a cabala publica? Para que? Qualquer quota de esforço que lhe dês te deminue. Comicios, revoluções, conjuras, que é isso? Que valem, que entravam?
Nada. Uma nação moribunda afazerphrases...
Coincidencia curiosa:—sonhei esta noite que tinha ido ao Paço das Côrtes, que não servia já o actual regimen, mas um outro.
Entrei. Havia deputados e senadores, escolhidos dentre a primeira gente e a ultima corja da nação—dispostos atabalhoadamente, pela sala, emCarrara, granito e gesso. Vi-me afflicto entre aquellas figuras de museu politico, que mal conhecia, com quem não queria privar.
A um canto barafustava um velho a elegia do Passado. Era uma figura moldada pelo tempo em granito e gesso.
Subito, vi mexer o busto do Propheta, que estava ao centro do salão,—nariz em bico de aguia, testa alta, repas finas e ralas. Jorrou dos olhos redondos de mocho velho duas columnas obliquas de negrura, desfranziu a boca de satyro, e falou assim:
—Nacionalidades! Patrias! mentiras de poetas...
Heroes são poetas de mentiras!
Systema latente é trapaça a chocar.
Videntes são loucos a sonhar, cegos vendendo luz!
A Vida é o que cada um quer. Só a Arte vale, a Arte, o fio-mestre da Vida!
Nacionalidades! Patrias!—mentiras de Poetas. Portugal! Hespanha!—Versos, trastes velhos!
—Não achas curiosa, Ruy, a coincidencia? E como no fundo o sonho é verdadeiro?
Sabes o que vae ficar, provisoriamente? Quem vae governar?
Não sabes. Vae ser um arremêdo do Grão-Lama.
Não conheces, nem imaginas quem seja?
Vou explicar-te essa figura, já que não lês o Escriptor-santo, em cujas obras vem retratada.
O Grão-Lama é uma figura que os chineses conceberam perduravel, um homem eleito Deus por uma casta da China antiga, rodeado de ritos, uncções e virtudes, substituido cautelosamente, secretamente, apenas morto, por outro, semelhante em parecer; no nosso caso, sê-lo-á por outro semelhante em manhas, até que o Destino funda, providencialmente, embustices e embusteiros, em sacrificio a uma civilização por vir...
O Grão-Lama do Ocidente ha de ser um litterato que somme a idiotia das Academias, e tenha a presumpção da visão dos tempos, um misto de Bandarra e Gongora, prenhe de democracia e lettras.
Se era esta a figura que trabalhavas...
—Sei lá para que trabalhava. Sentia necessidade de privar, já te disse, com os meus eguaes; não se foge ás affeições que o Destino impõe. A affeição é do Destino...
O Destino pode ser a Raça. De politica nada sei, nem quero saber. A Raça mandou-mesuppurar na Politica o odio innato, viver na loja secreta a miseria intima.
Ahi tens a razão da minha solidariedade com as revoluções. Sou affim de todos os que odeiam!
Ha pouco discorrias suspeitas sobre as minhas fraquezas. Exquisitos reparos! Que direitos podes arrogar-te para discutir-me? Convenho que repugne a tua Arte a minha predilecção pela Belleza humilde, que me discutas como artista... Mas aventar alto suspeitas, a generalização das minhas miserias! Nego-te esse direito!
Em todo o caso, quero dizer-te que, no momento, curo, sobretudo, de vingar principios, e, no numero das liberdades que batalho, entra a liberdade do Vicio. É a prevenção do doente, que não sabe bem onde os nervos, a educação e as taras podem arrastá-lo...
Adeus, Nuno!
** *
No dia seguinte, passeava Nevogilde no gabinete de trabalho.
Parou por momentos deante de um contador, e esteve a afagar um gomil esguio e depois as curvas puras de dois boiões, pó-de-pedra,esmaltados de flores de linho. Volveu a passear a diagonal da sala, e foi junto da secretária premir o botão da campainha.
Veiu um creado.
—Ainda não chegou o mordomo? perguntou.
—Veiu ha instantes.
—Que appareça, immediatamente, a falar-me.
Minutos depois entrava o mordomo.
—Tão grande demora? Recommendei-te pressa!
—Ah! sr. Conde, estava a ver que não dava com o paradeiro do sr. Ruy. Que mais valera não trazer noticia alguma... Sei quanto V. Ex.ª se interessava por elle! Coitado...
—Está doente?!
—O sr. Ruy, informou o mordomo, morreu ha poucas horas... Cahiu ás primeiras balas das tropas fieis, junto ao monumento da Restauração, na Avenida, entre os revoltosos...
Maria Peregrina, que chegou á Figueira muito fatigada e doente, no começo de outubro, foi installar-se na pequena vivenda de Mira-Mar,—á extrema da cidade.
Passou os primeiros dias num torpor de contemplativa de quem mal dá pela vida externa.
O mirante e os alegretes de Mira-Mar eram pontos de vôo á sua imaginação triste para um paiz de bruma, que nem bem sabia onde era, e, a bem dizer, só existia em si propria.
Esse paiz era ella mesma, nevoenta como o espirito que o creára para si.
De Mira-Mar avistam-se as terras barrentas do Cabo Mondego, morrendo na agua, o lindo casario da serra, branco e religioso como um systema de ermidas, bellos poentes, tudo o que o abraço do mar e da serra pode dar de grande, como expressão de paisagem voluptuosa.
Do Mirante distingue-se, nitida, a linha do Cabo, que lembra as navalhas recurvadas que usa a gente do norte, e em que o mar figura como uma lamina, resplandecente de sol, a certas horas.
A Cidade, rica de luz e notas imprevistas, é das que mais convidam a noviciar amores.
Mas Peregrina, crestada pela vida, muito oxydada de alma, passou os primeiros dias do outomno recolhida numa rememoração de si propria, que nem o mar, nem toda a belleza da terra seriam capazes de delir.
Havia uma grande affinidade entre ella e o tempo. Reflectia o outomno na sua physionomiade sombra, vincada de traços melancholicos, que signalavam uma belleza de occaso, especie de imagem de marfim antigo, vivendo o seu crepusculo de idolo abandonado...
Aquella physionomia, talhada em sombra e chamma suave, não era já o involucro, a mascara; era a mulher toda,—a alma a esbater-se em luz de outomno.
Na segunda quinzena de outubro fez-se-lhe no espirito alguma trégua.
Sahia, ás tardes, a percorrer a praia, embevecida no scenario discreto da linda terra de pescadores.
Aves marinhas andavam aos bandos, misturando o som rouco da sua voz á voz da agua inquieta, e esvoaçando sobre o mar que parecia uma geleira arada, muito riscado de fitas brancas, ondas regulares, certas, espreguiçando-se, com volupia, numa luxuria rhythmica.
Quasi toda a adolescencia morena da praia, afrontava nua o mar, confundindo a sua carne côr de mel com as vagas serenas daquelles restos de oceano.
E Peregrina, de olhos fitos naquellas formas, batidas pelas ondas, vivia então sua belleza em massa, irmã em amor dos bronzes que para ali boiavam doidamente, sentindo na alma aquelle mar, aquelles corpos humidos e macios, tudo...
Ia ao outro lado numa bateira branca aos areaes de Lavos, muito sensivel á musica dos remos, espadanados por dois moços fortes.
Tardes côr de graphita.
Era á hora em que as gaivotas, as rôlas e as negrelas põem accentos circumfléxos na tarde, limitando a altura, num sob-ceu de asas.
Passava horas nas praias fronteiras á Figueira, esquecendo-se, até se deixar dominar por aquella belleza de chromo, vivendo as cambiantes do ceu de outubro, duma belleza intima e serena.
Nuvens côr da terra accrescentavam o Cabo até ao sol, que primeiro se projectava em amphora de luz, e depois morria numa brasa, a boiar no mar.
Já noite, tomava um remo, ao lado dos moços da bateira, e ahi vinham todos, muito certos e irmãos naquella labuta embaladora, de olhos fitos no pharolim, que se ergue entre o Mondego e o Oceano—um polyedro verde que lembra um pedacito de mar-esmeralda, gelado, para nortear noctivagos da agua.
Nalgumas tardes ia até á explanada, junto do Forte, para sentir a maré contra a muralha e avistar o recolher do sol.
Passava o tempo a ler as côres em que se dispersava o dia, as tonalidades roxas que preparam a passagem para a treva.
Marcam a extrema do Cabo o casario da mina e o pharol alçado em redoma.
Noite alta, mandava o pensamento em derrota pela agua, e figurava-se a passear por entre as arcadas da mina ou pelas escarpas do fim da serra.
Vieram as chuvas e as primeiras tempestades.
A Figueira, no verão tão cheia de luz, veste de escuro o outomno. Abrem os dias num ceu de cinza que pouco e pouco melancholiza os campos.
Rompem-se em agua a cada hora nuvens de chumbo, enquanto o vento revólta a paisagem, arremessando, escramalhando as pedras, a areia e os ramos.
Em tardes de granizo e trovoada, quando os elementos se assanhavam, Peregrina recolhia ao Mirante a vivê-los de perto, emparedando-se ahi como num biombo de vidro.
A tempestade, aquella agua batida, a dispersão electrica do fogo das trovoadas, davam-lhe impressões que ella casava aos estudos de sua alma em desarranjo.
E, então, nostalgica das tardes da Grecia, procurava viver uns trechos do passado; e, fazendo do Mirante uma réplica doTemplo de Amor, mandava vir adolescentes dos mais formosos, fundindo-se com elles numa tempestade esteril ás tempestades de fóra.
Juntavam as vozes em orpheão, cantando as modas creadas pela toada undisona da bahia. Tudo ali condiz:—a voz das aves, o canto rouco da marinhagem, a surdina do mar.
Mas os arrancos da trovoada abriam clareiras naquella toada de porão, pois que as creanças a suspendiam a espaços, agoirando castigos.
Os relampagos, que pareciam abrir o vidro em letras chinesas, quebravam em linhas de fogo contra os bellos corpos de topazio.
Havia sempre na ronda um predilecto com quem Peregrina trocava especiaes lascivias...
Illuminada pelo fogo duma paixão inconsumivel transfigurava-se, fundindo a alma em corpos eleitos, que vestia de delirios em dispersão de beijos. Beijos mudos, impressivos como a alma que os mandava, parecendo romper a seda-lacre dos labios que os praticavam...
No entanto, as dansas continuavam, como um pretexto de enleio daquelles corpos atarantados, rematados por faces pallidas, esbatidas de penumbra, de risos brancos e gelados, inculcando o torvelinho a que se entregavam por mero capricho duma artista louca.
Ia para o mar num yacht oriundo dos estaleiros de Portsmouth. Vivendo na attracção dos perigos, sahia de preferencia em horasde tempestade, pondo á prova a coragem dos companheiros, em geral ephebos.
Era em dias em que o mar respira fundo, erguendo-se em violencias de desejo.
As ondas, que na praia são rolos brancos, morrentes em torvelinhos de catarata, tomam na barra a expressão aguda de fundos verdes, quebrados, de garrafa, esfarrapando cambraias.
Seguia o yacht, côr de turqueza, desenhando letras de alphabeto liquido, mysterioso.
E Peregrina, irmã pela alma daquelle tumulto verde, ia afogando pensamentos no remoinhar de agua em desespero.
O barco, ora arremettia contra as ondas, despedaçando-as, ora as subia, suavemente.
Se subia, era arfante e lento, num rumor de dyspneia que attingia o alto daquellas cordilheiras de agua. Ao descê-las, quasi cahia de chofre, sacudindo e batendo os corpos da tripulação extranha.
Cada onda que partia espiralava alto camarinhas de leite que morriam num veu sem côr.
Nos postos, os da tripulação systematizavam o trabalho aos signaes do mestre.
E Peregrina da camara roxa de crystal, que simulava na amurada uma amethysta, ia seguindo e vivendo aquellas violencias, anesthesiando-seem ondas de som, crente de que uma tal instabilidade a destinára, para o seu caso, o Deus das almas que lhe pedem esquecimentos.
Animava-se a barra, e havia lugres, escunas, a solicitarem para terra a intervenção da pilotagem.
Peregrina, que conhecia o significado das côres, lia de prompto as bandeiras alternadas nas barcas, senhoreando-se do programma de manobras.
Seguia com interesse aquella faina á procura de incidentes, aliás vulgares.
Assistia ao arranco das ondas, despedaçando de raiva os troncos de corda que atavam as barcas aos rebocadores. Interessava-a o espectaculo das suas refregas.
É então que a marinhagem se méde com o mar, e amargura suas intimidades, gosadas em marés suaves...
As ondas empoadas, atravessando as barcas, em doceis de espuma, quebram dentro os seus abraços. Enquanto estas, escramalhadas, apparecem, desapparecem, nas differenças da agua, que ainda ha pouco era planicie e logo se abriu em sulcos de quebrada e montanhas de cordilheira movediça.
Segue a labuta da marinhagem em litigio com o mar.
As tripulações enxergam ao largo leguasde terra; e, apesar de correrem perigo de abalroarem, não se vêem.
Lançam os do rebocador a nova amarra a cada approximação das barcas; e a amarra, que fluctua ao acaso um traço de oiro, colleia, desmanchada, as cristas das ondas que a retorcem, simulando enguli-la.
A meio da faina, passada entre um cyclone de odios e orvalhos transparentes, ha grita da tripulação. Mas esta desordem é suggestão do mar. É a voz de quem vive o elemento, syllabando forte, em ondas roucas, a linguagem da agua.
Afinal, lá vingam atar de novo a amarra. Sôa o grito aspero da sereia do vapor, abrindo notas de falsete na tempestade.
E as barcas, uma a uma, lá vão transpondo a barra.
Se a tempestade acalma, ceu e mar invertem-se nos tons:—o mar simúla uma caixa azul, em que o ceu branco, fofo de brumas, tampa o espaço.
Chega a noite, passando a sombra as figuras tragicas dos maritimos. Aves longas flecham o espaço em traços rectos. Patos bravos, em bandos negros, como gondolas á ventura, regressam ás aguas fundas.
Peregrina regressava ao caes. Era á hora em que os lampiões dos molhes zebravam de luz a ultima agua.
A Artista ia a sahir ao molhe do nascente, junto ao candieiro roxo.
E era ahi, áquella luz de alecrim, sob o docel mysterioso do arvoredo, que despedia os companheiros, recolhendo cedo e só a Mira-Mar.
** *
Recebia cartas de Nuno de quando em quando. E escrevia-lhe todos os dias.
Elle, sem coragem para dizer o seu tormento, mentia por cobardia, e ainda por amor della.
Contemporizava. Ella, sentindo as sombras da antiga tristeza, curava de illudir-se, enchendo o tempo com passeios, e ritos de velhos cultos. Chegaram novas de Lisboa e do Mosteiro.
Helen tinha resvalado ao ultimo degrau da torpeza, fugindo do marido para ir viver num pateo com aManola, marafona e bebada.
O marido pedira transferencia para uma legação de inferior classe e sahira penitente das vergonhas da mulher.
A Salomé dava-lhe parte do casamento proximo. Resvalára aos braços do lente Amaro, avido de cevar a sensualidade erudita naquellaloira de carnes brancas e pennugentas, e prompto a embolsar os duzentos contos que tinham ficado dos Pamplonas, em terras e inscripções.
Maria Peregrina via fugir tudo o que a prendera, á excepção de Nuno.
Mas, ao mesmo tempo que sentia o correr dos dias, via avisinhar-se, cada vez mais, a antiga melancholia, uma tristeza que mal explicava.
Uma tarde, conduzia pelo braço, segundo o costume, monsenhor Andrada até o eirado eminente ao mar.
Seguia-os Jacob com duas cadeiras leves, fechadas.
O ataxico movia as coxas com esforço, atirando ao acaso as pernas de fantoche, dondas como travesseiros de moinha. Sentaram-se os dois, o padre muito amparado por Peregrina.
—Sabe, disse esta, que escrevi ha duas noites o meu testamento? Posso morrer breve...
—Suggestões da minha miseria, disse o monsenhor. Eu hospédo metade da morte. Sou o caixão de metade do que fui. V. Ex.ª a pensar em morrer, uma creança! Isso é para os velhos e doentes, como eu.
—Engana-se. É tão facil morrer, sobretudo quando temos o culto da Morte! Entendique devia empreitar obras posthumas. Vou dizer-lhe a minha ultima vontade.
E, desdobrando três folhas de papel azul, leu:
—Eu, Dona Maria Peregrina Alvares de Lorena e Villa-Verde, filha de Dona Maria de Lorena Eannes de Castro e Villa-Verde e de Dom Antonio Alvares Muito Nobre Leite Moniz de Sá, natural do Mosteiro, cidade de Guimarães, resolvi fazer o meu testamento pela forma que segue:
Primeiramente elévo a alma a Deus, sagrado em si e nas minhas desventuras; foi reflectindo-o, que soube sentir a majestade do Infortunio. Que ninguem cuide dos meus funeraes; o Acaso os cuidará.
Dos bens de fortuna disponho assim:
Lego o usufructo de cem contos de réis ao antigo prior do Mosteiro, Monsenhor José de Andrada, presentemente em minha companhia.
Á sua morte passará este capital para o meu procurador José Lourenço.
Lego o usufructo de cento e cincoenta contos ás minhas antigas condiscipulas Helen Green, residente na Mouraria, em Lisboa; e a Violet Ioung, actualmente em Londres.
O capital passará á morte da ultima para a administração de Petersfield, Inglaterra, que pelo seu juro creará uma aula de musica coma designação—Instituto-Edgar, destinado a adolescentes musicos.
Lego cincoenta contos aos creados que me servirem ao tempo da minha morte, e vinte e cinco contos ao anão teutão Jacob.
Finalmente, instituo minha herdeira a cidade de Coimbra para que liquide a minha fortuna, resto das maiores casas da Peninsula, e faça construir uma grandiosa Escola de Arte grega com a designação—Parthenon do Ocidente, tendo na fachada os symbolos heraldicos de Portugal e Castella, cujos desvarios e sangue represento.
Haverá annualmente premios para os dois adolescentes mais bellos do Parthenon. Serão eleitos pelo collegio dos alumnos da Cidade. O premio destinado ao alumno designar-se-á—Edgar, em homenagem a um antigo companheiro de Petersfield; o outro chamar-se-á—Helen, em memoria do meu antigo culto por Helen Green.
Faço meu testamenteiro a D. Nuno Alvaro de Sousa e Villar, IIIº Conde de Nevogilde, natural de Traz-os-Montes, escriptor, actualmente em Lisboa, a quem offereço as minhas obras, á excepção do Poema que vou urdir, e desejo fique no Archivo do Parthenon. Na sua falta zelará as clausulas deste testamento a Municipalidade de Coimbra.
(Segue a approvação, e assignatura dastestemunhas e testadora. Foi rubricado nas tres folhas).
Quando Maria Peregrina acabou de ler, o padre soluçava.
Ella passou-lhe a mão pela cabeça encanecida e disse-lhe num sorriso triste:
—Chora, antecipadamente, a minha morte?
—Não: abençôo em V. Ex.ª a mulher sagrada por toda a especie de tortura. É preciso ter soffrido para subscrever um testamento assim. Sou insuspeito. Irei adeante para informar o Ceu dos peccados doshonestos, e das virtudes darelapsa. É preciso pecar muito para ser bom... Mas quando tivesse de ficar, não podia receber o que V. Ex.ª me lega. Apesar de condemnado segundo a Egreja, considero-me da Egreja. Sou frade. Não infringirei o voto da pobreza. É tão facil ser pobre!...
Emfim, uma herança recebo eu, que essa não ma veda nenhuma religião,—os carinhos que V. Ex.ª quer protelar além da morte.
E soluçava, abalando a cadeira leve.
Na extrema do eirado, Jacob, de pé, firme, numa mudez de esphinge, fixava o olhar amarelo-metal sobre o collo alto de Peregrina. E dos seus olhos de azeite, exiguas lampadas de altar-mór, expedia filetes de luz duma melancholia lubrica e mortiça.
O padre e Maria Peregrina conversavam.