XVI

XVICerta manhã lia ella, sob os loureiros, uma lenda escandinava.Era uma lenda triste e prophetica, como o genio do Norte. O vento ramalhava as pernadas secas de louro, crepitantes como ralas. A paisagem era dum roxo delido, melancholica como a lenda, como Peregrina.Chegou Jacob com a correspondencia. O sol, até ahi hesitante, desappareceu, mysterioso.Peregrina encarou a altura. Depois, descendo a vista, pareceu-lhe vê-lo na salva de oiro que Jacob segurava, com as cartas.—Deixa ver! disse impaciente.E apartando a de Nuno pela letra:—Leva o resto.O anão expressou um rictus novo na physionomia de pergaminho, sublinhou o olhar de bilis com um riso branco, e sahiu a caminho do alpendre.Maria Peregrina abriu a carta, sobreexcitada, nervosa. Leu-a, releu-a, espectrou os mais desencontrados movimentos de alma, e quedou, muda, por muito tempo, a olhar para as pernadas secas de louro, mysteriosas, crepitantes...A carta, dizia:Peregrina:Repugna-me continuar a mentir. Não posso mais procurar-te. Beijo as ultimas palavras da tua carta, que denunciam um amor que jámais alguem teve por mim. Mas o proprio enthusiasmo desse amor me atemoriza, ao mesmo tempo que me lisonjeia. Eu sou a contradicção de tudo—de mim mesmo. Acquiesço com a razão aos que me querem; mas só amo os que me desprezam...Tu comprehendes-me se olhares para dentro de ti, porque, fundamentalmente, somos eguaes. Cada um de nós é o abysmo de si proprio.Chamavas-me outro dia, no amor dos maiores delirios, o teu Phaon. Ah! como eu visto de razões o proceder do desejado da antiga Sapho! De razões, quero dizer, de fatalidades:—o amor nada tem com a razão. É o Destino, a loucura. É o Deus e o Demonio que temos em nós, rompendo livres, indifferentes aos nossos gosos e torturas. É a fatalidade a entrudar com o sentimento.Ao despedir-me de ti, não tenho uma palavra de conselho. Nem sequer insinuo que te consultes a ti propria.A vida está acima e abaixo dos superiores,noutra esphera. Pois que somos a essencia della, alando-nos pela Dor, não podemos entreter esperanças com expedientes. Tratar casos de supersensibilidade com as cabalas que a vida fornece o mesmo é que utilizar a materia a remediar queixas da alma, no fundo a aggravar dores insophismaveis.O mundo tem revolvido tudo. E, contudo, a sua especulação erudita ainda nem sequer chegou a converter em dogma a Liberdade moral.Nós, que ha muito conquistamos esporas de oiro na Desgraça, é que sabemos até onde pode ir a nova sciencia por crear—a Philosophia sensual.É que vivemos na consciente e superior ignorancia do que somos. Para mim, passou o tempo em que acastellava illusões...Presumo que seja um pouco do que reflicto nos livros—um museu de bellezas mutiladas. Tu eras irreprehensivelmente perfeita no conjuncto bizarro das degenerescencias para que me pertencesses e te pertencesse. E jámais gosei soffrimentos como os que me deste nos teus abraços!Ah! porque me não matou o delirio das nossas hysterias, quando nos confundiamos na folhada exotica da Villa-Feia!Ha pouco me interrogava eu ácerca do teu amor, do nosso amor...Fui ver-me ao espelho. Encontrei a sombra do que fui na adolescencia.Reconheci o rapaz de ha dezeseis annos, tratado pelo tempo.Vi ainda nos olhos a negridão da minha antiga virtude atarantada, imprecisa, a procurar o ceu na continencia, e a sophismar sensualidades na oração; volvi-me ao tempo em que fitava os idolos com os olhos da carne, gosando-os com a alma, lubrica de sonho...Sou o mesmo mysterio sensual, medroso e desequilibrado:—reflicto, impotente, num mar de desesperos, um mundo de desejos.Tu soubeste exaltar estes desejos, assaltar-me, de chofre, os nervos, vibratizá-los...Mas foi então que dei por forças intimas, que augmentam os meus receios. Sei lá se ainda tenho nervos á espreita! Que seria de mim?...Põe na imaginação braseiros de incendio, brancuras e frios de nevada, asphyxias, essencias de requinte, torturas e suavidades religiosas, harmonias bizarras de harpas, psalterios e violinos, saltos macabros de demonios intimos, visões, o Ceu, o Inferno, e terás uma parte do que me fizeste descobrir áquem de mim, da minha fraqueza.Eis um pouco do que tecia o extranho do nosso viver...Mas não poderemos mais encontrar-nos!Perdôa a sem razão destas linhas na logica duma razão que sinto pelos effeitos, mas que não apercebo bem:—a tal fatalidade que nos juntou, a fatalidade que nos afasta.Adeus, Peregrina! Esquece-me!Nuno.Passou uma hora, sem que ella se levantasse.A manhã sangrou uma chuva miuda, por que mal deu, occulta pela ramaria, abstrahida dos caprichos do tempo, numa contemplação dolorosa.Veiu um creado lembrar que era a hora de conduzir o monsenhor, que recolhia do alpendre.—Lá vou.E sahiu a dar o braço a Andrada.Dahi a momentos caminhavam os dois, collados e oscillantes. A distancia, mal se extremava o doente.Symbolizavam as carcassas de dois poderes que o habito juntára, e agora sommavam fraquezas...No poente, uma nuvem escorria agua. Do norte, o arco-iris desdobrava as sete côres. E o povo dizia, sahindo ás portas dos casaes:—É Deus que está de bem comnosco!E levantando as mãos:—Louvado sejaes, Senhor!E Maria Peregrina, em blasphemia suave, encarando o arco:—Deus em alliança com os homens, nesta hora, que ironia!**      *Sahiu de carruagem, demorando cerca duma hora. Ao chegar, o trintanario desceu docoupévarios embrulhos, que levou ao Mirante. Peregrina conversou por espaço de três quartos de hora com monsenhor Andrada. Depois abraçou-o, commovida.—Só nos veremos tarde, disse, vou escrever...Ás quatro horas tomou uma refeição leve, e avisou:—Que não vá alguem interromper-me. Vou trabalhar.Noite alta, trepava Jacob pelo gradil do nascente, que cerca o Mirante, ganhando o peitoril da janella, fronteira ao Mondego.Sobre um pequeno bufete Renascença, pousava um pergaminho mal enrolado, que pendia até meio da armação boleada.Jacob, confundido com a noite, cauteloso de que as trepadeiras que vestiam o Mirante barulhassem a sua presença, quedou, numa estabilidade de simio mal accommodado, esgarçando os olhos á procura de Peregrina.Ella estava de costas para elle, que a via, mysteriosa, mexer uma mascara, de applicação desconhecida, vasando ether sobre pastas de algodão.Pelas frestas da janella, xadrezada, mal collada ao peitoril, sentia Jacob o aroma estonteante do liquido extravazando.Subito, viu-a deixar o contador alto, e recostar-se sobre um canapé João V, cujo estofo côr de brasa lhe illuminava a figura marfilenea, vincada de sombras. Recuperára a antiga compostura fidalga.Os traços de amargura, que lhe tatuavam a physionomia, não lhe venciam a raça:—era a mulher fraca, simulando força. Tinha o aspecto de quem despreza a vida, cumpria o destino.A sua figura desbotada, mantinha-se como num tablado, por dar contas a si propria. Nem vigilias, nem dores haviam conseguido deminui-la.A artista parecia vigiar a mulher.Preparava-se para morrer. Mas o instincto, e o habito da Belleza, velavam a sua figura estatual, suprema de altanaria.Ondas fluidas, forças aeriformes, enchiam aquelle quadrado de crystal, em parte opaco pelas folhas das trepadeiras—agora leve como uma asa. Tudo ali parecia voar...Ella, diaphana, duma transparencia de visão, segurava numa das mãos a mascara que tinha como que á espera, do mesmo passo que applicava ás narinas brancas compressas humidas de ether.E a boca, da côr das farripas do algodão, delia-se em risos de madrugada, expressões de sentimentos sobrenaturaes.O ether, fluindo livre, parecia vagá-la pelo espaço; arrebatá-la pela altura.Mira-Mar era já uma camara alada...Subito, sentiu um repelão forte na janella estreita do lado do Mondego. E, a seguir, outro, que lhe partiu a fecharia, escancarando-a.Uma lufada de vento dispersou, rapida, aquella atmosphera de morte e sonho. E Maria Peregrina, como voltando dum mundo de nevoa, encarou, somnambula, o anão, que cavalgava, audaz, o peitoril da janella, com a cabeça rente á ogiva.—Que fazes? perguntou, numa voz de surdina, que parecia magoar-lhe os labios de lirio pisado.—Venho impedir que te mates. Concede-me esse direito. É o direito de quem abdicoude tudo, desmentiu até hoje a raça, passando de nomada a escravo muito de vontade.Eu sei que tens tido amarguras... Ainda esta manhãelletas causou, a ponto de resolveres esta loucura.Estamos sós. Deixa-me falar á vontade. Era como exigias que te falasse quando sophismavas o amor commigo. Não é o anão, o rafeiro quem fala. É a alma que a natureza acobertou num corpo infame; e que, no entanto, abençôa a sua forma só porque ella foi alguma vez bem possuida.Na logica dos teus desejos eu fui o histrião e o tapête. Tudo. Até mulher dos teus amantes!E ria, num riso de metal.—Hoje, do mundo só te acceito a ti. Cabe na minha humildade o maior rancor.Dizias que vestia animo de lobo em pelle de ovelha. Pouco me importa hoje que me descubram o animo.Odeio quasi toda a gente; e, sobretudo, o odiava aelleque, recebendo-te corpo e alma, te vexava e me vexava, tratando-me como um farrapo. Como era immundo!—Cala-te! Vae! Quem te permittiu a entrada? Quem te permittiu que viesses discutir Nuno?Não te condemno; a tua intelligencia é inteira de maldade...Acredito o que insinuas—que se serviu de ti! Que mais vae que se servisse elle ou eu?A materia é una, percebes? As almas é que são differentes.Pois que os superiores não encontram as almas que procuram em corpos bellos vão até vasculhar as dos monstros...Não pudeste comprehendê-lo. Foste o demonio, a vibora enroscada, que elle, o desvairado, tomou por uma flor exotica e quiz colher...Deixa-me! Sáe! e apontava-lhe de novo a janella.—Espera, olha que estive ha poucas horas com elle!E ria, numa contracção de possesso.Has de querer novas, vou dar-tas.Mas, antes, quero contar-te um sonho. Sonhei a noite passada um crime!A imaginação da noite vestiu-me o somno de delicto. E eu não tomei o delicto como pesadelo, senti-o como um bem...Ris-te da exiguidade do meu corpo! Pois não imaginas como é grande o odio que arrasta! Pois que sou o avesso dos felizes, o animal corrido pelos sobejos do bem, sinto-me a expiação de extranhos crimes, e é por horas tardas que o instincto do delicto surde e me embriaga em sonhos de morte. A noiteé a camara escura onde revelo os perfis tragicos das victimas, que são todos, menos tu!A noite passada foielle! Estavamos na Villa-Feia. Lembras-te do eirado que domina o Ribeiro de Cobre? Foi dahi que o vi comtigo, daquella Eira de Vidro, donde tanta vez espreitei os vossos enleios, duma luxuria que eu sentia cá em cima, esporeado por infernos de ciume. Vós estaveis sob o docel fresco e branco das magnolias...—Cala-te! mandou Peregrina.—Ah! não queres que fale; calarei as novas que te trazia delle...Não acreditas que tenha estado com elle? Affirmo-to, juro-te. Juro? Como hei de jurar, se não tenho religião alguma!?Creio que sou o unico assim, em todos os mundos. Até o diabo tem a sua, pois que é proprietario do Inferno, precisa tambem de cabalas para explorar, negociar almas.Eu nem inferno tenho!—Jacob! se sabes alguma coisa de Nuno, dize. Mas não me atormentes.—Vou então completar o sonho.Eu beirava o eirado da Villa-Feia, encostado ao galho, meio podre, meio florido, dum medronheiro de muitos pés de altura, testemunha dos meus zelos. Subito, o ramo partiu, e o Destino precipitou-me sobre os dois, sobre vós. Tu mergulhaste na agua suja do Ribeirode Cobre que foi rapida levar-te ao Douro, que no dia seguinte era mais de oiro, correndo como um grilhão immenso para o mar, conduzido por força mysteriosa. Horas depois, eras o Mar!Elleficou na minha frente, mudo e estupido, como a Innocencia que o Destino empreita para fazer mal.Foi então que, desesperado, o retalhei com uma lamina que recebi do momento. Quem ma deu? Ninguem...Talvez fosse prenda do Destino que lhe deu a elle a passividade que te servia e me despenhava!Certo é que lhe bebi o sangue, inundei-me delle, sentindo-me afogar...A vida partia, ia morrer. Phantasiava já um cortejo de velhacos, conduzindo-me ao cemiterio dos criminosos em Plootzenseel. E eu a pedir-lhes que me levassem no cofre de ébano das tuas joias, aquelle cofre onde uma vez me meteste, a rir...E a um gesto della:—Espera! Depois acordei; foi para cumprir o sonho.Encara-me bem! Assim...Os sonhos são avisos do Destino. Esta manhã recebi recado para ir falar-lhe.Fui. Simulei a antiga passividade.Aprazamos o novo encontro á beira-mar,junto ao Forte, perto da gruta. Era ahi que o fidalgo queria ainda usar o farrapo!Vinha cevar-se, immundamente, no monstro, contratado pela amante para servir os dois!Mas enganou-se. Em Villa-Feia, dobrei-me a todo o enxovalho da sua vileza, porque elle era uma parte de ti propria. Eu era o teu escravo; servindo-o, servia-te:—entreguei-me.Mas aqui, depois de despedir-te, de te enganar, commeter a abjecção de me preferir a ti, que vales um mundo de Belleza! Era muito, era mais do que tentar a Deus porque era tentar um monstro!Ah! elle não sabia, os grandes como os infimos não sabem, o enigma que a fealdade encerra!—Que fizeste, Jacob? implorou Peregrina. Dize!—Que fiz?E encarando-a a rir:—Cumpri o sonho; adquiri uma lamina com que sondei o coração que te affligiu e me vexou.Lá está na areia! Ficou-me num abraço...Sinto ainda saudades do sangue que lavei para vir falar-te.Bello noivado na praia, o do monstro com o fidalgo!—És a fatalidade! disse Peregrina, correndo a abrir o Mirante. Não podias faltar ao ultimo acto da minha vida.És a imagem do monstro que fui tanta vez!A nossa distincção está em que eu puz a indifferença onde lançaste o odio.Vejo entre nós o corpo branco de Edgar, tatuado de fios roxo-lirio. Vejo-o, tão lindo! Elle perdoou-me, o Destino é que não...E, rapida, num passo incerto, sahiu do Mirante, desceu pela azinhaga guardada de louros que lhe embaraçavam o vestido côr de pervinca, e caminhou ao longo da estrada de Buarcos, que se desdobrava em fita pelo Cabo, listrando a noite.Parou; ia errada.Voltou-se; lá estava o pharolim do Forte.Era ali que o morto quedava, dissera Jacob. Até lhe parecia ouvi-lo, de longe, a chamá-la! Estugou o passo; tinha pressa de vê-lo, de senti-lo.Desceu á praia; correu sobre a areia côr de zinco, pintada do luar.A distancia seguia Jacob, como uma sombra.Era a madona duma Cathedral a silhuetar um monstro!Fixou, ainda de longe, o morto. Abrandou o andar, como quem reconsidera... Depois,foi-se approximando num passo miudo de alvéloa receosa.Elle estava deitado de costas, membros abandonados, descomposto, numa nudez de ephebo, morto mysteriosamente á beira da agua.Os olhos de vidro, salientes do caseado das palpebras, muito abertas, lembravam os dum santo de capella pobre—contas escuras de camandulas, despedindo traços rectos de suavidade.Era serena a sua face livida, irmã da luz daquella hora, mal cortando o luar.O peito era de seda crua, côr da camisa aberta em sanefa.Floriam-lhe o seio glabro redondos signaes vermelhos. Cada punhalada era uma tulipa de sangue.Peregrina ajoelhou.A areia phosphoreava luz de sonho, irradiações de phantastica pedraria...Ella esteve a mirá-lo com uncção de penitente. Curvou-se a procurar os traços de luz vaga do seu olhar de vidro.Depois olhou em redor como quem acorda ao ruido de passos que não espera.Era o anão que andava á volta delles como um cão somnambulo, atado a um baraço imaginario, preso á tulipa semi-liquida que marcava o coração do morto...—Que fazes, bandido? perguntou ella. Podes ir! Já me não perturbas. Segue o Destino!Erra, segundo o espirito dos cães do teu sangue. Apprende como se transmuda a missão duma raça! Vae dizer aos teus a suavidade das nossas taras e amarguras. Se o genio teutão as comprehende!...—É cêdo, volveu o monstro, como falando comsigo.Peregrina voltou a encarar o morto. E, de repente, como batida de luxuria, começou a agitar-se num esvoaçar de aguia tonteada, envolveu-o no seu olhar de treva, falou-lhe, sacudiu-o, afagou-o, até que cahiu sobre elle, mordendo-lhe os labios de camelia pisada, lubricos de morte...O mar tinha sobre a madrugada uma rhythmica extranha. Parecia ter recebido dos rios e das fontes, que xadrezam a prata a paisagem portuguesa, uma melopeia gemente de melancholias...As ondas evolucionavam mysteriosamente, encapellando-se ao rhytmo das proprias queixas. Já duas vezes o mar tinha circuitado a renda aquelle grupo, duma selvajaria suave.Á terceira investida, Maria Peregrina solevou a cabeça, numa atitude de quem trata com o mar como irmã.Era a descendente de heroes, a desafiar novas fainas e conquistas, agora para além da terra, para além do mar...Era a Artista a medir a morte, superior á terra, maior do que o mar! Veiu uma onda enorme. Surdiu, ao longe, como um Pegaso, de asas e crinas crespas, requebrando a sua anca azul través a praia.Maria Peregrina, que a viu, levantou-se a esperá-la. A agua quebrou junto dos dois num lago de saphira. Ella impelliu o amante num carinho de noiva; e esteve um momento a vê-lo partir entre um roldão de cambraias...Veiu uma segunda onda. Espatulou na areia uma lingua de agua, foi até á muralha do Fortim, e refluiu, volveu ao mar, chovendo os restos em orvalho de pureza.Peregrina, que sentiu a onda abrir-se atraz della como uma concha liquida, deixou-se impellir, avançou com ella, e foi mergulhar na resaca da primeira vaga que a esperava com o morto.E seguiram os dois...Na areia estava Jacob, fixo como o deus Termo dos campos, numa serenidade inquietante.Quando as ondas remoinharam os dois corpos num funil de espumas, a sua physionomiavisajou infernos, como se partisse, interiormente, elasticos que tivesse a arrepanhar-lhe o carão alvar. Trepou como um gamo a escarpa do Fortim, arregaçou as palpebras, parecendo rebentar os olhos de azeite, numa tensão de myope que tenta ver, que quer ver...Fixou a primeira agua, muito attento ás flores de neve, hydranjas de espuma em que as ondas se volveram; depois o mar fundo. Nada! Tinham desapparecido! Olhou mais, esfregou os olhos, e olhou ainda... Fixou ao longe o vago liquido daquella massa immensa.De repente, como quem encontra o que procura, illuminou a physionomia da sua faceira glabra num sorriso de idiota manso, que se foi abrindo em riso brando, e mais, e mais, até que lhe distendeu as maxillas, num gargalhar continuo...Desceu, vagaroso, as primeiras desegualdades da gruta, depois tombou, num novello, levantou-se, descreveu a curva de terra, fronteira á linha de agua; e, a correr, em gargalhar parallelo ao som rouco das ondas, seguiu o desenho da bahia, a esparsar a loucura em movimento, e sempre a rir, a rir, num cascalhar pavoroso!Era manhã. Um lençol de nevoa intensa vestia as armas reaes do Forte. O tempo concediaaos mortos um lucto branco, um lucto áparte!Tudo mudára. O mar, ainda ha pouco azul e branco, fez-se rapido em campo glauco.Era uma larga esmeralda de agua. Nem a antiga côr, nem a velha altanaria!O ceu, pouco antes zebrado de vermelho e oiro, côres heraldicas de Castella, cerrou em nuvem de sangue.Só ao longe, para os lados da Grecia, uma nesga de azul delido rompia suave, como para informar que os Deuses velavam os mortos que haviam de resurgir com a velha Attica!O mar toava a mesma musica extranha...Enquanto, do outro lado, rente ao Fortim, e eminente á escarpa, um moço marinheiro cantava. Era um maritimo trigueiro, de olhos de velludo e noite, guardados por pestanas longas, que desciam, mysteriosas, como gelosias, voz de levada, corpo flexuoso de ephebo da beira-mar, a reflectir nas linhas a belleza inconsciente dum Povo...Pleno dia.E a sua alma dolente, côr dos olhos, a desgarrar, em voz de levada, aCantigatriste do vate-fidalgo:Commigo me desavim:Vejo-me em grande perigo!Não posso viver commigo,Nem posso fugir de mim!Antes que este mal tivesseDa outra gente fugia:Agora já fugiriaDe mim, se de mim podesse!Que cabo espero, ou que fimDeste cuidado, que sigoPois trago a mim commigo,Tamanho imigo de mim.2ADVERTENCIAO rôlo de pergaminho, meio desdobrado sobre o bufete, em Mira-Mar, continha, em letra muito bordada, semelhante á dalguns manuscriptos do seculo XVI, o ultimo canto de Maria Peregrina—Elegia da Morte.ELEGIA DA MORTEPOEMA RELIGIOSOEste Poema é o preludio da Morte, annuncia a Libertação!Pela primeira vez, depois duma travessia longa, accidentada e rude, venho repousar á sombra do que fui, sonhar alto o mais do que tenho occultado.O sentimento,—a minha primeira consciencia,—tem-se gasto no mais exhaustivo conflicto—um conflicto dolorosissimo entre o instincto proprio e a mesquinhez alheia.Houve em mim desequilibrios enormes tendentes a perturbar-me. É que nem sempre a alma se satisfez com os recursos da materia; o corpo foi algumas vezes o involucro imperfeito da grande alma que arrastava.Quantas vezes ella pretendeu subir, ganhar altura, do mesmo passo que o corpo lhe pautou vôos mesquinhos; e, quando lhe deuamplidão,—lances arriscados, triumphos dolorosissimos! Sempre a materia a entravar tudo, o pêso a embaraçar o vôo.Eu fui como os zirros que vivem nas fendas dos rochedos. Vivem alto; a raça impõe-lhes vida alta e por isso a natureza lhes deu asas largas e pernas excessivamente reduzidas. Vôam, mas não andam...Com a seguinte differença contra mim:—o meu ninho fê-lo o Acaso cá em baixo. Ainda subi e desdobrei as asas em linhas de boa desenvoltura. Mas o Destino trouxe-me quasi sempre, misturada com aquelles que teimavam em ser da minha casta; quando a verdade é que meus semelhantes, affins pela alma, encontrei poucos. Atravessei a vidaprocurando alguem, uma figura rara que o Deus dos bons tivesse sorteado em meu favor. Encontrei figuras talhadas por medida que não era a minha. E ainda hoje não perdôo a Deus que me tenha dado altura excessiva e camaradas infimos.Permitti-me toda a perversão, se perversão é amar a parte bella da materia, index da Belleza pura, sem o preconceito de sexos, sem preconceito algum...Quizeram que me lavasse na moral de toda a gente, afinal em agua suja; reagi. Fugi á fraqueza de vencer-me; e, fortalecida pelo instincto, dei-me ao temperamento. Creei umavida nova, a vida-conflicto entre as aspirações supremas e a bruteza da materia.Tive de roçar por almas que lembravam a lixa grossa. Excepcionalmente encontrei espiritos brancos em corpos bellos. Os corpos mais brancos e mais bellos guardam quasi sempre almas mulatas, incaracteristicas, pessimas.Vi-me constrangida a amar simples creações,—as minhas creações. Na impossibilidade de amar as creaturas como ellas eram, dei-me a estimá-las taes como as suppunha. Menti a mim propria, por servir a sensibilidade. Ha mentiras nobilissimas! Mas, em regra, os homens mentem por espirito de trapaça, de torpeza.Sou um espirito religioso. A primeira razão da minha fé foi a religião de minha mãe, que a tradição me transmittiu. Mas ella era um temperamento puro, suave e bello na accepção simples destes termos.Eu herdei as taras, as predilecções, os requintes de todos os que me precederam.Sou uma figura complicada, conseguintemente a minha religião não podia ser a sua.Evolui com os nervos, a educação, o temperamento. Descubro-me a todos os symbolos, pois que tenho para mim que elles se fundem num Deus de Belleza que começa a surgir, dentre a confusão, aos poetas, aos artistas.Creio no Deus de todos os cultos, embora aborreça a liturgia que o occulta. A alma deu-me um cerimonial differente. No fundo, um cerimonial de amor, ineffavel...Alei-me em vicio. Ia comprar quartos de hora daquelle amor ás ruelas onde se vende o Nu, o contacto, onde a intelligencia e o genio da Carne se expandem na belleza fresca da adolescencia.Sou um firmamento de perversão.Os meus vicios estrellam fatalidade,—caminhos de luz pelatrevaazul...Luz intima, discorrendo fados de amargura e magia. Duros fados! Excedi a Nana, a Manon, a propria Sapho,—todas as mulheres sagradas pela Desgraça!Fui o genio da Luxuria, parabolando amores...A sociedade escorraçou-me. Quando o meu talento brilhava, ella, de mãos nos olhos, ia vingando a luz que eu derramava, pregoando asabominaçõesa que me entregava.Perversos e estupidos, ouvi:—Tenho a consciencia de que a vida sensual que tenho reflectido é uma derivação fatal e religiosa dum poder occulto que me tem dominado e impellido.Talvez, por isso, tenha pisado os lupanares com o respeito devido aos templos...O prostibulo é, tambem, um Templo; asensualidade uma religião, uma grande e ineffavel religião, o culto immenso do Amor, para além dos ritos, dos mil preconceitos dominantes. Mas, a despeito desta consciencia do Destino, desta razão de talento e de sangue, sinto-me vencida, desilludida.Cancei a imaginação no encalço de creações precisas á minha razão sensual de existir.A sensibilidade de que fui dotada não me permitte que espere o fim de toda a gente. Debalde o tentei.Sinto necessidade de viver em outros mundos. A podridão brilhante que me atormentou a vida vae compensar-me de bens que presinto marcados para além desta valla de torpezahonesta.Cumpri; não posso demorar-me: basta de conflictos com o semelhante.Esta lucta é inacreditavel a quem a não viveu. É o conflicto da idéa pura feita Arte, sensibilidade, sentimento, contra a bruteza do temperamento medio.Quantas vezes afoguei commigo miserias, casos exoticos dum capricho cruel! Embriaguei-me de dor, daquella dor que á volta de mim cachoou desgraça—um mar de fatalidades, para que ali naufragasse.Afrontei este mar ás braçadas. E nesse Atlantico de verdete, absintho de amarguras, com phosphorescencias tenebrosas me fundi eutoda, alma e corpo, para batalhar e seguir, louca, ora encapellada contra a penedia immensa das praias malditas—as que os homens povoam, ora espraiando-me, numa gaza de mysterio, sobre doirados areaes, suave, ternamente, como um mar vulgar em horas mansas.As ondas deste mar foram os meus sentidos:—um infinito de sentidos, os que se attingem pelo estado sensual...Alcancei pelo sonho uma vida vallada e circumvallada de sombras.Fui a somnambula, soffrendo e amando pesadelos que me eram dolorosamente gratos.No mar de sensualidade em que me afundei, em que muitas vezes me solvi, tive horas de sêde, duma sêde obsessora, horrivel! Era o desejo inconsumivel, a febre, a chamma eterna duma aspiração de raça condemnada pela grossaria dos outros.Chamma eterna, de certo, pois que falo por mim e pelos temperamentos que no passado choraram em silencio horas que tenho repetido, e pelos superiores do futuro, figuras talhadas pelo Destino para continuarem a Dor!Coisa horrivel é roçar o semelhante e proximo!Entre mim e os desgraçados para quem falo, aquelles que entornam as suas lagrimas no silencio—medeia a minha coragem, um ousio que os passados não tiveram, que talvezos futuros não tivessem sem este exemplo...Este mundo, que estimei com amizade amorosa, ousando transformá-lo num mundo affectivo, parece-me, á hora deste inventario, obra posthuma, uma ilha de cães vadios, malditos, em saldo de contas com os raros que sahiram a perturbar a sua orchestra de alegrias.Miseravel exercicio...A Belleza é una no seu abraço colossal de todo o concebivel e concebido.E só para ella deve viver-se. Os superiores começam a sentir aquella unidade, na fusão das linhas puras, em toda a obra da materia donde vôe o espirito. Venus e Apollo têem um significado conjuncto; são provas de Belleza que se completam e ajustam numa synthese que o super-sensivel realiza.Sensualizar a vida, descobrindo fontes novas de prazer e dor, transformá-la num mundo de alma, tal a faina suprema dos apostolos da Belleza.Myopes e inferiores, ouvi!—A liturgia em que geralmente resumis o appetite genesico chega para a vossa felicidade, basta aos vossos instinctos, porque a alma vos cabe dentro dos orgãos que vos inculcam o sexo.Vale uns minutos abjectos o vosso amor...Nós amamos tudo e sempre. O Amor é para nós a razão unica da Vida.Por isso Wilde, o condemnado, cantou ternamente o amor dos monstros e das flores; casou os homens com os habitantes imaginarios dos bosques e do mar, e expiou na prisão o delicto de ter gostado tudo, amando e cantando a symphonia das linhas, a intelligencia da Carne, a liberdade da alma!Quando será a libertação collectiva? Sei lá! Fecho os olhos e perco-me a memorar a fileira interminavel das victimas. Quando se realizará a grande paz no Amor? Talvez nunca... E quem sabe?Wagner, o mais genial revolucionario do mundo, pretendeu fazer do Universo um canto.Assombrosa concepção se a completarmos! Exultemos, sobretudo, a Sensualidade, no mais largo significado, no bem infinito que é. Cantar é amar. O Rhythmo das coisas é a expressão sensual do mundo em vibração, a orchestrar, a melodiar o Amor!... Amemos tudo.Nesta hora de dor agradabilissima, sinto-me inclinada a amar o proprio odio que inspirei—o odio que me votaram e o desalento que o Destino me distribuiu em bem da Morte.Os philosophos serenos são em regra mentirosos.Contra Maeterlink affirmo que ha uma fatalidade interna que domina e rege os actosdos homens. A forma suprema da justiça é a Bondade. Mas esta forma, acceite pelo conceito medio dos eleitos, está sujeita aos entraves, ou causas de erro duma força inferior a que imprecisamente chamamos temperamento.Um dia, na adolescencia, percorria, sózinha, um atalho. Senti barulhar a folhagem num carvalhal murado. Espreitei, e vi, ao abrigo duma lapa, o ultimo acto duma tragedia unica. Uma creança, que podia ter nove anos, acabava de matar outra de cinco! Aproximei-me. A criminosa segurava uma lamina, encarando, attenta, a victima.—Que fizeste? perguntei.E ella, serena:—Não sei, ouvi uma voz que disse:—mata a tua irmã. E eu, que móro além, fui a correr buscar esta faca. Não sei se foi Deus quem mandou... Já está morta?E sorria, espectrando na lamina o Deus suave das creanças...A victima era um bocado de marfim e oiro, abandonada no chão, entre a serguilha grossa do vestido, a borbotar do peito alvo cravos de sangue. A outra parecia uma mulhersinha, de olhar quebrado, bandós escuros, face de cobre e sombras, typo de cigana enlouquecida, duma serenidade arrepiante junto aodelictoinnocente!—Não sei se foi Deus quem mandou... dizia.Seria, penso. Que Elle ás vezes capricha em desnortear os commentadores. Queria as duas creanças; e, por isso, ensandeceu a mais velha que despedaçou a outra como o faria a uma rosa...Assim alou as duas. Foram quebrar a monotonia do sagrado mundo, pintalgar o Ceu de riso e loucura!Abracei a innocente que pouco depois vestia de afagos um cordeiro branco que mamava de joelhos, rente á mãe.Como comprehendo hoje a força duma tal voz, que tutela o genio, o crime, perversões, loucuras...É a voz da alma a ordenar. Não sei se a voz de Deus!Quando confronto os actos communs da vida com aquelles que me perturbam, vejo que o meu genio não é uma acuidade da intelligencia—é um mysterio emocional.Deus reparte-se pelo genio creador dos artistas, e revive o poderio nas suas dores. É por elles que accrescenta o Bem, ampliando a geographia do Ceu com o Mal, ainda contra os da sua Egreja. Mas estas provas produzem as maiores tempestades da alma. E é facil ainda aos mais fortes succumbirem.Eu elevei-me pela Dor. De mim desfiro melancholia, torturas, suavidades...A Dor foi a minha Arte e teve um largo apprendizado. Primeiro percorri os museus, dando-me a reconstituir, segundo o meu genio plastico, as bellezas mutiladas,—isto para apprender a ler as linhas, coisa mais difficil do que ler os folios.Depois apprehendi toda a perfeição, e sensualizei a forma. Fundei em Athenas o Templo de Amor,—um Paço de Luxuria. Havia ali um tracto sagrado, a Sala sensual, que me abrigou loucuras suaves, e tempestades de goso, duma nevrose sacudida e bemdita. Nesta sala, vestida de crystaes, concavos e convexos, duma asymetria e desarranjo de cháos, gosei dezenas de corpos alvos e morenos, que desenvolviam nus as curvas das sereias, em danças desvairantes. Tenho no peito o abraço dessas esculturas enleadas, marmores de innocencia e vicio, corpos sagrados pela pureza ideal da fórma. Se attentava aquella seara de carne, batida pelo temporal duma sensualidade abençoada, eu era o suão morno que beijava e confundia os lindos fructos.Fui a haste exotica, o joio genial que, afrontando a seara, colhi a sua belleza e fui colhida.Se alongava a vista ou a quebrava sobre os crystaes, descobria as nossas almas, ricasde imprevisto apocalyptico, desencontros de grotesco, curvas complicadas pelo genio do Feio, atrophias, que eram as sombras dos monstros soberbos que os lindos corpos abrigavam. A minha sensualidade redobrava, e eu, apertada ao corpo moreno ou branco dum principe em Belleza, mergulhava o olhar nos espelhos, que nos espalmavam, engrandeciam, ou afilavam, e vivia aquellas silhuetas e amava nellas o monstro que era, os monstros que eramos!Fóra, alternavam-se collecções de harpas, violinos, psalterios, e orpheões cantando a Vida.E os jorros de luz esparsa através dos crystaes de côr, esbatendo-se em manchas de esmeralda, roxo-e-oiro, banhavam de melancholia aquellas notas, deixando suppor que era a Luz que as cantava!Gosei soffrendo; soffri gosando. Pratiquei actos que foram além de mim; uni-me a corpos de creanças; tive contactos, commercio de sensualidade com os mais bellos adolescentes.Fui anjo e fera, mas fera de asas que partia ás travessias da Ventura, sem liames, sem programma, viuva de preconceitos. Troquei pela intimidade com poucos as devassidões, os respeitos, a consideração vulgar dos chamados homens moraes, seres aleijados pelagrossaria do costume. Mas muita vez o temperamento me chamou a definir-me.Dahi a predilecção pelos dois adolescentes de Petersfield, e a razão do mais entranhado sentimento de amor por Nuno, essa figura passiva da minha loucura, que admirei em sua lassidão.Ah! depois das nupcias com o morto de Petersfield e das vigilias com Helen, ninguem me deu ainda a elevação da Dor-prazer em que elle me afogou, nos afogamos...Mas todas as sensações que me deu eram afinal acasos da sua carne abençoada.Approximei-me daquella alma que me pareceu transparente como a agua dum ribeiro.Era geada insoluvel, crystal espelhante, mas denso, que contrafez dolorosamente a minha doce imagem amoral.Tal qual o que succedeu um dia a um insecto, corpito de esmalte e oiro, que se esforçava por beber os diamantes que trago a calçar os dedos...Nem eu pude solver á força de amor aquella agua congelada, nem o pobre insecto, sedento, poude mover as duras joias a que se deixassem beber, liquefazendo-se.É que almas assim são como os diamantes; têem a bruteza dura da Fórma-fixa. Solidificaram as primeiras impressões; cortam, sem sedeixarem cortar; são a maldade bella, a estupidez da Plastica!E é ainda esta sua negação que requinta o culto que lhe voto.E era a repulsa da sua alma pela minha que lhe quebrava o corpo em hysterias de goso!E foram as lubricidades que lhe dei, numa prodigalidade de millionaria em exotismos, que o afastaram...Como a alma é grande em capricho! Que mysterioso é o genio da Dor!E os semelhantes a pretenderem transformar este Valle de Lagrimas em Valle de Risos, a inventarem palavras, abjecções, religiões de Força, de Alegria, de mil coisas que são a expressão pretenciosa da sua ignorancia magoante!Que gerações as de hoje! Nem obras, nem instinctos!Vontades de cera, gibbosas de subserviencia, nem a Morte as eleva!Infimas creaturas!Almas assim denunciam esteios molles...E como odeiam o culto da plastica sensual! Se o não percebem... É o horror dos selvagens pelo Mysterio. Peor do que isso, pois que estes adoram o que não percebem. Ha na natureza ingenua do barbaro instinctosde salvaguarda e cautela para a Belleza desconhecida.É que a Belleza basta-se, por si se impõe, ponto é encontrar bondade em que se esteie.O que mal pode é deixar de abrir conflicto com a Biblia burguesa, balizada em dois preceitos: impor ao homem a conquista do pão, á mulher a dos filhos. Uma e outro se juntam, mercê de liturgias que enchem codigos e cartilhas...Fim primeiro da união, afinal da Vida—a familia, a juncção pelo casamento de gente em que os chefes escravizam corpos e vontades!Ah! foi o meuerro, rir de taes deveres. Não se foge impunemente dacarreira.Como haviam de ver-me bem as mulheres de ventre cheio,—obesas de divindades, ou fructos de maldição, se eu era o seu avesso?Ellas deformavam-se pelo goso limitado.Eu sensualizei toda a Belleza, illustrei a côres novas a Vida, sacrifiquei a dor vulgar de ser mãe á dor suprema de crear pela Arte a segunda alma dos seus fructos.Podia agitar-me em sofreguidões de prazer, collar o corpo franzino a homens que se alternassem no mister de fecundar, dar á sociedade filhos em vez dos meus tormentos de Arte. Podia. E, se as creaturas com quem commerciasse amores tivessem a marca demaridos,—asociedade receber-me-ia. A sensibilidade impôs-me uma liturgia propria. Amei a esmo. E destes amores sahiram os livros que por ahi correm,—paginas luxuriantes a reconstituirem horas duma tortura celeste e diabolica.Livros são filhos. Os meus são-no tambem da Luxuria, duma luxuria extranha...Assim aNova Saphoe, sobretudo, aEmparedada.Estas obras, a que umaéliteconcedeu foros supremos, fluctuam uma nevrose que a sociedade odeia.Não fui um pousio. Fecundei á minha maneira. Mas para produzir, crear, exigi uma liturgia complicada, reflectindo-a ousadamente.Ingenuos! Ha fructos e fructos.Que horror a tudo o que é extravagante!Porque foi Christo enorme?—tão grande que projectou a maior sombra divina que um homem tem projectado!É que o genio universal o derivou de Maria de Nazareth sobrenaturalmente, sem a macula do peccado original.É filho duma virgem da linhagem de David e de muitas religiões liadas pelo genio indico.Só assim podia ser o Homem-Deus—encarnar e representar a Divindade.Quer dizer, o genio universal, innato, postergouas relações vulgares quando quiz filhar alguem que fosse um Principio.—Sabeis bem quem foi Christo? Foi Aquelle que no mundo soube vestir de grandeza a Humilhação; o mysterio deste poder é ainda da sua Divindade.Todas as obras de genio, filhas da excepção, têem de ver-se áparte.Interessae o vosso religiosismo na grande obra de Belleza que annunciei.Porque as minhas obras são profundamente religiosas. Como todas as obras definitivas. Ultrapassam-me:—fui o pretexto dum poder que simplesmente apercebi.O genio é a intelligencia tocada do sobrenatural.Fecunda, pois, além da razão.Lembro-me do papel da intelligencia quando urdia aquellas obras.Era a escrava duma força desvairante que a superentendia e obrigava fóra do sentido commum, á mercê dum capricho que era a teia-mestra de tudo...Assim tambem no desenrolar de intimas paixões.Não sei se poderia recuar, remeter-me ao vulgar, entregando-me á Moral, como a sociedade a pratica. Creio que não. Mas quando pudesse fazê-lo, não o faria.E ahi está neste mesmo juizo um traço detutela extranha, pois que a sensualidade como a Arte que pratiquei só serviram a marcar-me de relapsa,emparedando-me! Sou para toda a gente a desprezivel Sapho, alma e corpo de monturo. E isto porque não acceitei o phalansterio commum, e pratiquei o amor lesbico.Ora a sociedade não quiz receber-me assim.Logicamente, o publico condemnou as minhas obras.Tinha a obrigação de dar talento que não excedesse o estalão perro da sociedade em que vivia!O meu prejuizo para o grande numero foi mostrar-me toda, dar-me a ler a uma sociedade inferior. Entornei a alma nas paginas que teci dolorosamente, sensualmente.O publico não sentiu essas paginas, nem sequer as percebeu. Peor para mim como mulher; mas ascendi como Artista.Este desacordo é a nossa differença em elogio da minha sensibilidade, posta á prova em todos os sentidos.É grande esta differença?Quanto maior fôr, maior sou. Quanto mais afastada estiver da minha geração, em geral do meu tempo, mais alta é a minha figura.Quereis saber ao certo o que vale? Medi o espaço que vae da idéa média á minha Philosophia de Arte.Esta Philosophia resalta, clara, dos meus versos—moldura propria duma sciencia nova que elegeu principios grandes, como sejam,—a bondade, a sensualidade, a fatalidade do temperamento, a Liberdade da alma dentro de cada homem, salvo o acordo dos espiritos affins.OContracto socialde Rousseau, que passa por obra de genio, veiu afinal, sacrificar a liberdade individual á alma collectiva.Quero o inverso, o avesso dessa lei: a limitação do poder social pelo individuo; que os medios e os rudes cedam aos grandes as regalias que lhes são demasiadas, que não cabem na sua inferioridade.Porque ha de ser millionario o pobre de alma? É bruteza permitti-lo, como tambem o é sanccionar as miserias dos superiores, assentir em que sejam ermos de bens os ricos de Espirito.Em materia de sensibilidade cada vez me allio mais á minha desventura. Vivo a ultima hora na admiração e amor do que fui.E é para que os eleitos vivam ao menos uma hora assim que lhes predico:—entregae-vos ao instincto, ao temperamento, ás taras.Haveis de soffrer? Claro. Mas o soffrimento é das formas mais voluptuosas de goso; ponto é que a abnegação e a acuidade o aproveitem.Não tendes mais do que entregar-vos ao acaso. E o acaso é tão intelligente! Tanto quanto o cuidado é estupido!Inferiores, a vossa felicidade é uma trapaça.Superiores, acima! Corações, acima! Dae elasterio á Alma, subi!Quereis ler um grande livro, o expositor maximo dos grandes preceitos da união livre a derivar á fusão no amor? Está em toda a parte. É a Natureza que interpretaes mal.Vinde áquella janella. Quero ensinar-vos a ler uma grande pagina.Além, para lá daquelle renque de arvores mais crescidas, está uma planta brava. Ha de ser enxertada ao morrer do inverno. Nasceu na mata; transportou-a o capricho de um camponio áquelle pomar. Parecia fadada a dar filhos bravos, fruta desprezivel; pois vae ser fecundada pelo garfo nobre duma arvore de linhagem (tambem as arvores têem genealogia e foros fidalgos) e dará em breve tumidos pomos.Vêde aquella roseira, sustentando rosas de tres côres, resultado de enxertias diversas. Amou e fecundou segundo uma liturgia variada; o Acaso deu-lhe ainda enxertias que falharam, pois que os garfos exoticos morreram depois duma justaposição de dias, porventuramais terna e sensual do que a justaposição fecunda. Bordam o Mondego lindos laranjaes: ide ver como o homem accrescentou Deus, juntando no mesmo tronco raças differentes. Ha, por vezes ali, filhos do mesmo abraço, todos os pomos em que o Divino pôs liga de oiro.E o vento lá balouça tudo, laranjas, limões e limas, um phalansterio em ramos, num contacto que elles, os lindos fructos, aproveitam, sensualmente.Ha naquella roseira amores incestuosos. Pois as suas rosas são tão bellas como as das outras roseiras.Attentae o jardim! Vêde como as flores se collam em beijos de lascivia, quando o vento, animo do tempo, as vaga—como se roçam suave ou tempestuosamente, segundo as marés!O rosal parece agora, reparae, um mar encapellando-se em ondas sensuaes, num rhythmo religioso, perfumado...Se vos alcançou a graça do grande sentido da Belleza, attentae bem nas flores:—São a essencia em fórmas,—o perfume em petalas.Soberbo espectaculo! Lembram assim o amor das freiras nos conventos, enlevo das esposas de Deus,—sonhado, fremido por entre incensos e preces...Ha naquelle canteiro algumas já fanadas, desfalcadas de petalas, sem viço.Vêde como procuram o contacto das mais novas, como se activam a explorar a belleza adolescente dos botões gomosos.Como a fraqueza da edade as pende a fortalecerem-se de vicio, na carnação das mais novas! E ellas lá se lhe entregam, com enleio e graça, generosamente, cumprindo a lei maxima—a Lei da Bondade, que é do instincto. Quem o não entende? A alma grossa dos estupidos, os que arrancam as papoilas da seára, irados de as ver entre os esmaltes dos trigaes.Que lhes importam os grandes bens da Terra—a Côr, a Fórma, o Perfume?... O ridiculo em que me têem, só porque hei cantado a alma do rochedo, a symphonia da linha, a perversão sensual, fonte da Morte, e, conseguintemente, o melhor elo da Vida, pois que solda o corpo á terra, a alma á planta, fundindo o Universo numa confusão sublime!Pobre terra que dá videntes cegos, como Milton, e não dá vista áquelles a quem deu olhos. A Vida é a immortalidade pela transformação, religiosa no seu movimento, sempre patente e actual. Mas considerar parcellas de vida é não ver; peor—ver mal.Nada mais fallivel que o mundo dos aspectos. Acceitemos a Vida como ella é—profundamente metaphysica, religiosa. Eu vergo-me ante o facto positivo do meu genio que o arranjouniversal systematizou ao poder, e a toda a fraqueza creada e por crear. Deus resume a Vida. As minhas fraquezas, as fraquezas de todos os superiores, são a sua ampliação infinita... Ninguem póde definir Deus com precisão. Está em tudo, mas só os raros o sentem, dão por si, portanto, por Elle.Mas, se o vocabulo Deus tem um synonymo, esse synonymo é Amor. Amor universal, entende-se, sem leis, sem peias, segundo o instincto, á discrição e diversificação de cada ser.É claro que este não cabe nos evangelhos, nas cartilhas. O homem de prazeres restrictos não pode sentir o que de si revela de Universo, de Infinito...Este Amor lembra oPuzzle, jogo inventado pela nevoenta Inglaterra para tratar ospleenpatricio.Imaginae um xadrez, em que as pedras se destinam a construcções enormes e cujo arranjo leva dias, mêses!Pois a Vida é umPuzzlede numero colossal de peças, com parte das quaes só Deus joga.É ainda Elle quem torna o jogo interminavel, infinito, baralhando, accrescentando, substituindo as pedras... Tudo passa ao rhythmo do arranjo universal.O homem segue, em geral, suave e indifferentemente.Só o Artista desfranze um pouco o cortinado de nevoa que o separa de Deus, para o ver de longe, ajoelhar á sua inconsciente majestade, buscar alentos á sua jornada.Pois que Deus existe nas paginas ingenuas de Bernardes, e nos livros satanicos e genialmente rebeldes de Annunzio,—curve-nos ante Elle, o Deus clementissimo, que contrasta almas tão apparentemente oppostas.A ingenuidade luminosa do frade e as paginas luxuriosissimas do italiano, que creou para uso da alma um maravilhoso novo,—tudo é de Deus e para Deus, tudo é Deus!Que ninguem soffreie o temperamento. Ha um crime maior do que o commetido para com a liberdade do semelhante: é o que commetemos contra a nossa liberdade.Dêmo-nos ao instincto. Só a continencia é delicto. O instincto é fundamentalmente bom, as leis é que o teem pervertido.Accusam-me de defender toda a casta de luxuria, de dar nas minhas obras a resultante mental daquelles defeitos—uma philosophia negativa, dissolvente, e muito na logica dos meus desejos inconsumiveis.Que horror o dos meus juizes! Não veem que é esta sensibilidade a mais a fusão de tantos sentimentos, esta synthese amorosa que a minha alma comprehende, que vem acabarcom as distincções inferiores, que geralmente demarcam os actos da creança, do homem e da mulher!Segundo a Physiologia pondera no homem arazão, na mulher osentimento, na creança osentido.E é isto verdade no que importa á apreciação do typo medio.Como é um facto, que é a edade de transição—a da vida adolescente—a que põe maior acuidade e interesse no mesmo typo,—o typo medio.Sou a mulher superior. Por isso mesmo o temperamento me não demarcou fronteiras. Junto na alma os encantos, dores, vida sensual, ingenuidades, fraqueza e forças da creança, da mulher, do homem. Como no apologo das varas, a intelligencia dos dois sexos, considerada em conjuncto, ultrapassa o valor das parcellas em desencontro.A minha obra tem tambem a ingenuidade da creança, a acuidade da mulher, a razão do homem, sobretudo a uncção, a grandeza, o vago genial da alma collectiva. Sou a synthese. Excedo o super-homem, sou a essencia da propria humanidade, na comprehensão e realização transcendente do Espirito Universal, em Deus.Sou a super-sensivel!A minha bondade acceita, em pé de egualdade,o amor idealista de Santa Thereza de Jesus—a mystica, os impulsos bestiaes de Caligula e as ordens alucinadas de Nero, determinando-se em sensualidades, ou incendiando Roma, para mergulhar a alma sublimemente perversa nas labaredas duma civilização a arder.O instincto é a primeira força. Depois ha a aspiração vaga, que nos faz caminhar para o Desconhecido.Caminhêmos. Sigamos a mão distante que nos acena. Dêmos por tudo o que formos encontrando.Chamam-nos visionaria! Que importa? Que tem sido a humanidade, senão visionaria!E como é grande a creatura quando sonha! E como é bella a alma a viver sentimentos, a visionar!O que é a Vida nua de chimera?!São factos o proprio sonho, a chimera...Creio na vida eterna pelo Amor. O Amor, fundiu em mim—Deus, Perversão, Desgraça...O Bem e o Mal deram a figura que sou—um bronze de sentimento. Realizo o genio sensual da humanidade nevrosada e a vida suave de toda a Belleza humilde!Sou Shakespeare e Bandarra:—tenho no peito o cachoar tragico da muita miseria e altanaria heroica, que o inglês referveu em dramas, que são a perpetuidade da Dor-genio; e, ao mesmo tempo, a simpleza ingenua daamargura, delida por uma quasi inconsciencia,—aquelle extranho sentir dos loucos que têem o sestro de viver alegres as suas e as tragedias dum povo, os bellos crimes, como as grandes melancholias duma raça!Sinto a alma amarrotada, amarfanhada! Mas ha almas e almas. Ha-as que são como a estopa grossa que, quando sujeitas vincam traços grosseiros.A minha alma, é como a seda e asmoiresluzentes: amarrotada, maltratada, tem cambiantes e vincos finos, dá traços curvos dum resplendor desmanchado, a esbaterem-se em sombreados duma belleza rara...Tenho na alma a dor latente. O Acaso, fomenta-a por capricho.Deitei-me a outra noite, triste, sem saber porque. Estava de mal commigo. Dormi pesadelos. Subito, levantei-me, abri a janella, e vi o roseiral escuro. Nem uma rosa a alumiar-me! Deus cortou relações commigo, pensei, angustiada. Cortou as relações com todos os homens, e por isso escureceu as flores, pintou-as côr do castigo, fê-las côr da fuligem.Corria o tempo, e eu, muda, quieta, somnambula, a fitar as rosas, todas de seda crepe, e, ainda assim, bellas e cheias de graça no seu desenho fino e desegual!Depois, a meio da tortura daquella visão sombria, recobrei-me, pensando em Deus. Evi que defraudando-me, se castigava. Elle não podia, sem desfalque da sua divindade, abdicar da Côr:—dar ás rosas o tom da sombra, embora tocado da belleza da noite, podia ser capricho, nunca um proposito eterno!Chamei Deus a mim, num esforço ingente de Artista que requer o Elemento para trabalhar, produzir, crear...E, desde logo, o sonho se esbateu em claridades. As flores começaram a colorir—milagre de Deus, da madrugada, do meu olhar!Deus troca a sua alma com a minha. E sua alma cabe em mim.Convenço-me de que o lisonjeia a troca—pois a minha abnegação e bondade não têem a caucioná-las immunidade alguma.Vivo pelo Amor todo o amor, os maiores desalentos, o proprio odio, os fados desgraçados...A intenção da minha ultima jornada foi duma pureza absoluta.Elevou-me a isenção; por ella desprezei a Moral. Ser moral é servir a conveniencia; raramente é ser bom. Collidem quasi sempre a Bondade e a Moral.Esta é muitas vezes hypocrisia a reflectir trapaça, iniquidade.A minha coragem afronta o estabelecido.Moral alguma vale a Bondade! Ainda que sacrificasse a propria vida infinita, eu não recuaria:—outro Ceu havia de encontrar.Protegi um dia os amores de dois mendigos. O meu olhar illuminava aquellas almas, que se trocavam para além das suas miserias.Esbatia seus enleios um resplendor de sol, que espectrava riquezas e caprichos de tom:—era a minha bemquerença, a Bondade, eu propria, desfeita em luz a aquecer aquelles amores, banhando-os de goso divino.Indifferente aosgrandes nadasdo mundo—os que geralmente enchem as canseiras dos semelhantes, perturbo-me ao menor symptoma dum grande soffrimento.Deus parece ter-se enganado, extravazando em mim toda a melancholia que devia ter apartada para uma raça.Extranha figura sou! No meio de tempestades intimas, as mais batidas, a alma raramente me deu lagrimas; suggeriu-me desalentos. Outro dia chorei, convulsa, deante de um numero, que ainda lembro cheia de medos.Foi sobre a indicação de forçado (C. 3. 3.) com que Oscar Wilde, o predestinado da Perversão, assignou as paginas magoadas doDe Profundis, escriptas no descanço dohard labour.Vi naquelles numeros toda a severidade votada aos degenerados, o conflicto aberto entreuma sociedade inferior e a sensibilidade acuradissima dum louco genial.Tambem eu sou odiada; e, para o grande numero, a Sapho, a larva immunda que acommete a adolescencia...Não me defendo. Quantas vezes senti em mim a alma da grande lesbia, que visitava em meus poemas e loucuras a nova Hellada do Ocidente!E larva tenho sido. Mas larva a evoluir. A chrysallida que sonha asas. Sinto-as no auge da nevrose. Prendem á carcassa de linhas finas em que o Destino veiu pousar uma grande alma. Erguem a minha belleza amoral.Esta Belleza é pouco e é tudo. Por ella subjuguei forças proprias e extranhas a um só fim:—sentir.Toda a gente odeia a Morte. Porque?Ella é o supremo bem. O que o vulgo toma por acabamento é passagem para o Além... Mas esta passagem sómente é consciente para os que na vidasentiram. Só elles podem avistar com os olhos da alma, áquem da passagem, o eterno da Vida que segue... Como se adquire esta acuidade?Desconheço-o em parte.Mas a atmosphera propria a que se manifeste está na ignorancia das leis do mundo, no desprezo da Vida.O estado mais proximo da superioridade—éoestado sensual, porque é elle que superentende, domina a nevrose, dando o maximo de elasterio á sensibilidade:—é, afinal, a Arte latente, a Belleza no estado puro.Como obtive oestado sensual? Dando-me ao infinito de sentidos que descubro áquem e para além de mim...Que ninguem tente reprimir a sensibilidade. Entregue-se-lhe. Ha no povo inculto, como entre os superiores, grandes temperamentos deformados pelo Preconceito. São aquelles a quem o Acaso repartiu almas que são preciosissimos instrumentos, que elles desferem mal.Foi a guerra movida á minha conducta que melhor acurou os meus vicios, suggeriu a defesa integra dos meus actos, e creou, parallelamente ao meu nihilismo de sentido, uma Philosophia que prende a uma Liberdade amoral que vae além da outra,—a que peja os Codigos, as Biblias...Sempre que intravazava o odio alheio, reconhecia, após horas de tortura, estados novos, de que manavam fontes suaves de riqueza espiritual. Ás vezes, sentia eu propria necessidade de concitar esses odios.Esta attracção exprimia o braço do Bem e do Mal,—o instincto duma grande missão de Unidade a colligir os recursos do Novo-Mundo da Belleza. A grande elementaçãodesse mundo não dispensa o Mal. Toda a creação é dolorosa.Gosar o soffrimento é acceitar aquella missão. Mas, porque só os maiores a acceitam, só elles a gosam, exprimindo em Arte o agridoce daquella dor.O vulgo mal comprehende a tortura dos eleitos, o que reflecte de grandeza sobrenatural. E a Sciencia não alcança mais! Que eram os apostolos quando se deixavam retalhar, a sorrir, de olhos fitos no Além?Para o povo eram santos, para a sciencia—loucos. Erro grosseiro é ler a Dor atravez das lentes escuras que vestem os olhos de tanto myope! Como falseiam a missão da Belleza!

Certa manhã lia ella, sob os loureiros, uma lenda escandinava.

Era uma lenda triste e prophetica, como o genio do Norte. O vento ramalhava as pernadas secas de louro, crepitantes como ralas. A paisagem era dum roxo delido, melancholica como a lenda, como Peregrina.

Chegou Jacob com a correspondencia. O sol, até ahi hesitante, desappareceu, mysterioso.

Peregrina encarou a altura. Depois, descendo a vista, pareceu-lhe vê-lo na salva de oiro que Jacob segurava, com as cartas.

—Deixa ver! disse impaciente.

E apartando a de Nuno pela letra:

—Leva o resto.

O anão expressou um rictus novo na physionomia de pergaminho, sublinhou o olhar de bilis com um riso branco, e sahiu a caminho do alpendre.

Maria Peregrina abriu a carta, sobreexcitada, nervosa. Leu-a, releu-a, espectrou os mais desencontrados movimentos de alma, e quedou, muda, por muito tempo, a olhar para as pernadas secas de louro, mysteriosas, crepitantes...

A carta, dizia:

Peregrina:

Repugna-me continuar a mentir. Não posso mais procurar-te. Beijo as ultimas palavras da tua carta, que denunciam um amor que jámais alguem teve por mim. Mas o proprio enthusiasmo desse amor me atemoriza, ao mesmo tempo que me lisonjeia. Eu sou a contradicção de tudo—de mim mesmo. Acquiesço com a razão aos que me querem; mas só amo os que me desprezam...

Tu comprehendes-me se olhares para dentro de ti, porque, fundamentalmente, somos eguaes. Cada um de nós é o abysmo de si proprio.

Chamavas-me outro dia, no amor dos maiores delirios, o teu Phaon. Ah! como eu visto de razões o proceder do desejado da antiga Sapho! De razões, quero dizer, de fatalidades:—o amor nada tem com a razão. É o Destino, a loucura. É o Deus e o Demonio que temos em nós, rompendo livres, indifferentes aos nossos gosos e torturas. É a fatalidade a entrudar com o sentimento.

Ao despedir-me de ti, não tenho uma palavra de conselho. Nem sequer insinuo que te consultes a ti propria.

A vida está acima e abaixo dos superiores,noutra esphera. Pois que somos a essencia della, alando-nos pela Dor, não podemos entreter esperanças com expedientes. Tratar casos de supersensibilidade com as cabalas que a vida fornece o mesmo é que utilizar a materia a remediar queixas da alma, no fundo a aggravar dores insophismaveis.

O mundo tem revolvido tudo. E, contudo, a sua especulação erudita ainda nem sequer chegou a converter em dogma a Liberdade moral.

Nós, que ha muito conquistamos esporas de oiro na Desgraça, é que sabemos até onde pode ir a nova sciencia por crear—a Philosophia sensual.

É que vivemos na consciente e superior ignorancia do que somos. Para mim, passou o tempo em que acastellava illusões...

Presumo que seja um pouco do que reflicto nos livros—um museu de bellezas mutiladas. Tu eras irreprehensivelmente perfeita no conjuncto bizarro das degenerescencias para que me pertencesses e te pertencesse. E jámais gosei soffrimentos como os que me deste nos teus abraços!

Ah! porque me não matou o delirio das nossas hysterias, quando nos confundiamos na folhada exotica da Villa-Feia!

Ha pouco me interrogava eu ácerca do teu amor, do nosso amor...

Fui ver-me ao espelho. Encontrei a sombra do que fui na adolescencia.

Reconheci o rapaz de ha dezeseis annos, tratado pelo tempo.

Vi ainda nos olhos a negridão da minha antiga virtude atarantada, imprecisa, a procurar o ceu na continencia, e a sophismar sensualidades na oração; volvi-me ao tempo em que fitava os idolos com os olhos da carne, gosando-os com a alma, lubrica de sonho...

Sou o mesmo mysterio sensual, medroso e desequilibrado:—reflicto, impotente, num mar de desesperos, um mundo de desejos.

Tu soubeste exaltar estes desejos, assaltar-me, de chofre, os nervos, vibratizá-los...

Mas foi então que dei por forças intimas, que augmentam os meus receios. Sei lá se ainda tenho nervos á espreita! Que seria de mim?...

Põe na imaginação braseiros de incendio, brancuras e frios de nevada, asphyxias, essencias de requinte, torturas e suavidades religiosas, harmonias bizarras de harpas, psalterios e violinos, saltos macabros de demonios intimos, visões, o Ceu, o Inferno, e terás uma parte do que me fizeste descobrir áquem de mim, da minha fraqueza.

Eis um pouco do que tecia o extranho do nosso viver...

Mas não poderemos mais encontrar-nos!

Perdôa a sem razão destas linhas na logica duma razão que sinto pelos effeitos, mas que não apercebo bem:—a tal fatalidade que nos juntou, a fatalidade que nos afasta.

Adeus, Peregrina! Esquece-me!

Nuno.

Passou uma hora, sem que ella se levantasse.

A manhã sangrou uma chuva miuda, por que mal deu, occulta pela ramaria, abstrahida dos caprichos do tempo, numa contemplação dolorosa.

Veiu um creado lembrar que era a hora de conduzir o monsenhor, que recolhia do alpendre.

—Lá vou.

E sahiu a dar o braço a Andrada.

Dahi a momentos caminhavam os dois, collados e oscillantes. A distancia, mal se extremava o doente.

Symbolizavam as carcassas de dois poderes que o habito juntára, e agora sommavam fraquezas...

No poente, uma nuvem escorria agua. Do norte, o arco-iris desdobrava as sete côres. E o povo dizia, sahindo ás portas dos casaes:—É Deus que está de bem comnosco!

E levantando as mãos:

—Louvado sejaes, Senhor!

E Maria Peregrina, em blasphemia suave, encarando o arco:

—Deus em alliança com os homens, nesta hora, que ironia!

**      *

Sahiu de carruagem, demorando cerca duma hora. Ao chegar, o trintanario desceu docoupévarios embrulhos, que levou ao Mirante. Peregrina conversou por espaço de três quartos de hora com monsenhor Andrada. Depois abraçou-o, commovida.

—Só nos veremos tarde, disse, vou escrever...

Ás quatro horas tomou uma refeição leve, e avisou:

—Que não vá alguem interromper-me. Vou trabalhar.

Noite alta, trepava Jacob pelo gradil do nascente, que cerca o Mirante, ganhando o peitoril da janella, fronteira ao Mondego.

Sobre um pequeno bufete Renascença, pousava um pergaminho mal enrolado, que pendia até meio da armação boleada.

Jacob, confundido com a noite, cauteloso de que as trepadeiras que vestiam o Mirante barulhassem a sua presença, quedou, numa estabilidade de simio mal accommodado, esgarçando os olhos á procura de Peregrina.

Ella estava de costas para elle, que a via, mysteriosa, mexer uma mascara, de applicação desconhecida, vasando ether sobre pastas de algodão.

Pelas frestas da janella, xadrezada, mal collada ao peitoril, sentia Jacob o aroma estonteante do liquido extravazando.

Subito, viu-a deixar o contador alto, e recostar-se sobre um canapé João V, cujo estofo côr de brasa lhe illuminava a figura marfilenea, vincada de sombras. Recuperára a antiga compostura fidalga.

Os traços de amargura, que lhe tatuavam a physionomia, não lhe venciam a raça:—era a mulher fraca, simulando força. Tinha o aspecto de quem despreza a vida, cumpria o destino.

A sua figura desbotada, mantinha-se como num tablado, por dar contas a si propria. Nem vigilias, nem dores haviam conseguido deminui-la.

A artista parecia vigiar a mulher.

Preparava-se para morrer. Mas o instincto, e o habito da Belleza, velavam a sua figura estatual, suprema de altanaria.

Ondas fluidas, forças aeriformes, enchiam aquelle quadrado de crystal, em parte opaco pelas folhas das trepadeiras—agora leve como uma asa. Tudo ali parecia voar...

Ella, diaphana, duma transparencia de visão, segurava numa das mãos a mascara que tinha como que á espera, do mesmo passo que applicava ás narinas brancas compressas humidas de ether.

E a boca, da côr das farripas do algodão, delia-se em risos de madrugada, expressões de sentimentos sobrenaturaes.

O ether, fluindo livre, parecia vagá-la pelo espaço; arrebatá-la pela altura.

Mira-Mar era já uma camara alada...

Subito, sentiu um repelão forte na janella estreita do lado do Mondego. E, a seguir, outro, que lhe partiu a fecharia, escancarando-a.

Uma lufada de vento dispersou, rapida, aquella atmosphera de morte e sonho. E Maria Peregrina, como voltando dum mundo de nevoa, encarou, somnambula, o anão, que cavalgava, audaz, o peitoril da janella, com a cabeça rente á ogiva.

—Que fazes? perguntou, numa voz de surdina, que parecia magoar-lhe os labios de lirio pisado.

—Venho impedir que te mates. Concede-me esse direito. É o direito de quem abdicoude tudo, desmentiu até hoje a raça, passando de nomada a escravo muito de vontade.

Eu sei que tens tido amarguras... Ainda esta manhãelletas causou, a ponto de resolveres esta loucura.

Estamos sós. Deixa-me falar á vontade. Era como exigias que te falasse quando sophismavas o amor commigo. Não é o anão, o rafeiro quem fala. É a alma que a natureza acobertou num corpo infame; e que, no entanto, abençôa a sua forma só porque ella foi alguma vez bem possuida.

Na logica dos teus desejos eu fui o histrião e o tapête. Tudo. Até mulher dos teus amantes!

E ria, num riso de metal.

—Hoje, do mundo só te acceito a ti. Cabe na minha humildade o maior rancor.

Dizias que vestia animo de lobo em pelle de ovelha. Pouco me importa hoje que me descubram o animo.

Odeio quasi toda a gente; e, sobretudo, o odiava aelleque, recebendo-te corpo e alma, te vexava e me vexava, tratando-me como um farrapo. Como era immundo!

—Cala-te! Vae! Quem te permittiu a entrada? Quem te permittiu que viesses discutir Nuno?

Não te condemno; a tua intelligencia é inteira de maldade...

Acredito o que insinuas—que se serviu de ti! Que mais vae que se servisse elle ou eu?

A materia é una, percebes? As almas é que são differentes.

Pois que os superiores não encontram as almas que procuram em corpos bellos vão até vasculhar as dos monstros...

Não pudeste comprehendê-lo. Foste o demonio, a vibora enroscada, que elle, o desvairado, tomou por uma flor exotica e quiz colher...

Deixa-me! Sáe! e apontava-lhe de novo a janella.

—Espera, olha que estive ha poucas horas com elle!

E ria, numa contracção de possesso.

Has de querer novas, vou dar-tas.

Mas, antes, quero contar-te um sonho. Sonhei a noite passada um crime!

A imaginação da noite vestiu-me o somno de delicto. E eu não tomei o delicto como pesadelo, senti-o como um bem...

Ris-te da exiguidade do meu corpo! Pois não imaginas como é grande o odio que arrasta! Pois que sou o avesso dos felizes, o animal corrido pelos sobejos do bem, sinto-me a expiação de extranhos crimes, e é por horas tardas que o instincto do delicto surde e me embriaga em sonhos de morte. A noiteé a camara escura onde revelo os perfis tragicos das victimas, que são todos, menos tu!

A noite passada foielle! Estavamos na Villa-Feia. Lembras-te do eirado que domina o Ribeiro de Cobre? Foi dahi que o vi comtigo, daquella Eira de Vidro, donde tanta vez espreitei os vossos enleios, duma luxuria que eu sentia cá em cima, esporeado por infernos de ciume. Vós estaveis sob o docel fresco e branco das magnolias...

—Cala-te! mandou Peregrina.

—Ah! não queres que fale; calarei as novas que te trazia delle...

Não acreditas que tenha estado com elle? Affirmo-to, juro-te. Juro? Como hei de jurar, se não tenho religião alguma!?

Creio que sou o unico assim, em todos os mundos. Até o diabo tem a sua, pois que é proprietario do Inferno, precisa tambem de cabalas para explorar, negociar almas.

Eu nem inferno tenho!

—Jacob! se sabes alguma coisa de Nuno, dize. Mas não me atormentes.

—Vou então completar o sonho.

Eu beirava o eirado da Villa-Feia, encostado ao galho, meio podre, meio florido, dum medronheiro de muitos pés de altura, testemunha dos meus zelos. Subito, o ramo partiu, e o Destino precipitou-me sobre os dois, sobre vós. Tu mergulhaste na agua suja do Ribeirode Cobre que foi rapida levar-te ao Douro, que no dia seguinte era mais de oiro, correndo como um grilhão immenso para o mar, conduzido por força mysteriosa. Horas depois, eras o Mar!

Elleficou na minha frente, mudo e estupido, como a Innocencia que o Destino empreita para fazer mal.

Foi então que, desesperado, o retalhei com uma lamina que recebi do momento. Quem ma deu? Ninguem...

Talvez fosse prenda do Destino que lhe deu a elle a passividade que te servia e me despenhava!

Certo é que lhe bebi o sangue, inundei-me delle, sentindo-me afogar...

A vida partia, ia morrer. Phantasiava já um cortejo de velhacos, conduzindo-me ao cemiterio dos criminosos em Plootzenseel. E eu a pedir-lhes que me levassem no cofre de ébano das tuas joias, aquelle cofre onde uma vez me meteste, a rir...

E a um gesto della:

—Espera! Depois acordei; foi para cumprir o sonho.

Encara-me bem! Assim...

Os sonhos são avisos do Destino. Esta manhã recebi recado para ir falar-lhe.

Fui. Simulei a antiga passividade.

Aprazamos o novo encontro á beira-mar,junto ao Forte, perto da gruta. Era ahi que o fidalgo queria ainda usar o farrapo!

Vinha cevar-se, immundamente, no monstro, contratado pela amante para servir os dois!

Mas enganou-se. Em Villa-Feia, dobrei-me a todo o enxovalho da sua vileza, porque elle era uma parte de ti propria. Eu era o teu escravo; servindo-o, servia-te:—entreguei-me.

Mas aqui, depois de despedir-te, de te enganar, commeter a abjecção de me preferir a ti, que vales um mundo de Belleza! Era muito, era mais do que tentar a Deus porque era tentar um monstro!

Ah! elle não sabia, os grandes como os infimos não sabem, o enigma que a fealdade encerra!

—Que fizeste, Jacob? implorou Peregrina. Dize!

—Que fiz?

E encarando-a a rir:

—Cumpri o sonho; adquiri uma lamina com que sondei o coração que te affligiu e me vexou.

Lá está na areia! Ficou-me num abraço...

Sinto ainda saudades do sangue que lavei para vir falar-te.

Bello noivado na praia, o do monstro com o fidalgo!

—És a fatalidade! disse Peregrina, correndo a abrir o Mirante. Não podias faltar ao ultimo acto da minha vida.

És a imagem do monstro que fui tanta vez!

A nossa distincção está em que eu puz a indifferença onde lançaste o odio.

Vejo entre nós o corpo branco de Edgar, tatuado de fios roxo-lirio. Vejo-o, tão lindo! Elle perdoou-me, o Destino é que não...

E, rapida, num passo incerto, sahiu do Mirante, desceu pela azinhaga guardada de louros que lhe embaraçavam o vestido côr de pervinca, e caminhou ao longo da estrada de Buarcos, que se desdobrava em fita pelo Cabo, listrando a noite.

Parou; ia errada.

Voltou-se; lá estava o pharolim do Forte.

Era ali que o morto quedava, dissera Jacob. Até lhe parecia ouvi-lo, de longe, a chamá-la! Estugou o passo; tinha pressa de vê-lo, de senti-lo.

Desceu á praia; correu sobre a areia côr de zinco, pintada do luar.

A distancia seguia Jacob, como uma sombra.

Era a madona duma Cathedral a silhuetar um monstro!

Fixou, ainda de longe, o morto. Abrandou o andar, como quem reconsidera... Depois,foi-se approximando num passo miudo de alvéloa receosa.

Elle estava deitado de costas, membros abandonados, descomposto, numa nudez de ephebo, morto mysteriosamente á beira da agua.

Os olhos de vidro, salientes do caseado das palpebras, muito abertas, lembravam os dum santo de capella pobre—contas escuras de camandulas, despedindo traços rectos de suavidade.

Era serena a sua face livida, irmã da luz daquella hora, mal cortando o luar.

O peito era de seda crua, côr da camisa aberta em sanefa.

Floriam-lhe o seio glabro redondos signaes vermelhos. Cada punhalada era uma tulipa de sangue.

Peregrina ajoelhou.

A areia phosphoreava luz de sonho, irradiações de phantastica pedraria...

Ella esteve a mirá-lo com uncção de penitente. Curvou-se a procurar os traços de luz vaga do seu olhar de vidro.

Depois olhou em redor como quem acorda ao ruido de passos que não espera.

Era o anão que andava á volta delles como um cão somnambulo, atado a um baraço imaginario, preso á tulipa semi-liquida que marcava o coração do morto...

—Que fazes, bandido? perguntou ella. Podes ir! Já me não perturbas. Segue o Destino!

Erra, segundo o espirito dos cães do teu sangue. Apprende como se transmuda a missão duma raça! Vae dizer aos teus a suavidade das nossas taras e amarguras. Se o genio teutão as comprehende!...

—É cêdo, volveu o monstro, como falando comsigo.

Peregrina voltou a encarar o morto. E, de repente, como batida de luxuria, começou a agitar-se num esvoaçar de aguia tonteada, envolveu-o no seu olhar de treva, falou-lhe, sacudiu-o, afagou-o, até que cahiu sobre elle, mordendo-lhe os labios de camelia pisada, lubricos de morte...

O mar tinha sobre a madrugada uma rhythmica extranha. Parecia ter recebido dos rios e das fontes, que xadrezam a prata a paisagem portuguesa, uma melopeia gemente de melancholias...

As ondas evolucionavam mysteriosamente, encapellando-se ao rhytmo das proprias queixas. Já duas vezes o mar tinha circuitado a renda aquelle grupo, duma selvajaria suave.

Á terceira investida, Maria Peregrina solevou a cabeça, numa atitude de quem trata com o mar como irmã.

Era a descendente de heroes, a desafiar novas fainas e conquistas, agora para além da terra, para além do mar...

Era a Artista a medir a morte, superior á terra, maior do que o mar! Veiu uma onda enorme. Surdiu, ao longe, como um Pegaso, de asas e crinas crespas, requebrando a sua anca azul través a praia.

Maria Peregrina, que a viu, levantou-se a esperá-la. A agua quebrou junto dos dois num lago de saphira. Ella impelliu o amante num carinho de noiva; e esteve um momento a vê-lo partir entre um roldão de cambraias...

Veiu uma segunda onda. Espatulou na areia uma lingua de agua, foi até á muralha do Fortim, e refluiu, volveu ao mar, chovendo os restos em orvalho de pureza.

Peregrina, que sentiu a onda abrir-se atraz della como uma concha liquida, deixou-se impellir, avançou com ella, e foi mergulhar na resaca da primeira vaga que a esperava com o morto.

E seguiram os dois...

Na areia estava Jacob, fixo como o deus Termo dos campos, numa serenidade inquietante.

Quando as ondas remoinharam os dois corpos num funil de espumas, a sua physionomiavisajou infernos, como se partisse, interiormente, elasticos que tivesse a arrepanhar-lhe o carão alvar. Trepou como um gamo a escarpa do Fortim, arregaçou as palpebras, parecendo rebentar os olhos de azeite, numa tensão de myope que tenta ver, que quer ver...

Fixou a primeira agua, muito attento ás flores de neve, hydranjas de espuma em que as ondas se volveram; depois o mar fundo. Nada! Tinham desapparecido! Olhou mais, esfregou os olhos, e olhou ainda... Fixou ao longe o vago liquido daquella massa immensa.

De repente, como quem encontra o que procura, illuminou a physionomia da sua faceira glabra num sorriso de idiota manso, que se foi abrindo em riso brando, e mais, e mais, até que lhe distendeu as maxillas, num gargalhar continuo...

Desceu, vagaroso, as primeiras desegualdades da gruta, depois tombou, num novello, levantou-se, descreveu a curva de terra, fronteira á linha de agua; e, a correr, em gargalhar parallelo ao som rouco das ondas, seguiu o desenho da bahia, a esparsar a loucura em movimento, e sempre a rir, a rir, num cascalhar pavoroso!

Era manhã. Um lençol de nevoa intensa vestia as armas reaes do Forte. O tempo concediaaos mortos um lucto branco, um lucto áparte!

Tudo mudára. O mar, ainda ha pouco azul e branco, fez-se rapido em campo glauco.

Era uma larga esmeralda de agua. Nem a antiga côr, nem a velha altanaria!

O ceu, pouco antes zebrado de vermelho e oiro, côres heraldicas de Castella, cerrou em nuvem de sangue.

Só ao longe, para os lados da Grecia, uma nesga de azul delido rompia suave, como para informar que os Deuses velavam os mortos que haviam de resurgir com a velha Attica!

O mar toava a mesma musica extranha...

Enquanto, do outro lado, rente ao Fortim, e eminente á escarpa, um moço marinheiro cantava. Era um maritimo trigueiro, de olhos de velludo e noite, guardados por pestanas longas, que desciam, mysteriosas, como gelosias, voz de levada, corpo flexuoso de ephebo da beira-mar, a reflectir nas linhas a belleza inconsciente dum Povo...

Pleno dia.

E a sua alma dolente, côr dos olhos, a desgarrar, em voz de levada, aCantigatriste do vate-fidalgo:

Commigo me desavim:Vejo-me em grande perigo!Não posso viver commigo,Nem posso fugir de mim!Antes que este mal tivesseDa outra gente fugia:Agora já fugiriaDe mim, se de mim podesse!Que cabo espero, ou que fimDeste cuidado, que sigoPois trago a mim commigo,Tamanho imigo de mim.2

O rôlo de pergaminho, meio desdobrado sobre o bufete, em Mira-Mar, continha, em letra muito bordada, semelhante á dalguns manuscriptos do seculo XVI, o ultimo canto de Maria Peregrina—Elegia da Morte.

Este Poema é o preludio da Morte, annuncia a Libertação!

Pela primeira vez, depois duma travessia longa, accidentada e rude, venho repousar á sombra do que fui, sonhar alto o mais do que tenho occultado.

O sentimento,—a minha primeira consciencia,—tem-se gasto no mais exhaustivo conflicto—um conflicto dolorosissimo entre o instincto proprio e a mesquinhez alheia.

Houve em mim desequilibrios enormes tendentes a perturbar-me. É que nem sempre a alma se satisfez com os recursos da materia; o corpo foi algumas vezes o involucro imperfeito da grande alma que arrastava.

Quantas vezes ella pretendeu subir, ganhar altura, do mesmo passo que o corpo lhe pautou vôos mesquinhos; e, quando lhe deuamplidão,—lances arriscados, triumphos dolorosissimos! Sempre a materia a entravar tudo, o pêso a embaraçar o vôo.

Eu fui como os zirros que vivem nas fendas dos rochedos. Vivem alto; a raça impõe-lhes vida alta e por isso a natureza lhes deu asas largas e pernas excessivamente reduzidas. Vôam, mas não andam...

Com a seguinte differença contra mim:—o meu ninho fê-lo o Acaso cá em baixo. Ainda subi e desdobrei as asas em linhas de boa desenvoltura. Mas o Destino trouxe-me quasi sempre, misturada com aquelles que teimavam em ser da minha casta; quando a verdade é que meus semelhantes, affins pela alma, encontrei poucos. Atravessei a vidaprocurando alguem, uma figura rara que o Deus dos bons tivesse sorteado em meu favor. Encontrei figuras talhadas por medida que não era a minha. E ainda hoje não perdôo a Deus que me tenha dado altura excessiva e camaradas infimos.

Permitti-me toda a perversão, se perversão é amar a parte bella da materia, index da Belleza pura, sem o preconceito de sexos, sem preconceito algum...

Quizeram que me lavasse na moral de toda a gente, afinal em agua suja; reagi. Fugi á fraqueza de vencer-me; e, fortalecida pelo instincto, dei-me ao temperamento. Creei umavida nova, a vida-conflicto entre as aspirações supremas e a bruteza da materia.

Tive de roçar por almas que lembravam a lixa grossa. Excepcionalmente encontrei espiritos brancos em corpos bellos. Os corpos mais brancos e mais bellos guardam quasi sempre almas mulatas, incaracteristicas, pessimas.

Vi-me constrangida a amar simples creações,—as minhas creações. Na impossibilidade de amar as creaturas como ellas eram, dei-me a estimá-las taes como as suppunha. Menti a mim propria, por servir a sensibilidade. Ha mentiras nobilissimas! Mas, em regra, os homens mentem por espirito de trapaça, de torpeza.

Sou um espirito religioso. A primeira razão da minha fé foi a religião de minha mãe, que a tradição me transmittiu. Mas ella era um temperamento puro, suave e bello na accepção simples destes termos.

Eu herdei as taras, as predilecções, os requintes de todos os que me precederam.

Sou uma figura complicada, conseguintemente a minha religião não podia ser a sua.

Evolui com os nervos, a educação, o temperamento. Descubro-me a todos os symbolos, pois que tenho para mim que elles se fundem num Deus de Belleza que começa a surgir, dentre a confusão, aos poetas, aos artistas.

Creio no Deus de todos os cultos, embora aborreça a liturgia que o occulta. A alma deu-me um cerimonial differente. No fundo, um cerimonial de amor, ineffavel...

Alei-me em vicio. Ia comprar quartos de hora daquelle amor ás ruelas onde se vende o Nu, o contacto, onde a intelligencia e o genio da Carne se expandem na belleza fresca da adolescencia.

Sou um firmamento de perversão.

Os meus vicios estrellam fatalidade,—caminhos de luz pelatrevaazul...

Luz intima, discorrendo fados de amargura e magia. Duros fados! Excedi a Nana, a Manon, a propria Sapho,—todas as mulheres sagradas pela Desgraça!

Fui o genio da Luxuria, parabolando amores...

A sociedade escorraçou-me. Quando o meu talento brilhava, ella, de mãos nos olhos, ia vingando a luz que eu derramava, pregoando asabominaçõesa que me entregava.

Perversos e estupidos, ouvi:

—Tenho a consciencia de que a vida sensual que tenho reflectido é uma derivação fatal e religiosa dum poder occulto que me tem dominado e impellido.

Talvez, por isso, tenha pisado os lupanares com o respeito devido aos templos...

O prostibulo é, tambem, um Templo; asensualidade uma religião, uma grande e ineffavel religião, o culto immenso do Amor, para além dos ritos, dos mil preconceitos dominantes. Mas, a despeito desta consciencia do Destino, desta razão de talento e de sangue, sinto-me vencida, desilludida.

Cancei a imaginação no encalço de creações precisas á minha razão sensual de existir.

A sensibilidade de que fui dotada não me permitte que espere o fim de toda a gente. Debalde o tentei.

Sinto necessidade de viver em outros mundos. A podridão brilhante que me atormentou a vida vae compensar-me de bens que presinto marcados para além desta valla de torpezahonesta.

Cumpri; não posso demorar-me: basta de conflictos com o semelhante.

Esta lucta é inacreditavel a quem a não viveu. É o conflicto da idéa pura feita Arte, sensibilidade, sentimento, contra a bruteza do temperamento medio.

Quantas vezes afoguei commigo miserias, casos exoticos dum capricho cruel! Embriaguei-me de dor, daquella dor que á volta de mim cachoou desgraça—um mar de fatalidades, para que ali naufragasse.

Afrontei este mar ás braçadas. E nesse Atlantico de verdete, absintho de amarguras, com phosphorescencias tenebrosas me fundi eutoda, alma e corpo, para batalhar e seguir, louca, ora encapellada contra a penedia immensa das praias malditas—as que os homens povoam, ora espraiando-me, numa gaza de mysterio, sobre doirados areaes, suave, ternamente, como um mar vulgar em horas mansas.

As ondas deste mar foram os meus sentidos:—um infinito de sentidos, os que se attingem pelo estado sensual...

Alcancei pelo sonho uma vida vallada e circumvallada de sombras.

Fui a somnambula, soffrendo e amando pesadelos que me eram dolorosamente gratos.

No mar de sensualidade em que me afundei, em que muitas vezes me solvi, tive horas de sêde, duma sêde obsessora, horrivel! Era o desejo inconsumivel, a febre, a chamma eterna duma aspiração de raça condemnada pela grossaria dos outros.

Chamma eterna, de certo, pois que falo por mim e pelos temperamentos que no passado choraram em silencio horas que tenho repetido, e pelos superiores do futuro, figuras talhadas pelo Destino para continuarem a Dor!

Coisa horrivel é roçar o semelhante e proximo!

Entre mim e os desgraçados para quem falo, aquelles que entornam as suas lagrimas no silencio—medeia a minha coragem, um ousio que os passados não tiveram, que talvezos futuros não tivessem sem este exemplo...

Este mundo, que estimei com amizade amorosa, ousando transformá-lo num mundo affectivo, parece-me, á hora deste inventario, obra posthuma, uma ilha de cães vadios, malditos, em saldo de contas com os raros que sahiram a perturbar a sua orchestra de alegrias.

Miseravel exercicio...

A Belleza é una no seu abraço colossal de todo o concebivel e concebido.

E só para ella deve viver-se. Os superiores começam a sentir aquella unidade, na fusão das linhas puras, em toda a obra da materia donde vôe o espirito. Venus e Apollo têem um significado conjuncto; são provas de Belleza que se completam e ajustam numa synthese que o super-sensivel realiza.

Sensualizar a vida, descobrindo fontes novas de prazer e dor, transformá-la num mundo de alma, tal a faina suprema dos apostolos da Belleza.

Myopes e inferiores, ouvi!

—A liturgia em que geralmente resumis o appetite genesico chega para a vossa felicidade, basta aos vossos instinctos, porque a alma vos cabe dentro dos orgãos que vos inculcam o sexo.

Vale uns minutos abjectos o vosso amor...

Nós amamos tudo e sempre. O Amor é para nós a razão unica da Vida.

Por isso Wilde, o condemnado, cantou ternamente o amor dos monstros e das flores; casou os homens com os habitantes imaginarios dos bosques e do mar, e expiou na prisão o delicto de ter gostado tudo, amando e cantando a symphonia das linhas, a intelligencia da Carne, a liberdade da alma!

Quando será a libertação collectiva? Sei lá! Fecho os olhos e perco-me a memorar a fileira interminavel das victimas. Quando se realizará a grande paz no Amor? Talvez nunca... E quem sabe?

Wagner, o mais genial revolucionario do mundo, pretendeu fazer do Universo um canto.

Assombrosa concepção se a completarmos! Exultemos, sobretudo, a Sensualidade, no mais largo significado, no bem infinito que é. Cantar é amar. O Rhythmo das coisas é a expressão sensual do mundo em vibração, a orchestrar, a melodiar o Amor!... Amemos tudo.

Nesta hora de dor agradabilissima, sinto-me inclinada a amar o proprio odio que inspirei—o odio que me votaram e o desalento que o Destino me distribuiu em bem da Morte.

Os philosophos serenos são em regra mentirosos.

Contra Maeterlink affirmo que ha uma fatalidade interna que domina e rege os actosdos homens. A forma suprema da justiça é a Bondade. Mas esta forma, acceite pelo conceito medio dos eleitos, está sujeita aos entraves, ou causas de erro duma força inferior a que imprecisamente chamamos temperamento.

Um dia, na adolescencia, percorria, sózinha, um atalho. Senti barulhar a folhagem num carvalhal murado. Espreitei, e vi, ao abrigo duma lapa, o ultimo acto duma tragedia unica. Uma creança, que podia ter nove anos, acabava de matar outra de cinco! Aproximei-me. A criminosa segurava uma lamina, encarando, attenta, a victima.

—Que fizeste? perguntei.

E ella, serena:

—Não sei, ouvi uma voz que disse:—mata a tua irmã. E eu, que móro além, fui a correr buscar esta faca. Não sei se foi Deus quem mandou... Já está morta?

E sorria, espectrando na lamina o Deus suave das creanças...

A victima era um bocado de marfim e oiro, abandonada no chão, entre a serguilha grossa do vestido, a borbotar do peito alvo cravos de sangue. A outra parecia uma mulhersinha, de olhar quebrado, bandós escuros, face de cobre e sombras, typo de cigana enlouquecida, duma serenidade arrepiante junto aodelictoinnocente!

—Não sei se foi Deus quem mandou... dizia.

Seria, penso. Que Elle ás vezes capricha em desnortear os commentadores. Queria as duas creanças; e, por isso, ensandeceu a mais velha que despedaçou a outra como o faria a uma rosa...

Assim alou as duas. Foram quebrar a monotonia do sagrado mundo, pintalgar o Ceu de riso e loucura!

Abracei a innocente que pouco depois vestia de afagos um cordeiro branco que mamava de joelhos, rente á mãe.

Como comprehendo hoje a força duma tal voz, que tutela o genio, o crime, perversões, loucuras...

É a voz da alma a ordenar. Não sei se a voz de Deus!

Quando confronto os actos communs da vida com aquelles que me perturbam, vejo que o meu genio não é uma acuidade da intelligencia—é um mysterio emocional.

Deus reparte-se pelo genio creador dos artistas, e revive o poderio nas suas dores. É por elles que accrescenta o Bem, ampliando a geographia do Ceu com o Mal, ainda contra os da sua Egreja. Mas estas provas produzem as maiores tempestades da alma. E é facil ainda aos mais fortes succumbirem.

Eu elevei-me pela Dor. De mim desfiro melancholia, torturas, suavidades...

A Dor foi a minha Arte e teve um largo apprendizado. Primeiro percorri os museus, dando-me a reconstituir, segundo o meu genio plastico, as bellezas mutiladas,—isto para apprender a ler as linhas, coisa mais difficil do que ler os folios.

Depois apprehendi toda a perfeição, e sensualizei a forma. Fundei em Athenas o Templo de Amor,—um Paço de Luxuria. Havia ali um tracto sagrado, a Sala sensual, que me abrigou loucuras suaves, e tempestades de goso, duma nevrose sacudida e bemdita. Nesta sala, vestida de crystaes, concavos e convexos, duma asymetria e desarranjo de cháos, gosei dezenas de corpos alvos e morenos, que desenvolviam nus as curvas das sereias, em danças desvairantes. Tenho no peito o abraço dessas esculturas enleadas, marmores de innocencia e vicio, corpos sagrados pela pureza ideal da fórma. Se attentava aquella seara de carne, batida pelo temporal duma sensualidade abençoada, eu era o suão morno que beijava e confundia os lindos fructos.

Fui a haste exotica, o joio genial que, afrontando a seara, colhi a sua belleza e fui colhida.

Se alongava a vista ou a quebrava sobre os crystaes, descobria as nossas almas, ricasde imprevisto apocalyptico, desencontros de grotesco, curvas complicadas pelo genio do Feio, atrophias, que eram as sombras dos monstros soberbos que os lindos corpos abrigavam. A minha sensualidade redobrava, e eu, apertada ao corpo moreno ou branco dum principe em Belleza, mergulhava o olhar nos espelhos, que nos espalmavam, engrandeciam, ou afilavam, e vivia aquellas silhuetas e amava nellas o monstro que era, os monstros que eramos!

Fóra, alternavam-se collecções de harpas, violinos, psalterios, e orpheões cantando a Vida.

E os jorros de luz esparsa através dos crystaes de côr, esbatendo-se em manchas de esmeralda, roxo-e-oiro, banhavam de melancholia aquellas notas, deixando suppor que era a Luz que as cantava!

Gosei soffrendo; soffri gosando. Pratiquei actos que foram além de mim; uni-me a corpos de creanças; tive contactos, commercio de sensualidade com os mais bellos adolescentes.

Fui anjo e fera, mas fera de asas que partia ás travessias da Ventura, sem liames, sem programma, viuva de preconceitos. Troquei pela intimidade com poucos as devassidões, os respeitos, a consideração vulgar dos chamados homens moraes, seres aleijados pelagrossaria do costume. Mas muita vez o temperamento me chamou a definir-me.

Dahi a predilecção pelos dois adolescentes de Petersfield, e a razão do mais entranhado sentimento de amor por Nuno, essa figura passiva da minha loucura, que admirei em sua lassidão.

Ah! depois das nupcias com o morto de Petersfield e das vigilias com Helen, ninguem me deu ainda a elevação da Dor-prazer em que elle me afogou, nos afogamos...

Mas todas as sensações que me deu eram afinal acasos da sua carne abençoada.

Approximei-me daquella alma que me pareceu transparente como a agua dum ribeiro.

Era geada insoluvel, crystal espelhante, mas denso, que contrafez dolorosamente a minha doce imagem amoral.

Tal qual o que succedeu um dia a um insecto, corpito de esmalte e oiro, que se esforçava por beber os diamantes que trago a calçar os dedos...

Nem eu pude solver á força de amor aquella agua congelada, nem o pobre insecto, sedento, poude mover as duras joias a que se deixassem beber, liquefazendo-se.

É que almas assim são como os diamantes; têem a bruteza dura da Fórma-fixa. Solidificaram as primeiras impressões; cortam, sem sedeixarem cortar; são a maldade bella, a estupidez da Plastica!

E é ainda esta sua negação que requinta o culto que lhe voto.

E era a repulsa da sua alma pela minha que lhe quebrava o corpo em hysterias de goso!

E foram as lubricidades que lhe dei, numa prodigalidade de millionaria em exotismos, que o afastaram...

Como a alma é grande em capricho! Que mysterioso é o genio da Dor!

E os semelhantes a pretenderem transformar este Valle de Lagrimas em Valle de Risos, a inventarem palavras, abjecções, religiões de Força, de Alegria, de mil coisas que são a expressão pretenciosa da sua ignorancia magoante!

Que gerações as de hoje! Nem obras, nem instinctos!

Vontades de cera, gibbosas de subserviencia, nem a Morte as eleva!

Infimas creaturas!

Almas assim denunciam esteios molles...

E como odeiam o culto da plastica sensual! Se o não percebem... É o horror dos selvagens pelo Mysterio. Peor do que isso, pois que estes adoram o que não percebem. Ha na natureza ingenua do barbaro instinctosde salvaguarda e cautela para a Belleza desconhecida.

É que a Belleza basta-se, por si se impõe, ponto é encontrar bondade em que se esteie.

O que mal pode é deixar de abrir conflicto com a Biblia burguesa, balizada em dois preceitos: impor ao homem a conquista do pão, á mulher a dos filhos. Uma e outro se juntam, mercê de liturgias que enchem codigos e cartilhas...

Fim primeiro da união, afinal da Vida—a familia, a juncção pelo casamento de gente em que os chefes escravizam corpos e vontades!

Ah! foi o meuerro, rir de taes deveres. Não se foge impunemente dacarreira.

Como haviam de ver-me bem as mulheres de ventre cheio,—obesas de divindades, ou fructos de maldição, se eu era o seu avesso?

Ellas deformavam-se pelo goso limitado.

Eu sensualizei toda a Belleza, illustrei a côres novas a Vida, sacrifiquei a dor vulgar de ser mãe á dor suprema de crear pela Arte a segunda alma dos seus fructos.

Podia agitar-me em sofreguidões de prazer, collar o corpo franzino a homens que se alternassem no mister de fecundar, dar á sociedade filhos em vez dos meus tormentos de Arte. Podia. E, se as creaturas com quem commerciasse amores tivessem a marca demaridos,—asociedade receber-me-ia. A sensibilidade impôs-me uma liturgia propria. Amei a esmo. E destes amores sahiram os livros que por ahi correm,—paginas luxuriantes a reconstituirem horas duma tortura celeste e diabolica.

Livros são filhos. Os meus são-no tambem da Luxuria, duma luxuria extranha...

Assim aNova Saphoe, sobretudo, aEmparedada.

Estas obras, a que umaéliteconcedeu foros supremos, fluctuam uma nevrose que a sociedade odeia.

Não fui um pousio. Fecundei á minha maneira. Mas para produzir, crear, exigi uma liturgia complicada, reflectindo-a ousadamente.

Ingenuos! Ha fructos e fructos.

Que horror a tudo o que é extravagante!

Porque foi Christo enorme?—tão grande que projectou a maior sombra divina que um homem tem projectado!

É que o genio universal o derivou de Maria de Nazareth sobrenaturalmente, sem a macula do peccado original.

É filho duma virgem da linhagem de David e de muitas religiões liadas pelo genio indico.

Só assim podia ser o Homem-Deus—encarnar e representar a Divindade.

Quer dizer, o genio universal, innato, postergouas relações vulgares quando quiz filhar alguem que fosse um Principio.

—Sabeis bem quem foi Christo? Foi Aquelle que no mundo soube vestir de grandeza a Humilhação; o mysterio deste poder é ainda da sua Divindade.

Todas as obras de genio, filhas da excepção, têem de ver-se áparte.

Interessae o vosso religiosismo na grande obra de Belleza que annunciei.

Porque as minhas obras são profundamente religiosas. Como todas as obras definitivas. Ultrapassam-me:—fui o pretexto dum poder que simplesmente apercebi.

O genio é a intelligencia tocada do sobrenatural.

Fecunda, pois, além da razão.

Lembro-me do papel da intelligencia quando urdia aquellas obras.

Era a escrava duma força desvairante que a superentendia e obrigava fóra do sentido commum, á mercê dum capricho que era a teia-mestra de tudo...

Assim tambem no desenrolar de intimas paixões.

Não sei se poderia recuar, remeter-me ao vulgar, entregando-me á Moral, como a sociedade a pratica. Creio que não. Mas quando pudesse fazê-lo, não o faria.

E ahi está neste mesmo juizo um traço detutela extranha, pois que a sensualidade como a Arte que pratiquei só serviram a marcar-me de relapsa,emparedando-me! Sou para toda a gente a desprezivel Sapho, alma e corpo de monturo. E isto porque não acceitei o phalansterio commum, e pratiquei o amor lesbico.

Ora a sociedade não quiz receber-me assim.

Logicamente, o publico condemnou as minhas obras.

Tinha a obrigação de dar talento que não excedesse o estalão perro da sociedade em que vivia!

O meu prejuizo para o grande numero foi mostrar-me toda, dar-me a ler a uma sociedade inferior. Entornei a alma nas paginas que teci dolorosamente, sensualmente.

O publico não sentiu essas paginas, nem sequer as percebeu. Peor para mim como mulher; mas ascendi como Artista.

Este desacordo é a nossa differença em elogio da minha sensibilidade, posta á prova em todos os sentidos.

É grande esta differença?

Quanto maior fôr, maior sou. Quanto mais afastada estiver da minha geração, em geral do meu tempo, mais alta é a minha figura.

Quereis saber ao certo o que vale? Medi o espaço que vae da idéa média á minha Philosophia de Arte.

Esta Philosophia resalta, clara, dos meus versos—moldura propria duma sciencia nova que elegeu principios grandes, como sejam,—a bondade, a sensualidade, a fatalidade do temperamento, a Liberdade da alma dentro de cada homem, salvo o acordo dos espiritos affins.

OContracto socialde Rousseau, que passa por obra de genio, veiu afinal, sacrificar a liberdade individual á alma collectiva.

Quero o inverso, o avesso dessa lei: a limitação do poder social pelo individuo; que os medios e os rudes cedam aos grandes as regalias que lhes são demasiadas, que não cabem na sua inferioridade.

Porque ha de ser millionario o pobre de alma? É bruteza permitti-lo, como tambem o é sanccionar as miserias dos superiores, assentir em que sejam ermos de bens os ricos de Espirito.

Em materia de sensibilidade cada vez me allio mais á minha desventura. Vivo a ultima hora na admiração e amor do que fui.

E é para que os eleitos vivam ao menos uma hora assim que lhes predico:—entregae-vos ao instincto, ao temperamento, ás taras.

Haveis de soffrer? Claro. Mas o soffrimento é das formas mais voluptuosas de goso; ponto é que a abnegação e a acuidade o aproveitem.Não tendes mais do que entregar-vos ao acaso. E o acaso é tão intelligente! Tanto quanto o cuidado é estupido!

Inferiores, a vossa felicidade é uma trapaça.

Superiores, acima! Corações, acima! Dae elasterio á Alma, subi!

Quereis ler um grande livro, o expositor maximo dos grandes preceitos da união livre a derivar á fusão no amor? Está em toda a parte. É a Natureza que interpretaes mal.

Vinde áquella janella. Quero ensinar-vos a ler uma grande pagina.

Além, para lá daquelle renque de arvores mais crescidas, está uma planta brava. Ha de ser enxertada ao morrer do inverno. Nasceu na mata; transportou-a o capricho de um camponio áquelle pomar. Parecia fadada a dar filhos bravos, fruta desprezivel; pois vae ser fecundada pelo garfo nobre duma arvore de linhagem (tambem as arvores têem genealogia e foros fidalgos) e dará em breve tumidos pomos.

Vêde aquella roseira, sustentando rosas de tres côres, resultado de enxertias diversas. Amou e fecundou segundo uma liturgia variada; o Acaso deu-lhe ainda enxertias que falharam, pois que os garfos exoticos morreram depois duma justaposição de dias, porventuramais terna e sensual do que a justaposição fecunda. Bordam o Mondego lindos laranjaes: ide ver como o homem accrescentou Deus, juntando no mesmo tronco raças differentes. Ha, por vezes ali, filhos do mesmo abraço, todos os pomos em que o Divino pôs liga de oiro.

E o vento lá balouça tudo, laranjas, limões e limas, um phalansterio em ramos, num contacto que elles, os lindos fructos, aproveitam, sensualmente.

Ha naquella roseira amores incestuosos. Pois as suas rosas são tão bellas como as das outras roseiras.

Attentae o jardim! Vêde como as flores se collam em beijos de lascivia, quando o vento, animo do tempo, as vaga—como se roçam suave ou tempestuosamente, segundo as marés!

O rosal parece agora, reparae, um mar encapellando-se em ondas sensuaes, num rhythmo religioso, perfumado...

Se vos alcançou a graça do grande sentido da Belleza, attentae bem nas flores:—São a essencia em fórmas,—o perfume em petalas.

Soberbo espectaculo! Lembram assim o amor das freiras nos conventos, enlevo das esposas de Deus,—sonhado, fremido por entre incensos e preces...

Ha naquelle canteiro algumas já fanadas, desfalcadas de petalas, sem viço.

Vêde como procuram o contacto das mais novas, como se activam a explorar a belleza adolescente dos botões gomosos.

Como a fraqueza da edade as pende a fortalecerem-se de vicio, na carnação das mais novas! E ellas lá se lhe entregam, com enleio e graça, generosamente, cumprindo a lei maxima—a Lei da Bondade, que é do instincto. Quem o não entende? A alma grossa dos estupidos, os que arrancam as papoilas da seára, irados de as ver entre os esmaltes dos trigaes.

Que lhes importam os grandes bens da Terra—a Côr, a Fórma, o Perfume?... O ridiculo em que me têem, só porque hei cantado a alma do rochedo, a symphonia da linha, a perversão sensual, fonte da Morte, e, conseguintemente, o melhor elo da Vida, pois que solda o corpo á terra, a alma á planta, fundindo o Universo numa confusão sublime!

Pobre terra que dá videntes cegos, como Milton, e não dá vista áquelles a quem deu olhos. A Vida é a immortalidade pela transformação, religiosa no seu movimento, sempre patente e actual. Mas considerar parcellas de vida é não ver; peor—ver mal.

Nada mais fallivel que o mundo dos aspectos. Acceitemos a Vida como ella é—profundamente metaphysica, religiosa. Eu vergo-me ante o facto positivo do meu genio que o arranjouniversal systematizou ao poder, e a toda a fraqueza creada e por crear. Deus resume a Vida. As minhas fraquezas, as fraquezas de todos os superiores, são a sua ampliação infinita... Ninguem póde definir Deus com precisão. Está em tudo, mas só os raros o sentem, dão por si, portanto, por Elle.

Mas, se o vocabulo Deus tem um synonymo, esse synonymo é Amor. Amor universal, entende-se, sem leis, sem peias, segundo o instincto, á discrição e diversificação de cada ser.

É claro que este não cabe nos evangelhos, nas cartilhas. O homem de prazeres restrictos não pode sentir o que de si revela de Universo, de Infinito...

Este Amor lembra oPuzzle, jogo inventado pela nevoenta Inglaterra para tratar ospleenpatricio.

Imaginae um xadrez, em que as pedras se destinam a construcções enormes e cujo arranjo leva dias, mêses!

Pois a Vida é umPuzzlede numero colossal de peças, com parte das quaes só Deus joga.

É ainda Elle quem torna o jogo interminavel, infinito, baralhando, accrescentando, substituindo as pedras... Tudo passa ao rhythmo do arranjo universal.

O homem segue, em geral, suave e indifferentemente.Só o Artista desfranze um pouco o cortinado de nevoa que o separa de Deus, para o ver de longe, ajoelhar á sua inconsciente majestade, buscar alentos á sua jornada.

Pois que Deus existe nas paginas ingenuas de Bernardes, e nos livros satanicos e genialmente rebeldes de Annunzio,—curve-nos ante Elle, o Deus clementissimo, que contrasta almas tão apparentemente oppostas.

A ingenuidade luminosa do frade e as paginas luxuriosissimas do italiano, que creou para uso da alma um maravilhoso novo,—tudo é de Deus e para Deus, tudo é Deus!

Que ninguem soffreie o temperamento. Ha um crime maior do que o commetido para com a liberdade do semelhante: é o que commetemos contra a nossa liberdade.

Dêmo-nos ao instincto. Só a continencia é delicto. O instincto é fundamentalmente bom, as leis é que o teem pervertido.

Accusam-me de defender toda a casta de luxuria, de dar nas minhas obras a resultante mental daquelles defeitos—uma philosophia negativa, dissolvente, e muito na logica dos meus desejos inconsumiveis.

Que horror o dos meus juizes! Não veem que é esta sensibilidade a mais a fusão de tantos sentimentos, esta synthese amorosa que a minha alma comprehende, que vem acabarcom as distincções inferiores, que geralmente demarcam os actos da creança, do homem e da mulher!

Segundo a Physiologia pondera no homem arazão, na mulher osentimento, na creança osentido.

E é isto verdade no que importa á apreciação do typo medio.

Como é um facto, que é a edade de transição—a da vida adolescente—a que põe maior acuidade e interesse no mesmo typo,—o typo medio.

Sou a mulher superior. Por isso mesmo o temperamento me não demarcou fronteiras. Junto na alma os encantos, dores, vida sensual, ingenuidades, fraqueza e forças da creança, da mulher, do homem. Como no apologo das varas, a intelligencia dos dois sexos, considerada em conjuncto, ultrapassa o valor das parcellas em desencontro.

A minha obra tem tambem a ingenuidade da creança, a acuidade da mulher, a razão do homem, sobretudo a uncção, a grandeza, o vago genial da alma collectiva. Sou a synthese. Excedo o super-homem, sou a essencia da propria humanidade, na comprehensão e realização transcendente do Espirito Universal, em Deus.

Sou a super-sensivel!

A minha bondade acceita, em pé de egualdade,o amor idealista de Santa Thereza de Jesus—a mystica, os impulsos bestiaes de Caligula e as ordens alucinadas de Nero, determinando-se em sensualidades, ou incendiando Roma, para mergulhar a alma sublimemente perversa nas labaredas duma civilização a arder.

O instincto é a primeira força. Depois ha a aspiração vaga, que nos faz caminhar para o Desconhecido.

Caminhêmos. Sigamos a mão distante que nos acena. Dêmos por tudo o que formos encontrando.

Chamam-nos visionaria! Que importa? Que tem sido a humanidade, senão visionaria!

E como é grande a creatura quando sonha! E como é bella a alma a viver sentimentos, a visionar!

O que é a Vida nua de chimera?!

São factos o proprio sonho, a chimera...

Creio na vida eterna pelo Amor. O Amor, fundiu em mim—Deus, Perversão, Desgraça...

O Bem e o Mal deram a figura que sou—um bronze de sentimento. Realizo o genio sensual da humanidade nevrosada e a vida suave de toda a Belleza humilde!

Sou Shakespeare e Bandarra:—tenho no peito o cachoar tragico da muita miseria e altanaria heroica, que o inglês referveu em dramas, que são a perpetuidade da Dor-genio; e, ao mesmo tempo, a simpleza ingenua daamargura, delida por uma quasi inconsciencia,—aquelle extranho sentir dos loucos que têem o sestro de viver alegres as suas e as tragedias dum povo, os bellos crimes, como as grandes melancholias duma raça!

Sinto a alma amarrotada, amarfanhada! Mas ha almas e almas. Ha-as que são como a estopa grossa que, quando sujeitas vincam traços grosseiros.

A minha alma, é como a seda e asmoiresluzentes: amarrotada, maltratada, tem cambiantes e vincos finos, dá traços curvos dum resplendor desmanchado, a esbaterem-se em sombreados duma belleza rara...

Tenho na alma a dor latente. O Acaso, fomenta-a por capricho.

Deitei-me a outra noite, triste, sem saber porque. Estava de mal commigo. Dormi pesadelos. Subito, levantei-me, abri a janella, e vi o roseiral escuro. Nem uma rosa a alumiar-me! Deus cortou relações commigo, pensei, angustiada. Cortou as relações com todos os homens, e por isso escureceu as flores, pintou-as côr do castigo, fê-las côr da fuligem.

Corria o tempo, e eu, muda, quieta, somnambula, a fitar as rosas, todas de seda crepe, e, ainda assim, bellas e cheias de graça no seu desenho fino e desegual!

Depois, a meio da tortura daquella visão sombria, recobrei-me, pensando em Deus. Evi que defraudando-me, se castigava. Elle não podia, sem desfalque da sua divindade, abdicar da Côr:—dar ás rosas o tom da sombra, embora tocado da belleza da noite, podia ser capricho, nunca um proposito eterno!

Chamei Deus a mim, num esforço ingente de Artista que requer o Elemento para trabalhar, produzir, crear...

E, desde logo, o sonho se esbateu em claridades. As flores começaram a colorir—milagre de Deus, da madrugada, do meu olhar!

Deus troca a sua alma com a minha. E sua alma cabe em mim.

Convenço-me de que o lisonjeia a troca—pois a minha abnegação e bondade não têem a caucioná-las immunidade alguma.

Vivo pelo Amor todo o amor, os maiores desalentos, o proprio odio, os fados desgraçados...

A intenção da minha ultima jornada foi duma pureza absoluta.

Elevou-me a isenção; por ella desprezei a Moral. Ser moral é servir a conveniencia; raramente é ser bom. Collidem quasi sempre a Bondade e a Moral.

Esta é muitas vezes hypocrisia a reflectir trapaça, iniquidade.

A minha coragem afronta o estabelecido.Moral alguma vale a Bondade! Ainda que sacrificasse a propria vida infinita, eu não recuaria:—outro Ceu havia de encontrar.

Protegi um dia os amores de dois mendigos. O meu olhar illuminava aquellas almas, que se trocavam para além das suas miserias.

Esbatia seus enleios um resplendor de sol, que espectrava riquezas e caprichos de tom:—era a minha bemquerença, a Bondade, eu propria, desfeita em luz a aquecer aquelles amores, banhando-os de goso divino.

Indifferente aosgrandes nadasdo mundo—os que geralmente enchem as canseiras dos semelhantes, perturbo-me ao menor symptoma dum grande soffrimento.

Deus parece ter-se enganado, extravazando em mim toda a melancholia que devia ter apartada para uma raça.

Extranha figura sou! No meio de tempestades intimas, as mais batidas, a alma raramente me deu lagrimas; suggeriu-me desalentos. Outro dia chorei, convulsa, deante de um numero, que ainda lembro cheia de medos.

Foi sobre a indicação de forçado (C. 3. 3.) com que Oscar Wilde, o predestinado da Perversão, assignou as paginas magoadas doDe Profundis, escriptas no descanço dohard labour.

Vi naquelles numeros toda a severidade votada aos degenerados, o conflicto aberto entreuma sociedade inferior e a sensibilidade acuradissima dum louco genial.

Tambem eu sou odiada; e, para o grande numero, a Sapho, a larva immunda que acommete a adolescencia...

Não me defendo. Quantas vezes senti em mim a alma da grande lesbia, que visitava em meus poemas e loucuras a nova Hellada do Ocidente!

E larva tenho sido. Mas larva a evoluir. A chrysallida que sonha asas. Sinto-as no auge da nevrose. Prendem á carcassa de linhas finas em que o Destino veiu pousar uma grande alma. Erguem a minha belleza amoral.

Esta Belleza é pouco e é tudo. Por ella subjuguei forças proprias e extranhas a um só fim:—sentir.

Toda a gente odeia a Morte. Porque?

Ella é o supremo bem. O que o vulgo toma por acabamento é passagem para o Além... Mas esta passagem sómente é consciente para os que na vidasentiram. Só elles podem avistar com os olhos da alma, áquem da passagem, o eterno da Vida que segue... Como se adquire esta acuidade?

Desconheço-o em parte.

Mas a atmosphera propria a que se manifeste está na ignorancia das leis do mundo, no desprezo da Vida.

O estado mais proximo da superioridade—éoestado sensual, porque é elle que superentende, domina a nevrose, dando o maximo de elasterio á sensibilidade:—é, afinal, a Arte latente, a Belleza no estado puro.

Como obtive oestado sensual? Dando-me ao infinito de sentidos que descubro áquem e para além de mim...

Que ninguem tente reprimir a sensibilidade. Entregue-se-lhe. Ha no povo inculto, como entre os superiores, grandes temperamentos deformados pelo Preconceito. São aquelles a quem o Acaso repartiu almas que são preciosissimos instrumentos, que elles desferem mal.

Foi a guerra movida á minha conducta que melhor acurou os meus vicios, suggeriu a defesa integra dos meus actos, e creou, parallelamente ao meu nihilismo de sentido, uma Philosophia que prende a uma Liberdade amoral que vae além da outra,—a que peja os Codigos, as Biblias...

Sempre que intravazava o odio alheio, reconhecia, após horas de tortura, estados novos, de que manavam fontes suaves de riqueza espiritual. Ás vezes, sentia eu propria necessidade de concitar esses odios.

Esta attracção exprimia o braço do Bem e do Mal,—o instincto duma grande missão de Unidade a colligir os recursos do Novo-Mundo da Belleza. A grande elementaçãodesse mundo não dispensa o Mal. Toda a creação é dolorosa.

Gosar o soffrimento é acceitar aquella missão. Mas, porque só os maiores a acceitam, só elles a gosam, exprimindo em Arte o agridoce daquella dor.

O vulgo mal comprehende a tortura dos eleitos, o que reflecte de grandeza sobrenatural. E a Sciencia não alcança mais! Que eram os apostolos quando se deixavam retalhar, a sorrir, de olhos fitos no Além?

Para o povo eram santos, para a sciencia—loucos. Erro grosseiro é ler a Dor atravez das lentes escuras que vestem os olhos de tanto myope! Como falseiam a missão da Belleza!


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