II

—Meditarei no modo de a encaminhar ao convento.

Abreu ringiu os dentes e rosnou:

—O senhor, se não fosse uma besta, seria um canalha que vem aqui avisar-me da infamia d'essa mulher!…

—Oh senhor!—exclamou o abbade conturbado do impeto do fidalgo—Pois eu venho participar-lhe…

—O que? que vem o sr. participar-me? que estou deshonrado? Ora ponha-se no meio da rua antes que o despeje pela janella! Quem perdeu, quem prostituiu essa devassa foram os seus conselhos…

O abbade limpava o suor, e gaguejava.

—Rua!—bradou Alvaro—e mude de terra, quando não… faço-o esfollar. Vossê teve quinhão nas devassidões da mãe: que lhe importa a devassidão da filha?

Era uma seva calumnia, propalada por Alvaro de Abreu, e acceite pela opinião publica. O abbade então chorou, ergueu a fronte com arrogancia, e bradou:

—O sr. infama as honradas cinzas de sua sogra! Eu não posso vingal-a, mas Deus nos vingará, a ella e a mim!

—Fora, hypocrita! rua!

O padre sahiu aturdido. Zuniam-lhe os ouvidos, e congestionava-se-lhe o sangue na cabeça.

E, desde esta hora,—dizia elle—nunca mais teve saude nem descanso. Apagou-se-lhe a clareza e serena satisfação da vida. Fechou a aula de latim. Insulou-se da convivencia dos amigos. Tinha cincoenta e seis annos. A philosophia socratica não bastava a robustecer-lh'os contra os abalos da religião de Jesus. Entrou-lhe no espirito a memoria severa do seu passado licencioso. Pezares, abafados pela duvida, exulceraram-se em remorsos. Era o assombro dos freguezes. O relampago da fé abrazara-o. Fez-se missionario, e, no pulpito, desentranhava a invencivel e penetrante eloquencia das lagrimas.

Acaso vi o nome d'esse padre na lista de missionarios que uma gazeta injuriava. Communiquei o espantoso achado a José de Almeida.

O meu amigo escreveu-lhe. Na volta do correio, a resposta dizia assim:O desgraçado, a quem escreveis, morreu. Subsiste um penitente a rogar-vos de mãos postas que, antes do inverno da vida, offereçais a Deus as vossas lagrimas em desconto das que fizeste chorar.

—Que celebreira!—disse Almeida.—Quem havia de esperar isto d'um padre tão patusco!

E mais nada.—Celebreira! Que desabrimento com umas ingentes dôres, dobradamente deploraveis, se são quimeras!

Eu, de mim, comprehendi aquella transformação, porque decifrara os segredos d'ella em minha alma. Aos vinte e um annos estudara eu theologia, com o proposito de ir missionar entre os vituperados da loucura da Cruz. Recahi, propellido pela zombaria do mundo; mas aprendi a não zombar.

* * * * *

Por aquelle tempo, um cavalheiro de Basto, o sr. Paulino Teixeira Botelho, murava um terreno lavradio que nos annos anteriores fazia parte da feira de S. Miguel, em Refojos. A politica de campanario introduzira a sua garra n'esta contenda de propriedade. O povo, acirrado pelos adversarios politicos do sr. Paulino Teixeira, ameaçara derribar o muro e invadir a propriedade a ferro e fogo. O proprietario, forte do seu direito, e bravo de seu natural, acceitou a luva, aguerrilhou creados e cazeiros, e avisou as authoridades que tomaria sobre si o desempenho dos deveres que incumbiam aos fiscaes da segurança publica.

Os amotinados eram, pela maior parte, jornaleiros, soldados com baixa, a ralé infima das aldeias, poucos lavradores e alguns cazeiros de cazas afidalgadas. Entre estes, sobrepujavam na investida e na bravura da excitação um Manoel Fialho, que havia sido lacaio de Alvaro de Abreu, e áquelle tempo era seu feitor em duas quintas nas margens do Tamega. Fôra elle quem arremettera primeiro ao muro, e aperrara um bacamarte ao peito de um creado da casa aggredida.

Rompeu a espingardaria, menos trovejada que o alarido da multidão. As balas zuniam na ramagem dos castanhaes. Milhares de pessoas, de envolta com o gado espavorido, despejavam a feira. O povo inerme açodava com o alarido os combatentes. Dos de fora, alguns cahiam feridos, outros baqueavam sob os muros derruidos.

O mais pimpão, Manoel Fialho, cahira atravessado por um pelouro do peito ás costas. Acudiram a levantal-o do chão lamacento alguns dos seus sequases.

—Quero confessar-me!—rouquejava elle.—Levem-me onde esteja um padre!… depressa que morro!

Olharam em redor, e viram um sacerdote que, de mãos postas, sem receio das balas que lhe sibilavam perto, pedia ao povo que se retirasse.

—Além está o sr. abbade de Santa Eulalia!—exclamou um dos amparadores do agonisante.

Outro correu a dar lhe parte de que estava alli um feitor do fidalgo deRefojos mortalmente ferido que se queria confessar.

—Trazei-m'o depressa, eu o espero n'esta primeira casa…—disse o abbade.

O moribundo, nos braços de dois homens, entrou para um quarto onde o esperava o confessor. A confissão e a vida duraram-lhe dez minutos.

* * * * *

Alvaro de Abreu, quando, ao fim da tarde, lhe disseram que Manuel Fialho, antes de expirar, pedira um confessor, e morrera nos braços do abbade de Santa Eulalia, accusou nas alterações de côr e fixidez dos olhos alvoroço afflictivo.

Os dois filhinhos, conduzidos pela dispenseira, iam beijar a mão do pae para se deitarem. Alvaro quedou-se entre elles, prostrado em uma cadeira, abstrahido, emquanto as creanças lhe contavam a batalha da feira, imitando a troada dos tiros com a bocca, e a estrategia com umas manobras infantilmente graciosas. A dispenseira, cuidando que o pae se entretinha com os pequenos, retirou-se admirada. Era raro deter-se Alvaro cinco minutos com os filhos; e, quando elles se demoravam, afastava-os desabridamente.

N'este comenos, annunciou-se o abbade de Santa Eulalia.

Abreu levantou-se de golpe, fincou na cabeça os dedos engriphados, e resmoneou:

—É certo…

O creado, que dera o annuncio, esperava a resposta.

—Que entre!… e leva estas creanças…—disse Alvaro.

O creado foi á sala de espera, e fez signal ao abbade que entrasse pela porta da direita.

—Deixe ir commigo os meninos—disse o abbade, tomando-lh'os cada um em sua mão.

As creanças, pondo no rosto caricioso do velho os seus grandes olhos, iam alegremente, saltando sobre um pé, e floreando as suas espingardas de cana fabricadas expressamente para darem aos creados um simulacro do tiroteio d'aquelle dia.

—Com licença. Louvado seja nosso Senhor Jesus Christo—saudou o abbade á entrada da sala introduzindo as creanças.

—Entre!—disse o fidalgo.

O missionario, entrado á salla, fechou a porta, e disse:

—As creanças podem entrar por que são anjos, e não entendem as nossas palavras. Em nome d'ellas, tenho de pedir: e ellas pedirão commigo.

Alvaro de Abreu escutava-o em pé, immovel, hirto. O abbade mal o divisava na quasi escuridão da vasta quadra, assombrada de castanheiros seculares.

—Sr. Alvaro de Abreu,—proseguiu o abbade com a voz tremente—ouvi de confissão, em artigo de morte, Manuel Fialho, o homem que matou João Pacheco, com a pancada de um mangual na cabeça, e á traição, naBarroca das duas fontes, ao anoitecer do dia 11 de novembro de 1851. Este homem só comprehendeu e temeu a justiça divina quando se sentiu varado por uma bala. Eu venho rogar a V. S.^a que comprehenda e tema a justiça divina manifestada na morte violenta de seu creado Manuel Fialho, homicida do innocente João Pacheco. Não lhe direi que se tema da justiça humana, por que o unico homem que podia accusal-o é morto; e eu não o accusarei na terra; porém, se Deus chamar a minha alma a depôr no tribunal divino, direi que de mãos postas e na presença de seus filhinhos, lhe pedi que se curvasse pela contricção e pela penitencia aos pés de Jesus Christo misericordioso.

E ajoelhou aos pés de Alvaro com as creancinhas adiante de si.

—Levante-se, sr. abbade!—balbuciou o marido de Irene, erguendo-o nos braços—Eu sou um miseravel, sou indigno da sua estima… Perdoe-me as injustiças que lhe fiz…

—Não tenho que perdoar… Adeus, anjinhos—disse o padre beijando as creanças—Ide ver-me algumas vezes á residencia, que eu vos ensinarei a orar a Deus por vosso pae e… por vossa mãe.

—A mamã? onde está?—perguntou o menino mais velho que tinha quatro annos.

O abbade passou o canhão da batina pelos olhos, e sahiu.

A voz lamentosa do padre soou no dezerto, as lagrimas cahiram sobre o penhasco esteril.

Alvaro desdava as roscas da serpente do remorso sem grande esforço: era atheu. Bazofiára sempre deracionalista; mas da sua razão era excluido Deus. Acreditava, tal qual vez, nas vantagens sociaes da virtude, e nos perigos do crime; mas para alem da torrente negra da morte não acceitava se quer a discussão absurda.

Apalpava-o agora duramente a desgraça. Havia um homem que podia accusal-o de assassino covarde; tinha uma esposa adultera que passeava ao grande sol das praias e das praças o seu escandalo; rareavam á volta d'elle os cavalheiros considerados; acanalhavam-no os scelerados que se acolhiam ás suas quintas; as authoridades judiciarias, açuladas pela imprensa, aguilhoavam os regedores a assaltarem-lhe as cazas. Perderam-lhe o respeito, e até nos periodicos o amalgamavam com os hospedes, invocando os manes dos condes de Regalados.

Convulsionavam-no phrenesis, exasperos que ninguem mitigava com o amor ou com os linimentos da amisade. Os risos das creanças irritavam-lhe a mysantropia. Era-lhe impossivel a quietação, e baldado o paliativo das deleitações brutaes.

Deliberou viajar. Não podia vender quintas sem o consenso da mulher. Hypothecou-as com enormes uzuras. Embolçou dinheiro á farta para demoradas viagens, e sahiu, entregando os filhos a uma cunhada, esposa do irmão morgado.

Desde 1857 a 1861 triumphou a vida nas principaes cidades da Europa. Conheceu todos os salões e todos os antros. Viu a devassidão no espavento das pompas do Louvre, onde as duquezas apresilhavam diamantes nos bicos dos peitos, e remirou-se nos grandes espelhos dos bordeis em que as mulheres, nuas como as bacantes, se espreguiçavam sobre diwans, com os seios aljofrados de perolas, e os cabellos aromatisados de grinaldas de jasmim. Em Veneza, Milão, Pariz, Londres, Madrid, em todas as cidades capitaes comprava umdaumont, dois cavallos, e uma mulher das mais cotadas: ás vezes, comprava duas mulheres e quatro cavallos. Chamavam-lheconde, por que nos seus trens fizera pintar a corôa dos Abreus, condes do Pico de Regalados.

D. Irene viajava simultaneamente com Jacques Smith. Uma vez, no Prado, em Madrid, ophaetontde Smith perpassou pelobreakde Alvaro que boleava. Refestelavam-se nos coxins duas francezas do café-concerto. Jacques acotovellou Irene, e disse-lhe risonho:

—Aos pares, hein? e tu a imaginal-o a semear calondros em Basto…

Irene chorava.

—Por que choras?

—Por meus filhos que não tem pae, nem mãe, e hão de ficar pobres.

Alvaro avistára a mulher, cravara-lhe os olhos indecisos, reconheceu-a, e não tenho a certeza se lá no intimo de sua pessoa lhe chamoudescarada.

É natural que sim.

Ohonestoera elle.

* * * * *

Em 1862, um padre que administrava as quintas de Alvaro de Abreu não achou uzurario que lhe adiantasse mais dois contos de réis que o fidalgo pedia com urgencia. Um legitimista minhôto que visitara D. Miguel na Allemanha propalou que vira Alvaro de Abreu em Florença muito doente, descarnado, tossindo, com o peito retrahido, as gengives brancas e as orelhas seccas. Os uzurarios enfiaram de pavor. Se elle morresse, a viuva e os orphãos, alegando lesão enormissima e illegallidade dos contractos, levantar-se-hiam com os rendimentos hypothecados das propriedades. Alvaro esperava em Londres a lettra. O padre-mordomo enviou-lhe algum dinheiro, desculpando os capitalistas com o boato da sua infermidade.

Resolveu repatriar-se, a fim de restabelecer-se no Minho. A sua doença era o corollario da libertinagem: a cachexia. Os medicos francezes aconselharam-lhe as aguas mineraes de Cauterets nos Pyrineus. Mudou de rumo. Era-lhe grata a esperança de voltar á patria restabelecido e gordo para desmentir o legitimista. Bebeu as aguas sulphuricas de Cauterets, consummou o esphacelamento dos intestinos baixos, e morreu medicinalmente. Alem de um titular portuguez que lhe assistiu na morte, e enviou a Portugal a noticia, ninguem, por affecto ou caridade, lhe humedecêra os beiços na derradeira febre. Contou o titular a José de Almeida que o tal Abreu tinha um pasmo de olhos horrendo quando agonisava.

Veria o espectro de João Pacheco?

* * * * *

O abbade de Santa Eulalia rezava uma missa por alma de Alvaro de Abreu, quando D. Irene, trajada de luto rigoroso, entrou na casa de Refojos, onde esperava encontrar os filhos. Disse-lhe o mordomo que os meninos, por direcção do abbade, estavam a educar no collegio de Landim, oito leguas distante. Escreveu ao missionario, pedindo-lhe que lhe levasse a sua amisade e o seu perdão. O velho, que ella não vira nos ultimos nove annos, era tão acabado, tão decomposto que Irene chorava, comparando-o ao festivo e juvenil abbade que radiava alegria na casa de Athey.

—Afinal…—murmurou o padre.

—Aqui estou…—soluçou Irene.

—Quer vêr seus filhos?

—Sim…

—Vou mandal-os buscar. Cuidei d'elles, porque sua cunhada não podia soffrêl-os; e as creancinhas amavam-me… É preciso, minha senhora, salvar o que poder d'esta casa por amor d'estes meninos. Com ordem e economia, se Deus me der vida, tudo se fará.

Irene apressava o inventario, resgatava as vendas illicitas, annullava hypothecas, afanava-se em liquidar o que devia pertencer-lhe na meação do casal e dos rendimentos absorvidos na totalidade pelo marido.

Observara-lhe o abbade que um tamanho apuro de contas iria, sem ella querer, cercear o patrimonio dos filhos.

—Se V. Ex.^a—accrescentava elle—tenciona reduzir as suas despezas ao viver aldeão, sobra-lhe tanto do que percebe da sua metade que talvez possa deixar intactos os rendimentos dos orfãos.

—Tenciono ir viver no Porto…—explicou ella.

—Ah!—exclamou o abbade—com que então, minha senhora…ainda não?

—Ainda não?… o quê?

—Nem o grito da consciencia? nem o grito do exemplo? Nem a presença de dois filhos? Bemdito seja Deus!

Este dialogo constrangido foi cortado por um servo que entregava a correspondencia.

—Não veio carta?—perguntou ella agitada.

—Não, minha senhora, veio sómente esta folha.

Era oCommercio do Porto. D. Irene atirou-o sobre uma jardineira com enfado, e encostou a face á palma da mão, carregando o sobr'olho.

O abbade chamára o menino mais novo, que tinha oito annos, e disse lhe:

—Vem cá, Manoel Philippe, lê-me aqui as noticias d'este jornal; quero que tua mãe veja que lês correctamente.

E deu-lhe o jornal aberto. A mãe parecia estranha ou aborrecida.

O menino procurou a secção de noticias, e leu:

OBITUARIO.Hontem, pelas sete horas da manhã, desappareceu do numero dos vivos um dos mais estimados e gentis cavalheiros d'esta cidade. Uma aneurisma no coração arrebentou fulminantemente o sr. Jacques Smith, que…

Irene levantou-se arrebatada, bradando:

—Que é? que é?

E, pegando no jornal que tremia nas mãos do menino assustado, leu as primeiras linhas que ouvira lêr, premiu o coração asfixiado pela angustia, rolou nas orbitas os olhos torvos sob a palpebra convulsa, e cahiu sem alentos.

—Porque foi?!—perguntou afflicto o menino ao abbade—Ella morre?

—Não, Manoel Philippe. Isto não ha de ser nada. Tua mamã conhecia esta pessoa que morreu, e…. teve pena.

Depois, dobrou oCommercio do Porto, e metteu-o na algibeira da batina para que o filho de D. Irene d'Abreu nunca mais tornasse a lêr o nome de Jacques Smith.

* * * * *

Em 1871, Manuel Philippe de Abreu e seu irmão Jeronymo de Abreu e Lima, ambos terceiranistas da universidade, vieram ás Caldas de Vizella, com sua mãe, a sr.^a D. Irene. Esta illustre e respeitada fidalga de Athey não contava ainda cincoenta annos, e estava hemiplegica—metade do corpo paralytico. Era transportada em cadeira de rodas aoBanho da bomba forte. Uma vez quiz ir até áPonte-velha, que não vira desde 1851. Defronte da ilhêta onde em 15 de junho d'aquelle anno Alvaro de Abreu e João Pacheco trocaram os fataes gracejos, mandou parar a cadeira. Quedou-se longo tempo absorvida na contemplação do salgueiral; depois, enxugou duas lagrimas. Que lagrimas, ó leitor! Os filhos perguntaram-lhe por que chorava; e ella, estrangulada pelos soluços, contorcia-se, pedindo-lhes que a tirassem d'ali, que sentia já o frio da morte.

Levaram-na apressadamente para o quartel em uma das casas situadas no local chamado oMedico. Ao nascer do sol do seguinte dia dobravam a finados sinos de S. João das Caldas. A fidalga de Athey expirara nos braços dos seus dois filhos.

Perguntei ao capellão d'esta senhora se ainda era vivo o abbade de SantaEulalia, muito affeiçoado á senhora fallecida.

—Não, sr. Esse santo morreu ha trez annos: a paixão da fidalga foi tamanha que cahiu na cama; e, quando se quiz erguer, estava leza. Os meninos ainda choram por elle.

Das sete pessoas que, em junho de 1851, sestiaram no cinseiral doVizella, vive sómente uma, que sou eu.

O conselheiro José de Almeida expirou, no inverno passado, naCasa da saude do medico Ferreira, do Porto.

Na derradeira vasca do longo paroxismo, circumvagou os olhos baços á volta de seu leito. Era irmão, era esposo e era pai. Não viu a irmã, nem a esposa, nem o filho. Finara-se no desamparo e desamor dos indigentes a quem a caridade dos hospitaes empresta um catre ainda quente de outro cadaver. A sua existência havia sido um continuado festim: o que houve formidavelmente serio na sua vida, foi a morte. Morrem assim os que não radicaram, em annos vigorosos, a santa amizade no coração da familia.

José de Almeida não podia ter uma desvellada amiga, porque, nos seus annos de gentilissima juventude, espesinhára as mulheres que o adoravam com aquella cegueira mysteriosa das paixões absurdas; e, já na sasão glacial da vida, esposara uma que o acalcanhou com o desprezo d'elle e de sua propria infamia, quando lhe viu a epiderme arrugada e o bigode branco.

A sociedade recebera-o e bajulara-o quando odios e invejas lhe denegriam o nome, aureolado de aventuras amorosas. Á beira do seu leito de infermidade esqualida, e do seu ataude sotterrado na vala commum, eram seis os restantes dos seus centenares de amigos.

A noite era de outubro. O nordeste assobiava nas gradarias dos tumulos, e ramalhava os cyprestes gotejantes do zimbro da tarde.

Nos camarotes tepidos do theatro lyrico, fallava-se do defunto; e algumas senhoras idosas, refluindo vinte annos na corrente da sua vida remançosa, olhavam para a cadeira onde então José de Almeida se assentava. E algumas d'essas, voltando o rosto, escondiam as lagrimas rebeldes, para não serem vistas dos maridos e das filhas.

E perdoaram-lhe.

S. Miguel de Seide, 26 de agosto de 1875.

É tão fatalmente séria a vida que o soffrêl-a, sem misturar a tragedia com a comedia, seria impossivel.

H. Heine,Reisebilder.

A D. Antonio da Costa

Em testemunho da regalada leitura que v. ex.^a me deu com o seu MINHO, lhe offereço uma das novellas de cá. O Minho tem o romanesco da arvore e o romance da familia. A paizagem suggeriu-lhe, meu caro poeta, as prozas floridas do ridente livro. O seu estylo tem a macia luz do luar das noites estivas, e o cadencioso murmurio das ribeiras onde o ceu estrellado se espêlha.

O Minho lucra muito, visto assim de passagem, na imperial de uma diligencia, lá muito no galarim do tejadilho, onde as moscas não se álem a ferretoar-nos a testa e a sevandijar nos os beiços convulsos de lyrismo.

Viu v. ex.^a perfeitamente o Minho por fóra: as verduras ondulando nas pradarias, os jôrros de agua espumando na espalda dos outeiros, os fragoêdos ás cavalleiras dos milharaes, a amendoeira a florejar ao lado do pinheiral bravio, as ruinas do paço senhorial com os seus tapetes de ortigas e guadalmecins de musgo ao pé da chaminé escarlate e verde do negreiro a golphar rôllos turbinosos de fumo indicativo de pannellas grandes e gallinhas gordas, lardeadas de chouriços. Simultaneamente, ouviu v. ex.^a o som da buzina pastoril resonando a sua longa toada nas gargantas da serra; viu os espantadiços rebanhos alcandorados nos espinhaços dos montes, e os rafeiros á ourela das estradas com os focinhos nas patas dianteiras, orelhas fitas e olhar arrogante. Reparou de certo na pachôrra estoica do boi sevado, que parece estar contemplando em si mesmo a metempsycose em futuro cidadão de Londres mediante o processo do bife. Tudo isto, que é a fórma objectiva do Minho romantico, viu v. ex.^a a fóra o mais que aformosea o seu livro, os encarecimentos, as lisonjas, as feitiçarias da arte com que v. ex.^a disputa primores á natureza.

Mas o que D. Antonio da Costa não teve tempo de ver e apalpar foi o miôlo, a medula, as entranhas romanticas do Minho; quero dizer—os costumes, o viver que por aqui palpita no povoado d'estes arvoredos onde assobia o melro e a philomella trilla.

Ah! meu amigo! Romances, tecidos de cazos candidos e innocentes, apenas os fazem por aqui os passaros em abril quando urdem e afôfam os seus ninhos. O restante dos animaes não oviparos vista-m'os v. ex.^a no Catarro ou no estabelecimento da famosa senhora Cecilia Fernandes, da Travessa de Santa Justa, que eu lh'os farei representar ao vivo no proprio coração do Minho—entre Fafião e S. João do Kalendario—as scenas contemporaneas da finaBaixae peores.

A peste, que infeccionou os costumes d'estas aldeias, não sei decidir se veio das cidades para aqui, se foi d'aqui para lá. Sá de Miranda considerou isto tudo estragado quando viu

correr pardáos Por Cabeceiras de Basto.

Imagine v. ex.^a o que terá feito o esmeril do progresso a descodear e a brunir este gentio ha tres seculos! Não faz idea, meu amigo! Até a photographia, abarracada nas cabeças dos concelhos, tem feito collaborar o sol e o clorureto de prata na relaxação dos costumes. Os «conversados» permutam retratos, e beijam-se reciprocamente em papel-cartão, aguçando o instincto da natureza bruta. Verdade é que os pastores minhotos, ha trezentos annos, já traziam ao pescoço os retratos das pastoras pintados em madeira, como se deprehende d'estes versos de Diogo Bernardes, o rouxinol doLima.

Pendurei n'um salgueiro a minha lyraOuvil-a ao som do vento é uma magua,Em logar de tanger geme e suspira.Marilia quepintada n'uma tabuaAqui no seio trago, tambem chora;Seus olhos dão-me fogo, e os meus dão-lhe agua.

Não obstante, o fôgo, que acendrava a paixão nos peitos d'aquelles Bieitos e Melibeus das eclogas, era uma especie de lume sacro que velava a virgindade… dos retratos pintados em tabua. Por quanto, deve v. ex.^a lembrar-se que os pegureiros do Minho taes fornalhas faúlavam do peito que os visinhos iam lá prover-se de lume para cozinhar a ceia, como se collige das lastimas d'este pastor do canoro Bernardes:

A viva chamma, aquelle intenso ardorQue brando sinto já pelo costume,De noite de si dá tal resplandorQue mil pastores vem a buscar lume.[3]

É verdadeiro e bonito. Os mestres da vernaculidade mandam que a gente leia isto, e mais os outros lyricos seiscentistas—caldeirada de favas classicas com as quaes o intendimento se opila e encrua; mas a lingua cresce.

Como quer que seja, entre os retratos em tabua quaes os pintava S. Lucas, e o retrato em photographia aperfeiçoado por Fox Talbot, mede a distancia que ethnologicamente sepára as Nizes e Filis de Diogo Bernardes d'estas Joannas e Thomazias que hão de florejar nasNovellas do Minho.

Ouço dizer que a via-ferrea, sulcando o seio virginal d'esta provincia, afugentou com o estridor das suas azas os pardaes, a mala-posta e a Probidade.

É possivel. Os caixeiros do Porto, sadíos e sanguineos, com as suas luvas amarellas, e todo o verniz, que lhes coube em sorte, nos pés, entraram Minho dentro, e derramaram a dissolvente chalaça nas aldeias. Por outro lado, a raça turdetana de Braga fechou pelo norte a barreira á innocencia espavorida. A cidade santa de nossos pais e dos conegos, a esposa de Fr. Bartholomeu dos Martyres, Braga despeitorou-se, desnalgou-se, sofraldou as saias e mostrou a liga sobre o joelho desde que um jornal da terra lhe chamousegunda Pariz. Eu não reparo na desproporção do confronto, quando alli me vejo noCafé-Faria, a sentir-me arquejar emuma das arterias do grande corpo da civilisação chamada Europa, como lindamente diz o sr. Vaz de Freitas na suaGuia do Viajante em Braga, por seis vintens. Tudo me leva á persuasão de que me acho na segunda Pariz, quando aGuiame assevera com exactidão, ainda não contraditada pela inveja, que Braga encerra nos seus muros sete procuradores de cauzas, e que ahi (pag. 28) os barbeirossuperabundam. Fazia-se ainda pelos modos uma terceira Pariz com a superfluidade dos barbeiros!

A cathegoria modesta, em que o jornalista afidalgou a sua terra, justifica-se principalmente nas estalagens. Ahi, é ahi onde o viajante se sente saturado de Pariz, a ponto de, cuidando que accorda alvoroçado pelas campainhas electricas do Grande Hotel noBoulevard des Capucines, acha-se em Braga, no hotel-Aveirense, largo dos Penêdos. Avantajam se ainda ás hospedarias parisienses, no ponto de vista zoologico, os hoteis da princeza do Minho. Os forasteiros dados a pesquizas de anatomia comparada, podem, mediante uma gratificação rasoavel, passar as suas noites em vigilias uteis estudando insectos sem queixos e sem azas, de membros articulados, consoante a classificação de Cuvier. Ali se lhes offerecem exemplares em barda da pulga braguez (Pulex bracharensis). Convencer-se-ha que as seis pernas d'este parazita são deseguaes, o que assim se faz mister para o salto. Não duvidará que elle tem o bico alongado com duas cerdas, e guarnecido na baze de dois palpos escamosos. Se reparar bem nas pulgas maiores, dissipará suspeitas de que tem azas que realmente não tem as doHotel Leão d'ouronem as doHotel-transmontano. Encontram-se n'estes dois estabelecimentos larvas das mesmas, cylindricas e sem pernas. O olho armado póde observal-as a mudarem-se em nymphas, que não são exactamente umas de quem cantava Garret:

Asnymphasinvoquei do Tejo amenoQue em mim creassem novo engenho ardente,Etc.

Cam. C. IV.

Nem as outras de quem dizia o épico:

Caem asnymphas, lançam dassecretasEntranhas ardentissimos suspiros…

Lus. Cant. IX.

Verdade é que o accessorio dassecretas, ínclusas no verso de Camões,deixa suppor que elle quizesse fallar dasnymphasdos hoteis de Braga.Que estude o caso o sr. visconde de Juromenha, e não o desampare aAcademia Real das Sciencias.

Nos hoteis de Braga, finalmente, dão-se as mãos o espavento das modernas industrias, as refinações da decoração, a obra prima de marcenaria e vidraria,—um luxo levantino, como em recamaras de Nababos—e sobre tudo a hygiene expansiva de saude a dar cambalhotas na brancura virginal dos lençoes; e á mistura com tudo isto resalta não sei que de archeologico n'aquelles quartos! A gente, quando vae deitar-se, imagina que n'aquella mesma cama dormiu na noite passada S. Pedro de Rates ou Gonçalo Mendes da Maya.

Por fora das estalagens ainda ha proeminentissimas feições de Pariz em Braga. OJardim, por exemplo. V. ex.^a já esteve no jardim? Impressionaram-no com certeza uns rumores, «ora suffocados, ora estrepitosos» que ali se escutam nos domingos de tarde? Tambem a mim. Não pôde soletrar em sons articulados aquelle confuso borburinho? Nem eu. Quem explica o phenomeno, trivial nosChamps-Elyséese noparc de Monceau, é o já citado sr. Vaz de Freitas na suaGuia do viajante em Braga, por seis vintens, pag. 41. A coisa é isto:O chilrear das creanças, o divanear das poetizas, o queixume somnolento dos poetas, a conversação pezada e metalica dos proprietarios, todos estes murmurios vagos ou alegres, suffocados ou estrepitosos(hîc)enfundem uma vida nova e excepcional ao passeio, que o tornam attrahente ou deleitoso. Theophilo Gauthier, o Benvenuto Celline da proza franceza, não rendilharia com tão subtis filigrannas de phrase a explicação dos ruidos babylonicos doLuxemburg. D'onde se colhe que Braga tem poetizas que exhibem delirantemente os seus devaneios no jardim, ao mesmo tempo que os poetas se queixam somnolentos. Pariz, tal qual. Note v. ex.^a o contraste no sexo d'estas pessoas que bebem na Castalia: ellasdivaneam, apostrophando a gritos o arrebol da tarde e a brisa que cicia e se perfuma nas cilindras; elles, cabeceando marasmados pelo opio donarguillé, queixam-se somnolentos, por que não os deixam dormir as poetisas. São homens gastos, estafados,roués. Sahiram docafé-Fariaintoxicados do absyntho de Espronceda, de Nerval, de Larra e de Mussét. Entraram no jardim com o cerebro anesthesiado, querem dormir; e ellas, á imitação do femeaço da Thracia, projectam escalavrar aquelles Orpheus dorminhôcos, Marcyas que ellas, filhas de Apollo, querem esfolar. Segundo Pariz.

Ahi vê v. ex.^a a rasão dos «estrepitos» explicada naGuia. Pareciam outra coisa peor.

Eu, afora isto, conheço outras analogias entre Braga e Pariz, que estudei, sem subsidio—intendamo-nos. Ha tres mezes senti-me ali adoecer da nevropatia, que é molestia endemica dos grandes centros de população, onde os deleites requintam, e o fluido nervoso se desperdiça—o que succede em Londres, em Braga, em New-York, em Pariz, quando a gente desconhece as leis darelatividade dos prazeres, como diz o professor escossez Bain. Confiando nos anti hystericos, fui comprar á botica do sr. Pipa, na rua do Souto, um frasco de capsulas de ether-sulphurico, e preparava-me para pagal-as com 300 rs. (um fr. e 50 cent.)—prêço corrente no Porto—quando o praticante da pharmacia me mandou intender o preço da droga com mais cinco tostões, e mostrou-me que o signal arithmetico de um franco estava emendado em dois. Ainda assim, observei-lhe que dois francos cambiados em moeda portugueza eram quatrocentos réis. O interlocutor refutou triumphantemente a minha objecção, allegando que em Braga dois francos eram oito tostões.

Esta physionomia da botica bracharense dá feições á terra, não da 2.^a, mas da 1.^a Pariz. A 2.^a é a outra que os geographos ignaros nos inculcam 1.^a. Corrija-se.

Dou de barato que as referidas poetisas do jardim consumam capsulas de sulphur copíosamente nas suas etherisações, e que os poetas somnolentos se despertem com ellas, não querendo usar economicamente das cocegas; deve-se talvez ás condições especiaes das musas bracharenses o preço superlativo dos anti-spasmodicos: assim mesmo, Pariz 2.^a não pode arbitrariamente dobrar o valor da moeda de Pariz 1.^a, nos generos que importa, ao mesmo passo que, no valor legal da moeda franceza, exporta para França os seus chapeus, os seus cavaquinhos e as suas frigideiras.

Aqui tem, pois, D. Antonio da Costa, o foco do progresso que esparge raios de luz para as aldeias septentrionaes do Minho, em quanto o Porto alastra no sul os caixeiros contaminadores, que levam comsigo a corrupção dos romances e as tentações do cabello unctuoso com a risca ao meio da cabeça, lasciva como o dorso d'um gato d'Angora.

É n'este meio que eu me abalanço a esgaratujar novéllas. Ha treze annos que apéguei por esse Minho, em cata do balsamo dos pinheiraes e das fragrancias das almas innocentes. Diziam-me que a rusticidade era o derradeiro baluarte da pureza, e que os lavradores do Minho, nivellados com os saloios da Extremadura, eram os candidos pastores da Arcadia comparados aos malandrins de Gomorrha. Um dos meus estudos, no intuito de me habilitar para o confronto do saloio com o minhoto—da raça sarracena com a gallega—É a historinha que lhe dedico meu nobre amigo.

De Coimbra, aos 15 de outubro de 1875.

Seis de janeiro de 1832. Manhã chuvosa e frigidissima. O zimbro rufava nas frestas envidraçadas da egreja de Santa Maria de Abbade. Ringiam as carvalheiras varejadas pelo norte. Ao arraiar do dia, a devota dos Tres Reis Magos, a tia Bernabé, tecedeira,—viuva do operario Bernabé, que lhe deixára o nome e uma cabana com sua horta—ergueu-se, foi á residencia parochial pedir a chave da egreja; e, sobraçando a bassoura de giesta para barrer o chão, e a almotolia para prover as lampadas, entrou no adro. Ao passar em frente da porta principal, ajoelhou, persignou-se e orou. N'este momento, ouviu o vagir convulso e rispido de criança. Voltou o rosto para o lado d'onde lhe parecia sahir aquelle chôro. Não viu alguem. Espantou se.

—Jesus! santo nome de Jesus! Isto é coisa ruim!—exclamou ella, pousando no degráo da porta a vazilha e a bassoura.

E o chorar de criança cessou.

A tia Bernabé debruçou-se na parede baixa que murava o adro, e viu entre as grossas raizes de uma oliveira secular um embrulho de baêta azul donde sahiu um vagido. Saltou a parede, agachou-se á raiz da arvore, e pegou da criança, aconchegando-a do calor do peito e bafejando-a no rosto azulado do frio. A baêta estava ensopada da chuva que escorria da ramaria da oliveira. Tirou-lh'a apressadamente, involveu o menino no avental, e agasalhou-o entre o seio e o farto jaqué de picotilho. Depois, desandou para a residencia, e mandou dizer ao abbade que topára no adro uma creança, que parecia estar a despedir.

—Pois que quer ella então?—perguntou o abbade, expondo uma parte do nariz e metade do olho esquerdo á frialdade do ar—Que tenho eu com isso? Que a leve a Barcellos. Aqui não ha roda de engeitados.

A criada do abbade deu o recado.

—Torne lá, sr.^a Joanna—replicou a tia Bernabé friccionando os pés álgidos do recem-nascido com a barra da sua saia de saragôça—e diga ao sr. padre que este menino, se morrer sem baptismo, é um anjinho do ceo que se perde. O sr. abbade hade saber isto melhor que eu…

A creada repetiu a replica, e ajunctou:

—A tia Bernabé diz bem.—Salte d'ahi p'ra fóra, seu calaceiro!—E deu lhe uma sonora palmada na nádega esquerda.—Um rapaz de vinte e sete annos está ahi enteiriçado como um velho! Upa!

—Está quieta, Joanna, olha que me fazes vento!

E ella puxou-lhe pelo pé direito, que excedia o volume de tres pés; e elle, com o outro, despedido á tôa, sacou-lhe do baixo ventre um som tympanico de ôdre cheio.

—T'arrenego!—bradou ella, recuando com as mãos postas na parte molestada.—Vossê atira? Tem má mânha!

—Cheguei-te?—volveu elle risonho, embiocando-se na felpuda coberta, e encostando-se á almofada de chita que estofava o espaldar do leito.

—Que brincadeira!—queixou-se a moçoila arrufada—podia-me matar com o couce, se me dá aqui no coração!…

E punha a mão no estomago.

—Isso não é nada, rapariga!… Olha se amúas!

—Nada, não é!… não que a barriga é minha…

—Pois tu com este frio de mil diabos, vens-me mexer na roupa, e de mais a mais puxaste-me pelo pé do joanete que tem a frieira aberta!…

—Então dissesse-o…—tornou ella com semblante ageitado á reconciliação—Salte d'ahi!… vá baptisar o engeitado; que, se elle morre sem baptismo, verá que ingranzeu se levanta na freguezia. Bem basta o que já dizem…

—Calça-me as meias de lã; mas tem cuidado que não se despegue o emplasto da frieira.

E, em quanto a môça com geitosa meiguice lhe encanudava nas pernas cerdosas as grossas meias alisando-lh'as ao correr da tibia, resmungava elle:

—Quem seria a grande bebeda que engeitou a cria?

—Isso hade ser de fóra da freguezia…

—Tambem me parece… Cá não me consta… E vem-m'a cá pôr no adro!… ah bom estadulho!…

—Fica uma coisa pela outra. As de cá tambem as levam ás outras freguezias, quando acontece—disse Joanna.

E nomeou varias ovelhas fecundas e tinhosas, em quanto o pastor lavava a cara no alguidar vermelho que a raparigaça lhe chegava, com a toalha no hombro.

Ao pegar da toalha, sacudindo a cara e assoprando ruidosamente com a sensação do frio, o abbade apertou a pôlpa da espadua á moça com ternura felina. Este carinho confirmou as pazes. Joanna arregaçou os beiços ridentissimos até ás orelhas, e mostrou-lhe nos dentes de brilhante esmalte que o seu amor infinito resistira á prova do couce.

A tia Bernabé affligida, porque o menino soluçando-se esverdeava, chamou outra vez Joanna com encarecidos rogos.

—O sr. abbade está já vestido—disse a môça sahindo á janella.—Passe vossê por casa do tio Izidro da Fonte, e diga-lhe que vá p'ra egreja, e deite agua na pia.

* * * * *

O padre sahiu de casa carrancudo e bocejando. De cada vez que escancarava as mandibulas, traçava no envazamento da boca tres cruzes com o dedo pollegar.

A tecedeira, que o esperava no adro, abeirou-se d'elle mostrando-lhe a cara roixa da criança. O padre olhou-a de esconso, e perguntou:

—É macho ou fêmea?

—É um menino—respondeu a viuva.

—Accenda um d'aquelles côtos—disse o abbade ao Isidro, apontando para os sordidos castiçaes de chumbo d'um altar—A pia tem agua?

—Vem ahi o meu rapaz com o cantaro.

—Vossês são os padrinhos? O rapaz hade chamar-se Izidro, ou então põe-se-lhe o nome do santo de hoje—observou o abbade, boquejando e benzendo a bocca, no limiar da porta travessa onde a mulher esperava, segundo o ritual.

—Hoje é dia dos Santos Reis—disse ella.

—É verdade—confirmou o padre, e scismou seReisseria nome ou apellido. Não se lembrava de ter estudado esta especie.

—Os santos Reis Magos eram tres—proseguiu a tia Bernabé.

—Bem sei—acudiu o padre.

—Um chamava-se S. Belchior, outro S. Gaspar, outro S. Balthazar—explanou a devota dos magos orientaes:—o menino póde chamar-se Belchior, se o sr. abbade quizer.

—Eu quero tudo que vossês quizerem. Vamos a isto, que está um frio de rachar—E, recolhendo-se á sacristia, esfregava as mãos, bufando-as com os gazes do estomago ainda perfumados do vinho da ceia.

—Meu rico anginho, irá elle morrer na agua fria?—lamentava a boa creatura bafejando-lhe as duas faces.

O abbade enfiou a sobrepeliz, revestiu a estola, mandou chegar o engeitado ao baptisterio, fez um resumo do latim ceremonial, e disse:

—Vão-se á vida.

—Vou-me d'aqui ás Lagôas a vêr se a Thereza do Eido me dá o peito a este anginho, até vêr se arranjo que algum lavrador me faça esmola de um bocado de leite de cabra—disse a tia Bernabé.

—Então vossê não o leva á roda?—perguntou o abbade esbugalhando o espanto nos olhos.

—Ágora levo eu á roda o meu engeitadinho! Já que Deus me não deu filhos…

—E tem muito que lhe dar vossê?

—Em quanto eu poder fiar uma meada e tecer uma teia, dou-lhe eu o meu caldo e o meu pão; depois, quando eu não poder, dá-m'o elle. Casa e dois palmos de horta, graças a Deus, tenho eu, e não na devo a ninguem… O peor é que o pequeno, se lhe não acudo, morre de fome… Ai! meu Deus! ha cadellas mais amoraveis que algumas mães…

—Ande lá… metta-se em trabalhos…—concluiu o abbade, safando-se com os cabeções do capote apanhados na testa.

* * * * *

A criança vingou, espigou e sahiu robusta e menos mal encarada. Entre os sete e onze annos apprendia a ler, e nas horas vagas enchia as canellas do fiado ou dobava meadas.

Belchior Bernabé, (assignava-se assim com satisfação da mãe adoptiva) deparado a algum romancista imaginoso, daria trela ao esvoaçar alto da phantasia, quanto á sua origem. A mãe poderia ser uma fidalga de Famalicão ou de Santo Thyrso. O pai, com toda a verosimilhança, poderia phantasiar-se algum dos generaes do exercito realista ou liberal que, por aquelle tempo, manobraram n'essas paragens. Com estes dois elementos, a fidalga e o general, qualquer mediano talento, aproveitando o accessorio das batalhas, compunha um romance de maus costumes, pelo que respeitaria ao engeitado, e um livro historico, pelo que interessaria á historia da restauração da Carta Constitucional e do systema representativo. Feito isto, o pequeno lucrava muito, sabendo nós que sua mãe era uma devassa recatada que, por noite desabrida de janeiro, o mandou expor entre as raizes de uma arvore, em que os sevados fossavam luras com o focinho, e o não devoraram n'aquella madrugada porque estavam ainda cerrados nas suas possilgas. Com tanto que esta mãe desnaturada engeitasse o filho, em respeito ao brazão e ao credito, a creança ser-nos-hia mais sympathica, as linhas de fina casta extremal-o hiam entre as caras boçaes da plebe, a auréola de nascimento mysterioso banhal-o-hia então da luz de um melancolico romance. Assim é; mas eu não sei quem fossem os pais de Belchior Bernabé. O rapaz, segundo ouvi dizer aos que o viram criança e adulto, era feio, espêsso de cara, achamboado de pernas. Ninguem lhe farejava o pai nem a mãe pela semelhança do rosto: parecia-se com todas as mulheres e com todos os homens d'aquellas freguezias, onde as caras são achatadas sem ressalto de protuberancia, ou angulosas como as pêras de sete cotovellos.

É maravilhoso este capricho physiologico! A terra da Maya é um alfôbre de moças bonitas, com os seios altos e alvos como pombas no ninho; os quadris elasticos e boleados tem saliencias que vos levam captivo, e vos levarão doido se lhes virdes aslisas columnasem que aherado verso de Camões lembra sempre…

Desejos que como hera se enrolavam.

E lembra sempre este verso e os outros convisinhos[4] por serem osLusiadasum poema que se lê nas escholas, e se encontra no açafate de costura das educandas, que poderam subtrahir-se á morigeração pestilencial dos lazaristas.

Transpostos os limites da Maya, a primeira mulher que se vos depára na primeira freguezia do concelho de Famalicão, é feia e suja até ao asco, escanelada, escalavrada no peito, veste-se a frizar com a desgraça da sua má figura. E d'ahi até Braga, se vos apraz, podereis inhalar em todo seu perfume a pura flor da castidade. Se ha terra onde possam ermar e defecar-se de sensualismo santos tentadiços, é ali. Cada mulher é uma figa benta de que fogem os tres inimigos da alma, principalmente o ultimo.

* * * * *

Belchior, ahi por maio, mez das flores, da brotoeja e d'outras fatalidades especificas, começou a amar. Tinha desenove annos, carnadura rubra, hombros largos, assobiava como um melro, tangia cavaquinho, e amava a Maria Ruiva, filha do Silvestre Ruivo, o maior lavrador da freguezia. Este amor resguardava-se como um delicto, e por isso mesmo se escandecia e refinava até á quinta essencia da paixão que está paredes meias do desastre. O engeitado, se se affoitasse a alardear preferencias nas attenções de Maria Ruiva, seria espancado pelos rivaes ou por algum dos tres padres tios da cachopa. Eram tres clerigos afamados por façanhas de estudantes em Braga. Haviam militado nas guerrilhas da uzurpação; terçaram de novo as armas em 1846, na carnificina de Braga; recolheram a casa depois da morte de Mac-Donald, e diziam missas a oito vintens para não se descassarem no officio.

Uma noite, quando um dos padres recolhia, enxergou um vulto esbatido no escuro do murthal que formava o tapume da eira de sua casa, e lobrigou por entre a sebe o alvejar de uma saia a fugir. Cresceu sobre o vulto com o páo em programma de bordoada, e ouviu o estalido do pêrro de pistola. Susteve a pancada, e perguntou:

—Quem está ahi?

—Sou o Belchior Bernabé.

—Que fazes ahi?

—Nada, sr. padre João.

—Porque te escondestes?

—Não faço mal a ninguem, sr. padre João.

—Mas engatilhaste uma arma de fogo!—e acercou-se d'elle arremetendo.—Que queres tu d'esta casa, engeitado? Servem-te as minhas sobrinhas…?—e atirou lhe um epitheto, que definia a natureza da mãe incognita.

—Sr. padre João, olhe que, se me bate, eu, bem me custa, mas… atiro-lhe. Siga o seu caminho, e deixe estar quem está quêdo e manso.

Padre João Ruivo sobraçou o marmeleiro ferrado, e murmurou:

—Tomo-te á minha conta, bréjeiro!

E passou ávante.

Ao apontar do sol, esporeou a egua para Famalicão, demorou-se com a authoridade administrativa, com os membros da commissão districtal, com o regedor, e sahiu alegre. Ao outro dia, na porta da egreja de Santa Maria d'Abbade, lia-se Belchior Bernabé, engeitado, entre os mancêbos apurados para o recrutamento.

E, entretanto, Silvestre, o pai de Maria, chamou ao sobrado da tulha trez filhas que tinha, e disse:

—Qual foi uma de vossês que esteve esta noite na eira a conversar para o quinchôso com o engeitado da Bernabé?

Duas responderam logo ao mesmo tempo:

—Eu não!—e accrescentaram:

—Cega eu seja d'ambos os olhos!

—Quebradas tenha eu as pernas!

—Má raios me partam!

A terceira, Maria, abaixou a cabeça, levou o avental de estopa aos olhos, e chorou.

—Foste tu?—exclamou o pai; e, pegando de um engaço, ia cravar-lhe os dentes na cabeça, quando as duas filhas lhe ferraram do pulso. O pai, homem possante de quarenta annos, sacudiu-se a custo das prezas das valentes raparigas, largando-lhes o engaço, e esmurraçou a outra com tamanho impeto de raiva que Maria cahiu atordoada.

Em seguida voltou-se para as duas filhas, e disse:

—Esta mulher fica fechada aqui, entendem vossês? Se quizerem, tragam-lhe o caldo; se não, que morra para ahi, que a levem os diabos!

E, sahindo, rodou a chave, e guardou-a na algibeira interior da véstia.

* * * * *

A tecedeira, quando Belchior, lavado em lagrimas, lhe disse que ia ser soldado, encostou o queixo ás mãos postas em supplica, relançou os olhos á imagem do Bom Jesus do Monte, deteve-se instantes, e disse serenamente:

—Não irás para soldado, meu filho. O tio Silvestre Ruivo já me offereceu dois centos por esta casa, com a condição de me deixar morrer n'ella. Vende-se a casa, ficas tu sem ella, mas onde quer se vive. Para soldado não vais, Belchior. Dás o dinheiro aos governos, como fazem os filhos dos lavradores ricos, e estás livre.

Belchior não cessava de chorar, e de vez em quando, por entre soluços, articulava palavras que a tecedeira, um tanto surda e de todo alheia dos amores do rapaz, não percebia.

Não chores, moço!—insistia a velha, repetindo o expediente de vender a casa; e Belchior, por fim, obrigado a explicar-se, rompeu n'esta exclamação:

—A Maria Ruiva está perdida e desgraçadinha!

—Credo!… tu que dizes, Belchior!?

O rapaz arrepellava-se; apanhava com as mãos a nuca, e batia com os cotovêllos um contra o outro. Atirava-se de trambulhão sobre uma grande caixa de castanho, e jogava de cabeça contra os joelhos com a pasmosa elasticidade da sua afflicção. Fazia aquillo porque não sabia as phrases que nós, os máos romancistas, costumamos emprestar a esta especie de sujeitos.

A tia Bernabé, ora lhe pegava na cabeça, ora nos braços, dizendo-lhe as mais carinhosas consolações. Por fim, o engeitado, erguendo-se de salto, e olhando em redor tão sinistramente quanto cabe na rubrica de um drama e na pupilla fulva do sr. Izidoro Sabino Ferreira na tragedia, disse com o esbofar das angustias vertiginosas:

—Assim com'ássim… mato-me!

Aqui foi um alto soluçar da tecedeira, um desentoado chôro que alvorotou a visinhança.

Belchior, assim que viu a casa a encher-se de gente, fugiu pela porta da cosinha, saltou vallados, emboscou-se n'uma seara de centeio, e ahi, estirado por terra sobre as louras gabellas, chorou copiosamente.

A tia Bernabé pedia entretanto aos visinhos que fossem atraz d'elle, porque o seu Belchior disséra que se matava.

O engeitado deixou-se trazer como um ebrio nos braços dos visinhos; e, chegando a casa, pediu que o deixassem deitar. Depois, ganhando animo—que é sempre certo, esgotadas as lagrimas—contou á tia Bernabé a sua curta historia com a Maria Ruiva, concluindo-a com uma revelação que irriçou os cabellos da velha.

* * * * *

N'essa mesma hora, a tecedeira sahiu cambaleando e encostada ás paredes, em demanda do abbade.

Era ainda o mesmo que baptisára Belchior. Envelhecera e engordára. Meditava depois de jantar no destino da sua alma, assim que o destino do corpo lhe parecera consummado. Joanna, a das sapatadas n'aquella anca de Hercules Farnesio, havia muito que cauterisava a consciencia chagada, cortando o cabello e cilhando os rins peccadores com a corda nodosa dos cilicios. O abbade tambem soffrêra um abalo rijo de contricção, a ponto de não substituir Joanna, e calçar as meias directa e pessoalmente. N'esta especie de amputação expontanea, não podendo crear processos de philosophia nova, como Pedro Abélard, comia ás suas horas e profanava com syllabadas o latim do missal. Promettia acabar bem.

A tia Bernabé referiu-lhe o que Belchior lhe confessára a respeito daMaria Ruiva.

—Eu bem lhe disse a vossê, mulher, que se mettia em trabalhos, lembra-se?—recordou o abbade.

—Sim, senhor, lembra… mas então? Ainda me não arrependo, se o sr. abbade me fizer a caridade de fallar ao Silvestre, e dizer-lhe que o melhor é, já agora, deixar casar a rapariga.

—Vossê—atalhou o padre—vossê, Bernabé, deu-lhe volta o miolo! O Silvestre dar a filha ao engeitado!… Ora, mulher, peça a Deus juizo, e diga a esse tratante que se vá quanto antes sentar praça, antes que lhe deem cabo da pelle. Com que então!… O alma do diabo foi ás do cabo, eim?

A tecedeira ouviu-o com o rosto lavado em lagrimas; e elle, solphejando as palavras iracundas ao compasso do rufo que fazia com a caixa de prata sobre o braço da cadeira, proseguiu:

—Forte maroto! Atrever-se a conversal-a, já era muito: mas isso que vossê me diz, mulher, só na forca! E então… uma rapariga sem nota, que já foi pedida pelo Francisquinho das Lamelas, que colhe oitenta carros e vinte pipas, afora azeite!… E, vamos lá, era a melhor das irmãs, uma mocetona!… Com que então esse patife disse-lhe mesmo que ella… d'aqui a pouco… já não póde esconder o fructo do seu crime?

—Sim sr.—balbuciou a tia Bernabé.

—Isto só no inferno!—volveu o abbade, rebitando a ponta do nariz para dilatar a circumferencia das ventas sobranceiras á pitada—Isto só no inferno!…

—Valha-me Deus, sr. abbade!—replicou timidamente a tecedeira.—Então a religião de nosso Senhor Jesus Christo não dá remedio a estas desgraças, que tantas vezes acontecem? No melhor panno cae a nodoa. Logo que elles se casem, está tudo remediado, pois não está?…

—Está o quê?… Então uma rapariga de boa familia, que tem tres tios padres, e que é filha de um capitão de ordenanças, caza-se assim com um engeitado que vossê encontrou na bouça da egreja entre o mato?…

—É verdade; mas todos somos filhos de Deus,—argumentou a tia Bernabé, e mais longe iria na sua preleção de caridade ao pastor, quando uma visinha a chamou á porta da rezidencia para lhe dizer que Belchior estava prezo entre seis cabos de policia que o levavam para soldado, e elle a mandava chamar para se despedir.

Ainda desceu precipitadamente as escaleiras a tremula velhinha; mas, a poucos passos, cahiu de joelhos, amparou-se no vallo, e debruçou-se desmaiada.

Entretanto, o regedor ordenava aos cabos que levassem o prezo, visto que a tia Bernabé fôra levada sem accordo para a rezidencia. Belchior pediu que o deixassem ir lá despedir-se de sua mãe. O regedor voltou-lhe as costas, acenou aos cabos que marchassem.

* * * * *

Em Famalicão deram-lhe uma guia, e enviaram-no entre seis espingardas para Braga. Ao outro dia era soldado.

A tia Bernabé procurou-o no quartel doPopulon'esse mesmo dia. Quando o viu de cabeça tosquiada como cão morrinhoso, e colleira de couro preta, estonteou-se-lhe o juizo e esteve a pique de cahir. O recruta, chorando com ella nos braços, apiedou o commandante da guarda, que os mandou entrar na casa das tarimbas. D'ahi a duas horas, tocou a corneta a recruta. Belchior já não tinha nome. Era o 29.

—Salta d'ahi, 29!—bradou-lhe um anspeçada.

—Que é?—perguntou a tecedeira.

—Vou para o exercicio, minha mãe.

Ella viu-o marchar com os outros para o Campo do exercicio; e logo, a meio caminho do terreno das manobras, um furriel barbaçudo e de chibata, lhe assentou na parte sobrejacente ás pernas um pontapé instructivo. Diga-se verdade—era o primeiro.

A tecedeira, quando isto presenceou, sahiu do campo estrangulada por soluços, entrou na Sé, e orou largo tempo com o rosto no pavimento. Depois, levantou-se reanimada, e foi para a sua aldeia executar o que ficára convencionado com Belchior: vender a casa, e substituil-o.

Pregou annuncios na porta da egreja e nas arvores visinhas das estradas. O pai de Maria Ruiva muito queria compral-a para arredondar um campo com a horta e armar na casa terrea um estabulo de bois para embarque; porém, receando que o seu dinheiro servisse a resgatar o soldado, consultou os irmãos clerigos. Padre João foi a Bragamecher os pausinhos, disse elle; e, voltando, socegou o irmão:

—Compra a casa, que o engeitado as correias não as bota fóra do lombo.

O lavrador tinha offerecido duzentos mil réis, quando a tecedeira não pensava vender a casa onde nascera; mas agora, por terceira pessoa, mandou-lhe offerecer cento e quarenta.

A desventurada velha ia ceder, pensando que vinte moedas de ouro bastariam a resgatar o filho; n'este aperto, uma beata de freguezia distante, e confessada do abbade, lhe propoz a compra, a fim de passar a estação das penitencias ali á beira do seu director espiritual. Esta mulher, que era virtuosa, foi desde logo diffamada pelos padres Ruivos á conta do confessor que a dirigia; e o lavrador por sua parte enraivava-se sabendo que a Bernabé vendera a casa por duzentos mil réis. Padre João, conversando a tal respeito com o abbade, desfechou-lhe esta ironia entre duas pitadas:

—Quando se está assim gordo, sr. abbade, é precisotrazel-aspara perto…

E o pastor, exulcerado na sua candura, cascalhou uns froixos de tosse de esgana, e gosmou:

—Se eu trouxesse para esta freguezia ovêlhas de fóra, talvez que o padre João me deixasse em paz as do meu rebanho…

Entendiam-se.

* * * * *

A tia Bernabé foi a Braga com o dinheiro e com um seu cunhado, que havia sido embarcadiço, e então era calafate em Villa do Conde. Por felicidade viera elle á terra ver os parentes; e, condoendo-se da paixão da cunhada, se offerecera a dar em Braga os passos necessarios á baixa de Belchior. O requerimento foi indeferido. O calafate andou por advogados que lhe escreviam replicas inuteis. Por fim, comprehendeu que o rapaz havia de gemer sob o pezo da vingança do lavrador. E como elle passara quarenta annos no mar e ahi ganhára odio ás miserias da terra, tanto que soube que o rancor era de padres e o crime do rapaz era de amores, voltou-se para a cunhada, e disse:

—O rapaz vai d'hoje a quinze dias para o Brazil. Tu pagas-lhe a passagem, e o resto fica por minha conta. D'aqui até Villa do Conde é desertor; assim que sahir a barra, é livre… olha… vês aquella andorinha? é livre como ella!

—E não hei de tornar a vél-o?!—atalhou ella chorando.

—Se não o tornares a vêr, que monta? Tens tu de fechar os olhos para sempre ou não? qual queres tu: vêl-o aqui soldado, ou saber que elle está no Brazil a manobrar a sua vida? Deixa-o ir. A rapariga, quando elle chegar a Pernambuco, já lhe não lembra; e, se enjoar, então, é como quem deita o coração pelas goelas fóra. Tu vens para Villa do Conde commigo. Tens que comer e uma enxerga onde durmas.

* * * * *

Em março de 1852, fez-se á vela de Villa do Conde a BarcaConceição.Entre os passageiros ia o desertor. Chamava-se ahi Manuel José da SilvaGuimarães, e nunca mais ouviu proferir o seu nome.

Quando a policia deitava inculcas no concelho de Famalicão procurando a paragem da tia Bernabé, rendia ella a alma ao seu Creador em Villa do Conde. Vira desapparecer as vellas da barcaConceição, ajoelhada no terraço do Castello. Depois, quedára-se de bruços a chorar. Levaram-a nos braços a caza do cunhado. As lagrimas seccaram-se. Veío a febre e o delirio. Chamou, chamou por seu filho, até que Deus a chamou a ella. Não foi confessada nem ungida; mas morreu sancta por que vivera sanctamente. Achara aquelle engeitadinho, creara-o, amara-o, vendêra um cordão para o vestir geitosamente afim de o mandar á eschola, vendera as arrecadas para lhe comprar fato novo quando foi á primeira confissão, vendêra a casa e o thear e o leito onde morrêra sua mãe para o remir de soldado. Padeceu grandes angustias quando soube que o filho do seu coração era culpado na desgraça de uma rapariga honesta. Cuidou que o padre, o prégador da caridade e da igualdade dos servos de Jesus Christo, iria admoestar o lavrador abastado a conceder a filha para esposa do pobre. Esta sancta cegueira da christã é de crer que Deus lh'a perdoasse. Por fim, de virtude em virtude, e de dôr em dôr, logo que aos setenta annos de idade viu sumir-se para sempre o seu querido engeitado, pediu a Deus por elle, por si, e… morreu.

Vinte annos volvem-se tão depressa, que eu, n'este salto que o leitor vai dar, não me despenderei a encher-lhe de phrases o passadiço. O melhor é fechar os olhos e saltar.

Vinte annos! Que são vinte annos?

Nós, ainda hontem eramos rapazes, ó velhos! Estehontemgastou vinte annos a resvalar parahoje. Que se passou n'este lapso fugitivo de nossa vida entre a juventude e a velhice? Nada. Temos a nosso lado filhos homens, e netos que ámanhã serão homens: e, todavia, parece que ainda hontem com um raio de sol e com o perfume de uma roza compunhamos o sorriso da loira mãe d'estes homens, que está hoje velha! Ainda hontem eramos poetas pelo amor, affoitos pela aspiração, valentes pela mocidade. Que grandes coisas devem ter-se passado n'esse instante de vinte annos, em quanto esperavamos outras que nunca vieram! A scismar sempre com o futuro não o viamos passar. A final parou; e deixou-se conhecer porque marchava pesado, tardio e triste: era a velhice. Chegou de repente; escureceu-se-nos tudo como se as alegrias nos fulgissem do seio de um relampago. Esta treva foi instantanea, e gastou vinte annos a condensar-se. Que são vinte annos?

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Em 1872, hospedou-se no hotel de Famalicão um brazileiro a quem os seus creados negros e brancos chamavam simplesmente osr. commendador. Não viera recommendado a algum dos barões da terra. Enviára adiante a recommendação da parelha das orças, da caleche, dos lacaios. Representava quarenta annos florentissimos. Basto bigode, suissa ingleza, espesso cabello levantado em novêllos crespos que lhe escantavam a fronte. Espaduas amplas, á proporção das pernas que se moviam rijas e bazeadas em pés infalliveis como os alicerces das pyramides dos pharaós. Trajava a primor, de preto, com um ar de pessoa que passeava de tarde na estrada de Braga, com o intento de ir á noite aCovent-Gard, aoRoyal Italian Opera. Fumava sempre uns charutos que vaporavam os aromas das recamaras das sultanas. Na meza, era de uma elegancia frugal que desmentia a procedencia. Olhava para o bife com um fastio tal e tamanha tristeza, que fazia lembrar Tertuliano, quando, meditando na metempsycose, olhava para o boi cozido, e dizia: «Estarei eu comendo meu avô?»

Com quanto nem elle nem creados declarassem os seus nomes e appellidos, os jornaes do Porto haviam annunciado a chegada do maior capitalista de Pellotas, o sr. Manoel José da Silva Guimarães.

Nada de bioquices com o leitor: ahi está Belchior Bernabé, o engeitado.

* * * * *

Ao terceiro dia de hospedagem em Famalicão, o commendador cavalgou, acompanhou-se do lacaio, e seguiu na direcção de S. Thiago d'Antas.

—Vai vêr a igreja que fizeram os moiros… Calculou outro commendador da terra, e assim o communicou a mais dois commendadores, attribuindo aos moiros a egreja dos cavalleiros de Rhodes.

—Hade ser isso—confirmou o mais correcto.—Este homem é magico. O Guimarães do hotel já lhe perguntou se era nascido cá no Minho, e elle respondeu…

—Que não tinha a certeza—concluiu o outro—Tem grande têlha!

—Hontem, na feira, estava elle a vêr vender duas juntas de bois para embarque. Quem nas vendia era o Silvestre Ruivo…

—Bem sei, o irmão d'aquelle padre João que morreu ha tres annos de apoplexia.

—É isso. O telhudo, que não falla com ninguem, poz-se a conversar com o Silvestre a respeito dos bois: depois levou-o á hospedaria, e deu-lhe de jantar. O Silvestre esteve depois commigo, e vinha espantado de vêr dois criados de casaca, bota de verniz, gravata branca e luvas, a servir á meza.—E em que fallaram vossês?—perguntei-lhe eu. Disse-me que o commendador lhe perguntára coisas e talet coeteracá da provincia, e que ficára de ir a casa d'elle vêr a córte dos bois. Magico ou não? Olhem vossês! Vae ver os bois!

—Se fosse aqui ha dez annos atraz—disse o commendador Nunes—valia-lhe a pena de ir ver as bezerras… Vossê ainda conheceu as Ruivas, a Antonia e a Chica, ó sôr Leite?

—Ora, se conheci! Que fatias!…

—Que diriam vossês—volveu o sr. Nunes—se conhecessem a Maria que eu m'alembro de ver antes de ir em o Rio… Que pimpona! Apanhou a um engeitado…

—Já ouvi contar esse caso.

—Vossê não sabe nada, perdôe. O engeitado entrava em a escola do Zé Batata quando eu sahia já prompto. Depois, lá tive noticias no Rio que a moça dera em droga. Elle foi prezo para soldado e desertou; e ella nunca mais ninguem lhe poz o olho no lombo. Uns dizem que está n'um recolhimento de convertidas, outros dizem que está fechada, desde que isso foi… hade haver, João Nunes, hade haver, bons vinte annos…

—Isso é que é pai de fêbras!… fez muito bem!—applaudiu o mais devasso.

* * * * *

Entretanto, chegava o commendador Guimarães á porta do ex-capitão de ordenanças Silvestre Lopes, d'alcunha oRuivo. Era esperado.

No patamal da escada que conduzia á vasta quadra chamada «a sala dos padres» estava o lavrador, entre tres clerigos venerandos por sua idade: devia contar qualquer d'elles bastantes annos sobre setenta.


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