O commendador deu as redeas do seu alazão ao lacaio, subiu prazenteiramente, apertando a mão a Silvestre, e cortejando os padres.
—V. ex.^a não se perdeu nos atalhos?—perguntou o lavrador.
—Quem tem bôca vai a Roma—respondeu o commendador; e referindo-se aos padres:
—São seus manos, sr. Lopes?
—Dois são; o outro é o sr. abbade.
O hospede encarou-o muito a fito, e perguntou:
—É abbade ha muitos annos n'esta freguezia?
—Vim para aqui parochiar em 1828, na idade de vinte e cinco annos; tenho setenta e seis: conte lá v. ex.^a.
—Está aqui ha quarenta e quatro annos feitos—accrescentou o padreBento Lopes.
—Justamente,—confirmou o clerigo que baptisára Belchior, o engeitado exposto na manhã de 6 de janeiro de 1833.
O commendador não via n'aquelle ancião um só traço do corpulento abbade.
Conversaram sobre a guerra do Paraguay, sobre a emigração dos minhotos, sobre o estado florescente da industria e agricultura portugueza. O lavrador, apoiando o commendador, encarecia a nossa prosperidade com este conciso, pezado e até certo ponto bicornio argumento:
—Vejam o dinheirame que dão os bois!
Estava a meza posta no sobrado immediato, e á cabeceira da meza a cadeira destinada ao hospede.
—V. ex.^a vem para aqui—disse o lavrador apontando lh'a com urbana homenagem.—Ninguem mais se sentou n'essa cadeira desde que morreu nosso irmão mais velho, padre João. Faz agora trez annos que morreu d'um estupor…
—De apoplexia—emendou o padre Hippolito.
—Tanto faz—replicou Silvestre.—Estava a dizer missa, e cahiu redondo no altar.
—É de crer que a sua alma estivesse preparada para esse trance—observou o commendador em tom compungido.
—Era bom padre—disse o abbade, talhando á faca os canudos flexuosos da sôpa de macarrão—isso era, coitado! Deus o tenha á sua vista!…
—Está aqui toda a sua familia, sr. Silvestre?—perguntou o hospede,—Se bem me recordo, disse-me na feira de Villa Nova que tinha filhos…
—Filhos, não, meu senhor. Tenho duas filhas.
—Trez…—emendou o abbade.
—Duas!—retorquiu desabridamente o lavrador coruscando-lhe os olhos irados.
—Ah! sim… duas… eu agora estava distrahido…—remediou o indiscreto.
E o commendador não perdia a minima expressão das quatro physionomias.
—Tenho duas filhas,—repetiu o pai de Maria.—Uma está casada fóra com um proprietario, já tem um filho em Braga para padre, e outro a doutorar-se em Coimbra. A outra está em casa. Não quiz cazar, e já está a caminhar para os trinte e sete annos. É a que governa a caza.
Este incidente passou. O commendador mostrava-se profundamente abstrahido. Comeu pouquissimo, e quasi nada disse. Apenas, terminado o supplicio da exposição do peru, do lombo de porco de vinho e alhos, da perna de vitella e do leitão, pediu licença para retirar-se, pretextando a precisão de estar cedo em Villa Nova.
O abbade acompanhou-o, porque o brazileiro mostrou desejo de ver umas sepulturas notaveis de que certo romance dava noticia, no adro da egreja de Santa Maria.[5]
Os outros padres quizeram ir tambem; mas o commendador dispensou-os com delicada violencia, promettendo voltar a vêl-os mais de espaço.
O abbade, mostradas as duas campas vasias, convidou o ricasso a subir á sua pobre rezidencia.
—Com muita satisfação, sr. abbade; sympathiso com v. s.^a, quero mesmo grangear a sua amisade.
—Ó excellentissimo senhor! que valho eu, pobre velho, e pobre abbade da mais pobre das abbadias!… Aqui gastei a vida, já agora quero que esta terra, onde dormem tantos que baptisei, tantos que casei, me coma tambem os ossos.
O padre estava lugubremente palavroso. Havia ali uma flôr de poesia elegiaca a entreabrir-se um pouco borrifada de mau vinho do Porto. Sentia-se expansivo.
Pensava o brazileiro em occasionar conversa ácerca do incidente, acontecido ao jantar, sobre se eram duas ou tres as filhas do Silvestre. Não foi preciso rodeios. O padre endireitou logo com o assumpto n'estes termos:
—O Silvestre é bom sujeito, bom parochiano, amiguinho dos seus interesses, isso sim; mas d'esse peccado, se o é, está o inferno cheio. Porém, excellentissimo senhor, tem este homem um modo de pensar a respeito da honra que se não conforma com a religião da caridade e do perdão. V. ex.^a havia de notar a ira com que elle disse que as suas filhas eram duas, quando eu, por descuido, disse que eram trez. Conheci logo que andei mal, e emendei contra a minha consciencia; mas em fim, eu estava a jantar em casa do homem, estava ali um cavalheiro respeitavel, a civilidade mandou-me tapar a boca…
—Sim… eu notei que v. s.^a, cedendo ao numero das duas, fel-o constrangidamente.
—Pois por isso mesmo que eu percebi que v. ex.^a notou, é que devo á minha posição de padre esclarecer a verdade diante do sr. commendador. Se quer ouvir a historia… mas v. ex.^a disse que tinha pressa…
—Não, senhor. Queira dizer. Tenho muito tempo…
O abbade sahiu á janella, e disse para fóra ao creado que fosse levar a egua pela fresca ao mato. Depois, fechando o trinco da porta da saleta, continuou, fazendo sentar o hospede em uma commoda cadeira de estôfo, e occupando elle outra de pregaria com espaldar de moscovia.
—O Silvestre não tem duas filhas, mas tres. A mais velha, que eu baptisei ha trinta e nove annos, chama-se Maria. Esta rapariga, aqui ha vinte annos, andou de amores com um engeitado que por aqui se creou em casa de uma santa creatura, que o encontrou no mato da egreja, pelo lado de fóra das campas que v. ex.^a viu ha pouco. O diabo do rapaz desviou-a do bom caminho e pôl-a na mais misera situação que em taes casos é possivel. Emfim, a rapariga sentia-se mãe, quando um dos padres que já lá está na presença de Deus, deu com elles em palestra de noite. D'ahi a dias, o Belchior (chamava-se assim o engeitado), foi d'aqui preso para Braga, e deitaram-lhe as correias ás costas. Passado pouco tempo, o soldado desertou, e foi para onde estivesse seguro. Agora fallemos da moça. O pai moêu-a bem moída de pancadaria, fechou-a no sobrado de uma tulha, e mandava-lhe dar todos os dias duas tijellas de caldo, dois pedaços de pão, e uma caneca d'agua. Dois ou tres mezes depois, appareceu-me aqui um calafate de Villa do Conde, que vinha a ser cunhado da tal Bernabé que creára o Belchior, e disse-me que sua cunhada morrera de saudades do desertor que não podia mais voltar á patria; e que, antes de expirar-lhe, pedira que viesse ter commigo, e me rogasse, pelo divino amor de Deus, que fizesse eu todas as diligencias por haver á mão o filho do seu Belchior, que elle calafate se encarregava de o levar para Villa do Conde. A fallar a verdade, era empreitada de costa arriba metter-me eu n'este delicado negocio com o Silvestre; mas pedi forças a Deus e fui-me ter com elle. Contei-lhe o estado da filha, e offereci-me para dar á creança, quando nascesse, o unico destino possivel em harmonia com os interesses da terra e os da divina religião da caridade de Jesus, que mandava chegarem-se a Elle as creancinhas. O homem ouviu, praguejou, berrou que ia matar a filha; e eu então, resolvido a tudo, disse-lhe sem temor que se elle matasse a filha iria eu accusal o de matador de duas vidas. O homem teve medo, e concluiu afinal que a creança me seria entregue; mas que a rapariga nunca mais veria sol nem lua… Estou massando o sr. commendador…
—Pelo amor de Deus! estou interessadissimo n'essa triste historia…
—Tristissima, excellentissimo senhor! Eis que nasce um rapaz, e quem assistiu ao nascimento e m'o trouxe foi uma viuva serva de Deus, minha confessada, que vivia aqui na casa que comprára á tal Bernabé. Fui eu que lhe pedi que merecesse a divina graça por esta obra de misericordia. Já cá estava então em caza de uns parentes o calafate á espera do filho de Belchior. Entreguei-lh'o, e lá foi o pequeno para Villa do Conde, depois que o baptisei com o nome de seu pai.
—E esse menino…—atalhou o commendador arrancando a pergunta das ancias que a debil vista do abbade não divisava.
—Eu lhe conto, meu senhor. Dois annos depois, morreu o calafate, e eis que a creada d'elle m'o remette para aqui, dizendo que o patrão assim lh'o ordenara, para que eu o entregasse ás irmãs e sobrinhas d'elle que moram ahi n'uma freguezia ao pé. Chamei as taes mulheres, mostrei-lhes a creancinha, dei-lhes o recado do calafate fallecido, e ellas responderam que não queriam saber de historias; que tomasse o avô e a mãe conta d'elle, que eram bem ricos. A serva de Deus que morava, como já disse a v. ex.^a, na casa que fôra da tia Bernabé, tomou conta do engeitadinho. Havia n'isto mysterio profundo! O pai fôra creado na mesma casa onde era creado o filho, ambos sem pai nem mãe! Desgraçadamente, quando o pequeno ia nos seis annos, morre a bemfeitora de morte repentina. Os parentes sacudiram d'ali o mocinho, e o Silvestre comprou a casa, botou-a abaixo, e fez uma córte de bois. Ali d'aquella janella póde v. ex.^a vêr a córte onde foi a casa das duas santas mulheres. É aquella que branqueja por entre aquelles dois carvalhos.
O commendador foi á janella, reconheceu os arredores da extincta casa da sua infancia, enxugou as lagrimas, voltando as costas ao abbade, e tornou a sentar-se em frente do ancião.
—Que havia eu de fazer-lhe?—proseguiu o abbade—trouxe para aqui o pequeno, e mandei-o á escola.
—Muito bem! muito bem!—exclamou arrebatado o brazileiro—muito bem, honrado homem!—e apertou-lhe a mão, levando-a aos labios.
O abbade retirando a mão humida de lagrimas, disse commovido:
—Fiz o meu dever, senhor! Oxalá que esta boa acção me seja descontada nas muitas ruins que tenho na minha vida…
—E depois, o pequeno…—atalhou pressurosamente o hospede.
—O pequeno, eu lhe digo… Agora tornemos a fallar da mãe… Trez annos e meio esteve fechada no tal carcere. Via apenas uma irmã que lhe levava o alimento. Depois, esteve em perigo de vida, e pediu um confessor. Fui eu o chamado á falta de outro. No acto da confissão, disse-lhe que o seu filho estava em minha casa, e que passava por ser meu parente. Outros, sr. commendador, diziam que elle era meu filho e da mulher que o amparára. Perdoei aos calumniadores, para que Deus me perdôe os escandalos que dei: era justo que me diffamassem porque eu dei azo a isso com os desatinos da minha mocidade. Maria, quando soube que tinha seu filho vivo, ganhou forças, quiz viver, e venceu a doença. Dizia-me ella: «se eu viver, hei de ter alguma coisa d'esta caza, e o que eu tiver será do meu filho; e, se eu morrer, ficará pobresinho de pedir.» De pedir não—disse eu—porque vou mandar-lhe ansinar um officio logo que elle chegue á idade de poder trabalhar. Perguntou-me então se eu sabia alguma coisa do Belchior. Fóra da confissão, respondi-lhe que o calafate muito em segredo me dissera que elle fôra para o Brazil. No primeiro anno, o calafate recebia a miudo cartas do Belchior, que o rapaz escrevia á mãe adoptiva, cuidando que ella estava viva. O calafate escrevia para lá que a Bernabé tinha morrido; e o rapaz a escrever sempre á Bernabé. A opinião do calafate era que o Belchior lá andasse pelos sertões onde nunca lhe chegavam as cartas idas de Portugal. Depois, o calafate morreu. O que se passou d'ahi em diante não sei. Foi isto o que eu contei a Maria. Por fim, espalhou-se por ahi que o Belchior tinha morrido; e eu aproveitei a noticia, quer fosse verdade quer não, a fim de vêr se o pai da pobre moça lhe dava alguma liberdade. Fallei n'isto ao Silvestre, e, em nome de Deus o fiz responsavel pela privação em que a tinha da missa e dos sacramentos. Tanto lhe bati á porta da consciencia dura, que consegui deixal-a confessar-se e ouvir missa uma vez de trez em trez mezes. Pouco e pouco, obtive que ella viesse á egreja de quatro em quatro semanas, e n'essas occasiões já ella sabia que o seu filho era o menino que me ajudava á missa. Uma vez entrou na sachristia, não estando mais ninguem na igreja; abraçou-se no filho e desfez-se em lagrimas. Deixei-a, coitadinha! mas depois pedi-lhe que não tornasse a fazer tal imprudencia, por que, se alguem a visse, não tornaria a sahir do seu carcere. O rapaz, quando fez quatorze annos, lia e escrevia correntemente. Mandei-lhe ensinar o officio que escolhesse: quiz ser carpinteiro, para o que tinha muita habilidade. Essa cadeira em que v. ex.^a está sentado fez-m'a elle. Veja que bonita peça! pois ainda não tinha dado um anno ao officio quando fabricou essa obra que parece feita no Porto!
—E está aqui n'esta freguezia o tal Belchior?—perguntou o brazileiro.
—Não, meu senhor, está trabalhando em Braga; mas vem aqui todos os mezes ver a mãe no dia em que ella se confessa.
—Todos os mezes?
—Sim, sr., na primeira segunda feira de cada mez. D'hoje a oito dias, se eu viver, hei de ouvil-a de confissão, e dou de jantar ao meu Belchior.
—D'hoje a oito dias? Que prazer v. s.^a me dava, sr. abbade, meu honrado e querido amigo, se me consentisse que eu contemplasse na sua igreja essa martyr a rever-se no seu pobre filho! Seria possivel?
—Pois não é?! appareça v. ex.^a na segunda feira ahi pelas seis horas da manhã, que é quando eu a confesso e lhe dou a communhão. Vê a a ella, e vê o rapaz que é ainda quem me ajuda á missa, e ministra o jarro da agua á mãe, depois que ella communga.
Eriçaram-se os cabellos ao commendador por uma especie de etherisação, mescla de enthusiasmo, de arroubamento e de tristeza. Apertou ao seio as cans do ancião, e beijou-o na fronte. O padre encarava-o com assombro, e elle murmurava:
—A sua historia arrebatou me!… Eu sou um homem que tenho a loucura da admiração pelas acções grandes. Se até hoje eu não acreditasse em Deus, cahiria de joelhos a seus pés, confessando-o!
—Quem é que não acredita em Deus, meu amigo?!—perguntou o velho enxugando as lagrimas.
* * * * *
A segunda feira aprazada raiou com todas as pompas e musicas e perfumes de uma aurora de julho. O commendador Guimarães chegara de Braga, por volta da meia noite, e ordenara ao escudeiro que o chamasse ás quatro horas da manhã. Superflua recommendação. Não dormira. Antes do alvorecer da manhã, chamara elle os creados, e mandara apparelhar os cavallos.
Ás cinco e meia da manhã estava elle encostado a uma das campas do adro de Sancta Maria de Abbade. A distancia, escarvavam os cavallos insoffridos na terra barrenta de um montado calvo. O sol verberava em uma das frestas da igreja. Os pardaes pipilavam na oliveira, n'aquella mesma que, trinta e nove annos antes, déra, nas suas raizes recurvas á flôr da terra, um berço empapado de chuva, áquelle homem que ali se sentia feliz até ao extremo em que as palpitações de jubilo laceram o coração como as farpas da agonia. As andorinhas chilreavam em redor da cornija da igreja, e, esvoaçando-se por longos circulos, cortavam de notas embaladas pelas ondas da luz o grande hymno, que na terra se completa com as lagrimas dos que podem choral-as de gratidão á divina providencia.
Elle, Belchior Bernabé, chorava essas lagrimas bemditas, contemplando a terra onde a tecedeira pobre se ajoelhára para o levantar regelado até ao peito, e resuscital-o com um milagre da caridade.
Ás cinco horas e trez quartos ouviu passos que soavam na trempe de ferro que forma o limiar do adro. Correu pressuroso ao cunhal da igreja, e viu uma mulher com um capote aconchegado da face, encaminhando-se para a porta transversal. Simultaneamente chegava, transpondo de salto a parêde, um rapaz de boa presença, vestido de azul, com o seu chapeo de felpo branco na mão. O commendador parou, encostado ao cunhal. A mãe e o filho abraçavam-se, quando deram tento d'aquelle homem estranho.
—Quem é?—perguntou Maria.
—É figurão!—disse elle—Eu vi aquelle homem em Braga com o sr. deão e entraram no paço do sr. arcebispo. Alli abaixo na bouça estão dois cavallos, e um creado de libré. Hão de ser d'elle…
—Queres tu ver que é um commendador que esteve em caza de teu avô faz hoje oito dias? Tua tia viu-o, e disse-me que elle era assim de bigode e suissas…
—Que estará elle a fazer aqui?
—Elle olha para nós?! perguntou a mãe olhando-o de travez por entre a fresta formada pelo capote em que se encapuzava.
—Não tira os olhos da gente… e parece que está assim a modo de quem quer perder os sentidos!
—Estará doente!… Ainda bem que ahi está o sr. abbade…
—E lá vai fallar com elle, minha mãe…
—Então é o mesmo que eu te dizia.
—Belchior!—chamou o abbade—pega lá a chave, e entrem que eu já vou.
O moço foi buscar a chave, beijou a mão ao padre, e abaixou a cabeça ao senhor desconhecido. O commendador, com os olhos cravados n'elle, movia-se n'um balanceado arfar de peito: era o esforço que punha em resistir aos impetos que o impulsionavam para o filho. O carpinteiro abriu a porta e entrou com a mãe na igreja, dizendo-lhe:
—Aquelle sujeito estava a olhar para mim de um modo que parecia querer fallar-me…
O brazileiro, depois que respondeu ao comprimento do abbade, perguntou-lhe:
—V. s.^a terá duvida em me ouvir de confissão…
—Com muito contentamento, sr. commendador. Quando quer v. ex.^a?
—Agora. Desejo receber a communhão juntamente com a sua confessada.
—Pois seja agora.
E dizia entre si o padre: «Este homem foi alumiado pela graça divina, e Deus nosso Senhor escolheu o mais peccador dos seus servos para instrumento da sua misericordia com outro peccador!»
Entravam no arco da egreja de passagem para a sacristia. O abbade curvou-se ao ouvido de Maria que fazia oração no altar do Sanctissimo, e disse-lhe:
—Demora te um pouquinho que eu vou confessar uma pessoa:—E, chamando Belchior:—Vae a caza, abre o segundo gavetão da commoda, e traze a toalha grande de rendas que está engomada, para ministrar a communhão áquelle senhor que vou confessar.
* * * * *
O Commendador sahiu da sacristia meia hora depois, e foi ajoelhar no primeiro degráo do altar-mór. Maria, como visse sahir o abbade e acenar-lhe para o confessionario, ergueu-se, passou rente do desconhecido, com os olhos no chão, e a gola do capote apanhada nas faces.
Belchior tinha vindo com a toalha de folhos encanudados que desdobrava e ageitava para o sagrado ministerio. Depois, entrou na sacristia com o galheteiro, renovou a agua e o vinho, dobrou e sacudiu a toalhinha de modo que a porção ainda não maculada servisse ao lavatorio. De vez em quando, sahia ao limiar da sacristia, e quedava-se a olhar para o commendador, que se conservava de joelhos, com a cabeça abaixada, amparando a fronte nas mãos erguidas.
O abbade sahiu do confessionario a manquejar trôpego, amparando-se á teia gradeada de um altar. O filho de Maria Ruiva foi dar-lhe o braço, e o ancião queixava-se de dores rheumaticas nos joelhos e nos rins. A confessada subiu até á capella-mór, e ajoelhou atraz do brazileiro, lendo actos de contricção e a ladainha.
O abbade começára a revestir-se para ir celebrar, quando o commendador se levantou, e de passagem para a sacristia, relançando os olhos a Maria, pôde ver-lhe o rosto alumiado pela restea refracta do sol que lampejava palpitante atravez da fresta, na superficie metalica de uns tocheiros doirados. Não a conheceria, se a encontrasse. Aquelle rosto havia sido purpurino, assetinado como as petalas das rosas humidas pelo rosciar das formosas madrugadas. Tivera as curvas boleadas e lizas da saude, da força, dos atritos do ar forte e do sol que enrubesce a epiderme e colóra o sangue.
Estava magra, angulosa e livida como as santas esculpturadas sob a inspiração do martyrio; mas esta maceração era a formosura divinal da alma, era a sanctificação da mulher aos olhos d'aquelle homem.
Entrou na sacristia, e com tremula voz disse ao padre:
—Sr. abbade, peço-lhe que antes de subir ao altar, chame aqui a sua confessada.
—Aqui?!—perguntou o abbade com espanto—Ella é muito acanhada…
Presumia que o commendador desejava simplesmente vêr de perto a mulher cuja desgraçada historia o commovêra.
—Não importa—volveu o brazileiro—é urgente que ella aqui venha antes que o sr. abbade nos dê a communhão.
—Sim?!—volveu o padre—Pois bem…
E, sahindo ao umbral da sacristia, chamou a filha de Silvestre.
Ella entrou com timidez e assombro. O filho, que suspendia ainda nas mãos as dobras da alva que o padre estava vestindo, largou-as, deixou pender os braços, e empedrou na expressão immovel da curiosidade.
N'este lance, o commendador apresentou ao abbade meia folha de papel sellado, e pediu-lhe que a lesse. O padre pediu a Belchior que lhe chegasse os oculos, pôl-os tremulamente, acercou-se de uma fresta, e, lendo primeiro a assignatura, disse:
—É a assignatura de sua eminencia o sr. arcebispo de Braga?…Conheço-a…
Ergueu a vista ao alto da folha, e leu:
Concedemos ao abbade de Santa Maria d'esta nossa diocese, no concelho de Villa Nova de Famalicão, que possa, sem previa leitura de banhos, celebrar o sacramento do matrimonio entre os contrahentes de maior idade…
Aqui, o abbade estacou, abriu demasiadamente os olhos, acertou os oculos na baze do nariz, premiu as palpebras com o dedo pollegar, repôz de novo os oculos, e disse ao filho de Maria:
—Ó rapaz, que nomes são estes que estão n'este papel?
O carpinteiro leu:entre os contrahentes de maior idade BelchiorBernabé, filho de pais incognitos, e Maria Lopes, filha legitima deSilvestre Lopes e…
—Que é isto?—exclamou o abbade—Santo Deus! que é isto?
—Belchior Bernabé—disse o rapaz com o mais candido assombro—sou eu!…
—Belchior Bernabé é teu pai, meu filho!—exclamou o commendador, abraçando-o; e, ao mesmo tempo, encurvando o braço pelo collo de Maria, puxou-a para o peito, tocou-lhe com os labios ardentes como as lagrimas na face, e murmurou-lhe soluçante:—Aqui me tens, minha desgraçada Maria! aqui está o pobre engeitado!…
Ella expediu um grito estridente como o da alegria dos encarcerados, dos condemnados á eterna deshonra que viram inopinadamente golphar-lhes na treva a luz do ceo e a rehabilitação da honra. Queria reconhecel-o, tateando-lhe as faces; mas faltou-lhe a claridade dos olhos e a lucidez da rasão. Ella pedia luz, pedia a Deus que a não deixasse morrer, e desfallecia pendente do pescoço de Belchior.
* * * * *
A felicidade de Maria era santa: custára vinte annos de affrontas soffridas com paciencia, sem revolta contra a implacavel barbaridade do pai, nem contra a immobilidade das forças divinas. Esperara em Deus, esperara sempre. Dizia ella que sonhara aquillo mesmo—a vinda de Belchior, e a restauração da sua honra.
Contava-o ella ao abbade, e ao esposo, e ao filho, á porta do templo: e elle, o ancião, com as rugas da face luzentes de lagrimas, dizia:
—Fui eu quem vos baptisou, e quem vos casou, meus filhos. Agora, enterrai-me vós que eu não tenho ninguem.
* * * * *
Belchior Bernabé exigiu como dote de sua mulher o estabulo dos bois edificado sobre os alicerces da caza onde fôra recolhido e aquecido ao seio da tecedeira. Ali, onde foi cabana de candura e oração, está hoje um palacete com as mesmas coisas divinas, accrescentadas pela felicidade do amor. Vê-se de longe o palacio do commendador Belchior; e lá ao pé, no interior do palacio, as pompas da architectura e das decorações desapparecem deslumbradas pelo que ha de immortal nas obras humanas: a virtude. Lá está o abbade resignatario de Santa Maria entrevado: mas todas as manhãs é transferido da cama para a cadeira que lhe fez o seu Belchior Junior, aquelle rapaz, que não resiste á vocação de carpintejar, e está fabricando uma nova cadeira de rodas e molas para o seu velhinho.
Ao Visconde de Ouguella
Sejamos amigos como foram nossos pais, e deixemos a nossos filhos o exemplo que recebemos
Foi ha treze annos, em uma tarde calmosa de agosto, neste mesmo escriptorio, e n'aquelle canapé, que o cego de Landim esteve sentado. São inolvidaveis as feições do homem. Tinha cincoenta e cinco annos, rijos como raros homens de vida contrariada se gabam aos quarenta. Resumbrava-lhe no semblante anafado a paz e a saude da consciencia. Tinha as espaduas largas: cabia-lhe muito ar no peito; coração e pulmões aviventavam-se na amplidão da pleura elastica. Envidraçava as pupilas alvacentas com vidros esfumados, postos em grandes aros de ouro. Trajava de preto, a sobrecasaca abotoada, a calça justa, e a bota lustrosa; apertava na mão esquerda as luvas amarrotadas e apoiava a direita no castão de prata de uma bengala.
Eu não o conhecia quando me deram um bilhete de visita com este nome—ANTONIO JOSÉ PINTO MONTEIRO.
Em S. Miguel de Seide, uma visita, que se fizesse preceder do seu cartão, era a primeira.
—Quem é?—perguntei ao creado.
—É o cego de Landim.
—E esse cego quem é?
O interrogado, para me esclarecer superabundantemente, respondeu que era o CEGO, como se se tratasse de um cego por excellencia e de historica publicidade: Tobias, Homero, Milton, etc.
Mandei que o conduzissem ao meu escriptorio. Ouvi passos que subiam rapidos e seguros uns doze degráos: e, no patamar da escada, esta pergunta muito sacudida:
—Á esquerda ou á direita?
—Á esquerda—respondi, e fui recebel-o á entrada.
Estendeu-me firme dois dedos, e desfechou-me logo em estylo de presidente de camara municipal sertaneja ás pessoas reaes, uma allocução á minha immortalidade de romancista, lamentando que eu ainda não tivesse em Portugal uma estatua… equestre; parece-me que elle não disse estatua equestre. Achei-lhe rasão. Eu tambem já tinha lamentado aquillo mesmo; porém, cumpria-me regeitar modestamente a estatua, como o duque de Coimbra, agradecendo a virginal lembrança do sr. Pinto Monteiro.
—Tenho ouvido ler os seus livros immortaes—disse elle—Não os leio porque sou cego.
—Completamente?—perguntei, parecendo-me incompossivel a cegueira absoluta com a segurança da sua agilidade nos movimentos.
—Completamente cego, ha trinta e trez annos. Na flôr da idade, quando saudava as flôres da minha vigesima segunda primavera, ceguei.
—E resignou-se…
—Se me resignei!… Morri de dôr, e resuscitei em trevas eternas… O sol, nunca mais!
Pungia-me a compaixão. Disse-lhe consolações banaes; citei os mais luminosos cegos antigos e recentes. Nomeei-lhe o principe da lyra peninsular, Castilho, e elle atalhou:
—Castilho tem o genio que vê as coisas da terra e do ceu. Eu tenho as duas cegueiras do corpo e da alma.
Achei-o eloquentemente sobrio e áttico; figurou-se-me até litterato dos bons. Lembrei-me se elle vinha convidar-me para fundarmos um jornal em Landim, ou se viria pedir-me para o propôr socio correspondente da academia real das sciencias.
Discretiamos de parte a parte em variados assumptos, até que elle explicou as suas pretenções. Tinha um litigio pendente sobre a posse disputada de umas azenhas que lhe haviam custado tres contos de réis, e pedia a minha valiosa preponderancia afim de que os juizes de segunda instancia lhe fizessem justiça inteira.
Observei-lhe que a minha influencia poderia ser-lhe necessaria, se a justiça estivesse da parte do seu contendor; por quanto, quem não tem justiça é que pede.
—Apoiado!—interrompeu elle—A razão diz isso; mas acontece que o meu contendor pede porque não tem justiça; ora não vão os juizes cuidar que eu tenho mais confiança na lei do que n'elles…
Pareceu me sagaz, argucioso e um pouco germanico o cego.
Deu-me quatro memoriaes, accendeu o terceiro charuto, e ergueu-se. Acompanhei-o até ao portão, e vi-o cavalgar com garbo quasi marialva uma vistosa egua, passar as redeas falsas pelas outras com destreza, esporear e partir sósinho.
* * * * *
Ora, o cego perdeu a demanda das asenhas por que as asenhas não eram perfeitamente d'elle, e eu não podia pedir aos desembargadores que as tirassem ao dono e m'as dessem a mim para eu as dar ao cego.
Nunca mais o vi. Retirou-me a admiração e mais a estatua. E, cinco annos depois, morreu.
A historia dos homens descommunaes deve começar a escrever-se á lampada do seu tumulo. Á luz da vida tudo são miragens nas acções dos heroes e estrabismos na contemplação dos panegyristas. É tempo de bosquejar o perfil d'este homem esquecido, e quem quizer que o tire a vulto em marmore mais presistente. Pretendo desmentir os aleivosos que reputam Portugal um alfôbre de lyricos, romancistas salobros de amoríos de aldeia, porque não temos personagens bastantemente succulentos de quem se espremam romances em 4 volumes.
Nascera em Landim em 11 de dezembro de 1808.
1808! Os biographos portuguezes, se escrevem de pessoa nascida n'aquella data ou por perto, relatam-nos derramadamente a revolução franceza a começar em Luiz XVI, exhibem a guerra peninsular, e concluem o curso de historia moderna ligando fatidicamente á evolução social o nascimento d'aquelle sujeito.
No anno 1808, uma das muitas pessoas que nasceram sem pesarem um escropulo, pelo pezo velho, na balança dos lusos destinos, foi aquelle Antonio José Pinto Monteiro.
Seu pai barbeava em Landim com ferocidade impune. A espada de Affonso Henriques e as navalhas d'elle tem tradições sanguinarias. Ainda hoje, transcorridos setenta annos, os netos dos seus freguezes parece que herdaram a sensação dos gilvazes dos avós. Em Landim falla-se d'elle como de Torrequemada em Valhadolid. Aquelle barbeiro é uma lenda como a de Gerião, assassinado por Hercules, e a do monstro de Rhodes cantado por Schiller.
Antonio, o primogenito d'este esfolador, estudou primeiras lettras com rara esperteza. Aos onze annos, era prodigio em taboada e bastardinho. Aos doze, imitava firmas com perfeição despremiada, e vingava-se do menospreço em que o estado o esquecia, estabelecendo correspondencias entre pessoas que não se correspondiam, mediante as quaes, uma vez por outra, agenciava alguns pintos.
Como talentos taes não se atabafam muito tempo debaixo do alqueire, o rapaz soffreu algumas contuzões. Um monge benedictino de S. Tyrso compadeceu-se do moço, em tão verdes annos perdido, á conta da sua habilidade funesta: pagou-lhe passagem para o Brazil, porque sabia que os ares de Sancta Cruz são como os do Eden para refazer innocentes.
Empregou-se como caixeiro no Rio. Foi estimado nos primeiros trez annos. Estremava-se dos seus broncos patricios no dom da palavra, nas lerias aos freguezes, nos ardis licitos do balcão, nas ladroices consuetudinarias que affirmam a vocação pronunciada, as quaes, no calão da optica mercantil, se chamam: «lume no olho.» Nas horas feriadas, lia applicadamente e tangia violão. A sua especialidade litteraria era a eloquencia tribunicia. Estudara francez para ler Mirabeau e Danton. Enchera-se d'elles, e ensaiava republicas federalistas com os caixeiros, pedindo cabeças de reis a uns pobres parvajolas que suspiravam apenas por cabeças de gorazes.
Os patrões não farejaram um acabado Robespierre no caixeiro; mas, como desconhecessem a vantagem da apotheose dos girondinos em uma loja de molhados, expulsaram-no como republicano.
Pinto Monteiro intrommetteu-se na politica brazileira, iniciou-se na maçonaria em 1830, fez discursos vermelhos contra o imperador e escreveu clandestinamente. Esteve assim na fronteira do paiz promettido aos eternos Paturots. É indeterminavel o estadîo que elle ganharia, se um militar imperialista lhe não cortasse o rosto com um latego. Uma das tagantadas contundiu-lhe os olhos. Pinto Monteiro cegou.
Reagiu ao desastre com peito de ferro. Menos rija alma ingolphara-se na espessura da sua treva. Elle não. Pediu ao inferno luz emprestada para entrar na vareda das suas victimas. Accendeu interiormente, no carcere do seu espirito, a lampada do odio. A vingança leval-o-hia pela mão, como Malvina ao cego de Macpherson. Perdoa-me a comparação, ó bardo caledonio!—que eu já vi Marat comparado a Jesus Christo.
Quando lhe deram alta na barra da enfermaria, pediu o seu violão, sahiu ás praças, preludiou e cantou umas trovas com arpejo triste, ás portas dos argentarios e dos taverneiros. As trovas faziam saudades da patria, e a musica gemia as toadas dos lunduns do Minho. Os ouvintes contemplavam-no com dó e davam-lhe esmolas avultadas para regressar a Portugal, ao ninho seu. Tinha elle um moço: era portuguez ilheu, alguns annos mais novo. Levara-o a doença, a podridão do vicio á mesma enfermaria; e a penuria e o instincto vincularam-no ao cego. Chamava-se Amaro Fayal; mas os que lhe conheciam as prendas corrompiam-lhe o appellido, e chamavam-lhe o AmaroFaiante. Pessoas escassas de caridade indulgente diziam que a maldade do cego e os olhos do moço completavam dois refinados maraus.
Pinto Monteiro trajava limpamente, banqueteava-se á proporção, e dulcificava os confortos cazeiros com o amor de uma aventureira mal prosperada como tantas que o archipelago açoriano exportava consignadas aos Cressos da rua do Ouvidor, que pachalisavam nas chacaras da Tejuca. Creara uma sociedade nova. Acercara de si toda a vadiagem suspeita, os ratoneiros já marcados com o stigma da sentença, os mysteriosos, famintos sem occupação, negros e brancos, não topados ao acaso, mas inscriptos nos registros da policia, e afuroados pela sagacidade de Amaro Fayal. Tinha lido asMemorias de Vidocq,—o celebrado chefe de policia de Paris. Encantara-o a equidade do governo que elevara Vidocq, o ladrão famoso, áquella magistratura: por que elle, por espaço de vinte annos, exercitara o latrocinio e grangeara nas galés os amigos que depois entregava á grilheta.
Pinto Monteiro organisou a bohemia que, até áquelle anno, roubando sem methodo nem estatutos, exercitara a ladroeira d'um modo indigno de paiz em via de civilisação. Fez-se eleger presidente por unanimidade e nomeou seu secretario Amaro Fayal. Havia um proposito quasi heroico n'este feito, como logo veremos. Investido d'esta presidencia incompativel com as artes lyricas, depoz o violão, e, á semelhança do poeta latino, immudeceu os cantares,tacuit musa. Sentia-se no congresso uma alma nova, cheia de fomentos e apontada a rasgar horisontes dilatados.
Quem ouvisse discursar o presidente sociologicamente, ficaria em duvida se furtar era sciencia ou arte. Pinto Monteiro enxertava nas suas prelecções sobre a propriedade umas vergonteas que depois enverdeceram com estylo melhor nas theorias de Cabet. Os malandrins mais intelligentes, depois que o ouviram, desfizeram-se de escrupulos incommodos, e entre si assentiram que não eram ladrões, mas simplesmente desherdados pela sociedade madrasta, e victimas d'uma qualificação já obsoleta. A terminologia do livro 5.^o das Ordenações em um paiz joven, exhuberante, e que tem o sabiá e o côco, era uma anomalia.
D'esta arte organisada a quadrilha, sob a influencia auspiciosa de um cerebro pensante, os cidadãos eram roubados mais artisticamente; na empalmação dos relogios conhecia-se que havia ideas de physica, de mechanica, de equilibrio, de dynamica e sciencias correlativas. Os alumnos da reforma parecia collaborarem noManual do prestidigitadorde Roret, e abandonavam como archaismo aos poderes publicos aArte de furtarde quem quer que seja.
A sociedade prosperava a olhos vistos, posto que o prezidente não tivesse olho nenhum:—N'esta independencia dos orgãos de relação prova a alma a sua immortalidade. Foi então que Pinto Monteiro e o secretario, munidos dos livros de registo e de toda a escripturação, se apresentaram ao chefe da policia Fortunato de Brito.
Eis aqui a reputação de um homem sacrificada á extirpação do crime. OsCodros e os Curcios, na restauração da moral publica, fazem isto.
O chefe da policia conveio nas propostas de Pinto Monteiro, que estatuira conservar-se na confidencia dos ladrões e delatar a paragem dos roubos quando no descobril-os redundassem á policia creditos e interesses. O cego esclarecera Fortunato sobre a organisação do funccionalismo policial em Paris, ensinara-lhe alvitres ignorados, e promettia auxilial-o n'um ramo ainda mal cultivado no Brazil—a espionagem politica.
Surtiu os previstos resultados a perfidia. Os larapios mais soezes eram arrebanhados para a casa da correcção; mas os ladravazes mais ladinos poupava-os o presidente para não perturbar de improviso o equililibrio do cosmos. É necessario que haja escandalos, diz o Evangelho.
Como agente secreto de policia recebia do cofre do estado; como chefe da «Associação dos desherdados», auferia o seu quinhão do peculio commum, afora as forragens da presidencia, etc.
Este periodo da vida do cego durou cinco annos; as duas rendas sobejavam-lhe á fartura do passadio; principiou Monteiro a engrossar o peculio, quando a delator e agente ajuntou o estipendio de espião.
Voltando ás antigas camaradagens politicas, fallou nas sociedades secretas com exacerbada virulencia; e, victima do dispotismo militar, mostrava os olhos estoirados e baços com a dolente magestade do general Belizario, vencedor dos hunos.
Constou ao governo que Pinto Monteiro ousára pedir um Cromwell de quem elle cego fosse o Milton. A comparação seria modesta, se não fosse sanguinaria. O governo brazileiro, com a subtileza propria dos cerebros formados com tapioca e ananaz, intendeu que o pescoço do sr. D. Pedro II era ameaçado pelo cego com a tragedia de Carlos Stuart.
A Fortunato de Brito foi ordenado que vigiasse e processasse o sedicioso cego. Intalação! O chefe de policia foi explicar ao seu ministro que os discursos de Pinto Monteiro eram boízes armadas a passaros bisnáos de mais alta volateria. O conflicto remediou-se prescindindo o espião da oratoria, e attendendo sómente a seguir o rastilho das revoluções urdidas no Rio, para rebentarem nas provincias.
Como em meio de tanta lida ainda lhe sobrava tempo, Monteiro ensaiou por sua conta, e sem auxilio da malta, uma reversão de propriedade, termos adquados á sua qualidade de desherdado.
Havia morrido um carroceiro quando, avençado com o cego, experimentava a sua fortuna em aventuras de moeda falsa, mandando abrir os cunhos no Porto.
A cidade da Virgem tem tido filhos de raro engenho na gravura; mas os seus concidadãos, desamoraveis com as graças do buril, crearam á volta d'elles uma atmosphera fria de desalento, e no pedestal em que os sonhadores, como Morghen e Bartolozzi, entreviram a gloria a offerecer-lhes umas sopas de vaca, o menospreço publico poz-lhes a fome. Seria bonito para o martyrologio da arte que os honrados alumnos da Academia das bellas-artes se deixassem perecer de anemia; porém, as poderosas reacções do estomago impulsaram-nos a acceitar o unico lavor que se lhes offerecia: abrir cunhos de moeda. Este ramo das artes imitativas floriu no Porto como planta indigena, a termos de haver ali trabalhos excellentes e muito em conta. Já se conheciam os gravadores portuenses como hoje se conhecem os capellistas da rua de Cedofeita:—o primeiro barateiro, o rei dos barateiros, o barateiro sem competidor. Faziam-se notas a 5% quando a arte estava no berço, ainda timorata; depois, á medida que a prosperidade das emprezas internacionaes augmentava o pedido, os bons artistas davam de mão aos brazões dos sinetes, ás chapas dos portões e ás firmas dus anneis; e, rivalisando-se no primor e na barateza da obra, já davam um conto de notas falsas por dez mil reis sinceros.
Era este o preço da dezena de contos que o carroceiro mandara comprar por intermedio de Pinto Monteiro, e não chegara a receber, atalhado pela morte. Deixára, porém, segredado á viuva que se entendesse com o seu amigo Monteiro, quando lhe entregassem a encommenda.
Não sei se estas notas eram parte de uns tresentos contos que por esse tempo sahiram do Porto para o Brazil dentro da imagem do Senhor dos Passos. Não averiguei as profanações que se deram n'essa remessa; o que sei é que a viuva avisou o cego; e que, no mesmo dia do aviso, o chefe da policia colhia de sobresalto a viuva, escondendo o rolo das notas entre o guarda-infante e a parte subjacente que ella julgava intangivel aos contactos brutos dos esbirros.
Levada a interrogatorios, foi pronunciada; mas, desde que ella entrou no carcere, Pinto Monteiro, consternado até ás lagrimas, assistiu-lhe com a mais desvelada bemquerença, constituindo-se seu procurador.
Esta mulher herdara a independencia. Gemeu em ferros seis annos cumprindo a cummutação d'uma sentença que a condemnava a degredo para a Ilha de Fernando. Essa commutação custara-lhe o restante dos seus haveres, absorvidos pelo cego de Landim. Quando sahiu do carcere, e se viu roubada pelo amigo de seu marido, e reduzida a mendigar, denunciou ao chefe da policia a cumplicidade de Monteiro no negocio das notas. Fortunato de Brito conveio que o seu agente era infame maior da marca: mas fazia se mister que tivesse aquelle tamanho para dar pela barba á corpolencia da corrupção. O cego de Landim gosava a inviolabilidade de mal necessario.
A extorsão feita á viuva divulgou-se e acerbou os antigos odios contra Pinto Monteiro. De mais a mais, elle tinha offendido o espirito dos estatutos, que eram obra sua. Os consocios acharam irregular e menos honesto que o seu presidente levasse o egoismo á extremidade de reivindicar só para si direitos de propriedade commum. Toda a propriedade alheia era d'elles todos, pelos modos. Alguns d'estes, mais penetrantes, incutiram no phalansterio a suspeita de que o chefe tivesse intelligencias com a policia. Um mulato de grandes brios, notavel capoeira, e muito summario nos processos d'aquella especie, fez lampejar o aço da sua faca e declarou que ia anavalhar o redenho do cego.
Quando esta scena tumultuaria se passava na taverna do João Valverde, na rua do Catête, Pinto Monteiro e Amaro Fayal já estavam a bordo da galeraTentadora, que velejava para o Porto.
Em setembro de 1840 appareceu em Landim Pinto Monteiro e o seu chamado guarda-livros. Acompanhava-os a açoriana, intitulada honorificamente esposa do cego. Era uma mulher desnalgada, sardenta, ruiva, alta e possante, com bretoejas rosaceas na testa, e um caracol de barba no queixo inferior. Galhardeavamoírées, calçava botas verdes, e trazia uns merinaques que rugiam como as cavernas dos ventos.
Pinto Monteiro alugou casa em quanto reedificava outra sobre o casebre de seus pais. O guarda-livros dizia com certo resguardo que o patrão era muito rico. Convergiram logo das freguezias circumvisinhas bastantes cavalheiros a visital-o, uns porque haviam sido seus condiscipulos na escola, outros por parentesco não remoto.
O cego banqueteava os seus hospedes com iguarias incognitas apimentadas por cosinheiras negras. Os commensaes, gente saturada de vegetaes e milho, comiam á tripa fôrra, e levavam em si d'aquella mesa lauta raras indigestões, muitas saudades e copia de vinhos. O cego tinha uma irmã dez annos mais nova, que surgiu com bandós, dom e espartílhos d'entre um balão da cunhada. Fallou-se do casamento da moça, dotada pelo irmão com dez contos. Os morgados já corveteavam os seus pôtros por Landim, e de longes terras vinham propostas de casamento, por intermedio de padres e beatas. A rapariga, que eu conheci a encanecer na decadencia dos cincenta annos, devia ter sido uma trigueira sanguinea com as mordentes graças das sobrancelhas travadas, e negras como a pennugem do bigode.
Pinto Monteiro passava temporadas no Porto com Amaro Fayal. Era ali que elle cumpria a mensagem a que fôra enviado pelo chefe da policia fluminense. Viera, sob condições estipuladas, relacionar-se com os exportadores de moeda-falsa, e estatuir, de harmonia com os interessados, bazes organicas e auspiciosas para negocio menos precario. O resultado, previsto pelo cego e applaudido por Fortunato de Brito, era a policia conhecer no imperio brasileiro os cumplices dos agentes que residiam no Porto, e, de uma vez para sempre, abranger em rede varredoira os principaes.
Conseguira captar a confiança dos dois gravadores mais habilidosos e conhecidos alem-mar; mas um d'elles, Coutinho, o ancião que eu vi morrer na enfermaria da Relação em 1861, não delatou as pessoas com quem negociava, posto que o cego lhe garantisse uma velhice abastada nos confortos da honra. O outro artista, que morreu rico, apezar de se ter remido da cadeia á custa de dezenas de contos, tambem não denunciou os seus freguezes; mas convidou o cego a mercar-lheau rabaisuns cincoenta contos, resto da ultima edição.
E o cego comprou-os.
Em 1841, a hospedaria dilecta dos brazileiros de profissão (distingam-se assim dos brazileiros do Brazil) era a do Estanislau na Batalha. Ali havia a sem ceremonia do chinello de liga á meza-redonda; os collarinhos arregaçados deixavam arejar as pescoceiras rorejantes de suor, que se limpavam aos guardanapos; cada qual podia comer o arroz com a faca e o talharim com o garfo; a laranja era descascada á unha, e os caroços das azeitonas podiam ser cuspidos na meza, bem como as esquirolas do pernil do porco desentalladas a palito das luras dos queixaes. E era até de direito commum cada qual caçar deguet-apensa importuna mosca na cara e decapital-a publicamente. Estava-se ali á vontade, como nos jantares de Peleu e Patroclo, com um grande estridor de mastigação e arrôtos.
O cego hospedava-se noEstanislau, e dizia ao secretario:
—Estamos com a nossa gente, Amaro amigo.
A idade, a compostura e o palavriado, com a reputação de rico, deram-lhe na meza o logar mais auctorisado. Os brazileiros, vindos do Rio, conheciam aquella figura; alguns sabiam que o homem se tinha arranjado com expedientes mysteriosos; mas isto mesmo era qualidade meritoria e relevante no commensal. Rosnava-se de moeda-falsa; até alguem teve a ousadia de repetir o boato corrente ao guarda-livros. Amaro Fayal deu aos hombros, sorrindo, e disse:
—A moeda-falsa é commercio como qualquer outro, com vantagens em proporção dos riscos. Negocio execrando só conheço um: é o da escravatura. Ha tambem uns negocios que, depois de muitos annos de estafa, não deixam nada: esses chamam-se negocios tolos. Assevero lhes que a riqueza do sr. Pinto Monteiro não se fez com a escravaria.
Estava lançado o dardo. Esta franqueza deu margem a discussões, nas quaes o cego e o Fayal descobriram entre os contendores os menos escrupulosos. Volvidos alguns dias, Pinto Monteiro tinha vendido os cincoenta contos de notas a um brazileiro da Maya, e era encarregado de agenciar cem contos para outros que o primeiro alliciara. N'esta transação cobrára o cego percentagem, e pedira sociedade no quinto dos interesses, com a clausula de dirigir no imperio a circulação da moeda-papel. Pactuaram a viagem para julho d'aquelle anno. Pinto Monteiro convencionou acompanhal-os, a fim de liquidar o restante dos seus haveres, dar impulso ao negocio e vir depois descançar na patria.
Depois de uma demora de dois mezes, Pinto Monteiro recebeu no Porto a infausta nova de que a açoriana, captiva das negaças de um hespanhol operador da catarata, fugira com elle para a Galliza. Bacorejou-lhe ao cego que estava roubado, e o palpite funesto realisou-se.
A quantia devia ser valiosa, por que o trahido amante suspendeu as obras começadas e desfez contractos apalavrados de compras. Ficou na memoria dos contemporaneos a respeito da perfida, uma palavra do cego, significativa de sua indole:
—Se o hespanhol levasse a mulher e me não levasse o dinheiro, penhorava-me bastante. Como me tirou as cataratas do coração, pagou-se por suas mãos o patife!
A opinião publica de Landim irritou-se quando soube que a fugitiva era simplesmente manceba do cego. A moral exigia que elle fosse marido, para não se desvaliarem os quilates do escandalo.
No mez aprasado, Pinto Monteiro regressou ao Rio de Janeiro, acompanhado de sua irmã D. Anna das Neves. Embarcaram no Porto com elle os amigos e socios grangeados no hotel. O brazileiro da Maya, comprador dos cincoenta contos, levava algumas pipas de vinho verde, e uma d'estas vasilhas havia sido fabricada, conforme o modêlo que dera o cego, e sob a fiscalisação de Amaro Fayal. No reverso das quatro aduelas do bojo pregaram um quadrado de madeira com chanfradura onde invasasse o rebordo de um caixote de flandres; a pregagem do quadrado ficava occulta debaixo de quatro dos arcos de ferro. O caixote continha duzentos contos em notas brazileiras, e era estanhado nas juncturas de modo que o liquido as não penetrasse, atravez de uma grossa capa de chumbo.
Chegados ao Rio, a carregação entrou nos armazens da alfandega, e Pinto Moreira com a sua familia hospedou-se em casa de Fortunato de Brito. Ao apontar o dia seguinte, os passageiros delatados pelo cego eram prezos; a pipa despejada e desfeita; e o caixote das notas conduzido ao tribunal para se lavrar aucto. Os quatro portuguezes morreram no degredo, perdidos os haveres que já tinham adquirido honradamente. Pinto Monteiro recebeu dez contos de réis, os 5% estipulados e deduzidos da preza.
O leitor vai descobrindo que eu não estou escrevendo um romance. Consta me que, no Rio, os homens que já o eram ha trinta annos, recordam estes factos com algumas miudezas que não pude obter nem já agora inventarei. Os meus apontamentos são exactissimos no summario das excentricidades do cego; mas escassos dos pormenores que eu rigorosamente quizera não omittir.
Aqui me contam elles os amores da morena filha de Landim com o chefe da policia. Este episodio poderia ser o esmalte do meu livrinho, se em um chefe de policia coubessem scenas de amor brazileiro, morbidas e somnolentas, como tão languidamente as derrete o sr. J. d'Alencar. Em paiz de tanto passarinho, tantissimas flores a recenderem cheiros varios, cascatas e lagos, um ceo estrellado de bananas, uma linguagem a suspirar mimices de sutaque, com isto, e com uma rêde—ou duas por causa da moral—a bamboarem-se entre dois coqueiros, eu mettia n'ellas o chefe da policia e a irmã do cego, um sabiá por cima, um papagaio de um lado, um saguí do outro, e veriam que meigas moquenquices, que arrulhar de rôlas eu não estylava d'esta penna de ferro! Mas eu não sei se me acreditariam coisas tão perigrinas entre o virginal Fortunato, chefe da policia, e ella, a menina Neves que já havia colhido as boninas de vinte e nove primaveras nas florestas do seu Minho, onde a maroteira é pre-historica.
Amores e desventuras de peor natureza nos levam a outro incidente, e ahi veremos que Pinto Monteiro fareja todos os latibulos em que se acoite algum crime, e não consente que a corrupção do seculo XIX ponha pé em ramo verde no novo mundo.
Certa carioca, esposa de um João Tinoco, portuguez, fizera assassinar com veneno o marido por um escravo: mas com tal resguardo que o conjugicidio não escoou dos muros da chacara onde ella impunemente se dava ás delicias de Agrippina. Isto de chamar Agrippina á viuva de João Tinoco é excesso de erudição. Ella não tinha idéa nenhuma de ser posta em parallelo historico com a envenenadora de Claudio; o que ella queria era que a deixassem gostar as alegrias da viuvez de um marido que entrara em casa de seu pae como aguadeiro; e, exaltado a esposo, a quizera forçar a fidelidades incombinaveis com o clima, desenvolvendo de mais a mais um excedente de calorico na esposa com o atricto do murro portuguez de lei.
Tinoco tivera um caixeiro que expulsara quando lhe descobriu capacidade para o adulterio, segundo informações de um marçano que vira piscarem-se reciprocamente os olhos direitos á sinhá e o caixeiro. Eis o fio que conduz o cego até ao thalamo infamado e d'ahi á campa do inulto João Tinoco. O assassinado tinha irmãos abastados no Rio. Pinto Monteiro revela-lhes que seu mano morrera de morte violenta, e, coberto de lagrimas, não podendo mostrar os intestinos dilacerados de Tinoco, como Antonio a tunica de Cesar, põe as mãos convulsas no ventre, e exclama:
—Despedaçaram-lhe as entranhas as agonias do arsenico! etc.
Fez terror.
Rugem vingança os irmãos; o cego dá vulto ás difficuldades das provas judiciarias; franqueiam-lhe dinheiro sem conta, e um grande premio, se a prova se fizer.
Vejam os profundos segredos do ceu! Os crimes obscuros quasi nunca é a lampada da virtude que os descortina; são sempre os cerdos que fossam e tiram á tona dos lamaceiros as podridões submersas.
Pinto Monteiro fez surdir á flôr da terra as podridões de Tinoco, e a toxicologia declarou que o homem morrera envenenado pela massa de Frei Cosme. Não vá o leitor cuidar que entra na novella um frade que manipulava massas homicidas. Não, senhor. Amassa de Frei Cosmeé uma farinha saturada de arsenico.
A viuva não pôde defender-se, desde que a negra confessou que envenenára o amo em um timbal de borrachos, por ordem da senhora. Degradaram por toda a vida a ré convicta, privando-a dos bens herdados do esposo. Com a chacara preciosa foi galardoada a benemerita sollicitude de Pinto Monteiro—o vingador de Tinoco e da Moral, que eu sempre escreverei com o M maior que eu podér.
Fortunato de Brito, o chefe da policia, foi demittido por este tempo. Antonio José Pinto Monteiro resolveu repatriar-se. A denuncia dos moedeiros açulara-lhe muitos e poderosos mastins. A imprensa brazileira insultava a colonia portugueza pelo facto do crime e pelo facto do delator. A equidade foi estranha aos odios e injurias que golpearam Monteiro. Não lhe descontaram na perfidia as vantagens commerciaes que derivaram d'ella. Cessára o panico e o terror imminente de um cataclismo no credito e nas casas bancarias. A policia, allumiada pelo cego, sabia as veredas que em Portugal conduziam aos balancés. A gente honesta, e, o commercio honrado rejubilavam com a traição de Pinto Monteiro; mas, atidos ao velho proloquio onde não reluz faúla de philosophia pratica, execravam o homem que levara ás plagas do degredo os salteadores da probidade incauta.
Esta victima ainda não estava inscripta no martyriologio dos grandes lapidarios da civilisação.
Os meus informadores, que mais privaram na intimidade de Pinto Monteiro, dizem que elle, no segundo regresso a Portugal, trouxera, além de secretario, dois filhos, que deixára no Porto a educar no collegio da Lapa, e uma filha ainda muito na flôr da mocidade. Da mãe d'estes meninos, que pouco ha vivia ainda nos arrabaldes do Rio de Janeiro, não ha nada romanesco; mas bem póde ser que houvesse da parte d'ella um profundo sentimento de dó com muitissima abnegação de si mesma; e no coração do cego com certeza houve extremoso amor de pai. Os tigres sempre tem, e os homens costumam ter ás vezes este sancto instincto de amarem os filhos.
Vinte e tantos contos prefaziam os haveres de Pinto Monteiro. Concluiu as obras principiadas, comprou terras, e dirigiu pelo tacto as bemfeitorias que fez no predio que habitava. Ha duas horas que eu estive a reparar, por cima do muro do jardim, na graciosa vivenda que elle enchera de luz como se um beijo do sol de agosto podesse descondensar a algida escuridão de seus olhos. Ali passaram alegres dias os seus convivas sob os caramancheis das parreiras. O grande prazer de Monteiro era dar banquetes opiparos.
Ouvia lêr asArtes de cosinha, conhecia Brillat-Savarin, enchia-se do fino sentimento dos guisados; e, apontando a petuitaria aos vapores das cassarolas, marcava quando era sobejo o cravo ou escasso o colorau. Fazia pensar se a vista, voltando-se para o interior, penetrava nos refêgos membranaceos o ideal do estomago! Se um cego illustre deplorava o perdido paraiso, outro cego parecia tel-o encontrado na cosinha.
Elle, que na America posera o cauterio á ladroagem, á falsificação das notas e ao adulterio aggravado pelo homicidio, não sabia como amordaçar a maledicencia dos seus conterraneos, se não occupando-lhes as linguas no trabalho da deglutição. A cada injuria que lhe chegava aos ouvidos, mandava comprar dois leitões.
—Mano Antonio, dizem que tu entregaste os ladrões ao chefe da policia—dizia a menina Neves.
—Dizem? pois, visto que não os posso entregar a elles, compra um peru e dá-lh'o ámanhã com recheio.
—Mano Antonio, agora dizem que denunciaste os da moeda falsa.
—Compra anhos e capões; attasca essas linguas em podim de batata, embola-m'os com almondegas, deita-lhes aziar de ovos em fio, afoga-lhes os escrupulos em vinho de 1815, menina.
E, depois, tinha outra paixão que o deliciava: arranjar casamentos.
Florecem hoje em Landim alguns cazaes de pessoas ditosas que elle ajoujou, vencendo estorvos á custa de engenhosas intrigas, e até de liberalidades de suas abatidas posses.
A filha de um cabaneiro, que se creava por sua casa, era o passa-tempo do cego. Chamava-se a Narciza do «Bravo»,—alcunha paterna. Até aos treze annos andava vestida de rapaz, e media-se com os mais gaiatos a trepar á grimpa de um pinheiro, no assalto nocturno ás cerejeiras, em duellos á pedrada, no jogo do pao e no murro. Era virilmente bella, e bem feita; mas os meneios adquiridos nos trajos de rapaz desengraçavam-na vestida de mulher. Ella mesmo olhava para si com zanga e puxava a repellões as saias esfrangalhando-se. Pinto Monteiro dava tento destes phrenesis, ria-se muito, e contava-lhe casos de mulheres portuguezas que batalharam incognitas, cobrindo os seios com arnez de ferro.
Estava no plano do cego cazal-a. Narciza dizia-lhe que não pensasse em tal, porque a primeira pirraça que o marido lhe fizesse, favas contadas, esmurrava-lhe os focinhos. Este programma não assustou Pinto Monteiro, visto que os focinhos ameaçados eram os do marido.
A rapariga foi pretendida extra-matrimonialmente por varios devassos de Landim, S. Thryso, e terras circumjacentes. A virago tinha perrixil do que morde nas linguas já embotadas; mas tambem tinha mãos nervudas e uns dedos nodosos que se fechavam em forma de box, assim que os pimpões lhe cantavam desafinados.
Um d'estes era um forte lavrador de Sequeirô, o Custodio da Carvalha. Apaixonou-se com a resistencia, e fallou-lhe serio em casamento. Narciza contou a passagem ao cego, que batia as palmas com vehemente jubilo, exclamando:
—Ó moça, aproveita antes que o rapaz se arrependa! Olha que elle colhe trinta carros, e é um bonacheirão… E que tal o achas de figura?
—Eu sei cá!…
—Tu gostas d'elle ou não gostas?
—Como se nunca nos vissemos.
—Então, não o conhecias ha muito tempo já?
—Nunca o vi mais gordo.
—Mas queres cazar com elle ou não?
—Tanto se me dá como se me deu; mas o padrinho diga-lhe que, se se faz fino commigo, eu pinto ahi a manta, que elle não sabe de que freguezia é. Eu não ponho unhas em foicinha nem sachola, ouviu? Não fui creada na lavoira. Se elle pega a mandar-me sachar milho ou cegar herva, temo'las armadas.
—Caza, que tu amansarás…—dizia o cego.
E cazou.
Monteiro deu-lhe magnifico enxoval, cordão, cabaças, anneis, broche; vestiu-se de fino panno; foi padrinho do casamento, banqueteou os noivos com muitos convidados, chamou a musica de Paiva de Ruivães, e queimou dez duzias de bombas reaes.
O marido sentiu as fascinações que enchem de delicias o inferno dos corações escravos. Ella manietou-o sem violencia de mau genio, com as suas caricias de gata que desembainha as unhas brincando. Folia rija! Romagens, quantas havia no Minho; festanças com tres clarinetes e requinta todos os domingos na eira; a Cana verde e o Regadinho saltado pelas maiatas mais frandunas; brodios e vinho, fasta fora. Comprou egua de marca, vestiu-se de amazona, e ella ahi ia com o marido corcovado, somnambulo, a chotar na mula esparavonada atraz d'ella por essas feiras e romarias. Ás vezes, se os moleiros não despejavam depressa os caminhos atravancados com os seus jumentos carregados de foles, verberava-os com o chicotinho, e chamava-lhes canalhas. Em questões com os visinhos, por causa de regas ou invasões de gado, fazia ameaças sanguinarias. Carregava as espingardas do marido e atirava aos gaios com pontaria infallivel. Quando soube que as senhoras do Porto usavam collete e gravata á laia de homens, exultou, como quem vê triumphar a sua idéa, e quiz vestir calções e botas á Frederica.
O lavrador, já no cairel do abysmo, vendidas as melhores propriedades, quiz reagir. Viu que tinha pela frente um virago de fibras. Afroixou por medo e por amor. O pusillanime vergava ao prestigio da força. Narcisa offuscava-o com a rutilante belleza do demonio, disfarçado na lendaria Dama Pé de Cabra, e n'outras damas que o leitor conhece com pés chinezes.
Dobados dez annos de vertiginosa dissipação, o lavrador resvalou do idiotismo á sepultura, amando ainda a mulher que vendera um lençol para lhe comprar a ultima gallinha. E Narcisa, viuva aos vinte e oito annos, e ainda formosa, atirou com a honra ás goelas do dragão da miseria, e não chorou uma lagrima.
Havia uma amiga que lhe dizia palavras dolorosas, com sincero dó: era a irmã do cego. Pobre Neves! quem te predisséra o supplicio dos teus derradeiros annos, ligada ao destino da mulher que tu crearas com maternal ternura!…
Entretanto, o padrinho de Narcisa não escarmentava no sestro de casamenteiro; é certo porém que similhantes casos assim funestos, não se repetiram nas suas operações matrimoniaes. Por esse tempo, casou elle a filha com diminuto dote, e abriu a carreira do sacerdocio a um filho, que outras vocações depois afastaram da egreja. Os seus teres, com judiciosa economia, seriam bastantes á decencia aldeã; porém, privar-se da mesa farta e franca, era privar-se de amigos que lhe festejassem as anecdotas. Pinto Monteiro, no dia em que falisse de auditorio, começaria a morrer no abafador silencio da cellula penitenciaria.
Empobrecia rapidamente: mas dava a perceber que a philosophia de Job é a ultima moeda com que o homem decahido compra a resignação e a gloria eterna,par dessus le marchédizia elle.
Amaro Fayal, confidente dos secretos desfalques do patrão, pensou em retirar-se para o Brazil, visto que não tinha secretaria para fiscalisar, nem desprendimento tamanho que acceitasse outra vez o officio de moço de cego.
É aqui o logar de repetir litteralmente uma accusação que todos os meus informadores, sem discrepancia, irrogam ao cego de Landim:
Um lavrador da Lamella, induzido por Pinto Monteiro, vendeu as suas herdades por alguns contos de réis, a fim de ir negociar no Brazil e centuplicar o seu dinheiro. Sahiu Monteiro com destino ao Rio, levando em sua companhia o lavrador. Passados dias, apparece em Landim o cego, fingindo-se doentissimo, e diz que o seu companheiro embarcara, e elle retrocedera forçado pela molestia. Ora, do lavrador nunca mais houve noticia; mas, no governo civil de Lisboa, fôra visado o passaporte de José Pereira da Lamella, e o mesmo nome inscripto na lista dos passageiros. Isto não obstante, o cego era accusado de haver matado em Lisboa o lavrador, não podendo roubal-o por maneira mais suave; e a certeza confirmou-se quando parentes que o Lamella tinha no Rio, perguntados a tal respeito, responderam que nunca viram tal homem, nem, depois de chamado pela imprensa de todas as provincias, apparecera. Asseveravam, porém, que um nome similhante se lia na lista dos passageiros desembarcados no Rio, no mesmo navio e mez em que de Portugal se informava que elle partira.
Seria mais natural suppor que José Pereira morrera obscuramente em alguma rossa; mas á calumnia pareceu mais romantico decidir que o cego o matára.
—Como presumem os senhores que o cego matasse o lavrador?—perguntei.
—Não sabemos; mas o mais provavel é que o atirasse ao rio quando o bote ia para bordo da galera.
Esta era e é a opinião corrente. Pelos modos, o cego, em pleno sol do Tejo, na presença dos barqueiros, alijou o passageiro ao rio, e fez remar para terra o bote com a bagagem do morto; depois, saltou no Caes das Columnas com a mala do dinheiro debaixo do braço, e ás apalpadellas lá se foi pacificamente caminho de Landim.
Corre parelhas em maldade e estupidez esta aleivosia, é certo; mas o lavrador, de feito, fôra assassinado em Lisboa.
Agora, posto que tardia, ahi vem a rehabilitação de Antonio José PintoMonteiro.
Quem induzira o lavrador da Lamella a vender as terras foi Amaro Fayal, offerecendo-lhe sociedade em negocio que rendia 200%. O Pereira da Lamella era calaceiro. O trabalho agricola pezava-lhe: as suas terras, avaliadas em cinco contos, rendiam escassamente o passadio grosseiro do lavrador minhoto. Calculou, firmado na prova mathematica das cifras de Amaro, que, ao fim de cinco annos, devia ter cinco contos dez vezes multiplicados. É claro: 200%—5 vezes 10—50 contos. Vendeu as terras e partiu com o ex-secretario do cego. Pinto Monteiro, sinceramente affeiçoado ao seu confidente de vinte annos de varia fortuna, acompanhou-o até ao Porto, e d'ali voltou para Landim algum tanto enfermo, e ás pessoas que lhe perguntavam pelo Pereira da Lamella respondia naturalmente que tinha embarcado. Dava-lhe, porém, que scismar não estar o nome de Amaro Fayal na lista dos passageiros.
O leitor já descobriu que o assassino do lavrador foi Amaro; que o passaporte do morto serviu para o matador; mas ignora os pormenores do crime, e eu tambem os não sei.
Passados annos, um correspondente de gazeta escrevera o essensial da calumnia que assacava o homicidio ao cego. O delegado de Villa Nova de Famalicão, Soares d'Azevedo, e advogado de Pinto Monteiro em diversas demandas, aconselhou-o que justificasse a sua innocencia n'este crime que lhe imputavam, porque deixal-o á calumnia e á revelia era arriscar-se a perder todos os seus pleitos. O cego, com a lucida intuição de quem tinha longa pratica de crimes tenebrosos, explicou a morte do lavrador, comprovando-a pelas circumstancias do passaporte, pela omissão do nome do homicida na lista dos desembarcados no Rio, e pela certeza que lhe deram de Amaro Fayal ter morrido poucos dias depois que chegára, no hospital, com o roubo ainda intacto, segundo vira na noticia dos espolios dos fallecidos. Replicou-lhe o delegado que semelhante justificação era insufficiente: o cego redarguiu que não tinha outra, nem essa mesma daria, se Amaro Fayal fosse vivo, por que no seu braço se amparara vinte annos, vinte annos vira pelos olhos d'elle, e mal remunerado o despedira, sem que o seu guarda-livros murmurasse da mesquinhez da paga.