Em 1858 o cego, escasso de posses, escorregava na ladeira da pobreza. Havia vendido ou hypothecado as terras. Perdera demandas valiosas: parece que em quasi todas influiu a sua má nota a desculpar a injustiça. Duas quintas lhe foram extorquidas com tão estranho desafôro, que é mister acceitar-se intervenção de jurisprudencia divina para que o homem as perdesse, pois é de crêr que as adquirisse com dinheiro deshonrado. Dizia elle que viera encontrar em Portugal especies de ladrões fleugmaticos e frios, que não topara nos climas quentes; e que o larapio luso-brasileiro era francamente analphabeto e lerdo, ao passo que o ladrão, extreme e puramente luso, era, por via de regra, além perverso, bacharel formado. Alludia a dois adversarios jurisconsultos que eu escondo á curiosidade do leitor, por que me sustém o pulso um quasi religioso respeito á memoria honesta de Paiva e Pona, e tambem de Pêgas.
Com as ultimas moedas, abriu Pinto Monteiro um botequim em Famalicão, faz hoje dezesete annos. A villa, n'esse tempo, estava na apojadura das suas prosperidades. Choviam ali brazileiros que nem maná nos areaes da Mesopotamia. Dos paúes alagadiços irrompiam casas de azulejos variegados. Villa Nova era o centro da locomoção do Minho, da mercancia agricola, davillegiaturados portuenses; mas não tinha o «café»—a prova real da civilisação.
Pinto Monteiro contava com as leis do progresso; porém, Villa Nova que hoje, na extrema decadencia, tem tres «cafés» com dois limões sorvados e tres garrafas de licor de canella, em tempos florentissimos não sustentou o botequim do cego em que havia cognac, coraçáo, chartreuse, kermann e absintho. É porque, ha dezesete annos, o progresso material desconhecia a precisão dos «cafés», paragens d'uns ociosos que se putrificam, raça amollentada no sybaritismo da cerveja de quartola, com grandes orgias de cigarros de Xabregas.
O cego apenas vendia algum capilé aos vigarios encatarroados e orchatas aos adiposos. A ruina ia consummar-se e o botiquim fechar-se, quando chegou á villa, e se hospedou no hotel um brazileiro doente vindo do Rio com sua esposa. Pinto Monteiro conhecia de nome o enfermo.
Visitou-o e acompanhou-o nos desalentos da cachexia, animando-o ou distrahindo-o com a sua variada e jovial conversação. Alvino Azevedo affeiçoou-se-lhe a ponto de, chegado ao termo dos soffrimentos, lhe confiar sua mulher, pedindo-lhe que a protegesse e guiasse na administração dos seus haveres. A esposa do enfermo estava um pouco longe da idade em que as viuvas correm perigo, se as não vigiam: tinha setenta annos feitos, e já não conservava toda a frescura das suas dezoito primaveras nem os dentes completos. Os dons do espirito não eram transcendentes nem talvez bastantes para seduzirem outro marido: D. Joanna Tecla era idiota.
O cachetico expirou nos braços do cego, despedindo-se da esposa com uma olhadella cheia de saudades, e talvez de esperanças no paraizo de Mafoma; em que as mulheres velhas remoçam. Ella chorou copiosamente, e declarou que aquelle morto era o terceiro marido que lhe fugia para o ceo. Elles tinham tido razão em fugir todos.
D. Tecla passou para casa do cego com todo o resguardo da sua pudicicia, acompanhada pela mana Neves.
Passados os tres dias de nôjo, perguntou-lhe Pinto Monteiro se queria voltar ao Brazil, sua patria, ou ficar em Portugal, recebendo os rendimentos dos seus predios no Rio. A viuva respondeu que a sua posição era muito melindrosa; que uma senhora não podia ir sósinha para tão longe; que o mundo estava cheio de homens mal creados que mediam tudo pela mesma raza; que não queria sujeitar-se a algum desaguisado por essas terras de Christo; que em fim, não ia para o Brazil sem ter familia muito honesta com quem fosse.
—Mas então, minha senhora;—redarguiu o cego—quer, entretanto que não vai, viver sósinha em Villa Nova, ou dá nos o prazer da sua companhia? Seu defunto esposo encarregou-me de a dirigir; eu, porém, o que farei é conformar-me com a vontade da senhora, que já tem sufficiente idade para saber o que lhe convem.
—Não sei nada do mundo—acudiu Tecla—Estou muito verde. O senhor é que ha de guiar-me.
—Deus lhe dê melhor guia do que um cego, minha senhora;… mas ahi tem a minha mana que lhe será companheira e irmã.
No dia seguinte, Monteiro fechou o botiquim com um sorriso sarcastico, e o ar solemne e vingativo de quem fechava a porta que franqueára á civilisação de Villa Nova. Elle vociferou que os habitantes de Famalicão eram indignos do «Café», deu volta á chave, e foi caminho de Landim com a hospeda e a irmã.
Os dois predios que a viuva possuia na rua da Quitanda valiam quarenta contos de réis fracos; as suas joias, dádivas de tres maridos, eram muitas e nem todas de pedras falsas. A idade da viuva animava um quarto marido, na hypothese de caber a esse quarto a vez de a ver fugir para o céo a ella. O certo é que andavam já dois empregados da fazenda e outros tantos da administração a expiarem o ensejo de lhe seduzirem a inexperiencia, quando a viram ir impertigada n'umas andilhas, caminho de Landim, a chotar, e a rir-se dos solavancos do macho.
Os pretendentes pegaram de gritar contra o cego, assacando-lhe o rapto e a coacção da viuva. O juiz de direito viu-se forçado a deferir ao requerimento de um curioso que pedia uma visita domiciliaria ao carcere privado de D. Joanna Tecla Alves. Effectivamente a hospeda de Pinto Monteiro foi interrogada em presença de testemuhas, se estava n'aquella casa por sua livre vontade, não coagida nem seduzida.
Respondeu que estava muito contente, e que podia estar onde quizesse.
O juiz concordou.
Algumas cartas amorosas em papel perfumado lhe enviou o mais galan dos funccionarios de Famalicão. Joanna Tecla relia as cartas com secretas delicias; mas, no exterior, fingia-se de uma isenção que faria envergonhar Arthemisa, viuva de Mausólo e as combustiveis viuvas do Malabar. Perguntava á sua amiga Neves quem era o tolo que lhe escrevia; e, rindo com a garridice arisca dos dezeseis annos, dizia que seria grande pagode mangar com elle, respondendo-lhe ás cartas.
A mana do cego segredava ao irmão:
—Olha que a velha é tola, mano Antonio; trata de cortar os voadouros á cegonha: senão, hasde vêl-a voar aos braços do quarto marido.
—O quarto marido heide ser eu!—disse o cego com uma visagem de martyr voluntario—Heide ser eu o quarto marido—repetiu elle, tragando um copo de rhum para ganhar alma—porque a ter de entrar n'esta casa o espectro da miseria, é melhor que entre Joanna Tecla. Não me lembra como se chamava um cego que dava graças a Deus porque não podia vêr um certo tyranno; eu tambem as dou, porque não posso vêr a minha noiva.—E enchia o copo esvasiado, mascava o charuto, e fazia com as duas pernas um curso de geometria—Sacrifico-me a ti e a meus filhos. Vou ser o bode expiatorio das minhas e vossas prodigalidades; mas levo a certeza de que ella ao menos me será esposa fiel—o que é raro antes dos setenta annos. O seu terceiro defuncto disse-me que Tecla era uma paz d'alma, bruta sim, mas boa. Emfim, mana, sonda-m'a; vê se lhe achas vontade de casar quarta vez.
—Tomára ella!—acudiu a irmã—Está sempre a dizer: «Isto de mulher sem homem é como peixe fóra de agua.» Põe papelotes todas as noites, e faz caracoes quando se ergue. Que quer isto dizer? Queres que eu lhe toque no casamento comtigo?
—Toca; que eu começo hoje a fazer-lhe a côrte.
Na tarde d'esse dia, passeava Monteiro, debaixo da parreira do seu quintal, pelo braço da viuva. As calhandras e os pintasilgos trilavam os seus requebros ás margens do rio Pele. As rãs coaxavam nas pôças, e as auras ciciavam na ramaria dos álamos. Era uma tarde de tirar amores do olho de uma couve lombarda.
Passeavam silenciosos, quando ao longe, no pinhal do mosteiro, cantou um cuco.
—Olhe o cuquinho a cantar!—disse ella com meiguice.
—Gosta de ouvir o cuco, sr.^a D. Tecla?—perguntou o cego.
—Eu gosto de toda a passarinhada—respondeu ella com as denguices infantis da Lili de Goethe.
—O cuco é passaro de máo agoiro!—tornou elle—Eu, com medo de tal ave, não quiz casar.
Tecla riu-se descompassadamente, provando que conhecia a línguagem symbolica da ave agoureira. E o cego, n'esta entreaberta de galhofa, beliscou-lhe a polpa do braço esquerdo.
—Ai!—exclamou ella—Isto que foi?!
—Não se ria assim das fraquezas do proximo, Joanninha!—respondeu o cego, dando ao beliscão o ar innocente de um gracejo familiar—Eu não quiz casar nunca porque o meu coração nunca sentíu ao perto nem ao longe a mulher digna d'elle. Cheguei aos cincoenta e dois annos, pode-se dizer, sem ouvir a este coração as palpitações que estou agora ouvindo. É a primeira vez…—e estreitava-lhe o braço contra o lado esquerdo com umas pressões trémulas—é a primeira vez que amo; porque é esta a primeira vez que encontro a mulher, a esposa digna da minha ternura. Que me responde, Tecla? não me responde, prenda adorada?—instava elle sacudindo-lhe a mão com transporte.
A viuva inclinou a face para o seio, deixou-se apertar com o indolente abandono de suas faculdades sensitivas, esteve impando como quem suspira a custo, e murmurou:
—De vagar se vai ao longe, sr. Monteiro.
Aquillo foi depressa. O fervor reciproco dos noivos, e o preceito do poeta pagão que manda não adiar os prazeres, abreviaram quanto possivel a identificação das duas almas. O reitor, que os recebeu, era um padre bom e jovial que até a estes noivos disse o que dizia a todos: «Eu espero o vosso primeiro filho d'aqui a nove mezes.» A noiva entreabriu á flor dos beiços um hypothetico sorriso de pudor; o cego, porém, ferido na infecundidade da esposa, disse, carregando o semblante:
—N'este acto, sr. reitor, são improprias as chalaças.
O padre, querendo emendar eruditamente a inadvertencia, respondeu:
—As santas escripturas fallam de Sára…
—Eu não sou Abrahão—replicou o cego, voltando-lhe as costas.
Reverdeceram os contentamentos da meza lauta e das intimas palestras ao fogão. D. Tecla Monteiro confessava que nunca tão felizes lhe derivaram os dias da existencia. O cego sentia se docemente ameigado e bem, com o rosto no regaço da esposa. Saboreava os santos aconchêgos da companheira canonica. Recendia-lhe o ninho dos seus amores licitos um patriarchismo anterior ao sacramento do matrimonio, é verdade, mas puro como os conubios de Jacob e Lia, de Ruth e Booz. Ella não o idolatrava com o maior phrenesi, mas aquecia-lhe no inverno os lençoes com botijas, e de manhã levava-lhe uma chavena de sagú, que pessoalmente cosinhava com todos os primores d'uma vocação especial para os mingáos.
Na venda das propriedades liquidára Monteiro menos do seu valor; mas ainda assim não desceu de vinte contos de réis o dote da esposa. Parte d'este capital empregou-o em uma quinta no Alto-Douro, outra parte na reincidencia de pleitos que havia perdido, e o restante nas opulencias da meza, e nas liberalidades com os renovados amigos. Do mesmo passo que a opinião publica encarecia a velhacaria do cego, formava-se uma confederação de sujeitos que lhe exploravam a perdularia generosidade. Emprestava facilmente dinheiro, e não negava esmola, nem se desculpava com a falta de cobres. «Tal desculpa seria boa,—dizia elle—se os mendigos se offendessem com as pratas.» E tambem dizia: «Ninguem dá esmolas mais ás escondidas do que eu, porque nem vejo as pessoas a quem as dou!» Triste gracejo proferido por um cego.
Pinto Monteiro, que tanto refinára em astucias, no ultimo quartel da vida, deixava-se enganar por qualquer velhaco montezinho. A quinta do Alto Douro, comprada por seis contos de réis, foi uma venda fraudulenta: a propriedade estava hypothecada á fazenda nacional, e o vendedor, apresentando titulos falsos, recebeu o dinheiro no Porto, e fugiu. Os convivas do cego rejubilavam a cada arremesso novo que a desfortuna lhe dava para a pobreza, e as pessoas contemplativas observavam ás incredulas que o enorme delinquente estava soffrendo retaliações providenciaes. É de crer que sim.
Lance admiravel! Pinto Monteiro mantinha serenidade socratica e imperterrita a cada lançada que lhe resvalava na rodella da philosophia. Se a irmã ou a esposa choravam, e elle dava tento d'isso, dizia-lhes: «É uma vergonha chorar quando a vida é tão curta! As dores são um sonho mau de que se acorda na sepultura.»
Ao sentir desfibrar-se-lhe a corda tenaz da paciencia, digna de um christão, emborcava garrafas de genebra, e fumava sempre até cair marasmado pelo alcool e pela nicotina; mas, se antes da prostração, se exaltava em desvarios de ebrio, as phrases refloreciam os raptos de eloquencia que aos vinte e cinco annos o arrebatavam nos clubs fluminenses. N'estas occasiões, projectava ir ao parlamento, e ensaiava discursos tão bonitos que pareciam ser decorados no «Diario das Camaras.» Ás vezes pedia á mulher e á irmã que lhe fizessem «ápartes» para o picarem. A boa de D. Tecla dava-lhe para se rir, ou pedia-lhe amorosamente que se deitasse—pedido que a gente não pode fazer a todos os oradores parlamentares.
N'estas intermittencias, quasi sempre risonhas, se passavam os dias e boa parte das noites n'aquella murmurosa casa de Landim. D. Tecla desmentira os viticinios que a deploravam, esbulhada do dote e abandonada á piedade do Azylo das velhas do Camarão. Não teve uma hora de tristeza esta senhora; nem se quer ligeira borrasca de ciume, em sete annos de casada, lhe nublou as suas alegrias de esposa leal. Ás setenta e seis primaveras seguiu-se um inverno rigoroso de catarraes e gota, com perturbações no apparelho digestivo, tympanites e colicas flatulentas. A morte arrebatou-a em dezembro de 1861 dos braços do marido que, pela primeira vez na sua vida, chorou.
Sete annos de glacial solidão giaram sobre a alma de Pinto Monteiro. As portas da sua casa raro se abriam. Concordemente se disse que o cego estava pobre pela terceira vez. Era verdade: estava pobre—vendia o restante das joias da mulher.
Ás vezes entrava n'aquella casa a Narcisa do Bravo, sentava-se á mesa ainda abundante do padrinho, e matava a fome. A irmã do cego debulhava-se em pranto a confrontar aquella desgraçada de rosto empolado com esfoliações rubras á formosa noiva de Custodio da Carvalha, á gentil amazona por amor de quem alguns fidalgos de Guimarães terçaram as suas badines de caoutchouc na romaria de S. Torquato.
Sobre todas as famas repellentes, ganhara Narcisa, com legitimo direito, a de ladra, e ladra á mão armada. Os mais queixosos eram os que lhe colheram as flôres já outoniças da belleza, e a regeitaram com a brutalidade do tedio. Narcisa sahia-lhes de rosto nas concavidades das congostas escuras, e abocava-lhes á cara uma pistola de dois canos; e elles, com um fingido sorriso de piedade despresadora, atiravam-lhe a forçada esmola. Outras vezes, escalava as janellas das alcôvas conhecidas, e entroixava os bragaes como se inventariasse o espolio de um esposo fallecido. E temiam-na como a um scelerado disposto a vender cara a vida, por que ella deixava entrever a coronha da pistola entre os atacadores do collete escarlate, e, se sofraldava as saias, quando saltava as poldras dos ribeiros, mostrava a faca de ponta atravessada na liga. Os regedores das freguezias que ella frequentava tinham ordem de a capturarem; mas o mêdo, predicado pacifico d'estes magistrados, era a resalva de Narcisa.
O cego de Landim não ignorava a desastrosa sahida de sua afilhada; conselhos, n'aquella extremidade, eram perdidos; censuras, a si proprio as fazia o cego por que encetára a perdição d'aquella moça, tirando-a da arribana de seu pae, para a crear nas regalias da abundancia, sem vislumbres de religião, em plena liberdade de se viciar com as travessuras e gaiatices que lhe festejavam. Narciza era talvez uma das polés que torturaram o cego nas impenetraveis agonias dos seus ultimos seis annos.
Contava um rapazinho, creado de Pinto Monteiro, que ouvira, uma vez, sua ama dizer a Narciza que ia mandar vender dois cobertores porque não havia dinheiro em casa; e que Narciza lhe dissera que não vendesse os cobertores, por que ella ia vender a sua pistola por meia moeda. Não tenho outro lance generoso que possa referir de Narciza do Bravo.
Quando este caso passou, entrava Antonio José Pinto Monteiro nos paroxismos da morte. A 28 de novembro de 1868, pelas dez horas da manhã, disse á irmã que lhe accendesse um cigarro, e abrisse as janellas, que sentia grande calor e ancia. Sentou se no leito, e inspirou consoladoramente a columna de ar frigidissimo que lhe bateu no rosto, ao abrir da janella. Pediu uma chavena de café, e, emquanto a irmã o fazia, Narcisa veiu para a beira do padrinho.
—Quem é?—perguntou o cego.
—Sou eu, padrinho. Está melhor?
—Vou estar melhor, filha. Isto vai acabar. Quando eu morrer, faze companhia á minha pobre irmã…
Narcisa chorava, beijando a mão do cego, que se estorcia nas dôres da cystite. Ao cahir da noite, a prostração, a febre, os soluços, e o frio das extremidades diagnosticavam a gangrena. No 1.^o de dezembro, o cego de Landim expirou reclinado ao seio de Narciza, que se sentara no leito para o amparar nos derradeiros arrancos.
As suas ultimas palavras, no delirio que precedeu a morte, encerram toda a moralidade d'esta biographia:
—Eu tinha tres filhos que criei com tanto amor… Que é d'elles?…
E mais nada.
Os tres filhos do cego de Landim affrontar-se-hiam com o nome de seu pai? Para ter um peito amigo que o amparasse na agonia, foi mister que a sociedade remessasse para dentro da alcova do moribundo uma mulher perdida. Mas, lá ao longe, no Brazil, houve lagrimas saudosas no coração de uma filha. Pois quando é que Deus consentiu que uma filha as não chorasse… n'um epitaphio?
No cemiterio de Landim está uma sepultura com este letreiro:
Anna das Neves ideara uma perspectiva de felicidades: viver os restantes annos em recatada pobreza, morrer mais desamparada que o irmão, e ser levada como quem remove um entulho ali para aquella sepultura onde se pulverisavam os ossos execrados do cego.
Estas felicidades não as gosa quem quer.
Um dia, a justiça, perseguindo Narcisa pelo roubo de uma coberta de fêlpo, soube que a Neves a mandara vender. A ordem de captura involveu-a como receptadora de roubos. Invadiram-lhe judicialmente a casa, e encontraram, para maior prova do crime, um açafate de maçãs camoezas, dois calondros e algumas batatas que Narcisa recolhera, de colheita aliás suspeitosa, nas lojas da casa da sua protectora. A irmã do cego foi capturada, e, sem fiança, encarcerada na lobrega enchovia de Famalicão. Dias depois davam-lhe a companhia de Narciza, que se entregara á prisão, arrojando a pistola, quando lhe disseram que a Neves estava preza. O juiz misericordioso condemnou-as a oito mezes de prisão, dado que os jurados as sobrecarregassem de crimes benemeritos de degredo perpetuo.
Cumprida a sentença, D. Anna das Neves Miquelina Monteiro vendeu a casa que o irmão comprára em nome d'ella. Com o producto d'essa venda transferiu-se, em 1872, ao Brazil, e levou comsigo Narcisa do Bravo. Parece que não tinha outros amores n'este mundo, e desejava expirar, como o irmão, nos braços d'ella.
E visto que não estamos dispostos a deixal-a morrer nos nossos braços, ó leitor, parece-me caridosa coisa que a não fulminemos com a nossa honrada raiva. Sou de opinião que sejamos inexoravelmente severos com os desgraçados e com as desgraçadas, quando elles e ellas repellirem a felicidade que lhes offerecermos.
S. Miguel de Seide—Julho de 1876.
Francisco Teixeira de Queiroz
Auctor Da Comedia do Campo
Sauda com superior admiração e indelevel reconhecimento
Camillo Castello Branco.
Vi esta morgada, ha tres annos, em Braga, no theatro de S. Geraldo.Estava em scenaSanto Antonio, o thaumaturgo. A commoção era geral.Tanto a morgada, como seu marido, o commendador Francisco José Alvarães,choravam, ás vezes; e, outras vezes, riam se.
Era uma senhora de espavento, avermelhada, com as frescuras unctuosas e joviaes dos quarenta annos sadíos, seios altos e aflantes, pulsos roliços e averdugados pela compressão das pulseiras cravejadas de esmeraldas e rubis.
Riu-se a morgada quando aquelle Santo Antonio do seculo XIII recitou ás raparigas uma poesia madrigalêsca de Braz Martins,—bom homem que esteve quasi a regenerar o theatro nacional como elle deve ser. A poesia resava assim n'esta prosa innocente:
Mimosa nasce a flor e vive ainda,Se arrancada não foi logo ao nascer;Assim a virgem nasce e vive pura,Se o vicio não trabalha p'ra perder.
Et coetera, com a mesma uncção e musica.
A morgada sorrira-se para o marido; e elle, para mostrar que tambem percebera o chiste, formou um tubo com os beiços carregados de chalaças mudas, e disse com atticismo velhaco:
—Versalhada…
Ora, a morgada de Romariz, lagrimando com intelligencia na proza da oratoria, assim que algum personagem pegava de rimar, ria-se. Persuadira-se de que a missão dos versos era como a das cocegas. A natureza dera-lhe ao espirito aquelle feitio.
Remirei-a de esconso por sobre a espadua do esposo.
Ella bocejava nos entre-actos, até mostrar as campainhas; elle tosquenejava, e ás vezes, espriguiçando-se, grunhia:
—Estou massado.
—Podera…—obtemperava a esposa—a comedia bonita é… mas não ha nada como estar a gente na sua cama, Zézinho!
E dava tons lubricos ao diminutivo.
—Quem me lá dera…—volvia Alvarães deslocando as botas e dando folga e frescôr aos pés no apraziveltuneldos canos.—O polimento estorcéga-me os calos…—queixava-se com azedume.—Comedias… Ora adeus! Patranhas…
—Modos de vida, homem…
E abriram juntos as boccas spasmodicas.
—Ao menos se eu viesse ceado…—dizia elle.
—Fizesses como eu…
—Não me cabia cá…—e batia com os dedos dobrados no alto ventre como se faz ás melancias suspeitas.
—Já agora hemos de vêr ascena da gloriaque é o mais bonito…—opinava a esposa.
N'este comenos, visitou-os um meu conhecido de Famalicão. Ao erguer o panno, sahiu de lá, e entrou no meu camarote. Foi elle quem me disse o nome das duas pessoas, accrescentando:
—Ali, onde a vê, tem romance; dá materia para dois tomos…
—Picarescos? Não me servem… Eu quero philosophia: os meus leitores querem philosophia, percebe o senhor?
—É o que ella tem mais que dar.
—Ora essa!… O senhor sabe que ella tem isso? Queira apresentar-me…
—Deus me defenda… Eu disse á morgada que vossê era romancista…
—E ella que disse?
—Riu-se.
—Riu-se!? É boa… E o marido…
—O marido disse: Arreda!
Vejamos a philosophia que elles tem.
Melhor que uma estirada narrativa, desfigurada talvez pela imaginação do informador, li um processo que o sujeito me emprestou. Correra o pleito entre partes que litigavam em materia de casamento. Figurava uma donzella depositada judicialmente. O pai da nubente impugna, e allega que o pretendente a sua filha é um birbante de vilissima relé. O noivo, contrariando, expõe que o pai da sua futura e de origem tão canalha que, apezar de ser fidalgo da casa real, é filho de um salteador de estradas,como é publico e notorio, dizia o noivo, e accrescentava: «que não havia ainda vinte annos que o seu contendor exercitára o officio de fogueteiro em Villa Nova de Famalicão.» N'este conflicto, a depositada trancára o pleito vergonhoso acceitando outro marido que o pai lhe inculcou. A menina questionada era aquella morgada de Romariz, e o marido o commendador Alvarães.
Quanto a philosophia, este acontecimento pareceu-me assaz chôcho; eu pelo menos não lh'a encontrei, por mais que virasse do carnaz os personagens do processo. Louvei o procedimento da moça injuriada na pessoa do seu progenitor; mas o fermento de tal philosophia não me dava para levedar massa de cincoenta paginas. Abri mão do assumpto, e larguei-o ás imaginações florentissimas da minha patria. Porém, transcorridos dois annos, em um livro impresso em 1815, li uns nomes que tinha visto nos autos escandalosos. Examinei de novo o processo, e trasladei certas passagens que, alinhavadas a outras do referido livro, deram esta novella em que, por felicidade do leitor e minha, não ha philosophia nenhuma, que eu saiba.
Quando Villa Nova de Famalicão era um burgo de cem visinhos com um juiz pedaneo, sahiu d'ali para a côrte, em 1744, um rapaz de quinze annos, que principiára com seu pai officio de pedreiro. Assignava-se Antonio da Costa Araujo, escrevia limpamente e era esperto. Chamara-o a Lisboa um tio, mercador de pannos, estabelecido na Rua dos Escudeiros, que até ao terremoto de 1755 occupava parte do terreno hoje comprehendido na rua Augusta. Mathias da Costa Araujo, irmão do pedreiro, engraçou tanto com o sobrinho que, apezar dos poucos meios, mandou-o ás aulas dos jesuitas no pateo de Santo Antão, afim de o habilitar para clerigo, contra a propensão mercantil do moço. Mathias havia sido infeliz no commercio, e dizia que era máo modo de vida aquelle em que a prosperidade se desavinha da honra.
No 1.^o de novembro de 1755, o constrangido destino do estudante transtornou-lh'o a catastrophe em que seu tio pereceu debaixo da abobada da egreja de S. Julião, onde assistia ás missas dos fieis defuntos. Os seus medianos haveres armazenados devorou-lh'os todos o incendio. Ficou portanto em desamparo grande o estudante, e cuidou de amanhar sua vida, deixando arder sem saudade a grammatica latina do padre Alvares com os cartapacios correlativos.
Nicolau Jorge, mercador abastado, visinho e amigo do defuncto Mathias, condoido do sobrinho, chamou-o, ouviu-o discorrer a respeito da especie de mercadoria em que mais seguro negocio deveria tentar-se na crise do terremoto, e, applaudindo o, emprestou-lhe duzentas moedas de ouro. Leiloavam-se então, nas ruas e praças, fazendas avariadas por agua e fogo. Antonio da Costa Araujo arrematou por preço infimo fardos equivalentes ao seu avultado capital, pagando-os no mesmo acto com grande espanto do desembargador Torcilles, presidente das arrematações. Estabeleceu-se Costa Araujo no Campo de Santa Anna, e ganhou, no primeiro anno, com estas fazendas avariadas, doze mil crusados.[6] Volvidos seis annos, era um dos mercadores mais opulentos da côrte; morava no primeiro quarteirão da rua Augusta, á esquerda, indo do Rocio, e era geralmente conhecido pela alcunha deJoia. Tinha camarote effectivo na opera, banqueteava personagens de alta condição, recebia nos seus armazens a mais luzida sociedade de Lisboa com fidalga cortezia: chamava «joias» ás damas, e d'ahi lhe pegou a elle a alcunha desmaliciosa. Confluia ao seu balcão a flôr da cidade, por que ninguem o excedia na fina escolha dos atavios, no primor do gosto e em probidade de contractos. «Ali vinham—diz o coronel Francisco de Figueiredo—comprar-se os enxovaes para os grandes casamentos, o vestuario para todas as grandes funcções, de que houve muitas, entrando n'este numero os casamentos dos nossos soberanos, nascimentos de principes, os dias de annos de toda a real familia, e os trez dias das funcções da inauguração da estatua equestre do sr. rei D. José, o 1.^o de tão gloriosa memoria.»
Costa Araujo não compellia os devedores a pagarem-lhe judicialmente; que o infortunio dos que não podiam gosar a honra e o prazer da pontualidade fazia-lhe dó. Quiz o marquez de Pombal nobilital-o como fizera a outros commerciantes, mais para abater a fidalguia historica do que para levantar a burguezia industriosa. OJoianunca pediu nem acceitou distincções. Foi toda a vida mercador, sempre ao balcão, ou encostado á hombreira da porta como hoje o não faria um caixeiro com a cabeça cheia de socialismo e oleo de amendoas dôces.
Á volta dos sessenta annos, Antonio da Costa Araujo enfermou de paralysia. Era solteiro. Chamou para sua companhia um irmão que tinha na terra natal, pedreiro como seu pae, e que nunca deixara de trabalhar, posto que o irmão rico lhe désse boa mezada, sem todavia lhe aconselhar officio menos grosseiro, por intender que são muitos os pedreiros felizes e pouquissimos os grandes do mundo que a inveja dos pequenos não perturbe.
O paralytico fez testamento em que repartiu o seu capital por diversos amigos, e deixou a seu irmão Bento da Costa tres mil peças de 7$500 réis.
Fallecido oJoia, appareceu em Famalicão Bento pedreiro, envergando um tabardo velho de briche, que exhibia com visagens consternadas, dizendo que não herdára outra cousa do irmão, o qual, tudo gastára e morrera pobre. O pedreiro, suppondo que o acreditavam, era boçal á proporção de avarento; faltava-lhe a velhaca finura que hoje em dia illustra os minhotos. Verdade é que não havia ainda gazetas que assoalhassem as verbas testamentarias; mas a noticia da herança de Bento chegára a Famalicão primeiro do que elle. Cincoenta e seis mil crusados e tanto! Quem poderia herdar secretamente riqueza tamanha n'um tempo em que bazofeava por Lisboa um argentario a quem chamavamO tresentos mil crusados, por que elle, vindo do Brazil, manifestára aquella colossal e quasi fabulosa quantia! Cem contos de réis, hoje em dia, é quasi uma vergonha possuil-os; e quem não fingir que tem essa somma quadruplicada, é um homem que, se souber governar-se com muito prumo, poderá talvez dispensar se de ser recolhido a um asylo de mendicidade.
O pedreiro era viuvo, vivia só, e tinha um filho soldado de artilheria do regimento do Porto, aquartelado em Valença. Quando a noticia chegou ao quartel, o rapaz, insano de alegria, desertou, confiado na herança. Entupiram-n'o, porém, o espanto e a consternação, quando encontrou o pai á orla da estrada a brocar uma penedia por conta de um lavrador. Recobrado do assombro, perguntou-lhe se não herdára tres mil peças de ouro. O velho poz os olhos espavoridos no céo, abanou a cabeça como os personagens da Iliada, desfechou contra o filho um esgar desabrido, e bradou:
—Tres mil peças!? tres mil diabos que te levem a ti e mais a quem levantou essa aleivosia! O que eu herdei foi um reguingote de saragoça já no fio. Se o queres, vai buscal-o, que elle lá está pendurado n'um gancho… Com que então, Joaquim, vinhas ao cheiro das peças?
—Vinha pedir-lhe, senhor pai—respondeu o moço com tristeza e respeito—que me livre de soldado, porque já não posso com o serviço. Estou doente, e preciso mudar de vida.
—Trabalha, faze como eu, que tambem não posso, e estou aqui a furar este calhau. Quizeste ser soldado… lá t'avém.
—Senhor pai, olhe que eu sahi da praça sem licença… sou desertor…
—Não me digas isso segunda vez, que teregeitoesta broca á cabeça![7]
—Faz-me vossemecê uma esmola—replicou serenamente Joaquim—que eu antes quero a morte que as chibatadas… Sabe que mais, senhor pai?—proseguiu o desertor limpando o suor e as lagrimas—ou vossemecê me livra, ou eu vou juntar-me á quadrilha que anda na Terra Negra.
—Capaz d'isso és tu, alma do diabo! Sai-me da vista dos olhos que eu já te não enxergo, ladrão!
E, arrojando a broca e o maço pelo respaldo do penedo, sentou-se com os cotovellos fincados nas pernas, e scismou alguns segundos com a cara tapada pelas mãos esfoliadas e negras de terra.
O filho esperava, indeciso entre o odio e a compaixão. Se cogitava que o pai herdára as tres mil peças, e o deixava optar ente a chibata e a malta de ladrões, Joaquim sentia-se tremer de raiva; se, porém, a herança era uma invenção, o ar afflicto do velho sujo, roto e quebrado de trabalho, compungia-o.
N'esta vacillação, ergueu o pedreiro o rosto menos descomposto, e disse:
—Vai para casa que eu vou d'aqui fallar com teu padrinho… Ahi tens a chave; procura as peças e leva-as, que eu dou-t'as…
Esta zombeteira liberalidade incutiu logo em Francisco duvidas da herança. Entrou em casa e examinou toda aquella antiga e conhecida pobreza. Na lareira, entre cinzas, a panella de barro desbeiçada, e duas tijellas na trempe; o escabello corroido de caruncho, e a espaços espumado de gorduras lustrosas: o catre de bancos, e a enxerga rota e arripiada de palhiço: a candeia de ferro inganchada na parede; por baixo, pingada de sail, uma banca de pau santo com pés torneados, mas com as roscas esborcinadas, e gavetas de pinho em bruto com puxadores de corda. Sobre a miseria dos trastes, o lixo, a sordicia que o filho do pedreiro nunca assim vira, por que sua mãe ainda vivia, quando elle assentara praça. Aos pés da cama havia uma rima de cascabulho, grabatos de lenha, ferramentas quebradas, rodilhas e cacos. Em uma furquilha de quatro esgalhos pregada na trave mestra, pendia, coberto da fuligem da lareira, o albornoz poído que o irmão doJoiadizia ter herdado.
O desertor sentou-se na arca de pinho, contemplou aquella indigencia, e pensou comsigo:
—Acho que me mentiram… Meu pae não herdou nada… D'antes ainda n'esta casa havia uns lençoes lavados e pão á farta, quando recebiamos todos os mezes a moeda que o tio nos dava… E agora que ha de ser de mim?… Estou perdido!…
N'este comenos, assomou ao limiar da porta um visinho, que vira entrar o soldado.
—Estás por aqui, Joaquim Faisca?!—perguntou o Luiz Meirinho.
Convém saber que o filho de Bento ganhára alcunha deFaisca, desde que mostrou aos dezoito annos extraordinaria destreza em ferir lume no phosphoro dos ossos dos adversarios. O outro chamava-se oMeirinho, porque o havia sido do corregedor de Barcellos, e na opinião publica passára de quadrilheiro da justiça a capitão da quadrilha que infestava a Terra Negra. Continuava o officio, diziam alguns, ganhando na carreira dois postos de accesso.
—Vieste com licença?—perguntou o Luiz Meirinho.
—Não, senhor. Pedi-a, e não m'a deram—respondeu Joaquim, com o proposito de se acolher ao valimento do visinho, se o pai lhe não acudisse.—Eu estou doente do peito, e não posso com esta vida de soldado. Ouvi lá dizer que meu pae estava muito rico com a herança de meu tio. Desertei, cuidando que elle me livraria com dinheiro; mas agora mesmo o topei no Vinhal a quebrar pedra, e elle me disse que herdára um albornoz velho que ali está.
—E tu acreditaste?—atalhou o outro velhacamente.
—Á vista da miseria em que eu encontro esta casa…
—Pois fica sabendo que teu pae herdou tres mil peças. Sabes quanto fazem tres mil peças?… Cincoenta e seis mil e tantos crusados. Sabe toda a gente da villa que teu pae está riquissimo. Posso mostrar-te a copia do testamento. Teu pai é um miseravel, é a vergonha dos homens! Mata-se á fome, come duas tigellas de caldo por dia, e diz mal do irmão, porque lhe deixou um albornoz cossado, quando toda a gente sabe que o deixou rico…
—E o dinheiro?—acudiu Joaquim circumvagando os olhos pelos cantos da casa e da lareira.
—Dizem uns que o deixára em Lisboa a render, e outros querem que elle o tenha enterrado ahi n'esse chiqueiro; mas a minha opinião é que teu pae, se trouxe o dinheiro, não o tem em casa. Metteu-o debaixo d'alguma fraga ahi da serra por onde elle anda sempre a quebrar pedra.
—E que heide eu fazer, se elle me não livrar?—perguntou Joaquim.
—Eu sei lá, rapaz! Se o teu livramento depende do dinheiro de teu pai, não quizera eu estar-te na pelle! Levas as chibatadas da lei tão certo como eu quizera valer-te e não posso. Conheço-te desde rapazito, e nunca me hade esquecer que vai agora em dez annos, na romaria das Cruzes de Barcellos, me acudiste n'um aperto, e quebraste tres cabeças em quanto eu quebrei duas. Olha, Faisca, se te vires em apuros, procura-me; livrar-te de desertor, isso não posso eu; mas das chibatadas e da farda eu te livrarei…
—Como?
—Isso são contos largos… Ahi vem teu pai ao fundo da rua. Vou-me embora, que não posso encarar aquelle sordido avarento! Se eu soubesse que elle tinha o dinheiro no bucho, tirava-lh'o pelas guelas, e dava-t'o, rapaz!
O pedreiro ainda vira o visinho a safar-se da sua testada.
—Que fazia aqui o Luiz Meirinho?—perguntou elle carranqueando.
—Nada: conversavamos…
—Eu cá á minha porta não quero coversas com ladrões, ouviste?
—Ladrões!… O Luiz não me consta… que…
—Passa tu na Terra Negra com dinheiro de modo que elle t'o bispe, e lá verás quem é o Meirinho. Hade haver tres annos que deixou o officio que rendia pouco; e, desde que não tem officio, comprou casa, tem cavalgadura, trata-se á regalona, come carne do açougue, e bebe do da companhia. E eu, que trabalho ha bons quarenta annos, custa-me a amanhar para uns feijões, e bebo agua da fonte.
—O sr. pai assim o quer…—atalhou Joaquim entre receoso e risonho—Perca o amor ás peças…
—E tu a dar-lhe!…—volveu iracundo o pedreiro—Já te disse que as procures!… Não herdei nada! não herdei nada!—e berrava convulsionado freneticamente, sacudindo os braços.
—Não grite assim que não faz mingua barregar!—atalhou o filho—A gente está conversando… ás boas… ein?
No aspecto do Faisca resumbravam sentimentos pouco filiaes. A ironia franzia-lhe os cantos dos beiços, ao mesmo tempo que a ira lhe avincava a testa. No ar com que se sentara na arca, dobrando o corpo e bamboando as pernas em gingações de tarimba, denotava quebra de respeito, e disposição a questionar faceiramente com o velho.
—Com que então…—proseguiu Joaquim—Vossemecê não herdou tres mil peças?
—Não!—bradou o pai—Não! com mil diabos (Deus me perdôe), não!
—E se eu lhe mostrar a copia do testamento…—volveu Joaquim esbolhando os olhos, abrindo a bocca, e pondo fóra a lingua em todo o seu comprimento—Que me diz vossemecê, sr. pai? se eu lhe mostrasse a copia do…
—Tu acho que vieste cá para dar cabo de mim!—interrompeu Bento, desentalando-se da sua afflicção por aquella estupida replica—Amaldiçoado sejas tu!…—E, com os dentes cerrados, e as mãos na cabeça, ia e vinha da lareira para a porta, considerando-se o mais desgraçado homem que Deus criara.
—Sr. pai!—continuou mansamente o filho—isto não vai a matar. Tome fôlego, e escute o seu Joaquim. Lembre-se que não tem outro filho a quem deixar os seus cincoenta e seis mil cruzados…
—Olha o diabo!—regougava o velho.
—O que eu lhe peço pouco monta. Livre-me de soldado, e dê-me alguma coisa para eu casar com a Rosa de S. Martinho. O pai d'ella decerto m'a dá, se eu levar mil crusados. Vou ser lavrador, terei saude e alegria, e nunca mais lhe peço nada, sr. pai.
Joaquim, desde que proferira o nome de Rosa de S. Martinho, mudára de tom e gestos. Os olhos imploravam, e a voz tinha as modulações do respeito. O seu amor de dez annos, golpeado de saudades, quebrara-lhe os pulsos. Se o pai n'aquelle instante abrisse no rosto uma tenue claridade de esperança, Joaquim acabaria a supplica de joelhos.
—Mil cruzados!—resmuneava o pedreiro—onde queres tu que eu os vá roubar?
Esta interrogação varreu do semblante do Faisca os signaes da boa reacção.
—Eu não quero que os vá roubar, valha-me Deus!—respondeu Joaquim—Mas, a fallar verdade, quem tem tres mil peças de seu tambem pode ser ladrão da felicidade de um filho que ainda lhe não custou seis vintens desde que pode trabalhar… Olhe, sr. pai, repare bem no que vou dizer-lhe… Eu para a Praça não torno. Sou desertor.
—Venho de casa de teu padrinho—acudiu o pai menos tôrvo—o sr. coronel Lobo da Igreja dá-te uma carta para o commandante, e diz que tudo se hade arranjar.
—Não torno para o quartel, já lhe disse. Estou doente, preciso mudar de vida.
—Que te leve a breca… Não quero saber de contos. Lá t'avem. Dinheiro não tenho; só se queres que eu venda a casa, e me vá depois pedir um eido nos palheiros dos lavradores á beira dos cães.
—Está bom—concluiu Joaquim erguendo-se e espreguiçando-se—vou ouvir a opinião do Luiz Meirinho, que d'um modo ou d'outro prometteu livrar-me da farda e da chibata…
—Vaes fallar com o Meirinho para isso, ó alma perdida?
—Pois então? Aquelle é amigo do seu amigo, e, se me fôr necessario dinheiro…
—Ensina-te a roubal-o…
—E elle que sabe onde o ha…—respondeu Joaquim bocejando, e fazendo tres signaes da cruz na bocca escancarada.
—Eu te deito a minha maldição!—bradou o velho com solemnidade bastante para a scena final d'um acto; porém insufficiente para abalar o 32 da 7.^a companhia do regimento de artilheria do Porto.
O Faisca sorriu, e murmurou:
—Vossemecê parece que tem mais maldições que pintos… Pois eu cá vou com a sua maldição, e depois… veremos se ella nos impece a ambos.
Bento, ao pular-lhe o coração em saltos de ruim presagio, ainda deu tres passos para chamar o filho, e avençar-se com elle mediante a quantia necessaria ao livramento; mas a imagem de um pote de ferro cheio de peças bateu-lhe rija no peito. Quedou-se como empedrado a olhar para a soleira da janella de peitoril, cujas portadas quatro travessas de castanho esfumado immobilisavam.
Poucos dias depois, o juiz de fóra de Barcellos incumbia ao ordinario do julgado de Vermuim a prisão do desertor Joaquim da Costa Araujo, d'alcunha oFaisca. A gente mais grada de Famalicão, convencida da riqueza do avarento sem entranhas, advogou a favor do infeliz moço, rodeando o pedreiro com rogos e até com insultos e ameaças. O pedreiro, assustado, foi ter-se com seu compadre o coronel Lobo da Igreja Velha; e, bem aconselhado pelo fidalgo, cujo credor era, deu o dinheiro necessario para abafar o processo militar, comprar a baixa e substituir a praça no regimento.
Em seguida, quando se viu esbulhado das economias que amealhara antes de herdar as trez mil peças, entrou-se de tamanha paixão—espicassaram-no tantas saudades do seu dinheiro, que morreria abafado, se não desafogasse no odio ao filho. As vinte e quatro moedas de oiro que lhe custara a liberdade de Joaquim, representavam fomes e sêdes, desconfortos de frio em noites de inverno, muitos suores em dias de estio no trabalho da serra a horas de sesta. E lembrava-se com bastante remorso que sua mulher padecera sem cirurgião e morrera sem botica, e fôra indigentemente enterrada, tudo isto assim desgraçado e infame, porque elle não quizera bolir n'aquellas vinte e quatro moedas.
No entanto, Joaquim, bem que muito grato ao pai, não se mostrou tão penhorado que prescindisse de o julgar obrigado a dar-lhe modo de vida. O velho mostrou-lhe um ferro de monte, um pico, um camartello, e disse-lhe:
—Se queres modo de vida, segue o meu. Anda d'ahi brocar uma fraga, e saberás quanto me custaram a ganhar as minhas vinte e quatro…—E, ficando entallado, esfregava os olhos debruados de rôxo com o encodeado canhão da jaqueta.
O filho não se compadecia d'aquellas lagrimas; antes se sentia bravejar de condição com remoques e até com odio á avareza do pai. Máo foi convencer-se Joaquim da herança, e suppor que o velho podia morrer sem testamento nem declaração do escondrijo do thesouro.
Debalde lhe espiava os movimentos, os olhares, as caminhadas no monte, afim de farejar a lota das tres mil peças. Bento d'Araujo ia frequentemente quebrar esteios de pedra nos penhascaes de Vermuim e vendia-os aos lavradores para especar parreiras. As desconfianças do filho seguiam o velho entre fragoedos, chamados oCastello; e o pai, que se julgou espreitado, alegrava-se secretamente, e não se mostrava offendido.
Entretanto, continuára Joaquim a sua velha affeição a Rosa de S. Martinho; e, confiando que a fama da riqueza do pedreiro seria bastante a que o abastado lavrador, esperançado na herança, lhe cedesse a filha, pediu-a affoitamente; mas o pai de Rosa tinha mediana confiança emsapatos de defuncto, e disse que só daria sua filha, se o noivo trouxesse mil cruzados em dinheiro ou terras. O moço namorado abriu de novo o seu peito ao pai, que parecia apertar os cordões da bolsa á medida que o coração do rapaz se abria. Joaquim, bem aconselhado pelo seu amor, soccorreu-se do padrinho, o coronel da Igreja Velha, pedindo-lhe que movesse o velho a dotal-o.
Era o fidalgo a unica pessoa que exercia influencia em Bento de Araujo, e tamanha que podera arrancar-lhe alguns mil crusados a juros, sob juramento de não dizer a alguem que lh'os devia. Mandou-o chamar, e aconselhou-o a que désse dote a Joaquim. Avultou lhe as funestas consequencias da sua teimosia em querer passar por pobre, quando toda a gente estava convencida do contrario; pintou-lhe os perigos em que elle punha o filho sem officio que o salvasse da camaradagem de vadios suspeitos com quem patuscava nas tavernas da Lagoncinha e outros logares infamados. A final, como o velho insistisse desaforadamente em dizer que não tinha senão o dinheiro que seu compadre lhe devia, o coronel rendeu o com esta honrada deliberação:
—Pois bem: tudo se arranja, querendo Deus e tu. Devo-te tres mil crusados; não t'os posso pagar, em quanto algum dos meus filhos não trouxer esposa com dote; mas irei tirar quatrocentos mil réis a juro em alguma Confraria, e esse dinheiro vaes tu dal-o a teu filho para casar com a rapariga, que é de boa gente, e hade ter dobrado ou mais do que elle tem.
As ultimas palavras de Bento, n'esta pendencia, definem cabalmente a sua natureza. Quando o compadre lhe disse:
—Tu virás de hoje a oito dias receber os quatrocentos mil réis para os dares ao teu Joaquim no acto da escriptura de casamento—Bento acudiu impetuosamente:
—Eu não quero vêr o meu dinheiro! Arranje v. s.^a cá isso, de modo que eu não veja o meu dinheiro!…
Elle sabia que, no acto da contagem dos mil crusados, seria capaz de agarrar a sacca e fugir com ella do escriptorio do tabellião.
Assim mesmo, o pedreiro, se tinha muitas maldades de avarento, possuia tambem algumas bellas qualidades de pae; e uma, digna de bastante memoria, é que, tendo elle em casa arsenico para matar os ratos, não o administrou ao filho.
Joaquim de Araujo entrára na vida por má porta. Oito annos de caserna bastariam a degenerar-lhe as boas qualidades: mas, com certeza, oFaiscajá tinha ganho esta alcunha á custa de turbulencias, quando assentou praça, e não se regenerára, como é de suppôr, no officio de soldado.
A sua nova posição de lavrador não lhe quadrava; a pesada rabiça do arado dava-lhe engulhos ao estomago, quando a sacudia do rêgo aberto para romper outro; o cabo da enxada empolava-lhe as mãos; de çafaras não sabia nada; ignorava todo o trafego da lavoira; e, em vez de aprender, como queriam a mulher e o sogro, ia bandarrear por feiras, quatro vezes por semana, na sua egua rabona, de pau de choupa debaixo da perna, mão direita á cinta, chapeu braguez na nuca, e besta travada que não havia outra d'aquella andadura.
Ás impertinencias do sogro respondia que não precisava labutar sujamente na terra, porque seu pai tinha o melhor de cincoenta mil crusados em peças; e aos queixumes da mulher amante e ciosa voltava as costas enfastiado. O lavrador de S. Martinho, a fim de se desfaser do genro, repartiu a casa por tres filhos, resalvou uma pequena reserva, deu em terras o dote estipulado a Rosa, e mandou-os viver onde quizessem.
A libertinagem do Faisca foi até onde os dois mil e tantos crusados da mulher chegaram; e, n'aquelle tempo, quem os desbaratasse em seis annos alcançava a reputação dos que em nossos dias derivam á miseria sobre ondas do ouro. Antes de conhecer as primeiras necessidades, Rosa morreu na flor da idade, deixando um filho de seis annos entregue ao avô, porque o marido havia muitos mezes que demorava pela Galliza, amaltado com jogadores de esquineta, seus antigos camaradas, uns com baixa, outros desertores.
O filho de Rosa breve tempo viveu da caridade do avô, que falleceu pouco depois. Quando Joaquim de Araujo voltou a S. Martinho por saber que estava viuvo, encontrou o menino de sete annos esfarrapado, sem amparo de parentes, a esmolar o pão e o gasalhado dos visinhos, por que seu pai não tinha casa propria, e todo o patrimonio de sua mãe estava vendido. Quem recolhera o rapazinho era um fogueteiro, o mais remoto e desprezado parente de sua mãe. O pequeno ajudava-o a afeiçoar as canas e encher os canudos para os foguetes com bastante geito e disposição para o officio. Perguntara-lhe o pai porque não fôra procurar o avô a Famalicão. O fogueteiro respondeu que lá fôra com elle quando a mãe morreu; mas que o avô dissera que estava tambem muito pobre, e apenas lhe déra estopa para umas calças, e um chapeu de Braga mais rapado que a escudela d'um cão. Lembrou-se Joaquim do padrinho; mas a morte cortara-lhe esse recurso. Foi ter-se com o filho successor na casa, a vêr se quereria protegel-o como seu pai. O fidalgo da Igreja recebeu-o com furiosas declamações contra o Bento pedreiro, a quem chamava ladrão, por que lhe pedia dois mil crusados e juros que o pai lhe ficara devendo.
N'este tempo, o irmão do honrado Joia já não podia trabalhar. Passava os dias sentado ao sol no degrau da porta, e dava alguns chorados vintens por semana a uma visinha que lhe levava as couves e a broa. N'esta situação o achou o filho, quando voltou da Corunha, trajando á castelhana, mas delatando na jaqueta safada e suja a miseria que o trazia á porta do pai. Pediu-lhe dinheiro com supplicante brandura, com muitos actos de arrependimento e promessas de reformação de costumes.
—Se poderes reformar os teus costumes, fazes bem; eu é que não posso desfazer-me em dinheiro—dizia o velho.—Tudo o que eu tinha estava na mão de teu padrinho: elle morreu, e o ladrão do filho não me paga.
—O que o padrinho lhe devia—disse Joaquim—são dois mil crusados; mas vossemecê herdou cincoenta e tantos…
—Não sei o que herdei—replicou o pedreiro—tudo o que eu tinha dei-o a guardar ao coronel, Deus lhe falle n'alma, e tudo lá ficou.
—O meu padrinho não era capaz de o roubar, senhor pai! Vossemecê está mettendo a sua alma nas mãos do diabo! Ha de morrer para ahi como um mendigo, e o seu dinheiro ha de ajudal-o a cahir nas profundas do inferno!…
No calor da discussão figurou-se ao velho que o filho seria capaz de praticar alguma violencia. Teve medo—o medo que devia ser-lhe uma agonia fulminante, se o goso de sentir-se rico não prevalecesse ás angustias de recear-se em perigo na presença do filho. Abriu com as mãos tremulas a arca, tirou um pé de meia, atado pelo calcanhar com uma guita, deu-o ao filho, e disse-lhe com voz cortada de soluços:
—É tudo quanto tenho. Recebi hontem esses vinte crusados novos dos esteios que vendi. Se queres dar-me metade, dá; se não queres, leva tudo.
Joaquim quedou-se alguns minutos a olhar para o pai com piedoso aspecto; e, depois de pensar na repartição dos pintos, ouvindo filialmente a consciencia e a razão, deliberou… não repartir nada. Sahiu com mais duas maldições tacitas, e foi relatar o caso ao Luiz Meirinho.
N'este tempo, o antigo aguazil do corregedor de Barcellos andava muito acautellado das justiças da comarca. A sua reputação de salteador de estradas estava feita; mas as provas que legalisassem a captura eram insufficientes. Os latrocinios de encruzilhada amiudavam-se na Terra-Negra, na Lagoncinha, e nas serras distantes do Ladario e Labruja. Algumas casas afamadas de dinheirosas eram assaltadas por quadrilhas que venciam pelo numero a resistencia; e, quando esses roubos estrondeavam, Luiz Meirinho e outros sujeitos da sua familiaridade nunca estavam em Famalicão ou nas aldeias circumvisinhas. Era sabido que as maltas se reuniam em um grupo de cabanas n'uma cafurna de pinheiros chamados osRibeiraes, não longe da vetusta egreja dos templarios de S. Thiago de Antas. Ainda hoje estão em pé, mas ninguem as habita, essas choupanas execradas pela tradição de serem ahi enterrados os ladrões que voltavam mortalmente feridos dos seus assaltos.
Como quer que fosse, a maledicencia não calumniava Luiz Meirinho, nem elle por modestia escondeu do Faisca a superior cathegoria de capitão de ladrões a que o promovêra a voz publica.
Joaquim ouviu estas confidencias intimas sem pavor nem se quer estranheza. A esquineta era-lhe bastante iniciação para ser admittido aos mysterios da Terra-Negra. O Meirinho encareceu-lhe as vantagens, e desfez nos perigos do officio. Principiando pelo argumento mais insinuante a favor dos ladrões, offereceu-lhe de uma grande sacca dinheiro que elle affiançava ter adquirido sem escandalo nem effusão de sangue. Uma das suas regras de bem-viver era (dizia elle ao Faisca) matar sómente em ultima necessidade: talvez a «justa defeza» que a lei indulta. Romulo, o salteador que fundou Roma, não exhibia idéas mais benignas.
A grangearia de um bravo para a jolda foi facil. O Faisca, em uma das proximas noutes, foi apresentado na estalagem da Lagoncinha aos seus irmãos d'armas, e achou-se em melhor sociedade do que elle previra. Condecoravam a cáfila alguns sujeitos que pareciam andar n'aquella vida aventurosa por amor das impressões rijas: eram artistas, como hoje diriamos. Filhos segundos de casas honradas e coutadas desde os reis da primeira dynastia, recrutas foragidos, desertores, jornaleiros, individuos barbaçudos vindos de longes terras, facinorosos escapulidos das cadeias ou dos degredos, gentes varias, como se vê mas todos alegres, chalaceadores, bem-quistos nas aldeias por onde residiam temporariamente, liberaes nas tavernas com conhecidos e desconhecidos, armados até aos dentes, e, segundo a excellente maxima do capitão, matando sómente em ultima necessidade. A malta, por espirito de imitação, chamava-seCompanhia do olho vivo. Florecera outra, com egual denominação, na côrte, capitaneada por José Nicós Lisboa Corte Real. Quarenta annos antes haviam sido inforcados os mais graduados da companhia, salvante o capitão, por que era protegido pelo infante D. Antonio, tio de el-rei D. José I. Um dos mais novos d'essa horda de ladrões, que teve um periodo de esplendor, fugindo á perseguição, ainda funccionou na malta do Minho, á qual legou o saudoso nome da outra.
A «Companhia do olho vivo» não prosperou no anno em que o filho de Bento de Araujo se alistou. O terror afastára os passageiros dinheirosos do transito por serras infamadas, e os proprietarios das povoações sertanejas mudaram para as villas e cidades as suas residencias.
No programma de Luiz Meirinho estava desde muito inscripto Bento de Araujo; mas, como ainda ha pessoas de bem, ao capitão repugnava-lhe propor em conselho que se planeasse o expediente maís plausivel na exhumação das tres mil peças do pai do Faisca. Os socios mantinham entre si estes decoros, o que não succede em todas as companhias com estatutos legalisados.
Entretanto, como a necessidade apertava, e á noticia do Faisca chegara a má nova de que seu pai, acariciado por uns sobrinhos de Gondifellos, tratava de se passar para a companhia d'elles, o capitão, forte de rasões aconselhadas pela prudencia e applaudidas por Joaquim, poz em discussão a materia, quando ao modo de obrigar o pedreiro a confessar a lura do thesouro. O Faisca tirou a salvo, porém, que o haviam de dispensar de assistir ao assalto, por que, em fim, o homem… sempre era seu pai, e o sangue gritava. Ninguem se riu na assembléa da sentimentalidade d'aquelle filho: é que as ideias grandes e fundas abalam toda a casta de alma. Foi apoiado calorosamente Joaquim, e até abraçado por um socio de Felgueiras, processado por parricida.
N'aquelle tempo, Famalicão, ás nove horas de uma noite de novembro, negrejava silenciosa e rodeada de pinheiraes e carvalheiras. Aquelles palacetes brazonados com seus titulares campeam hoje onde então rebalsavam extensos nateiros de lama, a espaços habitados por cabaneiros. A quadrilha de Luiz Meirinho podia manobrar sem temor e desassombradamente no centro da villa como nas Rodas do Marão.
Em uma d'essas noites, o chefe, com uma duzia de escolhidos, entrou na Congosta de Enxiras, onde morava Bento de Araujo. Elle, com mais dois, acercaram-se da porta; os outros, postaram se de atalaias nas extremidades da viella.
O pedreiro estava ainda sentado á lareira. Desde que lhe disseram que o filho pernoitava ás vezes em casa do Meirinho, velava até ser dia claro. O receio de ser assaltado era tamanho que já tres vezes, em noites tempestuosas, gritára á d'el-rei. Os visinhos, á primeira, acudiram vozeando das janellas com invulneravel intrepidez, e viram d'essa feita que um porco vadio, attrahido talvez pelo cheiro de possilga, foçava contra a porta de Bento. Depois, ainda que elle gritasse, ninguem se mexia, attribuindo a porco as aggressões incommodas ao avarento.
Foi o que aconteceu n'aquella noite de novembro. O pedreiro sentiu o abeirar-se gente da sua porta, e deu tento do raspar de ferro entre a hombreira e o batente. Gritou; mas parecia já gritar com os colmilhos apertados. A lingua da fechadura estalou, e a porta foi diante de dois possantes hombros tão rapidamente que os homens, como duas catapultas, entraram de roldão, e só pararam filando-se á garganta do velho empedrado. Por entre elles, e á luz do canhoto que flammejava, o pedreiro viu lampejar o aço de uma navalha, e ouviu, atravez dos lenços com que os hospedes cobriam as caras, uma voz disfarçada:
—Se grita, vossê morre aqui já. Se quer viver, entregue as tres mil peças que herdou, e ande depressa. Não nos conte lerias, nem faça lamurias. É decidir: o dinheiro ou a vida.
Bento erguera as mãos supplicantes, e pedira soluçante que o não matassem.
—Onde estão as tres mil peças?—perguntou o Meirinho.
—As tres mil peças?!—gaguejou o velho como tolamente espantado de que lhe perguntassem por tres mil peças não tendo elle de seu tres moedas de seis vintens.
—Mate-se este diabo!—accrescentou o Meirinho—e vamos levantar o soalho.
—Eu não tenho aqui o dinheiro, meus senhores…—acudiu o pedreiro desfeito em lagrimas.
—Então, onde o tem vossê?
—Enterrei-o debaixo de uma fraga…
—Perto d'aqui? Avie-se.
—Não, senhor, muito perto não é. São tres quartos de legua… emVermuim.
—Bem—concluiu o capitão.—Salte para diante de nós, e venha desenterrar o dinheiro. Mexa-se!
O homem sentiu certos alivios n'esta mudança de situação como se expor a vida, salvando o dinheiro, lhe fosse uma consideravel melhoría de fortuna.
A malta, precedida do velho, embrenhou-se nos matos, atravessou o outeiro que toca nas faldas da serra de Vermuim, e por S. Cosme do Valle trepou ao espinhaço de penhascos que lá chamam ocastello.
—Vossê não vá afflicto—dizia-lhe o Meirinho—por que hade ter o seu quinhão com que pode viver regaladamente. O necessario não se lhe tira; nós o que queremos é o que lhe sobeja. Somos honrados ou não, seu velhote?
E dava-lhe palmadas nos hombros.
—Sim, senhor—dizia o Bento, e recolhia-se a scismar na situação perigosa em que se via, e no modo de a esconjurar.
—Ande depressinha—tornava o chefe empurrando-o brandamente.
—Será bom ajudal-o com alguns pontapés—alvitrava outro, receando que a manhã lhes viesse tolher a empreza.
Chegados ao cabeço da serra, espigado de rochas, disse o Meirinho:
—Cá estamos. Onde é a fraga?
—Não enxergo bem… Só quando fôr dia é que eu conheço o sitio—respondeu Bento.
—Temol-as arranjadas…—tornou o Meirinho com um sorriso agoureiro de más coisas.—Ó Freiamunde, petisca lume, e faze ahi um archote de codêços para este tio ver onde está o arame.
—Parece-me que o melhor seria alumial-o com a luz da polvora…—observou Freiamunde, bebendo alguns tragos de aguardente de uma cabaça que trazia a tiracollo.—Quer lá, capitão? Se lhe parece, dou dois goles ao velho como se faz aos perús…
—Tio Bento—insistiu Luiz Meirinho—vossê acha a pedra ou não acha? O dinheiro ficará enterrado; mas vossê tambem fica de papo ao ar á espera que o enterrem. Veja lá no que ficamos; lembre-se que está tratando com homens de palavra.
No entretanto, um da companhia petiscara fogo, e communicara o lume da mecha á manada de fetos sêccos apanhados de baixo de uma rocha que figurava um dolmen.
—Ali tem luz que farte—disse Luiz.—Veja lá agora qual é a pedra, tioBento.
—Parece-me que é aquella…—respondeu elle a tiritar, já convencido de que estava chegado ás ultimas.
—Parece-lhe ou é?—insistiu raivoso o Meirinho.—Ande. Mostre lá o sitio. Ó Zé Landim, se fôr preciso desenterrar o morto serve-te da tua faca. Patrão, estamos ás suas ordens, diga onde quer que se cave; a cova ha de fazer-se ou para sahir o dinheiro ou para entrar vossê.
Bento cahira sobre os joelhos como ferido de subita apoplexia, e começou a gaguejar uns sons inintelligiveis.
—Este alma de dez diabos que está a mastigar?—disse Freiamunde.
N'este momento, o pai de Joaquim cahiu de borco, batendo com a face na pedra; e, quando dois homens o levantaram de repellão e o viram á luz dos fetos, estava morto.
Este incidente nem levemente impressionou aquelles homens fortes. Ninguem fez a minima reflexão ácerca do lance em theatro tão lugubre. Os mais preoccupados bebiam aguardente a froixo, dizendo que o homem morrera de frio. Nem uma ideia philosophica, nem sequer um dito elegiaco! Luiz Meirinho discorreu brevemente sobre a certeza de que o morto os tirára de casa para os desviar do logar onde tinha o dinheiro. Decidiu que se aproveitasse o restante da noite, indo a casa revolver a terra quanto se podesse; e, no caso de lá não apparecer o dinheiro, viriam na seguinte noite escavar debaixo da rocha, no castello.
Assim se fez. Bento de Araujo ficou deitado de costas sobre uma moita de codeços, com os braços hirtos e abertos em cruz, os punhos cerrados, e os olhos envidraçados de lagrimas. Ao alvorecer do dia, uma nuvem pardacenta, que ondolava pela crista da serra, rasgou-se em saraivada glacial, que lhe batia no rosto e saltava pelo peito nú e descarnado. Chovera e nevara depois, durante muitos dias. Nenhum pastor subira com o rebanho áquellas cumiadas, sempre escondidas na negridão da nevoa, e perigosas se o lobo uiva faminto.
Quando o tempo estiou, quem denunciára o cadaver já disforme no rosto fôra uma revoada de corvos que crucitavam pairando sobre os restos do seu banquete disputado ás feras.
Contava-se assim o caso em Famalicão.
Que o Bento de Araujo, receando os ladrões seus visinhos, desenterrara as suas riquezas que tinha debaixo da lareira, e indo escondel-as nos montados de Vermuim, em uma noite de grande invernia, morrera tolhido pelo frio e traspassado da neve. Fundavam-se os d'esta versão em que a pedra da lareira estava deslocada, e no seu logar uma cova funda; e debaixo dos bancos da cama outra escavação, e no entulho uns cacos de panella, onde com certeza estava porção do thesouro, e a outra porção debaixo da lareira.
Outro boato:
Que a malta da Terra-Negra assaltára o pedreiro, roubara-o, matara-o, e levara o cadaver ao castello de Vermuim. Não se dava a rasão d'este sahimento a tres quartos de legua; mas tambem não era necessaria a logica para explicar tal coisa.
A versão, porém, mais popular e que tinha o suffragio das pessoas mais rasoaveis, era que o Joaquim assassinára o pai na serra, quando o velho voltava do seu trabalho de brocar pedra; e, depois, deixando-o morto, viera a casa desenterrar o dinheiro. Em confirmação do boato, allegava-se o facto de elle ter apparecido em Famalicão a procurar o pai, e a indagar dos visinhos se tinham dado conta do arrombamento da casa—isto no dia em que o pai já estava morto.
A voz publica forçou a auctoridade a prender o Faisca; mas, na noite seguinte á da prisão, algumas duzias de homens armados arrombaram a cadeia de Famalicão, e tiraram de ferros o innocente.
Esta fuga completou a ruina de Joaquim de Araujo. Acreditou-se geralmente no roubo e no parricidio. As aldeias do julgado de Vermuim, com Famalicão á frente, deram montaria á quadrilha da Terra-Negra, com o reforço militar de Guimarães e Braga. A malta dispersou, mortos alguns dos mais audazes; e os dispersos engrossaram, na Povoa de Lanhoso, a celebrada quadrilha que tem a sua historia em um livro dignamente esquecido.[8]
O filho de Bento pedreiro morreu em 1809 no Carvalho-d'Este, defendendo a patria da invasão franceza commandada por Soult. Bateu se com o heroismo do suicida, ao cabo de desoito annos de salteador, arrostando a todos os perigos, mas fugindo a que o filassem vivo, por que tinha grande horror á forca. Afinal, inscreveram-no entre os valorosos defensores da nossa autonomia, e o seu cadaver foi mais acatado que o do general Bernardim Freire, assassinado por outros patriotas da laia do Faisca.
Hão de lebrar-se que Joaquim de Araujo tinha um filho, que aprendera emS. Martinho do Valle o officio de fogueteiro com o parente de sua mãe.