[2]Chamava-se então ruaNova, porque o celebre governador da cidade. Francisco d'Almada e Mendonça, fallecido em 1804, tinha transformado a antiga rua das Hortas n'esta nova rua, que tomou o seu nome.[3]Por decreto de 11 de dezembro de 1808 toda a nação foi obrigada a pegar em armas.[4]Este facto consta do relatorio do proprio barão.IVHorrores da invasãoDurante a noite de 28 para 29 continuou tão rijo o fogo, que o inimigo logrou forçar a bateria da Prelada.Grande era o pavor da cidade, e maior foi quando se soube que sua excellencia o bispo generalissimo se havia retirado para a Serra do Pilar.Este facto demonstrava não só a descrença do prelado na defeza do Porto, senão que tambem punha a descoberto a intenção de fuga, no caso de perigo, o que realmente aconteceu.Não lastimemos a impiedade deshumana do pastor, que abandonava em tão dolorosa conjunctura o rebanho indefeso, porque basta a historia a stygmatisal-a, mas calculemos a funesta impressão que semelhante noticia causaria nos animos desalentados dos portuenses.A familia do capitão Graça Strech foi seguramente uma das que mais succumbiram n'aquella tormentosa noite.As trez mulheres estavam entregues ás suas orações e angustias, inabalaveis no proposito de esperar a pé quedo a desgraça, verdadeiramente sós, porque os criados, que foram os primeiros a dar rebate, fugiram, durante a noite, bandeados com outros habitantes, para Gaya.O capitão e o filho combatiam ás ordens do brigadeiro Victoria, na linha do Bomfim, posto defensivo que, á hora da invasão, veiu a nobilitar-se com esforçados prodigios de coragem por parte do intrepido brigadeiro e dos seus.Umas visinhas da familia Strech, já preparadas para a fuga, instaram com as pobres senhoras para que as acompanhassem. Segundo o seu plano, acoitar-se-iam em Gondomar, onde diziam ter parentes lavradores.{29}Augusta, lavada em lagrimas, e offegante de commoção, reagiu energicamente.—Se meu pae e meu irmão morrerem—dizia ella—deixemo-nos morrer tambem, porque o viver sem elles seria peior que a morte. Se vencermos, seremos as primeiras a abraçal-os, a agradecer-lhes por nós e pela patria. Elles cumprem o seu dever; e nós tambem. Elles estão no seu posto; nós estamos no nosso. O meu coração revolta-se contra a ideia de levarmos o egoismo da nossa vida até ao esquecimento de que temos dois soldados nas linhas de defeza. Muito obrigada, minhas amigas, mas minha mãe e minha avó são da mesma opinião, e ficaremos todas. O perigo, se o houver, repartido por trez será menor. Vão, não percam tempo; oxalá que nos tornemos a vêr...E despediram-se, chorando e soluçando, como se se despedissem para a eternidade.Ao alvorejar da manhã forçaram os francezes as baterias de Santo Antonio, Pedral e Aguardente.A cavallaria inimiga, entrando a dois de fundo pelas ruas da cidade, correu a atacar pela rectaguarda as baterias que resistiam ainda.Uma das que por mais tempo, e mais heroicamente resistiram, foi a do Bomfim.Já quando era grande a confusão em todo o circuito, destacou o brigadeiro Victoria para o exterior da linha a gente que lhe restava da legião lusitana, e mais duas partidas na força total de cem homens.O brigadeiro, o tenente coronel Champalimaud, o ajudante da praça de Valency, Antonio de Azevedo, e o capitão Graça Strech corriam denodadamente de um lado a outro animando o povo, que ali confluira, e que esperava poder fugir protegido por duas baterias, as quaes não só defendiam a rua do Bomfim mas até as baterias de Campanhã.Outro tanto não aconteceu no lado esquerdo da linha, commandado pelo brigadeiro Antonio de Lima Barreto.Logo pela manhã o immigo começou a atacal-o com energia; Barreto, perdendo algumas baterias, voltou-se para os artilheiros dizendo-lhes:—Encravem as peças. Retirem-se. Estamos perdidos.Os soldados, ouvida a ignara apostrophe, metteram-lhe{30}duas balas no corpo, e despejaram a ultima polvora contra o inimigo.Quando a cavallaria franceza, forçando a bateria d'Aguardente, entrou na cidade, as ordenanças, desamparados os postos, fugiram tumultuariamente para a ponte pelas ruas da Sovella e nova do Almada.A morgada, ouvindo o estridor dos fugitivos, ainda longinquo, correu á janella, e reconheceu á distancia as ordenanças.—Que é? perguntaram-lhe anciosamente a filha e a neta.—Não é nada; é o povo que se affez a correr e a gritar, respondeu a morgada, tranquillisando ambas.Como porém a massa enorme rolasse já mais perto, ouviram-se distinctamente vozes de:—São os francezes!—Vem ahi!—Fujam! fujam!—Á ponte! á ponte!—Não ha outro caminho!—Depressa!Augusta, que tinha chegado a meio da sala, recuou espavorida, e deixou-se cair nos braços da mãe, gritando dolorosamente:—Ah! meu pae!... meu irmão!Os francezes, entrando na cidade, levaram de roldão adeante de si a onda allucinada dos fugitivos que procuravam salvar-se. D'elles, uns tomavam a direcção da Foz, outros, em maior numero, corriam para a Ribeira, na ancia de atravessar para Villa Nova. Alguns passaram o rio a nado ou em barcos. Mas o grosso da multidão, enovelando-se n'uma vertiginosa confusão de pavor, rolou sobre a ponte, cujo taboleiro assentava, de espaço a espaço, sobre um renque de lanchões. E as primeiras pessoas que conseguiram transpol-a abriram, logo que se julgaram a salvo, os alçapões da ponte—systema de defesa empregado em casos extremos—pensando preparar assim um desastre aos francezes que as perseguiam.Novos fugitivos, onda sobre onda, empurrando-se uns aos outros, cegos de desespero, loucos de medo, iam caindo pelos alçapões ao rio, e a dizimada cavallaria portugueza, fugindo tambem, e procurando a ponte, maior pressão fazia ainda sobre a grande massa de povo, pisando-a, atropellando-a, empurrando-a{31}com os cavallos para o sorvedouro hiante onde centenas de pessoas desappareciam, ao mesmo tempo que as baterias de Villa Nova, vendo os francezes descer a rua de S. João, iam metralhando a Ribeira, e augmentando involuntariamente o terror e o morticinio.Diz-se que eram tantos os mortos, que, empilhados no vacuo dos alçapões, nivelaram o pavimento da ponte, facilitando passagem aos ultimos fugitivos por cima de rumas de cadaveres sobrepostos uns aos outros.Os proprios invasores se commoveram com esta horrorosa tragedia, e ainda puderam salvar da morte algumas pessoas.Depois, lançando pranchas sobre os alçapões, passaram para Villa Nova, d'onde facilmente desalojaram as nossas baterias.Saibamos agora qual seria a sorte do capitão Graça Strech e da sua familia n'essas crudelissimas horas da invasão.Esteve o capitão ao lado do brigadeiro Victoria, na bateria do Bomfim, até aos ultimos momentos em que a ambos, e a poucos mais, foi dado combater pela patria.O que é certo, e a historia o refere, é que puderam proteger a retirada de mais de seis mil pessoas, que se evadiram por aquelle lado da cidade.Abrigados os restantes valentes por um muro, que se levantava no outeiro do Bomfim, lograram continuar o fogo com desesperado denodo.Foi realmente heroico esse render-se de heroes, quando, desamparados de todo o soccorro, enviaram ao inimigo a ultima metralha que lhes restava.O brigadeiro Victoria, conhecendo insustentavel a posição, apertou a mão do tenente coronel Champalimaud, do ajudante Antonio de Azevedo e do capitão Graça Strech, dizendo-lhes com voz tremula de commoção:—Meus amigos, meus bravos amigos, o sacrificio da nossa vida nada aproveitaria á patria, que está invadida. Fizemos o nosso dever; pelejámos emquanto pudemos. Agora que cada um procure salvar a sua vida para quando mais util possa ser á terra em que nascemos.Mal acabava de dizer estas palavras cahiam feridas{32}duas pessoas das que rodeavam o brigadeiro: o commandante dos artilheiros e o capitão Graça Strech.—Que foi? perguntou Victoria.—Foi a ultima arcanhadura dos francezes, responderam a um tempo os dois bravos militares.Era necessario retirar; por Campanhã já não podia ser. Optaram por atravessar o Douro, que o brigadeiro e alguns officiaes conseguiram passar defronte d'Avintes. N'esse numero porém não podemos incluir o capitão Graça Strech.Ferido no peito, se bem que houvesse dissimulado a gravidade do ferimento, conheceu que era perigoso o seu estado. Foi então que se lembrou da filha, da esposa, da sogra, e do filho, que havia duas horas tinha perdido de vista.Que seria d'ellas, pobres mulheres, entregues sem protecção aos horrores d'aquelle dia? E o filho, que se batera como valente na bateria do Bomfim, haveria ficado entre os muitos que lá succumbiram, e adormeceram sobre a terra embebida no sangue de seus irmãos?Não sabia.Oh! mas era preciso que o soubesse antes que se lhe fechasse em torno a noite escura da eternidade. Pouco lhe importava morrer; o que elle queria era obter a certeza de que a embriaguez da victoria não tinha desvairado os invasores ao extremo de não respeitarem fracas mulheres indefesas.Ainda se restasse vigoroso o braço do filho para amparar o golpe que fosse vibrado contra ellas!Não o pôde suppôr; julgou-o morto nos derradeiros momentos da refrega, por que o não tornou a vêr.Atravessar o Douro era arriscado; tentar internar-se na cidade, tambem. Todavia o primeiro meio era a morte no desespero; o segundo podia ser a morte com a esperança.Abraçou-se pois a esse unico esteio que lhe restava—a esperança, de poder abraçar os seus.Arrancou os vivos da farda, e, esquecido de si, e do sangue que cada vez lhe repuxava do peito com maior intensidade, tentou descer a rua do bomfim e bandear-se em logar azado com a turba dos que percorriam as ruas desvairadamente.{33}{34}{35}IlustraçãoQuando elle passava coxeando... (pag. 7)Do militar que fôra, arrancados os vivos e emblemas, só lhe restava a alma.Poucos passos andados, sentiu porém que lhe ía fugindo a vista, á medida que empenhava as ultimas forças para adiantar caminho.Ainda mais uma vez enganára a coragem do soldado o coração do pae.Quiz andar. Fraquejaram-lhe as pernas, e Graça Strech procurou com a mão um amparo que não encontrou.Após um momento de oscillação, ruiu em terra. Estava morto.Entretanto havia occorrido a enorme desgraça da ponte, e os invasores, enfurecidos pela resistencia que encontraram, iam encetar as tremendas represalias que estão na memoria de todos os portuenses.Infelizes os que tiveram de assistir hora a hora a esse drama de sangue e terror que teve por bastidores os muros d'uma cidade inteira. Infelizes os que viram despedaçar-se momento a momento nas garras dos cannibaes os até então immaculados thesouros do seu coração. Infelizes, finalmente, os que viram cavar-se a seus pés a sepultura ingente de milhares de familias e não puderam enchel-a com o sangue dos que assassinavam em nome da victoria.José Maria da Graça Strech pertence ao numero d'estes grandes desgraçados, que foram muitos.Quando a bateria do Bomfim protegeu a fuga de seis mil pessoas, já quando, depois das oito horas da manhã, era desesperada a situação dos portuenses, duas senhoras, que se destacaram da multidão desorientada, acenaram ao denodado moço que por acaso olhára na direcção que ellas seguiam.Elle reconheceu-as. Eram as duas visinhas que horas antes tinham convidado Augusta a acompanhal-as na fuga e que, arrastadas pela onda impetuosa dos que procuravam salvação, chegaram até ao Bomfim.Abeirou-se o moço a falar-lhes, por um momento radioso de felicidade, porque lhe acudira a lembrança de que as pessoas da sua familia as haveriam acompanhado. Oh! se sua irmã, se a estremecida menina estivesse ali, poderia fugir incolume aos horrores que elle presagiava imminentes, attenta a vantagem do inimigo em toda a linha.{36}—Ellas vieram? perguntou açodadamente José Maria.—Não, teimaram em ficar, respondeu confrangida uma das senhoras.—Oh! meu Deus! exclamou o filho do capitão Strech levando a mão ao coração.—Veja se póde salval-as, salve-as por Deus, que estão sósinhas, desampadas de criados...—Mas como? Como?! articulou o moço estendendo o braço para a posição do inimigo, como se quizesse indicar que era preciso combater a todo o transe.—Augusta, a pobresinha, fazia dó! Oh! salve-a, salve-a, que ella morrerá de pavor! acrescentou a outra visinha.—Augusta! Augusta! repetiu José Maria, perplexo, olhando para as duas lacrimosas mulheres e para os seus companheiros d'armas que defendiam á distancia a unica bateria que não se tinha rendido.E, sem se mover do sitio em que empedrára, dizia com desalento:—Pobresinhas! E meu pae ali, exposto á morte a todo o instante, e ellas sem defeza, sem ninguem!...Então, aproveitando a opportunidade d'um momento, ordenára o coronel Champalimaud que se désse passagem ao magote dos fugitivos que mais se tinha adiantado.—Vão, vão, gritou o moço affastando com o braço as duas mulheres—Salvem-se ao menos, e obrigado, muito obrigado. Eu verei se as posso salvar... a ellas, a Augusta.O troar proximo do canhão pareceu chamal-o á realidade do perigo.—São elles, disse de si para comsigo, correndo na direcção da bateria, os poucos que n'esta hora se sacrificam pela patria. E tambem hão de ter mãe, e irmã... e estão ali, firmes, corajosos, heroicos. Oh! cobardia do meu coração, não, não te posso, não te devo ouvir...E não tardou que se collocasse ao lado dos seus esforçados companheiros.Todavia cada vez se aproximava mais o lastimoso desfecho d'aquella desesperada resistencia. Começava a lavrar a confusão na bateria, fustigada por violento fogo dos francezes—indomito ataque, de que{37}em breve foi victima, como já dissemos, o proprio capitão Graça Strech. Tamanha era a fumarada, que já se tornava impossivel verem-se uns aos outros. Foi então que José Maria, involto na cerração da metralha, conhecendo que era impossivel prolongar por mais tempo aquella proeza de bravos patriotas, se lembrou de que nada aproveitaria á causa da patria o sacrificio da sua vida. E soaram-lhe aos ouvidos as palavras afflictivas das duas mulheres, e sonhou ver estenderem-se para elle os braços tremulos d'Augusta, que pedia soccorro.Então, como se o coração houvesse decretado uma sentença irrevogavel, cortou resolutamente o fumo da polvora, e affastou-se da bateria, murmurando os nomes de sua mãe, de sua irmã, de sua avó.Momentos depois foi que o brigadeiro Victoria fugiu tambem, e que o capitão Graça Strech caiu morto na rua do Bomfim.Trabalhoso e arriscado foi o abrir caminho por entre a multidão que, semelhante a um grande mar, ondulava no vertiginoso fluxo e refluxo do desespero. Algumas vezes teve de se esconder, outras de retroceder, e só pela tarde chegou á rua nova do Almada.Abroquelado pela energia da coragem, e mais feliz ou mais infeliz que seu pae, venceu todas as contrariedades, até que finalmente, escoando-se por entre os grupos desvatrados, entrou em casa no momento em que ao fundo da rua assomavam tropas francezas que, senhoras de toda a cidade, continuavam o saque, as violações e a carnificina que tristemente assignalaram esse dia memoravel nos fastos da nossa historia.{38}VO juramento de vingançaAs casas da rua nova do Almada estavam pela maior parte desertas.Foi esta uma das ruas que mais lutuoso espectaculo offereceram. Os habitantes fugiram deixando abertas as portas, de modo que, á hora em que começou o saque, os francezes se locupletaram tranquilamente. Poucos foram os predios que lhes deram o breve incommodo de forçar a entrada. A este numero pertenceu, porém, a casa onde se conservou, entregue aos seus pavores, a familia Strech. José Maria, ao entrar açodado pela aproximação dos invasores, appellou para o ultimo recurso de defeza que lhe restava: fechou a porta. Lembrou-se de que os francezes se domiciliariam nos predios devolutos e de que não porfiariam em forçar uma entrada encontrando abertas tantas portas. Não pôde imaginar n'esse momento de suprema preoccupação que meditassem a pilhagem e a carnificina que, passadas horas, consummaram.Correu, pois, a procurar a irmã, a mãe e a avó, que, ouvindo passos apressados, e no presupposto de serem os de algum soldado francez, romperam em gritos angustiosos, traindo d'este modo o segredo dos seus esconderijos.—Augusta! Augusta! Minha mãe! Avósinha! apostrophou precipitadamente José Maria para serenal-as e correndo pelo corredor.—José! José! exclamou uma voz que parecia soar das profundezas de um tumulo.E logo dois braços tremulos de commoção enleiaram o moço, e uns labios gelados de mortal frialdade lhe procuraram as faces, e um novo grito de dolorida alegria lhe estrugiu aos ouvidos.E immediatamente soaram passos, que elle conheceu:{39}a mãe e a avó, seguindo a pobre menina que as precedera, correram ao encontro de José Maria.Augusta, apertando-o contra o peito, alternando beijos e olhares por egual frementes, porque o sangue congelado no coração parecia, acordado de subito, correr em turbilhões ao cerebro, não lograva articular palavra, tão violenta era a sensação que estava experimentando.Não assim, porém, sua mãe, que, parando como que fulminada á porta, tivera comtudo voz para perguntar ao filho enleiado pela irmã:—E... teu pae?—Lá ficou ainda a combater com os ultimos valentes. Bem póde ser que a Providencia o tenha salvado como a mim me salvou. O cobarde fui eu, sim, fui eu, porque me lembrei de ti, minha irmã, e de si, minha mãe, e...Não pôde completar a phrase, porque de repente foi chamado á realidade pelo estrepito que a soldadesca franceza fazia na rua.—Retirem-se! escondam-se! gritou elle. São os francezes, bem os vi, são elles! Esconde-te, Augusta, minha mãe, minha avó...N'este momento estremeceu o predio nos alicerces como se a porta tivesse soffrido o embate de um ariete.—Que é? Onde é? perguntou offegante a menina, que de novo descorára até á lividez do cadaver.—São elles que forçam a porta, naturalmente... Eu fechei-a quando entrei, sim, eu fechei-a.—E estava aberta! Foram os criados quando fugiram! acrescentou a avó.—Escondam-se, escondamo-nos todos. Viram-me decerto entrar. Perseguem-me! tornou afflicto José Maria.E, após segundo estrondo, soaram no portal e na escada os passos da soldadesca que entrava.Das quatro pessoas que estavam na sala, nenhuma pôde fugir; todas como que ficaram chumbadas ao pavimento.E os francezes entraram vozeando, praguejando, e logo assomaram á porta muitas cabeças cujos olhos chammejavam de cubiça e sensualidade.Então José Maria, como galvanisado de subito, adeantou-se para a porta, estendendo o braço para{40}defender as trez mulheres e, quando ia talvez a balbuciar uma supplica, caiu desamparado, vibrando um grito e recebendo no peito a ponta de uma bayoneta, cujo golpe fôra mais doloroso que profundo.As vozes das trez mulheres, conglobadas n'uma só, soltaram uma d'essas exclamações impossiveis de descrever, apenas comparavel ao grito lamentoso da araponga no deserto, quando encontra vazio o ninho, porque uma ave de rapina lhe arrebatou a prole.E a soldadesca entrou de roldão na sala, affastando com o pé o corpo de José Maria, sedenta de prazer e rapina.Para os que suppozerem que exageramos com toques demasiado sombrios os horrores que se succederam á invasão do Porto, vamos copiar apenas algumas linhas daHistoria da guerra civil, de Soriano:«Para cumulo de todas estas desgraças a cidade foi posta a saque, por castigo da sua resistencia, como em casos taes se costuma praticar, saque que começou pelas onze horas do dia, levando os vencedores a todas as casas de habitação, a par do terror que infundiam, o roubo, a violação e a morte, excitados de mais a mais para isto por encontrarem, segundo alguns dizem, varios prisioneiros francezes sem olhos, com linguas cortadas, e os membros truncados ou rasgados.»Alguns escriptores o dizem, em verdade; um d'elles é o sr. Claudio de Chaby que, nos seusExcerptos historicos, refere:«No transito das ruas e praças encontraram os soldados de Soult alguns dos seus camaradas, que nas differentes refregas tinham os nossos aprisionado, exercendo n'elles as sevicias da mais repugnante crueza: a uns tinham cortado a lingua, arrancado a outros os olhos ou decepado os membros!—O effeito natural da observação de taes crueldades, junto á tambem natural disposição de espirito dos invasores em taes circumstancias, levou estes á pratica de vingativos e deploraveis excessos, deassassinato, roubo, violencia e profanação!»O mais que se passou na casa da rua nova do Almada, depois que a soldadesca entrára, não o soube exactamente José Maria que, ao cerrar da noite, tornára a si, depois de haver perdido muito sangue pelo{41}golpe que recebera no peito. Foi de tempestade na terra e no céo essa noite, como podem confirmar os poucos que se lembrarem d'ella.Tamanho era o temporal havia dias imminente ao Porto, que trinta navios inglezes, carregados de vinho e outros productos, impedidos de sair das aguas do Douro pelo mau estado da barra, caíram em poder do marechal Soult, bem como a polvora guardada n'um vasto armazem, e 196 peças de artilharia, recolhidas nas differentes baterias da cidade.Algum tempo esteve José Maria firmado sobre o braço direito, que d'instante a instante fraquejava, procurando orientar-se e recordar-se.Era profundo o silencio na casa toda.Dir-se-ia que despertava n'um tumulo.Assim que pôde rememorar o que se passára até ao momento de ser ferido, entrou de chamar em altas vozes a irmã, a mãe e a avó.Apenas porém respondia ás suas afflictivas exclamações o chofrar dos aguaceiros nas vidraças.Ergueu-se com muito custo, atabafando o sangue com a roupa, e começou a sondar a escuridão, procurando alguem.Não tardou que tropeçasse n'um obstaculo que os pés encontraram. Curvou-se e tacteou. Encontrou vestidos de mulher. Estendeu a mão e apalpou um rosto. Até pelo tacto conhecemos os nossos. José Maria estremeceu como se tivesse recebido em pleno peito um novo golpe de ferro, e rugiu d'afflicção e desespero. Não podia duvidar. Era o rosto de sua irmã. Parecia morta! Entrou de agital-a, de chamal-a. O mesmo silencio, a mesma immobilidade!—Mortal morta! rouquejava elle convulso.—Minha mãe! minha avó!E unicamente lhe respondia a chuva a fustigar a vidraça.Occorreu-lhe porém que, como se deu com elle, podia ser que sua irmã estivesse apenas adormecida em deliquio.—Ella é tão delicada! apostrophou-se elle. Desmaiou talvez. Julgaram-n'a morta. Deixaram-n'a. Mas minha mãe? E minha avó?Era preciso tirar-se d'aquella duvida horrivel.Sondando as trevas, saíu tremendo, a procurar luz.{42}Momentos depois voltava cambaleante á sala e, levantando una candieiro de latão á altura da cara, reconhecia trez cadaveres.N'essa mesma noite, e a essa mesma hora, ruidosamente se banqueteavam n'uma taberna do largo da Lapa, ebrios de vinho e victoria, alguns soldados da divisão Delaborde.Comia-se, bebia-se, fumava-se, cantava-se. Era a celebração solemne d'um dia de saque, que requeria uma noite d'orgia. Algumas vivandeiras francezas cantavam em côro, no idioma patrio, e reclinadas aos hombros dos soldados, uma canção marcial, cujo estribilho podia ser traduzido d'este modo:Viva a França! viva a França!Que triumpha na matança!Rataplan!Um dos soldados; de olhar scintillante e fartos bigodes retorcidos, chasqueava na sua lingua natal com uma das vivandeiras que se lhe queria escapar dos braços:—Oh! Por Deus, que era bem mais bonita do que tu!—Quem? perguntou d'esguelha a vivandeira.—A portugueza que me resistiu.—E que tu mataste?—E que eu matei para que não deixasse de resistir a outro.—A pobre rapariga!—Pobre rapariga! d'aquella edade deve ter morrido pura! Tu não morres assim,ma petite chienne! Par Dieu!—Cruel!—E o caso é que quasi do mesmo golpe derrubei as duas mulheres que a defendiam e abraçavam. Um soldado do imperador livra-se depressa ainda que seja d'um cento de mulheres.—Cheiras a sangue! exclamou a vivandeira forcejando por desprender-se dos braços do soldado.—Acodes pelo teu sexo! O que me não perguntas é quantos homens matei! Por Deus! que era precisa a vingança. Estes perros d'hespanhoes, que se chamam portuguezes, não nos queimaram a alma porque{43}não puderam. Atiravam-nos desesperados! E matavam os nossos emissarios! e mutilavam os nossos irmãos! Quantos centos de francezes imaginas tu que morreram hoje? Não se mata impunemente um francez como se mata um cão. E desde que entrámos em Portugal quantos não teem ficado para nunca mais voltar a França! Vingámol-os; estão vingados!Vive l'empereur! Vive le marechal! Vive la France!E voltando-se para outra das vivandeiras, que estava proxima, jogou-lhe esta phrase intimativa:—Esta é minha; canta tu.E logo, por entre a vozeria, se ouviu cantar;Viva a França! viva a França!Que triumpha na matança!Rataplan!Aquelles cadaveres eram os das trez senhoras da familia Strech.José Maria esteve contemplando-os mudo, absorto, authomatico. Dir-se-ia que a intelligencia se lhe havia paralysado, e o coração havia adormecido. Era um deliquio, como o que fôra consequencia do ferimento, mas muito mais horroroso de certo, porque os olhos tinham vista para a realidade, embora o cerebro não tivesse actividade para comprehender.Parecia que as trez pobres senhoras dormiam tranquillamente, se bem que o desalinho dos vestidos e dos cabellos fosse claro indicio de lucta.José Maria ajoelhou-se, poisando a luz, a contemplal-as e, porque o coração humano é tão valente ás vezes que se excede a si mesmo, resistiu áquella dôr incomparavel e quiz ainda procurar nas ruinas do seu pensamento o auxilio de uma ideia.N'aquella immensa e tenebrosa cerração era preciso um raio de luz, ainda que fosse sinistro como os clarões sulphureos dos mysticos paineis que representam o inferno.E verdadeiramente infernaes foram os horrores d'esse dia.Se o leitor, apesar das indicações historicas de que me tenho soccorrido, imagina que estou phantasiando negruras para architectar um romance tenebroso,{44}achará no seu proprio espirito a convicção da verdade, se se concentrar por um momento deante do tosco e funebre quadro, allusivo á invasão dos francezes, que pende da muralha da Ribeira, a dois passos da ponte pensil.Ahi, á luz das lanternas que descrevem na escuridão da noite duas zonas luminosas, ouvindo o ruido triste do Douro que lhe rola aos pés, vendo a pequena distancia erguerem-se ao ar, como outros tantos espectros sombrios, as armações dos navios fundeados, ahi, dizia eu, comprehenderá todas as angustias, hoje esquecidas, d'essa epoca de horror, traduzidas na concisa simplicidade d'esse piedoso monumento.A inscripção do quadro nem por singela deixa de convidar á meditação:«Pelas almas dos que falleceram na ponte do rio Douro na entrada dos francezes no anno de 1809, um Padre Nosso e uma Ave-Maria.»Ali fui eu muita vez, pela calada da noite, como a procurar a triste inspiração para escrever as primeiras paginas da historia da familia Strech. Estes horrores poderão hoje parecer sinistramente romanticos, mas uma hora só de recolhimento em face do quadro da Ribeira basta a acordar em nós a consciencia historica d'essa epoca calamitosa.Para os que morreram na catastrophe da ponte pede o rotulo uma oração, mas quantos não morreram então sem oração e sem mortalha, quantos não agonisaram em ancias que não foram mortaes, sem a mortalha que desejariam, e sem uma oração de que blasphemariam!Ó Providencia! só tu sabes o segredo de todas as maguas, só tu podes contar as bagas de suor que ressumbram na fronte dos infelizes que tu não matas logo, para que não morram em desespero sacrilego!E José Maria não morreu.Por um esforço intellectual, que só a Providencia podia permittir a um soldado ferido, quando já as{45}trevas da loucura procuravam cingir-lhe o cerebro escandecido, conseguiu encontrar uma recordação, se bem que a principio tibia e vaga como o diluculo que se vae alargando e colorindo pouco a pouco até chammejar no céo.E tambem essa luz que se fez no espirito do pobre moço lhe queimára a intelligencia, como se fosse labareda, mostrando-lhe as ruinas do passado ainda fumegantes de um incendio recente.Eram aquellas as cinzas da sua felicidade...Estavam ali espalhadas pelo turbilhão da guerra, retintas de sangue, a clamar vingança.E os seus beijos cariciosos e ardentes, e as suas palavras ao mesmo passo desalentadas e calorosas não puderam, depois que inteiramente se recordou da realidade, galvanisar os trez cadaveres, animar os trez corações paralysados, descerrar os labios da mãe, da irmã e da avó, para sempre mudos, para sempre adormecidos.—Pobresinhas!—pensava elle—deixaram-se talvez morrer por me supporem morto! E antes eu o estivesse, que já teria soado a ultima hora da minha triste mocidade. E mata-se assim a mãe, a dois passos do filho! E não se respeitam os cabellos brancos da velhice! nem a belleza e a virtude que teem duplo direito á vida! Mas, agora reparo eu, aqui estão patentes e irrecusaveis os signaes da lucta... é que se disputavam o sacrificio da morte... ou... suspeita horrivel! morreram talvez para defender a virgindade de uma só! Dize-me, ó minha boa irmã, ó minha doce amiga, se isto não é um sonho atroz da minha desvairada cabeça! Responde, Augusta, sou eu que te peço, eu, o teu irmão, o teu José... E não fala, e não responde! Está morta! Mataram-n'a elles, os malditos soldados d'esse leão indomavel da Corsega para quem todo o mundo é pequeno, todo o sangue pouco! Acaso não se saciava a tua sanha, leão, sem a vida d'estas trez pobres mulheres, que nunca te amaldiçoaram, que nunca levantaram um brado de justa indignação contra a tua ambição desmedida! Eu é que devia morrer, sabes tu? Eu sim, porque fiz guerra de morte aos teus soldados, porque as minhas mãos cheiram ainda a polvora com que os fuzilei. Eu sim, porque a minha morte seria uma represalia; mas a morte d'estas trez mulheres, timidas{46}e indefesas, não foi uma represalia, foi uma infamia...E, extenuado d'esta subitanea exaltação, pendeu a fronte, como se lhe faltasse a vida para tamanha angustia, porque o sangue perdido era copioso. Entretanto continuava a tempestade e, confundido com o estrepito da chuva, começou-se a ouvir o toque dos clarins nos postos dos invasores.José Maria pareceu despertar de subito, acordado por essa sinistra linguagem dos acampamentos:—Sois vós! Podeis estar tranquillos, que a esta hora não haverá um só braço que tenha a energia de vos acommetter no vosso glorioso descanço. Tudo são orphãos e viuvas, que pranteiam cadaveres. Descançae, descançae, que muita coragem vos deve ter custado o assassinio de mulheres inoffensivas como estas! como todas! Oh! mas ámanhã a vingança acordará terrivel, e então vos pedirá contas das vossas atrocidades e das vossas infamias. Sim, ámanhã, nós todos, unidos por commum desgraça, seremos um só inimigo, porque a nossa vingança é uma, mas não imagineis que tendes a derrubar um só inimigo, porque serão muitas as cabeças a decepar, muitos os portuguezes a vencer... Onde houver um portuguez, haverá um soldado, porque elle pelejará por desaffrontar a memoria dos seus parentes, dos seus amigos, d'um filho, d'uma irmã...E curvando-se carinhoso para o cadaver d'Augusta, e tirando-lhe delicadamente do dedo o annel com que ella havia morrido:—E eu vingarei a vossa memoria, minhas santas amigas, e vingarei a tua innocencia, minha querida irmã... Por este annel o juro, que será o meu fiel companheiro, talvez o unico que me seja dado conservar até a hora da morte... Beijal-o-hei antes d'entrar em combate, e elle me dará a coragem dos valentes; elle será a minha égide protectora se a morte me quizer arrebatar a minha vingança..... Que Deus me oiça, Augusta. Sobre o teu annel, que nunca te desacompanhou, faço este juramento solemne, que jámais quebrarei...{47}VIA mariposa do acampamentoFôra demasiado esforço para tão melindroso estado.O corpo, alquebrado pela dôr physica, parecia vergar ao peso d'aquella grande alma.Graça Strech caminhou em direitura á porta, vacillando a cada passo, e deixando após si um rasto de sangue. Antes de sair, volveu ainda um ultimo olhar aos trez cadaveres, e levantou por um instante a mão de sobre o ferimento, apalpando o peito n'outro sitio, como para se certificar da existencia d'alguma coisa que lá trazia occulta, e que pareceu encontrar.Era o maço das cartas d'Augusta, escriptas da quinta das Chãs, e que elle conservára no seio durante as mais perigosas refregas na bateria do Bomfim.Desceu vagarosamente as escadas, amparado ao corrimão, e conseguiu a muito custo chegar á rua.Uma lufada de vento, humida e fria, momentaneamente refrigerou o cerebro d'aquelle moço, em quem as mais violentas congestões parecia succederem-se rapidamente.Onde ia elle, ferido, cerrada a noite?A esta pergunta, que muitas vezes se fez no decurso de sua vida, nunca pôde achar resposta satisfatoria.O que parece mais proximo da verdade é que, não sentindo já forças e coragem para demorar-se ali, luctasse por arrancar-se de ao pé dos trez cadaveres.Chegado ao limiar da porta, e recebendo de subito uma lufada de ar, impregnado d'humidade, reconheceu-se, no meio da cerrada escuridão d'aquella noite tenebrosa, inteiramente carecido d'alento para dar um passo.N'essa conjunctura ouviu estrepito de cavallos. Sentiu de novo affluir-lhe o sangue ao cerebro. Eram de certo elles, os assassinos da sua familia, que patrulhavam{48}a cidade invadida. Não se enganou. Os cavallos que se aproximavam eram os d'uma ronda franceza. Graça Strech estava porém desarmado, ferido, impossibilitado do menor esforço. A ronda acercou-se, e um dos cavalleiros, que era um official portuguez obrigado pelo direito de conquista ao triste mister d'interprete, perguntou com voz tremula:—Quem está ahi?Graça Strech ficou surprehendido d'ouvir falar-lhe na lingua nacional, e respondeu:—Um soldado portuguez, ferido.Demorou-se o official a falar á patrulha franceza, e apeando-se dois dos cavalleiros ergueram o corpo de Graça Strech até a altura precisa para poisal-o entre o arção da sella e o corpo do official portuguez.E monotamente continuou a eccoar na rua o estrepito da ronda.Não pareça extraordinaria esta piedade dos invasores para com os invadidos no mesmo dia de tão sanguinosa victoria.O marechal Soult, que entrára no Porto na tarde d'esse dia, puzera desde logo todos os seus cuidados em serenar os animos da população por actos ostensivamente meritorios.Era este um procedimento por ventura aprendido na lição da historia romana—o da benevola protecção aos vencidos.Manda porém a verdade que se diga que, mal que entrou na cidade, expediu ordens terminantes ás tropas para que, sob pena de austera correcção militar, respeitassem a população, e até a protegessem em caso de conflicto.Assim foi que, reprimindo os abusos da soldadesca, logrou restabelecer o socego em toda a cidade trez dias depois da invasão, procurando insinuar-se na opinião publica, abstendo-se de impôr contribuiçoes de guerra, nomeando pessoas idoneas para os logares vagos, e soccorrendo os habitantes completamente privados de recursos.O partido anti-patriotico, subitamente creado em redor do marechal Soult, para logo fundou um orgão jornalistico, denominadoDiario do Porto, porque a imprensa tem sido desde tempos immemoriaes o respiradouro aberto a todas as paixões, justas e injustas, nobres e mesquinhas.{49}O leitor deve ficar conhecendo uma pequena amostra, sequer, da linguagem empregada no supracitado diario. Oiçamos o falsario redactor no supplemento ao n.º 2.º:«Este paiz tão bello, e tão favorecido pela natureza, parecia no passado governo tocado de paralysia; mas, graças aos céos, que se lhe prepara um novo futuro, que os bons conhecedores já tinham d'antemão entrevisto! Nada terá o Principe que dizer sobre a nossa fidelidade; nos lh'a guardamos emquanto existiu entre nós; mas uma vez que nos deixou, uma vez que desdenhou lançar mão das redeas do governo, que largára quando as circumstancias lh'o permittiam, renunciou todos os seus direitos, e nada é já para os portuguezes, que deixou ao desamparo. Em uma palavra, a casa de Bragança já não existe; aprouve aos céos que os nossos destinos passassem a outras mãos, e foi particular predilecção da Divina Providencia, que impera sobre o universo, o ter-nos enviado um homem isento de paixões, e que só tem a da verdadeira gloria; que se não quer servir da força, que o grande Napoleão lhe confiou, senão para nos proteger e livrar-nos do monstro da anarchia, que ameaçava devorar-nos. As palavras que elle nos dirigiu, e as promessas que nos fez[5], desde que entrou n'esta cidade, tudo se tem cumprido á risca, muito mais do que o poderiamos esperar, e do que as circumstancias pareciam promettel-o: porque tardamos, pois, em congregar-nos ao redor d'elle, a proclamal-o nosso pae e nosso libertador? Porque tardamos a exprimir o nosso desejo de o vermos á testa d'uma nação, cujo affecto soube tão rapidamence conquistar? O soberano de França prestará ouvidos aos nossos clamores, e se lisonjeará de ver que desejamos para nosso rei um logar-tenente seu, e ao mesmo tempo um grande general, que a seu exemplo soube vencer e perdoar. Seja, pois, esta grande e interessante comarca, já que tem experimentado os effeitos da sua clemencia, e a quem elle tem prodigalisado os seus beneficios, seja uma das primeiras, que se glorifique de o reconhecer e de lhe offerecer os seus braços, os seus bens e o seu patrimonio todo.»Não ficaram simplesmente em louvaminhas de gazeta{50}os salamaleques feitos ao duque de Dalmacia. De Braga veiu ao Porto no dia 25 d'abril uma deputação composta de trinta e seis membros do clero, nobreza e povo, a pedir ao marechal que se dignasse fazer ver ao imperador a necessidade de collocar um principe de sua eleição no throno que a dynastia de Bragança deixára devoluto.No dia immediato entrou egualmente ao palacio do duque de Dalmacia outra grande deputação, constituida por todas as autoridades civis, clero, deputados, nobreza, cidadãos, corporações judiciaes e militares da cidade do Porto, a repetir o pedido com viva instancia.A deputação, acompanhada desde a casa do conselho pelos officiaes do estado-maior general, era esperada no atrio do palacio dos Carrancas pelos ajudantes de ordens do marechal Soult. Foi o general de divisão Quesnel, investido nas funcções de governador militar do Porto e da provincia do Minho, quem a introduziu na sala de recepção, onde o corregedor da comarca botou fala consoante ao estylo dos supplementos doDiario do Porto.O marechal devia estar sorrindo interiormente da versatilidade dos portuguezes, que lhe atiravam aos pés nuvens d'incenso, recebendo-o dias antes nas trincheiras com nuvens de polvora. Força é assoalharmos as nossas glorias, para sermos portuguezes, e as nossas manchas, para sermos justos. E esta é realmente uma lamentavel nodoa que macula as paginas da historia portugueza. Se nos não respeitámos, durante a invasão, a boa policia de guerra, tambem a soldadesca franceza não respeitou, na victoria, os direitos individuaes. Saldada a divida, estavamos quites. Para a atrocidade, filha da revolução, a represalia, irmã do triumpho. A attitude do Porto, depois de vencido, e em presença do cavalheiroso procedimento de Soult, devia ser a da resignação reconhecida, nunca a do servilismo infamante. Agradecer é das boas almas; ajoelhar aos pés do usurpador é dos maus cidadãos. E nós fomos então maus cidadãos. Ainda bem que redimimos as nossas culpas d'um dia com a heroicidade de cinco annos, que tantos são os que vão desde a invasão do Porto até ao regresso das nossas tropas, coroadas de loiros.Se o throno portuguez tinha sido abandonado pelo{51}rei, estava porém encimado ainda pelas armas da nação! Se não se podia amar o rei, que fugira, devia-se defender a patria, que ficára.Mas, disse-o Camões, e é uma profunda verdade, queO fraco rei faz fraca a forte gentePerdoemo-nos a nós, porque nos rehabilitamos depois, e perdoemos ao rei, que já hoje é do tumulo, e que no triste curso de sua attribulada existencia mais inspira por vezes compaixão do que odio.Mas tornemo-nos a Graça Strech, que deixámos ferido em companhia da ronda franceza.Fôra elle transportado a um dos muitos hospitaes de sangue que se estabeleceram nos conventos do Porto:—o convento de S. Francisco. O serviço cirurgico, na maior parte d'estes hospitaes improvisados, era feito, por ordem do marechal Soult, pelas mulheres que acompanhavam o exercito invasor. Uma d'ellas, conhecida entre os seus pela alcunha delá gentille vivandière, recebeu o ferido e, ajudada por outras, deitou-o no catre e começou o curativo do ferimento com certo carinho, que só a ordem do marechal Soult não explicaria cabalmente.É que fez impressão a Rosina a physionomia, posto que dolorosa, serena, do soldado portuguez. Pareceu-lhe um roble que baqueára magestosamente. Não havia a menor contração n'aquelle corpo athletico; por entre os labios, descórados e immoveis, não se coava um gemido. Verdade era que não era desesperado o ferimento, e que mais para recear parecia a gravidade da prostração que a do golpe. Não obstante, o soldado, que a espaços abria os olhos, nem uma gota d'agua pedia.Durante a noite a vivandeira acercou-se do catre, por muitas vezes, a escutar. Pela madrugada sobreveiu o delirio ao abatimento, e o ferido dizia com manifesta difficuldade algumas palavras que ella não entendia. Como, porém, de uma das vezes o visse febrilmente apalpar o peito, comprehendeu-o, e, tirando do forro da fardeta, que lhe tinha despido, o maço de papeis, insinuou-lh'o entre as mãos. O ferido, conhecendo-o provavelmente pelo tacto, abriu por algum tempo os olhos, e demorou em Rosina o doce e apagado olhar. Talvez fosse este um acto puramente{52}mechanico e talvez não; a verdade, melhor que os medicos, a sabe Deus.A vivandeira ficou sobremodo commovida do que a ella lhe pareceu intencional. Apiedou-se do soldado, que tinha porventura a sua mesma idade, e parecia guardar n'aquelles papeis uma querida memoria, como ella, como ella n'aquella madeixa de cabellos que possuia...Aqui entra o leitor a sentir desejos de saber a historia da madeixa.Rosina era a filha adoptiva d'um dos regimentos da brigada Arnaud. Por seu pai, moribundo, um dos bravos militares do exercito francez, natural das Ardennas, aquella vasta floresta,Arduenna sylva, golpeada por quatro rios, o Semoy, o Lesse, o Ourthe e o Sure, fora confiada como precioso deposito, no campo de batalha, á velhice d'um camarada fiel, soldado do mesmo regimento.O bom velho, que penhorado acceitára tão grave legado, era só, e n'uma época em que o exercito francez estava em continua mobilisação, achou que o melhor meio de velar pelo destino da creança era trazel-a sempre ao pé de si.Assim foi que Rosina, então de quatorze annos, estivera em pessoa, se bem que entre a bagagem e mantimentos, na batalha de Austerlitz, em 1805. Vira por seus proprios olhos, a distancia, o imperador Alexandre e o imperador Francisco. Nos breves instantes de repouso que n'essa arriscada campanha tinha o exercito francez, era sempre Rosina o assumpto das conversações do acampamento, a mariposa inquieta que passava sorrindo de umas correias a outras, de um soldado a outro soldado. D'essa campanha ficou até na memoria do regimento uma agudeza da pequena vivandeira. Estavam os soldados chasqueando uma vez da fealdade de certo camarada.—Que tal te parece, Rosina? perguntou um á pequena.—Parece-me mal, respondeu ella, porque já vios trez imperadores.Como se sabe, é esta uma designação vulgar da batalha de Austerlitz, onde estiveram os dois imperadores já nomeados, completando Napoleão a trindade coroada.Rosina seria pois a andorinha da caserna se não{53}fosse antes a mariposa do acampamento. Tinha um pouco da floresta, seu berço, e um pouco do quartel, seu ninho. Estes poucos fizeram o todo. Tinha a pureza da vegetação virgem, a suavidade inculta da floresta, e ao mesmo passo o destemor da vivandeira, a facilidade de morder um cartucho de polvora e de cantar uma canção marcial. Na alma tinha os murmurios das correntes patrias; nos olhos o brilho da polvora.Era, n'uma palavra, a pastora tornada vivandeira. Respeitava-a todo o regimento e conhecia-a todo o exercito.Quando o seu velho protector morreu, um anno depois de Austerlitz, ella acompanhou-o com os camaradas á sepultura, e, como limpasse furtivamente duas lagrimas, disse-lhe um dos soldados:—Pois tu choras, Rosina, tu, a que viste os trez imperadores?!E ella, voltando-se de subito, respondeu:—Não choro eu, chora a França.Porfiaram os soldados em escolher-lhe novo protector; todos a estimavam a ponto de querer adoptal-a. Por fim decidiu-se que Rosina cortasse o nó gordio. Ella observou:—Os meus paes eram os que morreram; já não posso ter outros. Serei portanto de hoje em deante filha do regimento. Para onde elle fôr, irei eu; onde estiver, estarei tambem.E assim foi.Era quasi um soldado; muitas vezes dizia que a sua morte havia de occasional-a uma bala perdida.Viera com o exercito a Hespanha e Portugal, com a mesma facilidade com que iria, licenciada pelo commandante do regimento, visitar as Ardennas, sua patria.Contava agora dezoito annos, e estava em todo o vigor da sua gentil formosura.Gentil é a palavra; por isso lhe chamavamlá gentille vivandière.E o caso é que á sua origem e á sua formosura devia por certo as immunidades que lhe outhorgavam os superiores. Era ella o melhor intercessor do regimento; requerimento que ella levasse á chancellaria militar, trazia sempre bom despacho. É que as flôres...{54}Ora a historia da madeixa é muito mais breve que a historia de Rosina, e por isso ficou para o fim.Seu pae, o bravo official das Ardennas, sentindo-se morrer dos graves ferimentos que recebera, pediu ao velho camarada, no momento de confiar-lhe a filha, que lhe entregasse aquella madeixa que elle cortára do seu proprio cabello, para que ella possuisse sequer alguma coisa que o tornasse lembrado.E como entre os cabellos alguns apparecessem já grisalhos, acrescentou o militar moribundo:—Dize-lhe que alguns d'elles embranqueceram a pensar no destino d'ella...O soldado, com os olhos marejados de lagrimas, respondeu commovido:—Vá descançado, meu capitão. Emquanto Jacques Regnau tiver vida, o paiol não ha de arder. Depois que vier a metralha da morte, o Deus dos exercitos velará por ella...O soldado Jacques estava na confidencia do nascimento de Rosina. Fôra elle que, annos antes, saltára ao jardim de uma casa da rua das Tournelles, para receber dos braços de uma criada uma creança, cuja mãe procurava assim occultar o segredo da sua deshonra.Jacques Regnau atravessou com ella nos braços oboulevardda Bastilha, e ia dizendo comsigo:—O caso é que ainda tenho geito para estas aventuras mysteriosas. Suppunha-me velho e levo aqui esta creança mais como pae do que como avô. E todavia o que decerto vem a acontecer é que eu seja o avô, e o meu capitão o pae...E assim, em verdade, aconteceu, com uma unica differença. Se Rosina, no decurso de sua vida, precisasse de nobilitar-se com um appellido, o pae, ao invés do que acontece em todas as familias, não lhe daria o seu appellido, mas sim o do leal camarada. Diria provavelmente:—Põe lá: Rosina Regnau.Ella porém não precisava de appellido paterno. Era a filha do regimento. Chamava-se simplesmente Rosina,lá gentille vivandière.Esta era a enfermeira do nosso ferido.{55}
[2]Chamava-se então ruaNova, porque o celebre governador da cidade. Francisco d'Almada e Mendonça, fallecido em 1804, tinha transformado a antiga rua das Hortas n'esta nova rua, que tomou o seu nome.[3]Por decreto de 11 de dezembro de 1808 toda a nação foi obrigada a pegar em armas.[4]Este facto consta do relatorio do proprio barão.
[2]Chamava-se então ruaNova, porque o celebre governador da cidade. Francisco d'Almada e Mendonça, fallecido em 1804, tinha transformado a antiga rua das Hortas n'esta nova rua, que tomou o seu nome.
[3]Por decreto de 11 de dezembro de 1808 toda a nação foi obrigada a pegar em armas.
[4]Este facto consta do relatorio do proprio barão.
Durante a noite de 28 para 29 continuou tão rijo o fogo, que o inimigo logrou forçar a bateria da Prelada.
Grande era o pavor da cidade, e maior foi quando se soube que sua excellencia o bispo generalissimo se havia retirado para a Serra do Pilar.
Este facto demonstrava não só a descrença do prelado na defeza do Porto, senão que tambem punha a descoberto a intenção de fuga, no caso de perigo, o que realmente aconteceu.
Não lastimemos a impiedade deshumana do pastor, que abandonava em tão dolorosa conjunctura o rebanho indefeso, porque basta a historia a stygmatisal-a, mas calculemos a funesta impressão que semelhante noticia causaria nos animos desalentados dos portuenses.
A familia do capitão Graça Strech foi seguramente uma das que mais succumbiram n'aquella tormentosa noite.
As trez mulheres estavam entregues ás suas orações e angustias, inabalaveis no proposito de esperar a pé quedo a desgraça, verdadeiramente sós, porque os criados, que foram os primeiros a dar rebate, fugiram, durante a noite, bandeados com outros habitantes, para Gaya.
O capitão e o filho combatiam ás ordens do brigadeiro Victoria, na linha do Bomfim, posto defensivo que, á hora da invasão, veiu a nobilitar-se com esforçados prodigios de coragem por parte do intrepido brigadeiro e dos seus.
Umas visinhas da familia Strech, já preparadas para a fuga, instaram com as pobres senhoras para que as acompanhassem. Segundo o seu plano, acoitar-se-iam em Gondomar, onde diziam ter parentes lavradores.{29}
Augusta, lavada em lagrimas, e offegante de commoção, reagiu energicamente.
—Se meu pae e meu irmão morrerem—dizia ella—deixemo-nos morrer tambem, porque o viver sem elles seria peior que a morte. Se vencermos, seremos as primeiras a abraçal-os, a agradecer-lhes por nós e pela patria. Elles cumprem o seu dever; e nós tambem. Elles estão no seu posto; nós estamos no nosso. O meu coração revolta-se contra a ideia de levarmos o egoismo da nossa vida até ao esquecimento de que temos dois soldados nas linhas de defeza. Muito obrigada, minhas amigas, mas minha mãe e minha avó são da mesma opinião, e ficaremos todas. O perigo, se o houver, repartido por trez será menor. Vão, não percam tempo; oxalá que nos tornemos a vêr...
E despediram-se, chorando e soluçando, como se se despedissem para a eternidade.
Ao alvorejar da manhã forçaram os francezes as baterias de Santo Antonio, Pedral e Aguardente.
A cavallaria inimiga, entrando a dois de fundo pelas ruas da cidade, correu a atacar pela rectaguarda as baterias que resistiam ainda.
Uma das que por mais tempo, e mais heroicamente resistiram, foi a do Bomfim.
Já quando era grande a confusão em todo o circuito, destacou o brigadeiro Victoria para o exterior da linha a gente que lhe restava da legião lusitana, e mais duas partidas na força total de cem homens.
O brigadeiro, o tenente coronel Champalimaud, o ajudante da praça de Valency, Antonio de Azevedo, e o capitão Graça Strech corriam denodadamente de um lado a outro animando o povo, que ali confluira, e que esperava poder fugir protegido por duas baterias, as quaes não só defendiam a rua do Bomfim mas até as baterias de Campanhã.
Outro tanto não aconteceu no lado esquerdo da linha, commandado pelo brigadeiro Antonio de Lima Barreto.
Logo pela manhã o immigo começou a atacal-o com energia; Barreto, perdendo algumas baterias, voltou-se para os artilheiros dizendo-lhes:
—Encravem as peças. Retirem-se. Estamos perdidos.
Os soldados, ouvida a ignara apostrophe, metteram-lhe{30}duas balas no corpo, e despejaram a ultima polvora contra o inimigo.
Quando a cavallaria franceza, forçando a bateria d'Aguardente, entrou na cidade, as ordenanças, desamparados os postos, fugiram tumultuariamente para a ponte pelas ruas da Sovella e nova do Almada.
A morgada, ouvindo o estridor dos fugitivos, ainda longinquo, correu á janella, e reconheceu á distancia as ordenanças.
—Que é? perguntaram-lhe anciosamente a filha e a neta.
—Não é nada; é o povo que se affez a correr e a gritar, respondeu a morgada, tranquillisando ambas.
Como porém a massa enorme rolasse já mais perto, ouviram-se distinctamente vozes de:
—São os francezes!
—Vem ahi!
—Fujam! fujam!
—Á ponte! á ponte!
—Não ha outro caminho!
—Depressa!
Augusta, que tinha chegado a meio da sala, recuou espavorida, e deixou-se cair nos braços da mãe, gritando dolorosamente:
—Ah! meu pae!... meu irmão!
Os francezes, entrando na cidade, levaram de roldão adeante de si a onda allucinada dos fugitivos que procuravam salvar-se. D'elles, uns tomavam a direcção da Foz, outros, em maior numero, corriam para a Ribeira, na ancia de atravessar para Villa Nova. Alguns passaram o rio a nado ou em barcos. Mas o grosso da multidão, enovelando-se n'uma vertiginosa confusão de pavor, rolou sobre a ponte, cujo taboleiro assentava, de espaço a espaço, sobre um renque de lanchões. E as primeiras pessoas que conseguiram transpol-a abriram, logo que se julgaram a salvo, os alçapões da ponte—systema de defesa empregado em casos extremos—pensando preparar assim um desastre aos francezes que as perseguiam.
Novos fugitivos, onda sobre onda, empurrando-se uns aos outros, cegos de desespero, loucos de medo, iam caindo pelos alçapões ao rio, e a dizimada cavallaria portugueza, fugindo tambem, e procurando a ponte, maior pressão fazia ainda sobre a grande massa de povo, pisando-a, atropellando-a, empurrando-a{31}com os cavallos para o sorvedouro hiante onde centenas de pessoas desappareciam, ao mesmo tempo que as baterias de Villa Nova, vendo os francezes descer a rua de S. João, iam metralhando a Ribeira, e augmentando involuntariamente o terror e o morticinio.
Diz-se que eram tantos os mortos, que, empilhados no vacuo dos alçapões, nivelaram o pavimento da ponte, facilitando passagem aos ultimos fugitivos por cima de rumas de cadaveres sobrepostos uns aos outros.
Os proprios invasores se commoveram com esta horrorosa tragedia, e ainda puderam salvar da morte algumas pessoas.
Depois, lançando pranchas sobre os alçapões, passaram para Villa Nova, d'onde facilmente desalojaram as nossas baterias.
Saibamos agora qual seria a sorte do capitão Graça Strech e da sua familia n'essas crudelissimas horas da invasão.
Esteve o capitão ao lado do brigadeiro Victoria, na bateria do Bomfim, até aos ultimos momentos em que a ambos, e a poucos mais, foi dado combater pela patria.
O que é certo, e a historia o refere, é que puderam proteger a retirada de mais de seis mil pessoas, que se evadiram por aquelle lado da cidade.
Abrigados os restantes valentes por um muro, que se levantava no outeiro do Bomfim, lograram continuar o fogo com desesperado denodo.
Foi realmente heroico esse render-se de heroes, quando, desamparados de todo o soccorro, enviaram ao inimigo a ultima metralha que lhes restava.
O brigadeiro Victoria, conhecendo insustentavel a posição, apertou a mão do tenente coronel Champalimaud, do ajudante Antonio de Azevedo e do capitão Graça Strech, dizendo-lhes com voz tremula de commoção:
—Meus amigos, meus bravos amigos, o sacrificio da nossa vida nada aproveitaria á patria, que está invadida. Fizemos o nosso dever; pelejámos emquanto pudemos. Agora que cada um procure salvar a sua vida para quando mais util possa ser á terra em que nascemos.
Mal acabava de dizer estas palavras cahiam feridas{32}duas pessoas das que rodeavam o brigadeiro: o commandante dos artilheiros e o capitão Graça Strech.
—Que foi? perguntou Victoria.
—Foi a ultima arcanhadura dos francezes, responderam a um tempo os dois bravos militares.
Era necessario retirar; por Campanhã já não podia ser. Optaram por atravessar o Douro, que o brigadeiro e alguns officiaes conseguiram passar defronte d'Avintes. N'esse numero porém não podemos incluir o capitão Graça Strech.
Ferido no peito, se bem que houvesse dissimulado a gravidade do ferimento, conheceu que era perigoso o seu estado. Foi então que se lembrou da filha, da esposa, da sogra, e do filho, que havia duas horas tinha perdido de vista.
Que seria d'ellas, pobres mulheres, entregues sem protecção aos horrores d'aquelle dia? E o filho, que se batera como valente na bateria do Bomfim, haveria ficado entre os muitos que lá succumbiram, e adormeceram sobre a terra embebida no sangue de seus irmãos?
Não sabia.
Oh! mas era preciso que o soubesse antes que se lhe fechasse em torno a noite escura da eternidade. Pouco lhe importava morrer; o que elle queria era obter a certeza de que a embriaguez da victoria não tinha desvairado os invasores ao extremo de não respeitarem fracas mulheres indefesas.
Ainda se restasse vigoroso o braço do filho para amparar o golpe que fosse vibrado contra ellas!
Não o pôde suppôr; julgou-o morto nos derradeiros momentos da refrega, por que o não tornou a vêr.
Atravessar o Douro era arriscado; tentar internar-se na cidade, tambem. Todavia o primeiro meio era a morte no desespero; o segundo podia ser a morte com a esperança.
Abraçou-se pois a esse unico esteio que lhe restava—a esperança, de poder abraçar os seus.
Arrancou os vivos da farda, e, esquecido de si, e do sangue que cada vez lhe repuxava do peito com maior intensidade, tentou descer a rua do bomfim e bandear-se em logar azado com a turba dos que percorriam as ruas desvairadamente.{33}{34}{35}
IlustraçãoQuando elle passava coxeando... (pag. 7)
Ilustração
Quando elle passava coxeando... (pag. 7)
Do militar que fôra, arrancados os vivos e emblemas, só lhe restava a alma.
Poucos passos andados, sentiu porém que lhe ía fugindo a vista, á medida que empenhava as ultimas forças para adiantar caminho.
Ainda mais uma vez enganára a coragem do soldado o coração do pae.
Quiz andar. Fraquejaram-lhe as pernas, e Graça Strech procurou com a mão um amparo que não encontrou.
Após um momento de oscillação, ruiu em terra. Estava morto.
Entretanto havia occorrido a enorme desgraça da ponte, e os invasores, enfurecidos pela resistencia que encontraram, iam encetar as tremendas represalias que estão na memoria de todos os portuenses.
Infelizes os que tiveram de assistir hora a hora a esse drama de sangue e terror que teve por bastidores os muros d'uma cidade inteira. Infelizes os que viram despedaçar-se momento a momento nas garras dos cannibaes os até então immaculados thesouros do seu coração. Infelizes, finalmente, os que viram cavar-se a seus pés a sepultura ingente de milhares de familias e não puderam enchel-a com o sangue dos que assassinavam em nome da victoria.
José Maria da Graça Strech pertence ao numero d'estes grandes desgraçados, que foram muitos.
Quando a bateria do Bomfim protegeu a fuga de seis mil pessoas, já quando, depois das oito horas da manhã, era desesperada a situação dos portuenses, duas senhoras, que se destacaram da multidão desorientada, acenaram ao denodado moço que por acaso olhára na direcção que ellas seguiam.
Elle reconheceu-as. Eram as duas visinhas que horas antes tinham convidado Augusta a acompanhal-as na fuga e que, arrastadas pela onda impetuosa dos que procuravam salvação, chegaram até ao Bomfim.
Abeirou-se o moço a falar-lhes, por um momento radioso de felicidade, porque lhe acudira a lembrança de que as pessoas da sua familia as haveriam acompanhado. Oh! se sua irmã, se a estremecida menina estivesse ali, poderia fugir incolume aos horrores que elle presagiava imminentes, attenta a vantagem do inimigo em toda a linha.{36}
—Ellas vieram? perguntou açodadamente José Maria.
—Não, teimaram em ficar, respondeu confrangida uma das senhoras.
—Oh! meu Deus! exclamou o filho do capitão Strech levando a mão ao coração.
—Veja se póde salval-as, salve-as por Deus, que estão sósinhas, desampadas de criados...
—Mas como? Como?! articulou o moço estendendo o braço para a posição do inimigo, como se quizesse indicar que era preciso combater a todo o transe.
—Augusta, a pobresinha, fazia dó! Oh! salve-a, salve-a, que ella morrerá de pavor! acrescentou a outra visinha.
—Augusta! Augusta! repetiu José Maria, perplexo, olhando para as duas lacrimosas mulheres e para os seus companheiros d'armas que defendiam á distancia a unica bateria que não se tinha rendido.
E, sem se mover do sitio em que empedrára, dizia com desalento:
—Pobresinhas! E meu pae ali, exposto á morte a todo o instante, e ellas sem defeza, sem ninguem!...
Então, aproveitando a opportunidade d'um momento, ordenára o coronel Champalimaud que se désse passagem ao magote dos fugitivos que mais se tinha adiantado.
—Vão, vão, gritou o moço affastando com o braço as duas mulheres—Salvem-se ao menos, e obrigado, muito obrigado. Eu verei se as posso salvar... a ellas, a Augusta.
O troar proximo do canhão pareceu chamal-o á realidade do perigo.
—São elles, disse de si para comsigo, correndo na direcção da bateria, os poucos que n'esta hora se sacrificam pela patria. E tambem hão de ter mãe, e irmã... e estão ali, firmes, corajosos, heroicos. Oh! cobardia do meu coração, não, não te posso, não te devo ouvir...
E não tardou que se collocasse ao lado dos seus esforçados companheiros.
Todavia cada vez se aproximava mais o lastimoso desfecho d'aquella desesperada resistencia. Começava a lavrar a confusão na bateria, fustigada por violento fogo dos francezes—indomito ataque, de que{37}em breve foi victima, como já dissemos, o proprio capitão Graça Strech. Tamanha era a fumarada, que já se tornava impossivel verem-se uns aos outros. Foi então que José Maria, involto na cerração da metralha, conhecendo que era impossivel prolongar por mais tempo aquella proeza de bravos patriotas, se lembrou de que nada aproveitaria á causa da patria o sacrificio da sua vida. E soaram-lhe aos ouvidos as palavras afflictivas das duas mulheres, e sonhou ver estenderem-se para elle os braços tremulos d'Augusta, que pedia soccorro.
Então, como se o coração houvesse decretado uma sentença irrevogavel, cortou resolutamente o fumo da polvora, e affastou-se da bateria, murmurando os nomes de sua mãe, de sua irmã, de sua avó.
Momentos depois foi que o brigadeiro Victoria fugiu tambem, e que o capitão Graça Strech caiu morto na rua do Bomfim.
Trabalhoso e arriscado foi o abrir caminho por entre a multidão que, semelhante a um grande mar, ondulava no vertiginoso fluxo e refluxo do desespero. Algumas vezes teve de se esconder, outras de retroceder, e só pela tarde chegou á rua nova do Almada.
Abroquelado pela energia da coragem, e mais feliz ou mais infeliz que seu pae, venceu todas as contrariedades, até que finalmente, escoando-se por entre os grupos desvatrados, entrou em casa no momento em que ao fundo da rua assomavam tropas francezas que, senhoras de toda a cidade, continuavam o saque, as violações e a carnificina que tristemente assignalaram esse dia memoravel nos fastos da nossa historia.{38}
As casas da rua nova do Almada estavam pela maior parte desertas.
Foi esta uma das ruas que mais lutuoso espectaculo offereceram. Os habitantes fugiram deixando abertas as portas, de modo que, á hora em que começou o saque, os francezes se locupletaram tranquilamente. Poucos foram os predios que lhes deram o breve incommodo de forçar a entrada. A este numero pertenceu, porém, a casa onde se conservou, entregue aos seus pavores, a familia Strech. José Maria, ao entrar açodado pela aproximação dos invasores, appellou para o ultimo recurso de defeza que lhe restava: fechou a porta. Lembrou-se de que os francezes se domiciliariam nos predios devolutos e de que não porfiariam em forçar uma entrada encontrando abertas tantas portas. Não pôde imaginar n'esse momento de suprema preoccupação que meditassem a pilhagem e a carnificina que, passadas horas, consummaram.
Correu, pois, a procurar a irmã, a mãe e a avó, que, ouvindo passos apressados, e no presupposto de serem os de algum soldado francez, romperam em gritos angustiosos, traindo d'este modo o segredo dos seus esconderijos.
—Augusta! Augusta! Minha mãe! Avósinha! apostrophou precipitadamente José Maria para serenal-as e correndo pelo corredor.
—José! José! exclamou uma voz que parecia soar das profundezas de um tumulo.
E logo dois braços tremulos de commoção enleiaram o moço, e uns labios gelados de mortal frialdade lhe procuraram as faces, e um novo grito de dolorida alegria lhe estrugiu aos ouvidos.
E immediatamente soaram passos, que elle conheceu:{39}a mãe e a avó, seguindo a pobre menina que as precedera, correram ao encontro de José Maria.
Augusta, apertando-o contra o peito, alternando beijos e olhares por egual frementes, porque o sangue congelado no coração parecia, acordado de subito, correr em turbilhões ao cerebro, não lograva articular palavra, tão violenta era a sensação que estava experimentando.
Não assim, porém, sua mãe, que, parando como que fulminada á porta, tivera comtudo voz para perguntar ao filho enleiado pela irmã:
—E... teu pae?
—Lá ficou ainda a combater com os ultimos valentes. Bem póde ser que a Providencia o tenha salvado como a mim me salvou. O cobarde fui eu, sim, fui eu, porque me lembrei de ti, minha irmã, e de si, minha mãe, e...
Não pôde completar a phrase, porque de repente foi chamado á realidade pelo estrepito que a soldadesca franceza fazia na rua.
—Retirem-se! escondam-se! gritou elle. São os francezes, bem os vi, são elles! Esconde-te, Augusta, minha mãe, minha avó...
N'este momento estremeceu o predio nos alicerces como se a porta tivesse soffrido o embate de um ariete.
—Que é? Onde é? perguntou offegante a menina, que de novo descorára até á lividez do cadaver.
—São elles que forçam a porta, naturalmente... Eu fechei-a quando entrei, sim, eu fechei-a.
—E estava aberta! Foram os criados quando fugiram! acrescentou a avó.
—Escondam-se, escondamo-nos todos. Viram-me decerto entrar. Perseguem-me! tornou afflicto José Maria.
E, após segundo estrondo, soaram no portal e na escada os passos da soldadesca que entrava.
Das quatro pessoas que estavam na sala, nenhuma pôde fugir; todas como que ficaram chumbadas ao pavimento.
E os francezes entraram vozeando, praguejando, e logo assomaram á porta muitas cabeças cujos olhos chammejavam de cubiça e sensualidade.
Então José Maria, como galvanisado de subito, adeantou-se para a porta, estendendo o braço para{40}defender as trez mulheres e, quando ia talvez a balbuciar uma supplica, caiu desamparado, vibrando um grito e recebendo no peito a ponta de uma bayoneta, cujo golpe fôra mais doloroso que profundo.
As vozes das trez mulheres, conglobadas n'uma só, soltaram uma d'essas exclamações impossiveis de descrever, apenas comparavel ao grito lamentoso da araponga no deserto, quando encontra vazio o ninho, porque uma ave de rapina lhe arrebatou a prole.
E a soldadesca entrou de roldão na sala, affastando com o pé o corpo de José Maria, sedenta de prazer e rapina.
Para os que suppozerem que exageramos com toques demasiado sombrios os horrores que se succederam á invasão do Porto, vamos copiar apenas algumas linhas daHistoria da guerra civil, de Soriano:
«Para cumulo de todas estas desgraças a cidade foi posta a saque, por castigo da sua resistencia, como em casos taes se costuma praticar, saque que começou pelas onze horas do dia, levando os vencedores a todas as casas de habitação, a par do terror que infundiam, o roubo, a violação e a morte, excitados de mais a mais para isto por encontrarem, segundo alguns dizem, varios prisioneiros francezes sem olhos, com linguas cortadas, e os membros truncados ou rasgados.»
Alguns escriptores o dizem, em verdade; um d'elles é o sr. Claudio de Chaby que, nos seusExcerptos historicos, refere:
«No transito das ruas e praças encontraram os soldados de Soult alguns dos seus camaradas, que nas differentes refregas tinham os nossos aprisionado, exercendo n'elles as sevicias da mais repugnante crueza: a uns tinham cortado a lingua, arrancado a outros os olhos ou decepado os membros!—O effeito natural da observação de taes crueldades, junto á tambem natural disposição de espirito dos invasores em taes circumstancias, levou estes á pratica de vingativos e deploraveis excessos, deassassinato, roubo, violencia e profanação!»
O mais que se passou na casa da rua nova do Almada, depois que a soldadesca entrára, não o soube exactamente José Maria que, ao cerrar da noite, tornára a si, depois de haver perdido muito sangue pelo{41}golpe que recebera no peito. Foi de tempestade na terra e no céo essa noite, como podem confirmar os poucos que se lembrarem d'ella.
Tamanho era o temporal havia dias imminente ao Porto, que trinta navios inglezes, carregados de vinho e outros productos, impedidos de sair das aguas do Douro pelo mau estado da barra, caíram em poder do marechal Soult, bem como a polvora guardada n'um vasto armazem, e 196 peças de artilharia, recolhidas nas differentes baterias da cidade.
Algum tempo esteve José Maria firmado sobre o braço direito, que d'instante a instante fraquejava, procurando orientar-se e recordar-se.
Era profundo o silencio na casa toda.
Dir-se-ia que despertava n'um tumulo.
Assim que pôde rememorar o que se passára até ao momento de ser ferido, entrou de chamar em altas vozes a irmã, a mãe e a avó.
Apenas porém respondia ás suas afflictivas exclamações o chofrar dos aguaceiros nas vidraças.
Ergueu-se com muito custo, atabafando o sangue com a roupa, e começou a sondar a escuridão, procurando alguem.
Não tardou que tropeçasse n'um obstaculo que os pés encontraram. Curvou-se e tacteou. Encontrou vestidos de mulher. Estendeu a mão e apalpou um rosto. Até pelo tacto conhecemos os nossos. José Maria estremeceu como se tivesse recebido em pleno peito um novo golpe de ferro, e rugiu d'afflicção e desespero. Não podia duvidar. Era o rosto de sua irmã. Parecia morta! Entrou de agital-a, de chamal-a. O mesmo silencio, a mesma immobilidade!
—Mortal morta! rouquejava elle convulso.—Minha mãe! minha avó!
E unicamente lhe respondia a chuva a fustigar a vidraça.
Occorreu-lhe porém que, como se deu com elle, podia ser que sua irmã estivesse apenas adormecida em deliquio.
—Ella é tão delicada! apostrophou-se elle. Desmaiou talvez. Julgaram-n'a morta. Deixaram-n'a. Mas minha mãe? E minha avó?
Era preciso tirar-se d'aquella duvida horrivel.
Sondando as trevas, saíu tremendo, a procurar luz.{42}
Momentos depois voltava cambaleante á sala e, levantando una candieiro de latão á altura da cara, reconhecia trez cadaveres.
N'essa mesma noite, e a essa mesma hora, ruidosamente se banqueteavam n'uma taberna do largo da Lapa, ebrios de vinho e victoria, alguns soldados da divisão Delaborde.
Comia-se, bebia-se, fumava-se, cantava-se. Era a celebração solemne d'um dia de saque, que requeria uma noite d'orgia. Algumas vivandeiras francezas cantavam em côro, no idioma patrio, e reclinadas aos hombros dos soldados, uma canção marcial, cujo estribilho podia ser traduzido d'este modo:
Viva a França! viva a França!Que triumpha na matança!Rataplan!
Viva a França! viva a França!Que triumpha na matança!Rataplan!
Um dos soldados; de olhar scintillante e fartos bigodes retorcidos, chasqueava na sua lingua natal com uma das vivandeiras que se lhe queria escapar dos braços:
—Oh! Por Deus, que era bem mais bonita do que tu!
—Quem? perguntou d'esguelha a vivandeira.
—A portugueza que me resistiu.
—E que tu mataste?
—E que eu matei para que não deixasse de resistir a outro.
—A pobre rapariga!
—Pobre rapariga! d'aquella edade deve ter morrido pura! Tu não morres assim,ma petite chienne! Par Dieu!
—Cruel!
—E o caso é que quasi do mesmo golpe derrubei as duas mulheres que a defendiam e abraçavam. Um soldado do imperador livra-se depressa ainda que seja d'um cento de mulheres.
—Cheiras a sangue! exclamou a vivandeira forcejando por desprender-se dos braços do soldado.
—Acodes pelo teu sexo! O que me não perguntas é quantos homens matei! Por Deus! que era precisa a vingança. Estes perros d'hespanhoes, que se chamam portuguezes, não nos queimaram a alma porque{43}não puderam. Atiravam-nos desesperados! E matavam os nossos emissarios! e mutilavam os nossos irmãos! Quantos centos de francezes imaginas tu que morreram hoje? Não se mata impunemente um francez como se mata um cão. E desde que entrámos em Portugal quantos não teem ficado para nunca mais voltar a França! Vingámol-os; estão vingados!Vive l'empereur! Vive le marechal! Vive la France!
E voltando-se para outra das vivandeiras, que estava proxima, jogou-lhe esta phrase intimativa:
—Esta é minha; canta tu.
E logo, por entre a vozeria, se ouviu cantar;
Viva a França! viva a França!Que triumpha na matança!Rataplan!
Viva a França! viva a França!Que triumpha na matança!Rataplan!
Aquelles cadaveres eram os das trez senhoras da familia Strech.
José Maria esteve contemplando-os mudo, absorto, authomatico. Dir-se-ia que a intelligencia se lhe havia paralysado, e o coração havia adormecido. Era um deliquio, como o que fôra consequencia do ferimento, mas muito mais horroroso de certo, porque os olhos tinham vista para a realidade, embora o cerebro não tivesse actividade para comprehender.
Parecia que as trez pobres senhoras dormiam tranquillamente, se bem que o desalinho dos vestidos e dos cabellos fosse claro indicio de lucta.
José Maria ajoelhou-se, poisando a luz, a contemplal-as e, porque o coração humano é tão valente ás vezes que se excede a si mesmo, resistiu áquella dôr incomparavel e quiz ainda procurar nas ruinas do seu pensamento o auxilio de uma ideia.
N'aquella immensa e tenebrosa cerração era preciso um raio de luz, ainda que fosse sinistro como os clarões sulphureos dos mysticos paineis que representam o inferno.
E verdadeiramente infernaes foram os horrores d'esse dia.
Se o leitor, apesar das indicações historicas de que me tenho soccorrido, imagina que estou phantasiando negruras para architectar um romance tenebroso,{44}achará no seu proprio espirito a convicção da verdade, se se concentrar por um momento deante do tosco e funebre quadro, allusivo á invasão dos francezes, que pende da muralha da Ribeira, a dois passos da ponte pensil.
Ahi, á luz das lanternas que descrevem na escuridão da noite duas zonas luminosas, ouvindo o ruido triste do Douro que lhe rola aos pés, vendo a pequena distancia erguerem-se ao ar, como outros tantos espectros sombrios, as armações dos navios fundeados, ahi, dizia eu, comprehenderá todas as angustias, hoje esquecidas, d'essa epoca de horror, traduzidas na concisa simplicidade d'esse piedoso monumento.
A inscripção do quadro nem por singela deixa de convidar á meditação:
«Pelas almas dos que falleceram na ponte do rio Douro na entrada dos francezes no anno de 1809, um Padre Nosso e uma Ave-Maria.»
Ali fui eu muita vez, pela calada da noite, como a procurar a triste inspiração para escrever as primeiras paginas da historia da familia Strech. Estes horrores poderão hoje parecer sinistramente romanticos, mas uma hora só de recolhimento em face do quadro da Ribeira basta a acordar em nós a consciencia historica d'essa epoca calamitosa.
Para os que morreram na catastrophe da ponte pede o rotulo uma oração, mas quantos não morreram então sem oração e sem mortalha, quantos não agonisaram em ancias que não foram mortaes, sem a mortalha que desejariam, e sem uma oração de que blasphemariam!
Ó Providencia! só tu sabes o segredo de todas as maguas, só tu podes contar as bagas de suor que ressumbram na fronte dos infelizes que tu não matas logo, para que não morram em desespero sacrilego!
E José Maria não morreu.
Por um esforço intellectual, que só a Providencia podia permittir a um soldado ferido, quando já as{45}trevas da loucura procuravam cingir-lhe o cerebro escandecido, conseguiu encontrar uma recordação, se bem que a principio tibia e vaga como o diluculo que se vae alargando e colorindo pouco a pouco até chammejar no céo.
E tambem essa luz que se fez no espirito do pobre moço lhe queimára a intelligencia, como se fosse labareda, mostrando-lhe as ruinas do passado ainda fumegantes de um incendio recente.
Eram aquellas as cinzas da sua felicidade...
Estavam ali espalhadas pelo turbilhão da guerra, retintas de sangue, a clamar vingança.
E os seus beijos cariciosos e ardentes, e as suas palavras ao mesmo passo desalentadas e calorosas não puderam, depois que inteiramente se recordou da realidade, galvanisar os trez cadaveres, animar os trez corações paralysados, descerrar os labios da mãe, da irmã e da avó, para sempre mudos, para sempre adormecidos.
—Pobresinhas!—pensava elle—deixaram-se talvez morrer por me supporem morto! E antes eu o estivesse, que já teria soado a ultima hora da minha triste mocidade. E mata-se assim a mãe, a dois passos do filho! E não se respeitam os cabellos brancos da velhice! nem a belleza e a virtude que teem duplo direito á vida! Mas, agora reparo eu, aqui estão patentes e irrecusaveis os signaes da lucta... é que se disputavam o sacrificio da morte... ou... suspeita horrivel! morreram talvez para defender a virgindade de uma só! Dize-me, ó minha boa irmã, ó minha doce amiga, se isto não é um sonho atroz da minha desvairada cabeça! Responde, Augusta, sou eu que te peço, eu, o teu irmão, o teu José... E não fala, e não responde! Está morta! Mataram-n'a elles, os malditos soldados d'esse leão indomavel da Corsega para quem todo o mundo é pequeno, todo o sangue pouco! Acaso não se saciava a tua sanha, leão, sem a vida d'estas trez pobres mulheres, que nunca te amaldiçoaram, que nunca levantaram um brado de justa indignação contra a tua ambição desmedida! Eu é que devia morrer, sabes tu? Eu sim, porque fiz guerra de morte aos teus soldados, porque as minhas mãos cheiram ainda a polvora com que os fuzilei. Eu sim, porque a minha morte seria uma represalia; mas a morte d'estas trez mulheres, timidas{46}e indefesas, não foi uma represalia, foi uma infamia...
E, extenuado d'esta subitanea exaltação, pendeu a fronte, como se lhe faltasse a vida para tamanha angustia, porque o sangue perdido era copioso. Entretanto continuava a tempestade e, confundido com o estrepito da chuva, começou-se a ouvir o toque dos clarins nos postos dos invasores.
José Maria pareceu despertar de subito, acordado por essa sinistra linguagem dos acampamentos:
—Sois vós! Podeis estar tranquillos, que a esta hora não haverá um só braço que tenha a energia de vos acommetter no vosso glorioso descanço. Tudo são orphãos e viuvas, que pranteiam cadaveres. Descançae, descançae, que muita coragem vos deve ter custado o assassinio de mulheres inoffensivas como estas! como todas! Oh! mas ámanhã a vingança acordará terrivel, e então vos pedirá contas das vossas atrocidades e das vossas infamias. Sim, ámanhã, nós todos, unidos por commum desgraça, seremos um só inimigo, porque a nossa vingança é uma, mas não imagineis que tendes a derrubar um só inimigo, porque serão muitas as cabeças a decepar, muitos os portuguezes a vencer... Onde houver um portuguez, haverá um soldado, porque elle pelejará por desaffrontar a memoria dos seus parentes, dos seus amigos, d'um filho, d'uma irmã...
E curvando-se carinhoso para o cadaver d'Augusta, e tirando-lhe delicadamente do dedo o annel com que ella havia morrido:
—E eu vingarei a vossa memoria, minhas santas amigas, e vingarei a tua innocencia, minha querida irmã... Por este annel o juro, que será o meu fiel companheiro, talvez o unico que me seja dado conservar até a hora da morte... Beijal-o-hei antes d'entrar em combate, e elle me dará a coragem dos valentes; elle será a minha égide protectora se a morte me quizer arrebatar a minha vingança..... Que Deus me oiça, Augusta. Sobre o teu annel, que nunca te desacompanhou, faço este juramento solemne, que jámais quebrarei...{47}
Fôra demasiado esforço para tão melindroso estado.
O corpo, alquebrado pela dôr physica, parecia vergar ao peso d'aquella grande alma.
Graça Strech caminhou em direitura á porta, vacillando a cada passo, e deixando após si um rasto de sangue. Antes de sair, volveu ainda um ultimo olhar aos trez cadaveres, e levantou por um instante a mão de sobre o ferimento, apalpando o peito n'outro sitio, como para se certificar da existencia d'alguma coisa que lá trazia occulta, e que pareceu encontrar.
Era o maço das cartas d'Augusta, escriptas da quinta das Chãs, e que elle conservára no seio durante as mais perigosas refregas na bateria do Bomfim.
Desceu vagarosamente as escadas, amparado ao corrimão, e conseguiu a muito custo chegar á rua.
Uma lufada de vento, humida e fria, momentaneamente refrigerou o cerebro d'aquelle moço, em quem as mais violentas congestões parecia succederem-se rapidamente.
Onde ia elle, ferido, cerrada a noite?
A esta pergunta, que muitas vezes se fez no decurso de sua vida, nunca pôde achar resposta satisfatoria.
O que parece mais proximo da verdade é que, não sentindo já forças e coragem para demorar-se ali, luctasse por arrancar-se de ao pé dos trez cadaveres.
Chegado ao limiar da porta, e recebendo de subito uma lufada de ar, impregnado d'humidade, reconheceu-se, no meio da cerrada escuridão d'aquella noite tenebrosa, inteiramente carecido d'alento para dar um passo.
N'essa conjunctura ouviu estrepito de cavallos. Sentiu de novo affluir-lhe o sangue ao cerebro. Eram de certo elles, os assassinos da sua familia, que patrulhavam{48}a cidade invadida. Não se enganou. Os cavallos que se aproximavam eram os d'uma ronda franceza. Graça Strech estava porém desarmado, ferido, impossibilitado do menor esforço. A ronda acercou-se, e um dos cavalleiros, que era um official portuguez obrigado pelo direito de conquista ao triste mister d'interprete, perguntou com voz tremula:
—Quem está ahi?
Graça Strech ficou surprehendido d'ouvir falar-lhe na lingua nacional, e respondeu:
—Um soldado portuguez, ferido.
Demorou-se o official a falar á patrulha franceza, e apeando-se dois dos cavalleiros ergueram o corpo de Graça Strech até a altura precisa para poisal-o entre o arção da sella e o corpo do official portuguez.
E monotamente continuou a eccoar na rua o estrepito da ronda.
Não pareça extraordinaria esta piedade dos invasores para com os invadidos no mesmo dia de tão sanguinosa victoria.
O marechal Soult, que entrára no Porto na tarde d'esse dia, puzera desde logo todos os seus cuidados em serenar os animos da população por actos ostensivamente meritorios.
Era este um procedimento por ventura aprendido na lição da historia romana—o da benevola protecção aos vencidos.
Manda porém a verdade que se diga que, mal que entrou na cidade, expediu ordens terminantes ás tropas para que, sob pena de austera correcção militar, respeitassem a população, e até a protegessem em caso de conflicto.
Assim foi que, reprimindo os abusos da soldadesca, logrou restabelecer o socego em toda a cidade trez dias depois da invasão, procurando insinuar-se na opinião publica, abstendo-se de impôr contribuiçoes de guerra, nomeando pessoas idoneas para os logares vagos, e soccorrendo os habitantes completamente privados de recursos.
O partido anti-patriotico, subitamente creado em redor do marechal Soult, para logo fundou um orgão jornalistico, denominadoDiario do Porto, porque a imprensa tem sido desde tempos immemoriaes o respiradouro aberto a todas as paixões, justas e injustas, nobres e mesquinhas.{49}
O leitor deve ficar conhecendo uma pequena amostra, sequer, da linguagem empregada no supracitado diario. Oiçamos o falsario redactor no supplemento ao n.º 2.º:
«Este paiz tão bello, e tão favorecido pela natureza, parecia no passado governo tocado de paralysia; mas, graças aos céos, que se lhe prepara um novo futuro, que os bons conhecedores já tinham d'antemão entrevisto! Nada terá o Principe que dizer sobre a nossa fidelidade; nos lh'a guardamos emquanto existiu entre nós; mas uma vez que nos deixou, uma vez que desdenhou lançar mão das redeas do governo, que largára quando as circumstancias lh'o permittiam, renunciou todos os seus direitos, e nada é já para os portuguezes, que deixou ao desamparo. Em uma palavra, a casa de Bragança já não existe; aprouve aos céos que os nossos destinos passassem a outras mãos, e foi particular predilecção da Divina Providencia, que impera sobre o universo, o ter-nos enviado um homem isento de paixões, e que só tem a da verdadeira gloria; que se não quer servir da força, que o grande Napoleão lhe confiou, senão para nos proteger e livrar-nos do monstro da anarchia, que ameaçava devorar-nos. As palavras que elle nos dirigiu, e as promessas que nos fez[5], desde que entrou n'esta cidade, tudo se tem cumprido á risca, muito mais do que o poderiamos esperar, e do que as circumstancias pareciam promettel-o: porque tardamos, pois, em congregar-nos ao redor d'elle, a proclamal-o nosso pae e nosso libertador? Porque tardamos a exprimir o nosso desejo de o vermos á testa d'uma nação, cujo affecto soube tão rapidamence conquistar? O soberano de França prestará ouvidos aos nossos clamores, e se lisonjeará de ver que desejamos para nosso rei um logar-tenente seu, e ao mesmo tempo um grande general, que a seu exemplo soube vencer e perdoar. Seja, pois, esta grande e interessante comarca, já que tem experimentado os effeitos da sua clemencia, e a quem elle tem prodigalisado os seus beneficios, seja uma das primeiras, que se glorifique de o reconhecer e de lhe offerecer os seus braços, os seus bens e o seu patrimonio todo.»
Não ficaram simplesmente em louvaminhas de gazeta{50}os salamaleques feitos ao duque de Dalmacia. De Braga veiu ao Porto no dia 25 d'abril uma deputação composta de trinta e seis membros do clero, nobreza e povo, a pedir ao marechal que se dignasse fazer ver ao imperador a necessidade de collocar um principe de sua eleição no throno que a dynastia de Bragança deixára devoluto.
No dia immediato entrou egualmente ao palacio do duque de Dalmacia outra grande deputação, constituida por todas as autoridades civis, clero, deputados, nobreza, cidadãos, corporações judiciaes e militares da cidade do Porto, a repetir o pedido com viva instancia.
A deputação, acompanhada desde a casa do conselho pelos officiaes do estado-maior general, era esperada no atrio do palacio dos Carrancas pelos ajudantes de ordens do marechal Soult. Foi o general de divisão Quesnel, investido nas funcções de governador militar do Porto e da provincia do Minho, quem a introduziu na sala de recepção, onde o corregedor da comarca botou fala consoante ao estylo dos supplementos doDiario do Porto.
O marechal devia estar sorrindo interiormente da versatilidade dos portuguezes, que lhe atiravam aos pés nuvens d'incenso, recebendo-o dias antes nas trincheiras com nuvens de polvora. Força é assoalharmos as nossas glorias, para sermos portuguezes, e as nossas manchas, para sermos justos. E esta é realmente uma lamentavel nodoa que macula as paginas da historia portugueza. Se nos não respeitámos, durante a invasão, a boa policia de guerra, tambem a soldadesca franceza não respeitou, na victoria, os direitos individuaes. Saldada a divida, estavamos quites. Para a atrocidade, filha da revolução, a represalia, irmã do triumpho. A attitude do Porto, depois de vencido, e em presença do cavalheiroso procedimento de Soult, devia ser a da resignação reconhecida, nunca a do servilismo infamante. Agradecer é das boas almas; ajoelhar aos pés do usurpador é dos maus cidadãos. E nós fomos então maus cidadãos. Ainda bem que redimimos as nossas culpas d'um dia com a heroicidade de cinco annos, que tantos são os que vão desde a invasão do Porto até ao regresso das nossas tropas, coroadas de loiros.
Se o throno portuguez tinha sido abandonado pelo{51}rei, estava porém encimado ainda pelas armas da nação! Se não se podia amar o rei, que fugira, devia-se defender a patria, que ficára.
Mas, disse-o Camões, e é uma profunda verdade, que
O fraco rei faz fraca a forte gente
O fraco rei faz fraca a forte gente
Perdoemo-nos a nós, porque nos rehabilitamos depois, e perdoemos ao rei, que já hoje é do tumulo, e que no triste curso de sua attribulada existencia mais inspira por vezes compaixão do que odio.
Mas tornemo-nos a Graça Strech, que deixámos ferido em companhia da ronda franceza.
Fôra elle transportado a um dos muitos hospitaes de sangue que se estabeleceram nos conventos do Porto:—o convento de S. Francisco. O serviço cirurgico, na maior parte d'estes hospitaes improvisados, era feito, por ordem do marechal Soult, pelas mulheres que acompanhavam o exercito invasor. Uma d'ellas, conhecida entre os seus pela alcunha delá gentille vivandière, recebeu o ferido e, ajudada por outras, deitou-o no catre e começou o curativo do ferimento com certo carinho, que só a ordem do marechal Soult não explicaria cabalmente.
É que fez impressão a Rosina a physionomia, posto que dolorosa, serena, do soldado portuguez. Pareceu-lhe um roble que baqueára magestosamente. Não havia a menor contração n'aquelle corpo athletico; por entre os labios, descórados e immoveis, não se coava um gemido. Verdade era que não era desesperado o ferimento, e que mais para recear parecia a gravidade da prostração que a do golpe. Não obstante, o soldado, que a espaços abria os olhos, nem uma gota d'agua pedia.
Durante a noite a vivandeira acercou-se do catre, por muitas vezes, a escutar. Pela madrugada sobreveiu o delirio ao abatimento, e o ferido dizia com manifesta difficuldade algumas palavras que ella não entendia. Como, porém, de uma das vezes o visse febrilmente apalpar o peito, comprehendeu-o, e, tirando do forro da fardeta, que lhe tinha despido, o maço de papeis, insinuou-lh'o entre as mãos. O ferido, conhecendo-o provavelmente pelo tacto, abriu por algum tempo os olhos, e demorou em Rosina o doce e apagado olhar. Talvez fosse este um acto puramente{52}mechanico e talvez não; a verdade, melhor que os medicos, a sabe Deus.
A vivandeira ficou sobremodo commovida do que a ella lhe pareceu intencional. Apiedou-se do soldado, que tinha porventura a sua mesma idade, e parecia guardar n'aquelles papeis uma querida memoria, como ella, como ella n'aquella madeixa de cabellos que possuia...
Aqui entra o leitor a sentir desejos de saber a historia da madeixa.
Rosina era a filha adoptiva d'um dos regimentos da brigada Arnaud. Por seu pai, moribundo, um dos bravos militares do exercito francez, natural das Ardennas, aquella vasta floresta,Arduenna sylva, golpeada por quatro rios, o Semoy, o Lesse, o Ourthe e o Sure, fora confiada como precioso deposito, no campo de batalha, á velhice d'um camarada fiel, soldado do mesmo regimento.
O bom velho, que penhorado acceitára tão grave legado, era só, e n'uma época em que o exercito francez estava em continua mobilisação, achou que o melhor meio de velar pelo destino da creança era trazel-a sempre ao pé de si.
Assim foi que Rosina, então de quatorze annos, estivera em pessoa, se bem que entre a bagagem e mantimentos, na batalha de Austerlitz, em 1805. Vira por seus proprios olhos, a distancia, o imperador Alexandre e o imperador Francisco. Nos breves instantes de repouso que n'essa arriscada campanha tinha o exercito francez, era sempre Rosina o assumpto das conversações do acampamento, a mariposa inquieta que passava sorrindo de umas correias a outras, de um soldado a outro soldado. D'essa campanha ficou até na memoria do regimento uma agudeza da pequena vivandeira. Estavam os soldados chasqueando uma vez da fealdade de certo camarada.
—Que tal te parece, Rosina? perguntou um á pequena.
—Parece-me mal, respondeu ella, porque já vios trez imperadores.
Como se sabe, é esta uma designação vulgar da batalha de Austerlitz, onde estiveram os dois imperadores já nomeados, completando Napoleão a trindade coroada.
Rosina seria pois a andorinha da caserna se não{53}fosse antes a mariposa do acampamento. Tinha um pouco da floresta, seu berço, e um pouco do quartel, seu ninho. Estes poucos fizeram o todo. Tinha a pureza da vegetação virgem, a suavidade inculta da floresta, e ao mesmo passo o destemor da vivandeira, a facilidade de morder um cartucho de polvora e de cantar uma canção marcial. Na alma tinha os murmurios das correntes patrias; nos olhos o brilho da polvora.
Era, n'uma palavra, a pastora tornada vivandeira. Respeitava-a todo o regimento e conhecia-a todo o exercito.
Quando o seu velho protector morreu, um anno depois de Austerlitz, ella acompanhou-o com os camaradas á sepultura, e, como limpasse furtivamente duas lagrimas, disse-lhe um dos soldados:
—Pois tu choras, Rosina, tu, a que viste os trez imperadores?!
E ella, voltando-se de subito, respondeu:
—Não choro eu, chora a França.
Porfiaram os soldados em escolher-lhe novo protector; todos a estimavam a ponto de querer adoptal-a. Por fim decidiu-se que Rosina cortasse o nó gordio. Ella observou:
—Os meus paes eram os que morreram; já não posso ter outros. Serei portanto de hoje em deante filha do regimento. Para onde elle fôr, irei eu; onde estiver, estarei tambem.
E assim foi.
Era quasi um soldado; muitas vezes dizia que a sua morte havia de occasional-a uma bala perdida.
Viera com o exercito a Hespanha e Portugal, com a mesma facilidade com que iria, licenciada pelo commandante do regimento, visitar as Ardennas, sua patria.
Contava agora dezoito annos, e estava em todo o vigor da sua gentil formosura.
Gentil é a palavra; por isso lhe chamavamlá gentille vivandière.
E o caso é que á sua origem e á sua formosura devia por certo as immunidades que lhe outhorgavam os superiores. Era ella o melhor intercessor do regimento; requerimento que ella levasse á chancellaria militar, trazia sempre bom despacho. É que as flôres...{54}
Ora a historia da madeixa é muito mais breve que a historia de Rosina, e por isso ficou para o fim.
Seu pae, o bravo official das Ardennas, sentindo-se morrer dos graves ferimentos que recebera, pediu ao velho camarada, no momento de confiar-lhe a filha, que lhe entregasse aquella madeixa que elle cortára do seu proprio cabello, para que ella possuisse sequer alguma coisa que o tornasse lembrado.
E como entre os cabellos alguns apparecessem já grisalhos, acrescentou o militar moribundo:
—Dize-lhe que alguns d'elles embranqueceram a pensar no destino d'ella...
O soldado, com os olhos marejados de lagrimas, respondeu commovido:
—Vá descançado, meu capitão. Emquanto Jacques Regnau tiver vida, o paiol não ha de arder. Depois que vier a metralha da morte, o Deus dos exercitos velará por ella...
O soldado Jacques estava na confidencia do nascimento de Rosina. Fôra elle que, annos antes, saltára ao jardim de uma casa da rua das Tournelles, para receber dos braços de uma criada uma creança, cuja mãe procurava assim occultar o segredo da sua deshonra.
Jacques Regnau atravessou com ella nos braços oboulevardda Bastilha, e ia dizendo comsigo:
—O caso é que ainda tenho geito para estas aventuras mysteriosas. Suppunha-me velho e levo aqui esta creança mais como pae do que como avô. E todavia o que decerto vem a acontecer é que eu seja o avô, e o meu capitão o pae...
E assim, em verdade, aconteceu, com uma unica differença. Se Rosina, no decurso de sua vida, precisasse de nobilitar-se com um appellido, o pae, ao invés do que acontece em todas as familias, não lhe daria o seu appellido, mas sim o do leal camarada. Diria provavelmente:
—Põe lá: Rosina Regnau.
Ella porém não precisava de appellido paterno. Era a filha do regimento. Chamava-se simplesmente Rosina,lá gentille vivandière.
Esta era a enfermeira do nosso ferido.{55}