VII

[5]Referencia á proclamação de Soult.VIINo hospital de sangueOito dias transcorridos, vamos encontrar Graça Strech, sentado no catre, convalescente, se bem que muito debilitado ainda, a relêr algumas das cartas que, por piedoso interesse de Rosina, pudera guardar debaixo do travesseiro.Os successos de tão breve curso de tempo pequena chronica requerem. Rosina tem sido para o soldado portuguez carinhosa enfermeira. Chasqueam-n'a as outras mulheres, encarregadas do serviço do hospital, de extremamente compassiva para o prisioneiro, e zombeteiramente aventam que, a julgar pelos prolegomenos, lhes não parece impossivel que o exercito portuguez inteiramente se deixe desarmar pelas vivandeiras francezas.As almas das restantes mulheres não se levantam do nivel commum ao femeaço que segue tropa. São grosseiras, sensuaes e malevolas. Rosina respira melhor entre os soldados do que entre ellas. D'aqui uma certa rivalidade apenas contida pelo respeito com que todo o exercito acata á filha do bravo militar das Ardennas. Todavia a «gentil vivandeira», como mariposa que é, não se demora no ambiente infeccionado em que ellas respiram; evita-as como a pantanos miasmaticos, sem lhes dar a conhecer que o muladar unicamente é povoado por vermes. Passa inquieta e ao mesmo tempo cautelosa, agitando as suas azas iriadas. Atravessa o lodaçal sem tocar-lhe. Guarda para si o nectar que vae libando nas flôres perfumadas da sua phantasia. É mariposa! dizem. Concentra-se nos circulos caprichosos em que doideja. Quer adejar e sorrir. Mas para esta, como para todas as mariposas, depois do jardim, cujas flôres beijou, ha de crepitar a chamma, que será o seu ultimo beijo. Beijo de fogo, que mata. E chamaes felicidade{56}a isto! Olhaes sómente á superficie; a mariposa não é feliz porque passe adejando...Graça Strech fez reparo no carinho da enfermeira, mórmente comparando-o ao desamor com que eram tratados os demais feridos. Não poria duvida em beijar a unica mão caridosa que se estendia para elle na solidão do mundo, se não receiasse que o odio que lhe refervia no coração contra a França lhe envenenasse os labios. E aquella mulher era franceza. Parecia-lhe que dos seus vestidos se exhalava ainda o cheiro da carnagem. Por ventura o soldado que assassinára sua irmã, sua mãe e sua avó viera adormecer tranquillo nos braços d'aquella mulher, se é que não fôra mais d'um soldado, com as mãos ainda tintas das nodoas do crime. Via n'ella a creança corrompida pela lascivia da soldadesca, e, ao mesmo passo que lhe era reconhecido, tinha por ella o desprezo que se tem pelo vicio precoce. Considerava-a uma das victimas arrastadas pelo carro triumphal do Cesar francez. Bem podia ser que n'aquelle corpo vendido ao prazer germinasse uma alma boa logo corrompida pela putrefação contagiosa da caserna. Se não tivesse por mãe uma mulher devassa, uma vivandeira, uma meretriz de soldados, que não faria mais que atirar sua filha ao berco em que ella propria nascera, poderia encontrar um marido honesto, ser o anjo do lar, divinisar-se no altar da familia, porque as mães podem considerar-se as santas da religião domestica. Mas não. Graça Strech suppunha-a a flôr do paul. Tinha para elle a belleza maculada da vegetação dos charcos. Não sabia o que era o azul do firmamento, porque só os lagos, de superficie crystallina, são espelho do céo. As flôres do paul querem viver no lodo; ella queria viver no prazer. Os beijos que recebia tresandavam ao acre do tabaco e da aguardente. Não dulcificavam; queimavam. E assim como a gente se admira de ver uma flôr, por mais desbotada e menos formosa que seja, á beira d'um monturo, assim elle se admirava de que aquella mulher tivesse nos olhos um relampago de compaixão estando habituada a viver entre soldados e concubinas. Era, a seu juizo, o ultimo lampejo da alma que bruxoleava apagada pelo vicio. Extincto o derradeiro clarão, ficaria apenas a lampada—o corpo. E elle não queria gosar; queria vingar-se. O prazer da vingança,{57}se o ha, esse anhelava-o. Mas uma mulher corrupta não podia ser-lhe instrumento sufficiente a sacial-o. Nenhum dos generaes que capitaneavam o exercito invasor teria uma filha innocente, candida, formosa? decerto não; se a tivesse, não consentiria que a soldadesca violasse as alheias. Mas se a tinha, trouxessem-lh'a, pura como estava, bella como era, que a queria polluir, e dizer depois ao pae exasperado: «Os teus soldados mataram minha irmã, que tambem era virgem; eu matei tua filha, porque a encontrei no estado de minha irmã. Ambas são mortas: isso que ahi está já não vive.»A toda a hora, tudo ali lhe recordava esse horrivel drama de sangue, que reputaria ainda sonho infernal, se a memoria de trez cadaveres o não chamasse á realidade. Tudo eram mulheres mancommunadas com os invasores, tudo feridos e prisioneiros, que de continuo amaldiçoavam, esporoados pela dôr physica, a França e o Corso. A lingua que se falava era a d'ellas, mesclada de raras palavras hespanholas para melhor se fazerem entender dos que não tinham a illustração bastante para comprehendel-as. Não será preciso observar que Graça Strech não desconhecia o idioma francez.A principio confundiam-se-lhe no cerebro enfraquecido todas as sinistras visualidades d'aquella tormentosa phase de sua vida. Depois, á medida que ia cobrando forças, não só entrou de raciocinar ácerca de Rosina, como lhe acudiu a lembrança de seu pae, cuja morte só o tempo comprovára, e a consciencia da sua propria situação. Estava prisioneiro, guardado á vista por sentinellas francezas, e todavia havia jurado vingar a morte da sua familia. Esta idéa infernou-lhe as primeiras horas de lucidez. Era impossivel despedaçar as cadeias, romper por entre as sentinellas; não queria de modo algum expôr-se á morte que o roubaria á vingança. E o sentir no dedo o contacto do annel, em que se coagulára uma gota de sangue seu, ou de sua irmã, exasperava-o ao extremo de cair prostado no leito.N'estes lances acudia meigamente Rosina Regnau, chamemos-lhe assim, a soccorrel-o com notavel dedicação. Umas vezes a repellia elle com ingratidão brutal, quando a accentuação franceza lhe coava ás entranhas estremecimentos de raiva, outras fitava na{58}vivandeira o olhar amortecido como a dizer-lhe que a prostração seria passageira. Na vespera do dia em que estamos, teve Graça Strech uma idéa que para logo reputou auxilio providencial. Lembrou-se de que só por intervenção de Rosina poderia evadir-se do hospital de sangue. Tratou pois de corresponder á solicitude com que ella o distinguia, de se mostrar reconhecido, de occultar o seu pensamento de vingança sob a mascara de ternura. Immediatamente o dominou este proposito, e a si mesmo prometteu nunca mais receber Rosina com intermittencias de rancor ou azedume. Difficil era o cumprimento d'esta promessa. Não se mascára facilmente o coração.Relia elle, como dissémos, as cartas de sua irmã. Umas eram queixumes de rôla solitaria confrangida da tristeza alpestre das Chãs; outras eram hymnos de esperança, votos de felicidade commum, vagas alegrias dos sonhos dos quinze annos... N'umas denunciava-se a mulher; n'outras a creança. Umas eram a lagrima; outras o sorriso. Aquellas tinham a tristeza d'uma nuvem em céo d'abril; estas eram um raio de sol doirado pela primavera... Ou antes, como o leitor poderá classifical-as, as primeiras eram o presentimento da desgraça imminente, as ultimas eram o cantico do anjo que punha os olhos no céo, sua patria.Vejamos:«30 de novembro de 1807.—Meu irmão.—Não sabes como soffro horrivelmente, receiosa dos perigos que virão. A avosinha tambem está muito afflicta depois que os francezes entraram em Abrantes. Já cá sabemos da partida da familia real, apezar de tu, grande dissimulado, m'o não haveres dito! O padre capellão anda sempre a contar dinheiro e a ralhar com os abegões. Isto é uma tristeza! Quem nos vale a ambas, a mim e a avósinha, para nos tranquilisar, é o Teixeira. Eu, por mim, peço todos os dias a Deus que não aconteça mal algum aos portuguezes...»«18 de setembro de 1808.—Meu José—Graças a Deus, que se dignou ouvir as minhas continuas orações! O Teixeira esteve hontem á noite a contar-me tudo. Até que emfim está a patria livre outra vez, sem haver acontecido desgraça de maior á nossa familia. Queira Deus que continue a paz para que tu possas vir vêr-me brevemente. A noticia do Teixeira{59}deu-me grande alegria, meu José. Reconquisto de novo a felicidade! Eu creio que não tenho coragem para soffrer... Dá um beijo muito demorado á mamã e um abraço muito apertado ao papá. A avósinha diz que venhas logo que possas. Vem, sim? Olha lá... logo que possas. O beijo á mamã que seja muito longo, muito longo... Não te esqueças. Tua—Augusta.»Graça Strech sentiu os olhos marejados de lagrimas ao lêr estas cartas, especialmente a ultima. Estava alli todo o coração de sua irmã, a alegria da avesinha, ainda tremula, que se sente desopprimida dos seus negros receios, phantasticos uns, justificados outros.Abeirou-se brandamente do catre, como quem teme ser importuno, Rosina Regnau, e com encantadora timidez perguntou:—Chorava?—Um soldado portuguez não chora nunca, respondeu Graça Strech com doçura meiada de altivez e fingimento.—São menos felizes as vivandeiras francezas, contestou ella com sincera simplicidade.—Por quê?—Porque choram ás vezes.—Ainda a não vi chorar!—E, como se instantaneamente deixasse resfolegar o rancor latente no coração, acrescentou:—A polvora queima os olhos e o coração, e Rosina é quasi um soldado... francez.—Olhe que se contradiz! observou ella maviosamente.—Esquece-se de que tambem é soldado e chora...Graça Strech caiu em si e deu-se pressa em attenuar o mau effeito das suas palavras:—Tem razão. A desgraça dá esta incoherencia aos pensamentos...—Julga-se então muito desgraçado?—Pungente ironia que só pode vir... d'ahi! retrucou sobremodo exaltado o convalescente. Pois pergunta-se a um prisioneiro, a um ferido, a um homem mil vezes deshonrado, se é infeliz? Onde aprendeu esse cynismo de vivandeira? Onde havia de ser! Na taberna e no quartel. Só lá é que se fala assim...E, como ella chorasse á beira do catre:—Sabe que eu ainda não estou inteiramente curado,{60}Rosina? Parece-me que deliro ás vezes! Agora delirei eu. Não... não delirei. Conheci que era mais piedosa do que as outras mulheres... Quiz ver até onde chegava a sua sensibilidade... Perdõe-me a experiencia... Vejo que ainda tem lagrimas... sim... tem lagrimas... não posso duvidar... está chorando!—Não seja mau para mim, soluçou Rosina Regnau. Eu tive pena de vêr o senhor a lêr e a chorar... De mais a mais fui eu que lhe dei as cartas para a mão no dia em que o senhor veiu e parecia pedir-m'as... Pois não se lembra?—Não. E viu-as alguem? leu-as alguem?—Ninguem as leu, senhor. Eu pensei que se lembrava, porque o senhor, quando lh'as dei adivinhando de certo o seu pensamento, olhou para mim...—Sim, talvez olhasse... eu queria as cartas...—Isso comprehendi eu. A gente ás vezes estima qualquer cousa que não tem valor... Eu tambem tenho um d'esses thesouros que nada valem... É...—E calou-se, receiosa de proseguir.—É?—A madeixasinha de meu pae, que era capitão do exercito.—Capitão? perguntou Graça Strech.—Era capitão, senhor. Para me não deixar desamparada, entregou-me ao velho Regnau com esta madeixa que era o seu unico legado... Nada mais tinha que me deixar...—E tirou do seio a sua reliquia, sobre a qual foram cair duas lagrimas ardentes.Graça Strech, subitamente commovido, attentou na vivandeira que tinha baixado os olhos, como se quizesse esconder o pranto.—Ás vezes, proseguiu ella, fico-me a contemplar este thesouro, sobretudo se estou triste. Que mais tenho eu no mundo? Nada. Esta madeixasinha da minha riqueza, o meu talisman, creio eu. Beijo-a e choro. Fico melhor. É tambem a minha companhia. Estas mulheres—e indicou as demais vivandeiras—nem sequer se lembram de que tiveram pae! Até lhes convém pensar que o não tiveram para não sentir atormentada de remorsos a consciencia.—Ellas querem-me mal, bem o sei. Que me importa? Eu tenho o meu coração tranquillo. Devo a Deus o haver-me protegido com a sua misericordia. Sou a filha do regimento, e ninguem offende uma filha. Estima-me;{61}estimo-os. Da guerra que ellas me fazem nem me lembro. Pobresinhas, que não são capazes d'uma ação boa! Vivo só, completamente só, senhor. Sou digna da compaixão de todos, acredite, porque sou infeliz; criminosa não. Meu pae, que decerto me está ouvindo n'esta hora, bem o sabe. É porque sou infeliz, que comprehendo as desventuras alheias. Pareceu-me que o senhor tinha maguas secretas. Inspirou-me sympathia. Bem sei que a minha presença lhe não deve ser agradavel, porque emfim eu sou franceza e o senhor é portuguez. Mas que culpa tenho eu de haver nascido longe? Foi nas Ardennas... bonita terra d'uma vez! Ainda não vi arvores como lá! O imperador é quem manda; nós não temos culpa nenhuma: obedecemos. Elle quer o mundo; conquiste-se o mundo. E depois eu não tenho odio nenhum aos portuguezes. Até se o senhor algum dia precisar do meu prestimo... Eu não valho nada... mas verá que ha de encontrar sempre a mesma Rosina Regnau... O que eu queria é que me tratasse bem. Não faço mal a ninguem, porque não se tira proveito nenhum de fazer mal... O senhor foi ferido, é verdade; mas fui eu quem o feriu?...—Não, Rosina, não! atalhou Graça Strech enternecido a lagrimas. Mas feriram-me na alma, bem fundo, muito fundo... Sou um grande desgraçado. Se lesse estes papeis, que são tambem a minha unica riqueza, veria que o sou. Eu tenho apenas de meu estas cartas; Rosina tem apenas a sua madeixasinha. Somos irmãos na desgraça. Eu sou filho d'um capitão portuguez, talvez morto a esta hora; Rosina é filha de um capitão francez, que tambem não existe. Ainda n'isto irmãos! Bem sei que não tem culpa de haver nascido franceza. Perdoe-me, se a offendi... Offendi, que o sei eu. Deite tudo á conta da minha arrebatada mocidade e dos meus soffrimentos. Mas é que este abysmo cavado por Napoleão entre as duas nações é incommensuravel, acredite. O abysmo chama o abysmo... Jámais correu sangue impunemente... A guerra faz dos homens leões... E que guerra esta, santo Deus!... Zomba-se de tudo—da virgindade, da honra, da innocencia! Oh! que os seus irmãos tremam das represalias... Medonhas devem ser... Não se opprime assim um paiz inteiro... A estrada por onde fugiu Junot está atravancada de cadaveres,{62}mas ainda cabe por ella o exercito de Soult. A hora do resgate será tremenda, Rosina. Fuja, fuja emquanto é tempo, pomba que vive entre milhafres. Fuja com a sua innocencia. Eu comprehendo, eu acredito que é boa, e casta. Mas não encontrará em Portugal coração que possa acceitar o seu amor, alma que prese os thesouros da sua. E sabe por que? Porque entre um portuguez e uma franceza medeia n'esta hora uma barreira invencivel... E essa barreira está em pouco, mas não haverá ahi exercitos que a transponham. É um maço de cartas, um annel, uma madeixasinha talvez. Supponha que um homem havia ferido mortalmente seu pae... Que esse homem viesse agora dizer-lhe, Rosina, que lançasse ao fogo essa reliquia sagrada; que matára em nome da patria; que seu pae era primeiro que tudo um soldado, e que um soldado era para elle o inimigo... Chora, Rosina! As suas lagrimas são ainda mais eloquentes que o seu silencio... Pois supponha que mataram meu pae, supponha que me retalharam a alma, que eu tenho noite e dia nos ouvidos o clamor da vingança, que eu sou um homem que já não vivo para mim, mas para os que morreram...E, exhausto de forças, caira sobre o travesseiro, pedindo soccorro com o olhar, em que subitamente se apagaram os fogos da exaltação.Fez-se em torno do catre o lugubre silencio dos hospitaes, apenas interrompido de espaço a espaço pelos gemidos de alguns portuguezes que anhelavam a morte, porque só n'ella encontrariam o supremo resgate.Rosina, curvada para o doente, julgava amparar nos seus braços um homem que desejava viver para vingar a morte da mulher amada. A excitação febril do prisioneiro fazia-lh'o crer. Estava longe de suppôr que essa mulher fosse apenas irmã, ou antes que a desgraça d'esse homem fosse tamanha que tivesse de vingar a morte de uma familia inteira.Como, porém, Graça Strech lentamente parecesse recobrar alento, inclinou-se-lhe ao ouvido e maviosamente repetiu:—Se algum dia precisar do auxilio da pobre vivandeira, acredite que Rosina Regnau será sempre a mesma...{63}VIIIO anjo da liberdadeFoi-se restabelecendo o doente.Meiado abril, Craça Strech julgava-se robustecido sufficientemente para encetar a sua obra de vingança. Toda a sua attenção se concentrava na idéa fixa da fuga. Rosina continuava a ser para elle a dedicada, a solicita, a meiga enfermeira dos primeiros dias. Se em tão carinhosa dedicação estava occulto o germen do amor, se era aquella a mascara da alma apaixonada que tinha de respeitar conveniencias e circumstancias, não tardará que o saibamos. Todavia os seus sorrisos, posto que doces, revelavam tristeza. O coração a attraíl-a para aquelle homem, e o destino a distancial-a! Que elle soffria, era evidente. Mas por que soffria? Porque esse homem—suppunha-o ella—amára doidamente, com o fogo dos primeiros amores, com a loucura dos primeiros annos, e vira talvez correr, na hora da invasão, o sangue innocente da mulher amada. Porque esse sangue clamava vingança, e elle esperava apenas pela hora tremenda da represalia. Porque essas cartas que relia a toda a hora eram outros tantos protestos contra a tyrannia dos que venceram. Fossem dizer ao coração d'esse homem pungido pelo que ha ahi de mais excruciante na terra: «Despe o teu luto; enflora-te. Os que te mataram eram meus irmãos, mas quem te resuscitará serei eu. Com o sangue do cadaver, que desceu á tumba commum, regaremos as flôres da tua felicidade futura.» Não podia ser. Elle tivera razão quando disse: «Supponha que um homem havia ferido mortalmente seu pae. Que esse homem viesse agora dizer-lhe, Rosina, que lançasse ao fogo essa reliquia sagrada; que matára em nome da patria...» Referia-se a uma barreira insupperavel, e falava do maço de cartas, de um annel, de uma madeixasinha talvez. E{64}as cartas relia-as elle, e annel tinha um na mão esquerda, tinto de sangue, que era talvez da pessoa cuja morte anhelava vingar. Que esperança podia, pois, ter Rosina no seu louco amor? Mas, por outro lado, quem ha de dizer ao coração que é loucura amar? Como havia ella, allucinada pela paixão, de raciocinar comsigo mesma: «Tu és a pobre Regnau, a vivandeira franceza, que acompanhas o exercito vencedor; elle é o soldado do exercito vencido, e vencido elle mesmo. Não se póde transpôr um abysmo, muito menos dois. Tantos são os que nos separam n'esta hora: o da vingança e o da nacionalidade!» Isto ninguem o diz; ella não o podia dizer. Amava, sim, mas amava sem esperança, e, o que é mais, amava com medo. Agrestemente a tratava elle a principio. Desde o dia em que ella lhe perguntou se chorava, e em que timidamente se abeirára do catre antes como enfermeira do que como amante, pareceu todavia abrandar um pouco mais o seu odio inspirado pelo nome francez. Conheceu decerto que ella não estava ainda pervertida, e condoeu-se. Mas condoer-se não é amar. E depois que desgraçado aquelle! Que pensaria elle fazer? Talvez matar-se. Prefiriria morrer a combater contra a sua patria, contra o seu nome de portuguez, contra as suas recordações. Como ella quizera sondar-lhe a alma e arrancar-lhe o seu segredo! O que importava, primeiro que tudo, era affastal-o da morte. Por isso o espionava Rosina, e cada vez era maior a sua solicitude. Não tardou porém a hora em que Graça Strech ia levantar uma ponta do véo mysterioso que occultava os seus designios.Era ao entardecer. Havia na sala a penumbra crepuscular. Elle escolhera decerto essa hora para que a physionomia lhe não traisse os sentimentos reconditos.—Lembra-se, Rosina, do offerecimento que me fez?—Lembro, e repito-o, respondeu ella estremecendo de golpe.—Pois bem; é chegada a occasião de aproveital-o. Cumpre porém que primeiro lhe diga que a minha vida fica pendente d'esta revelação. Se ámanhã quizer denunciar-me aos meus algozes, póde fazel-o, e então completará a vingança dos meus desabrimentos.{65}Completará, disse eu, porque compassivamente me tem tratado, e a compaixão é a vingança das almas nobres. Quer-me parecer, não obstante a posse do meu segredo, que continuará a vingar-se nobremente... O seu coração é bom, Rosina; o meu é que não é assim. Eu sou vil, rancoroso, sanguinario. Mas, ainda assim, em alguma hora da minha vida me é dado ouvir a voz do meu anjo da guarda. Depois a celeuma dos maus instinctos suffoca-a. É porém esta uma das horas em que o meu coração não é inteiramente perverso. Portanto lhe falarei com a maxima franqueza. Eu quero sair d'aqui, Rosina, livre, completamente livre, entenda-me bem. Só por sua intervenção o poderei conseguir. Mas, se me presta esse serviço, quem lhe não dirá, Rosina, que soprou no meu peito as labaredas que eu sinto escaldarem-me o sangue quando volvo os olhos a um passado proximo, muito proximo?... Sabe que é quasi um fratricidio que vae praticar? A voz da consciencia será a primeira a dizer-lh'o. Não irá combater contra os seus pessoalmente, mas irá dar mais um soldado ao exercito portuguez cerceado pela derrota... Pense em tudo isto. Vae trair a confiança dos seus irmãos para conquistar apenas a gratidão d'um só homem...A esta palavra, os olhos de Rosina, até ahi brilhantes de copiosas lagrimas, illuminaram-se d'um clarão d'alegria.—Gratidão! disse?—soluçou ella. É a primeira vez que eu oiço dos seus labios tão doce palavra... Acredite-me, sim? Eu já pensava em auxiliar-lhe a fuga, mesmo quando ainda não era meu amigo. Tinha pena, muita pena do senhor, e receiava que se quizesse matar para não ficar prisioneiro. Faria por lhe dar a liberdade, ainda que m'o não agradecesse, porque algum dia, ahi por esses acampamentos fóra, bem podia ser que o senhor encontrasse, prostrada por uma bala perdida, a vivandeira Rosina, e dissesse, lançando-lhe um olhar de piedade: «Bem te reconheço! Eras a pobre Regnau. Deste-me a liberdade. Estás morta. Que te hei de dar agora? Dar-te hei uma oração». Isto me bastaria, senhor, que eu bem sei que não mereço mais. Mas agora o caso muda muito do que eu havia pensado na minha tristeza. O senhor promette-me gratidão. Que mais posso eu{66}invejar? A memoria de meu pae me perdoará, porque elle—disse ella com irreflectida candura—tambem amou muito, segundo contava o velho Regnau. Gratidão é o que o ceguinho das Ardennas tem ao seu fiel molosso. O pobresinho do Hubert anda sempre a dizer, referindo-se ao seu cão: Não ha pessoa a quem eu seja mais grato!» Veja o senhor como elle lhe quer, que até chama pessoa ao cão! Pois eu serei para o senhor como o molosso para o Hubert. Ter-me-ha gratidão; viverei feliz... E sabe o senhor que o cão do ceguinho das Ardennas o segue sempre? Sabe o que isto quer dizer?...E calou-se de subito, ruborisada de pudor.—Não sei! observou Graça Strech sobremodo admirado da sinceridade d'aquella confidencia.—Não sabe? É que eu tambem queria seguil-o ao senhor...—Como?! perguntou o moço aprumando-se como galvanisado por um choque electrico. Seguir-me! Sabe bem o que diz, Rosina? Sabe que atraz de mim caminhará sempre a morte, e atraz de si o odio francez? Sabe que isso é renegar a sua patria, o nome de seu pae?—Esquece-se de que meu pae não me deixou nome? Se no céo se sabe tudo, elle saberá que o meu coração é puro. O mais que me importa a mim? Nem por seguir o senhor deixarei de querer cada vez mais á minha madeixasinha. Crime era o esquecer-me d'ella, o desprezal-a, o não a trazer commigo. Mas é que eu seguirei o senhor, e ella seguir-me-ha a mim. E depois o senhor não me comprehendeu bem... Eu não queria deixar de ser vivandeira... Não se quesile, não? O senhor vae combater. Eu seguirei o exercito como até aqui, mas estarei sempre em sitio onde lhe possa acudir, e em vez de soccorrer um soldado francez soccorrerei o senhor se as balas o não respeitarem. O crime está só n'isso, e Deus m'o perdoará... Eu, depois que morreu o velho Regnau, o meu segundo pae, tenho vivido tão sósinha, tão sósinha!... O exercito é muito grande e por isso mesmo não faz companhia. Não lhe perderei o rasto, senhor, esteja certo. As vivandeiras estão costumadas á guerra de emboscada. Surprehendel-o-hei quando menos o esperar. Que seja preciso affrontar perigos, pouco importa. Rosina, a «gentil vivandeira», como por favor{67}me chamam, é destemida. Toda a brigada Arnaud lh'o podia dizer...A admiração, o pasmo, o alheamento de Graça Strech eram cada vez maiores. Espantava-o aquelle conjuncto de candura e coragem, aquelle receiar e querer da vivandeira. Achava extraordinaria a creança, que tinha innocencias d'anjo e impetos de mulher. Não sabia se mais havia de admirar a originalidade do temperamento se a originalidade da revelação. Começava a lêr na alma da vivandeira que o amava. Comprehendeu que ella sabia respeitar-lhe a dôr, impondo-lhe suavemente o dever de respeitar-lhe a sua. E tudo o que ella soffria era por ser franceza... Tambem elle se não lembrava n'esse lance de que a mariposa procura a chamma!E Rosina era a mariposa do acampamento.Não obstante, desconfiando ainda da clareza da sua percepção, quiz oppôr obstaculos á resolução da vivandeira:—Mas não sabe que isso é impossivel, Rosina? Não sabe que se não póde seguir ninguem através dos azares da guerra? Quem póde luctar com as ondas sem naufragar? Não lucte, Rosina, não lucte com o que é invencivel. Guarde essa coragem do seu bello coração para as batalhas do mundo, que toda lhe será precisa. Deixe-me ir até onde chegam todos os infelizes. Não sabe que ámanhã posso encontrar a bala que me mate?... Não será ámanhã, não, porque eu ámanhã não haveria completado a minha obra. Preciso de viver, mas a guerra é tão caprichosa! Completa a minha obra, desejo morrer livre, quite com o mundo. Não quero que ninguem me chore—morrerei feliz.—Outro tanto poderei eu dizer, atalhou com doçura a vivandeira. Mas deixe-me ir... tambem até onde vão os infelizes. Já agora, eu, que lhe vou abrir o seu futuro, quero saber ao menos o sitio em que o senhor estiver. Bem pouco lhe peço, como vê. Caprichos de mulher! especialmente caprichos de franceza...E, como que arrependida de haver soltado esta palavra:—Fui indiscreta, bem sei; perdôe-me. O seu coração precisa de esquecer a minha nacionalidade para me não odiar...{68}Era impossivel luctar por mais tempo com tão energica e ao mesmo passo tão meiga natureza.Como se aproximasse gente, Graça Strech apertou-lhe silenciosamente a mão e escondeu no lençol a face involuntariamente orvalhada de lagrimas.Chegára a noite triste que ao nascer das estrellas invade os hospitaes e as prisões com o seu silencio e a sua tremula claridade.Graça Strech não pôde conciliar o somno. Tantos e tão extraordinarios eram os pensamentos que se lhe baralhavam no espirito, que ora sentia subir-lhe ao cerebro a frialdade glacial dos tumulos, ora a chamma abrazadora da congestão. Assim esteve, sem dar tino do tempo que passava, com os olhos fitos na sombra oscillante que uma lanterna projectava na parede fronteira ao seu catre.Os gemidos d'alguns feridos compassavam-se a intervallos mais ou menos longos, segundo a gravidade do ferimento. Duas vivandeiras, encarregadas de ficar de véla n'aquella noite, deixaram-se adormecer com a tranquillidade de quem está bem e não se importa de que os outros estejam mal.Na rua tropeavam com interrupções os cavallos das rondas. Uma ou outra vez ouvia-se trocar palavras entre as patrulhas que passavam e a sentinella do hospital. Não se percebia, porém, o que diziam...E assim decorria a longa noite das enfermarias e dos carceres com o lutuoso aspecto que faz d'umas e outros—cemiterios de vivos.A mais de meio iria a noite, quando a Graça Strech pareceu vêr entrar cautelosamente na sala um soldado francez, que foi caminhando, cada vez mais receioso, até se avisinhar do seu catre.Se obedecesse ao primeiro impeto, haveria falado, porque lhe passou no espirito a suspeita de que Rosina o denunciára, e de que esse soldado, que tanto se arreceiava de ser surprehendido, era um assassino galardoado talvez pela devassidão da vivandeira.E bastou esse momento para a suppôr mobil d'uma infamia inaudita, a ella, que momentos antes lhe pedia unicamente, a troco da liberdade promettida, que a deixasse seguil-o como o fiel molosso seguia o cego das Ardennas.Era, porém, corajoso de mais para succumbir aos perigos d'uma traição.{69}Para logo se lhe accendeu o coração em labaredas do inferno, e se lhe requeimou a garganta como a do tigre dos palmares quando tem sêde de sangue.Era, porventura, um soldado francez que o vinha apunhalar, de noite, suppondo-o a dormir, talvez por ciume da barregã com quem passára a noite, ou para vingar o odio que aquelle prisioneiro nutria contra os francezes.Não tinha armas, nem carecia d'ellas. Infamia por infamia. Luctaria braço a braço, encarniçadamente, silenciosamente, até que um d'elles ficasse prostrado.Sentou-se no catre, com o joelho direito levantado, em posição de melhor se poder erguer para responder á aggressão.E com tão sinistro brilho lhe coriscavam os olhos, que o supposto soldado francez, conhecendo de certo o que lhe ia na alma, impuzera silencio com um gesto e dissera a alguns passos de distancia:—Sou eu.Graça Strech reconhecera Rosina.O vulto que elle suppuzera um assassino transformára-se no anjo da liberdade. Não lhe vinha trazer a morte; vinha restituir-lhe a vida. Como poderia elle receiar a aggressão d'aquelle soldado franzino, gentil, cujos olhos, por meigos e luminosos, trahiriam o segredo do seu disfarce, cujos cabellos, ennovelados a um e outro lado, denunciavam as tranças da mulher enroladas em cachos?Visualidades d'imaginação doente, chimeras que o habito do soffrimento cria, e a noite avulta.—Sou eu, repetiu ella cada vez mais baixinho, e aproximando-se.E, como se por encantamento um genio bom lhe deizasse cair ás mãos o fardamento d'um soldado, igual ao que vestia, acrescentou:—Não ha tempo a perder. Vista-se e venha.E retrocedeu a esconder-se á porta, onde as sombras mais se condensavam, e a levantar do chão o saco d'oleado da ambulancia, que continha o seu trage de vivandeira.Não se fez esperar o prisioneiro, que logrou atravessar a sala sem ser percebido. Nos olhos dos que dormiam havia as nuvens precursoras da noite eterna,{70}que nada deixam vêr para fóra do corpo. É o recolher-se da alma que vae partir.As duas enfermeiras continuavam a dormir tranquillamente.—Venha, disse-lhe Rosina travando-lhe da mão.Graça Strech desceu conduzido pela vivandeira.Quando a sentinella deu tino de que se aproximava alguem, cumpriu a praxe militar do—Qui vive?Um dos soldados, que levava ao hombro a bolça da ambulancia, respondeu:L'empereur;—e quando já a sentinella podia distinguir os uniformes, acrescentou com voz firme e sã em francez.—Soldados da ambulancia com ordens urgentes para o quartel general.O soldado que respondera era, como calculam, a vivandeira das Ardennas.Chegados á rua, Rosina Regnau apertou convulsamente o braço de Graça Strech e segredou-lhe:—Nunca se esqueça de que n'este dia, e a esta hora, lhe dei a liberdade, roubando-a a mim mesma.—Nunca! respondeu elle commovido.E, como sentissem aproximar-se uma ronda, estugaram o passo, caminhando sem norte.Por duas vezes, no aventuroso transito, os surprehenderam patrulhas francezas.Era sempre Rosina quem respondia no idioma patrio, não sem que sentisse palpitar vertiginosamente o coração receioso de ver desabar n'um momento a felicidade sonhada.Insensivelmente se foram aproximando do rio Douro, a cuja margem pararam algum tempo vacillantes no que fariam e, não obstante serem ambos corajosos, quasi amedrontados. Só então, chamados á realidade, olharam para dentro de si mesmos, conscientes da arriscada situação em que se encontravam.Pareceu-lhes, porém, ouvir o compasso de remos na agua, e tanto bastou para se illuminar d'um raio d'esperança a alma da vivandeira.Foi Graça Strech quem se aventurou a chamar o barqueiro.Nenhuma voz respondeu ao chamamento mas, decorrido algum tempo, viram avisinhar-se do caes o vulto negro do barco.N'aquelle tempo eram tão frequentes as fugas nocturnas, dos que presumiam mais demorada, do que{71}foi, a occupação franceza da cidade, que alguns barqueiros dos logares convisinhos, inteiramente privados de recursos, se affoutavam a bordejar no Douro por horas mortas para receber a esportula dos fugitivos.Graça Strech e Rosina Regnau saltaram ao barco.Estremeceu o barqueiro conhecendo o uniforme francez, mas Graça Strech acudiu a serenal-o com estas palavras:—Somos portuguezes, amigo. O habito não faz o monge. Salva-nos, e não te importe o mais. Afasta-nos, o mais depressa possivel, da cidade.{72}IXEntre a vingança e o amorFoi o barco singrando Douro acima lentamente.Graça Strech lançou mão d'um remo e auxiliou o barqueiro, não sem haver arrancado de si mesmo, com fogosa violencia, a jaqueta do uniforme francez.—Que peso que me fazia isto! disse elle sorrindo a Rosina.E voltando-se para o barqueiro:—Onde estará agora o resto do nosso pobre exercito, sabes? perguntou vivamente.—Anda para Riba-Tamega, senhor. Desde hontem que vae para lá o inferno, tão certo como ser hoje 19 de abril, e chamar-me eu o Tunante de Pé-de-Moira.—Não sabes mais nada?—Eu, senhor?... tartamudeou o barqueiro relanceando um olhar de medo ao soldado francez que ia sentado é pôpa.Graça Strech comprehendeu-o, e acrescentou:—Pódes falar. Não te disse eu que o habito não faz o monge? Aquelle soldado francez, que tu vês ali, é uma mulher.—Uma mulher! repetiu o barqueiro.—E de mais a mais faze de conta que é... muda, disse sorrindo maliciosamente Graça Strech.A esta palavra, se elle houvesse reparado, veria brilhar extraordinariamente os olhos de Rosina Regnau, que encontrára n'esse momento, melhor ainda, n'esse vocabulo, a chave d'um enigma que a preocupava dolorosamente.—Pois então, lá vae tudo, p-a-pá-Santa Justa, tornou facetamente o barqueiro. Os francezes pegaram hontem fogo á villa d'Amarante. Hoje de manhã havia uma procissão de gente que vinha fugida da villa.{73}Em Pé-de-Moira ficaram dez pessoas. Foram ellas que contaram o que se havia passado.—Quem commanda os Portugueses, sabes?—É o general... Ora que me não lembra agora! Elle tem assim um nome a modo d'arvore...—Silveira? perguntou com anciedade Graça Strech.—Tal qual: Sirveira, deturpou o barqueiro.Aclarava-se o céo com os primeiros alvores do dia 20 d'abril.Rosina levava os olhos postos no arvoredo das margens, alanceada, porventura, de vagas saudades das florestas das Ardennas.—Agora, á luz d'esta candeia, apostrophou o barqueiro apontando para o sol nascente—já eu não me enganava com o sordadito...Rosina sorriu melancolicamente, como se entendesse o barqueiro por uma fina intuição de mulher apaixonada, e Graça Strech perguntou em francez pousando o remo:—Vae triste! É o arrependimento que chega?...A vivandeira respondeu energicamente com um gesto negativo, como se em verdade fôra muda.—O peior—disse o barqueiro improvisamente—é que se virem de terra que vae aqui um soldado francez, são capazes de fazer fogo contra todos nós. Os diabos o jurem! Mas se ella não é franceza p'ra que diabo lhe fala o senhor n'esses latins?—São coisas... respondeu austeramente Graça Strech.—Tens razão, tens... no que lembraste.E, voltando-se para Rosina, traduziu o pensamento do barqueiro.—Vae ali uma manta, e a cachopa que se embrulhe n'ella, se quizer, observou o Tunante de Pé-de-Moira, com certo orgulho alegre de tomar parte n'uma aventura que desde logo presumiu amorosa.Rosina, aconselhada por Graça Strech, acceitou o offerecimento, e despiu a fardeta.O Tunante, orgulhoso de poder fazer concessões, acrescentou:—Minha mulher tem lá por casa uns trapos, que não valem nada. Assim que chegarmos, eu irei buscal-os.Inteirada do offerecimento, Rosina abriu a bolça da ambulancia e tirou com presteza o seu corpete,{74}saial ebonnetde vivandeira, arremessando-os ao rio.—Que faz? perguntou Graça Strech.A vivandeira encolheu os hombros, como se aquelle movimento quizesse dizer:—Atiro á agua o passado.—Porque não fala, Rosina! Ainda não ouvi a sua voz desde que entrámos n'este barco! Quererá tomar a serio o gracejo da sua mudez, com que eu procurei ludibriar a curiosidade do barqueiro?—É que, respondeu ella affectuosamente, me sinto preoccupada ao estudar o papel que devo representar ámanhã...—Mas... não percebo!O barqueiro tinha largado os remos e deixado pender o labio inferior ao ouvir a pronuncia de Rosina. Para elle, que tinha suas fumaças de rato da agua, como quem dizlobo do mar, era aquelle um mysterio impenetravel. Podia acaso acreditar que fosse realmente ali, em companhia d'um portuguez, uma mulher franceza, que lançára ao rio um fato em que brilhavam as côres sinistras da França, áquella hora em que o sangue, o incendio, o saque, a tyrannia se erguiam como barreira entre o povo d'um e outro paiz?O Tunante de Pé-de-Moira não sabia historia, e ignorava o prodigio d'estas affinidades individuaes que se escondem entre as correntes oppostas dos sentimentos nacionaes. São grãos d'areia perdidos no oceano; é preciso descer ao fundo do mar para encontral-os. Outra pessoa, que não fosse rude, não se admiraria. A historia diz que, pouco depois da invasão, o marechal Soult se vira fechado n'um circulo de cariciosas sympathias, e que eram rasgados os salamaleques dos que já se presumiam aulicos de D. Nicolau I. A historia refere que semelhantemente alguns foram os corações que se renderam á prepotencia de Junot, e que era contra esses que se erguia tremenda a grande voz popular: «Morra Junot, e mais quem d'elle tiver dó.»[6]Finalmente, ainda conta a historia que Piton, um sargento do corpo de policia de Lisboa, fora promovido a alferes, pelos grandes{75}serviços que prestou aos francezes, com os quaes se retirou para França ao depois.[7]O Tunante, se soubesse historia, não se admiraria portanto de que o coração ainda tivesse um élo para ligar portuguezes a francezes, e, se houvera adquirido maior conhecimento dos homens e das coisas, saberia que primeiro se verga ao tufão das paixões a palmeira flexivel e solitaria do deserto, que o roble secular da floresta, duas vezes forte—porque é robusto e porque não esta só.A palmeira cede ao primeiro impulso, e deixa-se ir, em doce voluptuosidade, embalada nos braços vaporosos do vendaval, que são os primeiros, e por ventura os unicos, que se estendem para ella.O roble cede apenas quando o tronco está corroido pelos vermes ou abalado pelas luctas da tempestade.Os aulicos de Soult e os thuriferarios de Junot tinham as entranhas comidas pelas serpes da perfidia, e a alma vergastada pelo açoite da cupidez.Rosina era a palmeira do deserto, que verga sem saber que vae ser arrastada para longe do seu torrão natal, e que o simoun a despenhará n'um abysmo inevitavel.Era o amor que a dementava a extremos de renunciar a sua patria, se bem que a cada instante lhe pungisse no coração uma vaga saudade das Ardennas; era finalmente um sentimento nobre que a impellia a essa loucura, serena postoque ardente, resignada postoque dolorosa.A que mobil obedeceriam, porém, as damas portuguezas, que, um anno antes, se banquetearam e valsaram, no theatro de S. Carlos, em ruidoso sarau e na presença de Junot, com a officialidade franceza?Suas excellencias, as beldades da capital, eram recebidas no vestibulo do theatro por quatro pagens, loiros e provavelmente rosados. Sahia a esperal-as ao limiar da platéa, d'onde corria um tablado a nivelar-se com o palco, o general Margaron, que fazia as honras da casa. Ao fundo da scena havia trez cadeiras de braços, que se conservaram devolutas até á chegada de Junot, e em frente o busto de Napoleão{76}a resaltar sob um docel armado com quatro bandeiras em que se liam os nomes de outras tantas batalhas assignaladas: Marengo, Austerlitz, Iena e Friedland.Já as damas ouviam requebradas os galanteios dos officiaes de Napoleão, quando entrou Junot á maneira d'imagem em andor, isto é ladeado por duas das mais formosas portuguezas. Então começou o delirio da valsa, que rodou em circulos vertiginosos pela sala, até que a meio do tablado se abriu uma tenda de campanha, onde se serviu a ceia unicamente ás senhoras. É de suppor que suas excellencias se volvessem galliciparlas para melhor poderem acompanhar a eloquencia dos officiaes francezes nos brindes.Os convivas do sexo masculino estavam vexados—segundo diz candidamente o já citado José Accursio das Neves—e espreitavam dos camarotes as viandas e as esposas, resignando-se ao exiguo prazer de respirar os perfumes d'umas e outras.Em redor do edificio do theatro estavam postados quatro mil aguadeiros, de barril ao hombro, medida preventiva ordenada por Junot, para acudirem, em caso de maior sinistro, ao duplo incendio da lascivia e da gula.Parece porém averiguado que não funccionaram por serem permittidos dentro os escandalos.D'esta combustão, que afogueou o interior do theatro de S. Carlos, na noite de 8 de junho de 1808, tambem não sabia o Tunante de Pé-de-Moira.Que ignorante aquelle!Entenda-se todavia que não veiu á tela o facto para avultar a necedade do barqueiro, senão que para desculpar o coração e a mocidade da pobre Rosina Regnau. E agora é tempo de reatarmos o interrompido dialogo.—Reparou, replicou a vivandeira a Graça Strech, que ia calada. Ia a pensar. Bem vê que é desculpavel a concentração em quem agora renasce para a existencia. Não creia porém que o não ouvia. Ouvia sim... Quer uma prova? Acaba de serenar a minha alma com uma unica palavra, de resolver um problema, como se diz em Pariz, no bairro Latino. O senhor não precisa de pensar no futuro. Já o escolheu. Vae combater, vae realisar o seu desejo, tão facil de realisar{77}que lhe basta apenas encontrar o exercito portuguez. Eu comecei a realisar o meu: era acompanhal-o. Bem; aqui vou ao pé de si. Mas depois? mas ámanhã? mas sempre? Procurar o exercito francez era entregar-me á morte. Seguir o exercito portuguez era denunciar-me no primeiro momento em que me ouvissem falar. E os resultados d'essa imprudencia facilmente se imaginam... Seriam tambem a morte... Não, não, eu quero viver, preciso de viver, com o senhor e como o senhor. Viverá para a sua vingança; eu viverei para o meu... amor. Sim, pode acreditar na verdade d'esta palavra, aqui, a esta hora, depois, de eu haver atirado ao rio o meu fato de vivandeira... O senhor disse ao barqueiro: Faze de conta que é muda. Pois bem, sel-o-hei d'hoje em diante sempre que tenha á volta de mim ouvidos estranhos. Reservarei para o senhor as minhas palavras e o meu coração; para todos os outros serei muda, idiota, louca, se tanto for preciso. Mas deixe-me vel-o, seguil-o, falar-lhe só a si, percebe, só a si! Não estranhe a minha fraqueza. A alma da vivandeira é como um cartuxo de polvora: cheguem-lhe lume, e ella arderá. O senhor bem sabe que eu sou vivandeira...Graça Strech queria falar.Ella atalhou-o:—Quando se enfastiar de mim, tenha a coragem de m'o dizer. Um soldado deve ser corajoso. O ceguinho das Ardennas, quando vae a qualquer casa onde as crianças teem medo do seu cão, manda-o embora, e elle obedece-lhe. O senhor diga-me tambem: «Rosina Regnau, não te esqueças de que eu sou para ti o cego das Ardennas, o pobre Hubert». Bem sabe que quando ha guerra não é difficil a gente encontrar repouso. Ás vezes, no caminho, sae-nos ao emcontro uma bala perdida. Quando a gente é feliz, a bala cae-nos aos pés, mas quando só falta calar-se o coração para morrer, a bala cae no coração.—Rosina! Rosina! murmurou Graça Strech, profundamente commovido.Ella atalhou-o de novo:—Sim, agora ainda sou Rosina, ainda posso sel-o. Ámanhã serei—a muda. Serei uma sua parenta, uma louca com quem o senhor reparta piedosamente da sua marmita. Dirão: Ali vae a louca! E eu não poderei{78}voltar-me sequer, porque a louca será ao mesmo passo surda e muda. Se porém o calor da lucta não só fizer que se enfastie de mim, mas tambem que me odeie, como a principio me odiava, então não me mande embora, denuncie-me, entregue-me. Bastará uma palavra sua para fazer-me emmudecer para sempre. Bem vê que se o encargo é pesado, o resgate é facil...—Offende-me, Rosina, veja bem que me offende! disse elle ardentemente. Amo-a... sim, tambem eu posso dizer-lhe que a... amo. E quem diria, Rosina, quem o diria ha tão pouco tempo ainda! Como é feito o coração do homem! Odeio os seus irmãos e amo-a a si... Pela primeira vez na minha vida sinto amor por outra mulher que não fosse...—Cale-se, cale-se! apostrophou ella delirantemente. Não quero saber quem amou; seja esse o segredo do seu annel.—Acredite, Rosina, que o amor de que este annel é recordação era o mais puro amor que ha na terra... A pessoa a quem elle pertencia era minha irmã, acredite, era minha irmã.—Sua irmã! repetiu ella incredula e ironica. Bem vê que o sentimento que esse annel lhe inspira não é a saudade, é o enthusiasmo...—Oh! que não sabe como eu a amava! São d'ella tambem estas cartas... Póde vel-as, desenganar-se...—Não as entenderia.—É verdade. Não as entenderia.—E que certeza me dariam as cartas de que eram da mesma pessoa que possuia o annel? Que sua irmã lhe escrevesse era natural... Não preciso de provas para acredital-o...—Rosina! Rosina! Este annel tambem era de minha irmã, que eu vi morta, fria, hirta, livida... Mataram-n'a, Rosina, mataram-n'a... E ella era tão formosa, tão innocente, tão timida! Mataram-n'a os francezes, a ella, que lhes não fazia mal nenhum, a ella, que era meiga como uma pomba!... E não contentes com um assassinio, commetteram mais dois na minha familia. Ao pé do cadaver d'Augusta havia outros cadaveres: o de minha mãe e o de minha avó. Mataram-n'as os francezes, Rosina. Por isso eu odiava este nome. O annel, cujo segredo não acredita, é{79}um legado de sangue... Sim, eu amo-a, mas nunca me peça mais do que eu lhe posso dar. Nunca me peça compaixão, clemencia... Era impossivel! Sobre este annel jurei vingar-me. Bem vê que é delgado, fino, como o dedo que cingia. Pois elle é a unica barreira que póde haver entre mim e Rosina, quero dizer, o unico obstaculo que lhe prohibe a plena posse do meu coração... Viverei, sim, entre este annel e Rosina; entre a minha vingança e o meu amor... Eu patenteei-lhe a minha alma antes de acceitar a liberdade que me deu. Não tem de que me accusar... Comprehendo-a, Rosina, acredite que a comprehendo. A sua alma é tão extraordinariamente grande, tão poderosamente forte, que chega a assombrar-me a coragem do seu amor... Eu conheço que vae raiar para mim uma nova aurora. Quizera poder-me dar completamente ao seu amor, viver d'elle e só para elle, mas infelizmente a aurora que vae raiar nasce tinta de sangue, e sangue... de seus irmãos.Rosina tinha lagrimas nos olhos e fogo no coração. Parecia-lhe impossivel que a saudade d'uma irmã despertasse em Graça Strech tão dolorido enthusiasmo. Se era essa a unica recordação ligada áquelle annel, que phenomenal, que afflictiva e ao mesmo tempo que energica não era a alma d'esse homem! Cada vez o amava mais por que cada vez lhe parecia maior. E todavia, entre elles, tão germanados pela impetuosidade dos sentimentos e pela virilidade do animo, medeava uma barreira, posto que delgada, insupperavel—o annel mysterioso. Ella quereria tirar-se d'aquella duvida cruciante, adquirir, ainda que á custa de sacrificios, uma convicção, embora funesta; mas que direito tinha ella a interrogal-o mais, a duvidar, a ter ciumes?Cerca do meio dia abicou o barco a um reconcavo sombrio, perto de Pé-de-Moura, onde o barqueiro saltou em terra para ir buscar o fato promettido. Antes d'elle desembarcar, Graça Strech lançou-lhe a mão ao braço, e disse austeramente:—Tens filhos?—Saiba v. s.ª que tenho quatro. Por elles me exponho á morte todas as noites no rio...—Pois bem. Por elles me jurarás que não dirás a ninguem palavra do que viste e ouviste aqui.—Juro, senhor...{80}—Agora recebe todo o dinheiro que resta a um soldado.Uma hora depois, Graça Strech, saltando á margem, dizia a uma camponeza que o seguia:—Para Amarante.E a camponeza, como se só tivesse sorrisos e não palavras, sorria.Já dissemos que era aquelle o dia 20 d'abril.Quizeram os francezes, depois da invasão do Porto, estender a sua victoria pelo paiz inteiro. Immediatamente se assenhorearam de Valença e Vianna, tentando simultaneamente passar a Traz-os-Montes, mas foram duas vezes repellidos n'essa tentativa.Beliscados na sua vaidade de conquistadores, tinham mandado sobre Amarante no dia 9 uma força, que recuou perseguida pelo general Silveira. Appareceu porém, reforçada, no dia 15, travando combate em Manhufe e Villa Meã durante trez dias para dar tempo a soccorrel-a os quatro mil homens de Loison e De Laborde, que, partindo de Guimarães, lograriam colher os portuguezes pela rectaguarda.A pericia do general Silveira frustrou-lhes o intento com um rapido e habil movimento sobre Amarante. Os portuguezes occupavam a margem esquerda do Tamega; os francezes a direita.O empenho do inimigo era atravessar a ponte. Desesperados pela valorosa resistencia dos portuguezes, pegaram fogo, na noite de 18, a toda a villa. A crueza do inimigo mais pareceu atiçar a coragem dos nossos, cuja resistencia recrudesceu no dia immediato, apesar de reforçados os francezes pelas brigadas de Sarrut e Marisy.Estas eram as evoluções das tropas inimigas, em Amarante, á hora em que deixamos Graça Strech e Rosina Regnau em caminho do acampamento portuguez.Tempo depois, um poeta conterraneo, mais familiar ás armas d'Apollo que de Marte, encarecia no seguinte soneto a gloria do general Silveira, cuja tactica elle provavelmente estivera contemplando de sitio aonde já não podiam chegar pelouros:Uma nuvem de fumo o ar povôa,E do Tamega enluta as margens frias,O portuguez canhão quatorze dias,Sem descanço algum ter, fuzila e trôa.{81}De um lado a outro lado a morte vôaPor entre essas crueis artilharias,E perdendo as antigas ousadias,Curva ao duro francez a altiva prôa.Amigos hespanhoes, nação brilhante!Eis como cá seguimos vossa esteira,Eis nossa Saragoça, eis Amarante.Os olhos ponha em nós a Europa inteira,E veja, em amplo quadro flammejante,O Tamega, Ebro, Palafox, Silveira.Pena foi que Graça Strech precedesse alguns dias a gestação do soneto escripto em honra de Silveira, porque, de contrario, se topasse o poeta a versejar em ociosa inactividade, havel-o ia empurrado, no seu vivissimo odio contra os francezes, para o meio da infatigavel fuzilaria que durante quatorze dias sinistramente illuminou as aguas do Tamega.O que valeu foi que, se houve poetas para incensar metricamente Silveira[8], houve tambem soldados que denodadamente pelejaram pela patria.E o numero dos valentes da ponte d'Amarante ia agora ser augmentado com um soldado que seria o primeiro a romper fogo contra o inimigo.Deixar lá o poeta dizer que as margens do Tamega eramfriasn'aquelle tempo. Os poetas dizem tudo, e tudo podem dizer...{82}

[5]Referencia á proclamação de Soult.

[5]Referencia á proclamação de Soult.

Oito dias transcorridos, vamos encontrar Graça Strech, sentado no catre, convalescente, se bem que muito debilitado ainda, a relêr algumas das cartas que, por piedoso interesse de Rosina, pudera guardar debaixo do travesseiro.

Os successos de tão breve curso de tempo pequena chronica requerem. Rosina tem sido para o soldado portuguez carinhosa enfermeira. Chasqueam-n'a as outras mulheres, encarregadas do serviço do hospital, de extremamente compassiva para o prisioneiro, e zombeteiramente aventam que, a julgar pelos prolegomenos, lhes não parece impossivel que o exercito portuguez inteiramente se deixe desarmar pelas vivandeiras francezas.

As almas das restantes mulheres não se levantam do nivel commum ao femeaço que segue tropa. São grosseiras, sensuaes e malevolas. Rosina respira melhor entre os soldados do que entre ellas. D'aqui uma certa rivalidade apenas contida pelo respeito com que todo o exercito acata á filha do bravo militar das Ardennas. Todavia a «gentil vivandeira», como mariposa que é, não se demora no ambiente infeccionado em que ellas respiram; evita-as como a pantanos miasmaticos, sem lhes dar a conhecer que o muladar unicamente é povoado por vermes. Passa inquieta e ao mesmo tempo cautelosa, agitando as suas azas iriadas. Atravessa o lodaçal sem tocar-lhe. Guarda para si o nectar que vae libando nas flôres perfumadas da sua phantasia. É mariposa! dizem. Concentra-se nos circulos caprichosos em que doideja. Quer adejar e sorrir. Mas para esta, como para todas as mariposas, depois do jardim, cujas flôres beijou, ha de crepitar a chamma, que será o seu ultimo beijo. Beijo de fogo, que mata. E chamaes felicidade{56}a isto! Olhaes sómente á superficie; a mariposa não é feliz porque passe adejando...

Graça Strech fez reparo no carinho da enfermeira, mórmente comparando-o ao desamor com que eram tratados os demais feridos. Não poria duvida em beijar a unica mão caridosa que se estendia para elle na solidão do mundo, se não receiasse que o odio que lhe refervia no coração contra a França lhe envenenasse os labios. E aquella mulher era franceza. Parecia-lhe que dos seus vestidos se exhalava ainda o cheiro da carnagem. Por ventura o soldado que assassinára sua irmã, sua mãe e sua avó viera adormecer tranquillo nos braços d'aquella mulher, se é que não fôra mais d'um soldado, com as mãos ainda tintas das nodoas do crime. Via n'ella a creança corrompida pela lascivia da soldadesca, e, ao mesmo passo que lhe era reconhecido, tinha por ella o desprezo que se tem pelo vicio precoce. Considerava-a uma das victimas arrastadas pelo carro triumphal do Cesar francez. Bem podia ser que n'aquelle corpo vendido ao prazer germinasse uma alma boa logo corrompida pela putrefação contagiosa da caserna. Se não tivesse por mãe uma mulher devassa, uma vivandeira, uma meretriz de soldados, que não faria mais que atirar sua filha ao berco em que ella propria nascera, poderia encontrar um marido honesto, ser o anjo do lar, divinisar-se no altar da familia, porque as mães podem considerar-se as santas da religião domestica. Mas não. Graça Strech suppunha-a a flôr do paul. Tinha para elle a belleza maculada da vegetação dos charcos. Não sabia o que era o azul do firmamento, porque só os lagos, de superficie crystallina, são espelho do céo. As flôres do paul querem viver no lodo; ella queria viver no prazer. Os beijos que recebia tresandavam ao acre do tabaco e da aguardente. Não dulcificavam; queimavam. E assim como a gente se admira de ver uma flôr, por mais desbotada e menos formosa que seja, á beira d'um monturo, assim elle se admirava de que aquella mulher tivesse nos olhos um relampago de compaixão estando habituada a viver entre soldados e concubinas. Era, a seu juizo, o ultimo lampejo da alma que bruxoleava apagada pelo vicio. Extincto o derradeiro clarão, ficaria apenas a lampada—o corpo. E elle não queria gosar; queria vingar-se. O prazer da vingança,{57}se o ha, esse anhelava-o. Mas uma mulher corrupta não podia ser-lhe instrumento sufficiente a sacial-o. Nenhum dos generaes que capitaneavam o exercito invasor teria uma filha innocente, candida, formosa? decerto não; se a tivesse, não consentiria que a soldadesca violasse as alheias. Mas se a tinha, trouxessem-lh'a, pura como estava, bella como era, que a queria polluir, e dizer depois ao pae exasperado: «Os teus soldados mataram minha irmã, que tambem era virgem; eu matei tua filha, porque a encontrei no estado de minha irmã. Ambas são mortas: isso que ahi está já não vive.»

A toda a hora, tudo ali lhe recordava esse horrivel drama de sangue, que reputaria ainda sonho infernal, se a memoria de trez cadaveres o não chamasse á realidade. Tudo eram mulheres mancommunadas com os invasores, tudo feridos e prisioneiros, que de continuo amaldiçoavam, esporoados pela dôr physica, a França e o Corso. A lingua que se falava era a d'ellas, mesclada de raras palavras hespanholas para melhor se fazerem entender dos que não tinham a illustração bastante para comprehendel-as. Não será preciso observar que Graça Strech não desconhecia o idioma francez.

A principio confundiam-se-lhe no cerebro enfraquecido todas as sinistras visualidades d'aquella tormentosa phase de sua vida. Depois, á medida que ia cobrando forças, não só entrou de raciocinar ácerca de Rosina, como lhe acudiu a lembrança de seu pae, cuja morte só o tempo comprovára, e a consciencia da sua propria situação. Estava prisioneiro, guardado á vista por sentinellas francezas, e todavia havia jurado vingar a morte da sua familia. Esta idéa infernou-lhe as primeiras horas de lucidez. Era impossivel despedaçar as cadeias, romper por entre as sentinellas; não queria de modo algum expôr-se á morte que o roubaria á vingança. E o sentir no dedo o contacto do annel, em que se coagulára uma gota de sangue seu, ou de sua irmã, exasperava-o ao extremo de cair prostado no leito.

N'estes lances acudia meigamente Rosina Regnau, chamemos-lhe assim, a soccorrel-o com notavel dedicação. Umas vezes a repellia elle com ingratidão brutal, quando a accentuação franceza lhe coava ás entranhas estremecimentos de raiva, outras fitava na{58}vivandeira o olhar amortecido como a dizer-lhe que a prostração seria passageira. Na vespera do dia em que estamos, teve Graça Strech uma idéa que para logo reputou auxilio providencial. Lembrou-se de que só por intervenção de Rosina poderia evadir-se do hospital de sangue. Tratou pois de corresponder á solicitude com que ella o distinguia, de se mostrar reconhecido, de occultar o seu pensamento de vingança sob a mascara de ternura. Immediatamente o dominou este proposito, e a si mesmo prometteu nunca mais receber Rosina com intermittencias de rancor ou azedume. Difficil era o cumprimento d'esta promessa. Não se mascára facilmente o coração.

Relia elle, como dissémos, as cartas de sua irmã. Umas eram queixumes de rôla solitaria confrangida da tristeza alpestre das Chãs; outras eram hymnos de esperança, votos de felicidade commum, vagas alegrias dos sonhos dos quinze annos... N'umas denunciava-se a mulher; n'outras a creança. Umas eram a lagrima; outras o sorriso. Aquellas tinham a tristeza d'uma nuvem em céo d'abril; estas eram um raio de sol doirado pela primavera... Ou antes, como o leitor poderá classifical-as, as primeiras eram o presentimento da desgraça imminente, as ultimas eram o cantico do anjo que punha os olhos no céo, sua patria.

Vejamos:

«30 de novembro de 1807.—Meu irmão.—Não sabes como soffro horrivelmente, receiosa dos perigos que virão. A avosinha tambem está muito afflicta depois que os francezes entraram em Abrantes. Já cá sabemos da partida da familia real, apezar de tu, grande dissimulado, m'o não haveres dito! O padre capellão anda sempre a contar dinheiro e a ralhar com os abegões. Isto é uma tristeza! Quem nos vale a ambas, a mim e a avósinha, para nos tranquilisar, é o Teixeira. Eu, por mim, peço todos os dias a Deus que não aconteça mal algum aos portuguezes...»

«18 de setembro de 1808.—Meu José—Graças a Deus, que se dignou ouvir as minhas continuas orações! O Teixeira esteve hontem á noite a contar-me tudo. Até que emfim está a patria livre outra vez, sem haver acontecido desgraça de maior á nossa familia. Queira Deus que continue a paz para que tu possas vir vêr-me brevemente. A noticia do Teixeira{59}deu-me grande alegria, meu José. Reconquisto de novo a felicidade! Eu creio que não tenho coragem para soffrer... Dá um beijo muito demorado á mamã e um abraço muito apertado ao papá. A avósinha diz que venhas logo que possas. Vem, sim? Olha lá... logo que possas. O beijo á mamã que seja muito longo, muito longo... Não te esqueças. Tua—Augusta.»

Graça Strech sentiu os olhos marejados de lagrimas ao lêr estas cartas, especialmente a ultima. Estava alli todo o coração de sua irmã, a alegria da avesinha, ainda tremula, que se sente desopprimida dos seus negros receios, phantasticos uns, justificados outros.

Abeirou-se brandamente do catre, como quem teme ser importuno, Rosina Regnau, e com encantadora timidez perguntou:

—Chorava?

—Um soldado portuguez não chora nunca, respondeu Graça Strech com doçura meiada de altivez e fingimento.

—São menos felizes as vivandeiras francezas, contestou ella com sincera simplicidade.

—Por quê?

—Porque choram ás vezes.

—Ainda a não vi chorar!—E, como se instantaneamente deixasse resfolegar o rancor latente no coração, acrescentou:—A polvora queima os olhos e o coração, e Rosina é quasi um soldado... francez.

—Olhe que se contradiz! observou ella maviosamente.—Esquece-se de que tambem é soldado e chora...

Graça Strech caiu em si e deu-se pressa em attenuar o mau effeito das suas palavras:

—Tem razão. A desgraça dá esta incoherencia aos pensamentos...

—Julga-se então muito desgraçado?

—Pungente ironia que só pode vir... d'ahi! retrucou sobremodo exaltado o convalescente. Pois pergunta-se a um prisioneiro, a um ferido, a um homem mil vezes deshonrado, se é infeliz? Onde aprendeu esse cynismo de vivandeira? Onde havia de ser! Na taberna e no quartel. Só lá é que se fala assim...

E, como ella chorasse á beira do catre:

—Sabe que eu ainda não estou inteiramente curado,{60}Rosina? Parece-me que deliro ás vezes! Agora delirei eu. Não... não delirei. Conheci que era mais piedosa do que as outras mulheres... Quiz ver até onde chegava a sua sensibilidade... Perdõe-me a experiencia... Vejo que ainda tem lagrimas... sim... tem lagrimas... não posso duvidar... está chorando!

—Não seja mau para mim, soluçou Rosina Regnau. Eu tive pena de vêr o senhor a lêr e a chorar... De mais a mais fui eu que lhe dei as cartas para a mão no dia em que o senhor veiu e parecia pedir-m'as... Pois não se lembra?

—Não. E viu-as alguem? leu-as alguem?

—Ninguem as leu, senhor. Eu pensei que se lembrava, porque o senhor, quando lh'as dei adivinhando de certo o seu pensamento, olhou para mim...

—Sim, talvez olhasse... eu queria as cartas...

—Isso comprehendi eu. A gente ás vezes estima qualquer cousa que não tem valor... Eu tambem tenho um d'esses thesouros que nada valem... É...—E calou-se, receiosa de proseguir.

—É?

—A madeixasinha de meu pae, que era capitão do exercito.

—Capitão? perguntou Graça Strech.

—Era capitão, senhor. Para me não deixar desamparada, entregou-me ao velho Regnau com esta madeixa que era o seu unico legado... Nada mais tinha que me deixar...—E tirou do seio a sua reliquia, sobre a qual foram cair duas lagrimas ardentes.

Graça Strech, subitamente commovido, attentou na vivandeira que tinha baixado os olhos, como se quizesse esconder o pranto.

—Ás vezes, proseguiu ella, fico-me a contemplar este thesouro, sobretudo se estou triste. Que mais tenho eu no mundo? Nada. Esta madeixasinha da minha riqueza, o meu talisman, creio eu. Beijo-a e choro. Fico melhor. É tambem a minha companhia. Estas mulheres—e indicou as demais vivandeiras—nem sequer se lembram de que tiveram pae! Até lhes convém pensar que o não tiveram para não sentir atormentada de remorsos a consciencia.—Ellas querem-me mal, bem o sei. Que me importa? Eu tenho o meu coração tranquillo. Devo a Deus o haver-me protegido com a sua misericordia. Sou a filha do regimento, e ninguem offende uma filha. Estima-me;{61}estimo-os. Da guerra que ellas me fazem nem me lembro. Pobresinhas, que não são capazes d'uma ação boa! Vivo só, completamente só, senhor. Sou digna da compaixão de todos, acredite, porque sou infeliz; criminosa não. Meu pae, que decerto me está ouvindo n'esta hora, bem o sabe. É porque sou infeliz, que comprehendo as desventuras alheias. Pareceu-me que o senhor tinha maguas secretas. Inspirou-me sympathia. Bem sei que a minha presença lhe não deve ser agradavel, porque emfim eu sou franceza e o senhor é portuguez. Mas que culpa tenho eu de haver nascido longe? Foi nas Ardennas... bonita terra d'uma vez! Ainda não vi arvores como lá! O imperador é quem manda; nós não temos culpa nenhuma: obedecemos. Elle quer o mundo; conquiste-se o mundo. E depois eu não tenho odio nenhum aos portuguezes. Até se o senhor algum dia precisar do meu prestimo... Eu não valho nada... mas verá que ha de encontrar sempre a mesma Rosina Regnau... O que eu queria é que me tratasse bem. Não faço mal a ninguem, porque não se tira proveito nenhum de fazer mal... O senhor foi ferido, é verdade; mas fui eu quem o feriu?...

—Não, Rosina, não! atalhou Graça Strech enternecido a lagrimas. Mas feriram-me na alma, bem fundo, muito fundo... Sou um grande desgraçado. Se lesse estes papeis, que são tambem a minha unica riqueza, veria que o sou. Eu tenho apenas de meu estas cartas; Rosina tem apenas a sua madeixasinha. Somos irmãos na desgraça. Eu sou filho d'um capitão portuguez, talvez morto a esta hora; Rosina é filha de um capitão francez, que tambem não existe. Ainda n'isto irmãos! Bem sei que não tem culpa de haver nascido franceza. Perdoe-me, se a offendi... Offendi, que o sei eu. Deite tudo á conta da minha arrebatada mocidade e dos meus soffrimentos. Mas é que este abysmo cavado por Napoleão entre as duas nações é incommensuravel, acredite. O abysmo chama o abysmo... Jámais correu sangue impunemente... A guerra faz dos homens leões... E que guerra esta, santo Deus!... Zomba-se de tudo—da virgindade, da honra, da innocencia! Oh! que os seus irmãos tremam das represalias... Medonhas devem ser... Não se opprime assim um paiz inteiro... A estrada por onde fugiu Junot está atravancada de cadaveres,{62}mas ainda cabe por ella o exercito de Soult. A hora do resgate será tremenda, Rosina. Fuja, fuja emquanto é tempo, pomba que vive entre milhafres. Fuja com a sua innocencia. Eu comprehendo, eu acredito que é boa, e casta. Mas não encontrará em Portugal coração que possa acceitar o seu amor, alma que prese os thesouros da sua. E sabe por que? Porque entre um portuguez e uma franceza medeia n'esta hora uma barreira invencivel... E essa barreira está em pouco, mas não haverá ahi exercitos que a transponham. É um maço de cartas, um annel, uma madeixasinha talvez. Supponha que um homem havia ferido mortalmente seu pae... Que esse homem viesse agora dizer-lhe, Rosina, que lançasse ao fogo essa reliquia sagrada; que matára em nome da patria; que seu pae era primeiro que tudo um soldado, e que um soldado era para elle o inimigo... Chora, Rosina! As suas lagrimas são ainda mais eloquentes que o seu silencio... Pois supponha que mataram meu pae, supponha que me retalharam a alma, que eu tenho noite e dia nos ouvidos o clamor da vingança, que eu sou um homem que já não vivo para mim, mas para os que morreram...

E, exhausto de forças, caira sobre o travesseiro, pedindo soccorro com o olhar, em que subitamente se apagaram os fogos da exaltação.

Fez-se em torno do catre o lugubre silencio dos hospitaes, apenas interrompido de espaço a espaço pelos gemidos de alguns portuguezes que anhelavam a morte, porque só n'ella encontrariam o supremo resgate.

Rosina, curvada para o doente, julgava amparar nos seus braços um homem que desejava viver para vingar a morte da mulher amada. A excitação febril do prisioneiro fazia-lh'o crer. Estava longe de suppôr que essa mulher fosse apenas irmã, ou antes que a desgraça d'esse homem fosse tamanha que tivesse de vingar a morte de uma familia inteira.

Como, porém, Graça Strech lentamente parecesse recobrar alento, inclinou-se-lhe ao ouvido e maviosamente repetiu:

—Se algum dia precisar do auxilio da pobre vivandeira, acredite que Rosina Regnau será sempre a mesma...{63}

Foi-se restabelecendo o doente.

Meiado abril, Craça Strech julgava-se robustecido sufficientemente para encetar a sua obra de vingança. Toda a sua attenção se concentrava na idéa fixa da fuga. Rosina continuava a ser para elle a dedicada, a solicita, a meiga enfermeira dos primeiros dias. Se em tão carinhosa dedicação estava occulto o germen do amor, se era aquella a mascara da alma apaixonada que tinha de respeitar conveniencias e circumstancias, não tardará que o saibamos. Todavia os seus sorrisos, posto que doces, revelavam tristeza. O coração a attraíl-a para aquelle homem, e o destino a distancial-a! Que elle soffria, era evidente. Mas por que soffria? Porque esse homem—suppunha-o ella—amára doidamente, com o fogo dos primeiros amores, com a loucura dos primeiros annos, e vira talvez correr, na hora da invasão, o sangue innocente da mulher amada. Porque esse sangue clamava vingança, e elle esperava apenas pela hora tremenda da represalia. Porque essas cartas que relia a toda a hora eram outros tantos protestos contra a tyrannia dos que venceram. Fossem dizer ao coração d'esse homem pungido pelo que ha ahi de mais excruciante na terra: «Despe o teu luto; enflora-te. Os que te mataram eram meus irmãos, mas quem te resuscitará serei eu. Com o sangue do cadaver, que desceu á tumba commum, regaremos as flôres da tua felicidade futura.» Não podia ser. Elle tivera razão quando disse: «Supponha que um homem havia ferido mortalmente seu pae. Que esse homem viesse agora dizer-lhe, Rosina, que lançasse ao fogo essa reliquia sagrada; que matára em nome da patria...» Referia-se a uma barreira insupperavel, e falava do maço de cartas, de um annel, de uma madeixasinha talvez. E{64}as cartas relia-as elle, e annel tinha um na mão esquerda, tinto de sangue, que era talvez da pessoa cuja morte anhelava vingar. Que esperança podia, pois, ter Rosina no seu louco amor? Mas, por outro lado, quem ha de dizer ao coração que é loucura amar? Como havia ella, allucinada pela paixão, de raciocinar comsigo mesma: «Tu és a pobre Regnau, a vivandeira franceza, que acompanhas o exercito vencedor; elle é o soldado do exercito vencido, e vencido elle mesmo. Não se póde transpôr um abysmo, muito menos dois. Tantos são os que nos separam n'esta hora: o da vingança e o da nacionalidade!» Isto ninguem o diz; ella não o podia dizer. Amava, sim, mas amava sem esperança, e, o que é mais, amava com medo. Agrestemente a tratava elle a principio. Desde o dia em que ella lhe perguntou se chorava, e em que timidamente se abeirára do catre antes como enfermeira do que como amante, pareceu todavia abrandar um pouco mais o seu odio inspirado pelo nome francez. Conheceu decerto que ella não estava ainda pervertida, e condoeu-se. Mas condoer-se não é amar. E depois que desgraçado aquelle! Que pensaria elle fazer? Talvez matar-se. Prefiriria morrer a combater contra a sua patria, contra o seu nome de portuguez, contra as suas recordações. Como ella quizera sondar-lhe a alma e arrancar-lhe o seu segredo! O que importava, primeiro que tudo, era affastal-o da morte. Por isso o espionava Rosina, e cada vez era maior a sua solicitude. Não tardou porém a hora em que Graça Strech ia levantar uma ponta do véo mysterioso que occultava os seus designios.

Era ao entardecer. Havia na sala a penumbra crepuscular. Elle escolhera decerto essa hora para que a physionomia lhe não traisse os sentimentos reconditos.

—Lembra-se, Rosina, do offerecimento que me fez?

—Lembro, e repito-o, respondeu ella estremecendo de golpe.

—Pois bem; é chegada a occasião de aproveital-o. Cumpre porém que primeiro lhe diga que a minha vida fica pendente d'esta revelação. Se ámanhã quizer denunciar-me aos meus algozes, póde fazel-o, e então completará a vingança dos meus desabrimentos.{65}Completará, disse eu, porque compassivamente me tem tratado, e a compaixão é a vingança das almas nobres. Quer-me parecer, não obstante a posse do meu segredo, que continuará a vingar-se nobremente... O seu coração é bom, Rosina; o meu é que não é assim. Eu sou vil, rancoroso, sanguinario. Mas, ainda assim, em alguma hora da minha vida me é dado ouvir a voz do meu anjo da guarda. Depois a celeuma dos maus instinctos suffoca-a. É porém esta uma das horas em que o meu coração não é inteiramente perverso. Portanto lhe falarei com a maxima franqueza. Eu quero sair d'aqui, Rosina, livre, completamente livre, entenda-me bem. Só por sua intervenção o poderei conseguir. Mas, se me presta esse serviço, quem lhe não dirá, Rosina, que soprou no meu peito as labaredas que eu sinto escaldarem-me o sangue quando volvo os olhos a um passado proximo, muito proximo?... Sabe que é quasi um fratricidio que vae praticar? A voz da consciencia será a primeira a dizer-lh'o. Não irá combater contra os seus pessoalmente, mas irá dar mais um soldado ao exercito portuguez cerceado pela derrota... Pense em tudo isto. Vae trair a confiança dos seus irmãos para conquistar apenas a gratidão d'um só homem...

A esta palavra, os olhos de Rosina, até ahi brilhantes de copiosas lagrimas, illuminaram-se d'um clarão d'alegria.

—Gratidão! disse?—soluçou ella. É a primeira vez que eu oiço dos seus labios tão doce palavra... Acredite-me, sim? Eu já pensava em auxiliar-lhe a fuga, mesmo quando ainda não era meu amigo. Tinha pena, muita pena do senhor, e receiava que se quizesse matar para não ficar prisioneiro. Faria por lhe dar a liberdade, ainda que m'o não agradecesse, porque algum dia, ahi por esses acampamentos fóra, bem podia ser que o senhor encontrasse, prostrada por uma bala perdida, a vivandeira Rosina, e dissesse, lançando-lhe um olhar de piedade: «Bem te reconheço! Eras a pobre Regnau. Deste-me a liberdade. Estás morta. Que te hei de dar agora? Dar-te hei uma oração». Isto me bastaria, senhor, que eu bem sei que não mereço mais. Mas agora o caso muda muito do que eu havia pensado na minha tristeza. O senhor promette-me gratidão. Que mais posso eu{66}invejar? A memoria de meu pae me perdoará, porque elle—disse ella com irreflectida candura—tambem amou muito, segundo contava o velho Regnau. Gratidão é o que o ceguinho das Ardennas tem ao seu fiel molosso. O pobresinho do Hubert anda sempre a dizer, referindo-se ao seu cão: Não ha pessoa a quem eu seja mais grato!» Veja o senhor como elle lhe quer, que até chama pessoa ao cão! Pois eu serei para o senhor como o molosso para o Hubert. Ter-me-ha gratidão; viverei feliz... E sabe o senhor que o cão do ceguinho das Ardennas o segue sempre? Sabe o que isto quer dizer?...

E calou-se de subito, ruborisada de pudor.

—Não sei! observou Graça Strech sobremodo admirado da sinceridade d'aquella confidencia.

—Não sabe? É que eu tambem queria seguil-o ao senhor...

—Como?! perguntou o moço aprumando-se como galvanisado por um choque electrico. Seguir-me! Sabe bem o que diz, Rosina? Sabe que atraz de mim caminhará sempre a morte, e atraz de si o odio francez? Sabe que isso é renegar a sua patria, o nome de seu pae?

—Esquece-se de que meu pae não me deixou nome? Se no céo se sabe tudo, elle saberá que o meu coração é puro. O mais que me importa a mim? Nem por seguir o senhor deixarei de querer cada vez mais á minha madeixasinha. Crime era o esquecer-me d'ella, o desprezal-a, o não a trazer commigo. Mas é que eu seguirei o senhor, e ella seguir-me-ha a mim. E depois o senhor não me comprehendeu bem... Eu não queria deixar de ser vivandeira... Não se quesile, não? O senhor vae combater. Eu seguirei o exercito como até aqui, mas estarei sempre em sitio onde lhe possa acudir, e em vez de soccorrer um soldado francez soccorrerei o senhor se as balas o não respeitarem. O crime está só n'isso, e Deus m'o perdoará... Eu, depois que morreu o velho Regnau, o meu segundo pae, tenho vivido tão sósinha, tão sósinha!... O exercito é muito grande e por isso mesmo não faz companhia. Não lhe perderei o rasto, senhor, esteja certo. As vivandeiras estão costumadas á guerra de emboscada. Surprehendel-o-hei quando menos o esperar. Que seja preciso affrontar perigos, pouco importa. Rosina, a «gentil vivandeira», como por favor{67}me chamam, é destemida. Toda a brigada Arnaud lh'o podia dizer...

A admiração, o pasmo, o alheamento de Graça Strech eram cada vez maiores. Espantava-o aquelle conjuncto de candura e coragem, aquelle receiar e querer da vivandeira. Achava extraordinaria a creança, que tinha innocencias d'anjo e impetos de mulher. Não sabia se mais havia de admirar a originalidade do temperamento se a originalidade da revelação. Começava a lêr na alma da vivandeira que o amava. Comprehendeu que ella sabia respeitar-lhe a dôr, impondo-lhe suavemente o dever de respeitar-lhe a sua. E tudo o que ella soffria era por ser franceza... Tambem elle se não lembrava n'esse lance de que a mariposa procura a chamma!

E Rosina era a mariposa do acampamento.

Não obstante, desconfiando ainda da clareza da sua percepção, quiz oppôr obstaculos á resolução da vivandeira:

—Mas não sabe que isso é impossivel, Rosina? Não sabe que se não póde seguir ninguem através dos azares da guerra? Quem póde luctar com as ondas sem naufragar? Não lucte, Rosina, não lucte com o que é invencivel. Guarde essa coragem do seu bello coração para as batalhas do mundo, que toda lhe será precisa. Deixe-me ir até onde chegam todos os infelizes. Não sabe que ámanhã posso encontrar a bala que me mate?... Não será ámanhã, não, porque eu ámanhã não haveria completado a minha obra. Preciso de viver, mas a guerra é tão caprichosa! Completa a minha obra, desejo morrer livre, quite com o mundo. Não quero que ninguem me chore—morrerei feliz.

—Outro tanto poderei eu dizer, atalhou com doçura a vivandeira. Mas deixe-me ir... tambem até onde vão os infelizes. Já agora, eu, que lhe vou abrir o seu futuro, quero saber ao menos o sitio em que o senhor estiver. Bem pouco lhe peço, como vê. Caprichos de mulher! especialmente caprichos de franceza...

E, como que arrependida de haver soltado esta palavra:

—Fui indiscreta, bem sei; perdôe-me. O seu coração precisa de esquecer a minha nacionalidade para me não odiar...{68}

Era impossivel luctar por mais tempo com tão energica e ao mesmo passo tão meiga natureza.

Como se aproximasse gente, Graça Strech apertou-lhe silenciosamente a mão e escondeu no lençol a face involuntariamente orvalhada de lagrimas.

Chegára a noite triste que ao nascer das estrellas invade os hospitaes e as prisões com o seu silencio e a sua tremula claridade.

Graça Strech não pôde conciliar o somno. Tantos e tão extraordinarios eram os pensamentos que se lhe baralhavam no espirito, que ora sentia subir-lhe ao cerebro a frialdade glacial dos tumulos, ora a chamma abrazadora da congestão. Assim esteve, sem dar tino do tempo que passava, com os olhos fitos na sombra oscillante que uma lanterna projectava na parede fronteira ao seu catre.

Os gemidos d'alguns feridos compassavam-se a intervallos mais ou menos longos, segundo a gravidade do ferimento. Duas vivandeiras, encarregadas de ficar de véla n'aquella noite, deixaram-se adormecer com a tranquillidade de quem está bem e não se importa de que os outros estejam mal.

Na rua tropeavam com interrupções os cavallos das rondas. Uma ou outra vez ouvia-se trocar palavras entre as patrulhas que passavam e a sentinella do hospital. Não se percebia, porém, o que diziam...

E assim decorria a longa noite das enfermarias e dos carceres com o lutuoso aspecto que faz d'umas e outros—cemiterios de vivos.

A mais de meio iria a noite, quando a Graça Strech pareceu vêr entrar cautelosamente na sala um soldado francez, que foi caminhando, cada vez mais receioso, até se avisinhar do seu catre.

Se obedecesse ao primeiro impeto, haveria falado, porque lhe passou no espirito a suspeita de que Rosina o denunciára, e de que esse soldado, que tanto se arreceiava de ser surprehendido, era um assassino galardoado talvez pela devassidão da vivandeira.

E bastou esse momento para a suppôr mobil d'uma infamia inaudita, a ella, que momentos antes lhe pedia unicamente, a troco da liberdade promettida, que a deixasse seguil-o como o fiel molosso seguia o cego das Ardennas.

Era, porém, corajoso de mais para succumbir aos perigos d'uma traição.{69}

Para logo se lhe accendeu o coração em labaredas do inferno, e se lhe requeimou a garganta como a do tigre dos palmares quando tem sêde de sangue.

Era, porventura, um soldado francez que o vinha apunhalar, de noite, suppondo-o a dormir, talvez por ciume da barregã com quem passára a noite, ou para vingar o odio que aquelle prisioneiro nutria contra os francezes.

Não tinha armas, nem carecia d'ellas. Infamia por infamia. Luctaria braço a braço, encarniçadamente, silenciosamente, até que um d'elles ficasse prostrado.

Sentou-se no catre, com o joelho direito levantado, em posição de melhor se poder erguer para responder á aggressão.

E com tão sinistro brilho lhe coriscavam os olhos, que o supposto soldado francez, conhecendo de certo o que lhe ia na alma, impuzera silencio com um gesto e dissera a alguns passos de distancia:

—Sou eu.

Graça Strech reconhecera Rosina.

O vulto que elle suppuzera um assassino transformára-se no anjo da liberdade. Não lhe vinha trazer a morte; vinha restituir-lhe a vida. Como poderia elle receiar a aggressão d'aquelle soldado franzino, gentil, cujos olhos, por meigos e luminosos, trahiriam o segredo do seu disfarce, cujos cabellos, ennovelados a um e outro lado, denunciavam as tranças da mulher enroladas em cachos?

Visualidades d'imaginação doente, chimeras que o habito do soffrimento cria, e a noite avulta.

—Sou eu, repetiu ella cada vez mais baixinho, e aproximando-se.

E, como se por encantamento um genio bom lhe deizasse cair ás mãos o fardamento d'um soldado, igual ao que vestia, acrescentou:

—Não ha tempo a perder. Vista-se e venha.

E retrocedeu a esconder-se á porta, onde as sombras mais se condensavam, e a levantar do chão o saco d'oleado da ambulancia, que continha o seu trage de vivandeira.

Não se fez esperar o prisioneiro, que logrou atravessar a sala sem ser percebido. Nos olhos dos que dormiam havia as nuvens precursoras da noite eterna,{70}que nada deixam vêr para fóra do corpo. É o recolher-se da alma que vae partir.

As duas enfermeiras continuavam a dormir tranquillamente.

—Venha, disse-lhe Rosina travando-lhe da mão.

Graça Strech desceu conduzido pela vivandeira.

Quando a sentinella deu tino de que se aproximava alguem, cumpriu a praxe militar do—Qui vive?

Um dos soldados, que levava ao hombro a bolça da ambulancia, respondeu:L'empereur;—e quando já a sentinella podia distinguir os uniformes, acrescentou com voz firme e sã em francez.

—Soldados da ambulancia com ordens urgentes para o quartel general.

O soldado que respondera era, como calculam, a vivandeira das Ardennas.

Chegados á rua, Rosina Regnau apertou convulsamente o braço de Graça Strech e segredou-lhe:

—Nunca se esqueça de que n'este dia, e a esta hora, lhe dei a liberdade, roubando-a a mim mesma.

—Nunca! respondeu elle commovido.

E, como sentissem aproximar-se uma ronda, estugaram o passo, caminhando sem norte.

Por duas vezes, no aventuroso transito, os surprehenderam patrulhas francezas.

Era sempre Rosina quem respondia no idioma patrio, não sem que sentisse palpitar vertiginosamente o coração receioso de ver desabar n'um momento a felicidade sonhada.

Insensivelmente se foram aproximando do rio Douro, a cuja margem pararam algum tempo vacillantes no que fariam e, não obstante serem ambos corajosos, quasi amedrontados. Só então, chamados á realidade, olharam para dentro de si mesmos, conscientes da arriscada situação em que se encontravam.

Pareceu-lhes, porém, ouvir o compasso de remos na agua, e tanto bastou para se illuminar d'um raio d'esperança a alma da vivandeira.

Foi Graça Strech quem se aventurou a chamar o barqueiro.

Nenhuma voz respondeu ao chamamento mas, decorrido algum tempo, viram avisinhar-se do caes o vulto negro do barco.

N'aquelle tempo eram tão frequentes as fugas nocturnas, dos que presumiam mais demorada, do que{71}foi, a occupação franceza da cidade, que alguns barqueiros dos logares convisinhos, inteiramente privados de recursos, se affoutavam a bordejar no Douro por horas mortas para receber a esportula dos fugitivos.

Graça Strech e Rosina Regnau saltaram ao barco.

Estremeceu o barqueiro conhecendo o uniforme francez, mas Graça Strech acudiu a serenal-o com estas palavras:

—Somos portuguezes, amigo. O habito não faz o monge. Salva-nos, e não te importe o mais. Afasta-nos, o mais depressa possivel, da cidade.{72}

Foi o barco singrando Douro acima lentamente.

Graça Strech lançou mão d'um remo e auxiliou o barqueiro, não sem haver arrancado de si mesmo, com fogosa violencia, a jaqueta do uniforme francez.

—Que peso que me fazia isto! disse elle sorrindo a Rosina.

E voltando-se para o barqueiro:

—Onde estará agora o resto do nosso pobre exercito, sabes? perguntou vivamente.

—Anda para Riba-Tamega, senhor. Desde hontem que vae para lá o inferno, tão certo como ser hoje 19 de abril, e chamar-me eu o Tunante de Pé-de-Moira.

—Não sabes mais nada?

—Eu, senhor?... tartamudeou o barqueiro relanceando um olhar de medo ao soldado francez que ia sentado é pôpa.

Graça Strech comprehendeu-o, e acrescentou:

—Pódes falar. Não te disse eu que o habito não faz o monge? Aquelle soldado francez, que tu vês ali, é uma mulher.

—Uma mulher! repetiu o barqueiro.

—E de mais a mais faze de conta que é... muda, disse sorrindo maliciosamente Graça Strech.

A esta palavra, se elle houvesse reparado, veria brilhar extraordinariamente os olhos de Rosina Regnau, que encontrára n'esse momento, melhor ainda, n'esse vocabulo, a chave d'um enigma que a preocupava dolorosamente.

—Pois então, lá vae tudo, p-a-pá-Santa Justa, tornou facetamente o barqueiro. Os francezes pegaram hontem fogo á villa d'Amarante. Hoje de manhã havia uma procissão de gente que vinha fugida da villa.{73}Em Pé-de-Moira ficaram dez pessoas. Foram ellas que contaram o que se havia passado.

—Quem commanda os Portugueses, sabes?

—É o general... Ora que me não lembra agora! Elle tem assim um nome a modo d'arvore...

—Silveira? perguntou com anciedade Graça Strech.

—Tal qual: Sirveira, deturpou o barqueiro.

Aclarava-se o céo com os primeiros alvores do dia 20 d'abril.

Rosina levava os olhos postos no arvoredo das margens, alanceada, porventura, de vagas saudades das florestas das Ardennas.

—Agora, á luz d'esta candeia, apostrophou o barqueiro apontando para o sol nascente—já eu não me enganava com o sordadito...

Rosina sorriu melancolicamente, como se entendesse o barqueiro por uma fina intuição de mulher apaixonada, e Graça Strech perguntou em francez pousando o remo:

—Vae triste! É o arrependimento que chega?...

A vivandeira respondeu energicamente com um gesto negativo, como se em verdade fôra muda.

—O peior—disse o barqueiro improvisamente—é que se virem de terra que vae aqui um soldado francez, são capazes de fazer fogo contra todos nós. Os diabos o jurem! Mas se ella não é franceza p'ra que diabo lhe fala o senhor n'esses latins?

—São coisas... respondeu austeramente Graça Strech.—Tens razão, tens... no que lembraste.

E, voltando-se para Rosina, traduziu o pensamento do barqueiro.

—Vae ali uma manta, e a cachopa que se embrulhe n'ella, se quizer, observou o Tunante de Pé-de-Moira, com certo orgulho alegre de tomar parte n'uma aventura que desde logo presumiu amorosa.

Rosina, aconselhada por Graça Strech, acceitou o offerecimento, e despiu a fardeta.

O Tunante, orgulhoso de poder fazer concessões, acrescentou:

—Minha mulher tem lá por casa uns trapos, que não valem nada. Assim que chegarmos, eu irei buscal-os.

Inteirada do offerecimento, Rosina abriu a bolça da ambulancia e tirou com presteza o seu corpete,{74}saial ebonnetde vivandeira, arremessando-os ao rio.

—Que faz? perguntou Graça Strech.

A vivandeira encolheu os hombros, como se aquelle movimento quizesse dizer:

—Atiro á agua o passado.

—Porque não fala, Rosina! Ainda não ouvi a sua voz desde que entrámos n'este barco! Quererá tomar a serio o gracejo da sua mudez, com que eu procurei ludibriar a curiosidade do barqueiro?

—É que, respondeu ella affectuosamente, me sinto preoccupada ao estudar o papel que devo representar ámanhã...

—Mas... não percebo!

O barqueiro tinha largado os remos e deixado pender o labio inferior ao ouvir a pronuncia de Rosina. Para elle, que tinha suas fumaças de rato da agua, como quem dizlobo do mar, era aquelle um mysterio impenetravel. Podia acaso acreditar que fosse realmente ali, em companhia d'um portuguez, uma mulher franceza, que lançára ao rio um fato em que brilhavam as côres sinistras da França, áquella hora em que o sangue, o incendio, o saque, a tyrannia se erguiam como barreira entre o povo d'um e outro paiz?

O Tunante de Pé-de-Moira não sabia historia, e ignorava o prodigio d'estas affinidades individuaes que se escondem entre as correntes oppostas dos sentimentos nacionaes. São grãos d'areia perdidos no oceano; é preciso descer ao fundo do mar para encontral-os. Outra pessoa, que não fosse rude, não se admiraria. A historia diz que, pouco depois da invasão, o marechal Soult se vira fechado n'um circulo de cariciosas sympathias, e que eram rasgados os salamaleques dos que já se presumiam aulicos de D. Nicolau I. A historia refere que semelhantemente alguns foram os corações que se renderam á prepotencia de Junot, e que era contra esses que se erguia tremenda a grande voz popular: «Morra Junot, e mais quem d'elle tiver dó.»[6]Finalmente, ainda conta a historia que Piton, um sargento do corpo de policia de Lisboa, fora promovido a alferes, pelos grandes{75}serviços que prestou aos francezes, com os quaes se retirou para França ao depois.[7]

O Tunante, se soubesse historia, não se admiraria portanto de que o coração ainda tivesse um élo para ligar portuguezes a francezes, e, se houvera adquirido maior conhecimento dos homens e das coisas, saberia que primeiro se verga ao tufão das paixões a palmeira flexivel e solitaria do deserto, que o roble secular da floresta, duas vezes forte—porque é robusto e porque não esta só.

A palmeira cede ao primeiro impulso, e deixa-se ir, em doce voluptuosidade, embalada nos braços vaporosos do vendaval, que são os primeiros, e por ventura os unicos, que se estendem para ella.

O roble cede apenas quando o tronco está corroido pelos vermes ou abalado pelas luctas da tempestade.

Os aulicos de Soult e os thuriferarios de Junot tinham as entranhas comidas pelas serpes da perfidia, e a alma vergastada pelo açoite da cupidez.

Rosina era a palmeira do deserto, que verga sem saber que vae ser arrastada para longe do seu torrão natal, e que o simoun a despenhará n'um abysmo inevitavel.

Era o amor que a dementava a extremos de renunciar a sua patria, se bem que a cada instante lhe pungisse no coração uma vaga saudade das Ardennas; era finalmente um sentimento nobre que a impellia a essa loucura, serena postoque ardente, resignada postoque dolorosa.

A que mobil obedeceriam, porém, as damas portuguezas, que, um anno antes, se banquetearam e valsaram, no theatro de S. Carlos, em ruidoso sarau e na presença de Junot, com a officialidade franceza?

Suas excellencias, as beldades da capital, eram recebidas no vestibulo do theatro por quatro pagens, loiros e provavelmente rosados. Sahia a esperal-as ao limiar da platéa, d'onde corria um tablado a nivelar-se com o palco, o general Margaron, que fazia as honras da casa. Ao fundo da scena havia trez cadeiras de braços, que se conservaram devolutas até á chegada de Junot, e em frente o busto de Napoleão{76}a resaltar sob um docel armado com quatro bandeiras em que se liam os nomes de outras tantas batalhas assignaladas: Marengo, Austerlitz, Iena e Friedland.

Já as damas ouviam requebradas os galanteios dos officiaes de Napoleão, quando entrou Junot á maneira d'imagem em andor, isto é ladeado por duas das mais formosas portuguezas. Então começou o delirio da valsa, que rodou em circulos vertiginosos pela sala, até que a meio do tablado se abriu uma tenda de campanha, onde se serviu a ceia unicamente ás senhoras. É de suppor que suas excellencias se volvessem galliciparlas para melhor poderem acompanhar a eloquencia dos officiaes francezes nos brindes.

Os convivas do sexo masculino estavam vexados—segundo diz candidamente o já citado José Accursio das Neves—e espreitavam dos camarotes as viandas e as esposas, resignando-se ao exiguo prazer de respirar os perfumes d'umas e outras.

Em redor do edificio do theatro estavam postados quatro mil aguadeiros, de barril ao hombro, medida preventiva ordenada por Junot, para acudirem, em caso de maior sinistro, ao duplo incendio da lascivia e da gula.

Parece porém averiguado que não funccionaram por serem permittidos dentro os escandalos.

D'esta combustão, que afogueou o interior do theatro de S. Carlos, na noite de 8 de junho de 1808, tambem não sabia o Tunante de Pé-de-Moira.

Que ignorante aquelle!

Entenda-se todavia que não veiu á tela o facto para avultar a necedade do barqueiro, senão que para desculpar o coração e a mocidade da pobre Rosina Regnau. E agora é tempo de reatarmos o interrompido dialogo.

—Reparou, replicou a vivandeira a Graça Strech, que ia calada. Ia a pensar. Bem vê que é desculpavel a concentração em quem agora renasce para a existencia. Não creia porém que o não ouvia. Ouvia sim... Quer uma prova? Acaba de serenar a minha alma com uma unica palavra, de resolver um problema, como se diz em Pariz, no bairro Latino. O senhor não precisa de pensar no futuro. Já o escolheu. Vae combater, vae realisar o seu desejo, tão facil de realisar{77}que lhe basta apenas encontrar o exercito portuguez. Eu comecei a realisar o meu: era acompanhal-o. Bem; aqui vou ao pé de si. Mas depois? mas ámanhã? mas sempre? Procurar o exercito francez era entregar-me á morte. Seguir o exercito portuguez era denunciar-me no primeiro momento em que me ouvissem falar. E os resultados d'essa imprudencia facilmente se imaginam... Seriam tambem a morte... Não, não, eu quero viver, preciso de viver, com o senhor e como o senhor. Viverá para a sua vingança; eu viverei para o meu... amor. Sim, pode acreditar na verdade d'esta palavra, aqui, a esta hora, depois, de eu haver atirado ao rio o meu fato de vivandeira... O senhor disse ao barqueiro: Faze de conta que é muda. Pois bem, sel-o-hei d'hoje em diante sempre que tenha á volta de mim ouvidos estranhos. Reservarei para o senhor as minhas palavras e o meu coração; para todos os outros serei muda, idiota, louca, se tanto for preciso. Mas deixe-me vel-o, seguil-o, falar-lhe só a si, percebe, só a si! Não estranhe a minha fraqueza. A alma da vivandeira é como um cartuxo de polvora: cheguem-lhe lume, e ella arderá. O senhor bem sabe que eu sou vivandeira...

Graça Strech queria falar.

Ella atalhou-o:

—Quando se enfastiar de mim, tenha a coragem de m'o dizer. Um soldado deve ser corajoso. O ceguinho das Ardennas, quando vae a qualquer casa onde as crianças teem medo do seu cão, manda-o embora, e elle obedece-lhe. O senhor diga-me tambem: «Rosina Regnau, não te esqueças de que eu sou para ti o cego das Ardennas, o pobre Hubert». Bem sabe que quando ha guerra não é difficil a gente encontrar repouso. Ás vezes, no caminho, sae-nos ao emcontro uma bala perdida. Quando a gente é feliz, a bala cae-nos aos pés, mas quando só falta calar-se o coração para morrer, a bala cae no coração.

—Rosina! Rosina! murmurou Graça Strech, profundamente commovido.

Ella atalhou-o de novo:

—Sim, agora ainda sou Rosina, ainda posso sel-o. Ámanhã serei—a muda. Serei uma sua parenta, uma louca com quem o senhor reparta piedosamente da sua marmita. Dirão: Ali vae a louca! E eu não poderei{78}voltar-me sequer, porque a louca será ao mesmo passo surda e muda. Se porém o calor da lucta não só fizer que se enfastie de mim, mas tambem que me odeie, como a principio me odiava, então não me mande embora, denuncie-me, entregue-me. Bastará uma palavra sua para fazer-me emmudecer para sempre. Bem vê que se o encargo é pesado, o resgate é facil...

—Offende-me, Rosina, veja bem que me offende! disse elle ardentemente. Amo-a... sim, tambem eu posso dizer-lhe que a... amo. E quem diria, Rosina, quem o diria ha tão pouco tempo ainda! Como é feito o coração do homem! Odeio os seus irmãos e amo-a a si... Pela primeira vez na minha vida sinto amor por outra mulher que não fosse...

—Cale-se, cale-se! apostrophou ella delirantemente. Não quero saber quem amou; seja esse o segredo do seu annel.

—Acredite, Rosina, que o amor de que este annel é recordação era o mais puro amor que ha na terra... A pessoa a quem elle pertencia era minha irmã, acredite, era minha irmã.

—Sua irmã! repetiu ella incredula e ironica. Bem vê que o sentimento que esse annel lhe inspira não é a saudade, é o enthusiasmo...

—Oh! que não sabe como eu a amava! São d'ella tambem estas cartas... Póde vel-as, desenganar-se...

—Não as entenderia.

—É verdade. Não as entenderia.

—E que certeza me dariam as cartas de que eram da mesma pessoa que possuia o annel? Que sua irmã lhe escrevesse era natural... Não preciso de provas para acredital-o...

—Rosina! Rosina! Este annel tambem era de minha irmã, que eu vi morta, fria, hirta, livida... Mataram-n'a, Rosina, mataram-n'a... E ella era tão formosa, tão innocente, tão timida! Mataram-n'a os francezes, a ella, que lhes não fazia mal nenhum, a ella, que era meiga como uma pomba!... E não contentes com um assassinio, commetteram mais dois na minha familia. Ao pé do cadaver d'Augusta havia outros cadaveres: o de minha mãe e o de minha avó. Mataram-n'as os francezes, Rosina. Por isso eu odiava este nome. O annel, cujo segredo não acredita, é{79}um legado de sangue... Sim, eu amo-a, mas nunca me peça mais do que eu lhe posso dar. Nunca me peça compaixão, clemencia... Era impossivel! Sobre este annel jurei vingar-me. Bem vê que é delgado, fino, como o dedo que cingia. Pois elle é a unica barreira que póde haver entre mim e Rosina, quero dizer, o unico obstaculo que lhe prohibe a plena posse do meu coração... Viverei, sim, entre este annel e Rosina; entre a minha vingança e o meu amor... Eu patenteei-lhe a minha alma antes de acceitar a liberdade que me deu. Não tem de que me accusar... Comprehendo-a, Rosina, acredite que a comprehendo. A sua alma é tão extraordinariamente grande, tão poderosamente forte, que chega a assombrar-me a coragem do seu amor... Eu conheço que vae raiar para mim uma nova aurora. Quizera poder-me dar completamente ao seu amor, viver d'elle e só para elle, mas infelizmente a aurora que vae raiar nasce tinta de sangue, e sangue... de seus irmãos.

Rosina tinha lagrimas nos olhos e fogo no coração. Parecia-lhe impossivel que a saudade d'uma irmã despertasse em Graça Strech tão dolorido enthusiasmo. Se era essa a unica recordação ligada áquelle annel, que phenomenal, que afflictiva e ao mesmo tempo que energica não era a alma d'esse homem! Cada vez o amava mais por que cada vez lhe parecia maior. E todavia, entre elles, tão germanados pela impetuosidade dos sentimentos e pela virilidade do animo, medeava uma barreira, posto que delgada, insupperavel—o annel mysterioso. Ella quereria tirar-se d'aquella duvida cruciante, adquirir, ainda que á custa de sacrificios, uma convicção, embora funesta; mas que direito tinha ella a interrogal-o mais, a duvidar, a ter ciumes?

Cerca do meio dia abicou o barco a um reconcavo sombrio, perto de Pé-de-Moura, onde o barqueiro saltou em terra para ir buscar o fato promettido. Antes d'elle desembarcar, Graça Strech lançou-lhe a mão ao braço, e disse austeramente:

—Tens filhos?

—Saiba v. s.ª que tenho quatro. Por elles me exponho á morte todas as noites no rio...

—Pois bem. Por elles me jurarás que não dirás a ninguem palavra do que viste e ouviste aqui.

—Juro, senhor...{80}

—Agora recebe todo o dinheiro que resta a um soldado.

Uma hora depois, Graça Strech, saltando á margem, dizia a uma camponeza que o seguia:

—Para Amarante.

E a camponeza, como se só tivesse sorrisos e não palavras, sorria.

Já dissemos que era aquelle o dia 20 d'abril.

Quizeram os francezes, depois da invasão do Porto, estender a sua victoria pelo paiz inteiro. Immediatamente se assenhorearam de Valença e Vianna, tentando simultaneamente passar a Traz-os-Montes, mas foram duas vezes repellidos n'essa tentativa.

Beliscados na sua vaidade de conquistadores, tinham mandado sobre Amarante no dia 9 uma força, que recuou perseguida pelo general Silveira. Appareceu porém, reforçada, no dia 15, travando combate em Manhufe e Villa Meã durante trez dias para dar tempo a soccorrel-a os quatro mil homens de Loison e De Laborde, que, partindo de Guimarães, lograriam colher os portuguezes pela rectaguarda.

A pericia do general Silveira frustrou-lhes o intento com um rapido e habil movimento sobre Amarante. Os portuguezes occupavam a margem esquerda do Tamega; os francezes a direita.

O empenho do inimigo era atravessar a ponte. Desesperados pela valorosa resistencia dos portuguezes, pegaram fogo, na noite de 18, a toda a villa. A crueza do inimigo mais pareceu atiçar a coragem dos nossos, cuja resistencia recrudesceu no dia immediato, apesar de reforçados os francezes pelas brigadas de Sarrut e Marisy.

Estas eram as evoluções das tropas inimigas, em Amarante, á hora em que deixamos Graça Strech e Rosina Regnau em caminho do acampamento portuguez.

Tempo depois, um poeta conterraneo, mais familiar ás armas d'Apollo que de Marte, encarecia no seguinte soneto a gloria do general Silveira, cuja tactica elle provavelmente estivera contemplando de sitio aonde já não podiam chegar pelouros:

Uma nuvem de fumo o ar povôa,E do Tamega enluta as margens frias,O portuguez canhão quatorze dias,Sem descanço algum ter, fuzila e trôa.{81}De um lado a outro lado a morte vôaPor entre essas crueis artilharias,E perdendo as antigas ousadias,Curva ao duro francez a altiva prôa.Amigos hespanhoes, nação brilhante!Eis como cá seguimos vossa esteira,Eis nossa Saragoça, eis Amarante.Os olhos ponha em nós a Europa inteira,E veja, em amplo quadro flammejante,O Tamega, Ebro, Palafox, Silveira.

Uma nuvem de fumo o ar povôa,E do Tamega enluta as margens frias,O portuguez canhão quatorze dias,Sem descanço algum ter, fuzila e trôa.{81}

De um lado a outro lado a morte vôaPor entre essas crueis artilharias,E perdendo as antigas ousadias,Curva ao duro francez a altiva prôa.

Amigos hespanhoes, nação brilhante!Eis como cá seguimos vossa esteira,Eis nossa Saragoça, eis Amarante.

Os olhos ponha em nós a Europa inteira,E veja, em amplo quadro flammejante,O Tamega, Ebro, Palafox, Silveira.

Pena foi que Graça Strech precedesse alguns dias a gestação do soneto escripto em honra de Silveira, porque, de contrario, se topasse o poeta a versejar em ociosa inactividade, havel-o ia empurrado, no seu vivissimo odio contra os francezes, para o meio da infatigavel fuzilaria que durante quatorze dias sinistramente illuminou as aguas do Tamega.

O que valeu foi que, se houve poetas para incensar metricamente Silveira[8], houve tambem soldados que denodadamente pelejaram pela patria.

E o numero dos valentes da ponte d'Amarante ia agora ser augmentado com um soldado que seria o primeiro a romper fogo contra o inimigo.

Deixar lá o poeta dizer que as margens do Tamega eramfriasn'aquelle tempo. Os poetas dizem tudo, e tudo podem dizer...{82}


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