[6]«Historia antiga e moderna da sempre leal e antiquissima villa de Amarante». etc., por P. F. de A. C. de A.—1814, pag. 54.[7]«Historia geral da invasão dos francezes em Portugal», por José Accurcio das Neves. TomoI, pag. 282.[8]Veja-seElogio de Silveira, pelo padre mestre dr. fr. F. de S. T., eSilveira, poema por J. S.XA hora do resgateQuatorze dias durou, como dissémos, a heroica defeza da ponte d'Amarante.Foi aquella uma proeza que requeria desfecho condigno, o que infelizmente não aconteceu. Reforçado o inimigo ao decimo terceiro dia de combate, e animado pela presença do marechal Soult, preparou-se para uma lucta decisiva, que o nevoeiro com que amanheceu o dia seguinte viera inesperadamente coroar.Perdidos os nossos na cerração da metralha e da neblina, e atacadas pela rectaguarda algumas baterias, tiveram de abrir passagem por entre uma densa floresta d'armas, marchando em retirada para Mezão Frio e Campeã, a tempo que o general Silveira recuava para Entre-os-Rios.É realmente assombrosa a historia portugueza nas paginas que dizem respeito ás guerras peninsulares.São tão descommunalmente grandes os factos, que, em sua mesma simpleza, ora se nos affiguram episodios d'Homero, exuberantes d'esforços titanicos, ora se retingem dos toques sombrios de Dante.As façanhas da invasão franceza claramente revelam que ha pouco mais de sessenta annos corria ainda nas veias dos portuguezes o sangue dos valentes d'Ourique, Aljubarrota e Montijo. Renasciam os heroes das cinzas dos heroes, como se a gloria fosse herança de paes a filhos. Podia o animo portuguez desvariar se por momentos, como já anteriormente fizemos notar, que logo despertava melhor retemperado para a rehabilitação. Assim é que 1640 faz esquecer 1580, e que o vulto homerico de João Pinto Ribeiro resgata a perfidia de Miguel de Vasconcellos.Hoje, as batalhas que outr'ora eram campaes, volveram-se parlamentares, isto é, falamos muito e praticamos{83}pouco. A apostrophe «S. Jorge e ávante!» foi substituida por est'outra: «Senhor presidente, peço a palavra!» Ha menos soldados e mais deputados, menos regimentos e mais commissões. Não obstante, alguma faulha resaltaria ainda das cinzas quentes das nossas conquistas para atiçar o incendio das paixões, na hora em que perigasse a independencia da patria.Aconteceria, porém, que muitos deputados, que nas côrtes de S. Bento discursam calorosamente sobre a nossa autonomia, requereriam, dada a voz de alarma, inspecção da junta de saude para serem considerados invalidos...Mas iamos nós falando dos feitos portuguezes durante as guerras peninsulares. Estupendos foram, é certo.No combate da ponte d'Amarante, por exemplo, perecera gloriosamente um official d'artilharia, muito lastimado por seus companheiros d'armas, incluido o general Silveira, que lhe abraçou o cadaver.O tio do official, e a mãe, que era viuva, vestiram-se de gala, dizendo esta nobre mulher aos dois filhos que lhe restavam, e estavam pranteando o irmão:—Não choreis, filhos. Vosso irmão não morreu. Vós é que morrereis da morte da vergonha se vos não mostrardes dignos da sua memoria.Este exemplo d'animo varonil em peito feminino prova que não anda phantasia popular na lenda d'aquella Deosadeu, de Monsão, de Celinda, a heroina de Certã, de Filippa de Vilhena, e doutras celebradas matronas portuguezas, que deram á patria uma geração de meninas que fazemcrochet.É egualmente abundante de heroismos a chronica da primeira invasão, á parte pequenas manchas, como aquellas que dos copos dos officiaes francezes cairam sobre o tablado do theatro de S. Carlos.Deixem-me citar um facto na mesma linguagem em que o historiador o descreveu.«O juiz de fóra de Algozo, Jacintho d'Oliveira Castello Branco, fez-se digno de honrosa memoria, pela sua repugnancia ás ordens do governador intruso; por continuar debaixo d'elle a uzar do nome de S. A. R.[9]em alguns processos; por conservar as armas{84}reaes no pelourinho e na casa da camara d'aquella villa; e por outras acções, egualmente sublimes e arriscadas. Jantando em sua casa varias auctoridades portuguezas, que o increpáram de não cumprir as ordens reiativas á contribuição de guerra, respondeu-lhes, lançando mão a um copo, e fazendo uma saude a S. A. R. o principe regente.»Não é menos avantajado em heroicidade o procedimento do juiz de fóra de Marvão, Joaquim José de Magalhães Mexia, que, intimado para se render ao jugo estrangeiro, fez desistencia publica perante os seus escrivães, e foi prostrar-se diante da imagem do Senhor dos Passos da sua villa, encostando a vara á imagem por fórma que parecia haver-lh'a depositado nas mãos, e recolhendo-se depois a casa para vestir-se de luto.É pois digna de que a reproduzam na tela os melhores pintores, os melhores poetas e os melhores historiographos—esta ingente lucta d'um pequeno paiz, apenas soccorrido por outro, contra o gigante tresvariado pela gloria, que firmava os pés nas planicies da Italia, e alguns annos depois fôra visto á luz, para elle sinistra, dos incendios de Moscow, enchendo, de sul a norte, a Europa inteira.Alguns talentos verdadeiramente robustos teem lançado o colorido do seu pincel sobre esta enorme tela, nunca esgotada. Que me lembre n'este momento, Rebello da Silva, Camillo Castello Branco, Pinheiro Chagas e Arnaldo Gama trataram brilhantemente tão fecundo assumpto. Eu chego com pequeno viatico, embora não venha tarde, unicamente para mostrar que tenho seguido reverentemente o sulco que todos quatro abriram no vasto campo da guerra peninsular.Reatando a narrativa.Graça Strech foi um dos soldados portuguezes que mais se distinguiram nos ultimos dias da defeza da ponte d'Amarante.O general Silveira estimou-o desde que elle, apresentando-se, lhe disse: «Venho bater-me como leão porque venho vingar-me»; e começou a admiral-o horas depois da apresentação.Ao anoitecer do mesmo dia, fizeram reparo alguns soldados n'uma camponeza, que parecia muda, e se bandeava com o sequito do exercito.—D'onde viria? perguntavam elles.{85}—É minha... irmã, atalhou commovido Graça Strech. Não podia convencel-a a que me não seguisse, porque a infeliz nem ouve nem fala. Veiu vindo atraz de mim, receiosa de que eu morresse sem ver-me. Pobresinha!—acrescentou com os olhos marejados de lagrimas—não faz mal a ninguem, e é muito minha amiga.—Que pena a sua desgraça, que tão formosa é! observou piedosamente um portuguez.—Nem se diria portugueza! exclamou outro com a affouteza que lhe dava o não estar na presença de portuguezas.Graça Strech replicou:—Ha com effeito ali alguma coisa allemã no rosto como no nome. Os nossos antepassados tinham sangue teutonico. Ainda nos corre nas veias o sangue d'elles. A pobresinha estremece-me. Como não tem ouvidos nem voz, quer estar ao pé de mim sempre que póde, como para falar pela minha bocca e ouvir pelas minhas orelhas. Eu sou quasi a sua moleta... Tambem a infeliz não tem ninguem mais n'este mundo, e ella de si pouco tem...—Infeliz! ponderaram os soldados enternecidos.Rosina Regnau interpretou magistralmente o seu papel. Passavam por ella e diziam:A muda allemã!e ella, apesar de entender a phrase á força de repetida, nem sequer voltava o rosto para agradecer aquella esmola de compaixão.Se não ouvia! se não falava!Sentava-se entre as bagagens a entrançar folhas verdes ou a desfolhar flôres.Algumas vezes mettia-se por entre as arvores para se inteirar da posição das tropas.Depois d'um combate, aproximava-se dos soldados, quando Graça Strech se demorava ainda, e pousando a face na mão e fechando os olhos, perguntava por gestos se «o irmão» estava ferido ou morrera. Os soldados, que já a comprehendiam, acenavam-lhe negativamente.Assim decorriam os dias, sem que a alma da vivandeira saisse para fóra de si mesma.Quem adivinhava ali que de receios, de maguas, de pensamentos, de esperanças muito vagas... agitavam aquelle formoso cadaver que só tinha vida nos olhos?{86}Ninguem.E todavia ella estava pensando sempre...A sua ambição, o seu sonho, o seu ideial era possuir inteiramente a alma de Graça Strech, porque ella desde o momento da fuga para ninguem mais vivia.—Achou decerto—suspeitava ella—que eu não era digna de receber a confissão do seu segredo. Quem és tu, disse elle lá comsigo, pobre vivandeira, para comprehenderes a enormidade d'um amor que vive na morte? Se aquelle annel fosse realmente de sua irmã, curvar-me-ia a seus pés e beijar-lh'o-ia. Mas se elle cingiu o dedo d'outra mulher, que o amava muito menos do que eu, arrancar-lh'o-ia da mão ainda mesmo com a certeza de morrer esmagada pela sua colera. Cumpre pois que, por sacrificio sobre sacrificio, eu chegue a nobilitar-me a seus olhos o bastante para elle me convencer. N'esse dia serei sua amante; por emquanto sou apenas o seu cão. Vamos, solitario molosso, affaga o teu dono...Graça Strech passava, atirava-lhe uma flôr, e sorria...Ella sorria tambem.Guarnecidos todos os pontos do Douro, desde a retirada d'Amarante até a acção d'Ovelha, tiveram as tropas algum descanço apenas interrompido por escaramuças e reconhecimentos.Foi n'esse intervallo que Graça Strech começou a aprender a tocar guitarra com um soldado, filho da Regua, e muito conhecido ali por excellente musico.A natural aptidão de Graça Strech fez que dentro em pouco se avantajasse ao mestre. Assim era que não desaproveitava occasião de estar guitarreando ao lado de Rosina, que conservava na physionomia a habitual immobilidade de linhas, como se a musica, que se lhe coava á alma, não lhe desse nenhuma sensação, por não poder ouvil-a.Ás vezes, de noite, Rosina podia murmurar muito a medo, aos ouvidos de Strech, através dos sons da guitarra:—José!Ella sabia pronunciar este nome como se de pequenina o aprendera.Depois olhava em redor, como para adquirir a certeza de não ser escutada, e repetia maviosamente:{87}—José!Elle apertava-lhe convulsamente a mão e respondia:—Rosina!E aquelle immenso amor da vivandeira, que renunciára á patria, á liberdade e á voz, contentava-se com exhalar-se n'uma palavra, e ser correspondido por outra.Ella tambem não pedia mais. Era o cão do soldado: seguia-o.Quando a tristeza lhe descia ao coração, a indefinida tristeza de quem ama, consolava-se a si propria imaginando-se ainda vivandeira, porque ouvia troar o canhão e sentia no ar o cheiro da polvora.Era apenas a memoria o que lhe restava do que fôra; o fato da sua infancia sepultára-o ella no fundo das aguas...Entretanto proseguiam com actividade as operações d'um e outro exercito.A 22 d'abril entrava em Lisboa Wellesley, commandante em chefe das forças britannicas, que desembarcaram no Porto, na Figueira, etc. As tropas inglezas, de combinação com as portuguezas, começaram a tomar differentes posições. Em Coimbra passaram algumas divisões nos dias 1 e 2 de maio, sendo recebidas com festas que chegaram a tocar o maximo enthusiasmo.Era aquelle o hymno de esperança da patria, anciosa de liberdade.Avançaram as tropas alliadas até Agueda, e lograram repellir os francezes desde as Albergarias até Oliveira d'Azemeis, onde Wellesley, depois lord Wellington, estabelecera o quartel general.No dia 11, a guarda avançada do exercito anglo-luzo destroçou em Grijó os postos avançados francezes que recuaram até Gaya e passaram o Douro, cortando immediatamente a ponte de barcas.Na vespera d'esse dia atravessára Beresford o Douro na Regua com as suas tropas, repellindo Loison para Amarante, e de Amarante para o Porto; Loison perdera na retirada muitas peças, alguns obuzes, e cento e dezenove carros com bagagens.Estava pois o flanco esquerdo do exercito francez torneado por Beresford, o direito por Hill em Ovar, e o centro alcançado pelas divisões Trant e Paget.{88}Durante toda a noite de 11 para 12 marchou o exercito alliado sobre Villa Nova de Gaya.De manhã, e impossibilitado de passar o rio, soube o coronel Watters que um barbeiro portuense, salvo da vigilancia das patrulhas francezas, havia atravessado n'um barco; aproveitando a conjunctura providencial, e o barco não menos providencial que a conjunctura, passou á margem direita, voltando á esquerda com trez grandes barcos, que pudera obter.Avisado Wellesley do achado miraculoso, voltou-se jubiloso para o coronel e disse:—Passem as tropas que couberem nos barcos.Não faltaram valentes que se expuzessem aos azares da façanha, surprehendendo os francezes que contavam repellir vantajosamente o inimigo quando tentasse a travessia a descoberto.Foi, pois, o coronel Watters o Martim Moniz da reconquista do Porto.Percebidos os francezes da audacia heroica do exercito alliado, para logo se desviaram em movimentos confusos, como o redemoinhar das areias no deserto revolvidas pelo simoun. E assim como as areias tomam, erguidas no ar, á luz do sol, irradiações prismaticas que deslumbram, assim resplandeciam, á luz do meio dia, as armas dos francezes baralhando-se tumultuariamente nas ondulações do terreno que medeia entre o caes da Ribeira e o Prado do Bispo.E então marinhavam as tropas luzo-britannicas pelos alcantis do Seminario, como outr'ora os cruzados pelos despenhadeiros da torre do norte, na tomada de Lisboa, e, para que se complete o parallelo, o que lá era Guilherme, duque de Normandia, era cá Wellesley, lord Wellington.E já para anciedade dos portuenses se abria manhã d'esperança, á medida que os nossos ganhavam terreno, e mais revoluteavam as hostes francezas nas eminencias sobranceiras ao Douro.Por um momento se julgou perdido o triumpho, quando a artilharia franceza começou a varejar o Seminario.Mas não tardou que ao canhão da margem direita respondesse o canhão da margem esquerda, que das alturas do Pilar vomitava torrentes de fumo negro sobre o valle cavado pelo Douro.{89}Reanimados os portuenses, entraram de preparar barcaças, que conseguiram pôr a salvo do outro lado do rio, e que transportaram as tropas do general Sherbrooke.Simultaneamente estrondeava no Porto, rolando até ao caes como o rumor longinquo d'uma cathedral em festa, o concerto das vozes, que pregoavam victoria, á mistura com os sons festivos dos campanarios.Nas janellas da cidade baixa agitavam-se lenços brancos em vertiginoso tumultuar.Tambem assim accordou Lisboa, cento e sessenta e nove annos antes, na manhã de 1 de dezembro de 1640, quando um punhado de fidalgos portuguezes subjugava nas praças publicas, sem correr uma gotta de sangue, o famelico leão das Hespanhas.Era o grito de liberdade longos dias reprimido na garganta d'um povo inteiro.Era o jubilo d'uma nação, que parece apenas occupar alguns palmos de terra no mappa da Europa, á hora em que despedaçava as gramalheiras que por sobre os Pyreneus lhe lançára o César da França, e dizia ao vencedor de Austerlitz: «Tu prostraste a Prussia em Iena, a Russia em Friedland; tu levantaste sobre as baionetas dos teus exercitos os thronos de Napoles, da Hollanda, da Westphalia, e da Hespanha, mas nós fizemos estremecer na tua mão, ó demolidor victorioso, a alavanca com que procuravas revolver nos alicerces o solio portuguez. Que o amigo leopardo da Inglaterra te contrariasse, vá, porque a Inglaterra é muito poderosa. Mas nós, pequenos como somos, fazemos suster o vôo da tua aguia e, audazes como ella, gritamos-lhe para a amplidão que avassalla: Basta! Pára!»{90}[9]Sua Alteza Real.XIO que a vivandeira pensavaRetiraram os francezes pelo norte de Portugal, acossados pelo exercito anglo luso.No dia 17 ganharam Montalegre, no dia 18 passaram a Alhariz, e no dia 19 entraram em Orense, depois de marchas tão violentas como trabalhosas, de perdas consideraveis, e de perseguida vivamente a sua rectaguarda pelas tropas alliadas.Na passagem pelas povoações que medeiam entre o Porto e a fronteira, deixaram os invasores um rasto de sangue e fogo de que falam com assombro os documentos officiaes.Á medida que fugiam foram espalhando a morte nas ultimas terras de Portugal, como se quizessem atulhar de cadaveres o abysmo cavado na gloria de Napoleão.N'uma carta dirigida por lord Wellington ao secretario de guerra, escripta no quartel general de Montalegre, no dia 18, lê-se que: «O inimigo começou a retirada, como já informei a v. s.ª, destruindo uma grande porção dos seus canhões, e munições. Ao depois destruiu o resto d'ambos, e grande parte da sua bagagem, sem conservar mais do que quanto pudessem levar os soldados, e poucas mulas. Deixou ficar os doentes e feridos; e o caminho até Montalegre está juncado de cadaveres de cavallos, e mulas, e soldados francezes, que foram mortos pelos camponezes, antes que a nossa guarda avançada os pudesse salvar. Esta circumstancia é o effeito natural da maneira por que o inimigo faz a guerra n'este paiz. Os soldados teem saqueado e morto a paizanagem, a seu arbitrio; e eu tenho visto muitas pessoas pendentes enforcadas nas arvores ao longo das estradas, executadas por nenhuma outra razão, que eu{91}possa saber, senão porque não eram amigas da invasão franceza, nem da usurpação do seu paiz; e podia traçar-se a rota da sua retirada, pelo fumo das aldeias a que elles lançavam fogo. Temos tomado cousa de quinhentos prisioneiros. Em tudo, o inimigo não tem perdido menos de um quarto do seu exercito, e toda a sua artilharia e equipagem, desde que nós o atacámos junto ao Vouga.»O marechal Beresford afina pelo mesmo tom:«Não é possivel pintar a cruel e infame conducta do inimigo; ella póde ser facilmente traçada pelos lamentos dos infelizes paizanos, das mulheres e das crianças, e pelo fumo das villas, aldeias e casas incendiadas: elle a nada perdôa: esta villa (Amarante) está inteiramente destruida: a de Mezão Frio o está em proporção do tempo que tiveram...»Passavam, pois, os francezes, devastando, incendiando, matando.Quiz o duque de Dalmacia que o occaso da sua invasão fosse allumiado pelas labaredas do incendio.Eram os ultimos lampejos d'uma victoria ephemera. Mas a voz da patria, á hora do resgate, erguia-se mais alto que o crepitar das chammas no pendor das serras, que os lamentos dos velhos e das crianças que succumbiam á ultima carnificina da segunda invasão franceza.No Porto, governado militarmente pelo coronel Trant, grande era o jubilo, se bem que não tão cego que sir Arthur Wellesley não houvesse proclamado aos habitantes que os feridos e prisioneiros estavam debaixo da sua protecção, e que seria considerado criminoso quem os offendesse.Em Lisboa, mal que no dia 17 se teve noticia official da restauração do Porto, salvou o castello de S. Jorge, sendo correspondido pelos navios de guerra inglezes surtos no Tejo; saiu bando para que a cidade se illuminasse por trez dias, no ultimo dos quaes mandou o governo cantar umTe-Deumna Basilica de Santa Maria Maior.Internado o inimigo no territorio da Galliza, as operações do marechal Victor na Extremadura hespanhola, ameaçando nova invasão de Portugal pelo Alemtejo, obrigaram sir Wellesley e o marechal Beresford, solicitado tambem o primeiro pela junta central de Hespanha residente em Sevilha, a marchar{92}com seus respectivos exercitos para o sul do reino.Retirou, pois, sir Wellesley, posto que a despeito do governo portuguez, para a cidade do Porto, d'onde passou a Coimbra, Thomar, Constancia, e Abrantes, acampando na margem direita do Tejo. O exercito portuguez acompanhou o movimento retrogrado do exercito inglez, marchando para Abrantes, no intuito de atacarem em commum o marechal Victor, que estanceava nas visinhanças do Guadiana. Não se demorou, porém, o marechal Victor n'esta posição. Avançou, com os seus 90:000 homens, para a margem esquerda do Tejo, no intuito de o passar na ponte d'Alcantara.Reportemo-nos ao dia 14, dia assignalado pela brilhante defeza d'esta ponte durante mais de seis horas.Eram oito da manhã quando o inimigo, em trez columnas, rompeu o ataque por differentes pontos.D'uma e outra parte foi terrivel o fogo da artilharia até que, cerca do meio dia, vendo o regimento de milicias de Idanha-a-Nova consideravelmente dizimadas as suas fileiras, retirou em debandada, deixando ficar no campo apenas a legião lusitana.Em tão desesperada conjunctiva, o coronel Mayne mandou incendiar as minas da ponte, rompendo a explosão apenas por um lado, e ao major Grant confiou o commando das baterias para proteger a retirada dos nossos, que se realisou pelas trez horas da tarde.A cavallaria franceza vivamente perseguira então a nossa pequena divisão, sem que todavia pudesse impedir que se acautelassem os feridos e juntassem os dispersos.Ora um dos feridos na defeza da ponte d'Alcantara chamava-se José Maria da Graça Strech.Quando, em logar seguro, o tiraram d'um carro, onde lhe eram companheiros outros valentes portuguezes, amuda alemã, como geralmente chamavam a Rosina Regnau, esteve a ponto de trair o segredo do seu disfarce, vibrando um doloroso grito, o qual se apagou n'um rouco murmurio, que é, em lances afflictivos, o supremo esforço dos que não teem voz.E logo correu a encostar ao peito a cabeça do ferido,{93}a examinar a ferida, e a perguntar por gestos se poderia resultar perigo.Os soldados, condoídos de tão carinhosa dedicação, responderam logo, desde muito costumados a prognosticar sobre ferimentos, gesticulando negativamente.E a muda poz as mãos, levantando os olhos ao céo e entrou de affastar os cabellos de Graça Strech, banhados de suor frio, para contemplar-lhe a physionomia levemente alterada.Elle sorria-lhe com os olhos marejados de lagrimas e serenava-a acenando-lhe meigamente com a mão.Um dos soldados, abeirando-se de Graça Strech, disse curvando-se para elle:—O que tu tens de valente tem ella de boa! Sois dois irmãos dignos um do outro.Graça Strech encarou n'elle e meneou a cabeça; a muda ficou indifferente a curar as feridas do irmão.E só depois que não podia ser vista nem ouvida de estranhos, começou, alternando palavras com beijos, a falar-lhe tão baixinho, tão baixinho, como se até dos ouvidos d'elle guardasse o seu segredo, e só quizesse que a escutasse a alma...—Não é nada, José, meu José. Elles disseram e eu agora bem vi. Sabes que fui vivandeira e que tambem entendo o meu pouco de feridas. Não! A morte não te rouba d'esta vez á tua vingança e ao meu amor.—Rosina, minha adorada Rosina! Alma pura! Coração nobilissimo! Obrigado. Curva-te sobre a minha bocca; queiro beijar a tua face...—É o primeiro beijo! murmurou ella circumvagando um olhar cauteloso.—É o primeiro beijo que de ti recebo... Obrigada, meu Deus!—Sim, tu és muito melhor do que eu... Tens-me dado tantos, tantos... Mas—e perdoa-me, Rosina, perdoa-me—a minha alma só agora te póde beijar livremente...—Ó felicidade!... Praza a Deus que se este beijo me abre a tua alma eu a chegue a possuir inteiramente, porque o amor, meu José, é tão egoista, tão egoista...—E não crês possuil-a ainda?—Não. Todavia tenho esperança... Virá um dia.{94}Cala-te, que te faz mal falar... Já não foram pequena felicidade estas palavras, por que, tu bem sabes, eu só tenho palavras para ti e para... Deus.Foi longo e reparador o primeiro somno do ferido.Rosina Regnau velou á cabeceira da tarimba, absorta nos seus pensamentos pela primeira vez illuminados por um raio de sol. Estava folheando o roseo poema do primeiro beijo, decompondo em estrophes maviosas a harmonia que da alma subira aos labios. Era a primeira gotta de orvalho na aridez do seu destino, uma parcella de ternura em recompensa dos thesouros que ella por tanta vez prodigalisára sobre as faces de Graça Strech.O primeiro beijo! A santa loucura das almas que se amam, como diz a trova:Foi aqui mesmo, á tremulaSombra do olmeiro,—Dizia o pastor Lícidas—Aqui, aqui,Que eu hontem n'estes labiosTive o primeiroBeijo da minha Flérida,E endoideci![10]E baralhavam-se-lhe os pensamentos com a precipitação da ephemera demencia que a felicidade dá.—Sim... eu começo a ser feliz. Diz-me o coração que o serei... Mais provas! mais provas, senhor meu coração! Mostre-se digno d'aquella enorme alma, inspire-lhe confiança para lhe recolher os segredos, e possua-a, e juntem-se, e prendam-se, e identifiquem-se, tão unidos, tão unidos, que nem a morte os possa separar... Sem isso não ha felicidade completa... Sim, bem vês, pobre coração, meu pobre coração que tanto tens soffrido, que se aquelle annel fecha ainda a saudade de um amor redivivo, não pódes por emquanto conquistar a fortaleza que se não renderá. Tu sabes lá como a saudade se bate entrincheirada detraz de um tumulo! Então terás ainda muito que soffrer e que luctar, pobre doente para quem hoje raiou o primeiro symptoma da cura, meu triste coração{95}tão soffredor! Mas forceja, vá, porfia, esforça-te por arrancar-lhe o segredo... Se aquella é a ultima memoria de uma irmã querida, alegra-te, pobre louco, porque nem a amante desluzirá a irmã, nem a irmã desluzirá a amante. A alma d'elle é tamanha que chega para mim e para ella. Para o que não chega é para duas amantes, que se disputam palmo a palmo o terreno, que luctam, que combatem, que oppõem ciume a ciume, despeito a despeito, embora uma esteja morta e outra viva... Não, «a gentil vivandeira» não soffre competencias. Já se fez amar d'um exercito; é preciso que se faça amar d'um homem. Pois então perde-se tudo, a patria, a liberdade, o socego, as florestas das Ardennas, as minhas queridas florestas das Ardennas, que talvez não mais torne a ver, e as montanhas do Hainaut e do Luxembourg, que eu conheço desde pequenina, e o Semoy e o Lesse e o Ourthe e o Eure, tudo, n'uma palavra, perde-se uma vida inteira de dezoito annos, para amar um homem, para ser a sua sombra, o seu cão, e não se ha de possuir ao menos todo o seu coração, todos os seus pensamentos, os seus segredos todos? Quem me diz porém que não hei de vencer? Não vi eu porventura tantas batalhas, não as vejo ainda, e não posso tirar da incerteza da victoria um bom agouro para o meu futuro? Dize-te, pobre Rosina, diz a ti mesma o que são os combates que tantas vezes tens visto. Pinta um quadro para ti. Anima-te! Olha... São duas as montanhas alcantiladas, sombrias, enormes... Uma defronte da outra... No meio um rio sereno, e crystalino a principio... depois vermelho de sangue. Sobre o rio uma ponte, e sobre a ponte, como a desabarem para ella, as montanhas. E n'uma e outra os exercitos, os uniformes variados, os kepis multicôres, as espadas reluzentes, os cavallos pendurados das fragas, os cavalleiros pendurados dos cavallos, as carretas suspensas na ladeira, as peças que abrem a sua bocca de fogo para vomitar o fumo e a morte, a voz dos clarins e a voz dos commandantes, pragas, juras, maldições, gemidos, blasphemias, sacrilegios, e a turba ora a estreitecer, a apertar-se, a juntar-se em pinha, ora a crescer, a alargar-se, a fazer-se onda, a trasbordar, ora a rolar como avalanche pelo monte abaixo, ora a marinhar por elle, a trepar, a agarrar-se, tão espessa, tão escura, tão confusa como se fosse{96}uma nuvem que saísse do rio, e o sol a doiral-a agora e logo o fumo a envolvel-a, e já se desencadeiam d'um e d'outro lado ameaçando chocar-se sobre a ponte, que corta o valle, e que afundará com elles, e baralham-se, enovelam-se, redemoinham, e apparecem uns, e desapparecem outros, e tombam cadaveres ao rio, e estruge no ar a grita, e corre ensanguentada a agua, e são aquelles os que vencem, os que estão em maior numero, e vão esmagar os outros, e arvorar a bandeira... mas rolam de novo, precipitam-se, confundem-se, e são estes agora os que triumpham, lá se embrenham por entre o inimigo, passam como corisco, e assombram-n'o, fulminam-n'o, e a victoria é sua! Bem, Rosina Regnau, assim foi em Amarante e ainda agora em Alcantara; assim póde ser para ti. Quem te diria no hospital de sangue, quando o estavas contemplando adormecido, tão pallido, tão mergulhado no somno, e tu te lembravas de que eras franceza e elle portuguez, quando tu já o amavas e elle dormia, quem te diria, ó vivandeira ignorada, que dias depois havias de seguil-o por toda a parte, e perder a tua voz para que te não conhecessem, e encostar ao teu peito a cabeça d'elle, que caira ferido, e recber-lhe o primeiro beijo? Ninguem! Nem aquelle endemoninhado do Beauvier, que era o bruxo do exercito, e andava sempre a olhar para os astros, e adivinhava quando chovia, e a lua havia de ser cheia, aquella bonita lua cheia da França!... Ninguem, Rosina, ninguem! Pois tambem não ha magico na terra que saiba dizer se tu chegarás a vencer o seu coração de modo que te julgues tão poderosa, tão senhora do mundo como o imperador, e por feitio que sejas tão ambiciosa como elle, que não deixa palmo de terra a ninguem!...Interrompeu-lhe este intimo monologo uma contração do ferido, que balbuciou monosyllabos.—Sonha!—pensou ella—e quem sabe o que sonha? Estou aqui tão perto d'elle, a vel-o, feição por feição, linha por linha, a examinal-o tanto, que dir-se-ia querer contar-lhe um por um os seus cabellos, e sinto-lhe o halito na minha face, e fala, e só eu o oiço, e todavia não sei de quem são os seus pensamentos, nem o que querem dizer, o que está recordando, o que está sonhando, finalmente! Tenho diante de mim, como livro aberto, a sua physionomia e{97}{98}{99}não posso lêr na sua alma! Sei que ha ali um mar mysterioso, e não posso sondal-o. D'uma vez—recordou ella—lia o meu pae Regnau os jornaes, e disse: «Fulano e sicrano foram á pesca das ostras.» E acrescentou: «E o imperador que as tem bem boas na Corsega!» E eu perguntei ao pae Regnau para que iam elles pescar as ostras, tão longe, se podiam pescar outros peixes no Sena. «Tontinha!—respondeu elle—porque das ostras é que se tiram as perolas, e é preciso metter-se uma pessoa ao mar para pescal-as!» Bem me ensinaste tu, pae Regnau! O mar esconde tanta coisa... que até esconde as perolas. Aqui estou eu á beira do oceano e não as vejo... As que eu procuro, vivem escondidas ali...IlustraçãoCaiu desamparado, vibrando um grito... (pag. 40)E apontou para o coração do ferido.Os labios de Graça Strech pareceram descerrar um sorriso. Rosina, que, apesar dos seus pensamentos, estava attenta ao menor movimento, ao mais subtil perpassar d'uma sombra, estremeceu ao rebramir da tempestade interior:—Sorri! pensou ella.—Havia n'este seu sorriso a melancolia de quem está recordando a felicidade perdida... Lembra-se talvez d'uma hora em que, rosto a rosto, juntas as mãos, sorrindo, falando, sonhando, lhes fugia o tempo mais rapido que o pensamento... E ella, a mulher que elle amava, era decerto formosa, muito formosa, e dizia-lhe que jámais haveria no mundo quem viesse a amal-o como ella... E elle acreditou-a, e por isso a ama ainda no tumulo, e jurou que, viva ou morta, lhe seria eternamente leal, porque o coração lh'o havia dado para todo o sempre... Ah! mas quem sabe, durante o combate, a quem ha de pertencer a victoria? O teu quadro, Rosina Regnau, é verdadeiro. Lucta até o fim, vivandeira, faze como os soldados que foram teus irmãos. Combate a saudade com a esperança. Soffre, porque o soffrer é de quem lucta. Mas porfia, conquista resignadamente esse coração onde desejas reinar, porque todo elle é preciso para o throno da tua felicidade.Abriu Graça Strech os olhos e relanceou a Rosina um olhar suavemente triste.—Sempre aqui!—segredou elle.—Aqui é o meu posto de enfermeira voluntaria.—Eu dormi, Rosina: dormi e sonhei... com minha{100}irmã. Estava-a vendo aos cinco annos, vestidinha de branco, quando a fomos levar ás Chãs, e quando eu tinha seis... Nunca isto me esqueceu! Trepámos a uma cadeira para descer as maçãs que o padre capellão tinha a amadurecer no friso da sala. Augusta subiu denodadamente, mas faltou-lhe a coragem para saltar ao chão... E começou a gritar, a gritar, de sorte que o padre capellão a veiu surpreender com as maçãs escondidas na abada do seu pequenino vestido...Sentiram-se passos.—Cala-te! apostrophou Rosina. Cala-te! Rosina Regnau já aqui não está. Fica apenas amuda allemã.{101}[10]Ainvenção dos jardinspor Gessner; tradução do sr. Visconde de Castilho (Antonio Feliciano).XIIAmor e ciumeForam proseguindo as operações da trabalhosa campanha de 1809 contra os francezes.Depois de segundo combate na ponte d'Alcantara, a 10 de junho, poderemos, por nos furtar a minudencias fastidiosas em romance, ir direitos á decisiva batalha pelejada nas proximidades de Talavera de la Reyna, em Hespanha, dirigida pessoalmente d'um lado pelo rei José, e por lord Wellington do outro.Pela retirada dos imperiaes á vista do inimigo terminou esta importante batalha, sendo todavia numerosas as perdas dos alliados, mórmente dos inglezes.Meiado agosto, começou o exercito portuguez a retirar para Zara, entrando em Portugal por Salvaterra do Extremo, dirigindo-se a Castello Branco, d'onde os differentes corpos foram enviados a disciplinar-se, durante o resto do anno, em determinados acantonamentos.Não podemos, porém, encerrar esta ligeira chronica dos feitos militares de 1809 sem retroceder ao segundo combate da ponte d'Alcantara, a que José Maria da Graça Strech não assistiu por estar ainda mal convalescido do ferimento que no primeiro ataque recebera.Entre os feridos francezes, que ficaram prisioneiros, requeria prompto curativo um que denunciava claros indicios de perigo.Rosina, mal que o viu, reconheceu-o.Era Bénard, por alcunhaLa goutte.Então lhe acudiram de tropel pungentes recordações da sua vida de vivandeira, quando, sentada no acampamento, viaLa gouttepuxar da sua garrafinha de vidro branco e offerecer aguardente por esta formula inalteravel:—Voulez-vous lá goutte?{102}Esta phrase motivou aquelle cognomento, que valia tanto como dizer em portuguez:O pinga.Bénard era um excentrico, que tinha intermittencias soturnas e luminosas. Umas vezes lhe dava a embriaguez para se deixar cair n'uma tristeza insociavel, outras era causa d'uma garrulice chistosa e alegre.Mal que se levantava, enchia a sua garrafinha de aguardente. Bebia até ao meio, erguendo o frasco para venficar á luz se a medida era exacta, e, certificado, acabava d'enchel-o com agua fria.Convém, porém, saber que Bénard classificava os seus companheiros d'armas do seguinte modo:1.º—Amigos capazes de emprestar.2.º—Amigos capazes de não pedir.3.º—Amigos capazes de não emprestar.4.º—Amigos capazes de pedir.5.°—Conhecidos.Mettida a garrafinha entre a fardeta, começava o processo inalteravelmente observado todos os dias.Encontrando um amigo da primeira classificação, abeirava-se d'elle e, pondo a mão no peito, perguntava:—Voulez-vous la goutte?O amigo bebia até ao meio, porque elle não consentia que fosse mais longe. Depois, segunda dynamisação, outra vez a garrafa cheia; e, succedendo-se as dynamisações aos amigos, pela ordem por que os tinha classificado, acontecia que os simplesmente conhecidos bebiam agua commum passada por uma vasilha que tivera aguardente.—Não merecem mais! dizia Bénard. Estes só teem pela gente um cheiro de interesse.Era poisLa goutteuma personagem lendaria no exercito francez, e já passava em proverbio dizer-se, quando se era mal servido:—Eusou conhecidodo Bénard.Rosina Regnau, ao vel-o ferido, sentiu-se propellida a dolorosa piedade. Estava alliLa goutte, que ella tantas vezes vira desde a sua infancia, e de quem tantas vezes se rira na edade em que toda a excentricidade nos parece ridicula.E todavia o Bénard era um philosopho profundamente conhecedor da alma humana. D'uma vez perguntaram-lhe:{103}—Se encontrasses o imperador, como o consideravas?—Dava-lhe da ultima lagarada, como elle dizia. Bem se importa o imperador commigo! Não me empresta dinheiro, porque o ganho eu; não m'o pede, porque bem sabe como é mesquinho opretdas tropas.Bénard trazia pendurada do pescoço a sua garrafinha. N'esse dia, como a refrega lhe não désse tempo para offerecera gotta, bebera-a elle toda, por excepção. O resultado foi expôr-se á morte com um denodo que, sommado, daria a embriaguez de quatro amigos. Avançou imprudentemente e ficou prisioneiro com uma bala no peito.Rosina, que sempre evitava ser vista dos prisioneiros francezes, não pôde todavia resistir a soccorrel-o, quando o seu coração por um momento retrocedeu ao passado. Quasi involuntariamente o fez.O ferido, sentindo que alguem o estava curando, abriu os olhos e demorou em Rosina um longo olhar. Foi então que ella mediu o alcance da sua imprudencia.—Oh! rouquejou o ferido, sim, és tu! Eu tenho a vista embaciada, mas ainda te conheço! Rosina Reg...Ella tregeitou afflictivamente implorando silencio.O ferido, desvairado pela embriaguez ou pela febre, não a comprehendeu.Graça Strech havia-se aproximado e assistia entre respeitoso e ciumento áquelle lance.O ferido continuou com difficuldade.—Fugiste, Rosina... Pobre rapariga!.. Como lá todos te querem mal!... Se te vissem... matavam-te... Sim, eu sou Bénard... Tinha hoje a minha garrafinha cheia... Bebi-a toda... Tomei calor... Boa gotta!... Aguardente de Hespanha! Vão estes perros, que não teem um palmo de terra, e mettem-me uma bala no costellame... Irra! Boa aguardente... E tu aqui! Entre elles!... Maldita sejas... O pobre Regnau ha de dar pulo de cobra no outro mundo...Graça Strech, se bem que exhaurido de forças, estremecia em convulsões repetidas, e tinha as faces esbraseadas por um colorido doentio. Todavia parecia detel-o um braço invisivel; pesado como se fosse de ferro, que lhe offegava a respiração.{104}Rosina chorava abundantes lagrimas, que lhe deslisavam pelas faces mortalmente pallidas.Postoque não estivesse presente, por felicidade, ninguem que pudesse ouvir a revelação do segredo, além de Graça Strech, ella não ousava falar. N'aquella hora, em que algumas mulheres e os convalescentes soccorriam os feridos, a todos parecia natural que os dois irmãos, segundo toda a gente dizia, se dedicassem ao curativo d'um soldado que se affigurava moribundo.Graça Strech aproximára-se desde o principio por lhe causar estranheza que Rosina Regnau se dispuzesse a soccorrer o prisioneiro.Primeiro se apiedou por conhecer n'esse acto o impulso natural de coração de Rosina voluntariamente opprimido no captiveiro de um amor impetuoso. Sobreviera porém o ciume quando se lembrou de que a vivandeira habitualmente se esquivava a cuidar de feridos francezes, e de que extremado devia ser o interesse para affoital-a á temeridade de se deixar reconhecer.É bem certo que o ciume completa o amor: porque o ciume é a desconfiança que leva o coração a sondar a profundeza do amor. Então se investiga, se espiona, se perscruta. E se o amor é verdadeiro, é puro, é santo, assim como se lhe mede o alcance, e se reconhece infinito, vem a convicção de que todos os sacrificios são poucos para galardoal-o, chega o arrependimento de se haver sido injusto, e accorda o estimulo da consciencia para o não tornar a ser. N'essa hora é que Rosina Regnau começou, sem o saber, a ser verdadeiramente amada. Bastou o ciume de um momento, que as subsequentes palavras do ferido vieram serenar, para arreigar o amor no coração do soldado portuguez. E foi á luz d'esse relampago de ciume que elle comprehendeu a enormidade do sacrificio de Rosina; foram as palavras do prisioneiro francez que lhe mostraram claramente quão grande abnegação era precisa para cair, amaldiçoada pela patria, nos braços d'um homem estranho.O ferido, apesar de cada vez mais se lhe embargar a voz na garganta, proseguiu com longas pausas:—Tu eras muito estimada, Rosina... Todos te queriam... Quem havia de dizer que tu... renegarias... a tua França! Eu não morro pelo imperador...{105}que não pede nem empresta... que paga mal... eu morro pela... França!... Já não posso... beber... A ultima gotta queria bebel-a pela patria...E, cada vez mais offegante e desvariado pela febre, acrescentou:—Vae buscar aguardente... Anda depressa.. que já tenho a morte aqui...E indicava o coração.—Sim... amaldiçoados... os que não morrem francezes... como tu... Jacques Regnau! lá n'esse quartel que ninguem sabe onde fica... eu te contarei a verdade... Vamos para a reserva... temos tempo de falar...E, como a cabeça do francez parecesse já desequilibrar-se, Rosina Regnau procurou encostal-a ao peito carinhosamente.—Não!—apostrophou com extrema difficuldade Bénard—não! Um francez... só morre... encostado... a outro... francez... Eh! eh!—rouquejou.E, procurando aprumar-se, disse com esforço grande de mais para o lance do passamento:—Vive.. lá... Fran...Não pôde concluir. A ultima syllaba embargára-lh'a a morte.Graça Strech estava como que fulminado pelas palavras do soldado francez, que morrera amaldiçoando Rosina. Parecera-lhe que a voz da providencia falava n'elle. Pela primeira vez um terror supersticioso subjugou a coragem d'aquelle homem que tinha jurado guerra de morte á França. E todavia expirava ali, ao pé d'elle, um francez saudando a patria nas ultimas palavras que lhe foi dado pronunciar.Rosina Regnau estava tambem paralysada n'essa especie de imbecilidade que nas grandes commoções se nos affigura ser idiotismo.O aço de que em parte era feita a sua alma de vivandeira vergára ao som d'aquellas palavras horriveis; restava apenas, muito a dentro do peito, a vibração dolorida das cordas maviosas.No semblante, como se a distancia e o cansaço fossem amortecendo a maguada vibração da alma, apenas se desenhava o espasmo das supremas afflicções que parecem suspender a vida.Quizera Graça Strech poder cingir nos seus braços Rosina, e despertal-a, para a realidade do seu amor, d'aquelle excruciante alheamento.{106}Vedava-lh'o a presença das pessoas que, como já dissemos, estavam cuidando dos feridos.Ficaram ambos silenciosos, porventura á espera de opportunidade para trocarem algumas fugitivas palavras.Ella, acordando pouco a pouco d'aquelle infernal pesadello, sentia o doer da realidade muitas vezes peior que os sonhos maus. E a si mesma perguntava o que ficaria pensando Graça Strech: se julgaria criminosa a sua compaixão pelo ferido; se a presumiria demudada pela maldição do moribundo; se acaso o effeito d'aquella imprevista scena lhe haveria levado ao coração o aborrecimento ou o desprezo?Tudo suppunha, menos que o verdadeiro amor nascera n'aquella hora com o ciume.Como ella desejava poder cingir Graça Strech nos seus braços, cobril-o com os seus beijos, embora elle a repellisse com enfado ou desabrimento!Não valeriam ameaças.Ella dir-lhe-ia com a affouteza que a innocencia dá:—Eu bem sei que fiz mal. Mas aquelle era o Bénard,La goutte, que eu conhecia, desde pequena, de o ouvir discorrer sobre o egoismo dos homens e de o ver puxar pela sua garrafinha d'aguardente. O pae Regnau, apesar do vicio, estimava-o muito, e até lhe chamava... philosopho. É que o pae Regnau era dos primeiros amigos. Uma vez vendeu a ração do almoço para que o Bénard não deixasse d'encher a sua garrafinha. O pae Regnau disse então, bem me lembro: «Elle sem aquillo não é philosopho; e eu sem almoço posso ser soldado.» O que valeu foi que o meu almoço chegou para dois. Não me julgues arrependida do que fiz pelo que elle disse... Tudo quanto elle disse bem o sabia eu... Lembrar-me da minha patria não quer dizer que me esqueça de ti... Não. Amaldiçoam-me? Que me importa a mim que me amaldiçoem! Abençoa-me tu, e não quero outra felicidade. Abre-me a tua alma, de modo que eu saiba bem o que ella pensa, o que ella sente, e não terei pena de que se me fechem as fronteiras da patria. Não me aborreças nem me despreses... O teu primeiro beijo foi uma promessa, uma esperança; eu acreditei-o, creei vida nova, sinto-me forte para a lucta.La goutte, se me disse aquellas palavras, é porque{107}me estimava; estima-me, ama-me tu quanto eu desejo, que saberei esquecer as palavras deLa goutte.Graça Strech, sem attingir o que se passava na alma de Rosina, estava ancioso de dizer-lhe:—Tudo quanto aquelle homem disse era verdade. Por mim perdeste tudo, Rosina, por mim preferiste a solidão, em que ora vives, á tua immensa familia—o exercito francez. Eu comecei por odiar-te, porque eras irmã dos assassinos de minha irmã. Depois, ao odio, que procurava o caminho da vingança, succedeu a gratidão, porque tu me restituias a liberdade. Mas a realisação do meu sonho de sangue importava um enorme sacrificio teu. Fizeste-o sem trepidar. E não contente com isso, que já era muito, quizeste vincular a tua vida á minha, e tu, que havias renunciado á patria, renunciaste tambem á voz com que recordavas as canções do teu paiz natal. Começou a nascer em mim o amor misturado d'assombro. Nunca me lançaste em rosto a minha crueza para os teus. Era a minha vingança, e tu querias o que eu queria. Ao pé da imagem de minha irmã, que no somno e na vigilia me apparecia, começaste tu a tomar vulto, a crescer, de modo que eu fiquei preso entre vós ambas, porque se o sangue d'uma clamava vingança, o sacrificio d'outra me proporcionava vingar-me. E uma noite, no breve repousar do acampamento, sonhei que minha irmã me viera falar e me dissera que tu eras boa, e leal, e pura. Então beijei-te. Mas hoje, ao ouvir aquellas palavras, completei os meus pensamentos pela certeza de que tu eras pura, e leal, e boa. Dize: Que queres de mim? Sacrificio por sacrificio, amor por amor, dedicação por dedicação. Serei teu, porque tu és minha. Ouve, Rosina, ouve-me bem. Tu tens sido o meu anjo da guarda, o meu enfermeiro, e—porque não hei de dizel-o?—tens sido para mim como o cão amigo para o cego das Ardennas. Pois bem. D'hoje em diante as nossas almas fundir-se-hão n'uma só, viverão dos mesmos pensamentos, e tu chorarás minha irmã como eu a choro, porque o teu coração sentirá a saudade que eu sinto.Ao anoitecer veiu a carroça dos cadaveres, acompanhada pelo capellão militar, buscar o morto.Rosina Regnau deteve-se a contemplal-o, esquecida de que aquelle homem morrera amaldiçoando-a.{108}Era-lhe defeso o falar. Se não fosse, haveria pedido uma oração pela alma do soldado Bénard, de alcunha—La goutte.Graça Strech assistiu á cerimonia commovido. Um dos soldados encarregados d'aquella triste commissão, como lhe visse carregadas as linhas do rosto, apostrophou:—Pois tu, que te bates como leão contra os francezes, não assistes impassivel aos funeraes d'um francez!—A morte quebra todos os odios, respondeu Graça Strech.Outro soldado, ao dar tino da garrafinha entalada entre a farda e a camisa, exclamou facetamente:—Pena tenho eu de o não matar emquanto a garrafa estava cheia!—Este diabo não fazia senão beber! acrescentou outro.—Tambem me consta que fazia outra coisa, replicou Graça Strech.—O que era?—Enterrava os nossos mortos com mais piedade do que tu.—Prégas hoje de cadeira!—Lembro-me de que elle, pelas ultimas palavras que lhe ouvi, era tão francez como eu sou portuguez...—Era? perguntou ingenuamente um dos soldados.—E a mim, concluiu Graça Strech, pesa-me sempre a morte d'um bom soldado.Quando a carroça rodou lugubremente, caminho da valla commum, onde portuguezes e francezes iam dormir sem odios nem malquerenças o somno eterno, Graça Strech acercou-se de Rosina, que parecia duvidar ainda do que tinha ouvido, e segredou:—Devo á memoria de Bénard uma felicidade que não merecia a Deus. De hoje em deante não haverá entre nós barreira que possa separar-nos. As nossas almas serão uma; os nossos pensamentos um só...—Promettes? murmurou ella doida d'alegria.—Prometto.—Então dir-me-has tudo o que pensas, tudo o que sentes?—Tudo o que penso e sinto te direi.E o segundo beijo sellou esta promessa.{109}XIIIComo acaba a tragedia de GoetheNão morrem os gigantes ao segundo golpe.Napoleão ergueu-se no senado francez, a 4 de dezembro de 1809, e sobrepujando com a sua voz a voz da Historia, como se lhe não andasse já descontada a gloria com dois consecutivos revezes na peninsula iberica, disse: «Tanto que eu appareça alem dos Pyreneus, o leopardo recolher-se-ha amedrontado ao oceano para fugir á ignominia, á derrota e á morte. A victoria das minhas armas será a do genio do bem sobre o do mal: a victoria da moderação, da ordem e da moral sobre a guerra civil, sobre a anarchia e as paixões destruidoras.»E, concluida a campanha de Austria pela paz de Vienna, a aguia franceza deixou de pairar sobre o norte da Europa, e do alto do palacio imperial de Schoenbrunn fitou o olhar ardente e profundo na orla do occidente banhada pelo Atlantico.E pela terceira vez se equipava o exercito invasor, superior a oitenta mil homens; e pela terceira vez fôra chamado um general distincto a tomar o commando em chefe das tropas para obter melhor exito que os seus dois antecessores.A eleição recaiu no marechal Massena, principe de Essling, duque de Rivoli, cuja valentia e sciencia Napoleão conhecia desde as campanhas d'Italia.Não precipitemos, porém, os acontecimentos que o anno de 1810 havia de desdobrar sobre a Europa. Justo é reverter ao que é assumpto principal d'este livro, mais biographia do que chronica.Já anteriormente dissémos que o exercito portuguez recolhera ao quartel general de Castello Branco, e d'ahi fôra mandado, nos ultimos dias d'agosto de 1809, para diversos acantonamentos.Em Castello Branco, o marechal Beresford permittiu{110}aos soldados, que mais se haviam distinguido, a escolha de corpo e quartel, não só para lhes galardoar d'algum modo os serviços prestados, como para incitar os outros a medirem-se na terceira campanha com os premiados na segunda. José Maria da Graça Strech escolheu o regimento d'infantaria 18, que, com o 6 e 9 da mesma arma, foi mandado para Coimbra.Então se levantava detraz do tumulo da irmã querida, para o desgraçado moço, a aurora do amor, que desabrochára no primeiro beijo, e que o ciume aclarára definitivamente á beira do catre do moribundo Bénard.Havia-se batido como leão, açulado pelo cheiro do sangue. Mil vezes se atirára á morte, e a morte parecia respeitar no sorriso de Rosina Regnau a heroicidade do soldado. Dir-se-ia que a vivandeira tinha duas azas, que, desdobradas, o abrigavam. Graça Strech acabou, como era natural, por amar o seu anjo da guarda, quando inteiramente comprehendeu que ella lhe dizia na triste eloquencia do silencio a que se condemnára: «Eu tenho de guardar a tua alma; para guardal-a preciso possuil-a.»No seu coração calcinado pela saudade choveu pouco o orvalho refrigerante companheiro da aurora; o amor cauterisou a ferida que sangrava odios; ficára apenas a cicatriz, como fica voltada n'um livro a pagina que se leu, e cuja impressão jámais se desluz na mente do leitor.Aconteceu a Graça Strech como ao commum da humanidade.O amor, que é luz, que é fogo, que é sol, vae se decompondo em irradiações parciaes na nossa alma, á medida que a vae desenregelando, como o verdadeiro sol n'um prisma de crystal. Verdade é, ser preciso que tenha a alma a pureza do vidro para que lentamente se vão revezando as côres, alternando asnuances, e embriagando-se ella a pequenos haustos no banquete da felicidade. O amor que rebenta como erupção, não é amor, é desatino. Nasceu cego: não vê. Irrompe como a lava, passa, queima, desapparece.Este é o amor das almas versateis, que não se vergam ao sacrificio, e que por isso mesmo são incapazes de metter hombros á cruz cujo peso devera ser repartido pelos dois. Os que amam sem previamente{111}haver soffrido, amam apenas emquanto o amor não é soffrimento. E quem póde desfolhar a rosa sem ferir-se no espinho? Esses amam pouco. As lagrimas são a agua que baptisa na religião dos attribulados. A mocidade de Graça Strech recebera esse primordial sacramento. Dera a sua vida em holocausto á saudade. Soffrera muito, e alma que soffre assim tem de certo a pureza dos grandes sentimentos. Por isso a luz da aurora, que lhe alvorecia sobre o tumulo da irmã, se foi decompondo em gradações prismasticas por feitio que elle, muito alma a dentro, pôde conhecer a nitidez das côres, o brilho das tintas casado á transparencia do cristal.Desde então começou a amar como os que teem soffrido. «Tudo o que penso e sinto te direi,» segredára elle em Alcantara.Estas palavras não eram apenas a promessa d'uma revelação;—eram a promessa da felicidade.Os acontecimentos não permittiram que, antes de Coimbra, Rosina Regnau pudesse affastar de si a nuvem do ciume que de ha muito lhe opprimia o coração.Muito primeiro o amára ella, porque o ciume nascera parelho do amor.Parece que o destino porfiára em depôl-os no eden viridente de Portugal para mandar depois a serpente a tental-os. N'aquelle jardim de Coimbra ha sombras fadadas para o amor. Já o disse um poeta:Quem nunca viu CoimbraPela brisa embaladaDo Mondego,Que de amorosa timbraNa margem reclinadaCom socego,Não sabe o que é belleza,Ai! não conhece a filhaDos amores,Mais nobre que Veneza,Mais linda que SevilhaSobre flôres.[11]Ali rememora ainda a celebrada fonte, que suspira n'uma das extremas do campo de Santa Clara, o poema{112}das lagrimas da formosa Castro—o maior poema d'amor que se tem sentido em Portugal. Que phantasias que não tem o amor em Coimbra! É velha a doidice que se respira n'aquelles ares, porque já Faria e Sousa conta que Pedro, o principe amoroso, confiava á agua da fonte, que n'esse tempo ia jorrar nos jardins do paço real, os bilhetinhos namorados que a loura Ignez muito em segredo recolhia e, em maior segredo ainda, relia. E perora Faria e Sousa: «Tales son las astucias de los amantes». Com perdão de Faria e Sousa, astuciosos são os escriptores que nos pintam amores fabulados de tão acertadas contingencias, como era a da agua, sem embargo dos seixos e hervagens, ser fiel correio do principe e da aia.Eu contarei singelamente o meu caso, tal como aconteceu na hora em que o ciume de Rosina Regnau, como se já não fosse preciso para atiçar as labaredas do amor, se acalmava na mutua confiança das almas que se possuem.Foi ahi por alguma copada sombra das margens do Mondego, onde, como disse Gabriel Pereira de Castro, o rio... nas voltas se mostra arrependidoDe levar agua doce ao mar salgado,que Rosina Regnau e Graça Strech descançavam n'uma das ultimas tardes d'agosto.Aproveitavam sempre as horas feriadas do serviço militar para essas excursões, reguladas pelo toque das cornetas no quartel, porque só onde a sombra os escondesse poderiam dialogar, os dois, sem que ouvido estranho traísse o segredo da mudez de Rosina.Ahi se indemnisava ella dos longos silencios a que era constrangida, e assim se foram estreitando os laços, que já tão cingida tinham a imagem da felicidade n'um e n'outro coração.N'essa tarde Rosina Regnau intencionalmente encaminhou o dialogo para o episodio da morte de Bérnard, e a ponto veiu recordar as palavra de Graça Strech: «Tudo que penso e sinto te direi».—Ah! não sabes, disse ella subitamente exaltada pelo ardor da vivandeira, que do cumprimento da{113}tua promessa depende a realisação da minha felicidade!...—Pois duvidas?...—E não duvidaste tu de mim, quando em Alcantara soccorri o pobreLa goutte?—Perdôa-me...—Sim, perdôo, não a ti, ao ciume, pois que para o ciume tambem peço perdão n'este momento. Ouve-me, portanto.—Fala!... exclamou Graça Strech.—Ha uma duvida horrivel no meu espirito, que é preciso dissipar; um obstaculo no meu caminho, que é preciso vencer. O meu amor, que começou por dar-te a liberdade, não póde viver escravisado. Desde o primeiro momento te amei perdidamente. Emquanto tu dormias, veláva eu, para que as tuas palavras de soldado não fossem desmentidas pela tua physionomia de ferido sem eu perceber a verdade. Já então—mal o pensavas!—a minha vida dependia da tua. E vigiava-te, e estudava as mais ligeiras alterações do teu semblante, como a mãe que observa, de noite, na solidão silenciosa do seu quarto, o filho doente que dorme. Tu não suspeitavas que pudesse entrar tamanha dedicação na alma d'uma vivandeira, e razão de sobra tinhas. As mulheres com quem eu vivia eram tão vis, que se riam do meu carinho para comtigo. E eu arrostava-lhes os chascos, os insultos, porque bem sabia que a culpa não era d'ellas, mas do destino que as tornou tão desgraçadas. Aspereza, injustiça, só me doía a tua. Não bastava amar sem esperança: o meu amor era recompensado com despreso. Tu eras nosso prisioneiro; não podias, portanto, soffrer que a minha pronuncia te estivesse recordando a cada hora a tua infelicidade. Quiz, porém, Deus que me ouvisses um dia com menos indifferença, quando conheceste que eu valia um pouco mais do que as outras. Viste que eu era boa, e quizeste-me para instrumento da tua vingança. O que tu não suppunhas era que o teu sonho fosse a esse tempo o meu—dar-te liberdade! que eu contasse os instantes da tua vida pelas horas da minha! que eu quizesse ser para ti o que era o fiel molosso para o cego da minha terra... Pois queria, juro-te, queria. Se não pudesse restituir-te a liberdade, teria a coragem de envenenar um remedio para que o mesmo{114}veneno nos matasse a ambos. Acredita; tinha. Mas sempre na tua bocca a palavra vingança! Sempre essa palavra horrivel! Eu bem sei que todo o homem, que vê a sua patria invadida, precisa vingar-se a si, e a ella. Mas esse annel que não mais te deixou não era da patria... Falavas de tua irmã, tens-me falado sempre d'ella. Comprehendo como se possa amar uma irmã, que era boa, que era pura, e que foi morta injustamente. Todavia comprehendo tambem que se as cartas as escreveu tua irmã, o annel póde deixar de ser d'esse anjo...Nos labios de Graça Strech havia o tranquillo sorriso de quem sabe com que ardor é amado.Quiz falar; ella interrompeu-o.—Oh! por piedade, não sorrias, sem que esta duvida atroz se desfaça! Tenho tido a coragem de saber esperar este momento solemne e para mim decisivo. Tu sempre a pensar no teu annel, eu sempre a pensar em ti! Tão calada, que nem voz posso ter deante d'estranhos. E que tivesse! Havia de perguntar a alguem pela vida do homem que eu chamava irmão? Tu sonhavas de noite, como quando ficaste ferido em Alcantara, e sorrias. Acordavas, vias-me ao pé de ti, e acudias logo a falar de tua irmã... Oh! se eu soubesse que tu me enganavas!... Se tu estivesses sonhando com outra mulher que não fosse tua irmã, quando eu estava ali, sósinha, calada, sem patria, sem amigos, amaldiçoada, a velar pelo teu somno... Sabes o que eu faria? Vestiria o teu uniforme, José, e iria bater-me, avançando tão imprudentemente como o infeliz Bénard, até que as balas dos soldados da França se me cravassem no peito. Morreria pelo ingrato como os soldados morrem pela patria, e morreria contente por morrer amortalhada no teu uniforme... Vê, pois, bem a minha alma. Unicamente te peço que sejas sincero, ainda que a tua sinceridade tenha de ser cruel. Estamos a dois passos do Mondego. É-me facil procurar n'elle a maior altura da agua, se o coração me disser que me estás enganando... Mas não has de, mas não me deves enganar, porque pela memoria sagrada de tua irmã te peço que sejas verdadeiro...E ficou anciosa, com os olhos fitos, os labios entreabertos, o seio offegante...—Pela memoria de minha irmã te juro que mais{115}uma vez te repetirei a verdade—disse Graça Strech, cuja physionomia parecia irradiar a luz clara e pura dos que estão fazendo uma confissão sincera.—Tambem eu te amo doidamente, Deus o sabe! Tambem eu tive ciumes, Rosina! Tambem eu estou costumado a soffrer. Se aquelle moribundo d'Alcantara houvesse denunciado, por um gesto sequer, que tinha outros direitos á tua dedicação, além dos de estar ferido e ser francez, eu, impossibilitado de aggredir um homem meio morto, haver-te-ia fugido para me expôr á morte que encontraria em qualquer parte. Juro-te, pela memoria de minha irmã te juro, que isto o senti eu ao pé do pobre Bénard, quando te vi soccorrel-o. N'esse momento forjou o ciume as cadeias que nos teem agora aqui presos. Comecei por aborrecer-te, é certo. Sobre este annel, que tirei do dedo de minha pobre irmã morta, jurei vingal-a, Rosina, porque primeiro me derrubaram a mim para que eu não pudesse defendel-a, e depois a assassinaram a ella, a minha mãe, e a minha avó. Meu pae, que já sei ter morrido no mesmo dia, porque houve participação official de ser reconhecido, foi vencido pelo azar do combate, não foi assassinado. E depois era um soldado, e um soldado em campanha ou mata ou morre. Mas as pobresinhas que mal faziam á França? Eu accordei do deliquio motivado pelo ferimento que recebi, sem saber o que se tinha passado. Estendi o braço e senti um corpo; apalpei e conheci roupas de mulher. Achei uma cabeça. Tacteei-lhe os contornos, e não me enganou a mão quando me pareceu ser aquelle o perfil de minha irmã. Era noite, bem sabes: dentro a escuridão; a tempestade fóra. Eu sentia vibrar a espinha dorsal como se fôra d'aço, fria como elle. Procurei luz, quasi louco. Mal me podia suster nas pernas. No cerebro ardia-me um vulcão; em derredor do craneo sentia a friura do gelo. E a luz mostrou-m'as, a ellas, minha irmã, minha mãe, minha avó, mortas, desgrenhadas, deitadas no soalho, e rodeadas das sombras que a interposição dos moveis projectava na parede, parecendo moverem-se, bracejar, escancarar a bocca, casquinar gargalhadas que o vento, lá fóra, parecia rir diabolicamente por ellas. Eram horrores da minha imaginação, eram visões da febre, porque eu n'essas horas incomparavelmente angustiadas delirei, enlouqueci, morri em mim mesmo{116}para renascer n'um cadaver. E o sangue, Rosina, o sangue d'ellas, empoçado no soalho, tão vermelho que parecia incendiar-se ao reflexo da luz! Foi então que a Providencia me soccorreu e me permittiu um esforço sobrehumano. Beijei minha irmã, abracei minha mãe, acariciei minha avó, falei-lhes, não sei o que lhes disse, não me lembra, e estremecendo do contacto das mãos de minha irmã, que pareciam de marmore, e que do marmore tinham os veios roxos e azues, tirei-lhe delicadamente do dedo, como se ella pudesse molestar-se,—ella, que era tão franzina!—este annel querido, sobre o qual proferi o meu juramento de vingança, que até hoje tenho cumprido, e que cumprirei até que Portugal succumba ou triumphe d'uma vez.E como se a arrebatada eloquencia o repuzesse ainda em meio das desgraças que historiava, pendeu ao peito de Rosina, extenuado, descóradas as faces, revoltos os cabellos, flammejante o olhar.Rosina ameigou-lhe a fronte banhada de suor frio, e docemente lhe pediu perdão de o ter compellido a avivar tão recentes e profundas dôres.Graça Strech estava preoccupado, como se procurasse um pensamento que lhe entre lembrava; como se quizesse suster uma visão que se mostrava e fugia.—Ah! exclamou de repente. Não, Rosina, não basta ainda. O teu amor reanimou o meu cadaver, eu devo-te a vida; quero abrir-te a minha alma para que a vejas bem, para que a sondes, e leias n'ella. A tua luminosa intelligencia já te permitte comprehender muitas palavras do idioma portuguez. Pois bem, aqui tens uma prova irrecusavel que não póde deixar a minima duvida no teu espirito...E, desabotoando o uniforme, tirou o maço das cartas d'Augusta.—É esta—continuou, procurando—é esta, lê aqui lê bem. Foi ha dois annos, no seu dia natalicio, que lhe mandei este annel. Vê o que o anjo me respondia. Lê, esta é a prova, lê: «O teu annel, José, o teu annel, que me pareceu acompanhar a tua alma, porque a tive todo o dia ao pé de mim, não me deixará até á hora em que a amortalhadeira m'o tire do dedo. Pedes desculpa de que seja liso, de que só tenha uma pedra!... Tontinho! O teu coração pésa mais do que{117}o annel, e a avósinha diz que os anneis de muito feitio apenas são proprios das camponezas.» Vê, Rosina, olha para este nome—Augusta—o unico de mulher que pronunciei antes do teu...—José! exclamára Rosina divinisada por uma aureola de condoída doçura, que parecia esbater-lhe o semblante no azul do céo.A natureza dascaía na deliciosa morbidez do anoitecer. As labaredas que a ambos afogueavam o coração foram bastantes a seccar as lagrimas d'um e outro. Se eu quizesse passar por um escriptor tão casto como os que uzam adoçar o acre das situações violentas, diria que se ouvia rumorejar as folhas, sendo os labios que rumorejavam. Essas ultimas revelações tanto contraíram os elos da cadeia, que já não era possivel medir a distancia interposta ás duas almas embevecidas.Se ali, n'aquellas paragens onde o grave Faria e Sousa achou que era torrão azado para localisar astucias de namorados; se áquella hora, como na tragedia de Goethe, estivesse ali Mephistopheles, bradaria com alegria satanica:Perdida!
[6]«Historia antiga e moderna da sempre leal e antiquissima villa de Amarante». etc., por P. F. de A. C. de A.—1814, pag. 54.[7]«Historia geral da invasão dos francezes em Portugal», por José Accurcio das Neves. TomoI, pag. 282.[8]Veja-seElogio de Silveira, pelo padre mestre dr. fr. F. de S. T., eSilveira, poema por J. S.
[6]«Historia antiga e moderna da sempre leal e antiquissima villa de Amarante». etc., por P. F. de A. C. de A.—1814, pag. 54.
[7]«Historia geral da invasão dos francezes em Portugal», por José Accurcio das Neves. TomoI, pag. 282.
[8]Veja-seElogio de Silveira, pelo padre mestre dr. fr. F. de S. T., eSilveira, poema por J. S.
Quatorze dias durou, como dissémos, a heroica defeza da ponte d'Amarante.
Foi aquella uma proeza que requeria desfecho condigno, o que infelizmente não aconteceu. Reforçado o inimigo ao decimo terceiro dia de combate, e animado pela presença do marechal Soult, preparou-se para uma lucta decisiva, que o nevoeiro com que amanheceu o dia seguinte viera inesperadamente coroar.
Perdidos os nossos na cerração da metralha e da neblina, e atacadas pela rectaguarda algumas baterias, tiveram de abrir passagem por entre uma densa floresta d'armas, marchando em retirada para Mezão Frio e Campeã, a tempo que o general Silveira recuava para Entre-os-Rios.
É realmente assombrosa a historia portugueza nas paginas que dizem respeito ás guerras peninsulares.
São tão descommunalmente grandes os factos, que, em sua mesma simpleza, ora se nos affiguram episodios d'Homero, exuberantes d'esforços titanicos, ora se retingem dos toques sombrios de Dante.
As façanhas da invasão franceza claramente revelam que ha pouco mais de sessenta annos corria ainda nas veias dos portuguezes o sangue dos valentes d'Ourique, Aljubarrota e Montijo. Renasciam os heroes das cinzas dos heroes, como se a gloria fosse herança de paes a filhos. Podia o animo portuguez desvariar se por momentos, como já anteriormente fizemos notar, que logo despertava melhor retemperado para a rehabilitação. Assim é que 1640 faz esquecer 1580, e que o vulto homerico de João Pinto Ribeiro resgata a perfidia de Miguel de Vasconcellos.
Hoje, as batalhas que outr'ora eram campaes, volveram-se parlamentares, isto é, falamos muito e praticamos{83}pouco. A apostrophe «S. Jorge e ávante!» foi substituida por est'outra: «Senhor presidente, peço a palavra!» Ha menos soldados e mais deputados, menos regimentos e mais commissões. Não obstante, alguma faulha resaltaria ainda das cinzas quentes das nossas conquistas para atiçar o incendio das paixões, na hora em que perigasse a independencia da patria.
Aconteceria, porém, que muitos deputados, que nas côrtes de S. Bento discursam calorosamente sobre a nossa autonomia, requereriam, dada a voz de alarma, inspecção da junta de saude para serem considerados invalidos...
Mas iamos nós falando dos feitos portuguezes durante as guerras peninsulares. Estupendos foram, é certo.
No combate da ponte d'Amarante, por exemplo, perecera gloriosamente um official d'artilharia, muito lastimado por seus companheiros d'armas, incluido o general Silveira, que lhe abraçou o cadaver.
O tio do official, e a mãe, que era viuva, vestiram-se de gala, dizendo esta nobre mulher aos dois filhos que lhe restavam, e estavam pranteando o irmão:
—Não choreis, filhos. Vosso irmão não morreu. Vós é que morrereis da morte da vergonha se vos não mostrardes dignos da sua memoria.
Este exemplo d'animo varonil em peito feminino prova que não anda phantasia popular na lenda d'aquella Deosadeu, de Monsão, de Celinda, a heroina de Certã, de Filippa de Vilhena, e doutras celebradas matronas portuguezas, que deram á patria uma geração de meninas que fazemcrochet.
É egualmente abundante de heroismos a chronica da primeira invasão, á parte pequenas manchas, como aquellas que dos copos dos officiaes francezes cairam sobre o tablado do theatro de S. Carlos.
Deixem-me citar um facto na mesma linguagem em que o historiador o descreveu.
«O juiz de fóra de Algozo, Jacintho d'Oliveira Castello Branco, fez-se digno de honrosa memoria, pela sua repugnancia ás ordens do governador intruso; por continuar debaixo d'elle a uzar do nome de S. A. R.[9]em alguns processos; por conservar as armas{84}reaes no pelourinho e na casa da camara d'aquella villa; e por outras acções, egualmente sublimes e arriscadas. Jantando em sua casa varias auctoridades portuguezas, que o increpáram de não cumprir as ordens reiativas á contribuição de guerra, respondeu-lhes, lançando mão a um copo, e fazendo uma saude a S. A. R. o principe regente.»
Não é menos avantajado em heroicidade o procedimento do juiz de fóra de Marvão, Joaquim José de Magalhães Mexia, que, intimado para se render ao jugo estrangeiro, fez desistencia publica perante os seus escrivães, e foi prostrar-se diante da imagem do Senhor dos Passos da sua villa, encostando a vara á imagem por fórma que parecia haver-lh'a depositado nas mãos, e recolhendo-se depois a casa para vestir-se de luto.
É pois digna de que a reproduzam na tela os melhores pintores, os melhores poetas e os melhores historiographos—esta ingente lucta d'um pequeno paiz, apenas soccorrido por outro, contra o gigante tresvariado pela gloria, que firmava os pés nas planicies da Italia, e alguns annos depois fôra visto á luz, para elle sinistra, dos incendios de Moscow, enchendo, de sul a norte, a Europa inteira.
Alguns talentos verdadeiramente robustos teem lançado o colorido do seu pincel sobre esta enorme tela, nunca esgotada. Que me lembre n'este momento, Rebello da Silva, Camillo Castello Branco, Pinheiro Chagas e Arnaldo Gama trataram brilhantemente tão fecundo assumpto. Eu chego com pequeno viatico, embora não venha tarde, unicamente para mostrar que tenho seguido reverentemente o sulco que todos quatro abriram no vasto campo da guerra peninsular.
Reatando a narrativa.
Graça Strech foi um dos soldados portuguezes que mais se distinguiram nos ultimos dias da defeza da ponte d'Amarante.
O general Silveira estimou-o desde que elle, apresentando-se, lhe disse: «Venho bater-me como leão porque venho vingar-me»; e começou a admiral-o horas depois da apresentação.
Ao anoitecer do mesmo dia, fizeram reparo alguns soldados n'uma camponeza, que parecia muda, e se bandeava com o sequito do exercito.
—D'onde viria? perguntavam elles.{85}
—É minha... irmã, atalhou commovido Graça Strech. Não podia convencel-a a que me não seguisse, porque a infeliz nem ouve nem fala. Veiu vindo atraz de mim, receiosa de que eu morresse sem ver-me. Pobresinha!—acrescentou com os olhos marejados de lagrimas—não faz mal a ninguem, e é muito minha amiga.
—Que pena a sua desgraça, que tão formosa é! observou piedosamente um portuguez.
—Nem se diria portugueza! exclamou outro com a affouteza que lhe dava o não estar na presença de portuguezas.
Graça Strech replicou:
—Ha com effeito ali alguma coisa allemã no rosto como no nome. Os nossos antepassados tinham sangue teutonico. Ainda nos corre nas veias o sangue d'elles. A pobresinha estremece-me. Como não tem ouvidos nem voz, quer estar ao pé de mim sempre que póde, como para falar pela minha bocca e ouvir pelas minhas orelhas. Eu sou quasi a sua moleta... Tambem a infeliz não tem ninguem mais n'este mundo, e ella de si pouco tem...
—Infeliz! ponderaram os soldados enternecidos.
Rosina Regnau interpretou magistralmente o seu papel. Passavam por ella e diziam:A muda allemã!e ella, apesar de entender a phrase á força de repetida, nem sequer voltava o rosto para agradecer aquella esmola de compaixão.
Se não ouvia! se não falava!
Sentava-se entre as bagagens a entrançar folhas verdes ou a desfolhar flôres.
Algumas vezes mettia-se por entre as arvores para se inteirar da posição das tropas.
Depois d'um combate, aproximava-se dos soldados, quando Graça Strech se demorava ainda, e pousando a face na mão e fechando os olhos, perguntava por gestos se «o irmão» estava ferido ou morrera. Os soldados, que já a comprehendiam, acenavam-lhe negativamente.
Assim decorriam os dias, sem que a alma da vivandeira saisse para fóra de si mesma.
Quem adivinhava ali que de receios, de maguas, de pensamentos, de esperanças muito vagas... agitavam aquelle formoso cadaver que só tinha vida nos olhos?{86}
Ninguem.
E todavia ella estava pensando sempre...
A sua ambição, o seu sonho, o seu ideial era possuir inteiramente a alma de Graça Strech, porque ella desde o momento da fuga para ninguem mais vivia.
—Achou decerto—suspeitava ella—que eu não era digna de receber a confissão do seu segredo. Quem és tu, disse elle lá comsigo, pobre vivandeira, para comprehenderes a enormidade d'um amor que vive na morte? Se aquelle annel fosse realmente de sua irmã, curvar-me-ia a seus pés e beijar-lh'o-ia. Mas se elle cingiu o dedo d'outra mulher, que o amava muito menos do que eu, arrancar-lh'o-ia da mão ainda mesmo com a certeza de morrer esmagada pela sua colera. Cumpre pois que, por sacrificio sobre sacrificio, eu chegue a nobilitar-me a seus olhos o bastante para elle me convencer. N'esse dia serei sua amante; por emquanto sou apenas o seu cão. Vamos, solitario molosso, affaga o teu dono...
Graça Strech passava, atirava-lhe uma flôr, e sorria...
Ella sorria tambem.
Guarnecidos todos os pontos do Douro, desde a retirada d'Amarante até a acção d'Ovelha, tiveram as tropas algum descanço apenas interrompido por escaramuças e reconhecimentos.
Foi n'esse intervallo que Graça Strech começou a aprender a tocar guitarra com um soldado, filho da Regua, e muito conhecido ali por excellente musico.
A natural aptidão de Graça Strech fez que dentro em pouco se avantajasse ao mestre. Assim era que não desaproveitava occasião de estar guitarreando ao lado de Rosina, que conservava na physionomia a habitual immobilidade de linhas, como se a musica, que se lhe coava á alma, não lhe desse nenhuma sensação, por não poder ouvil-a.
Ás vezes, de noite, Rosina podia murmurar muito a medo, aos ouvidos de Strech, através dos sons da guitarra:
—José!
Ella sabia pronunciar este nome como se de pequenina o aprendera.
Depois olhava em redor, como para adquirir a certeza de não ser escutada, e repetia maviosamente:{87}
—José!
Elle apertava-lhe convulsamente a mão e respondia:
—Rosina!
E aquelle immenso amor da vivandeira, que renunciára á patria, á liberdade e á voz, contentava-se com exhalar-se n'uma palavra, e ser correspondido por outra.
Ella tambem não pedia mais. Era o cão do soldado: seguia-o.
Quando a tristeza lhe descia ao coração, a indefinida tristeza de quem ama, consolava-se a si propria imaginando-se ainda vivandeira, porque ouvia troar o canhão e sentia no ar o cheiro da polvora.
Era apenas a memoria o que lhe restava do que fôra; o fato da sua infancia sepultára-o ella no fundo das aguas...
Entretanto proseguiam com actividade as operações d'um e outro exercito.
A 22 d'abril entrava em Lisboa Wellesley, commandante em chefe das forças britannicas, que desembarcaram no Porto, na Figueira, etc. As tropas inglezas, de combinação com as portuguezas, começaram a tomar differentes posições. Em Coimbra passaram algumas divisões nos dias 1 e 2 de maio, sendo recebidas com festas que chegaram a tocar o maximo enthusiasmo.
Era aquelle o hymno de esperança da patria, anciosa de liberdade.
Avançaram as tropas alliadas até Agueda, e lograram repellir os francezes desde as Albergarias até Oliveira d'Azemeis, onde Wellesley, depois lord Wellington, estabelecera o quartel general.
No dia 11, a guarda avançada do exercito anglo-luzo destroçou em Grijó os postos avançados francezes que recuaram até Gaya e passaram o Douro, cortando immediatamente a ponte de barcas.
Na vespera d'esse dia atravessára Beresford o Douro na Regua com as suas tropas, repellindo Loison para Amarante, e de Amarante para o Porto; Loison perdera na retirada muitas peças, alguns obuzes, e cento e dezenove carros com bagagens.
Estava pois o flanco esquerdo do exercito francez torneado por Beresford, o direito por Hill em Ovar, e o centro alcançado pelas divisões Trant e Paget.{88}
Durante toda a noite de 11 para 12 marchou o exercito alliado sobre Villa Nova de Gaya.
De manhã, e impossibilitado de passar o rio, soube o coronel Watters que um barbeiro portuense, salvo da vigilancia das patrulhas francezas, havia atravessado n'um barco; aproveitando a conjunctura providencial, e o barco não menos providencial que a conjunctura, passou á margem direita, voltando á esquerda com trez grandes barcos, que pudera obter.
Avisado Wellesley do achado miraculoso, voltou-se jubiloso para o coronel e disse:
—Passem as tropas que couberem nos barcos.
Não faltaram valentes que se expuzessem aos azares da façanha, surprehendendo os francezes que contavam repellir vantajosamente o inimigo quando tentasse a travessia a descoberto.
Foi, pois, o coronel Watters o Martim Moniz da reconquista do Porto.
Percebidos os francezes da audacia heroica do exercito alliado, para logo se desviaram em movimentos confusos, como o redemoinhar das areias no deserto revolvidas pelo simoun. E assim como as areias tomam, erguidas no ar, á luz do sol, irradiações prismaticas que deslumbram, assim resplandeciam, á luz do meio dia, as armas dos francezes baralhando-se tumultuariamente nas ondulações do terreno que medeia entre o caes da Ribeira e o Prado do Bispo.
E então marinhavam as tropas luzo-britannicas pelos alcantis do Seminario, como outr'ora os cruzados pelos despenhadeiros da torre do norte, na tomada de Lisboa, e, para que se complete o parallelo, o que lá era Guilherme, duque de Normandia, era cá Wellesley, lord Wellington.
E já para anciedade dos portuenses se abria manhã d'esperança, á medida que os nossos ganhavam terreno, e mais revoluteavam as hostes francezas nas eminencias sobranceiras ao Douro.
Por um momento se julgou perdido o triumpho, quando a artilharia franceza começou a varejar o Seminario.
Mas não tardou que ao canhão da margem direita respondesse o canhão da margem esquerda, que das alturas do Pilar vomitava torrentes de fumo negro sobre o valle cavado pelo Douro.{89}
Reanimados os portuenses, entraram de preparar barcaças, que conseguiram pôr a salvo do outro lado do rio, e que transportaram as tropas do general Sherbrooke.
Simultaneamente estrondeava no Porto, rolando até ao caes como o rumor longinquo d'uma cathedral em festa, o concerto das vozes, que pregoavam victoria, á mistura com os sons festivos dos campanarios.
Nas janellas da cidade baixa agitavam-se lenços brancos em vertiginoso tumultuar.
Tambem assim accordou Lisboa, cento e sessenta e nove annos antes, na manhã de 1 de dezembro de 1640, quando um punhado de fidalgos portuguezes subjugava nas praças publicas, sem correr uma gotta de sangue, o famelico leão das Hespanhas.
Era o grito de liberdade longos dias reprimido na garganta d'um povo inteiro.
Era o jubilo d'uma nação, que parece apenas occupar alguns palmos de terra no mappa da Europa, á hora em que despedaçava as gramalheiras que por sobre os Pyreneus lhe lançára o César da França, e dizia ao vencedor de Austerlitz: «Tu prostraste a Prussia em Iena, a Russia em Friedland; tu levantaste sobre as baionetas dos teus exercitos os thronos de Napoles, da Hollanda, da Westphalia, e da Hespanha, mas nós fizemos estremecer na tua mão, ó demolidor victorioso, a alavanca com que procuravas revolver nos alicerces o solio portuguez. Que o amigo leopardo da Inglaterra te contrariasse, vá, porque a Inglaterra é muito poderosa. Mas nós, pequenos como somos, fazemos suster o vôo da tua aguia e, audazes como ella, gritamos-lhe para a amplidão que avassalla: Basta! Pára!»{90}
[9]Sua Alteza Real.
[9]Sua Alteza Real.
Retiraram os francezes pelo norte de Portugal, acossados pelo exercito anglo luso.
No dia 17 ganharam Montalegre, no dia 18 passaram a Alhariz, e no dia 19 entraram em Orense, depois de marchas tão violentas como trabalhosas, de perdas consideraveis, e de perseguida vivamente a sua rectaguarda pelas tropas alliadas.
Na passagem pelas povoações que medeiam entre o Porto e a fronteira, deixaram os invasores um rasto de sangue e fogo de que falam com assombro os documentos officiaes.
Á medida que fugiam foram espalhando a morte nas ultimas terras de Portugal, como se quizessem atulhar de cadaveres o abysmo cavado na gloria de Napoleão.
N'uma carta dirigida por lord Wellington ao secretario de guerra, escripta no quartel general de Montalegre, no dia 18, lê-se que: «O inimigo começou a retirada, como já informei a v. s.ª, destruindo uma grande porção dos seus canhões, e munições. Ao depois destruiu o resto d'ambos, e grande parte da sua bagagem, sem conservar mais do que quanto pudessem levar os soldados, e poucas mulas. Deixou ficar os doentes e feridos; e o caminho até Montalegre está juncado de cadaveres de cavallos, e mulas, e soldados francezes, que foram mortos pelos camponezes, antes que a nossa guarda avançada os pudesse salvar. Esta circumstancia é o effeito natural da maneira por que o inimigo faz a guerra n'este paiz. Os soldados teem saqueado e morto a paizanagem, a seu arbitrio; e eu tenho visto muitas pessoas pendentes enforcadas nas arvores ao longo das estradas, executadas por nenhuma outra razão, que eu{91}possa saber, senão porque não eram amigas da invasão franceza, nem da usurpação do seu paiz; e podia traçar-se a rota da sua retirada, pelo fumo das aldeias a que elles lançavam fogo. Temos tomado cousa de quinhentos prisioneiros. Em tudo, o inimigo não tem perdido menos de um quarto do seu exercito, e toda a sua artilharia e equipagem, desde que nós o atacámos junto ao Vouga.»
O marechal Beresford afina pelo mesmo tom:
«Não é possivel pintar a cruel e infame conducta do inimigo; ella póde ser facilmente traçada pelos lamentos dos infelizes paizanos, das mulheres e das crianças, e pelo fumo das villas, aldeias e casas incendiadas: elle a nada perdôa: esta villa (Amarante) está inteiramente destruida: a de Mezão Frio o está em proporção do tempo que tiveram...»
Passavam, pois, os francezes, devastando, incendiando, matando.
Quiz o duque de Dalmacia que o occaso da sua invasão fosse allumiado pelas labaredas do incendio.
Eram os ultimos lampejos d'uma victoria ephemera. Mas a voz da patria, á hora do resgate, erguia-se mais alto que o crepitar das chammas no pendor das serras, que os lamentos dos velhos e das crianças que succumbiam á ultima carnificina da segunda invasão franceza.
No Porto, governado militarmente pelo coronel Trant, grande era o jubilo, se bem que não tão cego que sir Arthur Wellesley não houvesse proclamado aos habitantes que os feridos e prisioneiros estavam debaixo da sua protecção, e que seria considerado criminoso quem os offendesse.
Em Lisboa, mal que no dia 17 se teve noticia official da restauração do Porto, salvou o castello de S. Jorge, sendo correspondido pelos navios de guerra inglezes surtos no Tejo; saiu bando para que a cidade se illuminasse por trez dias, no ultimo dos quaes mandou o governo cantar umTe-Deumna Basilica de Santa Maria Maior.
Internado o inimigo no territorio da Galliza, as operações do marechal Victor na Extremadura hespanhola, ameaçando nova invasão de Portugal pelo Alemtejo, obrigaram sir Wellesley e o marechal Beresford, solicitado tambem o primeiro pela junta central de Hespanha residente em Sevilha, a marchar{92}com seus respectivos exercitos para o sul do reino.
Retirou, pois, sir Wellesley, posto que a despeito do governo portuguez, para a cidade do Porto, d'onde passou a Coimbra, Thomar, Constancia, e Abrantes, acampando na margem direita do Tejo. O exercito portuguez acompanhou o movimento retrogrado do exercito inglez, marchando para Abrantes, no intuito de atacarem em commum o marechal Victor, que estanceava nas visinhanças do Guadiana. Não se demorou, porém, o marechal Victor n'esta posição. Avançou, com os seus 90:000 homens, para a margem esquerda do Tejo, no intuito de o passar na ponte d'Alcantara.
Reportemo-nos ao dia 14, dia assignalado pela brilhante defeza d'esta ponte durante mais de seis horas.
Eram oito da manhã quando o inimigo, em trez columnas, rompeu o ataque por differentes pontos.
D'uma e outra parte foi terrivel o fogo da artilharia até que, cerca do meio dia, vendo o regimento de milicias de Idanha-a-Nova consideravelmente dizimadas as suas fileiras, retirou em debandada, deixando ficar no campo apenas a legião lusitana.
Em tão desesperada conjunctiva, o coronel Mayne mandou incendiar as minas da ponte, rompendo a explosão apenas por um lado, e ao major Grant confiou o commando das baterias para proteger a retirada dos nossos, que se realisou pelas trez horas da tarde.
A cavallaria franceza vivamente perseguira então a nossa pequena divisão, sem que todavia pudesse impedir que se acautelassem os feridos e juntassem os dispersos.
Ora um dos feridos na defeza da ponte d'Alcantara chamava-se José Maria da Graça Strech.
Quando, em logar seguro, o tiraram d'um carro, onde lhe eram companheiros outros valentes portuguezes, amuda alemã, como geralmente chamavam a Rosina Regnau, esteve a ponto de trair o segredo do seu disfarce, vibrando um doloroso grito, o qual se apagou n'um rouco murmurio, que é, em lances afflictivos, o supremo esforço dos que não teem voz.
E logo correu a encostar ao peito a cabeça do ferido,{93}a examinar a ferida, e a perguntar por gestos se poderia resultar perigo.
Os soldados, condoídos de tão carinhosa dedicação, responderam logo, desde muito costumados a prognosticar sobre ferimentos, gesticulando negativamente.
E a muda poz as mãos, levantando os olhos ao céo e entrou de affastar os cabellos de Graça Strech, banhados de suor frio, para contemplar-lhe a physionomia levemente alterada.
Elle sorria-lhe com os olhos marejados de lagrimas e serenava-a acenando-lhe meigamente com a mão.
Um dos soldados, abeirando-se de Graça Strech, disse curvando-se para elle:
—O que tu tens de valente tem ella de boa! Sois dois irmãos dignos um do outro.
Graça Strech encarou n'elle e meneou a cabeça; a muda ficou indifferente a curar as feridas do irmão.
E só depois que não podia ser vista nem ouvida de estranhos, começou, alternando palavras com beijos, a falar-lhe tão baixinho, tão baixinho, como se até dos ouvidos d'elle guardasse o seu segredo, e só quizesse que a escutasse a alma...
—Não é nada, José, meu José. Elles disseram e eu agora bem vi. Sabes que fui vivandeira e que tambem entendo o meu pouco de feridas. Não! A morte não te rouba d'esta vez á tua vingança e ao meu amor.
—Rosina, minha adorada Rosina! Alma pura! Coração nobilissimo! Obrigado. Curva-te sobre a minha bocca; queiro beijar a tua face...
—É o primeiro beijo! murmurou ella circumvagando um olhar cauteloso.—É o primeiro beijo que de ti recebo... Obrigada, meu Deus!
—Sim, tu és muito melhor do que eu... Tens-me dado tantos, tantos... Mas—e perdoa-me, Rosina, perdoa-me—a minha alma só agora te póde beijar livremente...
—Ó felicidade!... Praza a Deus que se este beijo me abre a tua alma eu a chegue a possuir inteiramente, porque o amor, meu José, é tão egoista, tão egoista...
—E não crês possuil-a ainda?
—Não. Todavia tenho esperança... Virá um dia.{94}Cala-te, que te faz mal falar... Já não foram pequena felicidade estas palavras, por que, tu bem sabes, eu só tenho palavras para ti e para... Deus.
Foi longo e reparador o primeiro somno do ferido.
Rosina Regnau velou á cabeceira da tarimba, absorta nos seus pensamentos pela primeira vez illuminados por um raio de sol. Estava folheando o roseo poema do primeiro beijo, decompondo em estrophes maviosas a harmonia que da alma subira aos labios. Era a primeira gotta de orvalho na aridez do seu destino, uma parcella de ternura em recompensa dos thesouros que ella por tanta vez prodigalisára sobre as faces de Graça Strech.
O primeiro beijo! A santa loucura das almas que se amam, como diz a trova:
Foi aqui mesmo, á tremulaSombra do olmeiro,—Dizia o pastor Lícidas—Aqui, aqui,Que eu hontem n'estes labiosTive o primeiroBeijo da minha Flérida,E endoideci![10]
Foi aqui mesmo, á tremulaSombra do olmeiro,—Dizia o pastor Lícidas—Aqui, aqui,Que eu hontem n'estes labiosTive o primeiroBeijo da minha Flérida,E endoideci![10]
E baralhavam-se-lhe os pensamentos com a precipitação da ephemera demencia que a felicidade dá.
—Sim... eu começo a ser feliz. Diz-me o coração que o serei... Mais provas! mais provas, senhor meu coração! Mostre-se digno d'aquella enorme alma, inspire-lhe confiança para lhe recolher os segredos, e possua-a, e juntem-se, e prendam-se, e identifiquem-se, tão unidos, tão unidos, que nem a morte os possa separar... Sem isso não ha felicidade completa... Sim, bem vês, pobre coração, meu pobre coração que tanto tens soffrido, que se aquelle annel fecha ainda a saudade de um amor redivivo, não pódes por emquanto conquistar a fortaleza que se não renderá. Tu sabes lá como a saudade se bate entrincheirada detraz de um tumulo! Então terás ainda muito que soffrer e que luctar, pobre doente para quem hoje raiou o primeiro symptoma da cura, meu triste coração{95}tão soffredor! Mas forceja, vá, porfia, esforça-te por arrancar-lhe o segredo... Se aquella é a ultima memoria de uma irmã querida, alegra-te, pobre louco, porque nem a amante desluzirá a irmã, nem a irmã desluzirá a amante. A alma d'elle é tamanha que chega para mim e para ella. Para o que não chega é para duas amantes, que se disputam palmo a palmo o terreno, que luctam, que combatem, que oppõem ciume a ciume, despeito a despeito, embora uma esteja morta e outra viva... Não, «a gentil vivandeira» não soffre competencias. Já se fez amar d'um exercito; é preciso que se faça amar d'um homem. Pois então perde-se tudo, a patria, a liberdade, o socego, as florestas das Ardennas, as minhas queridas florestas das Ardennas, que talvez não mais torne a ver, e as montanhas do Hainaut e do Luxembourg, que eu conheço desde pequenina, e o Semoy e o Lesse e o Ourthe e o Eure, tudo, n'uma palavra, perde-se uma vida inteira de dezoito annos, para amar um homem, para ser a sua sombra, o seu cão, e não se ha de possuir ao menos todo o seu coração, todos os seus pensamentos, os seus segredos todos? Quem me diz porém que não hei de vencer? Não vi eu porventura tantas batalhas, não as vejo ainda, e não posso tirar da incerteza da victoria um bom agouro para o meu futuro? Dize-te, pobre Rosina, diz a ti mesma o que são os combates que tantas vezes tens visto. Pinta um quadro para ti. Anima-te! Olha... São duas as montanhas alcantiladas, sombrias, enormes... Uma defronte da outra... No meio um rio sereno, e crystalino a principio... depois vermelho de sangue. Sobre o rio uma ponte, e sobre a ponte, como a desabarem para ella, as montanhas. E n'uma e outra os exercitos, os uniformes variados, os kepis multicôres, as espadas reluzentes, os cavallos pendurados das fragas, os cavalleiros pendurados dos cavallos, as carretas suspensas na ladeira, as peças que abrem a sua bocca de fogo para vomitar o fumo e a morte, a voz dos clarins e a voz dos commandantes, pragas, juras, maldições, gemidos, blasphemias, sacrilegios, e a turba ora a estreitecer, a apertar-se, a juntar-se em pinha, ora a crescer, a alargar-se, a fazer-se onda, a trasbordar, ora a rolar como avalanche pelo monte abaixo, ora a marinhar por elle, a trepar, a agarrar-se, tão espessa, tão escura, tão confusa como se fosse{96}uma nuvem que saísse do rio, e o sol a doiral-a agora e logo o fumo a envolvel-a, e já se desencadeiam d'um e d'outro lado ameaçando chocar-se sobre a ponte, que corta o valle, e que afundará com elles, e baralham-se, enovelam-se, redemoinham, e apparecem uns, e desapparecem outros, e tombam cadaveres ao rio, e estruge no ar a grita, e corre ensanguentada a agua, e são aquelles os que vencem, os que estão em maior numero, e vão esmagar os outros, e arvorar a bandeira... mas rolam de novo, precipitam-se, confundem-se, e são estes agora os que triumpham, lá se embrenham por entre o inimigo, passam como corisco, e assombram-n'o, fulminam-n'o, e a victoria é sua! Bem, Rosina Regnau, assim foi em Amarante e ainda agora em Alcantara; assim póde ser para ti. Quem te diria no hospital de sangue, quando o estavas contemplando adormecido, tão pallido, tão mergulhado no somno, e tu te lembravas de que eras franceza e elle portuguez, quando tu já o amavas e elle dormia, quem te diria, ó vivandeira ignorada, que dias depois havias de seguil-o por toda a parte, e perder a tua voz para que te não conhecessem, e encostar ao teu peito a cabeça d'elle, que caira ferido, e recber-lhe o primeiro beijo? Ninguem! Nem aquelle endemoninhado do Beauvier, que era o bruxo do exercito, e andava sempre a olhar para os astros, e adivinhava quando chovia, e a lua havia de ser cheia, aquella bonita lua cheia da França!... Ninguem, Rosina, ninguem! Pois tambem não ha magico na terra que saiba dizer se tu chegarás a vencer o seu coração de modo que te julgues tão poderosa, tão senhora do mundo como o imperador, e por feitio que sejas tão ambiciosa como elle, que não deixa palmo de terra a ninguem!...
Interrompeu-lhe este intimo monologo uma contração do ferido, que balbuciou monosyllabos.
—Sonha!—pensou ella—e quem sabe o que sonha? Estou aqui tão perto d'elle, a vel-o, feição por feição, linha por linha, a examinal-o tanto, que dir-se-ia querer contar-lhe um por um os seus cabellos, e sinto-lhe o halito na minha face, e fala, e só eu o oiço, e todavia não sei de quem são os seus pensamentos, nem o que querem dizer, o que está recordando, o que está sonhando, finalmente! Tenho diante de mim, como livro aberto, a sua physionomia e{97}{98}{99}não posso lêr na sua alma! Sei que ha ali um mar mysterioso, e não posso sondal-o. D'uma vez—recordou ella—lia o meu pae Regnau os jornaes, e disse: «Fulano e sicrano foram á pesca das ostras.» E acrescentou: «E o imperador que as tem bem boas na Corsega!» E eu perguntei ao pae Regnau para que iam elles pescar as ostras, tão longe, se podiam pescar outros peixes no Sena. «Tontinha!—respondeu elle—porque das ostras é que se tiram as perolas, e é preciso metter-se uma pessoa ao mar para pescal-as!» Bem me ensinaste tu, pae Regnau! O mar esconde tanta coisa... que até esconde as perolas. Aqui estou eu á beira do oceano e não as vejo... As que eu procuro, vivem escondidas ali...
IlustraçãoCaiu desamparado, vibrando um grito... (pag. 40)
Ilustração
Caiu desamparado, vibrando um grito... (pag. 40)
E apontou para o coração do ferido.
Os labios de Graça Strech pareceram descerrar um sorriso. Rosina, que, apesar dos seus pensamentos, estava attenta ao menor movimento, ao mais subtil perpassar d'uma sombra, estremeceu ao rebramir da tempestade interior:
—Sorri! pensou ella.—Havia n'este seu sorriso a melancolia de quem está recordando a felicidade perdida... Lembra-se talvez d'uma hora em que, rosto a rosto, juntas as mãos, sorrindo, falando, sonhando, lhes fugia o tempo mais rapido que o pensamento... E ella, a mulher que elle amava, era decerto formosa, muito formosa, e dizia-lhe que jámais haveria no mundo quem viesse a amal-o como ella... E elle acreditou-a, e por isso a ama ainda no tumulo, e jurou que, viva ou morta, lhe seria eternamente leal, porque o coração lh'o havia dado para todo o sempre... Ah! mas quem sabe, durante o combate, a quem ha de pertencer a victoria? O teu quadro, Rosina Regnau, é verdadeiro. Lucta até o fim, vivandeira, faze como os soldados que foram teus irmãos. Combate a saudade com a esperança. Soffre, porque o soffrer é de quem lucta. Mas porfia, conquista resignadamente esse coração onde desejas reinar, porque todo elle é preciso para o throno da tua felicidade.
Abriu Graça Strech os olhos e relanceou a Rosina um olhar suavemente triste.
—Sempre aqui!—segredou elle.
—Aqui é o meu posto de enfermeira voluntaria.
—Eu dormi, Rosina: dormi e sonhei... com minha{100}irmã. Estava-a vendo aos cinco annos, vestidinha de branco, quando a fomos levar ás Chãs, e quando eu tinha seis... Nunca isto me esqueceu! Trepámos a uma cadeira para descer as maçãs que o padre capellão tinha a amadurecer no friso da sala. Augusta subiu denodadamente, mas faltou-lhe a coragem para saltar ao chão... E começou a gritar, a gritar, de sorte que o padre capellão a veiu surpreender com as maçãs escondidas na abada do seu pequenino vestido...
Sentiram-se passos.
—Cala-te! apostrophou Rosina. Cala-te! Rosina Regnau já aqui não está. Fica apenas amuda allemã.{101}
[10]Ainvenção dos jardinspor Gessner; tradução do sr. Visconde de Castilho (Antonio Feliciano).
[10]Ainvenção dos jardinspor Gessner; tradução do sr. Visconde de Castilho (Antonio Feliciano).
Foram proseguindo as operações da trabalhosa campanha de 1809 contra os francezes.
Depois de segundo combate na ponte d'Alcantara, a 10 de junho, poderemos, por nos furtar a minudencias fastidiosas em romance, ir direitos á decisiva batalha pelejada nas proximidades de Talavera de la Reyna, em Hespanha, dirigida pessoalmente d'um lado pelo rei José, e por lord Wellington do outro.
Pela retirada dos imperiaes á vista do inimigo terminou esta importante batalha, sendo todavia numerosas as perdas dos alliados, mórmente dos inglezes.
Meiado agosto, começou o exercito portuguez a retirar para Zara, entrando em Portugal por Salvaterra do Extremo, dirigindo-se a Castello Branco, d'onde os differentes corpos foram enviados a disciplinar-se, durante o resto do anno, em determinados acantonamentos.
Não podemos, porém, encerrar esta ligeira chronica dos feitos militares de 1809 sem retroceder ao segundo combate da ponte d'Alcantara, a que José Maria da Graça Strech não assistiu por estar ainda mal convalescido do ferimento que no primeiro ataque recebera.
Entre os feridos francezes, que ficaram prisioneiros, requeria prompto curativo um que denunciava claros indicios de perigo.
Rosina, mal que o viu, reconheceu-o.
Era Bénard, por alcunhaLa goutte.
Então lhe acudiram de tropel pungentes recordações da sua vida de vivandeira, quando, sentada no acampamento, viaLa gouttepuxar da sua garrafinha de vidro branco e offerecer aguardente por esta formula inalteravel:
—Voulez-vous lá goutte?{102}
Esta phrase motivou aquelle cognomento, que valia tanto como dizer em portuguez:O pinga.
Bénard era um excentrico, que tinha intermittencias soturnas e luminosas. Umas vezes lhe dava a embriaguez para se deixar cair n'uma tristeza insociavel, outras era causa d'uma garrulice chistosa e alegre.
Mal que se levantava, enchia a sua garrafinha de aguardente. Bebia até ao meio, erguendo o frasco para venficar á luz se a medida era exacta, e, certificado, acabava d'enchel-o com agua fria.
Convém, porém, saber que Bénard classificava os seus companheiros d'armas do seguinte modo:
1.º—Amigos capazes de emprestar.
2.º—Amigos capazes de não pedir.
3.º—Amigos capazes de não emprestar.
4.º—Amigos capazes de pedir.
5.°—Conhecidos.
Mettida a garrafinha entre a fardeta, começava o processo inalteravelmente observado todos os dias.
Encontrando um amigo da primeira classificação, abeirava-se d'elle e, pondo a mão no peito, perguntava:
—Voulez-vous la goutte?
O amigo bebia até ao meio, porque elle não consentia que fosse mais longe. Depois, segunda dynamisação, outra vez a garrafa cheia; e, succedendo-se as dynamisações aos amigos, pela ordem por que os tinha classificado, acontecia que os simplesmente conhecidos bebiam agua commum passada por uma vasilha que tivera aguardente.
—Não merecem mais! dizia Bénard. Estes só teem pela gente um cheiro de interesse.
Era poisLa goutteuma personagem lendaria no exercito francez, e já passava em proverbio dizer-se, quando se era mal servido:
—Eusou conhecidodo Bénard.
Rosina Regnau, ao vel-o ferido, sentiu-se propellida a dolorosa piedade. Estava alliLa goutte, que ella tantas vezes vira desde a sua infancia, e de quem tantas vezes se rira na edade em que toda a excentricidade nos parece ridicula.
E todavia o Bénard era um philosopho profundamente conhecedor da alma humana. D'uma vez perguntaram-lhe:{103}
—Se encontrasses o imperador, como o consideravas?
—Dava-lhe da ultima lagarada, como elle dizia. Bem se importa o imperador commigo! Não me empresta dinheiro, porque o ganho eu; não m'o pede, porque bem sabe como é mesquinho opretdas tropas.
Bénard trazia pendurada do pescoço a sua garrafinha. N'esse dia, como a refrega lhe não désse tempo para offerecera gotta, bebera-a elle toda, por excepção. O resultado foi expôr-se á morte com um denodo que, sommado, daria a embriaguez de quatro amigos. Avançou imprudentemente e ficou prisioneiro com uma bala no peito.
Rosina, que sempre evitava ser vista dos prisioneiros francezes, não pôde todavia resistir a soccorrel-o, quando o seu coração por um momento retrocedeu ao passado. Quasi involuntariamente o fez.
O ferido, sentindo que alguem o estava curando, abriu os olhos e demorou em Rosina um longo olhar. Foi então que ella mediu o alcance da sua imprudencia.
—Oh! rouquejou o ferido, sim, és tu! Eu tenho a vista embaciada, mas ainda te conheço! Rosina Reg...
Ella tregeitou afflictivamente implorando silencio.
O ferido, desvairado pela embriaguez ou pela febre, não a comprehendeu.
Graça Strech havia-se aproximado e assistia entre respeitoso e ciumento áquelle lance.
O ferido continuou com difficuldade.
—Fugiste, Rosina... Pobre rapariga!.. Como lá todos te querem mal!... Se te vissem... matavam-te... Sim, eu sou Bénard... Tinha hoje a minha garrafinha cheia... Bebi-a toda... Tomei calor... Boa gotta!... Aguardente de Hespanha! Vão estes perros, que não teem um palmo de terra, e mettem-me uma bala no costellame... Irra! Boa aguardente... E tu aqui! Entre elles!... Maldita sejas... O pobre Regnau ha de dar pulo de cobra no outro mundo...
Graça Strech, se bem que exhaurido de forças, estremecia em convulsões repetidas, e tinha as faces esbraseadas por um colorido doentio. Todavia parecia detel-o um braço invisivel; pesado como se fosse de ferro, que lhe offegava a respiração.{104}
Rosina chorava abundantes lagrimas, que lhe deslisavam pelas faces mortalmente pallidas.
Postoque não estivesse presente, por felicidade, ninguem que pudesse ouvir a revelação do segredo, além de Graça Strech, ella não ousava falar. N'aquella hora, em que algumas mulheres e os convalescentes soccorriam os feridos, a todos parecia natural que os dois irmãos, segundo toda a gente dizia, se dedicassem ao curativo d'um soldado que se affigurava moribundo.
Graça Strech aproximára-se desde o principio por lhe causar estranheza que Rosina Regnau se dispuzesse a soccorrer o prisioneiro.
Primeiro se apiedou por conhecer n'esse acto o impulso natural de coração de Rosina voluntariamente opprimido no captiveiro de um amor impetuoso. Sobreviera porém o ciume quando se lembrou de que a vivandeira habitualmente se esquivava a cuidar de feridos francezes, e de que extremado devia ser o interesse para affoital-a á temeridade de se deixar reconhecer.
É bem certo que o ciume completa o amor: porque o ciume é a desconfiança que leva o coração a sondar a profundeza do amor. Então se investiga, se espiona, se perscruta. E se o amor é verdadeiro, é puro, é santo, assim como se lhe mede o alcance, e se reconhece infinito, vem a convicção de que todos os sacrificios são poucos para galardoal-o, chega o arrependimento de se haver sido injusto, e accorda o estimulo da consciencia para o não tornar a ser. N'essa hora é que Rosina Regnau começou, sem o saber, a ser verdadeiramente amada. Bastou o ciume de um momento, que as subsequentes palavras do ferido vieram serenar, para arreigar o amor no coração do soldado portuguez. E foi á luz d'esse relampago de ciume que elle comprehendeu a enormidade do sacrificio de Rosina; foram as palavras do prisioneiro francez que lhe mostraram claramente quão grande abnegação era precisa para cair, amaldiçoada pela patria, nos braços d'um homem estranho.
O ferido, apesar de cada vez mais se lhe embargar a voz na garganta, proseguiu com longas pausas:
—Tu eras muito estimada, Rosina... Todos te queriam... Quem havia de dizer que tu... renegarias... a tua França! Eu não morro pelo imperador...{105}que não pede nem empresta... que paga mal... eu morro pela... França!... Já não posso... beber... A ultima gotta queria bebel-a pela patria...
E, cada vez mais offegante e desvariado pela febre, acrescentou:
—Vae buscar aguardente... Anda depressa.. que já tenho a morte aqui...
E indicava o coração.
—Sim... amaldiçoados... os que não morrem francezes... como tu... Jacques Regnau! lá n'esse quartel que ninguem sabe onde fica... eu te contarei a verdade... Vamos para a reserva... temos tempo de falar...
E, como a cabeça do francez parecesse já desequilibrar-se, Rosina Regnau procurou encostal-a ao peito carinhosamente.
—Não!—apostrophou com extrema difficuldade Bénard—não! Um francez... só morre... encostado... a outro... francez... Eh! eh!—rouquejou.
E, procurando aprumar-se, disse com esforço grande de mais para o lance do passamento:
—Vive.. lá... Fran...
Não pôde concluir. A ultima syllaba embargára-lh'a a morte.
Graça Strech estava como que fulminado pelas palavras do soldado francez, que morrera amaldiçoando Rosina. Parecera-lhe que a voz da providencia falava n'elle. Pela primeira vez um terror supersticioso subjugou a coragem d'aquelle homem que tinha jurado guerra de morte á França. E todavia expirava ali, ao pé d'elle, um francez saudando a patria nas ultimas palavras que lhe foi dado pronunciar.
Rosina Regnau estava tambem paralysada n'essa especie de imbecilidade que nas grandes commoções se nos affigura ser idiotismo.
O aço de que em parte era feita a sua alma de vivandeira vergára ao som d'aquellas palavras horriveis; restava apenas, muito a dentro do peito, a vibração dolorida das cordas maviosas.
No semblante, como se a distancia e o cansaço fossem amortecendo a maguada vibração da alma, apenas se desenhava o espasmo das supremas afflicções que parecem suspender a vida.
Quizera Graça Strech poder cingir nos seus braços Rosina, e despertal-a, para a realidade do seu amor, d'aquelle excruciante alheamento.{106}
Vedava-lh'o a presença das pessoas que, como já dissemos, estavam cuidando dos feridos.
Ficaram ambos silenciosos, porventura á espera de opportunidade para trocarem algumas fugitivas palavras.
Ella, acordando pouco a pouco d'aquelle infernal pesadello, sentia o doer da realidade muitas vezes peior que os sonhos maus. E a si mesma perguntava o que ficaria pensando Graça Strech: se julgaria criminosa a sua compaixão pelo ferido; se a presumiria demudada pela maldição do moribundo; se acaso o effeito d'aquella imprevista scena lhe haveria levado ao coração o aborrecimento ou o desprezo?
Tudo suppunha, menos que o verdadeiro amor nascera n'aquella hora com o ciume.
Como ella desejava poder cingir Graça Strech nos seus braços, cobril-o com os seus beijos, embora elle a repellisse com enfado ou desabrimento!
Não valeriam ameaças.
Ella dir-lhe-ia com a affouteza que a innocencia dá:
—Eu bem sei que fiz mal. Mas aquelle era o Bénard,La goutte, que eu conhecia, desde pequena, de o ouvir discorrer sobre o egoismo dos homens e de o ver puxar pela sua garrafinha d'aguardente. O pae Regnau, apesar do vicio, estimava-o muito, e até lhe chamava... philosopho. É que o pae Regnau era dos primeiros amigos. Uma vez vendeu a ração do almoço para que o Bénard não deixasse d'encher a sua garrafinha. O pae Regnau disse então, bem me lembro: «Elle sem aquillo não é philosopho; e eu sem almoço posso ser soldado.» O que valeu foi que o meu almoço chegou para dois. Não me julgues arrependida do que fiz pelo que elle disse... Tudo quanto elle disse bem o sabia eu... Lembrar-me da minha patria não quer dizer que me esqueça de ti... Não. Amaldiçoam-me? Que me importa a mim que me amaldiçoem! Abençoa-me tu, e não quero outra felicidade. Abre-me a tua alma, de modo que eu saiba bem o que ella pensa, o que ella sente, e não terei pena de que se me fechem as fronteiras da patria. Não me aborreças nem me despreses... O teu primeiro beijo foi uma promessa, uma esperança; eu acreditei-o, creei vida nova, sinto-me forte para a lucta.La goutte, se me disse aquellas palavras, é porque{107}me estimava; estima-me, ama-me tu quanto eu desejo, que saberei esquecer as palavras deLa goutte.
Graça Strech, sem attingir o que se passava na alma de Rosina, estava ancioso de dizer-lhe:
—Tudo quanto aquelle homem disse era verdade. Por mim perdeste tudo, Rosina, por mim preferiste a solidão, em que ora vives, á tua immensa familia—o exercito francez. Eu comecei por odiar-te, porque eras irmã dos assassinos de minha irmã. Depois, ao odio, que procurava o caminho da vingança, succedeu a gratidão, porque tu me restituias a liberdade. Mas a realisação do meu sonho de sangue importava um enorme sacrificio teu. Fizeste-o sem trepidar. E não contente com isso, que já era muito, quizeste vincular a tua vida á minha, e tu, que havias renunciado á patria, renunciaste tambem á voz com que recordavas as canções do teu paiz natal. Começou a nascer em mim o amor misturado d'assombro. Nunca me lançaste em rosto a minha crueza para os teus. Era a minha vingança, e tu querias o que eu queria. Ao pé da imagem de minha irmã, que no somno e na vigilia me apparecia, começaste tu a tomar vulto, a crescer, de modo que eu fiquei preso entre vós ambas, porque se o sangue d'uma clamava vingança, o sacrificio d'outra me proporcionava vingar-me. E uma noite, no breve repousar do acampamento, sonhei que minha irmã me viera falar e me dissera que tu eras boa, e leal, e pura. Então beijei-te. Mas hoje, ao ouvir aquellas palavras, completei os meus pensamentos pela certeza de que tu eras pura, e leal, e boa. Dize: Que queres de mim? Sacrificio por sacrificio, amor por amor, dedicação por dedicação. Serei teu, porque tu és minha. Ouve, Rosina, ouve-me bem. Tu tens sido o meu anjo da guarda, o meu enfermeiro, e—porque não hei de dizel-o?—tens sido para mim como o cão amigo para o cego das Ardennas. Pois bem. D'hoje em diante as nossas almas fundir-se-hão n'uma só, viverão dos mesmos pensamentos, e tu chorarás minha irmã como eu a choro, porque o teu coração sentirá a saudade que eu sinto.
Ao anoitecer veiu a carroça dos cadaveres, acompanhada pelo capellão militar, buscar o morto.
Rosina Regnau deteve-se a contemplal-o, esquecida de que aquelle homem morrera amaldiçoando-a.{108}
Era-lhe defeso o falar. Se não fosse, haveria pedido uma oração pela alma do soldado Bénard, de alcunha—La goutte.
Graça Strech assistiu á cerimonia commovido. Um dos soldados encarregados d'aquella triste commissão, como lhe visse carregadas as linhas do rosto, apostrophou:
—Pois tu, que te bates como leão contra os francezes, não assistes impassivel aos funeraes d'um francez!
—A morte quebra todos os odios, respondeu Graça Strech.
Outro soldado, ao dar tino da garrafinha entalada entre a farda e a camisa, exclamou facetamente:
—Pena tenho eu de o não matar emquanto a garrafa estava cheia!
—Este diabo não fazia senão beber! acrescentou outro.
—Tambem me consta que fazia outra coisa, replicou Graça Strech.
—O que era?
—Enterrava os nossos mortos com mais piedade do que tu.
—Prégas hoje de cadeira!
—Lembro-me de que elle, pelas ultimas palavras que lhe ouvi, era tão francez como eu sou portuguez...
—Era? perguntou ingenuamente um dos soldados.
—E a mim, concluiu Graça Strech, pesa-me sempre a morte d'um bom soldado.
Quando a carroça rodou lugubremente, caminho da valla commum, onde portuguezes e francezes iam dormir sem odios nem malquerenças o somno eterno, Graça Strech acercou-se de Rosina, que parecia duvidar ainda do que tinha ouvido, e segredou:
—Devo á memoria de Bénard uma felicidade que não merecia a Deus. De hoje em deante não haverá entre nós barreira que possa separar-nos. As nossas almas serão uma; os nossos pensamentos um só...
—Promettes? murmurou ella doida d'alegria.
—Prometto.
—Então dir-me-has tudo o que pensas, tudo o que sentes?
—Tudo o que penso e sinto te direi.
E o segundo beijo sellou esta promessa.{109}
Não morrem os gigantes ao segundo golpe.
Napoleão ergueu-se no senado francez, a 4 de dezembro de 1809, e sobrepujando com a sua voz a voz da Historia, como se lhe não andasse já descontada a gloria com dois consecutivos revezes na peninsula iberica, disse: «Tanto que eu appareça alem dos Pyreneus, o leopardo recolher-se-ha amedrontado ao oceano para fugir á ignominia, á derrota e á morte. A victoria das minhas armas será a do genio do bem sobre o do mal: a victoria da moderação, da ordem e da moral sobre a guerra civil, sobre a anarchia e as paixões destruidoras.»
E, concluida a campanha de Austria pela paz de Vienna, a aguia franceza deixou de pairar sobre o norte da Europa, e do alto do palacio imperial de Schoenbrunn fitou o olhar ardente e profundo na orla do occidente banhada pelo Atlantico.
E pela terceira vez se equipava o exercito invasor, superior a oitenta mil homens; e pela terceira vez fôra chamado um general distincto a tomar o commando em chefe das tropas para obter melhor exito que os seus dois antecessores.
A eleição recaiu no marechal Massena, principe de Essling, duque de Rivoli, cuja valentia e sciencia Napoleão conhecia desde as campanhas d'Italia.
Não precipitemos, porém, os acontecimentos que o anno de 1810 havia de desdobrar sobre a Europa. Justo é reverter ao que é assumpto principal d'este livro, mais biographia do que chronica.
Já anteriormente dissémos que o exercito portuguez recolhera ao quartel general de Castello Branco, e d'ahi fôra mandado, nos ultimos dias d'agosto de 1809, para diversos acantonamentos.
Em Castello Branco, o marechal Beresford permittiu{110}aos soldados, que mais se haviam distinguido, a escolha de corpo e quartel, não só para lhes galardoar d'algum modo os serviços prestados, como para incitar os outros a medirem-se na terceira campanha com os premiados na segunda. José Maria da Graça Strech escolheu o regimento d'infantaria 18, que, com o 6 e 9 da mesma arma, foi mandado para Coimbra.
Então se levantava detraz do tumulo da irmã querida, para o desgraçado moço, a aurora do amor, que desabrochára no primeiro beijo, e que o ciume aclarára definitivamente á beira do catre do moribundo Bénard.
Havia-se batido como leão, açulado pelo cheiro do sangue. Mil vezes se atirára á morte, e a morte parecia respeitar no sorriso de Rosina Regnau a heroicidade do soldado. Dir-se-ia que a vivandeira tinha duas azas, que, desdobradas, o abrigavam. Graça Strech acabou, como era natural, por amar o seu anjo da guarda, quando inteiramente comprehendeu que ella lhe dizia na triste eloquencia do silencio a que se condemnára: «Eu tenho de guardar a tua alma; para guardal-a preciso possuil-a.»
No seu coração calcinado pela saudade choveu pouco o orvalho refrigerante companheiro da aurora; o amor cauterisou a ferida que sangrava odios; ficára apenas a cicatriz, como fica voltada n'um livro a pagina que se leu, e cuja impressão jámais se desluz na mente do leitor.
Aconteceu a Graça Strech como ao commum da humanidade.
O amor, que é luz, que é fogo, que é sol, vae se decompondo em irradiações parciaes na nossa alma, á medida que a vae desenregelando, como o verdadeiro sol n'um prisma de crystal. Verdade é, ser preciso que tenha a alma a pureza do vidro para que lentamente se vão revezando as côres, alternando asnuances, e embriagando-se ella a pequenos haustos no banquete da felicidade. O amor que rebenta como erupção, não é amor, é desatino. Nasceu cego: não vê. Irrompe como a lava, passa, queima, desapparece.
Este é o amor das almas versateis, que não se vergam ao sacrificio, e que por isso mesmo são incapazes de metter hombros á cruz cujo peso devera ser repartido pelos dois. Os que amam sem previamente{111}haver soffrido, amam apenas emquanto o amor não é soffrimento. E quem póde desfolhar a rosa sem ferir-se no espinho? Esses amam pouco. As lagrimas são a agua que baptisa na religião dos attribulados. A mocidade de Graça Strech recebera esse primordial sacramento. Dera a sua vida em holocausto á saudade. Soffrera muito, e alma que soffre assim tem de certo a pureza dos grandes sentimentos. Por isso a luz da aurora, que lhe alvorecia sobre o tumulo da irmã, se foi decompondo em gradações prismasticas por feitio que elle, muito alma a dentro, pôde conhecer a nitidez das côres, o brilho das tintas casado á transparencia do cristal.
Desde então começou a amar como os que teem soffrido. «Tudo o que penso e sinto te direi,» segredára elle em Alcantara.
Estas palavras não eram apenas a promessa d'uma revelação;—eram a promessa da felicidade.
Os acontecimentos não permittiram que, antes de Coimbra, Rosina Regnau pudesse affastar de si a nuvem do ciume que de ha muito lhe opprimia o coração.
Muito primeiro o amára ella, porque o ciume nascera parelho do amor.
Parece que o destino porfiára em depôl-os no eden viridente de Portugal para mandar depois a serpente a tental-os. N'aquelle jardim de Coimbra ha sombras fadadas para o amor. Já o disse um poeta:
Quem nunca viu CoimbraPela brisa embaladaDo Mondego,Que de amorosa timbraNa margem reclinadaCom socego,Não sabe o que é belleza,Ai! não conhece a filhaDos amores,Mais nobre que Veneza,Mais linda que SevilhaSobre flôres.[11]
Quem nunca viu CoimbraPela brisa embaladaDo Mondego,Que de amorosa timbraNa margem reclinadaCom socego,Não sabe o que é belleza,Ai! não conhece a filhaDos amores,Mais nobre que Veneza,Mais linda que SevilhaSobre flôres.[11]
Ali rememora ainda a celebrada fonte, que suspira n'uma das extremas do campo de Santa Clara, o poema{112}das lagrimas da formosa Castro—o maior poema d'amor que se tem sentido em Portugal. Que phantasias que não tem o amor em Coimbra! É velha a doidice que se respira n'aquelles ares, porque já Faria e Sousa conta que Pedro, o principe amoroso, confiava á agua da fonte, que n'esse tempo ia jorrar nos jardins do paço real, os bilhetinhos namorados que a loura Ignez muito em segredo recolhia e, em maior segredo ainda, relia. E perora Faria e Sousa: «Tales son las astucias de los amantes». Com perdão de Faria e Sousa, astuciosos são os escriptores que nos pintam amores fabulados de tão acertadas contingencias, como era a da agua, sem embargo dos seixos e hervagens, ser fiel correio do principe e da aia.
Eu contarei singelamente o meu caso, tal como aconteceu na hora em que o ciume de Rosina Regnau, como se já não fosse preciso para atiçar as labaredas do amor, se acalmava na mutua confiança das almas que se possuem.
Foi ahi por alguma copada sombra das margens do Mondego, onde, como disse Gabriel Pereira de Castro, o rio
... nas voltas se mostra arrependidoDe levar agua doce ao mar salgado,
... nas voltas se mostra arrependidoDe levar agua doce ao mar salgado,
que Rosina Regnau e Graça Strech descançavam n'uma das ultimas tardes d'agosto.
Aproveitavam sempre as horas feriadas do serviço militar para essas excursões, reguladas pelo toque das cornetas no quartel, porque só onde a sombra os escondesse poderiam dialogar, os dois, sem que ouvido estranho traísse o segredo da mudez de Rosina.
Ahi se indemnisava ella dos longos silencios a que era constrangida, e assim se foram estreitando os laços, que já tão cingida tinham a imagem da felicidade n'um e n'outro coração.
N'essa tarde Rosina Regnau intencionalmente encaminhou o dialogo para o episodio da morte de Bérnard, e a ponto veiu recordar as palavra de Graça Strech: «Tudo que penso e sinto te direi».
—Ah! não sabes, disse ella subitamente exaltada pelo ardor da vivandeira, que do cumprimento da{113}tua promessa depende a realisação da minha felicidade!...
—Pois duvidas?...
—E não duvidaste tu de mim, quando em Alcantara soccorri o pobreLa goutte?
—Perdôa-me...
—Sim, perdôo, não a ti, ao ciume, pois que para o ciume tambem peço perdão n'este momento. Ouve-me, portanto.
—Fala!... exclamou Graça Strech.
—Ha uma duvida horrivel no meu espirito, que é preciso dissipar; um obstaculo no meu caminho, que é preciso vencer. O meu amor, que começou por dar-te a liberdade, não póde viver escravisado. Desde o primeiro momento te amei perdidamente. Emquanto tu dormias, veláva eu, para que as tuas palavras de soldado não fossem desmentidas pela tua physionomia de ferido sem eu perceber a verdade. Já então—mal o pensavas!—a minha vida dependia da tua. E vigiava-te, e estudava as mais ligeiras alterações do teu semblante, como a mãe que observa, de noite, na solidão silenciosa do seu quarto, o filho doente que dorme. Tu não suspeitavas que pudesse entrar tamanha dedicação na alma d'uma vivandeira, e razão de sobra tinhas. As mulheres com quem eu vivia eram tão vis, que se riam do meu carinho para comtigo. E eu arrostava-lhes os chascos, os insultos, porque bem sabia que a culpa não era d'ellas, mas do destino que as tornou tão desgraçadas. Aspereza, injustiça, só me doía a tua. Não bastava amar sem esperança: o meu amor era recompensado com despreso. Tu eras nosso prisioneiro; não podias, portanto, soffrer que a minha pronuncia te estivesse recordando a cada hora a tua infelicidade. Quiz, porém, Deus que me ouvisses um dia com menos indifferença, quando conheceste que eu valia um pouco mais do que as outras. Viste que eu era boa, e quizeste-me para instrumento da tua vingança. O que tu não suppunhas era que o teu sonho fosse a esse tempo o meu—dar-te liberdade! que eu contasse os instantes da tua vida pelas horas da minha! que eu quizesse ser para ti o que era o fiel molosso para o cego da minha terra... Pois queria, juro-te, queria. Se não pudesse restituir-te a liberdade, teria a coragem de envenenar um remedio para que o mesmo{114}veneno nos matasse a ambos. Acredita; tinha. Mas sempre na tua bocca a palavra vingança! Sempre essa palavra horrivel! Eu bem sei que todo o homem, que vê a sua patria invadida, precisa vingar-se a si, e a ella. Mas esse annel que não mais te deixou não era da patria... Falavas de tua irmã, tens-me falado sempre d'ella. Comprehendo como se possa amar uma irmã, que era boa, que era pura, e que foi morta injustamente. Todavia comprehendo tambem que se as cartas as escreveu tua irmã, o annel póde deixar de ser d'esse anjo...
Nos labios de Graça Strech havia o tranquillo sorriso de quem sabe com que ardor é amado.
Quiz falar; ella interrompeu-o.
—Oh! por piedade, não sorrias, sem que esta duvida atroz se desfaça! Tenho tido a coragem de saber esperar este momento solemne e para mim decisivo. Tu sempre a pensar no teu annel, eu sempre a pensar em ti! Tão calada, que nem voz posso ter deante d'estranhos. E que tivesse! Havia de perguntar a alguem pela vida do homem que eu chamava irmão? Tu sonhavas de noite, como quando ficaste ferido em Alcantara, e sorrias. Acordavas, vias-me ao pé de ti, e acudias logo a falar de tua irmã... Oh! se eu soubesse que tu me enganavas!... Se tu estivesses sonhando com outra mulher que não fosse tua irmã, quando eu estava ali, sósinha, calada, sem patria, sem amigos, amaldiçoada, a velar pelo teu somno... Sabes o que eu faria? Vestiria o teu uniforme, José, e iria bater-me, avançando tão imprudentemente como o infeliz Bénard, até que as balas dos soldados da França se me cravassem no peito. Morreria pelo ingrato como os soldados morrem pela patria, e morreria contente por morrer amortalhada no teu uniforme... Vê, pois, bem a minha alma. Unicamente te peço que sejas sincero, ainda que a tua sinceridade tenha de ser cruel. Estamos a dois passos do Mondego. É-me facil procurar n'elle a maior altura da agua, se o coração me disser que me estás enganando... Mas não has de, mas não me deves enganar, porque pela memoria sagrada de tua irmã te peço que sejas verdadeiro...
E ficou anciosa, com os olhos fitos, os labios entreabertos, o seio offegante...
—Pela memoria de minha irmã te juro que mais{115}uma vez te repetirei a verdade—disse Graça Strech, cuja physionomia parecia irradiar a luz clara e pura dos que estão fazendo uma confissão sincera.—Tambem eu te amo doidamente, Deus o sabe! Tambem eu tive ciumes, Rosina! Tambem eu estou costumado a soffrer. Se aquelle moribundo d'Alcantara houvesse denunciado, por um gesto sequer, que tinha outros direitos á tua dedicação, além dos de estar ferido e ser francez, eu, impossibilitado de aggredir um homem meio morto, haver-te-ia fugido para me expôr á morte que encontraria em qualquer parte. Juro-te, pela memoria de minha irmã te juro, que isto o senti eu ao pé do pobre Bénard, quando te vi soccorrel-o. N'esse momento forjou o ciume as cadeias que nos teem agora aqui presos. Comecei por aborrecer-te, é certo. Sobre este annel, que tirei do dedo de minha pobre irmã morta, jurei vingal-a, Rosina, porque primeiro me derrubaram a mim para que eu não pudesse defendel-a, e depois a assassinaram a ella, a minha mãe, e a minha avó. Meu pae, que já sei ter morrido no mesmo dia, porque houve participação official de ser reconhecido, foi vencido pelo azar do combate, não foi assassinado. E depois era um soldado, e um soldado em campanha ou mata ou morre. Mas as pobresinhas que mal faziam á França? Eu accordei do deliquio motivado pelo ferimento que recebi, sem saber o que se tinha passado. Estendi o braço e senti um corpo; apalpei e conheci roupas de mulher. Achei uma cabeça. Tacteei-lhe os contornos, e não me enganou a mão quando me pareceu ser aquelle o perfil de minha irmã. Era noite, bem sabes: dentro a escuridão; a tempestade fóra. Eu sentia vibrar a espinha dorsal como se fôra d'aço, fria como elle. Procurei luz, quasi louco. Mal me podia suster nas pernas. No cerebro ardia-me um vulcão; em derredor do craneo sentia a friura do gelo. E a luz mostrou-m'as, a ellas, minha irmã, minha mãe, minha avó, mortas, desgrenhadas, deitadas no soalho, e rodeadas das sombras que a interposição dos moveis projectava na parede, parecendo moverem-se, bracejar, escancarar a bocca, casquinar gargalhadas que o vento, lá fóra, parecia rir diabolicamente por ellas. Eram horrores da minha imaginação, eram visões da febre, porque eu n'essas horas incomparavelmente angustiadas delirei, enlouqueci, morri em mim mesmo{116}para renascer n'um cadaver. E o sangue, Rosina, o sangue d'ellas, empoçado no soalho, tão vermelho que parecia incendiar-se ao reflexo da luz! Foi então que a Providencia me soccorreu e me permittiu um esforço sobrehumano. Beijei minha irmã, abracei minha mãe, acariciei minha avó, falei-lhes, não sei o que lhes disse, não me lembra, e estremecendo do contacto das mãos de minha irmã, que pareciam de marmore, e que do marmore tinham os veios roxos e azues, tirei-lhe delicadamente do dedo, como se ella pudesse molestar-se,—ella, que era tão franzina!—este annel querido, sobre o qual proferi o meu juramento de vingança, que até hoje tenho cumprido, e que cumprirei até que Portugal succumba ou triumphe d'uma vez.
E como se a arrebatada eloquencia o repuzesse ainda em meio das desgraças que historiava, pendeu ao peito de Rosina, extenuado, descóradas as faces, revoltos os cabellos, flammejante o olhar.
Rosina ameigou-lhe a fronte banhada de suor frio, e docemente lhe pediu perdão de o ter compellido a avivar tão recentes e profundas dôres.
Graça Strech estava preoccupado, como se procurasse um pensamento que lhe entre lembrava; como se quizesse suster uma visão que se mostrava e fugia.
—Ah! exclamou de repente. Não, Rosina, não basta ainda. O teu amor reanimou o meu cadaver, eu devo-te a vida; quero abrir-te a minha alma para que a vejas bem, para que a sondes, e leias n'ella. A tua luminosa intelligencia já te permitte comprehender muitas palavras do idioma portuguez. Pois bem, aqui tens uma prova irrecusavel que não póde deixar a minima duvida no teu espirito...
E, desabotoando o uniforme, tirou o maço das cartas d'Augusta.
—É esta—continuou, procurando—é esta, lê aqui lê bem. Foi ha dois annos, no seu dia natalicio, que lhe mandei este annel. Vê o que o anjo me respondia. Lê, esta é a prova, lê: «O teu annel, José, o teu annel, que me pareceu acompanhar a tua alma, porque a tive todo o dia ao pé de mim, não me deixará até á hora em que a amortalhadeira m'o tire do dedo. Pedes desculpa de que seja liso, de que só tenha uma pedra!... Tontinho! O teu coração pésa mais do que{117}o annel, e a avósinha diz que os anneis de muito feitio apenas são proprios das camponezas.» Vê, Rosina, olha para este nome—Augusta—o unico de mulher que pronunciei antes do teu...
—José! exclamára Rosina divinisada por uma aureola de condoída doçura, que parecia esbater-lhe o semblante no azul do céo.
A natureza dascaía na deliciosa morbidez do anoitecer. As labaredas que a ambos afogueavam o coração foram bastantes a seccar as lagrimas d'um e outro. Se eu quizesse passar por um escriptor tão casto como os que uzam adoçar o acre das situações violentas, diria que se ouvia rumorejar as folhas, sendo os labios que rumorejavam. Essas ultimas revelações tanto contraíram os elos da cadeia, que já não era possivel medir a distancia interposta ás duas almas embevecidas.
Se ali, n'aquellas paragens onde o grave Faria e Sousa achou que era torrão azado para localisar astucias de namorados; se áquella hora, como na tragedia de Goethe, estivesse ali Mephistopheles, bradaria com alegria satanica:Perdida!