XIV

Bem podia ser porém que alguma voz do alto respondesse:Salva!Só se perde a mulher que não tem coração para comprehender o que é ser mãe.{118}[11]Do sr. Antonio de Serpa.XIVQuanto custa ser mãeEm fevereiro de 1810 estacionava no valle do Mondego o exercito commandado pelo general Wellington, repousando das passadas lides, se bem que já apercebido para resistir aos movimentos dos francezes que de novo ameaçavam invadir Portugal.Beresford activamente se dedicava a exercitar e disciplinar as tropas, e a providenciar pelo que tocava a provisoes que se tornavam indispensaveis para a campanha que a todo momento se esperava, e cuja duração era imprevista.O rei José havia entrado em Sevilha, no primeiro dia d'esse mez, á frente das suas tropas, e a nuvem que obscurecia o céo da Hespanha alongava-se já para Portugal, deixando ouvir os rumores da tempestade que lhe refervia no bojo caliginoso.N'esse tempo vamos nós encontrar Graça Strech na escóla militar do valle do Mondego, se bem que muito demudado o encontremos, e mereça especial attenção a tristeza que parece salteal-o nas horas em que o soldado se permitte ser homem. Procuramos á roda de si, e não encontramos a «muda», sua irmã. Inquieta-nos tão inesperada ausencia. Depois que comprehendemos o coração da Rosina Regnau, depois que passo a passo a acompanhámos nos lances angustiosos de sua attribulada mocidade, habituamo-nos a estimal-a, e já agora nos é magua o deixar de vêl-a.Morreria acaso?Algumas vezes se lembrára ella, quando vivandeira do exercito francez, de que uma bala perdida a mataria. É uma tradição de Vivandeiras, a do pelouro esgarrado que as ha de prostrar, porque, companheiras dos soldados, esperam do soldado a sorte. Todavia nem sempre se realisam as contas que a phantasia{119}lança, e não é de presumir que dos soldados que manobram exercitando-se no valle do Mondego partisse a bala destinada a roubar-lhe a vida. Tambem nas faces de Graça Strech não ha a tristeza sombria das perdas irreparaveis, mas um novo reflexo de melancolia que, a despeito de a querer concentrar, dá á physionomia um toque de soffrimento. Procuremos tirar-nos de tão saudosa incerteza, e saber o que se passára nos mezes que decorreram desde agosto de 1809 até fevereiro de 1810. Pelo que vamos ouvir a Graça Strech, n'um rapido dialogo com um companheiro d'armas, não poderemos fazer juizo seguro, mas esse será o fio de Ariadna que depois nos guiará no labyrintho de nossas pesquisas.—Tens tido noticias de tua irmã? perguntou o soldado.—Não tenho; nada sei da pobresinha! respondeu dolorosamente Graça Strech.—Deve-te custar a ausencia! Se a nós, que não eramos irmãos, tambem nos custa! Estavamos habituados aos seus tregeitos, e o caso é que já os entendiamos como se fossem palavras! Que pena que não falasse! Bonita era! e tão meiga como bonita! Sempre aquelle sorriso doce para todos e para tudo! Mas, ó Strech, se a conversa te magôa, não continúo...—Continúa, sim. Ás primeiras palavras rebenta a saudade; depois Deus manda a resignação, e é o que vale.—Eu tambem tenho familia, Strech, tambem sei o que isso é. E depois tu sempre deves estar com teu cuidado, porque tua irmã ia doente.—Começou a soffrer Trabalhos da guerra, commoções fortes, talvez receios da nova campanha... Não sei. O que é certo é que a não julguei com forças de andar commigo em correrias atraz dos francezes, que é preciso enxotar pela ultima vez. Temos uma tia nossa na Allemanha. Veiu a Portugal ha annos, e affeiçoou-se muito a minha irmã. Deu-se a coincidencia de estar no porto da Figueira um brigue italiano, e ir a bordo um passageiro allemão, que me pareceu homem compassivo, e que me prometteu acompanhar a pobre muda até ao seu destino. Que havia eu de fazer, quando a demora de minha irmã em Portugal seria a morte, e todas as circumstancias{120}pareciam favorecer visivelmente o meu designio de a mandar para a Allemanha? Deixei-a ir, mais entregue a Deus do que ao compassivo allemão.—E que tencionas fazer agora?—Agora! Quem sabe quando chegará a hora de pertencermos a nós mesmos! Se eu morrer, ficará minha irmã entregue a sua tia; se eu sobreviver a victoria das nossas armas—porque nós não podemos succumbir depois de havermos triumphado duas vezes—irei buscal-a á Allemanha, e viveremos juntos até que um de nós deixe d'existir.—Desculpa-me, Strech,—tornou o soldado condoído.—Mas eu também estimava tua irmã, e por isso te perguntei por ella. Como já partiu em dezembro, e eu tenho conhecido que andas triste, pensei que tivesses recebido noticia de que a pobresinha ia a peior. Como felizmente não se realisou a hypothese, desculpa-me. Olha... Estou em dizer que Deus traga a guerra depressa para nos distrairmos. A guerra embriaga como o vinho, e a embriaguez é bom remedio para saudades. Eu e tu, pelo que vejo, soffremos ambos da mesma doença. Adeus, Strech.Este dialogo, como anteriormente disse, não é explicação cabal, nem... verdadeira. Graça Strech via-se obrigado a enganar as pessoas que lhe perguntavam por sua «irmã», se bem que o engano apenas se limitasse aos motivos da partida e ao destino de Rosina. Elucidemos.Em dezembro de 1809 começaram a manifestar-se os symptomas da maternidade. Esta desgraça, cujas funestas consequencias não previram na loucura do seu amor, obrigou-os a pensar reflectidamente no futuro, subitamente entenebrecido no horizonte que o poetico sol de Coimbra azulejava nas tardes em que as margens do Mondego lhes enfloravam os ardentes idyllios. O peor que ha no Paraiso é o ter porta: porque não se abre, quando a ancia da felicidade a impelle, e porque se fecha sobre as mais doces illusões, movida por qualquer viração que mais branda e mais embalsamada parecia. Eu, pouco sabido em philosophias, acho a porta do Paraiso muito peior que a serpente: uma tenta, a outra fecha. Ora a gente poderia fugir da tentação, se encontrasse a porta aberta. Deixamo-nos seduzir pela cascavel. Ouvimol-a. Embriagamo-nos{121}com as paizagens do éden, com as melodias eolias do arvoredo, com o maná que o céo deixa cahir sobre o coração. Entretanto a serpente adianta-se. Cinge-nos, enleia-nos. Olhamos para a porta: é-nos defesa a saída. Estamos encarcerados. A serpente triumpha.Por duas ponderosas razões não podia ficar Rosina Regnau em Portugal. Era a primeira que, inculcando-se irmã de Graça Strech, a sua deshonra seria desaire para o irmão. A segunda estava em que o conservar-se occulta no reino, em estado de não poder acompanhar o exercito, seria imperdoavel n'uma epoca em que tudo que cheirasse a francez inspirava odio, e em circumstancias em que o deixar de falar seria quasi impossivel.Avultou aos olhos d'um e outro, como pesadello horrivel, a necessidade da separação. O mesmo foi verem-se inesperadamente sepultos nas ruinas dos castellos encantados que ambos haviam architectado. E a felicidade é como todos os edificios: leva muito tempo a construir e basta um instante para desabar.Estava effectivamente a esse tempo, nas aguas da Figueira, um brigue italiano. Concordaram ambos em aproveitar a commodidade do transporte. Rosina energicamente rejeitou a ideia de voltar a França, duas vezes deshonrada. Convieram, pois, em que ella esperaria em Italia, com o filho nos braços, o termo da guerra peninsular. Depois, para sempre se reuniriam, e viveriam enlevados na infancia da criança, que ambos phantasiavam formosa.Mas, por que espesso véo de lagrimas se não filtrava este raio de longinqua felicidade, illuminando-o e iriando-o como um reflexo de sol moribundo através de neblina humida em tarde de tempestade!Era esse o arco-iris da esperança, gravado em traços multi-côres, d'um abysmo a outro, sobre um céo plumbeo.—O pae Regnau,—dizia Rosina—costumava dizer que a felicidade era uma bola de sabão. Agora vejo que é. Tudo desfeito, n'um momento! Eu desterrada para um paiz desconhecido, sósinha com a minha desgraça e o nosso filho! Tu, a muitas leguas de distancia, exposto á sorte dos que combatem, mais incerta que qualquer outra! Viverei entre a esperança da tua chegada e o receio d'uma noticia funesta. Oh!{122}esta idéa é horrivel! Então Deus ha de permittir que, meu filho entre no mundo vestidinho de luto! Não não póde ser. Não te exponhas loucamente á morte, meu amigo, não? A tua vingança já deve estar satisfeita, e depois um soldado que é pae deve ter duas cadeias a ligal-o ao mundo: a patria e a familia. Ora eu bem sei que tua irmã é a patria; mas lembra-te, sim, lembra-te! de que teu filho é a tua familia...Acudia a serenal-a, com o coração despedaçado nas garras de desconhecido abutre, Graça Strech. Queria ser forte, e as lagrimas a trahirem nos olhos o esforço! Tentava enganar, e estava desilludido. Ainda não houve maior desgraça, mais amargo calix de amargura esperado nos labios com um sorriso...—Não, Rosina, não imagines desgraças que Deus não permittirá. Bem sabes que a Providencia me tem guardado até hoje... Verdade é que tu eras o meu anjo da guarda, e tu vaes fugir-me. Isto é, em verdade, maior que a coragem humana! Não me arriscarei imprudentemente á morte, está certa... Mas ás vezes, na refrega, a gente não tem tempo de evitar uma bala... Não chores, Rosina, não chores. Foi uma loucura que eu disse. Eu não hei de morrer. Acaso morri eu para a memoria de minha irmã? Tambem não hei de morrer para o futuro de meu filho, para o teu amor. É forçoso separarmo-nos; separemo-nos. Ficaremos, porém, um ao pé do outro, sempre juntos, que já não ha distancias que nos separem, braços que nos desunam. Tu ver-me-has pelos olhos da saudade; eu, que já estou costumado a ver assim, ver-te-hei tambem. Conversarei no meu coração comtigo, acompanharei meu filho desde o primeiro vagido e a primeira lagrima... Ó Rosina, triste coisa é a vida! Nascemos soffrendo, como devemos viver, e morremos como vivemos. E olha que a minha loucura deu mais uma alma á desgraça... Mas eu amava-te tanto, tanto! Pobresinha de ti, que dizias parecer-te ouvir a maldição de Bénard... Por amor de mim te deshonraste uma vez; o meu amor duas vezes te deshonrou... Não chores... Já estão desbotadas as rosas das tuas faces, não as desmereças mais... Lembra-te do céo da Italia, que todos dizem ser formoso, e de que nosso filho nascerá sob o céo d'esse bello paiz Deus ha de protegel-o. Lá viveremos{123}todos n'uma só felicidade... Mas não chores, Rosina, que eu sinto despedaçar-se-me o coração...Foi chegado o momento da partida.Rosina subiu a escada de portaló amparada nos braços de Graça Strech. Dir-se-ia um cadaver que se destinava a uma sepultura distante.Os passageiros que estavam no convés pareceram commovidos de tão doloroso espectaculo. Um d'elles, que era musico napolitano, escondia contra a harpa o rosto brilhante de lagrimas.Graça Strech viu-o chorar e disse de si para si:—O mais desgraçado é aquelle, porque já desaprendeu de consolar.E dirigiu-se a elle:—Dá-me licença que o interrogue? perguntou.—Da melhor vontade, respondeu o menestrel.—Vae só?—Infelizmente vou... Deixei um filho morto em Portugal. O rapaz era fraquito, e não pôde aguentar-se. Desde que me elle morreu, fiz voto de voltar a Italia. Mas quem póde agora ir por Hespanha com estas malditas guerras, que nem n'este bom paiz de Portugal deixam ganhar a vida? Juntei tudo o que podia, consegui obter uma reducção na passagem, e aqui vou eu com a minha harpa, sem o meu filho.E cada vez luziam mais as lagrimas nos olhos do italiano, que parecia não ter ainda cincoenta annos, posto lhe alvejassem já os cabellos.—Sente-se, senhor...—Pietro, acudiu elle com a celebrada vivacidade napolitana, se bem que lhe soluçasse a voz commovidamente.—Estimei saber o seu nome, porque preciso archival-o no coração. Vim aqui para lhe pedir um grande favor. Tem de ser sua companheira de viagem aquella desgraçada rapariga franceza que ali vê...—Franceza! atalhou admirado o italiano.—Sim, franceza. É um mysterio cuja revelação iria augmentar a sua maguada compaixão, meu bom Pietro. Olhe por ella, anime-a, que a pobresinha é muito infeliz, e quem lh'o pede não é menos infeliz do que ella...O velho aprumou-se, tirou solemnemente o seu barrete de gomos, e disse:{124}—Fique descançado, senhor. Pela memoria de meu filho lhe juro que a tratarei a ella como se fôra elle mesmo. O meu coração até agradece á Providencia esta inesperada companhia que me dá.Corpo di Baccho!que eu estava aqui triste, triste, que já mal podia commigo...—Obrigado! muito obrigado! exclamou com extraordinaria commoção Graça Strech.—Vá buscal-a para aqui, tornou o italiano. A minha harpa está habituada a chorar; eu a farei chorar mais uma vez. Quando eu vir que a minha nova filha vae triste, eu a despertarei:Carina!E ocanta-storiesempre ha de saber alguma napolitana para cantar-lhe.Abeirou-se Graça Strech de Rosina. Ella tinha os olhos postos na superficie do mar, immoveis e desluzidos, e deixava rolar as lagrimas livremente pelas faces, como se já não tivesse vida para enxugal-as.—Rosina! apostrophou elle acordando-a, e com voz que mal se percebia.Ella estremeceu e fitou-lhe um olhar que se diria inconsciente.—Rosina! tens ali um companheiro de viagem, que me pareceu tão desgraçado como qualquer de nós. É musico italiano. Volta a Italia porque lhe morreu em Portugal o filho que o acompanhava. Já vês que deve ser infeliz. Levanta-te, anda para ao pé d'elle. Anda, Rosina, minha boa amiga, minha desgraçada irmã. Tem fé, tem animo, já que eu sinto perdel-o... Olha... quero dizer-te uma coisa... Vou confiar-te o meu thesouro, Rosina, o meu thesouro que tão mysterioso te pareceu, e que tanto te fez soffrer... Guarda este annel de minha irmã... Deus sabe se eu algum dia fiz tenção de o tirar do dedo! Que m'o tirassem depois de morto, pouco me importava. A minha tenção era morrer com elle. Mas eu amo-te tanto, tanto, que quero que tu o guardes. Elle já me não póde recordar agora a minha vingança... Quando nosso filho crescer mette-lh'o no dedo, e alguma vez lhe contaremos ambos a historia do annel mysterioso.Rosina olhava para Graça Strech em dolorosa suspensão. Pareceu accordar, porém, quando sentiu na mão o contacto do annel.E entrou de beijal-o anciosamente, delirantemente,{125}como se fosse para ella uma reliquia mais valiosa do que a madeixasinha de seu pae.—O que eu soffri por elle, por este annel! disse ella soluçante. Agora o levo commigo, e com elle a tua alma... Senta-te aqui, José, ao pé de mim, não me fujas ainda, que o navio não parte por ora... Lembra-te que esta separação póde ser eterna...—Eterna! repetiu estremecendo Graça Strech.—Não, não ha de ser, Deus ha de conservar-nos a vida que nos é mais precisa do que nunca... Mas bem sabes que eu quero gravar bem na memoria as tuas feições, uma por uma, todas, porque te quero ter presente a toda a hora, contemplar a cada instante o teu retrato, tão fiel, tão fiel, que me pareça estar-te vendo... Bem sabes que é uma illusão de que preciso, de que depende a minha vida. Pois se eu me desalentar, se succumbir á saudade,—e baixou timidamente a voz—quem ha de velar por nosso filho, soccorrel-o, beijal-o, amal-o?...N'este momento deu a sineta de bordo signal para que descessem as pessoas que não eram passageiros.Graça Strech, não tendo já forças nem coragem para levantar Rosina, fez signal ao italiano para que se aproximasse.Pietro abeirou-se com a sua harpa, sentou-se ao pé de Rosina, e relanceou a Graça Strech um olhar que parecia dizer: Póde ir.Rosina escondia o rosto entre as mãos, e soluçava offegante, estrangulada a voz na garganta.Um dos marinheiros veiu, por ordem do capitão, lembrar a Graça Strech que já tinha dado o signal de bota-fóra.—Eu vou... respondeu elle machinalmente sem poder desfitar Rosina, e quasi sem força para mover-se.E, lançando a mão á corda, desceu oscillando como estonteado por uma violenta vertigem.Na Occasião em que o capitão passava por deante de Pietro, o italiano levantou-se e sorrindo cortezmente lhe disse:—O capitão dá-me licença que toque na minha harpa o hymno da partida?O capitão sorriu tambem, e Pietro, inclinando-se para Rosina, exclamou:—Carina!A minha harpa vae ser de hoje em{126}deante a nossa unica consolação. É preciso atordoarmo-nos com a musica. Ahi vae aCapuanapara não sentir o barulho de levantar ferro. Agora, para Napoles.E começou a entoar, acompanhando-se, uma canção napolitana que poderia traduzir-se assim:Esta tarde na ribeiraUma hora passeei.Meu pensamento, occupaste-oE tanto pensei em ti,Que o coração lá perdi...Tu vieste e apanhaste-o.Ensina-me pois agoraA desfazer a meada.São parciaes os juizes,E a justiça demorada.Bem sei que perdia a causa...Que meio? Lembra-te algum?Tu lá tens dois corações,E eu cá não tenho nenhum.Para que nos custe menosA resolver a questão,Expliquemo-nos. Ha malesQue ás vezes nos trazem bens.Vamos fazer um ajuste:Tu dás-me o teu coração.E guarda o que lá me tens.............................O brigue navegava já. E a musica parecia adormentar aquelles dois desgraçados: um porque levava seu filho; o outro porque o deixava ficar.{127}XVA queda do giganteA historia da terceira invasão franceza, comquanto prenda com a nossa narrativa, não lhe é essencial.Muito de leve passaremos pois pelos acontecimentos que medeiam de julho de 1810 até agosto de 1814 e que, todavia, não podemos supprimir. Limitar-nos-hemos, em conformidade com o nosso plano, a um simples bosquejo não descabido em romance.O marechal Massena, chegado a Valhadolid, assumiu o commando do exercito francez, que mandou reunir em Salamanca, e marchou sobre Portugal, tomando de caminho Ciudad Rodrigo, que se rendeu depois de heroica resistencia. Quasi volvido um mez, capitulou a praça d'Almeria; havendo soffrido um longo cerco, e tendo sido o paiol incendiado pelo inimigo.O exercito alliado, em força de setenta mil homens, esperou os francezes nas alturas do Bussaco, onde durante os dias 27 e 28 de setembro se pelejaram duas sangrentas batalhas, sendo grande a victoria para o exercito anglo-luzo, que galhardamente repelliu o inimigo em grande parte dizimado. É esta uma das paginas mais brilhantes da historia portugueza durante o longo periodo das guerras peninsulares.Os francezes, marchando para oeste, passaram ao Sardão, e d'ahi seguiram para o sul; os alliados, retirando sobre Lisboa, rebateram-n'os nos campos de Coimbra, e em Leiria.Amedrontado Messena á vista das linhas chamadas de Torres Vedras—sobre as quaes o official inglez John T. Jones deixou uma circumstanciadaMemoria, que convém ser consultada pelos que não desdenham saber historia patria—tomou posições á rectaguarda em Santarem e Leiria, esperando reforço para atacar{128}as linhas. O exercito francez, consideravelmente derrotado, estava de mais a mais carecido de viveres.N'esta conjunctura e já entrado o anno de 1811, passou o marechal Beresford ao Alemtejo para se oppôr ao inimigo, o que não impediu que Badajoz capitulasse. Não obstante esta victoria, e um reforço de trinta mil homens que o exercito francez recebeu, começou a retirar nos primeiros dias de março d'esse anno, sendo atacado na retirada pelos alliados, e entrando em territorio hespanhol no mez d'abril. Segunda vez reforçado, atacou o exercito anglo-luzo em Fuentes d'Honor, não sendo ahi mais feliz do que no Bussaco. No dia 11 d'esse mez retomaram os nossos a praça d'Almeida, e pela terceira vez se viu Portugal desopprimido do jugo francez.Pareciam empenhados os factos em desmentir a prophecia de Napoleão: era a aguia da França que fugia amedrontada para o seu ninho d'além-Pyrineus. O leopardo triumphava á sombra da cruz, que sempre foi timbre dos guerreiros portuguezes.Á batalha de Fuentes d'Honor seguiu-se outra não menos cruenta—a de Albuera, onde a victoria nos foi descontada pela perda de seis mil homens.A aguia franceza, a dominadora da Europa, irritada por uma série de desastrosas derrotas, procurou ainda desferir no céo da peninsula o arrojado vôo das suas passadas glorias. Por um momento lhe sorriu a victoria. Substituido Messena por Marmont, o exercito francez logrou tomar-nos a artilharia em Fuente Guinaldo, obrigando os alliados a retirar sobre a fronteira portugueza, mais assignalados ainda na retirada que no triumpho, porque, aguentando o peso da cavallaria inimiga, repelliram todos os ataques, retomando a artilharia. Com a ação de Arroyo-del-Molinos, pelejada a 18 de outubro, cuja victoria coube aos alliados, se encerrou o anno de 1811, com muita honra para os anglo-luzos. Não começou mal auspiciado o anno seguinte, que se estreiou, para os alliados, com a tomada da praça de Ciudad Rodrigo, seguindo-se-lhe a rendição de Badajoz, depois de haver soffrido os apertos de primeiro e segundo sitio. Todavia o maior successo d'esse anno estava reservado para a batalha de Salamanca, em que os dois exercitos, commandados de um lado por Wellington e do outro por Marmont, se{129}equipararam em galhardia e pericia, cabendo a victoria—que se reputa a mais celebre de toda a guerra peninsular—aos luso-anglos. Á victoria de Salamanca seguiu-se a tomada de Madrid, e á tomada de Madrid o assedio ao castello de Burgos pelos alliados, que, por desobediencia de Ballesteros, tiveram de retirar sobre a fronteira de Portugal com denodo egual ao que em Fuente Guinaldo os assignalou. Não remata deshonrosamente o anno de 1812, para o exercito anglo-luso com este revez que se póde considerar façanha. Refeitas, porém, as tropas alliadas das perdas soffridas na retirada de Burgos, e já começado o anno de 1813, avançaram até Victoria, onde, na manhã de 2 de junho, se travou batalha geral, retirando o inimigo sobre Pamplona, perdendo artilharia, caixa, bagagens, e salvando-se o rei José, que estivera presente, em precipitada fuga.Alea jacta erat.A sorte de Napoleão, pelo que respeitava a ambições relativas á peninsula, havia sido jogada na batalha de Victoria, e a aguia franceza, em cujos olhos brilhava o olhar coruscante do Corso, pela ultima vez cruzava, demandando a França, as cumiadas dos Pyreneus.No dia 1 de julho entrava o inimigo em solo francez. De nada valeu reforçar-se, e tomar Soult o commando geral. No ultimo dia d'esse mez ganharam os alliados a batalha chamada dos Pyreneus, rechaçando o inimigo para dentro das suas fronteiras. Seguem-se, para honra das armas alliadas, a tomada da praça de S. Sebastião, a batalha de Nivelle, os combates de Bayonna, as victorias de Nive e Orthez, e, finalmente, a triumphal entrada do exercito luso anglo em Tolosa, a 12 de abril de 1814.Começava, como os acontecimentos o demonstram, a empallidecer no céo da França a estrella de Bonaparte. A lucta, desde muito travada entre a aguia e o leopardo, lucta de morte, encarniçada, contínua, estava chegada a ponto em que já era dado suspeitar que o pedestal de Napoleão não era tão firme como a sua coragem. O contendor, apesar dos revézes, era o mesmo; a fortuna principiava a falhar. A Inglaterra havia vencido, a sorte mostrára-se rebelde, mas o conquistador da Europa,—e para o ser faltava-lhe vencer a Inglaterra—não desesperava de reconquistar{130}a sua boa fortuna. Não tomou por aviso da Providencia o desastre. No immenso taboleiro da sua ambição, em que as nações eram outras tantas tavolas que movia a bel-prazer, pareceu-lhe aquelle um cheque sem consequencias para o resultado da partida em que se jogavam os destinos de povos e reis.Bonaparte ufanava-se de empunhar a balança em cujas conchas pesavam d'um lado a Europa e do outro uma ambição immensa, indomavel, manifestada desde os primeiros passos da sua carreira militar. Comtudo havia na Europa uma nação quasi invencivel, porque o mar lhe servia de muralha, porque os seus recursos economicos prosperavam largamente, e porque as instituições d'esse povo, traduzindo a altivez do genio nacional, eram muralha tanto mais para temer como a que o mar, cingindo as ilhas britannicas, opporia a qualquer invasão. Era tudo isso, e mórmente o regimen liberal da Inglaterra, que incommodava Bonaparte, cujo poderio havia ultrapassado a barreira da tyrannia. O guerreiro feliz imaginava-se senhor absoluto: era a vertigem da victoria. Havia porém um meio de egualar a Inglaterra, como diz madame Staël: era imital-a. Bonaparte, porém, não tinha nascido diplomata. A vista do conquistador é incisiva, rapida, abrange de uma só vez o exercito todo por mais espraiado que esteja; o diplomata tem de profundar, estudar, decompôr, analysar não só os negocios englobados diante de si, mas as suas intimas relações, as suas consequencias proximas e remotas. N'um requer-se o olhar ardente da aguia; no outro a vista penetrante do lynce. Toda a diplomacia de Napoleão se cifrava em preparar os acontecimentos de modo a provocar um conflicto internacional, que tendesse a prejudicar a Inglaterra. Haja vista o tratado secreto de Fontainebleau, em que Portugal e a casa de Bragança eram sacrificados á velha rivalidade dos dois paizes. Bonaparte visava sempre a vencer, não empregando a influencia politica da sua posição, mas empregando a influencia armada do seu exercito. Edificava sobre cadaveres, arriscando a vida dos soldados francezes ao sabor da sua phantasia. Chegado á suprema embriaguez da preponderancia, tanto valia para elle o sangue dos soldados como a corôa dos reis. A sua vontade era lei. Conta-se que{131}uma vez um dos seus conselheiros d'estado ousou lembrar-lhe que o codigo napoleonico era contrario á resolução que ia tomar.Bonaparte respondeu:—O codigo foi feito para salvação do povo, e, se a salvação do povo exige outras medidas, é preciso adoptal-as.Estas palavras são transparentes: deixam ver a tyrannia. O povo francez não podia ter vontade livre: vivia affrontado pela sombra de Napoleão e encarcerado na inquisição politica de que o ministro Fouché era claviculario. O cézar dominava tudo: a vontade do povo e a opinião da imprensa. Os jornaes eram thuribulos que vaporavam o incenso da adulação aos pés do throno. Os poetas estavam habituados desde o tempo do Directorio a cantar heroides em honra do Primeiro Consul. Os follicularios poisavam a penna, quando tentavam assumpto que esquecesse a grandeza napoleonica, amedrontados pelo espectro da proscripção. A visão do desterro bastava a intimidar a maior parte d'elles, senão todos. Madame de Staël, que não trepidava deante da estatua gigantea do imperador, teve de procurar refugio em Inglaterra.E comtudo, na sua origem, a corôa de Napoleão emergira, Venus da realeza, da onda da liberdade!É certo, mas a estas palavras respondem cabalmente as seguintes linhas da auctora dasConsidérations sur la revolution française, cujo espirito era profundo de mais para se deixar cegar por despeitos.«Não bastava,—diz a insigne pensadora—que todos os actos de Bonaparte tivessem o cunho de um despotismo cada vez mais audacioso; devia elle proprio revelar o segredo do seu governo, pois que despresava a especie humana o bastante para dizer-lh'o. NoMonitordo mez de Julho de 1810 fez publicar as palavras que dirigia ao segundo filho de seu irmão Luiz Bonaparte criança a quem o grã-ducado de Berg era destinado:Não esqueças nunca, lhe diz elle,em qualquer posição que te colloquem a minha politica e o interesse do meu imperio, que os teus primeiros deveres são para mim, os segundos para a França: todos os outros, incluindo os relativos aos povos que eu pudesse confiar-te estão depois. Não se trata aqui de libellos, de opiniões de partido; é elle proprio, Bonaparte,{132}que se denunciou mais severamente do que a posteridade ousaria fazel-o. Luiz XIV foi accusado de ter dito intimamente:O Estado sou eu; e os historiadores esclarecidos apoiaram-se com razão n'esta linguagem egoista para condemnar o caracter do rei. Mas se este monarcha, quando collocou seu neto no throno de Hespanha, lhe houvesse ensinado publicamente a mesma doutrina que Bonaparte ensinava ao sobrinho, talvez que o proprio Bossuet não ousasse antepôr os interesses dos reis aos das nações; e é um homem eleito pelo povo, que quiz encher com o seueugigantesco o logar reservado á especie humana! foi n'elle que os amigos da liberdade momentaneamente puderam ver o representante da sua causa! Muitos disseram: «É o filho da Revolução. Sim, é, mas filho parricida: deveriam reconhecel-o?»Tudo isto é profundamente verdadeiro.A liberdade franceza ficára esmagada sob a purpura do cézar. Novo Archimedes, levantaria com a alavanca do seu poder a Europa inteira, se a Inglaterra consentisse em ser o ponto d'apoio. Era preciso vencer essa unica difficuldade. Serviu-se pois de todos os meios. NaHistoria Secreta do Gabinete de Napoleão Bonaparte, por Lewis Goldsmith, está manifesto o espirito faccioso do escriptor inglez, mas ainda assim ha por vezes a eloquencia terrivel dos factos, e esses não os póde calar a historia. Bonaparte procurou triumphar por mil maneiras differentes, seduzindo com largas retribuições a lealdade dos jornalistas inglezes; mandando a Inglaterra espiões, entre os quaes algumas mulheres, como madame Bonneuil e madame Visconti; procurando sublevar a Irlanda, etc.Mas estava escripto no livro dos destinos que a Inglaterra fosse o sepulchro da grandeza de Bonaparte. Lord Wellington, perseguindo a aguia franceza desde Lisboa até Waterloo, similhante ao adversario de Macbeth, segundo a expressão de madame de Staël, foi o Josué da historia profana que ousou suster o curso do sol napoleonico em meio d'um longo dia de gloria prolongado em dez annos de lucta contra a Inglaterra.O cartel de desafio, tantas vezes arrojado á face da nação britannica, volveu-se na hora da decadencia em supplica dirigida ao principe regente d'aquelle paiz.{133}Estas palavras de Napoleão, escriptas em Aix, depois de Waterloo, são claro testemunho da inconstancia das coisas terrenas:«Alteza real, a braços com as facções que dividem o meu paiz, e com a inimisade das grandes potencias da Europa, puz termo á minha carreira politica. Venho, como Themistocles, sentar-me junto ao lar do povo britannico; abrigo-me á protecção de suas leis, a qual solicito de vossa alteza real como o mais poderoso, o mais constante e o mais generoso dos meus inimigos.«NAPOLEÃO»[12]Não era porém sincera a humildade do cézar decaído. Themistocles pedia a hospitalidade d'Artaxerxes, mas não pensava em beber a morte no veneno. Os tropheos da Inglaterra, como os tropheus de Melciades, perturbavam o somno do hospede desterrado. No momento de embarcar em a nau ingleza, Napoleão repellia o general Becker que se abeirava d'elle para despedir-se, e dizia-lhe:—Retire-se general. Não se diga que um francez veiu entregar-se nas mãos do inimigo.Themistocles não esquecia a gloria de Melciades.Napoleão preferira morrer na morte lenta de todos os exilados, e agonisára durante cinco annos n'uma possessão ingleza.Ahi, na triste solidão da ilha de Santa Helena, devia recordar a cada momento a epopea da sua gloria e da sua desgraça, pensando ou dictando as suas memorias ao general Las Cazes. Então, pelo silencio da noite, apenas interrompido monotonamente pelo ruido do mar, refugiria de si mesmo ao ver passar deante dos olhos o bando lutuoso das viuvas e dos orphãos dos seus soldados, e ao adivinhar a pallida e lacrimosa figura da moribunda de Malmaison, a formosa Josephina Beauharnais.É sempre no mar que se esconde o sol; Santa Helena illuminou-se com os ultimos clarões da gloria de Bonaparte no duplo occaso da grandeza e da vida. Orgulho de soldado: ordenou que lhe fosse{134}mortalha o capote que trazia na batalha de Marengo. Na sua vaidade de cézar até á morte se queria impôr.Mais longe do que desejavamos nos levaram as nossas divagações, esquecendo-nos de que o protagonista d'esta narrativa não era Bonaparte, imperador dos francezes, mas um obscuro soldado dos exercitos que o venceram.Tempo é de falarmos de Graça Strech, e de dizer que mais duas vezes fôra ferido no decurso da campanha peninsular: uma em Salamanca, e outra em Victoria com uma bala n'uma perna, do que lhe resultou ficar coxeando. Fôra gravissimo este ultimo ferimento. Por mais d'uma vez os soldados portuguezes suppozeram moribundo o seu valoroso companheiro. Ás exaltações febris, em que o ferido precipitava palavras que os seus camaradas não comprehendiam, succediam-se tão profundas prostrações, que era difficil averiguar se vivia ainda.D'uma das vezes ouviram-lhe dizer:—Não! não! Não vêdes a morte?... Não quero morrer... E Rosina?... Meu filho!... Estou aqui sósinho... Pietro tocava a sua harpa.. A muda chorava muito... Em Coimbra, n'aquella tarde... Sim, ella era innocente e pura... Pietro parecia triste de a vêr chorar... Que é?... São os francezes?... Que venham... Eu vingo a memoria de minha irmã, mas não quero morrer porque tenho um filho...—Um filho! exclamaram os dois soldados que piedosamente o soccorriam.O ferido continuou a delirar:—Tudo perdeu por mim... Como era grande o seu amor!... Pobresinha... Para traz, francez; quero ir vel-a. Estás ahi? Sempre ao pé de mim! Sim... bem me lembro... o ceguinho das Ardennas e o seu cão... Não ouviste chorar uma creança? É meu filho...—O nosso tenente treslê! exclamou um dos soldados.Graça Strech havia, pelos seus actos de valor, chegado áquelle posto, sendo condecorado com a Torre-Espada, com a cruz de S. Fernando d'Hespanha, e ao depois com a medalha da guerra peninsular.—Pena é se morre, acrescentou outro soldado,{135}que não ha mais destemido militar que o nosso tenente!—Isso não! Animava-se com a polvora, que tambem não tem de haver no mundo militar mais triste...—E mais desgraçado! Não te lembras que já a irmã era muda?—Muda, sim.A este tempo havia caído Graça Strech em lethal modorra, e retiravam-se os dois soldados receiosos de que o tenente não resistisse ao ferimento.Todavia, como poderemos ver pelo capitulo seguinte, não tinha de ser aquella a ultima hora da attribulada existencia de Graça Strech.{136}[12]Historia de Napoleão Bonaparte, pelo dr. Caetano Lopes de Moura, Vol. II.XVIUma festa no Porto ha cincoenta e nove annosAmanheceu festivo para a cidade do Porto o dia 15 d'agosto de 1814.Ainda de noite começaram a povoar-se as janellas, e a animar-se as ruas com enorme multidão.Ás sete horas da manhã já não havia casa que não estivesse adornada de ricas tapeçarias, pendentes dos balcões, que competiam com as galas das damas da cidade e da provincia debrusadas nos peitoris.Muitas das janellas estavam emmolduradas em grinaldas e arcos de flôres; outras ladeadas por bandeiras; ao longo das ruas corria um verdejante tapete de hervas aromaticas.Em muitos olhos brilhavam lagrimas d'alegre commoção, e em todos os labios desabrochavam sorrisos que eram espelho do jubilo da alma.Que motivo havia, pois, para tamanha festa na cidade cujos habitantes, no lento curso de cinco annos, estavam costumados ao luto e á saudade dos que pereceram na catastrophe da ponte, nas linhas de defeza, nos hospitaes de sangue e dos que posteriormente haviam succumbido na demorada campanha peninsular contra os francezes?Não eram estranhos os jubilos d'esse dia a tão funestos acontecimentos. Esperava-se a brigada de infantaria do Porto, composta dos regimentos 6 e 18, que victoriosa regressava de França depois de haver pelejado com egual denodo pela restauração d'estes reinos e de toda a peninsula.Os feitos da brigada de infantaria do Porto haviam soado, com assombro dos portuguezes, em Portugal inteiro, mórmente os que praticára na batalha da estrada de Bayona, em França, no dia 13 de dezembro do anno anterior.{137}O senado da camara tinha-se reunido nos primeiros dias d'agosto para assentar nos festejos com que se devia celebrar o regresso das tropas. Resolveu que se levantassem arcos de triumpho, fazendo-se outras mais demonstrações de alegria, e encarregou da direcção dos preparativos o vereador decano José de Sousa e Mello.Tratou-se, pois, com febril afan, de executar o programma dos festejos.Construiu-se sobre a ponte do Poço das Patas aPorta da cidade[13], guarnecida com os castellos que lhe são proprios, e com as insignias concedidas por carta regia de 13 de maio de 1813; collocando-se na cimalha da porta a imagem de Nossa Senhora, que entregava a seu Divino Filho uma fita com a legendaCivitas Virginis.O gosto da pintura, imitando velha cantaria, muito deu na vista das pessoas que percorriam as ruas e estacionavam boqui-abertas em frente do arco.Tambem na cimalha foi embutida uma lamina de bronze com este distico:HINC GENTI HOMEN;HINC REGNO PLURIES SALUS;HINCEUROPAE,ORBIPRIMA LIBERTATIS LUX NOVISSIME AFFULSIT.No alto da rua nova de Santo Antonio levantou-se um arco de triumpho, de ordem composita, firmado em quatro columnas; resaltavam dos intercolumnios arnêzes, grévas, escudos, bandeiras e lanças entrelaçadas com listões de murta, ramos de oliveira, palmas e louros. Nos dois grandes pedestaes sobre que descançavam as columnas, lia-se:Sempre engrandeça a patria lusitanaVosso nome immortal, claro, e subido;E a Casa restaurada de BragançaTenha em thesouro seu vossa lembrança.Condest.{138}Esta Cidade forte, e populosa,Colonia antiga do poder Romano,Cavou a sepultura temerosaD'um gigante nas obras deshumano.Affons. Afric.Egualmente estavam enfloradas as cornijas, architraves e os frizos. Sobre o portico erguia-se o escudo das armas da cidade; por cima da balaustrada que corria ao longo do arco, havia quatro estatuas que figuravam:A SAUDADEMostrava um livro aberto em que se lia:1.º e 2.º de Setembro de 1809.(Dias em que saíram do Porto as tropas.) No pedestal estava escripto:Deixando a Patria amada, e proprios laresSe mostraram nas armas singulares.Cam.A ALEGRIAIndicava em outro livro a data:15 d'agosto de 1814.(Dia da entrada das tropas.) Lia-se no pedestal:A Deus, ao Rei de quem a paga esperamFazer maior serviço não puderam.Malac.A VICTORIADesenrolava os annaes das acçoes em que a brigada entrára. Legenda do pedestal:Aonde falta o premio a quem militaNão habita a razão, nem gente habita.Dest. d'Esp.A ETERNIDADETinha, entre o symbolo da serpente enroscada, os{139}nomes dos regimentos:Infantaria 6 e 18.No pedestal:Ajudados dos céos em mar e em terra,Tem fechadas na mão a paz, e a guerra.Malac.Sobreposta a uma longa inscripção latina, rematava o grupo do arco uma esphera armilar, sustentada por Genios que entornavam flôres.Nos intercolumnios posteriores correspondiam armas, espadas, tambores e alabardas unidos com feixes de louro, ramos de carvalho e oliveira.Nos grandes pedestaes havia gravadas epigraphes em verso, correspondendo os ornatos aos da frente e as estatuas da balaustrada estas quatro:O PORTOOfferecia com a mão direita uma corôa de louro e empunhava na esquerda um ramo de carvalho, tendo no pedestal:Orno os heroes que a patria eternizaramE por ella seu sangue derramaram.Elp.O AMOR DA PATRIAOfferecia com a direita um coração e apontava com a esquerda para o peito. No pedestal:Meu valor, minha nobre fortalezaSerá gloria da gloria Portugueza.Affons. Afric.A PAZOffertava com a mão direita o ramo de oliveira, e sustentava na esquerda um feixe de palmas. No pedestal:Que mais ditoso fim se lhe esperavaQue este agora que merecido estava!Affons. African.{140}A DOCILIDADEArremessava com a mão esquerda um montão de cadeias, e com a direita segurava uma estreita fita. No pedestal:O Soberano Author da redondezaDa minha redempção deu-vos a empreza.Bocag.A tarja que, do outro lado, correspondia á inscripção lapidar, tinha figurados em relevo todos os petrechos de guerra, e os Genios, que d'esse lado sustentavam a esphera, desenrolavam uma fita em que estava escripta uma quadra doCondestabre.[14]Ahi se agrupava impaciente a multidão, não só attrahida pela magnificencia do arco, senão tambem pelo variegado espectaculo das tropas da guarnição, que estavam postadas em alas até ao largo de Santo Eloy; bem como para ver pegar fogo á bateria collocada no topo da calçada dos Clerigos e destinada a salvar com vinte e um tiros de peça a passagem da brigada pelo arco.Na rua nova do Almada baralhavam-se dois formigueiros de povo: um que, receoso do tumulto na aproximação das tropas, demandava o Campo de Santo Ovidio; outro que, tendo visto o obelisco levantado no meio d'este campo, ia procurar logar, na hypothese de encontral-o, junto ao arco da rua nova de Santo Antonio.Era tambem sobremodo esplendoroso o obelisco n'aquelle campo. Rodeava o pedestal uma espaçosa varanda, adornada com ricas bandeiras portuguezas.Sobre o pedestal, e em frente da rua nova do Almada, estava o retrato do principe real, com a seguinte legenda escripta na almofada correspondente:Diga-o a Augusta Effigie contemplando:Foi este o forte, o justo,João, da Patria Pae, que a patria alçandoDeu pasmo a naturaes, e a estranhos susto.Elp.{141}Em frente da rua da Boa Vista, resaltava o retrato da rainha, lendo-se no pedestal:O louvor que se ganha pelos meiosDa virtuosa vida, este só dura,Este de se perder não tem receios.Bern.E em frente da linha dos predios foi disposto o retrato da princeza, tendo no pedestal:Que affavel se olharia a tua face,Se o céo a nossos votos sempre amigoNa fria estatua espiritos soprasse!Filint.Do lado da Lapa, em frente do quartel, viam-se as armas do reino e da cidade, unidas por um listão, em que estava escripto o dia da restauração do governo nacional18 DE JUNHO DE 1808lendo-se no pedestal os seguintes versos de Horacio:HIC DIES VERE NOBIS FASTUS ATRASEXIMIT CURAS.Todos os retratos foram collocados entre tropheus de bandeiras, e eram cingidos pelos emblemas da paz e do heroismo...O bom povo portuense, na cegueira do seu jubilo, não reparava que esses emblemas, á beira dos augustos retratos, deviam ser uma pungente ironia se a familia real tivesse olhos para os ver atraves de enorme distancia, e interposto o mar!No cimo do obelisco assentava a corôa real cingindo um manto de preciosa bordadura.Pouco depois das oito horas e meia, um unisono grito de alegria annunciou a chegada da brigada ao Alto do Senhor do Bomfim.Então começou o estrondear dos morteiros, o repicar dos sinos e o alarido dos vivas. Quando as tropas chegaram ao topo da rua nova de Santo Antonio, o enthusiasmo attingiu as raias do delirio, tamanho{142}era o alvoroço da multidão que saudava com brados, com os lenços e os chapeus os dois regimentos portuenses. Durante todo o percurso até ao Campo de Santo Ovidio as flôres, as grinaldas e os ramos, que desciam das janellas, figuravam uma chuva iriada e espessa que ia orvalhar de petalas as fardetas dos soldados.Se nos fosse dado ouvir os breves dialogos que se perdiam no borborinho geral, de grupo a grupo iriamos recolhendo vozes, posto que variadas, todas concernentes á festa d'esse dia.N'uma das janellas da rua nova do Almada chalravam as visinhas da familia Strech, as quaes cinco annos antes tivemos occasião de conhecer em lances que verdadeiramente contrastavam com o espectaculo a que estamos assistindo.Passava o regimento de infantaria 18, e diziam ellas.—Vamos a ver se conhecemos o José Maria!—Vem tenente e condecorado!—Já sei. Mandou dizel-o o homem da Victorinha.—Deve vir muito mudado!—Será aquelle?—Aquelle, menina! Aquelle militar tem mais de vinte e cinco annos...—Vamos a ver se elle olha para a casa onde morou...—Vês? Não olha! Vae até a olhar para o chão...Era elle, effectivamente.No meio da rua dialogavam dois velhos:—Que pena não assistir o Trant!—Está doente.—Bem sei.—E elle que tanto trabalhou para esta recepção!No Campo de Santo Ovidio, antes da chegada das tropas: Um velho perguntando a um sujeito que estaciona junto d'elle:—Falta-me a vista! Quem são aquelles que estão nas janelas do quartel?—É o juiz e a camara. Olhe... Não vá mexer-se agora uma cabeça?—Vejo, mas não distingo.—Pois é o José de Sousa e Mello.—Acho que elle tem de falar pelo senado?—O programma dizia que sim.{143}—Esperaremos. Sempre não ter vista! Perco metade!Chegaram as tropas ao Campo de Santo Ovidio e, depois de formar quadrado, fizeram continencia aos retratos da familia real, que, diga-se em abono da verdade, não responderam.Os originaes estavam no Brazil; não viram.Em seguida o brigadeiro Carlos Ashworth, commandante da brigada, levantou vivas ao principe regente e á rainha...Os retratos não se mexeram.Quando porém se ouviu um enthusiastico viva em honra da cidade do Porto, a cidade respondeu delirantemente pela bocca das tropas, do povo, e pelo acenar vertiginoso dos lenços nas janellas.Dada a voz de descançar armas, desceu o já nomeado vereador decano, José de Sousa e Mello, que pouco antes viramos a uma das janellas do quartel. O brigadeiro commandante, tendo-se apeiado, dirigiu-se para elle. Então o camarista Mello recitou uma allocução que terminava por estas palavras: «A camara roga a vossa excellencia queira fazer-lhe a honra, não só de jantar hoje n'este quartel, mas de convidar em seu nome toda a officialidade d'estes dois regimentos, mandando vossa excellencia que, além d'isto, se distribua pelos sargentos, cabos e soldados o dinheiro que ali se acha para lhes supprir o jantar d'hoje.»O brigadeiro Ashworth agradeceu amavelmente o convite, e asseverou que a officialidade acceitaria reconhecida.A immensa multidão que enchia o Campo de Santo Ovidio rompeu n'este lance em freneticos vivas e, ao som das bandas marciaes, recolheram as tropas a quarteis, sendo seguidas por grande numero de pessoas, parentes, amigos, e conhecidos, que esperavam lhes fosse permittido abraçar soldados e officiaes.Concedidas duas horas para desafogo de saudades, cinco annos retraídas, e gastas em ardentes expansões que as volveram momentos, foi o regimento de infantaria 18 ouvir missa á egreja da lapa e o regimento de infantaria 6 á egreja da Graça. Em ambos os templos houvelausperenneeTe-Deum.Cumpridos os deveres do coração e da alma, começaram os da cortezia.O brigadeiro Ashworth foi cumprimentar o senado{144}á sala da secretaria do quartel de Santo Ovidio, convenientemente preparada para a solemnidade da recepção, recolhendo-se depois ao quartel general da rua nova do Almada, onde, pelo meio dia, recebeu a visita dos vereadores.Cerca da uma hora da tarde, quando o brigadeiro já estava desembaraçado de felicitações officiaes, annunciou-se no quartel general o tenente Graça Strech.O brigadeiro acudiu a recebel-o com a maxima familiaridade, que era testemunho de maxima consideração.—Vem tambem cumprimentar-me? galhofou o brigadeiro.—Ora sente-se e fale.—Venho solicitar um grande obsequio, respondeu o tenente.Razão tinham as meninas da rua nova do Almada para não reconhecer n'elle o gentil e vigoroso José Maria dos dezeseis annos. Estava velho aos vinte e um, velho das geadas do infortunio que requeimam as flores da alma, e apagam nos olhos o brilho da mocidade. Tinha a magreza viril do soldado, mas cruzavam-se na sua physionomia umas sombras espessas que á primeira vista inculcavam que espirito e corpo haviam soffrido por egual. Como as palreiras meninas da janella disseram, figurava ter mais de vinte e cinco annos.Mas, voltando ao dialogo do tenente com o brigadeiro:—Que grande obsequio é esse? perguntou com affabilidade Carlos Ashworth.—Venho pedir dispensa de assistir hoje ao jantar.—Ah! meu amigo, isso não póde ser! O galardão é para todos; cumpre, pois, que cada um receba o quinhão que lhe cabe.—Eu creio que já em França tive a honra de lhe dizer, meu brigadeiro, que precisava descanço porque soffria...—E de me pedir a sua baixa, bem sei. D'essa vez não pude annuir ao pedido do meu bravo tenente, porque havia recebido instrucções particulares do senhor marechal marquez de Campo Maior para não licenciar soldados nem officiaes. Era justo que o Porto conhecesse todos os heroes d'esta brilhante campanha. O marechal tinha razão. Agora, meu bom amigo, tambem não posso ser-lhe agradavel como{145}desejava. O tenente foi dos militares que mais se distinguiram desde Portugal a França. As ordens do dia falaram muita vez no seu nome. Conhecem-n'o. Seria uma affronta para o Porto que estivesse entre os seus muros, e recuzasse o talher que lhe offerece. Isso—disse o brigadeiro curvando-se amigavelmente para elle—são saudades, não quero saber de quem. Tambem eu as tenho... Vamos, assista ao jantar, que eu me empenharei por obter a sua baixa o mais breve possivel.E estendeu-lhe cordealmente a mão.O tenente Graça Strech saiu d'ali com os olhos no chão para não vêr a casa onde nascera, e atravessou as ruas da cidade absorto na triste concentração de quem está em terra onde não conhece ninguem.Ia entregue aos seus pensamentos, e assim andou ao acaso até que outro tenente do mesmo regimento lhe bateu no hombro e disse:—São quasi cinco horas e meia. Vamos lá ao jantar, homem. Está marcado para as seis.Effectivamente, á hora designada, reunida a officialidade no quartel de Santo Ovidio, passou com os vereadores á sala do banquete, cuja ornamentação era brilhante.A um e outro lado corriam arbustos, d'entre os quaes appareciam as armas de Portugal e Inglaterra. A um grupo de trophéus de guerra, com bandeiras d'uma e outra nação, que cobriam a cabeceira da mesa, faziapendantum nublado em que se enleiava a serpente, symbolo da eternidade, tendo escripto no centro—Ashworth.—Guarneciam o nublado duas bandeiras com os nomes dos dois regimentos, atadas por uma fita em que se lia a data de maior gloria para a brigada do Porto—13 de dezembro de 1813.No fim do banquete, ao som da banda de musica de milicias que tocava á porta do quartel, levantaram-se enthusiasticos vivas ao principe regente, á familia real, aos monarchas alliados, aos governadores do reino, generaes do exercito combinado, ás tropas victoriosas, e a todas as mais entidades que iam lembrando e mereciam a homenagem d'um calis de vinho.Um só conviva correspondeu a esses ruidosos brindes com um movimento de labios: foi Graça Strech. E á noite, quando toda a cidade se illuminava festivamente, era profunda a escuridão na sua alma.{146}

Bem podia ser porém que alguma voz do alto respondesse:Salva!Só se perde a mulher que não tem coração para comprehender o que é ser mãe.{118}

[11]Do sr. Antonio de Serpa.

[11]Do sr. Antonio de Serpa.

Em fevereiro de 1810 estacionava no valle do Mondego o exercito commandado pelo general Wellington, repousando das passadas lides, se bem que já apercebido para resistir aos movimentos dos francezes que de novo ameaçavam invadir Portugal.

Beresford activamente se dedicava a exercitar e disciplinar as tropas, e a providenciar pelo que tocava a provisoes que se tornavam indispensaveis para a campanha que a todo momento se esperava, e cuja duração era imprevista.

O rei José havia entrado em Sevilha, no primeiro dia d'esse mez, á frente das suas tropas, e a nuvem que obscurecia o céo da Hespanha alongava-se já para Portugal, deixando ouvir os rumores da tempestade que lhe refervia no bojo caliginoso.

N'esse tempo vamos nós encontrar Graça Strech na escóla militar do valle do Mondego, se bem que muito demudado o encontremos, e mereça especial attenção a tristeza que parece salteal-o nas horas em que o soldado se permitte ser homem. Procuramos á roda de si, e não encontramos a «muda», sua irmã. Inquieta-nos tão inesperada ausencia. Depois que comprehendemos o coração da Rosina Regnau, depois que passo a passo a acompanhámos nos lances angustiosos de sua attribulada mocidade, habituamo-nos a estimal-a, e já agora nos é magua o deixar de vêl-a.

Morreria acaso?

Algumas vezes se lembrára ella, quando vivandeira do exercito francez, de que uma bala perdida a mataria. É uma tradição de Vivandeiras, a do pelouro esgarrado que as ha de prostrar, porque, companheiras dos soldados, esperam do soldado a sorte. Todavia nem sempre se realisam as contas que a phantasia{119}lança, e não é de presumir que dos soldados que manobram exercitando-se no valle do Mondego partisse a bala destinada a roubar-lhe a vida. Tambem nas faces de Graça Strech não ha a tristeza sombria das perdas irreparaveis, mas um novo reflexo de melancolia que, a despeito de a querer concentrar, dá á physionomia um toque de soffrimento. Procuremos tirar-nos de tão saudosa incerteza, e saber o que se passára nos mezes que decorreram desde agosto de 1809 até fevereiro de 1810. Pelo que vamos ouvir a Graça Strech, n'um rapido dialogo com um companheiro d'armas, não poderemos fazer juizo seguro, mas esse será o fio de Ariadna que depois nos guiará no labyrintho de nossas pesquisas.

—Tens tido noticias de tua irmã? perguntou o soldado.

—Não tenho; nada sei da pobresinha! respondeu dolorosamente Graça Strech.

—Deve-te custar a ausencia! Se a nós, que não eramos irmãos, tambem nos custa! Estavamos habituados aos seus tregeitos, e o caso é que já os entendiamos como se fossem palavras! Que pena que não falasse! Bonita era! e tão meiga como bonita! Sempre aquelle sorriso doce para todos e para tudo! Mas, ó Strech, se a conversa te magôa, não continúo...

—Continúa, sim. Ás primeiras palavras rebenta a saudade; depois Deus manda a resignação, e é o que vale.

—Eu tambem tenho familia, Strech, tambem sei o que isso é. E depois tu sempre deves estar com teu cuidado, porque tua irmã ia doente.

—Começou a soffrer Trabalhos da guerra, commoções fortes, talvez receios da nova campanha... Não sei. O que é certo é que a não julguei com forças de andar commigo em correrias atraz dos francezes, que é preciso enxotar pela ultima vez. Temos uma tia nossa na Allemanha. Veiu a Portugal ha annos, e affeiçoou-se muito a minha irmã. Deu-se a coincidencia de estar no porto da Figueira um brigue italiano, e ir a bordo um passageiro allemão, que me pareceu homem compassivo, e que me prometteu acompanhar a pobre muda até ao seu destino. Que havia eu de fazer, quando a demora de minha irmã em Portugal seria a morte, e todas as circumstancias{120}pareciam favorecer visivelmente o meu designio de a mandar para a Allemanha? Deixei-a ir, mais entregue a Deus do que ao compassivo allemão.

—E que tencionas fazer agora?

—Agora! Quem sabe quando chegará a hora de pertencermos a nós mesmos! Se eu morrer, ficará minha irmã entregue a sua tia; se eu sobreviver a victoria das nossas armas—porque nós não podemos succumbir depois de havermos triumphado duas vezes—irei buscal-a á Allemanha, e viveremos juntos até que um de nós deixe d'existir.

—Desculpa-me, Strech,—tornou o soldado condoído.—Mas eu também estimava tua irmã, e por isso te perguntei por ella. Como já partiu em dezembro, e eu tenho conhecido que andas triste, pensei que tivesses recebido noticia de que a pobresinha ia a peior. Como felizmente não se realisou a hypothese, desculpa-me. Olha... Estou em dizer que Deus traga a guerra depressa para nos distrairmos. A guerra embriaga como o vinho, e a embriaguez é bom remedio para saudades. Eu e tu, pelo que vejo, soffremos ambos da mesma doença. Adeus, Strech.

Este dialogo, como anteriormente disse, não é explicação cabal, nem... verdadeira. Graça Strech via-se obrigado a enganar as pessoas que lhe perguntavam por sua «irmã», se bem que o engano apenas se limitasse aos motivos da partida e ao destino de Rosina. Elucidemos.

Em dezembro de 1809 começaram a manifestar-se os symptomas da maternidade. Esta desgraça, cujas funestas consequencias não previram na loucura do seu amor, obrigou-os a pensar reflectidamente no futuro, subitamente entenebrecido no horizonte que o poetico sol de Coimbra azulejava nas tardes em que as margens do Mondego lhes enfloravam os ardentes idyllios. O peor que ha no Paraiso é o ter porta: porque não se abre, quando a ancia da felicidade a impelle, e porque se fecha sobre as mais doces illusões, movida por qualquer viração que mais branda e mais embalsamada parecia. Eu, pouco sabido em philosophias, acho a porta do Paraiso muito peior que a serpente: uma tenta, a outra fecha. Ora a gente poderia fugir da tentação, se encontrasse a porta aberta. Deixamo-nos seduzir pela cascavel. Ouvimol-a. Embriagamo-nos{121}com as paizagens do éden, com as melodias eolias do arvoredo, com o maná que o céo deixa cahir sobre o coração. Entretanto a serpente adianta-se. Cinge-nos, enleia-nos. Olhamos para a porta: é-nos defesa a saída. Estamos encarcerados. A serpente triumpha.

Por duas ponderosas razões não podia ficar Rosina Regnau em Portugal. Era a primeira que, inculcando-se irmã de Graça Strech, a sua deshonra seria desaire para o irmão. A segunda estava em que o conservar-se occulta no reino, em estado de não poder acompanhar o exercito, seria imperdoavel n'uma epoca em que tudo que cheirasse a francez inspirava odio, e em circumstancias em que o deixar de falar seria quasi impossivel.

Avultou aos olhos d'um e outro, como pesadello horrivel, a necessidade da separação. O mesmo foi verem-se inesperadamente sepultos nas ruinas dos castellos encantados que ambos haviam architectado. E a felicidade é como todos os edificios: leva muito tempo a construir e basta um instante para desabar.

Estava effectivamente a esse tempo, nas aguas da Figueira, um brigue italiano. Concordaram ambos em aproveitar a commodidade do transporte. Rosina energicamente rejeitou a ideia de voltar a França, duas vezes deshonrada. Convieram, pois, em que ella esperaria em Italia, com o filho nos braços, o termo da guerra peninsular. Depois, para sempre se reuniriam, e viveriam enlevados na infancia da criança, que ambos phantasiavam formosa.

Mas, por que espesso véo de lagrimas se não filtrava este raio de longinqua felicidade, illuminando-o e iriando-o como um reflexo de sol moribundo através de neblina humida em tarde de tempestade!

Era esse o arco-iris da esperança, gravado em traços multi-côres, d'um abysmo a outro, sobre um céo plumbeo.

—O pae Regnau,—dizia Rosina—costumava dizer que a felicidade era uma bola de sabão. Agora vejo que é. Tudo desfeito, n'um momento! Eu desterrada para um paiz desconhecido, sósinha com a minha desgraça e o nosso filho! Tu, a muitas leguas de distancia, exposto á sorte dos que combatem, mais incerta que qualquer outra! Viverei entre a esperança da tua chegada e o receio d'uma noticia funesta. Oh!{122}esta idéa é horrivel! Então Deus ha de permittir que, meu filho entre no mundo vestidinho de luto! Não não póde ser. Não te exponhas loucamente á morte, meu amigo, não? A tua vingança já deve estar satisfeita, e depois um soldado que é pae deve ter duas cadeias a ligal-o ao mundo: a patria e a familia. Ora eu bem sei que tua irmã é a patria; mas lembra-te, sim, lembra-te! de que teu filho é a tua familia...

Acudia a serenal-a, com o coração despedaçado nas garras de desconhecido abutre, Graça Strech. Queria ser forte, e as lagrimas a trahirem nos olhos o esforço! Tentava enganar, e estava desilludido. Ainda não houve maior desgraça, mais amargo calix de amargura esperado nos labios com um sorriso...

—Não, Rosina, não imagines desgraças que Deus não permittirá. Bem sabes que a Providencia me tem guardado até hoje... Verdade é que tu eras o meu anjo da guarda, e tu vaes fugir-me. Isto é, em verdade, maior que a coragem humana! Não me arriscarei imprudentemente á morte, está certa... Mas ás vezes, na refrega, a gente não tem tempo de evitar uma bala... Não chores, Rosina, não chores. Foi uma loucura que eu disse. Eu não hei de morrer. Acaso morri eu para a memoria de minha irmã? Tambem não hei de morrer para o futuro de meu filho, para o teu amor. É forçoso separarmo-nos; separemo-nos. Ficaremos, porém, um ao pé do outro, sempre juntos, que já não ha distancias que nos separem, braços que nos desunam. Tu ver-me-has pelos olhos da saudade; eu, que já estou costumado a ver assim, ver-te-hei tambem. Conversarei no meu coração comtigo, acompanharei meu filho desde o primeiro vagido e a primeira lagrima... Ó Rosina, triste coisa é a vida! Nascemos soffrendo, como devemos viver, e morremos como vivemos. E olha que a minha loucura deu mais uma alma á desgraça... Mas eu amava-te tanto, tanto! Pobresinha de ti, que dizias parecer-te ouvir a maldição de Bénard... Por amor de mim te deshonraste uma vez; o meu amor duas vezes te deshonrou... Não chores... Já estão desbotadas as rosas das tuas faces, não as desmereças mais... Lembra-te do céo da Italia, que todos dizem ser formoso, e de que nosso filho nascerá sob o céo d'esse bello paiz Deus ha de protegel-o. Lá viveremos{123}todos n'uma só felicidade... Mas não chores, Rosina, que eu sinto despedaçar-se-me o coração...

Foi chegado o momento da partida.

Rosina subiu a escada de portaló amparada nos braços de Graça Strech. Dir-se-ia um cadaver que se destinava a uma sepultura distante.

Os passageiros que estavam no convés pareceram commovidos de tão doloroso espectaculo. Um d'elles, que era musico napolitano, escondia contra a harpa o rosto brilhante de lagrimas.

Graça Strech viu-o chorar e disse de si para si:

—O mais desgraçado é aquelle, porque já desaprendeu de consolar.

E dirigiu-se a elle:

—Dá-me licença que o interrogue? perguntou.

—Da melhor vontade, respondeu o menestrel.

—Vae só?

—Infelizmente vou... Deixei um filho morto em Portugal. O rapaz era fraquito, e não pôde aguentar-se. Desde que me elle morreu, fiz voto de voltar a Italia. Mas quem póde agora ir por Hespanha com estas malditas guerras, que nem n'este bom paiz de Portugal deixam ganhar a vida? Juntei tudo o que podia, consegui obter uma reducção na passagem, e aqui vou eu com a minha harpa, sem o meu filho.

E cada vez luziam mais as lagrimas nos olhos do italiano, que parecia não ter ainda cincoenta annos, posto lhe alvejassem já os cabellos.

—Sente-se, senhor...

—Pietro, acudiu elle com a celebrada vivacidade napolitana, se bem que lhe soluçasse a voz commovidamente.

—Estimei saber o seu nome, porque preciso archival-o no coração. Vim aqui para lhe pedir um grande favor. Tem de ser sua companheira de viagem aquella desgraçada rapariga franceza que ali vê...

—Franceza! atalhou admirado o italiano.

—Sim, franceza. É um mysterio cuja revelação iria augmentar a sua maguada compaixão, meu bom Pietro. Olhe por ella, anime-a, que a pobresinha é muito infeliz, e quem lh'o pede não é menos infeliz do que ella...

O velho aprumou-se, tirou solemnemente o seu barrete de gomos, e disse:{124}

—Fique descançado, senhor. Pela memoria de meu filho lhe juro que a tratarei a ella como se fôra elle mesmo. O meu coração até agradece á Providencia esta inesperada companhia que me dá.Corpo di Baccho!que eu estava aqui triste, triste, que já mal podia commigo...

—Obrigado! muito obrigado! exclamou com extraordinaria commoção Graça Strech.

—Vá buscal-a para aqui, tornou o italiano. A minha harpa está habituada a chorar; eu a farei chorar mais uma vez. Quando eu vir que a minha nova filha vae triste, eu a despertarei:Carina!E ocanta-storiesempre ha de saber alguma napolitana para cantar-lhe.

Abeirou-se Graça Strech de Rosina. Ella tinha os olhos postos na superficie do mar, immoveis e desluzidos, e deixava rolar as lagrimas livremente pelas faces, como se já não tivesse vida para enxugal-as.

—Rosina! apostrophou elle acordando-a, e com voz que mal se percebia.

Ella estremeceu e fitou-lhe um olhar que se diria inconsciente.

—Rosina! tens ali um companheiro de viagem, que me pareceu tão desgraçado como qualquer de nós. É musico italiano. Volta a Italia porque lhe morreu em Portugal o filho que o acompanhava. Já vês que deve ser infeliz. Levanta-te, anda para ao pé d'elle. Anda, Rosina, minha boa amiga, minha desgraçada irmã. Tem fé, tem animo, já que eu sinto perdel-o... Olha... quero dizer-te uma coisa... Vou confiar-te o meu thesouro, Rosina, o meu thesouro que tão mysterioso te pareceu, e que tanto te fez soffrer... Guarda este annel de minha irmã... Deus sabe se eu algum dia fiz tenção de o tirar do dedo! Que m'o tirassem depois de morto, pouco me importava. A minha tenção era morrer com elle. Mas eu amo-te tanto, tanto, que quero que tu o guardes. Elle já me não póde recordar agora a minha vingança... Quando nosso filho crescer mette-lh'o no dedo, e alguma vez lhe contaremos ambos a historia do annel mysterioso.

Rosina olhava para Graça Strech em dolorosa suspensão. Pareceu accordar, porém, quando sentiu na mão o contacto do annel.

E entrou de beijal-o anciosamente, delirantemente,{125}como se fosse para ella uma reliquia mais valiosa do que a madeixasinha de seu pae.

—O que eu soffri por elle, por este annel! disse ella soluçante. Agora o levo commigo, e com elle a tua alma... Senta-te aqui, José, ao pé de mim, não me fujas ainda, que o navio não parte por ora... Lembra-te que esta separação póde ser eterna...

—Eterna! repetiu estremecendo Graça Strech.

—Não, não ha de ser, Deus ha de conservar-nos a vida que nos é mais precisa do que nunca... Mas bem sabes que eu quero gravar bem na memoria as tuas feições, uma por uma, todas, porque te quero ter presente a toda a hora, contemplar a cada instante o teu retrato, tão fiel, tão fiel, que me pareça estar-te vendo... Bem sabes que é uma illusão de que preciso, de que depende a minha vida. Pois se eu me desalentar, se succumbir á saudade,—e baixou timidamente a voz—quem ha de velar por nosso filho, soccorrel-o, beijal-o, amal-o?...

N'este momento deu a sineta de bordo signal para que descessem as pessoas que não eram passageiros.

Graça Strech, não tendo já forças nem coragem para levantar Rosina, fez signal ao italiano para que se aproximasse.

Pietro abeirou-se com a sua harpa, sentou-se ao pé de Rosina, e relanceou a Graça Strech um olhar que parecia dizer: Póde ir.

Rosina escondia o rosto entre as mãos, e soluçava offegante, estrangulada a voz na garganta.

Um dos marinheiros veiu, por ordem do capitão, lembrar a Graça Strech que já tinha dado o signal de bota-fóra.

—Eu vou... respondeu elle machinalmente sem poder desfitar Rosina, e quasi sem força para mover-se.

E, lançando a mão á corda, desceu oscillando como estonteado por uma violenta vertigem.

Na Occasião em que o capitão passava por deante de Pietro, o italiano levantou-se e sorrindo cortezmente lhe disse:

—O capitão dá-me licença que toque na minha harpa o hymno da partida?

O capitão sorriu tambem, e Pietro, inclinando-se para Rosina, exclamou:

—Carina!A minha harpa vae ser de hoje em{126}deante a nossa unica consolação. É preciso atordoarmo-nos com a musica. Ahi vae aCapuanapara não sentir o barulho de levantar ferro. Agora, para Napoles.

E começou a entoar, acompanhando-se, uma canção napolitana que poderia traduzir-se assim:

Esta tarde na ribeiraUma hora passeei.Meu pensamento, occupaste-oE tanto pensei em ti,Que o coração lá perdi...Tu vieste e apanhaste-o.Ensina-me pois agoraA desfazer a meada.São parciaes os juizes,E a justiça demorada.Bem sei que perdia a causa...Que meio? Lembra-te algum?Tu lá tens dois corações,E eu cá não tenho nenhum.Para que nos custe menosA resolver a questão,Expliquemo-nos. Ha malesQue ás vezes nos trazem bens.Vamos fazer um ajuste:Tu dás-me o teu coração.E guarda o que lá me tens.............................

Esta tarde na ribeiraUma hora passeei.Meu pensamento, occupaste-oE tanto pensei em ti,Que o coração lá perdi...Tu vieste e apanhaste-o.

Ensina-me pois agoraA desfazer a meada.São parciaes os juizes,E a justiça demorada.Bem sei que perdia a causa...Que meio? Lembra-te algum?Tu lá tens dois corações,E eu cá não tenho nenhum.

Para que nos custe menosA resolver a questão,Expliquemo-nos. Ha malesQue ás vezes nos trazem bens.Vamos fazer um ajuste:Tu dás-me o teu coração.E guarda o que lá me tens.............................

O brigue navegava já. E a musica parecia adormentar aquelles dois desgraçados: um porque levava seu filho; o outro porque o deixava ficar.{127}

A historia da terceira invasão franceza, comquanto prenda com a nossa narrativa, não lhe é essencial.

Muito de leve passaremos pois pelos acontecimentos que medeiam de julho de 1810 até agosto de 1814 e que, todavia, não podemos supprimir. Limitar-nos-hemos, em conformidade com o nosso plano, a um simples bosquejo não descabido em romance.

O marechal Massena, chegado a Valhadolid, assumiu o commando do exercito francez, que mandou reunir em Salamanca, e marchou sobre Portugal, tomando de caminho Ciudad Rodrigo, que se rendeu depois de heroica resistencia. Quasi volvido um mez, capitulou a praça d'Almeria; havendo soffrido um longo cerco, e tendo sido o paiol incendiado pelo inimigo.

O exercito alliado, em força de setenta mil homens, esperou os francezes nas alturas do Bussaco, onde durante os dias 27 e 28 de setembro se pelejaram duas sangrentas batalhas, sendo grande a victoria para o exercito anglo-luzo, que galhardamente repelliu o inimigo em grande parte dizimado. É esta uma das paginas mais brilhantes da historia portugueza durante o longo periodo das guerras peninsulares.

Os francezes, marchando para oeste, passaram ao Sardão, e d'ahi seguiram para o sul; os alliados, retirando sobre Lisboa, rebateram-n'os nos campos de Coimbra, e em Leiria.

Amedrontado Messena á vista das linhas chamadas de Torres Vedras—sobre as quaes o official inglez John T. Jones deixou uma circumstanciadaMemoria, que convém ser consultada pelos que não desdenham saber historia patria—tomou posições á rectaguarda em Santarem e Leiria, esperando reforço para atacar{128}as linhas. O exercito francez, consideravelmente derrotado, estava de mais a mais carecido de viveres.

N'esta conjunctura e já entrado o anno de 1811, passou o marechal Beresford ao Alemtejo para se oppôr ao inimigo, o que não impediu que Badajoz capitulasse. Não obstante esta victoria, e um reforço de trinta mil homens que o exercito francez recebeu, começou a retirar nos primeiros dias de março d'esse anno, sendo atacado na retirada pelos alliados, e entrando em territorio hespanhol no mez d'abril. Segunda vez reforçado, atacou o exercito anglo-luzo em Fuentes d'Honor, não sendo ahi mais feliz do que no Bussaco. No dia 11 d'esse mez retomaram os nossos a praça d'Almeida, e pela terceira vez se viu Portugal desopprimido do jugo francez.

Pareciam empenhados os factos em desmentir a prophecia de Napoleão: era a aguia da França que fugia amedrontada para o seu ninho d'além-Pyrineus. O leopardo triumphava á sombra da cruz, que sempre foi timbre dos guerreiros portuguezes.

Á batalha de Fuentes d'Honor seguiu-se outra não menos cruenta—a de Albuera, onde a victoria nos foi descontada pela perda de seis mil homens.

A aguia franceza, a dominadora da Europa, irritada por uma série de desastrosas derrotas, procurou ainda desferir no céo da peninsula o arrojado vôo das suas passadas glorias. Por um momento lhe sorriu a victoria. Substituido Messena por Marmont, o exercito francez logrou tomar-nos a artilharia em Fuente Guinaldo, obrigando os alliados a retirar sobre a fronteira portugueza, mais assignalados ainda na retirada que no triumpho, porque, aguentando o peso da cavallaria inimiga, repelliram todos os ataques, retomando a artilharia. Com a ação de Arroyo-del-Molinos, pelejada a 18 de outubro, cuja victoria coube aos alliados, se encerrou o anno de 1811, com muita honra para os anglo-luzos. Não começou mal auspiciado o anno seguinte, que se estreiou, para os alliados, com a tomada da praça de Ciudad Rodrigo, seguindo-se-lhe a rendição de Badajoz, depois de haver soffrido os apertos de primeiro e segundo sitio. Todavia o maior successo d'esse anno estava reservado para a batalha de Salamanca, em que os dois exercitos, commandados de um lado por Wellington e do outro por Marmont, se{129}equipararam em galhardia e pericia, cabendo a victoria—que se reputa a mais celebre de toda a guerra peninsular—aos luso-anglos. Á victoria de Salamanca seguiu-se a tomada de Madrid, e á tomada de Madrid o assedio ao castello de Burgos pelos alliados, que, por desobediencia de Ballesteros, tiveram de retirar sobre a fronteira de Portugal com denodo egual ao que em Fuente Guinaldo os assignalou. Não remata deshonrosamente o anno de 1812, para o exercito anglo-luso com este revez que se póde considerar façanha. Refeitas, porém, as tropas alliadas das perdas soffridas na retirada de Burgos, e já começado o anno de 1813, avançaram até Victoria, onde, na manhã de 2 de junho, se travou batalha geral, retirando o inimigo sobre Pamplona, perdendo artilharia, caixa, bagagens, e salvando-se o rei José, que estivera presente, em precipitada fuga.

Alea jacta erat.

A sorte de Napoleão, pelo que respeitava a ambições relativas á peninsula, havia sido jogada na batalha de Victoria, e a aguia franceza, em cujos olhos brilhava o olhar coruscante do Corso, pela ultima vez cruzava, demandando a França, as cumiadas dos Pyreneus.

No dia 1 de julho entrava o inimigo em solo francez. De nada valeu reforçar-se, e tomar Soult o commando geral. No ultimo dia d'esse mez ganharam os alliados a batalha chamada dos Pyreneus, rechaçando o inimigo para dentro das suas fronteiras. Seguem-se, para honra das armas alliadas, a tomada da praça de S. Sebastião, a batalha de Nivelle, os combates de Bayonna, as victorias de Nive e Orthez, e, finalmente, a triumphal entrada do exercito luso anglo em Tolosa, a 12 de abril de 1814.

Começava, como os acontecimentos o demonstram, a empallidecer no céo da França a estrella de Bonaparte. A lucta, desde muito travada entre a aguia e o leopardo, lucta de morte, encarniçada, contínua, estava chegada a ponto em que já era dado suspeitar que o pedestal de Napoleão não era tão firme como a sua coragem. O contendor, apesar dos revézes, era o mesmo; a fortuna principiava a falhar. A Inglaterra havia vencido, a sorte mostrára-se rebelde, mas o conquistador da Europa,—e para o ser faltava-lhe vencer a Inglaterra—não desesperava de reconquistar{130}a sua boa fortuna. Não tomou por aviso da Providencia o desastre. No immenso taboleiro da sua ambição, em que as nações eram outras tantas tavolas que movia a bel-prazer, pareceu-lhe aquelle um cheque sem consequencias para o resultado da partida em que se jogavam os destinos de povos e reis.

Bonaparte ufanava-se de empunhar a balança em cujas conchas pesavam d'um lado a Europa e do outro uma ambição immensa, indomavel, manifestada desde os primeiros passos da sua carreira militar. Comtudo havia na Europa uma nação quasi invencivel, porque o mar lhe servia de muralha, porque os seus recursos economicos prosperavam largamente, e porque as instituições d'esse povo, traduzindo a altivez do genio nacional, eram muralha tanto mais para temer como a que o mar, cingindo as ilhas britannicas, opporia a qualquer invasão. Era tudo isso, e mórmente o regimen liberal da Inglaterra, que incommodava Bonaparte, cujo poderio havia ultrapassado a barreira da tyrannia. O guerreiro feliz imaginava-se senhor absoluto: era a vertigem da victoria. Havia porém um meio de egualar a Inglaterra, como diz madame Staël: era imital-a. Bonaparte, porém, não tinha nascido diplomata. A vista do conquistador é incisiva, rapida, abrange de uma só vez o exercito todo por mais espraiado que esteja; o diplomata tem de profundar, estudar, decompôr, analysar não só os negocios englobados diante de si, mas as suas intimas relações, as suas consequencias proximas e remotas. N'um requer-se o olhar ardente da aguia; no outro a vista penetrante do lynce. Toda a diplomacia de Napoleão se cifrava em preparar os acontecimentos de modo a provocar um conflicto internacional, que tendesse a prejudicar a Inglaterra. Haja vista o tratado secreto de Fontainebleau, em que Portugal e a casa de Bragança eram sacrificados á velha rivalidade dos dois paizes. Bonaparte visava sempre a vencer, não empregando a influencia politica da sua posição, mas empregando a influencia armada do seu exercito. Edificava sobre cadaveres, arriscando a vida dos soldados francezes ao sabor da sua phantasia. Chegado á suprema embriaguez da preponderancia, tanto valia para elle o sangue dos soldados como a corôa dos reis. A sua vontade era lei. Conta-se que{131}uma vez um dos seus conselheiros d'estado ousou lembrar-lhe que o codigo napoleonico era contrario á resolução que ia tomar.

Bonaparte respondeu:

—O codigo foi feito para salvação do povo, e, se a salvação do povo exige outras medidas, é preciso adoptal-as.

Estas palavras são transparentes: deixam ver a tyrannia. O povo francez não podia ter vontade livre: vivia affrontado pela sombra de Napoleão e encarcerado na inquisição politica de que o ministro Fouché era claviculario. O cézar dominava tudo: a vontade do povo e a opinião da imprensa. Os jornaes eram thuribulos que vaporavam o incenso da adulação aos pés do throno. Os poetas estavam habituados desde o tempo do Directorio a cantar heroides em honra do Primeiro Consul. Os follicularios poisavam a penna, quando tentavam assumpto que esquecesse a grandeza napoleonica, amedrontados pelo espectro da proscripção. A visão do desterro bastava a intimidar a maior parte d'elles, senão todos. Madame de Staël, que não trepidava deante da estatua gigantea do imperador, teve de procurar refugio em Inglaterra.

E comtudo, na sua origem, a corôa de Napoleão emergira, Venus da realeza, da onda da liberdade!

É certo, mas a estas palavras respondem cabalmente as seguintes linhas da auctora dasConsidérations sur la revolution française, cujo espirito era profundo de mais para se deixar cegar por despeitos.

«Não bastava,—diz a insigne pensadora—que todos os actos de Bonaparte tivessem o cunho de um despotismo cada vez mais audacioso; devia elle proprio revelar o segredo do seu governo, pois que despresava a especie humana o bastante para dizer-lh'o. NoMonitordo mez de Julho de 1810 fez publicar as palavras que dirigia ao segundo filho de seu irmão Luiz Bonaparte criança a quem o grã-ducado de Berg era destinado:Não esqueças nunca, lhe diz elle,em qualquer posição que te colloquem a minha politica e o interesse do meu imperio, que os teus primeiros deveres são para mim, os segundos para a França: todos os outros, incluindo os relativos aos povos que eu pudesse confiar-te estão depois. Não se trata aqui de libellos, de opiniões de partido; é elle proprio, Bonaparte,{132}que se denunciou mais severamente do que a posteridade ousaria fazel-o. Luiz XIV foi accusado de ter dito intimamente:O Estado sou eu; e os historiadores esclarecidos apoiaram-se com razão n'esta linguagem egoista para condemnar o caracter do rei. Mas se este monarcha, quando collocou seu neto no throno de Hespanha, lhe houvesse ensinado publicamente a mesma doutrina que Bonaparte ensinava ao sobrinho, talvez que o proprio Bossuet não ousasse antepôr os interesses dos reis aos das nações; e é um homem eleito pelo povo, que quiz encher com o seueugigantesco o logar reservado á especie humana! foi n'elle que os amigos da liberdade momentaneamente puderam ver o representante da sua causa! Muitos disseram: «É o filho da Revolução. Sim, é, mas filho parricida: deveriam reconhecel-o?»

Tudo isto é profundamente verdadeiro.

A liberdade franceza ficára esmagada sob a purpura do cézar. Novo Archimedes, levantaria com a alavanca do seu poder a Europa inteira, se a Inglaterra consentisse em ser o ponto d'apoio. Era preciso vencer essa unica difficuldade. Serviu-se pois de todos os meios. NaHistoria Secreta do Gabinete de Napoleão Bonaparte, por Lewis Goldsmith, está manifesto o espirito faccioso do escriptor inglez, mas ainda assim ha por vezes a eloquencia terrivel dos factos, e esses não os póde calar a historia. Bonaparte procurou triumphar por mil maneiras differentes, seduzindo com largas retribuições a lealdade dos jornalistas inglezes; mandando a Inglaterra espiões, entre os quaes algumas mulheres, como madame Bonneuil e madame Visconti; procurando sublevar a Irlanda, etc.

Mas estava escripto no livro dos destinos que a Inglaterra fosse o sepulchro da grandeza de Bonaparte. Lord Wellington, perseguindo a aguia franceza desde Lisboa até Waterloo, similhante ao adversario de Macbeth, segundo a expressão de madame de Staël, foi o Josué da historia profana que ousou suster o curso do sol napoleonico em meio d'um longo dia de gloria prolongado em dez annos de lucta contra a Inglaterra.

O cartel de desafio, tantas vezes arrojado á face da nação britannica, volveu-se na hora da decadencia em supplica dirigida ao principe regente d'aquelle paiz.{133}

Estas palavras de Napoleão, escriptas em Aix, depois de Waterloo, são claro testemunho da inconstancia das coisas terrenas:

«Alteza real, a braços com as facções que dividem o meu paiz, e com a inimisade das grandes potencias da Europa, puz termo á minha carreira politica. Venho, como Themistocles, sentar-me junto ao lar do povo britannico; abrigo-me á protecção de suas leis, a qual solicito de vossa alteza real como o mais poderoso, o mais constante e o mais generoso dos meus inimigos.

«NAPOLEÃO»[12]

Não era porém sincera a humildade do cézar decaído. Themistocles pedia a hospitalidade d'Artaxerxes, mas não pensava em beber a morte no veneno. Os tropheos da Inglaterra, como os tropheus de Melciades, perturbavam o somno do hospede desterrado. No momento de embarcar em a nau ingleza, Napoleão repellia o general Becker que se abeirava d'elle para despedir-se, e dizia-lhe:

—Retire-se general. Não se diga que um francez veiu entregar-se nas mãos do inimigo.

Themistocles não esquecia a gloria de Melciades.

Napoleão preferira morrer na morte lenta de todos os exilados, e agonisára durante cinco annos n'uma possessão ingleza.

Ahi, na triste solidão da ilha de Santa Helena, devia recordar a cada momento a epopea da sua gloria e da sua desgraça, pensando ou dictando as suas memorias ao general Las Cazes. Então, pelo silencio da noite, apenas interrompido monotonamente pelo ruido do mar, refugiria de si mesmo ao ver passar deante dos olhos o bando lutuoso das viuvas e dos orphãos dos seus soldados, e ao adivinhar a pallida e lacrimosa figura da moribunda de Malmaison, a formosa Josephina Beauharnais.

É sempre no mar que se esconde o sol; Santa Helena illuminou-se com os ultimos clarões da gloria de Bonaparte no duplo occaso da grandeza e da vida. Orgulho de soldado: ordenou que lhe fosse{134}mortalha o capote que trazia na batalha de Marengo. Na sua vaidade de cézar até á morte se queria impôr.

Mais longe do que desejavamos nos levaram as nossas divagações, esquecendo-nos de que o protagonista d'esta narrativa não era Bonaparte, imperador dos francezes, mas um obscuro soldado dos exercitos que o venceram.

Tempo é de falarmos de Graça Strech, e de dizer que mais duas vezes fôra ferido no decurso da campanha peninsular: uma em Salamanca, e outra em Victoria com uma bala n'uma perna, do que lhe resultou ficar coxeando. Fôra gravissimo este ultimo ferimento. Por mais d'uma vez os soldados portuguezes suppozeram moribundo o seu valoroso companheiro. Ás exaltações febris, em que o ferido precipitava palavras que os seus camaradas não comprehendiam, succediam-se tão profundas prostrações, que era difficil averiguar se vivia ainda.

D'uma das vezes ouviram-lhe dizer:

—Não! não! Não vêdes a morte?... Não quero morrer... E Rosina?... Meu filho!... Estou aqui sósinho... Pietro tocava a sua harpa.. A muda chorava muito... Em Coimbra, n'aquella tarde... Sim, ella era innocente e pura... Pietro parecia triste de a vêr chorar... Que é?... São os francezes?... Que venham... Eu vingo a memoria de minha irmã, mas não quero morrer porque tenho um filho...

—Um filho! exclamaram os dois soldados que piedosamente o soccorriam.

O ferido continuou a delirar:

—Tudo perdeu por mim... Como era grande o seu amor!... Pobresinha... Para traz, francez; quero ir vel-a. Estás ahi? Sempre ao pé de mim! Sim... bem me lembro... o ceguinho das Ardennas e o seu cão... Não ouviste chorar uma creança? É meu filho...

—O nosso tenente treslê! exclamou um dos soldados.

Graça Strech havia, pelos seus actos de valor, chegado áquelle posto, sendo condecorado com a Torre-Espada, com a cruz de S. Fernando d'Hespanha, e ao depois com a medalha da guerra peninsular.

—Pena é se morre, acrescentou outro soldado,{135}que não ha mais destemido militar que o nosso tenente!

—Isso não! Animava-se com a polvora, que tambem não tem de haver no mundo militar mais triste...

—E mais desgraçado! Não te lembras que já a irmã era muda?

—Muda, sim.

A este tempo havia caído Graça Strech em lethal modorra, e retiravam-se os dois soldados receiosos de que o tenente não resistisse ao ferimento.

Todavia, como poderemos ver pelo capitulo seguinte, não tinha de ser aquella a ultima hora da attribulada existencia de Graça Strech.{136}

[12]Historia de Napoleão Bonaparte, pelo dr. Caetano Lopes de Moura, Vol. II.

[12]Historia de Napoleão Bonaparte, pelo dr. Caetano Lopes de Moura, Vol. II.

Amanheceu festivo para a cidade do Porto o dia 15 d'agosto de 1814.

Ainda de noite começaram a povoar-se as janellas, e a animar-se as ruas com enorme multidão.

Ás sete horas da manhã já não havia casa que não estivesse adornada de ricas tapeçarias, pendentes dos balcões, que competiam com as galas das damas da cidade e da provincia debrusadas nos peitoris.

Muitas das janellas estavam emmolduradas em grinaldas e arcos de flôres; outras ladeadas por bandeiras; ao longo das ruas corria um verdejante tapete de hervas aromaticas.

Em muitos olhos brilhavam lagrimas d'alegre commoção, e em todos os labios desabrochavam sorrisos que eram espelho do jubilo da alma.

Que motivo havia, pois, para tamanha festa na cidade cujos habitantes, no lento curso de cinco annos, estavam costumados ao luto e á saudade dos que pereceram na catastrophe da ponte, nas linhas de defeza, nos hospitaes de sangue e dos que posteriormente haviam succumbido na demorada campanha peninsular contra os francezes?

Não eram estranhos os jubilos d'esse dia a tão funestos acontecimentos. Esperava-se a brigada de infantaria do Porto, composta dos regimentos 6 e 18, que victoriosa regressava de França depois de haver pelejado com egual denodo pela restauração d'estes reinos e de toda a peninsula.

Os feitos da brigada de infantaria do Porto haviam soado, com assombro dos portuguezes, em Portugal inteiro, mórmente os que praticára na batalha da estrada de Bayona, em França, no dia 13 de dezembro do anno anterior.{137}

O senado da camara tinha-se reunido nos primeiros dias d'agosto para assentar nos festejos com que se devia celebrar o regresso das tropas. Resolveu que se levantassem arcos de triumpho, fazendo-se outras mais demonstrações de alegria, e encarregou da direcção dos preparativos o vereador decano José de Sousa e Mello.

Tratou-se, pois, com febril afan, de executar o programma dos festejos.

Construiu-se sobre a ponte do Poço das Patas aPorta da cidade[13], guarnecida com os castellos que lhe são proprios, e com as insignias concedidas por carta regia de 13 de maio de 1813; collocando-se na cimalha da porta a imagem de Nossa Senhora, que entregava a seu Divino Filho uma fita com a legendaCivitas Virginis.

O gosto da pintura, imitando velha cantaria, muito deu na vista das pessoas que percorriam as ruas e estacionavam boqui-abertas em frente do arco.

Tambem na cimalha foi embutida uma lamina de bronze com este distico:

HINC GENTI HOMEN;HINC REGNO PLURIES SALUS;HINCEUROPAE,ORBIPRIMA LIBERTATIS LUX NOVISSIME AFFULSIT.

No alto da rua nova de Santo Antonio levantou-se um arco de triumpho, de ordem composita, firmado em quatro columnas; resaltavam dos intercolumnios arnêzes, grévas, escudos, bandeiras e lanças entrelaçadas com listões de murta, ramos de oliveira, palmas e louros. Nos dois grandes pedestaes sobre que descançavam as columnas, lia-se:

Sempre engrandeça a patria lusitanaVosso nome immortal, claro, e subido;E a Casa restaurada de BragançaTenha em thesouro seu vossa lembrança.Condest.{138}Esta Cidade forte, e populosa,Colonia antiga do poder Romano,Cavou a sepultura temerosaD'um gigante nas obras deshumano.Affons. Afric.

Sempre engrandeça a patria lusitanaVosso nome immortal, claro, e subido;E a Casa restaurada de BragançaTenha em thesouro seu vossa lembrança.

Condest.{138}

Esta Cidade forte, e populosa,Colonia antiga do poder Romano,Cavou a sepultura temerosaD'um gigante nas obras deshumano.

Affons. Afric.

Egualmente estavam enfloradas as cornijas, architraves e os frizos. Sobre o portico erguia-se o escudo das armas da cidade; por cima da balaustrada que corria ao longo do arco, havia quatro estatuas que figuravam:

A SAUDADE

Mostrava um livro aberto em que se lia:1.º e 2.º de Setembro de 1809.(Dias em que saíram do Porto as tropas.) No pedestal estava escripto:

Deixando a Patria amada, e proprios laresSe mostraram nas armas singulares.Cam.

Deixando a Patria amada, e proprios laresSe mostraram nas armas singulares.

Cam.

A ALEGRIA

Indicava em outro livro a data:15 d'agosto de 1814.(Dia da entrada das tropas.) Lia-se no pedestal:

A Deus, ao Rei de quem a paga esperamFazer maior serviço não puderam.Malac.

A Deus, ao Rei de quem a paga esperamFazer maior serviço não puderam.

Malac.

A VICTORIA

Desenrolava os annaes das acçoes em que a brigada entrára. Legenda do pedestal:

Aonde falta o premio a quem militaNão habita a razão, nem gente habita.Dest. d'Esp.

Aonde falta o premio a quem militaNão habita a razão, nem gente habita.

Dest. d'Esp.

A ETERNIDADE

Tinha, entre o symbolo da serpente enroscada, os{139}nomes dos regimentos:Infantaria 6 e 18.No pedestal:

Ajudados dos céos em mar e em terra,Tem fechadas na mão a paz, e a guerra.Malac.

Ajudados dos céos em mar e em terra,Tem fechadas na mão a paz, e a guerra.

Malac.

Sobreposta a uma longa inscripção latina, rematava o grupo do arco uma esphera armilar, sustentada por Genios que entornavam flôres.

Nos intercolumnios posteriores correspondiam armas, espadas, tambores e alabardas unidos com feixes de louro, ramos de carvalho e oliveira.

Nos grandes pedestaes havia gravadas epigraphes em verso, correspondendo os ornatos aos da frente e as estatuas da balaustrada estas quatro:

O PORTO

Offerecia com a mão direita uma corôa de louro e empunhava na esquerda um ramo de carvalho, tendo no pedestal:

Orno os heroes que a patria eternizaramE por ella seu sangue derramaram.Elp.

Orno os heroes que a patria eternizaramE por ella seu sangue derramaram.

Elp.

O AMOR DA PATRIA

Offerecia com a direita um coração e apontava com a esquerda para o peito. No pedestal:

Meu valor, minha nobre fortalezaSerá gloria da gloria Portugueza.Affons. Afric.

Meu valor, minha nobre fortalezaSerá gloria da gloria Portugueza.

Affons. Afric.

A PAZ

Offertava com a mão direita o ramo de oliveira, e sustentava na esquerda um feixe de palmas. No pedestal:

Que mais ditoso fim se lhe esperavaQue este agora que merecido estava!Affons. African.{140}

Que mais ditoso fim se lhe esperavaQue este agora que merecido estava!

Affons. African.{140}

A DOCILIDADE

Arremessava com a mão esquerda um montão de cadeias, e com a direita segurava uma estreita fita. No pedestal:

O Soberano Author da redondezaDa minha redempção deu-vos a empreza.Bocag.

O Soberano Author da redondezaDa minha redempção deu-vos a empreza.

Bocag.

A tarja que, do outro lado, correspondia á inscripção lapidar, tinha figurados em relevo todos os petrechos de guerra, e os Genios, que d'esse lado sustentavam a esphera, desenrolavam uma fita em que estava escripta uma quadra doCondestabre.[14]

Ahi se agrupava impaciente a multidão, não só attrahida pela magnificencia do arco, senão tambem pelo variegado espectaculo das tropas da guarnição, que estavam postadas em alas até ao largo de Santo Eloy; bem como para ver pegar fogo á bateria collocada no topo da calçada dos Clerigos e destinada a salvar com vinte e um tiros de peça a passagem da brigada pelo arco.

Na rua nova do Almada baralhavam-se dois formigueiros de povo: um que, receoso do tumulto na aproximação das tropas, demandava o Campo de Santo Ovidio; outro que, tendo visto o obelisco levantado no meio d'este campo, ia procurar logar, na hypothese de encontral-o, junto ao arco da rua nova de Santo Antonio.

Era tambem sobremodo esplendoroso o obelisco n'aquelle campo. Rodeava o pedestal uma espaçosa varanda, adornada com ricas bandeiras portuguezas.

Sobre o pedestal, e em frente da rua nova do Almada, estava o retrato do principe real, com a seguinte legenda escripta na almofada correspondente:

Diga-o a Augusta Effigie contemplando:Foi este o forte, o justo,João, da Patria Pae, que a patria alçandoDeu pasmo a naturaes, e a estranhos susto.Elp.{141}

Diga-o a Augusta Effigie contemplando:Foi este o forte, o justo,João, da Patria Pae, que a patria alçandoDeu pasmo a naturaes, e a estranhos susto.

Elp.{141}

Em frente da rua da Boa Vista, resaltava o retrato da rainha, lendo-se no pedestal:

O louvor que se ganha pelos meiosDa virtuosa vida, este só dura,Este de se perder não tem receios.Bern.

O louvor que se ganha pelos meiosDa virtuosa vida, este só dura,Este de se perder não tem receios.

Bern.

E em frente da linha dos predios foi disposto o retrato da princeza, tendo no pedestal:

Que affavel se olharia a tua face,Se o céo a nossos votos sempre amigoNa fria estatua espiritos soprasse!Filint.

Que affavel se olharia a tua face,Se o céo a nossos votos sempre amigoNa fria estatua espiritos soprasse!

Filint.

Do lado da Lapa, em frente do quartel, viam-se as armas do reino e da cidade, unidas por um listão, em que estava escripto o dia da restauração do governo nacional

18 DE JUNHO DE 1808

lendo-se no pedestal os seguintes versos de Horacio:

HIC DIES VERE NOBIS FASTUS ATRASEXIMIT CURAS.

Todos os retratos foram collocados entre tropheus de bandeiras, e eram cingidos pelos emblemas da paz e do heroismo...

O bom povo portuense, na cegueira do seu jubilo, não reparava que esses emblemas, á beira dos augustos retratos, deviam ser uma pungente ironia se a familia real tivesse olhos para os ver atraves de enorme distancia, e interposto o mar!

No cimo do obelisco assentava a corôa real cingindo um manto de preciosa bordadura.

Pouco depois das oito horas e meia, um unisono grito de alegria annunciou a chegada da brigada ao Alto do Senhor do Bomfim.

Então começou o estrondear dos morteiros, o repicar dos sinos e o alarido dos vivas. Quando as tropas chegaram ao topo da rua nova de Santo Antonio, o enthusiasmo attingiu as raias do delirio, tamanho{142}era o alvoroço da multidão que saudava com brados, com os lenços e os chapeus os dois regimentos portuenses. Durante todo o percurso até ao Campo de Santo Ovidio as flôres, as grinaldas e os ramos, que desciam das janellas, figuravam uma chuva iriada e espessa que ia orvalhar de petalas as fardetas dos soldados.

Se nos fosse dado ouvir os breves dialogos que se perdiam no borborinho geral, de grupo a grupo iriamos recolhendo vozes, posto que variadas, todas concernentes á festa d'esse dia.

N'uma das janellas da rua nova do Almada chalravam as visinhas da familia Strech, as quaes cinco annos antes tivemos occasião de conhecer em lances que verdadeiramente contrastavam com o espectaculo a que estamos assistindo.

Passava o regimento de infantaria 18, e diziam ellas.

—Vamos a ver se conhecemos o José Maria!

—Vem tenente e condecorado!

—Já sei. Mandou dizel-o o homem da Victorinha.

—Deve vir muito mudado!

—Será aquelle?

—Aquelle, menina! Aquelle militar tem mais de vinte e cinco annos...

—Vamos a ver se elle olha para a casa onde morou...

—Vês? Não olha! Vae até a olhar para o chão...

Era elle, effectivamente.

No meio da rua dialogavam dois velhos:

—Que pena não assistir o Trant!

—Está doente.

—Bem sei.

—E elle que tanto trabalhou para esta recepção!

No Campo de Santo Ovidio, antes da chegada das tropas: Um velho perguntando a um sujeito que estaciona junto d'elle:

—Falta-me a vista! Quem são aquelles que estão nas janelas do quartel?

—É o juiz e a camara. Olhe... Não vá mexer-se agora uma cabeça?

—Vejo, mas não distingo.

—Pois é o José de Sousa e Mello.

—Acho que elle tem de falar pelo senado?

—O programma dizia que sim.{143}

—Esperaremos. Sempre não ter vista! Perco metade!

Chegaram as tropas ao Campo de Santo Ovidio e, depois de formar quadrado, fizeram continencia aos retratos da familia real, que, diga-se em abono da verdade, não responderam.

Os originaes estavam no Brazil; não viram.

Em seguida o brigadeiro Carlos Ashworth, commandante da brigada, levantou vivas ao principe regente e á rainha...

Os retratos não se mexeram.

Quando porém se ouviu um enthusiastico viva em honra da cidade do Porto, a cidade respondeu delirantemente pela bocca das tropas, do povo, e pelo acenar vertiginoso dos lenços nas janellas.

Dada a voz de descançar armas, desceu o já nomeado vereador decano, José de Sousa e Mello, que pouco antes viramos a uma das janellas do quartel. O brigadeiro commandante, tendo-se apeiado, dirigiu-se para elle. Então o camarista Mello recitou uma allocução que terminava por estas palavras: «A camara roga a vossa excellencia queira fazer-lhe a honra, não só de jantar hoje n'este quartel, mas de convidar em seu nome toda a officialidade d'estes dois regimentos, mandando vossa excellencia que, além d'isto, se distribua pelos sargentos, cabos e soldados o dinheiro que ali se acha para lhes supprir o jantar d'hoje.»

O brigadeiro Ashworth agradeceu amavelmente o convite, e asseverou que a officialidade acceitaria reconhecida.

A immensa multidão que enchia o Campo de Santo Ovidio rompeu n'este lance em freneticos vivas e, ao som das bandas marciaes, recolheram as tropas a quarteis, sendo seguidas por grande numero de pessoas, parentes, amigos, e conhecidos, que esperavam lhes fosse permittido abraçar soldados e officiaes.

Concedidas duas horas para desafogo de saudades, cinco annos retraídas, e gastas em ardentes expansões que as volveram momentos, foi o regimento de infantaria 18 ouvir missa á egreja da lapa e o regimento de infantaria 6 á egreja da Graça. Em ambos os templos houvelausperenneeTe-Deum.

Cumpridos os deveres do coração e da alma, começaram os da cortezia.

O brigadeiro Ashworth foi cumprimentar o senado{144}á sala da secretaria do quartel de Santo Ovidio, convenientemente preparada para a solemnidade da recepção, recolhendo-se depois ao quartel general da rua nova do Almada, onde, pelo meio dia, recebeu a visita dos vereadores.

Cerca da uma hora da tarde, quando o brigadeiro já estava desembaraçado de felicitações officiaes, annunciou-se no quartel general o tenente Graça Strech.

O brigadeiro acudiu a recebel-o com a maxima familiaridade, que era testemunho de maxima consideração.

—Vem tambem cumprimentar-me? galhofou o brigadeiro.—Ora sente-se e fale.

—Venho solicitar um grande obsequio, respondeu o tenente.

Razão tinham as meninas da rua nova do Almada para não reconhecer n'elle o gentil e vigoroso José Maria dos dezeseis annos. Estava velho aos vinte e um, velho das geadas do infortunio que requeimam as flores da alma, e apagam nos olhos o brilho da mocidade. Tinha a magreza viril do soldado, mas cruzavam-se na sua physionomia umas sombras espessas que á primeira vista inculcavam que espirito e corpo haviam soffrido por egual. Como as palreiras meninas da janella disseram, figurava ter mais de vinte e cinco annos.

Mas, voltando ao dialogo do tenente com o brigadeiro:

—Que grande obsequio é esse? perguntou com affabilidade Carlos Ashworth.

—Venho pedir dispensa de assistir hoje ao jantar.

—Ah! meu amigo, isso não póde ser! O galardão é para todos; cumpre, pois, que cada um receba o quinhão que lhe cabe.

—Eu creio que já em França tive a honra de lhe dizer, meu brigadeiro, que precisava descanço porque soffria...

—E de me pedir a sua baixa, bem sei. D'essa vez não pude annuir ao pedido do meu bravo tenente, porque havia recebido instrucções particulares do senhor marechal marquez de Campo Maior para não licenciar soldados nem officiaes. Era justo que o Porto conhecesse todos os heroes d'esta brilhante campanha. O marechal tinha razão. Agora, meu bom amigo, tambem não posso ser-lhe agradavel como{145}desejava. O tenente foi dos militares que mais se distinguiram desde Portugal a França. As ordens do dia falaram muita vez no seu nome. Conhecem-n'o. Seria uma affronta para o Porto que estivesse entre os seus muros, e recuzasse o talher que lhe offerece. Isso—disse o brigadeiro curvando-se amigavelmente para elle—são saudades, não quero saber de quem. Tambem eu as tenho... Vamos, assista ao jantar, que eu me empenharei por obter a sua baixa o mais breve possivel.

E estendeu-lhe cordealmente a mão.

O tenente Graça Strech saiu d'ali com os olhos no chão para não vêr a casa onde nascera, e atravessou as ruas da cidade absorto na triste concentração de quem está em terra onde não conhece ninguem.

Ia entregue aos seus pensamentos, e assim andou ao acaso até que outro tenente do mesmo regimento lhe bateu no hombro e disse:

—São quasi cinco horas e meia. Vamos lá ao jantar, homem. Está marcado para as seis.

Effectivamente, á hora designada, reunida a officialidade no quartel de Santo Ovidio, passou com os vereadores á sala do banquete, cuja ornamentação era brilhante.

A um e outro lado corriam arbustos, d'entre os quaes appareciam as armas de Portugal e Inglaterra. A um grupo de trophéus de guerra, com bandeiras d'uma e outra nação, que cobriam a cabeceira da mesa, faziapendantum nublado em que se enleiava a serpente, symbolo da eternidade, tendo escripto no centro—Ashworth.—Guarneciam o nublado duas bandeiras com os nomes dos dois regimentos, atadas por uma fita em que se lia a data de maior gloria para a brigada do Porto—13 de dezembro de 1813.

No fim do banquete, ao som da banda de musica de milicias que tocava á porta do quartel, levantaram-se enthusiasticos vivas ao principe regente, á familia real, aos monarchas alliados, aos governadores do reino, generaes do exercito combinado, ás tropas victoriosas, e a todas as mais entidades que iam lembrando e mereciam a homenagem d'um calis de vinho.

Um só conviva correspondeu a esses ruidosos brindes com um movimento de labios: foi Graça Strech. E á noite, quando toda a cidade se illuminava festivamente, era profunda a escuridão na sua alma.{146}


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