XVII

[13]É fiel a descripção d'estes festejos; O auctor encontrou-a n'um opusculo da epoca.[14]Poema heroico de Francisco Rodrigues Lobo.XVIIComo madrugam as aves e os noivos!Obtida a baixa, Graça Strech poucos dias se demorou no Porto.Sentia-se asphyxiado na atmosphera em que respirára ao nascer. Punham-lhe medo as sombras; as ruas affiguravam-se-lhe tristes como avenidas de cemiterio. Duas vezes, alta noite, depois de dolorosissima lucta comsigo mesmo, estivera, encostado á parede fronteira á casa em que viveu os primeiros annos da vida, mergulhado em profunda meditação.A ultima vez fôra a ultima noite que passára no Porto. O céo era d'um azul setinoso. O branco luar de agosto estendia ao longo da rua a sua claridade immovel, e parecia desenhar nos muros contornos phantasticos. Reinava na cidade o silencio imperturbavel das noites profundas. Na janella da sala onde cinco annos antes, por noite tempestuosa, jaziam tres cadaveres, luzia um reflexo mortiço como de lamparina que não tardou a apagar-se. Lembrou-se Graça Strech de que devera ser egualmente pallido o reverbero da luz que lhe tremia na mão quando contemplava os corpos inanimados das trez senhoras. Transportou-se áquelle horrivel espectaculo. Viu tudo. A mãe, a irmã e a avó estavam a seus olhos como n'essa hora tremenda. Não obstante o seu grande empenho, de pergunta em pergunta não lográra saber onde repousavam. Queria ir procurar Rosina, de quem nada sabia tambem, mas desejava despedir-se da familia que ficava, antes de partir para o seio da familia que o esperava. Não pôde realisar o seu desejo. Registos parochiaes não os havia. N'aquella immensa hecatombe da invasão, tambem as sepulturas foram invadidas sem averiguar-se por quem. Tinha{147}desesperado de conhecer a verdade, e, já que não podia despedir-se do tumulo da sua familia, fôra despedir-se do predio que ella habitára. De repente, n'uma casa proxima, perpassou uma luz. Fez reparo. Quem velaria ainda áquella hora? Deteve-se a examinar, e certificou se de que ali viviam, no anno de 1809, as duas visinhas que lhe falaram na bateria do Bomfim. Foi isto um como raio de tardia esperança. Recriminou-se pelo esquecimento de não as ter procurado logo que chegou. A desgraça havia-o desmemoriado. Atravessára o Porto como um viajante solitario atravessaria o Sahará—calado, pensativo, sem ver, por ter medo de olhar. Mas—os infelizes duvidam sempre—viveriam ainda ali? Tinha razão. Quem poderia dizer se ellas, na fuga, haveriam chegado ao seu destino, sido attingidas pelas balas ou cahido em poder dos francezes?A estas perguntas, que a si proprio fazia, só poderiam responder indagações. Pesava-lhe todavia o ter de se aproximar de pessoas cuja conversação iria aggravar a dôr do passado. Se elle soubesse onde repousavam as cinzas da sua familia, lá iria para falar-lhes, para contar-lhes os extraordinarios lances da sua vida, para dizer aos frios restos de sua irmã por que razão não levava comsigo o annel, sobre o qual jurára vingal-a.Augusta, de dentro do sepulchro, responderia com o perdão implorado.Mas o que elle não queria era deixar entrever a sua dôr de modo que lh'a avivassem piedosamente, porque a sociedade não dá o balsamo da compaixão sem primeiro rasgar as feridas que a inspiram.O desejo vehemente venceu, porém, a natural repugnancia. A breve trecho fez tenção de não desaproveitar as poucas horas que lhe restavam para colhêr esclarecimentos. Resolveu-se a esperar que amanhecesse e, como a luz parecesse brilhar com intensidade a través da janella, não se afastou. Mal começava a raiar a claridade da madrugada, apagou-se a luz, e cerca das cinco horas da manha viu Graça Strech abrir-se a porta. Sairam duas mulheres de mantilha, seguidas por uma criada que levava um açafate á cabeça. Fosse reminiscencia ou phantasia, Graça Strech cuidou reconhecer as duas visinhas: tia e sobrinha. Tomou alento e acercou-se. Uma das mulheres, a{148}mais nova, voltou de repente a cabeça como se esperasse alguem. Havendo-se enganado, achegou-se da outra e soltou um—ai!—que mais denunciava despeito que medo.—Não se assuste vossa senhoria, sr.ª D. Izabel! apostrophou Graça Strech serenando a menina que se denunciava medrosa.Tia e sobrinha olharam fito no desconhecido, e foi a sobrinha quem primeiro exclamou:—Pois não se lembra, minha tia? Olhe bem para elle!—Quem é?—É o sr. José Maria! Eu bem dizia outro dia que era o tenente das barbas!—Póde lá ser o Josésinho!—Tem razão, minha senhora, replicou Graça Strech. Eu devo parecer-lhes uma sombra do que fui. Mas, sombra ou realidade, o certo é que me chamo José Maria da Graça Strech.—Ora uma coisa assim! Parece um velho!—E parece! acrescentou a menina.—Desgostos, minhas senhoras.—E muitos teve tão novo, sim, porque vêr...—Peço a vossa senhoria o obsequio de deixar em silencio essas tristes recordações. Uma só quero eu avivar, e por isso lhes causei esta surpresa.—Mas não nos ter procurado! exclamou a velha senhora.—Não tomem á conta d'ingratidão o que é simplesmente embrutecimento. Bem podia ser tambem que tivessem mudado de casa.—Ora! Quem tem bocca vae a Roma! exclamou a menina. Já nem queria saber novidades da sua antiga visinha! Pois saiba que me vou casar...—Felicito vossa senhoria.—Cala-te ahi, tagarella! acudiu D. Eulalia, affastando com o braço a sobrinha. Ha de estar admirado de nos vêr sahir ambas a esta hora. Pois não se admire. Combinamos com as Cerqueiras e as Brochados, tudo visitas da sua casa, sr. Strech,—e com o noivo da Izabelinha—juntarmo-nos na primeira missa que se diz no altar do Senhor dos Passos em S. João Novo e irmos depois almoçar todos á Fonte das Virtudes.Cumpre dizer que na primeira década do seculo{149}XIXera ainda a Fonte das Virtudes o local destinado ás comezainas das familias burguezas do Porto. Ahi se reuniam em ruidosos convivios, deposta a mantilha, e irmanados novos e velhos pelo mesmo apetite e pela mesma alegria.O camartello das demolições municipaes tem—avis rara!—respeitado até hoje esta legendaria fonte que se compõe d'um alto frontispicio, ornado de pyramides, e firmado em bancos de pedra, que a rodeiam. Rebenta abundantemente a agua por duas enormes carrancas em conformidade com a esculptura de todos os chafarizes antigos. Ladeiam a fonte dois grandes tanques, durante todo o dia, ainda hoje, frequentados por lavadeiras. N'esses bons tempos, ficava a fonte extra muros; sahia-se para ella pela porta a que a fonte deu nome. Ao lado da porta, na eminencia da parte oriental, havia já então os chamadosAssentos, actualmente Passeio das Virtudes.O padre Agostinho Rebello da Costa, na suaDescripção topographica e historica da cidade do Porto, impressa em 1789, escreve ácerca d'este local: «Em toda a cidade, não ha sitio nem mais ameno, nem mais agradavel; porque além da sua bella posição adornada de regulares edificios, gozam os olhos d'um só golpe, vista de cidade, de mar, rio, navios, montes, campinas, quintas e palacios. O grande paredão, que presentemente se está fazendo, para com elle se formar uma praça correspondente á belleza, e magnificencia d'esta agradavel situação, será um monumento eterno do patriotico zelo que Rodrigo Antonio de Abreu e Lima, cavalleiro professo na ordem de S. Thiago, inspector da marinha do Douro, administrador geral dos portos seccos das trez provincias do Norte, e actual juiz da alfandega, mostrou em obrigar o senado da camara a fazer esta obra interessantissima á regia utilidade, e recreio publico.»Dito o que as historias referem ácerca da Fonte das Virtudes, reatemos o dialogo.—Divirtam-se vossas senhorias, respondeu Graça Strech, que eu perguntarei sem desvios o que desejo saber. Não me foi possivel averiguar até hoje onde jaz a minha desventurosa familia. Vossas senhorias sabem?—Casualmente nos disse o sachristão de S. Martinho{150}de Cedofeita que tinham ali sido enterradas, se bem que nos não pudesse designar as sepulturas, pela grande confusão de cadaveres que n'esses tristes dias houve.Isto disse D. Eulalia, acrescentando:—No dia seguinte o quartel general mandou ordem a todos os parochos para que, logo que anoitecesse, fôssem levantar os corpos dentro da circumscripção das suas freguezias. Não sabemos mais nada, sr. Strech. Nós recolhemos ao Porto depois que os francezes retiraram. Estivemos em Gondomar, em casa d'uns parentes nossos, porque tivemos a felicidade de encontrar livre o caminho. O senhor bem se ha de lembrar de que nos protegeu na bateria do Bomfim. Prouvera a Deus que a sua familia tivesse tido a mesma sorte! Muitas vezes lhes pedimos que nos acompanhassem. Não quizeram. Ainda tenho nos ouvidos as palavras da Augustinha: «Se meu pae e meu irmão morrerem, deixemo-nos morrer tambem, porque o viver sem elles seria peior que a morte.» Nunca mais me esqueceram! Vel-a assim fazia dó, a pobre menina!Graça Strech estava livido. Já não tinha forças para ouvir mais.—Muito obrigado, minhas senhoras, disse elle. Já sei o bastante. Felicito-me de as haver encontrado e faço votos pela ventura da sr.ª D. Izabel.—Agradeço do coração, replicou a menina. O sr. Strech ha de dar-me a honra de assistir ao meu casamento...—Da melhor vontade assistiria, minha senhora, se não tivesse de partir hoje mesmo para Italia.—Partir?!D. Eulalia repetiu:—Para Italia!E exclamou virando-se para a sobrinha:—O casamento anda-te com essa cabeça á roda! Se não sou eu lembrar-me agora por essa palavra, não dirias nada ao sr. Strech d'aquella carta d'Italia!—Uma carta, apostrophou elle, sobremodo perturbado.—É verdade! affirmou a menina com pesar de se haver esquecido.D. Eulalia contou:—Ha quatro annos, foi em...—Junho, acrescentou Izabel.{151}—É verdade, foi em junho, proseguiu D. Eulalia; andou o carteiro por esta rua, para cima e para baixo, a perguntar pela familia Strech. Todos lhe diziam que essa desgraçada familia estava no cemiterio. Até que a final o carteiro e alguns visinhos bateram á nossa porta, porque sabiam das nossas relações com a sua familia. A carta, que trazia o timbre de Italia, dizia:Sr. José Maria da Graça Strech, soldado portuguez(pela orthographia conhecia-se que a pessoa que escrevia era estrangeira, disse em parentesis D. Eulalia)natural do Porto;—Portugal.Graça Strech ouvia offegante.D. Eulalia proseguiu:—Do senhor ninguem sabia nada, mas como a carta ficaria naturalmente perdida no correio, encarregamo-nos de mandal-a ao acaso para onde estivesse o exercito. Era o unico meio de lhe chegar á mão, caso o senhor estivesse vivo. Nós nada sabiamos. Perguntamos o que haviamos de fazer. Disseram-nos que a mandassemos para Almeida, que era onde Wellingtão—ella pronunciou assim,—tinha estabelecido o quartel general. Para lá a mandamos, pensando que fariamos bem. Visto isso o senhor não a recebeu?—Não recebi, minha senhora, respondeu Graça Strech com difficuldade. Agradeço, porém, a vossas senhorias o cuidado que tiveram e, para não as demorar por mais tempo, recebo as suas ordens...—Tambem—atalhou D. Eulalia, vão sendo horas da missa do Senhor dos Passos. Vamos lá. Se o sr. Strech precisar d'alguma coisa, não tem senão mandar-nos e dizer onde está, para que não se torne a perder qualquer carta.Despediram-se. Ellas seguiram pela rua nova do Almada a baixo, e elle caminhou em direcção ao Campo de Santo Ovidio.A menina ia perguntando ingenuamente á tia:—Não seria mau agouro encontrarmos o Strech na occasião em que eu ía a pensar no meu casamento?—O que tu quizeres! respondeu D. Eulalia. Reza umCredoao Senhor dos Passos e deixa-te lá d'agouros. Deus é que sabe o que ha de acontecer.Graça Strech caminhava machinalmente, engolphado em seus pensamentos. A carta era de Rosina. Conjecturava elle que já devia ser mãe quando a escrevia.{152}Que diria ella? Coisas tristes, de certo. Os infelizes vivem das desgraças que sonham e que soffrem. Por muitas vezes escrevera elle para Napoles. Nunca obtivera resposta. Aquelle horrivel silencio durava já havia quatro annos. Nem ella nem Pietro escreveram mais! O que haveria acontecido? Que ancia que elle tinha de chegar a Italia, e, ao mesmo passo, que receios! Não o esperariam lá novas dôres, maiores soffrimentos? Que envelhecida mocidade aquella!Foi andando, andando, até que chegou ao cemiterio de Cedofeita.Quando viu negrejar cruzes e louzas por entre as verduras dos canteiros, estremeceu de subito. O pensamento da morte vinha interromper os seus dolorosos pensamentos. A sua familia estava ali, mas onde? Rosina e seu filho onde estariam tambem, lá tão longe? O cemiterio era solitario áquella hora, se não falarmos das aves que faziam alegre matinada nas arvores.Só os noivos e as aves saudam jubilosos a manhã.Por isso madrugára a menina da rua nova do Almada em competencia com os passarinhos do cemiterio de Cedofeita.Graça Strech atravessou por entre as campas, confiado em que o coração adivinharia o sitio em que repousava a sua familia. Andou, percorreu as ruas todas, e parou á beira d'uns comoros que não tinham cruz nem lapide. Devia ser ali. As campas dos que não deixam ninguem no mundo conservam-se abandonadas. Quando muito, porque os despojos mortaes são da natureza, veste-as a natureza de relva e flôres silvestres. Sobre um dos comoros floresciam hervagens, que pendiam á terra umas singelas boninas brancas. Seria a homenagem da natureza á innocencia de sua irmã? Não sabia. O silencio da morte guarda todos os segredos. Ajoelhou. As avesinhas das arvores funebres continuavam a cantar, a cantar!...Áquella hora, n'aquelle sitio, cria-se em Deus.A eloquencia das campas!Como tudo aquillo fala suavemente d'além-tumulo!No ruido das festas a ideia da morte é sempre um pungente contraste. Mas não sei que amena tristeza dulcifica a certeza do repouso eterno, nos cemiterios, mórmente se é manhã, e as aves chilriam, e estremecem{153}nas hervagens as gotas d'orvalho, e um raio de sol nascente doira uma cruz!Graça Strech sentiu-se subitamente soccorrido por essa triste suavidade que a vista dos tumulos infiltra aos desgraçados.Longo tempo esteve ali, ajoelhado, conversando com os trez comoros os seus segredos de cinco annos. No que estava florescido, curvou-se como se quizesse falar para dentro. Conjecturava que seria o d'Augusta. N'essa hypothese lhe contou as suas desventuras, os seus amores, os sacrificios de Rosina, o destino que dera ao annel, a afflictiva incerteza em que estava, a ancia que tinha de beijar seu filho, de encontrar Rosina... Juntou lagrimas de saudade a palavras de perdão, queixumes de animo attribulado a hymnos de confiança em Deus...Não lhe havia dado tempo a sua trabalhada e desventurosa mocidade para erguer o espirito acima das coisas terrenas das preoccupações humanas.Pela primeira vez subiu até onde os fulgores da divindade enchugam as lagrimas da oração. Muito acima do mundo deve ser, porque já se não ouve então o tumultuar da humanidade, e porque já ahi chovem os balsamos da resignação sobre a alma angustiada.Ninguem diria que estava ali o soldado, o leão dos combates. Nada ali falava de vingança, nem mesmo a supposta sepultura d'Augusta. Nada se sabia do mundo, d'aquella porta de ferro a dentro. Todavia alguma coisa julgou ouvir a alma de Graça Strech. Eram palavras intradusiveis que as hervagens ciciavam, brandamente agitadas pela viração matutina. Sem comprehender as palavras, entrou-lhe ao espirito o pensamento d'ellas. Era a divina esperança dopost tenebras spero lucem, de Job, e ao mesmo tempo oNon moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini, do salterio.Graça Strech interpretou assim esses fugitivos murmurios que soavam sobre a campa da sua irmã. Trouxe do cemiterio a certeza de que depois das trevas da vida veria luzir o sol da felicidade perpetua, e de que não morreria sem ter tempo de narrar as obras do Senhor.Isto equivalia á resignada esperança de não succumbir á sua desgraça sem saber o destino de Rosina e seu filho.{154}Adquirira ali a certeza de que a alma d'Augusta abençoara do ceu a criança cuja mãe possuia o seu annel. Levantou-se. Arrancou as parietarias que marinhavam pelo muro proximo, e esparziu-as sobre os trez comoros.—Se ahi estaes, minhas doces amigas—pensou elle—recebei o primeiro e unico testemunho de saudade que ainda vos manda o mundo esquecido de vós. Pedi por mim, e pela familia que me resta na terra, se Deus m'a tiver conservado. São tambem vossos pelo coração. Adeus, abençoadas sejaes no céu pelo conforto que me destes.E saíu do cemiterio, caminho do rio Douro, onde estava fundeado o navio que n'essa tarde devia partir para um porto d'Italia.A essa hora, na Fonte das Virtudes, havia expansiva alegria. Um velho da familia Cerqueira dizia a um menino da familia Brochado:—Vá, seu estudante, traduza-me lá a inscripção da fonte:Fons scalet, illustri virtutum, etc.Rompe aqui esta fonte...Vá, diga...—Pudera romper acolá, estando aqui o chafariz! observou grosseira e acertadamente o menino.D. Izabel offerecia ao seu noivo um copinho da agua da fonte, panacea para muitas molestias, entre as quaes as inflammações dos olhos.Tinha bons sentimentos: não queria marido cego.{155}XVIIIA Lenda d'AshaverusComprehende-se com que anciosa impaciencia viajaria Graça Strech. A Italia era para elle o unico raio de sol que lhe doirava o horisonte fechado em torno do navio. Ia ver Rosina e seu filho; agradecer a Pietro a protecção que provavelmente a uma e outro tinha dispensado, porque Rosina devia ser mãe havia quatro annos. A carta perdida era decerto a boa nova da maternidade... Mas, logo o animo, vesado a tristes phantasias, descontava esta esperança com vagos receios. Todavia a visita ao cemiterio de Cedofeita insinuava-lhe na alma o doce calor da fé. Queria chegar a Italia, desenganar-se. Levava ao berço do filho a tranquillidade aprendida á beira do tumulo da irmã. A Italia! a Italia! a terra promettida do Moyses errante! Quando appareceu em frente do navio uma nuvem pardacenta, e a voz deTerra! alvoroçou a tripulação, o coração de Graça Strech doidejou desde a alegria expansiva da criança até á timidez receiosa da mulher.A Italia! O formoso sol da Italia a enxugar as lagrimas de tão longa ausencia! A alma de Rosina Regnau a animar no desconforto, a premiar na alegria! A alma e a voz! A liberdade do coração e da palavra! Um lar modesto, muito modesto, pobre até, o filho a esvoaçar d'um lado para outro, a chilriar, os cabellos loiros a brincarem-lhe em derredor da cabeça; Rosina a viver arroubada entre os sorrisos do pae e do filho; n'uma palavra, a felicidade que não escurece quando chega a noite; á porta, de cabellos alvejantes, tranquillo, sentado ao sol, Pietro, ocanta-storie, a concertar as cordas da sua harpa, e a entoar, com a sua voz já cançada, mas ainda sonora, aCapuana; fóra, o céu d'Italia, o azul suavissimo, o sorriso da natureza, a eterna primavera meridional!{156}De repente mudava-se o quadro.Via uma cruz tosca, n'um cemiterio de Pescadores pendurado ao mar. Rosina, demudada e lutuosa, chorando ao pé da cruz. Pietro, chorando ao pé de Rosina, com a harpa silenciosa poisada diante de si. E seu filho morto, sem o haver conhecido, sem o ter beijado sequer!Outras vezes sonhava com a lividez da fome nas faces de Rosina, da criança, e de Pietro!A vivandeira havia levado recursos. Era a sua ração de dois annos, a migalha do canario. Havia no 18 d'infantaria um quartel-mestre usurario. Graça Strech fizera com elle uma transacção. O quartel-mestre ficava recebendo durante dois annos oprétpor inteiro, e adiantára-lhe oprétd'um anno. Essa quantia, administrada com economia, devia durar os dois annos. Se a campanha acabasse antes d'esse praso, o soldado devia indemnisar o quartel-mestre, que tinha na sua mão um documento. Mas haviam-se passado os dois annos, e outros dois. Graça Strech escrevera muitas vezes para Napoles, como já dissémos, para obter certeza do paradeiro de Rosina, e poder mandar mais dinheiro. De nenhum vez obtivera resposta. Haveria acontecido alguma desgraça? Mas tambem quem conhecia em Napoles Rosina Regnau? Bem se podiam lembrar de ir saber ao correio. Pietro andava por fóra com a sua harpa; Rosina estava cuidando do filho: não se lembravam. As mealhas que Pietro recolhia, e generosamente repartia provavelmente, abastavam a alimentação dos trez.Em Coimbra, disséra Rosina a Graça Strech, quando elle lhe pedia que não soffresse privações sem o avisar:—Se se acabar o dinheiro, eu, que posso ter voz em Italia, irei cantando de rua em rua. Não receies por mim. Atravessei pura o exercito francez; mãe, atravessarei destemida o povo italiano. A honra da vivandeira é um baluarte invencivel; não deixa profanar a bandeira da sua lealdade.E logo, antevendo a triste solidão da ausencia, rompeu em afflictivo chôro. Este era o natural de Rosina: ora vivandeira, ora mulher. Logo em principio o dissémos.Apesar da cega confiança que Graça Strech devia ao amor de Rosina, não era a sua alma, quanto mais{157}se avisinhava da Italia, estranha ao ciume. No paiz dos amores, o ciume,la gelosia, respira-se com o ar. Ciumes de que lhe ouvissem a dulcissima voz, se tivesse sido obrigada a acompanhar com o canto os harpejos de Pietro; ciumes de que a applaudissem, de que a vissem, de que a conhecessem. E, pensava elle, quem ficaria olhando pela criança emquanto a mãe andasse por fóra? Alguma mulher estranha, que não a acariciaria se chorasse, que não a agasalharia quando tivesse frio, que lhe não responderia meigamente quando perguntasse pela mãe...Chegado que fôsse a Italia, procuraria, noite e dia, sem descanço, sem tregua, e encontral-os-ia, e diria a Rosina: «Fica tu ao pé de nosso filho, que eu vou trabalhar», e a Pietro: «Continua a ser o guarda dos dois, que eu velarei pela tua velhice.»E alternava risos com lagrimas, e agora falava e logo emmudecia, com as mãos firmadas no bordo da amurada e os olhos cravados na nuvem do horisonte, que se ia aclarando cada vez mais, conhecendo-se já, sobre o azul do céo, os contornos irregulares da cidade.O capitão esteve-o medindo com o olhar ao lado d'um passageiro que durante a viagem tinha conversado algumas vezes com Strech.—Nunca vi tamanha commoção! disse o capitão ao passageiro. Receio d'esta alegria em homem costumado aos alvoroços de guerra.—Elle vinha ancioso de chegar a Italia, retrucou o passageiro. O mais que me disse foi que, tendo feito a campanha, vinha, doente e cançado, procurar a Italia uma irmã, de quem, pela invasão de Portugal! fôra obrigado a separar-se.—Muito a deve estimar então! ponderou o maritimo.E, aproximando-se de Graça Strech, disse-lhe affavelmente:—O sr. Strech morria-se por vêr Italia. Ahi a tem agora.—É verdade, respondeu exaltado Graça Strech. É verdade... A ancia de chegar... a incerteza... tudo isto... Eu não estava costumado a estas sensações... Por que emfim tudo hoje depende para mim de Italia... Ó senhor capitão, quanto tempo gastaremos ainda?...{158}O capitão, sem responder, achegou-se do outro passageiro e segredou-lhe:—Eu não lhe dizia? Nunca vi tamanha commocção! Queira Deus que não vá louco...Ah! o capitão entendia do mar; do coração, não. Chamava loucura áquillo! A desvairada oscillação da alma que pende entre um longo passado de trevas e a unica esperança que lhe entreluz no céo do porvir! É louco o naufrago que, baldeado entre os vagalhões do oceano infrene, se abraça com a prancha que lhe é dado alcançar, e que ou morrerá cuspido contra os fraguedos ou fluctuará por mercê da Providencia até que surja a véla branca, que é a bandeira da paz nas luctas com o mar? É louco o caminheiro que se transviou ao anoitecer e sorri de alegria á estrella da manhã, ainda que tenha de retrocecer para continuar jornada? É louco o doente que se felicita de haver acordado d'um pesadello horrivel, esquecendo-se de que, d'ahi a horas talvez, sobrevirá o sombrio pesadello de que não se acorda mais—a morte?O coração tem as tempestades e as calmarias do mar, é certo, os murmurios e os segredos das aguas, mas o fundo do coração não está ainda tão estudado como o fundo do oceano. A sondagem mente muitas vezes. Quem já logrou medir a profundeza de certas dôres?Tinha soado a hora do desengano ou da felicidade.Graça Strech estava finalmente em Italia.Começou desde logo a procurar, a procurar. Correu todo o reino de Napoles—Napoleão puzera reis em toda a parte—a pedir informações d'um velho tocador de harpa, que se chamava Pietro, d'uma rapariga franceza chamada Rosina Regnau e d'uma creança, que devia ter quatro annos, e era filha da rapariga franceza. Ninguem respondia. Quem em Napoles, o paiz da musica, havia d'estremar umsonatóre di arpa? Acudia afflictivamente Graça Strech a fazer o retrato do velho Pietro para auxiliar a memoria dos interrogados. Harpistas velhos havia tantos, uns que viviam em Napoles, outros que passavam por lá, que por fim de contas a população lembrava-se de todos e não se lembrava de nenhum. A declaração de chamar-se Pietro nada aproveitava. Ninguem se importa com o nome dos menestreis das ruas, mórmente{159}quando todos os musicos ambulantes parece chamarem-se Pietros. Rapariga franceza ninguem dizia tel-a visto, e depois acrescentavam que talvez lá houvesse estado, sem fazerem reparo n'ella, porque os francezes sempre foram tão vulgares em Italia como os italianos em França, por isso que a natureza pôz entre as duas nações a ponte granitica dos Alpes.Graça Strech percorreu vertiginosamente todas as estalagens, todos os albergues, recolheu informações particulares e officiaes, e não soube nada.Disseram-lhe que talvez o harpista houvesse passado, como é costume d'elles, a outras cidades d'Italia, por isso que a concorrencia os afugenta de Napoles.Acceitou o alvitre. Visitou em seguida o reino da Etruria, procurou sem descançar, como um cão que perdeu o faro de seu dono. Uma tarde, em Piombino um albergueiro pareceu recordar-se d'um harpista velho que ali pernoitára havia um anno com uma criança que lhe chamava avô. Vira só o velho e a criança. De mulher franceza que os acompanhasse, não tinha reminiscencia. Fizera reparo nos dois, pelo contraste. O velho passára a noite á lareira com a criança adormecida nos braços, afagando-lhe os cabellos loiros, cobertos pelos seus cabellos brancos, sem dizer uma palavra. Comeu pouco e bebera menos. Pela manhã saíra com a harpa e a criança. Aqui está o que o albergueiro de Piombino dissera, acrescentando unicamente: Quando elle sahia, perguntei-lhe que rumo levava, porque realmente o harpista me fez pena.O velho respondeu:—Vamos correr esse reino d'Italia, á mercê de Deus. Bem vê que é preciso trabalhar: somos duas boccas, e só temos dois braços—são os meus que já pouco podem.A historia do velho e da criança fez profunda impressão no animo attribulado de Graça Strech. Perdeu-se em conjecturas. Seria Pietro? Haveria morrido Rosina? O estalajadeiro não soube dizer-lhe o nome do harpista. Sobretudo, a ideia da morte de Rosina enlouqueceu-o de dôr. Seria possivel que ella morresse sem o ver, sem o ouvir, sem lhe fallar, ella, que tinha tanta coragem, que devia resistir energicamente á morte, porque a morte era a separação eterna?{160}Aquella criança seria realmente seu filho, e viveria no mundo sem pae nem mãe, apenas confiado á protecção do pobre harpista napolitano, cuja velhice e trabalhos em breve o prostrariam, se era que ainda vivia a essa hora? E se elle já tivesse morrido, que seria da criança na infantil inconsciencia dos seus quatro annos, que tantos devia ter a ser seu filho? Morreria enregelada no caminho, morreria de fome entre duas arvores, no meio da serra, ou então haver-lhe-ia estalado o pequeno coração depois de haver estado a gritar para que acudissem ao avô, que caíra ao chão e ficára esmagado pela harpa, sem falar mais, sem responder ao seu afflictivo chamar.O albergueiro começou a notar extraordinaria agitação na physionomia do hospede. Viu encovarem-se-lhes os olhos, e estremecerem-lhe os musculos das faces cadavericas pela magreza e pela lividez. Em breve as contracções nervosas se estenderam a todo o corpo. O caminheiro começou a tremer, a tremer. Trouxeram roupa, cobriram-n'o. Pediram-lhe que se deitasse; recusou. Esteve assim longo tempo, tremendo, frio como o gelo. Depois, como o peso da roupa fosse muito, começou a córar e a suar. Dizia palavras que ninguem entendia. Aprumou-se de subito, sacudiu a roupa. Foi direito á sua maleta, desafivelou-a e tirou de dentro... a guitarra. Começou a tangel-a febrilmente. A gente da pousada entreolhava-se com pasmo. E cada vez as notas se precipitavam com maior rapidez, até que, inesperadamente, a musica foi afrouxando, parecendo unicamente suspirar. Viram chorar o desconhecido, circumvagar um olhar alheiado, e arrancar da sua guitarra apenas gemidos e suspiros dolorosos.Tornaram a dizer-lhe que era melhor descançar. Recusou com pertinacia.—Peço que me deixem ficar aqui, disse elle pausadamente para que o comprehendessem.Não queriam consentir; elle insistiu.Ouviram ainda por algum tempo suspirar a guitarra, que depois se calou. Foram espreital-o: viram-n'o com a cabeça poisada sobre ella. Estava assim, mas não dormia; d'instante a instante viam-n'o estremecer. Ao romper da manhã saíu. Mal se podia aguentar a pé. Pediram-lhe que ficasse para se restabelecer;{161}{162}{163}agradeceu e partiu. Continuou, posto que debilitado, a sua peregrinação indefessa.IlustraçãoO povo, que tinha seguido todo este episodio... (pag. 173)—Eu já não viveria, dizia elle ás vezes, se não tivesse ido ao cemiterio de Cedofeita buscar esta sombra de fé que me ampara ainda!E lá ia, descançando uma hora, caminhando duas.Esteve em Turim. Perguntou, investigou, não soube nada. Como para crear alento, que lhe permittisse seguir jornada, sentava-se nas praças publicas a tocar na sua guitarra. O povo fazia-lhe circulo. Elle não levantava os olhos emquanto estava tocando, excepto se ouvia falar alguma criança. Algumas vezes lhe chamavam louco, porque lhe lançavam dinheiro ao regaço, e elle não agradecia. Era o idiotismo da desgraça. Estava pobre, gastára quanto levára comsigo nos primeiros tempos da peregrinação. Se não fosse a guitarra, morreria de fome. Pouco lhe importava a vida sem Rosina e seu filho. Se não se matava, era porque tinha ainda um resto de fé que o amparava.Foi a Milão. A mesma canceira: perguntar, sempre perguntar. Inquiria todos os harpistas: nenhum lhe soube dar noticias do velho Pietro.—Em Italia não estão! dizia elle. Tenho a certeza, não ha recanto que eu não tenha batido.Atravessou a Suissa sem melhor resultado.Uma noite sonhou com as Ardennas: era a patria de Rosina. Lembrou-se de que viveriam lá na supposição de que elle, se fosse vivo, logo atinaria, por impulso do coração, com o esconderijo que haviam procurado. Passou a França: foi direito ás Ardennas. Quasi se sentiu morrer diante d'aquelle paiz de florestas. Ali havia nascido Rosina. Como ella o devia amar para se esquecer do seu formoso ninho! Consultou todas as arvores, bateu a todas as portas. De Rosina Regnau ninguem se lembrava; Pietro, o velhosonatóre, ninguem o vira. Graça Strech esteve ali muito tempo: havia já tanto que saíra de Portugal! Teve tentaçoes de se deixar morrer nas Ardennas. Queria respirar ao morrer o ar que Rosina respirára ao nascer. Chegou a pedir a Deus que lhe désse por tumulo o berço d'ella. Mas, emquanto orava parecia fortalecer-se a sua fé.Resignou-se a partir. Recomeçou a caminhar. Ia no fim o anno de 1816. Disseram-lhe no caminho que no inverno se reuniam em Pariz todos os musicos{164}ambulantes. Para lá foi com a sua guitarra. Effectivamente o enxame dosvirtuosienchia os cafés, as praças e as ruas. Á porta dos theatros havia todas as noites uma nuvem d'elles.A este tempo reinava em França Luiz XVIII. Napoleão, não podendo resistir á colligação das potencias alliadas, abdicou o imperio em Fontainebleau, retirando á ilha d'Elba.O congresso de Vienna havia regulado os negocios da Europa; sem embargo, Napoleão sonhava ainda com voltar a França. Em março de 1815 desembarcou em Cannes e entrou em Pariz. Pôde ainda vencer em Charleroy e Fleurus, mas a hora solemne de Waterloo bateu no relogio que marca a existencia de vencedores e vencidos, e Themistocles teve de pedir hospitalidade a Artaxerxes.Graça Strech ia caminhando e ouvindo as vozes do povo. Quando soube do resultado de Waterloo, disse de si para si:—A Providencia é justa. A minha familia não precisava da minha vingança, porque a Providencia se encarregou de punir o assassinio de todas as mulheres, de todos os velhos e de todas as crianças. Ora a justiça da Providencia não deixará de me aclarar o mysterio que eu procuro desvendar ha tanto tempo. Deus sabe se tenho forças para mais!Pouco antes de chegar a Pariz viu passar uma carruagem seguida por uma ordenança.Perguntou quem era. Responderam-lhe:—É o duque de Richelieu, ministro de Luiz XVIII.Elle contestou serenamente:—Se fosse no tempo de Napoleão, ia um esquadrão de cavallaria atraz da carruagem. Napoleão mandava exercitos atraz de toda a gente.Dizia isto como um homem que se entre-lembra vagamente das coisas do mundo. Passou a carruagem do duque de Richelieu, e elle logo se esqueceu da França para se recordar da missão em que ia consumindo baldadamente a vida.—Vamos com Deus, e com a pobre guitarra! E seguiu para Pariz.{165}XIXA terra da promissãoGraça Strech chegou a Pariz no inverno de 1816.Estavam n'essa occasião agglomeradas na capital da França as andorinhas errantes da musica das ruas, que todos os annos saem do vasto ninho da Italia, a percorrer a Europa inteira. De todos osvirtuosique n'essa occasião poisavam em Pariz, apenas cinco ou seis seriam francezes, e um só era portuguez, Graça Strech.A guitarra, melancolicamente tangida por elle, cuja dolorosa physionomia não era menos melancolica do que a sua guitarra, despertava geral attenção. Acrescia a circumstancia de que esse instrumento não era dos mais conhecidos na orchestra dos musicos ambulantes. Tudo isso concorreu para o éxito. Graça Strech tinha sombrios alheamentos emquanto estava tocando. Caíam-lhe em desalinho os cabellos a esconder a fronte pallida e cadaverica. Era uma bella cabeça d'artista em que muitos pintores fizeram reparo. Um estudante d'esculptura chegou a convidal-o para modelar-lhe o busto.Graça Strech respondeu:—Agradeço a sua amabilidade, senhor. Mas eu sinto-me de tal modo cançado, que não póde ser longa a minha vida. O senhor é muito moço ainda; póde esperar. Se eu morrer em Pariz, aproveite a minha mascara.A imprevista sobranceria d'esta resposta causou sensação. Passou de bocca em bocca, e os homens d'espirito começaram a olhar com certo interesse respeitoso para o guitarrista estrangeiro. Uma noite, no caféEvezard, á esquina do Palais National, estavam sobremodo animadas as mesas quando Graça Strech entrou. Encostou-se á ombreira da porta e começou tangendo a guitarra. Como não pedia esmola,{166}interrompia-se a miudo para receber os óbolos que lhe davam oshabituésque entravam e saíam.Na primeira mesa á entrada estavam oito francezes, todos rapazes mais ou menos artistas, que se calaram a ouvir attentamente o guitarrista, tanto mais que já o conheciam de nome. Como fixassem a vista em Graça Strech, e falassem visivelmente a seu respeito, procurou elle ouvir, dando-se o maximo disfarce, tudo quanto diziam.—É assombroso! exclamava um, cuja pallidez denunciava uma cabeça febrilmente enthusiasta.—Depois da pequena da harpa que esteve o anno passado em Pariz com o velho das barbas brancas, ainda não vi maior prodigio! acrescentou um cuja physionomia denunciava um caracter franco e compassivo.—Que pequena era essa? perguntou no grupo umcommis-voyageur.—Era uma pequenita que parecia um passarinho encostado a uma harpa. Acompanhava-a um velho de cabellos brancos, a quem chamava avô, e que lhe transportava a harpa. Impressionava o contraste. Seria difficil dizer qual d'elles poderia melhor com a harpa, se o avô ou a neta. Elle tinha tanto de velho como ella de pequenina. E depois que tristeza dava o vêl-a vestidinha de preto! Perguntava-se-lhe por quem andava de luto:—Por meu pae e por minha mãe—respondia ella com certa vivacidade triste, que enternecia a lagrimas. Tu copiaste o grupo, pois não copiaste, ó Maubert?—Copiei, respondeu o pallido rapaz que primeiro falava, e que parecia absorto na contemplação do guitarrista.—Sabes então mais alguma coisa a respeito da pequena e do velho?—Pouco mais sei. O avô parecia empenhado em não contar nada. Nem o encanto do mysterio lhes faltava, a elles, áquelle soberbo inverno coberto de neves e áquella infantil primavera que parecia vegetar no gelo do avô! Quando lhes perguntei os nomes para intitular os bustos, respondeu-me o velho:—Queira pôr—Pietro, sonatóre di arpa; Augusta, sonatrice, lá piccola, nipotina mia.—Fiquei triste com a mysteriosa singelesa da resposta. Previ um romance. Que querem? A doida da minha phantasia! Apertei{167}com o velho, fiz-lhe promessas para que me contasse a sua. Não consegui nada. Lá partiram ambos para Inglaterra.—Olha para o guitarrista! exclamou o de mais compassiva physionomia.Olharam todos. Graça Strech estava sendo inconscientemente o alvo de todas as attenções. Havia-lhe descaido o braço; subitamente a guitarra emmudecera; os cabellos do guitarrista, longos e annelados, acompanhavam, pendidos a um lado, a inclinação da fronte, e os olhos brilhavam através dos cabellos com anciosa vivacidade. Era inutil dissimular: Graça Strech estava ouvindo o que diziam na mesa proxima.—Escuta o que nós dizemos! ponderou o que estivera contando a historia do velho e da criança.—É verdade!—Não se póde duvidar!—Lá começa a dedilhar de novo... Deu tino de que fisemos reparo. Tocapianissimopara ouvir o mais que dissermos.—É certo!Che dolcemente!—Que terá elle comnosco?—Talvez não seja comnosco; talvez seja com o velho e a creança, apostrophou ohabitué-artista.—Ora, essa cabeça! Tu encontras romances em toda a parte.—Espera! tornou observando o esculptor. Ia jurar que os olhos d'este homem são os da pequenita! Que semelhança!—Oh! oh! continua o romance! Esse molde de novellas é velho, Maubert! D'esta vez o pae, que era julgado morto, não volta da Terra Santa. Corre atraz da filha, que ao partir para o combate entregára ao avô. Tem-n'a procurado e não sabe onde pára. És tu, Maubert, que vaes desfazer o mysterio. A Providencia encarregou-te de dizeres:Pára!ao Ashaverus do nosso seculo! Oh! oh!E os outros gargalharam em côro:—Oh! oh!—És tu que vaes mostrar ao Moyses da guitarra a Terra da Promissão! disse um.—Que elle nos está ouvindo é certo, porque todos repararam! exclamou o de mais dôce semblante. E talvez seja algum desgraçado. Este mundo dosvirtuosi{168}das ruas tem tantos mysterios! Atravessam Paris no inverno e a gente ouve-lhes a musica sem lhes vêr a alma. Alguns d'elles parecem conversar com a harpa e com o violino: é porque teem que lhes dizer. Decerto que não são alegrias. Póde ser alegre quem atravessa os Alpes a pé, e dorme para ahi em qualquer canto, e vae correr a Europa inteira unicamente fiado na agilidade dos seus dedos e na obediencia das cordas? Creio que não. Parecem despreoccupados, parecem, porque emfim elles teem das aves alguma coisa: as azas pelo menos. Rouba o filho a um passarinho, que elle, com o coração despedaçado, tambem esvoaça em redor do ninho vasio. Pensam vocês que nem ao menos lhes ha de doêr a ausencia?La rimembránza, meus amigos,la rimembránzachora muita vez nas harpas d'elles. Oh! eu creio-o! E nós, apesar de nos deliciarem os ouvidos, olhamol-os indifferentemente. No inverno dizemos:Cá estão!Quando chega a primavera exclamamos:Lá fôram!—Tu pendes mais para o sentimentalismo, Guillibaud. Maubert prefere a phantasia e o maravilhoso.—Olha! lá está ouvindo o guitarrista outra vez!—É notavel! Que curiosidade!De repente interromperam-se os commentarios. Graça Strech aproximou-se de Maubert pedindo-lhe o obsequio de lhe dispensar dois minutos d'attenção em particular. Havia no seu olhar, nos gestos, na voz, tão claros indicios de grande agitação, que Maubert immediatamente se levantou. Os outros, enquanto os dois sahiam a porta do botequim, ficáram dizendo:—Este Maubert é um bibliotheca viva d'aventuras.—Deixa lá, observára condoídamente Guillibaud. A julgar pelo aspecto do guitarrista, o caso afigura-se-me grave d'esta vez. Talvez seja um romance triste...—Se tu não havias de vir com o teu sentimentalismo!—És melancholico como uma lagrima!—Que não seja de vinho...—Tens razão: as lagrimas de vinho alegram.—São ellas de certo que vos dão essa continada alegria! disse com enfado Guillibaud.{169}O leitor está porém impaciente de seguir Graça Strech e Maubert. Vamos-lhes pois na piugada.Mal sahiram a porta, o guitarrista dirigiu-se immediatamente ao esculptor em correcto francez:—Peço-lhe vivamente perdão, senhor, de o haver privado da companhia dos seus amigos, mas o que o senhor estava dizendo era tão extraordinario para mim...—Ouvia-nos então? perguntou Maubert.—Ouvi tudo, e incommodei-o unicamente para lhe pedir, não que me mostre a Terra da Promissão, como jovialmente disseram os seus amigos, mas, quasi o mesmo para mim, que me mostre os bustos do avô e da neta...—Oh! isso é muito facil. Estamos a dois passos do meuatelier. Vamos lá—respondeu o enthusiasta Maubert.Foram. Graça Strech ia concentrado, e cada vez estugava mais o passo; Maubert observava-o de esguelha e começava a achar summamente extraordinario aquelle homem, de quem se principiava a falar.Era perto oatelier. Entraram. Graça Strech precedia Maubert, tamanha era a sua impaciencia.—Aqui estão! disse o esculptor.Graça Strech, relanceando aos dois bustos um olhar rapido e incisivo, vibrou um grito, ao mesmo tempo doloroso e alegre, e, apontando para o do velho, exclamou:—É elle, é Pietro!Depois, demorando os olhos no busto da pequenita, deixou escapar outro grito que parecia o magoado estalar de todas as cordas da alma:—É minha filha! Não póde deixar de ser! Ca está:Augusta, sonatrice, la piccola!Chama-se Augusta! Comprehendo tudo. Rosina morreu, sim, já me não póde restar duvida alguma. É horrivel! Morreu! E pôde morrer sem esperar por mim! Pobresinha! Poz á filha o nome de minha irmã. Era uma surpreza que me queria fazer, e fez, realmente, mas que triste surpreza, sr. Maubert, que desgraça esta! Olhe, aquella pequena é minha filha. O senhor é artista... Veja que bonito perfil aquelle... Por isso foi que o senhor a modelou, pois não foi? Sim, é muito bonita! Disse então que andava vestidinha de preto? É pela mãe!{170}Pobre Rosina! Oh! eu não creio ainda que tu morresses, tu, que tinhas tanta coragem, tanta! Onde está minha filha, senhor? Aquella não fala! Eu quero ver minha filha, abraçal-a, beijal-a. Deixe-me beijal-a, sim, deixe-me enganar. Bem póde ser que tambem a morte já m'a tenha levado, e por isso deixe saciar-se de beijos este pobre coração ha tanto tempo opprimido. Olhe que gentil cabeça! Que semelhança com minha irmã! É estar a vel-a, quando brincavamos ambos e faziamos endoidecer o capelão das Chãs. Sim, o senhor já me restituiu minha filha, mas Rosina, a minha vida, o meu amor, que é d'ella, por que não a modelou o senhor para que eu a pudesse beijar agora!E, com o busto da pequenita apertado contra o coração, pareceu oscillar.Maubert, que escutava commovido da enormidade d'aquella dôr, e perplexo, porque não possuia todo o segredo d'esse homem, acudiu a amparal-o.—Ah! não me roube a sua obra! exclamou Graça Strech apertando o busto cada vez mais contra o coração, que pulsava vertiginosamente. Não m'a roube. Dou-lhe tudo, a minha guitarra, a minha vida, mas não me arranque a felicidade que me deu. Isto não é um pedaço de gesso inanimado, que o senhor modelou. Não, isto é minha filha, a minha querida filha, a Terra Prometida...E, fazendo esforço para tirar a voz que lhe faltava, acrescentou:—Disse o senhor que o avô e a neta foram para Inglaterra, pois não disse? Bem, vou atras d'elles. Por França não tornaram a passar, ninguem mais os viu? De Inglaterra só poderiam saír embarcados. Não é provavel. Estamos no inverno. É a estação dos musicos. Hei de encontrál-os lá. Hei de ver minha filha, beijal-a doidamente, percebe? doidamente, e perguntar-lhe onde é a sepultura de sua mãe. Quero ir lá com ella, e com Pietro. Parece-me que ainda posso dar vida a Rosina! Pois ella ha de deixar-se ficar fria e calada, sabendo que eu estou ali, apenas separado por uma camada de terra?! Está morta? Que me importa a mim! Isso não póde ser obstaculo para o meu amor, para este longo amor de sete annos, que não póde acabar assim, que deve durar mais do que a vida...{171}Maubert começava a receiar pelo guitarrista, que ficou sopitado em demorada prostração. Piedosamente o soccorreu, e quando Graça Strech tornou em si viu o esculptor curvado carinhosamente para elle.—Muito obrigado! disse com voz flebil Strech. Muito obrigado! Ah! aqui está o busto de minha filha!...—Que é seu, observou Maubert.—Sim, o senhor, que é bom, que é nobre, que tem coração e talento, não podia negar esta felicidade a um pae!—Agora, tornou Maubert, é partir para Londres. Para isso basta atravessar o canal. Está prevenido? A minha bolsa d'artista tem ainda para estas larguezas. Está á sua disposição o preciso para tão pequena viagem.—Muito obrigado, senhor, e acceito. Aqui está o que eu tenho de meu: deu-m'o, como o senhor viu, quem entrava e sahia doEvezard. Eu não pedia, porque não era mendigo: era simplesmente um pae que ha dois annos procurava por toda a parte a sua familia. Conheciam a minha pobreza: davam-me alguma coisa, eu acceitava, porque em verdade era pobre. Agora não, agora não sou, porque finalmente achei o rasto de minha filha! Não encontro Rosina, porque a sepultura m'a roubou, mas ainda me parece que a hei de resuscitar, porque o meu amor, este amor que ainda me conserva a vida, deve realisar todos os prodigios.O mais que se passou entre o guitarrista e Maubert não nos importa saber.Graça Strech embarcou ao outro dia para Londres. O que se passaria na sua alma é facil de adivinhar: era o que ahi ha de mais pungente doer da saudade á mistura com o mais avido phrenesi da anciedade; era o supplicio atroz da alma que lucta com o irreparavel no ante-gosto d'uma felicidade orvalhada de lagrimas.É preciso que um coração esteja muito retemperado pelo soffrimento para luctar, sem succumbir, com tão violentos contrastes, tão oppostos extremos, tão desencadeadas tormentas. Elle resistiu, porque havia sete annos que soffria o mais que podem soffrer homens.Chegou a Londres.{172}Era, como sabemos, o inverno.Fluctuava pelas ruas e peloscafésuma colonia devirtuosi. Gastou um dia, gastou dois, sem encontrar quem procurava. Ao terceiro, viu muita gente reunida n'uma praça. Estavam ouvindo uma harpa.Logo um presentimento lhe alvoroçou o coração. Parou de subito, antes de romper o circulo, porque uma dôr, cruciante como o queimar de um ferro em braza, lhe atravessára o peito. Receiou morrer. Fez porém um esforço, que devia tel-o prostrado a não ser ainda aquella a hora de avistar a Terra da Promissão. Apartou febrilmente o grupo, relanceou por sobre as cabeças um olhar d'aguia, e com um só grito fez emmudecer a harpa e affastar a gente que rodeiava a harpista.Um homem de meia edade, que não era decerto Pietro segurava a harpa, tangida por uma pequenita vestidinha de preto.Era o mesmo perfil do busto;—assim devera ser Augusta aos seis annos. Faltava, para completar o grupo de Maubert, o original do outro busto: faltava apenas Pietro.Graça Strech arrebatou nos braços a criança. Beijou-a, abraçou-a, acariciou-a delirantemente, soffregamente, doidamente.E por entre beijos e abraços repetia, sorrindo e chorando:—Sou teu pae! Eu sou teu pae! Acredita-me, Augusta; bem sei que te chamas Augusta.A criança tremia-lhe nos braços como um passarinho que se sente comprimido, e procurava furtar as faces aos beijos ardentes do desconhecido.—Pietro, filha, onde está Pietro?A pequenita, ouvindo pronunciar este nome, olhou attenta no guitarrista, e respondeu com os olhos subitamente marejados de lagrimas, dando uma suave expressão de magua ao dialecto napolitano;—Morreu! Elle morreu. Tu é que talvez sejas meu pae, porque dizia o avô...—Que dizia o avô, filha? perguntou anciosamente Graça Strech.—Que meu pae tinha dado a minha mãe,mia madre poverella, um presente para mim, e que se elle não tivesse morrido, como nós julgavamos, tu me conhecerias por esse presente. Se sabes o que é, então{173}és meu pae; dá-me muitos beijos que eu consinto.É o annel, filha! Ah! é o annel que eu dei a tua mãe.Isso mesmo! disse a criança sorrindo d'alegria. Elle aqui está...E tirou do seio uma saquinha, pendente do pescoço, onde guardava o annel.Trago-o aqui. Sou ainda muito pequinina,padre mio, para o trazer no dedo.O povo, que tinha seguido todo este episodio, olhou-se admirado quando viu a pequenita tirar do seio a saquinha, e mostrar o annel.Era que para o publico, como para Rosina, aquelle annel tinha mysterio.Graça Strech de novo colheu a filha nos braços, de novo a beijou com os olhos razos de lagrimas, mas a pequenita, soltando-se com vivacidade, disse para o homem que segurava a harpa:Vamos lá, Giovanni, vamos com meu pae, que não morreu!{174}XXO manuscripto de PietroPietro morrera um anno antes, em Londres, logo depois que de Pariz passára a Inglaterra. Acamou, no miseravel albergue em que se hospedára com a pequenita, victima d'uma febre aguda. Ás primeiras horas de leito conhecera que era chegado o termo da sua vida. Antes que estivesse impossibilitado de raciocinar e falar, mandou chamar Giovanni, um antigo conhecido, em quem depositava confiança e, não sem difficuldade, porque já a cabeça começava a pesar para a sepultura e o cerebro a escurentar-se com as trevas da morte, lhe disse:—Giovanni, tu és um homem de bem e, diga-se a verdade, inimigo de trabalhar. Tens vivido sempre em companhia de musicos que te dão alguma coisa porque tu lhes carregas com as harpas e os realejos. Ora, meu amigo, é chegada a occasião de fazermos um negocio e, nota bem, o ultimo.—Ora deixa-te de tolices!—Não são tolices, Giovanni; bem vês que já me custa falar. Não posso perder tempo. Portanto, ouve-me com attenção. A minha hora chegou e pouco me importaria morrer se não tivesse uma neta...—Uma neta! Tu! Só te conheci um filho, que morreu pequeno em Portugal.—Isso é um segredo que te não deve importar. Essa criança que ahi está fóra é mais minha neta do que se fosse filha de meu filho. Comprehendes que morrendo tu, vae ella, coitadinha! ficar para ahi desamparada. Isso é justamente o que eu não quero. Sabes que a pequena tem talento...—Isso tem! respondeu Giovanni.—Aprendeu tudo quanto eu lhe ensinei—acrescentou pausadamente Pietro—e já sabe mais do que aprendeu. Deus nunca desampara os desgraçados! O{175}talento foi o patrimonio com que Deus dotou a minha neta. Mas olha que é um capital cujo rendimento chegava bem para nós dois! A pequenita bastava-lhe roçar com as azas pelas cordas: logo sahia musica. Ora a nossa sociedade artistica vae dissolver-se. Da morte não se appella. Um dos socios, o gerente, retira-se para a... eternidade. Fica o outro, que por ser de menor edade não tem ainda credito na praça. É preciso que tu, homem de bem, substituas o socio que se retira, e entres apenas com a tua edade e com a tua experiencia. A tua missão cifra-se em acompanhar a avesinha, e defendel-a das ciladas do mundo. Nota, porém, que te corre obrigação de não traíres a confiança que um amigo moribundo deposita em ti. Jura-me pela tua honra que serás exacto como tens sido até hoje...—Juro, disse com firmeza e commoção Giovanni.—Muito bem. Logo que eu morra, olha tu pela pequena, que fica sendo agora tua neta. Mas ouve ainda, Giovanni, mas ouve-me bem. Eu supponho e e com boas razões, que o pae d'essa infeliz menina, morreu. Tudo me leva a crêl-o. Se algum dia, porém, e Deus o permitta! o pae d'ella apparecer, dize-lhe que te nomeie o objecto pelo qual elle ha de reconhecer a filha: é um annel que ella traz n'uma saquinha ao pescoço. De mim não quero que lhe digas nada, porque n'este papel, que lhe entregarás, caso o pae da menina não tenha morrido, deixo explicado o mais que tinha a dizer. Se elle não surgir do tumulo a reclamar a filha, o que é provavel, entrega esse papel a Augusta, para que ella, em edade de o entender, saiba com que amor eu a amei. Dá tempo ao tempo. Espera que ella cresça e pense. Tens entendido, Giovanni? Agora dá-me a tua mão. Palavra de homem de bem?—Palavra e juramento, disse Giovanni com profunda commoção, e muitas lagrimas.E acrescentou:—Vae descançado, Pietro. Tua neta, pois que assim lhe chamas, não ha de soffrer mal algum. Eu tenho sido até hoje escravo da minha fidelidade. Tenho andado pelo mundo atraz d'esses musicos, que afinal me não pagam. Nasci preguiçoso, é verdade, Deus me perdôe, mas tu bem sabes que me não pegou ainda ponta de vicio. Nem bebo nem jógo. Fumar,{176}fumo eu, mas isso é apenas um mau habito. Tendo pão e tabaco, estou contente. Isso, é de sobra, dar-m'o-ha a harpa de tua neta. Agradeço a esmola, e toda a vida serei agradecido a ti e a ella. O dinheiro que juntar eu lh'o guardarei. Comprará uns vestidinhos, concertará a harpa, comprará outra melhor...—Isso não! isso nunca! interrompeu Pietro com febril exaltação. A minha harpa nunca ella a deixará; já lh'o disse, e ella prometteu-m'o.—Desculpa, Pietro, eu não pensei o que disse. Emfim comprará o que quizer, porque todo o capital será d'ella; eu serei unicamente depositario.—Bem! disse Pietro prostrado de commoção. Estamos tratados para a vida e para a morte. Agora sae por algum tempo, e manda-me cá a pequena.Saíu Giovanni e entrou Augusta.O doente esteve olhando para ella mui attentamente, e exclamou:—Que linda és!A pequetita respondeu com beijos.—Olha lá, Augusta,—tornou Pietro—não te esqueças da recommendação do annel. Oh! que se tu encontrasses ainda teu pae! E d'ahi póde ser. Deus é misericordioso. Se elle escapou á guerra, bem póde acontecer que ainda algum dia o encontres. Deus o queira, Augusta, anjo, filha. És tão pequenina, tão pequenina, que cada vez me pareces mais um passarinho! Emfim eu não havia de ser eterno; muito me tem deixado Deus viver para teu amparo. Que linda, filha, que linda! Olha... chama Giovanni, e vae ali para fóra um momento... Tu és muito minha amiga, pois não és?... Vae filha, vae, e chama Giovanni.Saiu a pequenita a cumprir a ordem.Giovanni abeirou-se do catre e recebeu da mão do doente os papeis em que lhe falára.—Não posso mais! disse Pietro. Pesa-me tanto a cabeça! Sabe Deus com que difficuldade tenho feito tudo isto! E—acrescentou placidamente—para o enterro já sabes que basta avisar o consul. Nós em toda a parte somos italianos.Giovanni tregeitou, e o doente deixou caír contra o travesseiro o craneo que parecia de chumbo. Nos trez dias que se seguiram não mais tornou a falar. Entrou em estado comatoso. Teve sempre os olhos fechados até que a morte lh'os sellou para a eternidade.{177}O consulado italiano fez o enterro: só os summamente grandes e os summamente pequenos são enterrados á custa das nações.Quem soube, na colonia fluctuante dos musicos das ruas, que havia de menos uma andorinha viajeira?Os outros não souberam, porque, tendo por missão voar de terra em terra, não lhes sobra tempo para se demorarem á beira d'um tumulo.Soube-o o consul, e sentiam-n'o Augusta e Giovanni; ninguem mais.A pequenita chorou muito, muito. Giovanni confortou-a como pôde. O sol, que é a alegria de todos os passarinhos, fez o mais.Começaram ambos a sua peregrinação.A pequenita, pobresinha! só tocava n'esses dias de pungente saudade musicas tão tristes como a alma d'ella. Ainda assim ouviam-n'a, achavam-lhe graça, e davam-lhe dinheiro.O publico, em geral, reputa felizes os que convidam á felicidade.E, em geral, engana-se sempre.Augusta sonhava quasi todas as noites com o avô. Pela manhã dizia a Giovanni:—Esta noite vi-o. Lá me tornou a repetir que não perdesse o annel.Outras vezes:—O avô, Giovanni, disse-me esta noite que te recommendasse que fosses sempre muito meu amigo.As recommendações de Pietro, que a pequenina ouvia em sonhos, não eram precisas. Nem Augusta perdia o annel mysterioso, nem Giovanni se esquecia das promessas que tinha feito.Elle guardava a sua palavra; ella o seu annel.E com esses dois thesouros se propunham correr mundo.Giovanni pertencia ao numero dos homens-machinas que só obedecem ao impulso do coração; ora o coração era bom, e as obras boas sahiam, portanto.Nascera, como o cão de quinta, para a ociosidade, mas, como o cão de quinta, era fiel.Durante o anno que acompanhou Augusta nunca deslisou um passo do caminho do dever.Ella ia adiante com o seu annel no seio; elle seguia-a{178}com a harpa ás costas, avisando-a sempre da aproximação dos trens e dos cavalleiros.Ao cabo d'um anno surgiu do tumulo Graça Strech, para nos servirmos da phrase de Pietro. Feito o reconhecimento, Giovanni entregou-lhe a filha e os papeis que recebera, e diziam assim:MANUSCRIPTO DE PIETROEstas são as minhas memorias. Dito-as para serem lidas por Augusta ou seu pae, se é que não morreu, para esclarecimento d'algum d'elles, ou de ambos, se Deus o permittir.Felizmente aprendi a escrever, e fui nos primeiros annos da minha vida empregado n'um escriptorio. Depois morreu-me meu pae: faltou-me o leme. Desnorteei. Troquei a penna pela harpa. Ha muitos annos que o meu abecedario é odo-ré-mi-fá-sol-lá-si. Ainda assim, apesar do muito que se soffre n'esta vida errante, agradeço a Deus o inspirar-me que fosse musico, porque tive occasião de fazer bem.Finou-se de saudades em viagem asignoraRosina. Era um soffrer que fazia horror! Não havia palavras que a consolassem, musica que pudesse distraíl-a! Viajou chorando e suspirando; os olhos nunca ninguem lh'os viu. Quasi não comeu. Acceitava, depois de muitas instancias, uma agua de caldo apenas. Diziamos-lhe que era um crime deixar-se morrer; então bebia. Chegámos a Napoles, e logo asignorame pediu que tratasse de arranjar albergue, porque se sentia muito doente. Em verdade estava muito falta de forças. Quiz escrever para Portugal, e não pôde. Mal pegava na penna descórava muito, e entrava de sentir-se agoniada. Eu, vendo que semelhantes esforços a estavam debilitando cada vez mais, pedia-lhe que deixasse isso para quando estivesse melhor. Comecei a dizer-lhe que não tinha geito metter-se em casa. Depois de repetidas instancias, annuiu em ir commigo ao anoitecer até á beira mar. Umas vezes voltava melhor; outras vinha mais doente. No primeiro caso, principiava a escrever. Escrevia algumas linhas, e já estava fatigada. No segundo, passava a noite em convulsões, e era preciso não a desamparar até pela manhã, que só então cahia em somno. Eu ia porém instando sempre pelos passeios. Ah! mas ver asignora{179}um mez depois que chegámos a Napoles! Que differença! Emagreceu, descórou, fez-se velha. Não parecia a mesma! A primeira carta que recebemos de Portugal causou-lhe tamanha impressão, que eu julguei que morresse. Tive realmente medo. Chorou, riu, delirou. A carta não dizia porém que osignorStrech tivesse recebido as nossas. Asignorainquietou-se muito com isto.—Está lá sem saber nada de nós! disse-me ella. E a mim que me custa tanto escrever!—Escrevo eu.—Nada, não quero, respondeu asignora. Hei de eu escrever sempre; bem póde ser que alguma carta lhe chegue ás mãos...—É que o exercito é muito grande, e depois anda d'um lado para outro... disse eu prevenindo novas commoções.Os soffrimentos dasignorahavel-a-iam prostrado antes de ser mãe, se não fosse essa carta que recebeu de Portugal. Beijava-a, relia-a, apertava-a contra o coração; só n'aquillo achava allivio.Desde principios de maio de 1810 que a hora da maternidade se annunciava para breve. Quiz—porque ella tinha o presentimento da morte—escrever uma longa carta, que devia ter chegado a Portugal em junho, e que com certeza não foi recebida. Essa carta, cujo conteudo ignoro, era de certo uma despedida, o ultimo adeus dasignora. Deixou o papel ainda sobre a mesa, e caíu contra o leito em grandes gritos. Acudi-lhe, e disse-lhe que não a tornaria a deixar escrever mais.—Não me é precisa a sua licença, meu bom Pietro! respondeu ella.Eu estremeci.Logo que serenou, fechei a carta, sem lhe poisar a vista, e fui eu mesmo deital-a ao correio.No dia 22 de maio, pela manhã, chamei a locandeira, que era piedosa, porque asignorame disse que n'esse dia seria mãe.Soffreu doze horas. A final deu á luz uma menina. Quiz ver a filha; mostrei-lh'a.—Que se chame Argusta, Pietro, que se chame Augusta, recommendou asignora.Certifiquei-a de que esse seria o nome de sua filha.{180}Cobriu o rosto com o lençol, e começou a chorar e a gemer. Por mais que lhe dissessemos, a locandeira e eu, que procurasse socegar, não o conseguimos. De noite delirou. Falava dosignor, Strech, d'Augusta, de Coimbra, do mar, do annel. A febre era muita. Estáva córada como se as faces fossem duas rosas: Eu tinha a menina nos braços; a locandeira amparava asignora.Pela manhã adormeceu. Acordou muito fria. Estava peior. Chamou-se o doutor, que receitou, e disse que asignoracorria grande perigo. Apesar dos remedios, não aqueceu em todo o dia. Ao fim da tarde, quando eu estava acalentando a menina para adormecel-a, asignoradeu de repente um grito, sentou-se na cama, disse que não via, tornou a dar outro grito, e cahiu morta.N'essa occasião chorava a criança como se adivinhasse que estava orphã.Fiz um enterro decente ásignoraRosina, adquiri, com o auxilio do consul, o direito de a sepultar n'uma campa perpetua e mandei-lhe pôr um singelo epitaphio que diz: «Aqui jaz Rosina Regnau.»Escrevi para Portugal a dar parte do triste acontecimento, que me custou talvez mais—Deus me perdôe!—do que a morte de meu filho.Não recebi resposta, nem tornei a receber mais cartas. Quiz partir para Portugal. Informei-me. A guerra continuava cada vez mais renhida. Que havia eu de ir fazer a Portugal com uma harpa ás costas e uma criança ao collo? Demorei-me ainda um anno em Napoles para dar tempo a crear-se a menina. Foi uma ama dos arrabaldes quem a amamentou.Eu ia todos os dias vêl-a, e saber da ama se era preciso alguma coisa. Durante esse tempo não recebi carta dosignorStrech. Não obstante, continuei escrevendo sempre. Sabia-se que continuava a guerra. Não tinha certeza de que as minhas cartas fossem entregues, e de que osignorvivesse ainda. Maguava-me tão longo silencio, porque emfim eu cada vez ia envelhecendo mais. Ao cabo d'um anno peguei na menina e na harpa e comecei a minha peregrinação, porque estava exhausto de recursos. Em Napoles ha sempre muitos musicos, e a concorrencia prejudicava-me. Alguns eram velhos, e estavam tão pobres como eu. Além d'isso, fallecera a dona do albergue,{181}repentinamente, e quando eu sahia entravam os crédores. Tive pena d'aquella boa mulher que tão caridosamente tratára dasignoraRosina. Como ella sabia do nosso segredo, habituei-me a consideral-a pessoa de familia. Nunca essa honrada creatura revelára a ninguem as máguas da mãe d'Augusta. Eu tinha a certeza. O segredo descia com ella á sepultura. Senti os olhos rasos de lagrimas quando a vi sahir para o cemiterio e me encontrei com os crédores que entravam. Era preciso ganhar vida, porque eramos duas pessoas a alimentar, melhor direi pessoa e meia. Fui andando e tocando harpa. As noites, dormia-as com a menina ao collo. Se eu era avô! Ás vezes apertava commigo a tristeza. Lembro-me de que uma noite em Piombino, n'um albergue onde me recolhi, me deixei entristecer tanto, contemplando a menina adormecida nos meus braços, lembrando-me ao mesmo tempo dasignorae dosignor, ambos mortos para ella, que, francamente o confesso, n'essa noite envelheci dez annos. Todavia, logo que nascia o sol, nascia com elle o grande lenitivo dos desgraçados: o trabalho. Ia tocando na minha harpa, e vivia. Uns davam-me esmola por me ouvirem; outros por me vêr com a menina: muita vez o conheci.

[13]É fiel a descripção d'estes festejos; O auctor encontrou-a n'um opusculo da epoca.[14]Poema heroico de Francisco Rodrigues Lobo.

[13]É fiel a descripção d'estes festejos; O auctor encontrou-a n'um opusculo da epoca.

[14]Poema heroico de Francisco Rodrigues Lobo.

Obtida a baixa, Graça Strech poucos dias se demorou no Porto.

Sentia-se asphyxiado na atmosphera em que respirára ao nascer. Punham-lhe medo as sombras; as ruas affiguravam-se-lhe tristes como avenidas de cemiterio. Duas vezes, alta noite, depois de dolorosissima lucta comsigo mesmo, estivera, encostado á parede fronteira á casa em que viveu os primeiros annos da vida, mergulhado em profunda meditação.

A ultima vez fôra a ultima noite que passára no Porto. O céo era d'um azul setinoso. O branco luar de agosto estendia ao longo da rua a sua claridade immovel, e parecia desenhar nos muros contornos phantasticos. Reinava na cidade o silencio imperturbavel das noites profundas. Na janella da sala onde cinco annos antes, por noite tempestuosa, jaziam tres cadaveres, luzia um reflexo mortiço como de lamparina que não tardou a apagar-se. Lembrou-se Graça Strech de que devera ser egualmente pallido o reverbero da luz que lhe tremia na mão quando contemplava os corpos inanimados das trez senhoras. Transportou-se áquelle horrivel espectaculo. Viu tudo. A mãe, a irmã e a avó estavam a seus olhos como n'essa hora tremenda. Não obstante o seu grande empenho, de pergunta em pergunta não lográra saber onde repousavam. Queria ir procurar Rosina, de quem nada sabia tambem, mas desejava despedir-se da familia que ficava, antes de partir para o seio da familia que o esperava. Não pôde realisar o seu desejo. Registos parochiaes não os havia. N'aquella immensa hecatombe da invasão, tambem as sepulturas foram invadidas sem averiguar-se por quem. Tinha{147}desesperado de conhecer a verdade, e, já que não podia despedir-se do tumulo da sua familia, fôra despedir-se do predio que ella habitára. De repente, n'uma casa proxima, perpassou uma luz. Fez reparo. Quem velaria ainda áquella hora? Deteve-se a examinar, e certificou se de que ali viviam, no anno de 1809, as duas visinhas que lhe falaram na bateria do Bomfim. Foi isto um como raio de tardia esperança. Recriminou-se pelo esquecimento de não as ter procurado logo que chegou. A desgraça havia-o desmemoriado. Atravessára o Porto como um viajante solitario atravessaria o Sahará—calado, pensativo, sem ver, por ter medo de olhar. Mas—os infelizes duvidam sempre—viveriam ainda ali? Tinha razão. Quem poderia dizer se ellas, na fuga, haveriam chegado ao seu destino, sido attingidas pelas balas ou cahido em poder dos francezes?

A estas perguntas, que a si proprio fazia, só poderiam responder indagações. Pesava-lhe todavia o ter de se aproximar de pessoas cuja conversação iria aggravar a dôr do passado. Se elle soubesse onde repousavam as cinzas da sua familia, lá iria para falar-lhes, para contar-lhes os extraordinarios lances da sua vida, para dizer aos frios restos de sua irmã por que razão não levava comsigo o annel, sobre o qual jurára vingal-a.

Augusta, de dentro do sepulchro, responderia com o perdão implorado.

Mas o que elle não queria era deixar entrever a sua dôr de modo que lh'a avivassem piedosamente, porque a sociedade não dá o balsamo da compaixão sem primeiro rasgar as feridas que a inspiram.

O desejo vehemente venceu, porém, a natural repugnancia. A breve trecho fez tenção de não desaproveitar as poucas horas que lhe restavam para colhêr esclarecimentos. Resolveu-se a esperar que amanhecesse e, como a luz parecesse brilhar com intensidade a través da janella, não se afastou. Mal começava a raiar a claridade da madrugada, apagou-se a luz, e cerca das cinco horas da manha viu Graça Strech abrir-se a porta. Sairam duas mulheres de mantilha, seguidas por uma criada que levava um açafate á cabeça. Fosse reminiscencia ou phantasia, Graça Strech cuidou reconhecer as duas visinhas: tia e sobrinha. Tomou alento e acercou-se. Uma das mulheres, a{148}mais nova, voltou de repente a cabeça como se esperasse alguem. Havendo-se enganado, achegou-se da outra e soltou um—ai!—que mais denunciava despeito que medo.

—Não se assuste vossa senhoria, sr.ª D. Izabel! apostrophou Graça Strech serenando a menina que se denunciava medrosa.

Tia e sobrinha olharam fito no desconhecido, e foi a sobrinha quem primeiro exclamou:

—Pois não se lembra, minha tia? Olhe bem para elle!

—Quem é?

—É o sr. José Maria! Eu bem dizia outro dia que era o tenente das barbas!

—Póde lá ser o Josésinho!

—Tem razão, minha senhora, replicou Graça Strech. Eu devo parecer-lhes uma sombra do que fui. Mas, sombra ou realidade, o certo é que me chamo José Maria da Graça Strech.

—Ora uma coisa assim! Parece um velho!

—E parece! acrescentou a menina.

—Desgostos, minhas senhoras.

—E muitos teve tão novo, sim, porque vêr...

—Peço a vossa senhoria o obsequio de deixar em silencio essas tristes recordações. Uma só quero eu avivar, e por isso lhes causei esta surpresa.

—Mas não nos ter procurado! exclamou a velha senhora.

—Não tomem á conta d'ingratidão o que é simplesmente embrutecimento. Bem podia ser tambem que tivessem mudado de casa.

—Ora! Quem tem bocca vae a Roma! exclamou a menina. Já nem queria saber novidades da sua antiga visinha! Pois saiba que me vou casar...

—Felicito vossa senhoria.

—Cala-te ahi, tagarella! acudiu D. Eulalia, affastando com o braço a sobrinha. Ha de estar admirado de nos vêr sahir ambas a esta hora. Pois não se admire. Combinamos com as Cerqueiras e as Brochados, tudo visitas da sua casa, sr. Strech,—e com o noivo da Izabelinha—juntarmo-nos na primeira missa que se diz no altar do Senhor dos Passos em S. João Novo e irmos depois almoçar todos á Fonte das Virtudes.

Cumpre dizer que na primeira década do seculo{149}XIXera ainda a Fonte das Virtudes o local destinado ás comezainas das familias burguezas do Porto. Ahi se reuniam em ruidosos convivios, deposta a mantilha, e irmanados novos e velhos pelo mesmo apetite e pela mesma alegria.

O camartello das demolições municipaes tem—avis rara!—respeitado até hoje esta legendaria fonte que se compõe d'um alto frontispicio, ornado de pyramides, e firmado em bancos de pedra, que a rodeiam. Rebenta abundantemente a agua por duas enormes carrancas em conformidade com a esculptura de todos os chafarizes antigos. Ladeiam a fonte dois grandes tanques, durante todo o dia, ainda hoje, frequentados por lavadeiras. N'esses bons tempos, ficava a fonte extra muros; sahia-se para ella pela porta a que a fonte deu nome. Ao lado da porta, na eminencia da parte oriental, havia já então os chamadosAssentos, actualmente Passeio das Virtudes.

O padre Agostinho Rebello da Costa, na suaDescripção topographica e historica da cidade do Porto, impressa em 1789, escreve ácerca d'este local: «Em toda a cidade, não ha sitio nem mais ameno, nem mais agradavel; porque além da sua bella posição adornada de regulares edificios, gozam os olhos d'um só golpe, vista de cidade, de mar, rio, navios, montes, campinas, quintas e palacios. O grande paredão, que presentemente se está fazendo, para com elle se formar uma praça correspondente á belleza, e magnificencia d'esta agradavel situação, será um monumento eterno do patriotico zelo que Rodrigo Antonio de Abreu e Lima, cavalleiro professo na ordem de S. Thiago, inspector da marinha do Douro, administrador geral dos portos seccos das trez provincias do Norte, e actual juiz da alfandega, mostrou em obrigar o senado da camara a fazer esta obra interessantissima á regia utilidade, e recreio publico.»

Dito o que as historias referem ácerca da Fonte das Virtudes, reatemos o dialogo.

—Divirtam-se vossas senhorias, respondeu Graça Strech, que eu perguntarei sem desvios o que desejo saber. Não me foi possivel averiguar até hoje onde jaz a minha desventurosa familia. Vossas senhorias sabem?

—Casualmente nos disse o sachristão de S. Martinho{150}de Cedofeita que tinham ali sido enterradas, se bem que nos não pudesse designar as sepulturas, pela grande confusão de cadaveres que n'esses tristes dias houve.

Isto disse D. Eulalia, acrescentando:

—No dia seguinte o quartel general mandou ordem a todos os parochos para que, logo que anoitecesse, fôssem levantar os corpos dentro da circumscripção das suas freguezias. Não sabemos mais nada, sr. Strech. Nós recolhemos ao Porto depois que os francezes retiraram. Estivemos em Gondomar, em casa d'uns parentes nossos, porque tivemos a felicidade de encontrar livre o caminho. O senhor bem se ha de lembrar de que nos protegeu na bateria do Bomfim. Prouvera a Deus que a sua familia tivesse tido a mesma sorte! Muitas vezes lhes pedimos que nos acompanhassem. Não quizeram. Ainda tenho nos ouvidos as palavras da Augustinha: «Se meu pae e meu irmão morrerem, deixemo-nos morrer tambem, porque o viver sem elles seria peior que a morte.» Nunca mais me esqueceram! Vel-a assim fazia dó, a pobre menina!

Graça Strech estava livido. Já não tinha forças para ouvir mais.

—Muito obrigado, minhas senhoras, disse elle. Já sei o bastante. Felicito-me de as haver encontrado e faço votos pela ventura da sr.ª D. Izabel.

—Agradeço do coração, replicou a menina. O sr. Strech ha de dar-me a honra de assistir ao meu casamento...

—Da melhor vontade assistiria, minha senhora, se não tivesse de partir hoje mesmo para Italia.

—Partir?!

D. Eulalia repetiu:—Para Italia!

E exclamou virando-se para a sobrinha:

—O casamento anda-te com essa cabeça á roda! Se não sou eu lembrar-me agora por essa palavra, não dirias nada ao sr. Strech d'aquella carta d'Italia!

—Uma carta, apostrophou elle, sobremodo perturbado.

—É verdade! affirmou a menina com pesar de se haver esquecido.

D. Eulalia contou:

—Ha quatro annos, foi em...

—Junho, acrescentou Izabel.{151}

—É verdade, foi em junho, proseguiu D. Eulalia; andou o carteiro por esta rua, para cima e para baixo, a perguntar pela familia Strech. Todos lhe diziam que essa desgraçada familia estava no cemiterio. Até que a final o carteiro e alguns visinhos bateram á nossa porta, porque sabiam das nossas relações com a sua familia. A carta, que trazia o timbre de Italia, dizia:Sr. José Maria da Graça Strech, soldado portuguez(pela orthographia conhecia-se que a pessoa que escrevia era estrangeira, disse em parentesis D. Eulalia)natural do Porto;—Portugal.

Graça Strech ouvia offegante.

D. Eulalia proseguiu:

—Do senhor ninguem sabia nada, mas como a carta ficaria naturalmente perdida no correio, encarregamo-nos de mandal-a ao acaso para onde estivesse o exercito. Era o unico meio de lhe chegar á mão, caso o senhor estivesse vivo. Nós nada sabiamos. Perguntamos o que haviamos de fazer. Disseram-nos que a mandassemos para Almeida, que era onde Wellingtão—ella pronunciou assim,—tinha estabelecido o quartel general. Para lá a mandamos, pensando que fariamos bem. Visto isso o senhor não a recebeu?

—Não recebi, minha senhora, respondeu Graça Strech com difficuldade. Agradeço, porém, a vossas senhorias o cuidado que tiveram e, para não as demorar por mais tempo, recebo as suas ordens...

—Tambem—atalhou D. Eulalia, vão sendo horas da missa do Senhor dos Passos. Vamos lá. Se o sr. Strech precisar d'alguma coisa, não tem senão mandar-nos e dizer onde está, para que não se torne a perder qualquer carta.

Despediram-se. Ellas seguiram pela rua nova do Almada a baixo, e elle caminhou em direcção ao Campo de Santo Ovidio.

A menina ia perguntando ingenuamente á tia:

—Não seria mau agouro encontrarmos o Strech na occasião em que eu ía a pensar no meu casamento?

—O que tu quizeres! respondeu D. Eulalia. Reza umCredoao Senhor dos Passos e deixa-te lá d'agouros. Deus é que sabe o que ha de acontecer.

Graça Strech caminhava machinalmente, engolphado em seus pensamentos. A carta era de Rosina. Conjecturava elle que já devia ser mãe quando a escrevia.{152}Que diria ella? Coisas tristes, de certo. Os infelizes vivem das desgraças que sonham e que soffrem. Por muitas vezes escrevera elle para Napoles. Nunca obtivera resposta. Aquelle horrivel silencio durava já havia quatro annos. Nem ella nem Pietro escreveram mais! O que haveria acontecido? Que ancia que elle tinha de chegar a Italia, e, ao mesmo passo, que receios! Não o esperariam lá novas dôres, maiores soffrimentos? Que envelhecida mocidade aquella!

Foi andando, andando, até que chegou ao cemiterio de Cedofeita.

Quando viu negrejar cruzes e louzas por entre as verduras dos canteiros, estremeceu de subito. O pensamento da morte vinha interromper os seus dolorosos pensamentos. A sua familia estava ali, mas onde? Rosina e seu filho onde estariam tambem, lá tão longe? O cemiterio era solitario áquella hora, se não falarmos das aves que faziam alegre matinada nas arvores.

Só os noivos e as aves saudam jubilosos a manhã.

Por isso madrugára a menina da rua nova do Almada em competencia com os passarinhos do cemiterio de Cedofeita.

Graça Strech atravessou por entre as campas, confiado em que o coração adivinharia o sitio em que repousava a sua familia. Andou, percorreu as ruas todas, e parou á beira d'uns comoros que não tinham cruz nem lapide. Devia ser ali. As campas dos que não deixam ninguem no mundo conservam-se abandonadas. Quando muito, porque os despojos mortaes são da natureza, veste-as a natureza de relva e flôres silvestres. Sobre um dos comoros floresciam hervagens, que pendiam á terra umas singelas boninas brancas. Seria a homenagem da natureza á innocencia de sua irmã? Não sabia. O silencio da morte guarda todos os segredos. Ajoelhou. As avesinhas das arvores funebres continuavam a cantar, a cantar!...

Áquella hora, n'aquelle sitio, cria-se em Deus.

A eloquencia das campas!

Como tudo aquillo fala suavemente d'além-tumulo!

No ruido das festas a ideia da morte é sempre um pungente contraste. Mas não sei que amena tristeza dulcifica a certeza do repouso eterno, nos cemiterios, mórmente se é manhã, e as aves chilriam, e estremecem{153}nas hervagens as gotas d'orvalho, e um raio de sol nascente doira uma cruz!

Graça Strech sentiu-se subitamente soccorrido por essa triste suavidade que a vista dos tumulos infiltra aos desgraçados.

Longo tempo esteve ali, ajoelhado, conversando com os trez comoros os seus segredos de cinco annos. No que estava florescido, curvou-se como se quizesse falar para dentro. Conjecturava que seria o d'Augusta. N'essa hypothese lhe contou as suas desventuras, os seus amores, os sacrificios de Rosina, o destino que dera ao annel, a afflictiva incerteza em que estava, a ancia que tinha de beijar seu filho, de encontrar Rosina... Juntou lagrimas de saudade a palavras de perdão, queixumes de animo attribulado a hymnos de confiança em Deus...

Não lhe havia dado tempo a sua trabalhada e desventurosa mocidade para erguer o espirito acima das coisas terrenas das preoccupações humanas.

Pela primeira vez subiu até onde os fulgores da divindade enchugam as lagrimas da oração. Muito acima do mundo deve ser, porque já se não ouve então o tumultuar da humanidade, e porque já ahi chovem os balsamos da resignação sobre a alma angustiada.

Ninguem diria que estava ali o soldado, o leão dos combates. Nada ali falava de vingança, nem mesmo a supposta sepultura d'Augusta. Nada se sabia do mundo, d'aquella porta de ferro a dentro. Todavia alguma coisa julgou ouvir a alma de Graça Strech. Eram palavras intradusiveis que as hervagens ciciavam, brandamente agitadas pela viração matutina. Sem comprehender as palavras, entrou-lhe ao espirito o pensamento d'ellas. Era a divina esperança dopost tenebras spero lucem, de Job, e ao mesmo tempo oNon moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini, do salterio.

Graça Strech interpretou assim esses fugitivos murmurios que soavam sobre a campa da sua irmã. Trouxe do cemiterio a certeza de que depois das trevas da vida veria luzir o sol da felicidade perpetua, e de que não morreria sem ter tempo de narrar as obras do Senhor.

Isto equivalia á resignada esperança de não succumbir á sua desgraça sem saber o destino de Rosina e seu filho.{154}

Adquirira ali a certeza de que a alma d'Augusta abençoara do ceu a criança cuja mãe possuia o seu annel. Levantou-se. Arrancou as parietarias que marinhavam pelo muro proximo, e esparziu-as sobre os trez comoros.

—Se ahi estaes, minhas doces amigas—pensou elle—recebei o primeiro e unico testemunho de saudade que ainda vos manda o mundo esquecido de vós. Pedi por mim, e pela familia que me resta na terra, se Deus m'a tiver conservado. São tambem vossos pelo coração. Adeus, abençoadas sejaes no céu pelo conforto que me destes.

E saíu do cemiterio, caminho do rio Douro, onde estava fundeado o navio que n'essa tarde devia partir para um porto d'Italia.

A essa hora, na Fonte das Virtudes, havia expansiva alegria. Um velho da familia Cerqueira dizia a um menino da familia Brochado:

—Vá, seu estudante, traduza-me lá a inscripção da fonte:Fons scalet, illustri virtutum, etc.Rompe aqui esta fonte...Vá, diga...

—Pudera romper acolá, estando aqui o chafariz! observou grosseira e acertadamente o menino.

D. Izabel offerecia ao seu noivo um copinho da agua da fonte, panacea para muitas molestias, entre as quaes as inflammações dos olhos.

Tinha bons sentimentos: não queria marido cego.{155}

Comprehende-se com que anciosa impaciencia viajaria Graça Strech. A Italia era para elle o unico raio de sol que lhe doirava o horisonte fechado em torno do navio. Ia ver Rosina e seu filho; agradecer a Pietro a protecção que provavelmente a uma e outro tinha dispensado, porque Rosina devia ser mãe havia quatro annos. A carta perdida era decerto a boa nova da maternidade... Mas, logo o animo, vesado a tristes phantasias, descontava esta esperança com vagos receios. Todavia a visita ao cemiterio de Cedofeita insinuava-lhe na alma o doce calor da fé. Queria chegar a Italia, desenganar-se. Levava ao berço do filho a tranquillidade aprendida á beira do tumulo da irmã. A Italia! a Italia! a terra promettida do Moyses errante! Quando appareceu em frente do navio uma nuvem pardacenta, e a voz deTerra! alvoroçou a tripulação, o coração de Graça Strech doidejou desde a alegria expansiva da criança até á timidez receiosa da mulher.

A Italia! O formoso sol da Italia a enxugar as lagrimas de tão longa ausencia! A alma de Rosina Regnau a animar no desconforto, a premiar na alegria! A alma e a voz! A liberdade do coração e da palavra! Um lar modesto, muito modesto, pobre até, o filho a esvoaçar d'um lado para outro, a chilriar, os cabellos loiros a brincarem-lhe em derredor da cabeça; Rosina a viver arroubada entre os sorrisos do pae e do filho; n'uma palavra, a felicidade que não escurece quando chega a noite; á porta, de cabellos alvejantes, tranquillo, sentado ao sol, Pietro, ocanta-storie, a concertar as cordas da sua harpa, e a entoar, com a sua voz já cançada, mas ainda sonora, aCapuana; fóra, o céu d'Italia, o azul suavissimo, o sorriso da natureza, a eterna primavera meridional!{156}

De repente mudava-se o quadro.

Via uma cruz tosca, n'um cemiterio de Pescadores pendurado ao mar. Rosina, demudada e lutuosa, chorando ao pé da cruz. Pietro, chorando ao pé de Rosina, com a harpa silenciosa poisada diante de si. E seu filho morto, sem o haver conhecido, sem o ter beijado sequer!

Outras vezes sonhava com a lividez da fome nas faces de Rosina, da criança, e de Pietro!

A vivandeira havia levado recursos. Era a sua ração de dois annos, a migalha do canario. Havia no 18 d'infantaria um quartel-mestre usurario. Graça Strech fizera com elle uma transacção. O quartel-mestre ficava recebendo durante dois annos oprétpor inteiro, e adiantára-lhe oprétd'um anno. Essa quantia, administrada com economia, devia durar os dois annos. Se a campanha acabasse antes d'esse praso, o soldado devia indemnisar o quartel-mestre, que tinha na sua mão um documento. Mas haviam-se passado os dois annos, e outros dois. Graça Strech escrevera muitas vezes para Napoles, como já dissémos, para obter certeza do paradeiro de Rosina, e poder mandar mais dinheiro. De nenhum vez obtivera resposta. Haveria acontecido alguma desgraça? Mas tambem quem conhecia em Napoles Rosina Regnau? Bem se podiam lembrar de ir saber ao correio. Pietro andava por fóra com a sua harpa; Rosina estava cuidando do filho: não se lembravam. As mealhas que Pietro recolhia, e generosamente repartia provavelmente, abastavam a alimentação dos trez.

Em Coimbra, disséra Rosina a Graça Strech, quando elle lhe pedia que não soffresse privações sem o avisar:

—Se se acabar o dinheiro, eu, que posso ter voz em Italia, irei cantando de rua em rua. Não receies por mim. Atravessei pura o exercito francez; mãe, atravessarei destemida o povo italiano. A honra da vivandeira é um baluarte invencivel; não deixa profanar a bandeira da sua lealdade.

E logo, antevendo a triste solidão da ausencia, rompeu em afflictivo chôro. Este era o natural de Rosina: ora vivandeira, ora mulher. Logo em principio o dissémos.

Apesar da cega confiança que Graça Strech devia ao amor de Rosina, não era a sua alma, quanto mais{157}se avisinhava da Italia, estranha ao ciume. No paiz dos amores, o ciume,la gelosia, respira-se com o ar. Ciumes de que lhe ouvissem a dulcissima voz, se tivesse sido obrigada a acompanhar com o canto os harpejos de Pietro; ciumes de que a applaudissem, de que a vissem, de que a conhecessem. E, pensava elle, quem ficaria olhando pela criança emquanto a mãe andasse por fóra? Alguma mulher estranha, que não a acariciaria se chorasse, que não a agasalharia quando tivesse frio, que lhe não responderia meigamente quando perguntasse pela mãe...

Chegado que fôsse a Italia, procuraria, noite e dia, sem descanço, sem tregua, e encontral-os-ia, e diria a Rosina: «Fica tu ao pé de nosso filho, que eu vou trabalhar», e a Pietro: «Continua a ser o guarda dos dois, que eu velarei pela tua velhice.»

E alternava risos com lagrimas, e agora falava e logo emmudecia, com as mãos firmadas no bordo da amurada e os olhos cravados na nuvem do horisonte, que se ia aclarando cada vez mais, conhecendo-se já, sobre o azul do céo, os contornos irregulares da cidade.

O capitão esteve-o medindo com o olhar ao lado d'um passageiro que durante a viagem tinha conversado algumas vezes com Strech.

—Nunca vi tamanha commoção! disse o capitão ao passageiro. Receio d'esta alegria em homem costumado aos alvoroços de guerra.

—Elle vinha ancioso de chegar a Italia, retrucou o passageiro. O mais que me disse foi que, tendo feito a campanha, vinha, doente e cançado, procurar a Italia uma irmã, de quem, pela invasão de Portugal! fôra obrigado a separar-se.

—Muito a deve estimar então! ponderou o maritimo.

E, aproximando-se de Graça Strech, disse-lhe affavelmente:

—O sr. Strech morria-se por vêr Italia. Ahi a tem agora.

—É verdade, respondeu exaltado Graça Strech. É verdade... A ancia de chegar... a incerteza... tudo isto... Eu não estava costumado a estas sensações... Por que emfim tudo hoje depende para mim de Italia... Ó senhor capitão, quanto tempo gastaremos ainda?...{158}

O capitão, sem responder, achegou-se do outro passageiro e segredou-lhe:

—Eu não lhe dizia? Nunca vi tamanha commocção! Queira Deus que não vá louco...

Ah! o capitão entendia do mar; do coração, não. Chamava loucura áquillo! A desvairada oscillação da alma que pende entre um longo passado de trevas e a unica esperança que lhe entreluz no céo do porvir! É louco o naufrago que, baldeado entre os vagalhões do oceano infrene, se abraça com a prancha que lhe é dado alcançar, e que ou morrerá cuspido contra os fraguedos ou fluctuará por mercê da Providencia até que surja a véla branca, que é a bandeira da paz nas luctas com o mar? É louco o caminheiro que se transviou ao anoitecer e sorri de alegria á estrella da manhã, ainda que tenha de retrocecer para continuar jornada? É louco o doente que se felicita de haver acordado d'um pesadello horrivel, esquecendo-se de que, d'ahi a horas talvez, sobrevirá o sombrio pesadello de que não se acorda mais—a morte?

O coração tem as tempestades e as calmarias do mar, é certo, os murmurios e os segredos das aguas, mas o fundo do coração não está ainda tão estudado como o fundo do oceano. A sondagem mente muitas vezes. Quem já logrou medir a profundeza de certas dôres?

Tinha soado a hora do desengano ou da felicidade.

Graça Strech estava finalmente em Italia.

Começou desde logo a procurar, a procurar. Correu todo o reino de Napoles—Napoleão puzera reis em toda a parte—a pedir informações d'um velho tocador de harpa, que se chamava Pietro, d'uma rapariga franceza chamada Rosina Regnau e d'uma creança, que devia ter quatro annos, e era filha da rapariga franceza. Ninguem respondia. Quem em Napoles, o paiz da musica, havia d'estremar umsonatóre di arpa? Acudia afflictivamente Graça Strech a fazer o retrato do velho Pietro para auxiliar a memoria dos interrogados. Harpistas velhos havia tantos, uns que viviam em Napoles, outros que passavam por lá, que por fim de contas a população lembrava-se de todos e não se lembrava de nenhum. A declaração de chamar-se Pietro nada aproveitava. Ninguem se importa com o nome dos menestreis das ruas, mórmente{159}quando todos os musicos ambulantes parece chamarem-se Pietros. Rapariga franceza ninguem dizia tel-a visto, e depois acrescentavam que talvez lá houvesse estado, sem fazerem reparo n'ella, porque os francezes sempre foram tão vulgares em Italia como os italianos em França, por isso que a natureza pôz entre as duas nações a ponte granitica dos Alpes.

Graça Strech percorreu vertiginosamente todas as estalagens, todos os albergues, recolheu informações particulares e officiaes, e não soube nada.

Disseram-lhe que talvez o harpista houvesse passado, como é costume d'elles, a outras cidades d'Italia, por isso que a concorrencia os afugenta de Napoles.

Acceitou o alvitre. Visitou em seguida o reino da Etruria, procurou sem descançar, como um cão que perdeu o faro de seu dono. Uma tarde, em Piombino um albergueiro pareceu recordar-se d'um harpista velho que ali pernoitára havia um anno com uma criança que lhe chamava avô. Vira só o velho e a criança. De mulher franceza que os acompanhasse, não tinha reminiscencia. Fizera reparo nos dois, pelo contraste. O velho passára a noite á lareira com a criança adormecida nos braços, afagando-lhe os cabellos loiros, cobertos pelos seus cabellos brancos, sem dizer uma palavra. Comeu pouco e bebera menos. Pela manhã saíra com a harpa e a criança. Aqui está o que o albergueiro de Piombino dissera, acrescentando unicamente: Quando elle sahia, perguntei-lhe que rumo levava, porque realmente o harpista me fez pena.

O velho respondeu:

—Vamos correr esse reino d'Italia, á mercê de Deus. Bem vê que é preciso trabalhar: somos duas boccas, e só temos dois braços—são os meus que já pouco podem.

A historia do velho e da criança fez profunda impressão no animo attribulado de Graça Strech. Perdeu-se em conjecturas. Seria Pietro? Haveria morrido Rosina? O estalajadeiro não soube dizer-lhe o nome do harpista. Sobretudo, a ideia da morte de Rosina enlouqueceu-o de dôr. Seria possivel que ella morresse sem o ver, sem o ouvir, sem lhe fallar, ella, que tinha tanta coragem, que devia resistir energicamente á morte, porque a morte era a separação eterna?{160}Aquella criança seria realmente seu filho, e viveria no mundo sem pae nem mãe, apenas confiado á protecção do pobre harpista napolitano, cuja velhice e trabalhos em breve o prostrariam, se era que ainda vivia a essa hora? E se elle já tivesse morrido, que seria da criança na infantil inconsciencia dos seus quatro annos, que tantos devia ter a ser seu filho? Morreria enregelada no caminho, morreria de fome entre duas arvores, no meio da serra, ou então haver-lhe-ia estalado o pequeno coração depois de haver estado a gritar para que acudissem ao avô, que caíra ao chão e ficára esmagado pela harpa, sem falar mais, sem responder ao seu afflictivo chamar.

O albergueiro começou a notar extraordinaria agitação na physionomia do hospede. Viu encovarem-se-lhes os olhos, e estremecerem-lhe os musculos das faces cadavericas pela magreza e pela lividez. Em breve as contracções nervosas se estenderam a todo o corpo. O caminheiro começou a tremer, a tremer. Trouxeram roupa, cobriram-n'o. Pediram-lhe que se deitasse; recusou. Esteve assim longo tempo, tremendo, frio como o gelo. Depois, como o peso da roupa fosse muito, começou a córar e a suar. Dizia palavras que ninguem entendia. Aprumou-se de subito, sacudiu a roupa. Foi direito á sua maleta, desafivelou-a e tirou de dentro... a guitarra. Começou a tangel-a febrilmente. A gente da pousada entreolhava-se com pasmo. E cada vez as notas se precipitavam com maior rapidez, até que, inesperadamente, a musica foi afrouxando, parecendo unicamente suspirar. Viram chorar o desconhecido, circumvagar um olhar alheiado, e arrancar da sua guitarra apenas gemidos e suspiros dolorosos.

Tornaram a dizer-lhe que era melhor descançar. Recusou com pertinacia.

—Peço que me deixem ficar aqui, disse elle pausadamente para que o comprehendessem.

Não queriam consentir; elle insistiu.

Ouviram ainda por algum tempo suspirar a guitarra, que depois se calou. Foram espreital-o: viram-n'o com a cabeça poisada sobre ella. Estava assim, mas não dormia; d'instante a instante viam-n'o estremecer. Ao romper da manhã saíu. Mal se podia aguentar a pé. Pediram-lhe que ficasse para se restabelecer;{161}{162}{163}agradeceu e partiu. Continuou, posto que debilitado, a sua peregrinação indefessa.

IlustraçãoO povo, que tinha seguido todo este episodio... (pag. 173)

Ilustração

O povo, que tinha seguido todo este episodio... (pag. 173)

—Eu já não viveria, dizia elle ás vezes, se não tivesse ido ao cemiterio de Cedofeita buscar esta sombra de fé que me ampara ainda!

E lá ia, descançando uma hora, caminhando duas.

Esteve em Turim. Perguntou, investigou, não soube nada. Como para crear alento, que lhe permittisse seguir jornada, sentava-se nas praças publicas a tocar na sua guitarra. O povo fazia-lhe circulo. Elle não levantava os olhos emquanto estava tocando, excepto se ouvia falar alguma criança. Algumas vezes lhe chamavam louco, porque lhe lançavam dinheiro ao regaço, e elle não agradecia. Era o idiotismo da desgraça. Estava pobre, gastára quanto levára comsigo nos primeiros tempos da peregrinação. Se não fosse a guitarra, morreria de fome. Pouco lhe importava a vida sem Rosina e seu filho. Se não se matava, era porque tinha ainda um resto de fé que o amparava.

Foi a Milão. A mesma canceira: perguntar, sempre perguntar. Inquiria todos os harpistas: nenhum lhe soube dar noticias do velho Pietro.

—Em Italia não estão! dizia elle. Tenho a certeza, não ha recanto que eu não tenha batido.

Atravessou a Suissa sem melhor resultado.

Uma noite sonhou com as Ardennas: era a patria de Rosina. Lembrou-se de que viveriam lá na supposição de que elle, se fosse vivo, logo atinaria, por impulso do coração, com o esconderijo que haviam procurado. Passou a França: foi direito ás Ardennas. Quasi se sentiu morrer diante d'aquelle paiz de florestas. Ali havia nascido Rosina. Como ella o devia amar para se esquecer do seu formoso ninho! Consultou todas as arvores, bateu a todas as portas. De Rosina Regnau ninguem se lembrava; Pietro, o velhosonatóre, ninguem o vira. Graça Strech esteve ali muito tempo: havia já tanto que saíra de Portugal! Teve tentaçoes de se deixar morrer nas Ardennas. Queria respirar ao morrer o ar que Rosina respirára ao nascer. Chegou a pedir a Deus que lhe désse por tumulo o berço d'ella. Mas, emquanto orava parecia fortalecer-se a sua fé.

Resignou-se a partir. Recomeçou a caminhar. Ia no fim o anno de 1816. Disseram-lhe no caminho que no inverno se reuniam em Pariz todos os musicos{164}ambulantes. Para lá foi com a sua guitarra. Effectivamente o enxame dosvirtuosienchia os cafés, as praças e as ruas. Á porta dos theatros havia todas as noites uma nuvem d'elles.

A este tempo reinava em França Luiz XVIII. Napoleão, não podendo resistir á colligação das potencias alliadas, abdicou o imperio em Fontainebleau, retirando á ilha d'Elba.

O congresso de Vienna havia regulado os negocios da Europa; sem embargo, Napoleão sonhava ainda com voltar a França. Em março de 1815 desembarcou em Cannes e entrou em Pariz. Pôde ainda vencer em Charleroy e Fleurus, mas a hora solemne de Waterloo bateu no relogio que marca a existencia de vencedores e vencidos, e Themistocles teve de pedir hospitalidade a Artaxerxes.

Graça Strech ia caminhando e ouvindo as vozes do povo. Quando soube do resultado de Waterloo, disse de si para si:

—A Providencia é justa. A minha familia não precisava da minha vingança, porque a Providencia se encarregou de punir o assassinio de todas as mulheres, de todos os velhos e de todas as crianças. Ora a justiça da Providencia não deixará de me aclarar o mysterio que eu procuro desvendar ha tanto tempo. Deus sabe se tenho forças para mais!

Pouco antes de chegar a Pariz viu passar uma carruagem seguida por uma ordenança.

Perguntou quem era. Responderam-lhe:

—É o duque de Richelieu, ministro de Luiz XVIII.

Elle contestou serenamente:

—Se fosse no tempo de Napoleão, ia um esquadrão de cavallaria atraz da carruagem. Napoleão mandava exercitos atraz de toda a gente.

Dizia isto como um homem que se entre-lembra vagamente das coisas do mundo. Passou a carruagem do duque de Richelieu, e elle logo se esqueceu da França para se recordar da missão em que ia consumindo baldadamente a vida.

—Vamos com Deus, e com a pobre guitarra! E seguiu para Pariz.{165}

Graça Strech chegou a Pariz no inverno de 1816.

Estavam n'essa occasião agglomeradas na capital da França as andorinhas errantes da musica das ruas, que todos os annos saem do vasto ninho da Italia, a percorrer a Europa inteira. De todos osvirtuosique n'essa occasião poisavam em Pariz, apenas cinco ou seis seriam francezes, e um só era portuguez, Graça Strech.

A guitarra, melancolicamente tangida por elle, cuja dolorosa physionomia não era menos melancolica do que a sua guitarra, despertava geral attenção. Acrescia a circumstancia de que esse instrumento não era dos mais conhecidos na orchestra dos musicos ambulantes. Tudo isso concorreu para o éxito. Graça Strech tinha sombrios alheamentos emquanto estava tocando. Caíam-lhe em desalinho os cabellos a esconder a fronte pallida e cadaverica. Era uma bella cabeça d'artista em que muitos pintores fizeram reparo. Um estudante d'esculptura chegou a convidal-o para modelar-lhe o busto.

Graça Strech respondeu:

—Agradeço a sua amabilidade, senhor. Mas eu sinto-me de tal modo cançado, que não póde ser longa a minha vida. O senhor é muito moço ainda; póde esperar. Se eu morrer em Pariz, aproveite a minha mascara.

A imprevista sobranceria d'esta resposta causou sensação. Passou de bocca em bocca, e os homens d'espirito começaram a olhar com certo interesse respeitoso para o guitarrista estrangeiro. Uma noite, no caféEvezard, á esquina do Palais National, estavam sobremodo animadas as mesas quando Graça Strech entrou. Encostou-se á ombreira da porta e começou tangendo a guitarra. Como não pedia esmola,{166}interrompia-se a miudo para receber os óbolos que lhe davam oshabituésque entravam e saíam.

Na primeira mesa á entrada estavam oito francezes, todos rapazes mais ou menos artistas, que se calaram a ouvir attentamente o guitarrista, tanto mais que já o conheciam de nome. Como fixassem a vista em Graça Strech, e falassem visivelmente a seu respeito, procurou elle ouvir, dando-se o maximo disfarce, tudo quanto diziam.

—É assombroso! exclamava um, cuja pallidez denunciava uma cabeça febrilmente enthusiasta.

—Depois da pequena da harpa que esteve o anno passado em Pariz com o velho das barbas brancas, ainda não vi maior prodigio! acrescentou um cuja physionomia denunciava um caracter franco e compassivo.

—Que pequena era essa? perguntou no grupo umcommis-voyageur.

—Era uma pequenita que parecia um passarinho encostado a uma harpa. Acompanhava-a um velho de cabellos brancos, a quem chamava avô, e que lhe transportava a harpa. Impressionava o contraste. Seria difficil dizer qual d'elles poderia melhor com a harpa, se o avô ou a neta. Elle tinha tanto de velho como ella de pequenina. E depois que tristeza dava o vêl-a vestidinha de preto! Perguntava-se-lhe por quem andava de luto:—Por meu pae e por minha mãe—respondia ella com certa vivacidade triste, que enternecia a lagrimas. Tu copiaste o grupo, pois não copiaste, ó Maubert?

—Copiei, respondeu o pallido rapaz que primeiro falava, e que parecia absorto na contemplação do guitarrista.

—Sabes então mais alguma coisa a respeito da pequena e do velho?

—Pouco mais sei. O avô parecia empenhado em não contar nada. Nem o encanto do mysterio lhes faltava, a elles, áquelle soberbo inverno coberto de neves e áquella infantil primavera que parecia vegetar no gelo do avô! Quando lhes perguntei os nomes para intitular os bustos, respondeu-me o velho:—Queira pôr—Pietro, sonatóre di arpa; Augusta, sonatrice, lá piccola, nipotina mia.—Fiquei triste com a mysteriosa singelesa da resposta. Previ um romance. Que querem? A doida da minha phantasia! Apertei{167}com o velho, fiz-lhe promessas para que me contasse a sua. Não consegui nada. Lá partiram ambos para Inglaterra.

—Olha para o guitarrista! exclamou o de mais compassiva physionomia.

Olharam todos. Graça Strech estava sendo inconscientemente o alvo de todas as attenções. Havia-lhe descaido o braço; subitamente a guitarra emmudecera; os cabellos do guitarrista, longos e annelados, acompanhavam, pendidos a um lado, a inclinação da fronte, e os olhos brilhavam através dos cabellos com anciosa vivacidade. Era inutil dissimular: Graça Strech estava ouvindo o que diziam na mesa proxima.

—Escuta o que nós dizemos! ponderou o que estivera contando a historia do velho e da criança.

—É verdade!

—Não se póde duvidar!

—Lá começa a dedilhar de novo... Deu tino de que fisemos reparo. Tocapianissimopara ouvir o mais que dissermos.

—É certo!Che dolcemente!

—Que terá elle comnosco?

—Talvez não seja comnosco; talvez seja com o velho e a creança, apostrophou ohabitué-artista.

—Ora, essa cabeça! Tu encontras romances em toda a parte.

—Espera! tornou observando o esculptor. Ia jurar que os olhos d'este homem são os da pequenita! Que semelhança!

—Oh! oh! continua o romance! Esse molde de novellas é velho, Maubert! D'esta vez o pae, que era julgado morto, não volta da Terra Santa. Corre atraz da filha, que ao partir para o combate entregára ao avô. Tem-n'a procurado e não sabe onde pára. És tu, Maubert, que vaes desfazer o mysterio. A Providencia encarregou-te de dizeres:Pára!ao Ashaverus do nosso seculo! Oh! oh!

E os outros gargalharam em côro:

—Oh! oh!

—És tu que vaes mostrar ao Moyses da guitarra a Terra da Promissão! disse um.

—Que elle nos está ouvindo é certo, porque todos repararam! exclamou o de mais dôce semblante. E talvez seja algum desgraçado. Este mundo dosvirtuosi{168}das ruas tem tantos mysterios! Atravessam Paris no inverno e a gente ouve-lhes a musica sem lhes vêr a alma. Alguns d'elles parecem conversar com a harpa e com o violino: é porque teem que lhes dizer. Decerto que não são alegrias. Póde ser alegre quem atravessa os Alpes a pé, e dorme para ahi em qualquer canto, e vae correr a Europa inteira unicamente fiado na agilidade dos seus dedos e na obediencia das cordas? Creio que não. Parecem despreoccupados, parecem, porque emfim elles teem das aves alguma coisa: as azas pelo menos. Rouba o filho a um passarinho, que elle, com o coração despedaçado, tambem esvoaça em redor do ninho vasio. Pensam vocês que nem ao menos lhes ha de doêr a ausencia?La rimembránza, meus amigos,la rimembránzachora muita vez nas harpas d'elles. Oh! eu creio-o! E nós, apesar de nos deliciarem os ouvidos, olhamol-os indifferentemente. No inverno dizemos:Cá estão!Quando chega a primavera exclamamos:Lá fôram!

—Tu pendes mais para o sentimentalismo, Guillibaud. Maubert prefere a phantasia e o maravilhoso.

—Olha! lá está ouvindo o guitarrista outra vez!

—É notavel! Que curiosidade!

De repente interromperam-se os commentarios. Graça Strech aproximou-se de Maubert pedindo-lhe o obsequio de lhe dispensar dois minutos d'attenção em particular. Havia no seu olhar, nos gestos, na voz, tão claros indicios de grande agitação, que Maubert immediatamente se levantou. Os outros, enquanto os dois sahiam a porta do botequim, ficáram dizendo:

—Este Maubert é um bibliotheca viva d'aventuras.

—Deixa lá, observára condoídamente Guillibaud. A julgar pelo aspecto do guitarrista, o caso afigura-se-me grave d'esta vez. Talvez seja um romance triste...

—Se tu não havias de vir com o teu sentimentalismo!

—És melancholico como uma lagrima!

—Que não seja de vinho...

—Tens razão: as lagrimas de vinho alegram.

—São ellas de certo que vos dão essa continada alegria! disse com enfado Guillibaud.{169}

O leitor está porém impaciente de seguir Graça Strech e Maubert. Vamos-lhes pois na piugada.

Mal sahiram a porta, o guitarrista dirigiu-se immediatamente ao esculptor em correcto francez:

—Peço-lhe vivamente perdão, senhor, de o haver privado da companhia dos seus amigos, mas o que o senhor estava dizendo era tão extraordinario para mim...

—Ouvia-nos então? perguntou Maubert.

—Ouvi tudo, e incommodei-o unicamente para lhe pedir, não que me mostre a Terra da Promissão, como jovialmente disseram os seus amigos, mas, quasi o mesmo para mim, que me mostre os bustos do avô e da neta...

—Oh! isso é muito facil. Estamos a dois passos do meuatelier. Vamos lá—respondeu o enthusiasta Maubert.

Foram. Graça Strech ia concentrado, e cada vez estugava mais o passo; Maubert observava-o de esguelha e começava a achar summamente extraordinario aquelle homem, de quem se principiava a falar.

Era perto oatelier. Entraram. Graça Strech precedia Maubert, tamanha era a sua impaciencia.

—Aqui estão! disse o esculptor.

Graça Strech, relanceando aos dois bustos um olhar rapido e incisivo, vibrou um grito, ao mesmo tempo doloroso e alegre, e, apontando para o do velho, exclamou:

—É elle, é Pietro!

Depois, demorando os olhos no busto da pequenita, deixou escapar outro grito que parecia o magoado estalar de todas as cordas da alma:

—É minha filha! Não póde deixar de ser! Ca está:Augusta, sonatrice, la piccola!Chama-se Augusta! Comprehendo tudo. Rosina morreu, sim, já me não póde restar duvida alguma. É horrivel! Morreu! E pôde morrer sem esperar por mim! Pobresinha! Poz á filha o nome de minha irmã. Era uma surpreza que me queria fazer, e fez, realmente, mas que triste surpreza, sr. Maubert, que desgraça esta! Olhe, aquella pequena é minha filha. O senhor é artista... Veja que bonito perfil aquelle... Por isso foi que o senhor a modelou, pois não foi? Sim, é muito bonita! Disse então que andava vestidinha de preto? É pela mãe!{170}Pobre Rosina! Oh! eu não creio ainda que tu morresses, tu, que tinhas tanta coragem, tanta! Onde está minha filha, senhor? Aquella não fala! Eu quero ver minha filha, abraçal-a, beijal-a. Deixe-me beijal-a, sim, deixe-me enganar. Bem póde ser que tambem a morte já m'a tenha levado, e por isso deixe saciar-se de beijos este pobre coração ha tanto tempo opprimido. Olhe que gentil cabeça! Que semelhança com minha irmã! É estar a vel-a, quando brincavamos ambos e faziamos endoidecer o capelão das Chãs. Sim, o senhor já me restituiu minha filha, mas Rosina, a minha vida, o meu amor, que é d'ella, por que não a modelou o senhor para que eu a pudesse beijar agora!

E, com o busto da pequenita apertado contra o coração, pareceu oscillar.

Maubert, que escutava commovido da enormidade d'aquella dôr, e perplexo, porque não possuia todo o segredo d'esse homem, acudiu a amparal-o.

—Ah! não me roube a sua obra! exclamou Graça Strech apertando o busto cada vez mais contra o coração, que pulsava vertiginosamente. Não m'a roube. Dou-lhe tudo, a minha guitarra, a minha vida, mas não me arranque a felicidade que me deu. Isto não é um pedaço de gesso inanimado, que o senhor modelou. Não, isto é minha filha, a minha querida filha, a Terra Prometida...

E, fazendo esforço para tirar a voz que lhe faltava, acrescentou:

—Disse o senhor que o avô e a neta foram para Inglaterra, pois não disse? Bem, vou atras d'elles. Por França não tornaram a passar, ninguem mais os viu? De Inglaterra só poderiam saír embarcados. Não é provavel. Estamos no inverno. É a estação dos musicos. Hei de encontrál-os lá. Hei de ver minha filha, beijal-a doidamente, percebe? doidamente, e perguntar-lhe onde é a sepultura de sua mãe. Quero ir lá com ella, e com Pietro. Parece-me que ainda posso dar vida a Rosina! Pois ella ha de deixar-se ficar fria e calada, sabendo que eu estou ali, apenas separado por uma camada de terra?! Está morta? Que me importa a mim! Isso não póde ser obstaculo para o meu amor, para este longo amor de sete annos, que não póde acabar assim, que deve durar mais do que a vida...{171}

Maubert começava a receiar pelo guitarrista, que ficou sopitado em demorada prostração. Piedosamente o soccorreu, e quando Graça Strech tornou em si viu o esculptor curvado carinhosamente para elle.

—Muito obrigado! disse com voz flebil Strech. Muito obrigado! Ah! aqui está o busto de minha filha!...

—Que é seu, observou Maubert.

—Sim, o senhor, que é bom, que é nobre, que tem coração e talento, não podia negar esta felicidade a um pae!

—Agora, tornou Maubert, é partir para Londres. Para isso basta atravessar o canal. Está prevenido? A minha bolsa d'artista tem ainda para estas larguezas. Está á sua disposição o preciso para tão pequena viagem.

—Muito obrigado, senhor, e acceito. Aqui está o que eu tenho de meu: deu-m'o, como o senhor viu, quem entrava e sahia doEvezard. Eu não pedia, porque não era mendigo: era simplesmente um pae que ha dois annos procurava por toda a parte a sua familia. Conheciam a minha pobreza: davam-me alguma coisa, eu acceitava, porque em verdade era pobre. Agora não, agora não sou, porque finalmente achei o rasto de minha filha! Não encontro Rosina, porque a sepultura m'a roubou, mas ainda me parece que a hei de resuscitar, porque o meu amor, este amor que ainda me conserva a vida, deve realisar todos os prodigios.

O mais que se passou entre o guitarrista e Maubert não nos importa saber.

Graça Strech embarcou ao outro dia para Londres. O que se passaria na sua alma é facil de adivinhar: era o que ahi ha de mais pungente doer da saudade á mistura com o mais avido phrenesi da anciedade; era o supplicio atroz da alma que lucta com o irreparavel no ante-gosto d'uma felicidade orvalhada de lagrimas.

É preciso que um coração esteja muito retemperado pelo soffrimento para luctar, sem succumbir, com tão violentos contrastes, tão oppostos extremos, tão desencadeadas tormentas. Elle resistiu, porque havia sete annos que soffria o mais que podem soffrer homens.

Chegou a Londres.{172}

Era, como sabemos, o inverno.

Fluctuava pelas ruas e peloscafésuma colonia devirtuosi. Gastou um dia, gastou dois, sem encontrar quem procurava. Ao terceiro, viu muita gente reunida n'uma praça. Estavam ouvindo uma harpa.

Logo um presentimento lhe alvoroçou o coração. Parou de subito, antes de romper o circulo, porque uma dôr, cruciante como o queimar de um ferro em braza, lhe atravessára o peito. Receiou morrer. Fez porém um esforço, que devia tel-o prostrado a não ser ainda aquella a hora de avistar a Terra da Promissão. Apartou febrilmente o grupo, relanceou por sobre as cabeças um olhar d'aguia, e com um só grito fez emmudecer a harpa e affastar a gente que rodeiava a harpista.

Um homem de meia edade, que não era decerto Pietro segurava a harpa, tangida por uma pequenita vestidinha de preto.

Era o mesmo perfil do busto;—assim devera ser Augusta aos seis annos. Faltava, para completar o grupo de Maubert, o original do outro busto: faltava apenas Pietro.

Graça Strech arrebatou nos braços a criança. Beijou-a, abraçou-a, acariciou-a delirantemente, soffregamente, doidamente.

E por entre beijos e abraços repetia, sorrindo e chorando:

—Sou teu pae! Eu sou teu pae! Acredita-me, Augusta; bem sei que te chamas Augusta.

A criança tremia-lhe nos braços como um passarinho que se sente comprimido, e procurava furtar as faces aos beijos ardentes do desconhecido.

—Pietro, filha, onde está Pietro?

A pequenita, ouvindo pronunciar este nome, olhou attenta no guitarrista, e respondeu com os olhos subitamente marejados de lagrimas, dando uma suave expressão de magua ao dialecto napolitano;

—Morreu! Elle morreu. Tu é que talvez sejas meu pae, porque dizia o avô...

—Que dizia o avô, filha? perguntou anciosamente Graça Strech.

—Que meu pae tinha dado a minha mãe,mia madre poverella, um presente para mim, e que se elle não tivesse morrido, como nós julgavamos, tu me conhecerias por esse presente. Se sabes o que é, então{173}és meu pae; dá-me muitos beijos que eu consinto.

É o annel, filha! Ah! é o annel que eu dei a tua mãe.

Isso mesmo! disse a criança sorrindo d'alegria. Elle aqui está...

E tirou do seio uma saquinha, pendente do pescoço, onde guardava o annel.

Trago-o aqui. Sou ainda muito pequinina,padre mio, para o trazer no dedo.

O povo, que tinha seguido todo este episodio, olhou-se admirado quando viu a pequenita tirar do seio a saquinha, e mostrar o annel.

Era que para o publico, como para Rosina, aquelle annel tinha mysterio.

Graça Strech de novo colheu a filha nos braços, de novo a beijou com os olhos razos de lagrimas, mas a pequenita, soltando-se com vivacidade, disse para o homem que segurava a harpa:

Vamos lá, Giovanni, vamos com meu pae, que não morreu!{174}

Pietro morrera um anno antes, em Londres, logo depois que de Pariz passára a Inglaterra. Acamou, no miseravel albergue em que se hospedára com a pequenita, victima d'uma febre aguda. Ás primeiras horas de leito conhecera que era chegado o termo da sua vida. Antes que estivesse impossibilitado de raciocinar e falar, mandou chamar Giovanni, um antigo conhecido, em quem depositava confiança e, não sem difficuldade, porque já a cabeça começava a pesar para a sepultura e o cerebro a escurentar-se com as trevas da morte, lhe disse:

—Giovanni, tu és um homem de bem e, diga-se a verdade, inimigo de trabalhar. Tens vivido sempre em companhia de musicos que te dão alguma coisa porque tu lhes carregas com as harpas e os realejos. Ora, meu amigo, é chegada a occasião de fazermos um negocio e, nota bem, o ultimo.

—Ora deixa-te de tolices!

—Não são tolices, Giovanni; bem vês que já me custa falar. Não posso perder tempo. Portanto, ouve-me com attenção. A minha hora chegou e pouco me importaria morrer se não tivesse uma neta...

—Uma neta! Tu! Só te conheci um filho, que morreu pequeno em Portugal.

—Isso é um segredo que te não deve importar. Essa criança que ahi está fóra é mais minha neta do que se fosse filha de meu filho. Comprehendes que morrendo tu, vae ella, coitadinha! ficar para ahi desamparada. Isso é justamente o que eu não quero. Sabes que a pequena tem talento...

—Isso tem! respondeu Giovanni.

—Aprendeu tudo quanto eu lhe ensinei—acrescentou pausadamente Pietro—e já sabe mais do que aprendeu. Deus nunca desampara os desgraçados! O{175}talento foi o patrimonio com que Deus dotou a minha neta. Mas olha que é um capital cujo rendimento chegava bem para nós dois! A pequenita bastava-lhe roçar com as azas pelas cordas: logo sahia musica. Ora a nossa sociedade artistica vae dissolver-se. Da morte não se appella. Um dos socios, o gerente, retira-se para a... eternidade. Fica o outro, que por ser de menor edade não tem ainda credito na praça. É preciso que tu, homem de bem, substituas o socio que se retira, e entres apenas com a tua edade e com a tua experiencia. A tua missão cifra-se em acompanhar a avesinha, e defendel-a das ciladas do mundo. Nota, porém, que te corre obrigação de não traíres a confiança que um amigo moribundo deposita em ti. Jura-me pela tua honra que serás exacto como tens sido até hoje...

—Juro, disse com firmeza e commoção Giovanni.

—Muito bem. Logo que eu morra, olha tu pela pequena, que fica sendo agora tua neta. Mas ouve ainda, Giovanni, mas ouve-me bem. Eu supponho e e com boas razões, que o pae d'essa infeliz menina, morreu. Tudo me leva a crêl-o. Se algum dia, porém, e Deus o permitta! o pae d'ella apparecer, dize-lhe que te nomeie o objecto pelo qual elle ha de reconhecer a filha: é um annel que ella traz n'uma saquinha ao pescoço. De mim não quero que lhe digas nada, porque n'este papel, que lhe entregarás, caso o pae da menina não tenha morrido, deixo explicado o mais que tinha a dizer. Se elle não surgir do tumulo a reclamar a filha, o que é provavel, entrega esse papel a Augusta, para que ella, em edade de o entender, saiba com que amor eu a amei. Dá tempo ao tempo. Espera que ella cresça e pense. Tens entendido, Giovanni? Agora dá-me a tua mão. Palavra de homem de bem?

—Palavra e juramento, disse Giovanni com profunda commoção, e muitas lagrimas.

E acrescentou:

—Vae descançado, Pietro. Tua neta, pois que assim lhe chamas, não ha de soffrer mal algum. Eu tenho sido até hoje escravo da minha fidelidade. Tenho andado pelo mundo atraz d'esses musicos, que afinal me não pagam. Nasci preguiçoso, é verdade, Deus me perdôe, mas tu bem sabes que me não pegou ainda ponta de vicio. Nem bebo nem jógo. Fumar,{176}fumo eu, mas isso é apenas um mau habito. Tendo pão e tabaco, estou contente. Isso, é de sobra, dar-m'o-ha a harpa de tua neta. Agradeço a esmola, e toda a vida serei agradecido a ti e a ella. O dinheiro que juntar eu lh'o guardarei. Comprará uns vestidinhos, concertará a harpa, comprará outra melhor...

—Isso não! isso nunca! interrompeu Pietro com febril exaltação. A minha harpa nunca ella a deixará; já lh'o disse, e ella prometteu-m'o.

—Desculpa, Pietro, eu não pensei o que disse. Emfim comprará o que quizer, porque todo o capital será d'ella; eu serei unicamente depositario.

—Bem! disse Pietro prostrado de commoção. Estamos tratados para a vida e para a morte. Agora sae por algum tempo, e manda-me cá a pequena.

Saíu Giovanni e entrou Augusta.

O doente esteve olhando para ella mui attentamente, e exclamou:

—Que linda és!

A pequetita respondeu com beijos.

—Olha lá, Augusta,—tornou Pietro—não te esqueças da recommendação do annel. Oh! que se tu encontrasses ainda teu pae! E d'ahi póde ser. Deus é misericordioso. Se elle escapou á guerra, bem póde acontecer que ainda algum dia o encontres. Deus o queira, Augusta, anjo, filha. És tão pequenina, tão pequenina, que cada vez me pareces mais um passarinho! Emfim eu não havia de ser eterno; muito me tem deixado Deus viver para teu amparo. Que linda, filha, que linda! Olha... chama Giovanni, e vae ali para fóra um momento... Tu és muito minha amiga, pois não és?... Vae filha, vae, e chama Giovanni.

Saiu a pequenita a cumprir a ordem.

Giovanni abeirou-se do catre e recebeu da mão do doente os papeis em que lhe falára.

—Não posso mais! disse Pietro. Pesa-me tanto a cabeça! Sabe Deus com que difficuldade tenho feito tudo isto! E—acrescentou placidamente—para o enterro já sabes que basta avisar o consul. Nós em toda a parte somos italianos.

Giovanni tregeitou, e o doente deixou caír contra o travesseiro o craneo que parecia de chumbo. Nos trez dias que se seguiram não mais tornou a falar. Entrou em estado comatoso. Teve sempre os olhos fechados até que a morte lh'os sellou para a eternidade.{177}

O consulado italiano fez o enterro: só os summamente grandes e os summamente pequenos são enterrados á custa das nações.

Quem soube, na colonia fluctuante dos musicos das ruas, que havia de menos uma andorinha viajeira?

Os outros não souberam, porque, tendo por missão voar de terra em terra, não lhes sobra tempo para se demorarem á beira d'um tumulo.

Soube-o o consul, e sentiam-n'o Augusta e Giovanni; ninguem mais.

A pequenita chorou muito, muito. Giovanni confortou-a como pôde. O sol, que é a alegria de todos os passarinhos, fez o mais.

Começaram ambos a sua peregrinação.

A pequenita, pobresinha! só tocava n'esses dias de pungente saudade musicas tão tristes como a alma d'ella. Ainda assim ouviam-n'a, achavam-lhe graça, e davam-lhe dinheiro.

O publico, em geral, reputa felizes os que convidam á felicidade.

E, em geral, engana-se sempre.

Augusta sonhava quasi todas as noites com o avô. Pela manhã dizia a Giovanni:

—Esta noite vi-o. Lá me tornou a repetir que não perdesse o annel.

Outras vezes:

—O avô, Giovanni, disse-me esta noite que te recommendasse que fosses sempre muito meu amigo.

As recommendações de Pietro, que a pequenina ouvia em sonhos, não eram precisas. Nem Augusta perdia o annel mysterioso, nem Giovanni se esquecia das promessas que tinha feito.

Elle guardava a sua palavra; ella o seu annel.

E com esses dois thesouros se propunham correr mundo.

Giovanni pertencia ao numero dos homens-machinas que só obedecem ao impulso do coração; ora o coração era bom, e as obras boas sahiam, portanto.

Nascera, como o cão de quinta, para a ociosidade, mas, como o cão de quinta, era fiel.

Durante o anno que acompanhou Augusta nunca deslisou um passo do caminho do dever.

Ella ia adiante com o seu annel no seio; elle seguia-a{178}com a harpa ás costas, avisando-a sempre da aproximação dos trens e dos cavalleiros.

Ao cabo d'um anno surgiu do tumulo Graça Strech, para nos servirmos da phrase de Pietro. Feito o reconhecimento, Giovanni entregou-lhe a filha e os papeis que recebera, e diziam assim:

MANUSCRIPTO DE PIETRO

Estas são as minhas memorias. Dito-as para serem lidas por Augusta ou seu pae, se é que não morreu, para esclarecimento d'algum d'elles, ou de ambos, se Deus o permittir.

Felizmente aprendi a escrever, e fui nos primeiros annos da minha vida empregado n'um escriptorio. Depois morreu-me meu pae: faltou-me o leme. Desnorteei. Troquei a penna pela harpa. Ha muitos annos que o meu abecedario é odo-ré-mi-fá-sol-lá-si. Ainda assim, apesar do muito que se soffre n'esta vida errante, agradeço a Deus o inspirar-me que fosse musico, porque tive occasião de fazer bem.

Finou-se de saudades em viagem asignoraRosina. Era um soffrer que fazia horror! Não havia palavras que a consolassem, musica que pudesse distraíl-a! Viajou chorando e suspirando; os olhos nunca ninguem lh'os viu. Quasi não comeu. Acceitava, depois de muitas instancias, uma agua de caldo apenas. Diziamos-lhe que era um crime deixar-se morrer; então bebia. Chegámos a Napoles, e logo asignorame pediu que tratasse de arranjar albergue, porque se sentia muito doente. Em verdade estava muito falta de forças. Quiz escrever para Portugal, e não pôde. Mal pegava na penna descórava muito, e entrava de sentir-se agoniada. Eu, vendo que semelhantes esforços a estavam debilitando cada vez mais, pedia-lhe que deixasse isso para quando estivesse melhor. Comecei a dizer-lhe que não tinha geito metter-se em casa. Depois de repetidas instancias, annuiu em ir commigo ao anoitecer até á beira mar. Umas vezes voltava melhor; outras vinha mais doente. No primeiro caso, principiava a escrever. Escrevia algumas linhas, e já estava fatigada. No segundo, passava a noite em convulsões, e era preciso não a desamparar até pela manhã, que só então cahia em somno. Eu ia porém instando sempre pelos passeios. Ah! mas ver asignora{179}um mez depois que chegámos a Napoles! Que differença! Emagreceu, descórou, fez-se velha. Não parecia a mesma! A primeira carta que recebemos de Portugal causou-lhe tamanha impressão, que eu julguei que morresse. Tive realmente medo. Chorou, riu, delirou. A carta não dizia porém que osignorStrech tivesse recebido as nossas. Asignorainquietou-se muito com isto.

—Está lá sem saber nada de nós! disse-me ella. E a mim que me custa tanto escrever!

—Escrevo eu.

—Nada, não quero, respondeu asignora. Hei de eu escrever sempre; bem póde ser que alguma carta lhe chegue ás mãos...

—É que o exercito é muito grande, e depois anda d'um lado para outro... disse eu prevenindo novas commoções.

Os soffrimentos dasignorahavel-a-iam prostrado antes de ser mãe, se não fosse essa carta que recebeu de Portugal. Beijava-a, relia-a, apertava-a contra o coração; só n'aquillo achava allivio.

Desde principios de maio de 1810 que a hora da maternidade se annunciava para breve. Quiz—porque ella tinha o presentimento da morte—escrever uma longa carta, que devia ter chegado a Portugal em junho, e que com certeza não foi recebida. Essa carta, cujo conteudo ignoro, era de certo uma despedida, o ultimo adeus dasignora. Deixou o papel ainda sobre a mesa, e caíu contra o leito em grandes gritos. Acudi-lhe, e disse-lhe que não a tornaria a deixar escrever mais.

—Não me é precisa a sua licença, meu bom Pietro! respondeu ella.

Eu estremeci.

Logo que serenou, fechei a carta, sem lhe poisar a vista, e fui eu mesmo deital-a ao correio.

No dia 22 de maio, pela manhã, chamei a locandeira, que era piedosa, porque asignorame disse que n'esse dia seria mãe.

Soffreu doze horas. A final deu á luz uma menina. Quiz ver a filha; mostrei-lh'a.

—Que se chame Argusta, Pietro, que se chame Augusta, recommendou asignora.

Certifiquei-a de que esse seria o nome de sua filha.{180}

Cobriu o rosto com o lençol, e começou a chorar e a gemer. Por mais que lhe dissessemos, a locandeira e eu, que procurasse socegar, não o conseguimos. De noite delirou. Falava dosignor, Strech, d'Augusta, de Coimbra, do mar, do annel. A febre era muita. Estáva córada como se as faces fossem duas rosas: Eu tinha a menina nos braços; a locandeira amparava asignora.

Pela manhã adormeceu. Acordou muito fria. Estava peior. Chamou-se o doutor, que receitou, e disse que asignoracorria grande perigo. Apesar dos remedios, não aqueceu em todo o dia. Ao fim da tarde, quando eu estava acalentando a menina para adormecel-a, asignoradeu de repente um grito, sentou-se na cama, disse que não via, tornou a dar outro grito, e cahiu morta.

N'essa occasião chorava a criança como se adivinhasse que estava orphã.

Fiz um enterro decente ásignoraRosina, adquiri, com o auxilio do consul, o direito de a sepultar n'uma campa perpetua e mandei-lhe pôr um singelo epitaphio que diz: «Aqui jaz Rosina Regnau.»

Escrevi para Portugal a dar parte do triste acontecimento, que me custou talvez mais—Deus me perdôe!—do que a morte de meu filho.

Não recebi resposta, nem tornei a receber mais cartas. Quiz partir para Portugal. Informei-me. A guerra continuava cada vez mais renhida. Que havia eu de ir fazer a Portugal com uma harpa ás costas e uma criança ao collo? Demorei-me ainda um anno em Napoles para dar tempo a crear-se a menina. Foi uma ama dos arrabaldes quem a amamentou.

Eu ia todos os dias vêl-a, e saber da ama se era preciso alguma coisa. Durante esse tempo não recebi carta dosignorStrech. Não obstante, continuei escrevendo sempre. Sabia-se que continuava a guerra. Não tinha certeza de que as minhas cartas fossem entregues, e de que osignorvivesse ainda. Maguava-me tão longo silencio, porque emfim eu cada vez ia envelhecendo mais. Ao cabo d'um anno peguei na menina e na harpa e comecei a minha peregrinação, porque estava exhausto de recursos. Em Napoles ha sempre muitos musicos, e a concorrencia prejudicava-me. Alguns eram velhos, e estavam tão pobres como eu. Além d'isso, fallecera a dona do albergue,{181}repentinamente, e quando eu sahia entravam os crédores. Tive pena d'aquella boa mulher que tão caridosamente tratára dasignoraRosina. Como ella sabia do nosso segredo, habituei-me a consideral-a pessoa de familia. Nunca essa honrada creatura revelára a ninguem as máguas da mãe d'Augusta. Eu tinha a certeza. O segredo descia com ella á sepultura. Senti os olhos rasos de lagrimas quando a vi sahir para o cemiterio e me encontrei com os crédores que entravam. Era preciso ganhar vida, porque eramos duas pessoas a alimentar, melhor direi pessoa e meia. Fui andando e tocando harpa. As noites, dormia-as com a menina ao collo. Se eu era avô! Ás vezes apertava commigo a tristeza. Lembro-me de que uma noite em Piombino, n'um albergue onde me recolhi, me deixei entristecer tanto, contemplando a menina adormecida nos meus braços, lembrando-me ao mesmo tempo dasignorae dosignor, ambos mortos para ella, que, francamente o confesso, n'essa noite envelheci dez annos. Todavia, logo que nascia o sol, nascia com elle o grande lenitivo dos desgraçados: o trabalho. Ia tocando na minha harpa, e vivia. Uns davam-me esmola por me ouvirem; outros por me vêr com a menina: muita vez o conheci.


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