[1]Affonso Sanches descobriu as Antilhas de 1473 a 1484.
[1]Affonso Sanches descobriu as Antilhas de 1473 a 1484.
Quando Colombo chegou a Portugal já ahi eram conhecidas as cartas hydrographicas planas inventadas pelo infante d. Henrique, e foi durante a sua permanencia no reino que o portuguez Fernando construiu a primeira bussola completa com a rosa dos ventos e que a junta dos cosmographos do rei aperfeiçou o astrolabio, assim como as taboas astronomicas applicadas á navegação.
Vivendo no meio de uma grande familia de navegadores, sabios, como o testemunhou mais tarde o sabio dr. Montaro, de Nuremberg, conhecedor das viagens e descobertas dos portuguezes, é natural que Colombo, instigado pela mulher e pela sogra, fascinado pelos instrumentos e documentos que recebeu e por outros que manuseou e consultou depois, estimulado pelas audacias felizes dos mareantes lusos, quizesse tentar fortuna pelo mar e procurasse obter a pratica da navegação que de todo lhe faltava. Para isso conseguir, embarcou em navios portuguezes e com pilotos portuguezes apprendeu a navegar.
É ainda Las Casas quem nol-o affirma, quando diz, na sua já citadaHistoria das Indias: «resolveu ter por experiencia o que então do mundo pela de Ethiopia se andava e praticava pelo mar e assim navegou algumas vezes aquelle caminho em companhia de portuguezes, como pessoa já residente e quasi natural de Portugal.»
Foi, portanto, em Portugal que Colombo apprendeu a navegar e foi ainda em Portugal que teve conhecimento exacto de terras ao occidente, terras que, obcecado pelas theorias de Toscanelli, Marco Polo e outros geographos e cosmographos antigos, elle suppoz sempre que fossem asiaticas.
Foi então, depois de adquirida esta instrucção theorica e pratica, ministrada pelos portuguezes, que o genovez affagou a idéa de descobrir o caminho da India pelo occidente, indo á terra onde já havia chegado Affonso Sanches.
Para conseguir os seus fins, procurou desde logo fazer relações com d. João II, rei de Portugal, o qual, longe de esconder delle as provas que possuia da existencia de terras ao occidente e ao sul, lh'as mostrou, como o proprio Colombo confessa, indicando-lhe nos mappas a situação da Terra Nova ou de João Vaz e a do Brazil ou Terra dos Papagaios.
Ora, aconteceu, segundo informa Las Casas, que um dia, «soprando fortes ventos do poente, o martrouxe ás costas das ilhas do Fayal e da Graciosa alguns troncos de pinheiros e ás da ilha das Flores dois cadaveres de caras mui largas e de feições differentes das dos christãos.»
Guiado por estes indicios, e tendo conhecimento, como ainda informa Las Casas, da viagem do navio portuense que em 1447 tinha ido á Groelandia, da ida de Diogo de Teive em 1452 á latitude da Terra do Lavrador, das viagens de Vicente Dias, de Antonio Teive e de Affonso Sanches, de 1473 a 1484, da concessão a Fernão Domingues do Arco, em 1484, e das viagens de João Vaz Côrte Real e seus filhos, começadas em 1472, resolveu Colombo, certo da existencia de terras ao occidente, procurar um principe christão que o ajudasse e protegesse na empresa do descobrimento da India pelo poente.
Foi então a Castella offerecer os seus serviços á corôa hespanhola.
Diz Las Casas que, guiado pelas informações que possuia, «Colombo tinha a certeza que havia de descobrir terras e gentes nellas, como si nellas pessoalmente tivesse estado.»
E foi isso, provavelmente, o que Colombo, munido de copias dos mappas que viu em Portugal, e conhecedor das viagens e das doações alli feitas, affirmou aos reis de Castella, assegurando-lhes, não que ia achar ou descobrir, mas tomar posse para a Hespanha de terras anteriormente descobertas pelos portuguezes, dessas Antilhas que Affonso Sanches descobrira, cuja situação os seus mappas e papeis lhe revelaram.
Tal offerta elle não podia fazel-a ao rei de Portugal, porque tinha a certeza de que seria recusada. Que poderia elle offerecer á corôa portugueza, que esta já não conhecesse?
Accresce que, achando-se individado e sendo perseguido pelos credores, elle sentia necessidade urgente de sahir de Portugal e procurar no estrangeiro os meios de solver os seus compromissos.
Eis ahi as razões pelas quaes deixou Portugal e foi á Hespanha, não no nobre intuito de descobrir terras e de praticar feitos que lhe dessem renome, mas no de ganhar dinheiro.
Os que, como Humbolt, affirmam que Colombo foi,por inveja, maltratado em Portugal e, por isso, de lá sahiu, fugindo, faltam á verdade.
Inveja de que? Que feitos, que emprehendimentos, que descobertas havia elle feito, quando deixou o reino portuguez, onde tudo foi apprender, para que delle alli tivessem inveja? Inveja poderia elle ter, e certamente tinha, daquelles que, arriscando a vida e a fortuna, já haviam dilatado o mundo, quando elle nada tinha feito até então.
Mas, é elle proprio quem desmente os que affirmam que foi a inveja que o fez sahir de Portugal, quando, em uma carta ao rei de Castella, diz: «fui aportar a Portugal cujo rei entendia dedescobrimentos mais do que nenhum outro.» E, em outra carta, accrescenta: «o grande coração dos principes de Portugal que ha tanto tempo proseguem na empresa de Guiné e tambem na de Africa onde gastaram metade da gente do reino...»
Não teria elle feito taes elogios aos reis portuguezes se,por inveja, tivesse sido maltratado em Portugal. Que a causa principal da sua precipitada sahida de Portugal foram as dividas, deprehende-se claramente dos seguintes trechos da amistosa e protectora carta que d. João II, em 1488, lhe dirigiu: «E porque por ventura tereis algum receio das nossas justiçaspor razão de algumas cousas a que sejaes obrigado, nós por esta carta vos asseguramos pela vinda, estada e tornada, que não sejaes preso, retido, accusado, citado nem demandado por nenhuma cousa ou seja civil ou criminal de qualquer penalidade. E por ella mesmo mandamos as nossas justiças que a cumpram assim.»
Eis ahi como cáe por terra a invencionice da inveja e como fica patente que as dividas foram a causa principal da fuga do genovez.
Munido dessa generosa carta de D. João II, que é um salvo conducto, Colombo volta a Portugal e vae então offerecer ao rei os seus serviços na empresa dos descobrimentos e o rei os acceita, não para aproveitar-se delles, mas para reter Colombo junto a si, evitando que, por meio delle,Castella se apropriasse de terras que a Portugal já pertenciam.
Mas, o astuto genovez, nem pelo facto de ficar ao serviço do rei de Portugal, deixa de conservar-se ao serviço da Hespanha de cujo thesouro havia recebido 14.000 maravedis[2]em 1487, mais 3.000 pouco depois e ainda 3.000 em junho de 1488, isto é, mezes depois de receber a carta de d. João II que lhe dava o salvo conducto para voltar ao reino!!...
[2]O maravedi valia cerca de 25 réis fortes.
[2]O maravedi valia cerca de 25 réis fortes.
Eis ahi patente a dualidade ambiciosa de Colombo, que fica ao serviço de Portugal e ao da Hespanha, simultaneamente, explorando a ambos sem escrupulos!...
Essa dualidade elle a revelou ainda no proprio nome, pois assignava-seColonna Hespanha eColombona Italia e em Portugal!!!...
Ao fim de quatro annos dessa dupla exploração, consegue Colombo assignar um tratado com a corôa de Hespanha, obtendo della as tres caravelas de que carecia para ir á India pelo occidente eacharterras que já tinham sido achadas pelos navegantes portuguezes. Por esse tratado, elle obteve as seguintes vantagens: «o grau de cavalleiro da espada dourada, os cargos de almirante mór do mar oceano, de vice-rei e governador perpetuo das terras que descobrisse, a decima de todas as rendas, e odireito de poder concorrer com o oitavo das despesas de todas as frotas, recebendo o oitavo dos lucros.»
Que contraste resalta do procedimento deste aventureiro com o dos navegantes portuguezes que, antes delle, haviam ido á America,—como os Corte Reaes, Fernão Dulmo e Lavrador—que armavam as caravelas á sua custa, que, nisso consumiam as suas fortunas e se individavam, vindo, ao depois, offerecer ao seu rei e ao seu paiz as terras achadas, sem pedir favor nem retribuição alguma!
Havia no tratado entre Colombo e os reis de Castella uma clausula pela qual fora estipulado que 10.000 maravedis seriam dados pela corôa e de alviçaras ao marinheiro da frota columbina que primeiro avistasse e annunciasse terra ao commandante. Esse marinheiro foi Rodrigo de Triana. Mas quando elle, do cesto da gavea, enthusiasmado apontou para o horizonte onde apparecia o relevo da terra desejada e, alegremente, a annunciou a Colombo, este declarou logo que, na noite anterior, já havia visto umaluze, estabelecendo com essaluza prioridade, apossou-se da gratificação que ao seu subordinado competia!
Os que pela rama estudaram a vida deste aventureiro audaz exaltam a sua caridade christã, esquecendo: que, na sua primeira viagem ás Antilhas, nem padre elle levou na frota para chamar o gentio ao gremio da egreja; que, ao chegar ao golfo de Samaná, fez logo correr sangue, atacando os indigenas nús e quasi desarmados; que, não podendo enviar aos reis de Castella as promettidas e almejadas riquezas em especiarias, pedras e metaes preciosos, mandou navios carregados de escravos para serem vendidos e com o preço obtido pagar-se a despesa da viagem; que, de 1493 a 1496, governando a Hespaniola, que é o Haiti de hoje, exterminou barbaramente a terça parte da população; que, quando mandou Pedro Margarite reconhecer a ilha de Cuba, deu-lhe ordem para mutilar os indigenas que lá encontrasse; que, finalmente, quando ordenou a Hojeda (um dos pretensos descobridores do Brazil) que fosse prender o cacique Cahonaboa, deu-lhe instrucções para que o fizesse á traição, attrahindo-o com presentes, illudindo-o com fingida amizade e apoderando-se delle em seguida!!...
Eis ahi o quilate da caridade christã de Colombo.
Parece que a cavalheiresca Hespanha, a despeito de Colombo a ter enriquecido, sempre suspeitou dessedescobridor, que a seu soldo trazia, pois, logo após a sua segunda viagem á America, perseguiu-o tenazmente, submettendo-o a um tribunal e, quando elle regressou da terceira, após dois mezes de prisão em calabouço, mandou que viesse a bordo preso a uma grilheta, como se fosse um bandido!
Morto em 1506, ignorando sempre que a terra que alcançara para a Hespanha era a America, pois viveu sempre convicto de que era a Asia, nem depois de morto conseguiu descansar, pois os seus ossos andaram em viagens continuas de Valladolid, onde primeiro foi sepultado, para Sevilha, depois para o Haiti, depois para Cuba e, finalmente, de Cuba, de novo, para a Hespanha, onde actualmente param.
E sendo genovez, a Italia, que aliás lhe ergueu uma estatua, não reclamou jamais as suas atormentadas cinzas, talvez por desconfiar da authenticidade desse pretenso filho cuja nacionalidade é ainda hoje discutida.[3]
[3]VideNota Ano fim da conferencia.
[3]VideNota Ano fim da conferencia.
Eis ahi senhores, quem foi Colombo, e como foi que elle deu á Hespanha terras dessa America que os portuguezes haviam descoberto.
Conhecidos os factos que venho de narrar, posso dizer agora, sem receio de contestação séria, que Colombo não descobriu a America, porque, 15 annos, pelo menos, antes delle nascer, já a America havia sido descoberta pelos navegantes lusos do primeiro terço do seculo XV.
Como nota elucidativa e de importancia historica, cumpre-me accrescentar que, quando Colombo regressou da sua primeira viagem ás Antilhas e communicou a sua descoberta ao rei de Portugal, d. João II, logo este monarcha protestouenergicamente, dizendo-lhe: «Que aquella conquista lhe pertencia e que suas eram as terras aonde elle chegára.»
A este protesto do rei portuguez, respondeu Colombo hypocritamente, «que o não sabia e que os reis de Castella apenas lhe haviam ordenado que não fosse á Guiné nem á Mina.»
Ao que retrucou d. João II: «Que tinha a certeza que nisso não haveria mistér de terceiros».
Este dialogo, extrahido do diario da primeira viagem de Colombo, por elle proprio escripto, mostra que o usurpador da gloria alheia esquivava-se á responsabilidade directa do delicto por elle commettido, sciente e conscientemente, e que atirava essa responsabilidade para os hombros dos reis de Castella, como se fossem estes que tivessem ido ás Antilhas ou que o tivessem induzido a ir até lá!...
Mas, deixemos Colombo e vejamos agora como foi descoberta esta parte do continente americano que se chama o Brazil.
Desde o começo desta conferencia, vos disse que não foi Pedro Alvares Cabral quem descobriu o Brazil, pois o Brazil já estava designado e marcado nos mappas que a corôa portugueza possuia desde 1436, fixando André Bianco, desde 1448, a sua distancia das ilhas de Cabo Verde em 1500 milhas.
Nesse mappa de 1448, que André Bianco traçou em Londres,depois de haver passado porPortugal, estava o Brazil representado ao sul das ilhas dos Hermanos do archipelago de Cabo Verde, ilhas que têm hoje a denominação de Brava e do Fogo. Na parte referente ao Brazil e correspondente ao Cabo de S. Roque, havia no mappa esta legenda:Ixola otincticha xe longa a ponente 1500 mia, cuja traducção é esta: «Ilha authentica (ou Antilia) 1500 milhas ao poente.»
Ora, o cabo de S. Roque, como todos sabem, dista exactamente 1520 milhas das ilhas de Cabo Verde.
Estes dois documentos bastam para deixar patente que, quando, em 1500, Pedro Alvares Cabral aportou a Porto Seguro da costa brazileira, fazia, no minimo, 65 annos que essa parte da America tinha sido descoberta.
Foram ainda navegantes portuguezes que a descobriram e até o testamento de João Ramalho, escripto nas notas do tabellião Lourenço Vaz, na villa de S. Paulo, em 3 de maio de 1580, segundo o testemunho do frei Gaspar da Madre de Deus, que delle teve uma copia, o prova, pois, ahi, Ramalho, na presença do dito tabellião, do juiz ordinario Pedro Dias e de quatro testemunhas, declarou que estava no Brazil ha 90 annos, isto é, desde 1490, dois annos antes da ida de Colombo ás Antilhas e dez annos antes da chegada de Cabral a Porto Seguro.
Prova-o ainda o tratado de Tordesillas, assignado em 1494 entre Portugal e a Hespanha, oqual, marcando para limites entre os dois reinos uma linha divisoria, do polo artico ao antarctico, distante 370 leguas das ilhas de Cabo Verde, abrangia na parte portugueza o Brazil, cujos limites foram traçados por esse meridiano.
O mappa de Cantino, de 1502, regista essa linha divisoria e inclue, de accordo com o tratado, na parte portugueza, não só o Brazil como a Terra Nova ou de João Vaz e a Groelandia, assignalando tudo o que ficava á direita da linha divisoria com a bandeira portugueza e a parte á esquerda com a de Castella, com a seguinte legenda:—«Este é o marco dantre Castella e Portugal.»
O açoriano Fructuoso, tratando de João Vaz Côrte Real, diz que elle «descobriu algumas partes do Poente e do Brazil», devendo, portanto, esta ultima descoberta ser anterior a 1500, pois João Vaz falleceu em 1496.
Por um manuscripto de frei Diogo das Chagas, citado por Drumond nos seusAnnaes da Ilha Terceira, sabe-se que, antes de 1496, tambem o navegante João Coelho veio ao Brazil.
Em 1514, Estevam Fróes confirma este asserto, numa carta ao rei de Portugal, na qual lhe diz: «alegravamos que vossa alteza possuia esta terra ha vinte annos e mais (portanto, desde antes de 1494), e que já João Coelho... viera ter por onde nós outros vinhamos a descobrire que vossa alteza estava em posse destas terras por muitos tempos.»
O proprio Vasco da Gama, na sua primeira viagem á India, em 1497, passou proximo do Brazil, tendo signaes de terra em 22 de agosto, isto é, 19 dias depois que sahiu de Cabo Verde, como se verifica no Roteiro dessa sua viagem.
No seuEsmeraldo de situ orbisrefere Duarte Pacheco, o celebre cosmographo,que em 1498 estivera no Brazil, provavelmente, como suppõe plausivelmente o sr. Faustino da Fonseca, no intuito de verificar, por ordem da corôa portugueza, os limites determinados pela linha divisoria do tratado de Tordesillas.
Mestre João, physico mór de d. Manoel, e cosmographo da frota de Cabral, que na sua interessante carta ao rei, escripta de Porto Seguro, regista o Cruzeiro do Sul e marca para o Brazil a latitude de 17 graus, diz, entre outras cousas interessantes, referindo-se á terra brazileira, que a terra onde chegara,já se achava traçada no mappa-mundi de Pedro Vaz da Cunha Bisagudo, affirmando-o categoricamente na seguinte passagem da carta: «quanto, senhor, ao sitio desta terra, mande vossa alteza trazer um mappa-mundi, que tem Pedro Vaz Bisagudo, e por ahi poderá ver vossa alteza o sitio desta terra, ainda que aquelle mappa-mundi não certifica si esta terra é habitada ou não: é mappa-mundi antigo e ahi achará vossa alteza escripta tambem a Mina...»
Portanto, o proprio cosmographo da frota de Cabral sabia, desde antes da viagem de 1500, que havia terra nesse rumo de sudoeste que a frota cabralina seguiu, como o sabia tambem Duarte Pacheco, o qual já nessa terra tinha estado em 1498.
Tudo isto vem provar que, se Cabral não descobriu o Brazil, tambem o não descobriram os pretensos descobridores Vicente Yanez Pinzon, Diogo de Lepe e Alonso Hojeda, aventureiros, que só chegaram á costa americana em 1499, não podendo tomar posse da terra brazileira porque o tratado de Tordesillas de 1494 não consentia em tal. As proprias instrucções que o rei de Castella lhes deu em 1499, determinavam «que não tocassem nas terras de Portugal».
Elles estiveram, de facto, em terras do Brazil, antes de Cabral, mas a descoberta dessas terras não lhes pertence.
Não foram, pois, Cabral, nem Pinzon, nem Lepe, nem Hojeda, os descobridores do Brazil, podendo-se, porém, assegurar que essa gloria cabe incontestavelmente a navegantes portuguezes do seculo XV, embora seja difficil determinar qual foi desses intrepidos argonautas o primeiro que pisou o solo brazileiro.
Á vista das cartas e portulanos de André Bianco, de 1436 e de 1448, pode-se affirmar que essa descoberta foi feita, como já disse, em 1435, ou antes.
Vejamos, agora, como Cabral aportou a esta terra e della tomou posse official para a corôa de Portugal.
O fim ostensivo, o fim apparente da expedição de Cabral era ir á India. O fim real, o fim verdadeiro era ir, primeiro, ao Brazil, delle tomar posse official, e, em seguida, fazer rumo para o Cabo da Boa Esperança, em demanda da India.
Como já referi, a corôa portugueza, anteriormente á viagem de Cabral, havia enviado ao Brazil Duarte Pacheco, eminente cosmographo, que tambem veio na frota cabralina. O autor doEsmeraldo de situ orbisaqui estivera, pois, em 1498, para verificar os limites da linha divisoria do tratado de Tordesillas, que, na parte portugueza, abrangia as terras dos Corte Reaes, a Groelandia e o Brazil, mas deste não havia tomado posse official.
Tornava-se, pois, indispensavel a Portugal reconhecer e tomar posse, sem demora, dessa terra e, assim, guiando-se pelas informações de Duarte Pacheco e do proprio Vasco da Gama, bem como pelas de outros seus navegantes, que haviam aportado á Terra dos Papagaios, aproveitava a expedição á India para, de passagem, tomar posse official do Brazil. O Brasil era, portanto, um ponto de escala da viagem de Cabral á India, mas um ponto de escala forçado e já conhecido, pois sabia tambem a corôa portugueza, pelos mappas e portulanos de Bianco, que essa «Ilha authentica ou Antilia» ficava a 1500 milhas de distancia das ilhas Brava e do Fogo, do archipelago de Cabo Verde.
Era a frota de Cabral composta de 13 naus, uma das quaes com mantimentos, e nellas embarcaram 1.200 homens, entre os quaes o capitão-mór Pedro Alvares Cabral, que commandava a nau capitanea, os capitães das outras naus Sancho de Toar, Simão de Miranda de Azevedo, Ayres Gomes da Silva, Nicolau Coelho, Bartholomeu Dias (o descobridor do Cabo da Boa Esperança), Diogo Dias, Gaspar de Lemos, Luiz Pires, Simão de Pina, Pedro de Atayde Inferno, Vasco de Atayde e Nuno Leitão da Cunha.
Iam tambem na frota: Duarte Pacheco, autor doEsmeraldo de situ orbis, Mestre João, physico mór do rei, que ia como cosmographo, o escrivão Pero Vaz Caminha, diversos frades, entre os quaes frei Henrique de Coimbra, os pilotos Affonso Lopes, Pedro Escolar e outros que Vasco da Gama trouxera da India, diversos indios, um grumete negro da Guiné, alguns interpretes e varios degredados.
Iam os navios de Cabral apparelhados e munidos do necessario para anno e meio de viagem, bem providos de artilheria, de munições de bocca, de armas brancas, como espadase lanças, e, em cada nau, havia uma botica. Para o commercio, levavam as caravelas, velludos, setins, damascos, pannos de lã, coral, cobre, vermelhão, mercurio e ambar. Além disso, levavam os padres comsigo um orgão e alfaias de prata.
Era, evidentemente, a maior, a melhor apparelhada e a mais garrida frota que partia da Europa.
Em 15 de fevereiro de 1500 recebeu Cabral a carta de capitão mór e dos poderes de que ia revestido. Com essa carta foi-lhe dado o regimento pelo qual se devia guiar na viagem e, nesse regimento, que, na parte relativa ao rumo, fôra organizado por Vasco da Gama, estava traçada a rota que devia seguir.
Nesse documento minucioso, recommendava-se ao capitão mór que «se afastasse da costa da Africa para encurtar a via e que, ao partir da ilha de Santiago em Cabo Verde, deviam os navios fazer o seu caminho pelo sul,bordejando pelas bandas do sudoeste... e, depois, na volta do mar, até metterem o Cabo da Boa Esperança, em leste franco.»
O regimento não fala claramente em aportar á Terra dos Papagaios, mas estipula que, ao deixar Cabo Verde, «fáça a frota caminho pelo sul, bordejando pelas bandas de sudoeste» e sendo a missão secreta de Cabral tomar posse official dessa terra e devendo elle de ter necessidade de arribar a uma terra qualquer, antes da chegada ao Cabo ou áIndia, para abastecer a frota de agua e lenha e dar descanso á marinhagem, a terra do Brazil estava naturalmente indicada para tal fim. Accresce que, na frota, ia Duarte Pacheco que, tendo já estado no Brazil, saberia guiar Cabral com segurança a esse ponto de escala forçada da gran viagem, de antemão indicada pelo Gama.
A rota traçada nas linhas e entrelinhas do regimento era, pois: seguir a frota de Lisboa á ilha de Santiago, de Cabo Verde, dahi seguir pelo sul, bordejando pelo sudoeste, até alcançar a costa da Terra dos Papagaios, dahi zarpar para o Cabo, dobral-o e seguir para a India.
Esse rumo inda é o mesmo que hoje seguem os navios que vêm de Lisboa ao Brazil. Prompta a frota de Cabral, partiu ella do Tejo aos 9 de março de 1500, acompanhando-a o rei d. Manuel até fora da barra. Cinco dias depois, a 14 de março, passa a frota pelas Canarias onde encontra calmaria e onde permanece um dia; a 22, chega a Cabo Verde e, exactamente um mez depois, a 22 de abril, avista a terra brazileira, gastando, de Lisboa a Porto Seguro, 43 dias.[4]
[4]VideNota Cno fim da Conferencia
[4]VideNota Cno fim da Conferencia
Dos historiadores que consultei, e não poucos foram, sobre a viagem de Cabral ao Brazil, attribuem uns aoacasoesse feito, dizem outros que a frota fôra impellida para a nossa costa por umforte temporal, que a apanhou.
Nenhum delles porém, explica em que altura a frota foi apanhada pelo temporal nem quanto tempo este durou.
Ora, contra esseforte temporalprotestam energicamente os dois melhores documentos que possuimos da viagem de Cabral: as cartas que Mestre João, o cosmographo da frota, e Vaz Caminha, o escrivão, enviaram ao rei d. Manuel, de Porto Seguro, pela nau que dahi partiu a 1.º de maio, de regresso a Lisboa, para dar conta do feito ao monarcha.
Nem o cosmographo nem Caminha falam de tal temporal, pelo contrario, o que dizem é que, durante a viagem, houve calmaria e que por causa della perdeu a frota um dia em frente ás Canarias. Temporal soffreu a frota, mas depois que deixou o Brazil e se fez vella para o Cabo, onde falleceu o seu descobridor Bartholomeu Dias.
Não houve, pois, temporal na travessia até ao Brazil, nem o acaso interveio na chegada da frota cabralina a esta terra. O rumo a seguir tinha-lhe sido traçado; além disso, já nessa época tinham os portuguezes perfeito conhecimento das correntes maritimas e dos ventos geraes e sabiam aproveital-os de accôrdo com as rotas a seguir. O duplo fim de Cabral, tomando o rumo seguido e aportando ao Brazil, éra, como já o disse, abastecer-se de lenha e agua, dando descanso á marinhagem e tomar posse official da Terra dos Papagaios para a corôa portugueza.
Oacasoe otemporaltêm, portanto, de ser banidos dos livros que se occupam do descobrimento da terra de Vera Cruz.
O primeiro e grande historiador que o Brazil teve, ainda hoje o mais sincero e veridico, é Pero Vaz Caminha, o modesto escrivão, que narrou ao rei d. Manoel, numa commovente e encantadora carta, onde a minucia corre parelhas com a simplicidade, a historia da travessia, da chegada e da permanencia de Cabral na terra brazileira.
Nessa longa missiva, escripta de Porto Seguro e datada de 1.º de maio de 1500, o consciencioso historiador dá conta ao seu rei e senhor de todas as peripecias da viagem, desde a partida de Lisboa até ao Brazil e ainda de tudo o que se passou durante os 12 dias em que a frota ficou ancorada em frente á costa brazileira. Persuadido de que o que mais interessaria a D. Manuel era o conhecimento exacto da terra reconhecida, da gente que a habitava, dos seus costumes e indole, das riquezas que possuia e da facilidade que poderia offerecer á colonização, não poupou minucias para pôr o rei ao corrente do que vira e do que lhe poderia ser proveitoso.
É assim que elle descreveu com enthusiasmo e cores vivas o esplendor da natureza brazileira, a frescura, abundancia e potabilidade das nossas aguas, a brandura do clima, a belleza do nosso céo, onde rutilava o cruzeiro, referindo-se com interesse e insistencia á indole pacifica dos nossos indigenas, aos seus habitos e costumes, á belleza das suas formas, á sua completa innocencia, deprehendida da sua completa nudez, e á facilidade com que acceitavam a cathechese, parecendo-lhe empresa de pequeno esforço fazel-os christãos, chamando-os ao gremio da egreja. Tratando dos productos naturaes, descreveu a fauna e a flora que encontrou, accentuando que os incolas, haviam dado demonstrações evidentes aos da frota de que em terra havia ouro, prata e papagaios.
Descrevendo o que fizeram os indigenas, que acudiram á praia, quando das naus partiram as primeiras almadias para o transporte de agua, diz que «os indios logo trouxeram cabaças e tomavam alguns barris que nós levavamos, enchiam-os de agua e traziam-os aos bateis».
Este trecho da carta de Caminha prova que a frota cabralina começou logo por fazer aguada e prova tambem que os indigenas vinham offerecer agua aos homens brancos, como se já estivessem habituados a praticar esse serviço, repetindo actos praticados anteriormente; o que demonstra que não era a primeira vez que viam homens brancos e naus.
A facilidade com que alguns dos naturaes se deixaram capturar e levar a bordo da nau capitanea, alli permanecendo e dormindo tranquilamente durante uma noite, como narraCaminha, prova ainda que os nossos indigenas já estavam familiarizados com os europeus, que já os conheciam, que conheciam os seus habitos e costumes, que delles não tinham receio.
E isso é ainda uma prova indirecta de que os portuguezes já haviam estado no Brazil antes de Cabral aqui chegar. E, de facto, cá estiveram, porque já aqui estava João Ramalho, que havia chegado 10 annos antes e que tanto facilitou a missão de Martim Affonso, quando este aportou á antiga capitania de S. Vicente.
Ao primeiro monte que avistou deu Cabral o nome de Monte Paschoal, á terra o nome de Vera Cruz, porque no céo rutilava o cruzeiro, e ao porto, onde definitivamente fundeou, o de Porto Seguro. Chegou o domingo de paschoela, e, narra Caminha, que o capitão mór deliberou ouvir missa e sermão em um ilhéo de Porto Seguro. Logo alli se armou o altar e frei Henrique de Coimbra officiou, cercado de todos os padres da frota. Foi essa a primeira missa, de que temos noticia exacta e circumstanciada, dita no Brazil, que forneceu assumpto para um dos mais bellos e suggestivos quadros de Victor Meirelles. Terminada a missa, frei Henrique subiu a uma cadeira alta, que lhe serviu de pulpito e dahi prégou, fazendo a historia do Evangelho, descrevendo a travessia e pondo a terra reconhecida por Cabral sob a protecção da Cruz. Á missa e ao sermão assistiram os naturaes que ao ilhéo acudiram e que ao depois, folgaram, fraternizando com os tripulantes da frota. Na nau capitanea discutiu-se depois se conviria tomar dois indigenas para envial-os ao reino, ou se seria preferivel deixar entre elles alguns degredados, sendo por grande maioria, adoptado de preferencia este ultimo alvitre, pois os degredados, ficando alli, apprenderiam a lingua dos naturaes e poderiam servir de interpretes, quando o rei mandasse nova frota ao Brazil para o colonizar; accresce que era do plano de Cabral, como foi mais tarde do de Martim Affonso, não hostilizar os indigenas, não lhes incutir desconfiança alguma, tratando-os com carinho e brandura, sem os violentar jámais, para assim não sahir dos preceitos da caridade christã e tel-os sempre como alliados. Para os ir habituando á vida com os brancos, que deviam ficar definitivamente com elles, foram logo enviados á praia e ahi deixados dois degredados, que deviam passar a noite com os naturaes; mas estes, sem os molestar, coagiram-nos a voltar ás naus. Quando os da frota ergueram num ponto elevado da costa, dominando o mar, a primeira cruz, que ficou em terra brazileira e que confirmou o nome de Vera Cruz, que Cabral lhe havia dado, os indigenas auxiliaram depois á abastecer as naus de lenha e de agua. E quando a maruja beijou a cruz erguida, os indios tambem a beijaram, pondo-se de joelhos, gestos que levaram Caminha a affirmar «que era gente de tal innocencia que, se os intendessemos e elles a nós, seriam logo christãos, porque, segundo parece, não têm nenhuma crença». E accrescenta, logo depois, na sua luminosa carta ao rei: «se os degredados, que hão de ficar, aprenderem bem a sua fala, não duvido,segundo a santa tenção de vossa alteza, fazerem-se christãos e crerem a nossa santa fé á qual praza Nosso Senhor que os traga, porque decerto esta gente é boa e imprimir-se-á ligeiramente nelles qualquer cunho que lhe quizerem dar... e, portanto v. alteza, pois tanto deseja accrescentar na santa fé catholica, deve entender na sua salvação, e prazerá a Deus que com pouco trabalho será assim.»
Prova este trecho de carta do escrivão da frota que elle conhecia a tenção do rei, que sabia que o seu intento era chamar os naturaes das terras, por onde passasse a frota, ao gremio da egreja e que, ao contrario do que fizeram Colombo, Pinzon, Hojeda, Lepe e outros, era do seu programma assegurar a posse da terra reconhecida, conquistando os naturaes pela brandura e carinho, incutindo-lhes a fé christã.
No dia primeiro de maio de 1500, vespera da partida de Cabral para o Cabo, nova missa foi dita por frei Henrique de Coimbra, não mais no ilhéu em que disséra a primeira, mas juntoá cruz erguida em terra e á qual foi pregado o escudo das armas de Portugal.
Ainda a essa missa assistiram os indigenas, imitando todos os gestos que viram fazer aos portuguezes e, depois do sermão, frei Henrique lançou ao pescoço de todos os que alli estavam, pequenos crucifixos de metal, que elles beijaram com satisfação e receberam com visivel empenho.
Em seguida, foram-se os mareantes para as naus, deixando em terra dois degredados e no dia immediato, 2 de maio, a frota fez-se de véla para o Cabo da Boa Esperança, tendo regressado ao reino uma das caravelas, capitaneada por Gaspar de Lemos, para levar ao rei a noticia do reconhecimento officialmente feito da terra do Brazil e da sua posse para a corôa portugueza.
A essa terra, que era conhecida pelo nome de Terra dos Papagaios e que Cabral denominou Vera Cruz, poz d. Manoel, em 1502, o nome de Santa Cruz, que foi posteriormente substituido pelo de Brazil, devido ao grande commercio do pau brazil que ella produzia.
Dando conta, em carta, ao rei da Hespanha do reconhecimento do Brazil feito por Cabral, disse d. Manoel: «o capitão deixou alli dois degredados á mercê de Deus.» Um dos pilotos da frota explicou depois que esses degredados puzeram-se a chorar e que logo os naturaes os animaram, mostrando ter piedade delles.
Vaz Caminha, na sua deliciosa carta, revela, que, além desses dois degredados, que foram abandonados em terra, dois grumetes da frota para ella fugiram e nella ficaram por sua livre vontade, o que significa que a gente que a habitava era pacifica e hospitaleira.
Vem talvez dahi a herança dessa proverbial hospitalidade brazileira, que tanto surprehende e encanta os estrangeiros que visitam o nosso paiz.
Eis, senhores, como foi descoberto o Brazil e como Cabral, 65 annos depois do seu descobrimento, o reconheceu e delle officialmente tomou posse para a corôa de Portugal, á qual aliás já pertencia pelo tratado de Tordesillas.
Não coube, pois, a Cabral a grande gloria de descobrir o Brazil, mas coube-lhe a não pequena gloria de fazer o seu reconhecimento e delle tomar posse para o paiz que o descobrira, realizando o memoravel feito sem hostilizar os filhos dessas regiões incultas, sem inflingir um ligeiro castigo, sem despertar nelles o odio que Colombo e os hespanhoes, que depois vieram á conquista da America, accenderam entre os indigenas, dizimando-os, submettendo-os a ferro e fogo, caçando-os barbara e deshumanamentecom cães amestrados na caça do homem, como quem caça hyenas e lobos!
Essa imperecivel gloria coube a Cabral e basta ella para que se justifique o preito de admiração que lhe rendemos, sem olvidar os serviços inestimaveis dos seus maiores na busca e descobrimento desta terra abençoada.
Bastava a sua caridade christã para com os filhos deste paiz para que lhe devessemos o monumento que no Rio de Janeiro se acha erguido em frente ao mar glauco e luminoso, perpetuando a sua memoria immaculada e a do seu feito incruento.
Com o reconhecimento do Brazil em 1500, fechou Portugal com élo de ouro o ciclo grandioso das suas descobertas no seculo XV com as quaes dilatou o mundo e fez avançar a civilização.
Nesse seculo de estupenda actividade maritima, em que os lusos mareantes, guiados e instigados pela voz prophetica do infante d. Henrique, avançaram sem pavor pelo mar immenso e tenebroso, que devia estar cheio de escolhos, de bruma negra e povoado de monstros assustadores, descobriram elles, caminhando para o desconhecido, a ilha da Madeira, as Formigas, todas as ilhas do archipelago dos Açores, todas as de Cabo Verde, o mar de Sargaços, uma grande parte do Brazil, uma parte da America Central e da America do Norte e, caminhando de ousadia em ousadia, dobraram o Cabo das Tormentas, descobriram e atravessaram o estreito de Magalhães, fizeram a primeira viagem em redor do mundo, apoderaram-se de uma parte da Asia e de uma parte da Africa, enchendo o mappa com conquistas suas!...
E tudo isto foi feito do decurso de menos de um seculo por um punhado de homens que partiram, affrontando a morte, de uma insignificante nesga de terra erguida á beira mar, no occidente da vasta Europa!...
Olhae para o mappa que vos apresento e nelle vereis, em côr vermelha, traçada a epopéa desses grandiosos feitos.
Podeis dizer agora commigo, senhores, sem hesitação e com ufania:—Gloria aos portuguezes, mestres de Colombo, precursores de Colombo, incontestaveis e unicos descobridores do Novo Mundo![5]
[5]VideNota Bno fim da conferencia.
[5]VideNota Bno fim da conferencia.
Portuguezes que me ouvis, meus amigos e meus irmãos; a monarchia tradicional que, por tantos seculos, regeu os vossos destinos, começou a dissolver-se na batalha de Alcacer Kibir, e, combalida, ruiu de todo com a quéda e com a fuga do ultimo Bragança, em 5 de outubro de 1910.
Depois de tanta luz offuscante, que o seculo XV projectou da occidental praia lusitana, veio a sombra e veio o marasmo, que vos não deixou avançar mais.
Dir-se-ia que, desde 1500 até ha pouco, vivestes acorrentados, manietados, sem poder darexpansão ao vosso genio irrequieto e aventuroso, sem poder tirar partido das conquistas feitas com tanto sacrificio e perigo.
Raiou para vós agora a aurora da liberdade com a proclamação da Republica em vossa terra.
Uma nova era, promissora e fecunda, apresenta-se, durante a qual podeis resgatar os erros de quatro seculos e achar as energias precisas para conquistar o antigo esplendor.
Vejo-vos, com pesar, divididos nos campos maninhos da politica esteril, da politica dissolvente dos partidos. Que quereis obter com a lucta perturbadora neste momento em que a vossa patria mais precisa de paz, de dedicações e de tino? A reconquista de um regimen que vos amesquinhou, que vos empobreceu, que vos fez descer do alto da columna onde já estivestes erguidos, dominando o universe? A reconquista de um regimen que vos deu o jugo da Hespanha, por 60 annos, a vergonha da fuga da vossa familia real e da sua côrte para o Brazil, e o abandono da vossa patria á invasão estrangeira? a reconquista de um regimen que vos deu o vergonhoso «ultimatum» de 1890? Sois ainda hoje os depositarios de dois legados sagrados, que vos deixou o creador fecundo da Escola de Sagres e o grande épico, que, em verso estridente, cantou as vossas glorias e descortinou ao mundo o vosso saber e as vossas gloriosas jornadas.
Que quereis fazer dessa herança, levando-a á labareda das vossas disputas domesticas? Enfraquecer mais a patria, desprestigial-a, deixar que, considerada ingovernavel, vá parar ás mãos do estrangeiro, ávido e cobiçoso, que já pensa como repartir entre si o precioso legado do previdente infante? Não, não! Deixae o velho regimen sepultado nas trévas do passado, cessae as vossas luctas fratricidas, e, unidos todos, em blóco, trabalhae pela rehabilitação do vosso formoso paiz, pela consolidação das suas actuaes instituições, sendo sempre portuguezes, mais portuguezes ainda no regimen da democracia e da liberdade, sendo sempre os briosos descendentes de d. Henrique, que mandou a descobrir esta formosa terra que, em vinte annos de Republica, tem avançado sempre e tem sabido sempre impor-se ao respeito e á admiração das potencias.
Tenho dito.
A revista hespanholaEspaña Moderna, de Junho de 1910, consagrou um longo artigo, á nacionalidade de Colombo e chegou á conclusão de que elle era hespanhol, natural de Pontevedra e, portanto, gallego. Entre os argumentos apresentados para firmar a sua asserção, cita o facto da caravelaSanta Maria, uma das trez da frota com que Colombo foi ás Antilhas, ser appellidada vulgarmenteLa Gallega.
O historiador hespanhol D. Celso Garcia de la Riega, filho de Pontevedra, sustentou a affirmação daEspaña Modernaem um longo artigo que, posteriormente, em Janeiro de 1911, publicou noHeraldo, de Madrid.
A Hespanha reclama, pois, para si, a gloria de ter dado nascimento a Colombo, que ainda é lá conhecido por Colon.
Todavia, Las Casas, amigo intimo de Colombo, affirma que este era genovez e Toscanelli, em uma das suas cartas ao proprio Colombo, considera-o portuguez!...
Eis ahi porque dissemos que a nacionalidade de Colombo ainda hoje é discutida.
Não se tractou nesta conferencia de Americo Vespucio porque, a despeito de affirmarem que elle legou o seu nome á America, della ainda foi menos descobridor do que Colombo. Quem se lembrou de baptisar com o nome de America a terra, que João Vaz Corte Real e outros navegantes lusos descobriram, foi o cosmographo francez Mathias Ringmann que, na suaCosmographiae introductio in super quatuor Americi navigationes, publicada em 1507, em Saint-Dié, na Alsacia franceza, escreveu:[6]