IVCECY

IVCECY

Poucas horas depois que Loredano fôra admittido na casa deD.Antonio de Mariz, Cecilia, chegando á janella do seu quarto, viu do lado opposto do rochedo Pery que a olhava com uma admiração ardente.

O pobre indio, timido e esquivo, não se animava a chegar-se á casa, senão quando via de longe aD.Antonio de Mariz passeando sobre a esplanada; adivinhava que naquella habitação só o coração nobre do velho fidalgo sentia por elle alguma estima.

Havia quatro dias que o selvagem não apparecia;D.Antonio suppunha já que elle tivesse voltado com sua tribu para os lugares onde vivia, e que só deixára para fazer a guerra aos Indios e Portuguezes.

A nação goytacaz dominava todo o territorio entre o Cabo deS.Thomé e o Cabo Frio; era um povo guerreiro, valente e destemido, que por diversas vezes fizera sentir aos conquistadores a força de suas armas.

Tinha arrasado completamente a colonia da Parahyba fundada por Pedro de Góes; e depois de um assedio de seis mezes conseguira destruir igualmente a colonia da Victoria fundada no Espirito Santo por Vasco Fernandes Coutinho.

Voltemos dessa pequena digressão historica ao nosso heróe.

O primeiro movimento de Cecilia, vendo o indio, fôra de susto; fugira insensivelmente da janella. Mas o seu bom coração irritou-se contra esse receio, e disse-lhe que ella não tinha que temer do homem que lhe salvára a vida. Lembrou-se que era ser má e ingrata pagar a dedicação que o indio lhe mostrava deixando-lhe ver a repugnancia que lhe inspirava.

Venceu pois a timidez, e assentou de fazer um sacrificio ao reconhecimento e gratidão que devia ao selvagem. Chegou á janella; fez com a mão alva e graciosa um gesto dizendo a Pery que se aproximasse.

O indio, não se contendo de alegria, correu para a casa, emquanto Cecilia ia ter com seu pai, e dizia-lhe:

—Vinde ver Pery, que chega, meu pai.

—Ah! inda bem, respondeu o fidalgo.

E acompanhando sua filha,D.Antonio foi ao encontro do indio que já subia a esplanada.

Pery trazia um pequeno cofo, tecido com extraordinaria delicadeza, feito de palha muito alva, todo rendado; por entre o crivo que formavão os fios, ouvião-se uns chilidos fracos e um rumor ligeiro que fazião os pequenos habitantes desse ninho gracioso.

O indio ajoelhou aos pés de Cecilia; sem animar-se a levantar os olhos para ella apresentou-lhe o cabaz de palha: abrindo a tampa, a menina assustou-se, mas sorrio; um enxame de beija-flôres esvoaçava dentro; alguns conseguirão escapar-se.

Destes um veio aninhar-se no seu seio, o outro começou a voltejar em torno de sua cabeça loura, como se tomasse a sua boquinha rosada por um fructo.

A menina admirava essas avezinhas brilhantes, umas escarlates, outras azues e verdes; mas todas de reflexos dourados, e fórmas mimosas e delicadas!

Vendo-se esses iris animados acredita-se que a natureza os creou com um sorriso, para viverem de pollen e de mel, e para brilharem no ar como as flôres na terra e as estrellas no céo.

Quando Cecilia se cansou de admira-los, tomou-os um por um, beijou-os, aqueceu-os no seio, e sentio não ser uma flôr bella e perfumada para que elles a beijassem tambem, e esvoaçassem constantemente em torno della.

Pery olhava e era feliz; pela primeira vez depois que a salvára, tinha sabido fazer uma cousa, que trouxera um sorriso de prazer aos labios da senhora. Entretanto, apezar dessa felicidade que sentia interiormente, era facil de vêr que o indio estava triste; elle chegou-se para D. Antonio de Mariz e disse-lhe:

—Pery vai partir.

—Ah! disse o fidalgo, voltas aos teus campos?

—Sim: Pery volta á terra que cobre os ossos de Ararê.

D.Antonio encheu o indio de presentes dados em seu nome e em nome de sua filha.

—Perguntai a elle por que razão parte e nos deixa, meu pai, disse Cecilia.

O fidalgo traduzio a pergunta.

—Porque a senhora não precisa de Pery, e Pery deve acompanhar sua mãi e seus irmãos.

—E se a pedra quizer fazer mal á senhora quem a defenderá? perguntou a menina sorrindo e fazendo allusão á narração do indio.

Ouvindo dos labios deD.Antonio a pergunta, o selvagem não soube o que responder, porque lhe lembrava um pensamento que já tinha passado por seu espirito; temia que na sua ausencia a menina corresse um perigo e elle não estivesse junto della para salva-la.

—Se a senhora manda, disse emfim, Pery fica.

Cecilia, apenas seu pai lhe traduzio a resposta do indio, rio-se daquella cega obediencia; mas era mulher; um atomo de vaidade dormia no fundo do seu coração de moça.

Yer aquella alma selvagem, livre como as aves que plainavão no ar, ou como os rios que corrião na varzea; aquella natureza forte e vigorosa que fazia prodigios de força e coragem; aquella vontade indomavel como a torrente que se precipita do alto da serra; prostrar-se aos seus pés submissa, vencida, escrava!...

Era preciso que não fosse mulher para não sentir o orgulho de dominar essa organisação e brincar com a força, obrigando-a a curvar-se diante do seu olhar.

As mulheres têm isso de particular; reconhecendo-se fracas, a sua maior ambição é reinar pelo iman dessa mesma fraqueza, sobre tudo o que é forte, grande e superior a ellas: não amão a intelligencia, a coragem, o genio, o poder, senão para vencê-los e subjuga-los.

Entretanto a mulher deixa-se bastante vezes dominar; mas é sempre pelo homem que não lhe excitando a admiração, não irrita a sua vaidade e não provoca por conseguinte essa luta da fraqueza contra a força.

Cecilia era uma menina ingenua e innocente, que nem sequer tinha consciência do seu poder, e do encanto de sua casta belleza; mas era filha de Eva, e não podia se eximir de um quasi nada de vaidade.

—A senhora não quer que Pery parta, disse ella com um arzinho de rainha, e fazendo um gesto com a cabeça.

O indio comprehendeu perfeitamente o gesto.

—Pery fica.

—Vêde, Cecilia, replicouD.Antonio rindo: elle te obedece!

Cecilia sorrio.

—Minha filha te agradece o sacrificio, Pery, continuou o fidalgo; mas nem ella nem eu queremos que abandones a tua tribu.

—A senhora mandou, respondeu o indio.

—Ella queria ver se tu lhe obedecias: conheceu a tua dedicação, está satisfeita; consente que partas.

—Não!

—Mas os teus irmãos, tua mãi, tua vida livre?

—Pery é escravo da senhora.

—Mas Pery é um guerreiro e um chefe.

—A nação goytacaz tem cem guerreiros fortes como Pery; mil arcos ligeiros como o vôo do gavião.

—Assim, decididamente queres ficar?

—Sim; e como tu não queres dar a Pery a tua hospitalidade, uma arvore da floresta lhe servirá de abrigo.

—Tu me offendes, Pery! exclamou o fidalgo; a minha casa está aberta para todos, e sobretudo para ti que és amigo, e salvaste minha filha.

—Não, Pery não te offende; mas sabe que tem a pelle côr de terra.

—E o coração de ouro.

EmquantoD.Antonio continuava a insistir com o indio para que partisse, ouvio-se um canto monotono que sahia da floresta.

Pery applicou o ouvido; descendo á esplanada correu na direcção donde partia a voz, que cantava com a cadencia triste e melancolica particular aos indios, a seguinte endeixa na lingua dos Guaranys:

«A estrella brilhou; partimos com a tarde. A brisa soprou; nos leva nas azas.

«A guerra nos trouxe; vencemos. A guerra acabou; voltamos.

«Na guerra os guerreiros combatem; ha sangue. Na paz as mulheres trabalhão; ha vinho.

«A estrella brilhou; é hora de partir. A brisa soprou; é tempo de andar.»

A pessoa que modulava esta canção selvagem era uma india já idosa; encostada a uma arvore da floresta ella vira por entre a folhagem a scena que passava na esplanada.

Chegando-se a ella, Pery ficou triste e vexado.

—Mãi!... exclamou elle.

—Vem! disse a india seguindo pela matta.

—Não!

—Nós partimos.

—Pery fica.

A india fitou em seu filho um olhar de profunda admiração.

—Teus irmãos partem!

O selvagem não respondeu.

—Tua mãi parte!

O mesmo silencio.

—Teu campo te espera!

—Pery fica, mãi! disse elle com a voz commovida.

—Porque?

—A senhora mandou.

A pobre mãi recebeu esta palavra como uma sentença irrevogavel; sabia do imperio que exercia sobre a alma de Pery a imagem de Nossa Senhora, que elle tinha visto no meio de um combate e havia personificado em Cecilia.

Sentio que ia perder o filho, orgulho de sua velhice, como Ararê tinha sido o orgulho de sua mocidade. Uma lagrima deslisou pela sua face côr de cobre.

—Mãi, toma o arco de Pery; enterra junto dos ossos de seu pai: e queima a cabana de Ararê.

—Não; se algum dia Pery voltar, achará a cabana de seu pai, e sua mãi para ama-lo: tudo vai ficar triste até que a lua das flôres leve o filho de Ararê ao campo onde nasceu.

Pery abanou a cabeça com tristeza;

—Pery não voltará!

Sua mãi fez um gesto de espanto e desespero.

—O fructo que cabe da arvore não torna mais a ella; a folha que se despega do ramo, murcha, secca e morre; o vento a leva. Pery é a folha; tu és a arvore, mãi. Pery não voltará ao teu seio.

—A Virgem branca salvou tua mãi; devia deixa-la morrer, para não lhe roubar seu filho. Uma mãi sem seu filho é uma terra sem agua; queima e mata tudo que se chega a ella.

Estas palavras forão acompanhadas de um olhar de ameaça, em que se revelava a ferocidade do tigre que defende os seus cachorrinhos.

—Mãi, não offende a senhora; Pery morreria, e na ultima hora não se lembraria de ti.

Os dous ficárão algum tempo em silencio.

—Tua mãi fica! disse a india com um accento de resolução.

—E quem será a mãi da tribu? Quem guardará a cabana de Pery? Quem contará aos pequenos as guerras de Ararê, forte entre os mais fortes? Quem dirá: quantas vezes a nação goytacaz levou o fogo á taba dos brancos, e venceu os homens do raio? Quem ha de preparar os vinhos e as bebidas para os guerreiros, e ensinar aos filhos os costumes dos velhos?

Pery proferio estas palavras com a exaltação, que despertavão nelle as reminiscencias de sua vida selvagem; a india ficou pensativa e respondeu:

—Tua mãi volta; vai te esperar na porta da cabana, á sombra do jambeiro; se a flor do jambo vier sem Pery, tua mãi não verá os fructos da arvore.

A india pousou a mãos sobre os hombros de seu filho, e encostou a fronte na fronte delle; durante um momento as lagrimas que salta vão dos olhos de ambos se confundirão.

Depois ella afastou-se lentamente; Pery seguio-a com os olhos até que desappareceu na floresta: esteve a correr, chama-la e partir com ella. Mas o vento lhe trazia a voz argentina de Cecilia que fallava com seu pai; ficou.

Nessa mesma noite construirá aquella pequena cabana que se via na ponta do rochedo, e que ia ser o seu mundo.

Passárão tres mezes.

Cecilia que um momento conseguira vencer a repugnancia que sentia pelo selvagem, quando lhe ordenára que ficasse, não se lembrou da ingratidão que commettia e não disfarçou mais a sua antipathia.

Quando o indio chegava-se a ella, soltava um grito de susto; ou fugia, ou ordenava-lhe que se retirasse; Pery que já fallava e entendia o portuguez, afastava-se triste e humilde.

Entretanto a sua dedicação não se desmentia; elle acompanhava a D. Antonio de Mariz nas suas excursões, ajudava-o com a sua experiencia, guiava-o aos logares onde havião terrenos auriferos ou pedras preciosas. De volta destas expedições corria todo o dia os campos para procurar um perfume, uma flôr, um passaro, que entregava ao fidalgo e pedia-lhe désse aCecy, pois já não se animava a chegar-se para ella, com receio de desgota-la.

Cecyera o nome que o indio dava á sua senhora, depois que lhe tinhão ensinado que ella se chamava Cecilia.

Um dia a menina ouvindo chamar-se assim por elle, e achando um pretexto para zangar-se contra o escravo humilde que obedecia ao seu menor gesto, reprehendeu-o com aspereza:

—Porque me chamas tuCecy?

—Não sabes dizer Cecilia?

Pery pronunciou claramente o nome da moça com todas as syllabas; isto era tanto mais admiravel quando a sua lingua não conhecia quatro letras, das quaes uma era o L.

—Mas então, disse a menina com alguma curiosidade, se tu sabes o meu nome, porque não o dizes sempre?

—PorqueCecyé o nome que Pery tem dentro da alma.

—Ah! é um nome de tua lingua?

—Sim.

—O que quer dizer?

—O que Pery sente.

—Mas em portuguez?

—Senhora não deve saber.

A menina bateu com a ponta do pé no chão e fez um gesto de impaciencia.

D.Antonio passava: Cecilia correu ao seu encontro:

—Meu pãi, dizei-me o que significaCecynessa lingua selvagem que fallais.

—Cecy!... disse o fidalgo procurando lembrar-se. Sim! É um verbo que significa doer, magoar.

A menina sentio um remorso; reconheceu a sua ingratidão, e lembrando-se do que devia ao selvagem e da maneira por que o tratava, achou-se má, egoista e cruel.

—Que doce palavra! disse ella a seu pai; parece um canto de passaro.

Desde este dia foi boa para Pery; pouco a pouco perdeu o susto; começou a comprehender essa alma inculta; viu nelle um escravo, depois um amigo fiel e dedicado.

—Chama-meCecy, dizia ás vezes ao indio sorrindo-se; este doce nome me lembrará que fui má para ti; e me ensinará a ser boa.


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