VVILANIA
É tempo de continuar esta narração interrompida pela necessidade de contar alguns factos anteriores.
Voltemos pois ao lugar em que se achava Loredano e seus companheiros tomados de medo pela exclamação inesperada que soára no meio delles.
Os dous complices, supersticiosos, como erão as pessoas de baixa classe naquelle tempo, attribuião o facto a uma causa sobrenatural, e vião nelle um aviso do céo. Loredano porém não era homem que cedesse a semelhante fraqueza; tinha ouvido uma voz; e essa voz embora surda e cava devia ser de um homem.
Quem elle era? SeriaD.Antonio de Mariz? Seria algum dos aventureiros? Não podia saber; o seu espirito perdia-se n'um cahos de duvidas e incertezas.
Fez um gesto a Ruy Soeiro e a Bento Simões para que o seguissem; e apertando ao seio o fatal pergaminho, causa de tantos crimes, lançou-se pelo campo. Terião feito umas cincoenta braças de caminho, quando virão cortar pela vereda que elles seguião um cavalheiro que o italiano reconheceu immediatamente; era Alvaro.
O moço procurava a solidão para pensar em Cecilia, mas sobretudo para reflectir n'um facto que se tinha dado essa manhã e que elle não podia comprehender.
Vira de longe a janella de Cecilia abrir-se, as duas moças apparecerem, trocarem um olhar; depois Isabel cahir de joelhos aos pés de sua prima. Se elle tivesse ouvido o que já sabemos, teria perfeitamente comprehendido, mas longe como estava, apenas podia ver sem ser visto das duas moças.
Loredano, vendo o cavalheiro passar, voltou-se para os seus companheiros:
—Ei-lo!... disse com um olhar que brilhou de alegria. Imbeceis! que attribuis ao céo aquillo que não sabeis explicar!...
E acompanhou estas palavras com um sorriso de profundo desprezo.
—Esperai-me aqui.
—O que ides fazer? perguntou Ruy Soeiro.
O italiano se voltou sorprezo: depois levantou os hombros, como se a pergunta do seu companheiro não merecesse reposta.
Ruy Soeiro, que conhecia o caracter desse homem, entendeu o gesto; um resquicio de generosidade que ainda havia no seu coração corrompido, o fez segurar o braço do seu companheiro para rete-lo.
—Quereis que falle?... disse Loredano.
—É mais um crime inutil! acudio Bento Simões.
O italiano fitou nelle os olhos frios como o contacto do aço polido:
—Ha um mais util, amigo Simões; cuidaremos delle a seu tempo.
E sem esperar a replica, metteu-se pelas moitas que cobrião o campo nesse lugar, e seguio Alvaro que continuava lentamente o seu caminho.
O moço, apezar de preoccupado, tinha o habito da vida arriscada dos nossos caçadores do interior, obrigados a romper as mattas virgens.
Ahi o homem vê-se cercado de perigos por todos os lados; da frente, das costas, á esquerda, á direita, do ar, da terra, póde surgir de repente um inimigo occulto pela folhagem, que se aproxima sem ser visto.
A unica defeza é a subtileza do ouvido que sabe distinguir entre os rumores vagos da floresta aquelle que é produzido por uma acção mais forte do que a do vento; assim como a rapidez e certeza da vista que vai perscrutar as sombras das moitas, e devassar a folhagem espessa das arvores.
Alvaro tinha esse dom dos caçadores habeis; apenas o vento lhe trouxe um estalido de folhas seccas pisadas levantou a cabeça, e circulou o campo com os olhos: depois por prudencia encostou-se ao grosso tronco de uma arvore isolada, e cruzando os braços sobre a clavina esperou.
Nessa posição o inimigo, qualquer que elle fosse, féra, reptil ou homem, não o podia atacar senão de face; elle o veria aproximar-se e o receberia.
Loredano agachado entre as folhas tinha notado este movimento e hesitára; mas o seu segredo estava compromettido; a suspeita que concebêra de que Alvaro fôra quem ha pouco o ameaçára com a palavratraidores, acabava de confirmar-se no seu espirito, vendo a prudencia com que o moço evitava uma sorpreza.
O cavalheiro era um inimigo terrivel, e jogava todas as armas com uma destreza admiravel.
A lamina de sua espada como uma cobra elastica, flexivel, rapida, volteava sibilando e atirava o bote com a velocidade e a certeza do cascavel. O arremesso do seu punhal, vibrado pelo braço ligeiro e auxiliado pela agilidade do corpo, era como raio; listrava no ar uma cruz de fogo, e cahia sobre o peito do inimigo e o fulminava.
A bala de sua clavina era uma mensageira fiel que ia buscar a ave que parava no ar, ou a folha que o vento agitava. Muitas vezes na esplanada da casa, o italiano vira Alvaro, depois de ter feito milagres de pontaria, quebrar no ar as settas que Pery atirava de proposito para lhe servirem de alvo.
Cecilia applaudia batendo as mãos; Pery ficava contente por vêr a senhora alegre; e embora para elle que fazia muito mais, aquillo fosse uma cousa vulgar, deixava que o moço conservasse a superioridade, e fosse por todos admirado.
Mas Alvaro sabia que só um homem podia lutar com elle, elevar-lhe vantagem em qualquer arma, e esse era Pery; porque juntava á arte a superioridade do selvagem habituado desde o berço á guerra constante que é a sua vida.
Loredano tinha pois razão de hesitar em atacar de frente um inimigo desta força; mas a necessidade urgia, e o italiano era corajoso e agil tambem. Endireitou para o cavalheiro, resolvido a morrer ou a salvar a sua vida e a sua fortuna.
Alvaro vendo-o aproximar-se rugou o sobr'olho; depois do que se tinha passado na vespera e nessa manhã, odiava aquelle homem ou antes desprezava-o.
—Aposto que tivestes o mesmo pensamento que eu,Sr.cavalheiro? disse o aventureiro, quando chegou a tres passos de distancia.
—Não sei o que pretendeis dizer, replicou o moço seccamente.
—Pretendo,Sr.cavalheiro, que dous homens que se odeião achão-se melhor n'um lugar solitario, do que no meio dos companheiros.
—Não é odio que me inspirais, é desprezo; é mais do que desprezo, é asco. O reptil que se roja pelo chão causa-me menos repugnancia do que o vosso aspecto.
—Não disputemos sobre palavras,Sr.cavalheiro; tudo vem dar no mesmo; eu vos odeio, vos me desprezais; podia dizer-vos outro tanto.
—Miseravel!... exclamou o cavalheiro levando a mão á guarda da espada.
O movimento foi tão rapido, que a palavra soou ao mesmo tempo que a ponta da lamina de aço batendo na face do italiano.
Loredano quiz evitar o insulto, mas não era tempo: seus olhos injectárão-se de sangue:
—Sr.cavalheiro, deveis-me satisfação do insulto que me acabais de fazer.
—É justo, respondeu Alvaro com dignidade; mas não á espada que é a arma do cavalheiro; tirai o vosso punhal de bandido, e defendei-vos.
Proferindo estas palavras, o moço embainhou a espada com toda a calma, segurou-a á cinta para não embaraçar-lhe os movimentos e sacou o seu punhal, excellente folha de Damasco.
Os dous inimigos marchárão um para o outro, e lançárão-se; o italiano era agil e forte, e defendia-se com summa dextreza; por duas vezes já, o punhal de Alvaro, roçando-lhe o pescoço, tinha cortado o talho de seu gibão de belbute.
De repente Loredano, fincando os pés, deo um pulo para tráz, e ergueu a mão esquerda em signal de tregoa.
—Estais satisfeito? perguntou Alvaro.
—Não,Sr.cavalheiro; mas penso que em vez de nos estarmos aqui a fatigar inutilmente, melhor seria tomarmos um meio mais expedito.
—Escolhei o que quizerdes, menos a espada; o mais me é indifferente.
—Outra cousa ainda; se nos batermos aqui, podemos incommodar-nos reciprocamente; porque pretendo matar-vos, e creio que o mesmo desejo tendes a meu respeito. Ora é preciso que desappareça o que ficar, e o outro não leve um vestigio que o possa denunciar.
—Que quereis fazer neste caso?
—O rio está aqui perto, tendes a vossa clavina; collocar-nos-hemos cada um sobre uma ponta de rochedo, aquelle que cahir morto ou simplesmente ferido, pertencerá ao rio e á cachoeira; não incommodará o outro.
—Tendes razão, é melhor assim; eu me envergonharia seD.Antonio de Mariz soubesse que me bati com um homem da vossa qualidade.
—Sigamos,Sr.cavalheiro; nós nos odiamos bastante para não gastarmos tempo em palavras.
Ambos tomárão na direcção do rio, cujo estrepito ouvia-se distinctamente.
Alvaro, valente e corajoso, desprezava muito o seu inimigo para ter o menor receio delle; demais a sua alma nobre e leal, incapaz da mais pequena vilania, não pensava na traição. Nunca podia lembrar-lhe que um homem que o viera provocar e ia medir-se com elle n'um combate franco, levasse a infamia a ponto de querer feri-lo pelas costas.
Assim, continuou a caminhar, quando o italiano, deixando cahir de proposito a cinta da espada, parou um instante para apanha-la e prende-la de novo.
O que se passava então no seu espirito não estava de acordo com as idéas nobres do cavalheiro; vendo o moço adiantar-se, disse comsigo?
—Preciso da vida deste homem, eu a tenho! Seria uma loucura deixa-la escapar, e pôr a minha em risco. Um duello neste deserto, sem testemunhas, é um combate em que a victoria pertence ao mais esperto.
Dizendo isto o italiano ia armando a sua clavina com toda a cautela, e seguia de longe a Alvaro, afim de que o ranger do ferro ou o silencio de suas pisadas não excitassem a attenção do moça.
Alvaro caminhava tranquillamente; seu pensamento estava bem longe d'elle, e esvoaçava em torno da imagem de Cecilia, junto da qual via os grandes olhos negros e avelludados de Isabel embebidos n'uma languidez melancolica: era a primeira vez que aquelle rosto moreno e aquella belleza ardente e voluptuosa se viera confundir em sonhos com o anjo louro de seus amores.
Donde provinha isto? O moço não sabia explicar; mas um quer que seja, como um presentimento, lhe dizia que naquella scena da janella havia entre as duas moças um segredo, uma confidencia, uma revelação, e que esse segredo era elle.
Assim, quando a morte se aproximava, quando já o bafejava e ia toca-lo, elle descuidoso e pensativo repassava no pensamento idéas de amor, e alimentava-se de esperanças. Não se lembrava de morrer; tinha consciencia de si e fé em Deus; mas se por acaso uma fatalidade cahisse sobre elle, consolava-o a idéa de que Cecilia, offendida, lhe perdoaria um resto de resentimento que talvez conservasse.
Nisto metteu a mão no seio do gibão e tirou o jasmim que a moça lhe dera, e que já tinha murchado ao contacto dos seus labios ardentes; ia beija-lo ainda uma vez, quando lembrou-se que o italiano podia vê-lo.
Mas não ouvio os passos do aventureiro; a primeira idéa que lhe veio foi que elle tinha fugido; e como a cobardia para as almas grandes se associa á baixeza, lembrou-se de uma traição.
Quiz voltar-se, e entretanto não o fez. Mostrar que tinha medo daquelle miseravel revoltava os seus brios de cavalheiro; ergueu a cabeça com altivez e seguio.
Mal sabia elle que nesse momento o fecho da clavina movido por um dedo seguro cahia, e que a bala ia partir guiada pelo olhar certeiro do italiano.