VLOURA E MORENA
Cahia a tarde.
No pequeno jardim da casadoPaquequer, uma linda moça se embalançava indolentemente n'uma rede de palha presa aos ramos de uma acacia silvestre, que estremecendo deixava cahir algumas de suas flores miudas e perfumadas.
Os grandes olhos azues, meio cerrados, ás vezes se abrião languidamente como para se embeberem de luz, e abaixavão de novo as palpebras rosadas.
Os labios vermelhos e humidos parecião uma flor dagardeniados nossos campos, orvalhada pelo sereno da noite; o halito doce e ligeiro exhalava-se formando um sorriso. Sua tez alva e pura como um froco de algodão, tingia-se nas faces de uns longes côr de rosa, que ião, desmaiando, morrer no collo de linhas suaves e delicadas.
O seu trajo era do gosto mais mimoso e mais original que é possivel conceber; mistura de luxo e de simplicidade.
Tinha sobre o vestido branco de cassa um ligeiro saiote de risso azul apanhado á cintura por um broche; uma especie de arminho côr de perola, feito com a pennugem macia de certas aves, orlava o talho e as mangas, fazendo realçar a alvura de seus hombros e o harmonioso contorno do seu braço arqueado sobre o seio.
Os longos cabellos louros, enrolados negligentemente em ricas tranças, descobrião a fronte alva, e cahião em volta do pescoço presos por uma resilha finissima de fios de palha côr de ouro, feita com uma arte e perfeição admiravel.
A mãozinha afilada, brincava com um ramo de acacia que se curvava carregado de flores; e ao qual de vez em quando segurava-se para imprimir á rede uma doce oscillação.
Esta moça era Cecilia.
O que passava nesse momento em seu espirito infantil é impossivel descrever; o corpo cedendo á languidez que produz uma tarde calmosa, deixava que a imaginação corresse livre.
Os sopros tepidos da brisa que vinhão impregnados dos perfumes das madre-silvas e das açucenas agrestes, ainda excitavão mais esse enlevo e bafejavão talvez nessa alma innocente algum pensamento indefinido, algum desses mythos de um coração de moça aos dezoito annos.
Ella sonhava que uma das nuvens brancas que passavão pelo céo anilado, roçando a ponta dos rochedos se abria de repente; e um homem vinha cahir a seus pés timido e supplicante.
Sonhava que córava; e um rubor vivo accendia o rosado de suas faces; mas a pouco e pouco esse casto enleio ia se desvanecendo, e acabava n'um gracioso sorriso que sua alma vinha pousar nos labios.
Com o seio palpitante, toda tremula e ao mesmo tempo contente e feliz, abria os olhos; mas voltava-os com desgosto, porque, em vez do lindo cavalheiro que ella sonhara, via a seus pés um selvagem.
Tinha então, sempre em sonho, um desses assomos de colera de rainha offendida, que fazia arquear as sobrancelhas louras, e bater sobre a relva a ponta de um pézinho de menina.
Mas o escravo supplicante erguia os olhos tão magoados, tão cheios de preces mudas e de resignação, que ella sentia um quer que seja de inexprimivel, e ficava triste, triste, até que fugia e ia chorar.
Vinha porém o seu lindo cavalheiro, enxugava-lhe as lagrimas, e ella sentia-se consolada, e sorria de novo; mas conservava sempre uma sombra de melancolia, que só a pouco e pouco o seu genio alegre conseguia desvanecer.
Neste ponto do seu sonho, a por tinha interior do jardim abrio-se, e outra moça, roçando apenas a gramma com o seu passo ligeiro, aproximou-se da rede.
Era um typo inteiramente differente do de Cecilia; era o typo brazileiro em toda a sua graça e formosura, com o encantador contraste de languidez e malicia, de indolencia e vivacidade.
Os olhos grandes e negros, o rosto moreno e rosado, cabellos pretos, labios desdenhosos, sorriso provacador, davão a este rosto um poder de seducção irresistivel.
Ella parou em face de Cecilia meio deitada sobre a rede, e não pôde furtar-se á admiração que lhe inspirava essa belleza delicada, de contornos tão suaves; e uma sombra imperceptivel, talvez de um despeito, passou pelo seu rosto; mas esvaeceo-se logo.
Sentou-se n'uma das bandas da rede, reclinando sobre a moça para beija-la ou ver se estava dormindo.
Cecilia, sentindo um estremecimento, abrio os olhos e fitou-os em sua prima.
—Preguiçosa!... disse Isabel sorrindo.
—É verdade! respondeo a moça, vendo as grandes sombras que projectavão as arvores; está quasi noite.
—E desde o sol alto que dormes, não é assim? perguntou a outra gracejando.
—Não, não dormi nem um instante; mas não sei o que tenho hoje que me sinto triste.
—Triste! tu Cecilia! não creio; era mais facil não cantarem as aves ao nascer do sol.
—Está bem! não queres acreditar!
—Mas vem cá! Porque razão has de estar triste, tu que durante todo o anno só tens um sorriso, tu que és alegre e travessa como um passarinho?
—É para vêres! Tudo cança neste mundo.
—Ah! comprehendo! Estás enfastiada de viver aqui nestes ermos.
—Já me habituei tanto a ver essas arvores, esse rio, esses montes, que quero-lhes como se me tivessem visto nascer.
—Então o que é que te faz triste?
—Não sei; falta-me alguma cousa.
—Não vejo o que possa ser. Sim?... já adevinho!
—Adevinhas o que? perguntou Cecilia admirada.
—Ora! o que te falta.
—Si eu mesma não sei! disse a moça sorrindo.
—Olha, respondeo Isabel; alli está a tua rola esperando que a chames, e o teu veadinho que te olha com os seus olhos doces; só falta o outro animal selvagem.
—Pery! exclamou Cecilia rindo-se da idéa de sua prima.
—Elle mesmo! Só tens dous captivos para fazeres as tuas travessuras; e como não vês o mais feio, e o mais desengraçado, estás aborrecida.
—Mas agora me lembro, disse Cecilia, tu já o viste hoje?
—Não; nem sei o que é feito delle.
—Sahio antes de hontem á tarde; não vá ter-lhe succedido alguma desgraça! disse a moça estremecendo.
—Que desgraça queres tu que lhe possa succeder? Não anda elle todo o dia batendo o matto, e correndo como uma fera bravia?
—Sim; mas nunca lhe succedeu ficar tanto tempo fora, sem voltar á casa.
—O mais que póde acontecer, é terem-lhe apertado as saudades da sua vida antiga e livre.
—Não! exclamou a moça com vivacidade; não é possivel que nos abandonasse assim!
—Mas então que pensas que andará fazendo por este sertão?
—É verdade!... disse a moça preoccupada.
Cecilia ficou um momento com a cabeça baixa, quasi triste; nesta posição, a vista cahio sobre o veado, que fitava nella a sua pupilla negra com toda a languidez e suavidade, que a natureza puzera em seus olhos.
A moça estendeu a mão, e deo com a ponta dos dedos um estalinho, que fez o lindo animal saltar de alegria e vir pousar a cabeça no seu regaço.
—Tu não abandonarás tua senhora, não é? disse ella passando a mão sobre o seu pello assetinado.
—Não faças caso, Cecilia, replicou Isabel reparando na melancolia da moça; pedirás a meu tio para caçar-te outro que farás domesticar, e ficará mais manso do que o teu Pery.
—Prima, disse a moça com um ligeiro tom de reprehensão, tratas muito injustamente esse pobre indio que não te fez mal algum.
—Ora, Cecilia, como queres que se trate um selvagem que tem a pelle escura e o sangue vermelho? Tua mãi não diz que um indio é um animal como um cavallo, ou um cão?
Estas ultimas palavras forão ditas com uma ironia amarga, que a filha de Antonio Mariz comprehendeu perfeitamente.
—Isabel!... exclamou ella resentida.
—Sei que tu não pensas assim, Cecilia; e que o teu bom coração não olha a côr do rosto para conhecer a alma. Mas os outros?... Cuidas que não percebo o desdem com que me tratão?
—Já te disse por vezes que é uma desconfiança tua; todos te querem, e te respeitão como devem.
Isabel abanou tristemente a cabeça.
—Vai-te bem o consolar-me; mas tu mesmas tens visto, si eu tenho razão.
—Ora, um momento de zanga de minha mãi...
—É um momento bem longo, Cecilia! respondeo a moça com um sorriso amargo.
—Mas escuta, disse Cecilia passando o braço pela cintura de sua prima e chamando-a a si, tu bem sabes que minha mãi é uma senhora muito severa mesmo para comigo.
—Não te cances, prima; isto só serve para provar-me ainda mais o que já te confessei: nesta casa só tu me amas, os mais me desprezão.
—Pois bem, replicou Cecilia, eu te amarei por todos; não te pedi já que me tratasses como irmã?
—Sim! e isto me causou um prazer, que tu não imaginas. Si eu fosse tua irmã!...
—E porque não has de se-lo? Quero que o sejas!
—Para ti, que para elle...
Esteellefoi murmurado dentro d'alma.
—Mas olha que exijo uma cousa.
—O que é? perguntou Isabel.
—É que eu serei a irmã mais velha.
—Apezar de seres mais moça?...
—Não importa! Como irmã mais velha, tu me deves obedecer?
—De certo, respondeu a prima sem poder deixar de sorrir.
—Pois bem! exclamou Cecilia beijando-a na face, não te quero ver triste, ouviste? Senão fico zangada.
—E tu não estavas triste ha pouco?
—Oh! já passou! disse a moça saltando ligeiramente da rede.
Com effeito, aquella doce languidez com que se embalançava ha pouco, scismando em mil cousas, tinha desapparecido completamente: seu genio de menina alegre e feiticeira havia cedido um momento ao enlevo, mas voltava de novo.
Era agora como sempre uma moça risonha e faceira, respirando toda a graciosa gentileza, misturada de innocencia e estouvamento, que dão o ar livre e a vida passada no campo.
Erguendo-se, apinhou em botão de rosa os labios vermelhos e imitou com uma graça encantadora os arrulhos doces da jurity; immediatamente a rola saltou dos galhos da acacia, e veio aninhar-se no seu seio, estremecendo de prazer ao contacto da mãozinha que alisava a sua penugem macia.
—Vamos dormir, disse ella á rola com a garridice com que as mãis fallão aos filhinhos recem-nascidos: a rolinha está com somno, não é?
E deixando sua prima um momento só no jardim, foi agasalhar os seus dous companheiros de solidão, com tanto carinho e sollicitude que bem revelava a riqueza de sentimento que havia no fundo desse coração, envolta pela graça infantil de seu espirito.
Nesta occasião ouvio-se um tropel de animaes perto da casa; Isabel lançou os olhos sobre as margens do rio, e vio uma banda de cavalleiros que entravão a cerca.
Soltou um grito de surpreza, de alegria e susto ao mesmo tempo.
—Que é? perguntou Cecilia correndo para sua prima.
—São elles que chegão.
Elles quem?
—OSr.Alvaro e os outros.
—Ah!... exclamou a moça corando.
—Não achas que voltarão muito depressa? perguntou Isabel sem reparar na perturbação de sua prima.
—Muito; quem sabe se houve alguma cousa!
—Dezenove dias apenas... disse Isabel maquinalmente.
—Contaste os dias?
—É facil! respondeo a moça corando por sua vez; depois de amanhã fazem tres semanas.
—Vamos a ver que lindas cousas elles nos trazem!
—Nos trazem? repetio Isabel carregando sobre a palavra com um tom de melancolia.
—Nos trazem, sim; porque eu encommendei um fio de perolas para ti. Devem ir-te bem as perolas, com tuas faces côr de jambo! Sabes que eu tenho inveja do teu moreninho, prima?
—E eu daria a minha vida para ter a tua alvura, Cecilia.
—Ai! o sol está quasi a se pôr! vamos.
E as duas moças tomárão pelo interior da casa, dirigindo-se ao lado da entrada.