IIO SACRIFICIO
Pery comprehendêra o gesto da india; não fez porém o menor movimento para segui-la.
Fitou nella o seu olhar brilhante e sorrio.
Por sua vez a menina tambem comprehendeu a expressão daquelle sorriso e a resolução firme e inabalavel que se lia na fronte serena do prisioneiro.
Insistio por algum tempo, mas debalde. Pery tinha atirado para longe o arco e as flechas, e recostando-se ao tronco da arvore, conservava-se calmo e impassivel.
De repente o indio estremeceu.
Cecilia apparecêra no alto da esplanada, e lhe acenára; sua mãozinha alva e delicada agitando-se no ar parecia dizer-lhe que esperasse; Pery julgou mesmo ver no rostinho gentil de sua senhora, apezar da distancia, brilhar um raio de felicidade.
Quando com os olhos fitos naquella graciosa visão elle esforçava-se por adivinhar a causa de tão subita alegria, a india soltou um segundo grito selvagem, um grito terrivel.
Tinha pela direcção do olhar do prisioneiro visto Cecilia sobre a esplanada; tinha percebido o gesto da menina, e comprehendêra vagamente a razão por que Pery recusára a liberdade e o seu amor. Precipitou-se sobre o arco que estava atirado ao chão; mas apezar da rapidez desse movimento, quando ella estendia a mão, já Pery tinha posto o pé sobre a arma.
A selvagem, com os olhos ardentes, os labios entreabertos, tremula de ciume e de vingança, levantou sobre o peito do indio a faca de pedra com que lhe cortara os laços ha pouco; mas a arma cahio-lhe da mão, e vacillando apoiou-se no seio que ameaçára.
Pery tomou-a nos braços, deitou-a sobre a relva, e sentou-se de novo junto ao tronco da arvore, tranquillo a respeito de Cecilia, que desapparecêra da esplanada e estava fora de perigo.
Era a hora em que a sombra das montanhas sobe ás encostas, e o jacaré deitado sobre a arêa se aquece aos raios do sol.
O ar estrugio com os sons roucos da inubia e do maracá; ao mesmo tempo um canto selvagem, o canto guerreiro dos Aymorés, misturou-se com a harmonia sinistra daquelles instrumentos ásperos e retumbantes.
A india deitada junto da arvore sobresaltou-se; e erguendo-se rapidamente, acenou ao prisioneiro mostrando-lhe a floresta e supplicando-lhe que fugisse. Pery sorrio como da primeira vez; tornando a mão da menina a fez sentar perto delle, e tirou do pescoço a cruz de ouro que Cecilia lhe havia dado.
Então começou entre elle e a selvagem uma conversa por acenos de que seria difficil dar uma idéa.
Pery dizia á menina que lhe dava aquella cruz como uma lembrança, mas que só depois que elle morresse é que devia tira-la do pescoço. A selvagem entendeu ou julgou entender o que Pery procurava exprimir symbolicamente, e beijou-lhe as mãos em signal de reconhecimento.
O prisioneiro obrigou-a a atar de novo os laços que o ligavão, e que ella no seu generoso impulso de dar-lhe a liberdade havia desfeito.
Nesse momento quatro guerreiros Aymorés dirigirão-se á arvore em que se achava Pery; e segurando as pontas da corda o conduzirão ao campo, onde tudo estava já preparado para o sacrificio.
O indio ergueu-se e caminhou com o passo firme e a fronte alta diante dos quatro inimigos, que não percebêrão o olhar rapido que nessa occasião elle lançou ás pontas da sua tunica de algodão, torcidas em dous nós pequenos.
O campo cortado em ellipse no meio das arvores estava cercado por cento e tantos guerreiros armados em guerra e cobertos de ornatos de pennas.
No fundo as velhas pintadas de listras negras e amarellas, de aspecto horrido, preparavão um grande brasido, lavavão a lage que devia servir de mesa, e afiavão as suas facas de ossos e lascas de pedra.
As moças grupadas de um lado guardavão os vasos cheios de vinho e bebidas fermentadas, que offerecião aos guerreiros quando estes passavão diante dellas entoando o canto de guerra dos Aymorés.
A menina que fôra incumbida de servir ao prisioneiro, e o acompanhára ao lugar do sacrificio, conservava-se a alguma distancia, e olhava tristemente todo esses preparativos; pela primeira vez seu instincto natural parecia relevar-lhe a atrocidade desse costume tradicional de seus pais, a que ella tantas vezes assistira com prazer.
Agora que ia representar como heroina no drama terrivel, e como esposa do prisioneiro devia acompanha-lo até o momento supremo, insultando-lhe a dôr e a desgraça, o seu coração confrangia-se; porque realmente amava Pery, tanto quanto amar era possivel a uma natureza como a sua.
Chegados ao campo, os selvagens que conduzião o prisioneiro passárão as pontas da corda ao tronco de duas arvores, e esticando o laço o ohrigárão a ficar immovel no meio do terreiro. Os guerreiros desfilárão em roda entoando o canto da vingança; as inubias retroárão de novo; os gritos confundirão-se com o som dos maracás, e tudo isto formou um concerto horrivel.
Á medida que se animavão, a cadencia apressava-se, de modo que a marcha triumphal dos guerreiros se tornava uma dansa macabria, uma corrida veloz, uma valsa fantastica, em que todos esses vultos horrendos, cobertos de pennas que brilhavão á luz do sol, passavão como espiritos satanicos envoltos na chamma eterna.
A cada volta que fazia esse sabbat, um dos guerreiros destacava-se do circulo, e adiantando-se para o prisioneiro o desafiava ao combate, e conjurava-o a que désse provas de sua coragem, de sua força e de seu valor.
Pery, sereno e altivo, recebia com um soberbo desdem a ameaça e o insulto, e sentia um certo orgulho pensando que no meio de todos aquelles guerreiros fortes e armados, elle, o prisioneiro, o inimigo que ia ser sacrificado, era o verdadeiro, o unico vencedor.
Talvez pareça isto incomprehensivel; mas o facto é que Pery o pensava, e que só o segredo que elle guardava no fundo de sua alma podia explicar a razão desse pensamento e a tranquillidade com que esperava o supplicio.
A dansa continuava no meio dos cantos, dos alaridos e das constantes libações, quando de repente tudo emmudeceo, e o mais profundo silencio reinou no campo dos Aymorés.
Todos os olhos se voltárão para uma cortina de folhas que occultava uma especie de cabana selvagem, construida a um lado do campo em face do prisioneiro.
Os guerreiros se afastárão, as folhas se abrirão, e entre aquellas franjas de verdura assomou o vulto gigantesco do velho cacique. Duas pelles de tapir ligadas sobre os hombros cobrião seu corpo como uma tunica; um grande cocar de pennas escarlates ondeava sobre a sua cabeça, e realçava-lhe a grande estatura.
Tinha o rosto pintado de uma cor esverdeada e oleosa, e o pescoço cingido de uma colleira feita com as pennas brilhantes do tucano; no meio desse aspecto horrendo os seus olhos brilhavão como dous fogos vulcanicos no seio das trevas. Trazia na mão esquerda a tagapema coberta de plumas resplandecentes, e amarrada ao punho direito uma especie de busina formada de um osso enorme da canella de algum inimigo morto em combate.
Chegando á entrada do campo o velho selvagem levou á bocca o seu instrumento barbaro, e tirou delle um som estrondoso; os Aymorés saudárão com gritos de alegria e de enthusiasmo o apparecimento do vencedor.
Ao cacique cabia a honra de ser o algoz da victima, o matador do prisioneiro; seu braço devia consummar a grande obra da vingança, esse sentimento que constituia para aquelles povos fanaticos a verdadeira gloria.
Apenas cessárão as acclamações com que foi acolhida a entrada do vencedor, um dos guerreiros que o acompanhavão adiantou-se e fincou na extrema do campo uma estaca destinada a receber a cabeça do inimigo, logo que ella fosse decepada do corpo.
Ao mesmo tempo a joven india que servia de esposa ao prisioneiro, tirou o tacape que pendia do hombro de seu pai, e caminhando para Pery desligou-lhe os braços e offereceu-lhe a arma, fitando nelle um olhar triste, ardente e cheio de amarga exprobação.
Nesse olhar dizia-lhe que se tivesse aceitado o amor que lhe offerecêra, e com o amor a vida e a liberdade, ella não seria obrigada pelo costume tradicional de sua nação a escarnecer assim da sua morte.
Com effeito esse offerecimento que os selvagens fazião ao prisioneiro de uma arma para se defender, era uma ironia cruel; ligado pelo laço que o prendia, immovel pela tensão da corda, de que lhe servia vibrar otacapeno ar, se não podia attingir os inimigos?
Pery aceitou a arma que a menina lhe trazia; calcando-a aos pés cruzou os braços e esperou o cacique, que avançava lentamente, terrivel e ameaçador.
Chegado em face do prisioneiro, a physionomia do velho esclareceu-se com um sorriso feroz, reflexo dessa embriaguez do sangue, que dilata as narinas do jaguar prestes a saltar sobre a presa.
—Sou teu matador! disse em guarany.
Pery não se admirou ouvindo a sua bella lingua adulterada pelos sons roucos e guturaes que sahião dos labios do selvagem.
—Pery não te teme!
—És Goytacaz?
—Sou teu inimigo!
—Defende-te!
O indio sorrio:
—Tu não mereces.
Os olhos do velho fuzilárão de raiva: a mão cerrou o punho da tagapema; mas elle reprimio logo o assomo da colera.
A esposa do prsioneiro atravessou o campo e offereceu ao vencedor um grande vaso de barro vidrado cheio de vinho de ananaz ainda espumante.
O selvagem virou de um trago a bebida aromatica, e endireitando o seu alto talhe, lançou ao prisioneiro um olhar soberbo:
—Guerreiro Goytacaz, tu és forte e valente; tua nação é temida na guerra. A nação Aymoré é forte entre as mais fortes, valente entre as mais valentes. Tu vais morrer.
O côro dos selvagens respondeu a essa especie de canto guerreiro, que preludiava o tremendo sacrificio.
O velho continou:
—Guerreiro Goytacaz, tu és prisioneiro; tua cabeça pertence ao guerreiro Aymoré; teu corpo aos filhos de sua tribu; tuas entranhas servirão ao banquete da vingança. Tu vais morrer.
Os gritos dos selvagens respondêrão de novo: e o canto se prolongou por muito tempo lembrando os feitos gloriosos da nação Aymoré, e as acções de valor de seu chefe.
Emquanto o velho fallava, Pery o escutava com a mesma calma e impassibilidade; nem um dos musculos do seu rosto trahia a menor emoção; seu olhar limpido e sereno ora fitava-se no rosto do cacique, ora volvia-se pelo campo examinando os preparativos do sacrificio.
Apenas quem o observasse veria que de braços cruzados como estava, uma das mãos desfazia imperceptivelmente um dos nós que havião na ponta de seu saio de algodão.
Quando o velho acabou de fallar encarou o prisioneiro, e recuando dous passos elevou lentamente a pesada clava que empunhava na mão esquerda. Os Aymorés anciosos esperavão; as velhas com as suas navalhas de pedra estremecião de impaciencia; as jovens indias sorrião, emquanto a noiva do prisioneiro voltava o rosto para não ver o espectaculo horrivel que ia apresentar-se.
Nesse momento Pery levando as duas mãos aos olhos cobrio o rosto, e curvando a cabeça ficou algum tempo nessa posição, sem fazer um movimento que revelasse a menor perturbação.
O velho sorrio.
—Tens medo!
Ouvindo estas palavras, Pery ergueu a cabeça com ar senhoril. Uma expressão de jubilo e serenidade irradiava no seu rosto, dir-se-hia o extasi dos martyres da religião que na ultima hora, através do tumulo, entrevêm a felicidade suprema.
A alma nobre do indio prestes a deixar a terra parecia exhalar já do seu involucro; e pousando nos seus labios, nos seus olhos, na sua fronte, esperava o momento de lançar-se no espaço para ir se abrigar no seio do Creador.
Erguendo a cabeça, fitou os olhos no céo, com se a morte que ia cahir sobre elle fosse uma visão encantadora que descesse das nuvens sorrindo-lhe. Era que nesse ultimo sonho da existência via a linda imagem de Cecilia, feliz, alegre e contente; via sua senhora salva.
—Fere!... disse Pery ao velho cacique.
Os instrumentos retumbarão de novo; os gritos e os cantos se confundirão com aquelles sons roucos, e rebóarão pela floresta como o trovão rolando pelas nuvens.
A tagapema coberta de plumas gyrou no ar scintillando aos raios de sol que ferião as côres brillantes.
No meio desse turbilhão ouvio-se um estrondo, uma ancia de agonisante e o baque de um corpo: tudo isto confusamente, sem que no primeiro instante se podesse perceber o que havia passado.