CAPITULO QUINTO

CAPITULO QUINTOOS CINCO GRUPOSDivisão da sociedade em cinco gruposExaminemos as coisas mais á beira. A sociedade não é toda formada de uma peça. Divide-se naturalmente em differentes grupos no discutir de seus interesses em este e no outro mundo. Religiosa e moralmente observada, podêmos dividil-a em cinco grupos.1.º O grupo dos philosophos, ou livres-pensantes como hoje se chamam—sugeitos que systematicamente regeitam a revelação, e por consequencia o inferno sem fim; todavia, desinteresseiros, estudiosos, graves e tractaveis com honra e confiança.2.º Longe d'estes a infinita distancia, e sem sombra de liga com os philosophos, está o grupo dos biltres professos, individuos relaxados, bandidos convictos, corruptos, desesperados.3.º Entre aquelle grupo de espiritos selectos e o das almas depravadas, mas entre si equidistantes, está o grupo immenso e indecomponivel dos indifferentes, dos tibios, dos duvidosos, dos espiritos futeis, dos espiritos inertes, dos espiritos acanhados, dos fura-vidas, dos pachorrentos—turba sem piedade nem philosophia, sem prática de casta alguma, vivendo de seu trabalho, das suas rendas ou officios, mais ou menos descançados—guardas nacionaes, jurados, eleitores, conselheiros de districto, e o mais. Estes são uns christãos que só vão á egreja quando ha enterro, casamento ou baptisado, ou ainda em dias deTe Deum, quando a posição official os obriga.4.º Ao lado e um tanto superior a este, está o grupo menos numeroso dos devotos; não dos hypocritas, que se ha de classificar no dos patifes, mas dos esforçados em praticar e que praticam, assim, mas com desinteresse, os mandamentos de Deus e da egreja. Estes vão á missa nos domingos, confessam-se ás vezes, e dão do seu gremio as irmandades e as confrarias.5.º Finalmente, o admiravel grupo dos justos, dos perfeitos christãos, dos santos, dos continuadores e verdadeiros imitadores da vida de Jesus.Vejamos se o dogma das penas eternas aproveita ás pessoas que formam aquelles differentes grupos.IO grupo dos philosophosOs philosophos crêem em Deus, crêem na liberdade e immortalidade da alma, na justiça, em todas as noções moraes derivativas d'aquellas primaciaes verdades. Em revelações sobrehumanas é que não acreditam.Ora, ameaças de inferno converterão tal gente? De quantos mysterios regeitam, o inferno é o mais incrivel; e tanto que irrita a propria fé, que, só abdicando o uso da razão, se submette. Dos philosophos não ha que esperar similhante sacrificio.Se o dogma do purgatorio vos aproxima d'elles, o inferno, barreira que vos separa de tudo que raciocina, alonga-os de vós.IIO grupo dos corruptosQue lucram as pessoas de bem que esses patifes creiam no inferno? Está com isso a sociedade mais segura? E tal crença de que lhes serve a elles? O que os incommoda não é o diabo, é a policia; inquieta-os mais o degredo que o inferno.Vá lá!—dizem elles—venha o inferno que nãonos ha de faltar boa camaradagem! Quantas pessoas toparemos lá d'umas que n'este mundo se empavonavam todas, e não queriam rossar-se por nós! Havemos de vêl-os lá, mais apoquentados e castigados do que nós, esses patetas condemnados por pensamentos e palavras, por coisa nenhuma. Quanto á pessoa d'elles, tanto monta como a nossa, pois que hão de ser tão condemnados como nós. Não ha dois infernos, parceiros; ha um. Lá nos esbarraremos com capitalistas, com fidalgos, com duquezas, com comicas. Andaremos á ilharga dos juizes, dos quadrilheiros, dos escrivães, dos jurados e melhor ainda—viva a patuscada!—com deputados, com camaristas reaes, com bispos, com abbadessas, com principes e princezas, reis e rainhas. Venha o inferno! é tentador lá ir com tal sucia.Tal é o raciocinio dos desalmados e a influencia que tem sobre elles aquella extravagante justiça, que nenhuma proporção gradua entre delictos e crimes, condemnando para sempre quem peccou uma hora, e o scelerado de toda a vida.IIIO grupo dos indifferentes, etc.Estas pessoas cuidam em ser felizes com o auxilio da honestidade; pelo quê, se abstem do mal que o codigo define. Pelo que respeita aos sete peccados mortaes, não se preoccupam d'isso. Dizer que todos sejam invejosos, avarentos, luxuriosos, e o mais, seria mentir. N'esse innumeravel grupo abundam negociantes honrados, meninas castas, esposas fieis, pobres sem inveja, ignorantes modestos, ricos bemfazejos, e muitas abelhas para cada zangão; mas perfeito ahi não ha ninguem; ninguem ahi vive em graça; o melhor do rancho é aquelle a quem Deus, no dia do juizo, só accusar de ter violado sem escrupulo todos os mandamentos da Egreja. Mas, com esse só peccado na consciencia, o melhor do rancho será condemnado.Se o roubo e o homicidio são raros n'essa assemblêa, não procede isso do medo do inferno. Ahi é bastante motivo para condemnação uma folha de papel escripta, um «sim» apenas balbuciado e ouvido, um lance d'olhos, uma flor murcha, e essa, onde entra amor—amor no peccado, meu Deus!—é de todas as condemnações a que mais piedade desperta. Porém, n'esse immenso circulo, onde tudo pecca, cada qual se condemna á sua vontade: um por fastio; outro por vaidade, este por curioso, aquelle por pusillanime; condemna-seum por um casal, outro por uma venera, por um acepipe, por um prato de lentilhas, por um penacho, por uma fitinha, por um trapo, por trinta contos, por trinta reis. Condemna-se este a trabalhar, aquelle a passear, um a comer, outro a jejuar, a ler, a dansar, a palestrar, a meditar, a vestir, a despir, desde a aurora até ao escurecer, desde a noite até ao dia, todos se condemnam a bel-prazer.Distinguem-se lá os peccados que Deus pune indistinctamente. Permittem-se os que Deus castiga até com eternas penas, quando é elle só quem pune; recua-se, porém, dos que Deus castiga e a sociedade tambem. Não se diga pois que o inferno atalha os crimes dos indifferentes. Tambem ahi é manifestamente esteril similhante crença. O que se teme é o vigia, a patrulha, o commissario da policia, essas personificações vulgares, mas terriveis da opinião e da lei. Temem-se as algemas, o carcereiro, a masmorra, e ainda mais á mistura com os scelerados. Por muito dura e inevitavel que se figure, a pena material não os conterá sempre quando a paixão os esporêa. Do mesmo modo que affrontam o inferno, affrontariam a cadêa e até a forca, se a forca estivesse ás escuras; porém a vergonha, o estrondo da queda, é para o maior numero a pena intoleravel. Seriam capazes de desafiar carrascos e diabos; e não ousariam encarar o desprezo do amigo, do visinho, do estranho, do transeunte, do mendigo; não lhes faz grande mossa a ignominia diante de sua mãe ou de seus filhos, e tremem de se vêr baralhados comcreaturas devassas que são máos sem repugnancia, e medram no mal como em seu nativo elemento.Ha d'elles, porém, que se forram ao mal, contidos por sentimento ainda mais nobre que o medo da opinião. Esquivam-se, não do peccado mortal, mas do maleficio que a sociedade civil pune ou reprova: afasta-os d'isso com asco um natural sentimento, sem esforço. Educação e habitos fortaleceram esses bons instinctos. Não são perfeitos, mas são probos, sinceros, generosos, capazes de grandes sacrificios occasionalmente. Com certos deveres nunca especulam. Denotam que a si se respeitam, que a propria estima se lhes faz precisa, ainda mais que a da sociedade, facil de transviar-se. E bem que não sejam philosophos nem devotos, sentem vivamente a dignidade de seu ser. É certo que este sentir lhes seria mais delicado e firme, se abrangessem as perspectivas da vida futura, em vez de concentrar-se cá; mas é forçoso aceitar os indifferentes quaes são; e tanto entre os peores como entre os melhores, a vida futura não é movel nem empêço: é uma coisa esquecida.IVO grupo dos devotosSerá medo do inferno que impede os devotos de matar, de roubar, de se retoiçarem, como javardos, no lamaçal dos sentidos? Crer-se-ha que elles de persi sejam insensiveis á honra, ao opprobio, e aos mais freios moraes e nobres estimulos que regulam a ordem e andamento das sociedades temporaes? Ririam elles das galés e até da forca? Seriam elles, em verdade, infames da ultima ralé, se não receassem a condemnação?Se ha ahi tal raça de christãos, confesso que eu não confiaria d'elles nada, nem a minha bolsa, nem minha mulher, nem o meu segredo, nem eu mesmo adormeceria socegado entre elles. D'um scelerado a um devoto d'esta laia a distancia é tão curta que os meus pobres olhos não na enxergam. Dizem que ha uns pessimos soldados que, á vista do inimigo, olham para traz e só marcham para a frente com a bayoneta nos rins. E, se os não vigiaes, eil-os que desertam; e, até quando se batem, albergam a perfidia no coração. Pois bem: aquelles devotos são peores que os soldados tredos, por que destemem os homens e os juizos humanos, e os supplicios que os homens inventaram. O que elles sómente receiam é o fogo eterno, uma pena á qual se foge mediante a confissão. Ageitado o ensejo, roubam-vos, atraiçoam-vos, matam-vos, com a certeza de serem absolvidos occultamente, por umamêa culpâ. Desgraçadamente é certo que a crença no inferno ha gerado monstros assim; a europa barbara tem milhares d'elles; ha bastantes para lá dos montes, e bem póde ser que mesmo cá; senão vejam aquelle devoto padre, cuja historia as gazetas contaram ha pouco: era um padre que matava todos osseus filhos no berço para se forrar ao incommodo de os crear; mas é provavel que os baptisasse, com o receio de que se perdessem. Eu de mim não quero chamar christãos, nem sequer homens, a taes feras. Deus nos livre de encontrar similhantes christãos em uma serra por noite de luar.A honestidade d'estes meus devotos custa-lhes pouco; são creaturinhas que podem ver a felicidade dos outros sem sentirem cocegas de lh'a empalmar; não roubam nem matam por que a forca os embaraça, e a opinião dos homens ainda mais; pessoas, em fim, que tem mais mêdo ao crime que aos castigos correspondentes. Taes são os meus devotos. Devotos denomino eu todos os leigos que não duvidam, nem são indifferentes, nem se esquecem de ir á missa, nem deixam de confessar-seao menos uma vez cada anno. É verdade que eu não os incampo a ninguem como anginhos já cosinhados para a canonisação. Se elles não andassem por igrejas com tanta regularidade, não sei bem como estremal-os, quanto ao seu proceder, do bando dos indifferentes. Não são elles os derradeiros a informar-se d'onde sopra o vento, onde aquece o sol, e onde está o idolo do dia para o saudarem, nem tambem são os ultimos a apedrejar o idolo da vespera. Quantas villanias sobre-douradas e quantas villanias bem nuas e patentes lhes não attrahem as barretadas, e os cumprimenteiros sorrisos! Como elles se curvam deante do que desprezam! Que impio acatamento prestam á força, e até, com medo de se enganarem,ás apparencias da força! Que vulgares mexericos, que vulgares ambiçõezinhas, que exemplarissimas ingratidões!Não os accuseis de hypocritas, que elles são sinceros, não fazem momices, vão ás procissões com a melhor boa fé, assistem ás festas do Mez de Maria, tem rosario, agnus-Dei, e penduram no pescoço medalhinhas de cinco reis carregadas de indulgencias. E, assim mesmo apezar da sua boa fé em medalhas, é bonito vêl-os, em sua casa, evitar o escandalo com melhor exito, e mais vigilancia que o peccado. E nem assim o evitam. Se sois curiosos, apanhai-m'os no ultimo degráo da escada, ahi por perto do altar: vereis o conego ás más com o deão; o sineiro bate na mulher; o sacristão tem má lingua; um juiz de irmandade casa a filha violentada com um velho, e dá cabo d'ella; outro, á sobre-meza, faz-se truão de chalaças de ebrio; e é de natureza tal, que a mulher por certas razões não admitte em casa creadas que não tenham edade e figura bastante canonicas, capazes de edificarem um mosteiro de bernardos; lá está um que é rico, mas economico, e d'isso estão os pobres tristemente convencidos. Ora, a esses peccados habituaes ajuntem, se quizerem, os peccados de occasião, e digam-me como se distinguem, por suas obras, o commum dos indifferentes do commum dos devotos.Quereis subir ao primeiro degráo da escada? Luiz XI era devoto; Diana de Poitiers era devota; Brantôme devoto era; tambem era devota aquella regentede França que empregava as suas damas a seduzir, quero dizer, a converter os jovens huguenots e os velhos tambem. Todo o seculo XVII foi devoto, incluindo os cavalleiros farçolas, os bandidos, os abbades galans e os abbades demoniacos, os aváros e os glotões, os orgulhosos e os abjectos, as marquezas adulteras e os duques medianeiros, os magistrados venaes e as princezas aventureiras. Todos esses tinham bancada na egreja, iam aos sermões e discutiam ardentes sobre a materia da graça. Os amantes arrufavam-se na quaresma e faziam as pazes depois de Pascoa. Madame de Montespan, na côrte, cuidava em salvar-se, e ninguem quizesse obrigal-a a comer, á sexta feira, uma aza de borracho; o que ella então comia era salmão, lagostins, esperregado e pastelinhos de leite. Madame de Sévigné, uma das mais honestas e amaveis senhoras d'aquelle tempo, tambem devota, lia osContos de La Fontaine, e ficava-se a rir com elles e mais a filha. O inferno era como se nada fosse n'essas coisas. Quem desgraçadamente pensava muito n'elle, enterrava-se no claustro, como Mr. de Rancé e M.ellede La Vallière; mas, pelo ordinario, havia pouco quem se debruçasse a espreitar o tal abysmo; e quem se desse a esses exames sahia impertinente, misanthropo e jansenista. Fallava-se do inferno; mas sem reflectir grande coisa; encaravam-no pela casca. O grande caso era rir, cortejar o rei, agradar a todos, inclusivè a Deus, dando-lhe a vêr com infinita habilidade, espectaculos de devoção, de jogo, de ambição e... do mais.O tempo e as revoluções que tantas mudanças tem feito, não mudaram o coração humano. Os devotos não são tantos como d'antes, mas são da mesma estôfa, e tanto montam estes como os outros, vistos a vulto. Relaxação extrema em fidalgos e populaça; sêde ardentissima de enriquecer; sordidissimos orgulhos; amores desatinados; paixões eriçadas de remordentes espiritos e blandiciadas de prazeres! Deus me defenda de calumniar peccadores a cheirarem ao incenso das igrejas! Bourdaloue, que os conhecia, e os demais prégadores assim antigos que modernos, disseram d'elles mais mal do que eu. O que sei é que o medo não faz bons aquelles que o bem, só de per si, não convida. O pejo do peccado poderá restaurar os cahidos; mas o medo, depois do peccado, é de todo o ponto inutil.Não esqueçamos, porém, que ha devotos quasi irreprehensiveis, os quaes, sem serem heroes nem se destinarem a tanto, cumprem, sem desfallecer, a modesta missão que lhes quadra sobre a terra. São bemfazejos em pequena escala; restringem-se a pouco mais de sua casa; quanto muito, chegam até á visinhança; e, se por vezes, a mão caridosa ultrapassa estes limites proveitosamente, de novo se retrahe ao seu limite, onde está a maior formosura e grandeza de sua missão. Estes devotos não se distinguem dos outros por grande assuidade nos templos; o que os differencêa é o serem esmoleres; e mais visivelmente se estremam por se absterem do mal. Não são rixosos nem maldizentes:tem ainda mais caridade na lingua do que nas mãos, por que ella os serve com inexhauriveis riquezas. D'aquelles peccados mortaes que a sociedade chama fraquezas, e em que diariamente as pessoas piedosas resvalam sem morrerem d'isso, fogem elles como d'um grande delicto. Amam a verdade, a ordem, a continencia, o pudor, a sobriedade, como vós amais a justiça. E, comquanto não descream do eterno fogo, a luz que os guia não esplende do inferno, vem de cima; no ceo é que elles a buscam em seu peregrinar; e assim vão alentados pela esperança e não pelo medo.VO grupo dos santosChegados somos aos bemfeitores dos homens, verdadeiros imitadores de Jesus, entes mortaes mais proximos da perfeição, as irmãs da caridade, os padres virtuosos, quantos se consagram a servir pobres, infermos, ignorantes; quantos sacrificam, não esterilmente, mas ás nossas precisões, seus teres, belleza, juventude, affeições domesticas, vigor, saude, esperanças e quantas venturas terrenas ahi ha. Bem sei que todos esses crêem no inferno; mas não são regidos por tal crença; nada tem que vêr o seu proceder com ella; temem-se de offender Deus, não por que Deus é vingativo, mas antes por que Deus perdôa; e esta crença verdadeiramentesalutar é uma das mais affectivas maneiras de amar.Se o temor leva ao deserto, o amor conduz aos homens; se o temor se fecha á chave para dentro de grades, o amor quer sempre abertas as portas. Quem envia ao martyrio os missionarios é o amor; quem dá mãe a orphãos, filhas aos anciãos, irmãs aos soldados feridos, mestres aos aldeãos, amigos aos penitentes, tutores aos innocentes, guias aos transviados, é o amor. Todo bem feito n'este mundo é o amor que o faz; e este amor, que transborda da alma dos santos, em si mesmo haure sua fecundidade e bemfazeja energia.Permittam-me uma hypothese.Dê-se que um Concilio ecumenico se ajunta ámanhã, e declara, depois de haver invocado o Espirito Santo, que o inferno não é perpetuo, e que a palavra «eternidade», applicada ao castigo dos peccadores, significa tão sómente pena de infinita duração. Que ha de seguir-se a similhante proclamação? Imaginam que a irmã da caridade se retira logo do grabato do infermo, e se engolpha nas suas delicias mundanaes? Pensam que o benedictino, sacudindo o pó dos livros, se precipita na Bolsa? Que o joven lazarista, repatriando-se de regiões remotas, venderia o cajado e o breviario para ir ao theatro? Imaginam de boa fé que as irmãs da caridade se acabariam para logo? Se pensam isto, que idêa formam dessas bonissimas almas que os anjos e os homens admiram?Consoante ao vosso modo de as julgar, a irmã da caridade diria: Ah! Deus não é implacavel? Então fui louca em amal-o. Deus não condemna irremissivelmente os peccadores? Louca fui em servil-o. Pois que! n'aquella bemaventurada eternidade, que eu tanto anhelava, não hei de ouvir os gritos da raiva e o estridor dos dentes dos condemnados? Que é d'então dos encantos do paraiso? Meninos, procurem quem os eduque; anciãos, procurem quem os alimente. Orphãosinhos desamparados, vós pensaveis que nós eramos vossas mães e irmãs; cuidaveis que vos amavamos por causa de vosso infortunio, e por vos termos em conta de membros soffredores de Jesus Christo, nosso modêlo e nosso Deus. Desenganai-vos! desenganai-vos! Não era por amor que vos amparavamos, era por medo que vos serviamos como lividas escravas, covardemente flexiveis a todos os caprichos de um senhor imperioso. Mas agora, visto dizerem-nos que o inferno acaba, buscai quem vos ame e sirva. Cada qual por si. Acabou-se o medo; nada de mais sacrificios. Abaixo, tunicas de burel; abaixo, veos que nos escondieis volupias da terra, mas não as dôres, abaixo! A pureza não é enlevo que nos contenha; gemidos de pobres não nos engodam; queremos ter vez na taça do peccado; bebamos, que a vida é curta e o inferno ha de acabar.Não ha conjunctura em que eu ousasse attribuir similhante linguagem ás irmãs da caridade. Nunca! ainda quando, em um nefasto dia, fosse abolido o dogmasalutar da justiça divina; ainda quando pregoassem que tudo acaba no cemiterio, e que a sancção da moral está nos gosos e dôres deste mundo, as irmãs da caridade não fallariam assim. Se um concilio sahisse com aquellas decisões, regulal-o-hiam ellas.Como é que o dogma do purgatorio, com seus flagellos de duração ignorada, sempre consoantes á natureza e circumstancias do peccado, ás luzes e costumes do peccador,—como é que este dogma tão racional, certo, mysterioso e terrivel, poderia enfraquecer a virtude, e a virtude principalmente d'aquellas almas livres, viris e modestas, nas quaes o amor tem mais dominio que o medo?Crêde-me que é isso um demasiado aviltar a lama humana, que mostraes não conhecer; crêde-me. Se a Igreja ámanhã proclamasse a temporalidade das penas, nenhuma irmã da caridade deslisaria da sua fileira, nem um verdadeiro sacerdote abandonaria a sua grei, nem algum missionario acharia o Evangelho desataviado de excellencias que ensinar aos selvagens, nem a cruz radiaria menos, nem a palma dos martyres seria menos de invejar. Vêr-se-hia, ao invez e instantaneamente, encherem-se todas as igrejas, e justos e peccadores reunidos ao pé do altar, em um mesmo consenso de acção de graças, cantarem do fundo da alma:Te-Deum, laudamus, in te, Domine, speravi; non confundebar in æternum.FIM DA PRIMEIRA PARTE.SEGUNDA PARTEO INFERNO CONSIDERADO ÁLÉM-TUMULO, OS CONDEMNADOS NA PRESENÇA DE DEUS, NA PRESENÇA DOS SANTOS, E NA PRESENÇA DOS HOMENS.CAPITULO PRIMEIROO INFERNO DE PLATÃOAté agora consideramos o inferno sómente em relação aos resultados moraes que a crença de sua existencia tem produzido, produz e produzirá sempre n'este mundo. Já demonstramos que esta crença, fatal a quantos se compenetram d'ella, é inerte para os demais: é inutil aos verdadeiros virtuosos, por que não tem que ver com o bem que praticam, e tambem ao mal que não fazem; é inutil aos devotos e indifferentes, por que não os estorva de commetter basta dóse de peccados mortaes; e pelo que toca aos peccados que não commettem, tal abstenção explica-se em louvor d'elles, por motivos totalmente independentes das penas infernaes; é inutil para os philosophos, visto que estes a não acceitam; é, emfim, inutil aos scelerados,por que os não impede de ser scelerados; e, de mais a mais concorre, umas vezes, a precipital-os no crime, outras a empedernil-os na perversidade.Falta agora considerar o inferno, não em referencia á terra, mas pelo que elle é em si, qual os padres, doutores e mysticos o pintaram, isto é, nas suas relações com Deus, com os predestinados e com os reprobos. Mas, antes d'isso, cumpre-nos dizer alguma coisa das opiniões de Platão ácerca da justiça divina e do inferno. Será isto, a um tempo, entrar no assumpto, e responder aos theologos que, á mingua de razões, invocam de vontade, n'esta materia, a auctoridade de Ovidio, de Horacio, de Lucrecio, de Virgilio, de Hesiodo, de Orpheo, e d'outros escriptores de costumes sobre modo extravagantes que, a tal respeito, repetiram as idêas do antigo paganismo e nada mais.A opinião de Platão, que elles mais acintemente allegam, deriva da mesma fonte; mas, alumiada pela indole e pura vida d'aquelle philosopho, ostenta-se mais respeitavel e seductora.É mister, no dizer de Platão, que um castigo seja razoavel para ser justo; e para que seja razoavel, uma de duas clausulas é precisa: ou que o castigo aproveite ao castigado, ou ás testemunhas d'elle.Partindo d'este principio, Platão não prodigalisa, á feição dos nossos theologos, as penas eternas, por quanto, a seu parecer, falta n'ellas a grande virtude das penas temporarias. São estas, em verdade, dobradamente prestadias, pois que ao mesmo tempo corrigemo culpado e admoestam os espectadores; pelo contrario, as outras não corrigem o culpado e podem apenas admoestar os vivos que as conhecem: logo são menos prestantes e universaes e completas; falta-lhes aquella bemfazeja efficacia com que os deuses folgam de dulcificar as obras da sua justiça; digamol-o em pouco: são menos divinas.Eis-ahi porque Platão é aváro das penas eternas e perdoa ao maximo numero de peccadores, descontando-lhes os gemidos, lavando-os e purificando-os em suas proprias lagrimas, á excepção dos oppressores dos povos, de seus cumplices e louvaminheiros que expressamente exclue da lei commum. Para estes é elle durissimo; eternisa-lhes as dores; todavia, os deuses não podem ser accusados por isso de inutilmente rigorosos.De feito, se a tyrannia é o maior dos crimes, e o unico expiavel, é porque a liberdade, que ella anniquila, é o maior bem que os deuses nos doaram, unico impossivel de substituir; é porque, na sociedade escravisada, cessam os prazeres honestos, a verdadeira gloria, sabedoria e virtudes.Tal é o senso intimo do castigo excepcional que Platão applica aos tyrannos. Bastantemente está explicado a superioridade do terrivel castigo; mas o que não se explica é a razão da sua perpetuidade. Platão suppunha-o eterno porque não sabia, como nós, que a humanidade tem que percorrer no tempo um circulo limitado, e que este universo ha de acabar. Eternisavaelle, por tanto, o supplicio dos tyrannos, por suppôr que o seu exemplo devia ser eternamente util na terra. Não ha outra maneira de lhe justificar o inferno no seu systema.Foi, porém, esta justificação do inferno destruida por Christo, o qual nos annunciou que todo o genero humano é, como cada homem, um passageiro na terra, e que um dia virá em que esta esphera que habitamos, e estes astros que nos alumiam, se sumirão no espaço como a poeira que o vento da noite espalha. Quem utilisaria com o supplicio dos condemnados, quando as testemunhas, em vez de fracos mortaes, fossem santos impeccaveis?O inferno dos theologos não é, pois, identico ao inferno de Platão: o de Platão devia ser util sempre; o dos theologos, por fructificar um dia, ficaria esteril para sempre. Essa esterilidade já lh'a nós presentimos. Indagamos a razão d'uns padecimentos improficuos á victima, ao juiz, a todos. O coração protesta contra tal crueldade sem intento e sem effeito. Córa a gente só de o crêr. Como que o homem se sente melhor do que essa divindade absurda, sedenta sempre de torturas, ebria sempre de ira, insensivel sempre, peior que o abutre do Prometheo, que ás vezes, ao menos, adormece sobre a preza. Só pensar n'isto gera o atheismo na alma.Erradamente, pois, se invoca, em pró de similhantes castigos, o testemunho de Platão, que se horrorisaria d'elles. Platão não condemnava o pobre pegureiropor algum roubo desconhecido ou tentativa malograda; mas bem póde ser que elle condemnasse inflexivelmente S. Clotario, S. Constantino e S. Carlos Magno. Além de que, elle tinha, para admittir um inferno sem fim, razões que não temos; e nós, para o rejeitarmos, temos razões que elle ignorava.CAPITULO SEGUNDOOpinião dos pagãos sobre a situação e vista interior do infernoOs antigos situavam o inferno no centro da terra que habitamos, e pretendiam ter a este respeito pormenores muito satisfatorios. Os gregos e os romanos possuiam um mappa minucioso d'estas regiões subterraneas, a ponto de lhes conhecerem os rios, taes como o lodoso Cocyto, o ardente Phlegeton, e o invadiavel Acheronte; sabiam até que havia lá fetidas lagôas, em uma das quaes estava Tantalo atascado até aos queixos sem poder apagar a sêde; sabiam d'uns bosques medonhos em que certas almas se lamuriavam, debalde anciando o alvor do dia; conheciam montanhas, que outros condemnados, perseguidos pelas furias, em vão se esfalfavam por galgar. Contavam a historia de alguns desgraçados assim, e as particularidadesdo seu supplicio. Comtudo, apezar da indole inteiramente physica d'aquelles diversos castigos, diziam que os pacientes não tinham corpo, que os mortos eram apenas sombras intangiveis, bem que animadas, e que o seu maximo tormento era não poderem jámais viver vida carnal á luz do nosso sol. Isto contavam-no elles com toda a certeza, fiados em pessoas que tinham descido ao Tartaro, e de lá tinham voltado. Era conhecida a estrada por onde essas pessoas tinham viajado; havia cavernas que os pastores conheciam, poços d'onde sahiam vapores lethiferos e por onde se descia ao inferno.Não eram menos instruidos os egypcios. Em assumpto de horrores visiveis, o Amenthi havia emprestado ao Tartaro pavorosos quadros. N'este Amenthi, que, segundo consta, quer dizerpaiz da noite, estão o cão de sete cabeças e outros deuses de feitios monstruosos. Ahi se encontra o Acheronte e o seu batel, os marneis e as aridas gándaras, e todas as figurações do mundo devastado.Tem setenta e cinco circulos, e á entrada de cada circulo um genio armado. Giram as almas d'um circulo n'outro, algumas em fórma humana, outras com fórmas immundas, com cabeças de aves de rapina, pellagem de fera, e garras de reptil. O pavimento é sangue. Estrondeiam os gemidos. Pendem os condemnados dos ganchos á maneira de carneiros no açougue, ao passo que outros, ainda palpitantes, são mergulhados em caldeirões ferventes. Uns vão fugindo,com os braços estendidos, e a cabeça quasi separada do tronco, outros levam nas proprias mãos o coração que lhes arrancaram do peito que mostram lanhado.Conforme nos vamos aproximando das primitivas civilisações, e, por consequencia, do primitivo barbarismo, mais o genero humano parece deliciar-se no repasto espectaculoso de seus proprios soffrimentos, e o mundo invisivel é para elle um espelho de augmento das miserias e torturas do mundo visivel.Cada povo se espelha na imagem que nos deixou de seu inferno, com as suas idêas moraes, leis, necessidades, com seus costumes, temperamento e clima.Nas serranias do Thibet, onde rapidamente se passa do mais rigoroso frio ao mais suffocante calor, ensinam os lamas que o inferno, situado em determinado logar da Asia umas tantas legoas da superficie da terra, é formado de dezeseis circulos: oito onde se arde, oito onde se gela.Nas esplanadas da India, onde não ha inverno, e onde as populações, languidas de calor, corruptas pelas liberalidades da terra, apenas tem phantasia para inventar prazeres e supplicios, dizem os brahmanes que certos sitios do Naraka estão cheios de mosquitos, de serpentes venenosas, de escorpiões horriveis, de tigres, de abutres e de todos os flagellos proprios d'aquellas regiões ardentes; e que os outros circulos são o theatro das mais requintadas torturas que ainda póde conceber a malicia d'um rajah arrojado. Ahi os glotõessão condemnados a comer calháos asperrimos de puas agudas; os luxuriosos são apertados nos braços de estatuas de ferro em braza.Contam pelo miudo todas as circumstancias d'estes infinitos martyrios, e taes narrativas fariam impallidecer Ixion sobre a sua roda, Sizipho debaixo do seu penedo. Sabem os hindostanicos pelos livros e pela tradição em que ponto da sua terra está situado o Naraka e a que profundeza se encontra. Mas não podem os mortos encerrados ahi achar os limites e as portas d'aquelle inferno.No inferno dos scandinavos, chamado Nifleim, não ha fogo. Essas antigas nações do norte gostam tanto de calor, que não poderam consideral-o um supplicio; pelo que o seu inferno é de neve, onde ha o tiritar, a fome, a febre, a velhice tremente, as torrentes glaciaes, as tempestades, o uivar dos lobos, o pavor que estaleja os dentes, e os cobardes, unicos condemnados que ahi vão.Concluamos esta historia, que daria assumpto para um livro. As reflexões moraes que ella suscita vão breve ser applicadas na descripção do nosso proprio inferno, que na essencia não se distingue dos infernos pagãos. Porém, sendo elle procedente do inferno judaico, paremos diante d'este.CAPITULO TERCEIROOpinião dos judeus ácerca da vista interior do inferno.Sabido é que o Antigo Testamento é muito sobrio de revelações do inferno. Com muito custo se rebuscaram n'elle alguns versiculos tendentes a estabelecer aquella crença entre os hebreus, antes da destruição do primeiro templo. Os saduceos, que juravam sómente pela Biblia, negavam absolutamente a vida futura. Ora, bastantes sabios tinham os saduceos em conta de melhores interpretes da Biblia. Dizem elles que os judeus, durante as tristezas do captiveiro, souberam da bôcca dos magos a immortalidade da alma e a sciencia demonologica. Todavia, Abrahão era chaldeo; os filhos de Jacob haviam longo tempo estanciado no Egypto;—isto dá a crer que os seus descendentes deviam possuir, antes de exilados em Babylonia,parte dos conhecimentos que os escripturistas registavam. Não exerciam os prophetas um ensino mystico, e não conservava o povo tantas tradições grosseiras contemporaneas de Moysés e talvez anteriores? As passagens respigadas na escriptura e nomeadamente em Isaias, relativas ao inferno, seriam inexplicaveis, se não se lhe referissem; mas seriam egualmente inexplicaveis se o povo não tivesse, para intendel-as, mais luz da que lhe dão essas passagens. Estes trechos não encerram doutrina secreta dos prophetas, respeito á vida futura; contém mais referencias que revelações á crença vulgar e formalissima do inferno.O nome «Géhenna» que lá dão á paragem das expiações futuras, não era estrangeiro; era o nome de um vale ao poente de Jerusalem, onde, desde a origem de sua historia, iam os hebreus adorar Molock, e sacrificar-lhe no fogo victimas humanas, e, ás vezes, seus proprios filhos. N'este sitio, tambem denominadoTrophet, ou «logar horrendo», eram lançados os cadaveres dos justiçados e os despojos dos animaes. Este valle maldito, sagrado pela superstição aos deuses sanguinarios, juncado de carnes putridas e ossadas alvejantes, assombrado de larvas sinistras, resonante de gemidos e rugidos, converteu-se para os moradores da cidade santa, não já em verdadeiro inferno, mas no symbolo exterior e synonymo de inferno. No inferno verdadeiro, ardiam Moloch e os seus idolatras na mesma fogueira; os máos eram roidos pelos vermes; e estes vermes eram immorredouros como as suasprêas:—idêas positivamente exprimidas por Isaias, cap. LXVI, ultimo verso.É egualmente certo que os rabbinos e tambem o povo, tão pouco iniciados até então andavam na mystica philosophia, que, se alguma vez discutiam, davam azo a que os prophetas se rissem ou indignassem; porém, depois que os rabbinos e o povo se recolheram do captiveiro, as suas noções eram mais amplas, e talvez as mesmas que se escondiam nas escólas do Carmelo e de Galgala.Vamos vêr quaes são as noções não contidas no Antigo Testamento, mas traçadas manifestamente no Novo, as quaes, quando S. Paulo, S. Mathias, S. João e outros apostolos escreviam, já se haviam derramado na Judea, quinhentos ou mais annos antes.Era dividido o Scheol, ou mundo futuro, em duas regiões, que comprehendiam o paraiso e a géhenna. A géhenna, objecto d'este estudo, era contada no numero das sete creações anteriores ao nosso universo. Á similhança do Amenthi egypcio e do Naraka indiatico, era formada de diversos circulos, mas só tinha sete, correspondendo aos sete dias do Genesis, e aos sete ceos ou sete circulos do paraiso. Havia géhenna superior e géhenna inferior. A superior abrangia os seis primeiros circulos: era uma especie de purgatorio onde baixavam, depois da morte, os peccadores dignos de perdão: uns ficavam no sexto, outros no quinto, outros no quarto circulo, outros no primeiro, conforme a gravidade ou leveza dos seus peccados.Trezentos e sessenta e cinco degráos, correspondentes aos trezentos e sessenta e cinco peccados assignalados pelos doutores, formavam escaleiras d'um circulo a outro, e em cada circulo era mister passar trezentos e sessenta e cinco dias. Porém, os grandes criminosos, abatidos sob o gravame de suas culpas, atravessavam, sem poder parar e com a rapidez de pedra arrojada por funda, os seis primeiros circulos da spiral, e cahiam no setimo, no fundo abysmo, na géhenna inferior, d'onde não ha mais sahir. Á frente de suas legiões ahi os recebia Samael, e então lhes começava o perpetuo supplicio, o insulto dos diabos, a saudade da vida, o fogo interno e externo, o tormento da sêde, e a miragem cruelissima que scintilla aos olhos dos peregrinos agonisantes no deserto[5].Taes eram, em resumo, as opiniões da synagoga ácerca do inferno. Entretanto os essenios, seita monastica celibataria que vivia em commum para espiritualmentese reproduzir, professavam outra. O inferno d'elles, coisa notavel, similhava ao dos monges thibetanos; os soffrimentos ahi eram calor e frio, e todas as intemperies das estações em climas deseguaes.Agora vejamos o inferno dos nossos theologos.[5]O inferno mahometano é copia do judaico, mas copia singularmente alterada. O anjo Trakek é quem lá governa. Ha lá chuva de peçonha. Chama-se Géhenna e divide-se em sete circulos. Porém, exceptuado o primeiro circulo, reservado exclusivamente para os musulmanos, e o ultimo, destinado aos hypocritas, cada qual dos outros é pertencente a cada uma das religiões diversas que precederam o islamismo. Estes hereticos estão portanto em andares sobrepostos, quasi por ordem de sua antiguidade: os christãos no segundo, os judeus no terceiro, os sabeos no quarto, os guebros no quinto, os idolatras no sexto. D'estes seis ultimos ninguem sahe: ahi é o verdadeiro inferno; mas o primeiro, o circulo de honra dos crentes, é purgatorio, no dizer dos doutores.CAPITULO QUARTOO INFERNO DOS THEOLOGOSPOR DUAS FACES VAMOS VER O NOSSO INFERNO; PRIMEIRA A MATERIAL, DEPOIS A MORALIO inferno materialSão puros espiritos os demonios, e tambem puros espiritos devem considerar-se os condemnados no inferno, por quanto só a alma d'elles lá desceu, e os ossos restituidos á terra se transformam continuamente em hervaçaes, plantas, fructos, mineraes, liquidos, desfigurando-se nas continuadas methamorphoses da materia.Tanto, porém, os condemnados como os santos hão-de resuscitar no dia final e reassumir para nunca mais o deixar um corpo carnal, o mesmo corpo com o qual passaram entre os vivos.A distincção d'uns a outros é que os eleitos hão de resurgir em corpos purificados e radiosos, e os condemnados em corpos poluidos e afeiados pela culpa.E de então ao diante não haverá sómente puros espiritos no inferno; mas sim homens como nós. É por consequencia o inferno uma localidade physica, geographica e material, visto que hão de povoal-o creaturas terrestres, dotadas de pés, mãos, bôcca, lingua, dentes, orelhas, olhos como os nossos, veias com sangue, e nervos sensiveis á dor.Onde está situado este inferno? Alguns doutores situam-no nas entranhas da terra; outros em certo planeta que eu não sei; mas a questão nenhum concilio ainda a resolveu. A este respeito é tudo conjecturas; o mais que se affirma é que o inferno, seja onde fôr, é um mundo composto de elementos materiaes, mas não tem sol, nem lua, nem estrellas, e é mais triste e inhospito, e mais ermo de todo o germen e apparencia de bem, do que todos os pontos inhabitaveis do mundo em que peccamos.Não se arriscam os discretos theologos a pintar, á similhança dos egypicos, indostanicos, e gregos, o immenso horror d'essa mansão; limitam-se a dar-nos como amostra o pouco que a escriptura denuncia, o lago de fogo, e o enxofre do Apocalypse, e mais os vermes de Isaias, aquelles vermes eternamente enxameando sobre as carcaças de Thophet, e os demonios atormentando os homens que perverteram, e os homens chorando e ringindo os dentes, segundo a expressão dos evangelistas.Santo Agostinho não concede que aquellas penas physicas sejam simples imagens das penas moraes;contempla em um verdadeiro lago de enxofre vermes e serpentes verdadeiras encarniçadas sobre todas as partes dos condemnados, exacerbando com as suas mordeduras as ulcerações do fogo. Quer, conforme um verso de S. Marcos, que este estranho fogo, posto que material como o nosso, e actuando sobre corpos materiaes, os conservará como o sal conserva a carne das victimas sempre sacrificadas e sempre viventes, sentirão a dôr d'aquelle fogo que queima sem destruir, e lhes filtra aos musculos, saturando-lhes os membros, desde a medulla dos ossos e as pupillas dos olhos até as mais occultas e sensiveis fibras do seu ser.Se elles podessem submergir-se na cratera d'um vulcão, sentir-se-hiam ahi refrigerados e consolados.D'esta arte fallam com toda a segurança os mais timidos, os mais discretos e reservados theologos; não negam, porém, que no inferno haja outros supplicios corporaes; sómente dizem que não tem d'elles um sufficiente conhecimento, ou pelo menos tão positivo como aquelle que receberam ácerca do horrivel supplicio do fogo, e do afflictivo supplicio dos vermes. Ha no entanto theologos mais audazes e illustrados que nos dão descripções mais miudas, variadas, e completas do inferno; e, bem que não saibam em que local do espaço tal inferno esteja, consta-lhes que alguns santos o viram.De certo que estes santos lá não foram com a lyra em punho, como Orpheo, ou com a espada na mão,á similhança de Ulysses: baixaram lá arrebatados em espirito. D'este numero é Santa Thereza.Quem lê a relação d'esta santa cuidará que no inferno ha cidades. Pelo menos lá viu ella uma especie de viella longa e estreita como ha tantas nas cidades antigas; entrou caminhando horrorisada sobre um terreno lamacento e fetido onde rastejavam reptis monstruosos; mas foi retida em seu transito por uma parede que atravancava a viella; e n'esta parede havia um nicho onde Santa Thereza se metteu sem saber como. Disse ella que este logar lhe estava destinado, se abusasse emquanto viva das graças que Deus difundia sobre a sua cella d'Avila. E, bem que ella se anichasse com maravilhosa facilidade n'aquella guarita de pedra, não podia nem assentar-se, nem deitar-se, nem estar de pé, nem safar-se; que estas horriveis paredes, apertando-a, envolviam-na, angustiavam-na, como se fossem animadas. Parecia-lhe que a abafavam, que a estrangulavam, e ao mesmo tempo a estripavam e a faziam pedaços.E sentia-se arder, e não havia genero de afflição que não experimentasse. Esperança de soccorro, nenhuma. Á volta d'ella tudo escuro; mas ainda assim, atravez d'essas trevas, entrevia, com grande espanto, a hedionda rua por onde tinha passado com toda a sua immunda visinhança: espectaculo que lhe era tão intoleravel como as intalladelas da prisão.Ora isto de certo era apenas um cantinho do inferno.Outros viajantes espirituaes foram mais obsequiados. Houve tal que viu no inferno grandes cidades a arder, Babylonia e Ninive, e até Roma, com os seus palacios e templos abrazados, e os habitantes acorrentados, mercadejando no balcão, padres misturados com meretrizes nas salas dos festins, hurrando nas suas poltronas d'onde não podiam arrancar-se, e levando aos beiços, para apagar a sede, copos que golphavam lavaredas; validos em joelhos sobre almadraques ardentes, com as mãos postas, e principes vertendo sobre elles devorante lava d'ouro fundido. Outros viram no inferno descampados sem limites, cavados e semeados por lavradores famelicos. E d'essas plantas fumegantes de suor, como nenhum fructo vingasse, os lavradores devoravam-se uns aos outros; e, depois, tantos quantos tinham sido, magros e famintos do mesmo modo, dispersavam-se em bandos pelos horisontes fóra em cata de terras mais ditosas, e eram logo substituidos por outras colonias errantes de condemnados.Houve quem visse no inferno serranias cavadas de abysmos, de florestas gementes, poços sem agua, fontes de lagrimas, regatos de sangue, turbilhões de neve em desertos de gelo, barcos desesperados vogando em mar sem praia. Em fim lá viram quanto os pagãos tinham visto, o reflexo lugubre da terra, uma sombra incommensuravelmente augmentada de suas miserias, os seus naturaes soffrimentos eternisados, entrandon'isto masmorras, forcas, e os instrumentos de tortura que as nossas proprias mãos forjaram.Ha com effeito lá n'essas profundezas demonios que se fazem corporeos, para mais a preceito atormentarem os homens em suas carnes. Uns tem azas de morcego, pontas, coiraças escamosas, griphos e agudissimos dentes. Temol-os visto pintados, armados de espadas, de forcados, de tenazes ardentes, de serras, de grelhas, de folles, de clavas, empregando tudo isto durante a eternidade n'uma especie de açougue e cosinha da carne humana. Ha outros transformados em leões, e viboras enormes, arrastando as prêas em solitarias cavernas.Alguns desfiguram-se em corvos para arrancar os olhos a certos padecentes, em quanto outros se transformam em dragões volateis, e vão carregados d'almas sanguentas e lastimosas atravez de tenebrosos espaços, e as precipitam no lago de enxofre. Além se vê nuvens de gafanhotos, e de agigantados escorpiões, cuja vista arripia, cujo cheiro enoja, cujo menor contacto convulsiona. Acolá estão os monstros polycephalos abrindo vorazes fauces, sacudindo as crinas formadas de aspides, triturando os condemnados entre os seus queixos sangrentos, e vomitando-os logo mastigados, mas ainda vivos, porque são immortaes.Estes demonios de fórma sensivel, recordando tão ao vivo os deoses do Amenthi e do Tartaro e os idolos que os phenicios, os moabitas e outros gentios visinhos da Judea adoravam, estes demonios não funccionamá toa; cada qual tem seu officio e sua tarefa: o mal que fazem no inferno corresponde ao mal que elles inspiraram e fizeram commetter n'este mundo. São os condemnados punidos em todos os sentidos e orgãos porque offenderam Deus por todos os orgãos e sentidos. Os comilões são punidos de certa maneira pelos demonios da intemperança, e d'outra maneira os calaceiros pelos demonios da preguiça, e ainda d'outra maneira os lascivos pelos demonios da sensualidade; em fim, são tantas as maneiras quantas as variedades de peccar. Dizem que elles até na fogueira terão frio, e no gelo se sentirão arder; estarão ávidos de descanso e irrequietos; sempre com fome, sempre com sede, e mil vezes mais cansados que o escravo no fim do dia, mais doentes que os moribundos, mais lacerados, mais escalavrados, mais lazaros que os martyres, e assim para todo o sempre.Nenhum demonio se desgosta nem desgostará jámais do seu terrivel officio; n'esta parte são elles disciplinados a ponto, e fidelissimos na execução das ordens vingativas que receberam. Se não fosse isso, que seria do inferno? Se os demonios tivessem rixas entre si ou se fatigassem, os pacientes descansariam. Mas nem uns descansam, nem os outros se desavêm; e posto que sejam máos e muitissimos, os demonios harmonisam-se d'um cabo a outro do abysmo, por tanta maneira que nunca na terra se viram nações mais submissas a seus principes, exercitos mais doceis a seus generaes, communidades fradescas mais obedientesa seus prelados. Nada se sabe da ralé dos demonios, d'essa canalha de espiritos villãos que formam legiões de vampiros, de sapos, de escorpiões, de corvos, de hydras, de salamandras e outra bicharia sem nome que constituem a zoologia das regiões infernaes; mas são conhecidos de nome muitos principes que commandam aquellas legiões, entre outros Belphegor, o demonio da luxuria, Abbaddon ou Apollyon, o demonio da carnificina, Beelzebuth, o demonio dos desejos impuros, ou o principe das moscas geradoras da podridão, e Mammou, o demonio da avareza, e Moloch, e Belial, e Baalgad, e Astaroth, e outros mais, e sobre todos o chefe universal, o sombrio archanjo que no céo se chamava Lucifer, e no inferno se chama Satan.Eis aqui, em summa, a idêa que se nos dá do inferno, observado em sua natureza physica, e nas penas corporaes que lá se padecem. Lêde os escriptos dos padres e antigos doutores, interrogae as piedosas legendas, examinae as esculpturas e paineis das nossas egrejas, attentae o ouvido no que se diz em nossos pulpitos e sabereis muitas outras coisas.IIReflexões sobre as penas materiaes dos condemnadosDe qualquer modo que as figuremos, e quando mesmo por piedade ou qualquer outra razão se reduzissem só á acção do fogo, estas penas materiaes não poderiam ser eternas, porque, se a alma é immortal e póde soffrer sempre, não succede o mesmo ao seu involtorio terrestre: corpos de carne, á feição dos nossos, são de seu natural incapazes de resistir a similhantes agentes de destruição.É um milagre a resurreição dos corpos; mas faz-se mister um segundo milagre para dar a estes corpos mortaes, já usados pelos transitorios attritos da vida, e de mais a mais aniquillados, a virtude de subsistir, sem se dissolverem, na fornalha onde metaes se evaporassem. Diga-se embora que a alma é algoz de si mesma, que Deus a não persegue, mas que a desampara pelo estado desgraçado que ella escolheu: isso ainda póde rigorosamente comprehender-se, posto que o desamparo eterno d'um ser desvairado e padecente pareça pouco conforme á bondade do Creador; porém o que se diz da alma e das penas espirituaes não póde por modo algum ser dito a respeito dos corpos e das penas corporaes; que para eternisar as penas corporaes não basta que Deus retire a sua mão;pelo contrario, é forçoso que elle a mostre, que intervenha, que opere, sem o que o corpo succumbiria.Conjecturaram, pois, os theologos que Deus effectivamente opera, em seguida á resurreição, o segundo milagre de que fallamos. Primeiro, exhuma do sepulchro os corpos de argila que lá se haviam desfeito; tira-os taes quaes lá tinham entrado com as suas nativas infermidades e as degradações successivas da idade, da doença e do vicio, decrepitos, infesados, gotosos, cheios de precisões, sensiveis á ferroada d'uma abelha, cobertos das macerações que lhes fizeram o rossar da vida e da morte: eis o primeiro milagre. Depois, a estes corpos alquebrados, prestes a reverter ao pó d'onde surgiram, inflige uma propriedade que não tinham: a immortalidade, o mesmo dom que n'um lance de colera, ou, se o quereis, n'um lance de misericordia, elle tinha subtrahido a Adão quando o expulsou do Eden: eis o segundo milagre. Quando Adão era immortal, era invulneravel; e, quando cessou de ser invulneravel, tornou-se mortal. Á dôr seguiu-se o morrer.A resurreição, portanto, nem nos repõe nas condições physicas do homem innocente, nem nas condições physicas do homem culpado; é uma resurreição das nossas miserias sómente; mas com sobrecarga de novas miserias, infinitamente mais horriveis; é, até certo ponto, uma verdadeira creação, e mais maliciosa que imaginação alguma ainda concebeu.Dir-se-ha que Deus reconsidera e varia, quando accrescenta aos tormentos espirituaes dos peccadores tormentos corporaes de duração infinda, e muda de repente as leis e as propriedades por elle prescriptas ás composições da materia desde a origem d'ella. Resuscita carnes doentes e corruptas, e, atando com indesatavel nó elementos que tendem a separar-se, mantém e perpetúa, contra a ordem natural, aquella podridão vivente, que é posta no fogo, não para se depurar, mas para ser conservada qual é, sensivel, padecente, ardente e immortal.Por amor d'este milagre é Deus arvorado em um dos algozes do inferno; por que, se os condemnados só a si podem imputar seus males espirituaes, tambem não tem a quem imputar os outros senão a Deus. Já não era pouco abandonal-os, depois de mortos, á tristeza, ao remorso e a quantas agonias sente a alma que perdeu o bem supremo; mas ha ahi peor: irá Deus, no dizer dos theologos, procural-os nas trevas do seu abysmo; chamal-os-ha por instantes á luz, não para allivial-os, mas sim para vestil-os d'um corpo horrido, chammejante, immorredouro, e n'este acto os abandonará definitivamente. Mas não será isso ainda abandono, pois que céo, terra e inferno não subsistem senão por um acto permanente da divina vontade sempre activa. É força, então, que Deus os tenha sempre de sua mão, para obstar que o fogo se apague e os corpos se consumam, a fim de que esses desgraçadosimmortaes contribuam, com a perennidade de seu supplicio, á edificação dos predestinados.Vem a ponto um episodio da historia da Egreja, que, máo grado nosso, nos veio á lembrança. Seja-me permittido recordarvo-lo.IIIOs martyres de NeroFoi Nero um poderoso imperador. Galardoava esplendidamente os escravos que o serviam; e, ao mesmo tempo, incutia-lhes medo salutar com o seu systema de tratar inimigos. Queimando Roma a fim de a reedificar mais formosa, assacou o crime aos christãos, gente indocil que o não bajulava, e cria em justiça mais amavel que a d'elle, e por esta e outras razões desagradava á plebe idólatra. O processo foi summario; a sentença de morte, e a execução espantosas, como vai vêr-se. Embrearam-os de resina, amarraram-os a postes de ferro, cravados distantes entre si nos bellos jardins de Sallustio, onde eram celebrados então os jogos nocturnos. Era já noite, quando as portas foram abertas á multidão. Eis que sôa o clangor das trombetas, e logo os verdugos infileirados chegaram lume ás tunicas dos christãos. Callam-se as trombetas; restrugem de todos os lados gritos estridentes. A subitas, arvores, flôres, estatuas, escadozesmarmoreos, tanques, repuxos, tudo resplandeceu. Chega Cezar na sua carroça, escoltado de vistosa côrte, derramando, por sobre as turbas aterradas e jubilosas do seu sorriso, ouro e perolas. Servem-se banquetes. Dançam as filhas do oriente, em quanto os tocadores de alaude e cantores confundem a dôce melodia de seus concertos com os applausos do povo fiel e os derradeiros arrancos dos christãos que vasquejavam em suas tunicas ardentes.Pouco durou aquelle instructivo espectaculo. N'este mundo, as festas mais bisarras são curtas. Felizmente para os martyres, Nero não era Deus. Diz-se, porém: eil-os, os confessores de Christo apremiados, á volta de um Deus que dá ares de Nero, e como contemplando, á maneira do Cezar, em festa sem fim, milhares de creaturas humanas, estorcendo-se e clamando nas lavaredas, tochas ullulantes, fachos inextinguiveis, testemunho assás consolativo da superioridade do rei do céo sobre os regulos da terra.Haja paciencia, que ainda falta o mais essencial. Aquellas penas corporaes são quasi nada. Repugnantissimas que ellas se nos figurem, são essas, ainda assim, a menos repugnante cousa que o inferno encerra.IVO inferno espiritualEm que meditam esses pobres entes atormentados? Que sentimentos os dominam? Que fazem elles, durante as suas inexpremiveis torturas, n'esse tempo illimitado em que os segundos são seculos, e os seculos menos que segundos? Os theologos tem investigado estas cousas; e, presupposto perpetuo o inferno, não ha dous modos de resolver aquellas perguntas. Uma breve reflexão vos dará a resposta que os theologos tem dado perfeitamente conforme a todas as tradições.Imaginai um lupanar de embriagados, um hospital de loucos, um covil de assassinos, uma caverna de ladrões, um bordel immundo; soltai ao mesmo tempo todos os moradores d'esses abominaveis logares, e tereis uma optima pintura do inferno espiritual, isto é, o estado mental dos condemnados. Novos e velhos, homens e mulheres, embaralhados todos, apostrophando, jurando, blasphemando, eternamente ebrios, eternamente vorazes, eternamente lascivos, eternamente invejosos e crueis, eternamente impios, eternamente sandeus.Como as sombras do Tartaro, choram o nosso sol, as sombras, as frescas ribeiras, os pampanos dos nossos vinhedos, e todos os prazeres sensuaes de queávidamente estão sequiosos e privados. Os demonios, que os castigam por seus passados prazeres, alimentam n'elles inuteis saudades, e insensatos desejos, dos quaes nada póde distrahil-os, nem sequer as dôres corporaes, e agudissimas de que são atormentados todos os seus membros. N'isto, de mais a mais, os demonios o que fazem é executar as sentenças do soberano juiz—sentença promulgada no céo, pela qual são os reprobos intellectualmente torturados; pois diz Santo Agostinho no seuCommentario aos psalmos: faz-se mister que tudo quanto deliciou os homens, quando peccaram, se converta em instrumento do Senhor quando castiga. O desejo saciado é, pois, punido com o desejo insaciavel.Não imaginem que no inferno haja uma só alma que deplore a sua innocencia baptismal, e o céo promettido que ella perdeu, e a companhia dos anjos, e a bemaventurança dos eleitos. Os precitos fogem de Deus, não o procuram; viram-no no dia do juizo, tem-no presente sempre nos tormentos que soffrem. De certo os angustia estar tão longe d'elle; mas é angustia de raiva que não tem nada que vêr com as saudades e anceios do amor.Não pensem que entre as alegrias cuja perda lá nos dilacera o coração, estejam os castos prazeres do lar, a pratica dos anciãos, as meiguices das creanças, a ternura dos irmãos, a dôce confiança dos amigos, as consolações do trabalho e as recompensas do estudo. Verdadeiras alegrias eram aquellas de certopara os peccadores; mas os condemnados nem as desejam, nem d'ellas se lembram; abasta-lhes a sciencia que tem; e, pelo que toca ás affeições terrestres, mortas são todas: resta-lhes o odio sómente. A mãe que está no inferno, se tem um filho no paraizo, abomina-o, e elle a ella; se o tem no inferno, abomina-o tambem e é correspondida por igual, e, se o tem vivo no mundo a choral-a, da mesma sorte o abomina. Filhos, pae, marido, irmãos e irmãs, amigos, tudo lhe é igualmente odioso.O que os condemnados mais ardentemente desejam é coisa que se beba e se coma, e além d'isso as delicias sensuaes e a bruteza do coito carnal. São de tal sorte as suas disposições em meio de tantos soffrimentos que, se um só d'esses condemnados podesse por um momento voltar á vida, escandalisaria um alcouce. Entretanto, confessam a justiça da condemnação que os fere; mas é para amaldiçoal-a; e, bem que não sejam atheus, por que tal não podem ser em similhante lugar, são mais scelerados, ignobeis, impudentes e perversos do que poderia sêl-o uma nação de atheus. Uma nação de atheus, não sendo composta de immortaes, temer-se-hia do nada como d'um objecto de medo ou esperança, e tiraria d'ahi certas regras de proceder que bastariam a tornal-a menos miseravel e brutal; mas no inferno não ha que temer nem que esperar. Ha ahi um retouçar-se na dôr, em horrendos sonhos, que exulceram os appetites sem os satisfazer. Ahi é tudo obscenidade, egoismo, opprobrio, hediondez,a humanidade disforme, depravadissima, impudentissima, sem piedade, sem consciencia.A blasphemia é a unica distincção que separa os condemnados das feras assanhadas, e que os levanta algum tanto acima dos porcos, dos lobos, dos macacos, dos toiros, dos bodes e dos reptis. É logo a blasphemia o unico symptoma de razão que se lhes deixa, a sua unica e ultima grandeza! Os irracionaes nem quando soffrem blasphemam: a blasphemia é um acto intellectual que n'este mundo degrada, e no inferno exalta. Um condemnado que louvasse a Deus seria um santo, cujo supplicio cedo ou tarde acabaria; mas, sendo interminavel o supplicio d'elle e impossiveis os santos n'este abysmo, o condemnado que não blasphemasse seria um bruto infecto.É portanto de justiça que os façam blasphemar; d'isso inferimos que elles tem alma; e d'esse modo a mostram na unica maneira que podem; e, se não podem satisfazer a vil concupiscencia que os devora, desforram-se saboreando a pleno peito o agro prazer de insultar o Deus que os pune por tão singular maneira.VContinuação do inferno espiritualHavendo só o inferno, já se vê que n'esta infame companhia os theologos misturam, como iguaes, qualquer homem honrado que morra na incredulidade dos mysterios. Isto lhe basta para ser condemnado. E com esse vae tambem a viuva pobre, que, em vez de ir á egreja no domingo, remenda os fatinhos das suas creanças: tambem não é preciso mais para ser condemnada.Tambem lá vão, á conta de não jejuarem, nossas mães e irmãs, mulheres e filhos: pois não é bastante razão para ir ao inferno quem come um bocado de pão com certo prazer?Este inferno, povoado de patifes incorrigiveis, é uma escóla: ninguem ahi se corrige, mas aprende cada qual a conhecer-se, e já não é pouco. Quem quer que ahi desce, logo que ahi está, é igual aos devassos, aos parricidas e aos traidores. Quem ahi se vê tão diverso do que se imaginava n'este mundo, aterra-se de si proprio. O bom que cada qual tinha em si quando vivia, com a vida se desvaneceu; e o mal que era apenas uma imperceptivel mancha, lavrou como a gangrena, de tal arte que alma e corpo é tudo uma chaga.Que o homem se perdesse por um pomo ou por um imperio, por um beijo ou por um homicidio, o resultado é o mesmo: ninguem é condemnado com attenuantes. Não procureis no inferno um companheiro menos corrompido do que os outros, que se respeite ou que seja respeitavel por qualquer motivo; é coisa que lá não ha; ninguem conserva ahi vislumbre das qualidades que na terra se respeitam. Ou vades para a direita ou para a esquerda, para cima ou para baixo, girai em todas as direcções d'esse abysmo, que não achareis germen, relampago, sombra de virtude. Aquelles sabios cujas vigilias opulentaram os homens, e não deixaram dinheiro com que os enterrassem; aquelles philosophos estoicos, legisladores, magistrados, guerreiros illustres, e soldados obscuros mortos nas fronteiras; aquelles rigidos protestantes que psalmodeavam nas lavaredas, aquellas esposas extremosas, e as noivas cuja sepultura é juncada de rosas brancas—todos esses que não morreram em graça—de qualquer modo que pensassem e procedessem n'este mundo, os seus costumes e pensamentos são forçosamente os do outro. Os que lhe sabem a historia, e os amaram e lamentam, não hão de reconhecel-os. Eil-os preza de todos os vicios, paixões, e desejos dos condemnados. Grandes homens, sabios heroes, martyres, mães veneradas, donzellas castas, artistas sobrios e modestos, eil-os em côro de impios, fallando como ebrios, cynicos e assassinos. Abandonou-os Deus todos a um tempo, a um tempo os pune todos; omesmo ferro lhes abrasa os corpos e a mesma febre lhes alanceia as almas.Ahi está o inferno espiritual.VIDa immortalidade das penas espirituais do inferno.É pois o inferno um máo logar, trescalando ao vicio e ao crime. Os demonios, guardas d'este máo logar, e professos na corrupção, usam do imperio que sobre os hospedes lhes é permittido, corrompendo-os incessantemente e sem lucta nem obstaculo.É propriedade d'elles a alma dos condemnados. Deus, entregando-lh'a para que elles façam d'ella o que poderem, não lh'a disputa e bastantemente sabe o que elles farão.Se as adições espirituaes dos condemnados fossem sómente crueis, seria isso bastante para nos auctorisar a duvidar da eternidade d'ellas; mas, além de crueis, impuras, é um direito, é até um dever negal-as. É certo que a natureza algumas vezes inflige ao homem esses impuros soffrimentos; mas são transitorios: uns morrem, alguns curam-se, e outros endoidecem: é outro genero de morte. Mas no inferno os furores sensuaes, os appetites phreneticos não matam nem remedeiam, não são venenos nem balsamos, são penas sem fructo e sem fim.«Que condemnação, diz S. Bernardo, a da vontade amarrada á precisão de crêr omale não crêr obem; por tal modo que de qualquer maneira que se mova, é semprecriminosae miseravelmente! Não ha de gozar jámais os prazeresculpaveisque deseja; e asprivaçõesque ella não quer é as que ella ha de ter por toda a eternidade.»Crêr o mal e não crêr o bem, é logo o resultado d'aquella condemnação. Por sentença do juiz, e de que juiz! é que lá eternamente se anceiam impudicos prazeres, ao mesmo passo que o espirito soffre a privação dos sentidos. Montesquieu, que, a fallar verdade, não era padre da Igreja nem monge, formava outra idêa da natureza moral das penas destinadas a servir de sancção aos accordãos da justiça da terra propriamente. Lêde noEspirito das leiscerto capitulo intitulado:Da violação do pudôr, no castigo dos crimes. Assim começa o capitulo: «Ha regras de pudôr observadas em quasi todas as nações do mundo: absurdo seria violal-as no castigo dos crimes, o qual deve sempre ter em vista o restabelecimento da ordem.»Ainda que Montesquieu m'o não dissesse, a cousa é evidente por si. Satrapas em delirio, Cezares devassos, tyrannos corruptissimos, póde ser que alguma vez enviassem uma rapariga desobediente mas honesta a um bordel, e que, ajuntando calculadamente a indecencia ao castigo, convertessem a excitação dos sentidos em supplicio legal, deshonrando a lei para deshonrar o inimigo. Em todos os paizes civilisados castiga-separa restabelecer a ordem material e a moral quanto póde ser.Cuida-se em esquivar o culpado ás seducções que o perderam; impedem-no de ser nocivo a si e aos outros; privam-no de satisfazer as paixões, não com o intento de lh'as irritar, mas de enfraquecel-as; sequestram-no da companhia das pessoas de bem, não para que as odeie, mas para que as chore; deseja-se que a sua maior afllicção consista em havel-as offendido, e que o arrependimento o rehabilite para tornar ao seio d'ellas; protegem-no contra a injuria; enviam-lhe a visita de caridade que o instrue, consola e ás vezes restaura. Estas conversões são raras certamente; quasi todas as nossas prisões são infectas; ahi a soledade corrompe; e a promiscuidade é contagiosa. Sabem-no os legisladores, e os juizes tambem. Não se diz, porém, que assim o querem juizes e legisladores? E, na verdade, querem-no assim!? Que se nos depara ahi senão o stygma da imperfeição das nossas obras, e a pequenez de recursos em comparação dos desejos? Mas nem por isso nos sentimos descrer dos intimos anhelos que nos incitam a buscar nas penas meio de restaurar a ordem perturbada, onde quer que seja, e até na alma do criminoso. O que a mesma imperfeição nos aconselha é que prosigam sem descanso no intento, que será completamente realisado no mundo em que a justiça é perfeita, e o poder do principe igual á sua justiça.Não nos mostrem, pois, no inferno, uma galé immensa,repleta de impudentes scelerados, porque vos será perguntado se Deus não póde, mais que os homens, vencer corações rebeldes, ou se mais lhe praz exercitar sua omnipotencia a perpetuar um feio espectaculo que nós, philosophos e christãos, bem quizeramos que fosse banido.Esta concepção do inferno, tão ignobil quanto atroz, data visivelmente de tempos barbaros, em que a vida physica afogava a moral, e a justiça não transparecia aos olhos propriamente do sabio senão atravez da nuvem sanguinosa da vingança.Punir eternamente o vicio com o vicio, a immoralidade com a immoralidade! que projecto! e, na execução d'elle, que prodigio! Pois não basta justiçar o homem no corpo? Será preciso que o aváro, durante a tortura, arda de saudades dos thesouros que tantos cuidados lhe custaram e tantas dôres grangearam? Ha de o comilão, deitado sobre grelhas em brasa estar a pensar sempre na cosinha e na garrafeira? O voluptuoso, comido de chammas e de bichos, ha de estar sempre a lagrimar pelas parceiras? Acham isto possivel? Sendo assim, no inferno sabe-se melhor do que na terra o que valem riquezas, prazeres, divisas, veneras, medalhas, sceptro e arminhos. Ahi, ser-se-ha, de facto, blasphemo, e intencionalmente devasso, adultero, usurario, despota, valido, mas tudo isto sobre brasas? Havemos de confessar que o local não é dos melhores para taes desejos, e que só por milagre, em tal sitio e por muito tempo, possa haver similhantesdelirios. Ora ahi vedes que se attribue a Deus o milagre de fixar a alma dos condemnados sobre impuras imagens, immobilisando-as em appetites que o offendem. É o peccado eternisado, e eternisado por Deus. Não cabe a responsabilidade d'isso aos condemnados. Não os accuseis; lamentai-os; que esses infelizes não são viciosos de vontade propria: é a lei que os obriga.

Examinemos as coisas mais á beira. A sociedade não é toda formada de uma peça. Divide-se naturalmente em differentes grupos no discutir de seus interesses em este e no outro mundo. Religiosa e moralmente observada, podêmos dividil-a em cinco grupos.

1.º O grupo dos philosophos, ou livres-pensantes como hoje se chamam—sugeitos que systematicamente regeitam a revelação, e por consequencia o inferno sem fim; todavia, desinteresseiros, estudiosos, graves e tractaveis com honra e confiança.

2.º Longe d'estes a infinita distancia, e sem sombra de liga com os philosophos, está o grupo dos biltres professos, individuos relaxados, bandidos convictos, corruptos, desesperados.

3.º Entre aquelle grupo de espiritos selectos e o das almas depravadas, mas entre si equidistantes, está o grupo immenso e indecomponivel dos indifferentes, dos tibios, dos duvidosos, dos espiritos futeis, dos espiritos inertes, dos espiritos acanhados, dos fura-vidas, dos pachorrentos—turba sem piedade nem philosophia, sem prática de casta alguma, vivendo de seu trabalho, das suas rendas ou officios, mais ou menos descançados—guardas nacionaes, jurados, eleitores, conselheiros de districto, e o mais. Estes são uns christãos que só vão á egreja quando ha enterro, casamento ou baptisado, ou ainda em dias deTe Deum, quando a posição official os obriga.

4.º Ao lado e um tanto superior a este, está o grupo menos numeroso dos devotos; não dos hypocritas, que se ha de classificar no dos patifes, mas dos esforçados em praticar e que praticam, assim, mas com desinteresse, os mandamentos de Deus e da egreja. Estes vão á missa nos domingos, confessam-se ás vezes, e dão do seu gremio as irmandades e as confrarias.

5.º Finalmente, o admiravel grupo dos justos, dos perfeitos christãos, dos santos, dos continuadores e verdadeiros imitadores da vida de Jesus.

Vejamos se o dogma das penas eternas aproveita ás pessoas que formam aquelles differentes grupos.

Os philosophos crêem em Deus, crêem na liberdade e immortalidade da alma, na justiça, em todas as noções moraes derivativas d'aquellas primaciaes verdades. Em revelações sobrehumanas é que não acreditam.

Ora, ameaças de inferno converterão tal gente? De quantos mysterios regeitam, o inferno é o mais incrivel; e tanto que irrita a propria fé, que, só abdicando o uso da razão, se submette. Dos philosophos não ha que esperar similhante sacrificio.

Se o dogma do purgatorio vos aproxima d'elles, o inferno, barreira que vos separa de tudo que raciocina, alonga-os de vós.

Que lucram as pessoas de bem que esses patifes creiam no inferno? Está com isso a sociedade mais segura? E tal crença de que lhes serve a elles? O que os incommoda não é o diabo, é a policia; inquieta-os mais o degredo que o inferno.

Vá lá!—dizem elles—venha o inferno que nãonos ha de faltar boa camaradagem! Quantas pessoas toparemos lá d'umas que n'este mundo se empavonavam todas, e não queriam rossar-se por nós! Havemos de vêl-os lá, mais apoquentados e castigados do que nós, esses patetas condemnados por pensamentos e palavras, por coisa nenhuma. Quanto á pessoa d'elles, tanto monta como a nossa, pois que hão de ser tão condemnados como nós. Não ha dois infernos, parceiros; ha um. Lá nos esbarraremos com capitalistas, com fidalgos, com duquezas, com comicas. Andaremos á ilharga dos juizes, dos quadrilheiros, dos escrivães, dos jurados e melhor ainda—viva a patuscada!—com deputados, com camaristas reaes, com bispos, com abbadessas, com principes e princezas, reis e rainhas. Venha o inferno! é tentador lá ir com tal sucia.

Tal é o raciocinio dos desalmados e a influencia que tem sobre elles aquella extravagante justiça, que nenhuma proporção gradua entre delictos e crimes, condemnando para sempre quem peccou uma hora, e o scelerado de toda a vida.

Estas pessoas cuidam em ser felizes com o auxilio da honestidade; pelo quê, se abstem do mal que o codigo define. Pelo que respeita aos sete peccados mortaes, não se preoccupam d'isso. Dizer que todos sejam invejosos, avarentos, luxuriosos, e o mais, seria mentir. N'esse innumeravel grupo abundam negociantes honrados, meninas castas, esposas fieis, pobres sem inveja, ignorantes modestos, ricos bemfazejos, e muitas abelhas para cada zangão; mas perfeito ahi não ha ninguem; ninguem ahi vive em graça; o melhor do rancho é aquelle a quem Deus, no dia do juizo, só accusar de ter violado sem escrupulo todos os mandamentos da Egreja. Mas, com esse só peccado na consciencia, o melhor do rancho será condemnado.

Se o roubo e o homicidio são raros n'essa assemblêa, não procede isso do medo do inferno. Ahi é bastante motivo para condemnação uma folha de papel escripta, um «sim» apenas balbuciado e ouvido, um lance d'olhos, uma flor murcha, e essa, onde entra amor—amor no peccado, meu Deus!—é de todas as condemnações a que mais piedade desperta. Porém, n'esse immenso circulo, onde tudo pecca, cada qual se condemna á sua vontade: um por fastio; outro por vaidade, este por curioso, aquelle por pusillanime; condemna-seum por um casal, outro por uma venera, por um acepipe, por um prato de lentilhas, por um penacho, por uma fitinha, por um trapo, por trinta contos, por trinta reis. Condemna-se este a trabalhar, aquelle a passear, um a comer, outro a jejuar, a ler, a dansar, a palestrar, a meditar, a vestir, a despir, desde a aurora até ao escurecer, desde a noite até ao dia, todos se condemnam a bel-prazer.

Distinguem-se lá os peccados que Deus pune indistinctamente. Permittem-se os que Deus castiga até com eternas penas, quando é elle só quem pune; recua-se, porém, dos que Deus castiga e a sociedade tambem. Não se diga pois que o inferno atalha os crimes dos indifferentes. Tambem ahi é manifestamente esteril similhante crença. O que se teme é o vigia, a patrulha, o commissario da policia, essas personificações vulgares, mas terriveis da opinião e da lei. Temem-se as algemas, o carcereiro, a masmorra, e ainda mais á mistura com os scelerados. Por muito dura e inevitavel que se figure, a pena material não os conterá sempre quando a paixão os esporêa. Do mesmo modo que affrontam o inferno, affrontariam a cadêa e até a forca, se a forca estivesse ás escuras; porém a vergonha, o estrondo da queda, é para o maior numero a pena intoleravel. Seriam capazes de desafiar carrascos e diabos; e não ousariam encarar o desprezo do amigo, do visinho, do estranho, do transeunte, do mendigo; não lhes faz grande mossa a ignominia diante de sua mãe ou de seus filhos, e tremem de se vêr baralhados comcreaturas devassas que são máos sem repugnancia, e medram no mal como em seu nativo elemento.

Ha d'elles, porém, que se forram ao mal, contidos por sentimento ainda mais nobre que o medo da opinião. Esquivam-se, não do peccado mortal, mas do maleficio que a sociedade civil pune ou reprova: afasta-os d'isso com asco um natural sentimento, sem esforço. Educação e habitos fortaleceram esses bons instinctos. Não são perfeitos, mas são probos, sinceros, generosos, capazes de grandes sacrificios occasionalmente. Com certos deveres nunca especulam. Denotam que a si se respeitam, que a propria estima se lhes faz precisa, ainda mais que a da sociedade, facil de transviar-se. E bem que não sejam philosophos nem devotos, sentem vivamente a dignidade de seu ser. É certo que este sentir lhes seria mais delicado e firme, se abrangessem as perspectivas da vida futura, em vez de concentrar-se cá; mas é forçoso aceitar os indifferentes quaes são; e tanto entre os peores como entre os melhores, a vida futura não é movel nem empêço: é uma coisa esquecida.

Será medo do inferno que impede os devotos de matar, de roubar, de se retoiçarem, como javardos, no lamaçal dos sentidos? Crer-se-ha que elles de persi sejam insensiveis á honra, ao opprobio, e aos mais freios moraes e nobres estimulos que regulam a ordem e andamento das sociedades temporaes? Ririam elles das galés e até da forca? Seriam elles, em verdade, infames da ultima ralé, se não receassem a condemnação?

Se ha ahi tal raça de christãos, confesso que eu não confiaria d'elles nada, nem a minha bolsa, nem minha mulher, nem o meu segredo, nem eu mesmo adormeceria socegado entre elles. D'um scelerado a um devoto d'esta laia a distancia é tão curta que os meus pobres olhos não na enxergam. Dizem que ha uns pessimos soldados que, á vista do inimigo, olham para traz e só marcham para a frente com a bayoneta nos rins. E, se os não vigiaes, eil-os que desertam; e, até quando se batem, albergam a perfidia no coração. Pois bem: aquelles devotos são peores que os soldados tredos, por que destemem os homens e os juizos humanos, e os supplicios que os homens inventaram. O que elles sómente receiam é o fogo eterno, uma pena á qual se foge mediante a confissão. Ageitado o ensejo, roubam-vos, atraiçoam-vos, matam-vos, com a certeza de serem absolvidos occultamente, por umamêa culpâ. Desgraçadamente é certo que a crença no inferno ha gerado monstros assim; a europa barbara tem milhares d'elles; ha bastantes para lá dos montes, e bem póde ser que mesmo cá; senão vejam aquelle devoto padre, cuja historia as gazetas contaram ha pouco: era um padre que matava todos osseus filhos no berço para se forrar ao incommodo de os crear; mas é provavel que os baptisasse, com o receio de que se perdessem. Eu de mim não quero chamar christãos, nem sequer homens, a taes feras. Deus nos livre de encontrar similhantes christãos em uma serra por noite de luar.

A honestidade d'estes meus devotos custa-lhes pouco; são creaturinhas que podem ver a felicidade dos outros sem sentirem cocegas de lh'a empalmar; não roubam nem matam por que a forca os embaraça, e a opinião dos homens ainda mais; pessoas, em fim, que tem mais mêdo ao crime que aos castigos correspondentes. Taes são os meus devotos. Devotos denomino eu todos os leigos que não duvidam, nem são indifferentes, nem se esquecem de ir á missa, nem deixam de confessar-seao menos uma vez cada anno. É verdade que eu não os incampo a ninguem como anginhos já cosinhados para a canonisação. Se elles não andassem por igrejas com tanta regularidade, não sei bem como estremal-os, quanto ao seu proceder, do bando dos indifferentes. Não são elles os derradeiros a informar-se d'onde sopra o vento, onde aquece o sol, e onde está o idolo do dia para o saudarem, nem tambem são os ultimos a apedrejar o idolo da vespera. Quantas villanias sobre-douradas e quantas villanias bem nuas e patentes lhes não attrahem as barretadas, e os cumprimenteiros sorrisos! Como elles se curvam deante do que desprezam! Que impio acatamento prestam á força, e até, com medo de se enganarem,ás apparencias da força! Que vulgares mexericos, que vulgares ambiçõezinhas, que exemplarissimas ingratidões!

Não os accuseis de hypocritas, que elles são sinceros, não fazem momices, vão ás procissões com a melhor boa fé, assistem ás festas do Mez de Maria, tem rosario, agnus-Dei, e penduram no pescoço medalhinhas de cinco reis carregadas de indulgencias. E, assim mesmo apezar da sua boa fé em medalhas, é bonito vêl-os, em sua casa, evitar o escandalo com melhor exito, e mais vigilancia que o peccado. E nem assim o evitam. Se sois curiosos, apanhai-m'os no ultimo degráo da escada, ahi por perto do altar: vereis o conego ás más com o deão; o sineiro bate na mulher; o sacristão tem má lingua; um juiz de irmandade casa a filha violentada com um velho, e dá cabo d'ella; outro, á sobre-meza, faz-se truão de chalaças de ebrio; e é de natureza tal, que a mulher por certas razões não admitte em casa creadas que não tenham edade e figura bastante canonicas, capazes de edificarem um mosteiro de bernardos; lá está um que é rico, mas economico, e d'isso estão os pobres tristemente convencidos. Ora, a esses peccados habituaes ajuntem, se quizerem, os peccados de occasião, e digam-me como se distinguem, por suas obras, o commum dos indifferentes do commum dos devotos.

Quereis subir ao primeiro degráo da escada? Luiz XI era devoto; Diana de Poitiers era devota; Brantôme devoto era; tambem era devota aquella regentede França que empregava as suas damas a seduzir, quero dizer, a converter os jovens huguenots e os velhos tambem. Todo o seculo XVII foi devoto, incluindo os cavalleiros farçolas, os bandidos, os abbades galans e os abbades demoniacos, os aváros e os glotões, os orgulhosos e os abjectos, as marquezas adulteras e os duques medianeiros, os magistrados venaes e as princezas aventureiras. Todos esses tinham bancada na egreja, iam aos sermões e discutiam ardentes sobre a materia da graça. Os amantes arrufavam-se na quaresma e faziam as pazes depois de Pascoa. Madame de Montespan, na côrte, cuidava em salvar-se, e ninguem quizesse obrigal-a a comer, á sexta feira, uma aza de borracho; o que ella então comia era salmão, lagostins, esperregado e pastelinhos de leite. Madame de Sévigné, uma das mais honestas e amaveis senhoras d'aquelle tempo, tambem devota, lia osContos de La Fontaine, e ficava-se a rir com elles e mais a filha. O inferno era como se nada fosse n'essas coisas. Quem desgraçadamente pensava muito n'elle, enterrava-se no claustro, como Mr. de Rancé e M.ellede La Vallière; mas, pelo ordinario, havia pouco quem se debruçasse a espreitar o tal abysmo; e quem se desse a esses exames sahia impertinente, misanthropo e jansenista. Fallava-se do inferno; mas sem reflectir grande coisa; encaravam-no pela casca. O grande caso era rir, cortejar o rei, agradar a todos, inclusivè a Deus, dando-lhe a vêr com infinita habilidade, espectaculos de devoção, de jogo, de ambição e... do mais.

O tempo e as revoluções que tantas mudanças tem feito, não mudaram o coração humano. Os devotos não são tantos como d'antes, mas são da mesma estôfa, e tanto montam estes como os outros, vistos a vulto. Relaxação extrema em fidalgos e populaça; sêde ardentissima de enriquecer; sordidissimos orgulhos; amores desatinados; paixões eriçadas de remordentes espiritos e blandiciadas de prazeres! Deus me defenda de calumniar peccadores a cheirarem ao incenso das igrejas! Bourdaloue, que os conhecia, e os demais prégadores assim antigos que modernos, disseram d'elles mais mal do que eu. O que sei é que o medo não faz bons aquelles que o bem, só de per si, não convida. O pejo do peccado poderá restaurar os cahidos; mas o medo, depois do peccado, é de todo o ponto inutil.

Não esqueçamos, porém, que ha devotos quasi irreprehensiveis, os quaes, sem serem heroes nem se destinarem a tanto, cumprem, sem desfallecer, a modesta missão que lhes quadra sobre a terra. São bemfazejos em pequena escala; restringem-se a pouco mais de sua casa; quanto muito, chegam até á visinhança; e, se por vezes, a mão caridosa ultrapassa estes limites proveitosamente, de novo se retrahe ao seu limite, onde está a maior formosura e grandeza de sua missão. Estes devotos não se distinguem dos outros por grande assuidade nos templos; o que os differencêa é o serem esmoleres; e mais visivelmente se estremam por se absterem do mal. Não são rixosos nem maldizentes:tem ainda mais caridade na lingua do que nas mãos, por que ella os serve com inexhauriveis riquezas. D'aquelles peccados mortaes que a sociedade chama fraquezas, e em que diariamente as pessoas piedosas resvalam sem morrerem d'isso, fogem elles como d'um grande delicto. Amam a verdade, a ordem, a continencia, o pudor, a sobriedade, como vós amais a justiça. E, comquanto não descream do eterno fogo, a luz que os guia não esplende do inferno, vem de cima; no ceo é que elles a buscam em seu peregrinar; e assim vão alentados pela esperança e não pelo medo.

Chegados somos aos bemfeitores dos homens, verdadeiros imitadores de Jesus, entes mortaes mais proximos da perfeição, as irmãs da caridade, os padres virtuosos, quantos se consagram a servir pobres, infermos, ignorantes; quantos sacrificam, não esterilmente, mas ás nossas precisões, seus teres, belleza, juventude, affeições domesticas, vigor, saude, esperanças e quantas venturas terrenas ahi ha. Bem sei que todos esses crêem no inferno; mas não são regidos por tal crença; nada tem que vêr o seu proceder com ella; temem-se de offender Deus, não por que Deus é vingativo, mas antes por que Deus perdôa; e esta crença verdadeiramentesalutar é uma das mais affectivas maneiras de amar.

Se o temor leva ao deserto, o amor conduz aos homens; se o temor se fecha á chave para dentro de grades, o amor quer sempre abertas as portas. Quem envia ao martyrio os missionarios é o amor; quem dá mãe a orphãos, filhas aos anciãos, irmãs aos soldados feridos, mestres aos aldeãos, amigos aos penitentes, tutores aos innocentes, guias aos transviados, é o amor. Todo bem feito n'este mundo é o amor que o faz; e este amor, que transborda da alma dos santos, em si mesmo haure sua fecundidade e bemfazeja energia.

Permittam-me uma hypothese.

Dê-se que um Concilio ecumenico se ajunta ámanhã, e declara, depois de haver invocado o Espirito Santo, que o inferno não é perpetuo, e que a palavra «eternidade», applicada ao castigo dos peccadores, significa tão sómente pena de infinita duração. Que ha de seguir-se a similhante proclamação? Imaginam que a irmã da caridade se retira logo do grabato do infermo, e se engolpha nas suas delicias mundanaes? Pensam que o benedictino, sacudindo o pó dos livros, se precipita na Bolsa? Que o joven lazarista, repatriando-se de regiões remotas, venderia o cajado e o breviario para ir ao theatro? Imaginam de boa fé que as irmãs da caridade se acabariam para logo? Se pensam isto, que idêa formam dessas bonissimas almas que os anjos e os homens admiram?

Consoante ao vosso modo de as julgar, a irmã da caridade diria: Ah! Deus não é implacavel? Então fui louca em amal-o. Deus não condemna irremissivelmente os peccadores? Louca fui em servil-o. Pois que! n'aquella bemaventurada eternidade, que eu tanto anhelava, não hei de ouvir os gritos da raiva e o estridor dos dentes dos condemnados? Que é d'então dos encantos do paraiso? Meninos, procurem quem os eduque; anciãos, procurem quem os alimente. Orphãosinhos desamparados, vós pensaveis que nós eramos vossas mães e irmãs; cuidaveis que vos amavamos por causa de vosso infortunio, e por vos termos em conta de membros soffredores de Jesus Christo, nosso modêlo e nosso Deus. Desenganai-vos! desenganai-vos! Não era por amor que vos amparavamos, era por medo que vos serviamos como lividas escravas, covardemente flexiveis a todos os caprichos de um senhor imperioso. Mas agora, visto dizerem-nos que o inferno acaba, buscai quem vos ame e sirva. Cada qual por si. Acabou-se o medo; nada de mais sacrificios. Abaixo, tunicas de burel; abaixo, veos que nos escondieis volupias da terra, mas não as dôres, abaixo! A pureza não é enlevo que nos contenha; gemidos de pobres não nos engodam; queremos ter vez na taça do peccado; bebamos, que a vida é curta e o inferno ha de acabar.

Não ha conjunctura em que eu ousasse attribuir similhante linguagem ás irmãs da caridade. Nunca! ainda quando, em um nefasto dia, fosse abolido o dogmasalutar da justiça divina; ainda quando pregoassem que tudo acaba no cemiterio, e que a sancção da moral está nos gosos e dôres deste mundo, as irmãs da caridade não fallariam assim. Se um concilio sahisse com aquellas decisões, regulal-o-hiam ellas.

Como é que o dogma do purgatorio, com seus flagellos de duração ignorada, sempre consoantes á natureza e circumstancias do peccado, ás luzes e costumes do peccador,—como é que este dogma tão racional, certo, mysterioso e terrivel, poderia enfraquecer a virtude, e a virtude principalmente d'aquellas almas livres, viris e modestas, nas quaes o amor tem mais dominio que o medo?

Crêde-me que é isso um demasiado aviltar a lama humana, que mostraes não conhecer; crêde-me. Se a Igreja ámanhã proclamasse a temporalidade das penas, nenhuma irmã da caridade deslisaria da sua fileira, nem um verdadeiro sacerdote abandonaria a sua grei, nem algum missionario acharia o Evangelho desataviado de excellencias que ensinar aos selvagens, nem a cruz radiaria menos, nem a palma dos martyres seria menos de invejar. Vêr-se-hia, ao invez e instantaneamente, encherem-se todas as igrejas, e justos e peccadores reunidos ao pé do altar, em um mesmo consenso de acção de graças, cantarem do fundo da alma:

Te-Deum, laudamus, in te, Domine, speravi; non confundebar in æternum.

Te-Deum, laudamus, in te, Domine, speravi; non confundebar in æternum.

FIM DA PRIMEIRA PARTE.

Até agora consideramos o inferno sómente em relação aos resultados moraes que a crença de sua existencia tem produzido, produz e produzirá sempre n'este mundo. Já demonstramos que esta crença, fatal a quantos se compenetram d'ella, é inerte para os demais: é inutil aos verdadeiros virtuosos, por que não tem que ver com o bem que praticam, e tambem ao mal que não fazem; é inutil aos devotos e indifferentes, por que não os estorva de commetter basta dóse de peccados mortaes; e pelo que toca aos peccados que não commettem, tal abstenção explica-se em louvor d'elles, por motivos totalmente independentes das penas infernaes; é inutil para os philosophos, visto que estes a não acceitam; é, emfim, inutil aos scelerados,por que os não impede de ser scelerados; e, de mais a mais concorre, umas vezes, a precipital-os no crime, outras a empedernil-os na perversidade.

Falta agora considerar o inferno, não em referencia á terra, mas pelo que elle é em si, qual os padres, doutores e mysticos o pintaram, isto é, nas suas relações com Deus, com os predestinados e com os reprobos. Mas, antes d'isso, cumpre-nos dizer alguma coisa das opiniões de Platão ácerca da justiça divina e do inferno. Será isto, a um tempo, entrar no assumpto, e responder aos theologos que, á mingua de razões, invocam de vontade, n'esta materia, a auctoridade de Ovidio, de Horacio, de Lucrecio, de Virgilio, de Hesiodo, de Orpheo, e d'outros escriptores de costumes sobre modo extravagantes que, a tal respeito, repetiram as idêas do antigo paganismo e nada mais.

A opinião de Platão, que elles mais acintemente allegam, deriva da mesma fonte; mas, alumiada pela indole e pura vida d'aquelle philosopho, ostenta-se mais respeitavel e seductora.

É mister, no dizer de Platão, que um castigo seja razoavel para ser justo; e para que seja razoavel, uma de duas clausulas é precisa: ou que o castigo aproveite ao castigado, ou ás testemunhas d'elle.

Partindo d'este principio, Platão não prodigalisa, á feição dos nossos theologos, as penas eternas, por quanto, a seu parecer, falta n'ellas a grande virtude das penas temporarias. São estas, em verdade, dobradamente prestadias, pois que ao mesmo tempo corrigemo culpado e admoestam os espectadores; pelo contrario, as outras não corrigem o culpado e podem apenas admoestar os vivos que as conhecem: logo são menos prestantes e universaes e completas; falta-lhes aquella bemfazeja efficacia com que os deuses folgam de dulcificar as obras da sua justiça; digamol-o em pouco: são menos divinas.

Eis-ahi porque Platão é aváro das penas eternas e perdoa ao maximo numero de peccadores, descontando-lhes os gemidos, lavando-os e purificando-os em suas proprias lagrimas, á excepção dos oppressores dos povos, de seus cumplices e louvaminheiros que expressamente exclue da lei commum. Para estes é elle durissimo; eternisa-lhes as dores; todavia, os deuses não podem ser accusados por isso de inutilmente rigorosos.

De feito, se a tyrannia é o maior dos crimes, e o unico expiavel, é porque a liberdade, que ella anniquila, é o maior bem que os deuses nos doaram, unico impossivel de substituir; é porque, na sociedade escravisada, cessam os prazeres honestos, a verdadeira gloria, sabedoria e virtudes.

Tal é o senso intimo do castigo excepcional que Platão applica aos tyrannos. Bastantemente está explicado a superioridade do terrivel castigo; mas o que não se explica é a razão da sua perpetuidade. Platão suppunha-o eterno porque não sabia, como nós, que a humanidade tem que percorrer no tempo um circulo limitado, e que este universo ha de acabar. Eternisavaelle, por tanto, o supplicio dos tyrannos, por suppôr que o seu exemplo devia ser eternamente util na terra. Não ha outra maneira de lhe justificar o inferno no seu systema.

Foi, porém, esta justificação do inferno destruida por Christo, o qual nos annunciou que todo o genero humano é, como cada homem, um passageiro na terra, e que um dia virá em que esta esphera que habitamos, e estes astros que nos alumiam, se sumirão no espaço como a poeira que o vento da noite espalha. Quem utilisaria com o supplicio dos condemnados, quando as testemunhas, em vez de fracos mortaes, fossem santos impeccaveis?

O inferno dos theologos não é, pois, identico ao inferno de Platão: o de Platão devia ser util sempre; o dos theologos, por fructificar um dia, ficaria esteril para sempre. Essa esterilidade já lh'a nós presentimos. Indagamos a razão d'uns padecimentos improficuos á victima, ao juiz, a todos. O coração protesta contra tal crueldade sem intento e sem effeito. Córa a gente só de o crêr. Como que o homem se sente melhor do que essa divindade absurda, sedenta sempre de torturas, ebria sempre de ira, insensivel sempre, peior que o abutre do Prometheo, que ás vezes, ao menos, adormece sobre a preza. Só pensar n'isto gera o atheismo na alma.

Erradamente, pois, se invoca, em pró de similhantes castigos, o testemunho de Platão, que se horrorisaria d'elles. Platão não condemnava o pobre pegureiropor algum roubo desconhecido ou tentativa malograda; mas bem póde ser que elle condemnasse inflexivelmente S. Clotario, S. Constantino e S. Carlos Magno. Além de que, elle tinha, para admittir um inferno sem fim, razões que não temos; e nós, para o rejeitarmos, temos razões que elle ignorava.

Os antigos situavam o inferno no centro da terra que habitamos, e pretendiam ter a este respeito pormenores muito satisfatorios. Os gregos e os romanos possuiam um mappa minucioso d'estas regiões subterraneas, a ponto de lhes conhecerem os rios, taes como o lodoso Cocyto, o ardente Phlegeton, e o invadiavel Acheronte; sabiam até que havia lá fetidas lagôas, em uma das quaes estava Tantalo atascado até aos queixos sem poder apagar a sêde; sabiam d'uns bosques medonhos em que certas almas se lamuriavam, debalde anciando o alvor do dia; conheciam montanhas, que outros condemnados, perseguidos pelas furias, em vão se esfalfavam por galgar. Contavam a historia de alguns desgraçados assim, e as particularidadesdo seu supplicio. Comtudo, apezar da indole inteiramente physica d'aquelles diversos castigos, diziam que os pacientes não tinham corpo, que os mortos eram apenas sombras intangiveis, bem que animadas, e que o seu maximo tormento era não poderem jámais viver vida carnal á luz do nosso sol. Isto contavam-no elles com toda a certeza, fiados em pessoas que tinham descido ao Tartaro, e de lá tinham voltado. Era conhecida a estrada por onde essas pessoas tinham viajado; havia cavernas que os pastores conheciam, poços d'onde sahiam vapores lethiferos e por onde se descia ao inferno.

Não eram menos instruidos os egypcios. Em assumpto de horrores visiveis, o Amenthi havia emprestado ao Tartaro pavorosos quadros. N'este Amenthi, que, segundo consta, quer dizerpaiz da noite, estão o cão de sete cabeças e outros deuses de feitios monstruosos. Ahi se encontra o Acheronte e o seu batel, os marneis e as aridas gándaras, e todas as figurações do mundo devastado.

Tem setenta e cinco circulos, e á entrada de cada circulo um genio armado. Giram as almas d'um circulo n'outro, algumas em fórma humana, outras com fórmas immundas, com cabeças de aves de rapina, pellagem de fera, e garras de reptil. O pavimento é sangue. Estrondeiam os gemidos. Pendem os condemnados dos ganchos á maneira de carneiros no açougue, ao passo que outros, ainda palpitantes, são mergulhados em caldeirões ferventes. Uns vão fugindo,com os braços estendidos, e a cabeça quasi separada do tronco, outros levam nas proprias mãos o coração que lhes arrancaram do peito que mostram lanhado.

Conforme nos vamos aproximando das primitivas civilisações, e, por consequencia, do primitivo barbarismo, mais o genero humano parece deliciar-se no repasto espectaculoso de seus proprios soffrimentos, e o mundo invisivel é para elle um espelho de augmento das miserias e torturas do mundo visivel.

Cada povo se espelha na imagem que nos deixou de seu inferno, com as suas idêas moraes, leis, necessidades, com seus costumes, temperamento e clima.

Nas serranias do Thibet, onde rapidamente se passa do mais rigoroso frio ao mais suffocante calor, ensinam os lamas que o inferno, situado em determinado logar da Asia umas tantas legoas da superficie da terra, é formado de dezeseis circulos: oito onde se arde, oito onde se gela.

Nas esplanadas da India, onde não ha inverno, e onde as populações, languidas de calor, corruptas pelas liberalidades da terra, apenas tem phantasia para inventar prazeres e supplicios, dizem os brahmanes que certos sitios do Naraka estão cheios de mosquitos, de serpentes venenosas, de escorpiões horriveis, de tigres, de abutres e de todos os flagellos proprios d'aquellas regiões ardentes; e que os outros circulos são o theatro das mais requintadas torturas que ainda póde conceber a malicia d'um rajah arrojado. Ahi os glotõessão condemnados a comer calháos asperrimos de puas agudas; os luxuriosos são apertados nos braços de estatuas de ferro em braza.

Contam pelo miudo todas as circumstancias d'estes infinitos martyrios, e taes narrativas fariam impallidecer Ixion sobre a sua roda, Sizipho debaixo do seu penedo. Sabem os hindostanicos pelos livros e pela tradição em que ponto da sua terra está situado o Naraka e a que profundeza se encontra. Mas não podem os mortos encerrados ahi achar os limites e as portas d'aquelle inferno.

No inferno dos scandinavos, chamado Nifleim, não ha fogo. Essas antigas nações do norte gostam tanto de calor, que não poderam consideral-o um supplicio; pelo que o seu inferno é de neve, onde ha o tiritar, a fome, a febre, a velhice tremente, as torrentes glaciaes, as tempestades, o uivar dos lobos, o pavor que estaleja os dentes, e os cobardes, unicos condemnados que ahi vão.

Concluamos esta historia, que daria assumpto para um livro. As reflexões moraes que ella suscita vão breve ser applicadas na descripção do nosso proprio inferno, que na essencia não se distingue dos infernos pagãos. Porém, sendo elle procedente do inferno judaico, paremos diante d'este.

Sabido é que o Antigo Testamento é muito sobrio de revelações do inferno. Com muito custo se rebuscaram n'elle alguns versiculos tendentes a estabelecer aquella crença entre os hebreus, antes da destruição do primeiro templo. Os saduceos, que juravam sómente pela Biblia, negavam absolutamente a vida futura. Ora, bastantes sabios tinham os saduceos em conta de melhores interpretes da Biblia. Dizem elles que os judeus, durante as tristezas do captiveiro, souberam da bôcca dos magos a immortalidade da alma e a sciencia demonologica. Todavia, Abrahão era chaldeo; os filhos de Jacob haviam longo tempo estanciado no Egypto;—isto dá a crer que os seus descendentes deviam possuir, antes de exilados em Babylonia,parte dos conhecimentos que os escripturistas registavam. Não exerciam os prophetas um ensino mystico, e não conservava o povo tantas tradições grosseiras contemporaneas de Moysés e talvez anteriores? As passagens respigadas na escriptura e nomeadamente em Isaias, relativas ao inferno, seriam inexplicaveis, se não se lhe referissem; mas seriam egualmente inexplicaveis se o povo não tivesse, para intendel-as, mais luz da que lhe dão essas passagens. Estes trechos não encerram doutrina secreta dos prophetas, respeito á vida futura; contém mais referencias que revelações á crença vulgar e formalissima do inferno.

O nome «Géhenna» que lá dão á paragem das expiações futuras, não era estrangeiro; era o nome de um vale ao poente de Jerusalem, onde, desde a origem de sua historia, iam os hebreus adorar Molock, e sacrificar-lhe no fogo victimas humanas, e, ás vezes, seus proprios filhos. N'este sitio, tambem denominadoTrophet, ou «logar horrendo», eram lançados os cadaveres dos justiçados e os despojos dos animaes. Este valle maldito, sagrado pela superstição aos deuses sanguinarios, juncado de carnes putridas e ossadas alvejantes, assombrado de larvas sinistras, resonante de gemidos e rugidos, converteu-se para os moradores da cidade santa, não já em verdadeiro inferno, mas no symbolo exterior e synonymo de inferno. No inferno verdadeiro, ardiam Moloch e os seus idolatras na mesma fogueira; os máos eram roidos pelos vermes; e estes vermes eram immorredouros como as suasprêas:—idêas positivamente exprimidas por Isaias, cap. LXVI, ultimo verso.

É egualmente certo que os rabbinos e tambem o povo, tão pouco iniciados até então andavam na mystica philosophia, que, se alguma vez discutiam, davam azo a que os prophetas se rissem ou indignassem; porém, depois que os rabbinos e o povo se recolheram do captiveiro, as suas noções eram mais amplas, e talvez as mesmas que se escondiam nas escólas do Carmelo e de Galgala.

Vamos vêr quaes são as noções não contidas no Antigo Testamento, mas traçadas manifestamente no Novo, as quaes, quando S. Paulo, S. Mathias, S. João e outros apostolos escreviam, já se haviam derramado na Judea, quinhentos ou mais annos antes.

Era dividido o Scheol, ou mundo futuro, em duas regiões, que comprehendiam o paraiso e a géhenna. A géhenna, objecto d'este estudo, era contada no numero das sete creações anteriores ao nosso universo. Á similhança do Amenthi egypcio e do Naraka indiatico, era formada de diversos circulos, mas só tinha sete, correspondendo aos sete dias do Genesis, e aos sete ceos ou sete circulos do paraiso. Havia géhenna superior e géhenna inferior. A superior abrangia os seis primeiros circulos: era uma especie de purgatorio onde baixavam, depois da morte, os peccadores dignos de perdão: uns ficavam no sexto, outros no quinto, outros no quarto circulo, outros no primeiro, conforme a gravidade ou leveza dos seus peccados.Trezentos e sessenta e cinco degráos, correspondentes aos trezentos e sessenta e cinco peccados assignalados pelos doutores, formavam escaleiras d'um circulo a outro, e em cada circulo era mister passar trezentos e sessenta e cinco dias. Porém, os grandes criminosos, abatidos sob o gravame de suas culpas, atravessavam, sem poder parar e com a rapidez de pedra arrojada por funda, os seis primeiros circulos da spiral, e cahiam no setimo, no fundo abysmo, na géhenna inferior, d'onde não ha mais sahir. Á frente de suas legiões ahi os recebia Samael, e então lhes começava o perpetuo supplicio, o insulto dos diabos, a saudade da vida, o fogo interno e externo, o tormento da sêde, e a miragem cruelissima que scintilla aos olhos dos peregrinos agonisantes no deserto[5].

Taes eram, em resumo, as opiniões da synagoga ácerca do inferno. Entretanto os essenios, seita monastica celibataria que vivia em commum para espiritualmentese reproduzir, professavam outra. O inferno d'elles, coisa notavel, similhava ao dos monges thibetanos; os soffrimentos ahi eram calor e frio, e todas as intemperies das estações em climas deseguaes.

Agora vejamos o inferno dos nossos theologos.

[5]O inferno mahometano é copia do judaico, mas copia singularmente alterada. O anjo Trakek é quem lá governa. Ha lá chuva de peçonha. Chama-se Géhenna e divide-se em sete circulos. Porém, exceptuado o primeiro circulo, reservado exclusivamente para os musulmanos, e o ultimo, destinado aos hypocritas, cada qual dos outros é pertencente a cada uma das religiões diversas que precederam o islamismo. Estes hereticos estão portanto em andares sobrepostos, quasi por ordem de sua antiguidade: os christãos no segundo, os judeus no terceiro, os sabeos no quarto, os guebros no quinto, os idolatras no sexto. D'estes seis ultimos ninguem sahe: ahi é o verdadeiro inferno; mas o primeiro, o circulo de honra dos crentes, é purgatorio, no dizer dos doutores.

[5]O inferno mahometano é copia do judaico, mas copia singularmente alterada. O anjo Trakek é quem lá governa. Ha lá chuva de peçonha. Chama-se Géhenna e divide-se em sete circulos. Porém, exceptuado o primeiro circulo, reservado exclusivamente para os musulmanos, e o ultimo, destinado aos hypocritas, cada qual dos outros é pertencente a cada uma das religiões diversas que precederam o islamismo. Estes hereticos estão portanto em andares sobrepostos, quasi por ordem de sua antiguidade: os christãos no segundo, os judeus no terceiro, os sabeos no quarto, os guebros no quinto, os idolatras no sexto. D'estes seis ultimos ninguem sahe: ahi é o verdadeiro inferno; mas o primeiro, o circulo de honra dos crentes, é purgatorio, no dizer dos doutores.

São puros espiritos os demonios, e tambem puros espiritos devem considerar-se os condemnados no inferno, por quanto só a alma d'elles lá desceu, e os ossos restituidos á terra se transformam continuamente em hervaçaes, plantas, fructos, mineraes, liquidos, desfigurando-se nas continuadas methamorphoses da materia.

Tanto, porém, os condemnados como os santos hão-de resuscitar no dia final e reassumir para nunca mais o deixar um corpo carnal, o mesmo corpo com o qual passaram entre os vivos.

A distincção d'uns a outros é que os eleitos hão de resurgir em corpos purificados e radiosos, e os condemnados em corpos poluidos e afeiados pela culpa.E de então ao diante não haverá sómente puros espiritos no inferno; mas sim homens como nós. É por consequencia o inferno uma localidade physica, geographica e material, visto que hão de povoal-o creaturas terrestres, dotadas de pés, mãos, bôcca, lingua, dentes, orelhas, olhos como os nossos, veias com sangue, e nervos sensiveis á dor.

Onde está situado este inferno? Alguns doutores situam-no nas entranhas da terra; outros em certo planeta que eu não sei; mas a questão nenhum concilio ainda a resolveu. A este respeito é tudo conjecturas; o mais que se affirma é que o inferno, seja onde fôr, é um mundo composto de elementos materiaes, mas não tem sol, nem lua, nem estrellas, e é mais triste e inhospito, e mais ermo de todo o germen e apparencia de bem, do que todos os pontos inhabitaveis do mundo em que peccamos.

Não se arriscam os discretos theologos a pintar, á similhança dos egypicos, indostanicos, e gregos, o immenso horror d'essa mansão; limitam-se a dar-nos como amostra o pouco que a escriptura denuncia, o lago de fogo, e o enxofre do Apocalypse, e mais os vermes de Isaias, aquelles vermes eternamente enxameando sobre as carcaças de Thophet, e os demonios atormentando os homens que perverteram, e os homens chorando e ringindo os dentes, segundo a expressão dos evangelistas.

Santo Agostinho não concede que aquellas penas physicas sejam simples imagens das penas moraes;contempla em um verdadeiro lago de enxofre vermes e serpentes verdadeiras encarniçadas sobre todas as partes dos condemnados, exacerbando com as suas mordeduras as ulcerações do fogo. Quer, conforme um verso de S. Marcos, que este estranho fogo, posto que material como o nosso, e actuando sobre corpos materiaes, os conservará como o sal conserva a carne das victimas sempre sacrificadas e sempre viventes, sentirão a dôr d'aquelle fogo que queima sem destruir, e lhes filtra aos musculos, saturando-lhes os membros, desde a medulla dos ossos e as pupillas dos olhos até as mais occultas e sensiveis fibras do seu ser.

Se elles podessem submergir-se na cratera d'um vulcão, sentir-se-hiam ahi refrigerados e consolados.

D'esta arte fallam com toda a segurança os mais timidos, os mais discretos e reservados theologos; não negam, porém, que no inferno haja outros supplicios corporaes; sómente dizem que não tem d'elles um sufficiente conhecimento, ou pelo menos tão positivo como aquelle que receberam ácerca do horrivel supplicio do fogo, e do afflictivo supplicio dos vermes. Ha no entanto theologos mais audazes e illustrados que nos dão descripções mais miudas, variadas, e completas do inferno; e, bem que não saibam em que local do espaço tal inferno esteja, consta-lhes que alguns santos o viram.

De certo que estes santos lá não foram com a lyra em punho, como Orpheo, ou com a espada na mão,á similhança de Ulysses: baixaram lá arrebatados em espirito. D'este numero é Santa Thereza.

Quem lê a relação d'esta santa cuidará que no inferno ha cidades. Pelo menos lá viu ella uma especie de viella longa e estreita como ha tantas nas cidades antigas; entrou caminhando horrorisada sobre um terreno lamacento e fetido onde rastejavam reptis monstruosos; mas foi retida em seu transito por uma parede que atravancava a viella; e n'esta parede havia um nicho onde Santa Thereza se metteu sem saber como. Disse ella que este logar lhe estava destinado, se abusasse emquanto viva das graças que Deus difundia sobre a sua cella d'Avila. E, bem que ella se anichasse com maravilhosa facilidade n'aquella guarita de pedra, não podia nem assentar-se, nem deitar-se, nem estar de pé, nem safar-se; que estas horriveis paredes, apertando-a, envolviam-na, angustiavam-na, como se fossem animadas. Parecia-lhe que a abafavam, que a estrangulavam, e ao mesmo tempo a estripavam e a faziam pedaços.

E sentia-se arder, e não havia genero de afflição que não experimentasse. Esperança de soccorro, nenhuma. Á volta d'ella tudo escuro; mas ainda assim, atravez d'essas trevas, entrevia, com grande espanto, a hedionda rua por onde tinha passado com toda a sua immunda visinhança: espectaculo que lhe era tão intoleravel como as intalladelas da prisão.

Ora isto de certo era apenas um cantinho do inferno.

Outros viajantes espirituaes foram mais obsequiados. Houve tal que viu no inferno grandes cidades a arder, Babylonia e Ninive, e até Roma, com os seus palacios e templos abrazados, e os habitantes acorrentados, mercadejando no balcão, padres misturados com meretrizes nas salas dos festins, hurrando nas suas poltronas d'onde não podiam arrancar-se, e levando aos beiços, para apagar a sede, copos que golphavam lavaredas; validos em joelhos sobre almadraques ardentes, com as mãos postas, e principes vertendo sobre elles devorante lava d'ouro fundido. Outros viram no inferno descampados sem limites, cavados e semeados por lavradores famelicos. E d'essas plantas fumegantes de suor, como nenhum fructo vingasse, os lavradores devoravam-se uns aos outros; e, depois, tantos quantos tinham sido, magros e famintos do mesmo modo, dispersavam-se em bandos pelos horisontes fóra em cata de terras mais ditosas, e eram logo substituidos por outras colonias errantes de condemnados.

Houve quem visse no inferno serranias cavadas de abysmos, de florestas gementes, poços sem agua, fontes de lagrimas, regatos de sangue, turbilhões de neve em desertos de gelo, barcos desesperados vogando em mar sem praia. Em fim lá viram quanto os pagãos tinham visto, o reflexo lugubre da terra, uma sombra incommensuravelmente augmentada de suas miserias, os seus naturaes soffrimentos eternisados, entrandon'isto masmorras, forcas, e os instrumentos de tortura que as nossas proprias mãos forjaram.

Ha com effeito lá n'essas profundezas demonios que se fazem corporeos, para mais a preceito atormentarem os homens em suas carnes. Uns tem azas de morcego, pontas, coiraças escamosas, griphos e agudissimos dentes. Temol-os visto pintados, armados de espadas, de forcados, de tenazes ardentes, de serras, de grelhas, de folles, de clavas, empregando tudo isto durante a eternidade n'uma especie de açougue e cosinha da carne humana. Ha outros transformados em leões, e viboras enormes, arrastando as prêas em solitarias cavernas.

Alguns desfiguram-se em corvos para arrancar os olhos a certos padecentes, em quanto outros se transformam em dragões volateis, e vão carregados d'almas sanguentas e lastimosas atravez de tenebrosos espaços, e as precipitam no lago de enxofre. Além se vê nuvens de gafanhotos, e de agigantados escorpiões, cuja vista arripia, cujo cheiro enoja, cujo menor contacto convulsiona. Acolá estão os monstros polycephalos abrindo vorazes fauces, sacudindo as crinas formadas de aspides, triturando os condemnados entre os seus queixos sangrentos, e vomitando-os logo mastigados, mas ainda vivos, porque são immortaes.

Estes demonios de fórma sensivel, recordando tão ao vivo os deoses do Amenthi e do Tartaro e os idolos que os phenicios, os moabitas e outros gentios visinhos da Judea adoravam, estes demonios não funccionamá toa; cada qual tem seu officio e sua tarefa: o mal que fazem no inferno corresponde ao mal que elles inspiraram e fizeram commetter n'este mundo. São os condemnados punidos em todos os sentidos e orgãos porque offenderam Deus por todos os orgãos e sentidos. Os comilões são punidos de certa maneira pelos demonios da intemperança, e d'outra maneira os calaceiros pelos demonios da preguiça, e ainda d'outra maneira os lascivos pelos demonios da sensualidade; em fim, são tantas as maneiras quantas as variedades de peccar. Dizem que elles até na fogueira terão frio, e no gelo se sentirão arder; estarão ávidos de descanso e irrequietos; sempre com fome, sempre com sede, e mil vezes mais cansados que o escravo no fim do dia, mais doentes que os moribundos, mais lacerados, mais escalavrados, mais lazaros que os martyres, e assim para todo o sempre.

Nenhum demonio se desgosta nem desgostará jámais do seu terrivel officio; n'esta parte são elles disciplinados a ponto, e fidelissimos na execução das ordens vingativas que receberam. Se não fosse isso, que seria do inferno? Se os demonios tivessem rixas entre si ou se fatigassem, os pacientes descansariam. Mas nem uns descansam, nem os outros se desavêm; e posto que sejam máos e muitissimos, os demonios harmonisam-se d'um cabo a outro do abysmo, por tanta maneira que nunca na terra se viram nações mais submissas a seus principes, exercitos mais doceis a seus generaes, communidades fradescas mais obedientesa seus prelados. Nada se sabe da ralé dos demonios, d'essa canalha de espiritos villãos que formam legiões de vampiros, de sapos, de escorpiões, de corvos, de hydras, de salamandras e outra bicharia sem nome que constituem a zoologia das regiões infernaes; mas são conhecidos de nome muitos principes que commandam aquellas legiões, entre outros Belphegor, o demonio da luxuria, Abbaddon ou Apollyon, o demonio da carnificina, Beelzebuth, o demonio dos desejos impuros, ou o principe das moscas geradoras da podridão, e Mammou, o demonio da avareza, e Moloch, e Belial, e Baalgad, e Astaroth, e outros mais, e sobre todos o chefe universal, o sombrio archanjo que no céo se chamava Lucifer, e no inferno se chama Satan.

Eis aqui, em summa, a idêa que se nos dá do inferno, observado em sua natureza physica, e nas penas corporaes que lá se padecem. Lêde os escriptos dos padres e antigos doutores, interrogae as piedosas legendas, examinae as esculpturas e paineis das nossas egrejas, attentae o ouvido no que se diz em nossos pulpitos e sabereis muitas outras coisas.

De qualquer modo que as figuremos, e quando mesmo por piedade ou qualquer outra razão se reduzissem só á acção do fogo, estas penas materiaes não poderiam ser eternas, porque, se a alma é immortal e póde soffrer sempre, não succede o mesmo ao seu involtorio terrestre: corpos de carne, á feição dos nossos, são de seu natural incapazes de resistir a similhantes agentes de destruição.

É um milagre a resurreição dos corpos; mas faz-se mister um segundo milagre para dar a estes corpos mortaes, já usados pelos transitorios attritos da vida, e de mais a mais aniquillados, a virtude de subsistir, sem se dissolverem, na fornalha onde metaes se evaporassem. Diga-se embora que a alma é algoz de si mesma, que Deus a não persegue, mas que a desampara pelo estado desgraçado que ella escolheu: isso ainda póde rigorosamente comprehender-se, posto que o desamparo eterno d'um ser desvairado e padecente pareça pouco conforme á bondade do Creador; porém o que se diz da alma e das penas espirituaes não póde por modo algum ser dito a respeito dos corpos e das penas corporaes; que para eternisar as penas corporaes não basta que Deus retire a sua mão;pelo contrario, é forçoso que elle a mostre, que intervenha, que opere, sem o que o corpo succumbiria.

Conjecturaram, pois, os theologos que Deus effectivamente opera, em seguida á resurreição, o segundo milagre de que fallamos. Primeiro, exhuma do sepulchro os corpos de argila que lá se haviam desfeito; tira-os taes quaes lá tinham entrado com as suas nativas infermidades e as degradações successivas da idade, da doença e do vicio, decrepitos, infesados, gotosos, cheios de precisões, sensiveis á ferroada d'uma abelha, cobertos das macerações que lhes fizeram o rossar da vida e da morte: eis o primeiro milagre. Depois, a estes corpos alquebrados, prestes a reverter ao pó d'onde surgiram, inflige uma propriedade que não tinham: a immortalidade, o mesmo dom que n'um lance de colera, ou, se o quereis, n'um lance de misericordia, elle tinha subtrahido a Adão quando o expulsou do Eden: eis o segundo milagre. Quando Adão era immortal, era invulneravel; e, quando cessou de ser invulneravel, tornou-se mortal. Á dôr seguiu-se o morrer.

A resurreição, portanto, nem nos repõe nas condições physicas do homem innocente, nem nas condições physicas do homem culpado; é uma resurreição das nossas miserias sómente; mas com sobrecarga de novas miserias, infinitamente mais horriveis; é, até certo ponto, uma verdadeira creação, e mais maliciosa que imaginação alguma ainda concebeu.Dir-se-ha que Deus reconsidera e varia, quando accrescenta aos tormentos espirituaes dos peccadores tormentos corporaes de duração infinda, e muda de repente as leis e as propriedades por elle prescriptas ás composições da materia desde a origem d'ella. Resuscita carnes doentes e corruptas, e, atando com indesatavel nó elementos que tendem a separar-se, mantém e perpetúa, contra a ordem natural, aquella podridão vivente, que é posta no fogo, não para se depurar, mas para ser conservada qual é, sensivel, padecente, ardente e immortal.

Por amor d'este milagre é Deus arvorado em um dos algozes do inferno; por que, se os condemnados só a si podem imputar seus males espirituaes, tambem não tem a quem imputar os outros senão a Deus. Já não era pouco abandonal-os, depois de mortos, á tristeza, ao remorso e a quantas agonias sente a alma que perdeu o bem supremo; mas ha ahi peor: irá Deus, no dizer dos theologos, procural-os nas trevas do seu abysmo; chamal-os-ha por instantes á luz, não para allivial-os, mas sim para vestil-os d'um corpo horrido, chammejante, immorredouro, e n'este acto os abandonará definitivamente. Mas não será isso ainda abandono, pois que céo, terra e inferno não subsistem senão por um acto permanente da divina vontade sempre activa. É força, então, que Deus os tenha sempre de sua mão, para obstar que o fogo se apague e os corpos se consumam, a fim de que esses desgraçadosimmortaes contribuam, com a perennidade de seu supplicio, á edificação dos predestinados.

Vem a ponto um episodio da historia da Egreja, que, máo grado nosso, nos veio á lembrança. Seja-me permittido recordarvo-lo.

Foi Nero um poderoso imperador. Galardoava esplendidamente os escravos que o serviam; e, ao mesmo tempo, incutia-lhes medo salutar com o seu systema de tratar inimigos. Queimando Roma a fim de a reedificar mais formosa, assacou o crime aos christãos, gente indocil que o não bajulava, e cria em justiça mais amavel que a d'elle, e por esta e outras razões desagradava á plebe idólatra. O processo foi summario; a sentença de morte, e a execução espantosas, como vai vêr-se. Embrearam-os de resina, amarraram-os a postes de ferro, cravados distantes entre si nos bellos jardins de Sallustio, onde eram celebrados então os jogos nocturnos. Era já noite, quando as portas foram abertas á multidão. Eis que sôa o clangor das trombetas, e logo os verdugos infileirados chegaram lume ás tunicas dos christãos. Callam-se as trombetas; restrugem de todos os lados gritos estridentes. A subitas, arvores, flôres, estatuas, escadozesmarmoreos, tanques, repuxos, tudo resplandeceu. Chega Cezar na sua carroça, escoltado de vistosa côrte, derramando, por sobre as turbas aterradas e jubilosas do seu sorriso, ouro e perolas. Servem-se banquetes. Dançam as filhas do oriente, em quanto os tocadores de alaude e cantores confundem a dôce melodia de seus concertos com os applausos do povo fiel e os derradeiros arrancos dos christãos que vasquejavam em suas tunicas ardentes.

Pouco durou aquelle instructivo espectaculo. N'este mundo, as festas mais bisarras são curtas. Felizmente para os martyres, Nero não era Deus. Diz-se, porém: eil-os, os confessores de Christo apremiados, á volta de um Deus que dá ares de Nero, e como contemplando, á maneira do Cezar, em festa sem fim, milhares de creaturas humanas, estorcendo-se e clamando nas lavaredas, tochas ullulantes, fachos inextinguiveis, testemunho assás consolativo da superioridade do rei do céo sobre os regulos da terra.

Haja paciencia, que ainda falta o mais essencial. Aquellas penas corporaes são quasi nada. Repugnantissimas que ellas se nos figurem, são essas, ainda assim, a menos repugnante cousa que o inferno encerra.

Em que meditam esses pobres entes atormentados? Que sentimentos os dominam? Que fazem elles, durante as suas inexpremiveis torturas, n'esse tempo illimitado em que os segundos são seculos, e os seculos menos que segundos? Os theologos tem investigado estas cousas; e, presupposto perpetuo o inferno, não ha dous modos de resolver aquellas perguntas. Uma breve reflexão vos dará a resposta que os theologos tem dado perfeitamente conforme a todas as tradições.

Imaginai um lupanar de embriagados, um hospital de loucos, um covil de assassinos, uma caverna de ladrões, um bordel immundo; soltai ao mesmo tempo todos os moradores d'esses abominaveis logares, e tereis uma optima pintura do inferno espiritual, isto é, o estado mental dos condemnados. Novos e velhos, homens e mulheres, embaralhados todos, apostrophando, jurando, blasphemando, eternamente ebrios, eternamente vorazes, eternamente lascivos, eternamente invejosos e crueis, eternamente impios, eternamente sandeus.

Como as sombras do Tartaro, choram o nosso sol, as sombras, as frescas ribeiras, os pampanos dos nossos vinhedos, e todos os prazeres sensuaes de queávidamente estão sequiosos e privados. Os demonios, que os castigam por seus passados prazeres, alimentam n'elles inuteis saudades, e insensatos desejos, dos quaes nada póde distrahil-os, nem sequer as dôres corporaes, e agudissimas de que são atormentados todos os seus membros. N'isto, de mais a mais, os demonios o que fazem é executar as sentenças do soberano juiz—sentença promulgada no céo, pela qual são os reprobos intellectualmente torturados; pois diz Santo Agostinho no seuCommentario aos psalmos: faz-se mister que tudo quanto deliciou os homens, quando peccaram, se converta em instrumento do Senhor quando castiga. O desejo saciado é, pois, punido com o desejo insaciavel.

Não imaginem que no inferno haja uma só alma que deplore a sua innocencia baptismal, e o céo promettido que ella perdeu, e a companhia dos anjos, e a bemaventurança dos eleitos. Os precitos fogem de Deus, não o procuram; viram-no no dia do juizo, tem-no presente sempre nos tormentos que soffrem. De certo os angustia estar tão longe d'elle; mas é angustia de raiva que não tem nada que vêr com as saudades e anceios do amor.

Não pensem que entre as alegrias cuja perda lá nos dilacera o coração, estejam os castos prazeres do lar, a pratica dos anciãos, as meiguices das creanças, a ternura dos irmãos, a dôce confiança dos amigos, as consolações do trabalho e as recompensas do estudo. Verdadeiras alegrias eram aquellas de certopara os peccadores; mas os condemnados nem as desejam, nem d'ellas se lembram; abasta-lhes a sciencia que tem; e, pelo que toca ás affeições terrestres, mortas são todas: resta-lhes o odio sómente. A mãe que está no inferno, se tem um filho no paraizo, abomina-o, e elle a ella; se o tem no inferno, abomina-o tambem e é correspondida por igual, e, se o tem vivo no mundo a choral-a, da mesma sorte o abomina. Filhos, pae, marido, irmãos e irmãs, amigos, tudo lhe é igualmente odioso.

O que os condemnados mais ardentemente desejam é coisa que se beba e se coma, e além d'isso as delicias sensuaes e a bruteza do coito carnal. São de tal sorte as suas disposições em meio de tantos soffrimentos que, se um só d'esses condemnados podesse por um momento voltar á vida, escandalisaria um alcouce. Entretanto, confessam a justiça da condemnação que os fere; mas é para amaldiçoal-a; e, bem que não sejam atheus, por que tal não podem ser em similhante lugar, são mais scelerados, ignobeis, impudentes e perversos do que poderia sêl-o uma nação de atheus. Uma nação de atheus, não sendo composta de immortaes, temer-se-hia do nada como d'um objecto de medo ou esperança, e tiraria d'ahi certas regras de proceder que bastariam a tornal-a menos miseravel e brutal; mas no inferno não ha que temer nem que esperar. Ha ahi um retouçar-se na dôr, em horrendos sonhos, que exulceram os appetites sem os satisfazer. Ahi é tudo obscenidade, egoismo, opprobrio, hediondez,a humanidade disforme, depravadissima, impudentissima, sem piedade, sem consciencia.

A blasphemia é a unica distincção que separa os condemnados das feras assanhadas, e que os levanta algum tanto acima dos porcos, dos lobos, dos macacos, dos toiros, dos bodes e dos reptis. É logo a blasphemia o unico symptoma de razão que se lhes deixa, a sua unica e ultima grandeza! Os irracionaes nem quando soffrem blasphemam: a blasphemia é um acto intellectual que n'este mundo degrada, e no inferno exalta. Um condemnado que louvasse a Deus seria um santo, cujo supplicio cedo ou tarde acabaria; mas, sendo interminavel o supplicio d'elle e impossiveis os santos n'este abysmo, o condemnado que não blasphemasse seria um bruto infecto.

É portanto de justiça que os façam blasphemar; d'isso inferimos que elles tem alma; e d'esse modo a mostram na unica maneira que podem; e, se não podem satisfazer a vil concupiscencia que os devora, desforram-se saboreando a pleno peito o agro prazer de insultar o Deus que os pune por tão singular maneira.

Havendo só o inferno, já se vê que n'esta infame companhia os theologos misturam, como iguaes, qualquer homem honrado que morra na incredulidade dos mysterios. Isto lhe basta para ser condemnado. E com esse vae tambem a viuva pobre, que, em vez de ir á egreja no domingo, remenda os fatinhos das suas creanças: tambem não é preciso mais para ser condemnada.

Tambem lá vão, á conta de não jejuarem, nossas mães e irmãs, mulheres e filhos: pois não é bastante razão para ir ao inferno quem come um bocado de pão com certo prazer?

Este inferno, povoado de patifes incorrigiveis, é uma escóla: ninguem ahi se corrige, mas aprende cada qual a conhecer-se, e já não é pouco. Quem quer que ahi desce, logo que ahi está, é igual aos devassos, aos parricidas e aos traidores. Quem ahi se vê tão diverso do que se imaginava n'este mundo, aterra-se de si proprio. O bom que cada qual tinha em si quando vivia, com a vida se desvaneceu; e o mal que era apenas uma imperceptivel mancha, lavrou como a gangrena, de tal arte que alma e corpo é tudo uma chaga.

Que o homem se perdesse por um pomo ou por um imperio, por um beijo ou por um homicidio, o resultado é o mesmo: ninguem é condemnado com attenuantes. Não procureis no inferno um companheiro menos corrompido do que os outros, que se respeite ou que seja respeitavel por qualquer motivo; é coisa que lá não ha; ninguem conserva ahi vislumbre das qualidades que na terra se respeitam. Ou vades para a direita ou para a esquerda, para cima ou para baixo, girai em todas as direcções d'esse abysmo, que não achareis germen, relampago, sombra de virtude. Aquelles sabios cujas vigilias opulentaram os homens, e não deixaram dinheiro com que os enterrassem; aquelles philosophos estoicos, legisladores, magistrados, guerreiros illustres, e soldados obscuros mortos nas fronteiras; aquelles rigidos protestantes que psalmodeavam nas lavaredas, aquellas esposas extremosas, e as noivas cuja sepultura é juncada de rosas brancas—todos esses que não morreram em graça—de qualquer modo que pensassem e procedessem n'este mundo, os seus costumes e pensamentos são forçosamente os do outro. Os que lhe sabem a historia, e os amaram e lamentam, não hão de reconhecel-os. Eil-os preza de todos os vicios, paixões, e desejos dos condemnados. Grandes homens, sabios heroes, martyres, mães veneradas, donzellas castas, artistas sobrios e modestos, eil-os em côro de impios, fallando como ebrios, cynicos e assassinos. Abandonou-os Deus todos a um tempo, a um tempo os pune todos; omesmo ferro lhes abrasa os corpos e a mesma febre lhes alanceia as almas.

Ahi está o inferno espiritual.

É pois o inferno um máo logar, trescalando ao vicio e ao crime. Os demonios, guardas d'este máo logar, e professos na corrupção, usam do imperio que sobre os hospedes lhes é permittido, corrompendo-os incessantemente e sem lucta nem obstaculo.

É propriedade d'elles a alma dos condemnados. Deus, entregando-lh'a para que elles façam d'ella o que poderem, não lh'a disputa e bastantemente sabe o que elles farão.

Se as adições espirituaes dos condemnados fossem sómente crueis, seria isso bastante para nos auctorisar a duvidar da eternidade d'ellas; mas, além de crueis, impuras, é um direito, é até um dever negal-as. É certo que a natureza algumas vezes inflige ao homem esses impuros soffrimentos; mas são transitorios: uns morrem, alguns curam-se, e outros endoidecem: é outro genero de morte. Mas no inferno os furores sensuaes, os appetites phreneticos não matam nem remedeiam, não são venenos nem balsamos, são penas sem fructo e sem fim.«Que condemnação, diz S. Bernardo, a da vontade amarrada á precisão de crêr omale não crêr obem; por tal modo que de qualquer maneira que se mova, é semprecriminosae miseravelmente! Não ha de gozar jámais os prazeresculpaveisque deseja; e asprivaçõesque ella não quer é as que ella ha de ter por toda a eternidade.»

Crêr o mal e não crêr o bem, é logo o resultado d'aquella condemnação. Por sentença do juiz, e de que juiz! é que lá eternamente se anceiam impudicos prazeres, ao mesmo passo que o espirito soffre a privação dos sentidos. Montesquieu, que, a fallar verdade, não era padre da Igreja nem monge, formava outra idêa da natureza moral das penas destinadas a servir de sancção aos accordãos da justiça da terra propriamente. Lêde noEspirito das leiscerto capitulo intitulado:Da violação do pudôr, no castigo dos crimes. Assim começa o capitulo: «Ha regras de pudôr observadas em quasi todas as nações do mundo: absurdo seria violal-as no castigo dos crimes, o qual deve sempre ter em vista o restabelecimento da ordem.»

Ainda que Montesquieu m'o não dissesse, a cousa é evidente por si. Satrapas em delirio, Cezares devassos, tyrannos corruptissimos, póde ser que alguma vez enviassem uma rapariga desobediente mas honesta a um bordel, e que, ajuntando calculadamente a indecencia ao castigo, convertessem a excitação dos sentidos em supplicio legal, deshonrando a lei para deshonrar o inimigo. Em todos os paizes civilisados castiga-separa restabelecer a ordem material e a moral quanto póde ser.

Cuida-se em esquivar o culpado ás seducções que o perderam; impedem-no de ser nocivo a si e aos outros; privam-no de satisfazer as paixões, não com o intento de lh'as irritar, mas de enfraquecel-as; sequestram-no da companhia das pessoas de bem, não para que as odeie, mas para que as chore; deseja-se que a sua maior afllicção consista em havel-as offendido, e que o arrependimento o rehabilite para tornar ao seio d'ellas; protegem-no contra a injuria; enviam-lhe a visita de caridade que o instrue, consola e ás vezes restaura. Estas conversões são raras certamente; quasi todas as nossas prisões são infectas; ahi a soledade corrompe; e a promiscuidade é contagiosa. Sabem-no os legisladores, e os juizes tambem. Não se diz, porém, que assim o querem juizes e legisladores? E, na verdade, querem-no assim!? Que se nos depara ahi senão o stygma da imperfeição das nossas obras, e a pequenez de recursos em comparação dos desejos? Mas nem por isso nos sentimos descrer dos intimos anhelos que nos incitam a buscar nas penas meio de restaurar a ordem perturbada, onde quer que seja, e até na alma do criminoso. O que a mesma imperfeição nos aconselha é que prosigam sem descanso no intento, que será completamente realisado no mundo em que a justiça é perfeita, e o poder do principe igual á sua justiça.

Não nos mostrem, pois, no inferno, uma galé immensa,repleta de impudentes scelerados, porque vos será perguntado se Deus não póde, mais que os homens, vencer corações rebeldes, ou se mais lhe praz exercitar sua omnipotencia a perpetuar um feio espectaculo que nós, philosophos e christãos, bem quizeramos que fosse banido.

Esta concepção do inferno, tão ignobil quanto atroz, data visivelmente de tempos barbaros, em que a vida physica afogava a moral, e a justiça não transparecia aos olhos propriamente do sabio senão atravez da nuvem sanguinosa da vingança.

Punir eternamente o vicio com o vicio, a immoralidade com a immoralidade! que projecto! e, na execução d'elle, que prodigio! Pois não basta justiçar o homem no corpo? Será preciso que o aváro, durante a tortura, arda de saudades dos thesouros que tantos cuidados lhe custaram e tantas dôres grangearam? Ha de o comilão, deitado sobre grelhas em brasa estar a pensar sempre na cosinha e na garrafeira? O voluptuoso, comido de chammas e de bichos, ha de estar sempre a lagrimar pelas parceiras? Acham isto possivel? Sendo assim, no inferno sabe-se melhor do que na terra o que valem riquezas, prazeres, divisas, veneras, medalhas, sceptro e arminhos. Ahi, ser-se-ha, de facto, blasphemo, e intencionalmente devasso, adultero, usurario, despota, valido, mas tudo isto sobre brasas? Havemos de confessar que o local não é dos melhores para taes desejos, e que só por milagre, em tal sitio e por muito tempo, possa haver similhantesdelirios. Ora ahi vedes que se attribue a Deus o milagre de fixar a alma dos condemnados sobre impuras imagens, immobilisando-as em appetites que o offendem. É o peccado eternisado, e eternisado por Deus. Não cabe a responsabilidade d'isso aos condemnados. Não os accuseis; lamentai-os; que esses infelizes não são viciosos de vontade propria: é a lei que os obriga.


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