VII

VIIUltimas considerações ácerca do inferno theologicoAffirmam os theologos que a liberdade é um mero accidente da nossa vida mortal, e que, além da campa, se perde, tomando-nol-a Deus que nol-a dera, e quebrando entre nossas mãos, no momento da morte, aquelle instrumento de nossas provações. Os justos são esbulhados d'ella para permanecerem justos, e os máos tambem para ficarem máos. Diz-se que Satan prevaricou por que era livre; e, depois da queda de Satan, no céo não houve mais creaturas livres, nem tão pouco no inferno, onde o proprio archanjo está acorrentado ao peccado.Não são, por isso, livres os condemnados. Pensam, amam, desejam; mas não lhes é concedido meditar, amar e querer senão maldades. Soffrem e sabem o porquê; mas não podem aproveitar-se do que sabem e do que soffrem. Conhecem os seus crimes;porém, não se arrependem, porque o arrependimento é um bem, e o bem não podem elles sentil-o. Se peccam sempre, é que a tanto são obrigados por sentença. Conservam razão e sentidos; mas consciencia não a tem, não discernem entre justo e injusto; não são senhores de seus actos; soffrem avassalados pelos sentidos, apezar da razão.Esta escravidão absoluta, irremediavel e eterna, explica superabundantemente a immoralidade e o odioso de suas penas. Pois se de todo em todo lhes é impossivel a conversão, inutil e deshumano é o castigo corporal que os tortura.Se não fosse a perpetuidade d'esta escravidão, seriam intelligiveis a fome, a sede, o lago de sulphur, a cama d'espinhos, o cavalete, a roda, os tractos a fogo e ferro. Vá d'exemplo: eis aqui um criminoso impenitente, que ha folgado com os soffrimentos alheios e calcado todas as leis da terra. Morre. Acabou-se tudo para elle? Não. Que vá, n'outro mundo, saber á sua custa o que é dôr, e que piedade merecem os que soffrem. Deus é bastante poderoso para o castigar a ponto de o fazer bradar por misericordia; é justo que o não poupe; exige-o a humanidade, com a condição de que esse peccador castigado seja ainda homem, isto é, um ser não só intelligente e sensivel, mas livre, e, por consequencia, susceptivel de emenda. Mas, se antes de o ferir, lhe tira o recurso do arrependimento; se, em vez do homem, o que temos á vista é um mero bruto sobrenatural, monstruoso, ignobil, a quem adôr nada ensina, e a razão nada presta, máo por necessidade, torturado, sangrento, nojoso, gemente... ah! quem falla ahi de justiça? desfaçam por piedade esse monstro; basta de padecer; logo que lhe tirastes a liberdade, restituida lhe foi a innocencia.Quando uma creança brinca á beira de um poço, e cahe apezar dos avisos da mãe, a pobre mãe não respira em quanto a não salva; corre logo sem attender á desobediencia, porque a vê mais carecida do soccorro quanto maior é o perigo; para castigo lhe basta a quéda. Que diriam os theologos, se aquella mãe, em vez de tirar do poço o filho, lhe fosse quebrar braços e pernas, e cobril-o de pedras? O que elles theologos imaginam que Deus faz, é aquillo mesmo. Aviltam-no quanto podem.CAPITULO QUINTOSURSUM CORDAIFujamos d'este lamaçal. Lavemos pés, mãos, cabeça e vestidos. Cauterisemos os beiços com um carvão acceso. Demonios, chammas impuras, espiritos malfeitores, odios, vinganças, carnificinas, ferozes alegrias, estupidos terrores, sonhos do homem primitivo adormecido em antro á ourela de lagôas turbidas, com o estomago regorgitado de carnes sanguentas, com a mão sobre a clava, e a alma ainda fremente das paixões do dia; mystagogia antiga; sapiencia idolatra; delirios renovados dos barbaros orientaes e occidentaes; confuso acervo de subtilezas methaphysicas e torpes fabulas e aspirações, sublimes e baixos erros, inferno velho e inferno novo, palacios oscillantes edificados com ruinas, Naraka, Amenthi, Tartaro e Géhenna,sumi-vos! O tempo avança; é já dia; a calhandra já cantou, vamos á serra vêr o repontar do sol. Acima, ainda mais para o alto, subamos ás espigas da montanha, onde o ar é mais sadio e o horisonte mais amplo. Azas, azas! vamos admirar o sol que regenera a vida e a fecundidade da terra, e a todo o ser a sua vera fórma, e aos homens, que desperta do somno fundo, a consciencia de si mesmos e o sentimento das realidades que o rodeam. Mais ao alto! Mais ainda! azas, azas, ó minha alma! Voemos até á origem da luz, de que este pallido sol é apenas sombra!IIDeus é uno, com infinita variedade de attributos, cuja manifestação lhe não lesa a unidade. Conhecemol-o n'este mundo por fé unicamente, porque o não vemos qual é, e não temos d'elle, em nossos corações, senão uma imagem imperfeita, e, para assim dizer, mutilada. Por tanto, aquelle sagrado nome exprime o que sabemos realmente, mas tambem o que não sabemos, e o que saberemos de Deus, no dia derradeiro. Encerra Deus todas as perfeições, cujo complexo, de que apenas concebemos parte minima, é o mysterio que adoramos atravez d'um véo, que a morte levantará, assim para santos como para pecadores.Sem duvida que os mais obdurados peccadores hãode vêr Deus; e hão de vêr não sómente alguns attributos seus, mas todos; não hão de vêr sómente a sua eternidade, por quanto a eternidade está em Deus, mas a eternidade não é Deus; não hão de vêr sómente a sua justiça e infinita omnipotencia, por quanto a justiça infinita e omnipotencia são em Deus, mas não constituem toda a sua essencia; não hão de vêr sómente a sua justiça, por quanto a justiça está em Deus; mas só ou unida ao poder eterno a justiça não é Deus: senão seriam tantos os deuses quantos são os attributos e virtudes distinctas na unidade divina.Quando os peccadores virem Deus, então hão de vêr quanto ha em Deus, sua bondade, misericordia e justiça; vel-o-hão a toda a luz, d'um só lance de olhos, por que tudo o que a nossa lingua separa é inseparavel em Deus; e, se elle retrahisse dos peccadores um só resplendor de sua face, ficaria sendo o Deus abscondito que a nossa fé adora, e não o Deus visivel perante o qual toda a incredulidade se dissipa. Pelo que, ao mesmo tempo que sua justiça encher de medo as almas, a sua bondade as consolará mediante a confiança e arrependimento.IIIGrandes e pequenos, doutos e ignorantes, todos os peccadores serão castigados, cada qual á medida de suas culpas. Nenhuma será esquecida; mas, por isso mesmo, todas as virtudes serão lembradas. Aopessimo peccador que em sua vida teve um bom sentimento, um bom desejo sequer, isto lhe será como torcida ainda fumegante a qual o sopro de Deus accenderá em flamma. O pouquinho bem que praticou lhe será contado, até ao ceitil, até ao pucaro de agua dado ao caminheiro, até ao grão de painço dado á avezinha, até ao movimento do dedo mendinho em que a creança vacillante se amparou, até ao olhar compadecido pôsto na face do attribulado. Estas são as unicas acções que elle quereria recomeçar e multiplicar n'esta vida, se lhe fosse dado aqui voltar, por que é esse o sagrado laço que o une ainda, posto que de longe, á assemblêa dos justos; e o mal que fez, esse ainda subsiste, mas só na dôr que sente de havêl-o feito, e no arrependimento com que o recorda. Prazeres torpes, revezados de inquietações amargas não os cubiça. Deplora o ceo, e não a terra. Sómente saudades do ceo pódem enternecer a lagrimas entes racionaes, desempeçados das trevas d'este mundo.IVOs mortos que Deus pune viram a Deus, e, a um tempo, se sentiram attrahidos para elle, e repulsos e como repuxados para longe pelo iman de seus peccados. Abriu-se o abysmo e cahiram, mas com a vista sempre fita n'aquella ineffavel luz que lhe foge, e os braços estendidos para o Deus misericordioso que osexila temporariamente por causa de suas offensas. Cahem levando comsigo a indelevel memoria d'aquella formosura e sabedoria infinitas que só instantaneamente viram, e ao baquearem-se, exclamam: «Havei piedade de mim!»Os mortos que Deus castiga viram Deus; e para logo o amaram, que é impossivel vêl-o sem o amar. Viram-o e esqueceram a terra; viram-o, e arderam em sede inextinguivel de tornar a vêl-o e possuil-o. Verdadeiro castigo! Expiação dolorosa, mas efficaz! Ardentes lagrimas, mas salutares, que o amor derrama, e o amor enxugará.VBlasphemar que é? É negar Deus ou algum dos seus divinos attributos ou alguma das eternas e infinitas propriedades do seu ser.Negar-lhe a existencia é blasphemia; negar-lhe o poder é blasphemia; negar-lhe a immensidade, a eternidade ou a sabedoria é blasphemia.A blasphemia é somente praticavel n'estas regiões de duvida e mysterio em que Deus escassamente se deixa entrever atravez d'um veo. Mas o veo cahiu na presença dos mortos.Os cegos viram; os paralyticos andaram; os mudos fallaram. Confessam todos que Deus existe, que é eterno e poderoso e justo. Negar-lhe a justiça como poderiam elles, se sentem até ao amago de seu ser aclaridade ardente e purificante? E, se não podem negal-a, como ousariam affrontal-a? Mas, se querem que elles blasphemem, digam-nos qual das perfeições divinas elles negarão?Ai! aos theologos aprouve que os condemnados negassem a que mais valiosa lhes seria. Os condemnados negarão a bondade de Deus; injuriando-o de máo, de cruel, de implacavel, de escarnecedor de suas agonias, de vingativo, de carrasco, e não juiz. Isto, com effeito, é que é blasphemar.Mas estes impios discursos não os vociferam os mortos castigados por Deus; sois vós, scribas e doutores, que lh'os inventastes; e o que a isso vos levou foi o imaginardes um inferno perpetuo, e, pelo tanto, o effeito que o castigo esteril devia produzir sobre soffredores immortaes. Entrai mentalmente n'essa catacumba infecta, tomai por instantes o logar das victimas, e ousai fallar em bondade de Deus. Não acreditareis em tal. Máo grado vosso, a blasphemia vos fugirá da bôcca.Os primeiros blasphemadores são, logo, os inventores d'aquelle imaginario supplicio. Á maneira dos idolatras, fraccionaram Deus, extremando entre justiça e bondade—attributos indistintos. De modo que essas presumidas blasphemias do inferno são sómente um ecco das que esbravejaram nas almas d'elles, ao contemplarem a sua obra.VIDeus é justiça e misericordia conjuncta e indivisivelmente. Nos actos da sua justiça ha sempre um fundamento de misericordia; e, nos actos em que sómente a sua misericordia realça, ha um fundamento de justiça. É offendel-o dizer que é misericordioso sem justiça para uns, e justiceiro sem misericordia para outros. Isto é falso quanto ao tempo e quanto á eternidade. É justo Deus com os justos coroando-os, por que se a salvação d'estes fosse gratuita e mera complacencia particular, favor e não recompensa, o castigo dos peccadores seria iniquo. Na gloria, pois, dos bemaventurados reina tanta justiça quanta misericordia.Mas, se Deus, no outro mundo, é justo para os eleitos, por que não ha de ser misericordioso com os peccadores?Mostrais-me a sua misericordia no ceo; e eu tambem lá vejo a sua justiça.Mostrais-me a sua justiça no inferno, e eu tambem lá procuro a sua misericordia.VIIA condemnação do vosso inferno está na necessidade logica e invisivel que lá obriga a offender e amaldiçoar Deus. É isso possivel? Deus quer ser injuriadoeternamente? Não quererá antes ser adorado e abençoado por todas as creaturas? Adoram-no os santos em jubilo, e os mortos, que pune, adoram-no em penas, por que sabem que ellas hão de ter fim.Seja-me testemunha o Evangelho.CAPITULO SEXTOA parabola do rico avarentoLux in tenebris.Lêde no Evangelho de S. Lucas, capitulo XVI, a parabola do rico avarento.Do fundo do inferno, o rico avarento levanta a voz para seu pae Abrahão: «Compadece-te de mim, e manda cá a Lazaro, para que molhe em agua a ponta do seu dedo, a fim de me refrescar a lingua.» Lazaro não se bole, em quanto o patriarcha lembra ao padecente a pena de talião; cabe agora ao opulento mendigar, e ao pobre fartar-se.O rico avarento baixou os olhos, e não pediu mais agua: resignou-se, não murmurou, não blasphemou, renunciou a gottinha d'agua como renunciára as vestes purpureas e as regalias da meza. Todavia, ainda outra vez se dirigiu ao pae Abrahão: «Eu te rogoque o mandes a casa de meu pae, pois que tenho cinco irmãos, para que lhes dê testemunho, não succeda virem tambem elles parar a este logar de tormento.» E Abrahão lhe disse: «Elles lá tem Moysés e os prophetas: ouçam-os.» Ainda assim, o padecente insiste: «Mas, se algum morto lá fôr, elles farão penitencia.»Ahi está mudada não só a fortuna do rico avarento, mas o coração tambem. Eil-o humilde, supplicante, submisso. Recebe as recusas sem irar-se; e, em meio de suas dôres, lembra-se enternecido de cinco irmãos que deixou na terra. Não lhes inveja os haveres; pelo contrario, quer incutir-lhes caridade, e só por amor d'elles importuna o seu ascendente Abrahão. Porém, Lazaro e Abrahão sahem-lhe tão rijos como elle tinha sido para com as dôres alheias. O tal Lazaro, cujas chagas os cães lambiam, tornou-se menos piedoso com o proximo do que haviam sido com elle os cães. Refocila-se nas delicias do ceo, como o rico avarento se refocilára nas da terra, e esqueceu o que era penar, e o que se deve a quem pede. No tocante ao patriarcha, esse, em vez de consolar o neto supplicante, desespera-o; e, a segunda vez que o desgraçado ousa pedir-lhe um milagre de bondade, não para si, mas para os irmãos, que lhe responde o outro? Responde seccamente que os irmãos lá tem as escripturas tão dignas de credito como os mortos, pelo menos.Admiravel, mas, para theologos, incomprehensivel parabola! Eis aqui o inferno converso, repêso, enternecido, o rico aváro deplorativo e caridoso, e por cima,um ceo de bronze, uns santos descaroados. Este não é o inferno judaico, é christão; mas o paraiso esse é que é judaico, e não christão.CAPITULO SETIMOTerra, inferno, ceo.DESVIRTUAR O INFERNO É DESVIRTUAR A TERRA E O CEO. NÃO É OUTRO O SENTIDO LATENTE DA PARABOLA DE LAZAROITERRAAs affeições d'esta vida continuam na outra. Mesmamente no ceo, a Virgem é Mãe de Christo. Todos esperam reconhecer, além-tumulo, as pessoas que na terra estremeceram. Reconhecer-se-hão os esposos, pois que hão de reconhecer os filhos. Esta esperança é a maior consolação d'esta vida, e uma das forças que nos attrahem para o ceo. Mas o perpetuo inferno nos escurece aquella esperança e nos esfria os mais santos affectos.Eis um pae de familia que morre subitamente ou de violenta morte, ou na sua cama, sem padre, sem sacramentos, ao cabo de uma vida devota. Imaginem a incerteza da viuva e dos orphãos quanto á salvação d'esse ente que os amou, educou, nutriu, instruiu econsolou. Se ha coisa verdadeira no ensino dos theologos, podemos apostar mil contra um que este homem cahiu no inferno para sempre.Que afflicção para acrescentar ás angustias d'aquella familia! Se elles tivessem a certeza de amar um peccador penitente, a quem rogos e boas obras podessem levar refrigerio, que supplicas, que piedosas obras não fariam! Mas amar um condemnado! suffragar um condemnado! amarrarem-se á memoria de um condemnado! guardar-lhe as reliquias, as cartas, o retrato! Choral-o, suspirar por ir vêl-o! De repente, morrer para odial-o! Saber, e pensar estas coisas! Seja embora uma duvida; é duvida que gela a oração no peito; quebra o animo para o bem-proceder; espanca a piedade do lar; e aconselha o estontecer-se e esquecer-se um homem—coisa tão natural ao mundano egoismo—; ou então, o outro egoismo feroz e sombrio do frade que immola á sua propria salvação todos os affectos humanos.IICeoHaverá no ceo familias que se encontrem; mas tambem no ceo haverá orphãos eternos, e viuvas eternas, e mães eternamente sem filhos. Se isto é motivo para amarguras, ahi está o agro das doçuras do ceo; mas, se é motivo para alegrias, que horriveis alegrias!O rico avarento do Evangelho seria em verdade melhor do que os eleitos. Sem duvida, mais caridade haveria no inferno que no ceo.CAPITULO OITAVOHISTORIA DE UM SONHOIGanhou um medico, á cabeceira de um pobre, doença mortal. Chegou tão depressa a morte que não lhe deu tempo de chamar o padre. Chegou o padre, quando elle era já morto. Circumvagou os olhos pelos assistentes, disse que o chamaram tarde, e sahiu dando aos hombros.As poucas palavras e o gesto impressionaram vivamente a viuva, que se quedou a pensar n'aquillo todo dia.IIE eu velava á sombra do funebre leito. A viuva estava ali orando, soluçando, e sempre preoccupada,a pezar seu, com as palavras do padre. A intervallos, olhava ella para mim chorando, invocava-me como testemunha da virtude de seu marido, e dizia-me com anciedade: «Não se salvará elle?»—Não duvide, senhora—dizia-lhe eu; porém tristemente eu via que as minhas respostas a não socegavam.Ao cahir da tarde, como ella desde a vespera não comesse nem dormisse, fiz que seu filhinho lhe offerecesse algum alimento. Debalde se esforçou por engulir. Então pediu um livro de orações. Abriu ao acaso um que lhe deram, esperando achar ali algum alivio, que não achou; pelo contrario, com a leitura cresceu-lhe a inquietação. Vi-lhe então no rosto uns tregeitos involuntarios, e um crispar de mãos, e por fim um grito e logo cahiu desmaiada nos braços de quem a levou d'ali.IIIApanhei o livro cahido de suas mãos. Denominava-seQuotidiano do christão, e facilmente conheci nas paginas avincadas as passagens que ella tinha lido: eram osPensamentos christãos para todos os dias do mez, pelo padre Bouhours, da companhia de Jesus. Tinha ella desmaiado quando lia noquinto diauma meditação ácerca doJuizo final. Acontece sempre que o ferido ao cahir bate sempre na chaga. Alguns trechos do capitulo, cujas margens estavam laceradas, diziam assim: «Quão terrivel é o dia da ira do Senhor!Os justos escassamente serão havidos como taes: que será dos peccadores? Que sentença póde esperar o peccador impenitente de um Deus inexoravel? Oh! que terribilissima sentença!Ide, malditos, arder em fogo eterno!Ai! onde irão, Senhor, esses desgraçados que amaldiçoaes? Para que ponto do mundo quereis que se afastem, distanciando-se de vós? Onde é que está paragem tão funesta?«SEXTO DIA«O INFERNO«I. Que horror ganhariamos ao inferno, se podessemos ouvir os lamentaveis gritos dos condemnados! Suspiram, gemem, urram como bestas-feras em meio de lavaredas. Accusam-se de seus peccados, chorando-se, detestando-os; masÉ TARDE.O chorar não lhes faz senão augmentar o ardor do fogo que os queima sem consumil-os.Penitencia dos condemnados! quanto és rigorosa, einutil!«II. Não vêr Deus nunca, arder em fogo de que o nosso é apenas sombra; soffrer ao mesmo tempo quantos males ha ahi,sem allivio, sem repouso; sempre com os olhos postos nos demonios, sempre com o coração raivoso e desesperado, que vida!«III. Esses desgraçadosenfuriam-sepor terem desprezado tantas occasiões de salvarem-se.O recordarem os prazeres passados é-lhes um de seus mais penosos tormentos; mas o tormento superior a todosé a lembrança de terem, por sua culpa, perdido Deus.»[6]Pobre mulher!—disse eu entre mim lendo aquelle capitulo—vêr seu marido, tão bom homem, alcunhado de besta-fera! E topar em livro de piedade, onde procurava consolar-se, esta cruel sentença que de manhã ouvira da bôcca d'um sacerdote:É MUITO TARDE!... Quiz fechar o livro; mas o titulo doDiaseguinte, impresso em versaletes, susteve-me.«SETIMO DIA«DA ETERNIDADE DAS PENAS DO INFERNO«I. Poderá ir mais adiante a cólera de Deusque castiga prazeres que tão pouco duram com supplicios sem fim? Que desgraça não é isto! Não bastará que os males d'um condemnado sejam extremos? É forçoso que sejam eternos? Uma picada de alfinete é mal bem leve; todavia, se este mal durasse sempre, tornar-se-hia insupportavel. Ora, os tormentos do inferno que serão?«II. Ó eternidade!Quando um condemnado podesse derramar lagrimas bastantes para fazerem quantos mares e rios tem o mundo, ainda que vertesse uma só lagrima em cada seculo, elle não estaria mais adiantado, depois de tantos milhões d'annos, como quando começou a penar.«Ser-lhe-ha forçoso recomeçar como se não tivesse nada padecido; e, quando tiver recomeçado tantas vezes quantos são os grãos de areia nas praias, os atomos no ar e as folhas nos bosques, nada d'isso lhe será contado.«III. Não só por toda a eternidade os condemnados soffrerão;mas, a cada instante, soffrem a eternidade inteira. Está-lhes sempre á vista a eternidade; em todas as dôres se lhes côa a eternidade.As penas infinitas continuamente lhes estão no espirito.Cruel idêa! deploravel situação!Arder por uma eternidade! chorar eternamente! Raivar sem fim!»Esta meditação corresponde aoSetimo dia, que éaquelle em que o Senhor entrou em descanso para admirar suas obras.[6]O padre Bouhours foi um solerte engenho, bastante mundanal, que distillava a frio no seu gabinete aquella rhetorica medonha, cuja leitura, se lhe dessem valor serio, seria capaz de fazer abortar uma mulher gravida. Acintemente abastarda elle n'este livro a verdadeira doutrina ácerca do inferno, doutrina em que se aprende que os condemnados amam o peccado, pois que amar o peccado é odiar Deus; conhecendo, porém, a desmoralisação de tal pena, o padre Bouhours presume que os condemnados abominam o peccado, mas que os seus olhos se abriramjá tarde, por maneira que substitue á pena immoral, mas apparentemente justa, uma pena de apparencia moral, mas para isso mesmo horrivelmente iniqua, por que detestar o peccado é amar o que ha mais avêsso ao peccado, isto é, a virtude, ou, mais ao claro, Deus. Segue-se que Deus deixaria infernados os que o amam e se arrependem de o haver offendido. N'outro capitulo da mesma obra o mesmo padre é de parecer que os condemnados não podem amar Deus. Mas, se elles não amam o bem nem o mal, nada amam; e então que vem a ser as penas espirituaes? Que soffrem? por que soffrem? por que se afflijem do perdimento d'um bem que não amam? e por que os afflige a perda dos prazeres que abominam? Tudo isso dispára n'um apontoado de sandices.IVAcabava eu de lêr, agitado, aquella pagina, quando a viuva recuperou os sentidos; mas quasi mentecapta. Exclamava ella que tinha a certeza de seu marido ter sido condemnado, por que não acreditava em tudo que a egreja ensinava, e morrêra sem confissão; accrescentava que o marido era bom para ella e para todos; que, ainda mesmo que a houvesse offendido, lhe perdoava pelo muito que elle estava padecendo, e que desejava ir juntar-se-lhe e consolal-o no inferno. Fallava em matar-se para mais depressa o vêr; e, dizendo isto, aconchegava o filho do seio, sorria-lhe, beijava-o convulsivamente, em duvida se devia matal-o; por quanto, dizia ella, o menino iria ao paraizo, se morresse então; e não se veriam mais, desejando ella leval-o ao pae.Assim que ouvi os gritos, sahi do quarto mortuario para soccorrer, se fosse preciso, aquella afflicta gente, sobrecarregada com outra desgraça. Cercamos a joven viuva, vigiando angustiosamente os seus menores movimentos, por medo de que ella não praticasse algum acto de desesperação, de que dera mostras. Quizemos tirar-lhe o filho; mas ella dava ares de querer afogal-o antes que lh'o tirassem. Parecia já mais tranquillaque todos nós. Desfigurou-se-lhe cadavericamente o semblante; os olhos porém brilhavam, e o sorrir tinha um ar celestial. Fallava sem cessar do marido, e do prazer que ella teria em acompanhal-o no soffrimento. A mãe ajoelhou-se diante d'ella, que a levantou amorosamente, rogando-lhe que não pedisse a Deus pela sua alma.Conseguimos em fim separal-a do filho, e levamol-os um apoz outro, elle já adormecido, e ella luctando comnosco, desgrenhada e rota. Seguiram-na os parentes, e eu fiquei sósinho á beira do cadaver.VBem desejava eu tambem saír: carecia de distrahir-me. Piedade, cólera, fé, duvida, terror, mil contrarios sentimentos me agitavam, dos quaes eu não podia defender-me ao pé do esquife, e depois de similhante espectaculo! Encostei-me á banca onde estava deitado sobre uma alva coberta um crucifixo de marfim, e, contemplando aquella divina imagem, recolhi-me no mais intimo retrahimento d'alma. Perguntava eu a mim mesmo, com o coração apertado, o que devia crer-se da vida e morte de Christo, e se era certo que elle descesse do céo, como se dizia, para assombrar os justos, desesperar os peccadores, e conturbar a razão dos fracos. E a mim me quiz parecer que Jesus estava ali, e pensei vêl-o chorar, eque uma de suas lagrimas resvalou sobre oQuotidiano do christão, e tudo que eu havia lido n'aquelle livro subitamente se desfez.Estava ainda comtudo a minha alma perturbada. Interroguei o Christo. Não me respondeu. Então entrei em duvida se eu estava adormecido ou desperto. Vi—seria sonho?—um oceano de trevas alcantilar-se á volta de mim, e no seio d'essa escuridão immensa lampejava um frouxo raio de luz. E esta luz saia das fendas de um sepulchro, e Jesus estava deitado vivo n'esse sepulchro. Eu quiz levantar a pedra que o cobria, mas uns verdugos envoltos em trevas me deceparam as mãos; eu quiz balbuciar, e arrancaram-me a lingua; e assim mutilado, cego e mudo senti-me arrebatado e precipitado ás entranhas de um abysmo, e comprehendi que estava no inferno. O meu unico soffrimento ahi era a cegueira, e a espectativa anciadissima dos supplicios que me esperavam. E, como só tivesse ouvidos para entender, escutei, e comprehendi o seguinte.VIAo principio ouvi um rumorejar estranho, que rolava prolongando-se ao travez dos espaços infinitos, e depois decrescia até ao ciciar da folhagem que a brisa da tarde acaricia, e por fim augmentava em estridor até exceder o roncar das vagas cavadas pela borrasca.Estas comparações tiradas da terra não dão idêa da tristeza, do pungente e solemne d'aquelle immenso rugir de seres sem nome que eu não podia vêr e ouvir gemer. De toda a parte, suspiros, brados, soluços, gritos exhorativos, mas tudo distincto, conglobando-se sem confundir-se, e formando um brado unisono. Debaixo do sol não ha ahi espectaculo tão variado como o prantear d'aquellas almas, ressoando em choro universal quasi claro ainda, e mais afflictivo. Ao ouvir estes estrondos figurava-se-me que o sangue me escorria dos pulsos cortados, e o suor da fronte, e as lagrimas dos olhos, e tanto eu como tudo em redor soffriamos e supplicavamos.VIIE uma voz exclamava: Oh! quanto eu soffro, Deus meu! Isto não terá fim? Vós, Senhor, que me atirastes ignorante a um mundo escuro, não me julgaes, apoz tantos seculos, bastante castigado dos meus desvios d'um dia?E outra voz exclamava: Quando os meus peccados aqui me abysmaram, vossa mão, ó Deus, me amparava, e me ampara ainda; e, assim mesmo, em logar de diminuir, o meu supplicio augmenta. Soffro com quantos de longe molestei: tenho fome com os que eu poderia fartar; tenho frio com os que eu poderia vestir; peza sobre mim a cada hora e cadavez mais esmagadora a carga de males que fiz pezar sobre outros. Multiplicaram-se as minhas offensas como a herva sobre a minha campa esquecida, e as minhas feridas sangram sempre, e as minhas chagas lavram sem cessar. Isto é justo, meu Deus! Poderia eu ser feliz no céo, se visse o effeito de minhas obras? Em quanto fructifica a arvore fatal que plantei na terra, puni-me, Senhor! Mas não me tireis a esperança! O pouquinho bem que fiz na vida não germinará nem cobrirá, se o permittirdes, os vestigios das minhas iniquidades? Oh! quando nenhum ente vivo, n'algum logar do mundo, já não podér imputar-me seus soffrimentos, tende então piedade de mim, meu Deus!E todas as almas peccadoras, unindo-se em um brado de misericordia, repetiram juntas, lá das reconditas profundezas: Tende piedade de mim! Tende piedade de mim!Esta supplica em commum era a um tempo tão suave e dilacerante que eu imaginei que o ceo se abriria. Mas a noite que me envolvia espessou-se mais glacial; e o abysmo emmudeceu; e, apoz um instante de esperança, continuou a lamentar-se, correndo como o oceano nas fragarias da costa.Ai! ai!—conclamavam os gritos que se extinguiam soluçando—é surdo o céo! é surdo o céo!Nunca! nunca!—diziam outras vozes—Nunca! nunca! Meu Deus, que resposta á dôr! Nunca! nunca!Descançai, filhos!—bradou um condemnado, que se me figurou, no tom de voz, ser um dos patriarchas doabysmo—Não profirais essa palavra horrida. Ahi sôa em vossos pobres seios um ecco das maldições da terra, e não palavra descida do céo. Ha mais de mil annos que padeço, e oro, e escuto o céo, e não ouço a resposta. Oremos, oremos sempre!E o ancião entoou um cantico; e, ao primeiro versiculo, parou e debulhou-se em lagrimas.Ai!—ressoavam ao longe milhões de almas gementes—Ai! o céo é surdo! o céo é surdo!N'este lance, uma voz sobrelevou a todas, dizendo:—Ensinai-nos, ao menos, Senhor, a utilidade dos padecimentos. Se nos perdoasseis, acaso a vossa gloria padeceria com isso? A felicidade dos justos soffreria diminuição? Revoltar-se-hiam elles contra vós? Logo que as creaturas entraram á vossa presença, não se lhes acrisolaram os sentimentos de piedade? O padre que me estendia a mão quando era mortal e sujeito ao peccado, a esposa que eu amava, a mãe que me gerou, os amigos que me trahiram e aos quaes perdoei, os pobres que soccorri, e uma filha ingrata e amada a quem eu daria a comer o meu coração em ancias de fome, nem essa, ninguem vos intercede por mim? Hontem oravam elles quando eu me rejubilava nas culpas; pranteavam-me vivo e oravam por mim; e hoje esquecem-me, pendem para o crime, fogem da dôr; o amor a quem soffre e geme é sentimento ephemero, que vai mal para entes bemaventurados.E a voz que fallava assim ergueu-se ainda para amaldiçoar, mas falleceu-lhe a força, e á maneira dovagalhão que rossa a nuvem rugindo, subita recaiu e expirou em prolongado gemido.Mas logo um brado novo retumba mais estridente ainda, e, eu, ouvindo-o, não distinguia se era oração, se blasphemia.E bradava:—Creio na vossa justiça, meu Deus; mas deixai-me crêr na vossa misericordia. Não é ella tão infinita como a vossa justiça? Não é eterna? Se me perdoaveis quando eu estava na terra, porque não me perdoais aqui? Se eu sou o mesmo peccador, não sois vós o mesmo Deus? E, se a morte me mudou, pôde a morte d'um ente como eu mudar a vossa immutavel natureza? Cansou-se acaso a vossa bondade? Exhauriu-se? Sois vós susceptivel de cansaço? E, se alguma de vossas virtudes é transitoria, de circumstancia e occasional, é forçoso que seja a bondade, aquella ineffavel bondade que nós ignorantemente consideravamos lá em cima a mesma essencial e inalteravel virtude vossa! Se assim é—proseguiu a voz desesperada—anniquilai-me, Deus Omnipotente! Esta existencia é inutil; sou de mais no universo. Que lucraes com as minhas dôres? Tendes precisão d'ellas? Retomai esta vida de que sem duvida abusei, e esta intelligencia que perverti; apagai em mim esta luz, visto que principiam a rasgar-se os veos que a escurentavam.Tirai-me a lembrança do céo, a ancia de ser feliz, a necessidade d'amar, a necessidade de saber; tirai-me, sobre tudo, por piedade, o sentimento da justiça,porque eu não sou Deus, e a vossa justiça é um mysterio, e contra minha vontade, a blasphemarei. Deixai-me morrer, ó Deus! Deixai morrer quem soffre! Matai o peccado incuravel e a dôr esteril, a fim de que na creação não haja um só atomo que não palpite de reconhecimento e alegria, ao ouvir o vosso nome santissimo.E um clamor horrendo abafou a voz que fallava; e, d'um angulo a outro do abysmo, todas as almas em tortura escabujavam, rogando a Deus que as deixasse morrer. E pediam a morte como os famintos mendigam pão; chamavam-na com os gritos da mulher em angustias de parto do seu primogenito, com a dôr da victima na fogueira, com o rugido da leôa que perdeu os cachorros, com o balido do cordeirinho que procura a mãe. E eu tambem a chamava, e me pareceu vêl-a aproximar-se, e beijei-lhe a mão glacial; e, quando me sentia morrer, despertei.CAPITULO NONOJUDAS ISCARIOTEIEu escolheria d'entre os condemnados o mais desprezivel, se no inferno existisse um miseravel maior do que Judas.Este vivia na amisade de Jesus; ninguem lhe conhecia mais de perto a innocencia; e, como elle fosse o particular distribuidor das esmolas (João, c. 13, v. 29), ninguem lhe conhecia melhor a bondade. Não obstante, vendeu-o; e, depois de o atraiçoar, voltou, ceou com elle, e, ao escurecer, guiou os soldados que o prenderam; e, como os soldados o não conhecessem, deu-lhes signal, abraçando-o. Eis aqui o crime circumstanciado. Premeditação, cubiça, villeza, tem de tudo. Judas vende o mestre e o amigo, o sabio e o justo. Vende-o sem colera, sem paixão, por bom dinheirode contado, como venderia na feira um jumento ou um boi. Sabe que desejam matal-o; não importa! vende-o. E que será depois da Mãe de Jesus? e dos doentes que elle curava? e dos ignorantes que ensinava? Ah! que tem Judas com as lagrimas de mãe e com a ignorancia e lastimas do povo? Negociou com todas essas dores como mercadejou com a amisade, com a sabedoria, com a innocencia, com tudo que ahi ha divinal n'este mundo. Embolsou o preço; e, a fallar verdade, nem os phariseus nem elle avaliaram cara a mercancia: trinta dinheiros! dez vezes menos que a libra dos perfumes de Magdalena.IIUm dos primeiros effeitos da perfidia de Judas foi a defecção dos apostolos. Em vez de seguirem o Mestre, falsamente accusado de sacrilego e seductor, dispersaram-se: Thiago, Simão, Thadeu, que elle chamava seus irmãos, João, o seu amigo dilecto, todos por egual covardes, não cuidaram senão em salvar-se. «Conheces este homem?» perguntaram a Pedro.—Não,—diz Pedro, o chefe, o mais corajoso de todos—não o conheço.—Renegou-o trez vezes; trez vezes mentiu; trez vezes testemunhou de falso em face dos accusadores: depois, chorou na escuridão, e calou-se. Todos deixaram injuriar, calumniar, chibatar e morrer Jesus, sem erguerem brado em sua defeza eduvidando que fosse Deus, duvidando-lhe da missão, das promessas; bem que, para grande opprobrio d'elles, certos de sua amisade, pureza de vida, e excellencia da moral. Para se reanimarem foi preciso o milagre que o pae Abrahão recusou ao rico avarento; nada menos que resuscitarem os mortos, e que propriamente Jesus saísse do sepulchro, e que elles o vissem, e conversassem e comessem em sua companhia, e que Thomé lhe tocasse as chagas. Desde então é que prégaram com inabalavel fé a divindade de Jesus.IIIO peccado dos apostolos, n'esta lamentavel historia da Paixão, é, na essencia, egual ao de Judas, bem que não tanto odioso. Faltou-lhes a todos a fé; porém, sendo a fé um dom sobrenatural, não devemos arguil-os desabridamente porque não receberam o dom. O que do seu proceder nos irrita é deixarem ir até final, sem publico protesto, a obra de Judas; é que abandonassem o innocente amigo que os outros tinham vendido; é que não dissessem a Pilato ou Herodes: «Não! este homem não é sedicioso; quer que se dê a Cezar o que é de Cezar, e a Deus o que é de Deus; paz, desinteresse, e caridade são a sua doutrinação.» Isto bem o sabiam elles, e não o disseram, e deviam têl-o dito, sem medo, e não abafarem, como fizeram, o grito da consciencia. Este é que é ocrime dos apostolos, crime natural, como o de Judas.Bem se deixa vêr que, se Judas vendeu o seu Deus, não pensava elle que vendia Deus: vendeu-o sem vêl-o, sem reconhecêl-o divino. O que elle a sabidas vendeu e quiz vender era um homem, pelo mesmo theor que os apostolos desampararam e quizeram desamparar um homem, mas o melhor e mais sabio homem, e o mais carinhoso amigo.Vender Deus! renegar Deus! É isso crivel quando se crê em Deus? Tal crime, á força de disparatado, ficaria impune, como acto de sandice! Judas foi ingrato, ladrão, egoista, traidor doble, fallacioso, assassino; tudo isso foi e mais ainda; mas o certo é que, no intimo de seu coração, Judas não se julgava deicida.IVPor mais infame que haja sido, Judas não o era tanto que não comprehendesse a torpeza do seu acto. Tanto a comprehendeu que não se pôde afazer á sua villania; e, em quanto os apostolos se escondiam, foi elle—dolorosissimo acto!—confessar sua perfidia no templo, e restituir o dinheiro aos compradores, dizendo: «Vendi o sangue do innocente.» Mas ninguem se desata do seu remorso, como de um dinheiro que encrava espinhos na consciencia; e, na bôcca de um traidor, o testimunho a favor da innocencia perdemuito de sua efficacia. Sentiu-o vivissimamente Judas quando, apoz confessar-se do crime, os phariseus lhe responderam: «Que se nos dá d'isso? Lá te avém.» Saíu então do templo, convicto de que não estava em sua mão sustar as consequencias do seu crime, corrido, desesperado, indo ao encontro da morte que merecêra, mas que ninguem lhe dava, para que a sua penitencia fosse maior n'este mundo.VVida de opprobrio e remorsos é expiação. Judas deveria viver. Porque se matou? Se elle cresse na divindade de Jesus, não se mataria, pois que, matando-se, ía entregar-se nas mãos d'Aquelle que atraiçoára. Por que se matou? O suicidio nada remedeia, e tira da contemplação dos homens o salutar espectaculo d'um criminoso contricto. Procurava elle anniquilar-se? A anniquilação ser-lhe-hia doce refugio: o nada não é pena. Ora é certo que ninguem disse que Judas fosse atheu. Se elle descrêsse de Deus e da vida futura, como explicar-lhe os remorsos? Que é crime, quando se crê que tudo acaba comnosco? Se não cresse em Deus, Judas guardaria os trinta dinheiros. Que temia elle? Como cumplices de seu crime tinha todo Israel, os padres que o corromperam, os senadores, Pilato, Caiphás, e a côrte de Herodes, e os proprios apostolos que negaram a victima. Então por que se matou?VINo suicidio de Judas ha terrivel mysterio; mas tambem, n'este mysterio, ha relance luminoso, e vem a ser que Judas, depois de confessar a perfidia, na face dos tentadores, calcando o ouro recebido, vagando loucamente pelas ruas de Jerusalem, valia tanto pelo menos como o senado judaico que continuava deliberando friamente a morte do justo, como Pilato que lavava as mãos, como Herodes e sua côrte que riam de tudo, e como os covardes amigos cujo testemunho, n'aquella conjunctura, seria muito mais importante que o d'elle. Tal monstro revertido a homem, de si mesmo horrorisado, saiu da cidade, entrou aos campos por onde tantas vezes estancára com o affavel Mestre, viu-se indigno de apertar a mão d'um amigo, porque havia trahido o mais fiel de todos; viu-se indigno de piedade por que a não tivera; e, por fim, desejou acabar. Nunca tinha sentido como então, nem quando ouvia Christo, o nada das riquezas, a vaidade do mundo, o desgosto dos prazeres, o horror dos vicios que os seguem. Oh! se elle podesse retroceder, delir de sua vida aquella nodoa de sangue, sacudir o pezo que lhe abafava o coração, quão diverso do que fôra não seria! Como agora se lhe figurava formosa a innocencia! Como as tentações lhe pareciam boas de subjugar! Ah! se elle podesse quebrar as prisõesde Jesus, e banhar-lhe os pés com suas lagrimas! Se podesse offerecer a vida a trôco da que o povo ía sacrificar! Com que prazer se deitaria na cruz, e ahi morreria em paz, se lhe fosse dado perdão de seu crime com tal condição!... Mas, ao longe, estrugia a grita da multidão enfuriada, bradando: «Crucifica-o!» Escutava o tropel dos cavallos, o retinir das armas, e a pancada do martello que cravava os pregos nas mãos bemfazejas do amigo que elle vendêra. Iriçaram-se-lhe os cabellos, reçumou-lhe suor glacial ao rosto, mal se tinha nas pernas como ebrio, sentia retrahir-se-lhe o chão debaixo dos pés. Oh! como Jesus padecia! Mas Judas padecia mais, porque soffria como criminoso, e não como justo. Os soffrimentos de Judas excedem todo o confronto. Não ha ahi agonia que lhes compareis. Em um dia, n'uma hora soffreu mais do que cem annos de penitencia no deserto, cem annos de vergonhas e supplicios entre os homens. A sua alma era uma fornalha em chammas. Os caminhos abrolhavam-lhe espinhos dilacerantes debaixo dos pés. Com os proprios dentes lacerava os beiços. O sangue estuára-lhe nas veias. Aquelle viver já não era vida de homem. Nem fome nem sede o espertavam do lethargo horrendo. Fulgurava-lhe um só sentimento: o horror do seu crime. O que elle levava pelos campos além era um cadaver já insensivel á dôr; e esse vil cadaver é o que elle estrangulou pendente da arvore. Fez mal. Melhor lhe fôra morrer ajoelhando, supplicando misericordia. Ah! acaso sabemos como elle morreu?Por ventura, a dôr refinada até aquelle extremo não será a mais eloquente supplica? Quem o sabe n'este mundo?VIISeja, porém! Prosiga elle na outra vida o medonho supplicio que tentou abreviar! Que esse incomportavel castigo redobre de hora a hora, de anno a anno, de seculo a seculo. É justo.Amen! amen!Conte-se e publique-se em todas as linguas da terra que ha dezoito seculos Judas trahiu o Filho do homem, seu bemfeitor, seu amigo e mestre, e que o seu castigo dura ainda. Maldito seja elle e todos os seus similhantes! Maldito seja de pobres e ricos, dos filhos e das mães! Padres de Jesus Christo, levai esta nova a todas as choças e palacios; dizei-a a grandes e pequenos, aos que balanceam thuribulos, e aos que floream gladios, aos que julgam a terra e aos que são julgados! Ai dos hypocritas! ai dos ingratos! ai dos homens de duas linguas e duas caras! ai dos servos e dos irmãos tredos! ai dos que antepõem a amisade á justiça, e vendem sua alma ao sanhedrin, e contam as suas moedas em quanto o innocente é atormentado.Dizei isto a toda a terra, padres de Jesus Christo, que não haverá ahi palavra que vos impugne.Sim! Não ha ahi crueza de morte, e mormente voluntaria morte que expie tamanho crime. Judas soffreha dois mil annos, e d'aqui a quatro mil soffrerá ainda, e em quanto o genero humano não terminar a sua peregrinação terrestre, viverá em supplicio recrescente de tormentos inauditos.VIIIEntretanto, meu Deus, este mundo de provações, segundo dissestes e tudo o confirma, ha de acabar. E, quando este mundo fôr destruido e renovado, quando já não houver sol, nem berços, nem sepulchros, nem gerações de peccadores, não perdoareis então a Judas? Quando elle apparecer á vossa presença no dia do juizo, depois de tantos seculos de indescriptiveis dôres, não vos lembrareis de que elle foi vosso amigo? Dar-se-ha caso que Pedro, esquecido da sua culpa e do perdão que a disfarçou, diga ainda outra vez: «Não conheço este homem?» João, Matheus, Thomé e Thiago, voltarão o rosto indignado, como se não houvessem tambem peccado e duvidado? Não vos dirá o côro inteiro dos apostolos: «Senhor, apiedai-vos d'elle. Sem a vossa graça, o que não teriamos feito nós?»Apiedai-vos d'elle, Senhor!—dirão todos os bemaventurados—que elle, sem o saber, foi o instrumento e a victima da salvação dos homens. Feliz culpa! dizia Santo Agostinho do peccado de Adão, feliz culpa que grangeou para o genero humano situação melhor que a do Eden. Feliz tambem, meu Deus, a culpa deJudas, pois era mister que, em cumprimento de vossos decretos, fosseis trahido por um dos vossos amigos. Horrendo, mas inevitavel crime, predicto muito antes pelos prophetas; crime salutar, introito mysterioso da paixão; crime que foi amaldiçoado e devia sêl-o, mas que hoje devemos perdoar e bemdizer, por quanto, sem tal crime, ó dôce Jesus, nem vós terieis morrido, nem o mundo estaria resgatado.Apiedai-vos, pois, de Judas! Commiserem-vos seus remorsos, tormentos e lagrimas! Compadeça-vos a cegueira d'elle! É bem de crêr que fechais os olhos da alma aos culpados e esta milagrosa cegueira com que os affligis é já per si um castigo. Mas tambem os castigareis por peccados e erros commettidos com vossa licença, no seio d'aquellas vingadoras trevas que derramastes no seu caminho? Não, não, meu Deus, vós o dissestes. Lembrai-vos de vossas derradeiras palavras na cruz redemptora, quando pedieis a vosso Pae perdão para os algozes, para os sacerdotes que vos haviam comprado, para o amigo desleal que vos tinha vendido, para o soldado cruel que vos cuspiu na face, para o povo desvairado que vos injuriava no supplicio: «Perdoai-lhes, pae, que elles não sabem o que fazem!»E vosso Pae, que tudo vos concede, perdoou-lhes o sacrilegio, a blasphemia, e tudo quanto em seu crime entendia com a vossa abscondita divindade; perdoou-lhes o que a justiça e caridade querem que se perdoe aos insensatos e aos cegos, e a quantosnão sabem o que fazem. O que ficou sobre elles pezandoé o peccado contra a humanidade, por que bem conheciam os peccadores a sua culpa no momento em que a commetteram. Meu Deus, perdoai-lhes! Pedevol-o o genero humano ensinado por vossas lições e exemplos, e resgatado por vosso sangue.CAPITULO DECIMOConclusão em fórma de parabolaO pae de familia dizia aos seus servos: Ide aos meus celleiros; tomai a flôr do grão que eu mesmo escolhi e ensaquei á parte em saco novo, e ide semear o meu campo. Não lhe mistureis o grão do saco velho; porque esse embriaga o homem e não o alimenta, e só para os cevados é bom.Cumpriram os servos as ordens do amo; deixaram, porém, por descuido, cahir no saco novo os grãos malfazejos que o amo havia separado, e, logo que se misturaram, não poderam extremal-os, e cegamente os atiraram á uma para os sulcos.Chegado o estio, um caminheiro que passava admirou a belleza das espigas que medravam na seara, mas reconheceu entre as espigas as plantas nocivas.Arrancava elle discretamente as que haviam germinado até á beira da estrada, quando os servos, armados de páos, correram a prohibir-lhe que tocasse na seara que era de seu amo. Perguntou-lhes o caminheiro onde estava o amo, e soube d'elles que era fallecido, mas lhes recommendára que vigiassem a messe preparada para seus filhos.O caminheiro, ouvida tal resposta, contristou-se, e lhes fez vêr a differença que havia entre o joio e o trigo. E disse-lhes: Acautelai-vos de os mandar juntos ao moinho, e não façais pão que não seja de puro fermento.Os servos, não obstante, persuadidos da sabedoria do amo e do cumprimento fiel ás ordens recebidas, desconfiaram do caminhante, e de seus proprios olhos até, quando lhes apontava a differença das duas plantas. Se isto é joio, diziam, não fômos nós que o fizemos rebentar.Certo é que não—disse o passageiro—não fostes vós quem fez germinar o trigo nem o joio, nem communicastes a cada um dos dois sua diversa virtude, nem tão pouco lh'as podereis tirar; mas, se não sois quem os fez crescer, fostes vós quem os semeou, depois de misturar os grãos que o pae de familia havia cuidadosamente separado. Se amais os filhos de vosso amo, fazei o que elle faria: não lhes deis a comer pão que empeçonha, porque d'elle adoecerão, e outros hão de morrer.Turbaram-se grandemente os servos com tal discurso.Um disse entre si: «Póde ser que o homem tenha razão: aqui ha plantas que não parecem eguaes; e é acertado não desprezar bons avisos, venham d'onde vierem, porque, um dia, quem sabe se nos serão pedidas contas?» Outros, no entanto, diziam: «Este homem póde ser um impostor. Quem sabe d'onde vem ou para onde vai? Quem lhe deu direito de nos ensinar? E porque não hemos de dar d'este pão aos filhos de nosso amo? Nós comeremos tambem d'elle.»Dizendo isto, abaixaram-se a apanhar pedras, e remessaram-as contra o caminheiro que se affastou.

Affirmam os theologos que a liberdade é um mero accidente da nossa vida mortal, e que, além da campa, se perde, tomando-nol-a Deus que nol-a dera, e quebrando entre nossas mãos, no momento da morte, aquelle instrumento de nossas provações. Os justos são esbulhados d'ella para permanecerem justos, e os máos tambem para ficarem máos. Diz-se que Satan prevaricou por que era livre; e, depois da queda de Satan, no céo não houve mais creaturas livres, nem tão pouco no inferno, onde o proprio archanjo está acorrentado ao peccado.

Não são, por isso, livres os condemnados. Pensam, amam, desejam; mas não lhes é concedido meditar, amar e querer senão maldades. Soffrem e sabem o porquê; mas não podem aproveitar-se do que sabem e do que soffrem. Conhecem os seus crimes;porém, não se arrependem, porque o arrependimento é um bem, e o bem não podem elles sentil-o. Se peccam sempre, é que a tanto são obrigados por sentença. Conservam razão e sentidos; mas consciencia não a tem, não discernem entre justo e injusto; não são senhores de seus actos; soffrem avassalados pelos sentidos, apezar da razão.

Esta escravidão absoluta, irremediavel e eterna, explica superabundantemente a immoralidade e o odioso de suas penas. Pois se de todo em todo lhes é impossivel a conversão, inutil e deshumano é o castigo corporal que os tortura.

Se não fosse a perpetuidade d'esta escravidão, seriam intelligiveis a fome, a sede, o lago de sulphur, a cama d'espinhos, o cavalete, a roda, os tractos a fogo e ferro. Vá d'exemplo: eis aqui um criminoso impenitente, que ha folgado com os soffrimentos alheios e calcado todas as leis da terra. Morre. Acabou-se tudo para elle? Não. Que vá, n'outro mundo, saber á sua custa o que é dôr, e que piedade merecem os que soffrem. Deus é bastante poderoso para o castigar a ponto de o fazer bradar por misericordia; é justo que o não poupe; exige-o a humanidade, com a condição de que esse peccador castigado seja ainda homem, isto é, um ser não só intelligente e sensivel, mas livre, e, por consequencia, susceptivel de emenda. Mas, se antes de o ferir, lhe tira o recurso do arrependimento; se, em vez do homem, o que temos á vista é um mero bruto sobrenatural, monstruoso, ignobil, a quem adôr nada ensina, e a razão nada presta, máo por necessidade, torturado, sangrento, nojoso, gemente... ah! quem falla ahi de justiça? desfaçam por piedade esse monstro; basta de padecer; logo que lhe tirastes a liberdade, restituida lhe foi a innocencia.

Quando uma creança brinca á beira de um poço, e cahe apezar dos avisos da mãe, a pobre mãe não respira em quanto a não salva; corre logo sem attender á desobediencia, porque a vê mais carecida do soccorro quanto maior é o perigo; para castigo lhe basta a quéda. Que diriam os theologos, se aquella mãe, em vez de tirar do poço o filho, lhe fosse quebrar braços e pernas, e cobril-o de pedras? O que elles theologos imaginam que Deus faz, é aquillo mesmo. Aviltam-no quanto podem.

Fujamos d'este lamaçal. Lavemos pés, mãos, cabeça e vestidos. Cauterisemos os beiços com um carvão acceso. Demonios, chammas impuras, espiritos malfeitores, odios, vinganças, carnificinas, ferozes alegrias, estupidos terrores, sonhos do homem primitivo adormecido em antro á ourela de lagôas turbidas, com o estomago regorgitado de carnes sanguentas, com a mão sobre a clava, e a alma ainda fremente das paixões do dia; mystagogia antiga; sapiencia idolatra; delirios renovados dos barbaros orientaes e occidentaes; confuso acervo de subtilezas methaphysicas e torpes fabulas e aspirações, sublimes e baixos erros, inferno velho e inferno novo, palacios oscillantes edificados com ruinas, Naraka, Amenthi, Tartaro e Géhenna,sumi-vos! O tempo avança; é já dia; a calhandra já cantou, vamos á serra vêr o repontar do sol. Acima, ainda mais para o alto, subamos ás espigas da montanha, onde o ar é mais sadio e o horisonte mais amplo. Azas, azas! vamos admirar o sol que regenera a vida e a fecundidade da terra, e a todo o ser a sua vera fórma, e aos homens, que desperta do somno fundo, a consciencia de si mesmos e o sentimento das realidades que o rodeam. Mais ao alto! Mais ainda! azas, azas, ó minha alma! Voemos até á origem da luz, de que este pallido sol é apenas sombra!

Deus é uno, com infinita variedade de attributos, cuja manifestação lhe não lesa a unidade. Conhecemol-o n'este mundo por fé unicamente, porque o não vemos qual é, e não temos d'elle, em nossos corações, senão uma imagem imperfeita, e, para assim dizer, mutilada. Por tanto, aquelle sagrado nome exprime o que sabemos realmente, mas tambem o que não sabemos, e o que saberemos de Deus, no dia derradeiro. Encerra Deus todas as perfeições, cujo complexo, de que apenas concebemos parte minima, é o mysterio que adoramos atravez d'um véo, que a morte levantará, assim para santos como para pecadores.

Sem duvida que os mais obdurados peccadores hãode vêr Deus; e hão de vêr não sómente alguns attributos seus, mas todos; não hão de vêr sómente a sua eternidade, por quanto a eternidade está em Deus, mas a eternidade não é Deus; não hão de vêr sómente a sua justiça e infinita omnipotencia, por quanto a justiça infinita e omnipotencia são em Deus, mas não constituem toda a sua essencia; não hão de vêr sómente a sua justiça, por quanto a justiça está em Deus; mas só ou unida ao poder eterno a justiça não é Deus: senão seriam tantos os deuses quantos são os attributos e virtudes distinctas na unidade divina.

Quando os peccadores virem Deus, então hão de vêr quanto ha em Deus, sua bondade, misericordia e justiça; vel-o-hão a toda a luz, d'um só lance de olhos, por que tudo o que a nossa lingua separa é inseparavel em Deus; e, se elle retrahisse dos peccadores um só resplendor de sua face, ficaria sendo o Deus abscondito que a nossa fé adora, e não o Deus visivel perante o qual toda a incredulidade se dissipa. Pelo que, ao mesmo tempo que sua justiça encher de medo as almas, a sua bondade as consolará mediante a confiança e arrependimento.

Grandes e pequenos, doutos e ignorantes, todos os peccadores serão castigados, cada qual á medida de suas culpas. Nenhuma será esquecida; mas, por isso mesmo, todas as virtudes serão lembradas. Aopessimo peccador que em sua vida teve um bom sentimento, um bom desejo sequer, isto lhe será como torcida ainda fumegante a qual o sopro de Deus accenderá em flamma. O pouquinho bem que praticou lhe será contado, até ao ceitil, até ao pucaro de agua dado ao caminheiro, até ao grão de painço dado á avezinha, até ao movimento do dedo mendinho em que a creança vacillante se amparou, até ao olhar compadecido pôsto na face do attribulado. Estas são as unicas acções que elle quereria recomeçar e multiplicar n'esta vida, se lhe fosse dado aqui voltar, por que é esse o sagrado laço que o une ainda, posto que de longe, á assemblêa dos justos; e o mal que fez, esse ainda subsiste, mas só na dôr que sente de havêl-o feito, e no arrependimento com que o recorda. Prazeres torpes, revezados de inquietações amargas não os cubiça. Deplora o ceo, e não a terra. Sómente saudades do ceo pódem enternecer a lagrimas entes racionaes, desempeçados das trevas d'este mundo.

Os mortos que Deus pune viram a Deus, e, a um tempo, se sentiram attrahidos para elle, e repulsos e como repuxados para longe pelo iman de seus peccados. Abriu-se o abysmo e cahiram, mas com a vista sempre fita n'aquella ineffavel luz que lhe foge, e os braços estendidos para o Deus misericordioso que osexila temporariamente por causa de suas offensas. Cahem levando comsigo a indelevel memoria d'aquella formosura e sabedoria infinitas que só instantaneamente viram, e ao baquearem-se, exclamam: «Havei piedade de mim!»

Os mortos que Deus castiga viram Deus; e para logo o amaram, que é impossivel vêl-o sem o amar. Viram-o e esqueceram a terra; viram-o, e arderam em sede inextinguivel de tornar a vêl-o e possuil-o. Verdadeiro castigo! Expiação dolorosa, mas efficaz! Ardentes lagrimas, mas salutares, que o amor derrama, e o amor enxugará.

Blasphemar que é? É negar Deus ou algum dos seus divinos attributos ou alguma das eternas e infinitas propriedades do seu ser.

Negar-lhe a existencia é blasphemia; negar-lhe o poder é blasphemia; negar-lhe a immensidade, a eternidade ou a sabedoria é blasphemia.

A blasphemia é somente praticavel n'estas regiões de duvida e mysterio em que Deus escassamente se deixa entrever atravez d'um veo. Mas o veo cahiu na presença dos mortos.

Os cegos viram; os paralyticos andaram; os mudos fallaram. Confessam todos que Deus existe, que é eterno e poderoso e justo. Negar-lhe a justiça como poderiam elles, se sentem até ao amago de seu ser aclaridade ardente e purificante? E, se não podem negal-a, como ousariam affrontal-a? Mas, se querem que elles blasphemem, digam-nos qual das perfeições divinas elles negarão?

Ai! aos theologos aprouve que os condemnados negassem a que mais valiosa lhes seria. Os condemnados negarão a bondade de Deus; injuriando-o de máo, de cruel, de implacavel, de escarnecedor de suas agonias, de vingativo, de carrasco, e não juiz. Isto, com effeito, é que é blasphemar.

Mas estes impios discursos não os vociferam os mortos castigados por Deus; sois vós, scribas e doutores, que lh'os inventastes; e o que a isso vos levou foi o imaginardes um inferno perpetuo, e, pelo tanto, o effeito que o castigo esteril devia produzir sobre soffredores immortaes. Entrai mentalmente n'essa catacumba infecta, tomai por instantes o logar das victimas, e ousai fallar em bondade de Deus. Não acreditareis em tal. Máo grado vosso, a blasphemia vos fugirá da bôcca.

Os primeiros blasphemadores são, logo, os inventores d'aquelle imaginario supplicio. Á maneira dos idolatras, fraccionaram Deus, extremando entre justiça e bondade—attributos indistintos. De modo que essas presumidas blasphemias do inferno são sómente um ecco das que esbravejaram nas almas d'elles, ao contemplarem a sua obra.

Deus é justiça e misericordia conjuncta e indivisivelmente. Nos actos da sua justiça ha sempre um fundamento de misericordia; e, nos actos em que sómente a sua misericordia realça, ha um fundamento de justiça. É offendel-o dizer que é misericordioso sem justiça para uns, e justiceiro sem misericordia para outros. Isto é falso quanto ao tempo e quanto á eternidade. É justo Deus com os justos coroando-os, por que se a salvação d'estes fosse gratuita e mera complacencia particular, favor e não recompensa, o castigo dos peccadores seria iniquo. Na gloria, pois, dos bemaventurados reina tanta justiça quanta misericordia.

Mas, se Deus, no outro mundo, é justo para os eleitos, por que não ha de ser misericordioso com os peccadores?

Mostrais-me a sua misericordia no ceo; e eu tambem lá vejo a sua justiça.

Mostrais-me a sua justiça no inferno, e eu tambem lá procuro a sua misericordia.

A condemnação do vosso inferno está na necessidade logica e invisivel que lá obriga a offender e amaldiçoar Deus. É isso possivel? Deus quer ser injuriadoeternamente? Não quererá antes ser adorado e abençoado por todas as creaturas? Adoram-no os santos em jubilo, e os mortos, que pune, adoram-no em penas, por que sabem que ellas hão de ter fim.

Seja-me testemunha o Evangelho.

Lux in tenebris.

Lêde no Evangelho de S. Lucas, capitulo XVI, a parabola do rico avarento.

Do fundo do inferno, o rico avarento levanta a voz para seu pae Abrahão: «Compadece-te de mim, e manda cá a Lazaro, para que molhe em agua a ponta do seu dedo, a fim de me refrescar a lingua.» Lazaro não se bole, em quanto o patriarcha lembra ao padecente a pena de talião; cabe agora ao opulento mendigar, e ao pobre fartar-se.

O rico avarento baixou os olhos, e não pediu mais agua: resignou-se, não murmurou, não blasphemou, renunciou a gottinha d'agua como renunciára as vestes purpureas e as regalias da meza. Todavia, ainda outra vez se dirigiu ao pae Abrahão: «Eu te rogoque o mandes a casa de meu pae, pois que tenho cinco irmãos, para que lhes dê testemunho, não succeda virem tambem elles parar a este logar de tormento.» E Abrahão lhe disse: «Elles lá tem Moysés e os prophetas: ouçam-os.» Ainda assim, o padecente insiste: «Mas, se algum morto lá fôr, elles farão penitencia.»

Ahi está mudada não só a fortuna do rico avarento, mas o coração tambem. Eil-o humilde, supplicante, submisso. Recebe as recusas sem irar-se; e, em meio de suas dôres, lembra-se enternecido de cinco irmãos que deixou na terra. Não lhes inveja os haveres; pelo contrario, quer incutir-lhes caridade, e só por amor d'elles importuna o seu ascendente Abrahão. Porém, Lazaro e Abrahão sahem-lhe tão rijos como elle tinha sido para com as dôres alheias. O tal Lazaro, cujas chagas os cães lambiam, tornou-se menos piedoso com o proximo do que haviam sido com elle os cães. Refocila-se nas delicias do ceo, como o rico avarento se refocilára nas da terra, e esqueceu o que era penar, e o que se deve a quem pede. No tocante ao patriarcha, esse, em vez de consolar o neto supplicante, desespera-o; e, a segunda vez que o desgraçado ousa pedir-lhe um milagre de bondade, não para si, mas para os irmãos, que lhe responde o outro? Responde seccamente que os irmãos lá tem as escripturas tão dignas de credito como os mortos, pelo menos.

Admiravel, mas, para theologos, incomprehensivel parabola! Eis aqui o inferno converso, repêso, enternecido, o rico aváro deplorativo e caridoso, e por cima,um ceo de bronze, uns santos descaroados. Este não é o inferno judaico, é christão; mas o paraiso esse é que é judaico, e não christão.

As affeições d'esta vida continuam na outra. Mesmamente no ceo, a Virgem é Mãe de Christo. Todos esperam reconhecer, além-tumulo, as pessoas que na terra estremeceram. Reconhecer-se-hão os esposos, pois que hão de reconhecer os filhos. Esta esperança é a maior consolação d'esta vida, e uma das forças que nos attrahem para o ceo. Mas o perpetuo inferno nos escurece aquella esperança e nos esfria os mais santos affectos.

Eis um pae de familia que morre subitamente ou de violenta morte, ou na sua cama, sem padre, sem sacramentos, ao cabo de uma vida devota. Imaginem a incerteza da viuva e dos orphãos quanto á salvação d'esse ente que os amou, educou, nutriu, instruiu econsolou. Se ha coisa verdadeira no ensino dos theologos, podemos apostar mil contra um que este homem cahiu no inferno para sempre.

Que afflicção para acrescentar ás angustias d'aquella familia! Se elles tivessem a certeza de amar um peccador penitente, a quem rogos e boas obras podessem levar refrigerio, que supplicas, que piedosas obras não fariam! Mas amar um condemnado! suffragar um condemnado! amarrarem-se á memoria de um condemnado! guardar-lhe as reliquias, as cartas, o retrato! Choral-o, suspirar por ir vêl-o! De repente, morrer para odial-o! Saber, e pensar estas coisas! Seja embora uma duvida; é duvida que gela a oração no peito; quebra o animo para o bem-proceder; espanca a piedade do lar; e aconselha o estontecer-se e esquecer-se um homem—coisa tão natural ao mundano egoismo—; ou então, o outro egoismo feroz e sombrio do frade que immola á sua propria salvação todos os affectos humanos.

Haverá no ceo familias que se encontrem; mas tambem no ceo haverá orphãos eternos, e viuvas eternas, e mães eternamente sem filhos. Se isto é motivo para amarguras, ahi está o agro das doçuras do ceo; mas, se é motivo para alegrias, que horriveis alegrias!

O rico avarento do Evangelho seria em verdade melhor do que os eleitos. Sem duvida, mais caridade haveria no inferno que no ceo.

Ganhou um medico, á cabeceira de um pobre, doença mortal. Chegou tão depressa a morte que não lhe deu tempo de chamar o padre. Chegou o padre, quando elle era já morto. Circumvagou os olhos pelos assistentes, disse que o chamaram tarde, e sahiu dando aos hombros.

As poucas palavras e o gesto impressionaram vivamente a viuva, que se quedou a pensar n'aquillo todo dia.

E eu velava á sombra do funebre leito. A viuva estava ali orando, soluçando, e sempre preoccupada,a pezar seu, com as palavras do padre. A intervallos, olhava ella para mim chorando, invocava-me como testemunha da virtude de seu marido, e dizia-me com anciedade: «Não se salvará elle?»—Não duvide, senhora—dizia-lhe eu; porém tristemente eu via que as minhas respostas a não socegavam.

Ao cahir da tarde, como ella desde a vespera não comesse nem dormisse, fiz que seu filhinho lhe offerecesse algum alimento. Debalde se esforçou por engulir. Então pediu um livro de orações. Abriu ao acaso um que lhe deram, esperando achar ali algum alivio, que não achou; pelo contrario, com a leitura cresceu-lhe a inquietação. Vi-lhe então no rosto uns tregeitos involuntarios, e um crispar de mãos, e por fim um grito e logo cahiu desmaiada nos braços de quem a levou d'ali.

Apanhei o livro cahido de suas mãos. Denominava-seQuotidiano do christão, e facilmente conheci nas paginas avincadas as passagens que ella tinha lido: eram osPensamentos christãos para todos os dias do mez, pelo padre Bouhours, da companhia de Jesus. Tinha ella desmaiado quando lia noquinto diauma meditação ácerca doJuizo final. Acontece sempre que o ferido ao cahir bate sempre na chaga. Alguns trechos do capitulo, cujas margens estavam laceradas, diziam assim: «Quão terrivel é o dia da ira do Senhor!Os justos escassamente serão havidos como taes: que será dos peccadores? Que sentença póde esperar o peccador impenitente de um Deus inexoravel? Oh! que terribilissima sentença!Ide, malditos, arder em fogo eterno!Ai! onde irão, Senhor, esses desgraçados que amaldiçoaes? Para que ponto do mundo quereis que se afastem, distanciando-se de vós? Onde é que está paragem tão funesta?

«SEXTO DIA

«O INFERNO

«I. Que horror ganhariamos ao inferno, se podessemos ouvir os lamentaveis gritos dos condemnados! Suspiram, gemem, urram como bestas-feras em meio de lavaredas. Accusam-se de seus peccados, chorando-se, detestando-os; masÉ TARDE.O chorar não lhes faz senão augmentar o ardor do fogo que os queima sem consumil-os.Penitencia dos condemnados! quanto és rigorosa, einutil!

«II. Não vêr Deus nunca, arder em fogo de que o nosso é apenas sombra; soffrer ao mesmo tempo quantos males ha ahi,sem allivio, sem repouso; sempre com os olhos postos nos demonios, sempre com o coração raivoso e desesperado, que vida!

«III. Esses desgraçadosenfuriam-sepor terem desprezado tantas occasiões de salvarem-se.O recordarem os prazeres passados é-lhes um de seus mais penosos tormentos; mas o tormento superior a todosé a lembrança de terem, por sua culpa, perdido Deus.»[6]

Pobre mulher!—disse eu entre mim lendo aquelle capitulo—vêr seu marido, tão bom homem, alcunhado de besta-fera! E topar em livro de piedade, onde procurava consolar-se, esta cruel sentença que de manhã ouvira da bôcca d'um sacerdote:É MUITO TARDE!... Quiz fechar o livro; mas o titulo doDiaseguinte, impresso em versaletes, susteve-me.

«SETIMO DIA

«DA ETERNIDADE DAS PENAS DO INFERNO

«I. Poderá ir mais adiante a cólera de Deusque castiga prazeres que tão pouco duram com supplicios sem fim? Que desgraça não é isto! Não bastará que os males d'um condemnado sejam extremos? É forçoso que sejam eternos? Uma picada de alfinete é mal bem leve; todavia, se este mal durasse sempre, tornar-se-hia insupportavel. Ora, os tormentos do inferno que serão?

«II. Ó eternidade!Quando um condemnado podesse derramar lagrimas bastantes para fazerem quantos mares e rios tem o mundo, ainda que vertesse uma só lagrima em cada seculo, elle não estaria mais adiantado, depois de tantos milhões d'annos, como quando começou a penar.

«Ser-lhe-ha forçoso recomeçar como se não tivesse nada padecido; e, quando tiver recomeçado tantas vezes quantos são os grãos de areia nas praias, os atomos no ar e as folhas nos bosques, nada d'isso lhe será contado.

«III. Não só por toda a eternidade os condemnados soffrerão;mas, a cada instante, soffrem a eternidade inteira. Está-lhes sempre á vista a eternidade; em todas as dôres se lhes côa a eternidade.As penas infinitas continuamente lhes estão no espirito.Cruel idêa! deploravel situação!Arder por uma eternidade! chorar eternamente! Raivar sem fim!»

Esta meditação corresponde aoSetimo dia, que éaquelle em que o Senhor entrou em descanso para admirar suas obras.

[6]O padre Bouhours foi um solerte engenho, bastante mundanal, que distillava a frio no seu gabinete aquella rhetorica medonha, cuja leitura, se lhe dessem valor serio, seria capaz de fazer abortar uma mulher gravida. Acintemente abastarda elle n'este livro a verdadeira doutrina ácerca do inferno, doutrina em que se aprende que os condemnados amam o peccado, pois que amar o peccado é odiar Deus; conhecendo, porém, a desmoralisação de tal pena, o padre Bouhours presume que os condemnados abominam o peccado, mas que os seus olhos se abriramjá tarde, por maneira que substitue á pena immoral, mas apparentemente justa, uma pena de apparencia moral, mas para isso mesmo horrivelmente iniqua, por que detestar o peccado é amar o que ha mais avêsso ao peccado, isto é, a virtude, ou, mais ao claro, Deus. Segue-se que Deus deixaria infernados os que o amam e se arrependem de o haver offendido. N'outro capitulo da mesma obra o mesmo padre é de parecer que os condemnados não podem amar Deus. Mas, se elles não amam o bem nem o mal, nada amam; e então que vem a ser as penas espirituaes? Que soffrem? por que soffrem? por que se afflijem do perdimento d'um bem que não amam? e por que os afflige a perda dos prazeres que abominam? Tudo isso dispára n'um apontoado de sandices.

[6]O padre Bouhours foi um solerte engenho, bastante mundanal, que distillava a frio no seu gabinete aquella rhetorica medonha, cuja leitura, se lhe dessem valor serio, seria capaz de fazer abortar uma mulher gravida. Acintemente abastarda elle n'este livro a verdadeira doutrina ácerca do inferno, doutrina em que se aprende que os condemnados amam o peccado, pois que amar o peccado é odiar Deus; conhecendo, porém, a desmoralisação de tal pena, o padre Bouhours presume que os condemnados abominam o peccado, mas que os seus olhos se abriramjá tarde, por maneira que substitue á pena immoral, mas apparentemente justa, uma pena de apparencia moral, mas para isso mesmo horrivelmente iniqua, por que detestar o peccado é amar o que ha mais avêsso ao peccado, isto é, a virtude, ou, mais ao claro, Deus. Segue-se que Deus deixaria infernados os que o amam e se arrependem de o haver offendido. N'outro capitulo da mesma obra o mesmo padre é de parecer que os condemnados não podem amar Deus. Mas, se elles não amam o bem nem o mal, nada amam; e então que vem a ser as penas espirituaes? Que soffrem? por que soffrem? por que se afflijem do perdimento d'um bem que não amam? e por que os afflige a perda dos prazeres que abominam? Tudo isso dispára n'um apontoado de sandices.

Acabava eu de lêr, agitado, aquella pagina, quando a viuva recuperou os sentidos; mas quasi mentecapta. Exclamava ella que tinha a certeza de seu marido ter sido condemnado, por que não acreditava em tudo que a egreja ensinava, e morrêra sem confissão; accrescentava que o marido era bom para ella e para todos; que, ainda mesmo que a houvesse offendido, lhe perdoava pelo muito que elle estava padecendo, e que desejava ir juntar-se-lhe e consolal-o no inferno. Fallava em matar-se para mais depressa o vêr; e, dizendo isto, aconchegava o filho do seio, sorria-lhe, beijava-o convulsivamente, em duvida se devia matal-o; por quanto, dizia ella, o menino iria ao paraizo, se morresse então; e não se veriam mais, desejando ella leval-o ao pae.

Assim que ouvi os gritos, sahi do quarto mortuario para soccorrer, se fosse preciso, aquella afflicta gente, sobrecarregada com outra desgraça. Cercamos a joven viuva, vigiando angustiosamente os seus menores movimentos, por medo de que ella não praticasse algum acto de desesperação, de que dera mostras. Quizemos tirar-lhe o filho; mas ella dava ares de querer afogal-o antes que lh'o tirassem. Parecia já mais tranquillaque todos nós. Desfigurou-se-lhe cadavericamente o semblante; os olhos porém brilhavam, e o sorrir tinha um ar celestial. Fallava sem cessar do marido, e do prazer que ella teria em acompanhal-o no soffrimento. A mãe ajoelhou-se diante d'ella, que a levantou amorosamente, rogando-lhe que não pedisse a Deus pela sua alma.

Conseguimos em fim separal-a do filho, e levamol-os um apoz outro, elle já adormecido, e ella luctando comnosco, desgrenhada e rota. Seguiram-na os parentes, e eu fiquei sósinho á beira do cadaver.

Bem desejava eu tambem saír: carecia de distrahir-me. Piedade, cólera, fé, duvida, terror, mil contrarios sentimentos me agitavam, dos quaes eu não podia defender-me ao pé do esquife, e depois de similhante espectaculo! Encostei-me á banca onde estava deitado sobre uma alva coberta um crucifixo de marfim, e, contemplando aquella divina imagem, recolhi-me no mais intimo retrahimento d'alma. Perguntava eu a mim mesmo, com o coração apertado, o que devia crer-se da vida e morte de Christo, e se era certo que elle descesse do céo, como se dizia, para assombrar os justos, desesperar os peccadores, e conturbar a razão dos fracos. E a mim me quiz parecer que Jesus estava ali, e pensei vêl-o chorar, eque uma de suas lagrimas resvalou sobre oQuotidiano do christão, e tudo que eu havia lido n'aquelle livro subitamente se desfez.

Estava ainda comtudo a minha alma perturbada. Interroguei o Christo. Não me respondeu. Então entrei em duvida se eu estava adormecido ou desperto. Vi—seria sonho?—um oceano de trevas alcantilar-se á volta de mim, e no seio d'essa escuridão immensa lampejava um frouxo raio de luz. E esta luz saia das fendas de um sepulchro, e Jesus estava deitado vivo n'esse sepulchro. Eu quiz levantar a pedra que o cobria, mas uns verdugos envoltos em trevas me deceparam as mãos; eu quiz balbuciar, e arrancaram-me a lingua; e assim mutilado, cego e mudo senti-me arrebatado e precipitado ás entranhas de um abysmo, e comprehendi que estava no inferno. O meu unico soffrimento ahi era a cegueira, e a espectativa anciadissima dos supplicios que me esperavam. E, como só tivesse ouvidos para entender, escutei, e comprehendi o seguinte.

Ao principio ouvi um rumorejar estranho, que rolava prolongando-se ao travez dos espaços infinitos, e depois decrescia até ao ciciar da folhagem que a brisa da tarde acaricia, e por fim augmentava em estridor até exceder o roncar das vagas cavadas pela borrasca.Estas comparações tiradas da terra não dão idêa da tristeza, do pungente e solemne d'aquelle immenso rugir de seres sem nome que eu não podia vêr e ouvir gemer. De toda a parte, suspiros, brados, soluços, gritos exhorativos, mas tudo distincto, conglobando-se sem confundir-se, e formando um brado unisono. Debaixo do sol não ha ahi espectaculo tão variado como o prantear d'aquellas almas, ressoando em choro universal quasi claro ainda, e mais afflictivo. Ao ouvir estes estrondos figurava-se-me que o sangue me escorria dos pulsos cortados, e o suor da fronte, e as lagrimas dos olhos, e tanto eu como tudo em redor soffriamos e supplicavamos.

E uma voz exclamava: Oh! quanto eu soffro, Deus meu! Isto não terá fim? Vós, Senhor, que me atirastes ignorante a um mundo escuro, não me julgaes, apoz tantos seculos, bastante castigado dos meus desvios d'um dia?

E outra voz exclamava: Quando os meus peccados aqui me abysmaram, vossa mão, ó Deus, me amparava, e me ampara ainda; e, assim mesmo, em logar de diminuir, o meu supplicio augmenta. Soffro com quantos de longe molestei: tenho fome com os que eu poderia fartar; tenho frio com os que eu poderia vestir; peza sobre mim a cada hora e cadavez mais esmagadora a carga de males que fiz pezar sobre outros. Multiplicaram-se as minhas offensas como a herva sobre a minha campa esquecida, e as minhas feridas sangram sempre, e as minhas chagas lavram sem cessar. Isto é justo, meu Deus! Poderia eu ser feliz no céo, se visse o effeito de minhas obras? Em quanto fructifica a arvore fatal que plantei na terra, puni-me, Senhor! Mas não me tireis a esperança! O pouquinho bem que fiz na vida não germinará nem cobrirá, se o permittirdes, os vestigios das minhas iniquidades? Oh! quando nenhum ente vivo, n'algum logar do mundo, já não podér imputar-me seus soffrimentos, tende então piedade de mim, meu Deus!

E todas as almas peccadoras, unindo-se em um brado de misericordia, repetiram juntas, lá das reconditas profundezas: Tende piedade de mim! Tende piedade de mim!

Esta supplica em commum era a um tempo tão suave e dilacerante que eu imaginei que o ceo se abriria. Mas a noite que me envolvia espessou-se mais glacial; e o abysmo emmudeceu; e, apoz um instante de esperança, continuou a lamentar-se, correndo como o oceano nas fragarias da costa.

Ai! ai!—conclamavam os gritos que se extinguiam soluçando—é surdo o céo! é surdo o céo!

Nunca! nunca!—diziam outras vozes—Nunca! nunca! Meu Deus, que resposta á dôr! Nunca! nunca!

Descançai, filhos!—bradou um condemnado, que se me figurou, no tom de voz, ser um dos patriarchas doabysmo—Não profirais essa palavra horrida. Ahi sôa em vossos pobres seios um ecco das maldições da terra, e não palavra descida do céo. Ha mais de mil annos que padeço, e oro, e escuto o céo, e não ouço a resposta. Oremos, oremos sempre!

E o ancião entoou um cantico; e, ao primeiro versiculo, parou e debulhou-se em lagrimas.

Ai!—ressoavam ao longe milhões de almas gementes—Ai! o céo é surdo! o céo é surdo!

N'este lance, uma voz sobrelevou a todas, dizendo:—Ensinai-nos, ao menos, Senhor, a utilidade dos padecimentos. Se nos perdoasseis, acaso a vossa gloria padeceria com isso? A felicidade dos justos soffreria diminuição? Revoltar-se-hiam elles contra vós? Logo que as creaturas entraram á vossa presença, não se lhes acrisolaram os sentimentos de piedade? O padre que me estendia a mão quando era mortal e sujeito ao peccado, a esposa que eu amava, a mãe que me gerou, os amigos que me trahiram e aos quaes perdoei, os pobres que soccorri, e uma filha ingrata e amada a quem eu daria a comer o meu coração em ancias de fome, nem essa, ninguem vos intercede por mim? Hontem oravam elles quando eu me rejubilava nas culpas; pranteavam-me vivo e oravam por mim; e hoje esquecem-me, pendem para o crime, fogem da dôr; o amor a quem soffre e geme é sentimento ephemero, que vai mal para entes bemaventurados.

E a voz que fallava assim ergueu-se ainda para amaldiçoar, mas falleceu-lhe a força, e á maneira dovagalhão que rossa a nuvem rugindo, subita recaiu e expirou em prolongado gemido.

Mas logo um brado novo retumba mais estridente ainda, e, eu, ouvindo-o, não distinguia se era oração, se blasphemia.

E bradava:—Creio na vossa justiça, meu Deus; mas deixai-me crêr na vossa misericordia. Não é ella tão infinita como a vossa justiça? Não é eterna? Se me perdoaveis quando eu estava na terra, porque não me perdoais aqui? Se eu sou o mesmo peccador, não sois vós o mesmo Deus? E, se a morte me mudou, pôde a morte d'um ente como eu mudar a vossa immutavel natureza? Cansou-se acaso a vossa bondade? Exhauriu-se? Sois vós susceptivel de cansaço? E, se alguma de vossas virtudes é transitoria, de circumstancia e occasional, é forçoso que seja a bondade, aquella ineffavel bondade que nós ignorantemente consideravamos lá em cima a mesma essencial e inalteravel virtude vossa! Se assim é—proseguiu a voz desesperada—anniquilai-me, Deus Omnipotente! Esta existencia é inutil; sou de mais no universo. Que lucraes com as minhas dôres? Tendes precisão d'ellas? Retomai esta vida de que sem duvida abusei, e esta intelligencia que perverti; apagai em mim esta luz, visto que principiam a rasgar-se os veos que a escurentavam.

Tirai-me a lembrança do céo, a ancia de ser feliz, a necessidade d'amar, a necessidade de saber; tirai-me, sobre tudo, por piedade, o sentimento da justiça,porque eu não sou Deus, e a vossa justiça é um mysterio, e contra minha vontade, a blasphemarei. Deixai-me morrer, ó Deus! Deixai morrer quem soffre! Matai o peccado incuravel e a dôr esteril, a fim de que na creação não haja um só atomo que não palpite de reconhecimento e alegria, ao ouvir o vosso nome santissimo.

E um clamor horrendo abafou a voz que fallava; e, d'um angulo a outro do abysmo, todas as almas em tortura escabujavam, rogando a Deus que as deixasse morrer. E pediam a morte como os famintos mendigam pão; chamavam-na com os gritos da mulher em angustias de parto do seu primogenito, com a dôr da victima na fogueira, com o rugido da leôa que perdeu os cachorros, com o balido do cordeirinho que procura a mãe. E eu tambem a chamava, e me pareceu vêl-a aproximar-se, e beijei-lhe a mão glacial; e, quando me sentia morrer, despertei.

Eu escolheria d'entre os condemnados o mais desprezivel, se no inferno existisse um miseravel maior do que Judas.

Este vivia na amisade de Jesus; ninguem lhe conhecia mais de perto a innocencia; e, como elle fosse o particular distribuidor das esmolas (João, c. 13, v. 29), ninguem lhe conhecia melhor a bondade. Não obstante, vendeu-o; e, depois de o atraiçoar, voltou, ceou com elle, e, ao escurecer, guiou os soldados que o prenderam; e, como os soldados o não conhecessem, deu-lhes signal, abraçando-o. Eis aqui o crime circumstanciado. Premeditação, cubiça, villeza, tem de tudo. Judas vende o mestre e o amigo, o sabio e o justo. Vende-o sem colera, sem paixão, por bom dinheirode contado, como venderia na feira um jumento ou um boi. Sabe que desejam matal-o; não importa! vende-o. E que será depois da Mãe de Jesus? e dos doentes que elle curava? e dos ignorantes que ensinava? Ah! que tem Judas com as lagrimas de mãe e com a ignorancia e lastimas do povo? Negociou com todas essas dores como mercadejou com a amisade, com a sabedoria, com a innocencia, com tudo que ahi ha divinal n'este mundo. Embolsou o preço; e, a fallar verdade, nem os phariseus nem elle avaliaram cara a mercancia: trinta dinheiros! dez vezes menos que a libra dos perfumes de Magdalena.

Um dos primeiros effeitos da perfidia de Judas foi a defecção dos apostolos. Em vez de seguirem o Mestre, falsamente accusado de sacrilego e seductor, dispersaram-se: Thiago, Simão, Thadeu, que elle chamava seus irmãos, João, o seu amigo dilecto, todos por egual covardes, não cuidaram senão em salvar-se. «Conheces este homem?» perguntaram a Pedro.—Não,—diz Pedro, o chefe, o mais corajoso de todos—não o conheço.—Renegou-o trez vezes; trez vezes mentiu; trez vezes testemunhou de falso em face dos accusadores: depois, chorou na escuridão, e calou-se. Todos deixaram injuriar, calumniar, chibatar e morrer Jesus, sem erguerem brado em sua defeza eduvidando que fosse Deus, duvidando-lhe da missão, das promessas; bem que, para grande opprobrio d'elles, certos de sua amisade, pureza de vida, e excellencia da moral. Para se reanimarem foi preciso o milagre que o pae Abrahão recusou ao rico avarento; nada menos que resuscitarem os mortos, e que propriamente Jesus saísse do sepulchro, e que elles o vissem, e conversassem e comessem em sua companhia, e que Thomé lhe tocasse as chagas. Desde então é que prégaram com inabalavel fé a divindade de Jesus.

O peccado dos apostolos, n'esta lamentavel historia da Paixão, é, na essencia, egual ao de Judas, bem que não tanto odioso. Faltou-lhes a todos a fé; porém, sendo a fé um dom sobrenatural, não devemos arguil-os desabridamente porque não receberam o dom. O que do seu proceder nos irrita é deixarem ir até final, sem publico protesto, a obra de Judas; é que abandonassem o innocente amigo que os outros tinham vendido; é que não dissessem a Pilato ou Herodes: «Não! este homem não é sedicioso; quer que se dê a Cezar o que é de Cezar, e a Deus o que é de Deus; paz, desinteresse, e caridade são a sua doutrinação.» Isto bem o sabiam elles, e não o disseram, e deviam têl-o dito, sem medo, e não abafarem, como fizeram, o grito da consciencia. Este é que é ocrime dos apostolos, crime natural, como o de Judas.

Bem se deixa vêr que, se Judas vendeu o seu Deus, não pensava elle que vendia Deus: vendeu-o sem vêl-o, sem reconhecêl-o divino. O que elle a sabidas vendeu e quiz vender era um homem, pelo mesmo theor que os apostolos desampararam e quizeram desamparar um homem, mas o melhor e mais sabio homem, e o mais carinhoso amigo.

Vender Deus! renegar Deus! É isso crivel quando se crê em Deus? Tal crime, á força de disparatado, ficaria impune, como acto de sandice! Judas foi ingrato, ladrão, egoista, traidor doble, fallacioso, assassino; tudo isso foi e mais ainda; mas o certo é que, no intimo de seu coração, Judas não se julgava deicida.

Por mais infame que haja sido, Judas não o era tanto que não comprehendesse a torpeza do seu acto. Tanto a comprehendeu que não se pôde afazer á sua villania; e, em quanto os apostolos se escondiam, foi elle—dolorosissimo acto!—confessar sua perfidia no templo, e restituir o dinheiro aos compradores, dizendo: «Vendi o sangue do innocente.» Mas ninguem se desata do seu remorso, como de um dinheiro que encrava espinhos na consciencia; e, na bôcca de um traidor, o testimunho a favor da innocencia perdemuito de sua efficacia. Sentiu-o vivissimamente Judas quando, apoz confessar-se do crime, os phariseus lhe responderam: «Que se nos dá d'isso? Lá te avém.» Saíu então do templo, convicto de que não estava em sua mão sustar as consequencias do seu crime, corrido, desesperado, indo ao encontro da morte que merecêra, mas que ninguem lhe dava, para que a sua penitencia fosse maior n'este mundo.

Vida de opprobrio e remorsos é expiação. Judas deveria viver. Porque se matou? Se elle cresse na divindade de Jesus, não se mataria, pois que, matando-se, ía entregar-se nas mãos d'Aquelle que atraiçoára. Por que se matou? O suicidio nada remedeia, e tira da contemplação dos homens o salutar espectaculo d'um criminoso contricto. Procurava elle anniquilar-se? A anniquilação ser-lhe-hia doce refugio: o nada não é pena. Ora é certo que ninguem disse que Judas fosse atheu. Se elle descrêsse de Deus e da vida futura, como explicar-lhe os remorsos? Que é crime, quando se crê que tudo acaba comnosco? Se não cresse em Deus, Judas guardaria os trinta dinheiros. Que temia elle? Como cumplices de seu crime tinha todo Israel, os padres que o corromperam, os senadores, Pilato, Caiphás, e a côrte de Herodes, e os proprios apostolos que negaram a victima. Então por que se matou?

No suicidio de Judas ha terrivel mysterio; mas tambem, n'este mysterio, ha relance luminoso, e vem a ser que Judas, depois de confessar a perfidia, na face dos tentadores, calcando o ouro recebido, vagando loucamente pelas ruas de Jerusalem, valia tanto pelo menos como o senado judaico que continuava deliberando friamente a morte do justo, como Pilato que lavava as mãos, como Herodes e sua côrte que riam de tudo, e como os covardes amigos cujo testemunho, n'aquella conjunctura, seria muito mais importante que o d'elle. Tal monstro revertido a homem, de si mesmo horrorisado, saiu da cidade, entrou aos campos por onde tantas vezes estancára com o affavel Mestre, viu-se indigno de apertar a mão d'um amigo, porque havia trahido o mais fiel de todos; viu-se indigno de piedade por que a não tivera; e, por fim, desejou acabar. Nunca tinha sentido como então, nem quando ouvia Christo, o nada das riquezas, a vaidade do mundo, o desgosto dos prazeres, o horror dos vicios que os seguem. Oh! se elle podesse retroceder, delir de sua vida aquella nodoa de sangue, sacudir o pezo que lhe abafava o coração, quão diverso do que fôra não seria! Como agora se lhe figurava formosa a innocencia! Como as tentações lhe pareciam boas de subjugar! Ah! se elle podesse quebrar as prisõesde Jesus, e banhar-lhe os pés com suas lagrimas! Se podesse offerecer a vida a trôco da que o povo ía sacrificar! Com que prazer se deitaria na cruz, e ahi morreria em paz, se lhe fosse dado perdão de seu crime com tal condição!... Mas, ao longe, estrugia a grita da multidão enfuriada, bradando: «Crucifica-o!» Escutava o tropel dos cavallos, o retinir das armas, e a pancada do martello que cravava os pregos nas mãos bemfazejas do amigo que elle vendêra. Iriçaram-se-lhe os cabellos, reçumou-lhe suor glacial ao rosto, mal se tinha nas pernas como ebrio, sentia retrahir-se-lhe o chão debaixo dos pés. Oh! como Jesus padecia! Mas Judas padecia mais, porque soffria como criminoso, e não como justo. Os soffrimentos de Judas excedem todo o confronto. Não ha ahi agonia que lhes compareis. Em um dia, n'uma hora soffreu mais do que cem annos de penitencia no deserto, cem annos de vergonhas e supplicios entre os homens. A sua alma era uma fornalha em chammas. Os caminhos abrolhavam-lhe espinhos dilacerantes debaixo dos pés. Com os proprios dentes lacerava os beiços. O sangue estuára-lhe nas veias. Aquelle viver já não era vida de homem. Nem fome nem sede o espertavam do lethargo horrendo. Fulgurava-lhe um só sentimento: o horror do seu crime. O que elle levava pelos campos além era um cadaver já insensivel á dôr; e esse vil cadaver é o que elle estrangulou pendente da arvore. Fez mal. Melhor lhe fôra morrer ajoelhando, supplicando misericordia. Ah! acaso sabemos como elle morreu?Por ventura, a dôr refinada até aquelle extremo não será a mais eloquente supplica? Quem o sabe n'este mundo?

Seja, porém! Prosiga elle na outra vida o medonho supplicio que tentou abreviar! Que esse incomportavel castigo redobre de hora a hora, de anno a anno, de seculo a seculo. É justo.Amen! amen!

Conte-se e publique-se em todas as linguas da terra que ha dezoito seculos Judas trahiu o Filho do homem, seu bemfeitor, seu amigo e mestre, e que o seu castigo dura ainda. Maldito seja elle e todos os seus similhantes! Maldito seja de pobres e ricos, dos filhos e das mães! Padres de Jesus Christo, levai esta nova a todas as choças e palacios; dizei-a a grandes e pequenos, aos que balanceam thuribulos, e aos que floream gladios, aos que julgam a terra e aos que são julgados! Ai dos hypocritas! ai dos ingratos! ai dos homens de duas linguas e duas caras! ai dos servos e dos irmãos tredos! ai dos que antepõem a amisade á justiça, e vendem sua alma ao sanhedrin, e contam as suas moedas em quanto o innocente é atormentado.

Dizei isto a toda a terra, padres de Jesus Christo, que não haverá ahi palavra que vos impugne.

Sim! Não ha ahi crueza de morte, e mormente voluntaria morte que expie tamanho crime. Judas soffreha dois mil annos, e d'aqui a quatro mil soffrerá ainda, e em quanto o genero humano não terminar a sua peregrinação terrestre, viverá em supplicio recrescente de tormentos inauditos.

Entretanto, meu Deus, este mundo de provações, segundo dissestes e tudo o confirma, ha de acabar. E, quando este mundo fôr destruido e renovado, quando já não houver sol, nem berços, nem sepulchros, nem gerações de peccadores, não perdoareis então a Judas? Quando elle apparecer á vossa presença no dia do juizo, depois de tantos seculos de indescriptiveis dôres, não vos lembrareis de que elle foi vosso amigo? Dar-se-ha caso que Pedro, esquecido da sua culpa e do perdão que a disfarçou, diga ainda outra vez: «Não conheço este homem?» João, Matheus, Thomé e Thiago, voltarão o rosto indignado, como se não houvessem tambem peccado e duvidado? Não vos dirá o côro inteiro dos apostolos: «Senhor, apiedai-vos d'elle. Sem a vossa graça, o que não teriamos feito nós?»

Apiedai-vos d'elle, Senhor!—dirão todos os bemaventurados—que elle, sem o saber, foi o instrumento e a victima da salvação dos homens. Feliz culpa! dizia Santo Agostinho do peccado de Adão, feliz culpa que grangeou para o genero humano situação melhor que a do Eden. Feliz tambem, meu Deus, a culpa deJudas, pois era mister que, em cumprimento de vossos decretos, fosseis trahido por um dos vossos amigos. Horrendo, mas inevitavel crime, predicto muito antes pelos prophetas; crime salutar, introito mysterioso da paixão; crime que foi amaldiçoado e devia sêl-o, mas que hoje devemos perdoar e bemdizer, por quanto, sem tal crime, ó dôce Jesus, nem vós terieis morrido, nem o mundo estaria resgatado.

Apiedai-vos, pois, de Judas! Commiserem-vos seus remorsos, tormentos e lagrimas! Compadeça-vos a cegueira d'elle! É bem de crêr que fechais os olhos da alma aos culpados e esta milagrosa cegueira com que os affligis é já per si um castigo. Mas tambem os castigareis por peccados e erros commettidos com vossa licença, no seio d'aquellas vingadoras trevas que derramastes no seu caminho? Não, não, meu Deus, vós o dissestes. Lembrai-vos de vossas derradeiras palavras na cruz redemptora, quando pedieis a vosso Pae perdão para os algozes, para os sacerdotes que vos haviam comprado, para o amigo desleal que vos tinha vendido, para o soldado cruel que vos cuspiu na face, para o povo desvairado que vos injuriava no supplicio: «Perdoai-lhes, pae, que elles não sabem o que fazem!»

E vosso Pae, que tudo vos concede, perdoou-lhes o sacrilegio, a blasphemia, e tudo quanto em seu crime entendia com a vossa abscondita divindade; perdoou-lhes o que a justiça e caridade querem que se perdoe aos insensatos e aos cegos, e a quantosnão sabem o que fazem. O que ficou sobre elles pezandoé o peccado contra a humanidade, por que bem conheciam os peccadores a sua culpa no momento em que a commetteram. Meu Deus, perdoai-lhes! Pedevol-o o genero humano ensinado por vossas lições e exemplos, e resgatado por vosso sangue.

O pae de familia dizia aos seus servos: Ide aos meus celleiros; tomai a flôr do grão que eu mesmo escolhi e ensaquei á parte em saco novo, e ide semear o meu campo. Não lhe mistureis o grão do saco velho; porque esse embriaga o homem e não o alimenta, e só para os cevados é bom.

Cumpriram os servos as ordens do amo; deixaram, porém, por descuido, cahir no saco novo os grãos malfazejos que o amo havia separado, e, logo que se misturaram, não poderam extremal-os, e cegamente os atiraram á uma para os sulcos.

Chegado o estio, um caminheiro que passava admirou a belleza das espigas que medravam na seara, mas reconheceu entre as espigas as plantas nocivas.Arrancava elle discretamente as que haviam germinado até á beira da estrada, quando os servos, armados de páos, correram a prohibir-lhe que tocasse na seara que era de seu amo. Perguntou-lhes o caminheiro onde estava o amo, e soube d'elles que era fallecido, mas lhes recommendára que vigiassem a messe preparada para seus filhos.

O caminheiro, ouvida tal resposta, contristou-se, e lhes fez vêr a differença que havia entre o joio e o trigo. E disse-lhes: Acautelai-vos de os mandar juntos ao moinho, e não façais pão que não seja de puro fermento.

Os servos, não obstante, persuadidos da sabedoria do amo e do cumprimento fiel ás ordens recebidas, desconfiaram do caminhante, e de seus proprios olhos até, quando lhes apontava a differença das duas plantas. Se isto é joio, diziam, não fômos nós que o fizemos rebentar.

Certo é que não—disse o passageiro—não fostes vós quem fez germinar o trigo nem o joio, nem communicastes a cada um dos dois sua diversa virtude, nem tão pouco lh'as podereis tirar; mas, se não sois quem os fez crescer, fostes vós quem os semeou, depois de misturar os grãos que o pae de familia havia cuidadosamente separado. Se amais os filhos de vosso amo, fazei o que elle faria: não lhes deis a comer pão que empeçonha, porque d'elle adoecerão, e outros hão de morrer.

Turbaram-se grandemente os servos com tal discurso.Um disse entre si: «Póde ser que o homem tenha razão: aqui ha plantas que não parecem eguaes; e é acertado não desprezar bons avisos, venham d'onde vierem, porque, um dia, quem sabe se nos serão pedidas contas?» Outros, no entanto, diziam: «Este homem póde ser um impostor. Quem sabe d'onde vem ou para onde vai? Quem lhe deu direito de nos ensinar? E porque não hemos de dar d'este pão aos filhos de nosso amo? Nós comeremos tambem d'elle.»

Dizendo isto, abaixaram-se a apanhar pedras, e remessaram-as contra o caminheiro que se affastou.


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