IIIO faro das bestas-feras

IIIO faro das bestas-ferasPor espaço de quatro annos se gosou Heitor Dias das doces reminiscencias de infancia, sem querer saber de estudos nem do destino. Os paes não o incitavam a empregar seu tempo em letras que lhe abrissem carreira de gloria. Fechada sabiam elles que ella estava aos hebreus, salvo a das sciencias; folgariam de o ver luzir entre os famigerados Zacutos; mas muito mais se compraziam de o ter entre si a recado de toda a suspeita de inimigos e do perigo de se relacionar com imprudentes amigos.Decorridos, porém, quatro annos, em 1703, Heitor Dias da Paz pediu ao pae que o deixasse ir estudar medicina a Coimbra, porque lhe era já pesada a ociosidade e desvalia de sua vida. Francisco de Moraes, confiado na discrição do moço, concedeu-lhe licença. Heitor pediu que o deixasse levar com elle o seu irmãosinho Braz Luiz, para, desde os dez annos, o ir encaminhando nos estudos conducentes á carreira da medicina. A generosalembrança foi applaudida pelos velhos, e o pequeno agradeceu-a com lagrimas de alegria.Do pupilo ou, segundo as presumpções do vulgo de Coimbra, filho do doutor Abreu, já ninguem se lembrava quando, corridos cinco annos, lá voltou. Heitor a ninguem disse de quem fosse aquelle menino. Apresentava-o como orphão pobrinho, cuja educação elle tomára a seu cargo. O pequeno já tambem mal se recordava dos seus bemfeitores, e quando fallava de algum d'elles, chamando-lhes pae ou mãe, o filho de Francisco de Moraes recommendava-lhe que a pessoas estranhas não dissesse nada do pouco de que ainda se lembrava.Heitor entrou no primeiro anno da faculdade em artes, depois de ter sido examinado em humanidades. N'este exame, em coisas de grammatica, sciencia que então reunia muitas especies hoje distinctas, o hebreu de Villa Flôr, mais descuidada que intencionalmente, defendeu proposições que destoaram asperrimamente nas orelhas orthodoxas dos examinadores. Sem embargo, deram-n'o como apto, reservando mentalmente o espiarem-lhe os actos com a vigilancia propria de quem quer salvar uma alma em risco de perder-se.Braz Luiz entrou no collegio de S. Paulo a estudar latinidade com precoce e admiravel entendimento. Causou certo assombro nos frades que liam no collegio a ignorancia do moço em doutrina christã, interrogaram-n'o minudenciosamente sobre o viver da familia que o educara. Braz respondia que os seus bemfeitores resavam, e elle tambem resava por um livrinho de orações. Apresentaram-lhe diversos livros de piedade para que d'entre elles escolhesse o da sua resa. O pequeno sentiu um bate no coração, comprehendeu instantaneamente operigoso d'aquelle interrogatorio, e saíu-se bem do aperto, indicando o cathecismo de fr. Bartholomeu dos Martyres. Poucos dias volvidos, Braz Luiz papagueava toda a doutrina, dando a entender que apenas lhe fôra necessario recordar o que sabia desde a primeira infancia. Esta esperteza não enganou os mestres. Os primeiros fios da teia entraram logo em urdidura; e já as inquietas consciencias dos frades não levavam as noites d'um somno.No entanto, Heitor levou a cabo, com muita applicação e extremado engenho o seu primeiro anno. Foi a ferias, levou comsigo Braz Luiz, e contou ao pae a inquirição porque passára o menino sobre o cathecismo christão. Francisco de Moraes agourou mal d'este exame, e pediu ao filho que, em vez de voltar a Coimbra, se passasse a Hollanda. Heitor Dias engenhou razões para combater os sustos do pae, e voltou ao segundo anno de medicina, levando Braz ao segundo anno de latim.Os de S. Paulo repetiram o inquerito com ardilosos rodeios. Braz, já cabalmente instruido, cortava-lhes as voltas com respostas por demasia atiladas; de modo que deu força ás suspeitas, mostrando estar apercebido para destruil-as.A este tempo sobejamente sabia o conselho da inquisição que os christãos novos de Villa Flôr, se não eram sinceros judeus, tambem não eram sinceros catholicos. Qualquer das coisas, no entender dos theologos, era egual á outra como affrontamento á verdadeira religião.Heitor Dias da Paz andava espreitado. Seus condiscipulos propriamente o provocavam a questões theologicas, das quaes elle se desembaraçava, dando-se comoignorante de subtilezas e aceitando os dogmas sem discussão. O conceito dos espiões de sua consciencia não melhorava por isso; quando muito, concediam-lhe a boa qualidade de judeu discreto.Assim correu o segundo anno da sua formatura, sem acontecimento que o precatasse contra alguma violencia.Voltou Heitor ao terceiro anno, com o coração retalhado de saudades de sua mãe que ficava morta. Levou comsigo para Coimbra o pae que se queria deixar morrer na alcova d'onde lhe levaram o cadaver da esposa. A convivencia do filho deu-lhe alma, e esperança de peito onde inclinar a cabeça na velhice. Não obstante, a saudade levou-o ás portas da morte.Aquella ida do velho a Coimbra foi desgraça para Heitor. Francisco de Moraes, em risco de vida resistira a receber os sacramentos, porque o seu morrer, sem ritual de religião alguma, queria elle que fosse um como adormecer inclinado ao respaldo da cadeira. Estrondeou o escandalo nas abobadas dos conventos. Heitor, com o rosto coberto de lagrimas, quando sua alma estava a mendigar palavras de consolação, porque via alli o pae moribundo, tinha de explicar ás cataduras severas dos frades e visinhos a turvação de seu pae, e a, por isso, involuntaria privação de sacramentos. Redarguido nas satisfações que dava, replicou talvez com descomedimento, quando já seu pae se tinha passado a Villa Flôr. Da replica, provavelmente, foi lavrada acta no gabinete do procurador fiscal do santo officio. O certo foi que, vinte dias depois, Heitor Duarte da Paz, ao entrar nos geraes da universidade, foi acercado de tres familiares, que o conduziram ao carcere da inquisição.Bemdita a mão da Providencia, que já tinha fechadas as palpebras da mãe d'aquelle moço!Braz Luiz, comquanto desde o momento em que o seu protector foi preso ficasse privado de recursos para continuar como pensionario em S. Paulo, não foi despedido. Os frades paulistanos consideravam-no optimo estudante, e alma nova para se deixar fecundar em proveito da santa religião. Além de que o orphão, esquecido do nome de seus paes, senão engeitado d'elles, não tinha culpa minima do hebraismo de quem o protegia. N'este mesmo parecer assentaram os frades dominicanos: honra lhes seja. E, portanto, Braz Luiz conservou-se no collegio a expensas da casa, sem licença do reitor4, e por largo tempo ignorante do destino de seu bemfeitor, até que, no fim d'aquelle anno de 1704, os mestres lhe disseram que Heitor Dias da Paz se estava purificando de peccados gravissimos, para remedio dos quaes lhe acudira a vigilancia misericordiosa do santo tribunal da inquisição.Braz chorou muito, e caíu febril na cama. O chorar e o adoecer do moço mereceu compaixão dos mestres, que o consolaram com esperanças seguras de que o seu protector havia de sair limpo e absolto d'entre as mãos dos filhos de S. Domingos.Recobrou o estudante saude, a tempo que Heitor Dias da Paz era transferido á inquisição de Lisboa, por motivos mais ou menos extraordinarios, que não vingámos averiguar. O que a toda luz evidenciámos é que o hebreu esteve preso desde 10 de janeiro de 1704 até 12 de setembro de 1706.E como saiu elle do carcere? Absolto? Penitenciado? As feras das cavernas da santa casa esphacellaram-lhe as carnes? Deixaram-lhe ao menos o coração com algum sangue, aquelle coração de vinte e oito annos, para ainda se restaurar de encontro ao seio reparador d'uma esposa, que o anjo dos desamparados lhe houvesse entreluzido nas trevas da sua masmorra de seiscentos dias e seiscentas noites?IVRespostaAbrira-se em ondas de luz o céo da manhã d'aquelle dia 12 de setembro de 1706.Dobraram os sinos de S. Domingos. Apuzeram-se os folheiros cavallos das reaes cavallariças ás berlindas cosidas em oiro. As variegadas librés dos aulicos e ministros enfileiravam-se processionalmente depóz os coches do filho de D. João IV. Ia grande movimento e alvoroço nos mosteiros. Serpejavam innoveladas as multidões que desciam da cidade alta para o escampado do Rocio. O tanger dos sinos era de morte; mas o dia era de festa, festa da egreja triumphante, festa d'um auto da fé.D. Pedro II e seus filhos apearam no alpendre do templo de S. Domingos; e em meio de filas de fidalgos, de frades, de desembargadores, caminharam mesuradamente por entre as naves, até se assentarem na sua alterosa tribuna, a tudo sobranceira, salvo á tribuna dos inquisidores, que era a primaz n'aquelle espectaculo satanico da piedade.Para que tudo fosse egregio, até o prégador no auto da fé de 1706 era um dos mais doutos e famigerados interpretes dos evangelhos, sobre ser um dos mais abalisados escriptores de seu tempo. Nem mais nem menos que o reverendissimo padre mestre, geral da congregação de S. João Evangelista, chronista-mór de sua ordem, qualificador da inquisição, examinador das ordens militares, e, para em breve o dizer, sacerdote de tantas partes que, nem solicitado por D. Pedro II, aceitára o bispado de Macau. Já sabe o leitor curioso que se trata do padre Francisco de Santa Maria, author doCeu aberto na terra, daAguia do Empireo, daSaphyra veneziana e Jacintho portuguez, doAnno historico, de muitos volumes de sermões, todos esplendidos, todos laureados, todos christianissimos; mas nenhum tão esplendido, tão laureado, tão christão, como este que sua reverendissima vae hoje prégar no auto da fé, em presença de Suas Magestades e Altezas. Este episodio da festa explica as tumultuosas enchurradas do povo, que confluem da cidade alta á praça do Rocio: aquillo é gente que, a um tempo, fareja com delicias o fartum dos corpos que vão ser queimados, e aponta as orelhas pias para não deixar perder minima palavra da ungida oração de padre Francisco.A procissão dos condemnados é longa. São mais de cincoenta, homens e mulheres, os que vão padecer ou galés, ou desterro, ou prisão perpetua, ou garrote e fogueira, ou a fogueira em vida. D'estes ultimos ha cinco, tres homens e duas mulheres,relaxados em carne, como rezam as sentenças.Dois homens e as duas mulheres dão visos de já levarem obliterada a memoria da vida que deixam. Vãoamparados nos braços dos officiaes do santo officio agonisando a espaços ancias soluçantes que lhes ressumbram á fronte um suor glacial. Entre elles, porém, caminha firme, direito, altivo, com a sua tocha de cêra verde na mão, e a samarra e a carocha pintalgadas de demonios e fogueiras, um moço de vinte e oito annos, gentil de sua pessoa, sem embargo da lividez cadaverosa de dois annos de carcere. É Heitor Dias da Paz.O promotor da inquisição subiu á sua tribuna. Ao fim de quatro horas de leitura de cincoenta e tantas sentenças, indigitou o hebreu de Villa-Flôr. Dois esbirros com o alcaide do santo officio ladearam o moço, e conduziram-n'o a ajoelhar-se em frente da mesa sobposta á tribuna.E o promotor leu o seguinte:«Accordam os inquisidores, ordinario e deputados da santa inquisição5que, vistos estes autos, culpas, confissões e declarações de Heitor dias da Paz, christão novo, estudante de medicina, filho de Francisco Moraes Taveira, mercador, natural de Villa-Flôr, reu preso que presente está, porque se mostra que sendo christão baptisado, e como tal obrigado a ter e crer tudo o que tem, crê, e ensina a santa madre egreja de Roma, elle o fez pelo contrario vivendo apartado da nossa fé catholica, tendo crença na lei de Moisés, e fazendo em observancia da dita lei jejuns judaicos, estando nos dias d'elles sem comer nem beber, senão á noite depois de sair a estrella, ceando então coisas que não eram decarne, e deixando de comer a de porco, lebre, coelho, gordura e peixe sem escama, e guardando os sabbados de trabalho, vestindo n'elles camizas lavadas, e os melhores vestidos, começando a guarda d'elles da sexta feira á tarde.«Pelas quaes culpas, sendo o reu preso nos carceres do santo officio, e com caridade admoestado as quizesse confessar para descargo de sua consciencia e bom despacho da sua causa, disse que o que tinha que dizer e declarar (sem o ter por culpa, antes por bom e necessario á sua salvação) era crêr firmemente em Adonai, Deus de Abraham, Isac e Jacob, assim e da maneira que o manda a lei de Moisés.«E vendo-se na mesa do santo officio a cega e obstinada determinação do reu, lhe foi dito que considerasse bem a resolução que tomava em se não querer apartar da crença da lei que seguia, e como ia mal encaminhado em querer persistir na lei de Moisés, por que já n'ella não havia nem podia haver salvação, por ser acabada pela vinda de Christo, Jesus, senhor nosso e verdadeiro. E foi de novo admoestado tornasse sobre si; e, conhecendo seus erros, se apartasse d'elles, e se convertesse á fé catholica que tem, crê e ensina a santa madre egreja de Roma, cujo filho elle era e professára no baptismo, e confessasse inteiramente suas culpas, pois isso era o que lhe convinha para salvação de sua alma, e para se poder usar com elle da misericordia que a santa egreja costuma conceder aos bons e verdadeiros confitentes.«E por tornar a dizer e affirmar com animo endurecido e obstinado, não só n'aquella sessão, mas em outras muitas que com elle se tiveram, afim de sua reducção,que não se queria apartar da crença da lei de Moisés, que seguia, antes estava prompto para dar a vida por ella:«Veiu o promotor fiscal do santo officio com libello criminal e accusatorio contra elle, que lhe foi recebido; e se lhe disse que pois perseverava ainda na crença de seus erros com obstinação e contumacia, estivesse com seu procurador e lhe désse conta do estado de sua causa, e lhe pedisse o aconselhasse no que mais lhe convinha, e por elle respondesse ao libello da justiça, para que, guardados os termos de direito, se podesse continuar sua causa.«Estando com o dito procurador, contestou o libello pela materia de suas declarações, e não quiz usar de defesa, pelo que foi lançado da com que podia vir, e ratificadas as testemunhas da justiça, se lhe fez publicação de seus depoimentos, conforme ao estylo do santo officio, a que não veiu com contraditas, pelo que foi lançado d'ellas. E estando outra vez com seu procurador para lhe formar os interrogatorios que quizesse, para serem reperguntadas as testemunhas que tinha contra si não veiu com ellas, dizendo que era desnecessaria diligencia, pois elle estava declarado e affirmativo profitente da lei de Moisés; e, como a não negava, não havia para que impugnar os depoimentos das testemunhas. E n'este acto escreveu um papel que declarou ser o assento que tomava em sua causa, e começava pelas palavras seguintes:—Perditio tua, Israel, tantu modo in me auxilium tuum, inquit Dominus.«E logo continuava dizendo que elle reu não só não deixava a crença da lei de Moisés; mas se declarava crente e professor d'ella pelo theor dos termos dos autos,e queria ficar em juizo com a crença da lei de Moisés, na fórma seguinte, declarando: Que cria em um só Deus verdadeiro, e que este era o de Israel, o Deus dos patriarchas e prophetas, que fez o céo e a terra, e fez pacto com Abrahão, e deu lei a Moisés, e poz por primeiro preceito d'ella:Non habebis alios Deos preter me. E, como tal, tinha por damnada crença o christianismo, e por tal a excluia, abjurava e renunciava, e ainda qualquer signal e caracter d'ella. E assim elle reu, sem mais processo, queria ser julgado por apartado da fé e por passado á crença da lei de Moisés, mostrando que a differença que havia entre uma e outra coisa era adorarem os judeus sómente a Deus verdadeiro, e adorarem os catholicos o demonio; dizendo tambem e accrescentando ás ditas declarações algumas subtilezas e subterfugios cavilosos, com os quaes se colhia ser o reu verdadeiro judeu e professor da lei de Moisés.«E sendo o reu chamado á mesa do santo officio, e n'ella perguntado se o dito papel em que se continham as ditas declarações era por elle escripto e assignado, e, se o que n'elle se continha era o que elle reu entendia e cria, e por elle queria se estivesse em juizo: respondeu que sim, e por aquellas declarações queria ser julgado; e sendo, advertido que fizesse genuflexão, e reverencia á imagem de Jesus Christo crucificado, que se lhe mostrou, e o inquisidor que o processava repetidas vezes lhe apontou, nunca o reu quiz ajoelhar nem olhar para a sagrada imagem, mostrando grande rebeldia e dureza de animo; e sendo de outras vezes mandado jurar pelos Santos Evangelhos nunca o quiz fazer, nem assignou mais papel algum onde visse escriptas as palavrassanta inquisição.«E pelo reu foi dito que não queria mais procurador nem mais interrogatorios; por serem desnecessarias mais diligencias, visto que elle já de si dissera ainda mais do que as testemunhas contra si tinham deposto.«E continuando-se o processo da sua causa, se procurou em todo o discurso d'ella mostrar ao reu o caminho da sua salvação e engano dos seus erros, persuadindo-o á obrigação que tinha pelo baptismo a ter e crer na fé catholica, captivando o entendimento em obsequio da mesma fé, e dar credito nas materias de consciencia e religião ás pessoas que lhe foram dadas para o encaminharem; porque ainda que elle reu tinha algumas letras, não havia professado as divinas, e como tal não podia explicar as escripturas sagradas, nem entendel-as como entendiam os religiosos letrados com quem havia estado, fiando elle mais do seu proprio entendimento que dos outros, sendo elle n'esta materia ignorante e os ditos religiosos letrados, de quem se havia de haver por convencido, pois não tinha fundamento algum para permanecer na crença da lei de Moisés, que seguia, e por tornar a dizer que se reportava ás protestações de sua crença contheudas nos papeis que havia escripto.6«E lhe foi dito que ainda estava em tempo de melhorar sua causa, se sem embargo da obstinação de que até alli tinha usado, desistisse d'ella, e, arrependido de seus erros, os confessasse com taes mostras e signaes de arrependimento que se podesse entender que elle reu,de puro e verdadeiro coração, se reduzia á nossa santa fé catholica, de que tão cega e obstinadamente vivia apartado, para se poder usar com elle da misericordia que a santa madre egreja costuma conceder aos bons e verdadeiros confitentes; que de contrario se seguia infallivelmente o risco de ver sua pessoa no mais perigoso e miseravel estado que se podia imaginar, e o que mais era para sentir, a certeza de condemnar sua alma ás irremissiveis e eternas penas do inferno.«E pelo reu foi dito que das sessões, que lhe foram feitas na inquisição e dos conselhos que lhe deram as pessoas que por ordem da mesma inquisição haviam estado com elle reu, afim de o reduzirem á crença dos christãos, tinha entendido o perigoso estado de sua causa, e o risco a que estava exposta sua vida; porém que, sem embargo da perda d'esta, não podia largar a crença que seguia, emquanto lhe não propunham razões mais concludentes para se persuadir e apartar-se da lei de Moisés.«E visto como o reu se não quiz haver por convencido de seus erros, havendo-se dado solução verdadeira ás duvidas que propunha, sendo por tão repetidas vezes admoestado na mesa do santo officio com summa caridade, paciencia e brandura; e, sendo visto seu processo na mesa do santo officio, se assentou que o reu pela prova da justiça e sua mesma confissão e declaração estava convencido no crime de heresia e apostasia, e como herege apostata de nossa santa fé catholica convicto, confesso affirmativo e profitente da lei de Moisés, pertinaz e impenitente foi julgado e pronunciado, e finalmente citado para ouvir sua sentença, pela qualestava relaxado á justiça secular. O que tudo visto e bem examinado:«Christi Jesu nomine invocato.Julgam, pronunciam e declaram o reu Heitor Dias da Paz por convicto, confesso variante, e affirmativo profitente da lei de Moisés, pertinaz e impenitente, e que incorreu em sentença de excommunhão maior, em confiscação dos seus bens para o fisco e camara real, e nas mais penas em direito contra similhantes estabelecidas, e como herege apostata de nossa santa fé catholica, convicto, confesso affirmativo, publico profitente da lei de Moisés, pertinaz e impenitente o condemnam e relaxam á justiça secular, a quem pedem com muita instancia se haja com elle benigna e piedosamente, e não proceda a pena de morte e effusão de sangue.»Heitor Dias da Paz, lida aquella ultima clausula da sentença, fitou penetrantemente o semblante do promotor e riu-se. Os esbirros mandaram-no levantar-se, e beijar um dos doze missaes que decoravam a ampla mesa sotoposta ao estandarte de S. Domingos. O hebreu levantou a fronte com arrogante desprezo, e disse em voz que se fez ouvir na tribuna real:—Não quero!Fez-se um borborinho de piedosa ira na egreja. Esta agitação foi de subito applacada pelo apparecimento de fr. Francisco de Santa Maria no pulpito.Reinava já sagrado silencio, quando o geral dos loyos, e venerado author doAnno historico, trovejou estas palavras do texto:De malo ad malum eggressi sant, et me non cognoverunt, dicit Dominus7.VA piedosa eloquencia do fradeO leitor, que veio tarde a este mundo para poder gosar o espectaculo de um auto da fé, póde ser que não faça cabal juizo da peça chamada o discurso da festa, e entenda que vem aqui opportuno o ensejo de se lhe dar alguma noticia do sermão de 1706, por ser elle do ascetico e sapientissimo auctor daAguia do Empyreo. Póde ser que ainda a muitos curiosos d'estas christãs leituras o sermão de fr. Francisco de Santa Maria seja desconhecido, por que é já rarissimo. A meu vêr, a maior parte da edição arrebataram-n'a da terra os anjos, como coisa do céo! Dos exemplares que escaparam tenho eu um, que é a minha vaidade de bibliomano e a minha edificação de devoto.O prégador, no exordio, propõe-se demonstrar tres pontos: primeiro, que o Messias veio; segundo, que o Messias é homem e juntamente Deus; terceiro, que o Messias, homem e Deus, é Jesus de Nazareth, crucificadopor aquelles, ou pelos antepassados dos judeus que estão presentes. Depois do que, implora a intercessão da sacratissima Virgem, e começa.Eis-aqui um lanço que nos move a favor do geral da congregação dos Evangelistas:«Comvosco fallo, ó infelizes filhos de Israel, e tomo para testemunha a Deus todo poderoso, que não é o meu intento insultar-vos, ou affrontar-vos em coisa alguma, nem tenho ou levo outro fim n'esta acção, mais que a maior gloria de Deus, a defensa da verdade, o triumpho da fé, o remedio da vossa cegueira, a salvação da vossa alma; e, se acaso com a força do dizer, proferir alguma palavra que vos offenda, desde aqui vos peço perdão d'ella pelas entranhas da misericordia do verdadeiro e altissimo Deus.»Heitor Dias da Paz levantou de sobre as pinturas diabolicas do san-benito os olhos serenos ao rosto do padre Francisco de Santa Maria. Esteve-se quêdo alguns segundos n'aquella contemplação, e sorriu-se, a tempo que o orador, compungido em fervores de caridade, balbuciava aquellas expressões, que o leitor pio leu commovido.Varias pessoas honestas, que viram o sorriso do hebreu, disseram umas ás outras:—Veremos á tardinha se o marrano se ri na fogueira...O orador, no emtanto, ia proseguindo na demonstração dos seus tres pontos, que foi completissima, sem deixar brecha á mais especiosa contestação.Heitor, a cada conclusão triumphante do padre, sorria; e, por pouco não desfechava uma casquinada provavelmente sandia, quando o orador, repulsando a pechade idolatras com que os hebreus malsinam os catholicos, argumentou d'esta sorte: «E como é possivel que, sendo nós idolatras ha tantos seculos, e sendo vós ha tantos seculos cultores do verdadeiro Deus; sobre vós ha tantos seculos que chovam os castigos, e sobre nós os favores? Sobre vós os castigos! Bem o vêdes, pois vos vêdes ha tantos seculos sem patria, sem honra, sem rei, sem patriarchas, sem prophetas, sem capitães, sem juizes, sem sacerdotes, sem templo, sem altar, sem sacrificio, sem liberdade. Nós os christãos tudo isto temos. Pois que? favorece Deus tanto aos idolatras, e castiga tão rigorosamente aos fieis?»O impulso de riso do judeu, a meu vêr, procedeu da respeitavel ignorancia do padre quanto ás regalias de que os sectarios de Mafoma se estavam saboreando em porção do mundo sublunar muito mais larga e comprida que a porção alumiada pelo christianismo. Quereria, talvez, o israelita, sem embargo de se lhe estarem alcatroando as achas da fogueira, perguntar ao loyo se os mahometanos, apezar da bruteza e crassa estupidez de sua fé, eram menos felizes terrealmente fallando que os nazarenos. Ora, como o goso de questionar lhe seria amordaçado, se elle abrisse a bocca indignada, o judeu desafogou-se n'aquelle rir parvamente heretico. O caso, porém, não fez levemente titubar o impassivel prégador.Ia discorrendo o padre Francisco pelas provas dos milagres; e veio ao ponto de asseverar que Deus não obrara milagre algum em confirmação da lei de Moysés. D'isto a prova mais insinuante que o douto prégador desfechou dos labios inspirados está no seguinte argumento:«Todos, ou quasi todos os annos vão muitos de vósao patibulo, e sendo diante dos nossos olhos pasto á voracidade do fogo, nunca se viu em algum de vós algum prodigio. Que é isto? Assim deixa Deus a verdade escurecida e humilhada?... Agora já o fogo vos não tem respeito? Já a chamma lavra em vós como em madeira secca?»Heitor Dias não sorriu então: caiu-lhe mortalmente angustiado o rosto para sobre o peito. As palavras do sacerdote de Christo levaram-lhe ás carnes o calefrio horrendo das dôres que o aguardavam para o fim d'aquelle dia: como que sentiu as linguas de fogo a tocarem-lhe o peito, e a suffocação da fumarada da fogueira.Demonstrados os tres pontos da oração com quanta lucidez se esperava de tão conspicuo sujeito, o author doCéo aberto na terraapostrophou primeiro os confessos, depois os relapsos, e por derradeiro o unico profitente que era Heitor.Aos confessos dava os emboras, e pedia-lhes pelas entranhas de Nosso Senhor que perseverassem.Aos relapsos disse: «É verdade que já não podeis livrar a vida temporal; mas é certo que podeis assegurar a eterna... Morrer é natural: morrer affrontosa e violentamente é desgraça; mas sobre tudo isto, salvar a alma, é a maior ventura. Oh, que felizes sois, digo outra vez, se sabeis emendar com os acertos da morte os desconcertos da vida, e se vos dispondes com verdadeira fé e verdadeira contrição para a ultima hora!»Que bom homem aquelle! O garrote e a fogueira eram indispensaveis á caridade e misericordia do Senhor; mas que montava isso?Morrer é natureza; morrer em colchão flacido ou em cama de brazas vivas éuma e a mesma coisa: é natureza; mas o importante alli para o caso já não era o ir-se um homem de este mundo ao outro por effeito d'um feroz homicidio: a questão era segurar a vida eternal, e essa estava arranjada, logo que os relapsos, á ultima hora, se entendessem com Deus uno e trino.Em seguida, padre Francisco de Santa Maria poz os olhos sobre o confitente Heitor Dias da Paz, e exclamou, tanto ou quanto commovido:«E vós, que n'este tremendo cadafalso sois o réo do maior delicto, olhae que em vós n'esse infeliz estado se verifica com propriedade lastimosa o que dizem as palavras do meu thema:De malo ad malum egressi sunt. Saireis de seres condemnado no juizo dos homens, e entrareis a ser condemnado no juizo de Deus. Saireis da morte temporal e entrareis na eterna. Saireis de um fogo que brevemente acaba, e entrareis em outro fogo, que para sempre dura. Oh filho da minha alma, é possivel que assim vos deixeis guiar só da vossa imaginação, e vos ateis tão fortemente á vossa teima em um negocio da tanta importancia? Tão pouco vae em salvar ou condemnar para sempre? Quero crer de vós que em qualquer negocio d'esta vida não havieis de obrar sem conselho, sem reflexão, sem madureza; e em um negocio, em que vae a vida eterna, assim vos resolveis, assim vos precipitaes? Nos pontos da medicina (que estudaveis) é sem duvida que havieis de estar pelo que vos diziam vossos mestres. Pois, se nos pontos de medicina, vos guiaveis pelo que vos diziam os doutores medicos, nos pontos da fé porque vos não guiaes pelos doutores theologos, que tantas vezes e com tanto zelo e espirito se empenharam em vos reduzir ao caminho da verdade?«Dizei-me de que mestres aprendestes essa lei que seguis já tão antiquada e esquecida no mundo? Sem duvida de dois homens ignorantes, que talvez nunca abriram a escriptura, e talvez não saibam a lingua latina, e muito menos a hebrea. Não o tomeis por injuria—ajuntou o orador, certamente improvisando, como visse um gesto de repugnancia desdenhosa e despeitosa no aspecto do confitente—não o tomeis por injuria...; porque, fundado nas vossas mesmas escripturas, affirmo que na vossa nação falta ha muitos seculos, por justo castigo de Deus, o dom da sabedoria, e dominam as trevas da ignorancia.»8Estende-se diffusamente o padre, cathequisando o judeu, com a mira posta em resgatar-lhe a alma, que o corpo esse já não ha eloquencia nem perdão divino ou humano que possa salval-o do fogo. Finalmente, remata a apostrophe n'estas branduras:«Ora filho do meu coração,convertere, convertere ad Dominum Deum tuum.Convertei-vos para o vosso Deus, convertei-vos para o vosso Senhor, que, abertos os braços, e com o coração aberto, vos espera para vos metter n'elle como amigo, se do coração vos converteis a elle. Dae este gosto ao céo, dae este gosto á terra, dae este gosto aos coros angelicos e dae este gosto aos espiritos bem aventurados, dae este gosto a todo este numerosissimo e luzidissimo auditorio, que todo deseja com muitas veras a vossavida e a vossa salvação. Na vossa mão tendes a vida e a morte, a salvação e a condemnação: vêde o que escolheis. E, se todavia persistis na vossa teima, e na vossa contumacia, da parte de Deus vos digo, que dentro em breve tempo apparecereis diante do mesmo Deus em juizo, do qual, sem desculpa do vosso erro, saireis condemnado para o fogo eterno.»E com pouco mais terminou o monumental discurso, de que ficou muitissimo agradado o senhor rei D. Pedro II, e seus filhos; e bem assim o eminentissimo senhor cardeal D. Miguel Angelo Conti, arcebispo de Garzo, e nuncio apostolico n'estes reinos, ao qual o padre Francisco dedicou o seu sermão impresso.D. Pedro II não mais saboreou outro sermão identico; porque, tres mezes e sete dias depois d'aquella explendida ovação da santa egreja, morreu.O padre Francisco de Santa Maria, comquanto só passados sete annos fosse coroar-se ao capitolio dos anjos, como piamente crêmos que foi, tambem não voltou a regalar o publico nos autos da fé.Cheguemo-nos ao assumpto. Os relaxados á justiça secular foram conduzidos a uma das salas da santa casa, em que estava junta a relação para os sentenciar.A sentença de Heitor Dias da Paz, e dos outros já estava lavrada, embora fingissem lavral-a depois de um banal interrogatorio. Com ella na mão, perguntou o presidente ao judeu, ajoelhado:9—Sois o relaxado Heitor Dias da Paz?—Sou.—D'onde sois?—De Villa Flor.—Credes—tornou o presidente—na Santissima Trindade, Padre, Filho, Espirito Santo, tres pessoas e um só Deus verdadeiro?—Não creio.E levantou-se sem que o presidente lh'o ordenasse.O escrivão, que estivera autoando a sentença, ergueu-se e disse ao condemnado:—Ajoelhe para ouvir ler a sentença.—Ouvil-a-hei em pé—respondeu Heitor.—Leia—disse o presidente ao escrivão.O escrivão leu o seguinte:«Acordam em relação, etc. Vista a sentença junta dos inquisidores, ordinario, e deputados da inquisição, e como por ella se mostra o réo preso, Heitor Dias da Paz ser hereje apostata da nossa santa fé catholica convencido no crime de judaismo, e por tal relaxado á justiça secular, e sendo perguntado n'este senado persistir no seu erro, e declarar que não cria em nossa santa fé catholica, senão na lei de Moisés; o que assim visto, e disposição de direito em tal caso, condemnam ao reu que com baraço e pregão pelas ruas publicas e costumadas seja levado á ribeira d'esta cidade, e ahi seja levantado em um poste alto, e queimado vivo, e feito por fogo em pó, de maneira que nunca de seu corpo e sepultura possa haver memoria; e o condemnam outrosim em perdimento dos seus bens para o fisco e camara real, posto que ascendentes ou descendentes tenha, os quaes declaram por incapazes, inhabeis,e infames na fórma de direito e ordenação. E pague as custas d'estes autos. Lisboa, 12 de setembro de 1706.»A procissão dos condemnados saiu do pateo da santa casa, caminho da Ribeira. As duas judias relaxadas em carne, dizia-se que já iam mortas. Os dois hebreus, que tinham assistido ás leituras de suas sentenças em anciados gritos, iam desacordados nos braços dos quadrilheiros do santo officio. Heitor caminhava sem amparo, placidamente, olhando a um lado e ao outro as damas que exornavam as janellas do transito.Ao embocar o prestito á rua da Padaria, um ancião mal coberto de andrajos, com tregeitos de louco enfurecido, rompeu a mó compacta do povo, e os soldados que ladeavam os condemnados.Heitor Dias reparou n'aquelle velho que os arcabuzeiros afastavam a repellões. Fitou-o com horrivel estremecimento; ia a proferir uma palavra, e suffocou-a. Debalde. O grito do coração já tinha ecoado no seio do ancião, que exclamou:—Adeus, meu filho! Adeus, meu filho, eu vou antes de ti avisar tua mãe que por instantes estarás comnosco no seio de Abrahão!E, ao proferir a ultima palavra, sorveu de um vidro um trago de peçonha, ao qual se seguiram medonhas convulsões.—Abençoada seja a sua coragem, meu pae!—exclamou Heitor—Até logo, até á eternidade!As agonias do velho terminaram dentro em quinze minutos. As do filho principiavam pouco depois, e não foram mais longas. Antes de sentir o queimar das lavaredas nas entranhas, expirára afogado no fumo.E o sol d'aquelle dia era ainda formoso ao intardecer. As auras do mar bafejavam tepidas. El-rei passeava nas barandas do paço da Ribeira, aspirando o aroma dos laranjaes; e os frades de S. Domingos resavam vesperas.VIBraz LuizN'este tempo, Braz Luiz, o collegial de S. Paulo, ia nos quatorze annos.A noticia da desastrosa morte dos seus bemfeitores, revelada pelos condiscipulos, pungiu-o, tirou-lhe d'alma sinceras lagrimas; porém, n'aquellas edades a sensibilidade é para pouco; as saudades das pessoas queridas que morreram não se prendem á previsão angustiosa das desgraças porvindouras. O filho de Antonio de Sá Mourão estava de todo esquecido do doutor Abreu, e não longe de esquecer-se de Heitor Dias da Paz.Os mestres do collegio, cuja dilecção pelo engenho do moço se manifestava no affago com que o divertiam de pensar no hebreu queimado e no outro que se dera a si desesperada morte, receosos de que o santo officio fosse ainda contender com o estudante por suppor que elle fosse irmão de Heitor, zelosamente informaram osinquisidores dos piedosos sentimentos de Braz Luiz, e da docilidade e devoção com que elle se entregava aos exercicios espirituaes. O santo officio, inteirado d'isto, deixou em paz e por conta da religiosidade dos paulistas o menino.Como elle se alimentava e educava a expensas do collegio, o parecer dos mestres era encaminhal-o para frade paulistano. Este intento, quando o moço tinha quinze annos, foi contraditado pela companhia de Jesus, que enviára delegados a recensear nas universidades e collegios de Evora e Coimbra estudantes esperançosos, garfos de boa seiva, que se fossem enxertando nos troncos envelhecidos, para que alguma hora não soffresse quebra o predominio intellectual dos filhos de Santo Ignacio.Os paulistanos offenderam-se do sequestro que os jesuitas arbitrariamente fizeram nos seus mais grados alumnos; e, por vindicta, entraram a despersuadir o moço de aceitar a roupeta. Facilmente o moveram á repugnancia da vida sacerdotal, e assim se privaram tambem de o conquistarem para si. A companhia de Jesus cathequisava, mas não violentava. Tamsómente as vocações liberrimas e muito espontaneas lhe serviam. Logo pois que Braz Luiz manifestou indisposição para a vida sacerdotal, abriram mão d'elle os jesuitas, offerecendo-lhe, se necessarios fossem, recursos com que podesse seguir a carreira para onde pendessem os seus talentos. Quer generosidade, quer astucia com que os padres ardilosamente grangeavam a estima quasi universal, o certo é que Braz Luiz teria a protecção d'elles, se não tivesse a dos paulistas.Deram-lhe a opção de modo de vida. Braz escolheu a medicina.Aos quinze annos matriculou-se no primeiro do curso depois de ter estudado artes, e logo deu de si tão lisongeira conta, que se estremou entre os condiscipulos, ganhando as distincções das escolas, a estima dos mestres, e especialmente de D. Manuel dos Reis e Sousa, a quem o discipulo dos seus futuros escriptos se mostrará agradecido.Ao correr do terceiro anno, a indole do academico passou por inesperada revolução. Sem faltar ás obrigações escolares, deu-se á tunantaria dos estudantes malcomportados. Fez-se arruador nocturno, bulhento, femieiro e pimpão. Os paulistas ameaçaram-no de o deixarem entregue aos seus desatinos. Braz Luiz respondia ás ameaças dando optimas lições nas aulas, e ganhando os louvores dos lentes, sem desistir de tomar o primeiro posto nas algazarras e assuadas nocturnas.Em uma d'essas escaramuças á cidade baixa, travou-se uma refesta ensanguentada entre a gente miuda de Coimbra e os estudantes. Braz, depois de muitas proezas, caíu ferido de uma choupada, que lhe vasou o olho direito. Alguns condiscipulos levaram-no em braços para sua casa, e lhe assistiram affectuosamente á cura. Salvaram-no da morte: mas não poderam salvar-lhe o olho.Depois de dois mezes de cama, o estudante recebeu a má nova de ter perdido o amparo dos frades. Accudiram logo os condiscipulos fintando-se para supprirem a esmola do collegio, Braz proseguiu na formatura, e não mais foi visto nas sortidas bellicosas, como quem já não tinha mais que um olho para sacrificar. Os paulistanos,contentes da reforma do seu protegido, voltaram a soccorrel-o; porém, o pundonoroso academico, reunindo os seus condiscipulos favorecedores, expoz a reluctancia com que aceitaria a esmola dos frades, e a satisfação com que continuaria a recebel-a de estudantes. Applaudiram-lhe o brio, e animaram-no a regeitar o pão vilipendioso dos paulistas.Em 1714, tomou Braz Luiz d'Abreu gráo de licenciado em medicina. A razão que elle teve para assignar-seAbreufunda n'uma casualidade de que resultou enganar-se Barbosa na suaBibliotheca Lusitana, dando Braz Luiz como filho de Francisco Luiz d'Abreu e Francisca Rodrigues d'Oliveira. Foi o caso, que folheando elle o abcedario por onde começára a soletrar, muito na primeira puericia, em companhia do seu primeiro protector, encontrou o seu nome assim posto no alto da primeira pagina do alphabeto:Braz Luiz de Abreu. Assim o escrevêra a esposa do doutor, n'uma d'aquellas horas de ternura, em que ella encarava no menino como em filho propriamente seu.Ahi está onde ao medico se deparou um apellido, que elle não sabia d'onde lhe havia de vir, por mais que discorresse sobre o modo de rastrear seu nascimento. N'este investigavel mysterio o que a si mais provavel se figurava era que seu pae devia de ser um homem apellidadoAbreu; mas como esquadrinhar-lhe a naturalidade, as aventuras da vida ou da morte? Em Coimbra não havia para que indagal-o; porque elle não tinha sequer vaga lembrança de ter estado em Coimbra nos primeiros annos. Todas as suas lembranças esboçavam-se dos sete annos para áquem. Terra que não fosse Coimbra só escassamente se recordava de Villa Flor; eimagens de pessoas, duas sómente lhe viviam meio delidas na lembrança: eram Francisco de Moraes e Heitor Dias da Paz.Um condiscipulo de Mirandella encarregou-se de averiguar-lhe algumas noticias de seu nascimento em Villa Flor. As tradições encontradas alli eram que uma creança apparecêra em casa do hebreu Moraes, ao tempo que seu filho voltou da Hollanda. Parentes ainda vivos d'aquelles israelitas não sabiam dizer nada a tal respeito. O que o condiscipulo informador accrescentou foi que dos muitos haveres do hebreu suicidado não havia palmo de terra que a inquisição não confiscasse.Habilitado para exercitar a medicina, comquanto lhe sobrassem creditos de grande estudante, faltavam-lhe doentes. Á mingua de recursos, pensou em estabelecer-se n'alguma terra desprovida de medicos. Um seu contemporaneo da faculdade juridica convidou-o para Vizeu, onde o encontrámos curando com muita voga e felicidade em 1715 até 171810.No fim d'este anno, como a sua fama o atraia e a cobiça o impulsava para terras de mais gloria e lucros, passou a residir em Lisboa. Aqui e n'este mesmo anno começou elle a olhar tristemente para a deformidade que lhe deixára no rosto a choupada, e achou-se não só feio, se não repugnante a olhos de damas, que se engulhavam de lhe verem a orbita direita vasia e coberta pela palpebra amortecida.Cogitou o medico em arranjar um olho artificial, comque encher a orbita nauseenta e dar contractibilidade apparente á palpebra. Investigou a sciencia e encontrou que os gregos e egypcios fabricavam olhos artificiaes, formando-os de uma casquinha metalica, pintada ou esmaltada, similhante a uma metade de ovo pequeno, dividido longitudinalmente. Este primitivo e pouco engenhoso olho não agradava ao nosso joven medico. Indagou no estrangeiro, e de Hollanda o informaram que estava em Amsterdam um hebreu inventor d'olhos artificiaes de esmalte, com a qual materia substituira vantajosamente os metalicos. Entendeu-se Braz Luiz de Abreu com o inventor hollandez, e ajustou na orbita um olho, menos mal imitado, mediante o qual a palpebra voltou á sua elasticidade.Este olho de esmalte era immovel: bastava encarar na cara do medico para logo se conhecer que a orbita direita estava envidraçada. D'ahi seguiu-se chamarem-lhe odoutor Olho de Vidro, alcunha que lhe ficou até á morte, e longos annos depois serviu de celebrar-lhe a memoria, a magnitude dos talentos medicos e os seus não menores infortunios.Como quer que fosse, a physionomia do doutor Braz Luiz, não obstante a pouca illusão que embahia o falso olho, melhorou bastantemente.O restante do carão, como diziam os coevos d'elle, era senão gentil, mui symetricamente ageitado. Vestia com apontado primor, e cuidava com esmero das melenas negras e lustrosas, que não polvilhava. A razão d'este proceder, tão inverso dos costumes do seu tempo, é elle quem propriamente a escreve d'este modo: «... Emquanto aos polvilhos, tão longe estão de parecerem ornato na cabeça do medico, que antes são presagioslethaes da vida do doente. Porque se a egreja com pós na cabeça nos adverte da morte que vem, como o medico com pós no cabello nos ha de recuperar a vida que se vae? Eu, quanto a mim, antes creio que, os pós são significativos da morte, emquanto a egreja nol-o diz, do que hierogliphicos de saude respeitando ao medico que os traz. Os verdadeiros ministros d'Apollo só usam de polvilhos cephalicos na região animal; de polvilhos cordeaes na região vital; e de polvilhos estomachicos na região natural. Isto é uso modesto; o mais, estava para dizer que era abuso ridiculo.»11Não curemos de ponderar a justiça das razões que o doutor allega contra os polvilhos. Imaginando que os collegas de Braz Luiz se riram muito d'ellas, faço justiça aos contemporaneos do auctor doPortugal medico.Tambem desadorava os perfumes o nosso doutor, n'aquelle tempo em que o peralta de bom cunho recendia como caçoula de camarim de odalisca. Outra razão efficientissima do seu enojo de perfumes: «Sou de parecer que (o medico) evite os cheiros, e que se negue a todo genero de perfumes, porque ainda que Hyppocrates no seu tempo permittia os que não eram suspeitos aos achaques, comtudo n'este seculo mais escrupuloso por mais prevertido, nenhum genero de perfumes cheira bem... Deixemos esses esmeros para os que vivem á moda, e não excedamos a moda, que nem porque um medico cheira bem, cura melhor.»12Em adornos capillares aceitava o doutor meramente os naturaes: usava simplesmente a sua opulenta grenha,nua de artificios e emprestimos; porque dizia elle: «Seja tambem modesto o medico nos adornos da cabeça, tão introduzidos n'este miseravel seculo, que não ha já encontrar solicitador sem cabelleira nem belleguim sem perruca.» E acrescentava: «Quantos desprezam e cortam hoje o honesto cabello de christãos e collocam sobre a cabeça as melenas de um herege!»13O vivo desejo que Braz Luiz de Abreu alimentava de reformar as demasias luxuosas e derisorias dos medicos, tornou-se em justa indignação, e a indignação porventura fel-o poeta como ao satyrico latino. Um dos mais intelligiveis sonetos que elle escreveu em tom apostolico salvou-se do olvidio, graças ao acertado cabimento que lhe elle deu n'um seu livro de medicina. Resa d'esta sorte:

Por espaço de quatro annos se gosou Heitor Dias das doces reminiscencias de infancia, sem querer saber de estudos nem do destino. Os paes não o incitavam a empregar seu tempo em letras que lhe abrissem carreira de gloria. Fechada sabiam elles que ella estava aos hebreus, salvo a das sciencias; folgariam de o ver luzir entre os famigerados Zacutos; mas muito mais se compraziam de o ter entre si a recado de toda a suspeita de inimigos e do perigo de se relacionar com imprudentes amigos.

Decorridos, porém, quatro annos, em 1703, Heitor Dias da Paz pediu ao pae que o deixasse ir estudar medicina a Coimbra, porque lhe era já pesada a ociosidade e desvalia de sua vida. Francisco de Moraes, confiado na discrição do moço, concedeu-lhe licença. Heitor pediu que o deixasse levar com elle o seu irmãosinho Braz Luiz, para, desde os dez annos, o ir encaminhando nos estudos conducentes á carreira da medicina. A generosalembrança foi applaudida pelos velhos, e o pequeno agradeceu-a com lagrimas de alegria.

Do pupilo ou, segundo as presumpções do vulgo de Coimbra, filho do doutor Abreu, já ninguem se lembrava quando, corridos cinco annos, lá voltou. Heitor a ninguem disse de quem fosse aquelle menino. Apresentava-o como orphão pobrinho, cuja educação elle tomára a seu cargo. O pequeno já tambem mal se recordava dos seus bemfeitores, e quando fallava de algum d'elles, chamando-lhes pae ou mãe, o filho de Francisco de Moraes recommendava-lhe que a pessoas estranhas não dissesse nada do pouco de que ainda se lembrava.

Heitor entrou no primeiro anno da faculdade em artes, depois de ter sido examinado em humanidades. N'este exame, em coisas de grammatica, sciencia que então reunia muitas especies hoje distinctas, o hebreu de Villa Flôr, mais descuidada que intencionalmente, defendeu proposições que destoaram asperrimamente nas orelhas orthodoxas dos examinadores. Sem embargo, deram-n'o como apto, reservando mentalmente o espiarem-lhe os actos com a vigilancia propria de quem quer salvar uma alma em risco de perder-se.

Braz Luiz entrou no collegio de S. Paulo a estudar latinidade com precoce e admiravel entendimento. Causou certo assombro nos frades que liam no collegio a ignorancia do moço em doutrina christã, interrogaram-n'o minudenciosamente sobre o viver da familia que o educara. Braz respondia que os seus bemfeitores resavam, e elle tambem resava por um livrinho de orações. Apresentaram-lhe diversos livros de piedade para que d'entre elles escolhesse o da sua resa. O pequeno sentiu um bate no coração, comprehendeu instantaneamente operigoso d'aquelle interrogatorio, e saíu-se bem do aperto, indicando o cathecismo de fr. Bartholomeu dos Martyres. Poucos dias volvidos, Braz Luiz papagueava toda a doutrina, dando a entender que apenas lhe fôra necessario recordar o que sabia desde a primeira infancia. Esta esperteza não enganou os mestres. Os primeiros fios da teia entraram logo em urdidura; e já as inquietas consciencias dos frades não levavam as noites d'um somno.

No entanto, Heitor levou a cabo, com muita applicação e extremado engenho o seu primeiro anno. Foi a ferias, levou comsigo Braz Luiz, e contou ao pae a inquirição porque passára o menino sobre o cathecismo christão. Francisco de Moraes agourou mal d'este exame, e pediu ao filho que, em vez de voltar a Coimbra, se passasse a Hollanda. Heitor Dias engenhou razões para combater os sustos do pae, e voltou ao segundo anno de medicina, levando Braz ao segundo anno de latim.

Os de S. Paulo repetiram o inquerito com ardilosos rodeios. Braz, já cabalmente instruido, cortava-lhes as voltas com respostas por demasia atiladas; de modo que deu força ás suspeitas, mostrando estar apercebido para destruil-as.

A este tempo sobejamente sabia o conselho da inquisição que os christãos novos de Villa Flôr, se não eram sinceros judeus, tambem não eram sinceros catholicos. Qualquer das coisas, no entender dos theologos, era egual á outra como affrontamento á verdadeira religião.

Heitor Dias da Paz andava espreitado. Seus condiscipulos propriamente o provocavam a questões theologicas, das quaes elle se desembaraçava, dando-se comoignorante de subtilezas e aceitando os dogmas sem discussão. O conceito dos espiões de sua consciencia não melhorava por isso; quando muito, concediam-lhe a boa qualidade de judeu discreto.

Assim correu o segundo anno da sua formatura, sem acontecimento que o precatasse contra alguma violencia.

Voltou Heitor ao terceiro anno, com o coração retalhado de saudades de sua mãe que ficava morta. Levou comsigo para Coimbra o pae que se queria deixar morrer na alcova d'onde lhe levaram o cadaver da esposa. A convivencia do filho deu-lhe alma, e esperança de peito onde inclinar a cabeça na velhice. Não obstante, a saudade levou-o ás portas da morte.

Aquella ida do velho a Coimbra foi desgraça para Heitor. Francisco de Moraes, em risco de vida resistira a receber os sacramentos, porque o seu morrer, sem ritual de religião alguma, queria elle que fosse um como adormecer inclinado ao respaldo da cadeira. Estrondeou o escandalo nas abobadas dos conventos. Heitor, com o rosto coberto de lagrimas, quando sua alma estava a mendigar palavras de consolação, porque via alli o pae moribundo, tinha de explicar ás cataduras severas dos frades e visinhos a turvação de seu pae, e a, por isso, involuntaria privação de sacramentos. Redarguido nas satisfações que dava, replicou talvez com descomedimento, quando já seu pae se tinha passado a Villa Flôr. Da replica, provavelmente, foi lavrada acta no gabinete do procurador fiscal do santo officio. O certo foi que, vinte dias depois, Heitor Duarte da Paz, ao entrar nos geraes da universidade, foi acercado de tres familiares, que o conduziram ao carcere da inquisição.

Bemdita a mão da Providencia, que já tinha fechadas as palpebras da mãe d'aquelle moço!

Braz Luiz, comquanto desde o momento em que o seu protector foi preso ficasse privado de recursos para continuar como pensionario em S. Paulo, não foi despedido. Os frades paulistanos consideravam-no optimo estudante, e alma nova para se deixar fecundar em proveito da santa religião. Além de que o orphão, esquecido do nome de seus paes, senão engeitado d'elles, não tinha culpa minima do hebraismo de quem o protegia. N'este mesmo parecer assentaram os frades dominicanos: honra lhes seja. E, portanto, Braz Luiz conservou-se no collegio a expensas da casa, sem licença do reitor4, e por largo tempo ignorante do destino de seu bemfeitor, até que, no fim d'aquelle anno de 1704, os mestres lhe disseram que Heitor Dias da Paz se estava purificando de peccados gravissimos, para remedio dos quaes lhe acudira a vigilancia misericordiosa do santo tribunal da inquisição.

Braz chorou muito, e caíu febril na cama. O chorar e o adoecer do moço mereceu compaixão dos mestres, que o consolaram com esperanças seguras de que o seu protector havia de sair limpo e absolto d'entre as mãos dos filhos de S. Domingos.

Recobrou o estudante saude, a tempo que Heitor Dias da Paz era transferido á inquisição de Lisboa, por motivos mais ou menos extraordinarios, que não vingámos averiguar. O que a toda luz evidenciámos é que o hebreu esteve preso desde 10 de janeiro de 1704 até 12 de setembro de 1706.

E como saiu elle do carcere? Absolto? Penitenciado? As feras das cavernas da santa casa esphacellaram-lhe as carnes? Deixaram-lhe ao menos o coração com algum sangue, aquelle coração de vinte e oito annos, para ainda se restaurar de encontro ao seio reparador d'uma esposa, que o anjo dos desamparados lhe houvesse entreluzido nas trevas da sua masmorra de seiscentos dias e seiscentas noites?

Abrira-se em ondas de luz o céo da manhã d'aquelle dia 12 de setembro de 1706.

Dobraram os sinos de S. Domingos. Apuzeram-se os folheiros cavallos das reaes cavallariças ás berlindas cosidas em oiro. As variegadas librés dos aulicos e ministros enfileiravam-se processionalmente depóz os coches do filho de D. João IV. Ia grande movimento e alvoroço nos mosteiros. Serpejavam innoveladas as multidões que desciam da cidade alta para o escampado do Rocio. O tanger dos sinos era de morte; mas o dia era de festa, festa da egreja triumphante, festa d'um auto da fé.

D. Pedro II e seus filhos apearam no alpendre do templo de S. Domingos; e em meio de filas de fidalgos, de frades, de desembargadores, caminharam mesuradamente por entre as naves, até se assentarem na sua alterosa tribuna, a tudo sobranceira, salvo á tribuna dos inquisidores, que era a primaz n'aquelle espectaculo satanico da piedade.

Para que tudo fosse egregio, até o prégador no auto da fé de 1706 era um dos mais doutos e famigerados interpretes dos evangelhos, sobre ser um dos mais abalisados escriptores de seu tempo. Nem mais nem menos que o reverendissimo padre mestre, geral da congregação de S. João Evangelista, chronista-mór de sua ordem, qualificador da inquisição, examinador das ordens militares, e, para em breve o dizer, sacerdote de tantas partes que, nem solicitado por D. Pedro II, aceitára o bispado de Macau. Já sabe o leitor curioso que se trata do padre Francisco de Santa Maria, author doCeu aberto na terra, daAguia do Empireo, daSaphyra veneziana e Jacintho portuguez, doAnno historico, de muitos volumes de sermões, todos esplendidos, todos laureados, todos christianissimos; mas nenhum tão esplendido, tão laureado, tão christão, como este que sua reverendissima vae hoje prégar no auto da fé, em presença de Suas Magestades e Altezas. Este episodio da festa explica as tumultuosas enchurradas do povo, que confluem da cidade alta á praça do Rocio: aquillo é gente que, a um tempo, fareja com delicias o fartum dos corpos que vão ser queimados, e aponta as orelhas pias para não deixar perder minima palavra da ungida oração de padre Francisco.

A procissão dos condemnados é longa. São mais de cincoenta, homens e mulheres, os que vão padecer ou galés, ou desterro, ou prisão perpetua, ou garrote e fogueira, ou a fogueira em vida. D'estes ultimos ha cinco, tres homens e duas mulheres,relaxados em carne, como rezam as sentenças.

Dois homens e as duas mulheres dão visos de já levarem obliterada a memoria da vida que deixam. Vãoamparados nos braços dos officiaes do santo officio agonisando a espaços ancias soluçantes que lhes ressumbram á fronte um suor glacial. Entre elles, porém, caminha firme, direito, altivo, com a sua tocha de cêra verde na mão, e a samarra e a carocha pintalgadas de demonios e fogueiras, um moço de vinte e oito annos, gentil de sua pessoa, sem embargo da lividez cadaverosa de dois annos de carcere. É Heitor Dias da Paz.

O promotor da inquisição subiu á sua tribuna. Ao fim de quatro horas de leitura de cincoenta e tantas sentenças, indigitou o hebreu de Villa-Flôr. Dois esbirros com o alcaide do santo officio ladearam o moço, e conduziram-n'o a ajoelhar-se em frente da mesa sobposta á tribuna.

E o promotor leu o seguinte:

«Accordam os inquisidores, ordinario e deputados da santa inquisição5que, vistos estes autos, culpas, confissões e declarações de Heitor dias da Paz, christão novo, estudante de medicina, filho de Francisco Moraes Taveira, mercador, natural de Villa-Flôr, reu preso que presente está, porque se mostra que sendo christão baptisado, e como tal obrigado a ter e crer tudo o que tem, crê, e ensina a santa madre egreja de Roma, elle o fez pelo contrario vivendo apartado da nossa fé catholica, tendo crença na lei de Moisés, e fazendo em observancia da dita lei jejuns judaicos, estando nos dias d'elles sem comer nem beber, senão á noite depois de sair a estrella, ceando então coisas que não eram decarne, e deixando de comer a de porco, lebre, coelho, gordura e peixe sem escama, e guardando os sabbados de trabalho, vestindo n'elles camizas lavadas, e os melhores vestidos, começando a guarda d'elles da sexta feira á tarde.

«Pelas quaes culpas, sendo o reu preso nos carceres do santo officio, e com caridade admoestado as quizesse confessar para descargo de sua consciencia e bom despacho da sua causa, disse que o que tinha que dizer e declarar (sem o ter por culpa, antes por bom e necessario á sua salvação) era crêr firmemente em Adonai, Deus de Abraham, Isac e Jacob, assim e da maneira que o manda a lei de Moisés.

«E vendo-se na mesa do santo officio a cega e obstinada determinação do reu, lhe foi dito que considerasse bem a resolução que tomava em se não querer apartar da crença da lei que seguia, e como ia mal encaminhado em querer persistir na lei de Moisés, por que já n'ella não havia nem podia haver salvação, por ser acabada pela vinda de Christo, Jesus, senhor nosso e verdadeiro. E foi de novo admoestado tornasse sobre si; e, conhecendo seus erros, se apartasse d'elles, e se convertesse á fé catholica que tem, crê e ensina a santa madre egreja de Roma, cujo filho elle era e professára no baptismo, e confessasse inteiramente suas culpas, pois isso era o que lhe convinha para salvação de sua alma, e para se poder usar com elle da misericordia que a santa egreja costuma conceder aos bons e verdadeiros confitentes.

«E por tornar a dizer e affirmar com animo endurecido e obstinado, não só n'aquella sessão, mas em outras muitas que com elle se tiveram, afim de sua reducção,que não se queria apartar da crença da lei de Moisés, que seguia, antes estava prompto para dar a vida por ella:

«Veiu o promotor fiscal do santo officio com libello criminal e accusatorio contra elle, que lhe foi recebido; e se lhe disse que pois perseverava ainda na crença de seus erros com obstinação e contumacia, estivesse com seu procurador e lhe désse conta do estado de sua causa, e lhe pedisse o aconselhasse no que mais lhe convinha, e por elle respondesse ao libello da justiça, para que, guardados os termos de direito, se podesse continuar sua causa.

«Estando com o dito procurador, contestou o libello pela materia de suas declarações, e não quiz usar de defesa, pelo que foi lançado da com que podia vir, e ratificadas as testemunhas da justiça, se lhe fez publicação de seus depoimentos, conforme ao estylo do santo officio, a que não veiu com contraditas, pelo que foi lançado d'ellas. E estando outra vez com seu procurador para lhe formar os interrogatorios que quizesse, para serem reperguntadas as testemunhas que tinha contra si não veiu com ellas, dizendo que era desnecessaria diligencia, pois elle estava declarado e affirmativo profitente da lei de Moisés; e, como a não negava, não havia para que impugnar os depoimentos das testemunhas. E n'este acto escreveu um papel que declarou ser o assento que tomava em sua causa, e começava pelas palavras seguintes:—Perditio tua, Israel, tantu modo in me auxilium tuum, inquit Dominus.

«E logo continuava dizendo que elle reu não só não deixava a crença da lei de Moisés; mas se declarava crente e professor d'ella pelo theor dos termos dos autos,e queria ficar em juizo com a crença da lei de Moisés, na fórma seguinte, declarando: Que cria em um só Deus verdadeiro, e que este era o de Israel, o Deus dos patriarchas e prophetas, que fez o céo e a terra, e fez pacto com Abrahão, e deu lei a Moisés, e poz por primeiro preceito d'ella:Non habebis alios Deos preter me. E, como tal, tinha por damnada crença o christianismo, e por tal a excluia, abjurava e renunciava, e ainda qualquer signal e caracter d'ella. E assim elle reu, sem mais processo, queria ser julgado por apartado da fé e por passado á crença da lei de Moisés, mostrando que a differença que havia entre uma e outra coisa era adorarem os judeus sómente a Deus verdadeiro, e adorarem os catholicos o demonio; dizendo tambem e accrescentando ás ditas declarações algumas subtilezas e subterfugios cavilosos, com os quaes se colhia ser o reu verdadeiro judeu e professor da lei de Moisés.

«E sendo o reu chamado á mesa do santo officio, e n'ella perguntado se o dito papel em que se continham as ditas declarações era por elle escripto e assignado, e, se o que n'elle se continha era o que elle reu entendia e cria, e por elle queria se estivesse em juizo: respondeu que sim, e por aquellas declarações queria ser julgado; e sendo, advertido que fizesse genuflexão, e reverencia á imagem de Jesus Christo crucificado, que se lhe mostrou, e o inquisidor que o processava repetidas vezes lhe apontou, nunca o reu quiz ajoelhar nem olhar para a sagrada imagem, mostrando grande rebeldia e dureza de animo; e sendo de outras vezes mandado jurar pelos Santos Evangelhos nunca o quiz fazer, nem assignou mais papel algum onde visse escriptas as palavrassanta inquisição.

«E pelo reu foi dito que não queria mais procurador nem mais interrogatorios; por serem desnecessarias mais diligencias, visto que elle já de si dissera ainda mais do que as testemunhas contra si tinham deposto.

«E continuando-se o processo da sua causa, se procurou em todo o discurso d'ella mostrar ao reu o caminho da sua salvação e engano dos seus erros, persuadindo-o á obrigação que tinha pelo baptismo a ter e crer na fé catholica, captivando o entendimento em obsequio da mesma fé, e dar credito nas materias de consciencia e religião ás pessoas que lhe foram dadas para o encaminharem; porque ainda que elle reu tinha algumas letras, não havia professado as divinas, e como tal não podia explicar as escripturas sagradas, nem entendel-as como entendiam os religiosos letrados com quem havia estado, fiando elle mais do seu proprio entendimento que dos outros, sendo elle n'esta materia ignorante e os ditos religiosos letrados, de quem se havia de haver por convencido, pois não tinha fundamento algum para permanecer na crença da lei de Moisés, que seguia, e por tornar a dizer que se reportava ás protestações de sua crença contheudas nos papeis que havia escripto.6

«E lhe foi dito que ainda estava em tempo de melhorar sua causa, se sem embargo da obstinação de que até alli tinha usado, desistisse d'ella, e, arrependido de seus erros, os confessasse com taes mostras e signaes de arrependimento que se podesse entender que elle reu,de puro e verdadeiro coração, se reduzia á nossa santa fé catholica, de que tão cega e obstinadamente vivia apartado, para se poder usar com elle da misericordia que a santa madre egreja costuma conceder aos bons e verdadeiros confitentes; que de contrario se seguia infallivelmente o risco de ver sua pessoa no mais perigoso e miseravel estado que se podia imaginar, e o que mais era para sentir, a certeza de condemnar sua alma ás irremissiveis e eternas penas do inferno.

«E pelo reu foi dito que das sessões, que lhe foram feitas na inquisição e dos conselhos que lhe deram as pessoas que por ordem da mesma inquisição haviam estado com elle reu, afim de o reduzirem á crença dos christãos, tinha entendido o perigoso estado de sua causa, e o risco a que estava exposta sua vida; porém que, sem embargo da perda d'esta, não podia largar a crença que seguia, emquanto lhe não propunham razões mais concludentes para se persuadir e apartar-se da lei de Moisés.

«E visto como o reu se não quiz haver por convencido de seus erros, havendo-se dado solução verdadeira ás duvidas que propunha, sendo por tão repetidas vezes admoestado na mesa do santo officio com summa caridade, paciencia e brandura; e, sendo visto seu processo na mesa do santo officio, se assentou que o reu pela prova da justiça e sua mesma confissão e declaração estava convencido no crime de heresia e apostasia, e como herege apostata de nossa santa fé catholica convicto, confesso affirmativo e profitente da lei de Moisés, pertinaz e impenitente foi julgado e pronunciado, e finalmente citado para ouvir sua sentença, pela qualestava relaxado á justiça secular. O que tudo visto e bem examinado:

«Christi Jesu nomine invocato.Julgam, pronunciam e declaram o reu Heitor Dias da Paz por convicto, confesso variante, e affirmativo profitente da lei de Moisés, pertinaz e impenitente, e que incorreu em sentença de excommunhão maior, em confiscação dos seus bens para o fisco e camara real, e nas mais penas em direito contra similhantes estabelecidas, e como herege apostata de nossa santa fé catholica, convicto, confesso affirmativo, publico profitente da lei de Moisés, pertinaz e impenitente o condemnam e relaxam á justiça secular, a quem pedem com muita instancia se haja com elle benigna e piedosamente, e não proceda a pena de morte e effusão de sangue.»

Heitor Dias da Paz, lida aquella ultima clausula da sentença, fitou penetrantemente o semblante do promotor e riu-se. Os esbirros mandaram-no levantar-se, e beijar um dos doze missaes que decoravam a ampla mesa sotoposta ao estandarte de S. Domingos. O hebreu levantou a fronte com arrogante desprezo, e disse em voz que se fez ouvir na tribuna real:

—Não quero!

Fez-se um borborinho de piedosa ira na egreja. Esta agitação foi de subito applacada pelo apparecimento de fr. Francisco de Santa Maria no pulpito.

Reinava já sagrado silencio, quando o geral dos loyos, e venerado author doAnno historico, trovejou estas palavras do texto:De malo ad malum eggressi sant, et me non cognoverunt, dicit Dominus7.

O leitor, que veio tarde a este mundo para poder gosar o espectaculo de um auto da fé, póde ser que não faça cabal juizo da peça chamada o discurso da festa, e entenda que vem aqui opportuno o ensejo de se lhe dar alguma noticia do sermão de 1706, por ser elle do ascetico e sapientissimo auctor daAguia do Empyreo. Póde ser que ainda a muitos curiosos d'estas christãs leituras o sermão de fr. Francisco de Santa Maria seja desconhecido, por que é já rarissimo. A meu vêr, a maior parte da edição arrebataram-n'a da terra os anjos, como coisa do céo! Dos exemplares que escaparam tenho eu um, que é a minha vaidade de bibliomano e a minha edificação de devoto.

O prégador, no exordio, propõe-se demonstrar tres pontos: primeiro, que o Messias veio; segundo, que o Messias é homem e juntamente Deus; terceiro, que o Messias, homem e Deus, é Jesus de Nazareth, crucificadopor aquelles, ou pelos antepassados dos judeus que estão presentes. Depois do que, implora a intercessão da sacratissima Virgem, e começa.

Eis-aqui um lanço que nos move a favor do geral da congregação dos Evangelistas:

«Comvosco fallo, ó infelizes filhos de Israel, e tomo para testemunha a Deus todo poderoso, que não é o meu intento insultar-vos, ou affrontar-vos em coisa alguma, nem tenho ou levo outro fim n'esta acção, mais que a maior gloria de Deus, a defensa da verdade, o triumpho da fé, o remedio da vossa cegueira, a salvação da vossa alma; e, se acaso com a força do dizer, proferir alguma palavra que vos offenda, desde aqui vos peço perdão d'ella pelas entranhas da misericordia do verdadeiro e altissimo Deus.»

Heitor Dias da Paz levantou de sobre as pinturas diabolicas do san-benito os olhos serenos ao rosto do padre Francisco de Santa Maria. Esteve-se quêdo alguns segundos n'aquella contemplação, e sorriu-se, a tempo que o orador, compungido em fervores de caridade, balbuciava aquellas expressões, que o leitor pio leu commovido.

Varias pessoas honestas, que viram o sorriso do hebreu, disseram umas ás outras:

—Veremos á tardinha se o marrano se ri na fogueira...

O orador, no emtanto, ia proseguindo na demonstração dos seus tres pontos, que foi completissima, sem deixar brecha á mais especiosa contestação.

Heitor, a cada conclusão triumphante do padre, sorria; e, por pouco não desfechava uma casquinada provavelmente sandia, quando o orador, repulsando a pechade idolatras com que os hebreus malsinam os catholicos, argumentou d'esta sorte: «E como é possivel que, sendo nós idolatras ha tantos seculos, e sendo vós ha tantos seculos cultores do verdadeiro Deus; sobre vós ha tantos seculos que chovam os castigos, e sobre nós os favores? Sobre vós os castigos! Bem o vêdes, pois vos vêdes ha tantos seculos sem patria, sem honra, sem rei, sem patriarchas, sem prophetas, sem capitães, sem juizes, sem sacerdotes, sem templo, sem altar, sem sacrificio, sem liberdade. Nós os christãos tudo isto temos. Pois que? favorece Deus tanto aos idolatras, e castiga tão rigorosamente aos fieis?»

O impulso de riso do judeu, a meu vêr, procedeu da respeitavel ignorancia do padre quanto ás regalias de que os sectarios de Mafoma se estavam saboreando em porção do mundo sublunar muito mais larga e comprida que a porção alumiada pelo christianismo. Quereria, talvez, o israelita, sem embargo de se lhe estarem alcatroando as achas da fogueira, perguntar ao loyo se os mahometanos, apezar da bruteza e crassa estupidez de sua fé, eram menos felizes terrealmente fallando que os nazarenos. Ora, como o goso de questionar lhe seria amordaçado, se elle abrisse a bocca indignada, o judeu desafogou-se n'aquelle rir parvamente heretico. O caso, porém, não fez levemente titubar o impassivel prégador.

Ia discorrendo o padre Francisco pelas provas dos milagres; e veio ao ponto de asseverar que Deus não obrara milagre algum em confirmação da lei de Moysés. D'isto a prova mais insinuante que o douto prégador desfechou dos labios inspirados está no seguinte argumento:

«Todos, ou quasi todos os annos vão muitos de vósao patibulo, e sendo diante dos nossos olhos pasto á voracidade do fogo, nunca se viu em algum de vós algum prodigio. Que é isto? Assim deixa Deus a verdade escurecida e humilhada?... Agora já o fogo vos não tem respeito? Já a chamma lavra em vós como em madeira secca?»

Heitor Dias não sorriu então: caiu-lhe mortalmente angustiado o rosto para sobre o peito. As palavras do sacerdote de Christo levaram-lhe ás carnes o calefrio horrendo das dôres que o aguardavam para o fim d'aquelle dia: como que sentiu as linguas de fogo a tocarem-lhe o peito, e a suffocação da fumarada da fogueira.

Demonstrados os tres pontos da oração com quanta lucidez se esperava de tão conspicuo sujeito, o author doCéo aberto na terraapostrophou primeiro os confessos, depois os relapsos, e por derradeiro o unico profitente que era Heitor.

Aos confessos dava os emboras, e pedia-lhes pelas entranhas de Nosso Senhor que perseverassem.

Aos relapsos disse: «É verdade que já não podeis livrar a vida temporal; mas é certo que podeis assegurar a eterna... Morrer é natural: morrer affrontosa e violentamente é desgraça; mas sobre tudo isto, salvar a alma, é a maior ventura. Oh, que felizes sois, digo outra vez, se sabeis emendar com os acertos da morte os desconcertos da vida, e se vos dispondes com verdadeira fé e verdadeira contrição para a ultima hora!»

Que bom homem aquelle! O garrote e a fogueira eram indispensaveis á caridade e misericordia do Senhor; mas que montava isso?Morrer é natureza; morrer em colchão flacido ou em cama de brazas vivas éuma e a mesma coisa: é natureza; mas o importante alli para o caso já não era o ir-se um homem de este mundo ao outro por effeito d'um feroz homicidio: a questão era segurar a vida eternal, e essa estava arranjada, logo que os relapsos, á ultima hora, se entendessem com Deus uno e trino.

Em seguida, padre Francisco de Santa Maria poz os olhos sobre o confitente Heitor Dias da Paz, e exclamou, tanto ou quanto commovido:

«E vós, que n'este tremendo cadafalso sois o réo do maior delicto, olhae que em vós n'esse infeliz estado se verifica com propriedade lastimosa o que dizem as palavras do meu thema:De malo ad malum egressi sunt. Saireis de seres condemnado no juizo dos homens, e entrareis a ser condemnado no juizo de Deus. Saireis da morte temporal e entrareis na eterna. Saireis de um fogo que brevemente acaba, e entrareis em outro fogo, que para sempre dura. Oh filho da minha alma, é possivel que assim vos deixeis guiar só da vossa imaginação, e vos ateis tão fortemente á vossa teima em um negocio da tanta importancia? Tão pouco vae em salvar ou condemnar para sempre? Quero crer de vós que em qualquer negocio d'esta vida não havieis de obrar sem conselho, sem reflexão, sem madureza; e em um negocio, em que vae a vida eterna, assim vos resolveis, assim vos precipitaes? Nos pontos da medicina (que estudaveis) é sem duvida que havieis de estar pelo que vos diziam vossos mestres. Pois, se nos pontos de medicina, vos guiaveis pelo que vos diziam os doutores medicos, nos pontos da fé porque vos não guiaes pelos doutores theologos, que tantas vezes e com tanto zelo e espirito se empenharam em vos reduzir ao caminho da verdade?

«Dizei-me de que mestres aprendestes essa lei que seguis já tão antiquada e esquecida no mundo? Sem duvida de dois homens ignorantes, que talvez nunca abriram a escriptura, e talvez não saibam a lingua latina, e muito menos a hebrea. Não o tomeis por injuria—ajuntou o orador, certamente improvisando, como visse um gesto de repugnancia desdenhosa e despeitosa no aspecto do confitente—não o tomeis por injuria...; porque, fundado nas vossas mesmas escripturas, affirmo que na vossa nação falta ha muitos seculos, por justo castigo de Deus, o dom da sabedoria, e dominam as trevas da ignorancia.»8

Estende-se diffusamente o padre, cathequisando o judeu, com a mira posta em resgatar-lhe a alma, que o corpo esse já não ha eloquencia nem perdão divino ou humano que possa salval-o do fogo. Finalmente, remata a apostrophe n'estas branduras:

«Ora filho do meu coração,convertere, convertere ad Dominum Deum tuum.

Convertei-vos para o vosso Deus, convertei-vos para o vosso Senhor, que, abertos os braços, e com o coração aberto, vos espera para vos metter n'elle como amigo, se do coração vos converteis a elle. Dae este gosto ao céo, dae este gosto á terra, dae este gosto aos coros angelicos e dae este gosto aos espiritos bem aventurados, dae este gosto a todo este numerosissimo e luzidissimo auditorio, que todo deseja com muitas veras a vossavida e a vossa salvação. Na vossa mão tendes a vida e a morte, a salvação e a condemnação: vêde o que escolheis. E, se todavia persistis na vossa teima, e na vossa contumacia, da parte de Deus vos digo, que dentro em breve tempo apparecereis diante do mesmo Deus em juizo, do qual, sem desculpa do vosso erro, saireis condemnado para o fogo eterno.»

E com pouco mais terminou o monumental discurso, de que ficou muitissimo agradado o senhor rei D. Pedro II, e seus filhos; e bem assim o eminentissimo senhor cardeal D. Miguel Angelo Conti, arcebispo de Garzo, e nuncio apostolico n'estes reinos, ao qual o padre Francisco dedicou o seu sermão impresso.

D. Pedro II não mais saboreou outro sermão identico; porque, tres mezes e sete dias depois d'aquella explendida ovação da santa egreja, morreu.

O padre Francisco de Santa Maria, comquanto só passados sete annos fosse coroar-se ao capitolio dos anjos, como piamente crêmos que foi, tambem não voltou a regalar o publico nos autos da fé.

Cheguemo-nos ao assumpto. Os relaxados á justiça secular foram conduzidos a uma das salas da santa casa, em que estava junta a relação para os sentenciar.

A sentença de Heitor Dias da Paz, e dos outros já estava lavrada, embora fingissem lavral-a depois de um banal interrogatorio. Com ella na mão, perguntou o presidente ao judeu, ajoelhado:9

—Sois o relaxado Heitor Dias da Paz?

—Sou.

—D'onde sois?

—De Villa Flor.

—Credes—tornou o presidente—na Santissima Trindade, Padre, Filho, Espirito Santo, tres pessoas e um só Deus verdadeiro?

—Não creio.

E levantou-se sem que o presidente lh'o ordenasse.

O escrivão, que estivera autoando a sentença, ergueu-se e disse ao condemnado:

—Ajoelhe para ouvir ler a sentença.

—Ouvil-a-hei em pé—respondeu Heitor.

—Leia—disse o presidente ao escrivão.

O escrivão leu o seguinte:

«Acordam em relação, etc. Vista a sentença junta dos inquisidores, ordinario, e deputados da inquisição, e como por ella se mostra o réo preso, Heitor Dias da Paz ser hereje apostata da nossa santa fé catholica convencido no crime de judaismo, e por tal relaxado á justiça secular, e sendo perguntado n'este senado persistir no seu erro, e declarar que não cria em nossa santa fé catholica, senão na lei de Moisés; o que assim visto, e disposição de direito em tal caso, condemnam ao reu que com baraço e pregão pelas ruas publicas e costumadas seja levado á ribeira d'esta cidade, e ahi seja levantado em um poste alto, e queimado vivo, e feito por fogo em pó, de maneira que nunca de seu corpo e sepultura possa haver memoria; e o condemnam outrosim em perdimento dos seus bens para o fisco e camara real, posto que ascendentes ou descendentes tenha, os quaes declaram por incapazes, inhabeis,e infames na fórma de direito e ordenação. E pague as custas d'estes autos. Lisboa, 12 de setembro de 1706.»

A procissão dos condemnados saiu do pateo da santa casa, caminho da Ribeira. As duas judias relaxadas em carne, dizia-se que já iam mortas. Os dois hebreus, que tinham assistido ás leituras de suas sentenças em anciados gritos, iam desacordados nos braços dos quadrilheiros do santo officio. Heitor caminhava sem amparo, placidamente, olhando a um lado e ao outro as damas que exornavam as janellas do transito.

Ao embocar o prestito á rua da Padaria, um ancião mal coberto de andrajos, com tregeitos de louco enfurecido, rompeu a mó compacta do povo, e os soldados que ladeavam os condemnados.

Heitor Dias reparou n'aquelle velho que os arcabuzeiros afastavam a repellões. Fitou-o com horrivel estremecimento; ia a proferir uma palavra, e suffocou-a. Debalde. O grito do coração já tinha ecoado no seio do ancião, que exclamou:

—Adeus, meu filho! Adeus, meu filho, eu vou antes de ti avisar tua mãe que por instantes estarás comnosco no seio de Abrahão!

E, ao proferir a ultima palavra, sorveu de um vidro um trago de peçonha, ao qual se seguiram medonhas convulsões.

—Abençoada seja a sua coragem, meu pae!—exclamou Heitor—Até logo, até á eternidade!

As agonias do velho terminaram dentro em quinze minutos. As do filho principiavam pouco depois, e não foram mais longas. Antes de sentir o queimar das lavaredas nas entranhas, expirára afogado no fumo.

E o sol d'aquelle dia era ainda formoso ao intardecer. As auras do mar bafejavam tepidas. El-rei passeava nas barandas do paço da Ribeira, aspirando o aroma dos laranjaes; e os frades de S. Domingos resavam vesperas.

N'este tempo, Braz Luiz, o collegial de S. Paulo, ia nos quatorze annos.

A noticia da desastrosa morte dos seus bemfeitores, revelada pelos condiscipulos, pungiu-o, tirou-lhe d'alma sinceras lagrimas; porém, n'aquellas edades a sensibilidade é para pouco; as saudades das pessoas queridas que morreram não se prendem á previsão angustiosa das desgraças porvindouras. O filho de Antonio de Sá Mourão estava de todo esquecido do doutor Abreu, e não longe de esquecer-se de Heitor Dias da Paz.

Os mestres do collegio, cuja dilecção pelo engenho do moço se manifestava no affago com que o divertiam de pensar no hebreu queimado e no outro que se dera a si desesperada morte, receosos de que o santo officio fosse ainda contender com o estudante por suppor que elle fosse irmão de Heitor, zelosamente informaram osinquisidores dos piedosos sentimentos de Braz Luiz, e da docilidade e devoção com que elle se entregava aos exercicios espirituaes. O santo officio, inteirado d'isto, deixou em paz e por conta da religiosidade dos paulistas o menino.

Como elle se alimentava e educava a expensas do collegio, o parecer dos mestres era encaminhal-o para frade paulistano. Este intento, quando o moço tinha quinze annos, foi contraditado pela companhia de Jesus, que enviára delegados a recensear nas universidades e collegios de Evora e Coimbra estudantes esperançosos, garfos de boa seiva, que se fossem enxertando nos troncos envelhecidos, para que alguma hora não soffresse quebra o predominio intellectual dos filhos de Santo Ignacio.

Os paulistanos offenderam-se do sequestro que os jesuitas arbitrariamente fizeram nos seus mais grados alumnos; e, por vindicta, entraram a despersuadir o moço de aceitar a roupeta. Facilmente o moveram á repugnancia da vida sacerdotal, e assim se privaram tambem de o conquistarem para si. A companhia de Jesus cathequisava, mas não violentava. Tamsómente as vocações liberrimas e muito espontaneas lhe serviam. Logo pois que Braz Luiz manifestou indisposição para a vida sacerdotal, abriram mão d'elle os jesuitas, offerecendo-lhe, se necessarios fossem, recursos com que podesse seguir a carreira para onde pendessem os seus talentos. Quer generosidade, quer astucia com que os padres ardilosamente grangeavam a estima quasi universal, o certo é que Braz Luiz teria a protecção d'elles, se não tivesse a dos paulistas.

Deram-lhe a opção de modo de vida. Braz escolheu a medicina.

Aos quinze annos matriculou-se no primeiro do curso depois de ter estudado artes, e logo deu de si tão lisongeira conta, que se estremou entre os condiscipulos, ganhando as distincções das escolas, a estima dos mestres, e especialmente de D. Manuel dos Reis e Sousa, a quem o discipulo dos seus futuros escriptos se mostrará agradecido.

Ao correr do terceiro anno, a indole do academico passou por inesperada revolução. Sem faltar ás obrigações escolares, deu-se á tunantaria dos estudantes malcomportados. Fez-se arruador nocturno, bulhento, femieiro e pimpão. Os paulistas ameaçaram-no de o deixarem entregue aos seus desatinos. Braz Luiz respondia ás ameaças dando optimas lições nas aulas, e ganhando os louvores dos lentes, sem desistir de tomar o primeiro posto nas algazarras e assuadas nocturnas.

Em uma d'essas escaramuças á cidade baixa, travou-se uma refesta ensanguentada entre a gente miuda de Coimbra e os estudantes. Braz, depois de muitas proezas, caíu ferido de uma choupada, que lhe vasou o olho direito. Alguns condiscipulos levaram-no em braços para sua casa, e lhe assistiram affectuosamente á cura. Salvaram-no da morte: mas não poderam salvar-lhe o olho.

Depois de dois mezes de cama, o estudante recebeu a má nova de ter perdido o amparo dos frades. Accudiram logo os condiscipulos fintando-se para supprirem a esmola do collegio, Braz proseguiu na formatura, e não mais foi visto nas sortidas bellicosas, como quem já não tinha mais que um olho para sacrificar. Os paulistanos,contentes da reforma do seu protegido, voltaram a soccorrel-o; porém, o pundonoroso academico, reunindo os seus condiscipulos favorecedores, expoz a reluctancia com que aceitaria a esmola dos frades, e a satisfação com que continuaria a recebel-a de estudantes. Applaudiram-lhe o brio, e animaram-no a regeitar o pão vilipendioso dos paulistas.

Em 1714, tomou Braz Luiz d'Abreu gráo de licenciado em medicina. A razão que elle teve para assignar-seAbreufunda n'uma casualidade de que resultou enganar-se Barbosa na suaBibliotheca Lusitana, dando Braz Luiz como filho de Francisco Luiz d'Abreu e Francisca Rodrigues d'Oliveira. Foi o caso, que folheando elle o abcedario por onde começára a soletrar, muito na primeira puericia, em companhia do seu primeiro protector, encontrou o seu nome assim posto no alto da primeira pagina do alphabeto:Braz Luiz de Abreu. Assim o escrevêra a esposa do doutor, n'uma d'aquellas horas de ternura, em que ella encarava no menino como em filho propriamente seu.

Ahi está onde ao medico se deparou um apellido, que elle não sabia d'onde lhe havia de vir, por mais que discorresse sobre o modo de rastrear seu nascimento. N'este investigavel mysterio o que a si mais provavel se figurava era que seu pae devia de ser um homem apellidadoAbreu; mas como esquadrinhar-lhe a naturalidade, as aventuras da vida ou da morte? Em Coimbra não havia para que indagal-o; porque elle não tinha sequer vaga lembrança de ter estado em Coimbra nos primeiros annos. Todas as suas lembranças esboçavam-se dos sete annos para áquem. Terra que não fosse Coimbra só escassamente se recordava de Villa Flor; eimagens de pessoas, duas sómente lhe viviam meio delidas na lembrança: eram Francisco de Moraes e Heitor Dias da Paz.

Um condiscipulo de Mirandella encarregou-se de averiguar-lhe algumas noticias de seu nascimento em Villa Flor. As tradições encontradas alli eram que uma creança apparecêra em casa do hebreu Moraes, ao tempo que seu filho voltou da Hollanda. Parentes ainda vivos d'aquelles israelitas não sabiam dizer nada a tal respeito. O que o condiscipulo informador accrescentou foi que dos muitos haveres do hebreu suicidado não havia palmo de terra que a inquisição não confiscasse.

Habilitado para exercitar a medicina, comquanto lhe sobrassem creditos de grande estudante, faltavam-lhe doentes. Á mingua de recursos, pensou em estabelecer-se n'alguma terra desprovida de medicos. Um seu contemporaneo da faculdade juridica convidou-o para Vizeu, onde o encontrámos curando com muita voga e felicidade em 1715 até 171810.

No fim d'este anno, como a sua fama o atraia e a cobiça o impulsava para terras de mais gloria e lucros, passou a residir em Lisboa. Aqui e n'este mesmo anno começou elle a olhar tristemente para a deformidade que lhe deixára no rosto a choupada, e achou-se não só feio, se não repugnante a olhos de damas, que se engulhavam de lhe verem a orbita direita vasia e coberta pela palpebra amortecida.

Cogitou o medico em arranjar um olho artificial, comque encher a orbita nauseenta e dar contractibilidade apparente á palpebra. Investigou a sciencia e encontrou que os gregos e egypcios fabricavam olhos artificiaes, formando-os de uma casquinha metalica, pintada ou esmaltada, similhante a uma metade de ovo pequeno, dividido longitudinalmente. Este primitivo e pouco engenhoso olho não agradava ao nosso joven medico. Indagou no estrangeiro, e de Hollanda o informaram que estava em Amsterdam um hebreu inventor d'olhos artificiaes de esmalte, com a qual materia substituira vantajosamente os metalicos. Entendeu-se Braz Luiz de Abreu com o inventor hollandez, e ajustou na orbita um olho, menos mal imitado, mediante o qual a palpebra voltou á sua elasticidade.

Este olho de esmalte era immovel: bastava encarar na cara do medico para logo se conhecer que a orbita direita estava envidraçada. D'ahi seguiu-se chamarem-lhe odoutor Olho de Vidro, alcunha que lhe ficou até á morte, e longos annos depois serviu de celebrar-lhe a memoria, a magnitude dos talentos medicos e os seus não menores infortunios.

Como quer que fosse, a physionomia do doutor Braz Luiz, não obstante a pouca illusão que embahia o falso olho, melhorou bastantemente.

O restante do carão, como diziam os coevos d'elle, era senão gentil, mui symetricamente ageitado. Vestia com apontado primor, e cuidava com esmero das melenas negras e lustrosas, que não polvilhava. A razão d'este proceder, tão inverso dos costumes do seu tempo, é elle quem propriamente a escreve d'este modo: «... Emquanto aos polvilhos, tão longe estão de parecerem ornato na cabeça do medico, que antes são presagioslethaes da vida do doente. Porque se a egreja com pós na cabeça nos adverte da morte que vem, como o medico com pós no cabello nos ha de recuperar a vida que se vae? Eu, quanto a mim, antes creio que, os pós são significativos da morte, emquanto a egreja nol-o diz, do que hierogliphicos de saude respeitando ao medico que os traz. Os verdadeiros ministros d'Apollo só usam de polvilhos cephalicos na região animal; de polvilhos cordeaes na região vital; e de polvilhos estomachicos na região natural. Isto é uso modesto; o mais, estava para dizer que era abuso ridiculo.»11

Não curemos de ponderar a justiça das razões que o doutor allega contra os polvilhos. Imaginando que os collegas de Braz Luiz se riram muito d'ellas, faço justiça aos contemporaneos do auctor doPortugal medico.

Tambem desadorava os perfumes o nosso doutor, n'aquelle tempo em que o peralta de bom cunho recendia como caçoula de camarim de odalisca. Outra razão efficientissima do seu enojo de perfumes: «Sou de parecer que (o medico) evite os cheiros, e que se negue a todo genero de perfumes, porque ainda que Hyppocrates no seu tempo permittia os que não eram suspeitos aos achaques, comtudo n'este seculo mais escrupuloso por mais prevertido, nenhum genero de perfumes cheira bem... Deixemos esses esmeros para os que vivem á moda, e não excedamos a moda, que nem porque um medico cheira bem, cura melhor.»12

Em adornos capillares aceitava o doutor meramente os naturaes: usava simplesmente a sua opulenta grenha,nua de artificios e emprestimos; porque dizia elle: «Seja tambem modesto o medico nos adornos da cabeça, tão introduzidos n'este miseravel seculo, que não ha já encontrar solicitador sem cabelleira nem belleguim sem perruca.» E acrescentava: «Quantos desprezam e cortam hoje o honesto cabello de christãos e collocam sobre a cabeça as melenas de um herege!»13

O vivo desejo que Braz Luiz de Abreu alimentava de reformar as demasias luxuosas e derisorias dos medicos, tornou-se em justa indignação, e a indignação porventura fel-o poeta como ao satyrico latino. Um dos mais intelligiveis sonetos que elle escreveu em tom apostolico salvou-se do olvidio, graças ao acertado cabimento que lhe elle deu n'um seu livro de medicina. Resa d'esta sorte:


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