Oh, medico! se és medico com effeitoProcura mundo14ser, mas não mundano;Que de Apollo o caracter soberanoNão anima nos vicios o respeito.Bebe o cão, bebe tu; mas com tal geitoQue o crocodilo do rumor profanoQuando vás a beber do Nilo humanoNão possa devorar teu bom conceito.Em teu ornato a modestia nunca falte,Um pouco mais ao grave do que ao lindo;Que assim obra quem douto assim discorre.E porque a tua fama mais se exalte,Visita a modo de quem vae fugindo,Como do Nilo o cão, que bebe e corre.15O desgracioso da musa do Olho de Vidro está delatando que o poeta, se não era menos de pedestre, poetava violentando sua indole. O natural d'elle era outro. A meu juizo, tanta prudencia e bom conselho no mais verde da mocidade, argue um aliás louvavel cuidado de se fazer bemquisto aos homens graves do seu tempo. É, de mais d'isso, muito provavel que o medico se temesse de que os rafeiros do santo officio lhe andassem farejando o sangue; e elle, a contas com a consciencia propria, duvidava da pureza de seus incognitos paes, ao lembrar-se do ritho hebraico dos bemfeitores de Villa Flor. Se os elle não conhecia, quem lhe asseverava que a inquisição os não conhecesse? Se lhe pedissem a certidão do baptismo, onde iria elle esquadrinhal-a?VIIExemplo de honestidade aos medicosQuer fosse sisudeza, quer hypocrisia, Braz Luiz de Abreu, que então contava vinte e cinco annos, assim que o amor lhe abriu o peito com seus magicos dedos, sacudiu a canga do artificio e mostrou-se homem genuino. Deu elle tento de que os seus collegas todos eram familiares do santo officio, e todavia amavam a rosto descoberto; e, nas casas onde entravam, contra a prescripção do soneto, não procediam exactamenteComo do Nilo o cão, que bebe e corre.Ora, como elle, de espaço, fosse vendo que a inquisição vivia despreoccupada d'aquelles cães do Tejo que bebiam muito devagar, bandeou-se com elles, e atirou o coração ás tempestades dos vinte e cinco annos, resalvadas as apparencias.A primeira dama que se quiz senhorear da alma doseu medico, era uma fidalga quarentona, ainda vistosa, affeita a ser beijada na face por bons galans que se ajoelharam diante d'ella até aos trinta annos, e se purificaram da idolatria, desde que as flores do rosto, desbotadas pelo caio, e os cabellos ressequidos pelo ferro se foram despegando d'aquella cabeça rica de formosas tradições. Estava literalmente calva.D. Claudia da Silveira, logo que se julgou encarada voluptuariamente pelo olho unico do seu medico, levou a mão ao peito e sentiu-se arder. Desde essa hora os achaques eram tantos e tamanhos que Braz Luiz escassamente se podia desobrigar de acudir-lhe tres vezes por dia com agua de Inglaterra, com pedra cordeal de Gaspar Antonio, ou com agua de lingua de vacca, antidotos de sua predilecção contra os estherismos e enchaquecas da senhora D. Claudia da Silveira.A dama, cada vez mais enfermissa, tornára-se a desesperação da medicina gallenica. Dos linimentos á chaga interna que lhe cancerava as entranhas, um sómente dera satisfatorio resultado: era a presença do medico, o tatear d'elle no pulso arreado de manilhas, o apalpal-a nas costellas sobre e sub-jacentes ao coração. No coração nomeadamente é que ella dizia ter a morte, o morder e repuchar de dentes e garras do que quer que fosse. Resolveu o doutor que lhe dessem uma untura anodyna sobre a parte magoada. Resistiu a dama, quando viu a aia arremangar-se para o acto, e exclamou, repellindo a criada:—Não consinto mãos estranhas no meu corpo! Antes a morte!Braz Luiz de Abreu empenhou calorosas razões a persuadil-a, cuidando sinceramente que a dama soffriadolorosissimas palpitações. Da austeridade de medico passou ás branduras de amigo que muito lhe devia, porque a paga era mais que prodiga, e chegou a pedir-lhe consentimento para ser elle quem lhe friccionasse o seio.Muito rogada e como incendida em pudor virginal, consentiu D. Claudia, referindo a sua condescendencia não tanto ao amor da vida, como ao horror de morte assim atribulada.O leitor conhece decerto aquella passagem de um livro do padre Manuel Bernardes, em que se conta o caso de S. Effrem estar com uma das mãos untando o peito de uma formosissima mulher, que tinha parte de demonio tentador do santo, emquanto assentava a outra mão sobre um brazeiro para ir assim com as dores quebrantando os ímpetos da materia bruta, asfervenças da carne, como n'outro caso diz o mesmo padre oratoriano.D. Claudia da Silveira verdadeiramente não tinha parte de demonio; porque o medico lhe deu a untura anodyna com tanta serenidade e quietação de corpo e alma, que só isso lhe bastaria a ganhar o céo, se a mulher fosse documento para merecel-o e argumento para pedil-o.Operou o linimento muito devagar, segundo o medico ia entendendo da brandura dos ais e alquebramento da enferma. Afinal, cessaram de todo os gemidos por um suspirar descançado que parecia descair em dormir restaurador das forças extenuadas.Braz Luiz de Abreu ficou vaidoso do seu triumpho, e despediu-se da dama, que lhe acenou de mão e cabeça tão levemente como quem a custo o fazia, vencida do turpor do somno.Assim que elle voltou costas, D. Claudia sentou-se na cama, bracejou enraivecida, e despregou a murros phreneticos uma cortina adamascada que lhe ondeava por sobre o espaldar do leito.Accudiu a aia a querer continuar a untura. A fidalga quiz atirar-lhe á cara com a taça do anodyno, e sentiu-se sinceramente febril.A aia avisou o fidalgo, cunhado de sua ama, d'aquellas furias em que estava a senhora. O fidalgo, avesado a taes manhas, respondeu com magnanimidade indicativa da probidade austera d'aquella familia:—Manda-lhe chamar o Olho de Vidro.—Mas elle ainda agora saiu, senhor!—Não importa: que torne a entrar, que torne a sair, que entre de novo, que faça o que ella quizer, comtanto que eu não ature minha cunhada Claudia.Assim se fez.Braz Luiz acabava de entrar no seu gabinete, para escrever no caderno de observações a rapida cura das convulsões de coração de D. Claudia com unturas de enxundia de pato e oleo de assucenas, quando um lacaio dos Silveiras o chamou a toda a pressa para a fidalga.O medico praguejou mentalmente contra a sua dadivosa doente; mas foi.Encontrou-a convulsiva e escarlate, debatendo-se n'uma poltrona. Era ainda a dôr do coração que lhe estava destroçando o peito. Fallou o doutor em ventosas sarjadas. A dama expediu in continente (sem calemburgo) tres gritos estridulos contra as ventosas.—Pois não, minha senhora!—accudiu o medico—não faremos uso das ventosas, até mesmo porque a convulsãose vae distendendo aos membros, e receio que se torne geral. Eu vou receitar; mas requer tempo o preparado do remedio. Senhora Anacleta—continuou o doutor voltando-se para a criada grave—mande procurar um pato gordo; ordene que o matem, depennem, e limpem das entranhas; e depois remetta-se o pato ao boticario com a receita que vou escrever16.RECIPE. Recheie o pato com salva, mangerona an. Manip. j. gomma amoniaco e Bedelio an unc j. Calamo aromatico, noz moscada, flôr da mesma, e cravinhos da India an. unc. semiss. o que tudo primeiro se pize em almofariz, e se amasse com oleo de minhocas, e assim se introduza no ventre do pato, que se coserá com linha, se ponha a assar, e o que destilar se receba em um vaso meio de vinagre, com cujo pingo e gordura se unte o coração.ABREU.Depois, sentando-se ao pé da doente algum tanto melhorada das convulsões, ajuntou:—Se este admiravel remedio não produzir o almejado effeito, asseguro a vossa senhoria que em casos analogos me tenho dado excellentemente com os banhos de azeite puro, e melhor será se antes se tiver cozido n'elle uma raposa17.—Uma raposa, doutor!—exclamou a dama engulhosa—uma raposa! Que immunda coisa!... Onde hei de eu ir buscar a raposa?—Que desejará vossa senhoria que não appareça, minha senhora! Qualquer caseiro das suas terras do Alemtejo ou Beira, com ordem de vossa senhoria, caçará raposas, que são mirificamente medicinaes.—Anjo bento! raposas medicinaes!...—volveu D. Claudia, e abriu um sorriso jovial, á volta com um gemido, como se o picar subito da dôr a não deixasse rir francamente.—Parece-me que está mais alliviada...—disse o medico.—Um poucachinho...—Pois as virtudes da raposa são miraculosas, minha senhora—proseguiu elle, confiado na efficacia da distracção.—A lingua da raposa trazida ao pescoço reforça a vista. As mãos d'ella trazidas ao pescoço preservam do quebranto.18—Do quebranto!...—murmurou D. Claudia da Silveira—Ai! doutor, ha quebrantos sem cura! Ha arêjos que em pegando da gente o remedio é morrer.—Feitiçarias, quer dizer vossa senhoria? Não é tanto assim. Contra esses temos os prodigiosos alexipharmacos da santa egreja catholica.—Bem sei, bem sei—balbuciou a dama, com piedoso gesto.—Não é d'esses que eu tenho medo. O meu santo Antonio me defenderá... Ha coisas peiores do queisso n'este mundo... coisas que fazem perder a cabeça á creatura mais ajuizada. Tenções e protestos não montam nada. Que me faz a mim dizer: não hei de pensar mais n'isto ou n'aquillo? Apega-se a gente com todos os santos. Fazem-se rezas e promessas. Lembra-se tudo quanto ha de máo... E, chegada a occasião, tanto faz como nada! Ai!—suspirou ella, pondo as mãos ambas sobre o coração.—Ai!... pobres mulheres!... Só vós sois as fracas... as peccadoras... não é assim doutor?Braz Luiz de Abreu, que n'este lanço estava espreitando de soslaio uns olhos que o espreitavam por entre o reposteiro—os olhos da engraçada e trigueira aia de D. Claudia—por pouco não é surprehendido pelo relance da fidalga, que o fitou muito no rosto, com ar interrogador.—É assim, minha senhora, é assim—balbuciou elle.—É assim, é—tornou ella—E que remedio sabe vossemecê para estes quebrantos, doutor?—É conforme...—tornou Braz Luiz, sem atinar com a resposta conveniente, porque só n'aquelle instante percebera, com despeito de sua vaidade de medico, a enfermidade da fidalga.—É conforme, disse vossemecê doutor...—volveu ella, anciosa de entender as reticencias.—Sim, minha senhora... Ha varios modos de possessão, além dos conhecidos nas demoographias...—Mão entendo isso—atalhou a fidalga—Pois a paixão d'alma tambem é feitiço?—Se não é...—balbuciou o doutor.—Leva as mesmas voltas—accudiu prestes D. Claudia, e proseguiu expondo com pouquissimo resguardode sua honestidade as diabruras que o amor tinha feito em senhoras de sua amizade, não poupando na relação das taes diabruras secretas as suas mais proximas consanguinaes, e algumas impudicicias muito reconditas da côrte da primeira mulher de D. Pedro II, com a qual vivera nos primeiros annos de sua mocidade.Ao correr d'esta narrativa, D. Claudia reparou no abstrahimento do medico, cujo olho, de instante a instante, punha fito ao reposteiro, e como que procurava pascer-se deleitosamente em qualquer cousa de fóra.Assim prevenida e desconfiada, esperou azo, voltou a cabeça ao lado opposto da porta, retorceu-a rapidamente de novo olhando ao local suspeito, e entreviu a cabeça da sua criada grave Anacleta, por quem doidejavam quantos fidalgos novos e encanecidos a visitavam.—Olé!—exclamou ella, erguendo-se de salto—Agora entendo!—E, correndo ao reposteiro, afastou-o de repellão, e disse iracunda:—Anacleta! já hoje não dormes n'esta casa. Rua! Não quero testemunhas nem espiões do que se diz no meu quarto. Rua!E, tornando com solemne passo para junto de Braz Luiz de Abreu, que assistia corrido áquelle conflicto, disse-lhe:—E a hypocrisia de vossemecê, senhor doutor!... A feitiçaria da minha criada tambem se cura com os prodigiososnão sei que(o doutor tinha dito «alexipharmacos») da santa egreja catholica? Que hypocritas são estes medicos!...E cacarejou uma risada secca.—Pois que?!—tartamudeou o doutor, enleado até á irrisão.—Eu logo vi!...—disse a fidalga, como em praticas de soliloquio comsigo mesma.—A promptidão das visitas... está explicada... Assim devia ser. Lé com lé, não falha o dictado. Cuidei que as minhas criadas serviam sómente aos meus criados. Bons tempos, em que os medicos se não sujavam com amores de servilhetas...—Oh! senhora D. Claudia!—atalhou o pundonoroso doutor—vossa senhoria está-me insultando... perdoe-me dizer-lh'o, porque nunca cuidei de dizer isto a pessoa de sangue tão illustre... E, de mais, cavalheiro que tal diz a uma dama, não deve mais voltar á presença d'ella.E, tomando o chapéo e bengala, fez uma arqueada cortezia.—Faça o que quizer, doutor!—disse ella abespinhada, com o nó esterico nos gorgomilos—Faça o que quizer que vossemecê se arrependerá...Braz Luiz de Abreu saiu offegante de despeito e tedio de D. Claudia da Silveira.—Que tal está a pellada!—dizia elle de si para comsigo—A impudica!... E eu dar-lhe as unturas com a boa fé do mais soez enfermeiro! Chibata é que ella precisava nos lombos ociosos!...VIIIMá sina de poetasPassados alguns dias, differentes pessoas da intimidade do doutor lhe segredavam que D. Claudia fazia correr que elle fôra expulso da casa dos Silveiras, porque andava cortejando a aia grave da fidalga, sem respeito ao que devia á illustre enferma, e ao que devia á sua dignidade de medico. Os amigos aconselhavam-n'o, se queria ser recebido em casas de primeira plana, abster-se de galantear criadas, principalmente se as amas, como D. Claudia, queriam ser antepostas ás suas servas.A calumnia era toleravel, porque em verdade, a frescalhona Anacleta era uma das sete criadas graves, para as quaes o doutor olhava com a fixidez de quem só tem um olho. Assanhou-o, porém, o susto de ver-se banido das casas, onde tinha os seus prezadissimos, bem que faceis amores, afóra as doentes mais rendosas.O ciume de Claudia mais o exasperou ainda; por que a historia, em que elle figurava ridiculo, era contada entre as familias ás gargalhadas. Enraivecido, cogitou na imprudencia de fazer rir os amigos á custa da fidalga. Figurou-se-lhe que o mais contundente látego era a satyra em verso. Não teve amigo que lhe aconselhasse juizo e discrição, como convinha á gravidade do seu officio, e ao melindre da poderosa parentela de D. Claudia. Escreveu, e deu copias a diversos amigos das seguintes quadras:A UMA PELLADAMulher, n'esse teu desgarro...Convém saber, antes de ir ávante, que D. Claudia, como se quizesse attrahir aos pés a attenção das pessoas, que lhe reparavam na cabeça, costumava estar sempre calçada de sapatos bordados a fio de ouro. As mais fidalgas chanceavam-n'a, na ausencia, por causa dos sapatos, e propalavam que o Olho de Vidro se deixára algum tempo fascinar dos aureos chapins da escalvada dama. Sabido isto, não ha já commentarios que aditar á poesia.Mulher, n'esse teu desgarro,Um Nabuco ás vessas és;Porque, tendo d'ouro os pés,Tens a cabeça de barro.Se alguma pedra traveçaTe quizesse derrubarEra preciso acertarMais que nos pés na cabeçaPor que, se pelo mais fracoEstalla a corda mais grossa,Quem quizer que estalles,moça,Ha de cascar-te no caco.Mais flammantes do que um ouro,Mais liza do que uma ostra,A cabeça a coura mostra,Os pés vão mostrando o couro.Dize-me com que destino,Mesclas n'essa estatua vanEntre affectos de christanHeresias deCalvino?Sem monho, e com cara alvaSahes a toda a occasião;E vejo que tens rasão,Porque a occasião é calva.Sendo mal encabellada,Para que andas, dize, á pella,Se ninguem por ti se pellaPor mais que venhas pellada?Vae-te, e pede a Deus, ó louca,Que te dê com toda a pressa,Cabellos para a cabeçaEm vez de pão para a boca.Ao padre nosso á porfiaPede que te encabellise;E em vez depão nosso, dize:Cabellos de cada dia19.Multiplicaram-se as copias e as gargalhadas; não tardou, porém, que sobreviessem os despeitos, por que muitas familias, que tinham rido, estavam aparentadas com D. Claudia. Chegou á noticia da dama a zombaria. Foi tanto mais funda a punhalada quanto ella amava ainda o doutor. Odiou-o de morte; não relevava, porém, a soberba da fidalga que ella se désse por ultrajada.Conjuraram, de repente as familias de melhor lote contra Braz Luiz. Os amigos evitavam-no com subterfugios. Os inimigos, collegas d'elle, deploravam que um seu consocio no sagrado mister da medicina os desdourasse. A tempo conheceu o doutor que tinha caido em descredito: e mêdo tambem de cair trespassado por algum fidalgo estoque não lhe faltou.Fez logo conta de sair de Lisboa, cortando por fibras muito sensiveis do peito. Do plano á execução mediou algum pouco tempo, em que Braz Luiz, recolhendo alta noite, esteve a pique de ser assassinado por uma arcabuzada, cujos pelouros lhe crestaram os bofes da camisa.Desappareceu o Olho de Vidro de Lisboa, e estanceou alguma temporada por Coimbra, onde assistiu á impressão de um seu livro em castelhano, intituladoAguilas hijas del sol, que buelan sobre la luna. Representacion comica, tragica, triumphal de la inmorable victoria gloriosamente alcançada por las aguilas impiriales contra las nocturnas aves ottomanas en el campo de Peter-Varadin, dia 5 de agosto año 1716.20A mim contentou-me a leitura do titulo, e dispensei-me de ver o restante para ir jurar que deve ser sobre-excellente um livro que se chamaAguias filhas do sol, que voam sobre a lua. E, como se isto não fosse já recommendação á obra, acresce-lhe o merecimento de serrepresentação comica, tragica e triumphante. Um livro assim, e os applausos com que a peninsula provavelmente o victoriou, deviam ser para o doutor larga compensação dos dissabores com que saira de Lisboa. Não ha ahi chaga em peito de homem illustrado que resista ao balsamo do talento.Passou Braz Luiz de Abreu ao Porto, fazendo tenção de estabelecer-se na segunda cidade do reino. Deteve-se em Aveiro alguns dias; e passeando scientificamente pelos arrabaldes da villa, descobriu a planta do chá, nascida em barda por aquelles maninhos. Consta-me que os aveirenses, de certo ignorantes do descobrimento do medico, ainda agora compram para seu uso o chá da China, como se não tivessem alli á mão a erva de que elle se faz. Aqui lhe transcrevo as palavras de Braz Luiz, e muito faço em prova do meu desprendimento de bens de fortuna, se não iria eu propriamente colher a erva, comprar os maninhos, e senhorear-me de Aveiro em poucos annos. Aqui está a noticia: «Na villa de Aveiro, e em todas as suas visinhanças nasce uma erva, a que os naturaes chamamerva formigueira, porque pisada tem o cheiro como de formigas pisadas; e a ha em tanta quantidade que podem carregar-se navios d'ella. Esta tal (ao meu entender) é o verdadeirocháque vem da China e do Japão; não só porque a experiencia descobre n'ella as mesmas virtudes dochá; mas tambem porque mandando-se da Indiaa Gonçalo de Sousa de Menezes, morador na sua quinta de Salreo, a semente do legitimo chá, elle a mandou semear com todo o cuidado, e nasceu a mesma erva de que aqui se acham revestidos os campos e os comaros.»21Não ha duvida nenhuma: o chá da India é aerva formigueira de Aveiro. E dizem que nós, os portuguezes, não somos gente para descobrimentos! O que nós somos é uns prodigos e despreciadores dos mananciaes de riqueza que a Providencia nos offerece como a filhos seus dilectissimos. Se alguma companhia entrasse em exploração d'aquella mina, quem sabe se, fechados os portos á erva indiatica, poderiamos ainda com o nosso chá amortisar a divida externa, e metter a Europa n'uma infusão de erva formigueira? Razão tinha o patriota doutor Olho de Vidro, quando em seguida á noticia, que os coevos menosprezaram, ajuntou: «Quem quizer indagar-lhe os prestimos, com facilidade o póde fazer, se acaso não fôr do genio d'aquelles que fazem eterno capricho de preferir sempre as coisas estrangeiras ás nacionaes e domesticas.»Transferiu-se Braz Luiz para o Porto, ao começar o anno de 1718. Estreiou-se auspiciosamente. Açambarcou a clinica dos mais acreditados, e manteve-se com recato e honra no tocante ás venialidades do coração, tomando em conta o muito que lhe importava desmentir a má fama grangeada em Lisboa.No fim de seis mezes, offereciam-se-lhe vantajosos enlaces com raparigas bonitas de sua pessoa, rubras esadias d'aquelle antigo sangue e pojante saude do Porto, e demais a mais, ricas, das mais ricas das ruas dos Pellames, Congostas e Mercadores.Não se atrigou com a felicidade das propostas. Sobrava-lhe dinheiro, estipendio das suas curas estupendas com inxundia de pata, olhos de minhocas, agua benedicta de Rulando, olhos de caranguejo e esterco de rato fresco.22O coração cedia á freima com que elle trazia empunhada a cabeça em estudos medicos, estudos poeticos, toda a casta de sciencia, como sujeito que tinha em vista a immortalidade, de que a sua memoria, se está gosando e gosará, emquanto o seuPortugal Medico, e a suaVida de Santo Antonioe este meu romance forem livros conspicuos.Em outubro de 1718, chegou ao Porto uma senhora da Beira Alta, muito adoentada, trazendo em sua companhia uma filha. A enferma, desenganada pelos medicos na sua terra, ia procurar, como em ultima estancia, a sua cura na milagrosa reputação de Braz Luiz de Abreu.Chamava-se a doente D. Antonia da Piedade, e a filha D. Josepha Maria de Castro. Aquella senhora tinha visto muito mundo, queria contar ao seu medico extraordinarios lances da sua vida; mas as dores incessantes apenas lhe davam tempo para gemer, não obstante os esmerados disvelos do doutor. Os padecimentos recrudeciam, quando á pobre senhora lhe acudia a lembrança de que deixava n'este mundo sua filha desamparada, sem parentes, bem que ella os tivesse ricos.Bem quizera Braz Luiz, com a alma poetica e affectuosa que tinha, entrar no segredo d'aquellas duas vidas; mas as reservas das senhoras impunham respeito e calavam-lhe de prompto as investigações indelicadas. D. Josepha Maria tinha vinte e três annos; era formosa, extraordinariamente instruida, fallava a muito custo a lingua portugueza, e com sua mãe expressava-se sempre na lingua franceza. Braz Luiz de Abreu não se deteve a perguntar ao seu espirito se lhe convinha amal-a; amou-a impetuosamente, desde que a viu; amou-a perdidamente desde que a ouviu.D. Antonia falleceu no principio de novembro. As suas ultimas palavras á filha foram estas: «Perdoa-me ter-te eu dado o nascimento, desgraçada menina. Agora, que vae morrer a mulher maldita dos seus, vae tu procurar os teus parentes, e diz-lhes que não és culpada dos delictos de tua mãe.» Braz ouvira estas palavras, e disse, ajoelhando ao pé da filha:—Abençoae a nossa união.—Eu vos abençôo, meus filhos—murmurou a moribunda.IXPoeta e moralistaCasaram.As delicias do noivado agoiravam santos prazeres de toda a vida.O esposo entrou nos segredos d'aquella familia, imperfeitamente referidos por sua mulher, que os não sabia bem contar. O essencial da historia era ter ella sangue judaico, e ter nascido no desterro, onde se finou seu pae. Lances d'estes eram vulgarissimos n'aquelle tempo. Declarou ella que sua mãe não se chamava Antonia, nem o seu appelido era Castro. O mysterio, a perseguição, a formosura, a indole meiga, tudo cooperou a robustecer o amor de Braz Luiz, que, desde a hora de marido, começou a contar os seus dias de vida.Tinha vinte e seis annos elle. Mais que nunca lhe inundaram alma enchentes de poesia. Os sonetos rompiam como lavas e aos pares. Um conservou elle no seu livro de medicina. E que engenhosa maneira de mandal-oá posteridade! Como não era coisa bem cabida um soneto de amores conjugaes entre duas receitas para conservar os cabellos, attribuiu como feito aos cabellos de Maria Santissima o soneto com que eternisára as madeixas de sua mulher. Vejam como elle o diz, querendo encarecer a formosura de um opulento cabello: «Temos um heroico exemplo na Magdalena, que ainda dos mesmos cabellos, que lhe cresciam, formou toalha para enxugar os pés de Christo lavados com suas lagrimas... Veneremos a profunda humildade de Maria Santissima mysticamente figurada n'aquelle cabello admiravel, em o humilde discurso d'esteSONETO«Teus cabellos, teus olhos basta vel-os,Compondo o rosto teu, que ao sol prefere,Ó minha esposa, porque a fé venereA amorosa ambição de pretendel-os.«Nem porque muitos são chego a querel-os,Antes por qualquer um amor requere,Um dos olhos o coração me fere,Prende-me a alma um só d'esses cabellos.«N'um dos olhos por pura te comprehendes,N'um cabello a humildade sem refolhos,Dás a entender em symbolos bemquistos:«Por isso humilde e pura tu me prendes;Que se um dos olhos me entra pelos olhosUm dos cabellos me ata a olhos vistos.»23O soneto, para ser feito a Nossa Senhora, não é bom modelo para mysticos; porém, como brinde á estremecida Josepha, é o melhor de que eu tenho noticia, e ella, a meu ver, devia lisongear-se notavelmente.O que ella lhe deu melhor ainda do que o soneto foi uma filhinha, que chamaram Anna Maria, e no anno seguinte outra filhinha, que chamaram Maria da Natividade, e depois outra que se chamou Thereza de Jesus, e depois Antonia Maria, e depois Sebastiana Ignacia, e depois Agostinho Luiz, e depois Pedro José, e ultimamente Raphael, que morreu ao segundo mez de nascido. Ora aqui tem, leitor sensivel, um quadro perfeito de felicidade terreal: cinco filhas e dois filhos, vivos e robustos, em nove annos. Dito isto, por mais que me eu aprimorasse em recamos do estylo e maviosidades de sentimento no descrever as venturas d'aquella familia, tudo me sairia froixo e muito em sombra. As creancinhas são os anjos que pintam os quadros da vida intima com côres e instincto do céo. Quem quer dizer «suprema e indisivel felicidade» não tem mais que pôr: «eram dois paes amando-se muito com sete filhinhos entre elles a beijarem-n'os, a beijarem-se, e a chilrearem como avesinhas implumes em volta do ninho que lhes dá o aconchego da plumagem e do cibo.»Sem impedimento de sete filhos, fartos e aceiados, o doutor ia enriquecendo, e repartia seu tempo, roubado ás caricias da familia, entre os trabalhos de gabinete e visitas ás pessoas mais illustres e pecuniosas da terra. A fama dos seus bons costumes e religiosidade fallou por elle no tribunal da inquisição, quando lá chegou o requerimento documentado pedindo as honras de familiar do santo officio. Concederam-lh'as sem hesitação,porque os medicos, como senhores do arcano intimo das familias, eram os mais importantes sentinellas da pureza da fé. Não só os sãos costumes, que tambem um livro de summa piedade e vasta erudição, lhe ganharam as honras e privilegios de familiar. Este livro, publicado em 1725, e ainda hoje relido com devotos fervores por quem sabe gastar com acerto e bom juro o seu tempo, intitula-se «Sol nascido no occidente e posto ao nascer do sol. Santo Antonio portuguez. Epitome historico e panegyrico da sua admiravel vida e prodigiosas acções.» N'aquelle tempo, não houve livro que ousasse medir-se com as elegancias e pompas d'aquellein-folio, para o qual devêra inventar-se a eternidade, se ella não andasse já por ahi á disposição das obras inuteis.D. Josepha, posto que viesse de Paris quasi nada disposta a crer nos milagres de Santo Antonio, depois que leu a obra de seu marido, reduziu-se á pureza da fé catholica, e revalidou as ceremonias do baptismo, para se limpar de escrupulos. Não seria esta a razão efficiente; mas parecia ser.No anno seguinte, Braz Luiz saiu com outro volume de egual tamanho, bem que menos importante á salvação da alma. Todavia, choviam bençãos sobre o sabio que primeiro curava almas achacadas de vicios, e depois dava á humanidade enferma, como coisa secundaria, um livro que olhava a minorar-lhe os flagellos corporaes. Eis aqui o titulo d'este padrão da medicina portugueza: «Portugal medico, ou monarchia medico-lusitana. Historica, pratica, symbolica, ethica e politica. Fundada e comprehendida no dilatado ambito dos dois mundos creados, macrocosmo e microcosmo.» Estes dizeres podem chamar-se o cabeçalho do titulo, que se continuaem vinte linhas. Assim o declaro para que se não julgue da superficialidade da obra pela pequenez d'aquelle rotulo. Braz Luiz de Abreu dedica o seu livro ao principe do Brazil D. José Francisco, e assigna-semedico portuense e familiar do santo officio, assentando n'estas qualidades dois titulos á consideração publica.Este livro, a meu ver, é a mais pittoresca historia dos costumes d'aquelle seculo. Ninguem lê oPortugal Medico, e poucos sabem que desprezado thesouro alli está. Como author de livros de medicina é vilipendio nosso que Braz Luiz seja contado na lista dos escriptores medicos, de par com os Zacutos, com os Veigas, e com Jacob de Castro Sarmento; como relação das usanças do seculo XVIII, não ha novella nem poema satyrico em portuguez que lhe chegue á barba.Onde me dá o leitor a conhecer o que eram os medicos estrangeiros em Portugal? Quaes gazetas do tempo ou quaes poetas mordentes nos deixaram traços da chusma de charlatães, naturaes e peregrinos, que se locupletaram entre nós, favorecidos pela crassa bruteza a que tinha descido a faculdade medica em Portugal! Nenhum livro de prosa ou verso, nenhuma publicação coeva nol-o diz, exceptuado o livro obscuro ou escarnecido do Olho de Vidro.Para mim é de fé que o leitor, nem ainda peitado por estes encomios, vae folhear oPortugal Medico. Pois eu, mas que me alcunhem de impertinente, vou dar-lhe em traslado coisa pouca d'este curioso livro, que é mais historia que as chronicas dos Azuraras e Pinas, e mais comedia humana que as comedias de Gil Vicente e do Judeu.Ácerca dos medicos estrangeiros:«Enfada-se de ser soldado na Italia um romano; passa a Portugal, e constitue-se um famoso espagytico florentino. Foge da sua religião feito apostata um francez; aporta em Lisboa, e inculca-se por um insigne medico portuguez. Quebra em Hollanda um mercador; busca o nosso reino, e vende-se por um peritissimo physico hamburguez. E até entre os nossos o que é alveitar no Minho passa a ser medico no Algarve; o que é cirurgião na Extremadura vae buscar o gráo de doutor ao Alemtejo; e de boticario da Beira, se converte em Galeno de Traz-os-Montes; e d'esta sorte espalhados e desconhecidos, morrendo por viver da sua necessidade, vivem de matar com a sua medicina, e atormentando a todos sem piedade, ferem sem pena e matam sem castigo...«Desembarca em Lisboa, no Porto, ou em outra qualquer barra d'este reino um medico estrangeiro, não disse bem, um estrangeiro metido a medico; antes que ponha o pé em terra, já o bom do homem tem mandado encher as esquinas de editaes em que publica remedios infalliveis para todos os achaques... Entra-se um d'estes por casa de um illustre, de um nobre, de um ecclesiastico; mas nunca de um pobre; e se ha achaque na casa, começa logo o parabolano a desenrolar promettimentos, e que foi fortuna chegar elle a tempo em que podesse emendar o que os medicos tinham errado; porque a queixa só elle a conhecia, por ter já feito, similhante cura na pessoa do delfim de França, e vencido o mesmo achaque no principe Eugenio, ou em outro qualquer personagem d'este calibre; por que similhantes physicos nunca se fazem medicos ahi de qualquer tudesco de má morte; mas as suas experiencias sempretem sido observadas, ou nos palacios dos principes, ou no serralho do grão turco.«Começa um d'estes alchimistas a prometter e o pobre doente a pasmar. Se o achaque é uma ethica marasmada, diz-lhe: senhor, eu faço uma agua tão portentosa e de tão infallivel virtude, para esta sua queixa, que não só é capaz de restauricar ethicos, mas de resuscitar mortos. O cardeal de Rouen em Paris estava já mais magro do que um pisco em janeiro; tomou a mesma agua, e logo se poz mais gordo que um taralhão por agosto... É verdade que lhe custou do seu porque este remedio para se compôr leva duzentas moedas de ingredientes. Se vossemecê quer que eu lh'o faça venham as moedas; e, se não se achar bom, não me dará nada pela cura. A isto responde o doente que é muito dinheiro—Bom remedio (torna o estrangeiro) faremos por ora só metade da cura, e não vem vossemecê a gastar mais do que cem moedas. Ainda é muito? Pois venham cincoenta. Assim vae duvidando um e outro, e abatendo, até que o alchimista para não ir de todo em todo sem dinheiro, para comprar as drogas se resolve a fazer a cura por duas moedas; mas pede segredo ao doente, porque não quer fazer o seu remedio mal reputado. Vae para casa; põe a ferver dois almudes d'agua da fonte com um selamin de cevada, deita-lhe umas poucas de flores de papoulas, para tomar outra côr, e um arratel de assucar mascavado; compõe uma agua adocicada côr de fogo; enche quatro garrafões bem tapados com cortiça e lacre, e pilha duas moedas.»Prosegue Braz Luiz em muitas paginas em prosa e verso a critica zombeteira dos medicos mesinheiros, dos pseudo-medicos, dos barbeiros, das benzedeiras.Concluo o extracto com uma amostra da prosa, e outra da poesia. Qualquer das coisas denota o entranhado fervor com que o medico portuense saía de frente contra os charlatães em favor da humanidade.«Oh!—exclama elle—quantos e quantos medicos, lobos na condição, estou eu vendo espalhados pelos reicos da nossa monarchia, que não sabem mais que roubar e matar!... São estes ladrões e matadores publicos todos aquelles que sem o serem se fingem medicos. Oh! miseravel e desgraçada medicina! Como vejo trocados hoje os teus predicados nobilissimos! Já não és arte de curar, és atalho de morrer; já não emendas os vicios do corpo, extingues as virtudes da alma; já não és triumpho das queixas, és flagello das vidas; já não és sciencia, és ignorancia; já não és arte preclarissima, és claro e clarissimo latrocinio. Os teus methodos de curar são modos de viver; os teus aphorismos são gyrias; os teus textos são roubos; os teus remedios são mortes, e os teus brazões são sepulturas. Mas como não ha de ser assim, se são homens ignorantes e perdidos os teus professores? Fingem-se medicos os idiotas, os vagabundos, os judeus, os barbeiros, os soldados, os feiticeiros, os benzedores...»É christãmente louvavel o affoutamento e desprezo com que elle entala os judeus entre os vagabundos e barbeiros; faz, porém, tristeza ver n'isto a ingratidão com que elle malsina a raça d'aquelle Heitor Dias da Paz, que vinte annos antes lhe estabelecêra a pensão no real collegio de S. Paulo. Entristece ainda mais que elle se não condôa do pae de sua mulher, do avô de seus sete filhos, o hebreu desterrado, que, no dizer de D. Josepha, expirara exclamando:«Dêem-me um pouquinho de ar da minha terra, que eu não morrerei ainda!»Desculpe-se o ingrato aos israelitas, e lembre-se a gente do muito que elle devia á inquisição, que o fizera seu familiar, sem lhe averiguar a raça, até á quarta geração, condicional indispensavel na investidura d'aquella honra, honra n'este mundo, e segurança na conquista do outro, vista a somma de indulgencias com que os papas alimpavam a consciencia d'estes esbirros do santo officio.Desculpe-se-lhe ainda a feia culpa, em desconto da malquerença e odio com que os seus collegas leram o seguinte soneto:«Um, dois, trez, vinte, trinta, oitenta, cem,Mil, dez mil, vinte mil, seiscentos mil,Milhares de milhares (São frei Gil!)Quem poderá contar quantos cá vem?«Tanta gente sem conhecer ninguem!24Más caras! ruins aspectos! fórma vil!Nunca elles são de genio mais subtil,Se a cara testemunha o que ellas tem.«Ah! sim; já sei; uns mata-sanos sãoD'aquelles asneiroens que por hi ha,Que não sabem escolher o mal do bom.«Ah! quantos burros ha! (mais de um milhão?)Que sem saberem lêr ob a-Bá,Curam e matam por hi sem tom nem som?»Agora, vamos, por algum tempo, deixar Braz Luiz de Abreu com as suas prosas, com os seus poemas, e com o locupletar-se, por justo effeito da sua grande nomeada. Não cuidem que elle, á similhança dos poetas, de seu natural perdularios e desinteresseiros, tem em conta de pouco a paga das suas visitas. No tocante a estipendio de medicos, vejam como elle se declara: «Não faltam medicos na monarchia medica-lusitana, que por este modo vivam apostolicamente. Em muitas cidades, villas notaveis e povoações grandes d'este reino, é para os seus medicos muito pouco o sustento e immenso o trabalho. Na arithmetica medicinal d'esta monarchia, multiplicam-se as visitas, mas nunca se accrescentam as pagas: poucas vezes os medicos cuidam em sommar, porque nunca os doentes chegam a repartir. Trabalhar todos os dias, levantar-se a qualquer hora da noite, subir e descer escadas, ouvir queixas, soffrer impertinencias, examinar cloacas, receitar remedios, e revolver livros, isto sim; que para isso é burro: receber pagas, cobrar partidos, recolher avenças, e embolçar estipendios, isso não, que por isso é asno.»Engenhoso modo este de avisar os seus doentes remissos na paga, não por attenciosas cartas no fim do anno, mas por tres paginas de um livroin folio, das quaes trasladei algumas linhas, em obsequio aos medicos do tempo d'agora, e censura aos doentes que não pagam.XOs expatriadosTrinta e quatro annos antes, se o leitor se lembra, tinham fugido para a India, em uma náo mercantil, o doutor Francisco Luiz de Abreu e sua mulher, disfarçados em mercadores de drogas indostanicas.Assim que aportaram a Goa, antes que os quadrilheiros da inquisição os farejassem com aquelle olfacto d'elles, subtilissimo em esquadrinhar sangue judaico, apressaram-se em fugir do territorio portuguez. No primeiro navio britannico aproado á costa do Malabar, conseguiram os incognitos embarcar-se, e saltaram em Cochim, na cidade querida do grande Affonso de Albuquerque, qual, desde 1663, pertencia aos hollandezes. Estavam salvos.O doutor Abreu começou exercitando a medicina e o commercio, e auferindo mais ganancia da camphora, do beijoim e do chumbo, que da sciencia das drogas salutiferas. Corridos dois annos, como os bens de fortunalhe sobrassem, visto que já de Portugal saira com sobejos para viver meãmente, passou á Europa e estabeleceu-se em Hollanda.Aqui, recebido nos braços de centenares de portuguezes, voltou á profissão de medico, e poz os seus cabedaes a logro, com prosperos resultados. Hollanda era o paraizo terreal dos perseguidos hebreus. «Em parte nenhuma do mundo,—escrevia Daniel Lavi de Barros—gosam maior segurança que em Amsterdão, tanto pela liberdade de consciencia nas sete provincias unidas, como pela bondade de seus engenhosos habitantes.»25Hebreus portuguezes e hespanhoes tinham alli sua synagoga, independente dos israelitas de procedencia allemã. Foi a primeira edificada em Amsterdão, consoante o affirma Antonio Alvares Soares na suaSylva:La primera Synagoga AmstelodamaFundada fué del grand Jacob TiradoQue por su nombre Bet Jahacob la llama,I por el pueblo de Jacob sagrado.Tanto crescera a opulencia dos hebreus da peninsula hispanica,desde que a lerda piedade dos reis os expulsaram que, em menos de quatro annos, levantaram e consagraram em 1673, o mais soberbo edificio que ainda hoje sobreleva a todos de Amsterdão. No crer dos hebreus, aquelle templo era o milagre que Deus lhes havia promettido por Ezequiel: «Porque os puz longe entre as gentes, e porque os lancei dispersos por varios paizes,eu serei para elles um pequeno sanctuario dos paizes para onde forem.»26Francisco Luiz de Abreu, assim que se viu de assento e pouco menos de esquecido da patria, logo que a occasião se lhe amoldou, sem risco do seu amigo Moraes de Villa Flor, escreveu-lhe, pedindo-lhe a ida do filho de Antonio de Sá Mourão para Hollanda. O pae de Heitor Dias da Paz, respondendo á carta, pedia-lhe com lagrimas que lhe não tirasse o pequeno, porque, além de magoar penetrantemente seu filho, que o estremecia como irmão, podia ser que lhe tolhesse o futuro, ou, com a ida, suggerisse á inquisição suspeitas e aparelhasse desgraças para os que lhe estavam debaixo da vista fulminante.Relatava-lhe a perseguição que os Oliveiras de Ourem estavam soffrendo, desde a fuga na náo da carreira da India, e o certo perigo que corria a creança, se levissimas suspeitas o indigitassem como filho de Francisco de Abreu.O medico desvaneceu as esperanças da sua mulher, que era a mais fervorosa em pedir o seu filho adoptivo. D'esta correspondencia nem palavra Francisco de Moraes revelava á creança, por medo que a indiscrição propria dos annos acareasse desconfianças da espionagem, que sem treguas espreitava os actos dos judeus abastados. Moraes pedia ao seu amigo que lhe escrevesse pouco e com muita segurança, para que as suas cartas não tivessem destino egual ás de Pedro Lopes, residente em Damasco.Senhor do seu tempo e liberdade, o doutor Francisco Luiz foi a França inquirir de novo informações de Antonio de Sá. Nada adiantou ás colhidas pelo joalheiro de Villa Flor. O navio, que navegava para o Canadá, parecia que as ondas o tinham engulido e pulverisado nas profundezas dos seus abysmos. Nem a mais ligeira suspeita de que existisse um folego vivo d'aquella náo, a não ser que as duas galeotas de flibusteiros, então ancoradas na costa de S. Domingos, podessem dar noticia do naufragio.Recolheu o doutor a Amsterdão com as esperanças de todo perdidas.Seis annos decorridos, chegou á familia dos Moraes, residente em Hollanda, a nova de estar nos carceres da inquisição de Lisboa Heitor Dias da Paz. Foi grande luto e choro nas familias portuguezas de Amsterdão, entre as quaes tinha sido creado e educado o mocinho. Abriram-se as synagogas, e prostraram-se os de Israel, pedindo ao seu Deus que lhes redimisse da morte affrontosa do garrote e do fogo o mancebo, cuja genealogia promanava já da tribu de Levi. Bem sabiam elles que Heitor Dias da Paz havia de morrer profitente da lei de Moysés, e sómente por milagre do Senhor poderia salvar-se de morrer queimado.Quando chegou a Hollanda a noticia do suicidio de Francisco Moraes Taveira e da imperterrita morte de seu filho, estes nomes gloriosos nas dypticas da nação fiel foram inscriptos no martyrologio hebreu. Assim o tinha sido o do medico Silva, que, apoz treze annos de carcere, fôra queimado em Lima, no anno de 1693, e, ao tempo que o fogo o devorava, um pegão de vento esboroouo tribunal onde elle havia sido condemnado.27Assim fôra santificado um judeu portuguez, o qual, apenas a fumarada da fogueira lhe levou aos pulmões as primeiras agonias, desataram-se-lhe os ferros, e foi arrebatado por um anjo, a tempo que os algozes exclamavam que o diabo o transportava em corpo e alma. Deus, para salvar o seu servo das angustias do supplicio horrendo, o arrancara d'entre as chammas, segundo o asseverado nas actas dos martyres. Não menos illustres em santidade eram para os hebreus o religioso da Assenção, queimado em Lisboa no anno de 1603, e o medico Sobremont, suppliciado em Lima, depois de vinte e dois annos de masmorra. NaSylva, de Antonio Alvares, vem commemorada assim a crucificada vida d'aquelle martyr:
Oh, medico! se és medico com effeitoProcura mundo14ser, mas não mundano;Que de Apollo o caracter soberanoNão anima nos vicios o respeito.Bebe o cão, bebe tu; mas com tal geitoQue o crocodilo do rumor profanoQuando vás a beber do Nilo humanoNão possa devorar teu bom conceito.Em teu ornato a modestia nunca falte,Um pouco mais ao grave do que ao lindo;Que assim obra quem douto assim discorre.
Bebe o cão, bebe tu; mas com tal geitoQue o crocodilo do rumor profanoQuando vás a beber do Nilo humanoNão possa devorar teu bom conceito.
Em teu ornato a modestia nunca falte,Um pouco mais ao grave do que ao lindo;Que assim obra quem douto assim discorre.
E porque a tua fama mais se exalte,Visita a modo de quem vae fugindo,Como do Nilo o cão, que bebe e corre.15
O desgracioso da musa do Olho de Vidro está delatando que o poeta, se não era menos de pedestre, poetava violentando sua indole. O natural d'elle era outro. A meu juizo, tanta prudencia e bom conselho no mais verde da mocidade, argue um aliás louvavel cuidado de se fazer bemquisto aos homens graves do seu tempo. É, de mais d'isso, muito provavel que o medico se temesse de que os rafeiros do santo officio lhe andassem farejando o sangue; e elle, a contas com a consciencia propria, duvidava da pureza de seus incognitos paes, ao lembrar-se do ritho hebraico dos bemfeitores de Villa Flor. Se os elle não conhecia, quem lhe asseverava que a inquisição os não conhecesse? Se lhe pedissem a certidão do baptismo, onde iria elle esquadrinhal-a?
Quer fosse sisudeza, quer hypocrisia, Braz Luiz de Abreu, que então contava vinte e cinco annos, assim que o amor lhe abriu o peito com seus magicos dedos, sacudiu a canga do artificio e mostrou-se homem genuino. Deu elle tento de que os seus collegas todos eram familiares do santo officio, e todavia amavam a rosto descoberto; e, nas casas onde entravam, contra a prescripção do soneto, não procediam exactamente
Como do Nilo o cão, que bebe e corre.
Ora, como elle, de espaço, fosse vendo que a inquisição vivia despreoccupada d'aquelles cães do Tejo que bebiam muito devagar, bandeou-se com elles, e atirou o coração ás tempestades dos vinte e cinco annos, resalvadas as apparencias.
A primeira dama que se quiz senhorear da alma doseu medico, era uma fidalga quarentona, ainda vistosa, affeita a ser beijada na face por bons galans que se ajoelharam diante d'ella até aos trinta annos, e se purificaram da idolatria, desde que as flores do rosto, desbotadas pelo caio, e os cabellos ressequidos pelo ferro se foram despegando d'aquella cabeça rica de formosas tradições. Estava literalmente calva.
D. Claudia da Silveira, logo que se julgou encarada voluptuariamente pelo olho unico do seu medico, levou a mão ao peito e sentiu-se arder. Desde essa hora os achaques eram tantos e tamanhos que Braz Luiz escassamente se podia desobrigar de acudir-lhe tres vezes por dia com agua de Inglaterra, com pedra cordeal de Gaspar Antonio, ou com agua de lingua de vacca, antidotos de sua predilecção contra os estherismos e enchaquecas da senhora D. Claudia da Silveira.
A dama, cada vez mais enfermissa, tornára-se a desesperação da medicina gallenica. Dos linimentos á chaga interna que lhe cancerava as entranhas, um sómente dera satisfatorio resultado: era a presença do medico, o tatear d'elle no pulso arreado de manilhas, o apalpal-a nas costellas sobre e sub-jacentes ao coração. No coração nomeadamente é que ella dizia ter a morte, o morder e repuchar de dentes e garras do que quer que fosse. Resolveu o doutor que lhe dessem uma untura anodyna sobre a parte magoada. Resistiu a dama, quando viu a aia arremangar-se para o acto, e exclamou, repellindo a criada:
—Não consinto mãos estranhas no meu corpo! Antes a morte!
Braz Luiz de Abreu empenhou calorosas razões a persuadil-a, cuidando sinceramente que a dama soffriadolorosissimas palpitações. Da austeridade de medico passou ás branduras de amigo que muito lhe devia, porque a paga era mais que prodiga, e chegou a pedir-lhe consentimento para ser elle quem lhe friccionasse o seio.
Muito rogada e como incendida em pudor virginal, consentiu D. Claudia, referindo a sua condescendencia não tanto ao amor da vida, como ao horror de morte assim atribulada.
O leitor conhece decerto aquella passagem de um livro do padre Manuel Bernardes, em que se conta o caso de S. Effrem estar com uma das mãos untando o peito de uma formosissima mulher, que tinha parte de demonio tentador do santo, emquanto assentava a outra mão sobre um brazeiro para ir assim com as dores quebrantando os ímpetos da materia bruta, asfervenças da carne, como n'outro caso diz o mesmo padre oratoriano.
D. Claudia da Silveira verdadeiramente não tinha parte de demonio; porque o medico lhe deu a untura anodyna com tanta serenidade e quietação de corpo e alma, que só isso lhe bastaria a ganhar o céo, se a mulher fosse documento para merecel-o e argumento para pedil-o.
Operou o linimento muito devagar, segundo o medico ia entendendo da brandura dos ais e alquebramento da enferma. Afinal, cessaram de todo os gemidos por um suspirar descançado que parecia descair em dormir restaurador das forças extenuadas.
Braz Luiz de Abreu ficou vaidoso do seu triumpho, e despediu-se da dama, que lhe acenou de mão e cabeça tão levemente como quem a custo o fazia, vencida do turpor do somno.
Assim que elle voltou costas, D. Claudia sentou-se na cama, bracejou enraivecida, e despregou a murros phreneticos uma cortina adamascada que lhe ondeava por sobre o espaldar do leito.
Accudiu a aia a querer continuar a untura. A fidalga quiz atirar-lhe á cara com a taça do anodyno, e sentiu-se sinceramente febril.
A aia avisou o fidalgo, cunhado de sua ama, d'aquellas furias em que estava a senhora. O fidalgo, avesado a taes manhas, respondeu com magnanimidade indicativa da probidade austera d'aquella familia:
—Manda-lhe chamar o Olho de Vidro.
—Mas elle ainda agora saiu, senhor!
—Não importa: que torne a entrar, que torne a sair, que entre de novo, que faça o que ella quizer, comtanto que eu não ature minha cunhada Claudia.
Assim se fez.
Braz Luiz acabava de entrar no seu gabinete, para escrever no caderno de observações a rapida cura das convulsões de coração de D. Claudia com unturas de enxundia de pato e oleo de assucenas, quando um lacaio dos Silveiras o chamou a toda a pressa para a fidalga.
O medico praguejou mentalmente contra a sua dadivosa doente; mas foi.
Encontrou-a convulsiva e escarlate, debatendo-se n'uma poltrona. Era ainda a dôr do coração que lhe estava destroçando o peito. Fallou o doutor em ventosas sarjadas. A dama expediu in continente (sem calemburgo) tres gritos estridulos contra as ventosas.
—Pois não, minha senhora!—accudiu o medico—não faremos uso das ventosas, até mesmo porque a convulsãose vae distendendo aos membros, e receio que se torne geral. Eu vou receitar; mas requer tempo o preparado do remedio. Senhora Anacleta—continuou o doutor voltando-se para a criada grave—mande procurar um pato gordo; ordene que o matem, depennem, e limpem das entranhas; e depois remetta-se o pato ao boticario com a receita que vou escrever16.
RECIPE. Recheie o pato com salva, mangerona an. Manip. j. gomma amoniaco e Bedelio an unc j. Calamo aromatico, noz moscada, flôr da mesma, e cravinhos da India an. unc. semiss. o que tudo primeiro se pize em almofariz, e se amasse com oleo de minhocas, e assim se introduza no ventre do pato, que se coserá com linha, se ponha a assar, e o que destilar se receba em um vaso meio de vinagre, com cujo pingo e gordura se unte o coração.ABREU.
RECIPE. Recheie o pato com salva, mangerona an. Manip. j. gomma amoniaco e Bedelio an unc j. Calamo aromatico, noz moscada, flôr da mesma, e cravinhos da India an. unc. semiss. o que tudo primeiro se pize em almofariz, e se amasse com oleo de minhocas, e assim se introduza no ventre do pato, que se coserá com linha, se ponha a assar, e o que destilar se receba em um vaso meio de vinagre, com cujo pingo e gordura se unte o coração.
ABREU.
Depois, sentando-se ao pé da doente algum tanto melhorada das convulsões, ajuntou:
—Se este admiravel remedio não produzir o almejado effeito, asseguro a vossa senhoria que em casos analogos me tenho dado excellentemente com os banhos de azeite puro, e melhor será se antes se tiver cozido n'elle uma raposa17.
—Uma raposa, doutor!—exclamou a dama engulhosa—uma raposa! Que immunda coisa!... Onde hei de eu ir buscar a raposa?
—Que desejará vossa senhoria que não appareça, minha senhora! Qualquer caseiro das suas terras do Alemtejo ou Beira, com ordem de vossa senhoria, caçará raposas, que são mirificamente medicinaes.
—Anjo bento! raposas medicinaes!...—volveu D. Claudia, e abriu um sorriso jovial, á volta com um gemido, como se o picar subito da dôr a não deixasse rir francamente.
—Parece-me que está mais alliviada...—disse o medico.
—Um poucachinho...
—Pois as virtudes da raposa são miraculosas, minha senhora—proseguiu elle, confiado na efficacia da distracção.—A lingua da raposa trazida ao pescoço reforça a vista. As mãos d'ella trazidas ao pescoço preservam do quebranto.18
—Do quebranto!...—murmurou D. Claudia da Silveira—Ai! doutor, ha quebrantos sem cura! Ha arêjos que em pegando da gente o remedio é morrer.
—Feitiçarias, quer dizer vossa senhoria? Não é tanto assim. Contra esses temos os prodigiosos alexipharmacos da santa egreja catholica.
—Bem sei, bem sei—balbuciou a dama, com piedoso gesto.—Não é d'esses que eu tenho medo. O meu santo Antonio me defenderá... Ha coisas peiores do queisso n'este mundo... coisas que fazem perder a cabeça á creatura mais ajuizada. Tenções e protestos não montam nada. Que me faz a mim dizer: não hei de pensar mais n'isto ou n'aquillo? Apega-se a gente com todos os santos. Fazem-se rezas e promessas. Lembra-se tudo quanto ha de máo... E, chegada a occasião, tanto faz como nada! Ai!—suspirou ella, pondo as mãos ambas sobre o coração.—Ai!... pobres mulheres!... Só vós sois as fracas... as peccadoras... não é assim doutor?
Braz Luiz de Abreu, que n'este lanço estava espreitando de soslaio uns olhos que o espreitavam por entre o reposteiro—os olhos da engraçada e trigueira aia de D. Claudia—por pouco não é surprehendido pelo relance da fidalga, que o fitou muito no rosto, com ar interrogador.
—É assim, minha senhora, é assim—balbuciou elle.
—É assim, é—tornou ella—E que remedio sabe vossemecê para estes quebrantos, doutor?
—É conforme...—tornou Braz Luiz, sem atinar com a resposta conveniente, porque só n'aquelle instante percebera, com despeito de sua vaidade de medico, a enfermidade da fidalga.
—É conforme, disse vossemecê doutor...—volveu ella, anciosa de entender as reticencias.
—Sim, minha senhora... Ha varios modos de possessão, além dos conhecidos nas demoographias...
—Mão entendo isso—atalhou a fidalga—Pois a paixão d'alma tambem é feitiço?
—Se não é...—balbuciou o doutor.
—Leva as mesmas voltas—accudiu prestes D. Claudia, e proseguiu expondo com pouquissimo resguardode sua honestidade as diabruras que o amor tinha feito em senhoras de sua amizade, não poupando na relação das taes diabruras secretas as suas mais proximas consanguinaes, e algumas impudicicias muito reconditas da côrte da primeira mulher de D. Pedro II, com a qual vivera nos primeiros annos de sua mocidade.
Ao correr d'esta narrativa, D. Claudia reparou no abstrahimento do medico, cujo olho, de instante a instante, punha fito ao reposteiro, e como que procurava pascer-se deleitosamente em qualquer cousa de fóra.
Assim prevenida e desconfiada, esperou azo, voltou a cabeça ao lado opposto da porta, retorceu-a rapidamente de novo olhando ao local suspeito, e entreviu a cabeça da sua criada grave Anacleta, por quem doidejavam quantos fidalgos novos e encanecidos a visitavam.
—Olé!—exclamou ella, erguendo-se de salto—Agora entendo!—E, correndo ao reposteiro, afastou-o de repellão, e disse iracunda:
—Anacleta! já hoje não dormes n'esta casa. Rua! Não quero testemunhas nem espiões do que se diz no meu quarto. Rua!
E, tornando com solemne passo para junto de Braz Luiz de Abreu, que assistia corrido áquelle conflicto, disse-lhe:
—E a hypocrisia de vossemecê, senhor doutor!... A feitiçaria da minha criada tambem se cura com os prodigiososnão sei que(o doutor tinha dito «alexipharmacos») da santa egreja catholica? Que hypocritas são estes medicos!...
E cacarejou uma risada secca.
—Pois que?!—tartamudeou o doutor, enleado até á irrisão.
—Eu logo vi!...—disse a fidalga, como em praticas de soliloquio comsigo mesma.—A promptidão das visitas... está explicada... Assim devia ser. Lé com lé, não falha o dictado. Cuidei que as minhas criadas serviam sómente aos meus criados. Bons tempos, em que os medicos se não sujavam com amores de servilhetas...
—Oh! senhora D. Claudia!—atalhou o pundonoroso doutor—vossa senhoria está-me insultando... perdoe-me dizer-lh'o, porque nunca cuidei de dizer isto a pessoa de sangue tão illustre... E, de mais, cavalheiro que tal diz a uma dama, não deve mais voltar á presença d'ella.
E, tomando o chapéo e bengala, fez uma arqueada cortezia.
—Faça o que quizer, doutor!—disse ella abespinhada, com o nó esterico nos gorgomilos—Faça o que quizer que vossemecê se arrependerá...
Braz Luiz de Abreu saiu offegante de despeito e tedio de D. Claudia da Silveira.
—Que tal está a pellada!—dizia elle de si para comsigo—A impudica!... E eu dar-lhe as unturas com a boa fé do mais soez enfermeiro! Chibata é que ella precisava nos lombos ociosos!...
Passados alguns dias, differentes pessoas da intimidade do doutor lhe segredavam que D. Claudia fazia correr que elle fôra expulso da casa dos Silveiras, porque andava cortejando a aia grave da fidalga, sem respeito ao que devia á illustre enferma, e ao que devia á sua dignidade de medico. Os amigos aconselhavam-n'o, se queria ser recebido em casas de primeira plana, abster-se de galantear criadas, principalmente se as amas, como D. Claudia, queriam ser antepostas ás suas servas.
A calumnia era toleravel, porque em verdade, a frescalhona Anacleta era uma das sete criadas graves, para as quaes o doutor olhava com a fixidez de quem só tem um olho. Assanhou-o, porém, o susto de ver-se banido das casas, onde tinha os seus prezadissimos, bem que faceis amores, afóra as doentes mais rendosas.
O ciume de Claudia mais o exasperou ainda; por que a historia, em que elle figurava ridiculo, era contada entre as familias ás gargalhadas. Enraivecido, cogitou na imprudencia de fazer rir os amigos á custa da fidalga. Figurou-se-lhe que o mais contundente látego era a satyra em verso. Não teve amigo que lhe aconselhasse juizo e discrição, como convinha á gravidade do seu officio, e ao melindre da poderosa parentela de D. Claudia. Escreveu, e deu copias a diversos amigos das seguintes quadras:
A UMA PELLADAMulher, n'esse teu desgarro...
Convém saber, antes de ir ávante, que D. Claudia, como se quizesse attrahir aos pés a attenção das pessoas, que lhe reparavam na cabeça, costumava estar sempre calçada de sapatos bordados a fio de ouro. As mais fidalgas chanceavam-n'a, na ausencia, por causa dos sapatos, e propalavam que o Olho de Vidro se deixára algum tempo fascinar dos aureos chapins da escalvada dama. Sabido isto, não ha já commentarios que aditar á poesia.
Mulher, n'esse teu desgarro,Um Nabuco ás vessas és;Porque, tendo d'ouro os pés,Tens a cabeça de barro.Se alguma pedra traveçaTe quizesse derrubarEra preciso acertarMais que nos pés na cabeçaPor que, se pelo mais fracoEstalla a corda mais grossa,Quem quizer que estalles,moça,Ha de cascar-te no caco.Mais flammantes do que um ouro,Mais liza do que uma ostra,A cabeça a coura mostra,Os pés vão mostrando o couro.Dize-me com que destino,Mesclas n'essa estatua vanEntre affectos de christanHeresias deCalvino?Sem monho, e com cara alvaSahes a toda a occasião;E vejo que tens rasão,Porque a occasião é calva.Sendo mal encabellada,Para que andas, dize, á pella,Se ninguem por ti se pellaPor mais que venhas pellada?Vae-te, e pede a Deus, ó louca,Que te dê com toda a pressa,Cabellos para a cabeçaEm vez de pão para a boca.Ao padre nosso á porfiaPede que te encabellise;E em vez depão nosso, dize:Cabellos de cada dia19.
Multiplicaram-se as copias e as gargalhadas; não tardou, porém, que sobreviessem os despeitos, por que muitas familias, que tinham rido, estavam aparentadas com D. Claudia. Chegou á noticia da dama a zombaria. Foi tanto mais funda a punhalada quanto ella amava ainda o doutor. Odiou-o de morte; não relevava, porém, a soberba da fidalga que ella se désse por ultrajada.
Conjuraram, de repente as familias de melhor lote contra Braz Luiz. Os amigos evitavam-no com subterfugios. Os inimigos, collegas d'elle, deploravam que um seu consocio no sagrado mister da medicina os desdourasse. A tempo conheceu o doutor que tinha caido em descredito: e mêdo tambem de cair trespassado por algum fidalgo estoque não lhe faltou.
Fez logo conta de sair de Lisboa, cortando por fibras muito sensiveis do peito. Do plano á execução mediou algum pouco tempo, em que Braz Luiz, recolhendo alta noite, esteve a pique de ser assassinado por uma arcabuzada, cujos pelouros lhe crestaram os bofes da camisa.
Desappareceu o Olho de Vidro de Lisboa, e estanceou alguma temporada por Coimbra, onde assistiu á impressão de um seu livro em castelhano, intituladoAguilas hijas del sol, que buelan sobre la luna. Representacion comica, tragica, triumphal de la inmorable victoria gloriosamente alcançada por las aguilas impiriales contra las nocturnas aves ottomanas en el campo de Peter-Varadin, dia 5 de agosto año 1716.20
A mim contentou-me a leitura do titulo, e dispensei-me de ver o restante para ir jurar que deve ser sobre-excellente um livro que se chamaAguias filhas do sol, que voam sobre a lua. E, como se isto não fosse já recommendação á obra, acresce-lhe o merecimento de serrepresentação comica, tragica e triumphante. Um livro assim, e os applausos com que a peninsula provavelmente o victoriou, deviam ser para o doutor larga compensação dos dissabores com que saira de Lisboa. Não ha ahi chaga em peito de homem illustrado que resista ao balsamo do talento.
Passou Braz Luiz de Abreu ao Porto, fazendo tenção de estabelecer-se na segunda cidade do reino. Deteve-se em Aveiro alguns dias; e passeando scientificamente pelos arrabaldes da villa, descobriu a planta do chá, nascida em barda por aquelles maninhos. Consta-me que os aveirenses, de certo ignorantes do descobrimento do medico, ainda agora compram para seu uso o chá da China, como se não tivessem alli á mão a erva de que elle se faz. Aqui lhe transcrevo as palavras de Braz Luiz, e muito faço em prova do meu desprendimento de bens de fortuna, se não iria eu propriamente colher a erva, comprar os maninhos, e senhorear-me de Aveiro em poucos annos. Aqui está a noticia: «Na villa de Aveiro, e em todas as suas visinhanças nasce uma erva, a que os naturaes chamamerva formigueira, porque pisada tem o cheiro como de formigas pisadas; e a ha em tanta quantidade que podem carregar-se navios d'ella. Esta tal (ao meu entender) é o verdadeirocháque vem da China e do Japão; não só porque a experiencia descobre n'ella as mesmas virtudes dochá; mas tambem porque mandando-se da Indiaa Gonçalo de Sousa de Menezes, morador na sua quinta de Salreo, a semente do legitimo chá, elle a mandou semear com todo o cuidado, e nasceu a mesma erva de que aqui se acham revestidos os campos e os comaros.»21
Não ha duvida nenhuma: o chá da India é aerva formigueira de Aveiro. E dizem que nós, os portuguezes, não somos gente para descobrimentos! O que nós somos é uns prodigos e despreciadores dos mananciaes de riqueza que a Providencia nos offerece como a filhos seus dilectissimos. Se alguma companhia entrasse em exploração d'aquella mina, quem sabe se, fechados os portos á erva indiatica, poderiamos ainda com o nosso chá amortisar a divida externa, e metter a Europa n'uma infusão de erva formigueira? Razão tinha o patriota doutor Olho de Vidro, quando em seguida á noticia, que os coevos menosprezaram, ajuntou: «Quem quizer indagar-lhe os prestimos, com facilidade o póde fazer, se acaso não fôr do genio d'aquelles que fazem eterno capricho de preferir sempre as coisas estrangeiras ás nacionaes e domesticas.»
Transferiu-se Braz Luiz para o Porto, ao começar o anno de 1718. Estreiou-se auspiciosamente. Açambarcou a clinica dos mais acreditados, e manteve-se com recato e honra no tocante ás venialidades do coração, tomando em conta o muito que lhe importava desmentir a má fama grangeada em Lisboa.
No fim de seis mezes, offereciam-se-lhe vantajosos enlaces com raparigas bonitas de sua pessoa, rubras esadias d'aquelle antigo sangue e pojante saude do Porto, e demais a mais, ricas, das mais ricas das ruas dos Pellames, Congostas e Mercadores.
Não se atrigou com a felicidade das propostas. Sobrava-lhe dinheiro, estipendio das suas curas estupendas com inxundia de pata, olhos de minhocas, agua benedicta de Rulando, olhos de caranguejo e esterco de rato fresco.22O coração cedia á freima com que elle trazia empunhada a cabeça em estudos medicos, estudos poeticos, toda a casta de sciencia, como sujeito que tinha em vista a immortalidade, de que a sua memoria, se está gosando e gosará, emquanto o seuPortugal Medico, e a suaVida de Santo Antonioe este meu romance forem livros conspicuos.
Em outubro de 1718, chegou ao Porto uma senhora da Beira Alta, muito adoentada, trazendo em sua companhia uma filha. A enferma, desenganada pelos medicos na sua terra, ia procurar, como em ultima estancia, a sua cura na milagrosa reputação de Braz Luiz de Abreu.
Chamava-se a doente D. Antonia da Piedade, e a filha D. Josepha Maria de Castro. Aquella senhora tinha visto muito mundo, queria contar ao seu medico extraordinarios lances da sua vida; mas as dores incessantes apenas lhe davam tempo para gemer, não obstante os esmerados disvelos do doutor. Os padecimentos recrudeciam, quando á pobre senhora lhe acudia a lembrança de que deixava n'este mundo sua filha desamparada, sem parentes, bem que ella os tivesse ricos.Bem quizera Braz Luiz, com a alma poetica e affectuosa que tinha, entrar no segredo d'aquellas duas vidas; mas as reservas das senhoras impunham respeito e calavam-lhe de prompto as investigações indelicadas. D. Josepha Maria tinha vinte e três annos; era formosa, extraordinariamente instruida, fallava a muito custo a lingua portugueza, e com sua mãe expressava-se sempre na lingua franceza. Braz Luiz de Abreu não se deteve a perguntar ao seu espirito se lhe convinha amal-a; amou-a impetuosamente, desde que a viu; amou-a perdidamente desde que a ouviu.
D. Antonia falleceu no principio de novembro. As suas ultimas palavras á filha foram estas: «Perdoa-me ter-te eu dado o nascimento, desgraçada menina. Agora, que vae morrer a mulher maldita dos seus, vae tu procurar os teus parentes, e diz-lhes que não és culpada dos delictos de tua mãe.» Braz ouvira estas palavras, e disse, ajoelhando ao pé da filha:
—Abençoae a nossa união.
—Eu vos abençôo, meus filhos—murmurou a moribunda.
Casaram.
As delicias do noivado agoiravam santos prazeres de toda a vida.
O esposo entrou nos segredos d'aquella familia, imperfeitamente referidos por sua mulher, que os não sabia bem contar. O essencial da historia era ter ella sangue judaico, e ter nascido no desterro, onde se finou seu pae. Lances d'estes eram vulgarissimos n'aquelle tempo. Declarou ella que sua mãe não se chamava Antonia, nem o seu appelido era Castro. O mysterio, a perseguição, a formosura, a indole meiga, tudo cooperou a robustecer o amor de Braz Luiz, que, desde a hora de marido, começou a contar os seus dias de vida.
Tinha vinte e seis annos elle. Mais que nunca lhe inundaram alma enchentes de poesia. Os sonetos rompiam como lavas e aos pares. Um conservou elle no seu livro de medicina. E que engenhosa maneira de mandal-oá posteridade! Como não era coisa bem cabida um soneto de amores conjugaes entre duas receitas para conservar os cabellos, attribuiu como feito aos cabellos de Maria Santissima o soneto com que eternisára as madeixas de sua mulher. Vejam como elle o diz, querendo encarecer a formosura de um opulento cabello: «Temos um heroico exemplo na Magdalena, que ainda dos mesmos cabellos, que lhe cresciam, formou toalha para enxugar os pés de Christo lavados com suas lagrimas... Veneremos a profunda humildade de Maria Santissima mysticamente figurada n'aquelle cabello admiravel, em o humilde discurso d'este
SONETO«Teus cabellos, teus olhos basta vel-os,Compondo o rosto teu, que ao sol prefere,Ó minha esposa, porque a fé venereA amorosa ambição de pretendel-os.«Nem porque muitos são chego a querel-os,Antes por qualquer um amor requere,Um dos olhos o coração me fere,Prende-me a alma um só d'esses cabellos.«N'um dos olhos por pura te comprehendes,N'um cabello a humildade sem refolhos,Dás a entender em symbolos bemquistos:«Por isso humilde e pura tu me prendes;Que se um dos olhos me entra pelos olhosUm dos cabellos me ata a olhos vistos.»23
SONETO
O soneto, para ser feito a Nossa Senhora, não é bom modelo para mysticos; porém, como brinde á estremecida Josepha, é o melhor de que eu tenho noticia, e ella, a meu ver, devia lisongear-se notavelmente.
O que ella lhe deu melhor ainda do que o soneto foi uma filhinha, que chamaram Anna Maria, e no anno seguinte outra filhinha, que chamaram Maria da Natividade, e depois outra que se chamou Thereza de Jesus, e depois Antonia Maria, e depois Sebastiana Ignacia, e depois Agostinho Luiz, e depois Pedro José, e ultimamente Raphael, que morreu ao segundo mez de nascido. Ora aqui tem, leitor sensivel, um quadro perfeito de felicidade terreal: cinco filhas e dois filhos, vivos e robustos, em nove annos. Dito isto, por mais que me eu aprimorasse em recamos do estylo e maviosidades de sentimento no descrever as venturas d'aquella familia, tudo me sairia froixo e muito em sombra. As creancinhas são os anjos que pintam os quadros da vida intima com côres e instincto do céo. Quem quer dizer «suprema e indisivel felicidade» não tem mais que pôr: «eram dois paes amando-se muito com sete filhinhos entre elles a beijarem-n'os, a beijarem-se, e a chilrearem como avesinhas implumes em volta do ninho que lhes dá o aconchego da plumagem e do cibo.»
Sem impedimento de sete filhos, fartos e aceiados, o doutor ia enriquecendo, e repartia seu tempo, roubado ás caricias da familia, entre os trabalhos de gabinete e visitas ás pessoas mais illustres e pecuniosas da terra. A fama dos seus bons costumes e religiosidade fallou por elle no tribunal da inquisição, quando lá chegou o requerimento documentado pedindo as honras de familiar do santo officio. Concederam-lh'as sem hesitação,porque os medicos, como senhores do arcano intimo das familias, eram os mais importantes sentinellas da pureza da fé. Não só os sãos costumes, que tambem um livro de summa piedade e vasta erudição, lhe ganharam as honras e privilegios de familiar. Este livro, publicado em 1725, e ainda hoje relido com devotos fervores por quem sabe gastar com acerto e bom juro o seu tempo, intitula-se «Sol nascido no occidente e posto ao nascer do sol. Santo Antonio portuguez. Epitome historico e panegyrico da sua admiravel vida e prodigiosas acções.» N'aquelle tempo, não houve livro que ousasse medir-se com as elegancias e pompas d'aquellein-folio, para o qual devêra inventar-se a eternidade, se ella não andasse já por ahi á disposição das obras inuteis.
D. Josepha, posto que viesse de Paris quasi nada disposta a crer nos milagres de Santo Antonio, depois que leu a obra de seu marido, reduziu-se á pureza da fé catholica, e revalidou as ceremonias do baptismo, para se limpar de escrupulos. Não seria esta a razão efficiente; mas parecia ser.
No anno seguinte, Braz Luiz saiu com outro volume de egual tamanho, bem que menos importante á salvação da alma. Todavia, choviam bençãos sobre o sabio que primeiro curava almas achacadas de vicios, e depois dava á humanidade enferma, como coisa secundaria, um livro que olhava a minorar-lhe os flagellos corporaes. Eis aqui o titulo d'este padrão da medicina portugueza: «Portugal medico, ou monarchia medico-lusitana. Historica, pratica, symbolica, ethica e politica. Fundada e comprehendida no dilatado ambito dos dois mundos creados, macrocosmo e microcosmo.» Estes dizeres podem chamar-se o cabeçalho do titulo, que se continuaem vinte linhas. Assim o declaro para que se não julgue da superficialidade da obra pela pequenez d'aquelle rotulo. Braz Luiz de Abreu dedica o seu livro ao principe do Brazil D. José Francisco, e assigna-semedico portuense e familiar do santo officio, assentando n'estas qualidades dois titulos á consideração publica.
Este livro, a meu ver, é a mais pittoresca historia dos costumes d'aquelle seculo. Ninguem lê oPortugal Medico, e poucos sabem que desprezado thesouro alli está. Como author de livros de medicina é vilipendio nosso que Braz Luiz seja contado na lista dos escriptores medicos, de par com os Zacutos, com os Veigas, e com Jacob de Castro Sarmento; como relação das usanças do seculo XVIII, não ha novella nem poema satyrico em portuguez que lhe chegue á barba.
Onde me dá o leitor a conhecer o que eram os medicos estrangeiros em Portugal? Quaes gazetas do tempo ou quaes poetas mordentes nos deixaram traços da chusma de charlatães, naturaes e peregrinos, que se locupletaram entre nós, favorecidos pela crassa bruteza a que tinha descido a faculdade medica em Portugal! Nenhum livro de prosa ou verso, nenhuma publicação coeva nol-o diz, exceptuado o livro obscuro ou escarnecido do Olho de Vidro.
Para mim é de fé que o leitor, nem ainda peitado por estes encomios, vae folhear oPortugal Medico. Pois eu, mas que me alcunhem de impertinente, vou dar-lhe em traslado coisa pouca d'este curioso livro, que é mais historia que as chronicas dos Azuraras e Pinas, e mais comedia humana que as comedias de Gil Vicente e do Judeu.
Ácerca dos medicos estrangeiros:
«Enfada-se de ser soldado na Italia um romano; passa a Portugal, e constitue-se um famoso espagytico florentino. Foge da sua religião feito apostata um francez; aporta em Lisboa, e inculca-se por um insigne medico portuguez. Quebra em Hollanda um mercador; busca o nosso reino, e vende-se por um peritissimo physico hamburguez. E até entre os nossos o que é alveitar no Minho passa a ser medico no Algarve; o que é cirurgião na Extremadura vae buscar o gráo de doutor ao Alemtejo; e de boticario da Beira, se converte em Galeno de Traz-os-Montes; e d'esta sorte espalhados e desconhecidos, morrendo por viver da sua necessidade, vivem de matar com a sua medicina, e atormentando a todos sem piedade, ferem sem pena e matam sem castigo...
«Desembarca em Lisboa, no Porto, ou em outra qualquer barra d'este reino um medico estrangeiro, não disse bem, um estrangeiro metido a medico; antes que ponha o pé em terra, já o bom do homem tem mandado encher as esquinas de editaes em que publica remedios infalliveis para todos os achaques... Entra-se um d'estes por casa de um illustre, de um nobre, de um ecclesiastico; mas nunca de um pobre; e se ha achaque na casa, começa logo o parabolano a desenrolar promettimentos, e que foi fortuna chegar elle a tempo em que podesse emendar o que os medicos tinham errado; porque a queixa só elle a conhecia, por ter já feito, similhante cura na pessoa do delfim de França, e vencido o mesmo achaque no principe Eugenio, ou em outro qualquer personagem d'este calibre; por que similhantes physicos nunca se fazem medicos ahi de qualquer tudesco de má morte; mas as suas experiencias sempretem sido observadas, ou nos palacios dos principes, ou no serralho do grão turco.
«Começa um d'estes alchimistas a prometter e o pobre doente a pasmar. Se o achaque é uma ethica marasmada, diz-lhe: senhor, eu faço uma agua tão portentosa e de tão infallivel virtude, para esta sua queixa, que não só é capaz de restauricar ethicos, mas de resuscitar mortos. O cardeal de Rouen em Paris estava já mais magro do que um pisco em janeiro; tomou a mesma agua, e logo se poz mais gordo que um taralhão por agosto... É verdade que lhe custou do seu porque este remedio para se compôr leva duzentas moedas de ingredientes. Se vossemecê quer que eu lh'o faça venham as moedas; e, se não se achar bom, não me dará nada pela cura. A isto responde o doente que é muito dinheiro—Bom remedio (torna o estrangeiro) faremos por ora só metade da cura, e não vem vossemecê a gastar mais do que cem moedas. Ainda é muito? Pois venham cincoenta. Assim vae duvidando um e outro, e abatendo, até que o alchimista para não ir de todo em todo sem dinheiro, para comprar as drogas se resolve a fazer a cura por duas moedas; mas pede segredo ao doente, porque não quer fazer o seu remedio mal reputado. Vae para casa; põe a ferver dois almudes d'agua da fonte com um selamin de cevada, deita-lhe umas poucas de flores de papoulas, para tomar outra côr, e um arratel de assucar mascavado; compõe uma agua adocicada côr de fogo; enche quatro garrafões bem tapados com cortiça e lacre, e pilha duas moedas.»
Prosegue Braz Luiz em muitas paginas em prosa e verso a critica zombeteira dos medicos mesinheiros, dos pseudo-medicos, dos barbeiros, das benzedeiras.
Concluo o extracto com uma amostra da prosa, e outra da poesia. Qualquer das coisas denota o entranhado fervor com que o medico portuense saía de frente contra os charlatães em favor da humanidade.
«Oh!—exclama elle—quantos e quantos medicos, lobos na condição, estou eu vendo espalhados pelos reicos da nossa monarchia, que não sabem mais que roubar e matar!... São estes ladrões e matadores publicos todos aquelles que sem o serem se fingem medicos. Oh! miseravel e desgraçada medicina! Como vejo trocados hoje os teus predicados nobilissimos! Já não és arte de curar, és atalho de morrer; já não emendas os vicios do corpo, extingues as virtudes da alma; já não és triumpho das queixas, és flagello das vidas; já não és sciencia, és ignorancia; já não és arte preclarissima, és claro e clarissimo latrocinio. Os teus methodos de curar são modos de viver; os teus aphorismos são gyrias; os teus textos são roubos; os teus remedios são mortes, e os teus brazões são sepulturas. Mas como não ha de ser assim, se são homens ignorantes e perdidos os teus professores? Fingem-se medicos os idiotas, os vagabundos, os judeus, os barbeiros, os soldados, os feiticeiros, os benzedores...»
É christãmente louvavel o affoutamento e desprezo com que elle entala os judeus entre os vagabundos e barbeiros; faz, porém, tristeza ver n'isto a ingratidão com que elle malsina a raça d'aquelle Heitor Dias da Paz, que vinte annos antes lhe estabelecêra a pensão no real collegio de S. Paulo. Entristece ainda mais que elle se não condôa do pae de sua mulher, do avô de seus sete filhos, o hebreu desterrado, que, no dizer de D. Josepha, expirara exclamando:
«Dêem-me um pouquinho de ar da minha terra, que eu não morrerei ainda!»
Desculpe-se o ingrato aos israelitas, e lembre-se a gente do muito que elle devia á inquisição, que o fizera seu familiar, sem lhe averiguar a raça, até á quarta geração, condicional indispensavel na investidura d'aquella honra, honra n'este mundo, e segurança na conquista do outro, vista a somma de indulgencias com que os papas alimpavam a consciencia d'estes esbirros do santo officio.
Desculpe-se-lhe ainda a feia culpa, em desconto da malquerença e odio com que os seus collegas leram o seguinte soneto:
«Um, dois, trez, vinte, trinta, oitenta, cem,Mil, dez mil, vinte mil, seiscentos mil,Milhares de milhares (São frei Gil!)Quem poderá contar quantos cá vem?«Tanta gente sem conhecer ninguem!24Más caras! ruins aspectos! fórma vil!Nunca elles são de genio mais subtil,Se a cara testemunha o que ellas tem.«Ah! sim; já sei; uns mata-sanos sãoD'aquelles asneiroens que por hi ha,Que não sabem escolher o mal do bom.«Ah! quantos burros ha! (mais de um milhão?)Que sem saberem lêr ob a-Bá,Curam e matam por hi sem tom nem som?»
Agora, vamos, por algum tempo, deixar Braz Luiz de Abreu com as suas prosas, com os seus poemas, e com o locupletar-se, por justo effeito da sua grande nomeada. Não cuidem que elle, á similhança dos poetas, de seu natural perdularios e desinteresseiros, tem em conta de pouco a paga das suas visitas. No tocante a estipendio de medicos, vejam como elle se declara: «Não faltam medicos na monarchia medica-lusitana, que por este modo vivam apostolicamente. Em muitas cidades, villas notaveis e povoações grandes d'este reino, é para os seus medicos muito pouco o sustento e immenso o trabalho. Na arithmetica medicinal d'esta monarchia, multiplicam-se as visitas, mas nunca se accrescentam as pagas: poucas vezes os medicos cuidam em sommar, porque nunca os doentes chegam a repartir. Trabalhar todos os dias, levantar-se a qualquer hora da noite, subir e descer escadas, ouvir queixas, soffrer impertinencias, examinar cloacas, receitar remedios, e revolver livros, isto sim; que para isso é burro: receber pagas, cobrar partidos, recolher avenças, e embolçar estipendios, isso não, que por isso é asno.»
Engenhoso modo este de avisar os seus doentes remissos na paga, não por attenciosas cartas no fim do anno, mas por tres paginas de um livroin folio, das quaes trasladei algumas linhas, em obsequio aos medicos do tempo d'agora, e censura aos doentes que não pagam.
Trinta e quatro annos antes, se o leitor se lembra, tinham fugido para a India, em uma náo mercantil, o doutor Francisco Luiz de Abreu e sua mulher, disfarçados em mercadores de drogas indostanicas.
Assim que aportaram a Goa, antes que os quadrilheiros da inquisição os farejassem com aquelle olfacto d'elles, subtilissimo em esquadrinhar sangue judaico, apressaram-se em fugir do territorio portuguez. No primeiro navio britannico aproado á costa do Malabar, conseguiram os incognitos embarcar-se, e saltaram em Cochim, na cidade querida do grande Affonso de Albuquerque, qual, desde 1663, pertencia aos hollandezes. Estavam salvos.
O doutor Abreu começou exercitando a medicina e o commercio, e auferindo mais ganancia da camphora, do beijoim e do chumbo, que da sciencia das drogas salutiferas. Corridos dois annos, como os bens de fortunalhe sobrassem, visto que já de Portugal saira com sobejos para viver meãmente, passou á Europa e estabeleceu-se em Hollanda.
Aqui, recebido nos braços de centenares de portuguezes, voltou á profissão de medico, e poz os seus cabedaes a logro, com prosperos resultados. Hollanda era o paraizo terreal dos perseguidos hebreus. «Em parte nenhuma do mundo,—escrevia Daniel Lavi de Barros—gosam maior segurança que em Amsterdão, tanto pela liberdade de consciencia nas sete provincias unidas, como pela bondade de seus engenhosos habitantes.»25
Hebreus portuguezes e hespanhoes tinham alli sua synagoga, independente dos israelitas de procedencia allemã. Foi a primeira edificada em Amsterdão, consoante o affirma Antonio Alvares Soares na suaSylva:
La primera Synagoga AmstelodamaFundada fué del grand Jacob TiradoQue por su nombre Bet Jahacob la llama,I por el pueblo de Jacob sagrado.
Tanto crescera a opulencia dos hebreus da peninsula hispanica,desde que a lerda piedade dos reis os expulsaram que, em menos de quatro annos, levantaram e consagraram em 1673, o mais soberbo edificio que ainda hoje sobreleva a todos de Amsterdão. No crer dos hebreus, aquelle templo era o milagre que Deus lhes havia promettido por Ezequiel: «Porque os puz longe entre as gentes, e porque os lancei dispersos por varios paizes,eu serei para elles um pequeno sanctuario dos paizes para onde forem.»26
Francisco Luiz de Abreu, assim que se viu de assento e pouco menos de esquecido da patria, logo que a occasião se lhe amoldou, sem risco do seu amigo Moraes de Villa Flor, escreveu-lhe, pedindo-lhe a ida do filho de Antonio de Sá Mourão para Hollanda. O pae de Heitor Dias da Paz, respondendo á carta, pedia-lhe com lagrimas que lhe não tirasse o pequeno, porque, além de magoar penetrantemente seu filho, que o estremecia como irmão, podia ser que lhe tolhesse o futuro, ou, com a ida, suggerisse á inquisição suspeitas e aparelhasse desgraças para os que lhe estavam debaixo da vista fulminante.
Relatava-lhe a perseguição que os Oliveiras de Ourem estavam soffrendo, desde a fuga na náo da carreira da India, e o certo perigo que corria a creança, se levissimas suspeitas o indigitassem como filho de Francisco de Abreu.
O medico desvaneceu as esperanças da sua mulher, que era a mais fervorosa em pedir o seu filho adoptivo. D'esta correspondencia nem palavra Francisco de Moraes revelava á creança, por medo que a indiscrição propria dos annos acareasse desconfianças da espionagem, que sem treguas espreitava os actos dos judeus abastados. Moraes pedia ao seu amigo que lhe escrevesse pouco e com muita segurança, para que as suas cartas não tivessem destino egual ás de Pedro Lopes, residente em Damasco.
Senhor do seu tempo e liberdade, o doutor Francisco Luiz foi a França inquirir de novo informações de Antonio de Sá. Nada adiantou ás colhidas pelo joalheiro de Villa Flor. O navio, que navegava para o Canadá, parecia que as ondas o tinham engulido e pulverisado nas profundezas dos seus abysmos. Nem a mais ligeira suspeita de que existisse um folego vivo d'aquella náo, a não ser que as duas galeotas de flibusteiros, então ancoradas na costa de S. Domingos, podessem dar noticia do naufragio.
Recolheu o doutor a Amsterdão com as esperanças de todo perdidas.
Seis annos decorridos, chegou á familia dos Moraes, residente em Hollanda, a nova de estar nos carceres da inquisição de Lisboa Heitor Dias da Paz. Foi grande luto e choro nas familias portuguezas de Amsterdão, entre as quaes tinha sido creado e educado o mocinho. Abriram-se as synagogas, e prostraram-se os de Israel, pedindo ao seu Deus que lhes redimisse da morte affrontosa do garrote e do fogo o mancebo, cuja genealogia promanava já da tribu de Levi. Bem sabiam elles que Heitor Dias da Paz havia de morrer profitente da lei de Moysés, e sómente por milagre do Senhor poderia salvar-se de morrer queimado.
Quando chegou a Hollanda a noticia do suicidio de Francisco Moraes Taveira e da imperterrita morte de seu filho, estes nomes gloriosos nas dypticas da nação fiel foram inscriptos no martyrologio hebreu. Assim o tinha sido o do medico Silva, que, apoz treze annos de carcere, fôra queimado em Lima, no anno de 1693, e, ao tempo que o fogo o devorava, um pegão de vento esboroouo tribunal onde elle havia sido condemnado.27Assim fôra santificado um judeu portuguez, o qual, apenas a fumarada da fogueira lhe levou aos pulmões as primeiras agonias, desataram-se-lhe os ferros, e foi arrebatado por um anjo, a tempo que os algozes exclamavam que o diabo o transportava em corpo e alma. Deus, para salvar o seu servo das angustias do supplicio horrendo, o arrancara d'entre as chammas, segundo o asseverado nas actas dos martyres. Não menos illustres em santidade eram para os hebreus o religioso da Assenção, queimado em Lisboa no anno de 1603, e o medico Sobremont, suppliciado em Lima, depois de vinte e dois annos de masmorra. NaSylva, de Antonio Alvares, vem commemorada assim a crucificada vida d'aquelle martyr: