PROLOGO

PROLOGO(DA 1.ª EDIÇÃO)O eminente bibliographo e meu prezado amigo Innocencio Francisco da Silva, historiando em breves linhas a vida quasi obscura de Braz Luiz d'Abreu, conclue com estas palavras:Se algum dos nossos romancistas actuaes se resolvesse a tratar o assumpto, affigura-se-me que a vida d'este nosso medico, com os curiosissimos incidentes que ficam apontados, lhe dariam sobeja materia para a fabrica de uma composição, onde mediante a lição dos escriptos, que nos restam de Braz Luiz, poderiam fundir-se habilmente especies mui interessantes para d'ahi resultar obra de cunho verdadeiramente nacional.Os termos em que o convite é feito animam e ao mesmo tempo assustam. Comecei temerariamente a composição d'este romance: máo foi principial-o, que eu sou tão pouco cioso de aprimorar escriptos d'esta ordem,que não me fórro ao perigo de concluil-os e imprimil-os, ainda quando me desagradam.Não direi o que penso d'este: assevero, porém, que não está de certo realisada a esperança do meu amigo Innocencio Francisco da Silva. Se a biographia do author doPortugal-medicoé mina para locupletar romancistas, vão lá todos, que eu não toquei nos veios mais ricos.Porto, 3 de março de 1866.Camillo Castello Branco.INTRODUCÇÃOFrancisco Luiz d'Abreu, estudante do segundo anno medico na universidade de Coimbra, estava, por volta das onze horas da noite de 28 de janeiro de 1692, estudando, no seuVila Corta, as theorias de Galeno ácerca das purgas—de purgatione.—Embebecido e pasmado nas virtudes drasticas dos olhos de caranguejo, apenas tinha um todo-nada de espanto para celebrar os não menos miraculosos effeitos da pelle de cobra, quando, tão a deshoras, duas aldrabadas na porta o roubaram ao seu enlevo. Francisco encapuzou-se no gabão, e abriu as portadas da janella que dava sobre oBecco das Flores, becco assim denominado por antiphrase, figura de rethorica tolerantissima que permitte denominar-se flores o adubo de que ellas tiram a seiva putrida, mais tarde evaporada em aromas.—Quem é—perguntou o estudante, apertando as azas nasaes, com ingrato despreso das boninas da sua rua.—Quem é o vadio?—Sou eu!—respondeu quem quer que era, abrindo pequeno respiraculo por sobre o ferragoulo, que lhe envolvia todo rosto.—Tu!...—exclamou Abreu com alvoroço.—Vou abrir! Pois és tu?!Algum motivo mysterioso tinha o academico para descer ás escuras a precipitosa escada, contando as escaleiras e raspando com o pé cauteloso sobre cada degrau. Aberta a porta recebeu nos braços com ardente vehemencia o interruptor de seus estudos, e tão alheado ficou das suas considerações therapeuticas sobre a pelle de cobra, que nem já os olhos de caranguejo lhe lembravam.—Tu aqui, Antonio de Sá!—tornou Francisco.—Eu fazia-te na India!... Sobe, meu desventurado rapaz, que não ha ainda duas horas que os teus condiscipulos te lamentaram, especialmente José de Barredo se arrepellava por ter sido teu confidente n'esses funestissimos amores que te perderam...—Com razão!...—murmurou o outro—com razão me lamentaste, que eu sou desgraçado, quanto póde sel-o n'este mundo um rapaz de vinte annos.—E que magro estás!... atalhou Francisco Luiz, achegando-lhe do rosto a candeia de lata, que despregou do velador.—Como estás acabado!...—Se te parece!... um anno quasi sem ar, nem sol; passado de terrores... Como não queres que eu esteja pallido e descarnado?! São assim todos os rostos que se lavam com lagrimas...—Pobre Antonio!...—atalhou o outro muito consternado—Se, ao menos, tivesses fugido de Portugal, como nós suppunhamos, terias céo e ar... Senta-te, homem!... Queres tu comer?—Quero.—Ainda bem! A desgraça não te quebrantou o antigo estomago... Aqui tens queijos, figos e bolos de Santa Clara... Olha que ainda duram os amores da freira... Aqui tens o coração da freira n'estas trouxas d'ovos. Carne não na ha, e não sei onde vá procural-a a esta hora... Queres tu uma sôrda? Essa faço-t'a eu: estão alli os alhos; e, á mingoa de azeite, cosinha-se com o da candeia, e depois conversaremos ás escuras.—Isto basta para quem anda faminto de bons bocados—disse Antonio, com desusado atticismo, devorando o queijo e os figos, e as trouxas allegoricas do coração da franciscana, não já como desgraçadissimo entre os homens, mas certamente como de entre os estudantes o mais faminto.O hospedeiro academico enfreou sua curiosidade emquanto o amigo não pôde dispor da lingua, empenhada na soffrega lida da deglutição. No entretanto, andava elle rebuscando na gaveta alguma vitualha, como se em gaveta de estudante alguma vez se operasse o milagre de que alguns raros anachoretas se gosaram na Palestina, quando os anjos do céo lhes cosinhavam os fricassés.—Que andas tu procurando?—perguntou Antonio de Sá Mourão.—Um boi que te mate essa fome! Hei medo que me devores, rapaz.—Nem manjar branco me dês que já me cá nãocabe. Estou alimentado para tres dias, se fôr necessario. Queres agora a minha historia de treze mezes? Deita-te ahi na tua cama; escuta e adormece quando quizeres. Que sabes tu da minha vida?—Sei o que todos sabem: que fugiste de Bragança com uma moça, filha unica de pae rico e feroz, que te fez procurar aqui em Coimbra, e me quiz metter no aljube para lhe dar conta de ti, allegando que eu devia forçosamente ser teu confidente, por que sou christão novo como tu.—Não sabia—interrompeu Antonio—que os meus infortunios implicaram comtigo...—Mais do que eu te sei dizer... Os trabalhos, que me ameaçavam, affligiam-me muitissimo menos que a idéa da inexoravel perseguição que te fariam por toda a parte. Esperava eu, a cada hora, a noticia da tua prisão, com todas as probabilidades de que morrerias na forca, se não morresses na fogueira. Ninguem dava novas tuas, que não fossem horrorosas. Uns diziam que tinhas sido morto a tiro; diziam outros que te havias suicidado. Ao cabo de seis mezes, espalhou-se a boa nova de que tinhas embarcado para a India, favorecido por teus parentes ricos de Lisboa, e tambem corria que a moça te acompanhára vestida de rapaz. Ora, como nunca mais se fallou de ti, acreditámos que estavas salvo... Como te vejo aqui, Antonio?! Que é isto?! Onde tens estado? Como pudeste fugir á justiça, se não foi n'algum subterraneo?—Eu te conto, respondeu Antonio. Aquella temporada de ferias que fui passar com meus tios em Bragança foi a morte da mocidade, das esperanças, e de tudo em que eu fundamentára a felicidade das minhasmodestas ambições. O prazer exclusivo da minha vida tinha sido o estudo, a gloria da sciencia, desvanecimento louco de poder ainda, mediante a sciencia, avisinhar-me do throno, como os antigos da nação1e desopprimir nossos irmãos, quanto coubesse na alçada do juizo, e no prestigio que a posição de medico do rei me désse. Era um sonho talvez desatinado; mas o despertar-me d'elle foi atroz!... Amei aquella mulher; referi-te o nascer d'aquelle funesto amor. Sabes que os teus conselhos e vaticinios, ainda mal que realisados, não poderam reduzir-me ao dever, á honra, e propriamente ao discreto egoismo, que tantas vezes nos arreda de abysmos cavados pela excessiva sensibilidade. O peior, meu amigo, já não era vencer-me eu; era vencer a compaixão que me fazia a pobre menina, cujas alegrias dos dezoito annos eu fôra converter em amargura de toda a vida.—Combati essa opinião—interrompeu Francisco Luiz—por cuidar que era grande parte n'ella a tua vaidade, a vaidade do homem que se julga necessario á vida da mulher...—É verdade; combateste a insensata opinião; mas... não sei se cedo se tarde o fizeste; o certo é que as tuas razões me pareceram sophisticas e glaciaes. Vi em ti o philosopho que sempre foste; e em mim vi o homem duplicado em sua existencia pelo amor, os dois homensque se combatem e forcejam por despedaçar-se, até que um triumpha, e... fica senhor das ruínas do coração... Já agora não discutamos como medicos em volta de um cadaver. Saibamos que está morto o homem, e ouve tu singelamente a historia das delirantes febres que o acabaram.De antemão sabia eu já que a filha de Fernão Cabral me seria negada e que os lacaios do christianissimo fidalgo, por ordem de seu senhor, me ameaçariam com os seus tagantes.Isto não embargou que eu timidamente me fosse apresentar ao nobre morgado de Carrazedo, e lhe pedisse a filha. Fernão ouviu-me em pé, e respondeu-me n'estes termos: «Olhe para estes retratos»—e apontou para uma duzia de figuras pendentes das paredes—«olhe para estes retratos, e veja se ahi está algum com a estrella vermelha das seis pontas cosida sobre a garnacha ou sobre o arnez2» dito isto apontou-me a porta da escada.Não sei se odio, se lagrimas, se tudo a um tempo, me enchia o coração! Já então não tive animo para te escrever!Ha desgraças tamanhas que um homem parece envergonhar-se de contal-as aos seus amigos mais do intimo d'alma. Fechei-me com o segredo da minha ignominia. Deixei Bragança e fui para a Guarda, resolvido a entregar-me inertemente ao devorar silencioso da minha saudade.Fugi dos carinhos da familia, e ferrolhei-me n'uma casa agreste e erma na quebrada da Serra da Estrella. A desesperação alli foi-me consoladora, por que a morte era inevitavel n'aquelle desamparo.Nem ainda então pude escrever-te, meu amigo! Assim que tentava fazel-o, não sei exprimir que desalento me esvaía a cabeça. «Que vale queixar-me?! dizia eu entre mim—O que Deus não dá não m'o podem dar amigos. Deixal-os gosar, deixal-os ignorar estas obscuras angustias.»Uma noite, faz agora onze mezes, estava eu passeiando nos quasi pardieiros da minha vivenda, quando ouvi tropel de cavalgaduras no barrocal que descia da serra ao alpestre casalejo de meus avós, os quaes alli se tinham homisiado no tempo das grandes perseguições do rei D. Manuel. Accudi á janella e ouvi uma voz de homem dizer: «É aqui.» Não sei que outras palavras se disseram: eram a voz d'ella: era Maria.Quando dei tento de mim, e cobrei conhecimento da minha situação, tinha, nos braços a filha de Fernão Cabral, e á beira d'ella vi uma criada sua, que nos fôra medianeira, e um criado da casa de meu pae.Contou Maria, a intercadencias anciadas, que fugira de Bragança, logo que o pae se ausentou por alguns dias, no proposito de negociar o casamento d'ella com um fidalgo de Vizeu. Como não tinha mãe, e costumava passar muitas horas reclusa no seu quarto, os domesticos não deram logo conta da fuga, nem a suspeitariam tão cedo, se a sua aia não faltasse tambem. Fugiu caminho da Guarda, e procurou-me alta noite, em casa de meus paes, que tentaram restituil-a á casa paterna, temerosos dos resultados. Como ella, porém, os assustasseainda mais com o proposito de se matar, encaminharam-na ao meu deserto, com todo o segredo.Imagina tu que hospedagem daria eu á filha do gentil-homem, alli, n'aquellas ruinas, onde todas as alfaias eram um catre de bancos, uma arca, dois tamboretes de páo, e alguma loiça vermelha do uso dos caseiros, pobre gente de nossa raça, que para alli ficára grangeando e usofruindo as pouquinhas e inferteis terras!... A Maria e á sua criada grave dei o meu leito; e com o meu criado me fui ao palheiro, e me agazalhei nas mantas que os caseiros nos emprestaram.De madrugada, chegou meu pae a indagar do meu destino, e a dar-me alguns recursos para fugirmos até onde passassemos insuspeitos. O velho chorava, e eu, digo-t'o com pejo, queria que elle se alegrasse de me ver feliz!Deferi a minha saida para o dia seguinte, sem saber que rumo tomasse. Meu pae mandava-me fugir por Hespanha e embarcar para Hollanda. Maria, esperançada na commiseração do pae e na protecção dos seus santos advogados, queria que eu e ella fossemos ajoelhar aos pés d'elle. Por mais que m'o dissesse em tom de anjo quando revela os decretos do céo, não pude sequer imaginar possivel o perdão do soberbo fidalgo.Saimos para Celorico, a quatro leguas de distancia. N'uma aldeia dos arrabaldes, moravam irmãos do meu caseiro, grangeando um casal. Alli deliberei repousar alguns dias, porque Maria já tão sem forças ia da jornada por serras n'um dia de rigoroso inverno, que mal podia ter-se nas andilhas. Desde aqui avisei meu pae, pedindo-lhe novas do que soubesse. Respondeu-me que, horas antes, tinha sido cercada nossa casa, e que elle,com todos os nossos, estavam arriscados a ser presos.E foram, no dia seguinte, presos e fechados em masmorras.As immediatas noticias que tive foram cruelissimas. Todos os nossos bens tinham sido inventariados como para entrarem no sequestro feito a bens de judeus. Eu não devia já esperar recursos alguns de minha casa, e o dinheiro que eu possuia pouquissimo era para me transportar para fóra do reino. Sobrepõe tu, Francisco, a estes lances, o medo da prisão, e escutar a cada instante nos menores rumores o estrepito dos quadrilheiros! E, se estes são poucos supplicios para conceberes muito em sombra a minha vida, ajunta a isto uma cama de enxerga n'um quarto de vigamento por onde a ventania esfuziava, e sobre essa enxerga a pobre menina a tremer os frios das sesões, e eu de mãos postas a contemplal-a assim!Para que ninguem da aldeia nos visse, os dias para nós eram a continuação das noites. Aquelles pobrinhos fazendeiros, de portas a dentro, melhoraram quanto poderam a nossa situação. Eu, por minhas mãos, carpintijei o tabique para aconchegar o nosso quarto; e, com todas as cautellas, consegui que viessem de longe bragaes e roupas com que tirei á alcova de Maria as tristezas da indigencia. Melhorou a minha pobre amiga e desenvolveu espantosa energia na lucta. O sorriso d'ella dava-me alentos; mas não podia espancar da minha alma a imagem de meu pae, mãe e irmãos encarcerados, perseguidos pelo rancor vingativo de Fernão Cabral, e mais que muito sujeitos á extremidade de pagarem com a vida o meu delicto.Com que traças e trabalhos eu conseguia incertas noticias d'elles! Para mim era já consolativa a nova de que os não tinham mandado para os carceres da inquisição de Coimbra. Logo que elles aqui entrassem, perdidos os considerava eu.E assim vão decorridos treze mezes, Francisco Luiz! Comprehendes tu que infernos eu tenho apagado com as minhas lagrimas para poder viver ainda!... Lagrimas escondidas d'aquella martyr, para que ella, conhecedora do meu desalento, não desanime!...—E choras assim, Antonio! Coragem!—exclamou Abreu, tomando contra o seio o anciadissimo moço.—Ai! deixa-me chorar, que não o pude ainda fazer tanto ás largas. Deixa-me chorar, que isto é veneno mortal que me sáe aos olhos! É preciso que vejamos alma compadecida para sabermos a doçura d'este desafogo das lagrimas!Passados momentos, Antonio apertou, de golpe e convulsamente, as mãos do condiscipulo, levou-as aos labios, e exclamou soluçante:—Sabes ao que vim?—Diz, meu querido amigo.—Venho pedir-te dinheiro para fugir de Portugal.—Tel-o-has. Minha mãe já não vive, e eu tenho uma legitima. Conta com ella.—Bem hajas! bem hajas, meu Francisco! Mas venho pedir-te mais alguma coisa.—Diz.—Eu tenho um filho de quinze dias. Não posso fugir com a creancinha. Aceitas-m'a no regaço da tua caridade? Ficas com o meu filhinho, para m'o restituir, quando a felicidade me bafejar?—Ficarei como teu filhinho, Antonio. Dar-lhe-hei o coração que te dou a ti. Se Deus o não tiver levado, quando voltares, achal-o-has. Não lhe direi o teu nome de pae, sem que tu lh'o possas dar. Ninguem saberá que é teu filho, sem que tu possas dizel-o ao mundo.—É assim que t'o roga a minha alma attribulada... a ti e a Deus, que me está fallando no teu coração. Porque não hei de eu ajoelhar a teus pés, se creio que em ti está o Senhor da compaixão e da misericordia?!Francisco Luiz de Abreu levantou nos braços o arquejante moço; e, não menos commovido, ratificou as promessas feitas.Ás dez horas da noite seguinte, Francisco Luiz e o seu amigo sairam de Coimbra, cada qual por diversa porta. O bemfeitor foi para Ourem, sua terra; o judeu da Guarda, por desvios escusos, entrou, decorridas duas noites de jornada, na abegoaria onde o esperava a mãe da creancinha, que bebia um leite aguado de lagrimas.Dez dias volvidos, por noite alta, entrava no mesmo casalejo Francisco Luiz de Abreu, com uma ama de leite, e com a sua legitima materna n'um saco de moedas de ouro.Contemplou a formosura da peccadora, e a formosura do innocente nos braços d'ella. Saudou-os, chorando, e tomou a creancinha muito aconchegada do seio.—Como se chama o anjinho?—perguntou o academico.—Tu o dirás—respondeu Antonio.—É teu afilhado.—Seja Francisco—disse a mãe.—Muito desejaria eu baptisal-o, e dar-lhe o meu nome—observou o academico;—mas tu sabes, Antonio, o resguardo que convém ter comvosco, com este menino e comigo. O meu parecer é que se esconda quanto ser possa a influencia que eu hei de ter na creação de teu filho. Melhor é que as suspeitas do mundo, se ellas vingarem descobrir ligações d'esta creança comigo, me julguem a mim, que não a ti, pae d'ella. O meu intento é alugar uma casinha em Coimbra onde a ama viva com elle. Não irei ser padrinho, para não dar corte á desconfiança de que elle seja meu filho. Assim se irá creando, até que eu conclua a formatura. N'este meio tempo, quererá Deus que tu voltes a Portugal.—Voltarei eu?!—exclamou Antonio, apertando no mesmo braço o amigo, o filho, e a mãe, que estava lavando com lagrimas o rosto da creancinha, deitada nos braços do estudante.—Ver-vos-hei eu mais?—balbuciou, intallado de gemidos. Que futuros melhores posso esperar eu!? Como crês tu possivel o termo da perseguição?...—Não sei—disse Abreu, fingindo esperanças.—Não sei... mas as voltas do mundo são tão espantosas... Todavia...—continuou elle com o alvoroço de uma já sincera esperança—não te lembraste ainda d'uma felicidade muitissimo possivel?—Qual?—conclamaram os dois, para quem um raio de esperança era já cousa de estontear como a luz do sol aos exhumados das trevas de longo encarceramento.—Qual? que felicidade nos promettes, meu amigo?—A mais obvia e facil. O que me espanta é que ella vos não haja sorrido primeiro do que a mim. Ides para Hespanha, não é assim?—Vamos.—De lá passaes a Hollanda, onde achareis o abrigo que os nossos irmãos deparam a quantos infelizes vão de cá acossados pelas tochas do auto da fé. Tu, Antonio, és novo e robusto. Se não quizeres continuar os teus estudos medicos lá fora, voltas a tua actividade para outra ordem de trabalhos: fazes-te mercador, ganhas dinheiro, esqueces a patria, como se nunca a tivesses, como em verdade não temos; depois, mandas ir o teu filhinho, como complemento da tua felicidade na vida tranquilla.—Que sonho!—clamou alegremente a filha de Fernão Cabral.—E eu nunca pensára n'isso...—Nem eu...—ajuntou Antonio.—Ha umas desgraças que esterilisam a mais pensadora e expeditiva alma! Eu não via senão escuridade... Agora, bem hajas tu, meu irmão, que me restitues á serenidade de homem inquebrantavel por affrontas da sorte... E a ti, a ti, meu amigo? Não hei de eu mais vêr-te?—Porque não, se eu hei de ser propriamente quem te vá levar o filho?—Oh! então já sei que ha o antever da perfeita felicidade, cá mesmo d'este grande abysmo em que me lancei com esta infeliz menina...E, abraçando-se n'ella, choravam ambos lagrimas já de jubilo, como as de quantos naufragos que apegam sobre ponta de rocha, ainda quando ao despegarem-se, para ganhar terra, voragens novas se lhes anteponham.N'este dia, como se a adversidade cançasse de cruciar os dois fugitivos, boa nova lhes chegou a sobredoirar os prazeres da esperança.Sem embargo da raivosa perseguição do fidalgo deBragança á inculpada familia do hebreu, as leis não se dobraram a sentenciar a perdição dos innocentes. Apoz dez mezes de masmorra na cidade da Guarda, os dois velhos e seus filhos sairam livres, sob a bandeira misericordiosa dos dignitarios da Sé, conjurados todos em deporem sobre a pura christandade dos presos, e sua irresponsabilidade nas desordens do máo membro de sua familia.Redobrada a exultação de Antonio com esta nova, queria já elle dispensar-se de receber o emprestimo de Francisco de Abreu, como quem contava com sobejo dinheiro de sua casa resgatada do sequestro. O amigo, porém, não condescendeu nem o desquitou da obrigação de devedor, instando na immediata saida de Portugal, porque a raiva do fidalgo redobraria de vigilancia, depois da soltura dos presos em quem não podéra assentar em cheio a mão rancorosa.Prevaleceram as judiciosas previsões de Francisco Luiz. Áquella hora, de feito, já Fernão Cabral, esporeado pelo odio, apertava novas diligencias para descobrir o rasto dos fugitivos, e, mediante disfarçados espias que na Guarda lh'os andavam furoando, não estava já longe de lhes descobrir o rasto.Ao outro dia, depois de muito chorar da mãe, a cujo seio arrancaram a creancinha, Francisco Luiz, sem saber como se estancavam lagrimas de tão puro sangue de alma, fugiu para assim dizer com o menino, sem esperar as ultimas despedidas.Ao anoitecer d'este dia, os consternados paes, por serranias não trilhadas endireitaram ás fronteiras e vingaram entrar em Hespanha. Contemplavam-se a espaços, e viam nos olhos um do outro o desconforto, a desesperança,o convencimento de que sua desgraça ia crescendo.—E o nosso filhinho?...—dizia ella em gemidos, que pareciam um arrancar da vida.E elle cobria o rosto com as mãos, arquejava, engulia as lagrimas e não respondia.—Que mal fizemos em deixar a creancinha!—voltava ella, cruzando os braços sobre os seios, que lhe doiam entumecidos do leite.—Que ruim mãe eu fui!... Meu Deus, perdoae-me que eu sómente agora considero a grandeza do meu crime!—Não chores assim!—atalhava o attribulado moço. Pois como andarias tu fugitiva com um filhinho de tres semanas! Ó Maria, por Deus te peço que nos não atormentemos! Ajuda-me a ser homem! Ampara-me, pela boa sorte do nosso filho te rogo que me ampares! Volta ao futuro os olhos de tua alma! Esperemos... luctemos, sejamos fortes, não nos deixemos acabar aos golpes d'esta saudade.IInformaçõesCorria o anno de 1697.Francisco Luiz d'Abreu, doutor em medicina, mudára sua residencia para Coimbra, esperançado em entrar no magisterio, conforme lh'o promettiam sua capacidade, vasto saber e creditos. Tinha casado, quatro annos antes, com Francisca Rodrigues de Oliveira, filha de abastados judeus de Ourem. Não tinham filhos; mas dos braços de um ao outro saltava um menino de cinco annos, chamado Braz, acariciado com blandicias de filho. A creança tratava de padrinho o doutor, e á senhora chamava mãe. A esposa do medico, privada do goso de se ver assim amimada nos labios de anjo desentranhado de seu seio, jubilava de lhe ouvir aquelle doce nome de mãe, e toda se estremecia de maternal ternura chamando-lhe seu filho.Grande numero de pessoas relacionadas com Francisco Luiz, presumia que o pequenino Braz era filhonatural d'elle, e que Francisca de Oliveira, bem que israelita e perfida ao sacramento do baptismo, alojava no peito entranhas tão christãs que levara para sua companhia o menino, e lhe queria até á extremidade de lhe chamar filho, e consentir que elle lhe chamasse mãe.Exceptuada a amoravel esposa do doutor, ninguem sabia em Portugal quem fossem os paes d'aquella creança. A ama, que a tinha amamentado, morrêra; e a pobre gente, que lhe assistira ao nascimento, ignorava o destino d'elle.Um dia, como a creança, antes de ir-se á cama, entrasse a beijar a mão do padrinho, Francisca beijou-a nas faces, e disse-lhe:—Não tornes a chamar padrinho ao teu amigo; chama-lhe pae, sim, Braz?—Pois sim, mãesinha—disse a creança, e saiu pela mão da creada.Francisca proseguiu:—Pois não é assim melhor?! Acabamos de nos convencer que elle é nosso filho.—Ó menina, respondeu o marido—esse convencimento parece-me difficil...—Nosso filho gerado no coração...—tornou ella.—Isso lá, sim; d'esse modo já eu o perfilhei; mas o peior é que ámanhã podem apparecer ahi umas entranhas menos phantasticas do que a tua maternidade de coração a reclamarem o que é seu legitimamente.—Pois tu cuidas que elles voltam cá?! Podes ainda imaginar que elles vivem? Ha tres annos que não temos uma carta d'elles!—Mas tambem não recebemos a certidão de obito.—Pois sim,—redarguiu Francisca—mas, se elles vivessem,as pessoas de Hollanda, a quem tu tens pedido tantas vezes novas d'elles; não t'as dariam, ainda mesmo que lhe não soubessem os verdadeiros nomes?!—Acho-te razão; porém, custa-me a crer que elles tenham morrido ambos. O mais certo é o que eu tantas vezes te tenho dito...—Que Fernão Cabral tem recebido as cartas que elles te escrevem?—Sim.—Não creio. Tu recebes cartas de Amsterdam, de Londres e de toda a parte. Se te subtrahissem umas, iam todas, homem. Cá, ninguem me tira a mim da cabeça, que elles morreram em naufragio, ou os sicarios do fidalgo os mataram lá por fóra, ou... quem sabe?... a tamanho apuro de desgraça chegariam, que se dessem a si a morte, como no seculo passado succedeu com tantos irmãos nossos.—Póde ser—obtemperou Francisco Luiz;—mas teriam coragem de matar-se uns paes que deixavam esta creança?!... Não é possivel! A ultima carta, que recebi de Antonio, aqui está—disse elle, tirando-a do segredo de uma gaveta—é de 4 de outubro de 1694. Escreve-me de Marselha. Não se queixa de mingua de recursos. Revela uma certa seguridade de espirito, que é signal de boas avenças com as miserias da vida. Diz que está em arranjos com alguns hebreus, filhos e netos de portuguezes, para se trasladarem com suas familias para uma colonia franceza, que, diz elle, talvez seja a de S. Domingos. Promette escrever-me quando se houver definitivamente resolvido, e depois...—Mais nada—atalhou Francisca—Ora, no Canadá, já sabemos que elles não estão. N'outras colonias,tambem tu já sabes que ninguem os viu. Que havemos de pensar d'isto? Que se ha de suppor depois do silencio de tres annos?—Que as cartas me são roubadas—insistiu o doutor.—E tu a teimar, homem!... Oxalá que eu me engane; mas, se adivinho, Deus sabe que o menino está amparado, e que ha de ser sempre meu filho, ainda que o senhor me dê muitos filhos.—Suicidarem-se!—proseguiu Francisco de Abreu, que parecia, de absorvido em suas cogitações, não ouvir a esposa—Suicidarem-se não póde ser... Antonio Mourão graduou-se em medicina em Paris ha quatro annos, e de lá passou para Hollanda. Um medico não chega a encarar com tão feia miseria que lhe quebre o animo, ao extremo de o anniquilar. Antonio em qualquer parte acharia pão, ainda que fosse máo physico; porém, com os talentos d'elle, não posso conceber máo medico. Seja o que fôr, Francisca. Eu espero ainda haver novas por alguns hebreus de Marselha. Hei de perguntar em que época e em que navios sairam colonos, e para onde sairam. Não o fiz até agora por medo que as minhas cartas andem espiadas, e vão dar ás mãos de Fernão Cabral. Mas vou escrever ao nosso amigo Francisco de Moraes Taveira, que está em Lisboa de viagem para França, e pedir-lhe que indague quanto poder dos nossos irmãos de Marselha o destino dos colonos, com os quaes saiu Antonio de Sá Mourão.Francisca entrou á alcova do menino, e sentou-se-lhe á beira do catre a contemplal-o adormecido em sonhos, que lhe sorriam, a espaços, na rosa entre-aberta dos labios.Francisco Luiz de Abreu ficou escrevendo largas paginas ao seu amigo Francisco de Moraes, hebreu abastadissimo de Villa Flor, commerciante de pedras preciosas, que traficava nas principaes cidades de Europa e Asia.Na volta do correio, Francisco de Moraes asseverou ao doutor que chegado a França, iria indagar pessoalmente a Marselha, e não pouparia despezas com os informadores que o satisfizessem. E, por esta occasião, lhe noticiava que fazia conta de trazer de Hollanda seu filho Heitor, que lá se estava educando em humanidades com seus tios, para estudar medicina em Coimbra; e, a tal respeito, accrescentava: «Não sei se érro em trazer o rapaz para Portugal; mas a mãe insta, chora, e definha-se a termos que receio que me ella morra. Seja o que Deus quizer. Aconselhar-lhe-hei o que lhe cumpre fazer, e espero que elle, por obediencia e desejo da vida, me attenda.»Francisco Luiz deu-se logo pressa em pedir ao hebreu que não trouxesse para Portugal, como victima amarrada para o açougue, o pobre rapaz que lá fóra vivia sem receio da polé e da fogueira. Pintava-lhe, sem encarecimento, os perigos que ameaçavam em Portugal um rapaz creado e educado entre israelitas doutos, e com elles affeito a dizer alto e destemidamente o seu pensar em coisas de religião. Recordava-lhe as numerosas victimas da inquisição, que preferiram morrer a desconfessar sua fé, antepondo a gloria do martyrio da idéa herdada de avós á hypocrisia de aceitarem apparentemente a religião dos carniceiros filhos de Domingos de Gusmão. Lembrava-lhe a sublime coragem de Manuel Fernandes Villa Real, consul portuguez em Paris, e, nãoobstante, garrotado e queimado na praça da Ribeira em Lisboa no anno de 1652. Lembrava-lhe o lente de Coimbra Antonio Homem, queimado em 1624, e o advogado Miguel Henriques da Fonseca, Pedro Serrão3e outros, cuja inflexibilidade de caracter, comquanto perpetuasse honrada memoria, lhes custou affrontosissima morte, e deixou aberta por muito tempo amarga torrente de lagrimas.As reflexões do medico abalaram o judeu; mas não lhe demudaram a tenção. Era Heitor, filho unico, herdeiro de grandes haveres; queria voltar á patria, onde o chamavam saudades de menino; tinha por si as lagrimas e instancias da mãe; promettia ser discreto e hypocrita; queixava-se do clima de Hollanda e de febres quartans. O pae era sósinho a querel-o afastado de Portugal, e assim mesmo andava em lucta comsigo mesmo, até que deliberou trazel-o de volta da sua excursão mercantil a França e outras nações.De Marselha escreveu Francisco de Moraes informando o seu amigo Abreu. Dizia que Antonio de Sá Mourão, convidado com grandes lucros a ir estabelecer-se como medico no Canadá, ou Nova França, aceitara a proposta, e embarcara com sua mulher, resolvido a enriquecer-se no prosperado trafico dos pellames. Ajuntava que um dos tres navios, carregados de colonos, batido pela tormenta, se esgarrara do rumo, e fôra a pique na costa de S. Domingos, a tempo que duas galeotas de flibusteiros, conhecidos comodemonios do mar, na linguagem da peninsula britannica, faziamaguada n'uma bahia d'aquella infamada costa, onde poucos annos antes haviam naufragado tres naus francezas, capitaneadas pelo audacissimo colonisador Robert Cavalier de la Salle. Ajuntava o informador que n'aquelle navio perdido iam fatalmente o medico e sua mulher, com muitas pessoas das mais graudas da colonia, algumas das quaes se presumia que tinham caido nas mãos dos flibusteiros segundo informações de um galeão hespanhol, que das pessoas embarcadas no navio perdido, até áquella hora, não viera noticia a França.Francisco d'Abreu, lendo a carta, disse á esposa.—Tinhas adivinhado desgraçadamente! O nosso Braz já não tem pae nem mãe. Agora podemos dispor do futuro d'esta creança. Vê tu que funesto remate houveram aquelles amores do meu pobre Antonio! Já não ha duvidar... Estão mortos! Batam as mãos os gallileos, e folguem de ver que vingaram as ondas o que as lavaredas não poderam! Oh!... que vontade eu tenho de banhar o rosto d'este menino com as minhas lagrimas, e contar-lhe as desgraças de seus paes.—Não—atalhou Francisca—não lhe digas nada; não digas! Que lucra elle em saber isso?... Vaes semear-lhe no coração odios e paixões que, no futuro, lhe podem ser a sua perdição. Nem se quer lhe digas em tempo algum que seu pae era judeu. Quebremos-lhe, se podermos, este condão funesto!IINão era mãe!...No seguinte anno de 1698, o doutor Abreu, que nunca se descuidava de ter o ouvido fito aos rumores surdos da inquisição, recebeu mui secreto aviso de algum condiscipulo, que devia ser familiar do santo officio, qualidade com que o maior numero de medicos d'aquelle tempo se nobilitava; e tanto assim era, que algum medico, privado d'ella, dava a entender que pertencia mais ou menos á seita maldita; ou, como diziam, tinha uma, duas ou tres partes de judeu. O aviso mandava-o aperceber-se para trabalhos grandes.Alvoroçado com a pavorosa nova, o doutor quiz logo sair da patria, e refugiar-se em Damasco, onde tinha um tio que exercitara em Portugal a profissão de boticario, no Fundão, até ao anno de 1652, em que fôra queimado o capitão Manuel Fernandes Villa-Real. Chamava-se o fugitivo Pedro Lopes.Impediram-lhe ao doutor a precipitada fuga algunsparentes e amigos, que podiam bastante com os promotores do santo officio; recommendando-lhe, porém, que visitasse as egrejas com frequencia, e désse bem publicas demonstrações de sua piedade.Assim o cumpriu o doutor Francisco Luiz, bem que sua mulher mui violentada se prestasse a uma ostentação hypocrita, da qual a credula israelita se penitenciava com muitos jejuns e orações.Decorridos mezes, fez-se auto da fé, e n'elle saiu condemnado a prisão illimitada um Fernão Vaz Lucena, parente do doutor. A maxima culpa d'este christão novo era o ter-se descaminhado e caido nas mãos dos inquisidores uma carta em verso, que Pedro Lopes, tio de Francisco Luiz d'Abreu, lhe escrevêra de Damasco. Esta carta indirectamente ameaçava a tranquillidade do lente de Coimbra; e, por amor d'ella, se formara a tempestade em que os amigos do lente viam ao longe o raio, o qual urgia conjurar com visitas aos templos e tregeitos bem publicos de piedade.Que perversa e impia carta seria aquella, em que os inquisidores acharam motivo para condemnarem Fernão Vaz Lucena a carcere perpetuo? N'um velho manuscripto que possuimos, chamadoMemorias de Francisco Soares Nogueira, encontramos trasladada a carta, cuja copia não vem descabida ao ponto; e, se mais não vale, tem por si o merito de nos dizer como os boticarios hebreus conciliavam as letras amenas com a manipulação dos ingentes xaropes d'aquelle tempo, posto que nem sempre conciliassem a inspiração com a contagem das syllabas, segundo a arte poetica.Dizia assim a carta:Oh Fernando, oh Fernando,até quandoha de durar teu descudo,entre o povo torpe e rudo?Que serve estar aguardando?Sabes a banda d'além...e o que convem.Quem se agarra, quem se afferra,deixa o monte, deixa a serra,e ao valle seguro vem.Não vês como arde esse matto,mentecato,que pouco a industria val?Antes que chegue ao casal,levanta cabana e fato!Não sejas aventureiro,que o toureirosim(?), morre em seu officio.Mais val ter outro exercicio,que fundar em ser ligeiro.Por que não queres ser forro?Eu morro,por não haver quem te arranque!Se pódes vêr de palanquepor que queres andar no corro?Tambem eu estive lá,e sei o que ha;tudo passei, tudo vi.Não se incerra o mundo ahi;melhor mundo vae por cá;o pão é cá mais ensôsso,e a carne sem chambão;tambem cá se ganha pão,e não com tanto sobr'ôsso.A gente é cá sem reima,de menos teima;a terra fructos produz,e o sol dá cá mais luz,posto que tanto não queima.Digo-te verdade mera:considera;e, se queres ter descanço,vem buscar o rio manso,foge do mar que se altera;foge do lago e da cova,cousa nova,e só n'isto me obedece.Mova-te o proprio interesse,quando o grão Deus te não mova;que os lobos como rodeiamsempre pream.Divulgou-se a carta, depois do auto da fé. O doutor Abreu, assim que a viu, afervorou-se na frequencia de egrejas, batia nos peitos estrondosas punhadas, e ingranzava as contas das camaldulas, de modo que os ouvidos dos devotos podessem contar-lhe os quinze mysterios do rozario. Porém, como se a hypocrisia lhe não désse caução bastante segura, o lente de medicina, emquanto escoava os sonoros bogalhos, scismava no modo de fugir, sem dar ansa aos espias.Apezar das camaldulas e dos protectores, a inquisição cada vez mais desconfiava da sinceridade do doutor; e o doutor, não menos vigilante que ella, cada hora, habilmente negociava a transferencia dos seus haveres ao estrangeiro.O pequeno Braz era-lhe empêço. Não sabia elle se devia levar comsigo a creança. O perigo e o medo, concentrando-o no cogitar em salvar-se, tornava-o mais egoista em cuidados de si, e menos pensativo do futuro do pequeno. Francisca de Oliveira, por sua parte, queria muito á creança; mas não era bem o querer e amar maternal: faltava-lhe aquelle sentir-se viver, estremecer e morrer nas arterias do filho. Então lhe seria a ella bom de comprehender que sómente é mãe aquella que sentiu as dôres da maternidade.—Que ha de fazer-se ao pequeno? onde o deixaremos?—perguntava Francisco Luiz á mulher.—Se o podessemos levar sem difficuldade...—Não podemos, por que eu já desconfio que nos será negado o passaporte. Temos de fugir; e escapar com uma creança desembaraçadamente ninguem o faz. Bem sabes que nossos avós matavam os filhos que lhes retardavam e denunciavam a fuga.—Deixa-se em casa dos nossos parentes—tornava ella.—Isso é sacrificar os nossos parentes; porque o rapaz é considerado meu filho—observou o doutor.—Tenho uma boa idéa—ajuntou elle—entreguemol-o a Francisco de Moraes, de Villa Flor, que sabe a historia d'esta creança, e lhe ha de servir de pae com os sobejos da sua riqueza. Não ha tempo a perder. Vou escrever-lhe para Lisboa, e pedir-lhe que me espere por estes quinze dias.Francisco de Moraes Taveira aceitou gratamente o encargo, tanto por lhe ser offerecido pelo doutor Abreu, como por ser o orphãosinho filho do desventurado israelita, que perdêra provavelmente a vida, quando cuidava ganhal-a com honra.Desde que a resposta chegou, Francisca, olhando a face carinhosa da creança, chorava sempre. Quanto mais o estreitava ao peito, mais o menino lhe sorria, como se com afagos quizesse mitigar as angustias desconhecidas, que via no rosto lagrimoso de sua mãe. Já ella pedia ao marido que não deixasse o menino; vacillava já tambem o doutor; e, muito instado da esposa e do coração, que a si mesmo se reprehendia, deliberou resolver-se em Lisboa, segundo se lhe figurasse facil ou difficil a passagem para outro reino.Nas ferias d'aquelle anno, o lente simulou uma jornada a Ourem, sua patria, e foi em direitura a Lisboa. O santo officio de Coimbra reparou na saida, e lançou pesquizas. Informaram-no de alguns processos de liquidação de patrimonios e venda de bens, que o doutor Abreu rapidamente negociára na terra de sua mulher. D'isto foi avisado o inquisidor geral, de modo que já em Lisboa o promotor instaurava processo, quando o lente alli chegou.Avisado pelo medico mais convisinho dos segredos da inquisição, Francisco Luiz deu-se pressa em sair de Lisboa com destino a Inglaterra. Negaram-lhe passaporte. Aterrado d'esta contrariedade, significativa de maiores violencias, mudou de residencia para casa segura, que lhe dispoz o hebreu de Villa Flor.A vigilancia dos esbirros estava attenta sobre os navios hollandezes principalmente, e pouco menos sobre quaesquer outros de commercio com portos estrangeiros. Francisco de Moraes, avassalando com ouro a piedade do piloto de uma nau portugueza destinada á India, introduziu no navio o doutor e sua mulher, considerados mercadores e proximos parentes do piloto. Asarcas de suas preciosidades entraram com os passageiros; tudo que mais e menos caro lhes era foi com elles, exceptuado o pequenino Braz, que dormia á hora em que elles partiram, e nem acordou ao cair-lhe nas faces as lagrimas dos seus bemfeitores.Ao amanhecer-lhe o dia seguinte, Braz perguntou pela mãe. Ai! se ella o fosse, não perguntaria o desamparadinho por sua mãe.Respondeu-lhe um moço de vinte annos, que os seus amigos tinham ido fóra de Lisboa, e voltariam passados alguns dias. A creança chorou em silencio, como quem conhecia que o prantear-se seria desagradecer as caricias que lhe fazia o filho de Francisco de Moraes.Era elle o mancebo que o hebreu de Villa Flor fôra buscar a Amsterdam.Heitor Dias da Paz distrahia a creança de seis annos com brinquedos proprios da meninice. Parecia que um ao outro se estavam divertindo. Heitor quiz instituir-se mestre doa b cdo pequeno; mas as graças infantis do discipulo encantavam-no por maneira, que era coisa de muito rir vêl-os ambos despegarem do alphabeto para se andarem correndo pela casa no jogo dos esconderêlos.Dentro em pouco, as lembranças dos fugitivos hebreus eram apenas brevissima tristeza de saudade na memoria de Braz.Heitor, desejoso de ver a terra do seu nascimento, foi para Villa Flor, e levou comsigo o menino. Francisco de Moraes, por mêdo de que, n'alguma hora, a inquisição lhe quizesse galardoar a astucia no escape do sobrinho de Pedro Lopes, accendendo em honra d'elle assantas rezinas da fé, tratou de sumir-se na sua provincia, dando-se por cançado de amontoar riquezas.Assim se reuniram em felicidade ainda não experimentada, os paes de Heitor, contando como elemento de sua boa sorte a posse do orphão, que, de muito amado que era, não sentia falta dos seus primeiros amparadores.

O eminente bibliographo e meu prezado amigo Innocencio Francisco da Silva, historiando em breves linhas a vida quasi obscura de Braz Luiz d'Abreu, conclue com estas palavras:Se algum dos nossos romancistas actuaes se resolvesse a tratar o assumpto, affigura-se-me que a vida d'este nosso medico, com os curiosissimos incidentes que ficam apontados, lhe dariam sobeja materia para a fabrica de uma composição, onde mediante a lição dos escriptos, que nos restam de Braz Luiz, poderiam fundir-se habilmente especies mui interessantes para d'ahi resultar obra de cunho verdadeiramente nacional.

Os termos em que o convite é feito animam e ao mesmo tempo assustam. Comecei temerariamente a composição d'este romance: máo foi principial-o, que eu sou tão pouco cioso de aprimorar escriptos d'esta ordem,que não me fórro ao perigo de concluil-os e imprimil-os, ainda quando me desagradam.

Não direi o que penso d'este: assevero, porém, que não está de certo realisada a esperança do meu amigo Innocencio Francisco da Silva. Se a biographia do author doPortugal-medicoé mina para locupletar romancistas, vão lá todos, que eu não toquei nos veios mais ricos.

Porto, 3 de março de 1866.

Camillo Castello Branco.

Francisco Luiz d'Abreu, estudante do segundo anno medico na universidade de Coimbra, estava, por volta das onze horas da noite de 28 de janeiro de 1692, estudando, no seuVila Corta, as theorias de Galeno ácerca das purgas—de purgatione.—Embebecido e pasmado nas virtudes drasticas dos olhos de caranguejo, apenas tinha um todo-nada de espanto para celebrar os não menos miraculosos effeitos da pelle de cobra, quando, tão a deshoras, duas aldrabadas na porta o roubaram ao seu enlevo. Francisco encapuzou-se no gabão, e abriu as portadas da janella que dava sobre oBecco das Flores, becco assim denominado por antiphrase, figura de rethorica tolerantissima que permitte denominar-se flores o adubo de que ellas tiram a seiva putrida, mais tarde evaporada em aromas.

—Quem é—perguntou o estudante, apertando as azas nasaes, com ingrato despreso das boninas da sua rua.—Quem é o vadio?

—Sou eu!—respondeu quem quer que era, abrindo pequeno respiraculo por sobre o ferragoulo, que lhe envolvia todo rosto.

—Tu!...—exclamou Abreu com alvoroço.—Vou abrir! Pois és tu?!

Algum motivo mysterioso tinha o academico para descer ás escuras a precipitosa escada, contando as escaleiras e raspando com o pé cauteloso sobre cada degrau. Aberta a porta recebeu nos braços com ardente vehemencia o interruptor de seus estudos, e tão alheado ficou das suas considerações therapeuticas sobre a pelle de cobra, que nem já os olhos de caranguejo lhe lembravam.

—Tu aqui, Antonio de Sá!—tornou Francisco.—Eu fazia-te na India!... Sobe, meu desventurado rapaz, que não ha ainda duas horas que os teus condiscipulos te lamentaram, especialmente José de Barredo se arrepellava por ter sido teu confidente n'esses funestissimos amores que te perderam...

—Com razão!...—murmurou o outro—com razão me lamentaste, que eu sou desgraçado, quanto póde sel-o n'este mundo um rapaz de vinte annos.

—E que magro estás!... atalhou Francisco Luiz, achegando-lhe do rosto a candeia de lata, que despregou do velador.—Como estás acabado!...

—Se te parece!... um anno quasi sem ar, nem sol; passado de terrores... Como não queres que eu esteja pallido e descarnado?! São assim todos os rostos que se lavam com lagrimas...

—Pobre Antonio!...—atalhou o outro muito consternado—Se, ao menos, tivesses fugido de Portugal, como nós suppunhamos, terias céo e ar... Senta-te, homem!... Queres tu comer?

—Quero.

—Ainda bem! A desgraça não te quebrantou o antigo estomago... Aqui tens queijos, figos e bolos de Santa Clara... Olha que ainda duram os amores da freira... Aqui tens o coração da freira n'estas trouxas d'ovos. Carne não na ha, e não sei onde vá procural-a a esta hora... Queres tu uma sôrda? Essa faço-t'a eu: estão alli os alhos; e, á mingoa de azeite, cosinha-se com o da candeia, e depois conversaremos ás escuras.

—Isto basta para quem anda faminto de bons bocados—disse Antonio, com desusado atticismo, devorando o queijo e os figos, e as trouxas allegoricas do coração da franciscana, não já como desgraçadissimo entre os homens, mas certamente como de entre os estudantes o mais faminto.

O hospedeiro academico enfreou sua curiosidade emquanto o amigo não pôde dispor da lingua, empenhada na soffrega lida da deglutição. No entretanto, andava elle rebuscando na gaveta alguma vitualha, como se em gaveta de estudante alguma vez se operasse o milagre de que alguns raros anachoretas se gosaram na Palestina, quando os anjos do céo lhes cosinhavam os fricassés.

—Que andas tu procurando?—perguntou Antonio de Sá Mourão.

—Um boi que te mate essa fome! Hei medo que me devores, rapaz.

—Nem manjar branco me dês que já me cá nãocabe. Estou alimentado para tres dias, se fôr necessario. Queres agora a minha historia de treze mezes? Deita-te ahi na tua cama; escuta e adormece quando quizeres. Que sabes tu da minha vida?

—Sei o que todos sabem: que fugiste de Bragança com uma moça, filha unica de pae rico e feroz, que te fez procurar aqui em Coimbra, e me quiz metter no aljube para lhe dar conta de ti, allegando que eu devia forçosamente ser teu confidente, por que sou christão novo como tu.

—Não sabia—interrompeu Antonio—que os meus infortunios implicaram comtigo...

—Mais do que eu te sei dizer... Os trabalhos, que me ameaçavam, affligiam-me muitissimo menos que a idéa da inexoravel perseguição que te fariam por toda a parte. Esperava eu, a cada hora, a noticia da tua prisão, com todas as probabilidades de que morrerias na forca, se não morresses na fogueira. Ninguem dava novas tuas, que não fossem horrorosas. Uns diziam que tinhas sido morto a tiro; diziam outros que te havias suicidado. Ao cabo de seis mezes, espalhou-se a boa nova de que tinhas embarcado para a India, favorecido por teus parentes ricos de Lisboa, e tambem corria que a moça te acompanhára vestida de rapaz. Ora, como nunca mais se fallou de ti, acreditámos que estavas salvo... Como te vejo aqui, Antonio?! Que é isto?! Onde tens estado? Como pudeste fugir á justiça, se não foi n'algum subterraneo?

—Eu te conto, respondeu Antonio. Aquella temporada de ferias que fui passar com meus tios em Bragança foi a morte da mocidade, das esperanças, e de tudo em que eu fundamentára a felicidade das minhasmodestas ambições. O prazer exclusivo da minha vida tinha sido o estudo, a gloria da sciencia, desvanecimento louco de poder ainda, mediante a sciencia, avisinhar-me do throno, como os antigos da nação1e desopprimir nossos irmãos, quanto coubesse na alçada do juizo, e no prestigio que a posição de medico do rei me désse. Era um sonho talvez desatinado; mas o despertar-me d'elle foi atroz!... Amei aquella mulher; referi-te o nascer d'aquelle funesto amor. Sabes que os teus conselhos e vaticinios, ainda mal que realisados, não poderam reduzir-me ao dever, á honra, e propriamente ao discreto egoismo, que tantas vezes nos arreda de abysmos cavados pela excessiva sensibilidade. O peior, meu amigo, já não era vencer-me eu; era vencer a compaixão que me fazia a pobre menina, cujas alegrias dos dezoito annos eu fôra converter em amargura de toda a vida.

—Combati essa opinião—interrompeu Francisco Luiz—por cuidar que era grande parte n'ella a tua vaidade, a vaidade do homem que se julga necessario á vida da mulher...

—É verdade; combateste a insensata opinião; mas... não sei se cedo se tarde o fizeste; o certo é que as tuas razões me pareceram sophisticas e glaciaes. Vi em ti o philosopho que sempre foste; e em mim vi o homem duplicado em sua existencia pelo amor, os dois homensque se combatem e forcejam por despedaçar-se, até que um triumpha, e... fica senhor das ruínas do coração... Já agora não discutamos como medicos em volta de um cadaver. Saibamos que está morto o homem, e ouve tu singelamente a historia das delirantes febres que o acabaram.

De antemão sabia eu já que a filha de Fernão Cabral me seria negada e que os lacaios do christianissimo fidalgo, por ordem de seu senhor, me ameaçariam com os seus tagantes.

Isto não embargou que eu timidamente me fosse apresentar ao nobre morgado de Carrazedo, e lhe pedisse a filha. Fernão ouviu-me em pé, e respondeu-me n'estes termos: «Olhe para estes retratos»—e apontou para uma duzia de figuras pendentes das paredes—«olhe para estes retratos, e veja se ahi está algum com a estrella vermelha das seis pontas cosida sobre a garnacha ou sobre o arnez2» dito isto apontou-me a porta da escada.

Não sei se odio, se lagrimas, se tudo a um tempo, me enchia o coração! Já então não tive animo para te escrever!

Ha desgraças tamanhas que um homem parece envergonhar-se de contal-as aos seus amigos mais do intimo d'alma. Fechei-me com o segredo da minha ignominia. Deixei Bragança e fui para a Guarda, resolvido a entregar-me inertemente ao devorar silencioso da minha saudade.

Fugi dos carinhos da familia, e ferrolhei-me n'uma casa agreste e erma na quebrada da Serra da Estrella. A desesperação alli foi-me consoladora, por que a morte era inevitavel n'aquelle desamparo.

Nem ainda então pude escrever-te, meu amigo! Assim que tentava fazel-o, não sei exprimir que desalento me esvaía a cabeça. «Que vale queixar-me?! dizia eu entre mim—O que Deus não dá não m'o podem dar amigos. Deixal-os gosar, deixal-os ignorar estas obscuras angustias.»

Uma noite, faz agora onze mezes, estava eu passeiando nos quasi pardieiros da minha vivenda, quando ouvi tropel de cavalgaduras no barrocal que descia da serra ao alpestre casalejo de meus avós, os quaes alli se tinham homisiado no tempo das grandes perseguições do rei D. Manuel. Accudi á janella e ouvi uma voz de homem dizer: «É aqui.» Não sei que outras palavras se disseram: eram a voz d'ella: era Maria.

Quando dei tento de mim, e cobrei conhecimento da minha situação, tinha, nos braços a filha de Fernão Cabral, e á beira d'ella vi uma criada sua, que nos fôra medianeira, e um criado da casa de meu pae.

Contou Maria, a intercadencias anciadas, que fugira de Bragança, logo que o pae se ausentou por alguns dias, no proposito de negociar o casamento d'ella com um fidalgo de Vizeu. Como não tinha mãe, e costumava passar muitas horas reclusa no seu quarto, os domesticos não deram logo conta da fuga, nem a suspeitariam tão cedo, se a sua aia não faltasse tambem. Fugiu caminho da Guarda, e procurou-me alta noite, em casa de meus paes, que tentaram restituil-a á casa paterna, temerosos dos resultados. Como ella, porém, os assustasseainda mais com o proposito de se matar, encaminharam-na ao meu deserto, com todo o segredo.

Imagina tu que hospedagem daria eu á filha do gentil-homem, alli, n'aquellas ruinas, onde todas as alfaias eram um catre de bancos, uma arca, dois tamboretes de páo, e alguma loiça vermelha do uso dos caseiros, pobre gente de nossa raça, que para alli ficára grangeando e usofruindo as pouquinhas e inferteis terras!... A Maria e á sua criada grave dei o meu leito; e com o meu criado me fui ao palheiro, e me agazalhei nas mantas que os caseiros nos emprestaram.

De madrugada, chegou meu pae a indagar do meu destino, e a dar-me alguns recursos para fugirmos até onde passassemos insuspeitos. O velho chorava, e eu, digo-t'o com pejo, queria que elle se alegrasse de me ver feliz!

Deferi a minha saida para o dia seguinte, sem saber que rumo tomasse. Meu pae mandava-me fugir por Hespanha e embarcar para Hollanda. Maria, esperançada na commiseração do pae e na protecção dos seus santos advogados, queria que eu e ella fossemos ajoelhar aos pés d'elle. Por mais que m'o dissesse em tom de anjo quando revela os decretos do céo, não pude sequer imaginar possivel o perdão do soberbo fidalgo.

Saimos para Celorico, a quatro leguas de distancia. N'uma aldeia dos arrabaldes, moravam irmãos do meu caseiro, grangeando um casal. Alli deliberei repousar alguns dias, porque Maria já tão sem forças ia da jornada por serras n'um dia de rigoroso inverno, que mal podia ter-se nas andilhas. Desde aqui avisei meu pae, pedindo-lhe novas do que soubesse. Respondeu-me que, horas antes, tinha sido cercada nossa casa, e que elle,com todos os nossos, estavam arriscados a ser presos.

E foram, no dia seguinte, presos e fechados em masmorras.

As immediatas noticias que tive foram cruelissimas. Todos os nossos bens tinham sido inventariados como para entrarem no sequestro feito a bens de judeus. Eu não devia já esperar recursos alguns de minha casa, e o dinheiro que eu possuia pouquissimo era para me transportar para fóra do reino. Sobrepõe tu, Francisco, a estes lances, o medo da prisão, e escutar a cada instante nos menores rumores o estrepito dos quadrilheiros! E, se estes são poucos supplicios para conceberes muito em sombra a minha vida, ajunta a isto uma cama de enxerga n'um quarto de vigamento por onde a ventania esfuziava, e sobre essa enxerga a pobre menina a tremer os frios das sesões, e eu de mãos postas a contemplal-a assim!

Para que ninguem da aldeia nos visse, os dias para nós eram a continuação das noites. Aquelles pobrinhos fazendeiros, de portas a dentro, melhoraram quanto poderam a nossa situação. Eu, por minhas mãos, carpintijei o tabique para aconchegar o nosso quarto; e, com todas as cautellas, consegui que viessem de longe bragaes e roupas com que tirei á alcova de Maria as tristezas da indigencia. Melhorou a minha pobre amiga e desenvolveu espantosa energia na lucta. O sorriso d'ella dava-me alentos; mas não podia espancar da minha alma a imagem de meu pae, mãe e irmãos encarcerados, perseguidos pelo rancor vingativo de Fernão Cabral, e mais que muito sujeitos á extremidade de pagarem com a vida o meu delicto.

Com que traças e trabalhos eu conseguia incertas noticias d'elles! Para mim era já consolativa a nova de que os não tinham mandado para os carceres da inquisição de Coimbra. Logo que elles aqui entrassem, perdidos os considerava eu.

E assim vão decorridos treze mezes, Francisco Luiz! Comprehendes tu que infernos eu tenho apagado com as minhas lagrimas para poder viver ainda!... Lagrimas escondidas d'aquella martyr, para que ella, conhecedora do meu desalento, não desanime!...

—E choras assim, Antonio! Coragem!—exclamou Abreu, tomando contra o seio o anciadissimo moço.

—Ai! deixa-me chorar, que não o pude ainda fazer tanto ás largas. Deixa-me chorar, que isto é veneno mortal que me sáe aos olhos! É preciso que vejamos alma compadecida para sabermos a doçura d'este desafogo das lagrimas!

Passados momentos, Antonio apertou, de golpe e convulsamente, as mãos do condiscipulo, levou-as aos labios, e exclamou soluçante:

—Sabes ao que vim?

—Diz, meu querido amigo.

—Venho pedir-te dinheiro para fugir de Portugal.

—Tel-o-has. Minha mãe já não vive, e eu tenho uma legitima. Conta com ella.

—Bem hajas! bem hajas, meu Francisco! Mas venho pedir-te mais alguma coisa.

—Diz.

—Eu tenho um filho de quinze dias. Não posso fugir com a creancinha. Aceitas-m'a no regaço da tua caridade? Ficas com o meu filhinho, para m'o restituir, quando a felicidade me bafejar?

—Ficarei como teu filhinho, Antonio. Dar-lhe-hei o coração que te dou a ti. Se Deus o não tiver levado, quando voltares, achal-o-has. Não lhe direi o teu nome de pae, sem que tu lh'o possas dar. Ninguem saberá que é teu filho, sem que tu possas dizel-o ao mundo.

—É assim que t'o roga a minha alma attribulada... a ti e a Deus, que me está fallando no teu coração. Porque não hei de eu ajoelhar a teus pés, se creio que em ti está o Senhor da compaixão e da misericordia?!

Francisco Luiz de Abreu levantou nos braços o arquejante moço; e, não menos commovido, ratificou as promessas feitas.

Ás dez horas da noite seguinte, Francisco Luiz e o seu amigo sairam de Coimbra, cada qual por diversa porta. O bemfeitor foi para Ourem, sua terra; o judeu da Guarda, por desvios escusos, entrou, decorridas duas noites de jornada, na abegoaria onde o esperava a mãe da creancinha, que bebia um leite aguado de lagrimas.

Dez dias volvidos, por noite alta, entrava no mesmo casalejo Francisco Luiz de Abreu, com uma ama de leite, e com a sua legitima materna n'um saco de moedas de ouro.

Contemplou a formosura da peccadora, e a formosura do innocente nos braços d'ella. Saudou-os, chorando, e tomou a creancinha muito aconchegada do seio.

—Como se chama o anjinho?—perguntou o academico.

—Tu o dirás—respondeu Antonio.—É teu afilhado.

—Seja Francisco—disse a mãe.

—Muito desejaria eu baptisal-o, e dar-lhe o meu nome—observou o academico;—mas tu sabes, Antonio, o resguardo que convém ter comvosco, com este menino e comigo. O meu parecer é que se esconda quanto ser possa a influencia que eu hei de ter na creação de teu filho. Melhor é que as suspeitas do mundo, se ellas vingarem descobrir ligações d'esta creança comigo, me julguem a mim, que não a ti, pae d'ella. O meu intento é alugar uma casinha em Coimbra onde a ama viva com elle. Não irei ser padrinho, para não dar corte á desconfiança de que elle seja meu filho. Assim se irá creando, até que eu conclua a formatura. N'este meio tempo, quererá Deus que tu voltes a Portugal.

—Voltarei eu?!—exclamou Antonio, apertando no mesmo braço o amigo, o filho, e a mãe, que estava lavando com lagrimas o rosto da creancinha, deitada nos braços do estudante.—Ver-vos-hei eu mais?—balbuciou, intallado de gemidos. Que futuros melhores posso esperar eu!? Como crês tu possivel o termo da perseguição?...

—Não sei—disse Abreu, fingindo esperanças.—Não sei... mas as voltas do mundo são tão espantosas... Todavia...—continuou elle com o alvoroço de uma já sincera esperança—não te lembraste ainda d'uma felicidade muitissimo possivel?

—Qual?—conclamaram os dois, para quem um raio de esperança era já cousa de estontear como a luz do sol aos exhumados das trevas de longo encarceramento.—Qual? que felicidade nos promettes, meu amigo?

—A mais obvia e facil. O que me espanta é que ella vos não haja sorrido primeiro do que a mim. Ides para Hespanha, não é assim?

—Vamos.

—De lá passaes a Hollanda, onde achareis o abrigo que os nossos irmãos deparam a quantos infelizes vão de cá acossados pelas tochas do auto da fé. Tu, Antonio, és novo e robusto. Se não quizeres continuar os teus estudos medicos lá fora, voltas a tua actividade para outra ordem de trabalhos: fazes-te mercador, ganhas dinheiro, esqueces a patria, como se nunca a tivesses, como em verdade não temos; depois, mandas ir o teu filhinho, como complemento da tua felicidade na vida tranquilla.

—Que sonho!—clamou alegremente a filha de Fernão Cabral.—E eu nunca pensára n'isso...

—Nem eu...—ajuntou Antonio.—Ha umas desgraças que esterilisam a mais pensadora e expeditiva alma! Eu não via senão escuridade... Agora, bem hajas tu, meu irmão, que me restitues á serenidade de homem inquebrantavel por affrontas da sorte... E a ti, a ti, meu amigo? Não hei de eu mais vêr-te?

—Porque não, se eu hei de ser propriamente quem te vá levar o filho?

—Oh! então já sei que ha o antever da perfeita felicidade, cá mesmo d'este grande abysmo em que me lancei com esta infeliz menina...

E, abraçando-se n'ella, choravam ambos lagrimas já de jubilo, como as de quantos naufragos que apegam sobre ponta de rocha, ainda quando ao despegarem-se, para ganhar terra, voragens novas se lhes anteponham.

N'este dia, como se a adversidade cançasse de cruciar os dois fugitivos, boa nova lhes chegou a sobredoirar os prazeres da esperança.

Sem embargo da raivosa perseguição do fidalgo deBragança á inculpada familia do hebreu, as leis não se dobraram a sentenciar a perdição dos innocentes. Apoz dez mezes de masmorra na cidade da Guarda, os dois velhos e seus filhos sairam livres, sob a bandeira misericordiosa dos dignitarios da Sé, conjurados todos em deporem sobre a pura christandade dos presos, e sua irresponsabilidade nas desordens do máo membro de sua familia.

Redobrada a exultação de Antonio com esta nova, queria já elle dispensar-se de receber o emprestimo de Francisco de Abreu, como quem contava com sobejo dinheiro de sua casa resgatada do sequestro. O amigo, porém, não condescendeu nem o desquitou da obrigação de devedor, instando na immediata saida de Portugal, porque a raiva do fidalgo redobraria de vigilancia, depois da soltura dos presos em quem não podéra assentar em cheio a mão rancorosa.

Prevaleceram as judiciosas previsões de Francisco Luiz. Áquella hora, de feito, já Fernão Cabral, esporeado pelo odio, apertava novas diligencias para descobrir o rasto dos fugitivos, e, mediante disfarçados espias que na Guarda lh'os andavam furoando, não estava já longe de lhes descobrir o rasto.

Ao outro dia, depois de muito chorar da mãe, a cujo seio arrancaram a creancinha, Francisco Luiz, sem saber como se estancavam lagrimas de tão puro sangue de alma, fugiu para assim dizer com o menino, sem esperar as ultimas despedidas.

Ao anoitecer d'este dia, os consternados paes, por serranias não trilhadas endireitaram ás fronteiras e vingaram entrar em Hespanha. Contemplavam-se a espaços, e viam nos olhos um do outro o desconforto, a desesperança,o convencimento de que sua desgraça ia crescendo.

—E o nosso filhinho?...—dizia ella em gemidos, que pareciam um arrancar da vida.

E elle cobria o rosto com as mãos, arquejava, engulia as lagrimas e não respondia.

—Que mal fizemos em deixar a creancinha!—voltava ella, cruzando os braços sobre os seios, que lhe doiam entumecidos do leite.—Que ruim mãe eu fui!... Meu Deus, perdoae-me que eu sómente agora considero a grandeza do meu crime!

—Não chores assim!—atalhava o attribulado moço. Pois como andarias tu fugitiva com um filhinho de tres semanas! Ó Maria, por Deus te peço que nos não atormentemos! Ajuda-me a ser homem! Ampara-me, pela boa sorte do nosso filho te rogo que me ampares! Volta ao futuro os olhos de tua alma! Esperemos... luctemos, sejamos fortes, não nos deixemos acabar aos golpes d'esta saudade.

Corria o anno de 1697.

Francisco Luiz d'Abreu, doutor em medicina, mudára sua residencia para Coimbra, esperançado em entrar no magisterio, conforme lh'o promettiam sua capacidade, vasto saber e creditos. Tinha casado, quatro annos antes, com Francisca Rodrigues de Oliveira, filha de abastados judeus de Ourem. Não tinham filhos; mas dos braços de um ao outro saltava um menino de cinco annos, chamado Braz, acariciado com blandicias de filho. A creança tratava de padrinho o doutor, e á senhora chamava mãe. A esposa do medico, privada do goso de se ver assim amimada nos labios de anjo desentranhado de seu seio, jubilava de lhe ouvir aquelle doce nome de mãe, e toda se estremecia de maternal ternura chamando-lhe seu filho.

Grande numero de pessoas relacionadas com Francisco Luiz, presumia que o pequenino Braz era filhonatural d'elle, e que Francisca de Oliveira, bem que israelita e perfida ao sacramento do baptismo, alojava no peito entranhas tão christãs que levara para sua companhia o menino, e lhe queria até á extremidade de lhe chamar filho, e consentir que elle lhe chamasse mãe.

Exceptuada a amoravel esposa do doutor, ninguem sabia em Portugal quem fossem os paes d'aquella creança. A ama, que a tinha amamentado, morrêra; e a pobre gente, que lhe assistira ao nascimento, ignorava o destino d'elle.

Um dia, como a creança, antes de ir-se á cama, entrasse a beijar a mão do padrinho, Francisca beijou-a nas faces, e disse-lhe:

—Não tornes a chamar padrinho ao teu amigo; chama-lhe pae, sim, Braz?

—Pois sim, mãesinha—disse a creança, e saiu pela mão da creada.

Francisca proseguiu:

—Pois não é assim melhor?! Acabamos de nos convencer que elle é nosso filho.

—Ó menina, respondeu o marido—esse convencimento parece-me difficil...

—Nosso filho gerado no coração...—tornou ella.

—Isso lá, sim; d'esse modo já eu o perfilhei; mas o peior é que ámanhã podem apparecer ahi umas entranhas menos phantasticas do que a tua maternidade de coração a reclamarem o que é seu legitimamente.

—Pois tu cuidas que elles voltam cá?! Podes ainda imaginar que elles vivem? Ha tres annos que não temos uma carta d'elles!

—Mas tambem não recebemos a certidão de obito.

—Pois sim,—redarguiu Francisca—mas, se elles vivessem,as pessoas de Hollanda, a quem tu tens pedido tantas vezes novas d'elles; não t'as dariam, ainda mesmo que lhe não soubessem os verdadeiros nomes?!

—Acho-te razão; porém, custa-me a crer que elles tenham morrido ambos. O mais certo é o que eu tantas vezes te tenho dito...

—Que Fernão Cabral tem recebido as cartas que elles te escrevem?

—Sim.

—Não creio. Tu recebes cartas de Amsterdam, de Londres e de toda a parte. Se te subtrahissem umas, iam todas, homem. Cá, ninguem me tira a mim da cabeça, que elles morreram em naufragio, ou os sicarios do fidalgo os mataram lá por fóra, ou... quem sabe?... a tamanho apuro de desgraça chegariam, que se dessem a si a morte, como no seculo passado succedeu com tantos irmãos nossos.

—Póde ser—obtemperou Francisco Luiz;—mas teriam coragem de matar-se uns paes que deixavam esta creança?!... Não é possivel! A ultima carta, que recebi de Antonio, aqui está—disse elle, tirando-a do segredo de uma gaveta—é de 4 de outubro de 1694. Escreve-me de Marselha. Não se queixa de mingua de recursos. Revela uma certa seguridade de espirito, que é signal de boas avenças com as miserias da vida. Diz que está em arranjos com alguns hebreus, filhos e netos de portuguezes, para se trasladarem com suas familias para uma colonia franceza, que, diz elle, talvez seja a de S. Domingos. Promette escrever-me quando se houver definitivamente resolvido, e depois...

—Mais nada—atalhou Francisca—Ora, no Canadá, já sabemos que elles não estão. N'outras colonias,tambem tu já sabes que ninguem os viu. Que havemos de pensar d'isto? Que se ha de suppor depois do silencio de tres annos?

—Que as cartas me são roubadas—insistiu o doutor.

—E tu a teimar, homem!... Oxalá que eu me engane; mas, se adivinho, Deus sabe que o menino está amparado, e que ha de ser sempre meu filho, ainda que o senhor me dê muitos filhos.

—Suicidarem-se!—proseguiu Francisco de Abreu, que parecia, de absorvido em suas cogitações, não ouvir a esposa—Suicidarem-se não póde ser... Antonio Mourão graduou-se em medicina em Paris ha quatro annos, e de lá passou para Hollanda. Um medico não chega a encarar com tão feia miseria que lhe quebre o animo, ao extremo de o anniquilar. Antonio em qualquer parte acharia pão, ainda que fosse máo physico; porém, com os talentos d'elle, não posso conceber máo medico. Seja o que fôr, Francisca. Eu espero ainda haver novas por alguns hebreus de Marselha. Hei de perguntar em que época e em que navios sairam colonos, e para onde sairam. Não o fiz até agora por medo que as minhas cartas andem espiadas, e vão dar ás mãos de Fernão Cabral. Mas vou escrever ao nosso amigo Francisco de Moraes Taveira, que está em Lisboa de viagem para França, e pedir-lhe que indague quanto poder dos nossos irmãos de Marselha o destino dos colonos, com os quaes saiu Antonio de Sá Mourão.

Francisca entrou á alcova do menino, e sentou-se-lhe á beira do catre a contemplal-o adormecido em sonhos, que lhe sorriam, a espaços, na rosa entre-aberta dos labios.

Francisco Luiz de Abreu ficou escrevendo largas paginas ao seu amigo Francisco de Moraes, hebreu abastadissimo de Villa Flor, commerciante de pedras preciosas, que traficava nas principaes cidades de Europa e Asia.

Na volta do correio, Francisco de Moraes asseverou ao doutor que chegado a França, iria indagar pessoalmente a Marselha, e não pouparia despezas com os informadores que o satisfizessem. E, por esta occasião, lhe noticiava que fazia conta de trazer de Hollanda seu filho Heitor, que lá se estava educando em humanidades com seus tios, para estudar medicina em Coimbra; e, a tal respeito, accrescentava: «Não sei se érro em trazer o rapaz para Portugal; mas a mãe insta, chora, e definha-se a termos que receio que me ella morra. Seja o que Deus quizer. Aconselhar-lhe-hei o que lhe cumpre fazer, e espero que elle, por obediencia e desejo da vida, me attenda.»

Francisco Luiz deu-se logo pressa em pedir ao hebreu que não trouxesse para Portugal, como victima amarrada para o açougue, o pobre rapaz que lá fóra vivia sem receio da polé e da fogueira. Pintava-lhe, sem encarecimento, os perigos que ameaçavam em Portugal um rapaz creado e educado entre israelitas doutos, e com elles affeito a dizer alto e destemidamente o seu pensar em coisas de religião. Recordava-lhe as numerosas victimas da inquisição, que preferiram morrer a desconfessar sua fé, antepondo a gloria do martyrio da idéa herdada de avós á hypocrisia de aceitarem apparentemente a religião dos carniceiros filhos de Domingos de Gusmão. Lembrava-lhe a sublime coragem de Manuel Fernandes Villa Real, consul portuguez em Paris, e, nãoobstante, garrotado e queimado na praça da Ribeira em Lisboa no anno de 1652. Lembrava-lhe o lente de Coimbra Antonio Homem, queimado em 1624, e o advogado Miguel Henriques da Fonseca, Pedro Serrão3e outros, cuja inflexibilidade de caracter, comquanto perpetuasse honrada memoria, lhes custou affrontosissima morte, e deixou aberta por muito tempo amarga torrente de lagrimas.

As reflexões do medico abalaram o judeu; mas não lhe demudaram a tenção. Era Heitor, filho unico, herdeiro de grandes haveres; queria voltar á patria, onde o chamavam saudades de menino; tinha por si as lagrimas e instancias da mãe; promettia ser discreto e hypocrita; queixava-se do clima de Hollanda e de febres quartans. O pae era sósinho a querel-o afastado de Portugal, e assim mesmo andava em lucta comsigo mesmo, até que deliberou trazel-o de volta da sua excursão mercantil a França e outras nações.

De Marselha escreveu Francisco de Moraes informando o seu amigo Abreu. Dizia que Antonio de Sá Mourão, convidado com grandes lucros a ir estabelecer-se como medico no Canadá, ou Nova França, aceitara a proposta, e embarcara com sua mulher, resolvido a enriquecer-se no prosperado trafico dos pellames. Ajuntava que um dos tres navios, carregados de colonos, batido pela tormenta, se esgarrara do rumo, e fôra a pique na costa de S. Domingos, a tempo que duas galeotas de flibusteiros, conhecidos comodemonios do mar, na linguagem da peninsula britannica, faziamaguada n'uma bahia d'aquella infamada costa, onde poucos annos antes haviam naufragado tres naus francezas, capitaneadas pelo audacissimo colonisador Robert Cavalier de la Salle. Ajuntava o informador que n'aquelle navio perdido iam fatalmente o medico e sua mulher, com muitas pessoas das mais graudas da colonia, algumas das quaes se presumia que tinham caido nas mãos dos flibusteiros segundo informações de um galeão hespanhol, que das pessoas embarcadas no navio perdido, até áquella hora, não viera noticia a França.

Francisco d'Abreu, lendo a carta, disse á esposa.

—Tinhas adivinhado desgraçadamente! O nosso Braz já não tem pae nem mãe. Agora podemos dispor do futuro d'esta creança. Vê tu que funesto remate houveram aquelles amores do meu pobre Antonio! Já não ha duvidar... Estão mortos! Batam as mãos os gallileos, e folguem de ver que vingaram as ondas o que as lavaredas não poderam! Oh!... que vontade eu tenho de banhar o rosto d'este menino com as minhas lagrimas, e contar-lhe as desgraças de seus paes.

—Não—atalhou Francisca—não lhe digas nada; não digas! Que lucra elle em saber isso?... Vaes semear-lhe no coração odios e paixões que, no futuro, lhe podem ser a sua perdição. Nem se quer lhe digas em tempo algum que seu pae era judeu. Quebremos-lhe, se podermos, este condão funesto!

No seguinte anno de 1698, o doutor Abreu, que nunca se descuidava de ter o ouvido fito aos rumores surdos da inquisição, recebeu mui secreto aviso de algum condiscipulo, que devia ser familiar do santo officio, qualidade com que o maior numero de medicos d'aquelle tempo se nobilitava; e tanto assim era, que algum medico, privado d'ella, dava a entender que pertencia mais ou menos á seita maldita; ou, como diziam, tinha uma, duas ou tres partes de judeu. O aviso mandava-o aperceber-se para trabalhos grandes.

Alvoroçado com a pavorosa nova, o doutor quiz logo sair da patria, e refugiar-se em Damasco, onde tinha um tio que exercitara em Portugal a profissão de boticario, no Fundão, até ao anno de 1652, em que fôra queimado o capitão Manuel Fernandes Villa-Real. Chamava-se o fugitivo Pedro Lopes.

Impediram-lhe ao doutor a precipitada fuga algunsparentes e amigos, que podiam bastante com os promotores do santo officio; recommendando-lhe, porém, que visitasse as egrejas com frequencia, e désse bem publicas demonstrações de sua piedade.

Assim o cumpriu o doutor Francisco Luiz, bem que sua mulher mui violentada se prestasse a uma ostentação hypocrita, da qual a credula israelita se penitenciava com muitos jejuns e orações.

Decorridos mezes, fez-se auto da fé, e n'elle saiu condemnado a prisão illimitada um Fernão Vaz Lucena, parente do doutor. A maxima culpa d'este christão novo era o ter-se descaminhado e caido nas mãos dos inquisidores uma carta em verso, que Pedro Lopes, tio de Francisco Luiz d'Abreu, lhe escrevêra de Damasco. Esta carta indirectamente ameaçava a tranquillidade do lente de Coimbra; e, por amor d'ella, se formara a tempestade em que os amigos do lente viam ao longe o raio, o qual urgia conjurar com visitas aos templos e tregeitos bem publicos de piedade.

Que perversa e impia carta seria aquella, em que os inquisidores acharam motivo para condemnarem Fernão Vaz Lucena a carcere perpetuo? N'um velho manuscripto que possuimos, chamadoMemorias de Francisco Soares Nogueira, encontramos trasladada a carta, cuja copia não vem descabida ao ponto; e, se mais não vale, tem por si o merito de nos dizer como os boticarios hebreus conciliavam as letras amenas com a manipulação dos ingentes xaropes d'aquelle tempo, posto que nem sempre conciliassem a inspiração com a contagem das syllabas, segundo a arte poetica.

Dizia assim a carta:

Oh Fernando, oh Fernando,até quandoha de durar teu descudo,entre o povo torpe e rudo?Que serve estar aguardando?Sabes a banda d'além...e o que convem.Quem se agarra, quem se afferra,deixa o monte, deixa a serra,e ao valle seguro vem.Não vês como arde esse matto,mentecato,que pouco a industria val?Antes que chegue ao casal,levanta cabana e fato!Não sejas aventureiro,que o toureirosim(?), morre em seu officio.Mais val ter outro exercicio,que fundar em ser ligeiro.Por que não queres ser forro?Eu morro,por não haver quem te arranque!Se pódes vêr de palanquepor que queres andar no corro?Tambem eu estive lá,e sei o que ha;tudo passei, tudo vi.Não se incerra o mundo ahi;melhor mundo vae por cá;o pão é cá mais ensôsso,e a carne sem chambão;tambem cá se ganha pão,e não com tanto sobr'ôsso.A gente é cá sem reima,de menos teima;a terra fructos produz,e o sol dá cá mais luz,posto que tanto não queima.Digo-te verdade mera:considera;e, se queres ter descanço,vem buscar o rio manso,foge do mar que se altera;foge do lago e da cova,cousa nova,e só n'isto me obedece.Mova-te o proprio interesse,quando o grão Deus te não mova;que os lobos como rodeiamsempre pream.

Divulgou-se a carta, depois do auto da fé. O doutor Abreu, assim que a viu, afervorou-se na frequencia de egrejas, batia nos peitos estrondosas punhadas, e ingranzava as contas das camaldulas, de modo que os ouvidos dos devotos podessem contar-lhe os quinze mysterios do rozario. Porém, como se a hypocrisia lhe não désse caução bastante segura, o lente de medicina, emquanto escoava os sonoros bogalhos, scismava no modo de fugir, sem dar ansa aos espias.

Apezar das camaldulas e dos protectores, a inquisição cada vez mais desconfiava da sinceridade do doutor; e o doutor, não menos vigilante que ella, cada hora, habilmente negociava a transferencia dos seus haveres ao estrangeiro.

O pequeno Braz era-lhe empêço. Não sabia elle se devia levar comsigo a creança. O perigo e o medo, concentrando-o no cogitar em salvar-se, tornava-o mais egoista em cuidados de si, e menos pensativo do futuro do pequeno. Francisca de Oliveira, por sua parte, queria muito á creança; mas não era bem o querer e amar maternal: faltava-lhe aquelle sentir-se viver, estremecer e morrer nas arterias do filho. Então lhe seria a ella bom de comprehender que sómente é mãe aquella que sentiu as dôres da maternidade.

—Que ha de fazer-se ao pequeno? onde o deixaremos?—perguntava Francisco Luiz á mulher.

—Se o podessemos levar sem difficuldade...

—Não podemos, por que eu já desconfio que nos será negado o passaporte. Temos de fugir; e escapar com uma creança desembaraçadamente ninguem o faz. Bem sabes que nossos avós matavam os filhos que lhes retardavam e denunciavam a fuga.

—Deixa-se em casa dos nossos parentes—tornava ella.

—Isso é sacrificar os nossos parentes; porque o rapaz é considerado meu filho—observou o doutor.

—Tenho uma boa idéa—ajuntou elle—entreguemol-o a Francisco de Moraes, de Villa Flor, que sabe a historia d'esta creança, e lhe ha de servir de pae com os sobejos da sua riqueza. Não ha tempo a perder. Vou escrever-lhe para Lisboa, e pedir-lhe que me espere por estes quinze dias.

Francisco de Moraes Taveira aceitou gratamente o encargo, tanto por lhe ser offerecido pelo doutor Abreu, como por ser o orphãosinho filho do desventurado israelita, que perdêra provavelmente a vida, quando cuidava ganhal-a com honra.

Desde que a resposta chegou, Francisca, olhando a face carinhosa da creança, chorava sempre. Quanto mais o estreitava ao peito, mais o menino lhe sorria, como se com afagos quizesse mitigar as angustias desconhecidas, que via no rosto lagrimoso de sua mãe. Já ella pedia ao marido que não deixasse o menino; vacillava já tambem o doutor; e, muito instado da esposa e do coração, que a si mesmo se reprehendia, deliberou resolver-se em Lisboa, segundo se lhe figurasse facil ou difficil a passagem para outro reino.

Nas ferias d'aquelle anno, o lente simulou uma jornada a Ourem, sua patria, e foi em direitura a Lisboa. O santo officio de Coimbra reparou na saida, e lançou pesquizas. Informaram-no de alguns processos de liquidação de patrimonios e venda de bens, que o doutor Abreu rapidamente negociára na terra de sua mulher. D'isto foi avisado o inquisidor geral, de modo que já em Lisboa o promotor instaurava processo, quando o lente alli chegou.

Avisado pelo medico mais convisinho dos segredos da inquisição, Francisco Luiz deu-se pressa em sair de Lisboa com destino a Inglaterra. Negaram-lhe passaporte. Aterrado d'esta contrariedade, significativa de maiores violencias, mudou de residencia para casa segura, que lhe dispoz o hebreu de Villa Flor.

A vigilancia dos esbirros estava attenta sobre os navios hollandezes principalmente, e pouco menos sobre quaesquer outros de commercio com portos estrangeiros. Francisco de Moraes, avassalando com ouro a piedade do piloto de uma nau portugueza destinada á India, introduziu no navio o doutor e sua mulher, considerados mercadores e proximos parentes do piloto. Asarcas de suas preciosidades entraram com os passageiros; tudo que mais e menos caro lhes era foi com elles, exceptuado o pequenino Braz, que dormia á hora em que elles partiram, e nem acordou ao cair-lhe nas faces as lagrimas dos seus bemfeitores.

Ao amanhecer-lhe o dia seguinte, Braz perguntou pela mãe. Ai! se ella o fosse, não perguntaria o desamparadinho por sua mãe.

Respondeu-lhe um moço de vinte annos, que os seus amigos tinham ido fóra de Lisboa, e voltariam passados alguns dias. A creança chorou em silencio, como quem conhecia que o prantear-se seria desagradecer as caricias que lhe fazia o filho de Francisco de Moraes.

Era elle o mancebo que o hebreu de Villa Flor fôra buscar a Amsterdam.

Heitor Dias da Paz distrahia a creança de seis annos com brinquedos proprios da meninice. Parecia que um ao outro se estavam divertindo. Heitor quiz instituir-se mestre doa b cdo pequeno; mas as graças infantis do discipulo encantavam-no por maneira, que era coisa de muito rir vêl-os ambos despegarem do alphabeto para se andarem correndo pela casa no jogo dos esconderêlos.

Dentro em pouco, as lembranças dos fugitivos hebreus eram apenas brevissima tristeza de saudade na memoria de Braz.

Heitor, desejoso de ver a terra do seu nascimento, foi para Villa Flor, e levou comsigo o menino. Francisco de Moraes, por mêdo de que, n'alguma hora, a inquisição lhe quizesse galardoar a astucia no escape do sobrinho de Pedro Lopes, accendendo em honra d'elle assantas rezinas da fé, tratou de sumir-se na sua provincia, dando-se por cançado de amontoar riquezas.

Assim se reuniram em felicidade ainda não experimentada, os paes de Heitor, contando como elemento de sua boa sorte a posse do orphão, que, de muito amado que era, não sentia falta dos seus primeiros amparadores.


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