XITreze annos depois

Veinte y dos annos in prison penosaPor defender de Dios la verdad pura,Termino arrastra la cadena duraQue le da el ser la sacra ley su esposa.Heitor Dias da Paz foi comparado na coragem da morte ao hespanhol Lopo de Vea, filho de paes christãos velhos, o qual se fizera judeu, e se circumcidára no carcere. A constancia de sua morte obrigou o inquisidor geral a dizer quenunca vira tão ardente desejo de morrer, nem tamanha confiança de salvação, nem tão completa firmesa, como a d'aquelle moço na flor da edade.28O medico Abreu, para não arriscar a segurança dos seus parentes e amigos de Portugal, absteve-se de pedir informações de Braz, nos primeiros annos seguidos á morte dos judeus de Villa Flor. Corria o anno de 1710 quando elle se animou a indagar com a maxima cautela. Algumas pessoas foram disfarçadas a Coimbra, averiguaram com todo o resguardo, e nenhum esclarecimento alcançaram. Ninguem dava novas nem rastreava o destino do moço. Eram obvias as razões d'esta ignorancia: Braz Luiz nunca em Coimbra estivera na companhia de Heitor Dias da Paz, nem o collegial de S. Paulo ousava dizel-o, admoestado pelos frades, os quaes, por sua parte, movidos de compaixão do estudantinho, cuidavam em salval-o da nota infame de amizade com taes protectores.O medico Francisco Luiz, se não esqueceu o filho de Antonio de Sá, desistiu de perguntar, como diligencia inutil, a paragem d'elle. Facilmente acreditaram que tivesse morrido, ou caísse em obscura indigencia, depois do auto de fé de 1706.Em 1718 appareceu em Amsterdão a obra de Braz Luiz d'Abreu, publicada em 1717, com o titulo: «Aguias filhas do sol que voam sobre a lua.» O nome do author produziu estranho reparo em Francisco Luiz d'Abreu.Brazera o nome da creancinha, que elle entregára a Francisco de Moraes; o sobrenome e o appellido eram os d'elle.—Quem sabe!—dizia elle á esposa—Cuidaria o filho de Antonio de Sá que era nosso filho?! Dir-lh'o-hia alguem, depois da morte de Heitor Dias da Paz? Por que ha de ter este homem o nome que lhe deixámos, e o appellido que eu tenho?...—Pergunta a alguem de Portugal onde reside o author d'esse livro—lembrou Francisca.De Portugal disseram ao israelita que Braz Luiz de Abreu era um medico residente no Porto.Sem medeação de alguem, Francisco Luiz escreveu directamente ao medico do Porto estas palavras: «Pessoa interessada em querer saber quaes foram ou são os paes de vossemecê, pede-lhe que os indique, se os conheceu. Responda para Amsterdão.»E deu o pseudonimoElias Sarmento, a quem devia ser dirigida a resposta.Braz Luiz de Abreu entendeu que a pergunta era um escarneo a elle desgraçado, que não tinha conhecido seus paes, e que, na maledicencia de inimigos, passava como exposto na roda de Villa Flor. Affrontado por tão certeira azagaia á sua immensa dôr e pejo de não poder dizer cujo filho era, respondeu n'estes termos: «Braz Luiz de Abreu responderia com um tagante ao judeu ou burro que lhe faz a pergunta, se não tivesse de ir longe procural-o a chatinar no templo, como Jesus Christo nosso Senhor fez aos avós de quem se esconde na terra dos impios, dos hereges, e dos crucificadores do Messias para o insultar.» N'um homem, chamadoElias, a allusão insultante devia de acertar infallivelmente.Francisco Luiz de Abreu, lida a resposta, riu-se da sua illusão e da catholica ira do medico portuense. N'esse mesmo correio, foi-lhe de Portugal uma carta do amigo a quem elle perguntára onde residia o medico. A carta dava sobre o sujeito os seguintes esclarecimentos: Tinha sido creado com frades, á custa d'elles se licenciára, e era familiar do santo officio, e denominado oOlho de Vidro, porque, tendo perdido um olho em desordem,o substituira por outro artificial. Accrescentava mais que, na opinião de algumas pessoas, o tal Olho de Vidro era filho de um frade, se não fosse filho de tres frades.Á vista d'isto e da resposta do author dasAguias, o hebreu acreditou evidentemente que este Braz não tinha de commum com o outro senão o nome.XITreze annos depoisFrancisca de Oliveira morreu no anno de 1730 em Italia, para onde seu marido se transferira, por 1724, a procurar-lhe ares restauradores da saude que ella a pouco e pouco perdêra em Amsterdão.O medico, perdido o arrimo da alma aos cincoenta e cinco annos de edade, sentiu gravame e tedio da vida. Os bens da fortuna eram muitos; mas o veneno da saudade e da solidão, por ser bebido em taça de oiro, não lhe era menos lethal. Se elle fosse pobre, trabalharia, quebraria na canceira da lida suada para ganhar pão alguns espinhos da sua corôa de orfão de todos os affectos puros e sagrados, na edade, em que sómente esposa e filhos podem adoçar o amargo da velhice. Não tinha ninguem lá fóra. E em Portugal se tinha parentes nem os conhecia, nem amava, nem já esperava, nem queria ser estimado d'elles.Vagamundeou de reino em reino, repartindo algumaparte dos muitos haveres por hebreus necessitados, e reservando para si a quantia que computou necessaria para passadio abundante de quinze annos.Passados dois, estanceava por Marselha, quando um navio mercante estava carregado com destino a um porto de Hespanha. Quasi sem consultar os perigos da sua temeridade, como quem nenhuns vinculos já tinha que desprender dolorosamente das coisas boas d'este mundo, embarcou como hollandez, com passaporte que o abonava mercador de Amsterdão, e desembarcou na Corunha. D'aqui passou a Portugal, em navio hespanhol, e viveu alguns dias em Lisboa, separado de toda a convivencia e encontrando a miudo pessoas de Hollanda, que deviam conhecel-o, se elle em tres annos não tivesse encanecido, e oito annos antes se não retirasse d'entre os portuguezes para os pontos mais solitarios e pittorescos da Italia.Foi o doutor a Ourem, com ares de forasteiro que vê pelo miudo as mais e menos notaveis terras dos paizes. A casa onde elle nascêra havia sido vendida pela corôa, para a qual tinha sido confiscada, depois que o dono fôra queimado em estatua. Estava sendo estalagem. Pernoitou n'ella; dormiu no quarto de sua mãe... não dormiu: chorou por todo o correr da noite vagarosa. Antes que a primeira luz do seguinte dia apontasse, saiu do quarto onde nascêra e morrêra sua mãe, viu de passagem o quarto que fôra o seu, e d'onde agora saía outro viageiro madrugador.D'aqui se foi caminho de Coimbra, abafando os soluços para que o arrieiro e outro viajante que cavalgava e o seguia silencioso lh'os não ouvissem.Andado um quarto de legua, perguntou-lhe o companheiro:—Vae para Coimbra, camarada?Francisco Luiz, fingindo uma pronuncia de hollandez que sabe algum pouco de hespanhol, disse que sim, ia ver Coimbra, porque andava examinando os monumentos celebres de Portugal.O collocutor era homem já de annos adiantados: orçaria tambem por perto dos sessenta.—Aquillo já foi Coimbra! disse elle. Quando eu por alli andei estudando, grandes homens liam na universidade; hoje, nem já parece Coimbra, nem cidade das letras. A vossemecê, que é estrangeiro, posso-lh'o dizer: os jesuitas deram cabo dos bons estudos.—Ha quantos annos andou vossemecê estudando na universidade?—Ha bons quarenta. Matriculei-me no primeiro anno de medicina em 1693.—Noventa e tres?—perguntou Abreu com reparavel interesse; mas o ar de espanto passou, na mente do outro, como pergunta admirativa do muito longe que já ia a vida estudiosa do interrogado.—É verdade. Ha que tempos isto vae!... Dos meus condiscipulos, que eu saiba, já não vive nenhum.—Seria d'esse tempo—tornou Abreu—um portuguez medico que eu conheci em Hollanda?—Como se chamava?O doutor quedou-se a scismar largo tempo, e disse:—Chamava-se Francisco... Francisco... Luiz...—De Abreu?—accudiu o interlocutor—Ora se conheci!... Não era meu condiscipulo; era mais novo do que eu na universidade um anno; mas havia de regularpela minha edade. Fui amicissimo d'elle, e elle meu. Queimaram-no em estatua e mais a mulher, no auto da fé de Coimbra, em 1699, se bem me lembro. Ora se conheci! Ainda será vivo?—Não lhe sei dizer. Ha muitos annos que viajo, e não voltei ao meu paiz. Tem familia em Portugal?—Não lhe posso dizer; mas a mim lembra-me que elle tinha um filhito natural, posto que outros diziam que o pequeno era filho de outro hebreu, que andava desterrado. Esse filho desappareceu; não sei se elle o levou, se morreu por cá em companhia de parentes.—Tambem a mim me está lembrando que esse medico me fallava muitas vezes n'outro hebreu condiscipulo d'elle... ora que me não accode o nome!... Um hebreu que fugiu de Portugal com a filha de um fidalgo, christão velho...—Ah! já sei de quem vossemecê me quer fallar... Ha de ser Antonio de Sá Mourão.—Parece-me que sim...—Não podia ser outro. Conheci-o perfeitamente. Era o melhor estudante da faculdade medica. Sei a historia d'esse desgraçado, perfeitamente...—Então sabe que fim elle teve?—atalhou Francisco Luiz.—Morreu, o que eu sei é que o pobre homem morreu lá fóra e por pouco lhe não matavam os paes cá dentro. A minha casa dista da casa dos Cabraes, senhores de Carrazedo, meia legua. Veja se eu não estarei lembrado de tudo isso, conhecendo a morgadinha como as minhas mãos. Imagine vossemecê qual seria o meu espanto, quando, faz agora quatorze annos, a vi.—A viu?!—exclamou Abreu—viu? quem?!—A morgada de Carrazedo...E, como soffreando a expansão, o viajante disse:—Conto estas coisas a vossemecê porque é estrangeiro, e por que ella já morreu, e não tem que temer da inquisição. Que ella andou em Portugal incognita...—Mas vossemecê viu D. Maria Cabral?—tornou Francisco Luiz.—Justamente, D. Maria era o nome d'ella. Vejo que sabe tambem algumas miudezas da tragedia!... Pois vi-a com estes olhos; e vossemecê poderia vel-a tambem, se ella não tivesse morrido em 1718.—Conte-me o que souber d'essa senhora, que tenho ardentissima curiosidade de saber os successos da vida de tamanhos infelizes...—Olhe, o modo como o marido lá morreu por fóra, não m'o disse ella... mas, o melhor é contar-lhe desde o principio. Appareceu aquella senhora em Bragança, com uma menina de vinte e dois annos.—Menina! filha d'ella?—Sim, filha d'ella e do judeu Sá Mourão.Francisco Luiz de Abreu arquejava, e parecia temer que a vida se lhe acabasse antes de ouvir o remate da historia. Mortificava-o, a vontade de ingranzar perguntas em tropel; sustinha-o, porém, já o receio de se privar das miudezas que o pachorrento narrar do homem promettia, já tambem o receio de se fazer suspeito pela demasia do interesse, bem que o sujeito se lhe afigurasse bom homem, e incapaz de o denunciar.—Então ella tinha uma filha?—insistiu Abreu.—É verdade. Linda como a mais linda estrella; mas a mãe, d'aquillo que tinha sido, não lhe restava sombra nem vestigio. Era uma sexagenaria, não podendo terentão mais de quarenta e quatro annos, cá pelas minhas contas, porque ella tinha dezeseis quando fugiu com o judeu da Guarda... Não me lembra o que eu ia dizendo...—Que appareceu em Bragança D. Maria Cabral com uma menina...—É verdade. Chegou a Bragança, e fallava muito confusamente o portuguez, e a filha pouco ou nada dizia. Tomou de renda uma casinha e para alli se metteu com duas criadas, que lhe chamavam D. Antonia da Piedade.Depois de por lá estar alguns mezes, dando muito que pensar á curiosidade da terra, começou a sair com um aspecto muito doentio, e a dar passeios a cavallo pelos arredores. Chegou á casa de Carrazedo, onde ella tinha nascido, e mandou pedir aos moradores d'ella licença para lá passar as horas da calma. Foi recebida por pessoas que ella nunca tinha visto; mas que eram seus primos e sobrinhos, que tinham ido de Chaves tomar conta da herança de Fernão Cabral. Este fidalgo desherdára a filha, porque as leis lh'o facultavam, e nomeara herdeiros os filhos de uma sua irmã, que elle odiava, por se ter casado com um capitão de cavallos menos fidalgo do que ella. Mas o odio á filha avantajou-se tanto ao odio da irmã, que, em artigos de morte, receiando que os descendentes d'elle ainda viessem perturbar-lhe o somno eterno, desherdou-a e nomeou seus herdeiros os sobrinhos.29D. Maria soffreu voluntariamentealgumas horas de martyrio n'aquella casa, e ouviu com enchutos olhos contar a uma de suas primas a historia da morgada de Carrazedo, mulher perdida por amor de um judeu da Guarda com quem casara. Soube como tinha sido desherdada e amaldiçoada pelo pae á hora ultima; agradeceu as sôpas que lhe deram os possuidores do seu grande patrimonio, e seguiu seu caminho. Ao escurecer chegou ao portão da minha casa, e perguntou se alli morava ainda, ou se já tinha morrido o doutor José de Barredo.—José de Barredo! disse Abreu, sem ter mão da impetuosa reminiscencia que lhe accudiu.—Sou eu. Parece-me dar vossemecê a entender que já ouviu o meu nome?!—Não me é novo... tartamudeou Francisco Luiz.—Póde ser que Francisco Luiz de Abreu lhe fallasse alguma vez em mim, quando lhe referiu a historia de Antonio de Sá, porque eu, não sei porque fatal compaixão de D. Maria, alguma parte tive nos amores funestos d'elles, prestando-me a receber da Guarda as cartas que elle escrevia á morgada.—Naturalmente é de Francisco Luiz que eu conheço o nome de vossemecê, disse o doutor Abreu, olhando muito em fito as feições d'aquelle velho, que tinha sidoem Coimbra um dos seus mais affectos contemporaneos.—Deixe-me apertar a mão de um amigo de Francisco Luiz—tornou Abreu, apertando-lh'a com estremecido enthusiasmo.—Se elle o podesse encontrar, senhor Barredo, estou que choraria, estreitando ao coração o homem talvez unico n'este mundo que lhe resta dos que na mocidade o prezaram...—Certamente—disse José de Barredo enternecido a lagrimas.—Se elle vivesse, seria o meu mais velho amigo... que todos os outros morreram... A opinião que elle e Antonio de Sá tinham do meu natural, sendo elles judeus e eu christão velho, bem se deixa ver no procedimento de D. Maria comigo; pois, escondendo ella o seu nome e nascimento de todos, procurou-me a mim com o proposito de se declarar. E assim o fez.Logo que me avisaram de estarem alli duas damas, uma das quaes tinha cara de doente, fui recebel-as ao pateo, cuidando que era consulta de medico. Conduzi-as á sala, e ahi D. Maria, com os olhos desfeitos em lagrimas, e muito embaciados, entrou a olhar-me, e a tremer, até que, expedindo um grande ai, se lançou nos meus braços, clamando: «eu sou a sua amiga da infancia, sou Maria Cabral, morgada de Carrazedo!»N'este ponto da narrativa, pararam os arreeiros á porta da estalagem de Thomar. Os cavalleiros apearam, subiram ao sobrado da estalagem e pediram almoço.José de Barredo proseguiu, atando o fio com as palavras de D. Maria.—Eu sou a sua amiga da infancia!—clamou ella—Sou Maria Cabral, morgada de Carrazedo! Faça idéa, e continuou Barredo—faça idéa do meu assombro, senhor... senhor... póde dizer-me a sua graça?... Umamigo do meu amigo da mocidade, não deve hesitar em querer a amizade que lhe offereço, e dizer-me o seu nome...—Direi—balbuciou commovido o outro no mais correcto portuguez:—mas ha de ser com o coração bem perto do teu, José; abraça-me, e ouve-me muito baixinho esta revelação feita á tua alma: Eu sou Francisco Luiz de Abreu.José de Barredo abriu a bôca até onde lh'o permittiam as articulações das mandibulas. A expressão d'aquelle seu grandissimo espanto foi um som rouco, similhante a um brado de terror. Em seguida, rebentaram-lhe subitas as lagrimas, e então sómente pôde o velho atirar-se todo aos braços do amigo, e exclamar:—Ó Francisco!... se a inquisição te conhece!—Tu sómente me conheces em Portugal—disse o doutor Abreu—E não temas por mim, que, se eu cair nas garras do santo officio, pouco mais se doerá do fogo d'elle este corpo empedrenido do que ha trinta e sete annos a minha estatua. Morto estou eu já, meu amigo. Que me faz a mim agonisar sobre as brazas da minha tristeza irremediavel, ou expirar mais depressa nas torturas da polé ou nas do garrote? Como quizerem...José de Barredo quiz suspender a narrativa do tocante á viuva de Antonio de Sá Mourão para ouvir a dos successos de Francisco Luiz. Não lh'o permittiu a anciedade do amigo. Conformou-se o confidente de D. Maria, e continuou, ordenando aos arrieiros que fossem adiante e os esperassem no Arneiro, onde haviam de jantar, cinco leguas adiante na estrada de Coimbra. Continuou o doutor Barredo:—O alvoroço que me fez o apparecimento d'aquellasenhora alquebrada e de todo desfigurada, dizendo-me que era a formosa morgada de Carrazedo, só t'o posso comparar com aquelle que, ha pouco tu me causaste, Francisco. São dois lances da minha vida que já não podem repetir-se. Não tenho mais ninguem que esperar da minha mocidade. Era ella e tu; por que Antonio de Sá, esse não póde mais voltar...—Creio que seria o mais ditoso dos teus amigos...—balbuciou Francisco Luiz.—Oh! não!... pois tu desconheces a doçura d'estas nossas lagrimas? Dois velhos, que se amaram moços, e se encontram nos umbraes de outro mundo para se despedirem! Que é isto, senão o derradeiro calor da vida que ainda nos aquece os corações?... Demos graças ao nosso Deus, que é o mesmo Deus, ou elle se chame Jesus de Nazareth, ou Messias, ou simplesmente creador do céo e da terra. Suppliquemos-lhe que nos deixe já agora acabar estes ultimos dias um á beira do outro... Tu vaes para minha casa, não é verdade, Francisco?—Irei a tua casa, irei, José; mas... estou a receiar que te esqueças da nossa pobre senhora...—disse Abreu, sorrindo, e enchugando as lagrimas.—Tens razão; mas deixa-me ser feliz um poucachinho... Temos tanto tempo em que fallar dos outros desgraçados...—Oh! se tu podesses dizer-me que ella ainda vive...—Não posso, e pouco tenho que te contar antes da morte d'ella... Ahi vae o mais que sei. D. Maria perguntou-me se devia considerar perdido o seu patrimonio; e eu respondi lhe que sim; e pedi-lhe que nem fallasse em tal pretenção, se a trazia, porque os individuospossuidores d'elle seriam capazes de a denunciar ao santo officio, e de lançarem rezina aos páos da fogueira com as proprias mãos. Então me relatou ella a desgraçada vida que tivera por espaço de quinze annos, captiva de corsarios e mais o marido e filhinha: é uma historia longa, que eu te hei de mostrar escripta, em minha casa. Não t'a sei dizer de memoria porque ha quatorze annos que fechei e mais não vi os taes papeis, e já era minha tenção queimal-os para que por elles se não venha a descobrir quem é D. Josepha, a filha do judeu Antonio de Sá. Esteve D. Maria alguns poucos mezes em minha casa, soffrendo, sem treguas, molestia incuravel: estava ethica. Lembrou-se de ir consultar medicos famosos: bem sabia eu a inutilidade do passo; mas deixei-a ir ao Porto, a consultar um famoso medico chamado oOlho de Vidro.—Braz Luiz de Abreu—atalhou Francisco Luiz.—Esse mesmo, cujo nome tantas vezes me fez lembrar o teu, que cheguei a perguntar se elle seria teu parente; mas logo me disseram que não, e, para prova de que não era, bastou-me saber que o Olho de Vidro era familiar do santo officio.Francisco Luiz interrompeu a narração para referir a correspondencia que tivera com o tal medico portuense, imaginando que elle, por um acaso maravilhoso, poderia ser o filho de Antonio de Sá, uma creança que...—Muita gente—accudiu José de Barredo—e eu mesmo pensei que fosse teu filho...—E admiro que não soubesses que era filho de Antonio de Sá!—Não sabia; porque, desde a fuga da morgada, nunca mais tive novas d'algum d'elles, e bem sei eupor que: fiz repugnancia ao desvariado procedimento d'ella; cheguei a fazer-lhe ameaças de a denunciar ao pae, a ver se a dissuadia. Tu mesmo, se bem me lembro, ignoravas onde estivessem alapados, e cuidavas comigo que se tinham embarcado para a India. Depois desappareceste de Coimbra, e quando voltaste nada me disseste, nem eu t'o levo a mal, porque sei quão perigosa era a tua situação, e a dos paes de Antonio de Sá que o santo officio prendera na Guarda. Sabia eu que uma mulher creava em Coimbra uma creancinha que tu algumas vezes visitavas. Suppuz, como quasi toda a gente, que era teu filho... Morreu esse menino?—Não sei. Presumo que sim. Ninguem me pôde informar, e bastas vezes pedi novas d'elle. Acaso te lembras da morte de Heitor Dias da Paz, de Villa Flor?—Lembro, foi em 1707.—Nunca ouviste dizer que em poder d'esse hebreu estivesse um moço, que então devia ter entre quatorze e quinze annos?—Não ouvi dizer nada.—Pois era elle, se existisse. Vamos ao fim da historia de D. Maria. Valeu-lhe alguma coisa a medicina do tal Olho de Vidro?—Nada. Passados trinta e tantos dias, chegou a Bragança a nova de que ella tinha morrido, com o nome de D. Antonia da Piedade, e que sua filha D. Josepha tinha casado com o medico Braz Luiz de Abreu. Aqui tens o que sei. Haverá cinco annos que eu fui ao Porto e procurei o Olho de Vidro, no intento de ver D. Josepha. Disseram-me que elle, em resultado de inimigos seus collegas, que assanhára com a publicação d'um livro chamadoPortugal Medico, tivera de afastar-se doPorto, e fôra estabelecer-se em Aveiro, onde tinha comprado muitos bens de raiz e vivia abastadamente. As minhas occupações não me deixaram ir a Aveiro, e já agora morrerei sem ver D. Josepha, que deve estar perto dos quarenta, ou quem sabe se já estará na eternidade!—Irás agora a Aveiro comigo—disse Francisco Luiz.—Quero vel-a, sem que ella saiba que eu fui o maior amigo de seu pae. É preciso temer-lhe o marido, visto que elle tanta familiaridade tem com o santo officio. Tu a procurarás, e darás azo a que eu a veja e lhe falle como desconhecido. Uma boa lembrança... Irei consultar-lhe o marido, fingindo de doente estrangeiro, a quem chegou a nomeada de tão abalisado medico. Contar-lhe-hei muitissimos padecimentos que elle ha de classificar de muitissimas maneiras, e assim estarei mais ao alcance de ouvir D. Josepha dizer-me alguma coisa de seu pae. Ora, dize-me tu: nunca, D. Maria te disse que deixára um filho em Portugal, quando fugiu para Hespanha?—Disse que esse menino o considerava morto: uma só vez me fallou d'elle; mas as lagrimas eram tantas que eu me esquivei a pedir-lhe pormenores da creança, de modo que nem soube que o menino ficára em tua companhia, nem depois passára á dos Moraes de Villa Flor. Eu não te disse ainda que D. Maria, ás temporadas, parecia cair em modorra e paralysia de entendimento. Esquecia-se e quedava-se n'umas cogitações taciturnas; e, se lhe tiravam muito pela falla, respondia disparates. De sorte que eu, a respeito do filho, que ella dizia ter deixado em Portugal, não cheguei a fazer perfeito juizo, nem a mesma filha estava convencida deque elle tivesse existido: a prova era que ella ouvia com certa estranheza as revelações confusas que a mãe me fazia sobre as desgraças do seu longo desterro e captiveiro. Póde ser que tu, Francisco, se te deres a conhecer a D. Josepha, venhas a obter muitos esclarecimentos, que eu mal posso dar-te porque sinto enfraquecida a memoria, e preciso espertal-a com a leitura dos meus apontamentos. Quem melhor te poderá referir a vida de Antonio de Sá, a meu ver, é o marido da filha; mas quererá elle—o familiar do santo officio e author da vida de Santo Antonio—que tu saibas a procedencia hebraica de sua mulher, embora possa ufanar-se de serem netos de Fernão Cabral os seus filhos? Não terá elle medo de que o santo officio lhe sáia ainda a pedir contas á mulher dos delictos do pae e da mãe?—Isso é claro—observou Abreu.—Nem eu lh'o perguntaria, nem elle me contaria coisa alguma allusiva á filha de Antonio de Sá. De mais a mais, já eu te disse que resposta me elle deu para Amsterdão. Devemos ir prevenidos contra o genio irritavel do homem; é preciso muitissimo cuidado, que não vamos indiscretamente perguntar-lhe de quem é filho.No dia seguinte ao meio dia, os dois velhos chegaram a Coimbra, e andaram procurando as differentes casas em que tinham morado.Ao segundo dia de repouso, cuidaram em jornadear para Aveiro. Pouco antes da partida, chegou a Coimbra um proprio enviado da casa de José de Barredo; noticiando-lhe que sua mulher estava em perigo de vida. Desfez-se o plano de irem juntos a Aveiro, e foram juntos para Bragança; Francisco Luiz de Abreu quiz acompanharo velho amigo, no proposito de lhe desacerbar as lagrimas da viuvez, se a desgraça fosse inevitavel.Era. Francisco Luiz assistiu aos funeraes da esposa de José de Barredo. E quando o velho parecia conformar e esquecer-se entre as caricias de muitos filhos, despediu-se por alguns dias, e saiu sósinho de Bragança em direitura a Aveiro.XIIHistoria de Antonio de SáRecebeu Braz Luiz de Abreu aviso para ir ver um hespanhol que pousara enfermo na estalagem.Francisco Luiz queixou-se de varias molestias, ouviu o parecer do medico, pagou-lhe generosamente e pediu-lhe que o visitasse todos os dias.Dos remedios receitados não se aproveitou, porque os achaques eram phantasticos, e bem sabia o doutor Abreu como era facil enganar outro doutor Abreu.No dia seguinte, o Olho de Vidro encontrou melhorado o seu doente, e sentiu-se ufano do acerto com que cortára pela raiz uma doença, com a qual se tinham enganado os principaes medicos de Hespanha, segundo a confissão do doente.Já o doutor Braz queria espacejar as visitas: o hespanhol, porém, instava, pagando-as a brio, que não lhe faltasse diariamente com ellas.Estava sendo celebrado em Aveiro este triumpho recente do Olho de Vidro.Já o convalescente se julgava restaurado, e o doutor como tal o déra; o forasteiro, porém, affeiçoado á terra onde se recobrara, determinou passar n'ella a primavera de 1732, e voltar nutrido a Castella, de modo que os medicos madrilenses se comessem de inveja dos seus collegas portuguezes.O doutor Braz, como visse no seu enfermo D. José Aristizaval (assim era conhecido em Aveiro) excellentes qualidades, contando n'estas a bizarria indicativa de riqueza, convidou-o a servir-se de sua casa e da convivencia de sua esposa e filhos, os quaes, dizia Braz Luiz, são tantos que bastam a formar uma assembléa em Aveiro ou saráo d'aldeia, que monta o mesmo.Agradeceu e aceitou o convidado o offerecimento; e, logo á primeira visita, brindou a esposa do seu medico e as cinco meninas, formosuras muito de se verem, cada uma com sua joia de preço. Reparou logo e de relance em D. Josepha, e recordou uma por uma as feições de D. Maria Cabral.Ficaram as meninas contentissimas dos presentes, que eram braceletes de oiro, mandadas comprar ao Porto, com a designio já posto no destino que tiveram. Entretido n'estas coisas, mistura de puerilidade e bons sentimentos, o espirito de Francisco Luiz ía cobrando alento e certa energia. Grande parte n'esta sua insolita actividade era por certo a esperança de saber pelo miudo a vida tragica do seu amigo Antonio de Sá.Seguiram-se as visitas e foi-se apertando a intimidade. As meninas e os rapazes folgavam muito de ouvir o velho D. José contar historias curiosas das suas navegações.Um dia, veio ao ponto uma batalha de corsarios com uma náo hollandeza, em que elle viajava na costa de S. Domingos.—De S. Domingos!?—exclamou D. Josepha.—Já esteve n'esses sitios vossemecê?—Avistei-os—disse o hospede.E inventou uma rija peleja entre hollandezes e piratas, descripção temerosa que tinha os ouvintes espavorecidos.Terminou o saráo d'aquella noite; e, na seguinte, Braz Luiz de Abreu, cada vez mais entrado de affecto ao hespanhol, lhe disse:—D. José Aristizaval, hoje sou eu o narrador de desventuras de navegantes. A historia que eu vou referir só a sabe em Portugal minha mulher e eu: de hoje ávante ficam-na sabendo o meu honrado hospede, que a não ha de repetir a portuguezes, e os meus filhos, que por interesse seu, hão de calal-a.—Honrado sou eu por benevolencia do doutor—se vossemecê me considera egual com seus filhos no merecimento de entrar no segredo de seus paes, respondeu Francisco Luiz.—É segredo de tanto porte—accrescentou o medico, abaixando a voz—que não sei d'outro em minha vida com que possa mostrar-lhe a confiança que me merece, senhor D. José.E, passados alguns segundos, Braz Luiz de Abreu, silenciosos profundamente os ouvintes, principiou assim:—Minha sogra era filha de um dos primeiros fidalgos de Traz-os-Montes. O solar dos Cabraes de Carrazedo é um dos mais antigos de Portugal. Meu sogro erahebreu, e chamava-se Antonio de Sá Mourão, natural da Guarda.Fugiram de Portugal com admiravel fortuna, e casaram-se segundo o ritual hebraico, presumo eu. Meu sogro, ao tempo da fuga, estudava medicina, e tomou gráo em uma das universidades estrangeiras. Esteve alguns annos na Europa; e, como o dominava a paixão de ser rico, aceitou partido muito vantajoso que os francezes lhe offereciam no Canadá, e embarcou em Marselha, quando minha mulher era creancinha.Na altura da costa de S. Domingos, a náo em que elle se embarcára perdeu o rumo, e foi levada contra a costa, por não ter tempo de fazer-se ao mar quando a tormenta se levantou. Antes que o navio se despedaçasse, alguns passageiros aventuraram-se n'uma lancha a ganharem a praia por entre as fauces da morte. Com os aventureiros ia meu sogro, e a esposa com a filhinha nos braços, dispostos a descerem ao abysmo abraçados.Já perto de terra, onde levavam postos os olhos, avistaram dois navios de pequeno lote, e chusmas de tripulantes vestidos de trajos extravagantes. Um conhecedor d'aquelles mares reparou nos homens da patria, que se moviam vertiginosamente, e exclamou:—São os demonios do mar! São flibusteiros!30Vejam lá o que querem: morrer no mar ou no captiveiro d'aquellas bestas-feras?Ninguem optou por morrer no mar. Os passageiros da lancha, bebendo a morte a cada instante, conclamaram que antes queriam o captiveiro do que a morte horrivel de afogados.Antes de chegarmos a terra, ouviu-se uma grande celeuma do mar a dentro. Olhámos todos para a náo, e vimol-a sossobrar, e uma montanha de vagas abater-se sobre ella. Soltámos um grito unisono de consternação! Alguns dos aventureiros gritavam por esposas, por paes e filhos!... Que situação, senhor D. José! D'um lado, aquelle naufragio horroroso, do outro os flibusteiros, que esperavam anciosos a prêsa, que se lhe ia entregar aos ferros. Assim que a lancha bateu em terra, os bandidos rodearam a prêsa, e mal ouviram não sei que palavras ditas por meu sogro a sua mulher, bradaram todos: «Cá temos um cão de hespanhol!» E a um tempo se lançaram todos a elle, como se entre si disputassem com especial odio a posse d'aquella victima distincta das outras. Como se explicava o particular rancor que os flibusteiros tinham aos hespanhoes?—Se eu não receasse interromper a sua interessante historia—disse Francisco Luiz—lhe daria a razão d'esse odio, se é que sua esposa não quer explicar-lh'o melhor do que eu sei, por m'o haverem contado e não por experiencia.—Minha mulher, disse Abreu, ignora-o, porque muitos annos viveu longe do trato de tal gente, e não sabe explicar-m'o.—Em poucas palavras o farei—tornou o hospede.—Os pontos essenciaes da ilha e costa de S. Domingos pertenceram aos hespanhoes. Um dia, chegaram á costa septentrional d'aquellas possessões algumas galeotas deaventureiros francezes, mesclados com malfeitores foragidos de todas as nações, homens sem patria, escapados do cadafalso, feras tremendas, que precisavam embriagar-se de sangue para gosarem algum prazer n'este mundo. A estas escorias sociaes congregaram-se outras da mesma indole saidas de Guadelupe, de Granada e da Martinica. N'aquellas vastas florestas acharam que farte sustento, na abundancia de manadas de toiros bravos, de javalis, e vaccas mansas, que os hespanhoes por lá deixaram medrar e multiplicar. A riqueza de cada um de estes bandidos compunha-se de uma boa matilha de rafeiros, d'uma enorme espingarda, duas camisas, uma jaleca, um chapéo de feltro, um calção, e uma grossa correia á cinta com uma espada curta e tres facas de matto pendentes. As casas d'elles, durante as sortidas á rapina, eram barracas de fina lona, com a qual se defendiam das ferroadas dos moscardos e das geadas homicidas. Viviam aos dois, antes que a França lhes mandasse mulheres, e, por morte de um, era herdeiro o outro. Raras vezes se desavinham, e quando se desafiavam matavam-se a tiro de espingarda. Se o morto não recebesse os pelouros pela frente, o assassino era logo degolado como traiçoeiro.O principal commercio d'elles era carnes seccas e pelles, que iam vender ás enseadas da costa, mediante uns assalariados, que tratavam entre elles e os compradores, na esperança de voltarem ricos da America, onde se lhes ia a vida em durissimo captiveiro.Quando os hespanhoes da ilha de S. Domingos deram tento dos salteadores nas visinhanças das ilhas, tiraram-se da lethargia de suas riquezas, pediram tropas ao rei de Hespanha e fizeram guerra implacavel aos flibusteiros,matando-lhes muitos dos mais audazes. D'este começo de exterminio se gerou o odio dos bandidos á Hespanha, e mais ainda por causa do golpe mortal que soffreram, quando as tropas entraram ás mattas, e mataram os rebanhos mansos e bravos, que o mesmo foi seccar as fontes de subsistencia d'aquellas hordas. Eis aqui, a meu ver, a origem do inquebrantavel rancor dos chamadosdemonios do mar. Agora, vamos á historia do senhor Antonio de Sá, meu sogro.—Meu sogro, minha mulher e filho—continuou Braz de Abreu—foram remettidos á Martinica n'uma galé, que vogava com mais de cem homens. O capitão dos flibusteiros residia alli, como governador, e chamava-se Duparquet...—Devia ser filho—atalhou Francisco Luiz—de um francez tambem chamado Duparquet, levado ás honras de governador em 1637 por Luiz XIII de França, a quem convinha aliançar-se comtão honradosvassallos.—Duparquet, sabendo que o hespanhol captivo era medico, tratou-o com alguma affabilidade, e encarregou-o de lhe curar de cameras uma filha. Meu sogro saiu felizmente do encargo, e foi considerado por isso medico da casa do governador. N'aquelle anno, que me parece seria o de 1697 ou 98, segundo as confusas lembranças de minha sogra, meu sogro foi mandado embarcar n'uma náo de quatro peças, da qual se arvorára almirante um francez chamado Legrand, o mais temivel flibusteiro d'aquelles mares. Antonio de Sá curou muitos mutilados n'uma abordagem aos galeões de Hespanha, e, pela pericia com que o fez n'um grave ferimento de Legrand, ficou desde logo nomeado escravo e medico do almirante. Meu sogro assistiu ao assalto deMaracaibo, riquissima cidade e bem guarnecida, que se deixou entrar e saquear por quatrocentos salteadores.Tambem assistiu á tomada de Carthagena pela esquadra franceza, auxiliada por flibusteiros, que lhe deram a victoria.No afogo d'esta peleja, Antonio de Sá, quando estava pençando as feridas de seu senhor, foi gravemente ferido de bala. A convalescença foi longa. N'este intervallo, em que elle se tornára inutil, pediu licença para ir vêr á Martinica sua mulher e filha. Negaram-lh'a; mas concederam-lhe que a familia o fosse visitar nos arraiaes movediços de sobre as ondas.Legrand tinha residencia em S. Domingos, onde se desfadigava das batalhas navaes, exercitando os seus leões do mar. Obrigou, portanto, o prezadissimo escravo a viver com elle. D. Maria, minha sogra, passou á companhia do marido, e minha mulher que tinha então seis annos, ficou em casa do governador da Martinica, por que a filha predilecta de Duparquet se habituára a consideral-a a sua escrava loura.Por muitas vezes, Antonio de Sá Mourão supplicou a Legrand, que, em paga de seus serviços, o deixasse passar com sua familia á Europa. O francez, importunado pela teimosia de taes rogos, ameaçou-o de o mandar matar, se elle tentasse fugir! É onde podia chegar a gratidão do flibusteiro almirante!Minha sogra me disse que, decorridos cinco annos, o marido escrevera desde S. Domingos a um amigo muito querido, que tinha em Portugal. A carta, porém, foi devolvida passados dias a Antonio de Sá, com a seguinte reflexão do governador almirante: «Os escravos dos flibusteiros, se teimam em escrever cartas para Hespanha,correm o perigo de não poderem já ler as respostas, quando ellas voltarem.»Nunca mais Antonio de Sá escreveu ou tentou escrever para Portugal.O medico ia enriquecendo com as liberalidades dos flibusteiros; porém, um dia, achou-se roubado, não obstante ser pouquissimo vulgar o latrocinio entre elles. Seria porque ao portuguez ou hespanhol o consideravam estranho á sua tribu, e como tal indigno de se gosar dos foros de lealdade, que uns com outros guardavam.Minha mulher corria por este tempo nos seus dez annos. O pae consternava-se de a ver crear-se entre gente brutal, e rodeada de creaturas ignobeis do seu sexo, recenseadas nos lupanares de Paris e de Marselha, enviadas como presas ás colonias.Antonio de Sá, aproveitando o lanço de ter captivo o animo do governador, depois da cura de doença grave, pediu-lhe licença para enviar a filha a educar-se n'uma casa de religiosas francezas. O governador condescendeu, e enviou duas netas ao mesmo collegio, na primeira náo que saiu para França.Meus sogros presumiam que lhe seria menos embaraçada a fuga podendo passar a filha á Europa. Enganaram-se; por que Duparquet, arrependido da concessão, redobrou de vigilancia sobre os menores passos do seu medico.XIIISeguimento da historia—Antonio de Sá—proseguiu Braz Luiz—foi chamado a curar de febres um judeu rico da Normandia, que se passara com grande companhia de hebreus pobres a fundar uma colonia na costa de S. Domingos, com licença do rei de França e beneplacito do governador. Meu sogro, cumulado de liberalidades do seu restabelecido enfermo, deu-se por bem pago da amizade do hebreu, a quem se revelou proscripto da nação fiel, e evidenciou sua origem, praticando com elle as ceremonias judaicas.O colonisador estimava-o muitissimo. Animou-o a declarar-lhe o seu intento e pedir-lhe coadjuvação para a fuga. Não lhe encareceu o hebreu grandes difficuldades á boa saida do plano; assegurou-lh'a facil, logo que, fundada e solidificada a colonia, elle se fizesse na volta de França.O medico, alentado de esperanças, aguardou anno e meio a almejada hora; todavia, minguou-lhe a necessaria prudencia, porque, sem grande recato, começou de longe a simplificar os valores que tinha, trocando-os por pedras preciosas e coisas de facil transporte.Chegado o tempo da saida do opulento hebreu, conforme ao plano gizado pelos dois, inventaram uma epidemia na colonia, e pediu-se ao governador a assistencia do medico hespanhol. Duparquet mandou conhecer da epidemia clandestinamente por um cirurgião francez, fugido das galés de Marselha, e foi certificado de que era imaginaria a contagião. Foi o hebreu normando chamado á Martinica, quando já Antonio de Sá se desconfiava de certos tregeitos que vira na má cara do governador. O judeu, porém, mais desconfiado ainda que o seu protegido, respondeu affirmativamente ao commissario de Duparquet, e em vez de velejar para Martinica, mandou aproar ás ribas normandas e accender os morrões para incutir respeito ás galés de flibusteiros ancoradas na costa.Antonio de Sá foi o bode expiatorio da affronta, se mais bodes não foram os judeus da colonia que o governador mandou passar á espada, sem perdoar sequer a mulheres e crianças. Meu sogro teria sido espingardeado, se a esposa se não lançasse em joelhos aos pés da filha de Duparquet, a quem o marido por duas vezes arrancara ás presas da morte.Depois de preso alguns mezes, Antonio de Sá foi chamado á presença do governador e perdoado. Prégou-lhe o francez um demorado sermão, recheado de censuras contra o feio crime de ingratos da laia d'elle medico, o mais venturoso homem que ainda tinha caídoem unhas de flibusteiros, e homem de mais a mais filho das Hespanhas. Lembrou-lhe os beneficios desusados com que lhe galardoara os seus bons serviços como medico, e os conselhos que lhe dera sobre o modo de enriquecer-se e constituir-se um dos mais ricos proprietarios das colonias de S. Domingos. Lembrou-lhe o resgate que lhe dera da filha, tendo-a aliás destinada, como formosissima que era, a casar com um seu neto.Antonio de Sá respondeu com muitas lagrimas, talvez suggeridas pelo recordar-se da filha, e desesperança de tornar a vel-a. Estas lagrimas compadeceram o governador, que o abraçou estreitamente, e lhe pediu que se deixasse estar até que um dia passassem ambos a França.O medico resignou-se e esperou.Entretanto, senhoreou-se d'elle presadissima tristeza, que a pobre esposa não sabia nem podia consolar. Esquartejava-lhe o coração aquelle espectaculo de incessante latrocinio e sordido desavergonhamento de costumes. Olhava contra o mar, e perdia a vista afogada nas lagrimas, exclamando: «Não hei de mais ver-te, ó minha filha... não hei de mais ver-vos, meus filhos...»—Pois elle tinha mais que uma filha?—perguntou Francisco Luiz de Abreu.—Essa mesma pergunta fiz a minha sogra—disse Braz—; mas a resposta era um silencio indecifravel, um esquisito amuar, que nem eu nem minha mulher ainda agora podemos atinar o que fosse... A meu juizo, minha sogra padecia umas turvações, a revezes, durante as quaes era preciso que a gente se não demorasse a querer entendel-a ou interrogal-a, que entãorompia em alto choro ou carregava iradamente a sobrancelha.Meu sogro foi um dia com sua mulher supplicar ao governador que os deixasse sair, ou os mandasse matar.O francez condoeu-se, e mandou-os retirar benignamente, e esperar resposta em occasião opportuna. A opportunidade chegou tarde.Tinham já decorrido doze annos n'aquelle viver, em que outro qualquer homem acharia distracção, enriquecendo-se, e sabendo aproveitar-se d'esse lado unico, e todavia o mais bello para muita gente.Enfermou gravemente o medico: quem sabe se elle a si mesmo ministrou o veneno, que o ia corroendo vagarosamente? A sua maxima afflicção era antever a morte da esposa antes da sua. Isto attribulava-o, como se já a estivesse vendo sobre terra. Ia-se a ella debulhado em lagrimas, e rogava-lhe de mãos postas que tivesse mais força d'alma, mais coragem do que elle tinha para arrastar aquellas cadeias.Póde ser que afinal se lhe espessassem sombras de demencia na grande luz de razão com que entendera os arcanos da sciencia, quando a estudava em Coimbra...—Fallou vossemecê com alguem que o houvesse conhecido em Coimbra?—perguntou Francisco Luiz.—Fallei com os meus lentes, que todos tinham sido condiscipulos e contemporaneos d'elle, e lhe perdoavam o crime do rapto e do hebraismo em desconto de sua alta capacidade para as divinas sciencias medicas... Em que ponto estavamos?—Na doença do pae...—disse D. Josepha.—É verdade... na doença do meu sogro que foi aprimeira e ultima da sua vida. Minha sogra, quando chegava a esta final jornada da sua tragedia, parece que se lhe apagava o entendimento. Soluçava, com os braços cruzados sobre o seio, e os olhos cravados no alto ponto onde ella imaginava por ventura entrever o espirito de seu marido. O certo é que elle morreu em 1716, consoante o calculo de minha mulher, que então já contava os seus vinte e um annos, dez dos quaes tinham sido vividos n'um convento.A compaixão franqueou a minha sogra a saida da colonia. Apossou-se da herança do marido que devia ser grande. Embarcou em um navio marselhez, que voltava do Canadá; antes, porém, de saltar de um barco de flibusteiro ao navio francez, já estava roubada do mais precioso da sua fazenda.A pobrinha não se queixou, nem de ver-se pobre cobrou grande angustia. Lembrou-se de que tinha uma filha, uma patria, e n'ella os haveres de seu pae, que deviam ser a riqueza de sua filha.Procurou em França o convento de sua filha, a qual duvidou reconhecer a mãe. Saiu minha mulher da casa religiosa, e assim se viram duas senhoras desamparadas em meio da França, entregues á propria deliberação. Alguem as enviou ao ministro portuguez em Paris, que lhes ouviu a historia com sentimento, e caridosamente aconselhou a minha sogra que se houvesse muito prudente com o santo officio de Portugal, em cujos archivos o nome d'ella devia estar escripto para eterna memoria. Porém, como quer que D. Maria teimasse em sair para a patria, o ministro advertiu-lhe que mudasse de nome, e se valesse das cartas que lhe deu, caso ainquisição a perseguisse, por effeito de alguma irreflexão d'ella, quanto á exigencia dos haveres de seus paes.Proseguiu Braz Luiz de Abreu, relatando o que já é notorio ao leitor, até ao seu casamento com a filha de D. Maria Cabral, fallecida no Porto.—Crucificada existencia foi pois a de Antonio de Sá Mourão!—murmurou muito recolhido Francisco de Abreu, e assim se esteve cogitativo por largo espaço.—Vejo que lhe fez commoção esta funebre historia!—disse D. Josepha.—Muitissima dôr!—murmurou o hospede, limpando o rosto coberto de lagrimas.—Pobre homem!... que destino!... que vida!... Como o mundo debaixo do céo está infamado de tamanhas desgraças!... E vale a pena o viver!... E não morrem afogadas as creancinhas ás mãos de seus paes!...Braz de Abreu, esposa e filhos todos tinham os olhos amarados de pranto.Francisco Luiz levantou-se, beijou as meninas mais novas, apertou a mão de D. Josepha, e despediu-se offegante de soluços.—Que sensibilissimo homem!...—disse o medico.

Veinte y dos annos in prison penosaPor defender de Dios la verdad pura,Termino arrastra la cadena duraQue le da el ser la sacra ley su esposa.

Heitor Dias da Paz foi comparado na coragem da morte ao hespanhol Lopo de Vea, filho de paes christãos velhos, o qual se fizera judeu, e se circumcidára no carcere. A constancia de sua morte obrigou o inquisidor geral a dizer quenunca vira tão ardente desejo de morrer, nem tamanha confiança de salvação, nem tão completa firmesa, como a d'aquelle moço na flor da edade.28

O medico Abreu, para não arriscar a segurança dos seus parentes e amigos de Portugal, absteve-se de pedir informações de Braz, nos primeiros annos seguidos á morte dos judeus de Villa Flor. Corria o anno de 1710 quando elle se animou a indagar com a maxima cautela. Algumas pessoas foram disfarçadas a Coimbra, averiguaram com todo o resguardo, e nenhum esclarecimento alcançaram. Ninguem dava novas nem rastreava o destino do moço. Eram obvias as razões d'esta ignorancia: Braz Luiz nunca em Coimbra estivera na companhia de Heitor Dias da Paz, nem o collegial de S. Paulo ousava dizel-o, admoestado pelos frades, os quaes, por sua parte, movidos de compaixão do estudantinho, cuidavam em salval-o da nota infame de amizade com taes protectores.

O medico Francisco Luiz, se não esqueceu o filho de Antonio de Sá, desistiu de perguntar, como diligencia inutil, a paragem d'elle. Facilmente acreditaram que tivesse morrido, ou caísse em obscura indigencia, depois do auto de fé de 1706.

Em 1718 appareceu em Amsterdão a obra de Braz Luiz d'Abreu, publicada em 1717, com o titulo: «Aguias filhas do sol que voam sobre a lua.» O nome do author produziu estranho reparo em Francisco Luiz d'Abreu.Brazera o nome da creancinha, que elle entregára a Francisco de Moraes; o sobrenome e o appellido eram os d'elle.

—Quem sabe!—dizia elle á esposa—Cuidaria o filho de Antonio de Sá que era nosso filho?! Dir-lh'o-hia alguem, depois da morte de Heitor Dias da Paz? Por que ha de ter este homem o nome que lhe deixámos, e o appellido que eu tenho?...

—Pergunta a alguem de Portugal onde reside o author d'esse livro—lembrou Francisca.

De Portugal disseram ao israelita que Braz Luiz de Abreu era um medico residente no Porto.

Sem medeação de alguem, Francisco Luiz escreveu directamente ao medico do Porto estas palavras: «Pessoa interessada em querer saber quaes foram ou são os paes de vossemecê, pede-lhe que os indique, se os conheceu. Responda para Amsterdão.»

E deu o pseudonimoElias Sarmento, a quem devia ser dirigida a resposta.

Braz Luiz de Abreu entendeu que a pergunta era um escarneo a elle desgraçado, que não tinha conhecido seus paes, e que, na maledicencia de inimigos, passava como exposto na roda de Villa Flor. Affrontado por tão certeira azagaia á sua immensa dôr e pejo de não poder dizer cujo filho era, respondeu n'estes termos: «Braz Luiz de Abreu responderia com um tagante ao judeu ou burro que lhe faz a pergunta, se não tivesse de ir longe procural-o a chatinar no templo, como Jesus Christo nosso Senhor fez aos avós de quem se esconde na terra dos impios, dos hereges, e dos crucificadores do Messias para o insultar.» N'um homem, chamadoElias, a allusão insultante devia de acertar infallivelmente.

Francisco Luiz de Abreu, lida a resposta, riu-se da sua illusão e da catholica ira do medico portuense. N'esse mesmo correio, foi-lhe de Portugal uma carta do amigo a quem elle perguntára onde residia o medico. A carta dava sobre o sujeito os seguintes esclarecimentos: Tinha sido creado com frades, á custa d'elles se licenciára, e era familiar do santo officio, e denominado oOlho de Vidro, porque, tendo perdido um olho em desordem,o substituira por outro artificial. Accrescentava mais que, na opinião de algumas pessoas, o tal Olho de Vidro era filho de um frade, se não fosse filho de tres frades.

Á vista d'isto e da resposta do author dasAguias, o hebreu acreditou evidentemente que este Braz não tinha de commum com o outro senão o nome.

Francisca de Oliveira morreu no anno de 1730 em Italia, para onde seu marido se transferira, por 1724, a procurar-lhe ares restauradores da saude que ella a pouco e pouco perdêra em Amsterdão.

O medico, perdido o arrimo da alma aos cincoenta e cinco annos de edade, sentiu gravame e tedio da vida. Os bens da fortuna eram muitos; mas o veneno da saudade e da solidão, por ser bebido em taça de oiro, não lhe era menos lethal. Se elle fosse pobre, trabalharia, quebraria na canceira da lida suada para ganhar pão alguns espinhos da sua corôa de orfão de todos os affectos puros e sagrados, na edade, em que sómente esposa e filhos podem adoçar o amargo da velhice. Não tinha ninguem lá fóra. E em Portugal se tinha parentes nem os conhecia, nem amava, nem já esperava, nem queria ser estimado d'elles.

Vagamundeou de reino em reino, repartindo algumaparte dos muitos haveres por hebreus necessitados, e reservando para si a quantia que computou necessaria para passadio abundante de quinze annos.

Passados dois, estanceava por Marselha, quando um navio mercante estava carregado com destino a um porto de Hespanha. Quasi sem consultar os perigos da sua temeridade, como quem nenhuns vinculos já tinha que desprender dolorosamente das coisas boas d'este mundo, embarcou como hollandez, com passaporte que o abonava mercador de Amsterdão, e desembarcou na Corunha. D'aqui passou a Portugal, em navio hespanhol, e viveu alguns dias em Lisboa, separado de toda a convivencia e encontrando a miudo pessoas de Hollanda, que deviam conhecel-o, se elle em tres annos não tivesse encanecido, e oito annos antes se não retirasse d'entre os portuguezes para os pontos mais solitarios e pittorescos da Italia.

Foi o doutor a Ourem, com ares de forasteiro que vê pelo miudo as mais e menos notaveis terras dos paizes. A casa onde elle nascêra havia sido vendida pela corôa, para a qual tinha sido confiscada, depois que o dono fôra queimado em estatua. Estava sendo estalagem. Pernoitou n'ella; dormiu no quarto de sua mãe... não dormiu: chorou por todo o correr da noite vagarosa. Antes que a primeira luz do seguinte dia apontasse, saiu do quarto onde nascêra e morrêra sua mãe, viu de passagem o quarto que fôra o seu, e d'onde agora saía outro viageiro madrugador.

D'aqui se foi caminho de Coimbra, abafando os soluços para que o arrieiro e outro viajante que cavalgava e o seguia silencioso lh'os não ouvissem.

Andado um quarto de legua, perguntou-lhe o companheiro:

—Vae para Coimbra, camarada?

Francisco Luiz, fingindo uma pronuncia de hollandez que sabe algum pouco de hespanhol, disse que sim, ia ver Coimbra, porque andava examinando os monumentos celebres de Portugal.

O collocutor era homem já de annos adiantados: orçaria tambem por perto dos sessenta.

—Aquillo já foi Coimbra! disse elle. Quando eu por alli andei estudando, grandes homens liam na universidade; hoje, nem já parece Coimbra, nem cidade das letras. A vossemecê, que é estrangeiro, posso-lh'o dizer: os jesuitas deram cabo dos bons estudos.

—Ha quantos annos andou vossemecê estudando na universidade?

—Ha bons quarenta. Matriculei-me no primeiro anno de medicina em 1693.

—Noventa e tres?—perguntou Abreu com reparavel interesse; mas o ar de espanto passou, na mente do outro, como pergunta admirativa do muito longe que já ia a vida estudiosa do interrogado.

—É verdade. Ha que tempos isto vae!... Dos meus condiscipulos, que eu saiba, já não vive nenhum.

—Seria d'esse tempo—tornou Abreu—um portuguez medico que eu conheci em Hollanda?

—Como se chamava?

O doutor quedou-se a scismar largo tempo, e disse:

—Chamava-se Francisco... Francisco... Luiz...

—De Abreu?—accudiu o interlocutor—Ora se conheci!... Não era meu condiscipulo; era mais novo do que eu na universidade um anno; mas havia de regularpela minha edade. Fui amicissimo d'elle, e elle meu. Queimaram-no em estatua e mais a mulher, no auto da fé de Coimbra, em 1699, se bem me lembro. Ora se conheci! Ainda será vivo?

—Não lhe sei dizer. Ha muitos annos que viajo, e não voltei ao meu paiz. Tem familia em Portugal?

—Não lhe posso dizer; mas a mim lembra-me que elle tinha um filhito natural, posto que outros diziam que o pequeno era filho de outro hebreu, que andava desterrado. Esse filho desappareceu; não sei se elle o levou, se morreu por cá em companhia de parentes.

—Tambem a mim me está lembrando que esse medico me fallava muitas vezes n'outro hebreu condiscipulo d'elle... ora que me não accode o nome!... Um hebreu que fugiu de Portugal com a filha de um fidalgo, christão velho...

—Ah! já sei de quem vossemecê me quer fallar... Ha de ser Antonio de Sá Mourão.

—Parece-me que sim...

—Não podia ser outro. Conheci-o perfeitamente. Era o melhor estudante da faculdade medica. Sei a historia d'esse desgraçado, perfeitamente...

—Então sabe que fim elle teve?—atalhou Francisco Luiz.

—Morreu, o que eu sei é que o pobre homem morreu lá fóra e por pouco lhe não matavam os paes cá dentro. A minha casa dista da casa dos Cabraes, senhores de Carrazedo, meia legua. Veja se eu não estarei lembrado de tudo isso, conhecendo a morgadinha como as minhas mãos. Imagine vossemecê qual seria o meu espanto, quando, faz agora quatorze annos, a vi.

—A viu?!—exclamou Abreu—viu? quem?!

—A morgada de Carrazedo...

E, como soffreando a expansão, o viajante disse:

—Conto estas coisas a vossemecê porque é estrangeiro, e por que ella já morreu, e não tem que temer da inquisição. Que ella andou em Portugal incognita...

—Mas vossemecê viu D. Maria Cabral?—tornou Francisco Luiz.

—Justamente, D. Maria era o nome d'ella. Vejo que sabe tambem algumas miudezas da tragedia!... Pois vi-a com estes olhos; e vossemecê poderia vel-a tambem, se ella não tivesse morrido em 1718.

—Conte-me o que souber d'essa senhora, que tenho ardentissima curiosidade de saber os successos da vida de tamanhos infelizes...

—Olhe, o modo como o marido lá morreu por fóra, não m'o disse ella... mas, o melhor é contar-lhe desde o principio. Appareceu aquella senhora em Bragança, com uma menina de vinte e dois annos.

—Menina! filha d'ella?

—Sim, filha d'ella e do judeu Sá Mourão.

Francisco Luiz de Abreu arquejava, e parecia temer que a vida se lhe acabasse antes de ouvir o remate da historia. Mortificava-o, a vontade de ingranzar perguntas em tropel; sustinha-o, porém, já o receio de se privar das miudezas que o pachorrento narrar do homem promettia, já tambem o receio de se fazer suspeito pela demasia do interesse, bem que o sujeito se lhe afigurasse bom homem, e incapaz de o denunciar.

—Então ella tinha uma filha?—insistiu Abreu.

—É verdade. Linda como a mais linda estrella; mas a mãe, d'aquillo que tinha sido, não lhe restava sombra nem vestigio. Era uma sexagenaria, não podendo terentão mais de quarenta e quatro annos, cá pelas minhas contas, porque ella tinha dezeseis quando fugiu com o judeu da Guarda... Não me lembra o que eu ia dizendo...

—Que appareceu em Bragança D. Maria Cabral com uma menina...

—É verdade. Chegou a Bragança, e fallava muito confusamente o portuguez, e a filha pouco ou nada dizia. Tomou de renda uma casinha e para alli se metteu com duas criadas, que lhe chamavam D. Antonia da Piedade.

Depois de por lá estar alguns mezes, dando muito que pensar á curiosidade da terra, começou a sair com um aspecto muito doentio, e a dar passeios a cavallo pelos arredores. Chegou á casa de Carrazedo, onde ella tinha nascido, e mandou pedir aos moradores d'ella licença para lá passar as horas da calma. Foi recebida por pessoas que ella nunca tinha visto; mas que eram seus primos e sobrinhos, que tinham ido de Chaves tomar conta da herança de Fernão Cabral. Este fidalgo desherdára a filha, porque as leis lh'o facultavam, e nomeara herdeiros os filhos de uma sua irmã, que elle odiava, por se ter casado com um capitão de cavallos menos fidalgo do que ella. Mas o odio á filha avantajou-se tanto ao odio da irmã, que, em artigos de morte, receiando que os descendentes d'elle ainda viessem perturbar-lhe o somno eterno, desherdou-a e nomeou seus herdeiros os sobrinhos.29D. Maria soffreu voluntariamentealgumas horas de martyrio n'aquella casa, e ouviu com enchutos olhos contar a uma de suas primas a historia da morgada de Carrazedo, mulher perdida por amor de um judeu da Guarda com quem casara. Soube como tinha sido desherdada e amaldiçoada pelo pae á hora ultima; agradeceu as sôpas que lhe deram os possuidores do seu grande patrimonio, e seguiu seu caminho. Ao escurecer chegou ao portão da minha casa, e perguntou se alli morava ainda, ou se já tinha morrido o doutor José de Barredo.

—José de Barredo! disse Abreu, sem ter mão da impetuosa reminiscencia que lhe accudiu.

—Sou eu. Parece-me dar vossemecê a entender que já ouviu o meu nome?!

—Não me é novo... tartamudeou Francisco Luiz.

—Póde ser que Francisco Luiz de Abreu lhe fallasse alguma vez em mim, quando lhe referiu a historia de Antonio de Sá, porque eu, não sei porque fatal compaixão de D. Maria, alguma parte tive nos amores funestos d'elles, prestando-me a receber da Guarda as cartas que elle escrevia á morgada.

—Naturalmente é de Francisco Luiz que eu conheço o nome de vossemecê, disse o doutor Abreu, olhando muito em fito as feições d'aquelle velho, que tinha sidoem Coimbra um dos seus mais affectos contemporaneos.—Deixe-me apertar a mão de um amigo de Francisco Luiz—tornou Abreu, apertando-lh'a com estremecido enthusiasmo.—Se elle o podesse encontrar, senhor Barredo, estou que choraria, estreitando ao coração o homem talvez unico n'este mundo que lhe resta dos que na mocidade o prezaram...

—Certamente—disse José de Barredo enternecido a lagrimas.—Se elle vivesse, seria o meu mais velho amigo... que todos os outros morreram... A opinião que elle e Antonio de Sá tinham do meu natural, sendo elles judeus e eu christão velho, bem se deixa ver no procedimento de D. Maria comigo; pois, escondendo ella o seu nome e nascimento de todos, procurou-me a mim com o proposito de se declarar. E assim o fez.

Logo que me avisaram de estarem alli duas damas, uma das quaes tinha cara de doente, fui recebel-as ao pateo, cuidando que era consulta de medico. Conduzi-as á sala, e ahi D. Maria, com os olhos desfeitos em lagrimas, e muito embaciados, entrou a olhar-me, e a tremer, até que, expedindo um grande ai, se lançou nos meus braços, clamando: «eu sou a sua amiga da infancia, sou Maria Cabral, morgada de Carrazedo!»

N'este ponto da narrativa, pararam os arreeiros á porta da estalagem de Thomar. Os cavalleiros apearam, subiram ao sobrado da estalagem e pediram almoço.

José de Barredo proseguiu, atando o fio com as palavras de D. Maria.

—Eu sou a sua amiga da infancia!—clamou ella—Sou Maria Cabral, morgada de Carrazedo! Faça idéa, e continuou Barredo—faça idéa do meu assombro, senhor... senhor... póde dizer-me a sua graça?... Umamigo do meu amigo da mocidade, não deve hesitar em querer a amizade que lhe offereço, e dizer-me o seu nome...

—Direi—balbuciou commovido o outro no mais correcto portuguez:—mas ha de ser com o coração bem perto do teu, José; abraça-me, e ouve-me muito baixinho esta revelação feita á tua alma: Eu sou Francisco Luiz de Abreu.

José de Barredo abriu a bôca até onde lh'o permittiam as articulações das mandibulas. A expressão d'aquelle seu grandissimo espanto foi um som rouco, similhante a um brado de terror. Em seguida, rebentaram-lhe subitas as lagrimas, e então sómente pôde o velho atirar-se todo aos braços do amigo, e exclamar:

—Ó Francisco!... se a inquisição te conhece!

—Tu sómente me conheces em Portugal—disse o doutor Abreu—E não temas por mim, que, se eu cair nas garras do santo officio, pouco mais se doerá do fogo d'elle este corpo empedrenido do que ha trinta e sete annos a minha estatua. Morto estou eu já, meu amigo. Que me faz a mim agonisar sobre as brazas da minha tristeza irremediavel, ou expirar mais depressa nas torturas da polé ou nas do garrote? Como quizerem...

José de Barredo quiz suspender a narrativa do tocante á viuva de Antonio de Sá Mourão para ouvir a dos successos de Francisco Luiz. Não lh'o permittiu a anciedade do amigo. Conformou-se o confidente de D. Maria, e continuou, ordenando aos arrieiros que fossem adiante e os esperassem no Arneiro, onde haviam de jantar, cinco leguas adiante na estrada de Coimbra. Continuou o doutor Barredo:

—O alvoroço que me fez o apparecimento d'aquellasenhora alquebrada e de todo desfigurada, dizendo-me que era a formosa morgada de Carrazedo, só t'o posso comparar com aquelle que, ha pouco tu me causaste, Francisco. São dois lances da minha vida que já não podem repetir-se. Não tenho mais ninguem que esperar da minha mocidade. Era ella e tu; por que Antonio de Sá, esse não póde mais voltar...

—Creio que seria o mais ditoso dos teus amigos...—balbuciou Francisco Luiz.

—Oh! não!... pois tu desconheces a doçura d'estas nossas lagrimas? Dois velhos, que se amaram moços, e se encontram nos umbraes de outro mundo para se despedirem! Que é isto, senão o derradeiro calor da vida que ainda nos aquece os corações?... Demos graças ao nosso Deus, que é o mesmo Deus, ou elle se chame Jesus de Nazareth, ou Messias, ou simplesmente creador do céo e da terra. Suppliquemos-lhe que nos deixe já agora acabar estes ultimos dias um á beira do outro... Tu vaes para minha casa, não é verdade, Francisco?

—Irei a tua casa, irei, José; mas... estou a receiar que te esqueças da nossa pobre senhora...—disse Abreu, sorrindo, e enchugando as lagrimas.

—Tens razão; mas deixa-me ser feliz um poucachinho... Temos tanto tempo em que fallar dos outros desgraçados...

—Oh! se tu podesses dizer-me que ella ainda vive...

—Não posso, e pouco tenho que te contar antes da morte d'ella... Ahi vae o mais que sei. D. Maria perguntou-me se devia considerar perdido o seu patrimonio; e eu respondi lhe que sim; e pedi-lhe que nem fallasse em tal pretenção, se a trazia, porque os individuospossuidores d'elle seriam capazes de a denunciar ao santo officio, e de lançarem rezina aos páos da fogueira com as proprias mãos. Então me relatou ella a desgraçada vida que tivera por espaço de quinze annos, captiva de corsarios e mais o marido e filhinha: é uma historia longa, que eu te hei de mostrar escripta, em minha casa. Não t'a sei dizer de memoria porque ha quatorze annos que fechei e mais não vi os taes papeis, e já era minha tenção queimal-os para que por elles se não venha a descobrir quem é D. Josepha, a filha do judeu Antonio de Sá. Esteve D. Maria alguns poucos mezes em minha casa, soffrendo, sem treguas, molestia incuravel: estava ethica. Lembrou-se de ir consultar medicos famosos: bem sabia eu a inutilidade do passo; mas deixei-a ir ao Porto, a consultar um famoso medico chamado oOlho de Vidro.

—Braz Luiz de Abreu—atalhou Francisco Luiz.

—Esse mesmo, cujo nome tantas vezes me fez lembrar o teu, que cheguei a perguntar se elle seria teu parente; mas logo me disseram que não, e, para prova de que não era, bastou-me saber que o Olho de Vidro era familiar do santo officio.

Francisco Luiz interrompeu a narração para referir a correspondencia que tivera com o tal medico portuense, imaginando que elle, por um acaso maravilhoso, poderia ser o filho de Antonio de Sá, uma creança que...

—Muita gente—accudiu José de Barredo—e eu mesmo pensei que fosse teu filho...

—E admiro que não soubesses que era filho de Antonio de Sá!

—Não sabia; porque, desde a fuga da morgada, nunca mais tive novas d'algum d'elles, e bem sei eupor que: fiz repugnancia ao desvariado procedimento d'ella; cheguei a fazer-lhe ameaças de a denunciar ao pae, a ver se a dissuadia. Tu mesmo, se bem me lembro, ignoravas onde estivessem alapados, e cuidavas comigo que se tinham embarcado para a India. Depois desappareceste de Coimbra, e quando voltaste nada me disseste, nem eu t'o levo a mal, porque sei quão perigosa era a tua situação, e a dos paes de Antonio de Sá que o santo officio prendera na Guarda. Sabia eu que uma mulher creava em Coimbra uma creancinha que tu algumas vezes visitavas. Suppuz, como quasi toda a gente, que era teu filho... Morreu esse menino?

—Não sei. Presumo que sim. Ninguem me pôde informar, e bastas vezes pedi novas d'elle. Acaso te lembras da morte de Heitor Dias da Paz, de Villa Flor?

—Lembro, foi em 1707.

—Nunca ouviste dizer que em poder d'esse hebreu estivesse um moço, que então devia ter entre quatorze e quinze annos?

—Não ouvi dizer nada.

—Pois era elle, se existisse. Vamos ao fim da historia de D. Maria. Valeu-lhe alguma coisa a medicina do tal Olho de Vidro?

—Nada. Passados trinta e tantos dias, chegou a Bragança a nova de que ella tinha morrido, com o nome de D. Antonia da Piedade, e que sua filha D. Josepha tinha casado com o medico Braz Luiz de Abreu. Aqui tens o que sei. Haverá cinco annos que eu fui ao Porto e procurei o Olho de Vidro, no intento de ver D. Josepha. Disseram-me que elle, em resultado de inimigos seus collegas, que assanhára com a publicação d'um livro chamadoPortugal Medico, tivera de afastar-se doPorto, e fôra estabelecer-se em Aveiro, onde tinha comprado muitos bens de raiz e vivia abastadamente. As minhas occupações não me deixaram ir a Aveiro, e já agora morrerei sem ver D. Josepha, que deve estar perto dos quarenta, ou quem sabe se já estará na eternidade!

—Irás agora a Aveiro comigo—disse Francisco Luiz.—Quero vel-a, sem que ella saiba que eu fui o maior amigo de seu pae. É preciso temer-lhe o marido, visto que elle tanta familiaridade tem com o santo officio. Tu a procurarás, e darás azo a que eu a veja e lhe falle como desconhecido. Uma boa lembrança... Irei consultar-lhe o marido, fingindo de doente estrangeiro, a quem chegou a nomeada de tão abalisado medico. Contar-lhe-hei muitissimos padecimentos que elle ha de classificar de muitissimas maneiras, e assim estarei mais ao alcance de ouvir D. Josepha dizer-me alguma coisa de seu pae. Ora, dize-me tu: nunca, D. Maria te disse que deixára um filho em Portugal, quando fugiu para Hespanha?

—Disse que esse menino o considerava morto: uma só vez me fallou d'elle; mas as lagrimas eram tantas que eu me esquivei a pedir-lhe pormenores da creança, de modo que nem soube que o menino ficára em tua companhia, nem depois passára á dos Moraes de Villa Flor. Eu não te disse ainda que D. Maria, ás temporadas, parecia cair em modorra e paralysia de entendimento. Esquecia-se e quedava-se n'umas cogitações taciturnas; e, se lhe tiravam muito pela falla, respondia disparates. De sorte que eu, a respeito do filho, que ella dizia ter deixado em Portugal, não cheguei a fazer perfeito juizo, nem a mesma filha estava convencida deque elle tivesse existido: a prova era que ella ouvia com certa estranheza as revelações confusas que a mãe me fazia sobre as desgraças do seu longo desterro e captiveiro. Póde ser que tu, Francisco, se te deres a conhecer a D. Josepha, venhas a obter muitos esclarecimentos, que eu mal posso dar-te porque sinto enfraquecida a memoria, e preciso espertal-a com a leitura dos meus apontamentos. Quem melhor te poderá referir a vida de Antonio de Sá, a meu ver, é o marido da filha; mas quererá elle—o familiar do santo officio e author da vida de Santo Antonio—que tu saibas a procedencia hebraica de sua mulher, embora possa ufanar-se de serem netos de Fernão Cabral os seus filhos? Não terá elle medo de que o santo officio lhe sáia ainda a pedir contas á mulher dos delictos do pae e da mãe?

—Isso é claro—observou Abreu.—Nem eu lh'o perguntaria, nem elle me contaria coisa alguma allusiva á filha de Antonio de Sá. De mais a mais, já eu te disse que resposta me elle deu para Amsterdão. Devemos ir prevenidos contra o genio irritavel do homem; é preciso muitissimo cuidado, que não vamos indiscretamente perguntar-lhe de quem é filho.

No dia seguinte ao meio dia, os dois velhos chegaram a Coimbra, e andaram procurando as differentes casas em que tinham morado.

Ao segundo dia de repouso, cuidaram em jornadear para Aveiro. Pouco antes da partida, chegou a Coimbra um proprio enviado da casa de José de Barredo; noticiando-lhe que sua mulher estava em perigo de vida. Desfez-se o plano de irem juntos a Aveiro, e foram juntos para Bragança; Francisco Luiz de Abreu quiz acompanharo velho amigo, no proposito de lhe desacerbar as lagrimas da viuvez, se a desgraça fosse inevitavel.

Era. Francisco Luiz assistiu aos funeraes da esposa de José de Barredo. E quando o velho parecia conformar e esquecer-se entre as caricias de muitos filhos, despediu-se por alguns dias, e saiu sósinho de Bragança em direitura a Aveiro.

Recebeu Braz Luiz de Abreu aviso para ir ver um hespanhol que pousara enfermo na estalagem.

Francisco Luiz queixou-se de varias molestias, ouviu o parecer do medico, pagou-lhe generosamente e pediu-lhe que o visitasse todos os dias.

Dos remedios receitados não se aproveitou, porque os achaques eram phantasticos, e bem sabia o doutor Abreu como era facil enganar outro doutor Abreu.

No dia seguinte, o Olho de Vidro encontrou melhorado o seu doente, e sentiu-se ufano do acerto com que cortára pela raiz uma doença, com a qual se tinham enganado os principaes medicos de Hespanha, segundo a confissão do doente.

Já o doutor Braz queria espacejar as visitas: o hespanhol, porém, instava, pagando-as a brio, que não lhe faltasse diariamente com ellas.

Estava sendo celebrado em Aveiro este triumpho recente do Olho de Vidro.

Já o convalescente se julgava restaurado, e o doutor como tal o déra; o forasteiro, porém, affeiçoado á terra onde se recobrara, determinou passar n'ella a primavera de 1732, e voltar nutrido a Castella, de modo que os medicos madrilenses se comessem de inveja dos seus collegas portuguezes.

O doutor Braz, como visse no seu enfermo D. José Aristizaval (assim era conhecido em Aveiro) excellentes qualidades, contando n'estas a bizarria indicativa de riqueza, convidou-o a servir-se de sua casa e da convivencia de sua esposa e filhos, os quaes, dizia Braz Luiz, são tantos que bastam a formar uma assembléa em Aveiro ou saráo d'aldeia, que monta o mesmo.

Agradeceu e aceitou o convidado o offerecimento; e, logo á primeira visita, brindou a esposa do seu medico e as cinco meninas, formosuras muito de se verem, cada uma com sua joia de preço. Reparou logo e de relance em D. Josepha, e recordou uma por uma as feições de D. Maria Cabral.

Ficaram as meninas contentissimas dos presentes, que eram braceletes de oiro, mandadas comprar ao Porto, com a designio já posto no destino que tiveram. Entretido n'estas coisas, mistura de puerilidade e bons sentimentos, o espirito de Francisco Luiz ía cobrando alento e certa energia. Grande parte n'esta sua insolita actividade era por certo a esperança de saber pelo miudo a vida tragica do seu amigo Antonio de Sá.

Seguiram-se as visitas e foi-se apertando a intimidade. As meninas e os rapazes folgavam muito de ouvir o velho D. José contar historias curiosas das suas navegações.Um dia, veio ao ponto uma batalha de corsarios com uma náo hollandeza, em que elle viajava na costa de S. Domingos.

—De S. Domingos!?—exclamou D. Josepha.—Já esteve n'esses sitios vossemecê?

—Avistei-os—disse o hospede.

E inventou uma rija peleja entre hollandezes e piratas, descripção temerosa que tinha os ouvintes espavorecidos.

Terminou o saráo d'aquella noite; e, na seguinte, Braz Luiz de Abreu, cada vez mais entrado de affecto ao hespanhol, lhe disse:

—D. José Aristizaval, hoje sou eu o narrador de desventuras de navegantes. A historia que eu vou referir só a sabe em Portugal minha mulher e eu: de hoje ávante ficam-na sabendo o meu honrado hospede, que a não ha de repetir a portuguezes, e os meus filhos, que por interesse seu, hão de calal-a.

—Honrado sou eu por benevolencia do doutor—se vossemecê me considera egual com seus filhos no merecimento de entrar no segredo de seus paes, respondeu Francisco Luiz.

—É segredo de tanto porte—accrescentou o medico, abaixando a voz—que não sei d'outro em minha vida com que possa mostrar-lhe a confiança que me merece, senhor D. José.

E, passados alguns segundos, Braz Luiz de Abreu, silenciosos profundamente os ouvintes, principiou assim:

—Minha sogra era filha de um dos primeiros fidalgos de Traz-os-Montes. O solar dos Cabraes de Carrazedo é um dos mais antigos de Portugal. Meu sogro erahebreu, e chamava-se Antonio de Sá Mourão, natural da Guarda.

Fugiram de Portugal com admiravel fortuna, e casaram-se segundo o ritual hebraico, presumo eu. Meu sogro, ao tempo da fuga, estudava medicina, e tomou gráo em uma das universidades estrangeiras. Esteve alguns annos na Europa; e, como o dominava a paixão de ser rico, aceitou partido muito vantajoso que os francezes lhe offereciam no Canadá, e embarcou em Marselha, quando minha mulher era creancinha.

Na altura da costa de S. Domingos, a náo em que elle se embarcára perdeu o rumo, e foi levada contra a costa, por não ter tempo de fazer-se ao mar quando a tormenta se levantou. Antes que o navio se despedaçasse, alguns passageiros aventuraram-se n'uma lancha a ganharem a praia por entre as fauces da morte. Com os aventureiros ia meu sogro, e a esposa com a filhinha nos braços, dispostos a descerem ao abysmo abraçados.

Já perto de terra, onde levavam postos os olhos, avistaram dois navios de pequeno lote, e chusmas de tripulantes vestidos de trajos extravagantes. Um conhecedor d'aquelles mares reparou nos homens da patria, que se moviam vertiginosamente, e exclamou:

—São os demonios do mar! São flibusteiros!30Vejam lá o que querem: morrer no mar ou no captiveiro d'aquellas bestas-feras?

Ninguem optou por morrer no mar. Os passageiros da lancha, bebendo a morte a cada instante, conclamaram que antes queriam o captiveiro do que a morte horrivel de afogados.

Antes de chegarmos a terra, ouviu-se uma grande celeuma do mar a dentro. Olhámos todos para a náo, e vimol-a sossobrar, e uma montanha de vagas abater-se sobre ella. Soltámos um grito unisono de consternação! Alguns dos aventureiros gritavam por esposas, por paes e filhos!... Que situação, senhor D. José! D'um lado, aquelle naufragio horroroso, do outro os flibusteiros, que esperavam anciosos a prêsa, que se lhe ia entregar aos ferros. Assim que a lancha bateu em terra, os bandidos rodearam a prêsa, e mal ouviram não sei que palavras ditas por meu sogro a sua mulher, bradaram todos: «Cá temos um cão de hespanhol!» E a um tempo se lançaram todos a elle, como se entre si disputassem com especial odio a posse d'aquella victima distincta das outras. Como se explicava o particular rancor que os flibusteiros tinham aos hespanhoes?

—Se eu não receasse interromper a sua interessante historia—disse Francisco Luiz—lhe daria a razão d'esse odio, se é que sua esposa não quer explicar-lh'o melhor do que eu sei, por m'o haverem contado e não por experiencia.

—Minha mulher, disse Abreu, ignora-o, porque muitos annos viveu longe do trato de tal gente, e não sabe explicar-m'o.

—Em poucas palavras o farei—tornou o hospede.—Os pontos essenciaes da ilha e costa de S. Domingos pertenceram aos hespanhoes. Um dia, chegaram á costa septentrional d'aquellas possessões algumas galeotas deaventureiros francezes, mesclados com malfeitores foragidos de todas as nações, homens sem patria, escapados do cadafalso, feras tremendas, que precisavam embriagar-se de sangue para gosarem algum prazer n'este mundo. A estas escorias sociaes congregaram-se outras da mesma indole saidas de Guadelupe, de Granada e da Martinica. N'aquellas vastas florestas acharam que farte sustento, na abundancia de manadas de toiros bravos, de javalis, e vaccas mansas, que os hespanhoes por lá deixaram medrar e multiplicar. A riqueza de cada um de estes bandidos compunha-se de uma boa matilha de rafeiros, d'uma enorme espingarda, duas camisas, uma jaleca, um chapéo de feltro, um calção, e uma grossa correia á cinta com uma espada curta e tres facas de matto pendentes. As casas d'elles, durante as sortidas á rapina, eram barracas de fina lona, com a qual se defendiam das ferroadas dos moscardos e das geadas homicidas. Viviam aos dois, antes que a França lhes mandasse mulheres, e, por morte de um, era herdeiro o outro. Raras vezes se desavinham, e quando se desafiavam matavam-se a tiro de espingarda. Se o morto não recebesse os pelouros pela frente, o assassino era logo degolado como traiçoeiro.

O principal commercio d'elles era carnes seccas e pelles, que iam vender ás enseadas da costa, mediante uns assalariados, que tratavam entre elles e os compradores, na esperança de voltarem ricos da America, onde se lhes ia a vida em durissimo captiveiro.

Quando os hespanhoes da ilha de S. Domingos deram tento dos salteadores nas visinhanças das ilhas, tiraram-se da lethargia de suas riquezas, pediram tropas ao rei de Hespanha e fizeram guerra implacavel aos flibusteiros,matando-lhes muitos dos mais audazes. D'este começo de exterminio se gerou o odio dos bandidos á Hespanha, e mais ainda por causa do golpe mortal que soffreram, quando as tropas entraram ás mattas, e mataram os rebanhos mansos e bravos, que o mesmo foi seccar as fontes de subsistencia d'aquellas hordas. Eis aqui, a meu ver, a origem do inquebrantavel rancor dos chamadosdemonios do mar. Agora, vamos á historia do senhor Antonio de Sá, meu sogro.

—Meu sogro, minha mulher e filho—continuou Braz de Abreu—foram remettidos á Martinica n'uma galé, que vogava com mais de cem homens. O capitão dos flibusteiros residia alli, como governador, e chamava-se Duparquet...

—Devia ser filho—atalhou Francisco Luiz—de um francez tambem chamado Duparquet, levado ás honras de governador em 1637 por Luiz XIII de França, a quem convinha aliançar-se comtão honradosvassallos.

—Duparquet, sabendo que o hespanhol captivo era medico, tratou-o com alguma affabilidade, e encarregou-o de lhe curar de cameras uma filha. Meu sogro saiu felizmente do encargo, e foi considerado por isso medico da casa do governador. N'aquelle anno, que me parece seria o de 1697 ou 98, segundo as confusas lembranças de minha sogra, meu sogro foi mandado embarcar n'uma náo de quatro peças, da qual se arvorára almirante um francez chamado Legrand, o mais temivel flibusteiro d'aquelles mares. Antonio de Sá curou muitos mutilados n'uma abordagem aos galeões de Hespanha, e, pela pericia com que o fez n'um grave ferimento de Legrand, ficou desde logo nomeado escravo e medico do almirante. Meu sogro assistiu ao assalto deMaracaibo, riquissima cidade e bem guarnecida, que se deixou entrar e saquear por quatrocentos salteadores.

Tambem assistiu á tomada de Carthagena pela esquadra franceza, auxiliada por flibusteiros, que lhe deram a victoria.

No afogo d'esta peleja, Antonio de Sá, quando estava pençando as feridas de seu senhor, foi gravemente ferido de bala. A convalescença foi longa. N'este intervallo, em que elle se tornára inutil, pediu licença para ir vêr á Martinica sua mulher e filha. Negaram-lh'a; mas concederam-lhe que a familia o fosse visitar nos arraiaes movediços de sobre as ondas.

Legrand tinha residencia em S. Domingos, onde se desfadigava das batalhas navaes, exercitando os seus leões do mar. Obrigou, portanto, o prezadissimo escravo a viver com elle. D. Maria, minha sogra, passou á companhia do marido, e minha mulher que tinha então seis annos, ficou em casa do governador da Martinica, por que a filha predilecta de Duparquet se habituára a consideral-a a sua escrava loura.

Por muitas vezes, Antonio de Sá Mourão supplicou a Legrand, que, em paga de seus serviços, o deixasse passar com sua familia á Europa. O francez, importunado pela teimosia de taes rogos, ameaçou-o de o mandar matar, se elle tentasse fugir! É onde podia chegar a gratidão do flibusteiro almirante!

Minha sogra me disse que, decorridos cinco annos, o marido escrevera desde S. Domingos a um amigo muito querido, que tinha em Portugal. A carta, porém, foi devolvida passados dias a Antonio de Sá, com a seguinte reflexão do governador almirante: «Os escravos dos flibusteiros, se teimam em escrever cartas para Hespanha,correm o perigo de não poderem já ler as respostas, quando ellas voltarem.»

Nunca mais Antonio de Sá escreveu ou tentou escrever para Portugal.

O medico ia enriquecendo com as liberalidades dos flibusteiros; porém, um dia, achou-se roubado, não obstante ser pouquissimo vulgar o latrocinio entre elles. Seria porque ao portuguez ou hespanhol o consideravam estranho á sua tribu, e como tal indigno de se gosar dos foros de lealdade, que uns com outros guardavam.

Minha mulher corria por este tempo nos seus dez annos. O pae consternava-se de a ver crear-se entre gente brutal, e rodeada de creaturas ignobeis do seu sexo, recenseadas nos lupanares de Paris e de Marselha, enviadas como presas ás colonias.

Antonio de Sá, aproveitando o lanço de ter captivo o animo do governador, depois da cura de doença grave, pediu-lhe licença para enviar a filha a educar-se n'uma casa de religiosas francezas. O governador condescendeu, e enviou duas netas ao mesmo collegio, na primeira náo que saiu para França.

Meus sogros presumiam que lhe seria menos embaraçada a fuga podendo passar a filha á Europa. Enganaram-se; por que Duparquet, arrependido da concessão, redobrou de vigilancia sobre os menores passos do seu medico.

—Antonio de Sá—proseguiu Braz Luiz—foi chamado a curar de febres um judeu rico da Normandia, que se passara com grande companhia de hebreus pobres a fundar uma colonia na costa de S. Domingos, com licença do rei de França e beneplacito do governador. Meu sogro, cumulado de liberalidades do seu restabelecido enfermo, deu-se por bem pago da amizade do hebreu, a quem se revelou proscripto da nação fiel, e evidenciou sua origem, praticando com elle as ceremonias judaicas.

O colonisador estimava-o muitissimo. Animou-o a declarar-lhe o seu intento e pedir-lhe coadjuvação para a fuga. Não lhe encareceu o hebreu grandes difficuldades á boa saida do plano; assegurou-lh'a facil, logo que, fundada e solidificada a colonia, elle se fizesse na volta de França.

O medico, alentado de esperanças, aguardou anno e meio a almejada hora; todavia, minguou-lhe a necessaria prudencia, porque, sem grande recato, começou de longe a simplificar os valores que tinha, trocando-os por pedras preciosas e coisas de facil transporte.

Chegado o tempo da saida do opulento hebreu, conforme ao plano gizado pelos dois, inventaram uma epidemia na colonia, e pediu-se ao governador a assistencia do medico hespanhol. Duparquet mandou conhecer da epidemia clandestinamente por um cirurgião francez, fugido das galés de Marselha, e foi certificado de que era imaginaria a contagião. Foi o hebreu normando chamado á Martinica, quando já Antonio de Sá se desconfiava de certos tregeitos que vira na má cara do governador. O judeu, porém, mais desconfiado ainda que o seu protegido, respondeu affirmativamente ao commissario de Duparquet, e em vez de velejar para Martinica, mandou aproar ás ribas normandas e accender os morrões para incutir respeito ás galés de flibusteiros ancoradas na costa.

Antonio de Sá foi o bode expiatorio da affronta, se mais bodes não foram os judeus da colonia que o governador mandou passar á espada, sem perdoar sequer a mulheres e crianças. Meu sogro teria sido espingardeado, se a esposa se não lançasse em joelhos aos pés da filha de Duparquet, a quem o marido por duas vezes arrancara ás presas da morte.

Depois de preso alguns mezes, Antonio de Sá foi chamado á presença do governador e perdoado. Prégou-lhe o francez um demorado sermão, recheado de censuras contra o feio crime de ingratos da laia d'elle medico, o mais venturoso homem que ainda tinha caídoem unhas de flibusteiros, e homem de mais a mais filho das Hespanhas. Lembrou-lhe os beneficios desusados com que lhe galardoara os seus bons serviços como medico, e os conselhos que lhe dera sobre o modo de enriquecer-se e constituir-se um dos mais ricos proprietarios das colonias de S. Domingos. Lembrou-lhe o resgate que lhe dera da filha, tendo-a aliás destinada, como formosissima que era, a casar com um seu neto.

Antonio de Sá respondeu com muitas lagrimas, talvez suggeridas pelo recordar-se da filha, e desesperança de tornar a vel-a. Estas lagrimas compadeceram o governador, que o abraçou estreitamente, e lhe pediu que se deixasse estar até que um dia passassem ambos a França.

O medico resignou-se e esperou.

Entretanto, senhoreou-se d'elle presadissima tristeza, que a pobre esposa não sabia nem podia consolar. Esquartejava-lhe o coração aquelle espectaculo de incessante latrocinio e sordido desavergonhamento de costumes. Olhava contra o mar, e perdia a vista afogada nas lagrimas, exclamando: «Não hei de mais ver-te, ó minha filha... não hei de mais ver-vos, meus filhos...»

—Pois elle tinha mais que uma filha?—perguntou Francisco Luiz de Abreu.

—Essa mesma pergunta fiz a minha sogra—disse Braz—; mas a resposta era um silencio indecifravel, um esquisito amuar, que nem eu nem minha mulher ainda agora podemos atinar o que fosse... A meu juizo, minha sogra padecia umas turvações, a revezes, durante as quaes era preciso que a gente se não demorasse a querer entendel-a ou interrogal-a, que entãorompia em alto choro ou carregava iradamente a sobrancelha.

Meu sogro foi um dia com sua mulher supplicar ao governador que os deixasse sair, ou os mandasse matar.

O francez condoeu-se, e mandou-os retirar benignamente, e esperar resposta em occasião opportuna. A opportunidade chegou tarde.

Tinham já decorrido doze annos n'aquelle viver, em que outro qualquer homem acharia distracção, enriquecendo-se, e sabendo aproveitar-se d'esse lado unico, e todavia o mais bello para muita gente.

Enfermou gravemente o medico: quem sabe se elle a si mesmo ministrou o veneno, que o ia corroendo vagarosamente? A sua maxima afflicção era antever a morte da esposa antes da sua. Isto attribulava-o, como se já a estivesse vendo sobre terra. Ia-se a ella debulhado em lagrimas, e rogava-lhe de mãos postas que tivesse mais força d'alma, mais coragem do que elle tinha para arrastar aquellas cadeias.

Póde ser que afinal se lhe espessassem sombras de demencia na grande luz de razão com que entendera os arcanos da sciencia, quando a estudava em Coimbra...

—Fallou vossemecê com alguem que o houvesse conhecido em Coimbra?—perguntou Francisco Luiz.

—Fallei com os meus lentes, que todos tinham sido condiscipulos e contemporaneos d'elle, e lhe perdoavam o crime do rapto e do hebraismo em desconto de sua alta capacidade para as divinas sciencias medicas... Em que ponto estavamos?

—Na doença do pae...—disse D. Josepha.

—É verdade... na doença do meu sogro que foi aprimeira e ultima da sua vida. Minha sogra, quando chegava a esta final jornada da sua tragedia, parece que se lhe apagava o entendimento. Soluçava, com os braços cruzados sobre o seio, e os olhos cravados no alto ponto onde ella imaginava por ventura entrever o espirito de seu marido. O certo é que elle morreu em 1716, consoante o calculo de minha mulher, que então já contava os seus vinte e um annos, dez dos quaes tinham sido vividos n'um convento.

A compaixão franqueou a minha sogra a saida da colonia. Apossou-se da herança do marido que devia ser grande. Embarcou em um navio marselhez, que voltava do Canadá; antes, porém, de saltar de um barco de flibusteiro ao navio francez, já estava roubada do mais precioso da sua fazenda.

A pobrinha não se queixou, nem de ver-se pobre cobrou grande angustia. Lembrou-se de que tinha uma filha, uma patria, e n'ella os haveres de seu pae, que deviam ser a riqueza de sua filha.

Procurou em França o convento de sua filha, a qual duvidou reconhecer a mãe. Saiu minha mulher da casa religiosa, e assim se viram duas senhoras desamparadas em meio da França, entregues á propria deliberação. Alguem as enviou ao ministro portuguez em Paris, que lhes ouviu a historia com sentimento, e caridosamente aconselhou a minha sogra que se houvesse muito prudente com o santo officio de Portugal, em cujos archivos o nome d'ella devia estar escripto para eterna memoria. Porém, como quer que D. Maria teimasse em sair para a patria, o ministro advertiu-lhe que mudasse de nome, e se valesse das cartas que lhe deu, caso ainquisição a perseguisse, por effeito de alguma irreflexão d'ella, quanto á exigencia dos haveres de seus paes.

Proseguiu Braz Luiz de Abreu, relatando o que já é notorio ao leitor, até ao seu casamento com a filha de D. Maria Cabral, fallecida no Porto.

—Crucificada existencia foi pois a de Antonio de Sá Mourão!—murmurou muito recolhido Francisco de Abreu, e assim se esteve cogitativo por largo espaço.

—Vejo que lhe fez commoção esta funebre historia!—disse D. Josepha.

—Muitissima dôr!—murmurou o hospede, limpando o rosto coberto de lagrimas.—Pobre homem!... que destino!... que vida!... Como o mundo debaixo do céo está infamado de tamanhas desgraças!... E vale a pena o viver!... E não morrem afogadas as creancinhas ás mãos de seus paes!...

Braz de Abreu, esposa e filhos todos tinham os olhos amarados de pranto.

Francisco Luiz levantou-se, beijou as meninas mais novas, apertou a mão de D. Josepha, e despediu-se offegante de soluços.

—Que sensibilissimo homem!...—disse o medico.


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