XIVO segredo horrivelAo outro dia, Francisco Luiz foi convidado a jantar com o seu medico. A condolencia a que o movera a infelicidade do hebreu Sá Mourão atou mais n'alma os liames de sympathia com que o Olho de Vidro o entranhára na intimidade dos seus.O israelita de Ourem ia triste. Dir-se-ia que nunca elle, até á vespera d'aquelle dia, devéras se convencêra da morte do seu Antonio de Sá. Tantos annos idos, e elle ainda a querer-lhe e como que a esperal-o! Já o seu contemporaneo Barreto lhe havia dito na summa o que Braz de Abreu lhe dissera, e todavia o convencimento da morte do marido de D. Maria não o tinha ainda penetrado, ao que parecia.Durante o jantar, como nenhum estranho assistisse, a fóra o hespanhol—que nunca se esquecera de o serna linguagem—praticaram largamente ácerca dos actos do santo officio na Peninsula. O hespanhol relatou a sorte dos judeus em diversas partes do mundo, para concluir que em Portugal e Castella eram elles mais perseguidos do que poderia sel-o no inferno se, como piamente cria, Deus os tinha castigado com fogo infinito.Braz de Abreu, posto que familiar do santo officio, recebeu de boa sombra aquella um tanto ironica reflexão do commensal, attribuindo a genio espanholado a comparação faceta.Voltando á conversação da noite anterior, reflexionou Francisco Luiz que, tendo estudado algum tanto os factos da inquisição de Portugal, notára que a santa bandeira de S. Domingos de Gusmão era pouquissimo misericordiosa com os hebreus medicos ou estudantes de medicina. E ajuntou:—É sabido segundo me fizeram crer alguns foragidos de Portugal, que os estudantes de medicina apenas licenciados, ou se acreditavam como familiares do santo officio, ou se expatriavam antes que a inquisição os desterrasse d'este mundo. Dou como exemplo Henrique de Castro Sarmento...—Foi meu condiscipulo—atalhou Braz de Abreu.—Pois então sabe vossemecê que elle está em Londres, com o nome de Jacob de Castro Sarmento, em tanto credito e dignidade que, pouco ha, foi elevado á cathegoria de membro do collegio real dos medicos, e socio da sociedade real de Londres? Este grande sabio, e co-reformador da sciencia, que seria hoje em Portugal, se não se evadisse d'aqui uns quatro annos depois de licenciado? Seria porção d'essa vasa do Tejo poronde se misturam as cinzas de muitissimos da sua raça e do seu alto entendimento. Outro medico houve ahi em Coimbra, segundo me disseram, que chegou a pertencer ao corpo cathedratico, e teve de fugir com sua mulher para a India hollandeza.—Quem era? perguntou o doutor.—Se bem me lembro, tinha elle um nome assaz parecido com o de vossemecê. Chamava-se Francisco Luiz de Abreu.—É verdade!—acudiu D. Josepha—que nome tão similhante!...—E não sei—disse meditativo Braz Luiz—como esse nome me desperta coisas da minha primeira mocidade!—Póde ser—tornou o hospede—que, no tempo em que vossemecê estudou, se fallasse ainda no lente fugitivo.—Creio que sim: ha de ser d'esse tempo que me vem estas vagas memorias—redarguiu o Olho de Vidro.—Creio até que elle teria sido contemporaneo de meu sogro.—Provavelmente seria—obtemperou Francisco Luiz.—E a mim me está parecendo—acrescentou D. Josepha—que alguma vez ouvi meu pae proferir esse nome.—Ouviu?—perguntou o hospede com o coração sobresaltado.—Ouvi, sem duvida...Francisco Luiz de Abreu... Pois não ouvi? quantas e quantas vezes?... Que fim teria esse homem?—Provavelmente morreu, senhora—respondeu o hebreu; e proseguiu sem sensivel mudança de rosto:—Pois ahi tem, senhor doutor Braz, outro exemplo deperseguição á medicina. Ainda bem que vossemecê não teve de provar que o seu apellido nada tinha que ver com o do medico fugitivo.—Nada—balbuciou Braz Luiz, receando que, depós isto, disparasse a affrontosa pergunta de quem era filho.Francisco Luiz, n'este lance, lembrou-se da resposta que oOlho de Vidrolhe mandára bastantes annos antes, e sorriu-se interiormente do dito d'aquelle hebreu, que ao mesmo lhe escrevia presumindo que Braz Luiz de Abreu era filho sacrilego de um frade, senão fosse filho de tres frades ao mesmo tempo.A pratica ficou por aqui, visto que a physionomia do dono da casa expressava nenhuma satisfação de que ella se proseguisse.Todavia, D. Josepha, quando já estavam sentados á lareira, porque a tarde era de março, disse:—Não me sae da lembrança o nome de Francisco Luiz de Abreu!... A gente, quando entra a envelhecer, recorda-se de coisas da infancia, esquecidas no correr de muitos annos...—A envelhecer!—disse risonho o hospede—vossemecê, minha senhora, está ainda muito no vigor da vida. Terá quando muito...—Trinta e sete annos—concluiu D. Josepha.—Pois ahi tem: ainda não chegou a meio caminho. E quem ha de dizer que já aqui tem esta senhorita, que representa dezoito, e apenas terá...—Treze—disse a mãe, correndo a mão pelos cabellos negros da sua primogenita Anna Maria.—E estes mocinhos, doutor? que destino tenciona dar-lhes?—perguntou o hospede.—Se o meu plano fôr ávante, irá um para a companhia de Jesus, e outro para medicina.—Cuidado com a medicina!—observou jovialmente Francisco Luiz—Faço-os ambos jesuitas, que os fará ambos dois grandes homens.—Pois D. José receia—dizia Braz Luiz algum tanto acrimonioso—que um meu filho, se fôr medico, possa parecer judeu?—Deus me livre de receiar similhante coisa! mas a mim quer-me parecer que a inquisição, quando não ha judeus, encarrega-se de os fazer, talvez por ter lido as santas palavras de Jesus que resam:é necessario que haja escandalos.—Como amigo—acudiu Braz Luiz—lhe peço que não falle assim diante de alguem. Lembre-se que está em Portugal, D. José!...—Bem sei, meu amigo; e, se outra vez me esquecer, rogo-lhe que m'o lembre. Agora me estava eu imaginando entre pessoas que muito me estimam, por isso me deixei levar d'uma invencivel propensão a estigmatisar as injustiças, ou ellas partam dos reis, ou dos ministros, dos papas ou dos inquisidores. D'isto, d'esta perigosa exempção e rudeza de espirito, procede não ter eu paragem certa sobre este solo cavado de abysmos, e andar-me sempre perigrinando de solidão em solidão, para ser ouvido da minha consciencia sómente...—Em nossa casa póde fallar—retarquiu o doutor—como falla a sós com a sua consciencia, D. José Aristizaval. A observação peço-lhe que m'a receba de bom animo, porque entende com o seu socego e deve servir-lhe n'um paiz que vossemecê conhece pouco.—Mercês, meu amigo!—tornou Francisco Luiz deAbreu.—O que eu sei de Portugal é verdadeiramente a historia da sua inquisição, e pouco mais... Ha pouco lembrou-me o nome de um condemnado ao fogo... tambem medico ou estudante de medicina... mas... passou-me... Deixe estar... Deixe ver... Ah! recordo-me... Chamava-se elle Heitor Dias da Paz... Vossemecê havia de ouvir fallar de Heitor Dias da Paz, que, segundo me affirmaram, andaria por Coimbra desde 1701 até 1704, uma coisa assim, pouco mais ou menos.Braz Luiz fitara os olhos n'um ponto da fogueira, como quem finge que se está recordando, e disse, corridos dois segundos, com profunda tristeza:—Conheci-o.—Pessoalmente?—Pessoalmente.N'este comenos, Braz Luiz, fitando o ouvido, como se ouvisse voz no interior da casa a chamal-o, ergueu-se.—Ninguem te chamou, Braz—disse D. Josepha.—Parece-me que sim... ouvi que me chamavam.—Não serão familiares do santo officio, que me requeiram para maior gloria de Deus!...—observou o hebreu como comico tregeito de quem se esconde.—Venha comigo á sala, D. José, se não tem muito frio—disse oOlho de Vidro.—Quem fallou na inquisição que sentisse frio? Estas praticas são excellentes no inverno...—respondeu Francisco Luiz, cuidando que o seu hospedeiro amigo lhe ia solemnisar com toda a gravidade possivel os sustos de o ver a braços com o santo officio.Braz Luiz, entrado á sala, deu alguns passeios meditativo, examinou as portas receiando a curiosidade dafamilia, e disse a meia voz ao muito attento e como espantado hospede:—Conheci-o, e conheci-o muito.—A quem?! perguntou como já esquecido Francisco Luiz.—A Heitor Dias da Paz.—Ah... já me não lembrava que estavamos fallando n'esse infeliz mancebo, cujos parentes conheci em Amsterdão... Devo dizer-lhe, meu amigo, que Heitor e o pae de Heitor, que se chamava...—Francisco de Moraes Taveira...—Justamente... são considerados santos no martyrologio ou cathalogo dos martyres hebreus. Isto presenciei eu e li nas dypticas da synagoga hollandeza chamada aCasa de Jacob... Com que então conheceu vossemecê mui de perto...—Conheci, como se conhece um irmão—acudiu Braz Luiz.—Não lh'o disse diante de meus filhos, porque é meu dever de pae e de christão esconder d'elles coisas tristes da minha mocidade, por isso que o mundo, se m'as soubesse, faria d'ellas espinhos, que me entrassem pela fronte dentro e me levassem a morte ao coração. Vou contar-lhe com egual sinceridade á da historia de meu sogro, o que eu sei de Heitor Dias da Paz e... de mim. As mais antigas reminiscencias da minha infancia prendem-se a Heitor Dias da Paz.Ditas estas palavras, Francisco Luiz de Abreu ouviu o bate de uma forte pancada no coração. Braz devia ver-lhe a subita alteração do aspecto, se tivesse mais claridade a sala, e elles não estivessem sentados no recanto mais escuro d'ella.Braz Luiz continuou:—Lembro-me de algumas coisas dos meus seis annos. Vejo uma mulher que me aperta ao coração, e desapparece para nunca mais ser vista. Nem já sei que feições ella tinha, nem sei onde a vi. É a recordação de um sonho isto, e pouco mais. Perguntei depois quem era aquella mulher, e responderam-me que fôra uma visão; e, se não era visão, mais tarde eu o saberia. Ora, as pessoas que podiam dizer-m'o, porque assim m'o tinham promettido, morreram. Uma era Francisco de Moraes, e outra era o filho, o suppliciado Heitor.Francisco Luiz arfava ancioso: ia-lhe no intimo coisa mais attribuladora que o susto da morte. Braz deu conta do que havia indissimulavel em tamanha anciedade; mas attribuiu tal inquietação ao natural condoimento do seu ouvinte.E, proseguindo, disse:—Heitor Dias chamava-me irmão; e Francisco de Moraes abençoava-me como a filho.—Vossemecê vivia em casa d'elles?—Vivia, desde os seis annos, como já lhe contei. Passados alguns, Heitor foi para Coimbra, e levou-me comsigo. Prestacionou-me para eu entrar no collegio de S. Paulo. No principio do anno de 1704. Heitor Dias foi preso, e sómente depois de 1707 alguns mezes, soube que a inquisição o condemnára a ser queimado vivo, e que o ancião—o desgraçado que não tinha outro filho, e chorava a mulher na sepultura ainda fresca—saindo ao encontro da procissão do auto da fé, se suicidara em presença de Heitor.Francisco Luiz de Abreu levantou-se hirto, de golpe, tremente e pallido.Este movimento como que levantou o marido de D.Josepha pelos cabellos, sem que elle comprehendesse a força mysteriosa que o repuchava.—Que tem, D. José?—perguntou o medico.—Eu não comprehendo o horror da sua situação!—murmurou Francisco de Abreu em legitima lingua portugueza, tapando os olhos com as mãos convulsivas.—Não comprehende o que?!—interpellou Braz estranhando grandemente a mutação de linguagem.—Como se chamava seu pae?—perguntou com palavras intercortadas pela abafação o hospede.—Não sei...—tartamudeou o interrogado.—Porque se chama BrazLuiz de Abreu? Como ajuntou este sobrenome e appellido ao seu nome baptismal?—Porque assim o achei escripto n'um abcedario da minha infancia.—Que desgraça!—exclamou Francisco Luiz, e começou passeando vertiginosamente na sala!—Que desgraça, Deus do céo!...Braz encarava-o com terrivel spasmo procurando nos olhos do seu hospede algum symptoma de demencia.N'isto, Francisco Luiz vae direito ao medico, como que o força a fazer pé atraz de espavorido, e diz-lhe:—Vossemecê ama muito sua mulher?—Se amo muito minha mulher? Como a Deus, mais do que a Deus! mais do que aos meus filhos!...Fitou-o com os olhos cheios de lagrimas o hospede, e disse-lhe:—Não me falle por alguns minutos... não me falle... deixe-me pensar... mas o melhor é que eu me vá, e voltarei n'outro dia.—Não... ha de explicar-me o que é isto... A sualinguagem é outra... Ha terrivel segredo aqui, ou o meu amigo enlouqueceu... Tire-me d'esta incerteza, por quem é...Deteve-se silencioso largo espaço o hebreu. Estava aquelle afflictissimo homem perguntando á sua consciencia, se não seria mais grato a Deus e á humanidade que um peregrino vindo d'além mar não entrasse um dia aos paços de Manuel de Sousa Coutinho a dizer a D. Magdalena de Vilhena que não podia ser mulher do homem que lhe chamava esposa! Se não seria mais humano e santo que aquelle peregrino passasse por diante da casa dos felizes, e dissesse: «Deixae-os viver e morrer ditosos na vossa ignorancia! Não serei eu quem vá vestir-vos a mortalha, e dizer-vos: sepultae-vos!»Assim pensava Francisco Luiz, e curava já de remediar o alvoroço em que pozera o seu amigo, quando este o abraçou com impeto, e lhe disse em tom violento:—Quem é meu pae? Quem sois vós, homem! Respondei, que eu sinto o peito alanceado de mortaes agonias!—Falle baixo, senhor Braz Luiz de Abreu—disse moderada e placidamente o hospede—Falle baixo, que está alli dentro a mãe com sete filhos.E desapertou-se dos braços d'elle para fugir.—Não!—exclamou o medico—não irá de minha casa, sem me dizer o que sabe do meu nascimento. Que importa que me diga que sou filho de um hebreu? que meu pae morreu queimado? que Heitor Dias era meu irmão? que o meu appellido é o de algum facinora? Diga, diga tudo, que a mim basta-me a consciencia da minha vida honrada para me acobertar dos insultos domundo! Farto d'elles estou eu, por que me chamam engeitado! Diga-me seja o que fôr, que eu lh'o peço com as mãos erguidas! Por Deus não minta, senhor! Conheceu meu pae? conheceu minha mãe?—Conheci.—Jura-m'o pelos Santos Evangelhos?—Eu não reconheço a santidade dos Evangelhos. Juro-lh'o pela honra d'este homem, d'este hebreu queimado em estatua, d'este homem sem terra nem familia, chamado Francisco Luiz de Abreu. Jura-lh'o o homem que recebeu nos braços ha quarenta annos uma creancinha, que depois se chamou Braz Luiz de Abreu. Jura-lh'o o homem que depositou essa creancinha, quando os esbirros da inquisição o perseguiam, nos braços de Francisco de Moraes Taveira, de Villa Flor. Jura-lh'o o maior amigo de seu pae! Jura-lh'o o homem que enchugou no seu rosto as ultimas lagrimas de sua mãe...—Mas o nome de meu pae—atalhou Braz de joelhos, com as mãos erguidas e trementes.—O nome de meu pae, senhor Francisco Luiz de Abreu.—Dir-lh'o-hei ao ouvido—disse o hebreu, inclinando-se á orelha do medico.Braz expediu um brado estridente, ergueu-se de salto, e clamou:—E o nome de minha mãe?—Pergunte a sua irmã, á mãe dos seus sete filhos, como se chamava a mãe d'ella.—Como é, meu Deus?! como é?! por caridade, salve-me d'esta duvida atroz... Minha irmã!... quem é minha irmã, senhor?—É a filha de sua mãe.Abriram-se os batentes de uma das portas da sala. Amulher que entrou, fechando a porta para que os sete filhos a não seguissem, impetuosa, como cega de furia, ou impulsada de um grande terror, terror como de incendio que ameaçava devorar-lhe as creanças, ia lançar-se nos braços do marido; e, como lhe faltasse o amparo d'elles, caiu de rosto no pavimento, e soltou do peito uma soada rouca, similhante ao estallido de todas as fibras da vida.O quadro era de mais pavor do que póde exprimir lingua humana.Francisco Luiz poz a mão na fronte glacial e disse entre si:—Maldito eu seja, que trouxe a desgraça e a vergonha a esta familia!Braz Luiz inclinou-se a levantar a mãe de seus filhos nos braços que a não podiam suster. Chamou as filhas mais velhas, e mandou-lhes que levassem sua mãe ao leito. Acercou-se de Francisco de Abreu que estava chorando com a face encostada ao alisar de uma porta, e disse-lhe brandamente:—Senhor Abreu, não se arrependa; foi Deus que o enviou. Não chore, que as minhas lagrimas ámanhã estão enchutas: ha de seccar-m'as o fogo sagrado da minha religião. Tenho Jesus Christo na minha alma. Agora comprehendo que milagres se operam nas maiores angustias do homem. Os meus filhinhos serão sempre os bens que Deus nosso Senhor me confiou. Minha irmã está debaixo da mesma divina mão. Ha de resignar-se, ha de santifical-a a saudade, incenso de lagrimas que o Senhor lhe ha de aceitar e retribuir em consolações...Susteve-se n'esta exclamação arrobada e ungida desanta resignação. Momentos passaram silenciosos... Depois, levando freneticas as mãos á cabeça, exclamou:—Mas eu hei de separar-me para sempre de minha esposa... do anjo bemdito de toda a minha vida!...E atirou-se ao peito soluçante do homem que, quarenta annos antes, o aquecera ao calor de suas faces, creança de vinte e cinco dias.XVAngustias que existiramPor volta das dez horas d'aquella noite Braz Luiz de Abreu saíu de casa do vigario capitular, e recolheu-se ao convento de frades antoninos, convisinho da egreja da ordem terceira de S. Francisco, na qual o familiar do santo officio era irmão professo. Que noite aquella, que lagrimas choradas aos pés da cruz, e no seio do venerando prior da casa hospitaleira do maior infeliz que alli se albergára!Ao aclarar-se a manhã, o prior e dois frades de Santo Antonio, varões de grandes annos e virtudes, chegaram á porta de D. Josepha de Abreu. Abriu-se-lhes a casa, em cujo recesso tinha ido um chorar soluçante, e passado horas infernadas, sem mais desafogo que o atirarem-se por terra aquella mulher e sete filhos, ignorantes da angustia de sua mãe, pedindo misericordia, diante de um santuario.De joelhos se quedaram, quando os tres frades, sublimes de religioso terror, appareceram no limiar da casa da oração.—Irmã, disse o prior, erguei-vos e mais as vossas cinco filhas, e vinde.—Para onde, senhor?—murmurou ella com os olhos no pavimento e as mãos sobre o seio.—Estão dadas ordens para serdes recebidas no conservatorio de S. Bernardino, Recolhimento de Terceiras de S. Francisco.—E eu não hei de vêr mais...—exclamou ella, e retraiu-se como aterrada do delicto de tal pergunta.—Vinde, senhora e meninas. Emquanto a vós, moços, esperae que vos digam o vosso destino.Era na madrugada de 25 de março de 1732.Regorgeavam os festeiros da primavera, os passarinhos emboscados no arvoredo dos quintaes. A geada branquejava as ruas, e do lado da rua assoprava frigidissimo vento. As meninas aconchegavam das faces escarlates os capuzes das mantilhas. A mãe ia aquecida no banho ardente das lagrimas.Os antoninos caminhavam mesuradamente á beira d'ellas, com as mãos enfiadas nas mangas dos habitos. O prior ia ciciando quaesquer palavras, que deviam de ser as suas orações da manhã, ou rogava ao Senhor dos afflictos que esteiasse o animo d'aquella mulher singularmente desgraçada.Abriu-se a portaria do conservatorio de S. Bernardino. Os frades ficaram áquem da porta, que rouquejara nos gonzos com o quer que fosse de muitos gemidos unisonos de fundissimos carceres, soados por abobadas subterraneas.D. Josepha quando encarou no interior do recinto lobrego da entrada, deixou-se rasgar desde o intimo d'alma por um grito, mais desesperado, mais blasphemo que invocativo da divina graça para tão acerbo calix.—Haja-se com paciencia, senhora!—disse o prior—Olhe que desde este momento o Altissimo a está vendo e sondando-lhe o coração. A ignorancia não podia ser culpada até hoje; mas d'hora em diante, a reluctancia com os deveres que lhe impõe a justiça do céo e a justiça da terra é crime mais que muitissimo grande... Entendeu-me, senhora?—Entendi, senhor padre-mestre prior—respondeu a confessada do prelado dos antoninos.Fecharam-se as portas.A directora do Recolhimento, silenciosa como um phantasma, conduziu D. Josepha e as cinco meninas ao longo de um pequeno corredor, com cubiculos lateraes, e mal alumiados da luz do dia ainda froixa. No extremo do corredor abriu-se a portinha de uma cella espaçosa.—Aqui está, senhora—disse a directora, e ausentou-se.As meninas romperam em grande chôro, assim que a livida directora saíu; logo, porém, lhe assomou a mulher de macerado aspecto, no limiar da porta, e disse:—Aqui n'esta casa são permittidos os prantos da penitencia, e só esses, senhoras!Retrocedeu, a tempo que D. Josepha se abraçava de um amplexo em todas as cinco filhas, e lhes dizia:—Choremos baixinho.Meia hora depois d'este lance, os dois meninos de Braz Luiz de Abreu, um de dez, outro de nove annos,eram conduzidos ao convento de Santo Antonio, onde encontraram seu pae vestido com o habito de irmão professo da ordem terceira. Estacaram defronte d'elle n'um glacial spasmo. O medico tomou-os ambos, com as faces aconchegadas um do outro, e disse-lhes:—Não haveis de chorar, não, meninos? Ficareis aqui por algum tempo. Aqui vos deixo com amigos e mestres. Fazei muito por aproveitar o tempo, e trabalhae por ganhar o coração d'estes santos homens.Nem uma lagrima exsudou aos olhos d'aquelle pae! O fogo da divina graça seccara-lhe as fontes da alma. Era já o ser humano mutilado dos orgãos da vida de relação. Era o homem sobre-natural, aquella coisa inexprimivel de que se formam o anjo ou o demonio, as visões beatificas ou o revolutear escandecente da legião.Os frades entraram a tomar conta dos meninos. O prior, ao pegar das mãos d'elles, disse:—É tempo. Vá á sua vida, senhor Braz de Abreu.—Adeus, filhos. Abençoe-me, reverendo padre!...—disse o irmão professo da ordem terceira de S. Francisco, e saiu.Sobre-humana coragem! Entrar na casa, onde, vinte e quatro horas antes ainda almoçado com sua mulher e filhos! Entrou. Foi ao oratorio de sua mulher. Se reparasse, poderia ainda ver signaes humidos de lagrimas no genuflexorio e na peanha do Christo de marfim. Estava orando, quando ouviu passos na escada. Levantou-se para fechar a porta, e furtar-se a dar explicação d'aquelle habito, d'aquella soledade. Não foi a tempo. Era Francisco Luiz de Abreu. Caminhou para elle com firmeza e risonho semblante:—Meu bemfeitor, disse elle, aqui me tem. Faço grande differença do que era ha quarenta annos. Então, viu-me nas faixas infantis, e teve-me junto do seu coração. Abrace-me agora vestido na mortalha.O hebreu apertou-o com vehemencia. As palavras não podiam sair do peito anciado e da garganta afogada por suspiros. Passado tempo, disse:—E era preciso isto? A conformidade com a vontade de Deus exprime-se com vestir esta tunica, e apertar este cordão? Não é o homem tão grande na dôr, sem a celebrar com a magestade funebre d'estes habitos?—O homem é um verme, e mais nada, murmurou Braz Luiz.—Se a religião me não soldar os pedaços da vida, se me ella não tirar d'este tumulo em que estou caido, que hei de eu fazer tão esmagado até á medula dos ossos?—Pois os seus filhos? que é dos seus filhos, Braz Luiz.—As minhas filhas assistem, as innocentinhas, á penitencia de sua mãe.—Penitencia de quaes peccados?—Oh! calle-se!... por Deus, calle-se, diante do filho de Antonio de Sá! Se não era crime o meu viver para que me avisou?...—Diz bem... Perdôe-me.—Não só lhe perdôo... que lhe agradeço... Agora é que eu me gelo de horror do meu passado!... Nunca tive um abalo que me dissesse: «porque lhe queres tu assim tanto, tanto, que em quinze annos teus olhos não viram outra mulher sobre a terra!» As irmãs não se amam assim... Ai!... e eu que assisti á morte de minhamãe, ainda lhe beijei as mãos... Alli sim, então senti convulsões de espirito extrordinarias, das quaes não podiam ser motivo o amor que eu tinha á filha... Não; era Deus que me avisava... Quinze annos, quinze annos de felicidade sem sombra... os meus filhinhos, os meus sete anjos... ahi me ficam...—Onde vae?...—Onde vou?!E chorava com tamanho afôgo que lhe vieram umas ancias mortaes.—Deus me mate já, já!—vociferou por entre o repuchar dos gritos abafados.—Sou fraco, sou miseravel lodo! Dê-me animo, salve o filho do seu desventurado amigo. Creia no Deus dos martyres, para que a sua voz me alente, e eu não seja confundido pelo escarneo da multidão.—Creio no Deus de todos os martyres, senhor Abreu. Creio—atalhou Francisco Luiz.—Soffra, chore, despedace-se sem amaldiçoar, e verá que está comsigo o Deus de Socrates, o Deus de Saulo, o Deus de Antonio de Sá, o Deus de Heitor Dias da Paz, o meu Deus, o creador de todos os martyres e algozes, de todas as cruzes e de todos os postes levantados sobre a lenha que vae abrasar um corpo. É Jesus de Nazareth o seu Deus? Sirva-o, tome-lhe dos labios a esponja e sorva-lhe o fel, ame os inimigos, valha aos desvalidos, acôlha os orphãos á alma que os aconselha, dê-lhes tecto que os cubra, e olhos que os chorem. Assim faziam os justos segundo Platão, os justos segundo Bouddha, os justos segundo Philon, os justos segundo Jesus, os justos segundo Luthero. Ame, condoa-se, e ampare comoelles, e será salvo para melhor mundo, e sentirá n'este as supremas alegrias da consciencia...—Oh! não é isso—atalhou Braz Luiz—ha uma só religião, e uma só salvação.—Pois bem: haja uma só; e seja a sua. Todas ellas dão as suas melhores corôas aos seus martyres, corôas tecidas dos mesmos espinhos, e abençoados da mesma benção; mas é preciso soffrer, soffrer sem infligir tortura, sem retalhar o peito de outra fé para lhe ir lá dentro remoer com ponta de ferro em brasa a consciencia. Braz Luiz de Abreu, respeito grandemente a sua angustia, e dou graças ao Senhor do céo e terra que lhe está vertendo balsamos no roer do cancro que lá deve ir n'essa pobre alma. Siga a sua religião, eu lhe seguirei os passos n'ella, e ajoelharei ao seu lado, sem receio de que estejamos cada um de nós orando a differentes creadores. E seus filhos? E seus filhos?—proseguiu Francisco Luiz—quer que eu vele pelo seu futuro d'elles?—Mercês, meu amigo. Meus filhos hão de ter pão e futuro. Trabalhei; tenho ahi uns bens. Continuarei a trabalhar para augmental-os. Minhas cinco filhas hão de ser freiras; meus filhos seguirão o sacerdocio.—Qual é o seu destino, Braz?—Tomar ordens clericaes. Hoje mesmo vou caminho de Lisboa. E vossemecê deixa Portugal?—Ainda não.—Adeus, pois, até quando?... Até á eternidade?—Ainda não. Ver-nos-hemos antes. Não se morre assim depressa... Os desgraçados são de bronze. Quer Deus que elles vivam muito para serem muito vistos como pompas do mal necessario.XVIO padre BrazO famigerado author doPortugal Medicoappareceu em Lisboa, cingido pelo cordão franciscano, sobraçando o manto pardo, fronte abatida, faces sulcadas, e desfeitas, a luz dos olhos amortiçada, e um amarellido de rosto accusando tanta afflicção interior, que não havia olhos enchutos que o vissem.Por casas de bispos e mais jerarchias da egreja andava o irmão professo da ordem terceira, solicitando a sua ordenação de missa, e a concessão de recursos que o ajudassem a converter em convento o conservatorio de S. Bernardino, onde tinham sido recolhidas D. Josepha e suas filhas.D. João V, informado da resolução mysteriosa do celebre Olho de Vidro, cujas facecias o tinham muito alegrado, quando sua magestade, em hora de pachorra, consentia que o seu medico lh'as lesse, desejou ouvirda bocca do famoso Braz Luiz uma historia escassamente conhecida dos altos dignitarios da egreja.Braz Luiz foi levado ao paço pelo doutor José Rodrigues de Abreu, medico de el-rei. O filho de Pedro II revelou o desejo que tinha de saber que fundo reviramento se operára no espirito de um pae de sete filhos, para, no vigor dos annos, se privar das caricias da familia, e defraudar a esposa de marido e os filhos de pae.O medico referiu a sua historia, a sós com o curioso monarcha, depondo na consciencia e religiosidade de el-rei os pontos melindrosos e secretos da sua vida. Sensibilisou-se o soberano, e em paga da confidencia lhe fez mercê das rendas do real d'agua para que as elle applicasse á fundação do convento de D. Josepha. Ordenou mais el-rei, de harmonia com o nuncio, que se não delongassem a Braz Luiz de Abreu as ordens solicitadas, de modo que entre umas e outras não interferisse mais tempo que o necessario, em conformidade com o maximo gráo da dispensação em taes casos usada. Por maneira que Braz Luiz, ao cabo de seis mezes, estava clerigo de missa. O concilio tridentino permittia e explicava santissimamente todas estas coisas, que hoje se nos affiguram monstruosas irregularidades. N'este anno da graça de 1866, póde qualquer novelleiro citar o concilio tridentino, por que é presumivel senão certo, que por amor do casamento civil toda a gente de alguma curiosidade reveza a leitura das decretaes com a dos concilios.Pois o logar do concilio tridentino que permittia desatarem-se esposos, e vestirem habitos, e professarem, e deixarem os filhos sem paes, é aSess. 24 de Matrimonio, Can. 9.Ao mesmo tempo, o padre Braz Luiz de Abreu foi nomeado syndico do convento permittido, e, por um breve, tambem nomeado medico d'elle.Tornou-se o padre de Lisboa para Aveiro, e entendeu logo nas obras do convento novo. Podia, se quizesse, dizer logo missa nova, mas reservou-a para o dia em que sua mulher e filhas professassem.A edificação do convento fez-se n'um anno. Sobravam os recursos, além do subsidio real. Os cavalheiros da terra concorriam com grandiosos donativos, e muitas esmolas de procedencia desconhecida iam dar ás mãos do syndico. O hebreu Francisco Luiz observou que o seu dinheiro maldito não queimava as mãos ungidas do sacerdote.Algumas vezes o padre Braz Luiz de Abreu entrou ao locutorio ou grade para se entender com a mãe de seus filhos sobre coisas attinentes á profissão. Dizem as memorias que nunca jámais lhe elle vira o rosto, porque D. Josepha o velava com um espesso véo negro.31Aos vinte e quatro de dezembro de 1734, passados trinta e tres mezes de noviciado, de cruelissimas dores, de inenarraveis desmaios, as cinco filhas de D. Josepha, trajadas para a festa do martyrio como sua mãe, ajoelharam ao lado d'ella, e abdicaram nas mãos da prioresa tudo que podesse parecer ao mundo coisa melhor do que o escuro abysmo em que de repente se viram despenhadas.Aquelle acto era uma crucificação atrocissima para a filha de Antonio de Sá, porque ella tinha perdido a fé.Nunca se lhe haviam entranhado muito as crenças na religião do Calvario, porque da indifferença religiosa, em que lhe correra a infancia, passara a ser educada em convento francez, onde a piedade sincera de alguma peccadora contricta era mettida a riso por alegres peccadoras, de quem poderia ser que os proprios anjos andassem namorados.Sua mãe tinha vivido uniforme com a religiosidade do marido; e, por fins de vida, rejeitara e apagara da alma os vislumbres da piedade, porque, dizia ella: «Ha certas lagrimas, que apagam toda a luz da religião, seja ella qual fôr.»A religião de Braz Luiz pareceu-lhe a ella muitas vezes ostentosa, pouco menos de hypocrita, e sustentada á custa da razão. Todavia, como discreta e amantissima d'elle, não lh'a impugnava, nem se esquivava a seguil-o nas publicas demonstrações de sua piedade.Quando ella, desde os reconcavos d'alma, caíu aos pés de Christo, foi na hora tremenda em que se ouviu nomear filha do pae e mãe de seu marido. Orou então, para não morrer, ou póde ser que orasse para ser arrebatada á sua angustia pela mão de Deus, ou fulminada por poder satanico. N'aquellas orações ninguem sabe o que a alma pensa.Encerrada n'um convento, com cinco formosas meninas, que se encostavam ás rexas de ferro a olhar cheias de saudades por esse céo fóra, e seguiam as avesinhas de arvore para arvore, de monte para monte, a infeliz mãe adivinhava os colloquios das pobrinhas com o céo impassivel, e fugia-se d'ellas, para que a não vissem chorar. Voltava a vêl-as, e trazia ainda vidrados na face os prantos. Ellas aqueciam-os com beijos, e, em vez dofervor piedoso e consolativo de sua mãe, ouviam-lhe supplicas com que ella lhes pedia perdão de as ter gerado. As meninas perguntavam-lhe porque estavam assim captivas e desterradas da vida tão sem vontade, e a mãe não podia responder-lhes: «É porque sois filhas de meu irmão, e minhas filhas.»Que importava?Tinham ajoelhado, tinham renunciado, tinham professado, tinham assistido á missa nova de seu pae, d'aquelle homem de faces lividas, que as não apparentava mais translucidas de uma alegre consciencia do que as teria um sacrilego, que houvesse cuspido no ciborio e calcado aos pés a hostia. E depois, viram-no assomar no pulpito, e prégar com elegancias de primoroso lapidario de palavras o sermão da profissão, o sermão d'aquelle enterro de seis vidas, de seis corações apunhalados, mortos, com authoridade do concilio tridentino, e com muitos applausos dos prelados, do rei e dos edificados espectadores da tragedia.Estavam professas. A de trinta e nove annos, que representava vinte cinco formosas primaveras, ao entrar n'aquelle antro de S. Bernardino, a filha de D. Maria Cabral estava desfigurada como na ultima velhice. Anna Maria, de dezeseis, e Sebastiana Ignacia, a mais nova, de onze—onze annos e professa com um breve de Sua Santidade!—todas cinco, seguindo sua mãe da egreja ao claustro, olhavam contra o chão como a procurarem a cova que se lhes abrira.E depois, se choravam, saía-lhes a prioresa e dizia-lhes:—Filhas, lagrimas de penitencia, de penitencia...E se, do interior do convento, ia ao padre Braz a noticiade que suas filhas estavam deperecendo e morrendo, o santo, calejado para uns dardos que varam e matam todo homem menos santo, respondia:—É o Senhor que as chama... Deixal-as, deixal-as ir para o côro das virgens.E, rodeado de muitos e piedosos livros, escrevia aLusiada sacra, a origem ecclesiastica do imperio lusitano, e levava mão do trabalho para assistir aos seus doentes, que curava ou enviava a melhores mundos gratuitamente.Os moços Agostinho e Pedro lá estavam estudando latinidade no convento de Santo Antonio. Ao principio perguntavam por sua mãe, por seu pae e por suas irmãs. Um doutissimo frade, lente jubilado, respondia-lhes:—O melhor pae é Deus, a melhor mãe é Nossa Senhora, as melhores irmãs são as tres pessoas da Santissima Trindade.Sã theologia; mas os mocinhos queriam saber de sua mãe, de seu pae e de suas irmãs.Deram em não estudar, de tristes que viviam. Foram accusados ao padre Braz, que entrou a admoestal-os no convento. Os meninos abraçaram-se n'elle, e pareciam contentes.—E nossa mãe? perguntava Agostinho.—E nossas irmãsinhas? perguntava Pedro.E Braz Luiz baixava os olhos sobre o seio, permanecia n'um recolhimento angustiado, e saía com estas palavras:—É verdade!... e vossa mãe!... e as vossas irmãsinhas?Mas, apenas as orelhas da sua alma escutavam estas lastimas do coração, o padre ajoelhava na postura de mentecapto, batia punhadas no peito, e clamava:—Pequei! pequei! perdão, meu Redemptor!XVIIO inferno, como elle é possivelEu negaria minha fé a quem me dissesse que a prece dos infelizes sem culpa não ha Deus que a ouça e attenda. Se ha!...N'um dia de junho de 1735, ao sexto mez de professa, soror Josepha da Cruz, depois de tres semanas de aturada hemoptyse, amanheceu com uns spasmos convulsos, chamando pelas filhas, que a rodeavam, e ella não via. Accudiram as freiras, e ordenou a prioreza que fosse chamado confessor e medico. Avisaram o padre Braz, syndico do convento. Estava elle resando as contas, e voltou o rosto da pessoa que lhe levou o aviso, para atar umpater nosterinterrompido nofiat voluntas tua. Tres vezes repetiu com seraphico arrobamento ofiat voluntas tua—«faça-se a tua vontade»—e de si para si entendeu que aquelle seu despego em tamanho transe, ao annunciarem-lhe que sua mulher estava emtrabalhos de morte, era egual ao de muitos lances de natureza identica, e santo stoicismo, contados noFlos-Sanctorum, eVita patrum.Concluido o ultimo mysterio do rosario, aspergiu-se de agua benta, e foi caminho do convento, resmuneando o psalmo:...Amplius lava me ab iniquitate mea: et a peccato meo munda me. Quoniam iniquitatem meam ego agnosco... etc.Ao avisinhar-se da cella da enferma o syndico, disse a prelada:—Irmã Josepha, aqui está o nosso padre syndico Braz Luiz.Soror Josepha não vellou o rosto, porque já não entendera o aviso da prioreza.Braz Luiz deu de olhos fitos na sua companheira de quinze annos. Ressumou-lhe ao rosto um suor frio, cambaleou, e amparou-se á ombreira da porta.Depois, tornou em si; invocou a força dos santos, compoz o semblante, acercou-se do catre da moribunda, e balbuciou:—Soror Josepha da Cruz!A enferma estremeceu, despregou as palpebras, circumvagou as pupilas esgazeadas, e retrahiu-as logo, como se a face do padre lhe fulminasse faiscas de raio aos olhos.—Os aprestos para a extrema-uncção—disse o syndico.—Venha o capellão ministrar-lh'a—ajuntou a prioreza.—Não, nossa madre: serei eu—disse o padre Braz.Accorreram os aprestos, emquanto Braz Luiz desceu á egreja a envergar uma cotta com estola roxa. Deu signalo sino, ajuntaram-se as freiras acolytas, uma com a cruz, outras com velas, outra com a caldeirinha, e muitas cantando alternadamente os versos do psalmoMiserere mei Deus. Entrou á cella o padre, precedido da cruz e da caldeira. A prioreza observou que as uncções deviam ser feitas com presteza, omittindo-se as ceremonias usadas quando não ha receio de que o enfermo expire antes de ungir-se. Principiou o padre a ungir-lhe os olhos; e logo notaram que os dedos lhe tremiam convulsivamente. Esteve com a mão suspensa, esperando que o tremor aquietasse. Desfitou os olhos da face da moribunda, e viu as cinco filhas ajoelhadas em carreira com os cirios empunhados, e os rostos caídos sobre os seios. Contemplou-as com olhar embaciado de lagrimas, e na bocca um sorriso triste, que poderia ser qualquer coisa do usual sorrir dos santos, e tambem poderia ser a expressão vulgar da insania. Esta equivoca expressão, porém, sumiu-se, e as lagrimas saltaram a quatro. Depois, foi um conflicto aquelle para ser visto dos que apenas conhecem alguns milhares de flagellos n'esta vida! Caiu em joelhos, pegou das mãos ambas da enferma, e exclamou:—Leva-me comtigo, leva-me comtigo, ó santa, ó martyr!As cinco meninas levantaram um alarido de gemidos, e romperam por entre as freiras a cobrirem com os braços a moribunda... a morta.Braz Luiz arquejava encostado ao leito. Não ousavam pôr-lhe as freiras as suas mãos para o retrairem d'alli; mas, todas a um tempo, lhe pediam que offerecesse a Deus, em beneficio da alma de Soror Josepha, as angustiaspor que tão santa e heroicamente quizera passar e ser provado.O padre levantou-se de impeto, olhou em torno de si, e disse:—E que me dá Deus? Sim! que me dá Deus?As freiras contemplaram-se estarrecidas e frias de religioso medo.—Pois então!—proseguiu elle com tregeitos de louco e semblante descomposto—pois então, não houve um raio de graça para esta santa mulher! não seria divina justiça que ella achasse aqui as alegrias de uma consciencia pura, de um coração sem mancha! Por fim... é certo que eu te matei minha innocente victima?E, dizendo, acurvou-se sobre o cadaver, beijou-lhe os olhos soffregamente e cobriu-lhe a testa de lagrimas.Era isto já uma vertigem, que terminou pelo deliquio.Foi chamado o capellão e alguns frades visinhos de Santo Antonio. Levaram d'alli o padre para accommodarem logo os escrupulos das freiras escandalisadas. Ia sem accordo, nos braços dos antoninos. As filhas viram-no ir sem lastima. Estavam em volta da barra de sua mãe. Aquelle homem fazia-lhes terror, senão odio. Poderia ser que elle tivesse por si a côrte celestial; mas n'este mundo não havia alma que o pranteasse. Propriamente os frades incriminavam-no de pusillanime e vacillante na reforma de vida. As freiras—santo nome de Deus!—davam como perdida a alma d'aquella que morrera sem confissão; e, porque eram santas, foram em côro exorar ao Senhor que não pesasse na sua balança sem o contrapeso da misericordia, as palavras blasphemas do padre syndico.Braz Luiz, quando cobrou sentimento, achou-se na sua pobre alcova, com dois frades á cabeceira. Escutou-os. O que elles diziam eram coisas formidaveis sobre o inferno sem fim. Stygmatisavam-lhe a fraqueza, a impenitencia, a temeridade de se aproximar da religiosa moribunda, se não ia santamente disposto a dar um exemplo de desprendimento dos affectos que havia renunciado no acto da sua sagração a Deus.O padre pediu perdão do escandalo, e rogou que o deixassem só para examinar sua consciencia.Deixaram-n'o os frades e foram-se ao seu convento, d'onde tinham saído em jejum.Braz Luiz de Abreu soffria tanto, que duvidava do poder da oração ou não sabia orar. Punha os olhos na face do Christo, e logo os descia como aterrado do pensamento sacrilego que a intercadencias lhe agonisava a alma.Aquella religiosidade, que, horas antes, parecia robusta e sentida como a dos martyres, estava a desfazer-se miseravelmente na incerteza, no desprezo, na negação das mais santas coisas do christianismo! Alli se estava vendo o que em verdade é o homem, e quanto são morredoiras as phantasias do espirito arrancado ás leis da humanidade, quando a mão da desgraça descarrega a maça de bronze no peito que tem dentro sangue e fibras. O grande edificio d'aquelle selvagem ascetismo estava a derruir-se. O coração de quarenta e tres annos dava pulos como para espedaçar o arnez apertado com arcos de ferro debaixo do habito franciscano. A imagem de Francisco Luiz perpassava-lhe execrandissima por diante dos olhos, cravados n'um revolutear de visões extravagantes que o assediavam, á volta do cadaverd'aquella mulher assassinada sem culpa nem fé para aceitar de boamente uma tão grande quanto immerecida penitencia.Fez-se em volta d'elle a solidão dos grandes desgraçados, que já nem sequer podem captar a benevolencia dos grandes hypocritas, nem a estima dos ferventes devotos. Os mais virtuosos frades fugiam d'elle, desde que do convento de S. Bernardino sairam peioradas em blasphemia as phrases do syndico ao pé do corpo ainda quente de sua mulher. Além d'isto, entraram em averiguações os mais escrupulosos sobre os factos antecedentes á resolução de entrar aquella mulher na religião e elle no sacerdocio. O prior dos antoninos esquadrinhou em Lisboa no secreto gabinete da nunciatura, e vingou descobrir que o rompimento fôra sequencia de um casamento incestuoso.Calou o frade a infanda noticia, por caridade; apenas a revelou a metade dos seus conventuaes; e estes, por caridade tambem, disseram-n'a á outra metade, sentindo não ter mais a quem a revelassem.Por isso, á volta d'elle se fez a solidão dos grandes desgraçados.Entregaram-lhe os dois filhos, que estudavam humanidades no convento, para que elle lhes désse destino. O padre levou-os para si, e desde esse momento principiou a sentir quebrarem-se os aguilhões que o cravejavam e atiravam impenitente á sepultura.Cogitou em mudar-se com elles para algum ermo, onde lhe ignorassem o nome e os infortunios. Mas alli, ao pé da sepultura de Josepha, estavam as cinco filhas, que elle, se podesse, tiraria do convento. Era aloucada fantasia similhante intento. Aquellas meninas estavamperdidas para elle e para Deus; porque já não podiam amar o algoz de sua mãe; e, diante do poder do Altissimo, apenas podiam tremer de medo, medo sem amor. Nem pae, nem Deus!E d'este modo, com a alma assim vasia, sem embrião de esperança n'algum reconcavo d'ella, não ha vida.A mais velha das meninas, Anna Maria, sobreviveu dois mezes a sua mãe, e acabou em phrenesis, não obstante os exorcismos com que valentes demonifugos de todos os conventos de Aveiro lhe medicavam a alma. Expirou com reputação de precíta aquella gentil creatura com dezoito annos incompletos, a mansissima menina que seus paes quatro annos antes denominavam, á conta da sua indole branda e sujeita, a pomba da familia, o exemplo angelico de suas irmãs.Quando o padre Braz recebeu a nova da morte de sua filha, quizera a Providencia que ao lado d'elle estivesse um peito que lhe désse amparo.Francisco Luiz de Abreu, n'aquelles dias, descêra dos arrabaldes de Bragança, onde fôra despedir-se do seu amigo José de Barredo, e passára por Aveiro, onde conjecturava encontrar ditoso e embevecido nas delicias do céo o sacerdote de Jesus.
Ao outro dia, Francisco Luiz foi convidado a jantar com o seu medico. A condolencia a que o movera a infelicidade do hebreu Sá Mourão atou mais n'alma os liames de sympathia com que o Olho de Vidro o entranhára na intimidade dos seus.
O israelita de Ourem ia triste. Dir-se-ia que nunca elle, até á vespera d'aquelle dia, devéras se convencêra da morte do seu Antonio de Sá. Tantos annos idos, e elle ainda a querer-lhe e como que a esperal-o! Já o seu contemporaneo Barreto lhe havia dito na summa o que Braz de Abreu lhe dissera, e todavia o convencimento da morte do marido de D. Maria não o tinha ainda penetrado, ao que parecia.
Durante o jantar, como nenhum estranho assistisse, a fóra o hespanhol—que nunca se esquecera de o serna linguagem—praticaram largamente ácerca dos actos do santo officio na Peninsula. O hespanhol relatou a sorte dos judeus em diversas partes do mundo, para concluir que em Portugal e Castella eram elles mais perseguidos do que poderia sel-o no inferno se, como piamente cria, Deus os tinha castigado com fogo infinito.
Braz de Abreu, posto que familiar do santo officio, recebeu de boa sombra aquella um tanto ironica reflexão do commensal, attribuindo a genio espanholado a comparação faceta.
Voltando á conversação da noite anterior, reflexionou Francisco Luiz que, tendo estudado algum tanto os factos da inquisição de Portugal, notára que a santa bandeira de S. Domingos de Gusmão era pouquissimo misericordiosa com os hebreus medicos ou estudantes de medicina. E ajuntou:
—É sabido segundo me fizeram crer alguns foragidos de Portugal, que os estudantes de medicina apenas licenciados, ou se acreditavam como familiares do santo officio, ou se expatriavam antes que a inquisição os desterrasse d'este mundo. Dou como exemplo Henrique de Castro Sarmento...
—Foi meu condiscipulo—atalhou Braz de Abreu.
—Pois então sabe vossemecê que elle está em Londres, com o nome de Jacob de Castro Sarmento, em tanto credito e dignidade que, pouco ha, foi elevado á cathegoria de membro do collegio real dos medicos, e socio da sociedade real de Londres? Este grande sabio, e co-reformador da sciencia, que seria hoje em Portugal, se não se evadisse d'aqui uns quatro annos depois de licenciado? Seria porção d'essa vasa do Tejo poronde se misturam as cinzas de muitissimos da sua raça e do seu alto entendimento. Outro medico houve ahi em Coimbra, segundo me disseram, que chegou a pertencer ao corpo cathedratico, e teve de fugir com sua mulher para a India hollandeza.
—Quem era? perguntou o doutor.
—Se bem me lembro, tinha elle um nome assaz parecido com o de vossemecê. Chamava-se Francisco Luiz de Abreu.
—É verdade!—acudiu D. Josepha—que nome tão similhante!...
—E não sei—disse meditativo Braz Luiz—como esse nome me desperta coisas da minha primeira mocidade!
—Póde ser—tornou o hospede—que, no tempo em que vossemecê estudou, se fallasse ainda no lente fugitivo.
—Creio que sim: ha de ser d'esse tempo que me vem estas vagas memorias—redarguiu o Olho de Vidro.—Creio até que elle teria sido contemporaneo de meu sogro.
—Provavelmente seria—obtemperou Francisco Luiz.
—E a mim me está parecendo—acrescentou D. Josepha—que alguma vez ouvi meu pae proferir esse nome.
—Ouviu?—perguntou o hospede com o coração sobresaltado.
—Ouvi, sem duvida...Francisco Luiz de Abreu... Pois não ouvi? quantas e quantas vezes?... Que fim teria esse homem?
—Provavelmente morreu, senhora—respondeu o hebreu; e proseguiu sem sensivel mudança de rosto:—Pois ahi tem, senhor doutor Braz, outro exemplo deperseguição á medicina. Ainda bem que vossemecê não teve de provar que o seu apellido nada tinha que ver com o do medico fugitivo.
—Nada—balbuciou Braz Luiz, receando que, depós isto, disparasse a affrontosa pergunta de quem era filho.
Francisco Luiz, n'este lance, lembrou-se da resposta que oOlho de Vidrolhe mandára bastantes annos antes, e sorriu-se interiormente do dito d'aquelle hebreu, que ao mesmo lhe escrevia presumindo que Braz Luiz de Abreu era filho sacrilego de um frade, senão fosse filho de tres frades ao mesmo tempo.
A pratica ficou por aqui, visto que a physionomia do dono da casa expressava nenhuma satisfação de que ella se proseguisse.
Todavia, D. Josepha, quando já estavam sentados á lareira, porque a tarde era de março, disse:
—Não me sae da lembrança o nome de Francisco Luiz de Abreu!... A gente, quando entra a envelhecer, recorda-se de coisas da infancia, esquecidas no correr de muitos annos...
—A envelhecer!—disse risonho o hospede—vossemecê, minha senhora, está ainda muito no vigor da vida. Terá quando muito...
—Trinta e sete annos—concluiu D. Josepha.
—Pois ahi tem: ainda não chegou a meio caminho. E quem ha de dizer que já aqui tem esta senhorita, que representa dezoito, e apenas terá...
—Treze—disse a mãe, correndo a mão pelos cabellos negros da sua primogenita Anna Maria.
—E estes mocinhos, doutor? que destino tenciona dar-lhes?—perguntou o hospede.
—Se o meu plano fôr ávante, irá um para a companhia de Jesus, e outro para medicina.
—Cuidado com a medicina!—observou jovialmente Francisco Luiz—Faço-os ambos jesuitas, que os fará ambos dois grandes homens.
—Pois D. José receia—dizia Braz Luiz algum tanto acrimonioso—que um meu filho, se fôr medico, possa parecer judeu?
—Deus me livre de receiar similhante coisa! mas a mim quer-me parecer que a inquisição, quando não ha judeus, encarrega-se de os fazer, talvez por ter lido as santas palavras de Jesus que resam:é necessario que haja escandalos.
—Como amigo—acudiu Braz Luiz—lhe peço que não falle assim diante de alguem. Lembre-se que está em Portugal, D. José!...
—Bem sei, meu amigo; e, se outra vez me esquecer, rogo-lhe que m'o lembre. Agora me estava eu imaginando entre pessoas que muito me estimam, por isso me deixei levar d'uma invencivel propensão a estigmatisar as injustiças, ou ellas partam dos reis, ou dos ministros, dos papas ou dos inquisidores. D'isto, d'esta perigosa exempção e rudeza de espirito, procede não ter eu paragem certa sobre este solo cavado de abysmos, e andar-me sempre perigrinando de solidão em solidão, para ser ouvido da minha consciencia sómente...
—Em nossa casa póde fallar—retarquiu o doutor—como falla a sós com a sua consciencia, D. José Aristizaval. A observação peço-lhe que m'a receba de bom animo, porque entende com o seu socego e deve servir-lhe n'um paiz que vossemecê conhece pouco.
—Mercês, meu amigo!—tornou Francisco Luiz deAbreu.—O que eu sei de Portugal é verdadeiramente a historia da sua inquisição, e pouco mais... Ha pouco lembrou-me o nome de um condemnado ao fogo... tambem medico ou estudante de medicina... mas... passou-me... Deixe estar... Deixe ver... Ah! recordo-me... Chamava-se elle Heitor Dias da Paz... Vossemecê havia de ouvir fallar de Heitor Dias da Paz, que, segundo me affirmaram, andaria por Coimbra desde 1701 até 1704, uma coisa assim, pouco mais ou menos.
Braz Luiz fitara os olhos n'um ponto da fogueira, como quem finge que se está recordando, e disse, corridos dois segundos, com profunda tristeza:
—Conheci-o.
—Pessoalmente?
—Pessoalmente.
N'este comenos, Braz Luiz, fitando o ouvido, como se ouvisse voz no interior da casa a chamal-o, ergueu-se.
—Ninguem te chamou, Braz—disse D. Josepha.
—Parece-me que sim... ouvi que me chamavam.
—Não serão familiares do santo officio, que me requeiram para maior gloria de Deus!...—observou o hebreu como comico tregeito de quem se esconde.
—Venha comigo á sala, D. José, se não tem muito frio—disse oOlho de Vidro.
—Quem fallou na inquisição que sentisse frio? Estas praticas são excellentes no inverno...—respondeu Francisco Luiz, cuidando que o seu hospedeiro amigo lhe ia solemnisar com toda a gravidade possivel os sustos de o ver a braços com o santo officio.
Braz Luiz, entrado á sala, deu alguns passeios meditativo, examinou as portas receiando a curiosidade dafamilia, e disse a meia voz ao muito attento e como espantado hospede:
—Conheci-o, e conheci-o muito.
—A quem?! perguntou como já esquecido Francisco Luiz.
—A Heitor Dias da Paz.
—Ah... já me não lembrava que estavamos fallando n'esse infeliz mancebo, cujos parentes conheci em Amsterdão... Devo dizer-lhe, meu amigo, que Heitor e o pae de Heitor, que se chamava...
—Francisco de Moraes Taveira...
—Justamente... são considerados santos no martyrologio ou cathalogo dos martyres hebreus. Isto presenciei eu e li nas dypticas da synagoga hollandeza chamada aCasa de Jacob... Com que então conheceu vossemecê mui de perto...
—Conheci, como se conhece um irmão—acudiu Braz Luiz.—Não lh'o disse diante de meus filhos, porque é meu dever de pae e de christão esconder d'elles coisas tristes da minha mocidade, por isso que o mundo, se m'as soubesse, faria d'ellas espinhos, que me entrassem pela fronte dentro e me levassem a morte ao coração. Vou contar-lhe com egual sinceridade á da historia de meu sogro, o que eu sei de Heitor Dias da Paz e... de mim. As mais antigas reminiscencias da minha infancia prendem-se a Heitor Dias da Paz.
Ditas estas palavras, Francisco Luiz de Abreu ouviu o bate de uma forte pancada no coração. Braz devia ver-lhe a subita alteração do aspecto, se tivesse mais claridade a sala, e elles não estivessem sentados no recanto mais escuro d'ella.
Braz Luiz continuou:
—Lembro-me de algumas coisas dos meus seis annos. Vejo uma mulher que me aperta ao coração, e desapparece para nunca mais ser vista. Nem já sei que feições ella tinha, nem sei onde a vi. É a recordação de um sonho isto, e pouco mais. Perguntei depois quem era aquella mulher, e responderam-me que fôra uma visão; e, se não era visão, mais tarde eu o saberia. Ora, as pessoas que podiam dizer-m'o, porque assim m'o tinham promettido, morreram. Uma era Francisco de Moraes, e outra era o filho, o suppliciado Heitor.
Francisco Luiz arfava ancioso: ia-lhe no intimo coisa mais attribuladora que o susto da morte. Braz deu conta do que havia indissimulavel em tamanha anciedade; mas attribuiu tal inquietação ao natural condoimento do seu ouvinte.
E, proseguindo, disse:
—Heitor Dias chamava-me irmão; e Francisco de Moraes abençoava-me como a filho.
—Vossemecê vivia em casa d'elles?
—Vivia, desde os seis annos, como já lhe contei. Passados alguns, Heitor foi para Coimbra, e levou-me comsigo. Prestacionou-me para eu entrar no collegio de S. Paulo. No principio do anno de 1704. Heitor Dias foi preso, e sómente depois de 1707 alguns mezes, soube que a inquisição o condemnára a ser queimado vivo, e que o ancião—o desgraçado que não tinha outro filho, e chorava a mulher na sepultura ainda fresca—saindo ao encontro da procissão do auto da fé, se suicidara em presença de Heitor.
Francisco Luiz de Abreu levantou-se hirto, de golpe, tremente e pallido.
Este movimento como que levantou o marido de D.Josepha pelos cabellos, sem que elle comprehendesse a força mysteriosa que o repuchava.
—Que tem, D. José?—perguntou o medico.
—Eu não comprehendo o horror da sua situação!—murmurou Francisco de Abreu em legitima lingua portugueza, tapando os olhos com as mãos convulsivas.
—Não comprehende o que?!—interpellou Braz estranhando grandemente a mutação de linguagem.
—Como se chamava seu pae?—perguntou com palavras intercortadas pela abafação o hospede.
—Não sei...—tartamudeou o interrogado.
—Porque se chama BrazLuiz de Abreu? Como ajuntou este sobrenome e appellido ao seu nome baptismal?
—Porque assim o achei escripto n'um abcedario da minha infancia.
—Que desgraça!—exclamou Francisco Luiz, e começou passeando vertiginosamente na sala!—Que desgraça, Deus do céo!...
Braz encarava-o com terrivel spasmo procurando nos olhos do seu hospede algum symptoma de demencia.
N'isto, Francisco Luiz vae direito ao medico, como que o força a fazer pé atraz de espavorido, e diz-lhe:
—Vossemecê ama muito sua mulher?
—Se amo muito minha mulher? Como a Deus, mais do que a Deus! mais do que aos meus filhos!...
Fitou-o com os olhos cheios de lagrimas o hospede, e disse-lhe:
—Não me falle por alguns minutos... não me falle... deixe-me pensar... mas o melhor é que eu me vá, e voltarei n'outro dia.
—Não... ha de explicar-me o que é isto... A sualinguagem é outra... Ha terrivel segredo aqui, ou o meu amigo enlouqueceu... Tire-me d'esta incerteza, por quem é...
Deteve-se silencioso largo espaço o hebreu. Estava aquelle afflictissimo homem perguntando á sua consciencia, se não seria mais grato a Deus e á humanidade que um peregrino vindo d'além mar não entrasse um dia aos paços de Manuel de Sousa Coutinho a dizer a D. Magdalena de Vilhena que não podia ser mulher do homem que lhe chamava esposa! Se não seria mais humano e santo que aquelle peregrino passasse por diante da casa dos felizes, e dissesse: «Deixae-os viver e morrer ditosos na vossa ignorancia! Não serei eu quem vá vestir-vos a mortalha, e dizer-vos: sepultae-vos!»
Assim pensava Francisco Luiz, e curava já de remediar o alvoroço em que pozera o seu amigo, quando este o abraçou com impeto, e lhe disse em tom violento:
—Quem é meu pae? Quem sois vós, homem! Respondei, que eu sinto o peito alanceado de mortaes agonias!
—Falle baixo, senhor Braz Luiz de Abreu—disse moderada e placidamente o hospede—Falle baixo, que está alli dentro a mãe com sete filhos.
E desapertou-se dos braços d'elle para fugir.
—Não!—exclamou o medico—não irá de minha casa, sem me dizer o que sabe do meu nascimento. Que importa que me diga que sou filho de um hebreu? que meu pae morreu queimado? que Heitor Dias era meu irmão? que o meu appellido é o de algum facinora? Diga, diga tudo, que a mim basta-me a consciencia da minha vida honrada para me acobertar dos insultos domundo! Farto d'elles estou eu, por que me chamam engeitado! Diga-me seja o que fôr, que eu lh'o peço com as mãos erguidas! Por Deus não minta, senhor! Conheceu meu pae? conheceu minha mãe?
—Conheci.
—Jura-m'o pelos Santos Evangelhos?
—Eu não reconheço a santidade dos Evangelhos. Juro-lh'o pela honra d'este homem, d'este hebreu queimado em estatua, d'este homem sem terra nem familia, chamado Francisco Luiz de Abreu. Jura-lh'o o homem que recebeu nos braços ha quarenta annos uma creancinha, que depois se chamou Braz Luiz de Abreu. Jura-lh'o o homem que depositou essa creancinha, quando os esbirros da inquisição o perseguiam, nos braços de Francisco de Moraes Taveira, de Villa Flor. Jura-lh'o o maior amigo de seu pae! Jura-lh'o o homem que enchugou no seu rosto as ultimas lagrimas de sua mãe...
—Mas o nome de meu pae—atalhou Braz de joelhos, com as mãos erguidas e trementes.—O nome de meu pae, senhor Francisco Luiz de Abreu.
—Dir-lh'o-hei ao ouvido—disse o hebreu, inclinando-se á orelha do medico.
Braz expediu um brado estridente, ergueu-se de salto, e clamou:
—E o nome de minha mãe?
—Pergunte a sua irmã, á mãe dos seus sete filhos, como se chamava a mãe d'ella.
—Como é, meu Deus?! como é?! por caridade, salve-me d'esta duvida atroz... Minha irmã!... quem é minha irmã, senhor?
—É a filha de sua mãe.
Abriram-se os batentes de uma das portas da sala. Amulher que entrou, fechando a porta para que os sete filhos a não seguissem, impetuosa, como cega de furia, ou impulsada de um grande terror, terror como de incendio que ameaçava devorar-lhe as creanças, ia lançar-se nos braços do marido; e, como lhe faltasse o amparo d'elles, caiu de rosto no pavimento, e soltou do peito uma soada rouca, similhante ao estallido de todas as fibras da vida.
O quadro era de mais pavor do que póde exprimir lingua humana.
Francisco Luiz poz a mão na fronte glacial e disse entre si:
—Maldito eu seja, que trouxe a desgraça e a vergonha a esta familia!
Braz Luiz inclinou-se a levantar a mãe de seus filhos nos braços que a não podiam suster. Chamou as filhas mais velhas, e mandou-lhes que levassem sua mãe ao leito. Acercou-se de Francisco de Abreu que estava chorando com a face encostada ao alisar de uma porta, e disse-lhe brandamente:
—Senhor Abreu, não se arrependa; foi Deus que o enviou. Não chore, que as minhas lagrimas ámanhã estão enchutas: ha de seccar-m'as o fogo sagrado da minha religião. Tenho Jesus Christo na minha alma. Agora comprehendo que milagres se operam nas maiores angustias do homem. Os meus filhinhos serão sempre os bens que Deus nosso Senhor me confiou. Minha irmã está debaixo da mesma divina mão. Ha de resignar-se, ha de santifical-a a saudade, incenso de lagrimas que o Senhor lhe ha de aceitar e retribuir em consolações...
Susteve-se n'esta exclamação arrobada e ungida desanta resignação. Momentos passaram silenciosos... Depois, levando freneticas as mãos á cabeça, exclamou:
—Mas eu hei de separar-me para sempre de minha esposa... do anjo bemdito de toda a minha vida!...
E atirou-se ao peito soluçante do homem que, quarenta annos antes, o aquecera ao calor de suas faces, creança de vinte e cinco dias.
Por volta das dez horas d'aquella noite Braz Luiz de Abreu saíu de casa do vigario capitular, e recolheu-se ao convento de frades antoninos, convisinho da egreja da ordem terceira de S. Francisco, na qual o familiar do santo officio era irmão professo. Que noite aquella, que lagrimas choradas aos pés da cruz, e no seio do venerando prior da casa hospitaleira do maior infeliz que alli se albergára!
Ao aclarar-se a manhã, o prior e dois frades de Santo Antonio, varões de grandes annos e virtudes, chegaram á porta de D. Josepha de Abreu. Abriu-se-lhes a casa, em cujo recesso tinha ido um chorar soluçante, e passado horas infernadas, sem mais desafogo que o atirarem-se por terra aquella mulher e sete filhos, ignorantes da angustia de sua mãe, pedindo misericordia, diante de um santuario.
De joelhos se quedaram, quando os tres frades, sublimes de religioso terror, appareceram no limiar da casa da oração.
—Irmã, disse o prior, erguei-vos e mais as vossas cinco filhas, e vinde.
—Para onde, senhor?—murmurou ella com os olhos no pavimento e as mãos sobre o seio.
—Estão dadas ordens para serdes recebidas no conservatorio de S. Bernardino, Recolhimento de Terceiras de S. Francisco.
—E eu não hei de vêr mais...—exclamou ella, e retraiu-se como aterrada do delicto de tal pergunta.
—Vinde, senhora e meninas. Emquanto a vós, moços, esperae que vos digam o vosso destino.
Era na madrugada de 25 de março de 1732.
Regorgeavam os festeiros da primavera, os passarinhos emboscados no arvoredo dos quintaes. A geada branquejava as ruas, e do lado da rua assoprava frigidissimo vento. As meninas aconchegavam das faces escarlates os capuzes das mantilhas. A mãe ia aquecida no banho ardente das lagrimas.
Os antoninos caminhavam mesuradamente á beira d'ellas, com as mãos enfiadas nas mangas dos habitos. O prior ia ciciando quaesquer palavras, que deviam de ser as suas orações da manhã, ou rogava ao Senhor dos afflictos que esteiasse o animo d'aquella mulher singularmente desgraçada.
Abriu-se a portaria do conservatorio de S. Bernardino. Os frades ficaram áquem da porta, que rouquejara nos gonzos com o quer que fosse de muitos gemidos unisonos de fundissimos carceres, soados por abobadas subterraneas.
D. Josepha quando encarou no interior do recinto lobrego da entrada, deixou-se rasgar desde o intimo d'alma por um grito, mais desesperado, mais blasphemo que invocativo da divina graça para tão acerbo calix.
—Haja-se com paciencia, senhora!—disse o prior—Olhe que desde este momento o Altissimo a está vendo e sondando-lhe o coração. A ignorancia não podia ser culpada até hoje; mas d'hora em diante, a reluctancia com os deveres que lhe impõe a justiça do céo e a justiça da terra é crime mais que muitissimo grande... Entendeu-me, senhora?
—Entendi, senhor padre-mestre prior—respondeu a confessada do prelado dos antoninos.
Fecharam-se as portas.
A directora do Recolhimento, silenciosa como um phantasma, conduziu D. Josepha e as cinco meninas ao longo de um pequeno corredor, com cubiculos lateraes, e mal alumiados da luz do dia ainda froixa. No extremo do corredor abriu-se a portinha de uma cella espaçosa.
—Aqui está, senhora—disse a directora, e ausentou-se.
As meninas romperam em grande chôro, assim que a livida directora saíu; logo, porém, lhe assomou a mulher de macerado aspecto, no limiar da porta, e disse:
—Aqui n'esta casa são permittidos os prantos da penitencia, e só esses, senhoras!
Retrocedeu, a tempo que D. Josepha se abraçava de um amplexo em todas as cinco filhas, e lhes dizia:
—Choremos baixinho.
Meia hora depois d'este lance, os dois meninos de Braz Luiz de Abreu, um de dez, outro de nove annos,eram conduzidos ao convento de Santo Antonio, onde encontraram seu pae vestido com o habito de irmão professo da ordem terceira. Estacaram defronte d'elle n'um glacial spasmo. O medico tomou-os ambos, com as faces aconchegadas um do outro, e disse-lhes:
—Não haveis de chorar, não, meninos? Ficareis aqui por algum tempo. Aqui vos deixo com amigos e mestres. Fazei muito por aproveitar o tempo, e trabalhae por ganhar o coração d'estes santos homens.
Nem uma lagrima exsudou aos olhos d'aquelle pae! O fogo da divina graça seccara-lhe as fontes da alma. Era já o ser humano mutilado dos orgãos da vida de relação. Era o homem sobre-natural, aquella coisa inexprimivel de que se formam o anjo ou o demonio, as visões beatificas ou o revolutear escandecente da legião.
Os frades entraram a tomar conta dos meninos. O prior, ao pegar das mãos d'elles, disse:
—É tempo. Vá á sua vida, senhor Braz de Abreu.
—Adeus, filhos. Abençoe-me, reverendo padre!...—disse o irmão professo da ordem terceira de S. Francisco, e saiu.
Sobre-humana coragem! Entrar na casa, onde, vinte e quatro horas antes ainda almoçado com sua mulher e filhos! Entrou. Foi ao oratorio de sua mulher. Se reparasse, poderia ainda ver signaes humidos de lagrimas no genuflexorio e na peanha do Christo de marfim. Estava orando, quando ouviu passos na escada. Levantou-se para fechar a porta, e furtar-se a dar explicação d'aquelle habito, d'aquella soledade. Não foi a tempo. Era Francisco Luiz de Abreu. Caminhou para elle com firmeza e risonho semblante:
—Meu bemfeitor, disse elle, aqui me tem. Faço grande differença do que era ha quarenta annos. Então, viu-me nas faixas infantis, e teve-me junto do seu coração. Abrace-me agora vestido na mortalha.
O hebreu apertou-o com vehemencia. As palavras não podiam sair do peito anciado e da garganta afogada por suspiros. Passado tempo, disse:
—E era preciso isto? A conformidade com a vontade de Deus exprime-se com vestir esta tunica, e apertar este cordão? Não é o homem tão grande na dôr, sem a celebrar com a magestade funebre d'estes habitos?
—O homem é um verme, e mais nada, murmurou Braz Luiz.—Se a religião me não soldar os pedaços da vida, se me ella não tirar d'este tumulo em que estou caido, que hei de eu fazer tão esmagado até á medula dos ossos?
—Pois os seus filhos? que é dos seus filhos, Braz Luiz.
—As minhas filhas assistem, as innocentinhas, á penitencia de sua mãe.
—Penitencia de quaes peccados?
—Oh! calle-se!... por Deus, calle-se, diante do filho de Antonio de Sá! Se não era crime o meu viver para que me avisou?...
—Diz bem... Perdôe-me.
—Não só lhe perdôo... que lhe agradeço... Agora é que eu me gelo de horror do meu passado!... Nunca tive um abalo que me dissesse: «porque lhe queres tu assim tanto, tanto, que em quinze annos teus olhos não viram outra mulher sobre a terra!» As irmãs não se amam assim... Ai!... e eu que assisti á morte de minhamãe, ainda lhe beijei as mãos... Alli sim, então senti convulsões de espirito extrordinarias, das quaes não podiam ser motivo o amor que eu tinha á filha... Não; era Deus que me avisava... Quinze annos, quinze annos de felicidade sem sombra... os meus filhinhos, os meus sete anjos... ahi me ficam...
—Onde vae?...
—Onde vou?!
E chorava com tamanho afôgo que lhe vieram umas ancias mortaes.
—Deus me mate já, já!—vociferou por entre o repuchar dos gritos abafados.—Sou fraco, sou miseravel lodo! Dê-me animo, salve o filho do seu desventurado amigo. Creia no Deus dos martyres, para que a sua voz me alente, e eu não seja confundido pelo escarneo da multidão.
—Creio no Deus de todos os martyres, senhor Abreu. Creio—atalhou Francisco Luiz.—Soffra, chore, despedace-se sem amaldiçoar, e verá que está comsigo o Deus de Socrates, o Deus de Saulo, o Deus de Antonio de Sá, o Deus de Heitor Dias da Paz, o meu Deus, o creador de todos os martyres e algozes, de todas as cruzes e de todos os postes levantados sobre a lenha que vae abrasar um corpo. É Jesus de Nazareth o seu Deus? Sirva-o, tome-lhe dos labios a esponja e sorva-lhe o fel, ame os inimigos, valha aos desvalidos, acôlha os orphãos á alma que os aconselha, dê-lhes tecto que os cubra, e olhos que os chorem. Assim faziam os justos segundo Platão, os justos segundo Bouddha, os justos segundo Philon, os justos segundo Jesus, os justos segundo Luthero. Ame, condoa-se, e ampare comoelles, e será salvo para melhor mundo, e sentirá n'este as supremas alegrias da consciencia...
—Oh! não é isso—atalhou Braz Luiz—ha uma só religião, e uma só salvação.
—Pois bem: haja uma só; e seja a sua. Todas ellas dão as suas melhores corôas aos seus martyres, corôas tecidas dos mesmos espinhos, e abençoados da mesma benção; mas é preciso soffrer, soffrer sem infligir tortura, sem retalhar o peito de outra fé para lhe ir lá dentro remoer com ponta de ferro em brasa a consciencia. Braz Luiz de Abreu, respeito grandemente a sua angustia, e dou graças ao Senhor do céo e terra que lhe está vertendo balsamos no roer do cancro que lá deve ir n'essa pobre alma. Siga a sua religião, eu lhe seguirei os passos n'ella, e ajoelharei ao seu lado, sem receio de que estejamos cada um de nós orando a differentes creadores. E seus filhos? E seus filhos?—proseguiu Francisco Luiz—quer que eu vele pelo seu futuro d'elles?
—Mercês, meu amigo. Meus filhos hão de ter pão e futuro. Trabalhei; tenho ahi uns bens. Continuarei a trabalhar para augmental-os. Minhas cinco filhas hão de ser freiras; meus filhos seguirão o sacerdocio.
—Qual é o seu destino, Braz?
—Tomar ordens clericaes. Hoje mesmo vou caminho de Lisboa. E vossemecê deixa Portugal?
—Ainda não.
—Adeus, pois, até quando?... Até á eternidade?
—Ainda não. Ver-nos-hemos antes. Não se morre assim depressa... Os desgraçados são de bronze. Quer Deus que elles vivam muito para serem muito vistos como pompas do mal necessario.
O famigerado author doPortugal Medicoappareceu em Lisboa, cingido pelo cordão franciscano, sobraçando o manto pardo, fronte abatida, faces sulcadas, e desfeitas, a luz dos olhos amortiçada, e um amarellido de rosto accusando tanta afflicção interior, que não havia olhos enchutos que o vissem.
Por casas de bispos e mais jerarchias da egreja andava o irmão professo da ordem terceira, solicitando a sua ordenação de missa, e a concessão de recursos que o ajudassem a converter em convento o conservatorio de S. Bernardino, onde tinham sido recolhidas D. Josepha e suas filhas.
D. João V, informado da resolução mysteriosa do celebre Olho de Vidro, cujas facecias o tinham muito alegrado, quando sua magestade, em hora de pachorra, consentia que o seu medico lh'as lesse, desejou ouvirda bocca do famoso Braz Luiz uma historia escassamente conhecida dos altos dignitarios da egreja.
Braz Luiz foi levado ao paço pelo doutor José Rodrigues de Abreu, medico de el-rei. O filho de Pedro II revelou o desejo que tinha de saber que fundo reviramento se operára no espirito de um pae de sete filhos, para, no vigor dos annos, se privar das caricias da familia, e defraudar a esposa de marido e os filhos de pae.
O medico referiu a sua historia, a sós com o curioso monarcha, depondo na consciencia e religiosidade de el-rei os pontos melindrosos e secretos da sua vida. Sensibilisou-se o soberano, e em paga da confidencia lhe fez mercê das rendas do real d'agua para que as elle applicasse á fundação do convento de D. Josepha. Ordenou mais el-rei, de harmonia com o nuncio, que se não delongassem a Braz Luiz de Abreu as ordens solicitadas, de modo que entre umas e outras não interferisse mais tempo que o necessario, em conformidade com o maximo gráo da dispensação em taes casos usada. Por maneira que Braz Luiz, ao cabo de seis mezes, estava clerigo de missa. O concilio tridentino permittia e explicava santissimamente todas estas coisas, que hoje se nos affiguram monstruosas irregularidades. N'este anno da graça de 1866, póde qualquer novelleiro citar o concilio tridentino, por que é presumivel senão certo, que por amor do casamento civil toda a gente de alguma curiosidade reveza a leitura das decretaes com a dos concilios.
Pois o logar do concilio tridentino que permittia desatarem-se esposos, e vestirem habitos, e professarem, e deixarem os filhos sem paes, é aSess. 24 de Matrimonio, Can. 9.
Ao mesmo tempo, o padre Braz Luiz de Abreu foi nomeado syndico do convento permittido, e, por um breve, tambem nomeado medico d'elle.
Tornou-se o padre de Lisboa para Aveiro, e entendeu logo nas obras do convento novo. Podia, se quizesse, dizer logo missa nova, mas reservou-a para o dia em que sua mulher e filhas professassem.
A edificação do convento fez-se n'um anno. Sobravam os recursos, além do subsidio real. Os cavalheiros da terra concorriam com grandiosos donativos, e muitas esmolas de procedencia desconhecida iam dar ás mãos do syndico. O hebreu Francisco Luiz observou que o seu dinheiro maldito não queimava as mãos ungidas do sacerdote.
Algumas vezes o padre Braz Luiz de Abreu entrou ao locutorio ou grade para se entender com a mãe de seus filhos sobre coisas attinentes á profissão. Dizem as memorias que nunca jámais lhe elle vira o rosto, porque D. Josepha o velava com um espesso véo negro.31
Aos vinte e quatro de dezembro de 1734, passados trinta e tres mezes de noviciado, de cruelissimas dores, de inenarraveis desmaios, as cinco filhas de D. Josepha, trajadas para a festa do martyrio como sua mãe, ajoelharam ao lado d'ella, e abdicaram nas mãos da prioresa tudo que podesse parecer ao mundo coisa melhor do que o escuro abysmo em que de repente se viram despenhadas.
Aquelle acto era uma crucificação atrocissima para a filha de Antonio de Sá, porque ella tinha perdido a fé.Nunca se lhe haviam entranhado muito as crenças na religião do Calvario, porque da indifferença religiosa, em que lhe correra a infancia, passara a ser educada em convento francez, onde a piedade sincera de alguma peccadora contricta era mettida a riso por alegres peccadoras, de quem poderia ser que os proprios anjos andassem namorados.
Sua mãe tinha vivido uniforme com a religiosidade do marido; e, por fins de vida, rejeitara e apagara da alma os vislumbres da piedade, porque, dizia ella: «Ha certas lagrimas, que apagam toda a luz da religião, seja ella qual fôr.»
A religião de Braz Luiz pareceu-lhe a ella muitas vezes ostentosa, pouco menos de hypocrita, e sustentada á custa da razão. Todavia, como discreta e amantissima d'elle, não lh'a impugnava, nem se esquivava a seguil-o nas publicas demonstrações de sua piedade.
Quando ella, desde os reconcavos d'alma, caíu aos pés de Christo, foi na hora tremenda em que se ouviu nomear filha do pae e mãe de seu marido. Orou então, para não morrer, ou póde ser que orasse para ser arrebatada á sua angustia pela mão de Deus, ou fulminada por poder satanico. N'aquellas orações ninguem sabe o que a alma pensa.
Encerrada n'um convento, com cinco formosas meninas, que se encostavam ás rexas de ferro a olhar cheias de saudades por esse céo fóra, e seguiam as avesinhas de arvore para arvore, de monte para monte, a infeliz mãe adivinhava os colloquios das pobrinhas com o céo impassivel, e fugia-se d'ellas, para que a não vissem chorar. Voltava a vêl-as, e trazia ainda vidrados na face os prantos. Ellas aqueciam-os com beijos, e, em vez dofervor piedoso e consolativo de sua mãe, ouviam-lhe supplicas com que ella lhes pedia perdão de as ter gerado. As meninas perguntavam-lhe porque estavam assim captivas e desterradas da vida tão sem vontade, e a mãe não podia responder-lhes: «É porque sois filhas de meu irmão, e minhas filhas.»
Que importava?
Tinham ajoelhado, tinham renunciado, tinham professado, tinham assistido á missa nova de seu pae, d'aquelle homem de faces lividas, que as não apparentava mais translucidas de uma alegre consciencia do que as teria um sacrilego, que houvesse cuspido no ciborio e calcado aos pés a hostia. E depois, viram-no assomar no pulpito, e prégar com elegancias de primoroso lapidario de palavras o sermão da profissão, o sermão d'aquelle enterro de seis vidas, de seis corações apunhalados, mortos, com authoridade do concilio tridentino, e com muitos applausos dos prelados, do rei e dos edificados espectadores da tragedia.
Estavam professas. A de trinta e nove annos, que representava vinte cinco formosas primaveras, ao entrar n'aquelle antro de S. Bernardino, a filha de D. Maria Cabral estava desfigurada como na ultima velhice. Anna Maria, de dezeseis, e Sebastiana Ignacia, a mais nova, de onze—onze annos e professa com um breve de Sua Santidade!—todas cinco, seguindo sua mãe da egreja ao claustro, olhavam contra o chão como a procurarem a cova que se lhes abrira.
E depois, se choravam, saía-lhes a prioresa e dizia-lhes:
—Filhas, lagrimas de penitencia, de penitencia...
E se, do interior do convento, ia ao padre Braz a noticiade que suas filhas estavam deperecendo e morrendo, o santo, calejado para uns dardos que varam e matam todo homem menos santo, respondia:
—É o Senhor que as chama... Deixal-as, deixal-as ir para o côro das virgens.
E, rodeado de muitos e piedosos livros, escrevia aLusiada sacra, a origem ecclesiastica do imperio lusitano, e levava mão do trabalho para assistir aos seus doentes, que curava ou enviava a melhores mundos gratuitamente.
Os moços Agostinho e Pedro lá estavam estudando latinidade no convento de Santo Antonio. Ao principio perguntavam por sua mãe, por seu pae e por suas irmãs. Um doutissimo frade, lente jubilado, respondia-lhes:
—O melhor pae é Deus, a melhor mãe é Nossa Senhora, as melhores irmãs são as tres pessoas da Santissima Trindade.
Sã theologia; mas os mocinhos queriam saber de sua mãe, de seu pae e de suas irmãs.
Deram em não estudar, de tristes que viviam. Foram accusados ao padre Braz, que entrou a admoestal-os no convento. Os meninos abraçaram-se n'elle, e pareciam contentes.
—E nossa mãe? perguntava Agostinho.
—E nossas irmãsinhas? perguntava Pedro.
E Braz Luiz baixava os olhos sobre o seio, permanecia n'um recolhimento angustiado, e saía com estas palavras:
—É verdade!... e vossa mãe!... e as vossas irmãsinhas?
Mas, apenas as orelhas da sua alma escutavam estas lastimas do coração, o padre ajoelhava na postura de mentecapto, batia punhadas no peito, e clamava:
—Pequei! pequei! perdão, meu Redemptor!
Eu negaria minha fé a quem me dissesse que a prece dos infelizes sem culpa não ha Deus que a ouça e attenda. Se ha!...
N'um dia de junho de 1735, ao sexto mez de professa, soror Josepha da Cruz, depois de tres semanas de aturada hemoptyse, amanheceu com uns spasmos convulsos, chamando pelas filhas, que a rodeavam, e ella não via. Accudiram as freiras, e ordenou a prioreza que fosse chamado confessor e medico. Avisaram o padre Braz, syndico do convento. Estava elle resando as contas, e voltou o rosto da pessoa que lhe levou o aviso, para atar umpater nosterinterrompido nofiat voluntas tua. Tres vezes repetiu com seraphico arrobamento ofiat voluntas tua—«faça-se a tua vontade»—e de si para si entendeu que aquelle seu despego em tamanho transe, ao annunciarem-lhe que sua mulher estava emtrabalhos de morte, era egual ao de muitos lances de natureza identica, e santo stoicismo, contados noFlos-Sanctorum, eVita patrum.
Concluido o ultimo mysterio do rosario, aspergiu-se de agua benta, e foi caminho do convento, resmuneando o psalmo:...Amplius lava me ab iniquitate mea: et a peccato meo munda me. Quoniam iniquitatem meam ego agnosco... etc.
Ao avisinhar-se da cella da enferma o syndico, disse a prelada:
—Irmã Josepha, aqui está o nosso padre syndico Braz Luiz.
Soror Josepha não vellou o rosto, porque já não entendera o aviso da prioreza.
Braz Luiz deu de olhos fitos na sua companheira de quinze annos. Ressumou-lhe ao rosto um suor frio, cambaleou, e amparou-se á ombreira da porta.
Depois, tornou em si; invocou a força dos santos, compoz o semblante, acercou-se do catre da moribunda, e balbuciou:
—Soror Josepha da Cruz!
A enferma estremeceu, despregou as palpebras, circumvagou as pupilas esgazeadas, e retrahiu-as logo, como se a face do padre lhe fulminasse faiscas de raio aos olhos.
—Os aprestos para a extrema-uncção—disse o syndico.
—Venha o capellão ministrar-lh'a—ajuntou a prioreza.
—Não, nossa madre: serei eu—disse o padre Braz.
Accorreram os aprestos, emquanto Braz Luiz desceu á egreja a envergar uma cotta com estola roxa. Deu signalo sino, ajuntaram-se as freiras acolytas, uma com a cruz, outras com velas, outra com a caldeirinha, e muitas cantando alternadamente os versos do psalmoMiserere mei Deus. Entrou á cella o padre, precedido da cruz e da caldeira. A prioreza observou que as uncções deviam ser feitas com presteza, omittindo-se as ceremonias usadas quando não ha receio de que o enfermo expire antes de ungir-se. Principiou o padre a ungir-lhe os olhos; e logo notaram que os dedos lhe tremiam convulsivamente. Esteve com a mão suspensa, esperando que o tremor aquietasse. Desfitou os olhos da face da moribunda, e viu as cinco filhas ajoelhadas em carreira com os cirios empunhados, e os rostos caídos sobre os seios. Contemplou-as com olhar embaciado de lagrimas, e na bocca um sorriso triste, que poderia ser qualquer coisa do usual sorrir dos santos, e tambem poderia ser a expressão vulgar da insania. Esta equivoca expressão, porém, sumiu-se, e as lagrimas saltaram a quatro. Depois, foi um conflicto aquelle para ser visto dos que apenas conhecem alguns milhares de flagellos n'esta vida! Caiu em joelhos, pegou das mãos ambas da enferma, e exclamou:
—Leva-me comtigo, leva-me comtigo, ó santa, ó martyr!
As cinco meninas levantaram um alarido de gemidos, e romperam por entre as freiras a cobrirem com os braços a moribunda... a morta.
Braz Luiz arquejava encostado ao leito. Não ousavam pôr-lhe as freiras as suas mãos para o retrairem d'alli; mas, todas a um tempo, lhe pediam que offerecesse a Deus, em beneficio da alma de Soror Josepha, as angustiaspor que tão santa e heroicamente quizera passar e ser provado.
O padre levantou-se de impeto, olhou em torno de si, e disse:
—E que me dá Deus? Sim! que me dá Deus?
As freiras contemplaram-se estarrecidas e frias de religioso medo.
—Pois então!—proseguiu elle com tregeitos de louco e semblante descomposto—pois então, não houve um raio de graça para esta santa mulher! não seria divina justiça que ella achasse aqui as alegrias de uma consciencia pura, de um coração sem mancha! Por fim... é certo que eu te matei minha innocente victima?
E, dizendo, acurvou-se sobre o cadaver, beijou-lhe os olhos soffregamente e cobriu-lhe a testa de lagrimas.
Era isto já uma vertigem, que terminou pelo deliquio.
Foi chamado o capellão e alguns frades visinhos de Santo Antonio. Levaram d'alli o padre para accommodarem logo os escrupulos das freiras escandalisadas. Ia sem accordo, nos braços dos antoninos. As filhas viram-no ir sem lastima. Estavam em volta da barra de sua mãe. Aquelle homem fazia-lhes terror, senão odio. Poderia ser que elle tivesse por si a côrte celestial; mas n'este mundo não havia alma que o pranteasse. Propriamente os frades incriminavam-no de pusillanime e vacillante na reforma de vida. As freiras—santo nome de Deus!—davam como perdida a alma d'aquella que morrera sem confissão; e, porque eram santas, foram em côro exorar ao Senhor que não pesasse na sua balança sem o contrapeso da misericordia, as palavras blasphemas do padre syndico.
Braz Luiz, quando cobrou sentimento, achou-se na sua pobre alcova, com dois frades á cabeceira. Escutou-os. O que elles diziam eram coisas formidaveis sobre o inferno sem fim. Stygmatisavam-lhe a fraqueza, a impenitencia, a temeridade de se aproximar da religiosa moribunda, se não ia santamente disposto a dar um exemplo de desprendimento dos affectos que havia renunciado no acto da sua sagração a Deus.
O padre pediu perdão do escandalo, e rogou que o deixassem só para examinar sua consciencia.
Deixaram-n'o os frades e foram-se ao seu convento, d'onde tinham saído em jejum.
Braz Luiz de Abreu soffria tanto, que duvidava do poder da oração ou não sabia orar. Punha os olhos na face do Christo, e logo os descia como aterrado do pensamento sacrilego que a intercadencias lhe agonisava a alma.
Aquella religiosidade, que, horas antes, parecia robusta e sentida como a dos martyres, estava a desfazer-se miseravelmente na incerteza, no desprezo, na negação das mais santas coisas do christianismo! Alli se estava vendo o que em verdade é o homem, e quanto são morredoiras as phantasias do espirito arrancado ás leis da humanidade, quando a mão da desgraça descarrega a maça de bronze no peito que tem dentro sangue e fibras. O grande edificio d'aquelle selvagem ascetismo estava a derruir-se. O coração de quarenta e tres annos dava pulos como para espedaçar o arnez apertado com arcos de ferro debaixo do habito franciscano. A imagem de Francisco Luiz perpassava-lhe execrandissima por diante dos olhos, cravados n'um revolutear de visões extravagantes que o assediavam, á volta do cadaverd'aquella mulher assassinada sem culpa nem fé para aceitar de boamente uma tão grande quanto immerecida penitencia.
Fez-se em volta d'elle a solidão dos grandes desgraçados, que já nem sequer podem captar a benevolencia dos grandes hypocritas, nem a estima dos ferventes devotos. Os mais virtuosos frades fugiam d'elle, desde que do convento de S. Bernardino sairam peioradas em blasphemia as phrases do syndico ao pé do corpo ainda quente de sua mulher. Além d'isto, entraram em averiguações os mais escrupulosos sobre os factos antecedentes á resolução de entrar aquella mulher na religião e elle no sacerdocio. O prior dos antoninos esquadrinhou em Lisboa no secreto gabinete da nunciatura, e vingou descobrir que o rompimento fôra sequencia de um casamento incestuoso.
Calou o frade a infanda noticia, por caridade; apenas a revelou a metade dos seus conventuaes; e estes, por caridade tambem, disseram-n'a á outra metade, sentindo não ter mais a quem a revelassem.
Por isso, á volta d'elle se fez a solidão dos grandes desgraçados.
Entregaram-lhe os dois filhos, que estudavam humanidades no convento, para que elle lhes désse destino. O padre levou-os para si, e desde esse momento principiou a sentir quebrarem-se os aguilhões que o cravejavam e atiravam impenitente á sepultura.
Cogitou em mudar-se com elles para algum ermo, onde lhe ignorassem o nome e os infortunios. Mas alli, ao pé da sepultura de Josepha, estavam as cinco filhas, que elle, se podesse, tiraria do convento. Era aloucada fantasia similhante intento. Aquellas meninas estavamperdidas para elle e para Deus; porque já não podiam amar o algoz de sua mãe; e, diante do poder do Altissimo, apenas podiam tremer de medo, medo sem amor. Nem pae, nem Deus!
E d'este modo, com a alma assim vasia, sem embrião de esperança n'algum reconcavo d'ella, não ha vida.
A mais velha das meninas, Anna Maria, sobreviveu dois mezes a sua mãe, e acabou em phrenesis, não obstante os exorcismos com que valentes demonifugos de todos os conventos de Aveiro lhe medicavam a alma. Expirou com reputação de precíta aquella gentil creatura com dezoito annos incompletos, a mansissima menina que seus paes quatro annos antes denominavam, á conta da sua indole branda e sujeita, a pomba da familia, o exemplo angelico de suas irmãs.
Quando o padre Braz recebeu a nova da morte de sua filha, quizera a Providencia que ao lado d'elle estivesse um peito que lhe désse amparo.
Francisco Luiz de Abreu, n'aquelles dias, descêra dos arrabaldes de Bragança, onde fôra despedir-se do seu amigo José de Barredo, e passára por Aveiro, onde conjecturava encontrar ditoso e embevecido nas delicias do céo o sacerdote de Jesus.