XVIIICatequezeFrancisco Luiz planeou mover o filho de Antonio de Sá Mourão a saír de Aveiro, sob pretexto de fazer entrar na carreira das lettras ou das armas os dois moços, já habilitados para as começarem.O padre passou a consultar os filhos sobre a escolha de seu futuro. Tinham-se os meninos habituado a pensar no destino para que o pae os encaminhára, desde que os entregou aos frades de Santo Antonio. N'aquelles dias, as carreiras abertas aos espiritos mais arremessados em esperanças e cobiça de nomeada gloriosa, eram a milicia, já então decadente, e a companhia de Jesus, ou a ordem de S. Domingos, as duas mais poderosas e florentes hostes evangelicas n'estes reinos, e as mais conjuradas em realisar o absolutismo theocratico.Os filhos de Braz não entendiam nada d'estes intentos; mas entreviam a grandiosa estatura do jesuita edo dominicano, em cujas frontes se estavam sempre cerzindo as mytras, e no interior d'essas frontes se elaborava o pensamento dos reis, a palavra directora dos governos, o enlace mystico do céo com a absoluta soberania da terra.Portanto, os dois netos do hebreu da Guarda, respondendo á consulta de seu pae, disseram que entrariam em conventos. Agostinho escolheu a companhia de Jesus, e Pedro a ordem de S. Domingos.Francisco Luiz encarou n'elles com desprezo: não podia ser de piedade, nem de odio aquelle sorriso que entre-abriu os beiços do velho judeu de Ourem.Passados momentos, murmurou, sorrindo ainda:—Este Pedro já não virá a tempo de me queimar... nem eu lhe deixo filhos ou netos, cujos ossos lhe sirvam de degráos para escalar a bem-aventurança dos carnifices... Se o avô d'este menino se lembraria de que um seu neto seria frade dominicano!...E, voltado ao padre Braz, continuou com mal fingida serenidade:—Conjecturava eu, senhor Braz Luiz, que um homem de sua indole e saber, vestido com as insignias de uma religião qualquer, e mormente da christã, se empenharia em lavar-lhe com lagrimas as nodoas de sangue, e no amaciar-lhe as cruezas que ella trouxe das tradições pagãs. O homem de grande entendimento e muitas luzes devia ser lustre e honra de qualquer religião que elle assentasse de converter em policiamento e bem-fazer da humanidade. Não lhe perguntei ainda, meu amigo, se applaudia o proceder da christandade portugueza contra os paes de Antonio de Sá, contra Maria Cabral, contra Heitor Dias da Paz. Pergunto-lh'oagora, na occasião em que vossemecê manda um filho alistar-se nos aprendizes do santo officio, e estudar as physionomias das antigas rezes do açougue dominicano penduradas na galilé da egreja de S. Domingos. Bem póde ser que lá veja retratos de seus avós.—Basta! que me está mortificando, senhor!—atalhou o padre.—Sou um desgraçado, á volta de quem se assanham todas as tentações! Quem vem contender em pontos de religião com um homem tão quebrado de espiritos? Oh! deixem-me como a um leproso, abandonado de Deus e dos homens...—Abandonado de Deus! como assim?—accudiu o israelita.—Pois as tres divindades christãs, o Padre, o Filho e o Espirito Santo assim abandonam quem tanto lhes sacrifica! Onde está a compensação das suas afflicções, meu amigo? Que bem aventuranças infinitas são bastantes a galardoar uma só das suas torturadas noites? Por minha fé! Consterna ver o desamparo em que o Moloch d'estas voluntarias hostias deixa affogar-se em lagrimas e derreter-se ao fogo da desesperação um homem que tinha direito a receber consolações analogas á devoção com que se deixa esmagar na carne e no espirito!... Ah! eu cuidei que, na minha retirada de Portugal, o deixaria enlevado na beatifica visão e antegosto da eterna e perennal mão direita do Deus-Padre! E a minha consciencia sabe que eu muitas vezes pensei em me converter ao christianismo, se Braz Luiz de Abreu estivesse, a esta hora, conformado e alegre sobre o peso da sua cruz!...—É que eu sou lodo... atalhou o padre.—É que eu não vi ainda bem remunerada a renunciação dos direitos do homem, em hecatomba de umaequidade convencional, chamada a justiça das religiões. São todas muito artificiaes para que alguma d'ellas possa ser verdadeira. As menos sobre-humanas são as mais equitativas; e estas mesmas estão manchadas pela miseria do homem, que não comprehende a virtude aconselhada pela razão; carece de a ouvir trovejada no Sinay, legislada pelo alfange mahometano, ou introduzida no cerebro das nações selvagens com o gume da espada dos Cabraes e dos Pizarros. Pois está Deus n'estas carniçarias? O creador das florestas e dos mares, do oução e do elefante, se quizesse revelar-se mais sensivelmente ao homem, careceria de morrer n'uma cruz ignominiosa, ou permittiria que aos pobres cegos, que o não sabem ver, lhes queimassem os olhos nas lavaredas do santo officio?!—Jesus, soccorrei-me! exclamou o padre, tapando com as mãos a fronte, em que as palavras d'aquelle homem coavam luz de infernal claridade.Depois murmurou palavras inaudiveis que deviam ser orações efficazes contra a tentação da heresia, da philosophia, da razão indocil, do demonio, que é tudo um.O hebreu era pertinaz, porque o estimulo, a razão nua, sem minima compostura de fé, lhe espicaçava a consciencia. O homem vinha dos focos da heresia. Comprehendêra a loucura do hebraismo e a loucura dos heresiarcas. Reformara-se na philosophia de Spinosa, e facilmente derivara do pantheismo á completa abstinencia de deuses, coisas desnecessarias para explicar a ordem do universo, e inintelligiveis para as fazer presidir á creação. A causa das causas parecia-lhe sempre effeito dos effeitos. O atheismo, se o não consolava, tambem lhe não mettia em trabalhos as molas da imaginação.As expansivas demonstrações de sua incredulidade eram todavia inefficazes para apagarem a luz do calvario no coração do padre. O dique do terror de Deus represava as torrentes de sabedoria rebelde com que o hebreu pretendia levar de rojo o amigo, cuja victoria estaria indecisa; se o christão convicto aceitasse o cartel. Não. Braz Luiz vencia com o silencio. O argumento triumphal é o calar-se aquelle, cujo coração bafejou o Senhor.Não obstante, as asperezas da vida, os jejuns, as penitencias, as orações mentaes e exercicios fatigantes de piedade foram diminuindo de dia para dia. No fim de tres mezes, o padre fallava ainda tres horas á milagrosa imagem de S. Francisco, e conversava seis horas com Francisco Luiz de Abreu.Estava, pois, reduzido á piedade rasoavel. Não mortificava a carne para manter o espirito na energia que se lhe requer em meditação das coisas divinas. Tinha horas regulares de oração, de alimento, de visitar os seus enfermos, e de procurar no locutorio de S. Bernardino as quatro freiras.Foi para Lisboa com o hebreu e com os filhos. Renovou a consulta sobre o destino d'elles. Permaneciam constantes na sua resolução. Um entrou no noviciado da ordem dominicana em Bemfica; e outro no collegio de Santo Antão.O padre Braz foi beijar a mão de el-rei, que se compungiu da extemporanea velhice do celebre Olho de Vidro. Ouviu-lhe a historia pathetica da morte de soror Josepha e da filha, saudosa de sua mãe, e o definhar-se das quatro meninas para quem a vida claustral fôra sempre incessante martyrio e desesperação de que a misericordiadivina talvez pedisse contas a elle pae. Observou-lhe D. João V que levasse para sua companhia as quatro meninas.—São freiras, são professas, real senhor!... murmurou o padre.El-rei mandou-o voltar no dia seguinte, e ordenou que lhe entregassem provisão regia e breve do nuncio para que as quatro freiras de S. Bernardino vivessem por tempo illimitado na companhia de seu pae.Voltou o padre a Aveiro, e Francisco Luiz de Abreu acompanhou-o.N'este homem andava encavalgado o Lucifer da mais desenfreada philosophia que viu aquelle seculo. O pensamento que o esporeava era generoso; mas no inferno iria um dia de festa se elle vingasse a idéa execravel. Venceram os anjos custodios, que faziam guarda ao espirito do padre e das quatro filhas, promettidas esposas de quatro serafins que as esperavam, posto que nem todas correspondessem ao convite amoroso dos serafins.Queria Francisco Luiz de Abreu restituir a felicidade áquellas meninas, a felicidade terreal, mentira em que o hebreu ainda acreditava. Preparava o animo do filho de Antonio de Sá, inoculando-lhe a peçonha da duvida no dogma, e pelo conseguinte na moral. Discutia os chamados sacramentos da egreja. Dizia que o sacerdocio era a mais convencional e estupida das instituições humanas, com grave ultrage de Deus, chamado a sanccional-a, se Deus por acaso podesse existir e ser ultrajado por affrontas do homem, chamado irrisoriamente o rei da creação, á mingua de besta-fera que se proclame com eguaes direitos á mesma realeza. Dizia que esta bestial instituição cedia a primasia a outra, que era ada profissão da mulher; e que de estupida passava a ferocissima quando a professa era violentada a jurar a perdição das suas alegrias de mocidade, e das suas esperanças de familia nas tristezas da velhice.Amartelladas por largo tempo estas e similhantes idéas sobremodo impias, o hebreu puzera a pontaria em tirar de Portugal o padre e as freiras, leval-os onde rasgassem os habitos, e se vissem de repente restituidos á simpleza de creaturas formadas á imagem e similhança do Creador, o qual, a ter existido, formára certamente homens e não padres, mulheres e não freiras: gente, no dizer de Moysés, apta e escorreita para formar individuos, aldeias, cidades, reinos, mundos.Ouviu o padre as theses do seu amigo, defendidas por longo tempo com erudição digna de melhor serventia. Prodigioso poder da fé, quanto eu te admiro e venero! O padre resistiu nervosamente á seducção, e por pouco, no calor da refesta, não apresentou uma idéa que destruisse os preconceitos do judeu luciferino. Prodigioso poder da fé! exclamava tambem Francisco Luiz, quando, inventariando os argumentos do seu amigo, não topava um que merecesse redarguição grave. E perguntava elle a si mesmo como era que aquelle homem tão embotado em agudezas de dialectica pudera escrever as «Aguias que voavam sobre a lua, e o sol nascido no occidente e posto ao nascer do sol!»Desistiu: mas já lhe foi grandissimo contentamento ver á beira de seu pae as quatro meninas, quatro exhumadas da lobrega crypta do convento, onde deixaram sem lagrimas as grammas que rastejavam na claustra sobre a campa de sua mãe.Dizia elle, todavia, ao pae:—Crê que as caras marmóreas d'estas meninas tornem a reflorir?—Espero que sim.—Nunca mais. Estão mortas. Se as quer vivas, rasgue-lhes a mortalha, Braz Luiz!—exclamou elle abraçando-as todas contra o seio.—Dê-me estas meninas, deixe-me salval-as, deixe-me fugir com ellas para o ar abençoado da liberdade! Eu prometto aviventar-lhes o coração, e depois estão salvas. Dê-m'as que eu ainda, sou bastante rico para deixal-as ricas. E, se eu fosse pobre, dar-lhe-ia a cada uma um amor para o coração resuscitado, um esteio para a alma, um companheiro para toda a vida!O padre ergueu-se de repellão, travou das filhas, arrancando-as aos braços do hebreu, e exclamou:—Que maldição traz comsigo este homem!... Quer perder-me as minhas filhas!... Ha infernal predestinação na sua mensagem ao seio da minha familia, homem da horrivel fatalidade!XIXO velho da ermidaEm uma aldeia, chamada Verdimilho, a uma legua d'Aveiro, vivia em 1738 um ancião, reputado justo porque á volta da sua casa, colmada e desguarnecida da mais trivial mediania, se ajuntavam os pobres da freguezia, em dias determinados, e recebiam esmolas que lhes bastavam á alimentação parca da semana. Chamavam ao incognito o «velho da ermida» porque, ao lado da choupana d'elle, estava uma capella. Os pobres, favorecidos d'este homem, paravam ao cair da tarde nas visinhanças da ermida, para o verem sentado no tezo de um oiteirinho, com os olhos enlevados no transmontar do sol; e, se o viam passar a mão por elles como quem enchuga lagrimas, diziam entre si:«Um homem que dá tanto aos pobres, e chora!...»Em 1739 saiu elle caminho d'Aveiro, pela primeira vez. Os pobres seguiram-n'o, e disseram-lhe:—Não voltaes mais aqui, nosso bemfeitor?—Voltarei, filhos. Á noite serei comvosco.E caminhava a pé, abordoado n'um cajado que lhe dera um dos seus pobres.Chegado a Aveiro, entrou na egreja de S. Bernardino, acantoou-se no mais escuro d'ella, e assistiu aos responsorios da segunda filha de Braz Luiz de Abreu, a qual estava sobre a eça.Saiu, parou á porta do pae da defunta, subiu, entrou á saleta em que elle recebia os pesames, apertou-o nos braços e disse-lhe:—Dá-me a vida das tres filhas que te restam, e vem tu com ellas.O padre derramou copiosas lagrimas, e não respondeu.Voltou Francisco Luiz á sua cabana da ermida, e os pobres, ao outro dia, confluiram das suas aldeias a dar-lhe as boas vindas.Em 1740 fez o hebreu a mesma caminhada, entrou na mesma egreja onde se resavam responsos, na mesma saleta onde chorava um velho, e disse-lhe:—Dá-me a vida das duas filhas que te restam, e vem tu com ellas. Rasga-lhe as mortalhas, antes que o coveiro as esconda, e o sino dobre por ellas.O padre chorou muito, inclinado ao peito do velho, e não respondeu.Voltou o caminheiro á sua cabana, e os pobres olharam-n'o com muita amargura, porque a sombra d'elle era como de arejo vindo da região dos sepulchros.Uma tarde, não longe d'aquelle dia em que se finára a quarta professa de S. Bernardino, appareceu em Verdimilhoo padre Braz Luiz, atirou-se esbofado aos braços do hebreu, e disse-lhe:—Dê-me as minhas filhas!—Pede-m'as a mim?! É a Deus que as deve pedir... ao seu Deus, que resuscitou muitas...—Não peço as mortas; quero as vivas.—Que sei eu das vivas? Esperava que morresse uma para lhe ir pedir a ultima.—Pois minhas filhas não estão aqui? exclamou Braz Luiz de Abreu.—Aqui?! não vê que toda a minha casa é esta cabana?—Meu Deus! bradou o padre.—Que é de suas filhas? acudiu o hebreu.—Fugiram! perderam-se!...—Salvar-se-iam? Encaminhal-as-ia qualquer providencia que eu desconheço?...—Roubaram-m'as!E o padre, guardando silencio por alguns minutos, continuou com intermittentes de gemidos e ancias offegantes:—Perdi-as... e perderam-se!... Pois que nome tem isto senão é prostituição?... A justiça lançará mão d'ellas... e d'elles...—D'elles quem?—atalhou o israelita.—De relance os vi: eram militares, vinham de Coimbra a Aveiro, hospedavam-se nas mais nobres casas, e minhas filhas sabiam da existencia d'estes homens...—E rasgaram as mortalhas—ajuntou o velho de Verdimilho—Pois deixal-as ir. A natureza as defenda, se os aguasis da religião as perseguirem. Deixal-as ir em paz. Falleceram-lhes forças para a continuação domartyrio. Muitas das viuvas do Indostão já hoje se não queimam. É necessario que os preconceitos sejam derrotados uma vez por outra, a ver se alguma hora surge ahi d'este atascadeiro melhor geração, que traga ao mundo a idéa de Deus com bondade. Coitadinhas! Possam ellas chegar onde lhes digam: «Vivei, gosae sem remorsos. O que vos lá ensinaram a dizer na profissão caducou debaixo de outro céo. Pedi, meninas, o coração ás estrellas da noite, ao sol do dia, ás campinas que reflorecem, ás aves que senhoream os ares e pousam a cantar nas mais formosas frondes das arvores. Perguntae ás bellezas e jubilos da natureza, se quem os fez lhes pautou intercadencias de amargura. Vivei, candidas pombas, aquecei-vos ao calor que desentranha o gomo da arvore congelada, e aquece no seio da virgem o sangue palpitante que lhe purpureja as faces. Ide, e escondei-vos no reconcavo das penedias, como as gazellas se escondem do pelouro do carniceiro.» E tu choras?—disse elle com vehemencia, repuchando para si o corpo inerte de Braz Luiz—hei de fallar-te assim com este ar de pae, porque estou a ver-te, creancinha, que, ha quarenta e oito annos, eu tirava dos braços da ama para sentir o goso de te embalar e ver adormecido nos meus. Chora por ti que és muitissimo desgraçado: por ellas não, que eu duvido que haja ahi maior horror que o morrer das outras. Porque não iria eu com tuas filhas á fonte da saude, do bem do corpo e da alma? Porque m'as não déste? Davas dois anjos a este homem de setenta annos, que não tem ninguem que lhe feche os olhos. E, depois, extincta esta luzinha que vasqueja, as tuas filhas aprenderiam nas memorias da minha vida a viverem virtuosas sem religião revelada, asoccorrerem indigentes sem lerem os preceitos da caridade de Confucio ou de Jesus. Mas se m'as não déste, nem por isso descreias da felicidade d'ellas. O amor tem céos e resplendores, que banham de luz as mais tristes almas. O crime d'ellas é coisa tão mal feita á superficie da razão degenerada, que lhes não ha de durar mais na consciencia do que a sentença d'ellas escripta sobre areia. Verdadeiros crimes, diante do juiz incorruptivel, são aquelles de que o senso interior nos condemna.Prolongou-se a pratica do hebreu. O padre não o ouvia. O que elle parecia escutar era um cavo e muito intimo desfibrar-se-lhe o coração, este envelhecer e morrer que o homem está sentindo a branquear-lhe os cabellos e a ressumar-lhe á face camarinhas de suor de agonia.Depois despediu-se, e murmurou:—E adeus! que está consummado tudo!—Ainda não: viverás mais annos, porque se não é desgraçado como tu és senão em toda a plenitude. Eu é que vou sair d'aqui. É noite fechada. Já não tenho n'este mundo sol que me derreta os gelos de setenta annos.XXParecia christão na morte!Vinte dias depois, correu nas aldeias circumpostas a Verdimilho, que o velho da ermida estava enfermo.Abalaram os pobres dos seus cardenhos, e entraram quantos cabiam na cabana do ancião. Os ricos tambem foram com os seus capellães, com os seus padres adscriptos á gleba das missas derequiem, com que mercavam barato o paraiso aos seus ascendentes.O ancião viu uns e outros. Ergueu a cabeça e disse:—Que entrem sómente os pobres. O espectaculo de um moribundo não convida.Os pobres, pois, ajoelharam em duas alas, defronte da parede a que se encostava uma barra de bancos, e cada um dizia em silencio as suas orações.A porta da cabana estava de par em par aberta. O sol da tarde doirava a poeira do interior. A fita luminosa, que ia inclinada em scintillas alumiar a fronte doenfermo, vinha com direcção obliqua e coada por uma abertura do colmo. Os pobres viam n'aquelle raio de pó lucido coisa mysteriosa de bonissimo agouro para a alma do doente.Appareceu então no limiar da porta um sacerdote, que a gente d'aquellas aldeias venerava como medico do corpo e do espirito. Era o padre Braz Luiz de Abreu.E como elle entrasse, o povo, que enchia a casinha, saíu, cuidando que o velho da ermida ia confessar-se.A só com o sacerdote, disse o hebreu com penosa pronuncia:—Agora é que são as despedidas, amigo. Vieste a tempo, Braz, filho adoptivo de minha mulher, que ha vinte annos me espera. Debaixo do meu travesseiro está um papel escripto de meu pulso; na arca em que te sentas, está o que eu tenho de meu. Cumprirás as minhas disposições...—E a sua alma?...—atalhou o padre.—É tempo ainda. Salve-se, homem de bem! salve-se...—Se sou homem de bem, estou salvo—murmurou o judeu.—Receba com fé os sacramentos da Santa Madre Egreja.—Ceremonias pagãs... A vida do espirito vae começar. Receba a natureza em seu seio a porção immaterial do meu ser. Descance em perpetua paz este motor interno, que recebia as lançadas da adversidade, a influencia do mal, que os homens geraram. Acabo sem remorsos, sem odios e sem esperanças. Acabo, é o que eu sei deveras. Vou desenganar-me, se errei. Agora, filho, deixa entrar a minha familia. São esses pobrinhosque saíram. Abre-lhes as portas: quero vel-os até á ultima.Braz abriu a porta, os pobres entraram e o padre ficou entre elles.O vigario perguntou ao medico e supposto confessor se era tempo de virem os santos oleos.—Mais tarde, disse Braz Luiz, esperando que o moribundo caído na apathia da extrema hora, insensivelmente recebesse as uncções e assim enganasse a devoção d'aquelle povo. Piedosa impostura, santa fraude, que levava em vista salvar os creditos do padre visitante, e abonar as virtudes do homem que os pobres começavam a beatificar.Por volta das onze horas, cresceram os trabalhos dos paroxismos. Á meia noite, descaíu o moribundo em lethargia. A respiração era quasi imperceptivel. Saíu o sacerdote a pedir a extrema-uncção, sem impedimento de saber que a boa e sã theologia não dava já nada por aquella alma, embora o agonisante fosse sacramentado.Quando o vigario, espertado do primeiro somno, chegou, estremunhado e carrancudo, com a ambula á porta da cabana, o padre Braz ajoelhara á cabeceira do moribundo, em adoração ao Santissimo Sacramento. Sondou o pulso do velho da ermida, e disse:—Expirou agora.Os pobres cessaram de cantar oBemdito, e levantaram um grande choro, entrando todos a beijar a mão do cadaver.Se este acabamento de homem, transviado da religião verdadeira e das falsas, não fosse referido em romance, poderia alguem suppor que póde uma pessoa morrercomo justo, sem ser absolutamente religioso. Bom é que mortes assim se não divulguem em livros graves.As disposições do philosopho são faceis de antever. Os seus herdeiros eram aquelles pobres que choravam, e outros que pediam enxerga e remedios na santa casa da misericordia de Aveiro, e tambem os peregrinos que se acolhiam á albergaria convisinha da egreja de S. Braz.Pois com tantos legados de espirito christianissimo ninguem acreditava que fosse sincero christão um sujeito que entre tantas disposições não applicou missas por sua alma, nem sequer trezentas! O clero estava escandalisado!Folgavam tamsómente os pobres,—e tanto folgavam que nem já choravam a perda do bemfeitor.XXIComo se póde viver!De causas de todo em todo inversas e entre si repugnantes apparecem effeitos similhantissimos.O despejo, por exemplo, a coisa hedionda que por ahi se chama cynismo, caleja e abroqueia tão rijamente o homem, que todas as setas da desgraça lhe resvalam do peito. Quando cuidamos vel-o soçobrado, eil-o se apruma a desafiar novas tempestades, e de tormenta em tormenta chega á derradeira edade, e acaba de cachexia, porque as cachexias não se curam com a valentia da alma.Vejamos agora o justo em tribulações, o christão de tempera pacientissima e refractaria ao desanimo que prostra e mata. As calamidades a choverem-lhe, as injustiças dos homens a pôrem-lhe em duvida a justiça divina—por se dizer que o homem tem fórma e similhança de Deus; elle a abster-se, a amputar-se, a desaggregar-sedo bom da vida, e a temperar com fel alguma coisa melhor para offerecer ao céo o amargor d'ella e a reluctação com que a toma, degenerando e estragando tudo que os outros saboream. Eis que umas pessoas queridas lhe morrem; e outras o deixam, quando elle a chorar lhes pedia amparo; fogem lhe e deshonram-n'o; e o christão atira-se aos pés da cruz, queixa-se, mostra as garrochas que o trespassam, os anjos como que baixam a descravar-lh'as; fecham-se as feridas, outras logo se abrem, e elle a exclamar:«Mais, mais, Senhor!»Amplius, amplius, domine!Este é o christão, o penitente, o stoico setenta vezes santo. Eil-o ahi vae vida fóra, caindo, erguendo-se, pondo peito ao baque da legião que o tenta, esgrimindo a um e outro lado com a cruz, com o hyssope: ora magestoso, ora ridiculo; mas vivendo, vivendo, até aos sessenta, e ávante ainda, n'um viver que se nos figura a mais pavorosa das agonias!Tal foi Braz Luiz de Abreu.Quantas vezes o leitor, no decurso d'esta biographia, terá dito: «o homem vae morrer agora!»Morrer! quando será isso? Ha de ainda viver, depois de tanto veneno que lhe imborcaram, ha de viver dezeseis annos. Dezeseis annos! sósinho! alli em Aveiro, não sei em que rua d'aquellas, em qualquer casa das mais desaconchegadas, a rever na téia da phantasia o rosto da mulher agonisante, das tres filhas mortas, das duas fugitivas, sem que mais aos seus ouvidos soasse o nome d'ellas, nem dos sacrilegos raptores das divinas esposas! E, como elle pôde, em meio d'isto, escrever ainda dois livros, dois grossos manuscriptos, que não sei onde param, um chamadoFeniz Lusa, referindo a vidae acções do serenissimo infante o senhor D. Manuel, filho de D. Pedro II; e outro intitulado:Vida e acções do primeiro principe do Brazil para exemplar do nosso serenissimo principe D. José.32Querem revelação para maiores assombros?Em 1755, foi aquelle memorando terramoto de Lisboa. O padre Agostinho de Abreu, da companhia de Jesus, ia de Santo Antão para S. Roque, ao começar o tremor. Passava diante de uma casa que se estava derruindo, ouviu os clamores de dentro, entrou heroicamente para arrancar uma velha debaixo da couçoeira de uma porta, e ficou esmagado debaixo do tecto abatido. Já sabem que este jesuita era filho do padre Braz. Pois, quando a nova d'este desastre chegou ao pae, seis dias depois, o velho de sessenta e quatro annos ajoelhou, orou, levantou-se, limpou as lagrimas que lhe tolhiam a leitura do seu breviario, e leu o psalmoMiserere mei Deus.Que morte será pois a d'este homem para que se não diga que houve ahi angustia que podesse com elle? Ha de ser a morte designada pelos seus biographos, a morte que o senhor Innocencio Francisco da Silva lhe assigna: «apoplexia fulminante, a tempo que estava sentado, sobre uma cadeira.»Eram corridos dez dias de agosto de 1756, quando no convento de franciscanos de S. Bernardino se fechou em sepultura rasa o cadaver de Braz Luiz de Abreu. A memoria de suas mysteriosas desgraças será menos duradoura que o renome de medico abalisado que os contemporaneos lhe celebraram.CONCLUSÃOQue destino tiveram aquellas duas freiras que, no dizer do defunto hebreu, rasgaram as mortalhas?Saibamos quem eram os raptores. Eram uns cadetes de cavallaria, filhos de um Heitor Teixeira de Macedo, capitão-mór de Coimbra, e fidalgo solarengo de Condeixa-a-Nova, muito aparentado com os Chamorros, Marreiros e Matosos, nobilissimos apellidos de familias aveirenses. Hospedados em casa d'estes Chamorros e Matosos é que os Cadetes puderam ver soror Antonia Maria e soror Sebastiana Ignacia. Fazerem-se amados devia ser coisa de pequeno prologo, já porque as duas virgens não tinham das cousas d'este mundo mais experiencia que os anjos, já porque almejavam ser amadas, já porque os dois cadetes eram bizarros moços, galans palacianos, formosissimos demonios, que faziam tremer as calçadas e os corações das damas de Aveiro com a estrupiada dos seus alasões.O namorarem-se, convencionarem-se e fugirem foi n'um prompto. A justiça, quando tal soube, quiz gritar; mas os Chamorros, Matosos e Marreiros amordaçaram-n'a. Os rapazes já não tinham pae: tinham mãe, uma santa matrona, que era a imagem das virtudes christãs. Appareceram-lhe os filhos, e ajoelharam pedindo recursos para fugirem de Portugal. A tremula e espavorida senhora escutou a historia do criminoso passo. Não amaldiçoou os filhos. Chorou muito; e os velhacos, nas costas d'ella, faziam esgares de grandes farcistas!A fidalga perguntou onde estavam as freiras. Soube que as tinham escondidas n'uma quinta distante. Quiz vêl-as, porque sabia a tragedia singular da familia do medico.Por noite alta, entraram as duas meninas á recamara da viuva do capitão-mór de Coimbra. Foram mui benignamente recebidas. Aquella senhora tinha facilidades incriveis! Receber assim duas libertinas esposas do Espirito Santo!Receiando que fossem presas, antes de irem onde a virtuosa senhora tencionava mandal-as, não as deixou mais saír da sua recamara.O capellão saíu para Lisboa; e, oito dias depois, estava de volta com muitas cartas para cardeaes e ministros residentes em Roma.—Podeis ámanhã partir, filhos—lhes disse ella.—Ide a Roma com estas cartas, entregae-as, e tornae com um bom despacho. De volta, podereis ser esposos d'estas meninas, que ficam no quarto de vossa mãe até que volteis.Os moços olharam-se entre si, e ficaram como aparvados.Olharam para as freirinhas, e viram-n'as a chorar, fingindo que sorriam.Não havia que replicar. Partiram para Roma.Estavam em Lisboa ainda, negociando ordens de dinheiro sobre banqueiros romanos, quando foram chamados á pressa por ordem da mãe.A fidalga adoecêra com todos os symptomas de proxima morte.—Chamei-vos, disse ella, para que me assistaes ao enterro. Depois, ireis. Agora, jurae sobre estas Horas que cumprireis a minha vontade quanto a estas meninas. Depois de me haverdes sepultado, ireis para Roma, e, obtida a annullação dos votos d'ellas, casareis.Juraram e cumpriram. A annullação dos votos foi prolongada com inqueritos de testemunhas no convento de S. Bernardino. O padre Braz não favoreceu nem contradictou a annullação.Ao cabo, porém, de tres annos, Antonia e Sebastiana receberam as bençãos nupciaes em Roma.Detiveram-se em Roma até 1750. Em 1751 já estavam em Portugal. Não procuraram o pae, porque lhes era odioso o homem, que as atirara com sua mãe e irmãs, vivas, novas e formosas, ao sepulchro de um convento, e lhes dera como flagellos a convivencia de freiras que enfeitavam a sua estupidez com as lantejoulas da hypocrisia, ou da refinadissima protervia de intolerantes. Odiavam por isso o pae, e o lucto, que vestiram por elle, não tinha nodoa de uma lagrima.Morreram velhas, ignorando que motivo lançara um véo negro sobre o rosto de sua mãe, á hora em que o padre maldito lhe fallára.Fr. Pedro de Abreu, o frade dominicano, chegou aser qualificador do santo officio; mas, como quer que o marquez de Pombal apagasse a ultima lavareda do santo officio com o corpo de Gabriel Malagrida, fr. Pedro acabou sem assistir a um auto de fé espectaculoso, como tinham sido os da triumphal egreja, quando os relaxados perfumavam a atmosphera com os aromas dos ossos torrados.FIMNOTASI(Pag. 23)Sobre os nomes referidos dos justiçados pela inquisiçãoManuel Fernandes Villa Real, que defendeu contra os Filippes os direitos de D. João IV á corôa de Portugal, e o fez com tamanho engenho, que insinua a legalidade da sua argumentação no livro intituladoAnti-Caramuel, veio de Paris a Lisboa, foi logo preso, e em dezembro de 1652 mandado á fogueira com a seguinte sentença, que é um testemunho da magnanimidade com que D. João de Bragança pagava aos defensores da sua legitimidade, perante os estados que o sustentavam no throno ganhado de assalto:«Accordão os inquisidores, ordinario e deputados da santa inquisição que, vistos estes autos, libello e prova da justiça, author, confissões e defesa de Manuel Fernandesde Villa Real, x n. (christão novo) natural d'esta cidade de Lisboa, morador no reino de França e residente n'esta dita cidade, réo preso que presente está, porque se mostra que sendo christão baptisado, obrigado a ter e crer tudo o que tem, crê e ensina a santa madre egreja, e não ser fautor de heresias, e respeitar e venerar o tribunal do santo officio, e não detrair de seu justo, recto e livre procedimento, elle o fez pelo contrario, jactando-se, depois do ultimo perdão geral, de ser israelita e descendente de prophetas, e tratando com judeus publicos muito familiarmente, e por cartas com um archisinagogo dos judeus de certa parte, tendo e lendo muitos livros prohibidos, e principalmente um de ceremonias e ritos judaicos, o qual deu a certa pessoa, fazendo jejuns judaicos, estando sem comer nem beber em certos dias senão á noite depois de saida a estrella, e fazendo um livro que imprimiu33tratando n'elle varios assumptos; um dos quaes era favorecer os que commettem erros contra a fé, persuadindo ser bom meio para estabelecer a fé nos reinos e cidades controversias publicas, approvando por este modo em uma parte os erros publicos, e em outras os occultos, dizendo que osprincipes não podem impedir os que sem escandalo e máo exemplo vivem em suas seitas, e persuadindo outros que dissimulem os desacatos feitos á religião, reprovando que algum principe altere com rigores, querendo o réo que ainda que falsa se conserve, e mostrando ser da opinião que haja liberdade geral de consciencia, pretendendo sempre que o politico de uma republica se conserve, vivendo cada um na religião que mais quizer, e tendo por escandaloso não admittir aos officios publicos os de contraria religião; e querendo que em nenhum caso possa haver causa para que um principe catholico favoreça os subditos catholicos contra seu rei hereje, nem que haja reparo em soccorrer herejes contra catholicos, e querendo outrosim que a palavra da...34aos de contraria religião se observe ainda que seja contra os bons costumes, admittindo que Deus concede aos herejes victorias pela caridade e piedade que exercitam, como se n'elles houvera caridade ou piedade, ou virtude alguma, comparando nas insolencias os catholicos na modestia, admittindo que os de contraria religião, quando se reduzem á catholica, se podem enganar em cuidar que até então iam errados, approvando a condemnação, e censura que em certa parte se deu a certo livro que tratava do poder do summo pontifice, sendo a dita censura errada, em que tira totalmente ao papa um poder em direito aos principescirca tempo,raliaainda quando o principe seja heretico e scismatico e que nunca o summo pontifice possa sujeitar o principe a interdicto ecclesiastico, nem absolver os vassallosdo juramento de fidelidade; e que os principes temporaes totalmente são independentes, mostrando pouca affeição á egreja romana, fazendo distincção d'ella á galicana, e preferindo a liberdade d'esta particular á authoridade d'aquella catholica e universal; e sendo outro assumpto do dito livro reprovar o justo, recto e livre procedimento do santo officio, e os castigos e confissões dos culpados pelo crime de heresia, chamando-lhe tyrannico e barbaro, e qualificando estes procedimentos por effeitos do odio, avareza e paixão, dizendo que de cumplices faziam prophetas, e de delictos enigmas, e que por um erro de entendimento se castigava a fazenda, não só a propria, mas a alheia de mulher e filhos, e que fôra melhor não querer dar luz a uma alma cega com processo ás escuras; e que emquanto o odio e ambição acompanhassem os ministros, nem os subditos viveriam seguros, nem as monarchias gosariam felicidade. E sendo estranhadas ao réo as ditas proposições antes de imprimir o dito livro, comtudo as não quiz emendar, antes ajudou a certa pessoa em outro livro que tambem imprimiu contra os procedimentos do santo officio, procurando introduzir pratica entre pessoas grandes, para que se tratasse de haver alteração e mudança nos estylos do santo officio.«Pelas quaes culpas sendo o réo preso nos carceres do santo officio e com caridade admoestado as quizesse confessar, por ser o que lhe convinha para descargo de sua consciencia, salvação de sua alma, e seu bom despacho, disse e confessou que do ultimo perdão geral a esta parte, persuadido com o ensino e falsa doutrina de certas pessoas da sua nação, se apartára da nossa santa fé catholica, e passára á crença da lei de Moysés, tendo-aainda por boa e esperando salvar-se n'ella, e não na fé de Christo Senhor nosso, em o qual não cria nem o tinha por verdadeiro Deus e Messias, antes esperava ainda por elle, por ouvir dizer que ainda havia de vir, e só cria em Deus do céo, que fez o céo e a terra, e a elle se encommendava com algumas orações judaicas, que recitava por um livro e por observancia da dita lei guardava os sabbados de trabalho, e a paschoa do mez de março, comendo por espaço de oito dias pão asmo e seladas, e fazia varios jejuns judaicos, como era o dia grande, estando n'elles sem comer nem beber senão á noite, em que comia gallinha, com tanto que fosse degolada ao modo judaico por mão de pessoa circumcidada, compondo-se no mesmo dia com os melhores vestidos e peças novas, ainda que para isso fosse necessario buscal-as e fazel-as; e outro jejum que caía em certo mez, estando por espaço de tres semanas sem começar negocio algum, posto que continuava os principiados, estando n'ellas dois dias sem comer nem beber senão á noite, como dito é; e usando de particulares vocabulos e palavras para se entender com outras pessoas quando fazia ou havia de fazer os ditos jejuns, sem que fossem entendidos ordinariamente, por o sentido comum das ditas palavras ser mui differente, communicando estas coisas com pessoas da sua nação apartadas da fé, com as quaes se declarava por judeu, perseverando na dita crença até certo tempo, que declarou.«E que por andar apartado da fé, no dito livro que compuzera, detrahira em alguns logares no procedimento do santo officio, e se accommodara com algumas opiniões politicas com que o via usar e praticar em certo reino; e que tambem usava de livros prohibidos, e quede tudo estava muito arrependido e pedia perdão e misericordia. E por o réo não satisfazer á informação da justiça nem declarar todas as ceremonias e jejuns que havia feito por guarda da dita lei, sendo para o fazer por vezes admoestado, na fórma do estylo do santo officio, o promotor fiscal do santo officio veio com libello criminal e accusatorio contra elle, que lhe foi recebido, e o réo o contestou pela materia de suas culpas e confissões, e não quiz usar de contrariedade. E sendo lançado da com que podera vir, e sendo ratificadas as testemunhas da justiça na fórma de direito, se lhe fez publicação de seus ditos, conforme o estylo do santo officio. E veio com contraditas, que lhe foram recebidas e não provou coisa relevante; e guardados os termos de direito, e feitas as diligencias necessarias, seu feito se processou até final conclusão, sendo o réo por muitas vezes advertido de suas diminuições e admoestado com muita caridade da parte de Christo nosso Salvador as quizesse declarar, para se poder usar com elle de misericordia, que a santa madre egreja manda conceder aos bons e verdadeiros confitentes sem o réo o querer fazer. E visto seu processo, na mesa do santo officio se assentou que pela prova da justiça e por sua confissão estava convencido no crime de heresia e que a dita sua confissão não estava em termos de ser recebida, e por hereje e apostata da santa fé catholica, feito falso, simulado, confitente diminuto e impenitente foi julgado e pronunciado.«E para o réo cuidar em suas culpas e diminuições, e as poder confessar arrependendo-se d'ellas, lhe foi dada noticia do dito assento, e foi de novo admoestado para descargo de sua consciencia, salvação de sua alma, eser tratado com misericordia, quizesse dizer toda a verdade. Vendo o réo que estava convencido por diminuto em suas confissões, pediu audiencia, e as continuou, dizendo que depois de fazer as primeiras confissões, ficára continuando até áquella hora na crença da lei de Moysés, e que por sua guarda fizera algumas cerimonias judaicas, e para que Deus lhe perdoasse seus peccados na observancia da dita lei, fazia tambem algumas penitencias, como eram não dormir em cama senão em noite de sabbado; resar algumas orações e psalmos semGloria Patri, e repetir muitas vezes a confissão geral, e communicava estas coisas com certa pessoa da sua nação, com a qual se declarava por judeu e animava para continuar na dita crença: e que de tudo pedia perdão e misericordia. E sendo visto outra vez seu proccesso em mesa, se determinou que o assento que n'elle se havia tomado não estava alterado, porque não declarava o réo todas as culpas que havia commettido segundo a informação da justiça, não se presumindo, conforme a direito, esquecimento. Alem de que não dava signaes de verdadeiro arrependimento antes os contrarios, dizendo que confessava o que fizera exteriormente, e que o que ficava em seu coração não era necessario dizel-o; pelo que foi notificado para ir ao auto da fé ouvir sua sentença, pela qual estava relaxado á justiça secular. E sendo trazido ao auto da fé, pediu n'elle audiencia, e n'ella disse que a pedira para requerer ao santo officio, com intimo e verdadeiro arrependimento de suas culpas, se usasse com elle de misericordia; que a verdade era que elle permanecera até áquella hora em seus erros, dos quaes se apartava por meio das admoestações dos religiosos que lhe assistiam, e por ver a commiseraçãoque seu estado causava a todo este povo e pessoas que o conheceram; e que por guarda da lei de Moysés em que até então crêra, fizera muitos mais jejuns judaicos dos que tinha declarado e muitas outras cerimonias; e que de tal maneira estava na observancia d'ella depois da sua prisão que determinara morrer por sua guarda, com tal excesso que depois de lhe ser dada noticia do assento que se tinha tomado em sua causa, se tinha disposto para a morte, com aquellas cerimonias que sabia, lavando-se e vestindo camisa nova, que tinha feito para este fim, e jejuando ainda como judeu35. E sendo vista esta sua confissão na mesa do santo officio, se assentou que não estava em termos de ser recebida, e que era feita mais afim de escapar da morte, que pelo réo estar verdadeiramente arrependido de seus erros, como claramente se mostra do termo de que tinha usado nas mais confissões que fizera no discurso de sua causa: O que tudo visto e bem examinado, e como o réo sendo por tantas vezes admoestado nunca deu mostras de se tornar do coração á fé de Christo Nosso Senhor de que se apartou; de que claramente se colhe que persevera ainda agora em seus erros e na damnada crença da lei de Moysés.Christi Jesus nomine invocato, declaram ao réo Manuel Fernandes Villa Real por convicto e confesso no crime de heresia e apostasia, e que foi, e ao presente é, hereje apostata da nossa santa fé, e que incorreu em sentença de excommunhão maior e em confiscação de todos os seus bens para o fisco e camara real, e nasmais penas em direito contra os similhantes estabelecidas; e que como hereje apostata, convicto, confesso, ficto, falso e impenitente o condemnam e relaxam á justiça secular, a quem pedem com muita instancia se haja com elle benigna e piedosamente, e não proceda a pena de morte nem effusão de sangue.—Luiz Alves da Rocha.—Pedro de Castilho.—Belchior Dias Preto.É escusado dizer que a justiça secular, comprehendendo ao justo abenignidade e piedaderecommendadas pelo santo officio, condemnou o réo a garrote e fogueira para que das cinzas do strenuo defensor de D. João de Bragança não ficasse memoria, como se assim podessem diante da posteridade passar a esponja por sobre uma das mais esqualidas manchas do reinado d'aquelle soberano.O bacharel Miguel Henriques da Fonseca, advogado em Lisboa, foi queimado vivo em 10 de maio de 1682. Infere-se da leitura da sua sentença que este infeliz dez vezes foi posto a tormento, e com todas ellas foi aggravando a sua desgraça, revelando peccados novos, que o apertar das cordas e o queimar lento do fogo lhe ia arrancando. Afinal, já calejado e invulneravel ás torturas, manifestou-se profitente da lei de Moysés, affrontou no rosto os algozes, e subiu á fogueira com grande animo e anciedade do martyrio.Por occasião do supplicio do doutor Antonio Homem, lente da universidade em 5 de maio de 1624,um engenhosopoeta contemporaneo publicou, e fez correr, comgrande applauso publico, o seguinte soneto emécosou dereflexo:
Francisco Luiz planeou mover o filho de Antonio de Sá Mourão a saír de Aveiro, sob pretexto de fazer entrar na carreira das lettras ou das armas os dois moços, já habilitados para as começarem.
O padre passou a consultar os filhos sobre a escolha de seu futuro. Tinham-se os meninos habituado a pensar no destino para que o pae os encaminhára, desde que os entregou aos frades de Santo Antonio. N'aquelles dias, as carreiras abertas aos espiritos mais arremessados em esperanças e cobiça de nomeada gloriosa, eram a milicia, já então decadente, e a companhia de Jesus, ou a ordem de S. Domingos, as duas mais poderosas e florentes hostes evangelicas n'estes reinos, e as mais conjuradas em realisar o absolutismo theocratico.
Os filhos de Braz não entendiam nada d'estes intentos; mas entreviam a grandiosa estatura do jesuita edo dominicano, em cujas frontes se estavam sempre cerzindo as mytras, e no interior d'essas frontes se elaborava o pensamento dos reis, a palavra directora dos governos, o enlace mystico do céo com a absoluta soberania da terra.
Portanto, os dois netos do hebreu da Guarda, respondendo á consulta de seu pae, disseram que entrariam em conventos. Agostinho escolheu a companhia de Jesus, e Pedro a ordem de S. Domingos.
Francisco Luiz encarou n'elles com desprezo: não podia ser de piedade, nem de odio aquelle sorriso que entre-abriu os beiços do velho judeu de Ourem.
Passados momentos, murmurou, sorrindo ainda:
—Este Pedro já não virá a tempo de me queimar... nem eu lhe deixo filhos ou netos, cujos ossos lhe sirvam de degráos para escalar a bem-aventurança dos carnifices... Se o avô d'este menino se lembraria de que um seu neto seria frade dominicano!...
E, voltado ao padre Braz, continuou com mal fingida serenidade:
—Conjecturava eu, senhor Braz Luiz, que um homem de sua indole e saber, vestido com as insignias de uma religião qualquer, e mormente da christã, se empenharia em lavar-lhe com lagrimas as nodoas de sangue, e no amaciar-lhe as cruezas que ella trouxe das tradições pagãs. O homem de grande entendimento e muitas luzes devia ser lustre e honra de qualquer religião que elle assentasse de converter em policiamento e bem-fazer da humanidade. Não lhe perguntei ainda, meu amigo, se applaudia o proceder da christandade portugueza contra os paes de Antonio de Sá, contra Maria Cabral, contra Heitor Dias da Paz. Pergunto-lh'oagora, na occasião em que vossemecê manda um filho alistar-se nos aprendizes do santo officio, e estudar as physionomias das antigas rezes do açougue dominicano penduradas na galilé da egreja de S. Domingos. Bem póde ser que lá veja retratos de seus avós.
—Basta! que me está mortificando, senhor!—atalhou o padre.—Sou um desgraçado, á volta de quem se assanham todas as tentações! Quem vem contender em pontos de religião com um homem tão quebrado de espiritos? Oh! deixem-me como a um leproso, abandonado de Deus e dos homens...
—Abandonado de Deus! como assim?—accudiu o israelita.—Pois as tres divindades christãs, o Padre, o Filho e o Espirito Santo assim abandonam quem tanto lhes sacrifica! Onde está a compensação das suas afflicções, meu amigo? Que bem aventuranças infinitas são bastantes a galardoar uma só das suas torturadas noites? Por minha fé! Consterna ver o desamparo em que o Moloch d'estas voluntarias hostias deixa affogar-se em lagrimas e derreter-se ao fogo da desesperação um homem que tinha direito a receber consolações analogas á devoção com que se deixa esmagar na carne e no espirito!... Ah! eu cuidei que, na minha retirada de Portugal, o deixaria enlevado na beatifica visão e antegosto da eterna e perennal mão direita do Deus-Padre! E a minha consciencia sabe que eu muitas vezes pensei em me converter ao christianismo, se Braz Luiz de Abreu estivesse, a esta hora, conformado e alegre sobre o peso da sua cruz!...
—É que eu sou lodo... atalhou o padre.
—É que eu não vi ainda bem remunerada a renunciação dos direitos do homem, em hecatomba de umaequidade convencional, chamada a justiça das religiões. São todas muito artificiaes para que alguma d'ellas possa ser verdadeira. As menos sobre-humanas são as mais equitativas; e estas mesmas estão manchadas pela miseria do homem, que não comprehende a virtude aconselhada pela razão; carece de a ouvir trovejada no Sinay, legislada pelo alfange mahometano, ou introduzida no cerebro das nações selvagens com o gume da espada dos Cabraes e dos Pizarros. Pois está Deus n'estas carniçarias? O creador das florestas e dos mares, do oução e do elefante, se quizesse revelar-se mais sensivelmente ao homem, careceria de morrer n'uma cruz ignominiosa, ou permittiria que aos pobres cegos, que o não sabem ver, lhes queimassem os olhos nas lavaredas do santo officio?!
—Jesus, soccorrei-me! exclamou o padre, tapando com as mãos a fronte, em que as palavras d'aquelle homem coavam luz de infernal claridade.
Depois murmurou palavras inaudiveis que deviam ser orações efficazes contra a tentação da heresia, da philosophia, da razão indocil, do demonio, que é tudo um.
O hebreu era pertinaz, porque o estimulo, a razão nua, sem minima compostura de fé, lhe espicaçava a consciencia. O homem vinha dos focos da heresia. Comprehendêra a loucura do hebraismo e a loucura dos heresiarcas. Reformara-se na philosophia de Spinosa, e facilmente derivara do pantheismo á completa abstinencia de deuses, coisas desnecessarias para explicar a ordem do universo, e inintelligiveis para as fazer presidir á creação. A causa das causas parecia-lhe sempre effeito dos effeitos. O atheismo, se o não consolava, tambem lhe não mettia em trabalhos as molas da imaginação.
As expansivas demonstrações de sua incredulidade eram todavia inefficazes para apagarem a luz do calvario no coração do padre. O dique do terror de Deus represava as torrentes de sabedoria rebelde com que o hebreu pretendia levar de rojo o amigo, cuja victoria estaria indecisa; se o christão convicto aceitasse o cartel. Não. Braz Luiz vencia com o silencio. O argumento triumphal é o calar-se aquelle, cujo coração bafejou o Senhor.
Não obstante, as asperezas da vida, os jejuns, as penitencias, as orações mentaes e exercicios fatigantes de piedade foram diminuindo de dia para dia. No fim de tres mezes, o padre fallava ainda tres horas á milagrosa imagem de S. Francisco, e conversava seis horas com Francisco Luiz de Abreu.
Estava, pois, reduzido á piedade rasoavel. Não mortificava a carne para manter o espirito na energia que se lhe requer em meditação das coisas divinas. Tinha horas regulares de oração, de alimento, de visitar os seus enfermos, e de procurar no locutorio de S. Bernardino as quatro freiras.
Foi para Lisboa com o hebreu e com os filhos. Renovou a consulta sobre o destino d'elles. Permaneciam constantes na sua resolução. Um entrou no noviciado da ordem dominicana em Bemfica; e outro no collegio de Santo Antão.
O padre Braz foi beijar a mão de el-rei, que se compungiu da extemporanea velhice do celebre Olho de Vidro. Ouviu-lhe a historia pathetica da morte de soror Josepha e da filha, saudosa de sua mãe, e o definhar-se das quatro meninas para quem a vida claustral fôra sempre incessante martyrio e desesperação de que a misericordiadivina talvez pedisse contas a elle pae. Observou-lhe D. João V que levasse para sua companhia as quatro meninas.
—São freiras, são professas, real senhor!... murmurou o padre.
El-rei mandou-o voltar no dia seguinte, e ordenou que lhe entregassem provisão regia e breve do nuncio para que as quatro freiras de S. Bernardino vivessem por tempo illimitado na companhia de seu pae.
Voltou o padre a Aveiro, e Francisco Luiz de Abreu acompanhou-o.
N'este homem andava encavalgado o Lucifer da mais desenfreada philosophia que viu aquelle seculo. O pensamento que o esporeava era generoso; mas no inferno iria um dia de festa se elle vingasse a idéa execravel. Venceram os anjos custodios, que faziam guarda ao espirito do padre e das quatro filhas, promettidas esposas de quatro serafins que as esperavam, posto que nem todas correspondessem ao convite amoroso dos serafins.
Queria Francisco Luiz de Abreu restituir a felicidade áquellas meninas, a felicidade terreal, mentira em que o hebreu ainda acreditava. Preparava o animo do filho de Antonio de Sá, inoculando-lhe a peçonha da duvida no dogma, e pelo conseguinte na moral. Discutia os chamados sacramentos da egreja. Dizia que o sacerdocio era a mais convencional e estupida das instituições humanas, com grave ultrage de Deus, chamado a sanccional-a, se Deus por acaso podesse existir e ser ultrajado por affrontas do homem, chamado irrisoriamente o rei da creação, á mingua de besta-fera que se proclame com eguaes direitos á mesma realeza. Dizia que esta bestial instituição cedia a primasia a outra, que era ada profissão da mulher; e que de estupida passava a ferocissima quando a professa era violentada a jurar a perdição das suas alegrias de mocidade, e das suas esperanças de familia nas tristezas da velhice.
Amartelladas por largo tempo estas e similhantes idéas sobremodo impias, o hebreu puzera a pontaria em tirar de Portugal o padre e as freiras, leval-os onde rasgassem os habitos, e se vissem de repente restituidos á simpleza de creaturas formadas á imagem e similhança do Creador, o qual, a ter existido, formára certamente homens e não padres, mulheres e não freiras: gente, no dizer de Moysés, apta e escorreita para formar individuos, aldeias, cidades, reinos, mundos.
Ouviu o padre as theses do seu amigo, defendidas por longo tempo com erudição digna de melhor serventia. Prodigioso poder da fé, quanto eu te admiro e venero! O padre resistiu nervosamente á seducção, e por pouco, no calor da refesta, não apresentou uma idéa que destruisse os preconceitos do judeu luciferino. Prodigioso poder da fé! exclamava tambem Francisco Luiz, quando, inventariando os argumentos do seu amigo, não topava um que merecesse redarguição grave. E perguntava elle a si mesmo como era que aquelle homem tão embotado em agudezas de dialectica pudera escrever as «Aguias que voavam sobre a lua, e o sol nascido no occidente e posto ao nascer do sol!»
Desistiu: mas já lhe foi grandissimo contentamento ver á beira de seu pae as quatro meninas, quatro exhumadas da lobrega crypta do convento, onde deixaram sem lagrimas as grammas que rastejavam na claustra sobre a campa de sua mãe.
Dizia elle, todavia, ao pae:
—Crê que as caras marmóreas d'estas meninas tornem a reflorir?
—Espero que sim.
—Nunca mais. Estão mortas. Se as quer vivas, rasgue-lhes a mortalha, Braz Luiz!—exclamou elle abraçando-as todas contra o seio.—Dê-me estas meninas, deixe-me salval-as, deixe-me fugir com ellas para o ar abençoado da liberdade! Eu prometto aviventar-lhes o coração, e depois estão salvas. Dê-m'as que eu ainda, sou bastante rico para deixal-as ricas. E, se eu fosse pobre, dar-lhe-ia a cada uma um amor para o coração resuscitado, um esteio para a alma, um companheiro para toda a vida!
O padre ergueu-se de repellão, travou das filhas, arrancando-as aos braços do hebreu, e exclamou:
—Que maldição traz comsigo este homem!... Quer perder-me as minhas filhas!... Ha infernal predestinação na sua mensagem ao seio da minha familia, homem da horrivel fatalidade!
Em uma aldeia, chamada Verdimilho, a uma legua d'Aveiro, vivia em 1738 um ancião, reputado justo porque á volta da sua casa, colmada e desguarnecida da mais trivial mediania, se ajuntavam os pobres da freguezia, em dias determinados, e recebiam esmolas que lhes bastavam á alimentação parca da semana. Chamavam ao incognito o «velho da ermida» porque, ao lado da choupana d'elle, estava uma capella. Os pobres, favorecidos d'este homem, paravam ao cair da tarde nas visinhanças da ermida, para o verem sentado no tezo de um oiteirinho, com os olhos enlevados no transmontar do sol; e, se o viam passar a mão por elles como quem enchuga lagrimas, diziam entre si:
«Um homem que dá tanto aos pobres, e chora!...»
Em 1739 saiu elle caminho d'Aveiro, pela primeira vez. Os pobres seguiram-n'o, e disseram-lhe:
—Não voltaes mais aqui, nosso bemfeitor?
—Voltarei, filhos. Á noite serei comvosco.
E caminhava a pé, abordoado n'um cajado que lhe dera um dos seus pobres.
Chegado a Aveiro, entrou na egreja de S. Bernardino, acantoou-se no mais escuro d'ella, e assistiu aos responsorios da segunda filha de Braz Luiz de Abreu, a qual estava sobre a eça.
Saiu, parou á porta do pae da defunta, subiu, entrou á saleta em que elle recebia os pesames, apertou-o nos braços e disse-lhe:
—Dá-me a vida das tres filhas que te restam, e vem tu com ellas.
O padre derramou copiosas lagrimas, e não respondeu.
Voltou Francisco Luiz á sua cabana da ermida, e os pobres, ao outro dia, confluiram das suas aldeias a dar-lhe as boas vindas.
Em 1740 fez o hebreu a mesma caminhada, entrou na mesma egreja onde se resavam responsos, na mesma saleta onde chorava um velho, e disse-lhe:
—Dá-me a vida das duas filhas que te restam, e vem tu com ellas. Rasga-lhe as mortalhas, antes que o coveiro as esconda, e o sino dobre por ellas.
O padre chorou muito, inclinado ao peito do velho, e não respondeu.
Voltou o caminheiro á sua cabana, e os pobres olharam-n'o com muita amargura, porque a sombra d'elle era como de arejo vindo da região dos sepulchros.
Uma tarde, não longe d'aquelle dia em que se finára a quarta professa de S. Bernardino, appareceu em Verdimilhoo padre Braz Luiz, atirou-se esbofado aos braços do hebreu, e disse-lhe:
—Dê-me as minhas filhas!
—Pede-m'as a mim?! É a Deus que as deve pedir... ao seu Deus, que resuscitou muitas...
—Não peço as mortas; quero as vivas.
—Que sei eu das vivas? Esperava que morresse uma para lhe ir pedir a ultima.
—Pois minhas filhas não estão aqui? exclamou Braz Luiz de Abreu.
—Aqui?! não vê que toda a minha casa é esta cabana?
—Meu Deus! bradou o padre.
—Que é de suas filhas? acudiu o hebreu.
—Fugiram! perderam-se!...
—Salvar-se-iam? Encaminhal-as-ia qualquer providencia que eu desconheço?...
—Roubaram-m'as!
E o padre, guardando silencio por alguns minutos, continuou com intermittentes de gemidos e ancias offegantes:
—Perdi-as... e perderam-se!... Pois que nome tem isto senão é prostituição?... A justiça lançará mão d'ellas... e d'elles...
—D'elles quem?—atalhou o israelita.
—De relance os vi: eram militares, vinham de Coimbra a Aveiro, hospedavam-se nas mais nobres casas, e minhas filhas sabiam da existencia d'estes homens...
—E rasgaram as mortalhas—ajuntou o velho de Verdimilho—Pois deixal-as ir. A natureza as defenda, se os aguasis da religião as perseguirem. Deixal-as ir em paz. Falleceram-lhes forças para a continuação domartyrio. Muitas das viuvas do Indostão já hoje se não queimam. É necessario que os preconceitos sejam derrotados uma vez por outra, a ver se alguma hora surge ahi d'este atascadeiro melhor geração, que traga ao mundo a idéa de Deus com bondade. Coitadinhas! Possam ellas chegar onde lhes digam: «Vivei, gosae sem remorsos. O que vos lá ensinaram a dizer na profissão caducou debaixo de outro céo. Pedi, meninas, o coração ás estrellas da noite, ao sol do dia, ás campinas que reflorecem, ás aves que senhoream os ares e pousam a cantar nas mais formosas frondes das arvores. Perguntae ás bellezas e jubilos da natureza, se quem os fez lhes pautou intercadencias de amargura. Vivei, candidas pombas, aquecei-vos ao calor que desentranha o gomo da arvore congelada, e aquece no seio da virgem o sangue palpitante que lhe purpureja as faces. Ide, e escondei-vos no reconcavo das penedias, como as gazellas se escondem do pelouro do carniceiro.» E tu choras?—disse elle com vehemencia, repuchando para si o corpo inerte de Braz Luiz—hei de fallar-te assim com este ar de pae, porque estou a ver-te, creancinha, que, ha quarenta e oito annos, eu tirava dos braços da ama para sentir o goso de te embalar e ver adormecido nos meus. Chora por ti que és muitissimo desgraçado: por ellas não, que eu duvido que haja ahi maior horror que o morrer das outras. Porque não iria eu com tuas filhas á fonte da saude, do bem do corpo e da alma? Porque m'as não déste? Davas dois anjos a este homem de setenta annos, que não tem ninguem que lhe feche os olhos. E, depois, extincta esta luzinha que vasqueja, as tuas filhas aprenderiam nas memorias da minha vida a viverem virtuosas sem religião revelada, asoccorrerem indigentes sem lerem os preceitos da caridade de Confucio ou de Jesus. Mas se m'as não déste, nem por isso descreias da felicidade d'ellas. O amor tem céos e resplendores, que banham de luz as mais tristes almas. O crime d'ellas é coisa tão mal feita á superficie da razão degenerada, que lhes não ha de durar mais na consciencia do que a sentença d'ellas escripta sobre areia. Verdadeiros crimes, diante do juiz incorruptivel, são aquelles de que o senso interior nos condemna.
Prolongou-se a pratica do hebreu. O padre não o ouvia. O que elle parecia escutar era um cavo e muito intimo desfibrar-se-lhe o coração, este envelhecer e morrer que o homem está sentindo a branquear-lhe os cabellos e a ressumar-lhe á face camarinhas de suor de agonia.
Depois despediu-se, e murmurou:
—E adeus! que está consummado tudo!
—Ainda não: viverás mais annos, porque se não é desgraçado como tu és senão em toda a plenitude. Eu é que vou sair d'aqui. É noite fechada. Já não tenho n'este mundo sol que me derreta os gelos de setenta annos.
Vinte dias depois, correu nas aldeias circumpostas a Verdimilho, que o velho da ermida estava enfermo.
Abalaram os pobres dos seus cardenhos, e entraram quantos cabiam na cabana do ancião. Os ricos tambem foram com os seus capellães, com os seus padres adscriptos á gleba das missas derequiem, com que mercavam barato o paraiso aos seus ascendentes.
O ancião viu uns e outros. Ergueu a cabeça e disse:
—Que entrem sómente os pobres. O espectaculo de um moribundo não convida.
Os pobres, pois, ajoelharam em duas alas, defronte da parede a que se encostava uma barra de bancos, e cada um dizia em silencio as suas orações.
A porta da cabana estava de par em par aberta. O sol da tarde doirava a poeira do interior. A fita luminosa, que ia inclinada em scintillas alumiar a fronte doenfermo, vinha com direcção obliqua e coada por uma abertura do colmo. Os pobres viam n'aquelle raio de pó lucido coisa mysteriosa de bonissimo agouro para a alma do doente.
Appareceu então no limiar da porta um sacerdote, que a gente d'aquellas aldeias venerava como medico do corpo e do espirito. Era o padre Braz Luiz de Abreu.
E como elle entrasse, o povo, que enchia a casinha, saíu, cuidando que o velho da ermida ia confessar-se.
A só com o sacerdote, disse o hebreu com penosa pronuncia:
—Agora é que são as despedidas, amigo. Vieste a tempo, Braz, filho adoptivo de minha mulher, que ha vinte annos me espera. Debaixo do meu travesseiro está um papel escripto de meu pulso; na arca em que te sentas, está o que eu tenho de meu. Cumprirás as minhas disposições...
—E a sua alma?...—atalhou o padre.—É tempo ainda. Salve-se, homem de bem! salve-se...
—Se sou homem de bem, estou salvo—murmurou o judeu.
—Receba com fé os sacramentos da Santa Madre Egreja.
—Ceremonias pagãs... A vida do espirito vae começar. Receba a natureza em seu seio a porção immaterial do meu ser. Descance em perpetua paz este motor interno, que recebia as lançadas da adversidade, a influencia do mal, que os homens geraram. Acabo sem remorsos, sem odios e sem esperanças. Acabo, é o que eu sei deveras. Vou desenganar-me, se errei. Agora, filho, deixa entrar a minha familia. São esses pobrinhosque saíram. Abre-lhes as portas: quero vel-os até á ultima.
Braz abriu a porta, os pobres entraram e o padre ficou entre elles.
O vigario perguntou ao medico e supposto confessor se era tempo de virem os santos oleos.
—Mais tarde, disse Braz Luiz, esperando que o moribundo caído na apathia da extrema hora, insensivelmente recebesse as uncções e assim enganasse a devoção d'aquelle povo. Piedosa impostura, santa fraude, que levava em vista salvar os creditos do padre visitante, e abonar as virtudes do homem que os pobres começavam a beatificar.
Por volta das onze horas, cresceram os trabalhos dos paroxismos. Á meia noite, descaíu o moribundo em lethargia. A respiração era quasi imperceptivel. Saíu o sacerdote a pedir a extrema-uncção, sem impedimento de saber que a boa e sã theologia não dava já nada por aquella alma, embora o agonisante fosse sacramentado.
Quando o vigario, espertado do primeiro somno, chegou, estremunhado e carrancudo, com a ambula á porta da cabana, o padre Braz ajoelhara á cabeceira do moribundo, em adoração ao Santissimo Sacramento. Sondou o pulso do velho da ermida, e disse:
—Expirou agora.
Os pobres cessaram de cantar oBemdito, e levantaram um grande choro, entrando todos a beijar a mão do cadaver.
Se este acabamento de homem, transviado da religião verdadeira e das falsas, não fosse referido em romance, poderia alguem suppor que póde uma pessoa morrercomo justo, sem ser absolutamente religioso. Bom é que mortes assim se não divulguem em livros graves.
As disposições do philosopho são faceis de antever. Os seus herdeiros eram aquelles pobres que choravam, e outros que pediam enxerga e remedios na santa casa da misericordia de Aveiro, e tambem os peregrinos que se acolhiam á albergaria convisinha da egreja de S. Braz.
Pois com tantos legados de espirito christianissimo ninguem acreditava que fosse sincero christão um sujeito que entre tantas disposições não applicou missas por sua alma, nem sequer trezentas! O clero estava escandalisado!
Folgavam tamsómente os pobres,—e tanto folgavam que nem já choravam a perda do bemfeitor.
De causas de todo em todo inversas e entre si repugnantes apparecem effeitos similhantissimos.
O despejo, por exemplo, a coisa hedionda que por ahi se chama cynismo, caleja e abroqueia tão rijamente o homem, que todas as setas da desgraça lhe resvalam do peito. Quando cuidamos vel-o soçobrado, eil-o se apruma a desafiar novas tempestades, e de tormenta em tormenta chega á derradeira edade, e acaba de cachexia, porque as cachexias não se curam com a valentia da alma.
Vejamos agora o justo em tribulações, o christão de tempera pacientissima e refractaria ao desanimo que prostra e mata. As calamidades a choverem-lhe, as injustiças dos homens a pôrem-lhe em duvida a justiça divina—por se dizer que o homem tem fórma e similhança de Deus; elle a abster-se, a amputar-se, a desaggregar-sedo bom da vida, e a temperar com fel alguma coisa melhor para offerecer ao céo o amargor d'ella e a reluctação com que a toma, degenerando e estragando tudo que os outros saboream. Eis que umas pessoas queridas lhe morrem; e outras o deixam, quando elle a chorar lhes pedia amparo; fogem lhe e deshonram-n'o; e o christão atira-se aos pés da cruz, queixa-se, mostra as garrochas que o trespassam, os anjos como que baixam a descravar-lh'as; fecham-se as feridas, outras logo se abrem, e elle a exclamar:
«Mais, mais, Senhor!»Amplius, amplius, domine!Este é o christão, o penitente, o stoico setenta vezes santo. Eil-o ahi vae vida fóra, caindo, erguendo-se, pondo peito ao baque da legião que o tenta, esgrimindo a um e outro lado com a cruz, com o hyssope: ora magestoso, ora ridiculo; mas vivendo, vivendo, até aos sessenta, e ávante ainda, n'um viver que se nos figura a mais pavorosa das agonias!
Tal foi Braz Luiz de Abreu.
Quantas vezes o leitor, no decurso d'esta biographia, terá dito: «o homem vae morrer agora!»
Morrer! quando será isso? Ha de ainda viver, depois de tanto veneno que lhe imborcaram, ha de viver dezeseis annos. Dezeseis annos! sósinho! alli em Aveiro, não sei em que rua d'aquellas, em qualquer casa das mais desaconchegadas, a rever na téia da phantasia o rosto da mulher agonisante, das tres filhas mortas, das duas fugitivas, sem que mais aos seus ouvidos soasse o nome d'ellas, nem dos sacrilegos raptores das divinas esposas! E, como elle pôde, em meio d'isto, escrever ainda dois livros, dois grossos manuscriptos, que não sei onde param, um chamadoFeniz Lusa, referindo a vidae acções do serenissimo infante o senhor D. Manuel, filho de D. Pedro II; e outro intitulado:Vida e acções do primeiro principe do Brazil para exemplar do nosso serenissimo principe D. José.32
Querem revelação para maiores assombros?
Em 1755, foi aquelle memorando terramoto de Lisboa. O padre Agostinho de Abreu, da companhia de Jesus, ia de Santo Antão para S. Roque, ao começar o tremor. Passava diante de uma casa que se estava derruindo, ouviu os clamores de dentro, entrou heroicamente para arrancar uma velha debaixo da couçoeira de uma porta, e ficou esmagado debaixo do tecto abatido. Já sabem que este jesuita era filho do padre Braz. Pois, quando a nova d'este desastre chegou ao pae, seis dias depois, o velho de sessenta e quatro annos ajoelhou, orou, levantou-se, limpou as lagrimas que lhe tolhiam a leitura do seu breviario, e leu o psalmoMiserere mei Deus.
Que morte será pois a d'este homem para que se não diga que houve ahi angustia que podesse com elle? Ha de ser a morte designada pelos seus biographos, a morte que o senhor Innocencio Francisco da Silva lhe assigna: «apoplexia fulminante, a tempo que estava sentado, sobre uma cadeira.»
Eram corridos dez dias de agosto de 1756, quando no convento de franciscanos de S. Bernardino se fechou em sepultura rasa o cadaver de Braz Luiz de Abreu. A memoria de suas mysteriosas desgraças será menos duradoura que o renome de medico abalisado que os contemporaneos lhe celebraram.
Que destino tiveram aquellas duas freiras que, no dizer do defunto hebreu, rasgaram as mortalhas?
Saibamos quem eram os raptores. Eram uns cadetes de cavallaria, filhos de um Heitor Teixeira de Macedo, capitão-mór de Coimbra, e fidalgo solarengo de Condeixa-a-Nova, muito aparentado com os Chamorros, Marreiros e Matosos, nobilissimos apellidos de familias aveirenses. Hospedados em casa d'estes Chamorros e Matosos é que os Cadetes puderam ver soror Antonia Maria e soror Sebastiana Ignacia. Fazerem-se amados devia ser coisa de pequeno prologo, já porque as duas virgens não tinham das cousas d'este mundo mais experiencia que os anjos, já porque almejavam ser amadas, já porque os dois cadetes eram bizarros moços, galans palacianos, formosissimos demonios, que faziam tremer as calçadas e os corações das damas de Aveiro com a estrupiada dos seus alasões.
O namorarem-se, convencionarem-se e fugirem foi n'um prompto. A justiça, quando tal soube, quiz gritar; mas os Chamorros, Matosos e Marreiros amordaçaram-n'a. Os rapazes já não tinham pae: tinham mãe, uma santa matrona, que era a imagem das virtudes christãs. Appareceram-lhe os filhos, e ajoelharam pedindo recursos para fugirem de Portugal. A tremula e espavorida senhora escutou a historia do criminoso passo. Não amaldiçoou os filhos. Chorou muito; e os velhacos, nas costas d'ella, faziam esgares de grandes farcistas!
A fidalga perguntou onde estavam as freiras. Soube que as tinham escondidas n'uma quinta distante. Quiz vêl-as, porque sabia a tragedia singular da familia do medico.
Por noite alta, entraram as duas meninas á recamara da viuva do capitão-mór de Coimbra. Foram mui benignamente recebidas. Aquella senhora tinha facilidades incriveis! Receber assim duas libertinas esposas do Espirito Santo!
Receiando que fossem presas, antes de irem onde a virtuosa senhora tencionava mandal-as, não as deixou mais saír da sua recamara.
O capellão saíu para Lisboa; e, oito dias depois, estava de volta com muitas cartas para cardeaes e ministros residentes em Roma.
—Podeis ámanhã partir, filhos—lhes disse ella.—Ide a Roma com estas cartas, entregae-as, e tornae com um bom despacho. De volta, podereis ser esposos d'estas meninas, que ficam no quarto de vossa mãe até que volteis.
Os moços olharam-se entre si, e ficaram como aparvados.Olharam para as freirinhas, e viram-n'as a chorar, fingindo que sorriam.
Não havia que replicar. Partiram para Roma.
Estavam em Lisboa ainda, negociando ordens de dinheiro sobre banqueiros romanos, quando foram chamados á pressa por ordem da mãe.
A fidalga adoecêra com todos os symptomas de proxima morte.
—Chamei-vos, disse ella, para que me assistaes ao enterro. Depois, ireis. Agora, jurae sobre estas Horas que cumprireis a minha vontade quanto a estas meninas. Depois de me haverdes sepultado, ireis para Roma, e, obtida a annullação dos votos d'ellas, casareis.
Juraram e cumpriram. A annullação dos votos foi prolongada com inqueritos de testemunhas no convento de S. Bernardino. O padre Braz não favoreceu nem contradictou a annullação.
Ao cabo, porém, de tres annos, Antonia e Sebastiana receberam as bençãos nupciaes em Roma.
Detiveram-se em Roma até 1750. Em 1751 já estavam em Portugal. Não procuraram o pae, porque lhes era odioso o homem, que as atirara com sua mãe e irmãs, vivas, novas e formosas, ao sepulchro de um convento, e lhes dera como flagellos a convivencia de freiras que enfeitavam a sua estupidez com as lantejoulas da hypocrisia, ou da refinadissima protervia de intolerantes. Odiavam por isso o pae, e o lucto, que vestiram por elle, não tinha nodoa de uma lagrima.
Morreram velhas, ignorando que motivo lançara um véo negro sobre o rosto de sua mãe, á hora em que o padre maldito lhe fallára.
Fr. Pedro de Abreu, o frade dominicano, chegou aser qualificador do santo officio; mas, como quer que o marquez de Pombal apagasse a ultima lavareda do santo officio com o corpo de Gabriel Malagrida, fr. Pedro acabou sem assistir a um auto de fé espectaculoso, como tinham sido os da triumphal egreja, quando os relaxados perfumavam a atmosphera com os aromas dos ossos torrados.
FIM
Manuel Fernandes Villa Real, que defendeu contra os Filippes os direitos de D. João IV á corôa de Portugal, e o fez com tamanho engenho, que insinua a legalidade da sua argumentação no livro intituladoAnti-Caramuel, veio de Paris a Lisboa, foi logo preso, e em dezembro de 1652 mandado á fogueira com a seguinte sentença, que é um testemunho da magnanimidade com que D. João de Bragança pagava aos defensores da sua legitimidade, perante os estados que o sustentavam no throno ganhado de assalto:
«Accordão os inquisidores, ordinario e deputados da santa inquisição que, vistos estes autos, libello e prova da justiça, author, confissões e defesa de Manuel Fernandesde Villa Real, x n. (christão novo) natural d'esta cidade de Lisboa, morador no reino de França e residente n'esta dita cidade, réo preso que presente está, porque se mostra que sendo christão baptisado, obrigado a ter e crer tudo o que tem, crê e ensina a santa madre egreja, e não ser fautor de heresias, e respeitar e venerar o tribunal do santo officio, e não detrair de seu justo, recto e livre procedimento, elle o fez pelo contrario, jactando-se, depois do ultimo perdão geral, de ser israelita e descendente de prophetas, e tratando com judeus publicos muito familiarmente, e por cartas com um archisinagogo dos judeus de certa parte, tendo e lendo muitos livros prohibidos, e principalmente um de ceremonias e ritos judaicos, o qual deu a certa pessoa, fazendo jejuns judaicos, estando sem comer nem beber em certos dias senão á noite depois de saida a estrella, e fazendo um livro que imprimiu33tratando n'elle varios assumptos; um dos quaes era favorecer os que commettem erros contra a fé, persuadindo ser bom meio para estabelecer a fé nos reinos e cidades controversias publicas, approvando por este modo em uma parte os erros publicos, e em outras os occultos, dizendo que osprincipes não podem impedir os que sem escandalo e máo exemplo vivem em suas seitas, e persuadindo outros que dissimulem os desacatos feitos á religião, reprovando que algum principe altere com rigores, querendo o réo que ainda que falsa se conserve, e mostrando ser da opinião que haja liberdade geral de consciencia, pretendendo sempre que o politico de uma republica se conserve, vivendo cada um na religião que mais quizer, e tendo por escandaloso não admittir aos officios publicos os de contraria religião; e querendo que em nenhum caso possa haver causa para que um principe catholico favoreça os subditos catholicos contra seu rei hereje, nem que haja reparo em soccorrer herejes contra catholicos, e querendo outrosim que a palavra da...34aos de contraria religião se observe ainda que seja contra os bons costumes, admittindo que Deus concede aos herejes victorias pela caridade e piedade que exercitam, como se n'elles houvera caridade ou piedade, ou virtude alguma, comparando nas insolencias os catholicos na modestia, admittindo que os de contraria religião, quando se reduzem á catholica, se podem enganar em cuidar que até então iam errados, approvando a condemnação, e censura que em certa parte se deu a certo livro que tratava do poder do summo pontifice, sendo a dita censura errada, em que tira totalmente ao papa um poder em direito aos principescirca tempo,raliaainda quando o principe seja heretico e scismatico e que nunca o summo pontifice possa sujeitar o principe a interdicto ecclesiastico, nem absolver os vassallosdo juramento de fidelidade; e que os principes temporaes totalmente são independentes, mostrando pouca affeição á egreja romana, fazendo distincção d'ella á galicana, e preferindo a liberdade d'esta particular á authoridade d'aquella catholica e universal; e sendo outro assumpto do dito livro reprovar o justo, recto e livre procedimento do santo officio, e os castigos e confissões dos culpados pelo crime de heresia, chamando-lhe tyrannico e barbaro, e qualificando estes procedimentos por effeitos do odio, avareza e paixão, dizendo que de cumplices faziam prophetas, e de delictos enigmas, e que por um erro de entendimento se castigava a fazenda, não só a propria, mas a alheia de mulher e filhos, e que fôra melhor não querer dar luz a uma alma cega com processo ás escuras; e que emquanto o odio e ambição acompanhassem os ministros, nem os subditos viveriam seguros, nem as monarchias gosariam felicidade. E sendo estranhadas ao réo as ditas proposições antes de imprimir o dito livro, comtudo as não quiz emendar, antes ajudou a certa pessoa em outro livro que tambem imprimiu contra os procedimentos do santo officio, procurando introduzir pratica entre pessoas grandes, para que se tratasse de haver alteração e mudança nos estylos do santo officio.
«Pelas quaes culpas sendo o réo preso nos carceres do santo officio e com caridade admoestado as quizesse confessar, por ser o que lhe convinha para descargo de sua consciencia, salvação de sua alma, e seu bom despacho, disse e confessou que do ultimo perdão geral a esta parte, persuadido com o ensino e falsa doutrina de certas pessoas da sua nação, se apartára da nossa santa fé catholica, e passára á crença da lei de Moysés, tendo-aainda por boa e esperando salvar-se n'ella, e não na fé de Christo Senhor nosso, em o qual não cria nem o tinha por verdadeiro Deus e Messias, antes esperava ainda por elle, por ouvir dizer que ainda havia de vir, e só cria em Deus do céo, que fez o céo e a terra, e a elle se encommendava com algumas orações judaicas, que recitava por um livro e por observancia da dita lei guardava os sabbados de trabalho, e a paschoa do mez de março, comendo por espaço de oito dias pão asmo e seladas, e fazia varios jejuns judaicos, como era o dia grande, estando n'elles sem comer nem beber senão á noite, em que comia gallinha, com tanto que fosse degolada ao modo judaico por mão de pessoa circumcidada, compondo-se no mesmo dia com os melhores vestidos e peças novas, ainda que para isso fosse necessario buscal-as e fazel-as; e outro jejum que caía em certo mez, estando por espaço de tres semanas sem começar negocio algum, posto que continuava os principiados, estando n'ellas dois dias sem comer nem beber senão á noite, como dito é; e usando de particulares vocabulos e palavras para se entender com outras pessoas quando fazia ou havia de fazer os ditos jejuns, sem que fossem entendidos ordinariamente, por o sentido comum das ditas palavras ser mui differente, communicando estas coisas com pessoas da sua nação apartadas da fé, com as quaes se declarava por judeu, perseverando na dita crença até certo tempo, que declarou.
«E que por andar apartado da fé, no dito livro que compuzera, detrahira em alguns logares no procedimento do santo officio, e se accommodara com algumas opiniões politicas com que o via usar e praticar em certo reino; e que tambem usava de livros prohibidos, e quede tudo estava muito arrependido e pedia perdão e misericordia. E por o réo não satisfazer á informação da justiça nem declarar todas as ceremonias e jejuns que havia feito por guarda da dita lei, sendo para o fazer por vezes admoestado, na fórma do estylo do santo officio, o promotor fiscal do santo officio veio com libello criminal e accusatorio contra elle, que lhe foi recebido, e o réo o contestou pela materia de suas culpas e confissões, e não quiz usar de contrariedade. E sendo lançado da com que podera vir, e sendo ratificadas as testemunhas da justiça na fórma de direito, se lhe fez publicação de seus ditos, conforme o estylo do santo officio. E veio com contraditas, que lhe foram recebidas e não provou coisa relevante; e guardados os termos de direito, e feitas as diligencias necessarias, seu feito se processou até final conclusão, sendo o réo por muitas vezes advertido de suas diminuições e admoestado com muita caridade da parte de Christo nosso Salvador as quizesse declarar, para se poder usar com elle de misericordia, que a santa madre egreja manda conceder aos bons e verdadeiros confitentes sem o réo o querer fazer. E visto seu processo, na mesa do santo officio se assentou que pela prova da justiça e por sua confissão estava convencido no crime de heresia e que a dita sua confissão não estava em termos de ser recebida, e por hereje e apostata da santa fé catholica, feito falso, simulado, confitente diminuto e impenitente foi julgado e pronunciado.
«E para o réo cuidar em suas culpas e diminuições, e as poder confessar arrependendo-se d'ellas, lhe foi dada noticia do dito assento, e foi de novo admoestado para descargo de sua consciencia, salvação de sua alma, eser tratado com misericordia, quizesse dizer toda a verdade. Vendo o réo que estava convencido por diminuto em suas confissões, pediu audiencia, e as continuou, dizendo que depois de fazer as primeiras confissões, ficára continuando até áquella hora na crença da lei de Moysés, e que por sua guarda fizera algumas cerimonias judaicas, e para que Deus lhe perdoasse seus peccados na observancia da dita lei, fazia tambem algumas penitencias, como eram não dormir em cama senão em noite de sabbado; resar algumas orações e psalmos semGloria Patri, e repetir muitas vezes a confissão geral, e communicava estas coisas com certa pessoa da sua nação, com a qual se declarava por judeu e animava para continuar na dita crença: e que de tudo pedia perdão e misericordia. E sendo visto outra vez seu proccesso em mesa, se determinou que o assento que n'elle se havia tomado não estava alterado, porque não declarava o réo todas as culpas que havia commettido segundo a informação da justiça, não se presumindo, conforme a direito, esquecimento. Alem de que não dava signaes de verdadeiro arrependimento antes os contrarios, dizendo que confessava o que fizera exteriormente, e que o que ficava em seu coração não era necessario dizel-o; pelo que foi notificado para ir ao auto da fé ouvir sua sentença, pela qual estava relaxado á justiça secular. E sendo trazido ao auto da fé, pediu n'elle audiencia, e n'ella disse que a pedira para requerer ao santo officio, com intimo e verdadeiro arrependimento de suas culpas, se usasse com elle de misericordia; que a verdade era que elle permanecera até áquella hora em seus erros, dos quaes se apartava por meio das admoestações dos religiosos que lhe assistiam, e por ver a commiseraçãoque seu estado causava a todo este povo e pessoas que o conheceram; e que por guarda da lei de Moysés em que até então crêra, fizera muitos mais jejuns judaicos dos que tinha declarado e muitas outras cerimonias; e que de tal maneira estava na observancia d'ella depois da sua prisão que determinara morrer por sua guarda, com tal excesso que depois de lhe ser dada noticia do assento que se tinha tomado em sua causa, se tinha disposto para a morte, com aquellas cerimonias que sabia, lavando-se e vestindo camisa nova, que tinha feito para este fim, e jejuando ainda como judeu35. E sendo vista esta sua confissão na mesa do santo officio, se assentou que não estava em termos de ser recebida, e que era feita mais afim de escapar da morte, que pelo réo estar verdadeiramente arrependido de seus erros, como claramente se mostra do termo de que tinha usado nas mais confissões que fizera no discurso de sua causa: O que tudo visto e bem examinado, e como o réo sendo por tantas vezes admoestado nunca deu mostras de se tornar do coração á fé de Christo Nosso Senhor de que se apartou; de que claramente se colhe que persevera ainda agora em seus erros e na damnada crença da lei de Moysés.Christi Jesus nomine invocato, declaram ao réo Manuel Fernandes Villa Real por convicto e confesso no crime de heresia e apostasia, e que foi, e ao presente é, hereje apostata da nossa santa fé, e que incorreu em sentença de excommunhão maior e em confiscação de todos os seus bens para o fisco e camara real, e nasmais penas em direito contra os similhantes estabelecidas; e que como hereje apostata, convicto, confesso, ficto, falso e impenitente o condemnam e relaxam á justiça secular, a quem pedem com muita instancia se haja com elle benigna e piedosamente, e não proceda a pena de morte nem effusão de sangue.—Luiz Alves da Rocha.—Pedro de Castilho.—Belchior Dias Preto.
É escusado dizer que a justiça secular, comprehendendo ao justo abenignidade e piedaderecommendadas pelo santo officio, condemnou o réo a garrote e fogueira para que das cinzas do strenuo defensor de D. João de Bragança não ficasse memoria, como se assim podessem diante da posteridade passar a esponja por sobre uma das mais esqualidas manchas do reinado d'aquelle soberano.
O bacharel Miguel Henriques da Fonseca, advogado em Lisboa, foi queimado vivo em 10 de maio de 1682. Infere-se da leitura da sua sentença que este infeliz dez vezes foi posto a tormento, e com todas ellas foi aggravando a sua desgraça, revelando peccados novos, que o apertar das cordas e o queimar lento do fogo lhe ia arrancando. Afinal, já calejado e invulneravel ás torturas, manifestou-se profitente da lei de Moysés, affrontou no rosto os algozes, e subiu á fogueira com grande animo e anciedade do martyrio.
Por occasião do supplicio do doutor Antonio Homem, lente da universidade em 5 de maio de 1624,um engenhosopoeta contemporaneo publicou, e fez correr, comgrande applauso publico, o seguinte soneto emécosou dereflexo: