XVII

XVIIAos primeiros assomos do dia seguinte, a casa de Domingos Leite e a de Francisco Mendes Nobre, eram invadidas pela justiça dos corregedores de dois bairros. A da rua dos Vinagreiros foi arrombada, e a outra exposta á busca pelo escudeiro. Bernardo, como gaguejasse nas respostas, foi preso, conduzido, e posto a tractos. O velho, apenas as puas da roda compressas a torno lhe deslocaram os ossos dos braços, confessou que Domingos Leite, ás duas horas da noite passada, se havia refugiado em uma casa da rua das Olarias, pertencente a Francisco Mendes Nobre. A horda dos quadrilheiros derrubou a porta, bateu todos os cantos, e não encontrou vestigios de ali ter estado alguem recentemente; mas um visinho tresnoitado depoz que, por volta das tres e meia da manhã, havia dado tento deestropear de cavallo, depois que a porta da rua se fechára. Pero Fernandes Monteiro, corregedor do crime da côrte, alvitrou que Domingos Leite devia ter partido para Guimarães, sua terra natal.Incontinenti se despediram postilhões para o Minho.Fr. Francisco Brandão é o unico, e mais coevo e esclarecido narrador que nos relata estes passos: ...Tres vezes veio o réo sobredicto(Domingos Leite)a este reino, ainda que da primeira não consta que fosse com o mesmo intento. Teve-se noticia da sua entrada n'aquella occasião primeira, e foi tal a desgraça sua que com apertadas dilligencias em Lisboa e Guimaraens se não pôde descobrir nem aprisionar; que a ser assi é veresimil que desculpára as persumpçoens do passado e não incorrêra etc.9Emquanto estas diligencias frustradas se cumpriam, D. João IV prevenia Antonio Cavide que era forçoso, logo que Domingos Leite estivesse em ferros, transferir Maria Isabel e a filha, com o maximo segredo, para mosteiro muito afastado. Receava o astuto monarcha as declarações escandalosas do preso, as quaes, desmentidas pela clausura da mulher, lhe redobrariam a penalidade, aggravando o crime de homicidio o aleive assacado á pessoa sacratissima do rei e á innocencia da esposa.Baldaram-se as prevenções. Duas semanas passadas, a espionagem de Antonio Cavide em Madrid assegurou-o que Domingos Leite ali estava, dado que vivesse mais retirado que da primeira fuga. Maria Isabelrecobrou-se dos seus pavores. Cavide folgou do bom successo do negocio sem effusões sanguinarias, o marquez estudava traças de apiedar o rei, e o rei, com grande magua da ciosa Luisa de Gusmão, raras horas passava fóra da tapada de Alcantara.No entanto, o proscripto, reconcentrado com a sua vergonha, cujo pungir sobre-excedia as angustias da saudade, laborava no cerebro uma idéa de vingança, pela qual elle daria de bom grado a vida, que lhe era cruz atrocissima.Confidenciou o seu pensamento de matar D. João IV, ao hebreu Francisco Mendes. Este discreto moço oppugnou-lhe o desvairado intento com argumentos e supplicas, instando-o a que o seguisse para Hollanda, e lá pediriam ao tempo o balsamo da chaga, e a vingança do remorso nas consciencias do rei e da collareja real.Rebelde á rasão e aos rogos, Domingos Leite viu partir o amigo para Amsterdão, quando o medo da inquisição de Hespanha o forçou. Era immensa a tristeza do christão-novo, culpando-se de haver sido elle o propulsor da ida de Leite Pereira a Lisboa, e dos horrendos effeitos que se lhe seguissem.Roque da Cunha não podia ser estranho á desventura do seu amigo, já por que Domingos lh'a referira, já porque os faccionarios de Filippe IV em Portugal a transmittiram para lá com o intento de aviltar o monarcha, violador adultero da honra dos seus mais serviçaes acclamadores.Roque era o portador das lastimas de sua mãe e dos fidalgos ao desgraçado, que mais se enfurecia quando o deploravam. A primeira vez que o assassino de Pedro Barbosa e padre Luiz da Silveira o ouviu rugir ameaçasde morte a D. João IV, atirou o sombreiro ao tecto, e bradou:—Viva Deus! que afinal topei um homem! Quantas vezes, Domingos, quantas vezes eu tenho dito cá muito commigo: «Se Maria Isabel fosse minha mulher, o duque de Bragança, que me deshonrou, havia de morrer tres vezes ás minhas mãos, visto que o padre Luiz morreu uma, não me tendo feito mal nenhum! A mim, na verdade, assombrava-me que este nobre desejo de vingança te não houvesse passado ardente pela alma como um raio da justiça divina! Ainda hontem D. Luiz de Alencastre, irmão do marquez de Porto Seguro, me disse: «E que faz esse brioso Domingos Leite que não espeta dous pelouros no peito do real bandalho que lhe paga os serviços, tomando-lhe a mulher como quem compra com quatro sequins uma fregona do bêcco da Madragôa! Que faz esse homem de honrados figados que matou um padre, pela innocente rasão de ter amado uma mulher primeiro do que elle!» E esta, meu querido amigo, é a linguagem de Diogo Soares, do conde de Figueiró, de Francisco Leitão, e até... queres que te diga tudo? el-rei Filippe IV, que tem sido o exemplo dos reis continentes, quando tal soube, disse: «É bem feito que o mateiro de Villa Viçosa faça os seus vassallos veados, já que alguns d'elles entenderam que o melhor rei seria o mais destro e certeiro matador de porcos-espinhos. É bem feito que Domingos Leite receba alvará de Corneliotacitopara dignamente escrever os Fastos do seu real amo!...» Aqui tens ouro fio o pezo que está fazendo na opinião de Castella o teu infortunio. Ora imagina agora, amigo meu, com que jubilo eu não direi ámanhã a D. Luiz de Alencastre: «Podev. ex.ª dizer a el-rei nosso Senhor que Domingos Leite hade vingar-se de modo que a posteridade o aponte aos reis devassos como aponta o punhal de Bruto aos tyrannos de Roma!»—Melhor é que não digas nada,—observou glacialmente Domingos Leite—Eu tanto despreso as censuras como os applausos. Se eu matar D. João IV, não me hei de glorificar com os gabos nem descorar na presença dos verdugos...—Dos verdugos!—acudiu Roque—Se te expozesses ao alcance da corda ou do cutello, serias honrado, mas parvo. Se queres vingança com gloria e reputação de sensato, é mister que o homem morra, e que tu fiques a ouvir-lhe gargantear ode profundis. Alem de que, se a tua heroica idéa fermentar, eu heide ser ouvido, e sócio da aventura...—Não quero cumplices—disse Domingos Leite.—Nem amigos? Dize isso aos outros: não o digas a Roque da Cunha, réo de homicidio, na pessoa do muito reverendo thesoureiro de S. Mamede, que Deus conserve áporta inferi, esperando a alma de cantaro de D. João de Bragança. Amigo,—proseguiu, abraçando-o, e recuando o peito para lhe vêr de fito o rosto—Se queres só para ti a gloria de matar o amante de tua mulher, justo é que a tenhas; não serei eu que a dispute á coragem e ao pundonor da tua justiça; porem, quando essa conjunctura venha a realisar-se, Roque da Cunha hade estar á tua beira; por modo, que se a desaventura te fizer cambapé, ambos nós tombemos ao mesmo abysmo. Quem te falla assim, ou hade ser teu cumplice, ou teu inimigo. Escolhe.—Sabes o que eu escolheria, se me fosse permittidoescolher? A morte; o adormecer, e não acordar; o esquecer-me subitamente d'esta minha execravel situação.—Temos sesão de fraquesa? Vá lá! Os leões tambem tremem suas maleitas. Não me assusta esse desalento... Ámanhã, quando eu aqui voltar á tua charneca, heide achar essa alma remoçada, e o plano feito. Medita, que eu tambem vou escogitar o meu traçado. Espero que o meu seja o mais acceitavel, porque calculo com animo frio, como os estrategicos que escrevem no quartel da saude a arte da guerra. Domingos Leite Pereira, ouve lá o que eu te digo: Tens nas tuas mãos o destino de Portugal! E serás um dos primeiros da tua patria, se o quizeres ser.Domingos Leite sorriu-se motejando o enthusiasmo prophetico d'aquelle que ás vezes se lhe pintava infernalmente necessario á sua existencia.N'aquella noite infinita, a ira, a paixão, fora-lhe exulcerada pelas zombeteiras declamações de Roque da Cunha. A publicidade do seu vexame, e a mofa com que o apodavam de transigente no opprobrio, era cauterio que lhe afogueava as dores. Instantes de desafogo tinha apenas os que a phantasia sinistra lhe pintava, se diante d'ella via escabujar D. João IV, nas vascas da morte como outro qualquer homem. Ponderando no que era e seria sempre sua vida,—engolphando-se na treva que todos os passos lhe negrejava pelo futuro alem,—pareceu-lhe que matar o rei, e deixar-se matar sem soltar gemido de covarde angustia, seria a mais brilhante e redemptora solução de sua desgraça.Aclarava o dia seguinte, e já Roque da Cunha batia á porta da casa campestre de Domingos Leite.Radiou intima alegria no aspeito do marido de Maria Izabel. Um homem bom, um consolador christão, ser-lhe-hia repugnante, depois d'aquella insomnia de febril raiva e espectaculos fantasticos de sangue e patibulos. O unico homem competente á sua desesperação era Roque. Abraçou-o com arrebatada ternura, e exclamou:—Heide matal-o!—Isso sabia eu...—disse o outro friamente.—Resta saber como.—Pensaste?—A noite toda. São cinco horas e meia. Bem sabes que é meu costume levantar-me ás dez, quando durmo o somno do justo. Não dormi nada. Estive com Diogo Soares até ás onze, com o conde de Figueiró até á meia noite, com D. Luiz de Haro até á uma, com meu padrasto até ás duas, e d'ahi em diante commigo só, e agora comtigo para te dizer o que vais ouvir...—Toda essa gente—interrompeu Domingos Leite—está, por tanto, no segredo dos meus projectos?...—Assim como estava no segredo das tuas desventuras.—Vamos lá, dize, que eu já me não embaraço com pequenas miserias. Que vens annunciar-me? que plano trazes?—Plano de grande artifice. Não é meu: dou o pai á creança: é de Diogo Soares. O duque de Bragança não póde ser morto face a face, nem dentro do paço, nem na rua, nem nas passagens que elle costuma fazer de um palacio para outro, com grande escolta. Quanto elle é covarde sabêm'ol-o nós, desde que inventámos n'elleum rei legitimo; e, depois que a vida lhe esteve a pique das espadas do conde de Armamar e do marquez de Villa Real, hade ter bom olho quem o vir sósinho ao alcance de um tiro, ou quem o descobrir a dez leguas de distancia de um arraial. Covarde como todos os infames, diz o conde de Figueiró. Observei eu ao ministro Soares que tu, homem de bizarra condição, não quererias matar o duque de cilada. Replicou Soares perguntando-me se o duque, empolgando-te a esposa, te matára o coração com a vizeira levantada, ou se te não ferira com a mais abominavel perfidia. Não tinha replica sensata a pergunta. Traição por traição. Seguiu-se discutir a traça da morte. Diogo Soares pediu meia hora de meditação. Apanhou a calva fronte entre as mãos, espremeu os miolos, e decretou o seguinte: A procissão de Corpus-Christi cahe este anno no dia 20 de junho. Iremos para Lisboa, sem perda de tempo. São hoje 24 de abril. Devemos partir d'aqui no fim do mez. Soares tem amigos seguros em Lisboa, que nos hãode alojar sem risco. Alugaremos casas em uma das ruas por onde a procissão hade passar. Estas casas hão ter outras e outras contiguas que tambem allugaremos. Abriremos communicações entre ellas, de modo que façam frente para duas ruas. Suppõe tu... proseguiu Roque traçando no papel a planta das casas ... Aqui tens tu tres moradas de casas, vês?—Sim.—Imagina que estamos na extrema da parochia de S. Nicolau. A entrada d'este primeiro predio é por este bêcco. Sabes como se chama?—Não.—É o bêcco de Pero Ponce de Leão, que vai daraqui ao Terreiro de traz da capella mór de S. Nicolau. Percebes?—Percebo...—Bem. Aqui n'este Terreiro principia a rua dos Torneiros. Ella aqui vai... Ora agora, este outro predio, como vês, fica no ultimo canto da rua dos Torneiros, e faz face para a Fancaria e bêco do Ourinol. Comprehendes?—Sim.—A outra casa, como vês, está no meio das duas.—É claro.—A procissão, ao recolher da Sé, vem aqui ter da rua dos Torneiros. Quando aqui passar, temos o rei pela frente; e, quando entrar na Fancaria, têmol-o de costas, não é assim?—É.—N'esta casa, que olha para a Tornearia, abrimos uma seteira; e aqui, no angulo que fronteia com a Fancaria, abrimos duas, uma no primeiro sobrado, e outra no segundo. A do primeiro andar, como vês, é que mais geito nos dá para a pontaria, porque a rua aqui é larga. Deu-se o tiro nas costas do rei, suppomos. Nada mais facil que o escapar-se a gente. Esta casa d'onde sahiu o tiro está trancada com alavancas. O povo naturalmente quer arrombar a casa, d'onde sahiu o estrondo, não é assim? Mas emquanto se arromba a porta, passamos nós para esta casa do meio, pela communicação interior que temos aberta, e d'aqui passamos a estas que estão no beco de Pero Ponce, mettemo-nos ao meio da multidão, vestidos de atafoneiros, vamos sahir ao postigo de Nossa Senhora da Graça, cavalgamos á noite fechada, e passem por lá muito bem. Que te parece?—Tudo isso é de Diogo Soares?—É.—E as casas tambem?—As casas!..—Não digo as casas que pintaste; pergunto se são d'elle e estão devolutos os trez predios representados n'estas linhas.—Entendo o gracejo. Queres dizer que não estão á nossa espera trez casas com taes condições...—Quer-me parecer...—Esse milagre pertence á alçada do dinheiro.—Não contes commigo, que sou pobre.—Conto eu...—Com quem?—Commigo.—É el-rei de Hespanha que me dá recursos para me eu desaffrontar? Regeito-os.—Não é el-rei de Hespanha: sou eu. Tudo que se gastar não será um terço do que te devo. Esqueces-te de que as tuas algibeiras em solteiro eram as minhas? Saldaremos contas depois. Approvas o plano ou tens outro?—Tenho outro.—Dize lá.—Esperar el-rei, á entrada ou sahida da casa de Maria Isabel, e matal-o.—E depois?—Morrer, ou ás minhas proprias mãos, ou ás do carrasco.—Acho isso bastante antigo;—volveu o outro motejando—parece-me grego ou romano; mas é tolo, consente á minha amisade que t'o escreva assim na fronte, é romanamente e gregamente tolo esse plano.—O que tu quizeres. Devo dizer-te que assim mataria o padre, se elle houvesse sido amante de minha mulher.—Onde mora tua mulher?—Não sei.—A quem o vais perguntar?—Lá verei.—Não verás nada; não acharás ninguem que t'o diga. Não se espera um rei á porta de uma amante. Os reis não entram nem sahem pelas portas, nem pelas janellas, nem pelas trapeiras das amantes. E o duque de Bragança, desde que D. Francisco Manuel lhe bateu no pateo da condessa de Villa Nova de Portimão (tu sabes que o pobre poeta está preso na Torre Velha ha quatro annos..) nunca mais andou n'estes cazos como homem em quem as pranchadas de uma espada não são brincadeira. A tal respeito, vem de molde informar-te, segundo as informações que teve Diogo Soares, que a sr.ª Maria Isabel não recebe o amante em sua casa; é recebida no palacio de Alcantara. Ninguem sabe quando; mas sabe-se por onde. O pavilhão e as colgaduras do seu camarim amoroso são as arvores da tapada; é o que os passarinhos lá cantam uns aos outros.Domingos Leite fez um gesto de indignação, e disse:—Isso é vil!..—Que é vil?!—A minha desgraça deve poder mais que o teu genio zombeteiro!—Não zombo, Domingos!.. Tracto de obstruir com a irrisão as veredas por onde tu queres ir a uma desgraça infallivel. Matares o rei frente a frente!.. Sabes lá oque isso é?.. Corto a cabeça se fores capaz, se quer, de o encarar com um pensamento homicida!—Essa!...—atalhou Domingos Leite.—Bravos cavalleiros eram os fidalgos inimigos de D. João II; valentes e expostos á morte andavam os duques de Bragança e Vizeu; muitas occasioens se lhes ageitaram de matar o rei; e, chegado o lanço de o apunhalarem, retrahia-se-lhes o braço gelado da covardia que incute na alma o olhar de um homem que se chamarei—coisa fantastica mas terribilissima como a palavradiaboás creanças que o temem. Poderoso de braço e coração era o duque de Vizeu, e ali se deixou cravejar de punhaladas de D. João II...—Depois de agarrado pelas costas...—ajuntou Domingos Leite.—Pelas costas são agarrados todos aquelles que os reis querem matar, Domingos Leite... (Nota 23.ª) Eu não percebo o que seja vingança, se a desaffronta custa a vida de quem se vinga. Morrer eu, sem provar o nectar dos deuses! morrer, fechar os olhos, não ver... não palpar a victima! Então, antes eu queria perdoar-lhes christãmente, e deixar-me acabar de paixão; que assim pelo menos havia de ter dois frades que espalhassem cá por baixo que eu estava no ceo; mas passar da vingança á forca! Domingos Leite, deixa-me abraçar-te, e dizer-te que tu não és parvo! Não deves dar a tua cabeça ao algoz como prova de que não podes viver sem o amor e a fidelidade de Maria Isabel Traga-malhas. Que mates o rei ou mates o ultimo criado das cavallariças reaes, isso que monta, se a tua questão não é a morte, é a vingança! E, depois, homem, ouve lá isto: Se tentares publicamente contra el-rei, ainda que nemde leve o firas, sabes que desde a masmorra até ao cadafalso hasde ser arrastado nas ruas; e que no Pelourinho te hão de decepar as mãos; e mutilado, com horrendissimas agonias, te hão de levar muito de vagar até á forca; e que tua filha hade ser herdeira da tua infamia até á terceira geração, privada dos bens, por que tudo que houver sido teu hade ser confiscado para a camara real?... Pensaste n'isto? viste a tua querida Angela entre ti e o rei e o carrasco?...Domingos Leite passou vertiginosamennte a mão pela fronte, e murmurou:—Jesus!...Invocára o dulcissimo nome da divina caridade humanada, e... estava perdido! Quem sabe como lá soou nos juizos de Deus aquella invocação! Quem sabe a distancia que medeia entre o grito do homem e a serena magestade do seu Creador!XVIIIRoque da Cunha negociava com os ministros de Filippe IV, em nome de Domingos Leite, a morte do uzurpador. Encomiando o caracter audaz do seu amigo, encarecia-o tambem como grato e affeiçoado ao rei de Hespanha; sendo que a facção planeada timbrava tanto de pessoal como de politica. E, do mesmo passo, entre-mostrava que o ex-escrivão do civel da côrte, pelo facto de haver sido tão liberalmente remunerado, creara necessidades de pompas, que el-rei de Castella poderia de antemão assegurar-lhe em Madrid, com promessas de maiores vantagens, restaurado Portugal.Exposto isto ao valido por Francisco Leitão, o secretario das mercês nomeou Domingos Leite em uma commenda de Christo de lotação de duzentos cruzados e brindou o medianeiro com quatrocentos escudos e umofficio na casa real. Quanto á partilha do espolio de Portugal, Diogo Soares, desde logo, magnanimamente nomeou seu secretario Domingos Leite, com meio vencimento, até se abancar na respectiva secretaria.Roque apressurava n'este em meio a sahida para Lisboa recolhendo no seu alforge afivelado de moscovia de prata provimento de quartos e pelouros, e frascos de peçonha com que as balas deviam ser hervadas. Da parte de Filippe IV recebeu, por mão do desembargador Guedelha, Domingos Leite uma escopêta de primoroso artificio, ao mesmo tempo que lhe entregava o alvará da mercê da commenda de Santa Maria de Valdestillas, e carta de passagem e recommendação muito instante ao marquez de Mollinguen.Em 6 de maio de 1647 estavam Domingos Leite e Roque da Cunha, na Ameixoeira, uma legua distante de Lisboa, em casa de Bento Rodrigues Taveira, amigo de Diogo Soares.Haviam ambos cortado as barbas, antes de entrar em Portugal. Roque trajára-se com a simplicidade de mercador, e fallava uma linguagem estrangeirada com mescla de termos hollandezes.Nos primeiros dias concorreu á Ameixoeira um negociante de sola, chamado Serges, de origem allemã, cujo avô, em tempo d'el-rei D. Manuel, se estabelecêra em Lisboa com privilegio de sapateiro. Serges era espião de Castella em Lisboa, onde, áquelle tempo, amealhava grossos haveres. Ao tempo que os regicidas sahiam de Madrid, era o sagaz mercador avisado por expresso afim de se avistar com elles em casa do fugitivo partidario dos Filippes, na Ameixoeira.Apresentou-lhe Roque a planta das casas escolhidaspor Diogo Soares para a emboscada. Devia ser Serges o alugador das casas, sob color de querer armazenar n'ellas os seus generos, logo que lhe chegasse de fóra a carga extraordinaria que encommendára, prevenindo-se para o consummo da grande guerra e para a contingencia dos bloqueios. Assim explicava o mercador aos inquilinos dos tres ou quatro prédios o interesse grande que punha em alugar as casas pelo dôbro da sua renda. Tão minucioso é n'esta relação o manuscripto consultado, que não lhe esqueceu dizer-nos ser o proprietario das casas Gomes Freire, fidalgo de Beja.O plano de Diogo Soares foi levemente alterado, segundo deprehendemos da descripção particularisada doMs.que reza assim: «A morada de casas que primeiro alugou Simão Serges está em um bêcco fronteiro á Capella mayor de S. Nicolau; e por um passadiço sahe a outro bêcco que desemboca na Tinturaria e cinge por aquella parte a Tornoaria; e além d'estas alugou mais tres moradas, umas que dizem para a Tinturaria, e outras que fazem a revolta da rua dos Torneiros, e as ultimas no recanto d'esta rua, que faz desegualdade a outro canto de Quebra-Costas.»Conseguido o despejo dos quatro prédios, Domingos Leite e Roque da Cunha alojaram-se no Bêcco de Ponce de Leão, na noite de 20 de maio, sem encontro que lhes desfalcasse a coragem. Serges proveu-os dos viveres necessarios, ferramenta e tudo que os dispensasse de sahirem.O trabalho interior de demolir e construir communicação de umas para outras casas era pezado para mãos mimosas e não callejadas na alavanca e picarêta. Como os planos dos sobrados eram desiguaes, ao romperemas paredes mestras tiveram de escadear a passagem d'uns aos outros, e cobrir os envazamentos com tal artificio que, se os procurassem na primeira casa, não se lobrigassem vestigios de passagem para a immediata. Quanto ao melhor local para abertura de setteiras, escolheram uma esquina que dominava toda a rua dos Torneiros e parte da Correaria, resolvendo descarregar sobre o rei pelas espaldas; e abriram outra, conforme o plano de Madrid, para, em conjunctura melhormente proporcionada, lhe atirarem de frente.Estes preparativos estavam concluidos em 15 de junho, com poucas ferias de repouso, e nem o minimo ruido que motivasse a curiosidade dos visinhos.Em algumas das noites decorridas, Domingos Leite quiz sahir com o disfarce de atafoneiro; mas Roque embargava-lhe o passo com reflexões de prudencial severidade. Figurara-se-lhe possivel vêr, acaso, a filha estremecida. Escutando o coração, o pae de Angela decifrava no vago terror que lá lh'o innoitecia que nunca mais havia de vêl-a! Enganava-se. Tinha de vêl-a um instante, e esse seria o derradeiro e unico.Todavia, se Domingos Leite, na noite de 19 de junho, se confundisse na multidão que enchia o Terreiro do Paço, veria Maria Isabel e Angela, recostadas nos almadraques de uma liteira, a gozarem o espectaculo das columnas resplendentes de lampadarios de christal que era costume accenderem-se n'aquella praça, na do Rocio, e em todas as ruas percorridas pela procissão do Corpo de Deus. Depois, iria no rasto da litteira pela rua Aurea, pela dos Mercadores, dos Ourives da prata, dos Escudeiros, dos Odreiros, da Almada, das Portas de Santa Catharina, de S. José, com os seus trintapalacios estrellados de luminarias, e pela Calçada do Combro, onde o palacio do Monteiro-mór excedia os mais sumptuosos na bellesa da illuminação. Por todas estas ruas abobadadas de esteira, com figurações christãs e pagãs nos remates de cada cunhal, poderia Domingos Leite seguir a litteira de sua mulher, vêr a espaços o rosto alegre da filha, debruçada na portinhola perguntando á mãe a significação das estranhas figuras debuxadas nos guadalmecins e paineis que tapizavam as paredes e balcões das sacadas. E, depois, ahi por volta da meia noite, seguil-a-hia ao longo do bairro da Marinha, estrada de Alcantara, até que, apagado o clarão dos lustres que alumiavam, se acingisse á liteira e apunhalasse a esposa, e sobraçasse a filha, e a devorasse de beijos, e morresse n'aquelle extasis!Mas, a essa hora de tumultuosa alegria, Domingos Leite, depois de ceia, encostou os cotovellos á meza, apoiou a barba entre as mãos, e disse a Roque da Cunha:—Parece-me que foi Leonidas, na vespera da passagem das Thermopilas, que disse aos trezentos companheiros da sua funesta façanha, depois de jantar: «hoje aqui jantamos, e iremos cear ao reino de Plutão.» Onde iremos nós cear ámanhã?—D'aqui trez leguas: á estalagem da Povoa de D. Martinho, onde ainda ha um velho Malaga, que os portuguezes bebem para matar a sêde do sangue de castelhanos—respondeu Roque sorrindo.—Vamos marcar os nossos postos—volveu o commendador de S. Maria de Valdestillas.—Estão marcados.—Ainda não. Onde hasde tu estar quando eu atirar ao rei?—Aonde? aqui.—Não quero. Ao pé de mim, não. Se eu for agarrado, quero ver-me sósinho, face a face do algoz. Se o homem morrer, e eu me evadir, não disputarei o teu quinhão de gloria n'este feito. Dirás em Madrid, e eu confirmarei, que tu estavas ao meu lado, com o pé na beira do meu abysmo, com o pescoço exposto ao mesmo esparto, com as mãos debaixo do mesmo cutello. A hora é excellente para sahires d'aqui por entre o povo que enche as ruas. Os cavallos, a esta hora, devem estar na Ameixoeira, segundo combinamos com o marquez de Molinguen. Vai tu pernoitar á Ameixoeira, e ámanhã, por volta do meio dia, parte com elles e espera-me no Postigo da Senhora da Graça. Se eu lá não estiver antes das tres, foge, porque então estarei preso ou morto.—Mas...—Não questionemos. Isto é resolução feita e inalteravel. Tenho-te dito que não quero cumplices; e, se guardei para esta hora o declarar-t'o formalmente, foi por evitar contestações então, e agora muito mais, que é tarde para discutir. Vamos. A pé e sahir. Dá cá um abraço. Até ámanhã de tarde, ou... até... nunca mais. Viverei ou morrerei agradecido á tua dedicação. Ingrato e atrozmente egoista seria eu, se arriscasse a tua cabeça n'um desaggravo da minha honra. Se eu morrer, se me não vires mais, dize ao rei d'Hespanha que o alvará da commenda com que nobilitou minha resalva de assassino o desfiz em buchas para a escopêta com que me elle brindou. E adeus!Roque da Cunha abraçou-o sem commoção sensivel. Para esta frieza concorria a crua rigidez de sua compleiçãoe a esperança do bom exito da entrepreza. Se Domingos Leite lograsse penetrar-lhe nas cavernas do peito, veria lá dentro assomos de jubilo. Desde que o dia 20 de junho se aproximava, Roque meditava absôrto e pávido no trance do tiro, nos paroxismos do rei, no torvelinho do povo, na grita de milhares de vozes, no arrombarem-se as portas, na linha de alabardeiros cintando as ruas, na sua propria cara a delatar o crime, nos crimes impunes da sua proterva historia—em fim, na forca.Se um homem n'estas condições ousaria prever que um historiographo portuguez, seculo e meio depois, escreveria d'elle:... cheio de confusão e honra!Pois houve! O leitor verá que n'esta sua, tão sua e minha querida terra, temos historiadores que denominam a incestuosa mulher de Pedro IIrainha prudentissima(veja o sr. conselheiro Antonio José Viale, na suaHistoria) e Roque da Cunhahomem cheio de confusão e honra. (Veja Roque Ferreira Lobo na suaHistoria da acclamação deD. João IV.)XIXÁs dez da noute sahira Roque. Ás onze já Domingos Leite, vestido de feitio que nenhum traço arguia o aparaltado do escrivão do civel, parava no largo da Porta do Salvador, contemplando a casa immersa em trevas, que nenhum pontinho luminoso interceptava. Que fazia alli?Fantasiára que o seu velho criado lá estaria, não obstante lhe dizer Roque da Cunha que a justiça lhe dera tractos até saber onde o amo se escondia; e, sendo assim, de certo o expulsaria Maria Isabel.Ajustou-se á frontaria da caza, e tocou no postigo da fresta, chamando Bernardo.N'este lance, pessoa que elle não vira em uma janella a refrigerar-se na aragem da noite, disse com voz senil:—Ahi não mora ninguem.Domingos estremeceu; mas, cobrando animo com a probabilidade de segurança de nenhum perigo, perguntou:—Sabe dizer-me onde está um homem que aqui morava ha coisa de dois mezes?A pessoa interrogada não respondeu; retrahiu-se da janella, e fechou-a. Domingos Leite, ouvindo o bater das portadas, não podia perceber a descortezia ou qualquer outro sentimento de quem quer que fosse, e principiava a censurar-se da indiscreta pergunta, quando uma porta rodou vagarosamente, e voz tremula de dentro disse anciadamente:—Entre, entre depressa...Domingos reconheceu a voz de Bernardo.O velho colheu-o nos braços suffocado por convulsos gemidos, e cahiu de joelhos exclamando:—Ai meu amo que vem entregar-se á morte!..—Não venho... não te assustes... Deixa-me subir ao teu sobrado e conversar comtigo, meu pobre amigo...—murmurou o amo.O velho precedeu-o na subida da ingreme escada, pedindo-lhe que fallasse baixinho, porque no segundo andar estava gente ainda a pé.—Foi certo darem-te tratos, Bernardo?—perguntou Domingos Leite sentando-se no unico tamborete da pobre quadra.—Quem lh'o disse, meu senhor?—Soube-se em Madrid.—Foi verdade. Aqui estão as costuras nos dedos. Descarnaram-me os ossos. Eu já não podia com as dôres quando disse que vossa mercê tinha uma caza nasOlarias; mas disse porque me bacorejava o coração que meu amo não estava lá...—Meu infeliz amigo!...—atalhou Domingos com os olhos aguados—E não voltaste para casa de... Maria Isabel?—Fui ter-me com ella...—Aonde?—A um palacete em Alcantara, onde me disseram que ella morava umas pessoas da justiça em casa do corregedor, e por tal signal que...—Por signal que...—O melhor é calar-me, sr. Leite; mas... a fallar verdade...—O quê? podes fallar... Disseram-te que era uma mulher perdida...—É verdade, e não me mentiram, queira vossa mercê perdoar-me...—Fallaste-lhe?—Sim, sr. Fallei-lhe com mais lagrimas que vozes. Disse-lhe que o senhor seu marido passára uma noite na caza do Salvador; que estivera no quarto a embalar o berço... N'isto, a menina que estava alli a ouvir-me, rompeu a chorar que cortava o coração, e a clamar que queria ver seu pai; que queria ir com o seu Bernardo ver o seu paizinho; que a mãe era muito má em não a deixar ir, e outras coisas, meu amo, que faziam chorar as pedras. E vai a mãe, neste entrementes, pega por um braço da filha com arremessão, e tira por ella lá para o interior da casa. Eu fiquei estarrecido, a ouvir os gritos da menina lá dentro, até que chegou um escudeiro, e me mandou sahir d'alli por ordem da fidalga. «Pois sim, eu vou; mas vá vossê dizer á senhoraque o seu velho criado não a offendeu; e que eu vim cá para lhe dar conta das alfaias da sua casa, ou saber se alguma lhe falta, que de certo não fui eu que a tirei.»—Foi o escudeiro com o recado, e voltou logo dizendo que a fidalga não queria saber de contos; que me puzesse na rua. Tornei-lhe a mandar pedir que ao menos me mandasse entregar a minha árca onde eu tinha o meu fato e as minhas economias. O escudeiro, talvez porque tambem era pobre e me viu a chorar, teve pena de mim e tornou lá dentro. D'ahi a pouco voltou e disse-me que ia commigo para me dar a minha arca. Veio com effeito, e pelo caminho fora, de Alcantara até aqui á rua, e depois lá no meu quarto, contei-lhe tudo que se tinha passado; e elle que não sabia de nada, porque sahiu do palacio real de Belem para ir servir aquella fidalga por ordem do sr. Antonio Cavide, disse-me então o que vossa mercê, pelos modos, já sabe...—Sei... E então, meu Bernardo, estás muito pobre?—Não, meu amo. Ainda tenho dinheirinho do que vossa mercê me dava quando era solteiro; mas, como estou muito acabado e não posso trabalhar com as mãos desde que m'as quebraram na tortura, não tenho remedio senão viver com muito pouco, para não ter de ir pedir por portas. E vossa mercê tem mingua de dinheiro? Eu tenho alli quinze moedas de ouro de quatro cruzados cada uma; se vossa mercê as quer, assim Deus me salve como eu lh'as dou com todo o meu coração...—Não preciso; obrigado, meu querido amigo, obrigado... Disseste-me que minha filha chorava—volveu Domingos Leite, depois de longo silencio e profundo recolhimento.—Se chorava!.. quando me viu e conheceu, corria para mim com os bracinhos abertos; mas a mãe botou-lhe a mão ao braço, e puxou-a para si. Assim que eu contei a passagem do berço, e da tristeza com que o paisinho da menina olhava para elle, as lagrimas saltaram-lhe como punhos; e a mãe lançava-lhe de esguelha uns olhos furiosos, que pareciam querel-a espedaçar...—Ai!.. se eu a visse...—murmurou Domingos Leite.—Como hade vossa mercê vel-a, meu senhor!... Não pense n'isso, porque tenho ouvido dizer que, se o apanham, a sentença menor que tem o meu amo é degredo perpetuo, se não lh'a derem peor... A que veio a Lisboa, sr. Domingos Leite? que peccados o trazem aqui?...—Sabel-o-has, quando fôr tempo...—respondeu Leite serenamente—Escuta, Bernardo: sabes que tenho pai?—Pois não sei!..—Chama-se Antonio Leite, vive em Guimarães, e tem officina de cutelleiro na rua Infesta. Agora, jura-me que cumprirás o que te vou pedir.—Não é mister jurár, senhor!—Se acontecer eu ámanhã ser preso ou morto...—Sancto nome de Jesus!—clamou Bernardo.—Não me interrompas com lastimas que não remedeiam o meu destino... Attende, meu amigo... Se acontecer eu amanhã ser preso ou morto, parte logo para Guimarães, procura meu pai na rua Infesta, e dize-lhe que eu morri ou vou morrer, sacrificando a vida infamada á honra de a perder em desaffronta de um grande ultrage. Não tens aqui papel e tinta. Se tivesses, escrever-lhe-hia:mas, ámanhã, por esta hora, se eu estiver preso ou morto, vai e dize-lhe, se te não lembrar mais nada, que D. João IV era o amante da mulher de seu filho. Mas, se eu não estiver preso nem morto, e algum acontecimento explicar o mais que eu te não digo, pede-te o teu pobre Domingos Leite que leves comtigo á sepultura o segredo que adivinhares.Bernardo queria debalde replicar; mas as palavras eram-lhe estranguladas nos soluços.N'este conflicto, Domingos Leite abraçou o velho; e, desprendendo-se-lhe dos braços, desceu as escadas subtilmente.Eram já desertas as ruas, quando entrou na casa do Becco de Ponce Leão; e, atravessando os outros predios até ganhar o sobrado, cuja janella esquinada dominava as ruas dos Torneiros e parte da Fancaria, abriu o alforge de moscovia, e tirou os frascos de peçonha, e um caixotinho com quartos e balas. Hervou o pelouro e os zagalotes, mergulhando-os cautelosamente no toxico: sevou a cravina de polvora, metteu as balas calcando-as com a vareta sobre a bucha (Nota 24.ª) introduziu as doze costas ou quartos, lascou, antes de escorvar, com a lamina de uma agumia o rebordo da caçoleta, azeitou o gatilho, experimentando-o, encheu a escorva, bateu na culatra tres punhadas afim de sevar plenamente de polvora o ouvido, e trez vezes fez pontaria em diversas direcções. Feito isto, apagou o candil, abriu de manso as portadas da sacada, e ao lampejo tremulo de algumas luminarias que vasquejavam, esteve examinando as duas ruas confluentes; depois, retrahindo-se, abocou a escopeta a dois alvos, que, naturalmente, se lhe figuraram o corpo sacratissimo de sua magestade. Esta phrase,um tanto descabidamente faceta, corresponde ao esgar de riso ferino que lhe refegou os beiços, vibrando os musculos faciaes.Ás trez horas da manhã começaram a repicar os sinos da bazilica de santa Maria Maior, e logo todas as torres saudaram a jubilosa arraiada da vetusta metrópole. Já se ouviam as charangas de atabales e clarins que, nas ruas comvisinhas do templo, annunciavam a sahida da procissão, mais matutina que o sol. Aquelle tão comprido dia de junho era mister começal-o ao arrebol da manhã para que o tempo não escasseasse ás alegrias do povo.Domingos Leite, escutando a resonancia estridula dos clarins e o tanger festivo dos sinos, foi ao passado buscar memorias da sua alma despedaçada, e todas viu em um relance afflictivo de olhos. Tambem elle tinha acordado alegre ao ruido d'aquellas musicas quando era moço e rico, feliz e amado. Tambem elle n'aquellas manhãs de luz e flores folgava de madrugar, e passeiar as ruas de Lisboa, respirando o acre das espadanas e rosmaninho que verdejava o transito, por debaixo dos doceis e grinaldas. Ainda no anno anterior, sahira elle áquella hora, depois de uma noite mal-dormida, com a filhinha pela mão, e entrara na bazilica, ensinando a creança a pedir a Deus por si e por elle.Quanto mudado, ó desventura! Que voragem entre o secretario do marquez de Gouvêa e o determinado assassino de D. João IV! Como elle se contemplava na escuridade profunda de sua alma ao reflexo do gentil, do invejado mancebo que fôra! Que horrendissimo doer não seria o do seu espirito, quando a cabeça lhe cahía para o peito, e as mãos enclavinhadas e tremulas comprimiamo pescoço, como se quizesse impedir que aos ouvidos lhe chegasse o regosijo d'aquellas toadas!E áquella mesma hora, Maria Isabel, despertada pelos repiques do mosteiro do Calvario, saltava alegremente d'entre as cortinas adamascadas do leito, chamava a aia que a penteasse, e ordenava que lhe vestissem Angela.—Então d'onde vai ver a procissão, sr.ª D. Maria Isabel?—perguntou a aia com a confiança de criada antiga e quinhoeira dos segredos da ama.—Vou para o palacio do Galvão, no Rocio, ou para casa do senhor da Trofa, na Rua dos Torneiros: ainda não sei.—No Rocio é mais bonito...—volveu a aia.—Mas eu prefiro a Rua dos Torneiros.—Eu bem sei porque, minha senhora...—Ah! sabes? és muito esperta!... Ora dize lá...—É porque el-rei passa mais chegadinho á caza do senhor de Trofa que á do Galvão... Adivinhei?—Parece-me que sim...—assentiu Maria Isabel com uma despejada denguice—Tenho passado estes dias tão aborrecida...—Pois, sim, sim... Não sahe de caza a minha senhora... passa as noutes sósinha... Quando se vai embora a rainha para Lisboa?—No principio do inverno.—Que praga!.. E a sr.ª D. Maria Isabel, por amor d'ella, nem ás janellas vai! Tambem não sei por que razão el-rei tem medo que a rainha desconfie... Sempre ouvi dizer que o rei se lhe dava pouco dos ciumes d'ella. Acho que o sr. D. João IV o que receia é que a vejam os fidalgos que se ajuntam em Alcantara emquantosua magestade cá está... Se alguem tem ciumes, não é a rainha, é o rei...Sorriu-se lisongeada Maria Isabel, e murmurou:—És tola, és tola... Quem trocaria eu n'este mundo por el-rei?—Isso lá, minha senhora—replicou a aia—tem-se visto d'essas trocas... Bem podia V. S.ª gostar mais dos condes que eu por ahi vejo a passear no largo do que de el-rei; apesar de que sua magestade está ainda muito fresco, e parece um mancebo... Como vai V. S.ª vestida á procissão?—Levo saia de seda verde com barras pretas de velludo; gibão de tafetá azul, com cossoletes de ouro.—E que manto leva?—O de seda verde.—O branco vai-lhe melhor sobre o gibão azul.—Vai? pois levarei o branco.—E chapins? os azues com rubis?—Não; os verdes com diamantes.—Eu acho os outros tão lindos!.. Ainda me lembra o contentamento com que V. S.ª calçou outros da mesma côr, faz agora dois annos, quando foi a esta mesma procissão com seu marido... Lembra-se?Maria Isabel não lhe respondeu. A aia, affeita a lidar com os caprichos da senhora, absteve-se de repizar no assumpto desagradavel, posto que Maria Isabel, algumas vezes, ouvisse fallar indifferentemente do marido.—A que hora vai a senhora para a rua dos Torneiros?—A cadeirinha hade estar prompta ás nove horas.—Por que não vai no coche do ministro Cavide, que lh'o offereceu?—Não me appetece andar em côches alheios. Heide comprar um quando me parecer.—Faz V. S.ª muito bem... não sei como el-rei lh'o não tem dado...—Não quero. Sou bastante rica. Posso ter côche sem dever favores ao rei.A conversação foi cortada pela vinda de Angela, que já estava vestida e encantadoramente galante com o seu gibão escarlate de passamanes de prata, saia de trez barras com debruns de lhama de ouro, chapins altos de setim branco e tacão escarlate, volante de rendas na cabeça, ondeando por sobre as espiraes de tranças louras que lhe deslizavam nas espaduas meio nuas.Ás 9 horas entraram Maria Isabel e a filha na cadeirinha. Pouco depois, sahia D. João IV do palacio de Alcantara, em côche, com o manto de grão-mestre da ordem de Christo, precedido dos reis d'armas, e seguido do principe D. Theodosio, e cento e cincoenta cavalleiros das ordens militares, em cavallos pomposamente ajaesados.El-rei ia só e melancolico; mas, no rosto carregado, relampedejou-lhe um clarão de alegria, quando, ao passar pela cadeirinha que ao longe conhecera, viu aquella formosa face cujo primeiro verniz de pudor se desbotára nos beijos do padre Luiz da Silveira.A melancolia de el-rei quer o meu manuscripto legitimal-a com estes catholicos dizeres: «No oratorio da quinta de Alcantara tinha sua magestade commungado, esteve em oração mais do que costumava, e sahindo, disse á rainha, nossa senhora: Eu vou com grande trabalho. E dizem que, havia tempos, lhe tinham dito que em uma procissão do corpo de Deus o haviam de matar;e el-rei respondêra que junto ao sanctissimo sacramento lhe não podia succeder mal.» Ainda bem!Se estes pios casos de commungar, e sahir mal disposto, e meditativo no sinistro vaticinio, assombraram o real semblante, ainda bem que o langoroso olhar da Traga-malhas espancou o profeta de máo agouro, e abriu nos labios do rei commungado um sorriso que radiou nas bochechas dos seus vassallos.Por volta das onze horas, Domingos Leite, espreitando o concurso de povo, que já tomava os lados das ruas, notou que a seteira baixa que abrira para o lado da Fancaria era a melhormente azada para desfechar sobre o rei, visto que alli a multidão, abrindo uma especie de clareira, obrigada pelo aperto do cunhal das duas ruas confluentes, deixava a descoberto o palio, ao qual devia seguir-se a familia real. Regeitou, portanto, o plano traçado de dísparar pela seteira alta, que dava sobre a rua dos Torneiros, parecendo-lhe quasi impossivel de ponto elevado, por mais firme que pozesse o fito, acertar no rei.Assim, pois, que os atabales estrondearam no topo da Fancaria, Domingos Leite pegou da cravina, e foi ajoelhar rente com a seteira baixa. O dia era ardentissimo; e, elle, sentindo as mãos geladas, friccionava uma na outra receando que o dêdo do gatilho fizesse tremer a escopeta, e desviar o tiro. Era o frio do terror; era a honra convencional dos homens subjugada pelo ingenito respeito á vida humana.Entreviu a passagem dos cavallos á destra, cobertos de telizes de velludo escarlate com as armas de Bragança em relevo de ouro, levados de redea por lacaios com a libré real. Passou S. Jorje, cabeceando a suaplumagem do murrião, cavalgado sobre o cavallo que resfolegava involto no cairel cravejado de diamantes e variada pedraria. Seguia-se o pagem do sancto general, a disputar com o amo a posse das riquezas do oriente e das concavidades do oceano em perolas e rubis e esmeraldas. Deslizaram os trinta e sete estandartes dos officios com as insignias de cada um; e logo as cento e cincoenta cruzes das confrarias com variegadas roupetas. Depois, as bandeiras das parochias. Em seguida, as irmandades do SS. Sacramento, que eram trinta e oito com opas escarlates. Principiavam agora as communidades religiosas, que eram quarenta, psalmeando alternadamente uns cantares como responsorios funeraes nos ouvidos de Domingos Leite. Succediam as congregações de clerigos regulares; os tribunaes com os seus presidentes de catadura sombria, os magistrados de toga, os cavalleiros de Christo, de S. Thiago e S. Bento de Avis com os mantos capitulares. Depois a cleresia e o cabido. Agora os coros da musica dilecta do rei; depois os bispos mitrados, e os turiferarios bamboando as nuvens fumosas dos incensos.N'este ponto, Domingos Leite encostou a face á parêde para descobrir do esconso o palio. Avistou-lhe as franjas de ouro do sobre-ceo atravez da nebrina dos perfumes; e por entre as varas, e por sobre a espadua do arcebispo eleito, viu a fronte de D. João IV.Elle temia e tremia do quebranto de sua alma, chegado aquelle indeclinavel trance; mas a presença altiva do tyranno que lhe tirava o pão, a patria, e a filha, engolphando-lhe tudo na devassidão da esposa, sarjou-lhe o coração, repuchou-lhe o sangue em jactos ardentesao cerebro, queimou-o em sedes de fera, deu-lhe as facinorosas deleitações do scelerado.Estava já o palio a dez passos de distancia da caza. Domingos Leite afastara-se para apoiar a extremidade da caravina no envasamento inferior da seteira. Desconfiára do tremor do pulso e da vertigem dos olhos. Ajoelhou, levantou o feixo, e ajustou o dedo ao gatilho. Já o rei, desviado apenas dous passos do palio, se mostrava a descoberto... Mas, no mesmo instante, Domingos Leite viu duas damas que encobriam o rei. É que D. Maria de Arrayolos e a camareira-mór, curvando-se para levantarem do chão um panno de seda que cahira da mão ao principe D. Theodosio, quando enxugava o suor, ficaram, por momentos, quasi á frente do rei, forçadas pela deslocação de alguns fidalgos que, ao mesmo tempo, tentaram, abaixando-se, evitar ás duas senhoras a cortezia de levantar o panno. Ainda Domingos Leite, tenteando pontaria, esperou clareira por onde coubesse uma bala; teve-a n'um relance; mas a certeza de cravar algum dos doze quartos nas senhoras que ladeavam D. João, paralisou-lhe o dedo do gatilho.Restava feril-o pelas costas, ao desandar para a rua dos Torneiros. Subiu acceleradamente ao sobrado de cima, onde abrira duas seteiras na sacada angular, que olhava para duas ruas.Apenas entrou no sobrado e correu a mirar a volta que a procissão ia rodando da Fancaria para a Rua dos Torneiros, antes de descer os olhos sobre a rua, pol-os maquinalmente nas balaustradas de uma caza fronteira, e viu Maria Isabel, e ao lado d'ella uma creança, uma visão da alma ingolphada em Deus... Era Angela, a sua filha!E, cravando n'ella os olhos, e arquejando em angustia que o lacerava com delicias, e ouvindo o coração que chamava por Angela, sentiu-se cahir, largar a arma, dobrar os joelhos, ajoelhar, ajoelhar de mãos postas, cobrir-se de lagrimas, e ouvir como dos labios de um estranho: «Salva-me, ó filha, salva-me!»E D. João IV passou, olhando de soslaio para Maria Isabel, que ajoelhára, e encostára a fronte ás mãos, formando graciosamente um docel para resguardo do sorriso que as outras damas devassavam, e que ella muito se rejubilava que lh'o vissem........................................Ás duas horas, Domingos Leite, com o disfarce que tinha vestido, chegou ao postigo da Graça.Roque da Cunha, avistando-o de longe, foi desprender os cavallos que escarvavam impacientes em uma barroca socavada entre dois combros de piteiras, e sahiu com elles á estrada chã.—Morreu?—perguntou Roque.—Não.—Não?... Que me dizes?... Feriste-o? Não acertaste?..—Não lhe atirei.—Oh!..—exclamou Roque da Cunha—Que diabo fizeste então?..—Nada... Vamos embora, se te não escandaliza um covarde na tua companhia...—Eu ia agora perguntar-te se lhe não atiraras por covarde... Porque me não deixaste estar comtigo, Domingos Leite!.. Com que cara entraremos em Madrid!...—Pois vai só, e deixa-me...—replicou Domingos Leite.—Fazes-me uma grande compaixão!... Que lagrimas são essas...—São umas lagrimas que eu ainda tinha no coração, e só podia choral-as, vendo minha filha!... Foi minha filha que salvou o rei...—Vamos, que eu ouço tropel de cavallos na calçada da Graça...—disse Roque da Cunha—Conhecer-te-hiam?..—É impossivel...Cavalgaram, e deram de esporas. Na assomada de um dos outeiros de Alvalade pararam, e olharam na direcção de Lisboa. Ninguem os seguia. Era uma cavalhada de campinos, que voltavam da procissão do Triumpho, e recolhiam aos seus cazaes.

Aos primeiros assomos do dia seguinte, a casa de Domingos Leite e a de Francisco Mendes Nobre, eram invadidas pela justiça dos corregedores de dois bairros. A da rua dos Vinagreiros foi arrombada, e a outra exposta á busca pelo escudeiro. Bernardo, como gaguejasse nas respostas, foi preso, conduzido, e posto a tractos. O velho, apenas as puas da roda compressas a torno lhe deslocaram os ossos dos braços, confessou que Domingos Leite, ás duas horas da noite passada, se havia refugiado em uma casa da rua das Olarias, pertencente a Francisco Mendes Nobre. A horda dos quadrilheiros derrubou a porta, bateu todos os cantos, e não encontrou vestigios de ali ter estado alguem recentemente; mas um visinho tresnoitado depoz que, por volta das tres e meia da manhã, havia dado tento deestropear de cavallo, depois que a porta da rua se fechára. Pero Fernandes Monteiro, corregedor do crime da côrte, alvitrou que Domingos Leite devia ter partido para Guimarães, sua terra natal.

Incontinenti se despediram postilhões para o Minho.

Fr. Francisco Brandão é o unico, e mais coevo e esclarecido narrador que nos relata estes passos: ...Tres vezes veio o réo sobredicto(Domingos Leite)a este reino, ainda que da primeira não consta que fosse com o mesmo intento. Teve-se noticia da sua entrada n'aquella occasião primeira, e foi tal a desgraça sua que com apertadas dilligencias em Lisboa e Guimaraens se não pôde descobrir nem aprisionar; que a ser assi é veresimil que desculpára as persumpçoens do passado e não incorrêra etc.9

Emquanto estas diligencias frustradas se cumpriam, D. João IV prevenia Antonio Cavide que era forçoso, logo que Domingos Leite estivesse em ferros, transferir Maria Isabel e a filha, com o maximo segredo, para mosteiro muito afastado. Receava o astuto monarcha as declarações escandalosas do preso, as quaes, desmentidas pela clausura da mulher, lhe redobrariam a penalidade, aggravando o crime de homicidio o aleive assacado á pessoa sacratissima do rei e á innocencia da esposa.

Baldaram-se as prevenções. Duas semanas passadas, a espionagem de Antonio Cavide em Madrid assegurou-o que Domingos Leite ali estava, dado que vivesse mais retirado que da primeira fuga. Maria Isabelrecobrou-se dos seus pavores. Cavide folgou do bom successo do negocio sem effusões sanguinarias, o marquez estudava traças de apiedar o rei, e o rei, com grande magua da ciosa Luisa de Gusmão, raras horas passava fóra da tapada de Alcantara.

No entanto, o proscripto, reconcentrado com a sua vergonha, cujo pungir sobre-excedia as angustias da saudade, laborava no cerebro uma idéa de vingança, pela qual elle daria de bom grado a vida, que lhe era cruz atrocissima.

Confidenciou o seu pensamento de matar D. João IV, ao hebreu Francisco Mendes. Este discreto moço oppugnou-lhe o desvairado intento com argumentos e supplicas, instando-o a que o seguisse para Hollanda, e lá pediriam ao tempo o balsamo da chaga, e a vingança do remorso nas consciencias do rei e da collareja real.

Rebelde á rasão e aos rogos, Domingos Leite viu partir o amigo para Amsterdão, quando o medo da inquisição de Hespanha o forçou. Era immensa a tristeza do christão-novo, culpando-se de haver sido elle o propulsor da ida de Leite Pereira a Lisboa, e dos horrendos effeitos que se lhe seguissem.

Roque da Cunha não podia ser estranho á desventura do seu amigo, já por que Domingos lh'a referira, já porque os faccionarios de Filippe IV em Portugal a transmittiram para lá com o intento de aviltar o monarcha, violador adultero da honra dos seus mais serviçaes acclamadores.

Roque era o portador das lastimas de sua mãe e dos fidalgos ao desgraçado, que mais se enfurecia quando o deploravam. A primeira vez que o assassino de Pedro Barbosa e padre Luiz da Silveira o ouviu rugir ameaçasde morte a D. João IV, atirou o sombreiro ao tecto, e bradou:

—Viva Deus! que afinal topei um homem! Quantas vezes, Domingos, quantas vezes eu tenho dito cá muito commigo: «Se Maria Isabel fosse minha mulher, o duque de Bragança, que me deshonrou, havia de morrer tres vezes ás minhas mãos, visto que o padre Luiz morreu uma, não me tendo feito mal nenhum! A mim, na verdade, assombrava-me que este nobre desejo de vingança te não houvesse passado ardente pela alma como um raio da justiça divina! Ainda hontem D. Luiz de Alencastre, irmão do marquez de Porto Seguro, me disse: «E que faz esse brioso Domingos Leite que não espeta dous pelouros no peito do real bandalho que lhe paga os serviços, tomando-lhe a mulher como quem compra com quatro sequins uma fregona do bêcco da Madragôa! Que faz esse homem de honrados figados que matou um padre, pela innocente rasão de ter amado uma mulher primeiro do que elle!» E esta, meu querido amigo, é a linguagem de Diogo Soares, do conde de Figueiró, de Francisco Leitão, e até... queres que te diga tudo? el-rei Filippe IV, que tem sido o exemplo dos reis continentes, quando tal soube, disse: «É bem feito que o mateiro de Villa Viçosa faça os seus vassallos veados, já que alguns d'elles entenderam que o melhor rei seria o mais destro e certeiro matador de porcos-espinhos. É bem feito que Domingos Leite receba alvará de Corneliotacitopara dignamente escrever os Fastos do seu real amo!...» Aqui tens ouro fio o pezo que está fazendo na opinião de Castella o teu infortunio. Ora imagina agora, amigo meu, com que jubilo eu não direi ámanhã a D. Luiz de Alencastre: «Podev. ex.ª dizer a el-rei nosso Senhor que Domingos Leite hade vingar-se de modo que a posteridade o aponte aos reis devassos como aponta o punhal de Bruto aos tyrannos de Roma!»

—Melhor é que não digas nada,—observou glacialmente Domingos Leite—Eu tanto despreso as censuras como os applausos. Se eu matar D. João IV, não me hei de glorificar com os gabos nem descorar na presença dos verdugos...

—Dos verdugos!—acudiu Roque—Se te expozesses ao alcance da corda ou do cutello, serias honrado, mas parvo. Se queres vingança com gloria e reputação de sensato, é mister que o homem morra, e que tu fiques a ouvir-lhe gargantear ode profundis. Alem de que, se a tua heroica idéa fermentar, eu heide ser ouvido, e sócio da aventura...

—Não quero cumplices—disse Domingos Leite.

—Nem amigos? Dize isso aos outros: não o digas a Roque da Cunha, réo de homicidio, na pessoa do muito reverendo thesoureiro de S. Mamede, que Deus conserve áporta inferi, esperando a alma de cantaro de D. João de Bragança. Amigo,—proseguiu, abraçando-o, e recuando o peito para lhe vêr de fito o rosto—Se queres só para ti a gloria de matar o amante de tua mulher, justo é que a tenhas; não serei eu que a dispute á coragem e ao pundonor da tua justiça; porem, quando essa conjunctura venha a realisar-se, Roque da Cunha hade estar á tua beira; por modo, que se a desaventura te fizer cambapé, ambos nós tombemos ao mesmo abysmo. Quem te falla assim, ou hade ser teu cumplice, ou teu inimigo. Escolhe.

—Sabes o que eu escolheria, se me fosse permittidoescolher? A morte; o adormecer, e não acordar; o esquecer-me subitamente d'esta minha execravel situação.

—Temos sesão de fraquesa? Vá lá! Os leões tambem tremem suas maleitas. Não me assusta esse desalento... Ámanhã, quando eu aqui voltar á tua charneca, heide achar essa alma remoçada, e o plano feito. Medita, que eu tambem vou escogitar o meu traçado. Espero que o meu seja o mais acceitavel, porque calculo com animo frio, como os estrategicos que escrevem no quartel da saude a arte da guerra. Domingos Leite Pereira, ouve lá o que eu te digo: Tens nas tuas mãos o destino de Portugal! E serás um dos primeiros da tua patria, se o quizeres ser.

Domingos Leite sorriu-se motejando o enthusiasmo prophetico d'aquelle que ás vezes se lhe pintava infernalmente necessario á sua existencia.

N'aquella noite infinita, a ira, a paixão, fora-lhe exulcerada pelas zombeteiras declamações de Roque da Cunha. A publicidade do seu vexame, e a mofa com que o apodavam de transigente no opprobrio, era cauterio que lhe afogueava as dores. Instantes de desafogo tinha apenas os que a phantasia sinistra lhe pintava, se diante d'ella via escabujar D. João IV, nas vascas da morte como outro qualquer homem. Ponderando no que era e seria sempre sua vida,—engolphando-se na treva que todos os passos lhe negrejava pelo futuro alem,—pareceu-lhe que matar o rei, e deixar-se matar sem soltar gemido de covarde angustia, seria a mais brilhante e redemptora solução de sua desgraça.

Aclarava o dia seguinte, e já Roque da Cunha batia á porta da casa campestre de Domingos Leite.

Radiou intima alegria no aspeito do marido de Maria Izabel. Um homem bom, um consolador christão, ser-lhe-hia repugnante, depois d'aquella insomnia de febril raiva e espectaculos fantasticos de sangue e patibulos. O unico homem competente á sua desesperação era Roque. Abraçou-o com arrebatada ternura, e exclamou:

—Heide matal-o!

—Isso sabia eu...—disse o outro friamente.—Resta saber como.

—Pensaste?

—A noite toda. São cinco horas e meia. Bem sabes que é meu costume levantar-me ás dez, quando durmo o somno do justo. Não dormi nada. Estive com Diogo Soares até ás onze, com o conde de Figueiró até á meia noite, com D. Luiz de Haro até á uma, com meu padrasto até ás duas, e d'ahi em diante commigo só, e agora comtigo para te dizer o que vais ouvir...

—Toda essa gente—interrompeu Domingos Leite—está, por tanto, no segredo dos meus projectos?...

—Assim como estava no segredo das tuas desventuras.

—Vamos lá, dize, que eu já me não embaraço com pequenas miserias. Que vens annunciar-me? que plano trazes?

—Plano de grande artifice. Não é meu: dou o pai á creança: é de Diogo Soares. O duque de Bragança não póde ser morto face a face, nem dentro do paço, nem na rua, nem nas passagens que elle costuma fazer de um palacio para outro, com grande escolta. Quanto elle é covarde sabêm'ol-o nós, desde que inventámos n'elleum rei legitimo; e, depois que a vida lhe esteve a pique das espadas do conde de Armamar e do marquez de Villa Real, hade ter bom olho quem o vir sósinho ao alcance de um tiro, ou quem o descobrir a dez leguas de distancia de um arraial. Covarde como todos os infames, diz o conde de Figueiró. Observei eu ao ministro Soares que tu, homem de bizarra condição, não quererias matar o duque de cilada. Replicou Soares perguntando-me se o duque, empolgando-te a esposa, te matára o coração com a vizeira levantada, ou se te não ferira com a mais abominavel perfidia. Não tinha replica sensata a pergunta. Traição por traição. Seguiu-se discutir a traça da morte. Diogo Soares pediu meia hora de meditação. Apanhou a calva fronte entre as mãos, espremeu os miolos, e decretou o seguinte: A procissão de Corpus-Christi cahe este anno no dia 20 de junho. Iremos para Lisboa, sem perda de tempo. São hoje 24 de abril. Devemos partir d'aqui no fim do mez. Soares tem amigos seguros em Lisboa, que nos hãode alojar sem risco. Alugaremos casas em uma das ruas por onde a procissão hade passar. Estas casas hão ter outras e outras contiguas que tambem allugaremos. Abriremos communicações entre ellas, de modo que façam frente para duas ruas. Suppõe tu... proseguiu Roque traçando no papel a planta das casas ... Aqui tens tu tres moradas de casas, vês?

—Sim.

—Imagina que estamos na extrema da parochia de S. Nicolau. A entrada d'este primeiro predio é por este bêcco. Sabes como se chama?

—Não.

—É o bêcco de Pero Ponce de Leão, que vai daraqui ao Terreiro de traz da capella mór de S. Nicolau. Percebes?

—Percebo...

—Bem. Aqui n'este Terreiro principia a rua dos Torneiros. Ella aqui vai... Ora agora, este outro predio, como vês, fica no ultimo canto da rua dos Torneiros, e faz face para a Fancaria e bêco do Ourinol. Comprehendes?

—Sim.

—A outra casa, como vês, está no meio das duas.

—É claro.

—A procissão, ao recolher da Sé, vem aqui ter da rua dos Torneiros. Quando aqui passar, temos o rei pela frente; e, quando entrar na Fancaria, têmol-o de costas, não é assim?

—É.

—N'esta casa, que olha para a Tornearia, abrimos uma seteira; e aqui, no angulo que fronteia com a Fancaria, abrimos duas, uma no primeiro sobrado, e outra no segundo. A do primeiro andar, como vês, é que mais geito nos dá para a pontaria, porque a rua aqui é larga. Deu-se o tiro nas costas do rei, suppomos. Nada mais facil que o escapar-se a gente. Esta casa d'onde sahiu o tiro está trancada com alavancas. O povo naturalmente quer arrombar a casa, d'onde sahiu o estrondo, não é assim? Mas emquanto se arromba a porta, passamos nós para esta casa do meio, pela communicação interior que temos aberta, e d'aqui passamos a estas que estão no beco de Pero Ponce, mettemo-nos ao meio da multidão, vestidos de atafoneiros, vamos sahir ao postigo de Nossa Senhora da Graça, cavalgamos á noite fechada, e passem por lá muito bem. Que te parece?

—Tudo isso é de Diogo Soares?

—É.

—E as casas tambem?

—As casas!..

—Não digo as casas que pintaste; pergunto se são d'elle e estão devolutos os trez predios representados n'estas linhas.

—Entendo o gracejo. Queres dizer que não estão á nossa espera trez casas com taes condições...

—Quer-me parecer...

—Esse milagre pertence á alçada do dinheiro.

—Não contes commigo, que sou pobre.

—Conto eu...

—Com quem?

—Commigo.

—É el-rei de Hespanha que me dá recursos para me eu desaffrontar? Regeito-os.

—Não é el-rei de Hespanha: sou eu. Tudo que se gastar não será um terço do que te devo. Esqueces-te de que as tuas algibeiras em solteiro eram as minhas? Saldaremos contas depois. Approvas o plano ou tens outro?

—Tenho outro.

—Dize lá.

—Esperar el-rei, á entrada ou sahida da casa de Maria Isabel, e matal-o.

—E depois?

—Morrer, ou ás minhas proprias mãos, ou ás do carrasco.

—Acho isso bastante antigo;—volveu o outro motejando—parece-me grego ou romano; mas é tolo, consente á minha amisade que t'o escreva assim na fronte, é romanamente e gregamente tolo esse plano.

—O que tu quizeres. Devo dizer-te que assim mataria o padre, se elle houvesse sido amante de minha mulher.

—Onde mora tua mulher?

—Não sei.

—A quem o vais perguntar?

—Lá verei.

—Não verás nada; não acharás ninguem que t'o diga. Não se espera um rei á porta de uma amante. Os reis não entram nem sahem pelas portas, nem pelas janellas, nem pelas trapeiras das amantes. E o duque de Bragança, desde que D. Francisco Manuel lhe bateu no pateo da condessa de Villa Nova de Portimão (tu sabes que o pobre poeta está preso na Torre Velha ha quatro annos..) nunca mais andou n'estes cazos como homem em quem as pranchadas de uma espada não são brincadeira. A tal respeito, vem de molde informar-te, segundo as informações que teve Diogo Soares, que a sr.ª Maria Isabel não recebe o amante em sua casa; é recebida no palacio de Alcantara. Ninguem sabe quando; mas sabe-se por onde. O pavilhão e as colgaduras do seu camarim amoroso são as arvores da tapada; é o que os passarinhos lá cantam uns aos outros.

Domingos Leite fez um gesto de indignação, e disse:

—Isso é vil!..

—Que é vil?!

—A minha desgraça deve poder mais que o teu genio zombeteiro!

—Não zombo, Domingos!.. Tracto de obstruir com a irrisão as veredas por onde tu queres ir a uma desgraça infallivel. Matares o rei frente a frente!.. Sabes lá oque isso é?.. Corto a cabeça se fores capaz, se quer, de o encarar com um pensamento homicida!

—Essa!...—atalhou Domingos Leite.

—Bravos cavalleiros eram os fidalgos inimigos de D. João II; valentes e expostos á morte andavam os duques de Bragança e Vizeu; muitas occasioens se lhes ageitaram de matar o rei; e, chegado o lanço de o apunhalarem, retrahia-se-lhes o braço gelado da covardia que incute na alma o olhar de um homem que se chamarei—coisa fantastica mas terribilissima como a palavradiaboás creanças que o temem. Poderoso de braço e coração era o duque de Vizeu, e ali se deixou cravejar de punhaladas de D. João II...

—Depois de agarrado pelas costas...—ajuntou Domingos Leite.

—Pelas costas são agarrados todos aquelles que os reis querem matar, Domingos Leite... (Nota 23.ª) Eu não percebo o que seja vingança, se a desaffronta custa a vida de quem se vinga. Morrer eu, sem provar o nectar dos deuses! morrer, fechar os olhos, não ver... não palpar a victima! Então, antes eu queria perdoar-lhes christãmente, e deixar-me acabar de paixão; que assim pelo menos havia de ter dois frades que espalhassem cá por baixo que eu estava no ceo; mas passar da vingança á forca! Domingos Leite, deixa-me abraçar-te, e dizer-te que tu não és parvo! Não deves dar a tua cabeça ao algoz como prova de que não podes viver sem o amor e a fidelidade de Maria Isabel Traga-malhas. Que mates o rei ou mates o ultimo criado das cavallariças reaes, isso que monta, se a tua questão não é a morte, é a vingança! E, depois, homem, ouve lá isto: Se tentares publicamente contra el-rei, ainda que nemde leve o firas, sabes que desde a masmorra até ao cadafalso hasde ser arrastado nas ruas; e que no Pelourinho te hão de decepar as mãos; e mutilado, com horrendissimas agonias, te hão de levar muito de vagar até á forca; e que tua filha hade ser herdeira da tua infamia até á terceira geração, privada dos bens, por que tudo que houver sido teu hade ser confiscado para a camara real?... Pensaste n'isto? viste a tua querida Angela entre ti e o rei e o carrasco?...

Domingos Leite passou vertiginosamennte a mão pela fronte, e murmurou:

—Jesus!...

Invocára o dulcissimo nome da divina caridade humanada, e... estava perdido! Quem sabe como lá soou nos juizos de Deus aquella invocação! Quem sabe a distancia que medeia entre o grito do homem e a serena magestade do seu Creador!

Roque da Cunha negociava com os ministros de Filippe IV, em nome de Domingos Leite, a morte do uzurpador. Encomiando o caracter audaz do seu amigo, encarecia-o tambem como grato e affeiçoado ao rei de Hespanha; sendo que a facção planeada timbrava tanto de pessoal como de politica. E, do mesmo passo, entre-mostrava que o ex-escrivão do civel da côrte, pelo facto de haver sido tão liberalmente remunerado, creara necessidades de pompas, que el-rei de Castella poderia de antemão assegurar-lhe em Madrid, com promessas de maiores vantagens, restaurado Portugal.

Exposto isto ao valido por Francisco Leitão, o secretario das mercês nomeou Domingos Leite em uma commenda de Christo de lotação de duzentos cruzados e brindou o medianeiro com quatrocentos escudos e umofficio na casa real. Quanto á partilha do espolio de Portugal, Diogo Soares, desde logo, magnanimamente nomeou seu secretario Domingos Leite, com meio vencimento, até se abancar na respectiva secretaria.

Roque apressurava n'este em meio a sahida para Lisboa recolhendo no seu alforge afivelado de moscovia de prata provimento de quartos e pelouros, e frascos de peçonha com que as balas deviam ser hervadas. Da parte de Filippe IV recebeu, por mão do desembargador Guedelha, Domingos Leite uma escopêta de primoroso artificio, ao mesmo tempo que lhe entregava o alvará da mercê da commenda de Santa Maria de Valdestillas, e carta de passagem e recommendação muito instante ao marquez de Mollinguen.

Em 6 de maio de 1647 estavam Domingos Leite e Roque da Cunha, na Ameixoeira, uma legua distante de Lisboa, em casa de Bento Rodrigues Taveira, amigo de Diogo Soares.

Haviam ambos cortado as barbas, antes de entrar em Portugal. Roque trajára-se com a simplicidade de mercador, e fallava uma linguagem estrangeirada com mescla de termos hollandezes.

Nos primeiros dias concorreu á Ameixoeira um negociante de sola, chamado Serges, de origem allemã, cujo avô, em tempo d'el-rei D. Manuel, se estabelecêra em Lisboa com privilegio de sapateiro. Serges era espião de Castella em Lisboa, onde, áquelle tempo, amealhava grossos haveres. Ao tempo que os regicidas sahiam de Madrid, era o sagaz mercador avisado por expresso afim de se avistar com elles em casa do fugitivo partidario dos Filippes, na Ameixoeira.

Apresentou-lhe Roque a planta das casas escolhidaspor Diogo Soares para a emboscada. Devia ser Serges o alugador das casas, sob color de querer armazenar n'ellas os seus generos, logo que lhe chegasse de fóra a carga extraordinaria que encommendára, prevenindo-se para o consummo da grande guerra e para a contingencia dos bloqueios. Assim explicava o mercador aos inquilinos dos tres ou quatro prédios o interesse grande que punha em alugar as casas pelo dôbro da sua renda. Tão minucioso é n'esta relação o manuscripto consultado, que não lhe esqueceu dizer-nos ser o proprietario das casas Gomes Freire, fidalgo de Beja.

O plano de Diogo Soares foi levemente alterado, segundo deprehendemos da descripção particularisada doMs.que reza assim: «A morada de casas que primeiro alugou Simão Serges está em um bêcco fronteiro á Capella mayor de S. Nicolau; e por um passadiço sahe a outro bêcco que desemboca na Tinturaria e cinge por aquella parte a Tornoaria; e além d'estas alugou mais tres moradas, umas que dizem para a Tinturaria, e outras que fazem a revolta da rua dos Torneiros, e as ultimas no recanto d'esta rua, que faz desegualdade a outro canto de Quebra-Costas.»

Conseguido o despejo dos quatro prédios, Domingos Leite e Roque da Cunha alojaram-se no Bêcco de Ponce de Leão, na noite de 20 de maio, sem encontro que lhes desfalcasse a coragem. Serges proveu-os dos viveres necessarios, ferramenta e tudo que os dispensasse de sahirem.

O trabalho interior de demolir e construir communicação de umas para outras casas era pezado para mãos mimosas e não callejadas na alavanca e picarêta. Como os planos dos sobrados eram desiguaes, ao romperemas paredes mestras tiveram de escadear a passagem d'uns aos outros, e cobrir os envazamentos com tal artificio que, se os procurassem na primeira casa, não se lobrigassem vestigios de passagem para a immediata. Quanto ao melhor local para abertura de setteiras, escolheram uma esquina que dominava toda a rua dos Torneiros e parte da Correaria, resolvendo descarregar sobre o rei pelas espaldas; e abriram outra, conforme o plano de Madrid, para, em conjunctura melhormente proporcionada, lhe atirarem de frente.

Estes preparativos estavam concluidos em 15 de junho, com poucas ferias de repouso, e nem o minimo ruido que motivasse a curiosidade dos visinhos.

Em algumas das noites decorridas, Domingos Leite quiz sahir com o disfarce de atafoneiro; mas Roque embargava-lhe o passo com reflexões de prudencial severidade. Figurara-se-lhe possivel vêr, acaso, a filha estremecida. Escutando o coração, o pae de Angela decifrava no vago terror que lá lh'o innoitecia que nunca mais havia de vêl-a! Enganava-se. Tinha de vêl-a um instante, e esse seria o derradeiro e unico.

Todavia, se Domingos Leite, na noite de 19 de junho, se confundisse na multidão que enchia o Terreiro do Paço, veria Maria Isabel e Angela, recostadas nos almadraques de uma liteira, a gozarem o espectaculo das columnas resplendentes de lampadarios de christal que era costume accenderem-se n'aquella praça, na do Rocio, e em todas as ruas percorridas pela procissão do Corpo de Deus. Depois, iria no rasto da litteira pela rua Aurea, pela dos Mercadores, dos Ourives da prata, dos Escudeiros, dos Odreiros, da Almada, das Portas de Santa Catharina, de S. José, com os seus trintapalacios estrellados de luminarias, e pela Calçada do Combro, onde o palacio do Monteiro-mór excedia os mais sumptuosos na bellesa da illuminação. Por todas estas ruas abobadadas de esteira, com figurações christãs e pagãs nos remates de cada cunhal, poderia Domingos Leite seguir a litteira de sua mulher, vêr a espaços o rosto alegre da filha, debruçada na portinhola perguntando á mãe a significação das estranhas figuras debuxadas nos guadalmecins e paineis que tapizavam as paredes e balcões das sacadas. E, depois, ahi por volta da meia noite, seguil-a-hia ao longo do bairro da Marinha, estrada de Alcantara, até que, apagado o clarão dos lustres que alumiavam, se acingisse á liteira e apunhalasse a esposa, e sobraçasse a filha, e a devorasse de beijos, e morresse n'aquelle extasis!

Mas, a essa hora de tumultuosa alegria, Domingos Leite, depois de ceia, encostou os cotovellos á meza, apoiou a barba entre as mãos, e disse a Roque da Cunha:

—Parece-me que foi Leonidas, na vespera da passagem das Thermopilas, que disse aos trezentos companheiros da sua funesta façanha, depois de jantar: «hoje aqui jantamos, e iremos cear ao reino de Plutão.» Onde iremos nós cear ámanhã?

—D'aqui trez leguas: á estalagem da Povoa de D. Martinho, onde ainda ha um velho Malaga, que os portuguezes bebem para matar a sêde do sangue de castelhanos—respondeu Roque sorrindo.

—Vamos marcar os nossos postos—volveu o commendador de S. Maria de Valdestillas.

—Estão marcados.

—Ainda não. Onde hasde tu estar quando eu atirar ao rei?

—Aonde? aqui.

—Não quero. Ao pé de mim, não. Se eu for agarrado, quero ver-me sósinho, face a face do algoz. Se o homem morrer, e eu me evadir, não disputarei o teu quinhão de gloria n'este feito. Dirás em Madrid, e eu confirmarei, que tu estavas ao meu lado, com o pé na beira do meu abysmo, com o pescoço exposto ao mesmo esparto, com as mãos debaixo do mesmo cutello. A hora é excellente para sahires d'aqui por entre o povo que enche as ruas. Os cavallos, a esta hora, devem estar na Ameixoeira, segundo combinamos com o marquez de Molinguen. Vai tu pernoitar á Ameixoeira, e ámanhã, por volta do meio dia, parte com elles e espera-me no Postigo da Senhora da Graça. Se eu lá não estiver antes das tres, foge, porque então estarei preso ou morto.

—Mas...

—Não questionemos. Isto é resolução feita e inalteravel. Tenho-te dito que não quero cumplices; e, se guardei para esta hora o declarar-t'o formalmente, foi por evitar contestações então, e agora muito mais, que é tarde para discutir. Vamos. A pé e sahir. Dá cá um abraço. Até ámanhã de tarde, ou... até... nunca mais. Viverei ou morrerei agradecido á tua dedicação. Ingrato e atrozmente egoista seria eu, se arriscasse a tua cabeça n'um desaggravo da minha honra. Se eu morrer, se me não vires mais, dize ao rei d'Hespanha que o alvará da commenda com que nobilitou minha resalva de assassino o desfiz em buchas para a escopêta com que me elle brindou. E adeus!

Roque da Cunha abraçou-o sem commoção sensivel. Para esta frieza concorria a crua rigidez de sua compleiçãoe a esperança do bom exito da entrepreza. Se Domingos Leite lograsse penetrar-lhe nas cavernas do peito, veria lá dentro assomos de jubilo. Desde que o dia 20 de junho se aproximava, Roque meditava absôrto e pávido no trance do tiro, nos paroxismos do rei, no torvelinho do povo, na grita de milhares de vozes, no arrombarem-se as portas, na linha de alabardeiros cintando as ruas, na sua propria cara a delatar o crime, nos crimes impunes da sua proterva historia—em fim, na forca.

Se um homem n'estas condições ousaria prever que um historiographo portuguez, seculo e meio depois, escreveria d'elle:... cheio de confusão e honra!

Pois houve! O leitor verá que n'esta sua, tão sua e minha querida terra, temos historiadores que denominam a incestuosa mulher de Pedro IIrainha prudentissima(veja o sr. conselheiro Antonio José Viale, na suaHistoria) e Roque da Cunhahomem cheio de confusão e honra. (Veja Roque Ferreira Lobo na suaHistoria da acclamação deD. João IV.)

Ás dez da noute sahira Roque. Ás onze já Domingos Leite, vestido de feitio que nenhum traço arguia o aparaltado do escrivão do civel, parava no largo da Porta do Salvador, contemplando a casa immersa em trevas, que nenhum pontinho luminoso interceptava. Que fazia alli?

Fantasiára que o seu velho criado lá estaria, não obstante lhe dizer Roque da Cunha que a justiça lhe dera tractos até saber onde o amo se escondia; e, sendo assim, de certo o expulsaria Maria Isabel.

Ajustou-se á frontaria da caza, e tocou no postigo da fresta, chamando Bernardo.

N'este lance, pessoa que elle não vira em uma janella a refrigerar-se na aragem da noite, disse com voz senil:

—Ahi não mora ninguem.

Domingos estremeceu; mas, cobrando animo com a probabilidade de segurança de nenhum perigo, perguntou:

—Sabe dizer-me onde está um homem que aqui morava ha coisa de dois mezes?

A pessoa interrogada não respondeu; retrahiu-se da janella, e fechou-a. Domingos Leite, ouvindo o bater das portadas, não podia perceber a descortezia ou qualquer outro sentimento de quem quer que fosse, e principiava a censurar-se da indiscreta pergunta, quando uma porta rodou vagarosamente, e voz tremula de dentro disse anciadamente:

—Entre, entre depressa...

Domingos reconheceu a voz de Bernardo.

O velho colheu-o nos braços suffocado por convulsos gemidos, e cahiu de joelhos exclamando:

—Ai meu amo que vem entregar-se á morte!..

—Não venho... não te assustes... Deixa-me subir ao teu sobrado e conversar comtigo, meu pobre amigo...—murmurou o amo.

O velho precedeu-o na subida da ingreme escada, pedindo-lhe que fallasse baixinho, porque no segundo andar estava gente ainda a pé.

—Foi certo darem-te tratos, Bernardo?—perguntou Domingos Leite sentando-se no unico tamborete da pobre quadra.

—Quem lh'o disse, meu senhor?

—Soube-se em Madrid.

—Foi verdade. Aqui estão as costuras nos dedos. Descarnaram-me os ossos. Eu já não podia com as dôres quando disse que vossa mercê tinha uma caza nasOlarias; mas disse porque me bacorejava o coração que meu amo não estava lá...

—Meu infeliz amigo!...—atalhou Domingos com os olhos aguados—E não voltaste para casa de... Maria Isabel?

—Fui ter-me com ella...

—Aonde?

—A um palacete em Alcantara, onde me disseram que ella morava umas pessoas da justiça em casa do corregedor, e por tal signal que...

—Por signal que...

—O melhor é calar-me, sr. Leite; mas... a fallar verdade...

—O quê? podes fallar... Disseram-te que era uma mulher perdida...

—É verdade, e não me mentiram, queira vossa mercê perdoar-me...

—Fallaste-lhe?

—Sim, sr. Fallei-lhe com mais lagrimas que vozes. Disse-lhe que o senhor seu marido passára uma noite na caza do Salvador; que estivera no quarto a embalar o berço... N'isto, a menina que estava alli a ouvir-me, rompeu a chorar que cortava o coração, e a clamar que queria ver seu pai; que queria ir com o seu Bernardo ver o seu paizinho; que a mãe era muito má em não a deixar ir, e outras coisas, meu amo, que faziam chorar as pedras. E vai a mãe, neste entrementes, pega por um braço da filha com arremessão, e tira por ella lá para o interior da casa. Eu fiquei estarrecido, a ouvir os gritos da menina lá dentro, até que chegou um escudeiro, e me mandou sahir d'alli por ordem da fidalga. «Pois sim, eu vou; mas vá vossê dizer á senhoraque o seu velho criado não a offendeu; e que eu vim cá para lhe dar conta das alfaias da sua casa, ou saber se alguma lhe falta, que de certo não fui eu que a tirei.»—Foi o escudeiro com o recado, e voltou logo dizendo que a fidalga não queria saber de contos; que me puzesse na rua. Tornei-lhe a mandar pedir que ao menos me mandasse entregar a minha árca onde eu tinha o meu fato e as minhas economias. O escudeiro, talvez porque tambem era pobre e me viu a chorar, teve pena de mim e tornou lá dentro. D'ahi a pouco voltou e disse-me que ia commigo para me dar a minha arca. Veio com effeito, e pelo caminho fora, de Alcantara até aqui á rua, e depois lá no meu quarto, contei-lhe tudo que se tinha passado; e elle que não sabia de nada, porque sahiu do palacio real de Belem para ir servir aquella fidalga por ordem do sr. Antonio Cavide, disse-me então o que vossa mercê, pelos modos, já sabe...

—Sei... E então, meu Bernardo, estás muito pobre?

—Não, meu amo. Ainda tenho dinheirinho do que vossa mercê me dava quando era solteiro; mas, como estou muito acabado e não posso trabalhar com as mãos desde que m'as quebraram na tortura, não tenho remedio senão viver com muito pouco, para não ter de ir pedir por portas. E vossa mercê tem mingua de dinheiro? Eu tenho alli quinze moedas de ouro de quatro cruzados cada uma; se vossa mercê as quer, assim Deus me salve como eu lh'as dou com todo o meu coração...

—Não preciso; obrigado, meu querido amigo, obrigado... Disseste-me que minha filha chorava—volveu Domingos Leite, depois de longo silencio e profundo recolhimento.

—Se chorava!.. quando me viu e conheceu, corria para mim com os bracinhos abertos; mas a mãe botou-lhe a mão ao braço, e puxou-a para si. Assim que eu contei a passagem do berço, e da tristeza com que o paisinho da menina olhava para elle, as lagrimas saltaram-lhe como punhos; e a mãe lançava-lhe de esguelha uns olhos furiosos, que pareciam querel-a espedaçar...

—Ai!.. se eu a visse...—murmurou Domingos Leite.

—Como hade vossa mercê vel-a, meu senhor!... Não pense n'isso, porque tenho ouvido dizer que, se o apanham, a sentença menor que tem o meu amo é degredo perpetuo, se não lh'a derem peor... A que veio a Lisboa, sr. Domingos Leite? que peccados o trazem aqui?...

—Sabel-o-has, quando fôr tempo...—respondeu Leite serenamente—Escuta, Bernardo: sabes que tenho pai?

—Pois não sei!..

—Chama-se Antonio Leite, vive em Guimarães, e tem officina de cutelleiro na rua Infesta. Agora, jura-me que cumprirás o que te vou pedir.

—Não é mister jurár, senhor!

—Se acontecer eu ámanhã ser preso ou morto...

—Sancto nome de Jesus!—clamou Bernardo.

—Não me interrompas com lastimas que não remedeiam o meu destino... Attende, meu amigo... Se acontecer eu amanhã ser preso ou morto, parte logo para Guimarães, procura meu pai na rua Infesta, e dize-lhe que eu morri ou vou morrer, sacrificando a vida infamada á honra de a perder em desaffronta de um grande ultrage. Não tens aqui papel e tinta. Se tivesses, escrever-lhe-hia:mas, ámanhã, por esta hora, se eu estiver preso ou morto, vai e dize-lhe, se te não lembrar mais nada, que D. João IV era o amante da mulher de seu filho. Mas, se eu não estiver preso nem morto, e algum acontecimento explicar o mais que eu te não digo, pede-te o teu pobre Domingos Leite que leves comtigo á sepultura o segredo que adivinhares.

Bernardo queria debalde replicar; mas as palavras eram-lhe estranguladas nos soluços.

N'este conflicto, Domingos Leite abraçou o velho; e, desprendendo-se-lhe dos braços, desceu as escadas subtilmente.

Eram já desertas as ruas, quando entrou na casa do Becco de Ponce Leão; e, atravessando os outros predios até ganhar o sobrado, cuja janella esquinada dominava as ruas dos Torneiros e parte da Fancaria, abriu o alforge de moscovia, e tirou os frascos de peçonha, e um caixotinho com quartos e balas. Hervou o pelouro e os zagalotes, mergulhando-os cautelosamente no toxico: sevou a cravina de polvora, metteu as balas calcando-as com a vareta sobre a bucha (Nota 24.ª) introduziu as doze costas ou quartos, lascou, antes de escorvar, com a lamina de uma agumia o rebordo da caçoleta, azeitou o gatilho, experimentando-o, encheu a escorva, bateu na culatra tres punhadas afim de sevar plenamente de polvora o ouvido, e trez vezes fez pontaria em diversas direcções. Feito isto, apagou o candil, abriu de manso as portadas da sacada, e ao lampejo tremulo de algumas luminarias que vasquejavam, esteve examinando as duas ruas confluentes; depois, retrahindo-se, abocou a escopeta a dois alvos, que, naturalmente, se lhe figuraram o corpo sacratissimo de sua magestade. Esta phrase,um tanto descabidamente faceta, corresponde ao esgar de riso ferino que lhe refegou os beiços, vibrando os musculos faciaes.

Ás trez horas da manhã começaram a repicar os sinos da bazilica de santa Maria Maior, e logo todas as torres saudaram a jubilosa arraiada da vetusta metrópole. Já se ouviam as charangas de atabales e clarins que, nas ruas comvisinhas do templo, annunciavam a sahida da procissão, mais matutina que o sol. Aquelle tão comprido dia de junho era mister começal-o ao arrebol da manhã para que o tempo não escasseasse ás alegrias do povo.

Domingos Leite, escutando a resonancia estridula dos clarins e o tanger festivo dos sinos, foi ao passado buscar memorias da sua alma despedaçada, e todas viu em um relance afflictivo de olhos. Tambem elle tinha acordado alegre ao ruido d'aquellas musicas quando era moço e rico, feliz e amado. Tambem elle n'aquellas manhãs de luz e flores folgava de madrugar, e passeiar as ruas de Lisboa, respirando o acre das espadanas e rosmaninho que verdejava o transito, por debaixo dos doceis e grinaldas. Ainda no anno anterior, sahira elle áquella hora, depois de uma noite mal-dormida, com a filhinha pela mão, e entrara na bazilica, ensinando a creança a pedir a Deus por si e por elle.

Quanto mudado, ó desventura! Que voragem entre o secretario do marquez de Gouvêa e o determinado assassino de D. João IV! Como elle se contemplava na escuridade profunda de sua alma ao reflexo do gentil, do invejado mancebo que fôra! Que horrendissimo doer não seria o do seu espirito, quando a cabeça lhe cahía para o peito, e as mãos enclavinhadas e tremulas comprimiamo pescoço, como se quizesse impedir que aos ouvidos lhe chegasse o regosijo d'aquellas toadas!

E áquella mesma hora, Maria Isabel, despertada pelos repiques do mosteiro do Calvario, saltava alegremente d'entre as cortinas adamascadas do leito, chamava a aia que a penteasse, e ordenava que lhe vestissem Angela.

—Então d'onde vai ver a procissão, sr.ª D. Maria Isabel?—perguntou a aia com a confiança de criada antiga e quinhoeira dos segredos da ama.

—Vou para o palacio do Galvão, no Rocio, ou para casa do senhor da Trofa, na Rua dos Torneiros: ainda não sei.

—No Rocio é mais bonito...—volveu a aia.

—Mas eu prefiro a Rua dos Torneiros.

—Eu bem sei porque, minha senhora...

—Ah! sabes? és muito esperta!... Ora dize lá...

—É porque el-rei passa mais chegadinho á caza do senhor de Trofa que á do Galvão... Adivinhei?

—Parece-me que sim...—assentiu Maria Isabel com uma despejada denguice—Tenho passado estes dias tão aborrecida...

—Pois, sim, sim... Não sahe de caza a minha senhora... passa as noutes sósinha... Quando se vai embora a rainha para Lisboa?

—No principio do inverno.

—Que praga!.. E a sr.ª D. Maria Isabel, por amor d'ella, nem ás janellas vai! Tambem não sei por que razão el-rei tem medo que a rainha desconfie... Sempre ouvi dizer que o rei se lhe dava pouco dos ciumes d'ella. Acho que o sr. D. João IV o que receia é que a vejam os fidalgos que se ajuntam em Alcantara emquantosua magestade cá está... Se alguem tem ciumes, não é a rainha, é o rei...

Sorriu-se lisongeada Maria Isabel, e murmurou:

—És tola, és tola... Quem trocaria eu n'este mundo por el-rei?

—Isso lá, minha senhora—replicou a aia—tem-se visto d'essas trocas... Bem podia V. S.ª gostar mais dos condes que eu por ahi vejo a passear no largo do que de el-rei; apesar de que sua magestade está ainda muito fresco, e parece um mancebo... Como vai V. S.ª vestida á procissão?

—Levo saia de seda verde com barras pretas de velludo; gibão de tafetá azul, com cossoletes de ouro.

—E que manto leva?

—O de seda verde.

—O branco vai-lhe melhor sobre o gibão azul.

—Vai? pois levarei o branco.

—E chapins? os azues com rubis?

—Não; os verdes com diamantes.

—Eu acho os outros tão lindos!.. Ainda me lembra o contentamento com que V. S.ª calçou outros da mesma côr, faz agora dois annos, quando foi a esta mesma procissão com seu marido... Lembra-se?

Maria Isabel não lhe respondeu. A aia, affeita a lidar com os caprichos da senhora, absteve-se de repizar no assumpto desagradavel, posto que Maria Isabel, algumas vezes, ouvisse fallar indifferentemente do marido.

—A que hora vai a senhora para a rua dos Torneiros?

—A cadeirinha hade estar prompta ás nove horas.

—Por que não vai no coche do ministro Cavide, que lh'o offereceu?

—Não me appetece andar em côches alheios. Heide comprar um quando me parecer.

—Faz V. S.ª muito bem... não sei como el-rei lh'o não tem dado...

—Não quero. Sou bastante rica. Posso ter côche sem dever favores ao rei.

A conversação foi cortada pela vinda de Angela, que já estava vestida e encantadoramente galante com o seu gibão escarlate de passamanes de prata, saia de trez barras com debruns de lhama de ouro, chapins altos de setim branco e tacão escarlate, volante de rendas na cabeça, ondeando por sobre as espiraes de tranças louras que lhe deslizavam nas espaduas meio nuas.

Ás 9 horas entraram Maria Isabel e a filha na cadeirinha. Pouco depois, sahia D. João IV do palacio de Alcantara, em côche, com o manto de grão-mestre da ordem de Christo, precedido dos reis d'armas, e seguido do principe D. Theodosio, e cento e cincoenta cavalleiros das ordens militares, em cavallos pomposamente ajaesados.

El-rei ia só e melancolico; mas, no rosto carregado, relampedejou-lhe um clarão de alegria, quando, ao passar pela cadeirinha que ao longe conhecera, viu aquella formosa face cujo primeiro verniz de pudor se desbotára nos beijos do padre Luiz da Silveira.

A melancolia de el-rei quer o meu manuscripto legitimal-a com estes catholicos dizeres: «No oratorio da quinta de Alcantara tinha sua magestade commungado, esteve em oração mais do que costumava, e sahindo, disse á rainha, nossa senhora: Eu vou com grande trabalho. E dizem que, havia tempos, lhe tinham dito que em uma procissão do corpo de Deus o haviam de matar;e el-rei respondêra que junto ao sanctissimo sacramento lhe não podia succeder mal.» Ainda bem!

Se estes pios casos de commungar, e sahir mal disposto, e meditativo no sinistro vaticinio, assombraram o real semblante, ainda bem que o langoroso olhar da Traga-malhas espancou o profeta de máo agouro, e abriu nos labios do rei commungado um sorriso que radiou nas bochechas dos seus vassallos.

Por volta das onze horas, Domingos Leite, espreitando o concurso de povo, que já tomava os lados das ruas, notou que a seteira baixa que abrira para o lado da Fancaria era a melhormente azada para desfechar sobre o rei, visto que alli a multidão, abrindo uma especie de clareira, obrigada pelo aperto do cunhal das duas ruas confluentes, deixava a descoberto o palio, ao qual devia seguir-se a familia real. Regeitou, portanto, o plano traçado de dísparar pela seteira alta, que dava sobre a rua dos Torneiros, parecendo-lhe quasi impossivel de ponto elevado, por mais firme que pozesse o fito, acertar no rei.

Assim, pois, que os atabales estrondearam no topo da Fancaria, Domingos Leite pegou da cravina, e foi ajoelhar rente com a seteira baixa. O dia era ardentissimo; e, elle, sentindo as mãos geladas, friccionava uma na outra receando que o dêdo do gatilho fizesse tremer a escopeta, e desviar o tiro. Era o frio do terror; era a honra convencional dos homens subjugada pelo ingenito respeito á vida humana.

Entreviu a passagem dos cavallos á destra, cobertos de telizes de velludo escarlate com as armas de Bragança em relevo de ouro, levados de redea por lacaios com a libré real. Passou S. Jorje, cabeceando a suaplumagem do murrião, cavalgado sobre o cavallo que resfolegava involto no cairel cravejado de diamantes e variada pedraria. Seguia-se o pagem do sancto general, a disputar com o amo a posse das riquezas do oriente e das concavidades do oceano em perolas e rubis e esmeraldas. Deslizaram os trinta e sete estandartes dos officios com as insignias de cada um; e logo as cento e cincoenta cruzes das confrarias com variegadas roupetas. Depois, as bandeiras das parochias. Em seguida, as irmandades do SS. Sacramento, que eram trinta e oito com opas escarlates. Principiavam agora as communidades religiosas, que eram quarenta, psalmeando alternadamente uns cantares como responsorios funeraes nos ouvidos de Domingos Leite. Succediam as congregações de clerigos regulares; os tribunaes com os seus presidentes de catadura sombria, os magistrados de toga, os cavalleiros de Christo, de S. Thiago e S. Bento de Avis com os mantos capitulares. Depois a cleresia e o cabido. Agora os coros da musica dilecta do rei; depois os bispos mitrados, e os turiferarios bamboando as nuvens fumosas dos incensos.

N'este ponto, Domingos Leite encostou a face á parêde para descobrir do esconso o palio. Avistou-lhe as franjas de ouro do sobre-ceo atravez da nebrina dos perfumes; e por entre as varas, e por sobre a espadua do arcebispo eleito, viu a fronte de D. João IV.

Elle temia e tremia do quebranto de sua alma, chegado aquelle indeclinavel trance; mas a presença altiva do tyranno que lhe tirava o pão, a patria, e a filha, engolphando-lhe tudo na devassidão da esposa, sarjou-lhe o coração, repuchou-lhe o sangue em jactos ardentesao cerebro, queimou-o em sedes de fera, deu-lhe as facinorosas deleitações do scelerado.

Estava já o palio a dez passos de distancia da caza. Domingos Leite afastara-se para apoiar a extremidade da caravina no envasamento inferior da seteira. Desconfiára do tremor do pulso e da vertigem dos olhos. Ajoelhou, levantou o feixo, e ajustou o dedo ao gatilho. Já o rei, desviado apenas dous passos do palio, se mostrava a descoberto... Mas, no mesmo instante, Domingos Leite viu duas damas que encobriam o rei. É que D. Maria de Arrayolos e a camareira-mór, curvando-se para levantarem do chão um panno de seda que cahira da mão ao principe D. Theodosio, quando enxugava o suor, ficaram, por momentos, quasi á frente do rei, forçadas pela deslocação de alguns fidalgos que, ao mesmo tempo, tentaram, abaixando-se, evitar ás duas senhoras a cortezia de levantar o panno. Ainda Domingos Leite, tenteando pontaria, esperou clareira por onde coubesse uma bala; teve-a n'um relance; mas a certeza de cravar algum dos doze quartos nas senhoras que ladeavam D. João, paralisou-lhe o dedo do gatilho.

Restava feril-o pelas costas, ao desandar para a rua dos Torneiros. Subiu acceleradamente ao sobrado de cima, onde abrira duas seteiras na sacada angular, que olhava para duas ruas.

Apenas entrou no sobrado e correu a mirar a volta que a procissão ia rodando da Fancaria para a Rua dos Torneiros, antes de descer os olhos sobre a rua, pol-os maquinalmente nas balaustradas de uma caza fronteira, e viu Maria Isabel, e ao lado d'ella uma creança, uma visão da alma ingolphada em Deus... Era Angela, a sua filha!

E, cravando n'ella os olhos, e arquejando em angustia que o lacerava com delicias, e ouvindo o coração que chamava por Angela, sentiu-se cahir, largar a arma, dobrar os joelhos, ajoelhar, ajoelhar de mãos postas, cobrir-se de lagrimas, e ouvir como dos labios de um estranho: «Salva-me, ó filha, salva-me!»

E D. João IV passou, olhando de soslaio para Maria Isabel, que ajoelhára, e encostára a fronte ás mãos, formando graciosamente um docel para resguardo do sorriso que as outras damas devassavam, e que ella muito se rejubilava que lh'o vissem....

....................................

Ás duas horas, Domingos Leite, com o disfarce que tinha vestido, chegou ao postigo da Graça.

Roque da Cunha, avistando-o de longe, foi desprender os cavallos que escarvavam impacientes em uma barroca socavada entre dois combros de piteiras, e sahiu com elles á estrada chã.

—Morreu?—perguntou Roque.

—Não.

—Não?... Que me dizes?... Feriste-o? Não acertaste?..

—Não lhe atirei.

—Oh!..—exclamou Roque da Cunha—Que diabo fizeste então?..

—Nada... Vamos embora, se te não escandaliza um covarde na tua companhia...

—Eu ia agora perguntar-te se lhe não atiraras por covarde... Porque me não deixaste estar comtigo, Domingos Leite!.. Com que cara entraremos em Madrid!...

—Pois vai só, e deixa-me...—replicou Domingos Leite.

—Fazes-me uma grande compaixão!... Que lagrimas são essas...

—São umas lagrimas que eu ainda tinha no coração, e só podia choral-as, vendo minha filha!... Foi minha filha que salvou o rei...

—Vamos, que eu ouço tropel de cavallos na calçada da Graça...—disse Roque da Cunha—Conhecer-te-hiam?..

—É impossivel...

Cavalgaram, e deram de esporas. Na assomada de um dos outeiros de Alvalade pararam, e olharam na direcção de Lisboa. Ninguem os seguia. Era uma cavalhada de campinos, que voltavam da procissão do Triumpho, e recolhiam aos seus cazaes.


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