VIA festaNo dia fixado, ummail-coach, em que tinham tomado logar Antonino, Despujolles e mais uns vinte convidados de Pozzoli, subia, ao trote largo de quatro cavallos pretos, a avenida dos Campos Elyseus.Era a primeira terça feira de setembro.Ao longe os sinos de Santa Clotilde zumbiam, como enxame d'abelhas, sob as agudas pontas das settas gothicas.As mulheres riam estridentemente, empoleiradas no alto da carruagem.Aquellas gargalhadas quebravam o silencio da avenida, deserta ainda áquella hora.{64}Os guisos de bronze reteniam ao pescoço dos cavallos n'uma alegria matinal.E em sorrisos de luz, as folhas altas dos platanos brilhavam, como estrellas movediças, os castanheiros espessos formavam massiços largos, ao fundo decallidimosentrelaçados em ramos monstros sobre a relva dos canteiros.Os jardineiros municipaes assestavam as mangueiras dos tubos d'irrigação articulados.Uma chuva branca cahia sobre a relva, cortada quasi cerce, e por entre as bambinellas do fino orvalho um arco iris dansava, radioso.Omail-coachque conduzia a S. Germano Antonino, Despujolles e os convidados de Pozzoli, chegou ao pavilhão Henrique IV ao mesmo tempo que ocoupéde Linda.Laura vestia uma elegantetoilettede seda da India, cinzenta.O corpo do vestido era enfeitado com fazenda de lã e ornado de laços granade.A saia, um pouco curta, deixava perceber a curva nascente d'uma perna fina de parisiense ou de hespanhola.Estava encantadora assim.Apertou a mão a todos, mas em primeiro logar a Antonino, a quem apresentou a Pozzoli, o amphytryão.{65}O emprezario do theatro dos Italianos era um homem de mãos largas, dedos massiços, cabello grosso e espetado, barba em leque, olhos redondos, nariz recurvo como o bico d'um abutre, bocca grande, de labios grossos, libidiminosos.Á primeira vista representava o typo completo da força bruta e dos appetites sensuaes.Melhor examinado, porém, notavam-se-lhe extraordinarios ridiculos.Macaqueava com as mulheres, n'uns gestos afectados, como o tenor Lauretto Mina. Fallava sempre com os labios quasi cerrados, e quando pronunciava uma d'essas phrases equivocas, que as mulheres de que habitualmente se rodeava achavam deliciosas, soltava gargalhadas imprevistas casquinhando mechanicamente, para mostrar dentes magnificos... mas postiços.D'ordinario pintava o cabello e a barba, e nassoiréesapparecia sempre com carmim nas faces e as sobrancelhas alongadas e carregadas por uma pincelada negra.Tal era Pozzoli.O emprezario desagradou soberanamente a Antonino, que tambem não sympathisou com Lauretto Mina, cujos gestos afeminados e maneiras pretenciosas faziam um absoluto contraste com os modos viris e simples do gentilhomem bretão.{66}Depois de trocados os cumprimentos e feitas as apresentações, os excursionistas puzeram-se a caminho para a floresta, precedidos d'um carro do pavilhão Henrique IV, que transportava o almoço.—Não vejo Remissy, disse Laura. Entretanto elle deu-me a sua palavra de que não faltaria.—Elle virá, replicou o dr., mas provavelmente quando menos se esperar, porque aquelle demonio tem grande tendencia para as surpresas.Osmails-coachs, oslandause oscoupésembrenharam-se sob as abobadas verdejantes, n'um turbilhão d'alegria ruidosa.Ao atravessarem as pequeninas clareiras inundadas de luz, os raios das rodas tinham brilhos vivos e vibrações agudas.Falseamentos rutilavam nas nuvens de pó, com um bulicio de ruidos multiplos: a ferradura d'um cavallo topando n'uma pedra, uma roda gemendo na depressão do terreno, o estridulo das gargalhadas subindo no ar perfumado de verdura humida, o estalo d'um pingalim assustando as aves aterrorisadas, e por vezes, cortando os intervallos de silencio, o relincho satisfeito d'um cavallo.—Alto! gritou Lauretlo Mina com a sua voz de cigarra.—Alto! vociferou Pozzoli, como um echo brutal.As carruagens pararam.{67}—Chegamos, disse o dr. a Laura, indo abrir a portinhola docoupé.—Eis a sala de jantar, a senhora está servida! annunciou Lauretto por de traz do medico.Sem esperar que lhe dessem a mão, Laura saltou com ligeiresa.Pozzoli offereceu-lhe o braço.—Qual! disse a cantora recusando. No campo caminha-se em liberdade, sem cerimonias.Em um minuto chegaram á verde clareira em que o almoço estava servido, sobre uma elevação arrelvada.Cada qual tomou logar em volta d'aquella toalha verdejante, manchada de escuro por tres presuntos d'York, quatro travessas defoie gras, doze lagostas, seis gallinhas, montanhas de doces, pecegos de Montreuil, passas de Malaga em caixas.Em volta da improvisada meza, como collocadas em atiradores, alinhavam-se vinte quatro garrafas deBordeus, e em torno d'um carvalho secular, entre as anfractuosidades rugosas do tronco, trinta garrafas demoscatel, deMadeirae deChampagne, de gargalos prateados, conservavam-se em reserva, meio occultas pela herva alta.Massiços de verdura banhados de luz, cruzavam-se, como bayonetas enfeixadas; extremidades de plantas queimadas pela geada balouçavam-se levemente,{68}e tres grillos corajosos entoavam uma marcha triumphante por entre uns fetos proximos.Laura sentara-se junto d'um freixo gigante, appoiando as costas ao tronco.Um grupo d'aveleiras servia-lhe de guarda-sol.Antonino de Bizeux e o dr. Despujolles tomaram logar á direita e á esquerda da cantora.Em frente d'elles, agrupados, estavam Pozzoli, Lauretto Mina e os restantes convivas.Eram uns quarenta ao todo.O almoço foi pouco ruidoso ao principio.O appetite é sempre silencioso.Ouvia-se apenas o ranger dos garfos de prata na porcellana dos pratos.A Linda comia com vontade, e molhava alegremente os labios finos no liquido do copo.Á sobremesa a conversação rebentou, viva e alegre, acompanhada pelo tenir dos copos e pelo riso das mulheres, e entre a confusão das vozes, misturadas com opizzicatodos garfos, um melro, pousado n'uma arvore proxima, rythmava as suas cadencias aflautadas.Lauretto Mina embriagou-se, como costumava.De repente levantou-se, tendo na mão uma taça deChampagne, e disse com voz entaramelada:—Bebo á saude da rainha da festa, da divina Laura Linda!{69}Laura corou um pouco, e Antonino franziu as sobrancelhas.Mas todos levantaram as taças, repetindo:—Á saude de Laura Linda!N'esse momento, na alléa que seguia ao lado d'aquella meza verdejante, apparecia uma duzia de officiaes d'hussards, trotando nos seus cavallos.Logo que viram os convivas d'aquella pittoresca festa, fizeram diminuir o andamento dos animaes.Despujolles disse algumas palavras ao ouvido de Pozzoli, e depois caminhou para os officiaes e disse-lhes:—Meus senhores, somos artistas e homens de sociedade: querem fazer-nos a honra d'acceitar um copo do nosso magnifico vinho francez?—Da melhor vontade! responderam os officiaes em coro.E puzeram em linha os cavallos arabes.Foram as damas que serviram oChampagne.Beberam pela França e pelos francezes.Em seguida os officiaes ofereceram charutos aos homens, cumprimentaram as senhoras e partiram a galope.A brilhante cavalgada desappareceu rapidamente, como uma phantasia, na profundeza do bosque.Deixaram as carruagens e as louças á guarda dos creados, e partiram a pé para a feira das Loges.{70}Combinaram que caminhariam sem cerimonia, em debandada.Mas como o caminho d'esta vez fosse mais longo, formaram-se, naturalmente, grupos e pares.Antonino estava, como por acaso, ao lado de Laura, que deu um passo em falso, e, como por acaso tambem, tomou o braço do visconde, appoiando-se a elle ligeiramente, com uma graça encantadora.Caminharam assim por algum tempo, alegres e sonhadores, admirando coisas vulgares que lhes pareciam tão interessantes como se nunca as tivessem visto.Um ruido confuso annunciou, de longe, a feira das Loges.Sinetas, pandeiros, tambores, trompas, cornetins, produziam um baralho ensurdecedor.Aquella parte da floresta estava cheia de gente vestindo fatos domingueiros, pares mais ou menos apaixonados, creanças saltando na alegria da plena liberdade.Appareceram as primeiras barracas ao fim da estrada.Augmentava o ruido da symphonia discordante d'instrumentos diversos, declownsesganiçando-se em falsetes, d'hercules soprando em enormes porta-vozes os seus desafios burlescos aos amadores de luctas.{71}Antonino e Laura acharam-se, n'um instante, separados dos seus companheiros.Pararam deante das barracas, admirando, embasbacados como creanças, os objectos n'ellas expostos.Laura achou immensa graça á atabalhoada arenga berrada á porta d'uma barraca de saltimbancos por uma especie de cigano, de cara serampintada, cabellos crespos, com voz enrouquecida, que ainda assim não perdera o tom accentuadamente marselhez.O homem convidava o respeitavel publico a visitar a Mulher-Electrica.—É entrar, meus senhores, é entrar, dizia elle. Por doissouspodem admirar a mais formosa e a mais gentil mulher do mundo. Só homens podem entrar, porque se as senhoras viessem a esta barraca, sahiriam loucas de inveja! Não quero dizer com isto que as senhoras presentes não sejam novas e formosas, não! Mas, acreditem, nenhuma das que vejo, e das ausentes, poderia dar a seu marido uma sensação semelhante á que esta produz em todos os homens que lhe tocam!... É entrar, meus senhores, é entrar! Não encontrarão outra occasião, como esta, para admirar uma belleza sem rival! Tem pernas de Diana, braços de Venus... Parece a esposa de Jupiter! Não ha uma só princeza que a não inveje!... É um ovo por um real, contemplar uma{72}maravilha d'esta ordem apenas por dez centimos!... É entrar, meus senhores, é entrar!...Proximo, um colosso, de braços musculosos e nús, abronzeados, ao lado d'uma preta robusta, provocava á lucta os amadores mais valentes.Um realejo moia aValsa das Rosas, e ao lado, n'uma barraca de balouços, um outro realejo gemia uma polka, emquanto que, por entre gargalhadinhas de medo, mulheres cortavam o ar nos balouços, olhando para os amantes, que as contemplavam satisfeitos.Um pouco mais longe via-se umcarrouselde cavallos de pau, enfeitado d'uma franja vermelha e azul em que scintillavam lantejoulas.Creanças, sentadas n'aquelles animaes inoffensivos, sentiam-se felizes por fazer concorrencia aos saltimbancos, chamando sobre si a attenção embasbacada dos passeiantes.De toda aquella multidão desprendia-se rumor confuso, onomatopeas sem sentido, cortadas pelo som d'um pandeiro ou pelas notas estridentes d'um cornetim.No ar passavam odores acres de frituras rançosas, salchichas que ferviam em gorduras velhas no fundo de largas frigideiras, vinho azedo que bebiam pelo cangirão, café intoleravel feito do cosimento das borras e de tintura de chicoria.{73}As tabernas regorgitavam de freguezes vorazes.Muitos, como não tinham onde sentar-se, comiam de pé, ao sol, com o mais invejavel appetite.A alegria franceza resaltava de toda aquella multidão franca, ruidosa, divertida.Sentiam-se felizes por aquella excitação ardente, pelos movimentos desordenados, pelos raios do sol que lhes alumiava as faces vermelhas, pelas nuvens de pó amarellento, que se elevava até ao cimo das arvores frondosas, em virtude do caminhar continuo d'aquelle formigueiro humano.Pelas cinco horas da tarde, um homem que desempenhava as funcções de pregoeiro, attrahiu a attenção de todos com o toque preliminar do seu tambor.Quando viu em volta um circulo espesso d'ouvintes, dos quaes faziam parte grande numero de convivas de Pozzoli, desenrolou um largo papel e leu esta especie de proclamação:«O violinista hungaro Remissy, aqui presente, faz saber que offerece umpunchaos seus amigos e amigas no proprio local em que foi servido o almoço d'esta manhã, ao qual circumstancias imprevistas fizeram com que não tivesse o prazer d'assistir. Que todos o saibam!»Acabada a leitura, o pregoeiro affixou o papel no{74}tronco d'uma arvore e depôz tranquillamente no chão o tambor, onde um palhaço o foi buscar.Depois, abrindo caminho com os cotovellos, desappareceu entre a multidão.O sol baixava, as sombras dos carvalhos alongavam-se d'instante a instante.Os donos d'algumas barracas accenderam os lampeões.A Linda e Antonino, que por vontade se tinham conservado perdidos dos seus companheiros, voltaram sós para o local onde estavam as carruagens, na meia luz crepuscular, sob a solemnidade grave das arvores.O silencio augmentava á medida que avançavam.Perdiam-se ao longe os clamores da feira e o ruido discordante da multidão.A floresta parecia indemnisar-se da desordem que n'ella causavam, pelo contraste de socego altivo, apenas quebrado pelo ultimo chilrear das aves.A brisa fresca, impregnada de perfumes sadios, balanceava mollemente as folhas humidas das arvores.Pouco depois de partirem da feira, todos os convivas se achavam na clareira onde os esperavam as carruagens.Ao centro do terreno arrelvado onde fôra servido{75}o almoço, elevava-se uma enorme taça de prata cinzelada, em que chammejava umpunchmagistral!Os reflexos dopunchlançavam, n'um largo raio, vibrações de luz azulada.Remissy não apparecia.—É necessario esperar, disse Laura, visto ter-nos convidado. Mas onde estará elle?No mesmo instante partiu d'uma matta proxima, como resposta melodiosa, umaphrasede violino, serena e lenta, n'um rythmo phantastico e velado.O violino de Remissy respondia á voz de Laura.E por entre a penumbra sentiu-se como que um formigamento d'insectos, uma dança extravagante de grillos em hervas seccas, e no meio d'esse acompanhamento depizzicatoem surdina, aphrasetriste repetia-se como um queixume atravez a noite!Foi extraordinario, simples, idealmente puro!Quando a ultima vibração melodiosa cessou, um bravo formidavel retumbou na clareira.Remissy appareceu por entre o clarão dopunch, cabeça ao vento, ostentando a sua fronte alta que prematura calvice tornava enorme, com o seu magnificostradivariusdebaixo do braço esquerdo.—Hein! o que dizes a isto, Linda? que te parece a minhaQueen Mab? disse elle dirigindo-se á cantora. Tenho dedos, não é verdade?—Bravo! bravissimo! respondeu Laura enthusiasmada.{76}Mas isso não impede que seja um homem sem palavra. Prometteu vir almoçar comnosco e não appareceu.—Não me falles em coisas tristes, minha filha!Foi o maldito director do Palacio de Crystal de Londres que veiu novamente importunar-me! Imagina que parto para a capital da Inglaterra hoje mesmo, no expresso da noite. Antes de partir, porém, quiz que ouvisses a minha melodiasita.Creados de casaca serviam opunchem copos de crystal.Foram feitas saudes mais ou menos estravagantes.Beberam um ultimo golo e dispozeram-se a subir para as carruagens.Remissy despediu-se da diva, beijando-a, e subiu para o carro de posta que o trouxera.Quando viu todos prestes a partir, Pozzoli elevou a grossa voz e disse:—Minhas senhoras e meus senhores, tenho a dizer-lhes o seguinte: depois do campo, a cidade; o almoço campestre d'hoje teve por fim celebrar a promessa d'escriptura, no theatro dos Italianos, da diva Laura Linda; quero dar umasoiréeem honra da realisação d'essa escriptura. Peço, pois, a todas e a todos os presentes que queiram ir, d'hoje a quinze dias, passar a noite em minha casa, na rua Pigolle.{77}Cantar-se-ha, dansar-se-ha, jogar-se-ha, beber-se-ha e rir-se-ha!Uma triple acclamação victoriou o discurso do amphitryão.Em seguida subiram para as carruagens, de volta a Paris.—Onde está o sr. de Bizeux? perguntou Laura a Despujolles. Tenho que fallar-lhe. Quero que me acompanhe a Paris no meucoupé.—Não faça tal, minha querida, disse-lhe em voz baixa o doutor. Durante a festa não se fallou senão na especie de monopolio que o visconde tinha feito da diva.—Se eu era a rainha de festa, quer-me parecer que elle era o heroe d'ella.—Sem duvida, mas siga o conselho d'um amigo. Vou subir comsigo e com o visconde para ocoupé. Deixal-os-hei, se quizerem, em Verinet, d'onde seguirei para Paris no comboio. Repito-lhe: não parta só com o visconde. Lembre-se do que poderão dizer.Laura levantou a cabeça com altivez e replicou:—O que poderão dizer?... Que me importa?... O meu caro doutor conhece a minha divisa: ser e não parecer. Repito-lhe que tenho de conversar seriamente com o sr. de Bizeux, e não sei se, com a timidez de que elle é dotado, acharei occasião tão{78}propicia como esta. Supporá o dr. que ha na minha intenção qualquer pensamento menos digno?—Eu? não, seguramente, mas.—Basta-me isso. Ah! Eis o sr. de Bizeux! ajuntou ella elevando a voz. Senhor visconde, tenho que fallar-lhe. Quer subir para a minha carruagem e acompanhar-me até Paris?—Oh! minha senhora!... respondeu Antonino meio compromettido, meio alegre.—Então venha. Subiram para ocoupédiante de todos.—Bravo! disse Lauretto Mina a meia voz, mas por fórma que foi ouvido por todos os que o rodeavam. Vejo com prazer esboçar-se o numero um... porque eu quero ser o numero dois!{79}VIIExplicaçõesA palestra de Laura e de Antonino versou, ao principio, sobre assumptos indiferentes, e quasi banaes.Fallaram do almoço e dos convidados de Pozzoli.O visconde não queria dizer o que pensava do emprezario e do tenor.Fallou de Remissy, cuja familiaridade o incommodára por vezes, mas cujo enthusiasmo exuberante fizera com que sympathisasse com elle.—Que coração tão bondoso o d'elle! disse Laura. É meu verdadeiro amigo! Meu pae dedicava-lhe grande affeição e profunda estima. Saberá quanto vale em o conhecendo melhor. Em Remissy não ha só{80}a admirar e a applaudir o artista consumado: é tambem um valente e um patriota sincero. Durante a guerra da insurreição da Hungria, elle foi um dos primeiros que se apresentou, e não quiz nem espingarda nem sabre. «Tenho horror de matar ou de ferir, disse Remissy; de resto, como não sei servir-me d'essas armas, era capaz de dar cabo de mim com ellas». Em compensação não largou o violino, e appareceu sempre onde mais accesa era a lucta, ao lado de Kossuth, tocando admiravelmente oHymno de Rakoçki, por entre as ballas e a metralha, sem nunca falhar uma nota!Depois d'um curto silencio, a cantora accrescentou:—N'uma palavra: Remissy é um homem. Tem, superior a todas, a qualidade que eu considero mais essencial ao caracter dos homens, a qualidade que o sr. visconde possue: a lealdade.—É virtude que as mulheres tambem possuem, replicou Antonino, e quem a conhece, minha senhora, affiança que não lhe falta.—Desejava possuir essa virtude viril, sem duvida. Entretanto esforço-me o mais que posso para evitar os dois defeitos que a maior parte das vezes perdem as mulheres: a galanteria e a vaidade. É precisamente por essa razão que lhe desejei fallar hoje.—Porque? perguntou Antonino surprehendido.—N'este dia, em que o vi quasi pela primeira{81}vez, occupei-me, sem querer, e como por instincto, quasi exclusivamente do senhor, como o senhor se occupou quasi exclusivamente de mim. Ha bocado, de subito, em quanto Remissy tocava, acudiu-me ao espirito que tinha sido um pouco leviana, que o sr. visconde não conhece a minha fórma de proceder, talvez original, e que, por isso, interpretaria mal o que hoje se passou. Portanto, disse commigo: é indespensavel que eu tenha com elle uma explicação cabal, franca, em que lhe falle com o coração nas mãos...—Não sei se deva regosijar-me por essa sua resolução, disse Antonino com voz tremula. Sinto que estou enfeitiçado e desejava conservar-me assim.—Mas eu não desejo que entre nós haja a menor sombra, a menor razão que de futuro motive a mais leve surpreza. As mulheres, d'ordinario, esperam a declaração dos homens para as acceitar ou rejeitar. Vae julgar talvez que eu fujo ás conveniencias mais rudimentares, antecedendo-me á sua declaração, mas é necessario, primeiro que tudo, que o sr. não soffra. Sr. de Bizeux, tenho pensado muito no meu amigo desde o dia do incendio. Não dou importancia ao que se diz, ao que se suppõe, ou ao que se inventou, mas senti, de longe, nas suas acções, no seu silencio, na sua fuga, e depois, quando o vi e lhe fallei, nas suas mais insignificantes palavras, no seu{82}aspecto, no seu metal de voz, senti... que o senhor não estava longe de amar-me.O visconde fez um movimento, e quiz fallar.Mas Laura não lhe deu tempo, e continuou:—Peço-lhe que me não declare ser isso um facto consumado... Não, não quero ouvir-lhe dizer: amo-a!—Comprehendo... sei... replicou Antonino. A senhora não me ama, o que é natural, e—o que é triste,—não quer amar-me!—Não o amo, nem o quero amar... disse bem, repetiu Laura.Antonino fez um gesto de desgosto.Laura ajuntou suavemente:—Não se zangue commigo, e sobretudo não soffra. Sem duvida lhe disseram o que tinha sido a minha vida até aqui, mas vista e julgada por estranhos. Ouça-me agora.E seguidamente contou-lhe a educação que recebera, as suas primeiras impressões, e o duplo fluido de que ella era por assim dizer formada: o pae transmittira-lhe o culto pela arte, a mãe guiara-a por forma a ter sempre a consciencia tranquilla, e a vida pura.Depois a cantora disse, pensativa:—Portanto não me accuse, como teem feito varios, de frieza, de sequidão. Sinto em mim instinctos de ternura e d'expansão, aos quaes não basta a sincera{83}affeição que tenho aos meus amigos. Creio que só o amor pode encher completamente o coração. Olhe, para se consolar um pouco, vou dar-lhe uma prova de confiança absoluta, dizendo-lhe o que só se diz a um irmão: ha em mim, em gráu bastante elevado, um sentimento que herdei de minha mãe, a mais estremosa das mães: o sentimento maternal. Todas as creanças que vejo, produzem-me uma impressão inexplicavel, tenho por ellas uma adoração completa: adoro-lhes os gestos, os sorrisos, a voz balbuciante, a alma por definir. Ter uma creança que fosse meu filho, é para mim um sonho delicioso; ter um filho do homem que amasse, é outro sonho que considero impossivel de realisar-se!—Porque?—Porque? Sob a apparencia d'uma mulher phantastica, eu sou, garanto-lhe, uma mulher seria. Não quereria, não poderia amar um homem que não fosse meu marido.Houve um silencio.Antonino cortou-o dizendo com voz grave:—Escute-me agora, Laura: sou absolutamente livre e senhor das minhas acções, e da minha vida. Por coisa alguma d'este mundo affligiria ou daria o menor desgosto a meu pae; mas o homem que me deu o ser possue alma generosa e elevada como poucos, e tem por mim um amor sem limites. Não me amará{84}ainda, Laura, mas, se diligenciar amar-me, é possivel que o consiga. Pois bem: prometta-me que no dia em que tal succeda, consentirá em ser minha mulher!—Sua mulher!... disse a cantora admirada.Depois, com os olhos marejados de lagrimas, accrescentou:—Ah! como lhe agradeço a grande prova d'estima que acaba de dar-me! Como as suas palavras me commovem! Será por me ter salvo a vida? Não sei, mas o que é certo,—e já ha bocado lh'o disse,—é que fui attrahida para o senhor por um vivo sentimento de sympathia, e se o não amo ainda, parece-me que não necessitaria fazer grande esforço para o conseguir. Levanta-se apenas uma difficuldade, que de novo lhe aponto: não quero amal-o!—Mas porque?—Porque o sr. visconde não póde nem deve casar commigo.—E se os nossos desejos estiverem d'accordo, que obstaculo poderá separar-nos?—Um obstaculo insupperavel. É impossivel que o sr. visconde Antonino de Bizeux case com uma mulher de theatro, que, mesmo depois de casada, não renunciará á scena.—É impossivel, disse?—Disse e repito: é impossivel! Não devemos deixar-nos obcecar por uma excitação de momento.{85}Quando se prende o destino inteiro, deve-se ter em vista não a alegria do instante presente, mas a felicidade de todo o futuro: Com as aspirações honestas que minha mãe me legou, eu tenho as aspirações d'espirito de meu pae. Nasci e morrerei artista. Se fosse pintora, compositora ou escriptora, podia ter um logar na vida da alta sociedade. Mas sou apenas cantora; o meu talento é a minha voz, e para que esse talento se produza é necessario um publico, não o publico indulgente dos salões, mas o grande publico, a multidão que enche um theatro.—E suppõe que o amor, o lar, as santas alegrias da familia não substituirão vantajosamente o ruido das palmas e a gloriola dos bravos?—Durante algum tempo... sim... é possivel, é até provavel. Mas estou certa de que depois chegará o aborrecimento, a nostalgia do proscenio. Na ultima epoca que cantei no theatro Scala, ha tres annos, adoeci ao começar o inverno. A doença era ligeira e qualquer outra que não fosse eu estaria completamente curada com um mez de tratamento e de socego. Mas a impaciencia, o desgosto e a febre devoravam-me, por fórma que estive de cama tres mezes. Pereceria longe do theatro, como uma planta a que não chegam os raios do sol. Ah! se o senhor fosse um artista como eu, pobre, desconhecido até! Mas possue um honrado titulo e uma grande fortuna. Seu pae{86}por mais condescente que seja, não acceitaria para nora uma comediante, uma cantora, uma mulher que póde ser pateada e assobiada! Se o senhor quizesse contrariar a vontade de seu pae, desprezando os deveres que lhe impõem o seu nome e a sua posição social, seria eu a primeira—ouve?—que recusaria semelhante sacrificio.—Sacrificio, se vier a amar-me, será a senhora quem o fará um dia.—É possivel, e por isso mesmo é que eu não quero amal-o.—Mas eu que a amo, o que hei de fazer?—Tornar-se meu amigo. Não diga que não; não supponha que é impossivel d'operar a transformação do amor em amisade. Verá que hei de auxilial-o fraternalmente. É necessario vontade e coragem, bem sei, mas estou certa de que não lhe faltarão essas duas qualidades.—Está-me fallando como me fallaria meu pae!—Ah! confessa?... Ainda bem! Attenda-o e attenda-me. A um homem de caracter fraco, eu diria: parta, faça uma longa viagem, e volte d'aqui a alguns mezes, completamente curado. Ao meu amigo digo-lhe: fique em Paris, vá ver-me quantas vezes desejar, e estará curado dentro em poucas semanas.—Seja! respondeu o visconde. Não partirei, tentarei a prova. Veremos o que resulta d'ella.{87}Quando ocoupéparou na rua de Bolonha, á porta da casa de Laura, Antonino despediu-se da cantora sem commoção apparente. Beijou-lhe a mão e trocaram amigavelmente um:—Até ámanhã.O visconde desceu a pé a rua de Glichy e a calçada d'Antin até aosboulevards.Sentia uma especie de consolação ao ver-se perdido entre a multidão.Caminhou até que os passeiantes rarearam.Só depois disso entrou em casa, com o coração cheio d'incerteza e d'angustia.{88}{89}VIIIMais perplexidadesAntonino executou com a mais perseverante firmeza a resolução que tomára.No dia seguinte ao do almoço em S. Germano, e nos dez ou doze que se seguiram, foi a casa da cantora, não a hora certa, e com demora indeterminada, mas sem deixar de apparecer um unico dia.Umas vezes encontrava Laura só, outras apparecia o dr. Despujolles, sempre alegre, sempre espirituoso.O visconde era como que uma pessoa da familia da cantora.Fallavam d'arte, de qualquer assumpto em geral, da novidade do dia.{90}A Linda, por vezes, quando estavam sós, fallava d'ella propria, com simplicidade, sem a menor affectação, sem se contrafazer, sem se macular.Contava-lhe o seu passado, fallava-lhe do pae, do que tinha visto, das suas luctas, dos seus successos, das suas dôres.Antonino absorvia assim, dia a dia, por completo, as mais insignificantes minucias da vida de Laura.A cantora não dissimulava os seus defeitos ou os seus erros, mas não os exagerava.No dia em que participou a Antonino que assignára, de manhã, com Pozzoli, uma escriptura d'um anno para cantar no Theatro Italiano, com a multa de cincoenta mil francos para qualquer das partes contractantes, que resolvesse rescindir o contracto, o visconde teve uma contracção nervosa.Estava escripto que deveria levantar-se entre elles mais aquella barreira.Antonino não demonstrou descontentamento sobre o contracto propriamente dito, mas ao mesmo tempo indicou uma profunda má vontade contra o Theatro Italiano, contra Pozzoli e oelenco, que considerou muito inferior ao do antigo salão Favart.Sentiu ver Laura confundida com artistas de valor secundario, n'uma companhia de que Lauretto Mina era primeiro tenor.Lauretto Mina e Pozzoli!{91}Um, brigão e libertino; o outro, libertino e rufião!Um, trapaceando ao jogo; o outro, explorando os duellos!Na opinião d'Antonino aquelles dois homens representavam a escoria dos italianos.N'aquelle mesmo dia recebeu o visconde um convite de Pozzoli, para assistir ásoiréeque o emprezario dava, d'ali a algumas noites, na sua casa da rua Pigolle.Laura tencionava ir?Emquanto a elle, estava resolvido a não pôr os pés n'aquelle bordel.Perguntou á cantora se não sabia o que diziam de Pozzoli.—Não é um italiano... é um grego!Laura respondeu com meiguice.Estava resolvida a ter com Pozzoli as relações indispensaveis que sempre ligam a escripturada ao emprezario, unicamente.Entretanto não podia deixar d'ir ásoirée, que era dada em sua honra, e na qual devia cantar um ou dois trechos de musica.Ficaria muito reconhecida ao visconde, se elle annuisse a pôr de parte a repugnancia que sentia, e assistisse ásoiréetambem.Necessitava que Antonino estivesse presente, para velar por ella.{92}—Devo confessar-lhe um dos meus maiores vicios, accrescentou Laura, rindo; sou jogadora. Não sei explicar nem me desculpo d'esta falta. O jogo produz-me emoções tão extraordinarias, que as procuro e as adoro. Não deixe d'ir, para que me contenha e afaste até, se eu, como costumo, me deixar influenciar demais.—A acreditar no que se diz, respondeu Antonino, não é para a minha amiga que a minha attenção deve voltar-se, se jogar com Pozzoli.—Bem sei. Diz-se que é muito feliz ao jogo, que principalmente os seus escripturados não devem jogar contra elle, porque muitas vezes lhes tem ganho um anno d'ordenados. Pela minha parte garanto-lhe que nunca vi coisa alguma justificativa d'essa triste reputação de Pozzoli. Apenas uma vez joguei contra elle, e levantei-me ganhando cento e cincoentaluizes. Mas não importa; se é verdade o que se diz, isso é mais uma razão para não deixar d'ir ásoirée. Vae?—Irei.A cantora ficou satisfeita por fazer com que o visconde desempenhasse o papel de seu protector e conselheiro.Sentia immenso prazer pedindo-lhe que a guiasse e reprehendesse, confessando-lhe as suas faltas e a sua ignorancia.Interrogava-o sobre as viagens e estudos que elle{93}tinha feito, pedia-lhe a opinião sobre as coisas e sobre os homens, escutando-o sempre com approvação e deferencia, como um irmão mais novo escuta o irmão mais velho.Nas palestras que tinham, cada vez mais intimas, nunca Laura deixou entrever a menor parcella de galanteio ou de vaidade.A mulher occultava-se, chegava mesmo a desapparecer, para só ficar a amiga.Laura percebia que com a sua encantadora simplicidade e graciosa modestia, ia contra o fim que tinha em vista, porque um homem com o caracter d'Antonino, em vez de se affastar, approxima-se cada vez mais da mulher que faz d'elle confidente da sua alma ingenua e sincera.E effectivamente o visconde estava cada vez mais apaixonado.Nem já conhecia o grau a que se tinha elevado a sua paixão.Ao principio calculava o amor que sentira pela cantora, pelo ciume que experimentava.Inquietava-se por ver com Laura os amigos intimos, como que os inseparaveis da Linda. De resto, o numero d'esses amigos era limitadissimo.Tres ou quatro, contando com Despujolles, e Antonino conhecia-os a todos antes de ter relações fraternaes com a cantora.{94}Quando os encontrou pela primeira vez em casa de Laura, tranquillisou-se. A Linda fallou-lhe d'elles com um socego e uma serenidade que não deixou no espirito do visconde a menor sombra de suspeita.Socegado pelos que via, Antonino sobresaltou-se por um que não via: o tenor Lauretto Mina.Ouvira dizer que o tenor fizera em tempo a côrte a Laura, e nem uma só vez a Linda pronunciára o nome de Lauretto.Porque?A verdade era que Laura temia o tenor, não por ella, mas por Antonino.Temia-o por causa das suas continuas fanfarrices, das suas impertinencias, dos seus modos d'homem mal educado, e, emfim, pelas varias narrações que lhe tinham feito da pericia com que Lauretto jogava o sabre.Como já dissemos, o tenor fôra ajudante d'um professor d'esgrima em Milão.Dizia-se que conhecia dois botes ignorados, que consideravam incorrectos.Na Italia matára um homem, e ferira gravemente um outro.Além d'isso batera-se varias vezes, pondo sempre os adversarios fóra do combate.E vangloriava-se do facto, dizendo que estava precavido contra qualquer acontecimento grave.{95}Uma especie d'instincto advertira Laura de que esse acontecimento podia surgir da fatuidade do esgrimista emerito e da altivez do gentilhomem bretão.Era essa a razão que a levava a não fallar do tenor ao visconde.Comtudo um dia Antonino interrogou-a.—Esse tal Lauretto Mina, com quem vae cantar no Theatro Italiano, não lhe fez a côrte em tempo?A cantora respondeu, sorrindo e sem se perturbar, que Lauretto fazia a côrte a todas as mulheres, mas que, a primeira vez que lhe dirigira galanteios, ella respondera-lhe de fórma que elle não se atrevera a continuar.Era a verdade, e Laura disse-a de maneira que convenceu Antonino.De resto, fallou d'aquelle homem sem escrupulos sem vergonha, tão desdenhosamente, que o visconde arrependeu-se de ter, por um instante, suspeitado que Laura poderia ter sympathia por um patife de tal especie.Portanto deixou de ter ciumes.Mas em compensação o amor augmentou.{96}{97}IXA confissãoUm dia,—na vespera dasoiréedada por Pozzoli,—Antonino foi a casa de Laura á hora costumada, duas da tarde, e encontrou-a ao piano.A pedido do visconde a Linda cantou duas ou tres canções populares hespanholas, de que elle gostava muito, com uma graça e perfeição inexcediveis.Antonino escutava, como mergulhado n'uma especie d'adormecimento.Ao contrario do que costumava, pouco a applaudiu.Ella fechou o piano e approximou-se d'elle.Fallou-lhe com a affabilidade e a franqueza habituaes.Vendo, porém que o visconde não lhe respondia, disse-lhe:{98}—Está hoje muito triste! O que tem, meu amigo? Recebeu alguma má noticia? Estará doente seu pae?—Effectivamente recebi hoje de manhã uma carta de meu pae, que, felizmente, está bom, assim como minha irmã. A carta só fallava de mim, e em resposta a outras que lhe escrevi nos ultimos dias. Como lhe disse, meu pae é o meu confidente e o meu melhor amigo.—Se não é por elle, é pelo sr. que está triste? Teve algum desgosto? Diga! Como sabe combinámos que eu seria tambem sua amiga.—Combinamos, é verdade... respondeu Antonino em tom pungente.—Então faça-me confidente dos seus desgostos; já confessou que estava triste...—Estou...—E qual é a causa d'essa tristeza?... Vamos, falle...—Se fallo, Laura, respondeu Antonino decidindo-se? falto ao compromisso que tomei com a senhora. Mas é o mesmo, fallarei... Perdôe-me e escute-me.—Acautelle-se, disse a cantora inquieta. Não venha turvar a profunda satisfação que todos os dias me causa a sua visita. Ha apenas duas semanas que o conheço, e parece-me que estamos relacionados ha mais de dez annos. Acautelle-se... acautelle-se. De{99}certo não me quer entristecer tambem, e ainda menos offender-me.—Não a entristecerei nem a offenderei, certamente. Mas não combinámos tambem que seriamos sempre extremamente francos um com o outro, que nada dissimulariamos, que o primeiro artigo da lei da nossa amisade seria a mais absoluta confiança? Pois bem: vou ler no meu coração, vou indicar-lhe tudo o que n'elle ha. Calou-se por instantes, e depois continuou:—Pediu-me, Laura, que não fosse mais do que seu amigo. Tentei, de boa vontade e de boa fé, satisfazer o seu pedido, mas não o consegui. Quanto mais vezes a vejo, mais augmenta em mim a estima e a admiração pela senhora, e com a admiração e a estima, o amor. Não posso resistir-lhe, não posso luctar por mais tempo, não posso conter-me! É indispensavel que lhe diga bem alto: amo-a, Laura, amo-a!...Ella soluçou.—Escute-me... ainda não acabei. Se a phrase que me prohibiu de pronunciar saltou dos meus labios, não foi com a intenção de a affligir ou de lhe desobedecer. Não me esqueci d'uma só das palavras que trocamos á volta de S. Germano. Consinta apenas que uma ultima vez lhe faça a seguinta pergunta; se casasse com um homem que a amasse e{100}cuja posição e fortuna lhe permittissem abandonar o theatro, ser-lhe-ia completamente impossivel renunciar á scena para sempre?—Já lh'o disse, mas vou repetir-lhe que o theatro é para mim como uma segunda vida, e que não devo nem quero renunciar a elle.—Pois bem, Laura, eu é que não posso renunciar á sua mão. Talvez soffresse menos não respirando do que deixando de a ver. A senhora é para mim mais do que uma segunda vida, porque é a minha vida inteira! Não quer ceder ao meu pedido? Cederei eu ao seu.E accrescentou com voz firme:—Continue no theatro, Laura, e no dia em que me amar, será minha mulher!Ella levantou-se, estupefacta, e soltou um grito de surpreza.—É possivel?... O que disse?... Pois consente?... Deixar-me-ha ficar no theatro... depois de dar-me o seu nome?... Oh! meus Deus!...Sentiu uma alegria enorme, inexplicavel, de que ella propria não comprehendia a significação.Elle ajoelhou-lhe aos pés e disse:—Sim... tudo... tudo! Consisto em tudo, com tanto que seja minha!...Laura pôz-lhe uma das mãos na frontes e respondeu:{101}—Não, meu amigo, é muito! Não devo consentir em tanta generosidade... não quero acceitar um tão grande sacrificio... não quero!...N'esse momento ouviu-se uma voz, alta e clara, na sala contigua áquella em que estavam Antonino e Laura.Era a voz de Lauretto Mina.{102}{103}XO supplicio do silencioO tenor fallava com Jacintha, a creada de quarto.Devemos declarar aqui que Lauretto pertencia ao numero d'aquelles a quem a expansiva Jacintha chamava bonitos.—Deixa-me, rapariga! dizia, ou antes, gritava o tenor. Um companheiro nunca incommoda!E entrou de subito na sala onde estavam Laura e Antonino.A Linda empallideceu.O visconde levantou-se, cerrando os labios, enraivecido.Lauretto fingiu não ter visto Antonino ajoelhado.Foi direito a Laura, e pegou-lhe na mão, que ella não lhe estendera.—Bom dia, minha querida, disse elle. Senhor visconde, tenho a honra de o cumprimentar... Esta Jacintha{104}a não me querer deixar entrar!... Nós só a estranhos não permittimos a entrada nos nossos camarins, mas, que diabo! nas nossas casas os collegas teem sempre entrada franca!Laura, interdicta, não achou uma só palavra que responder.Elle não se incommodou por não obter resposta, e continuou:—Com que então cantamos ámanhã juntos, nasoiréede Pozzoli, o dueto daLucia! É por essa razão que venho a tua casa. Se queres, vamos ensaiar-nos, minha querida.Antonino estava irritadissimo.Aquelle homem atrevia-se a tratar Laura por tu!Chamava-lheminha querida, como se estivesse fallando com a creada de quarto!Deu um passo para Laura, interrogando-a com o olhar ancioso.Ella de certo ia zangar-se, mandaria pôr fóra o atrevido... ou, pelo menos, com uma só palavra, permittiria que elle, Antonino, interviesse, dando uma lição ao insolente.Laura, gelada de pavor, percebia tudo o que se passava no espirito do visconde.Mas deveria ella provocar um conflicto entre aquelles dois homens?Do conflicto resultaria um duello talvez...{105}Aquelle miseravel mataria Antonino.Por isso, com um sorriso forçado, balbuciou apenas:—Ensaiar o dueto?... Não, é inutil... Agradeço-lhe ter-se incommodado...—Como queiras,cara mia, replicou o tenor.E sem ceremonia pegou n'uma cadeira e sentou-se perto de Laura.Percebia perfeitamente o effeito que estava produzindo, e no intimo alegrava-se com ferocidade.Via no rosto de Laura pintada a consternação e a angustia, e nas feições do visconde a indignação e o furor.Lauretto, ao contrario, estava cada vez mais tranquillo.De resto, que podiam elles fazer ou dizer?Por mais indignados que estivessem intimamente, estavam condemnados ao silencio.Se ella se irritasse pelo procedimento indelicado do tenor, se por uma palavra ou por um gesto deixasse perceber que se considerava offendida, o visconde tinha o direito e o dever de intervir.E o que se seguiria?Uma altercação, de que resultaria um desafio, com todas as suas perigosas consequencias.Se Antonino, retrahindo-se Laura, se mostrasse mais susceptivel que ella e levantasse qualquer termo{106}insolente de Lauretto, faltaria ás mais rudimentares praxes da boa educação, comprometteria a cantora, porque se daria ares de mandar mais que a dona da casa.O tenor, divertindo-se com a situação embaraçosa do visconde e da cantora, continuou fallando a Laura com toda a liberdade.E, para completa impertinencia, fallou-lhe na sua lingua patria.Antonino sabia o italiano quasi tão bem como o francez, mas podia desconhecel-o, e n'esse caso era excluido da conversação.—Não necessitas ensaiar o dueto,cara? Eu, desde que o cante comtigo, estou certo de que hei de cantal-o magnificamente. Não o canto com tanta correcção com qualquer outra. Como sabes, quando se sente o que se canta, a emoção communica-se. Decididamente obteremos um verdadeiro successo! Ah!cara mia, que alegria sinto por cantar de novo a teu lado! O meu pobre talento é como duplicado pelo teu. Pozzoli disse-me que a escriptura já estava assignada. É verdade? Duvido sempre das affirmações d'aquelle demonio.—É verdade, respondeu Laura em francez.O tenor, é claro, fingiu não comprehender a indirecta advertencia, e continuou na sua lingua:—Ah! Pozzoli d'esta vez não mentiu?!.... Bravo!{107}bravissimo! Se elle necessitar de metade dos meus ordenados para augmentar os teus, da melhor vontade os cedo. Vamos ámanhã dar aos parisienses o ante-gosto do nosso successo futuro. Estou satisfeitissimo por teres annuido a ir ásoiréedo nosso emprezario. Verdade seja que não podias proceder d'outra fórma.—Effectivamente era difficil recusar.—Era até impossivel. Entretanto dizia commigo: acasta divanão acceita. Em S. Germano, em pleno campo, o Pozzoli, que nós conhecemos, evaporava-se um pouco; mas em casa d'elle não pode deixar de ser o que na realidade é. Ah! Ah! em Paris augmentou até os conhecidos desregramentos, aquelle maroto! De resto, eu, como sou homem, pouco me importo com isso. Mas digo mal: é justamente por ser homem que mais sinto as loucuras de Pozzoli. Como está todos os dias a mudar de sultanas,—aquelle sultão!—o pobre tenor é forçado a ser, successivamente, agradavel a cada uma das favoritas. Não me falta que fazer. A que reina agora é a Elvira gorda. Conheces?—Não, respondeu Laura com firmeza.—Agora me recordo que ella não foi a S. Germano. Não gosta d'apparecer de dia. Mas socega, que elle ámanhã não deixa de apresentar-t'a. Tem uma prenda bôa, a Elvira; não é cantora, e por isso não{108}me incommoda com pedidos para que cante com ella. É bailarina; dirige o corpo de baile do theatro Italiano, composto de doze sylphides que ámanhã dansarão nasoiréeum bailado a caracter. Não te assustes,casta diva, porque em publico apparecerão pouco apimentadas. Haverá outros divertimentos; jogar-se-ha tambem. Tu continuas sendo jogadora, não é verdade? Na questão do jogo estou convencido, caso extraordinario, que calumniam Pozzoli. Dir-me-has que eu jogo sempre a favor d'elle, mas isso explica-se: Pozzoli tem sorte como poucos. E sabes porque? Fiz esta descoberta, apesar de não lhe faltarem sultanas, como te disse: Pozzoli é infeliz nos amores. Ámanhã não foges á tentação: depois de cantarmos decerto jogarás algumasmãosdebaccara.—Não sei, respondeu Laura impaciente.Lauretto continuou, mas d'esta vez em francez:—E o sr. visconde gosta de jogar? Se assim não fôr divertir-se-ha por outra fórma, porque as distracções não faltarão. Em casa de Pozzoli ha uma sala d'armas. Fui eu que a installei, aconselhando-o a que jogasse um pouco o sabre, todos os dias, para não engordar demasiadamente. Não é por ser meu discipulo, mas Pozzoli é já adversario para se temer um pouco. Um dos numeros do programma da festa é um assalto. Sou apaixonadissimo pela esgrima. Tenho um grande horror pelos duellos, porque já matei{109}dois adversarios, mas sinto-me satisfeitissimo quando n'uma sala d'armas empunho um sabre ou um florete. Tambem não admira: foi esse por muito tempo o meu ganha pão; e não me envergonho de o confessar, pelo contrario, orgulho-me. Hoje, para mim, a esgrima é apenas um simples passatempo, em que tanto se distrahem os artistas como os fidalgos, não é verdade, sr. visconde?Antonino era d'esta vez directamente interpellado por Lauretto Mina.Brilharam-lhe os olhos, e abriu a bocca para responder. Laura estremeceu.Socegou, porém, porque no mesmo instante Jacintha abriu a porta da sala, e annunciou:—O sr. dr. Despujolles.O medico cumprimentou Laura e o visconde.Lauretto Mina poucas relações tinha com o dr., e não se arriscou a ser muito familiar com elle.Disse apenas:—Tenho a honra de cumprimentar o nosso excellente dr. Despujolles. Infelizmente sou obrigado a partir no proprio momento em que elle chega. Declaro, porém, que não é com medo de que me faça febre, como se diz noBarbeiro. Pozzoli espera-me ás tres horas, por causa dos ultimos preparativos para asoirée. Até ámanhã, minha cara Linda, Sr. visconde... um seu humilde creado...{110}Rodou sobre os tacões, fez com a mão um gesto amigavel ao dr., e sahiu.—Aborrecida creatura! disse Despujolles. Nunca pude supportal-o!Laura e Antonino não responderam.Elle olhou-os admirado.—Mas o que teem? Parece que viram a cabeça de Medusa!—Meu caro dr., disse Laura, foi essa aborrecida creatura, como lhe chamou, que, na presença do sr. visconde de Bizeux, em minha casa, se atreveu a tratar-me como apenas nos tratamos no theatro. O sr. de Bizeux desconhece, sem duvida, os usos e costumes, originalmente singulares, do nosso mundo theatral. Os artistas tratam-se por tu entre si desde o primeiro dia que se conhecem. O que não procede d'essa fórma é immediatamente considerado mau companheiro. Isto não impede que os homens bem educados,—e no theatro tambem os ha, e muitos,—quando encontram na sociedade uma mulher que é sua collega, se cohibam de lhe fallar como se falla a uma senhora, sobretudo diante d'estranhos. Mas ninguem ignora que Lauretto Mina não é um homem bem educado. Entretanto o sr. visconde, que desconhecia o costume, estranhou a linguagem um pouco licenciosa do insolente que acaba de sahir d'aqui. Emquanto fallou, Laura nem por um instante desfitou{111}Antonino, cujas feições indicavam um profundo desgosto.Despujolles percebeu que chegára n'um momento de crise aguda, e tratou de intervir como calmante, dizendo:—O nosso amigo, quasi recemchegado a Paris e desconhecedor, por completo, dos habitos do nosso mundo de bastidores, não pode adivinhar o que eu sei, que vivo ha vinte annos entre artistas. Não admira, pois, que se surprehendesse e desgostasse pelo intimo tratamento detu, que, comtudo, garanto-o, é universal entre os artistas.—Esse tratamento admirou-me ao principio, confesso, respondeu Antonino com voz lenta; mas o que mais me surprehendeu não foi a fórma da linguagem foi a propria linguagem.—Oh! isso é uma especialidade de Lauretto Mina! replicou Laura com vivacidade. E entretanto fiquei tão surprehendida como o meu amigo.—Então porque não lhe fez comprehender isso mesmo? Eu esperava um olhar, um movimento, um simples signal que chamasse esse insolente á ordem.Uma mulher nunca pode dizer a um homem que sentiu medo por elle. Portanto Laura limitou-se a responder:—Não quiz dar importancia ás inconveniencias{112}d'esse homem, para que elle julgasse que nem reparava n'ellas.—O Lauretto Mina é com effeito bastante conhecido e tem bem inferior cotação para que se dê importancia ao que diz.Laura continuava olhando para Antonino, que se calou.—Peço perdão, meu caro dr., disse a cantora, mas o caso d'esta vez tinha uma importancia enorme...E, voltando-se para o visconde, accrescentou: O que acaba de se passar, confirma, sr. de Bizeux, o que eu estava para lhe dizer: agradeço-lhe muito o generoso pensamento que teve, mas não posso acceitar o que me propoz. Como vê, a sua intenção é completamente irrealisavel.Despujolles, comprehendendo que estava alli de mais, levantou-se, dizendo a Laura:—Deixo-a. Subi apenas para lhe dizer: até ámanhã, nasoiréede Pozzoli.Antonino estava n'um d'esses momentos em que se necessita estar só, ou antes, soffrer sem testemunhas.Fez parar Despujolles com um gesto.—Sou eu que me retiro, meu caro doutor. Demorei-me aqui mais do que desejava. Tenho de resolver em casa um negocio urgente.{113}Apertou a mão a Laura, que apenas lhe disse:—Espero que cumpra a palavra dada. Irá ásoirée, a que eu não posso deixar d'assistir, não é verdade? Arrependeu-se de lhe ter recordado a promessa feita, porque Antonino, depois d'um instante de hesitação, e como occorrendo-lhe uma idéa subita, respondeu precipitadamente:—Sim, irei ásoiréede Pozzoli. É indispensavel que eu me embrenhe por completo nos habitos dos artistas!Despediu-se de Despujolles e saiu, sentindo inexplicavel oppressão no coração.{114}{115}XIOuro, lama e sangueA casa de Pozzoli era concorridissima no tempo do ultimo imperio.N'essa epoca, em que apenas se pensava em gozar e em que não se escrupulisavam os meios a empregar para attingir qualquer prazer, as salas do director do Theatro Italiano passavam, com justiça, por ser d'aquellas em que melhor se perdia uma noite.Os homens que frequentavam a casa de Pozzoli pertenciam á melhor sociedade parisiense.As mulheres faziam parte de todas as multiplices camadas sociaes.Encontravam-se alli artistas de primeira ordem,{116}como a Linda, e outras que por artistas queriam passar, mas que, d'ordinario, não tinham direito a esse qualificativo, e que só se tornavam notadas pela belleza ou pelo espirito, mais ou menos original, mais ou menos livre.O palacio em que Pozzoli habitava, era vasto e perfeitamente bem dividido para recepções e festas de qualquer natureza.Pozzoli decorára e mobilára a casa com sumptuosidade, a que faltava um certo gosto, mas visando a determinado effeito, que muitas vezes attingia.A arte de tapeceria moderna resplandecia em todas as salas.Entrava-se no rez do chão, subindo seis degráus, que terminavam em largo patamar, protegido por elegante cobertura.O vestibulo era coberto de bocados de marmore, alternadamente branco e vermelho, em losango.A escadaria, coberta de valioso tapete de Smyrna, era de marmore branco, e de marmore vermelho o corrimão.Uma palmeira do Senegal envolvia o tronco na quasi perfeita espiral das folhas largas e flexiveis.As paredes, terminando em velhos Aubussons, eram enfeitadas por placas de prata, de muitos braços, sustentando globos baços, que espalhavam uma claridade discreta.{117}O grande salão Luiz XVI, branco e ouro, era illuminado por um lustre enorme, e ornado de oito espelhos.N'esse salão entrava-se por uma porta que se abria á direita do vestibulo.No fogão de marmore de Carrara, entre dois Renommées ladeando um espelho elliptico, e encimado por um frontão em arco, elevava-se, n'um pedestal simples, o busto de Rossini.Ao fundo, o piano d'Erard, um magnifico piano de cauda, ornado d'assumptos extrahidos a Watteau, a Lancret e Fragonard.A sala de jantar ficava em frente do salão, á esquerda do vestibulo.A sala de jogo, a sala de fumar, a bibliotheca, e a sala d'armas, eram no primeiro andar.A primeira impressão que se experimentava ao entrar n'aquelles salões de velludo, seda e oiro, era a de falta d'ar.Parecia que não se poderia respirar á vontade.Sentia-se que se estava num meio artificial, falso.Ao reparar-se para as ondas de luz que cahiam dos lustres e dos candieiros, perguntava-se se a luz do dia, a verdadeira luz, poderia penetrar alli.As tapecerias e os estofos espessos dos reposteiros e dos cortinados, estavam como que impregnados{118}d'um perfume capitoso, que tornava pesada a cabeça, embaciados os olhos, oppresso o peito.Ás onze horas os salões começaram a encher-se.Áquella hora ainda não tinham chegado nem Laura nem o visconde.Pozzoli, encontrando-se com Lauretto Mina, que tambem fazia um pouco de dono de casa, perguntou-lhe em voz baixa:—Tens a certeza de que a tuacasta divanão deixa de vir? Não achas possivel que o nosso bretão a prohiba de comparecer?—Acho...—Começo a antypathisar com o tal visconde de Bizeux! Em S. Germano a custo me cumprimentou, e ao receber o convite para asoiréed'esta noite, apenas me mandou o seu cartão, com estas palavras seccas, escriptas a seguir ao nome:acceita o convite do sr. Pozzoli. Desagrada-me deveras o pretencioso fidalgo!—E eu gosto immenso d'elle, respondeu o tenor, rindo.—Sim!... Porque?—Porque cada vez amo mais a Linda, e estou convencido de que será o visconde quem me franqueará o caminho que conduz ao coração de Laura. Cedo-lhe o logar da melhor vontade. Em geral não se gosta{119}do successor, mas não ha razão para odiar o predecessor. Ah! Eil-o que chega!—Com a Linda?—Não... Vem com o conde de Vireuil.—Diabos me levem se eu fingir que o vejo durante toda a noite!—Estás doido! Olha que elle é rico, e provavelmente gosta de jogar.—Necessito tanto do dinheiro do visconde, como d'elle proprio!—Mas parece-me mais conveniente detestal-o e ir-lhe embolsando o dinheiro...—Que vá para o diabo! Recebe-o tu, se quizeres. Decididamente, não estou disposto a incommodar-me com semelhante animal!—Eu? replicou o tenor. Não caio n'essa! Hoje não quero brincadeiras com elle. Tratarei até de o evitar, com a maxima prudencia e habilidade.Alguns minutos depois chegava Laura Linda.Vinha acompanhada pelo dr. Despujolles, que lhe dava o braço.Trazia um magnifico vestido de velludo preto, muito decotado, que fazia resaltar admiravelmente a brancuramateda sua cutis d'andaluza.Nos sedosos e abundantes cabellos pretos ostentava um diadema de margaritas em brilhantes.{120}Das orelhas pendiam-lhe duas margaritas eguaes ás do diadema.Aos cantos dos laços dos sapatos de setim mais duas margaritas semelhantes, como que chamavam a attenção para a extraordinaria pequenez dos pés.Estatoiletteum pouco triste realçava, comtudo, a incomparavel belleza da cantora.Sob os feixes de luz que sahiam dos lustres, os esplendores setinosos da cabelleira preta, o vibrante brilho dos olhos aveludados, a faisca viva do sorriso, coruscavam clarões femininos, scintillamentos de parisiense, para quem o verdadeiro sol é a luz dassoirées.Pozzoli, radioso, precipitou-se para Laura, logo que a viu entrar.—Ah! Até que emfim chegou a nossa querida diva! Estavamos anciosos pela sua chegada...—Porque?—Porque o concerto não podia começar sem que estivesse presente...Offereceu-lhe o braço para a conduzir ao salão, onde todos os convidados, amigos ou admiradores, a foram cumprimentar.Laura sorriu a Antonino quando o visconde lhe fallou.Só elle percebeu, ou antes, sentiu, que n'aquelle sorriso havia uma nuvem de tristeza.{121}O concerto começou pouco depois.Quando chegou a vez a Laura, pediu para cantar primeiro o dueto daLucia, que estava indicado no programma como devendo ser o segundo trecho.Lauretto Mina cantou a toda a voz, á qual deu tudo o que suppunha ou podia ter de sentimento.Laura cantou com a segurança e a pericia costumadas, mas os que por mais vezes a tinham ouvido executar o dueto declararam que ella, d'esta vez, não lhe dera todo o brilho que os seus vastos recursos vocaes permittiam.Ainda assim o successo não foi menor.Remissy, já de volta de Londres, executou as suas celebres variações sobre oCarnaval de Veneza, a que deu o mais extraordinario e admiravel relevo e a mais poetica e sonhadora phantasia.Depois d'uma aria de baritono, Laura sentou-se ao piano e cantou um trecho daMancenilheira.N'essa aria é que os seus admiradores reconheceram a Linda!Cantou com todo o sentimento, com toda a alma!Não olhou uma unica vez para Antonino, mas era por elle que Laura se esforçava por cantar com surprehendente habilidade.O effeito foi extraordinario.O auditorio, transportado, rompeu em applausos enthusiasticos.{122}Antonino, reprimindo violentamente os soluços prestes a rebentar, abysmava-se n'um extasi de dôr e de paixão. Chegou a hora da ceia.Passaram á sala de jantar, vasta mas um pouco fria, mercê das paredes e columnas de marmore.Os aparadores estavam carregados d'eguarias, e servidas as mezas.Pozzoli conduziu Laura para uma meza, sentando-se junto da cantora.Por entre a barafunda dos convidados que procuravam logar, o conde de Vereuil, que seguia Antonino, fel-o parar inesperadamente, dizendo-lhe depois:—Meu caro, esta dama pede-me que o apresente.E accrescentou:—O sr. visconde de Bizeux.—MadameElvira.A Elvira gorda,—porque era a dona da casa em pessoa que fôra apresentada a Antonino—desfez-se em cumprimentos e phrases amaveis.Ouvia fallar tanto do sr. de Bizeux, que desejava ardentemente conhecer tão distincto gentilhomem!Antonino, cortez e galante sempre com qualquer mulher, respondeu ás expressões admirativas da Elvira gorda com as banalidades do estylo.Ella tomou o braço do visconde, sem ceremonia, e conduziu-o para uma das mezas, bastante distanciada d'aquella a que estava Laura.{123}A Elvira gorda fôra em tempo bastante formosa, e á luz do gaz parecia-o ainda.Era branca e loira.Tinhas as feições regulares, mas sem expressão.O que ainda a fazia passar por uma bella mulher era o corpo, admiravelmente bem feito, esbelto como poucos, d'espaduas e braços soberbos.Fallava com vivacidade e um certo espirito a Antonino, que lhe respondia com phrases curtas, d'uma concisão impossivel d'exceder.
No dia fixado, ummail-coach, em que tinham tomado logar Antonino, Despujolles e mais uns vinte convidados de Pozzoli, subia, ao trote largo de quatro cavallos pretos, a avenida dos Campos Elyseus.
Era a primeira terça feira de setembro.
Ao longe os sinos de Santa Clotilde zumbiam, como enxame d'abelhas, sob as agudas pontas das settas gothicas.
As mulheres riam estridentemente, empoleiradas no alto da carruagem.
Aquellas gargalhadas quebravam o silencio da avenida, deserta ainda áquella hora.{64}
Os guisos de bronze reteniam ao pescoço dos cavallos n'uma alegria matinal.
E em sorrisos de luz, as folhas altas dos platanos brilhavam, como estrellas movediças, os castanheiros espessos formavam massiços largos, ao fundo decallidimosentrelaçados em ramos monstros sobre a relva dos canteiros.
Os jardineiros municipaes assestavam as mangueiras dos tubos d'irrigação articulados.
Uma chuva branca cahia sobre a relva, cortada quasi cerce, e por entre as bambinellas do fino orvalho um arco iris dansava, radioso.
Omail-coachque conduzia a S. Germano Antonino, Despujolles e os convidados de Pozzoli, chegou ao pavilhão Henrique IV ao mesmo tempo que ocoupéde Linda.
Laura vestia uma elegantetoilettede seda da India, cinzenta.
O corpo do vestido era enfeitado com fazenda de lã e ornado de laços granade.
A saia, um pouco curta, deixava perceber a curva nascente d'uma perna fina de parisiense ou de hespanhola.
Estava encantadora assim.
Apertou a mão a todos, mas em primeiro logar a Antonino, a quem apresentou a Pozzoli, o amphytryão.{65}
O emprezario do theatro dos Italianos era um homem de mãos largas, dedos massiços, cabello grosso e espetado, barba em leque, olhos redondos, nariz recurvo como o bico d'um abutre, bocca grande, de labios grossos, libidiminosos.
Á primeira vista representava o typo completo da força bruta e dos appetites sensuaes.
Melhor examinado, porém, notavam-se-lhe extraordinarios ridiculos.
Macaqueava com as mulheres, n'uns gestos afectados, como o tenor Lauretto Mina. Fallava sempre com os labios quasi cerrados, e quando pronunciava uma d'essas phrases equivocas, que as mulheres de que habitualmente se rodeava achavam deliciosas, soltava gargalhadas imprevistas casquinhando mechanicamente, para mostrar dentes magnificos... mas postiços.
D'ordinario pintava o cabello e a barba, e nassoiréesapparecia sempre com carmim nas faces e as sobrancelhas alongadas e carregadas por uma pincelada negra.
Tal era Pozzoli.
O emprezario desagradou soberanamente a Antonino, que tambem não sympathisou com Lauretto Mina, cujos gestos afeminados e maneiras pretenciosas faziam um absoluto contraste com os modos viris e simples do gentilhomem bretão.{66}
Depois de trocados os cumprimentos e feitas as apresentações, os excursionistas puzeram-se a caminho para a floresta, precedidos d'um carro do pavilhão Henrique IV, que transportava o almoço.
—Não vejo Remissy, disse Laura. Entretanto elle deu-me a sua palavra de que não faltaria.
—Elle virá, replicou o dr., mas provavelmente quando menos se esperar, porque aquelle demonio tem grande tendencia para as surpresas.
Osmails-coachs, oslandause oscoupésembrenharam-se sob as abobadas verdejantes, n'um turbilhão d'alegria ruidosa.
Ao atravessarem as pequeninas clareiras inundadas de luz, os raios das rodas tinham brilhos vivos e vibrações agudas.
Falseamentos rutilavam nas nuvens de pó, com um bulicio de ruidos multiplos: a ferradura d'um cavallo topando n'uma pedra, uma roda gemendo na depressão do terreno, o estridulo das gargalhadas subindo no ar perfumado de verdura humida, o estalo d'um pingalim assustando as aves aterrorisadas, e por vezes, cortando os intervallos de silencio, o relincho satisfeito d'um cavallo.
—Alto! gritou Lauretlo Mina com a sua voz de cigarra.
—Alto! vociferou Pozzoli, como um echo brutal.
As carruagens pararam.{67}
—Chegamos, disse o dr. a Laura, indo abrir a portinhola docoupé.
—Eis a sala de jantar, a senhora está servida! annunciou Lauretto por de traz do medico.
Sem esperar que lhe dessem a mão, Laura saltou com ligeiresa.
Pozzoli offereceu-lhe o braço.
—Qual! disse a cantora recusando. No campo caminha-se em liberdade, sem cerimonias.
Em um minuto chegaram á verde clareira em que o almoço estava servido, sobre uma elevação arrelvada.
Cada qual tomou logar em volta d'aquella toalha verdejante, manchada de escuro por tres presuntos d'York, quatro travessas defoie gras, doze lagostas, seis gallinhas, montanhas de doces, pecegos de Montreuil, passas de Malaga em caixas.
Em volta da improvisada meza, como collocadas em atiradores, alinhavam-se vinte quatro garrafas deBordeus, e em torno d'um carvalho secular, entre as anfractuosidades rugosas do tronco, trinta garrafas demoscatel, deMadeirae deChampagne, de gargalos prateados, conservavam-se em reserva, meio occultas pela herva alta.
Massiços de verdura banhados de luz, cruzavam-se, como bayonetas enfeixadas; extremidades de plantas queimadas pela geada balouçavam-se levemente,{68}e tres grillos corajosos entoavam uma marcha triumphante por entre uns fetos proximos.
Laura sentara-se junto d'um freixo gigante, appoiando as costas ao tronco.
Um grupo d'aveleiras servia-lhe de guarda-sol.
Antonino de Bizeux e o dr. Despujolles tomaram logar á direita e á esquerda da cantora.
Em frente d'elles, agrupados, estavam Pozzoli, Lauretto Mina e os restantes convivas.
Eram uns quarenta ao todo.
O almoço foi pouco ruidoso ao principio.
O appetite é sempre silencioso.
Ouvia-se apenas o ranger dos garfos de prata na porcellana dos pratos.
A Linda comia com vontade, e molhava alegremente os labios finos no liquido do copo.
Á sobremesa a conversação rebentou, viva e alegre, acompanhada pelo tenir dos copos e pelo riso das mulheres, e entre a confusão das vozes, misturadas com opizzicatodos garfos, um melro, pousado n'uma arvore proxima, rythmava as suas cadencias aflautadas.
Lauretto Mina embriagou-se, como costumava.
De repente levantou-se, tendo na mão uma taça deChampagne, e disse com voz entaramelada:
—Bebo á saude da rainha da festa, da divina Laura Linda!{69}
Laura corou um pouco, e Antonino franziu as sobrancelhas.
Mas todos levantaram as taças, repetindo:
—Á saude de Laura Linda!
N'esse momento, na alléa que seguia ao lado d'aquella meza verdejante, apparecia uma duzia de officiaes d'hussards, trotando nos seus cavallos.
Logo que viram os convivas d'aquella pittoresca festa, fizeram diminuir o andamento dos animaes.
Despujolles disse algumas palavras ao ouvido de Pozzoli, e depois caminhou para os officiaes e disse-lhes:
—Meus senhores, somos artistas e homens de sociedade: querem fazer-nos a honra d'acceitar um copo do nosso magnifico vinho francez?
—Da melhor vontade! responderam os officiaes em coro.
E puzeram em linha os cavallos arabes.
Foram as damas que serviram oChampagne.
Beberam pela França e pelos francezes.
Em seguida os officiaes ofereceram charutos aos homens, cumprimentaram as senhoras e partiram a galope.
A brilhante cavalgada desappareceu rapidamente, como uma phantasia, na profundeza do bosque.
Deixaram as carruagens e as louças á guarda dos creados, e partiram a pé para a feira das Loges.{70}
Combinaram que caminhariam sem cerimonia, em debandada.
Mas como o caminho d'esta vez fosse mais longo, formaram-se, naturalmente, grupos e pares.
Antonino estava, como por acaso, ao lado de Laura, que deu um passo em falso, e, como por acaso tambem, tomou o braço do visconde, appoiando-se a elle ligeiramente, com uma graça encantadora.
Caminharam assim por algum tempo, alegres e sonhadores, admirando coisas vulgares que lhes pareciam tão interessantes como se nunca as tivessem visto.
Um ruido confuso annunciou, de longe, a feira das Loges.
Sinetas, pandeiros, tambores, trompas, cornetins, produziam um baralho ensurdecedor.
Aquella parte da floresta estava cheia de gente vestindo fatos domingueiros, pares mais ou menos apaixonados, creanças saltando na alegria da plena liberdade.
Appareceram as primeiras barracas ao fim da estrada.
Augmentava o ruido da symphonia discordante d'instrumentos diversos, declownsesganiçando-se em falsetes, d'hercules soprando em enormes porta-vozes os seus desafios burlescos aos amadores de luctas.{71}
Antonino e Laura acharam-se, n'um instante, separados dos seus companheiros.
Pararam deante das barracas, admirando, embasbacados como creanças, os objectos n'ellas expostos.
Laura achou immensa graça á atabalhoada arenga berrada á porta d'uma barraca de saltimbancos por uma especie de cigano, de cara serampintada, cabellos crespos, com voz enrouquecida, que ainda assim não perdera o tom accentuadamente marselhez.
O homem convidava o respeitavel publico a visitar a Mulher-Electrica.
—É entrar, meus senhores, é entrar, dizia elle. Por doissouspodem admirar a mais formosa e a mais gentil mulher do mundo. Só homens podem entrar, porque se as senhoras viessem a esta barraca, sahiriam loucas de inveja! Não quero dizer com isto que as senhoras presentes não sejam novas e formosas, não! Mas, acreditem, nenhuma das que vejo, e das ausentes, poderia dar a seu marido uma sensação semelhante á que esta produz em todos os homens que lhe tocam!... É entrar, meus senhores, é entrar! Não encontrarão outra occasião, como esta, para admirar uma belleza sem rival! Tem pernas de Diana, braços de Venus... Parece a esposa de Jupiter! Não ha uma só princeza que a não inveje!... É um ovo por um real, contemplar uma{72}maravilha d'esta ordem apenas por dez centimos!... É entrar, meus senhores, é entrar!...
Proximo, um colosso, de braços musculosos e nús, abronzeados, ao lado d'uma preta robusta, provocava á lucta os amadores mais valentes.
Um realejo moia aValsa das Rosas, e ao lado, n'uma barraca de balouços, um outro realejo gemia uma polka, emquanto que, por entre gargalhadinhas de medo, mulheres cortavam o ar nos balouços, olhando para os amantes, que as contemplavam satisfeitos.
Um pouco mais longe via-se umcarrouselde cavallos de pau, enfeitado d'uma franja vermelha e azul em que scintillavam lantejoulas.
Creanças, sentadas n'aquelles animaes inoffensivos, sentiam-se felizes por fazer concorrencia aos saltimbancos, chamando sobre si a attenção embasbacada dos passeiantes.
De toda aquella multidão desprendia-se rumor confuso, onomatopeas sem sentido, cortadas pelo som d'um pandeiro ou pelas notas estridentes d'um cornetim.
No ar passavam odores acres de frituras rançosas, salchichas que ferviam em gorduras velhas no fundo de largas frigideiras, vinho azedo que bebiam pelo cangirão, café intoleravel feito do cosimento das borras e de tintura de chicoria.{73}
As tabernas regorgitavam de freguezes vorazes.
Muitos, como não tinham onde sentar-se, comiam de pé, ao sol, com o mais invejavel appetite.
A alegria franceza resaltava de toda aquella multidão franca, ruidosa, divertida.
Sentiam-se felizes por aquella excitação ardente, pelos movimentos desordenados, pelos raios do sol que lhes alumiava as faces vermelhas, pelas nuvens de pó amarellento, que se elevava até ao cimo das arvores frondosas, em virtude do caminhar continuo d'aquelle formigueiro humano.
Pelas cinco horas da tarde, um homem que desempenhava as funcções de pregoeiro, attrahiu a attenção de todos com o toque preliminar do seu tambor.
Quando viu em volta um circulo espesso d'ouvintes, dos quaes faziam parte grande numero de convivas de Pozzoli, desenrolou um largo papel e leu esta especie de proclamação:
«O violinista hungaro Remissy, aqui presente, faz saber que offerece umpunchaos seus amigos e amigas no proprio local em que foi servido o almoço d'esta manhã, ao qual circumstancias imprevistas fizeram com que não tivesse o prazer d'assistir. Que todos o saibam!»
Acabada a leitura, o pregoeiro affixou o papel no{74}tronco d'uma arvore e depôz tranquillamente no chão o tambor, onde um palhaço o foi buscar.
Depois, abrindo caminho com os cotovellos, desappareceu entre a multidão.
O sol baixava, as sombras dos carvalhos alongavam-se d'instante a instante.
Os donos d'algumas barracas accenderam os lampeões.
A Linda e Antonino, que por vontade se tinham conservado perdidos dos seus companheiros, voltaram sós para o local onde estavam as carruagens, na meia luz crepuscular, sob a solemnidade grave das arvores.
O silencio augmentava á medida que avançavam.
Perdiam-se ao longe os clamores da feira e o ruido discordante da multidão.
A floresta parecia indemnisar-se da desordem que n'ella causavam, pelo contraste de socego altivo, apenas quebrado pelo ultimo chilrear das aves.
A brisa fresca, impregnada de perfumes sadios, balanceava mollemente as folhas humidas das arvores.
Pouco depois de partirem da feira, todos os convivas se achavam na clareira onde os esperavam as carruagens.
Ao centro do terreno arrelvado onde fôra servido{75}o almoço, elevava-se uma enorme taça de prata cinzelada, em que chammejava umpunchmagistral!
Os reflexos dopunchlançavam, n'um largo raio, vibrações de luz azulada.
Remissy não apparecia.
—É necessario esperar, disse Laura, visto ter-nos convidado. Mas onde estará elle?
No mesmo instante partiu d'uma matta proxima, como resposta melodiosa, umaphrasede violino, serena e lenta, n'um rythmo phantastico e velado.
O violino de Remissy respondia á voz de Laura.
E por entre a penumbra sentiu-se como que um formigamento d'insectos, uma dança extravagante de grillos em hervas seccas, e no meio d'esse acompanhamento depizzicatoem surdina, aphrasetriste repetia-se como um queixume atravez a noite!
Foi extraordinario, simples, idealmente puro!
Quando a ultima vibração melodiosa cessou, um bravo formidavel retumbou na clareira.
Remissy appareceu por entre o clarão dopunch, cabeça ao vento, ostentando a sua fronte alta que prematura calvice tornava enorme, com o seu magnificostradivariusdebaixo do braço esquerdo.
—Hein! o que dizes a isto, Linda? que te parece a minhaQueen Mab? disse elle dirigindo-se á cantora. Tenho dedos, não é verdade?
—Bravo! bravissimo! respondeu Laura enthusiasmada.{76}Mas isso não impede que seja um homem sem palavra. Prometteu vir almoçar comnosco e não appareceu.
—Não me falles em coisas tristes, minha filha!
Foi o maldito director do Palacio de Crystal de Londres que veiu novamente importunar-me! Imagina que parto para a capital da Inglaterra hoje mesmo, no expresso da noite. Antes de partir, porém, quiz que ouvisses a minha melodiasita.
Creados de casaca serviam opunchem copos de crystal.
Foram feitas saudes mais ou menos estravagantes.
Beberam um ultimo golo e dispozeram-se a subir para as carruagens.
Remissy despediu-se da diva, beijando-a, e subiu para o carro de posta que o trouxera.
Quando viu todos prestes a partir, Pozzoli elevou a grossa voz e disse:
—Minhas senhoras e meus senhores, tenho a dizer-lhes o seguinte: depois do campo, a cidade; o almoço campestre d'hoje teve por fim celebrar a promessa d'escriptura, no theatro dos Italianos, da diva Laura Linda; quero dar umasoiréeem honra da realisação d'essa escriptura. Peço, pois, a todas e a todos os presentes que queiram ir, d'hoje a quinze dias, passar a noite em minha casa, na rua Pigolle.{77}Cantar-se-ha, dansar-se-ha, jogar-se-ha, beber-se-ha e rir-se-ha!
Uma triple acclamação victoriou o discurso do amphitryão.
Em seguida subiram para as carruagens, de volta a Paris.
—Onde está o sr. de Bizeux? perguntou Laura a Despujolles. Tenho que fallar-lhe. Quero que me acompanhe a Paris no meucoupé.
—Não faça tal, minha querida, disse-lhe em voz baixa o doutor. Durante a festa não se fallou senão na especie de monopolio que o visconde tinha feito da diva.
—Se eu era a rainha de festa, quer-me parecer que elle era o heroe d'ella.
—Sem duvida, mas siga o conselho d'um amigo. Vou subir comsigo e com o visconde para ocoupé. Deixal-os-hei, se quizerem, em Verinet, d'onde seguirei para Paris no comboio. Repito-lhe: não parta só com o visconde. Lembre-se do que poderão dizer.
Laura levantou a cabeça com altivez e replicou:
—O que poderão dizer?... Que me importa?... O meu caro doutor conhece a minha divisa: ser e não parecer. Repito-lhe que tenho de conversar seriamente com o sr. de Bizeux, e não sei se, com a timidez de que elle é dotado, acharei occasião tão{78}propicia como esta. Supporá o dr. que ha na minha intenção qualquer pensamento menos digno?
—Eu? não, seguramente, mas.
—Basta-me isso. Ah! Eis o sr. de Bizeux! ajuntou ella elevando a voz. Senhor visconde, tenho que fallar-lhe. Quer subir para a minha carruagem e acompanhar-me até Paris?
—Oh! minha senhora!... respondeu Antonino meio compromettido, meio alegre.
—Então venha. Subiram para ocoupédiante de todos.
—Bravo! disse Lauretto Mina a meia voz, mas por fórma que foi ouvido por todos os que o rodeavam. Vejo com prazer esboçar-se o numero um... porque eu quero ser o numero dois!{79}
A palestra de Laura e de Antonino versou, ao principio, sobre assumptos indiferentes, e quasi banaes.
Fallaram do almoço e dos convidados de Pozzoli.
O visconde não queria dizer o que pensava do emprezario e do tenor.
Fallou de Remissy, cuja familiaridade o incommodára por vezes, mas cujo enthusiasmo exuberante fizera com que sympathisasse com elle.
—Que coração tão bondoso o d'elle! disse Laura. É meu verdadeiro amigo! Meu pae dedicava-lhe grande affeição e profunda estima. Saberá quanto vale em o conhecendo melhor. Em Remissy não ha só{80}a admirar e a applaudir o artista consumado: é tambem um valente e um patriota sincero. Durante a guerra da insurreição da Hungria, elle foi um dos primeiros que se apresentou, e não quiz nem espingarda nem sabre. «Tenho horror de matar ou de ferir, disse Remissy; de resto, como não sei servir-me d'essas armas, era capaz de dar cabo de mim com ellas». Em compensação não largou o violino, e appareceu sempre onde mais accesa era a lucta, ao lado de Kossuth, tocando admiravelmente oHymno de Rakoçki, por entre as ballas e a metralha, sem nunca falhar uma nota!
Depois d'um curto silencio, a cantora accrescentou:
—N'uma palavra: Remissy é um homem. Tem, superior a todas, a qualidade que eu considero mais essencial ao caracter dos homens, a qualidade que o sr. visconde possue: a lealdade.
—É virtude que as mulheres tambem possuem, replicou Antonino, e quem a conhece, minha senhora, affiança que não lhe falta.
—Desejava possuir essa virtude viril, sem duvida. Entretanto esforço-me o mais que posso para evitar os dois defeitos que a maior parte das vezes perdem as mulheres: a galanteria e a vaidade. É precisamente por essa razão que lhe desejei fallar hoje.
—Porque? perguntou Antonino surprehendido.
—N'este dia, em que o vi quasi pela primeira{81}vez, occupei-me, sem querer, e como por instincto, quasi exclusivamente do senhor, como o senhor se occupou quasi exclusivamente de mim. Ha bocado, de subito, em quanto Remissy tocava, acudiu-me ao espirito que tinha sido um pouco leviana, que o sr. visconde não conhece a minha fórma de proceder, talvez original, e que, por isso, interpretaria mal o que hoje se passou. Portanto, disse commigo: é indespensavel que eu tenha com elle uma explicação cabal, franca, em que lhe falle com o coração nas mãos...
—Não sei se deva regosijar-me por essa sua resolução, disse Antonino com voz tremula. Sinto que estou enfeitiçado e desejava conservar-me assim.
—Mas eu não desejo que entre nós haja a menor sombra, a menor razão que de futuro motive a mais leve surpreza. As mulheres, d'ordinario, esperam a declaração dos homens para as acceitar ou rejeitar. Vae julgar talvez que eu fujo ás conveniencias mais rudimentares, antecedendo-me á sua declaração, mas é necessario, primeiro que tudo, que o sr. não soffra. Sr. de Bizeux, tenho pensado muito no meu amigo desde o dia do incendio. Não dou importancia ao que se diz, ao que se suppõe, ou ao que se inventou, mas senti, de longe, nas suas acções, no seu silencio, na sua fuga, e depois, quando o vi e lhe fallei, nas suas mais insignificantes palavras, no seu{82}aspecto, no seu metal de voz, senti... que o senhor não estava longe de amar-me.
O visconde fez um movimento, e quiz fallar.
Mas Laura não lhe deu tempo, e continuou:
—Peço-lhe que me não declare ser isso um facto consumado... Não, não quero ouvir-lhe dizer: amo-a!
—Comprehendo... sei... replicou Antonino. A senhora não me ama, o que é natural, e—o que é triste,—não quer amar-me!
—Não o amo, nem o quero amar... disse bem, repetiu Laura.
Antonino fez um gesto de desgosto.
Laura ajuntou suavemente:
—Não se zangue commigo, e sobretudo não soffra. Sem duvida lhe disseram o que tinha sido a minha vida até aqui, mas vista e julgada por estranhos. Ouça-me agora.
E seguidamente contou-lhe a educação que recebera, as suas primeiras impressões, e o duplo fluido de que ella era por assim dizer formada: o pae transmittira-lhe o culto pela arte, a mãe guiara-a por forma a ter sempre a consciencia tranquilla, e a vida pura.
Depois a cantora disse, pensativa:
—Portanto não me accuse, como teem feito varios, de frieza, de sequidão. Sinto em mim instinctos de ternura e d'expansão, aos quaes não basta a sincera{83}affeição que tenho aos meus amigos. Creio que só o amor pode encher completamente o coração. Olhe, para se consolar um pouco, vou dar-lhe uma prova de confiança absoluta, dizendo-lhe o que só se diz a um irmão: ha em mim, em gráu bastante elevado, um sentimento que herdei de minha mãe, a mais estremosa das mães: o sentimento maternal. Todas as creanças que vejo, produzem-me uma impressão inexplicavel, tenho por ellas uma adoração completa: adoro-lhes os gestos, os sorrisos, a voz balbuciante, a alma por definir. Ter uma creança que fosse meu filho, é para mim um sonho delicioso; ter um filho do homem que amasse, é outro sonho que considero impossivel de realisar-se!
—Porque?
—Porque? Sob a apparencia d'uma mulher phantastica, eu sou, garanto-lhe, uma mulher seria. Não quereria, não poderia amar um homem que não fosse meu marido.
Houve um silencio.
Antonino cortou-o dizendo com voz grave:
—Escute-me agora, Laura: sou absolutamente livre e senhor das minhas acções, e da minha vida. Por coisa alguma d'este mundo affligiria ou daria o menor desgosto a meu pae; mas o homem que me deu o ser possue alma generosa e elevada como poucos, e tem por mim um amor sem limites. Não me amará{84}ainda, Laura, mas, se diligenciar amar-me, é possivel que o consiga. Pois bem: prometta-me que no dia em que tal succeda, consentirá em ser minha mulher!
—Sua mulher!... disse a cantora admirada.
Depois, com os olhos marejados de lagrimas, accrescentou:
—Ah! como lhe agradeço a grande prova d'estima que acaba de dar-me! Como as suas palavras me commovem! Será por me ter salvo a vida? Não sei, mas o que é certo,—e já ha bocado lh'o disse,—é que fui attrahida para o senhor por um vivo sentimento de sympathia, e se o não amo ainda, parece-me que não necessitaria fazer grande esforço para o conseguir. Levanta-se apenas uma difficuldade, que de novo lhe aponto: não quero amal-o!
—Mas porque?
—Porque o sr. visconde não póde nem deve casar commigo.
—E se os nossos desejos estiverem d'accordo, que obstaculo poderá separar-nos?
—Um obstaculo insupperavel. É impossivel que o sr. visconde Antonino de Bizeux case com uma mulher de theatro, que, mesmo depois de casada, não renunciará á scena.
—É impossivel, disse?
—Disse e repito: é impossivel! Não devemos deixar-nos obcecar por uma excitação de momento.{85}Quando se prende o destino inteiro, deve-se ter em vista não a alegria do instante presente, mas a felicidade de todo o futuro: Com as aspirações honestas que minha mãe me legou, eu tenho as aspirações d'espirito de meu pae. Nasci e morrerei artista. Se fosse pintora, compositora ou escriptora, podia ter um logar na vida da alta sociedade. Mas sou apenas cantora; o meu talento é a minha voz, e para que esse talento se produza é necessario um publico, não o publico indulgente dos salões, mas o grande publico, a multidão que enche um theatro.
—E suppõe que o amor, o lar, as santas alegrias da familia não substituirão vantajosamente o ruido das palmas e a gloriola dos bravos?
—Durante algum tempo... sim... é possivel, é até provavel. Mas estou certa de que depois chegará o aborrecimento, a nostalgia do proscenio. Na ultima epoca que cantei no theatro Scala, ha tres annos, adoeci ao começar o inverno. A doença era ligeira e qualquer outra que não fosse eu estaria completamente curada com um mez de tratamento e de socego. Mas a impaciencia, o desgosto e a febre devoravam-me, por fórma que estive de cama tres mezes. Pereceria longe do theatro, como uma planta a que não chegam os raios do sol. Ah! se o senhor fosse um artista como eu, pobre, desconhecido até! Mas possue um honrado titulo e uma grande fortuna. Seu pae{86}por mais condescente que seja, não acceitaria para nora uma comediante, uma cantora, uma mulher que póde ser pateada e assobiada! Se o senhor quizesse contrariar a vontade de seu pae, desprezando os deveres que lhe impõem o seu nome e a sua posição social, seria eu a primeira—ouve?—que recusaria semelhante sacrificio.
—Sacrificio, se vier a amar-me, será a senhora quem o fará um dia.
—É possivel, e por isso mesmo é que eu não quero amal-o.
—Mas eu que a amo, o que hei de fazer?
—Tornar-se meu amigo. Não diga que não; não supponha que é impossivel d'operar a transformação do amor em amisade. Verá que hei de auxilial-o fraternalmente. É necessario vontade e coragem, bem sei, mas estou certa de que não lhe faltarão essas duas qualidades.
—Está-me fallando como me fallaria meu pae!
—Ah! confessa?... Ainda bem! Attenda-o e attenda-me. A um homem de caracter fraco, eu diria: parta, faça uma longa viagem, e volte d'aqui a alguns mezes, completamente curado. Ao meu amigo digo-lhe: fique em Paris, vá ver-me quantas vezes desejar, e estará curado dentro em poucas semanas.
—Seja! respondeu o visconde. Não partirei, tentarei a prova. Veremos o que resulta d'ella.{87}
Quando ocoupéparou na rua de Bolonha, á porta da casa de Laura, Antonino despediu-se da cantora sem commoção apparente. Beijou-lhe a mão e trocaram amigavelmente um:
—Até ámanhã.
O visconde desceu a pé a rua de Glichy e a calçada d'Antin até aosboulevards.
Sentia uma especie de consolação ao ver-se perdido entre a multidão.
Caminhou até que os passeiantes rarearam.
Só depois disso entrou em casa, com o coração cheio d'incerteza e d'angustia.{88}{89}
Antonino executou com a mais perseverante firmeza a resolução que tomára.
No dia seguinte ao do almoço em S. Germano, e nos dez ou doze que se seguiram, foi a casa da cantora, não a hora certa, e com demora indeterminada, mas sem deixar de apparecer um unico dia.
Umas vezes encontrava Laura só, outras apparecia o dr. Despujolles, sempre alegre, sempre espirituoso.
O visconde era como que uma pessoa da familia da cantora.
Fallavam d'arte, de qualquer assumpto em geral, da novidade do dia.{90}
A Linda, por vezes, quando estavam sós, fallava d'ella propria, com simplicidade, sem a menor affectação, sem se contrafazer, sem se macular.
Contava-lhe o seu passado, fallava-lhe do pae, do que tinha visto, das suas luctas, dos seus successos, das suas dôres.
Antonino absorvia assim, dia a dia, por completo, as mais insignificantes minucias da vida de Laura.
A cantora não dissimulava os seus defeitos ou os seus erros, mas não os exagerava.
No dia em que participou a Antonino que assignára, de manhã, com Pozzoli, uma escriptura d'um anno para cantar no Theatro Italiano, com a multa de cincoenta mil francos para qualquer das partes contractantes, que resolvesse rescindir o contracto, o visconde teve uma contracção nervosa.
Estava escripto que deveria levantar-se entre elles mais aquella barreira.
Antonino não demonstrou descontentamento sobre o contracto propriamente dito, mas ao mesmo tempo indicou uma profunda má vontade contra o Theatro Italiano, contra Pozzoli e oelenco, que considerou muito inferior ao do antigo salão Favart.
Sentiu ver Laura confundida com artistas de valor secundario, n'uma companhia de que Lauretto Mina era primeiro tenor.
Lauretto Mina e Pozzoli!{91}
Um, brigão e libertino; o outro, libertino e rufião!
Um, trapaceando ao jogo; o outro, explorando os duellos!
Na opinião d'Antonino aquelles dois homens representavam a escoria dos italianos.
N'aquelle mesmo dia recebeu o visconde um convite de Pozzoli, para assistir ásoiréeque o emprezario dava, d'ali a algumas noites, na sua casa da rua Pigolle.
Laura tencionava ir?
Emquanto a elle, estava resolvido a não pôr os pés n'aquelle bordel.
Perguntou á cantora se não sabia o que diziam de Pozzoli.
—Não é um italiano... é um grego!
Laura respondeu com meiguice.
Estava resolvida a ter com Pozzoli as relações indispensaveis que sempre ligam a escripturada ao emprezario, unicamente.
Entretanto não podia deixar d'ir ásoirée, que era dada em sua honra, e na qual devia cantar um ou dois trechos de musica.
Ficaria muito reconhecida ao visconde, se elle annuisse a pôr de parte a repugnancia que sentia, e assistisse ásoiréetambem.
Necessitava que Antonino estivesse presente, para velar por ella.{92}
—Devo confessar-lhe um dos meus maiores vicios, accrescentou Laura, rindo; sou jogadora. Não sei explicar nem me desculpo d'esta falta. O jogo produz-me emoções tão extraordinarias, que as procuro e as adoro. Não deixe d'ir, para que me contenha e afaste até, se eu, como costumo, me deixar influenciar demais.
—A acreditar no que se diz, respondeu Antonino, não é para a minha amiga que a minha attenção deve voltar-se, se jogar com Pozzoli.
—Bem sei. Diz-se que é muito feliz ao jogo, que principalmente os seus escripturados não devem jogar contra elle, porque muitas vezes lhes tem ganho um anno d'ordenados. Pela minha parte garanto-lhe que nunca vi coisa alguma justificativa d'essa triste reputação de Pozzoli. Apenas uma vez joguei contra elle, e levantei-me ganhando cento e cincoentaluizes. Mas não importa; se é verdade o que se diz, isso é mais uma razão para não deixar d'ir ásoirée. Vae?
—Irei.
A cantora ficou satisfeita por fazer com que o visconde desempenhasse o papel de seu protector e conselheiro.
Sentia immenso prazer pedindo-lhe que a guiasse e reprehendesse, confessando-lhe as suas faltas e a sua ignorancia.
Interrogava-o sobre as viagens e estudos que elle{93}tinha feito, pedia-lhe a opinião sobre as coisas e sobre os homens, escutando-o sempre com approvação e deferencia, como um irmão mais novo escuta o irmão mais velho.
Nas palestras que tinham, cada vez mais intimas, nunca Laura deixou entrever a menor parcella de galanteio ou de vaidade.
A mulher occultava-se, chegava mesmo a desapparecer, para só ficar a amiga.
Laura percebia que com a sua encantadora simplicidade e graciosa modestia, ia contra o fim que tinha em vista, porque um homem com o caracter d'Antonino, em vez de se affastar, approxima-se cada vez mais da mulher que faz d'elle confidente da sua alma ingenua e sincera.
E effectivamente o visconde estava cada vez mais apaixonado.
Nem já conhecia o grau a que se tinha elevado a sua paixão.
Ao principio calculava o amor que sentira pela cantora, pelo ciume que experimentava.
Inquietava-se por ver com Laura os amigos intimos, como que os inseparaveis da Linda. De resto, o numero d'esses amigos era limitadissimo.
Tres ou quatro, contando com Despujolles, e Antonino conhecia-os a todos antes de ter relações fraternaes com a cantora.{94}
Quando os encontrou pela primeira vez em casa de Laura, tranquillisou-se. A Linda fallou-lhe d'elles com um socego e uma serenidade que não deixou no espirito do visconde a menor sombra de suspeita.
Socegado pelos que via, Antonino sobresaltou-se por um que não via: o tenor Lauretto Mina.
Ouvira dizer que o tenor fizera em tempo a côrte a Laura, e nem uma só vez a Linda pronunciára o nome de Lauretto.
Porque?
A verdade era que Laura temia o tenor, não por ella, mas por Antonino.
Temia-o por causa das suas continuas fanfarrices, das suas impertinencias, dos seus modos d'homem mal educado, e, emfim, pelas varias narrações que lhe tinham feito da pericia com que Lauretto jogava o sabre.
Como já dissemos, o tenor fôra ajudante d'um professor d'esgrima em Milão.
Dizia-se que conhecia dois botes ignorados, que consideravam incorrectos.
Na Italia matára um homem, e ferira gravemente um outro.
Além d'isso batera-se varias vezes, pondo sempre os adversarios fóra do combate.
E vangloriava-se do facto, dizendo que estava precavido contra qualquer acontecimento grave.{95}
Uma especie d'instincto advertira Laura de que esse acontecimento podia surgir da fatuidade do esgrimista emerito e da altivez do gentilhomem bretão.
Era essa a razão que a levava a não fallar do tenor ao visconde.
Comtudo um dia Antonino interrogou-a.
—Esse tal Lauretto Mina, com quem vae cantar no Theatro Italiano, não lhe fez a côrte em tempo?
A cantora respondeu, sorrindo e sem se perturbar, que Lauretto fazia a côrte a todas as mulheres, mas que, a primeira vez que lhe dirigira galanteios, ella respondera-lhe de fórma que elle não se atrevera a continuar.
Era a verdade, e Laura disse-a de maneira que convenceu Antonino.
De resto, fallou d'aquelle homem sem escrupulos sem vergonha, tão desdenhosamente, que o visconde arrependeu-se de ter, por um instante, suspeitado que Laura poderia ter sympathia por um patife de tal especie.
Portanto deixou de ter ciumes.
Mas em compensação o amor augmentou.{96}{97}
Um dia,—na vespera dasoiréedada por Pozzoli,—Antonino foi a casa de Laura á hora costumada, duas da tarde, e encontrou-a ao piano.
A pedido do visconde a Linda cantou duas ou tres canções populares hespanholas, de que elle gostava muito, com uma graça e perfeição inexcediveis.
Antonino escutava, como mergulhado n'uma especie d'adormecimento.
Ao contrario do que costumava, pouco a applaudiu.
Ella fechou o piano e approximou-se d'elle.
Fallou-lhe com a affabilidade e a franqueza habituaes.
Vendo, porém que o visconde não lhe respondia, disse-lhe:{98}
—Está hoje muito triste! O que tem, meu amigo? Recebeu alguma má noticia? Estará doente seu pae?
—Effectivamente recebi hoje de manhã uma carta de meu pae, que, felizmente, está bom, assim como minha irmã. A carta só fallava de mim, e em resposta a outras que lhe escrevi nos ultimos dias. Como lhe disse, meu pae é o meu confidente e o meu melhor amigo.
—Se não é por elle, é pelo sr. que está triste? Teve algum desgosto? Diga! Como sabe combinámos que eu seria tambem sua amiga.
—Combinamos, é verdade... respondeu Antonino em tom pungente.
—Então faça-me confidente dos seus desgostos; já confessou que estava triste...
—Estou...
—E qual é a causa d'essa tristeza?... Vamos, falle...
—Se fallo, Laura, respondeu Antonino decidindo-se? falto ao compromisso que tomei com a senhora. Mas é o mesmo, fallarei... Perdôe-me e escute-me.
—Acautelle-se, disse a cantora inquieta. Não venha turvar a profunda satisfação que todos os dias me causa a sua visita. Ha apenas duas semanas que o conheço, e parece-me que estamos relacionados ha mais de dez annos. Acautelle-se... acautelle-se. De{99}certo não me quer entristecer tambem, e ainda menos offender-me.
—Não a entristecerei nem a offenderei, certamente. Mas não combinámos tambem que seriamos sempre extremamente francos um com o outro, que nada dissimulariamos, que o primeiro artigo da lei da nossa amisade seria a mais absoluta confiança? Pois bem: vou ler no meu coração, vou indicar-lhe tudo o que n'elle ha. Calou-se por instantes, e depois continuou:
—Pediu-me, Laura, que não fosse mais do que seu amigo. Tentei, de boa vontade e de boa fé, satisfazer o seu pedido, mas não o consegui. Quanto mais vezes a vejo, mais augmenta em mim a estima e a admiração pela senhora, e com a admiração e a estima, o amor. Não posso resistir-lhe, não posso luctar por mais tempo, não posso conter-me! É indispensavel que lhe diga bem alto: amo-a, Laura, amo-a!...
Ella soluçou.
—Escute-me... ainda não acabei. Se a phrase que me prohibiu de pronunciar saltou dos meus labios, não foi com a intenção de a affligir ou de lhe desobedecer. Não me esqueci d'uma só das palavras que trocamos á volta de S. Germano. Consinta apenas que uma ultima vez lhe faça a seguinta pergunta; se casasse com um homem que a amasse e{100}cuja posição e fortuna lhe permittissem abandonar o theatro, ser-lhe-ia completamente impossivel renunciar á scena para sempre?
—Já lh'o disse, mas vou repetir-lhe que o theatro é para mim como uma segunda vida, e que não devo nem quero renunciar a elle.
—Pois bem, Laura, eu é que não posso renunciar á sua mão. Talvez soffresse menos não respirando do que deixando de a ver. A senhora é para mim mais do que uma segunda vida, porque é a minha vida inteira! Não quer ceder ao meu pedido? Cederei eu ao seu.
E accrescentou com voz firme:
—Continue no theatro, Laura, e no dia em que me amar, será minha mulher!
Ella levantou-se, estupefacta, e soltou um grito de surpreza.
—É possivel?... O que disse?... Pois consente?... Deixar-me-ha ficar no theatro... depois de dar-me o seu nome?... Oh! meus Deus!...
Sentiu uma alegria enorme, inexplicavel, de que ella propria não comprehendia a significação.
Elle ajoelhou-lhe aos pés e disse:
—Sim... tudo... tudo! Consisto em tudo, com tanto que seja minha!...
Laura pôz-lhe uma das mãos na frontes e respondeu:{101}
—Não, meu amigo, é muito! Não devo consentir em tanta generosidade... não quero acceitar um tão grande sacrificio... não quero!...
N'esse momento ouviu-se uma voz, alta e clara, na sala contigua áquella em que estavam Antonino e Laura.
Era a voz de Lauretto Mina.{102}{103}
O tenor fallava com Jacintha, a creada de quarto.
Devemos declarar aqui que Lauretto pertencia ao numero d'aquelles a quem a expansiva Jacintha chamava bonitos.
—Deixa-me, rapariga! dizia, ou antes, gritava o tenor. Um companheiro nunca incommoda!
E entrou de subito na sala onde estavam Laura e Antonino.
A Linda empallideceu.
O visconde levantou-se, cerrando os labios, enraivecido.
Lauretto fingiu não ter visto Antonino ajoelhado.
Foi direito a Laura, e pegou-lhe na mão, que ella não lhe estendera.
—Bom dia, minha querida, disse elle. Senhor visconde, tenho a honra de o cumprimentar... Esta Jacintha{104}a não me querer deixar entrar!... Nós só a estranhos não permittimos a entrada nos nossos camarins, mas, que diabo! nas nossas casas os collegas teem sempre entrada franca!
Laura, interdicta, não achou uma só palavra que responder.
Elle não se incommodou por não obter resposta, e continuou:
—Com que então cantamos ámanhã juntos, nasoiréede Pozzoli, o dueto daLucia! É por essa razão que venho a tua casa. Se queres, vamos ensaiar-nos, minha querida.
Antonino estava irritadissimo.
Aquelle homem atrevia-se a tratar Laura por tu!
Chamava-lheminha querida, como se estivesse fallando com a creada de quarto!
Deu um passo para Laura, interrogando-a com o olhar ancioso.
Ella de certo ia zangar-se, mandaria pôr fóra o atrevido... ou, pelo menos, com uma só palavra, permittiria que elle, Antonino, interviesse, dando uma lição ao insolente.
Laura, gelada de pavor, percebia tudo o que se passava no espirito do visconde.
Mas deveria ella provocar um conflicto entre aquelles dois homens?
Do conflicto resultaria um duello talvez...{105}
Aquelle miseravel mataria Antonino.
Por isso, com um sorriso forçado, balbuciou apenas:
—Ensaiar o dueto?... Não, é inutil... Agradeço-lhe ter-se incommodado...
—Como queiras,cara mia, replicou o tenor.
E sem ceremonia pegou n'uma cadeira e sentou-se perto de Laura.
Percebia perfeitamente o effeito que estava produzindo, e no intimo alegrava-se com ferocidade.
Via no rosto de Laura pintada a consternação e a angustia, e nas feições do visconde a indignação e o furor.
Lauretto, ao contrario, estava cada vez mais tranquillo.
De resto, que podiam elles fazer ou dizer?
Por mais indignados que estivessem intimamente, estavam condemnados ao silencio.
Se ella se irritasse pelo procedimento indelicado do tenor, se por uma palavra ou por um gesto deixasse perceber que se considerava offendida, o visconde tinha o direito e o dever de intervir.
E o que se seguiria?
Uma altercação, de que resultaria um desafio, com todas as suas perigosas consequencias.
Se Antonino, retrahindo-se Laura, se mostrasse mais susceptivel que ella e levantasse qualquer termo{106}insolente de Lauretto, faltaria ás mais rudimentares praxes da boa educação, comprometteria a cantora, porque se daria ares de mandar mais que a dona da casa.
O tenor, divertindo-se com a situação embaraçosa do visconde e da cantora, continuou fallando a Laura com toda a liberdade.
E, para completa impertinencia, fallou-lhe na sua lingua patria.
Antonino sabia o italiano quasi tão bem como o francez, mas podia desconhecel-o, e n'esse caso era excluido da conversação.
—Não necessitas ensaiar o dueto,cara? Eu, desde que o cante comtigo, estou certo de que hei de cantal-o magnificamente. Não o canto com tanta correcção com qualquer outra. Como sabes, quando se sente o que se canta, a emoção communica-se. Decididamente obteremos um verdadeiro successo! Ah!cara mia, que alegria sinto por cantar de novo a teu lado! O meu pobre talento é como duplicado pelo teu. Pozzoli disse-me que a escriptura já estava assignada. É verdade? Duvido sempre das affirmações d'aquelle demonio.
—É verdade, respondeu Laura em francez.
O tenor, é claro, fingiu não comprehender a indirecta advertencia, e continuou na sua lingua:
—Ah! Pozzoli d'esta vez não mentiu?!.... Bravo!{107}bravissimo! Se elle necessitar de metade dos meus ordenados para augmentar os teus, da melhor vontade os cedo. Vamos ámanhã dar aos parisienses o ante-gosto do nosso successo futuro. Estou satisfeitissimo por teres annuido a ir ásoiréedo nosso emprezario. Verdade seja que não podias proceder d'outra fórma.
—Effectivamente era difficil recusar.
—Era até impossivel. Entretanto dizia commigo: acasta divanão acceita. Em S. Germano, em pleno campo, o Pozzoli, que nós conhecemos, evaporava-se um pouco; mas em casa d'elle não pode deixar de ser o que na realidade é. Ah! Ah! em Paris augmentou até os conhecidos desregramentos, aquelle maroto! De resto, eu, como sou homem, pouco me importo com isso. Mas digo mal: é justamente por ser homem que mais sinto as loucuras de Pozzoli. Como está todos os dias a mudar de sultanas,—aquelle sultão!—o pobre tenor é forçado a ser, successivamente, agradavel a cada uma das favoritas. Não me falta que fazer. A que reina agora é a Elvira gorda. Conheces?
—Não, respondeu Laura com firmeza.
—Agora me recordo que ella não foi a S. Germano. Não gosta d'apparecer de dia. Mas socega, que elle ámanhã não deixa de apresentar-t'a. Tem uma prenda bôa, a Elvira; não é cantora, e por isso não{108}me incommoda com pedidos para que cante com ella. É bailarina; dirige o corpo de baile do theatro Italiano, composto de doze sylphides que ámanhã dansarão nasoiréeum bailado a caracter. Não te assustes,casta diva, porque em publico apparecerão pouco apimentadas. Haverá outros divertimentos; jogar-se-ha tambem. Tu continuas sendo jogadora, não é verdade? Na questão do jogo estou convencido, caso extraordinario, que calumniam Pozzoli. Dir-me-has que eu jogo sempre a favor d'elle, mas isso explica-se: Pozzoli tem sorte como poucos. E sabes porque? Fiz esta descoberta, apesar de não lhe faltarem sultanas, como te disse: Pozzoli é infeliz nos amores. Ámanhã não foges á tentação: depois de cantarmos decerto jogarás algumasmãosdebaccara.
—Não sei, respondeu Laura impaciente.
Lauretto continuou, mas d'esta vez em francez:
—E o sr. visconde gosta de jogar? Se assim não fôr divertir-se-ha por outra fórma, porque as distracções não faltarão. Em casa de Pozzoli ha uma sala d'armas. Fui eu que a installei, aconselhando-o a que jogasse um pouco o sabre, todos os dias, para não engordar demasiadamente. Não é por ser meu discipulo, mas Pozzoli é já adversario para se temer um pouco. Um dos numeros do programma da festa é um assalto. Sou apaixonadissimo pela esgrima. Tenho um grande horror pelos duellos, porque já matei{109}dois adversarios, mas sinto-me satisfeitissimo quando n'uma sala d'armas empunho um sabre ou um florete. Tambem não admira: foi esse por muito tempo o meu ganha pão; e não me envergonho de o confessar, pelo contrario, orgulho-me. Hoje, para mim, a esgrima é apenas um simples passatempo, em que tanto se distrahem os artistas como os fidalgos, não é verdade, sr. visconde?
Antonino era d'esta vez directamente interpellado por Lauretto Mina.
Brilharam-lhe os olhos, e abriu a bocca para responder. Laura estremeceu.
Socegou, porém, porque no mesmo instante Jacintha abriu a porta da sala, e annunciou:
—O sr. dr. Despujolles.
O medico cumprimentou Laura e o visconde.
Lauretto Mina poucas relações tinha com o dr., e não se arriscou a ser muito familiar com elle.
Disse apenas:
—Tenho a honra de cumprimentar o nosso excellente dr. Despujolles. Infelizmente sou obrigado a partir no proprio momento em que elle chega. Declaro, porém, que não é com medo de que me faça febre, como se diz noBarbeiro. Pozzoli espera-me ás tres horas, por causa dos ultimos preparativos para asoirée. Até ámanhã, minha cara Linda, Sr. visconde... um seu humilde creado...{110}
Rodou sobre os tacões, fez com a mão um gesto amigavel ao dr., e sahiu.
—Aborrecida creatura! disse Despujolles. Nunca pude supportal-o!
Laura e Antonino não responderam.
Elle olhou-os admirado.
—Mas o que teem? Parece que viram a cabeça de Medusa!
—Meu caro dr., disse Laura, foi essa aborrecida creatura, como lhe chamou, que, na presença do sr. visconde de Bizeux, em minha casa, se atreveu a tratar-me como apenas nos tratamos no theatro. O sr. de Bizeux desconhece, sem duvida, os usos e costumes, originalmente singulares, do nosso mundo theatral. Os artistas tratam-se por tu entre si desde o primeiro dia que se conhecem. O que não procede d'essa fórma é immediatamente considerado mau companheiro. Isto não impede que os homens bem educados,—e no theatro tambem os ha, e muitos,—quando encontram na sociedade uma mulher que é sua collega, se cohibam de lhe fallar como se falla a uma senhora, sobretudo diante d'estranhos. Mas ninguem ignora que Lauretto Mina não é um homem bem educado. Entretanto o sr. visconde, que desconhecia o costume, estranhou a linguagem um pouco licenciosa do insolente que acaba de sahir d'aqui. Emquanto fallou, Laura nem por um instante desfitou{111}Antonino, cujas feições indicavam um profundo desgosto.
Despujolles percebeu que chegára n'um momento de crise aguda, e tratou de intervir como calmante, dizendo:
—O nosso amigo, quasi recemchegado a Paris e desconhecedor, por completo, dos habitos do nosso mundo de bastidores, não pode adivinhar o que eu sei, que vivo ha vinte annos entre artistas. Não admira, pois, que se surprehendesse e desgostasse pelo intimo tratamento detu, que, comtudo, garanto-o, é universal entre os artistas.
—Esse tratamento admirou-me ao principio, confesso, respondeu Antonino com voz lenta; mas o que mais me surprehendeu não foi a fórma da linguagem foi a propria linguagem.
—Oh! isso é uma especialidade de Lauretto Mina! replicou Laura com vivacidade. E entretanto fiquei tão surprehendida como o meu amigo.
—Então porque não lhe fez comprehender isso mesmo? Eu esperava um olhar, um movimento, um simples signal que chamasse esse insolente á ordem.
Uma mulher nunca pode dizer a um homem que sentiu medo por elle. Portanto Laura limitou-se a responder:
—Não quiz dar importancia ás inconveniencias{112}d'esse homem, para que elle julgasse que nem reparava n'ellas.
—O Lauretto Mina é com effeito bastante conhecido e tem bem inferior cotação para que se dê importancia ao que diz.
Laura continuava olhando para Antonino, que se calou.
—Peço perdão, meu caro dr., disse a cantora, mas o caso d'esta vez tinha uma importancia enorme...
E, voltando-se para o visconde, accrescentou: O que acaba de se passar, confirma, sr. de Bizeux, o que eu estava para lhe dizer: agradeço-lhe muito o generoso pensamento que teve, mas não posso acceitar o que me propoz. Como vê, a sua intenção é completamente irrealisavel.
Despujolles, comprehendendo que estava alli de mais, levantou-se, dizendo a Laura:
—Deixo-a. Subi apenas para lhe dizer: até ámanhã, nasoiréede Pozzoli.
Antonino estava n'um d'esses momentos em que se necessita estar só, ou antes, soffrer sem testemunhas.
Fez parar Despujolles com um gesto.
—Sou eu que me retiro, meu caro doutor. Demorei-me aqui mais do que desejava. Tenho de resolver em casa um negocio urgente.{113}
Apertou a mão a Laura, que apenas lhe disse:
—Espero que cumpra a palavra dada. Irá ásoirée, a que eu não posso deixar d'assistir, não é verdade? Arrependeu-se de lhe ter recordado a promessa feita, porque Antonino, depois d'um instante de hesitação, e como occorrendo-lhe uma idéa subita, respondeu precipitadamente:
—Sim, irei ásoiréede Pozzoli. É indispensavel que eu me embrenhe por completo nos habitos dos artistas!
Despediu-se de Despujolles e saiu, sentindo inexplicavel oppressão no coração.{114}{115}
A casa de Pozzoli era concorridissima no tempo do ultimo imperio.
N'essa epoca, em que apenas se pensava em gozar e em que não se escrupulisavam os meios a empregar para attingir qualquer prazer, as salas do director do Theatro Italiano passavam, com justiça, por ser d'aquellas em que melhor se perdia uma noite.
Os homens que frequentavam a casa de Pozzoli pertenciam á melhor sociedade parisiense.
As mulheres faziam parte de todas as multiplices camadas sociaes.
Encontravam-se alli artistas de primeira ordem,{116}como a Linda, e outras que por artistas queriam passar, mas que, d'ordinario, não tinham direito a esse qualificativo, e que só se tornavam notadas pela belleza ou pelo espirito, mais ou menos original, mais ou menos livre.
O palacio em que Pozzoli habitava, era vasto e perfeitamente bem dividido para recepções e festas de qualquer natureza.
Pozzoli decorára e mobilára a casa com sumptuosidade, a que faltava um certo gosto, mas visando a determinado effeito, que muitas vezes attingia.
A arte de tapeceria moderna resplandecia em todas as salas.
Entrava-se no rez do chão, subindo seis degráus, que terminavam em largo patamar, protegido por elegante cobertura.
O vestibulo era coberto de bocados de marmore, alternadamente branco e vermelho, em losango.
A escadaria, coberta de valioso tapete de Smyrna, era de marmore branco, e de marmore vermelho o corrimão.
Uma palmeira do Senegal envolvia o tronco na quasi perfeita espiral das folhas largas e flexiveis.
As paredes, terminando em velhos Aubussons, eram enfeitadas por placas de prata, de muitos braços, sustentando globos baços, que espalhavam uma claridade discreta.{117}
O grande salão Luiz XVI, branco e ouro, era illuminado por um lustre enorme, e ornado de oito espelhos.
N'esse salão entrava-se por uma porta que se abria á direita do vestibulo.
No fogão de marmore de Carrara, entre dois Renommées ladeando um espelho elliptico, e encimado por um frontão em arco, elevava-se, n'um pedestal simples, o busto de Rossini.
Ao fundo, o piano d'Erard, um magnifico piano de cauda, ornado d'assumptos extrahidos a Watteau, a Lancret e Fragonard.
A sala de jantar ficava em frente do salão, á esquerda do vestibulo.
A sala de jogo, a sala de fumar, a bibliotheca, e a sala d'armas, eram no primeiro andar.
A primeira impressão que se experimentava ao entrar n'aquelles salões de velludo, seda e oiro, era a de falta d'ar.
Parecia que não se poderia respirar á vontade.
Sentia-se que se estava num meio artificial, falso.
Ao reparar-se para as ondas de luz que cahiam dos lustres e dos candieiros, perguntava-se se a luz do dia, a verdadeira luz, poderia penetrar alli.
As tapecerias e os estofos espessos dos reposteiros e dos cortinados, estavam como que impregnados{118}d'um perfume capitoso, que tornava pesada a cabeça, embaciados os olhos, oppresso o peito.
Ás onze horas os salões começaram a encher-se.
Áquella hora ainda não tinham chegado nem Laura nem o visconde.
Pozzoli, encontrando-se com Lauretto Mina, que tambem fazia um pouco de dono de casa, perguntou-lhe em voz baixa:
—Tens a certeza de que a tuacasta divanão deixa de vir? Não achas possivel que o nosso bretão a prohiba de comparecer?
—Acho...
—Começo a antypathisar com o tal visconde de Bizeux! Em S. Germano a custo me cumprimentou, e ao receber o convite para asoiréed'esta noite, apenas me mandou o seu cartão, com estas palavras seccas, escriptas a seguir ao nome:acceita o convite do sr. Pozzoli. Desagrada-me deveras o pretencioso fidalgo!
—E eu gosto immenso d'elle, respondeu o tenor, rindo.
—Sim!... Porque?
—Porque cada vez amo mais a Linda, e estou convencido de que será o visconde quem me franqueará o caminho que conduz ao coração de Laura. Cedo-lhe o logar da melhor vontade. Em geral não se gosta{119}do successor, mas não ha razão para odiar o predecessor. Ah! Eil-o que chega!
—Com a Linda?
—Não... Vem com o conde de Vireuil.
—Diabos me levem se eu fingir que o vejo durante toda a noite!
—Estás doido! Olha que elle é rico, e provavelmente gosta de jogar.
—Necessito tanto do dinheiro do visconde, como d'elle proprio!
—Mas parece-me mais conveniente detestal-o e ir-lhe embolsando o dinheiro...
—Que vá para o diabo! Recebe-o tu, se quizeres. Decididamente, não estou disposto a incommodar-me com semelhante animal!
—Eu? replicou o tenor. Não caio n'essa! Hoje não quero brincadeiras com elle. Tratarei até de o evitar, com a maxima prudencia e habilidade.
Alguns minutos depois chegava Laura Linda.
Vinha acompanhada pelo dr. Despujolles, que lhe dava o braço.
Trazia um magnifico vestido de velludo preto, muito decotado, que fazia resaltar admiravelmente a brancuramateda sua cutis d'andaluza.
Nos sedosos e abundantes cabellos pretos ostentava um diadema de margaritas em brilhantes.{120}
Das orelhas pendiam-lhe duas margaritas eguaes ás do diadema.
Aos cantos dos laços dos sapatos de setim mais duas margaritas semelhantes, como que chamavam a attenção para a extraordinaria pequenez dos pés.
Estatoiletteum pouco triste realçava, comtudo, a incomparavel belleza da cantora.
Sob os feixes de luz que sahiam dos lustres, os esplendores setinosos da cabelleira preta, o vibrante brilho dos olhos aveludados, a faisca viva do sorriso, coruscavam clarões femininos, scintillamentos de parisiense, para quem o verdadeiro sol é a luz dassoirées.
Pozzoli, radioso, precipitou-se para Laura, logo que a viu entrar.
—Ah! Até que emfim chegou a nossa querida diva! Estavamos anciosos pela sua chegada...
—Porque?
—Porque o concerto não podia começar sem que estivesse presente...
Offereceu-lhe o braço para a conduzir ao salão, onde todos os convidados, amigos ou admiradores, a foram cumprimentar.
Laura sorriu a Antonino quando o visconde lhe fallou.
Só elle percebeu, ou antes, sentiu, que n'aquelle sorriso havia uma nuvem de tristeza.{121}
O concerto começou pouco depois.
Quando chegou a vez a Laura, pediu para cantar primeiro o dueto daLucia, que estava indicado no programma como devendo ser o segundo trecho.
Lauretto Mina cantou a toda a voz, á qual deu tudo o que suppunha ou podia ter de sentimento.
Laura cantou com a segurança e a pericia costumadas, mas os que por mais vezes a tinham ouvido executar o dueto declararam que ella, d'esta vez, não lhe dera todo o brilho que os seus vastos recursos vocaes permittiam.
Ainda assim o successo não foi menor.
Remissy, já de volta de Londres, executou as suas celebres variações sobre oCarnaval de Veneza, a que deu o mais extraordinario e admiravel relevo e a mais poetica e sonhadora phantasia.
Depois d'uma aria de baritono, Laura sentou-se ao piano e cantou um trecho daMancenilheira.
N'essa aria é que os seus admiradores reconheceram a Linda!
Cantou com todo o sentimento, com toda a alma!
Não olhou uma unica vez para Antonino, mas era por elle que Laura se esforçava por cantar com surprehendente habilidade.
O effeito foi extraordinario.
O auditorio, transportado, rompeu em applausos enthusiasticos.{122}
Antonino, reprimindo violentamente os soluços prestes a rebentar, abysmava-se n'um extasi de dôr e de paixão. Chegou a hora da ceia.
Passaram á sala de jantar, vasta mas um pouco fria, mercê das paredes e columnas de marmore.
Os aparadores estavam carregados d'eguarias, e servidas as mezas.
Pozzoli conduziu Laura para uma meza, sentando-se junto da cantora.
Por entre a barafunda dos convidados que procuravam logar, o conde de Vereuil, que seguia Antonino, fel-o parar inesperadamente, dizendo-lhe depois:
—Meu caro, esta dama pede-me que o apresente.
E accrescentou:
—O sr. visconde de Bizeux.—MadameElvira.
A Elvira gorda,—porque era a dona da casa em pessoa que fôra apresentada a Antonino—desfez-se em cumprimentos e phrases amaveis.
Ouvia fallar tanto do sr. de Bizeux, que desejava ardentemente conhecer tão distincto gentilhomem!
Antonino, cortez e galante sempre com qualquer mulher, respondeu ás expressões admirativas da Elvira gorda com as banalidades do estylo.
Ella tomou o braço do visconde, sem ceremonia, e conduziu-o para uma das mezas, bastante distanciada d'aquella a que estava Laura.{123}
A Elvira gorda fôra em tempo bastante formosa, e á luz do gaz parecia-o ainda.
Era branca e loira.
Tinhas as feições regulares, mas sem expressão.
O que ainda a fazia passar por uma bella mulher era o corpo, admiravelmente bem feito, esbelto como poucos, d'espaduas e braços soberbos.
Fallava com vivacidade e um certo espirito a Antonino, que lhe respondia com phrases curtas, d'uma concisão impossivel d'exceder.