Discorrendo sobre Laura, a amante de Pozzoli absteve-se prudentemente de lhe apontar o mais insignificante defeito.—Formosissima mulher! disse ella, mas sobretudo admiravel artista. Nasceu para cantar, mas se a voz lhe faltasse nem por isso deixaria de brilhar, porque á rara distincção de maneiras junta os mais invejaveis predicados de coração.E continuou a elogiar a cantora, não perdendo occasião para, disfarçadamente, dirigir tambem elogios ao visconde.Terminada a ceia, a Elvira gorda tomou o braço d'Antonino, para lhe fazer as honras da casa.Mostrou-lhe a estufa, a galeria dos quadros, onde, entre algumas telas de mestres, abundavam as copias mediocres, que Pozzoli fazia passar por originaes authenticos.{124}Fez parar o visconde deante d'uma estatua de Diana, para a qualpousara, tendo apenas á cinta, como se via no marmore, uma simples pelle de panthera.E tentou córar aos cumprimentos forçados d'Antonino, que declarou admiraveis as formas.—Quer vir á sala do jogo? Gosta dobacura? perguntou ella.—Fará bem em ir, meu caro, disse repentinamente o dr. Despujolles surgindo ao lado d'elles. A nossa amiga Laura Linda, pela fórma como está jogando, arrisca-se a ficar arruinada esta noite.Desde que chegou, Laura seguira sempre o visconde com o olhar, sentindo inexplicavel inquietação.Tambem não perdia de vista Lauretto Mina.Mas, percebendo que Antonino diligenciou por vezes approximar-se do tenor, socegou por lhe parecer que Lauretto evitava encontrar-se com o visconde.O socego foi substituido por um sentimento irritante quando deu pelas attenções que a Elvira gorda prodigalisava ao visconde.Esse sentimento, desconhecido para ella, fazia-a soffrer immenso.Era o ciume.O que quereria aquella mulher a Antonino?{125}Julgou que o mal estar que sentia era resultante da natural apprehensão que lhe causava o pensamento de que o visconde podia correr perigo.Pois porque razão soffreria ella pelas attenções que a amante de Pozzoli dispensava ao sr. de Bizeux?Vi-os sahir da sala de jantar, despeitada.Não tinha razão para se zangar por um facto tão insignificante, que de mais a mais se passava com um homem a quem declarára não poder amar.Não devia considerar o visconde completamente livre, para escutar as phrases ternas d'aquella mulher?E a cantora percebeu que era extraordinaria a sua preoccupação.Pozzoli, ao levantar-se da mesa, perguntou-lhe se queria jogar.Laura respondeu machinalmente que sim, mas não comprehendera o que lhe dissera o emprezario.Chegaram á sala do jogo, conhecida peloshabituéssob a designação da sala verde, porque as paredes, o tecto e o proprio soalho eram forrados de veludo d'aquella côr.Duas grandes mezas d'ebano, rodeadas por cadeiras, eram os unicos moveis que guarneciam a sala, alumiada por quatro candelabros de sete lumes cada um, collocados nos angulos da casa.{126}Laura sentou-se, pensativa.Ao principio não quiz jogar.Depois, importunada e espicaçada por sentimentos diversos, passou a tomar pelo jogo o mais vivo interesse.Chegou-lhe a vez de fazerbanca.Pegou no baralho nervosamente, e jogou sem reflexão nem presença d'espirito.Perdeu todos osbaccaras.A sorte, sempre contraria a Laura, fez-lhes perder milluizesn'um instante.Quando Pozzoli fez banca, disse graciosamente para a cantora:—Vae recuperar todo o dinheiro perdido, verá!A previsão não se realisou.Laura, esperando rehaver o perdido, jogou quantias importantes.O azar continuou.Foi então que Despujolles, notando a infelicidade da cantora, e a sorte singular de Pozzoli, sahiu da sala em busca d'Antonino, a quem lhe pareceu conveniente avisar. Entraram juntos no salão do jogo.A gorda Elvira segui-os de longe.Laura viu o visconde assim que elle entrou.—Ha vinte mil francos debaccara, dizia Pozzoli.—Jogo-os! disse Laura lançando para Antonino como que um olhar de desafio.{127}Pozzoli deu as cartas e ganhou.—Ha quarenta mil francos... disse elle.Laura ia abrir a bocca.Antonino, porém, que se approximara, curvou-se, para ella, e disse-lhe em voz baixa e supplicante:—Peço-lhe que não jogue mais!Pozzoli percebeu o que o visconde dissera, e observou, sorrindo:—Meu caro visconde, deixe-me dar a desforra á nossa amiga.—Seja caridoso, replicou o visconde friamente. Deixe a desforra para outra vez!Pozzoli empallideceu.Laura, sem pronunciar uma só palavra, apontou cento e cincoenta francos.O emprezario ganhou ainda.—Já vê que tinha razão, disse Antonino a Laura, sorrindo por sua vez.—A verdade é, replicou Pozzoli em laia d'explicação, que tenho uma sorte verdadeiramente compremettedora para dono da casa. Passo as cartas.E levantou-se da mesa.Obanqueiroque se seguia, deu ainda quatrobaccaras.Antonino continuava sorrindo.O emprezario não o desfitava.O rosto d'aquelle homem transformára-se de subito.{128}Brilhava-lhe sinistramente o olhar, rugas fundas vincavam-lhe a fronte, e gotas de suor perlavam-lhe o carmim das faces. Approximou-se de Antonino, a quem disse em voz baixa:—Não joga, senhor visconde?—Não...—Como não se entretem aqui, se quer vamos até á sala d'esgrima...—Pois sim.—Muito bem. Para nos interessarmos um pouco mais no assalto, occorre-me uma idéa, que talvez não lhe desagrade tambem.—Queira dizer.—A um canto da sala ha dois floretes, cujos botões saltaram ha dias. Poderemos experimentar as nossas forças como elles... como quem não repara.—Acceito, mas hei de eu escolher um dos floretes.—Escolherá á sua vontade! respondeu Pozzoli tremente de raiva.E accrescentou em seguida:—A Linda está a olhar para nós. Não devemos sahir juntos. Vá o senhor adiante. D'aqui a cinco minutos sahirei eu.Antonino fingiu seguir com attenção, por alguns segundos, a partidabaccara, que já não despertava interesse a Laura, assustada pelo colloquio do visconde com Pozzoli.{129}Pouco depois Antonino sahiu da sala, sem afectação.Laura procurou então o emprezario com o olhar.Pozzoli conversava e ria n'um grupo de convidados, que não jogavam.Passados dois minutos tomou o braço d'um d'elles, com quem pareceu entabolar uma conversação interessante, e sahiu com elle.Quando chegou á sala d'esgrima, o visconde já o esperava.Despujolles e Remissy, que não eram fortes em esgrima, estavam um em frente do outro, de sabre em punho.—Queira examinar estas explendidas panoplias, sr. visconde, disse Pozzoli.Antonino seguiu o emprezario, que, fingindo dar-lhe explicações sobre varias armas antigas, escolheu dois floretes desembolados, que deu ao visconde, sem pronunciar uma só palavra.Antonino examinou-os, dobrou-os para lhes experimentar a tempera, escolheu um e deu o outro a Pozzoli.—Está combinado, disse o emprezario, que, succeda o que succeder, não será mais do que o effeito d'um accidente?—Está.Todos os convidados presentes na sala d'armas seguiam{130}com curiosidade o assalto entre Despujolles e Remissy, que, em mangas de camisa, esgrimiam enfurecidamente, como dois demonios.Ninguem reparou para Pozzoli e para o visconde, que fizeram tudo o que deixamos dito sem serem percebidos.Quando, porém, acabavam de trocar as ultimas palavras, entrou na sala a gorda Elvira, acompanhada de Lauretto Mina.Dirigiu-se para Pozzoli, dizendo-lhe:—Vamos para a galeria grande. Aspequenasvão executar a dansa das bailadeiras.O emprezario franziu as sobrancelhas.Por fim respondeu com voz brusca:—Logo dansarão.Elvira tocou com o cotovello em Lauretto, imperceptivelmente.E sem dizerem nada, mas percebendo-se, foram-se sentar n'umdivan, e accenderam umas cigarrilhas.Despujolles tocava, pela terceira vez, o seu adversario, com applausos, um pouco ironicos, dos assistentes.O violinista, já cançado, disse:—Estou satisfeito, meu caro dr. Confesso-me vencido.E ajuntou, sorrindo:{131}—De resto, nenhum de nós é forte ao sabre.N'esse momento Pozzoli dizia ao visconde, em voz baixa:—Como estou em minha casa, parece-me conveniente que o sr. me convide, para desviar todas as suspeitas... na hypothese d'um accidente desagradavel.—D'accordo, replicou Antonino no mesmo tom.E em voz alta disse:—Sr. Pozzoli, o sr. Lauretto Mina, disse, ha dias, na minha presença, que o meu amigo era de primeira força ao florete. Quer dar-me a honra de ser meu adversario?—A honra será toda minha, sr. visconde, respondeu o emprezario.Pegaram, como por acaso, nos dois floretes desembolados, como se fossem os primeiros que encontrassem á mão.Ao despirem os casacos, Pozzoli disse a Antonino, baixo:—Venha um pouco para a penumbra, para que não reparem na falta de botões dos floretes.A sala era illuminada por uma enorme lampada persa, de cobre avermelhado, trabalhada com arte.Estava suspensa ao centro da casa.As extremidades da sala, que era rectangular, ficavam um pouco na sombra.{132}Foi para uma d'essas extremidades que os dois esgrimistas se dirigiram.Cumprimentaram-se com os floretes, segundo as regras, e cahiram em guarda.Em volta formou-se rapidamente um circulo de curiosos, que engrossava de momento a momento.Na sala não se ouvia mais do que o tenir das laminas.Os dois adversarios começaram sem demora a bater-se com encarniçamento,parandocom toda a rapidez eripostandovigorosamente.Lauretto Mina, que tinha boa vista, e estava meio prevenido por Elvira, percebeu immediatamente que os floretes estavam desembolados.Sem deixar de fumar, apontou o facto á amante de Pozzoli. Ao cabo de dois minutos, continuando a observar os dois contendores, disse:—Sabes, Elvira?...—O quê?...—Estás prestes a enviuvar, minha querida.—Pois suppões?...—Ou, pelo menos, destinada a enfermeira durante dois ou tres mezes.—Que estopada? Parece-te então que Pozzoli?...—Será ferido? Com certeza!... Nem parece meu discipulo! Verdade seja que o visconde é de primeira força. Repara para elle...{133}Laura, que continuava na sala do jogo, reflexionou com temor que a sahida de Pozzoli, quasi immediata á de Antonino, não era natural.Poucos minutos passados, não podendo conter-se por mais tempo, chamou o conde de Vereuil, que estava proximo, e disse-lhe:—Não vejo Pozzoli. Queria fallar-lhe n'um assumpto urgente... Se o sr. conde o procurasse e trouxesse aqui muito me obsequiava.O conde inclinou-se e sahiu.Demorou-se dez minutos.Á angustia de Laura parecia que elle partira ha mais de uma hora.Por fim o conde voltou.Vinha só.Laura perguntou-lhe, logo que o viu:—E então?... Pozzoli?—Perdôe-me a demora, mas com difficuldade o encontrei. Fui dar com elle na sala d'armas.—Ah! Fallou-lhe?—Não. Era impossivel, porque no momento em que cheguei começava elle um assalto ao florete.—Com quem?... com quem?...—Com Bizeux.Laura levantou-se, como que impellida por mola occulta.Estava pallida como uma morta.{134}Passados instantes disse ao conde:—Queira dar-me o seu braço. Vamos até lá. Desejo ver o assalto. Sou tão curiosa!Tomou o braço do conde, que, surprezo, a sentiu tremer.Entretanto não se atreveu a perguntar-lhe o que tinha.Laura apressou o passo.Quando entraram na sala d'armas, Pozzoli, extremamente pallido—porque tinha percebido, antes de Lauretto Mina, que estava em frente d'um adversasario de primeira ordem,—concentrava toda a sua vontade e todos os seus recursos d'esgrimista em guardar a defensiva.Comtudo sentia-se perdido.No momento em que Laura se approximava, Antonino cahiu a fundo. Pozzoliparou, curvando-se.A cantora, ao primeiro olhar, percebeu que o florete de Pozzoli não tinha botão.—Acautelle-se!... gritou ella ao visconde.Antonino olhou para o lado d'onde partira a voz de Laura.Esta distracção fez com que se conservasse descoberto durante dois segundos.Pozzoli aproveitou o momento para lhe vibrar uma estocada, de que o visconde não teve tempo de defender-se.{135}A ponta do florete attingiu-o debaixo do sovaco.Antonino cambaleou e cahiu nos braços do dr. Despujolles.Um ruido confuso espalhou-se por entre as testemunhas d'aquella scena tragica.Transportaram o ferido para umdivan.Laura, fóra de si, d'olhos esgazeados, gritava:—Fui eu que o matei.O dr. examinou cuidadosamente o ferimento do visconde.Passados momentos, disse:—Ferida quadrangular!... Não sangra!Alargou com a ponta do dedo a abertura do ferimento, d'onde apenas sahiam umas gotas de sangue, e introduziu a sonda, que sempre trazia comsigo.O rosto alegrou-se-lhe.Laura, ajoelhada junto d'elle, perguntou-lhe:—Então, dr?...—O ferimento é grave, mas não é mortal. Vou sangral-o.Durante esse tempo, Pozzoli, tendo nas mãos os dois floretes, dizia para Lauretto Mina com aspecto consternado:—Ah! Foi aquelle idiota do Antonio que deixou aqui os floretes que nós, a semana passada, tinhamos desembolado. Que miseravel! Nem mais uma noite dormirá em minha casa!{136}E mostrou o florete do visconde, para provar que não tinha botão, como aquelle de que se servira.Antonino reabriu um pouco os olhos depois de sangrado. Olhou para Laura, sorriu-lhe, e perdeu os sentidos.Despujolles parecia ter pressa de o fazer sahir d'aquella casa.—Pode já ser transportado, disse elle.—Irá na minha carruagem, observou Laura.—Não. Uma padiola é mais conveniente.Foi improvisada a padiola sem detença.Deitaram n'ella o ferido, e levaram-o.O visconde continuava sem sentidos.Ao chegarem ao vestibulo, cheio d'homens e senhoras emtoilettede baile, os conductores perguntaram:—Para onde devemos seguir?—Boulevard Haussmann.—Não, disse Laura. Para minha casa, rua de Bolonha. É mais perto.—Mas... ia a observar Despujolles.—Em casa d'elle não terá ninguem que o trate. Para minha casa... para minha casa!...—Veja o que faz... disse-lhe baixo Despujolles, que via trocarem-se entre os espectadores d'aquella scena, olhares e sorrisos significativos. Asseguro-lhe que respondo por elle...{137}E voltando-se para os homens que conduziam a padiola, ajuntou em voz alta:—Levem o sr. de Bizeux...—Para minha casa, interrompeu Laura. Já lhe disse, doutor... quero que o levem para minha casa!Ainda não eram tres horas da madrugada, e o baile devia prolongar-se até pela manhã.Aquella scena inesperada, porém, desgostára todos os convidados de Pozzoli.Em menos de meia hora as salas ficaram desertas.Os convidados retiravam-se commentando, de mil formas diversas, o assalto, ou o duello, de Pozzoli e do visconde.Remissy dizia ao baritono Lunier, com quem descia oboulevard:—Ninguem sabia ao certo, até agora, o que era a casa de Pozzoli. Passava por ser um bordel. Desde hoje é tambem um covil. Completou-se.Em quanto os creados apagavam as ultimas velas, Pozzoli, ficando só com Lauretto e a Elvira gorda, disse-lhes:—Vamos para o salão reservado.Contiguo ao quarto de cama de Pozzoli, no salão reservado não entravam senão os intimos do emprezario.Era uma sala octogona, sem janellas, alumiada apenas por lampadas arabes mettidas em vidros de{138}côres, que espalhavam uma luz mysteriosa e sensual.Espessos tapetes persas cobriam o sobrado e amontoavam-se para formar um largodivanbaixo, que circundava toda a casa.Tamboretes de madrepérola e marfim, espalhados ao acaso, completavam a mobilia da casa, cujas paredes eram forradas d'espelhos caros.A pintura do tecto representava a dansa de sete odaliscas nuas, deante do senhor, acocorado e fumando, com os olhos semi-cerrados e os labios, entre-abertos.—Uff! Não posso mais! disse Pozzoli ao entrar na sala, atirando-se para odivan. Não bebi quasi nada durante a noite, para estar senhor de mim. Vou desforrar-me!Carregou n'um botão.Um dos espelhos moveu-se, deixando uma abertura, a que appareceu um creado.—Antonio,chyprepara mim, echampagnepara a senhora e para o sr. Lauretto Mina.—Temos de beber á tua dupla victoria, disse o tenor. Ah! meu caro, palavra! cheguei a suppôr-te um homem morto!—Tambem eu cheguei a considerar-me n'esse lindo estado! replicou Pozzoli, tirando das algibeiras, á{139}mistura, notas de banco e moedas d'oiro, que ia pondo sobre um tamborete proximo.Depois d'alguns instantes de silencio continuou:—Se não fosse a intervenção da nossa querida Laura, tinha-me levado o diabo! Esteve toda a noite a meu favor, a Linda! Só lhe apanhei cinco mil francos, mas ficou-me a dever quatorze, o que prefaz um total de desanove. E aquelle grito de prevenção, que soltou, salvou-me a vida. Ah! é tão bom viver!—O pobre visconde, chasqueou Lauretto, é que não pode dizer o mesmo por muito tempo. Entretanto é de esperar que viva ainda bastante. Reparaste? A Linda mandou-o conduzir para casa d'ella. Aposto em como o vae amar loucamente. A noite foi boa, Pozzoli. Trataste satisfatoriamente dos teus negocios e adeantaste os meus. Obrigado!—Não te calarás? gritou a Elvira gorda acotovellando o tenor com rudeza.Lauretto riu-se.—Deixa-o fallar, Elvira, disse Pozzoli. Lauretto tem razão. Vou por elle. Has de ser amante de Laura!E rindo-se, pegou em quatro notas de mil francos cada uma.Dobrou-as e atirou com duas a Elvira, dizendo-lhe:—São para ti.{140}—Obrigado, Eurico!E accrescentou dando as outras duas ao tenor:—E estas para ti, Lauretto.O tenor metteu as notas na algibeira, sem pronunciar palavra.—Pois nem me agradeces?—Para que? Dás sempre qualquer coisa com uns modos que provocam explicações.—Então restitue-me o dinheiro!...—Estás doido!... Olha, eis o vinho que chega. Bebamos. Para isso é que tu és um homem! Esvasias muito melhor os copos do que as algibeiras.Pozzoli deu aos hombros despresadoramente.Desrolhadas as garrafas, o creado sahiu.Os tres começaram a beber em silencio.Pozzoli, sobretudo, bebia com uma especie de bestialidade avida e feroz.De repente interrompeu as libações para dizer:—Então, não dizem nada?... Estão esta noite muito monos!...—Espera, respondeu Elvira. Vou chamar aspequenas.Carregou no botão d'uma campainha electrica.Quasi immediatamente appareceram quatro bailarinas, jovens e formosas.Elvira disse-lhes:—Executem a dansa das bailadeiras, sem córtes.{141}Lauretto Mina pegou n'uma guitarra, e cantou, acompanhando-se com o instrumento, uma canção arabe, primeiro lenta e terna, mas accelerando gradualmente o movimento, até tornar-se ardente e rapida.As bailarinas seguiram-o, executando uma d'essas dansas egypciacas, brandas e lascivas, que terminou n'uma especie de furia de bacchantes.Pozzoli soltava gargalhadas estridentes, batia as mãos, rebolava-se pelodivan.Quando o bailado acabou, elle berrou:—Mais! mais!...—Mais não! replicou Lauretto. Eu e ellas é que sabemos se foi bastante.—Então bebamos!—Olha, cá está o teu copo grande, disse o tenor.E apresentou-lhe um copo enorme, que podia conter todo o liquido d'uma garrafa.Pozzoli encheu-o de vinho dechypre.Depois de beber a grandes golos, disse:—Ah! isto consola!E bebeu o resto.—Basta, disse-lhe Lauretto. Já estás bebedo.—Deixa-o beber, meu querido Lauretto! observou a Elvira gorda sem se dar ao incommodo de baixar a voz. Mais depressa ficaremos livres e sós.{142}Lauretto apenas respondeu com um movimento de hombros approvativo, e accendeu um cachimbo.—Não fumes esse veneno, meu idolatrado! aconselhou Elvira. Repara, eu já não bebo...Mas elle continuou a fumar em silencio.Pozzoli rolára dodivanpara o tapete, balbuciando:—Deem-me de beber!... Querochypre!... Estão na mesa quinhentosluizes... Aposta, visconde?...As quatro bailarinas descançavam, sentadas nodivan, de pernas cruzadas, olhando com curiosidade para os patrões.Elvira fez-lhe signal de que podiam retirar-se.Ellas desappareceram immediatamente.Entretanto Lauretto bebia e fumava.—Meu querido Lauretto, peço-te que não bebas mais! supplicava a Elvira gorda.E passava os braços em volta do pescoço do tenor, tentando tirar-lhe o cachimbo da bocca.Elle deu-lhe um murro.—Deixa-me, ursa!... Safa-te! Ou és tu como Laura? Se és, vem!... Mas, não... ella é mais formosa... Não te pareces com a Linda, nem ao longe... Ah! Laura!...As palpebras cerraram-se-lhe.No rosto desenhou-se-lhe uma expressão d'extasi voluptuoso.{143}—Laura! vem!... Leva-me comtigo para o infinito, onde as estrellas executam uma dansa luminosa!... Meu Deus! como os teus cabellos cresceram desde a ultima vez que os acariciei, Laura!... Vejo-os fluctuar ao longe, atraz de nós, cauda d'um cometa d'ouro, entre a harmonia dos astros... A brisa eterna fal-os soltar notas maviosas... Vibram como cordas d'harpas eolias... Ouço por toda a parte a sympathonia do amor, em que canta um beijo que dura um seculo!...Calou-se.Elvira passou apenas a ouvir os roucos estribulos de Pozzoli, curtindo socegadamente a bebedeira.Lauretto foi em breve fazer companhia ao emprezario, sobre o tapete.Elvira olhou primeiro para Pozzoli, que parecia dormir o somno da innocencia, e depois para Lauretto, que conservava a bocca e os olhos entreabertos, n'uma expressão mystica de Christo em extasi.Por fim levantou-se; arredou-os com o pé para passar, dizendo despresadoramente:—Que dois brutos!E entrou, só, no quarto da cama.{144}{145}XIIA curaDurante uma semana em que fluctuou entre a vida e a morte, Antonino viu, atravez o delirio, passar e repassar uma sombra, branca e silenciosa, que corria para elle ao ouvil-o soltar um gemido, ou se inclinava para lhe humedecer a fronte escaldante de febre ou para lhe dar de beber.Por vezes essa que para o visconde era apenas sombra, dirigia-lhe palavras meigas, que elle não comprehendia, mas que o embalavam, socegando-o.Um dia o pensamento fixou-se no seu cerebro perturbado.A febre diminuiu, e, como accordando d'um pesadello{146}terrivel, Antonino olhou em volta, parecendo distinguir e perceber.A sombra branca lá estava junto d'elle.Não sonhára, pois.Ella lá estava, envolvendo-o n'um olhar em que o sorriso transparecia por entre as lagrimas.O visconde reconheceu-a.Sorriu-lhe tambem e murmurou:—Laura!—Não falle, observou ella. Está melhor, está salvo, mas não está ainda completamente curado. É necessario estar calado e quieto, porque foi essa a recommendação do doutor.Elle repetiu com enlevo, despresando o conselho:—Laura!Depois, olhando em volta demoradamente, perguntou:—Onde estou eu?Despujolles entrava n'esse momento.—Ah! doutor! disse Laura indo ao encontro do medico, ainda bem que chegou! Elle vê e falla. Voltou completamente a si!—Admire a minha sciencia! Preveni-a hontem de que hoje se daria esse facto, respondeu Despujolles.E depois, voltando-se para o visconde, accrescentou:{147}—Vejamos o pulso. Bem. A febre quasi desappareceu de todo. Tudo vae bem.—É o senhor, meu caro Despujolles? disse Antonino. Mas o que succedeu?... Porque não estou eu em minha casa?...—Não falle, recommendou o medico. Vou pôl-o ao corrente do caso. O meu amigo foi ferido ha oito dias, n'um pretendido assalto d'esgrima, pelo patife do Pozzoli. O ferimento era serio, muito serio até! A nossa querida Laura mandou-o transportar para casa d'ella. O meu amigo está no salão da nossa amiga, deitado n'um leito que eu mandei arranjar de proposito, e que facilita muito os pensos. Durante essa terrivel semana, o meu caro visconde não teve, tanto de dia como de noite, senão uma enfermeira: Laura Linda, que apenas admittia que Jacintha a ajudasse algumas vezes na sua dedicada missão e nas vigilias longas. Está em via de cura rapida e completa, mas é necessario ter juizo, obedecendo ao seu medico como a um deus, não se mover, fallar pouco e pensar menos.—Seguirei á risca as suas instrucções, meu caro doutor, e agradeço-lhe reconhecido os seus desvelados serviços, disse Antonino.Em seguida estendeu a mão para Laura. A cantora pegou n'aquella mão descarnada, e disse, sem poder suster as lagrimas, que lhe deslisaram pelas faces:{148}—Como é estupido chorar d'alegria!—Sobretudo, accrescentou Despujolles, quando se corre o risco d'enternecer um doente. Nada de pieguices! Vou fazer o penso.Antonino não cessava d'olhar para Laura, com expressão de reconhecimento e amor.—Juizo! disse o medico no tom brusco que lhe era habitual, quando estava no desempenho das suas funcções. Espero que, logo que eu sahir, não comecem a contar historias um ao outro ou a cantar duetos. Addiem, addiem as explicações e os projectos para mais tarde. Creio que dei ao ferido todos os esclarecimentos necessarios...—Entretanto, meu caro doutor... interrompeu Antonino.—O que quer dizer?... Deixaria eu d'explicar claramente tudo o que se passou? Ah! como está em casa de Laura, é possivel que deseje que lhe expliquem o caso...—Sim, doutor, disse a cantora, parece-me necessario...—Bem, seja... concedo... Mas procedam de fórma que não pronunciem mais de tres palavras.—Oh! doutor!...—Nem mais uma. Expliquem-se em tres palavras, sem commentarios, e com a condição de que depois{149}serão mudos como dois peixes. Adeus, meu caro visconde, até ámanhã e juizo.Laura acompanhou Despujolles até á porta da escada.O medico mais uma vez lhe assegurou que o doente não corria perigo, recommendando-lhe de novo socego absoluto para Antonino.O visconde, com o olhar fixo na porta da sala, esperava com impaciencia a volta de Laura.A cantora entrou.Elle quiz fallar, mas ella collocou um dedo sobre os labios do doente, ajoelhou junto do leito, e com voz d'anjo, disse:—Amo-o!Amava-o! Oito dias antes nem ella propria o sabia.Os diversos acontecimentos que successivamente se deram revelaram-lhe aquelle amor, que existia latente no seu coração.Primeiro o sacrificio d'Antonino surprehendera-a.Aquelle honesto e grave fidalgo bretão, rico e considerado, dera-lhe a mais irrefutavel prova de confiança e d'amor, offerecendo-lhe a sua mão e permittindo que ficasse no theatro.A insolente interrupção de Lauretto Mina no momento em que o seu contentamento de mulher e de artista mais se expandia, tinha-lhe torturado o coração, demonstrando-lhe a impossibilidade d'acceitar o{150}offerecimento inesperado d'Antonino, que n'um momento, sem hesitação, renunciava a todos os prejuizos d'educação e de familia.Mas tudo o que sentia então podia ser apenas admiração e reconhecimento pelo cego amor do visconde.Nasoiréede Pozzoli, Laura não tinha percebido que era ciume o que sentira, quando viu uma outra mulher parecendo querer monopolisar a attenção e as amabilidades do visconde, que ella considerava como pertencendo-lhe.Depois, quando Pozzoli e Antonino tinham trocado em voz baixa as phrases pelas quaes deviam bater-se, poderia ella classificar a angustia que experimentou, sentindo os espinhos da desconfiança picarem-lhe o coração?Por fim, toda a chamma do seu amor latente rebentou, como no incendio da Opera, ao ver Antonino prostrado pelo florete de Pozzoli, morto talvez, e morto por ella!Então tudo esquecera: posição, reputação compromettida, futuro perdido.Quizera levar para casa o seu amado, para o ter bem junto a si, morto ou vivo.No dia seguinte pela manhã, levada pelo horror que sentia por aquelle miseravel Pozzoli, Laura nada quiz dever ao que ella considerava assassino, nem{151}mesmo o dinheiro que na vespera elle lhe tinha roubado ao jogo.Para obter esse dinheiro mandou Jacintha, com parte dos diamantes que possuia, a um joalheiro, que n'outra occasião lhe adiantára, com um juro modico, uma quantia importante sobre o mesmo penhor.Antes do meio dia, Pozzoli, esfregando as mãos de contente, estava pago.Durante oito dias, volteando em redor do leito de Antonino, espiara, attribulada, o soffrimento do ferido.Emfim o dr. Despujolles annunciou um dia que o doente estava livre de perigo.Elle estava salvo, e ella salva tambem!Tinha a certeza d'isso, porque, emfim, sentia que amava.Desde então aquella alma tão ardente e sincera não teria que confranger-se, nem que hesitar.Seria sua esposa, seria sua amante, o que importava, com tanto que pertencessem um ao outro para sempre!A cura d'Antonino caminhou rapidamente, activada pela felicidade.Ao cabo de quinze dias, o visconde levantava-se, pallido ainda e enfraquecido pela dieta e pelo sangue perdido, mas sentindo que a força e a vida lhe voltavam gradualmente.{152}A Linda, obedecendo ás prescripções de Despujolles, fallava pouco a Antonino e não consentia que elle fallasse.Por fim o medico declarou uma manhã, sorrindo indulgentemente, que, se ella tinha alguma coisa importante a dizer ao visconde, podia fazel-o, sem que o doente corresse risco de peorar.Laura poude então abrir completamente o seu coração a Antonino.—Ha um mez, disse-lhe ella, deu-me uma extraordinaria prova d'amor, fazendo por mim o maior sacrificio que uma mulher póde esperar do homem que ama. Hoje chegou a minha vez. Sei, sinto que o amo, e quero provar-lhe quanto esse amor é intenso. Dava-me o seu nome, e, para satisfazer a minha paixão d'artista, consentia em que eu continuasse no theatro. Depois do que me disse, reflecti muito. Tenho reconhecido duramente quanto, nas condições de fortuna e de posição em que o senhor está, me seria difficil, se não impossivel, ficar no theatro, passando a fazer parte da sua familia. Venho, pois, dizer-lhe o seguinte: acceito com a maior satisfação o seu nome, e, salvo uma condição que d'aqui a pouco exporei, renuncio ao theatro.—Ah! minha querida Laura! murmurou Antonino no auge da alegria.Ella continuou:{153}—Seu pae, que tão bondoso é, ficará satisfeitissimo. Parece-me conveniente evitar o mais possivel que se torne do dominio publico o nosso projectado casamento. O visconde de Bizeux esposará a filha do conde de Marcia. A Linda desapparecerá.—O que vale a minha abnegação ao lado da sua! disse Antonino. Eu repudiava prejuizos que considerava mesquinhos e absurdos; a minha querida Laura renuncia aos seus triumphos, á sua arte, ao que, segundo affirmava, era metade da sua vida! Pesou bem toda a importancia do sacrificio?—Tudo pensei e tudo previ. É justamente por essa circumstancia que ha pouco resolvi apresentar-lhe uma condição. N'este momento creio firmemente que o nosso amor, e o amor dos nossos filhos se os tivermos,—como em tempo lhe disse, e decerto ainda se lembra, é esse o meu mais delicioso sonho,—creio, dizia, que a felicidade da esposa e da mãe não permittirá que me recorde das minhas satisfações e dos meus successos d'artista. Entretanto é possivel que um dia, d'aqui a cinco ou d'aqui a dez annos, a tristeza se apodere de mim e que uma irresistivel necessidade me leve a voltar á minha querida arte, e a procurar, ainda que não seja senão temporariamente, as luctas e as victorias d'outr'ora. Se tal succeder, meu amigo, peço-lhe, simplesmente sob a sua palavra de gentilhomem, que n'esse dia não se opporá a que eu volte{154}ao que era no passado, deixando-me de novo entrar para o theatro, que abandono apenas pelo muito amor que lhe tenho.—Dou-lhe a minha palavra d'honra, Laura, de que não a impedirei de satisfazer o seu desejo, respondeu Antonino. De resto, amo-a tanto, fal-a-hei tão feliz, que certamente esquecerá para sempre o theatro.—Assim o espero e desejo ardentemente. Mas comprehende que, para que eu caminhe de futuro sem preoccupações, desassombradamente, é indispensavel que me sinta sempre senhora da minha vontade, senhora de mim propria. Se eu tiver um dia de assignar um contracto com qualquer emprezario, a opposição de meu marido pode annullar esse contracto. Fica assente, Antonino, que renuncia por completo a qualquer opposição d'esse genero?Elle reflectiu alguns instantes.Depois dirigiu-se a uma secretária, pegou n'uma folha de papel e escreveu:«Dou o meu consentimento e approvação ao contracto feito entre Laura Marcia, minha mulher, e...»Assignou e entregou o papel a Laura, dizendo:—Aqui tem a sua liberdade. O rouxinol pode sahir da gaiola quando quizer, que a porta está aberta.—Obrigada, meu amigo! disse alegremente Laura.{155}E agora cuidemos do presente, dos nossos projectos, do nosso amor. Concluamos o nosso romance.A conclusão foi a seguinte:Occultaram de todos a sua felicidade, mesmo de Despujolles e de Remissy.Trataram do casamento com todo o segredo.Só o pae d'Antonino teve conhecimento dos projectos do filho.Combinaram que logo que o visconde estivesse completamente restabelecido, partiriam para Inglaterra, casando em qualquer povoação do littoral, religiosamente, por um padre catholico, e civilmente, no consulado de França.Depois não partiriam para qualquer parte: desappareceriam.Laura desejára sempre viver em qualquer ponto da America hespanhola.Antonino, apesar de ter viajado muito, nunca fôra aquelles paizes calidos.Refugiar-se-hiam ahi até que a nostalgia os vencesse, isto é, até que a felicidade diminuisse.Trespassaram a casa da rua de Bolonha.Os moveis que Laura mais estimava foram remettidos para Saint-Malo, e os restantes vendidos.Antonino conservou os seus quartos de rapaz noboulevardHaussmann, residencia pouco dispendiosa que desejava conservar em Paris.{156}Laura levaria Jacintha, que tinha fallado em matar-se se a separassem da sua senhora, e que era sufficientemente doida para executar a ameaça.Pozzoli recebeu da Linda a multa de cincoenta mil francos, importancia estipulada no contracto para a rescisão d'elle.—Tu estás meio contente, meio desapontado, disse Lauretto Mina ao emprezario. Eu estou satisfeitissimo. Eis aberto o massudo livro da virtude da Linda. O primeiro capitulo começa por um rapto. É promettedor o romance. Desejo chegar o mais breve possivel ao capitulo segundo.Alguns dias depois lia-se nosEchosd'um jornalgeralmente bem informado:«A Linda não cantará no Theatro Italiano este inverno. Falla-se n'um contracto fabuloso que assignou para umatournéenos Estados-Unidos.»Poucas linhas mais a baixo via-se ess'outroecho:«O visconde de B... parte, diz-se, para os Estados-Unidos logo que esteja completamente restabelecido. Cumpre assim um voto que fez durante a doença. Como chegou a julgar-se condemnado a deixar este mundo, prometteu, se escapasse, ir visitar o novo. Feliz viagem.»{157}XIIIRegresso a FrançaDezoito mezes depois, no fim de abril, o conde de Bizeux e Estephania de Bizeux, sua filha, esperavam, no molhe de Saint-Malo, a chegada do vapor de Jersey, em que vinham o visconde e a viscondessa de Bizeux, de regresso da America do Sul, via Liverpool e Southampton.O conde era um velho extremamente sympathico, de elevada estatura e aspecto veneravel e terno.A menina de Bizeux contava trinta e seis annos.Tinha o rosto ossudo, aspecto altivo e severo, e comtudo, do conjuncto das suas feições e de toda a sua pessoa, resaltava o cunho da alta estirpe.{158}O conde esperava ancioso a chegada do filho que estremecia, e que ia tornar a vêr depois de prolongada ausencia.Assistira ao casamento do visconde em Inglaterra, e depois viajára durante um mez, com os recém-casados, pela Escocia e pelo paiz de Galles.A nora conquistara-o sem difficuldade logo nos primeiros dias, pelo finissimo espirito de que era dotada, e pelos cuidados, affectuosos e ternos, de que o rodeava.Sentia tanta impaciencia de a abraçar, como de abraçar o filho.A menina de Bizeux esperava a cunhada, que nunca vira, com disposições menos benevolas, e até com uma especie de desconfiança.O pae occultara-lhe cautellosamente que Laura tinha sido cantora, e que estivera escripturada em diversos theatros.Se a tivesse prevenido d'essa circumstancia sem duvida a menina de Bizeux abandonaria o lar paterno, refugiando-se n'um convento, para não estar em contacto com umacomediante.Para não sympathisar com a cunhada bastava-lhe saber que o irmão a desposara por amor, e que, apezar de ser d'alto nascimento, filha d'um conde hespanhol, não tinha outro dote além da belleza.Estephania soubera, pela que lhe dera o ser, a{159}historia do primeiro amor de seu pae, historia em tudo semelhante á de Antonino, á excepção de que no primeiro caso a moral social e religiosa e o direito augusto da familia tinham triumphado, emquanto que, no caso d'Antonino, fôra o amor, o amor profano, que vencera.Parecia a Estephania que o irmão, esposando a mulher que amava, insultara a memoria de sua mãe.O vapor de Jersey não tardou a chegar.Logo que desembarcou, Antonino abraçou o pae com effusão, e seguidamente deu um abraço na irmã.O conde, depois d'abraçar o filho, abraçou a nora, com alegria, e apresentou as duas senhoras uma á outra.Laura, prevenida pelo marido, tinha resolvido tratar a cunhada por fórma identica áquella por que fosse tratada.Estephania não a abraçou, limitando-se a estender-lhe a mão, dizendo:—Senhora viscondessa!...—Minha senhora...As relações futuras ficaram assim fixadas, graves e dignas.Ficou um creado para fazer conduzir as bagagens, e os quatro metteram-se n'uma carruagem que os levou a casa, ou antes, que os levou a suas casas.{160}O visconde tinha casa sua, junto á do pae, que lhe legara um tio, fallecido, viuvo e sem filhos, dez annos antes.As duas casas, juntas e separadas a um tempo, tinham portas de communicação em todos os andares.Eram dois velhos palacetes patrimoniaes, de construcção antiga.O primeiro pavimento habitavel era no terceiro andar, porque os antigos navegadores e corsarios de Saint-Malo desejavam poder deitar sempre a cabeça por cima das muralhas da cidade, afim de não deixarem de gozar a vista do mar.Os Bizeux descendiam de velhos bretões, marinheiros de raça.Da sua familia sahiram, nos reinados de Luiz XIV e de Luiz XV, dois almirantes francezes.O pae e o filho tinham combinado, em cartas, que passariam uma vida simultaneamente separada e commum.Viveria cada um em sua casa, mas tomariam as refeições juntos.De resto, como chegara a primavera, demorar-se-hiam em Saint-Malo apenas uma ou duas semanas, o tempo indispensavel para apresentar a viscondessa ás pessoas mais intimas.Depois partiriam para o castello da familia, situado proximo a Saint-Pol-de-Léon.{161}Deviam tomar todas as cautellas possiveis para que a Linda não podesse ser reconhecida na viscondessa de Bizeux.Depois de viverem por algum tempo juntos, o conde, que no fundo temia a filha, suppunha que, habituada á cunhada, attrahida pela meiguice e encanto de Laura, Estephania revoltar-se-hia com menor violencia, na hypothese d'uma revelação sempre possivel.Laura installou-se, pois, em sua casa, e, como uma verdadeira artista que se accommoda a tudo que não seja burguez e vulgar, sentiu-se immediatamente á vontade no velho palacete, cujas rasgadas janellas e mobilia á Luiz XVI tinham a dupla vantagem de ser commodas, elegantes e hygienicas. A vida, no castello, seria mais desafogada ainda, apesar de dever ser, no fundo, um pouco monotona.Laura, porém, não dava por essa monotonia.Para isso era necessario que ella, habituada ás emoções do trabalho, da acção, do combate, achasse muita novidade e muita variedade em volta de si.O primeiro anno do seu casamento foi para ella um verdadeiro encanto.A lua de mel durára doze luas, sem uma nuvem no céu d'anil.Gosou, sem a mais leve interrupção, o prazer d'amar e ser amada, que é o melhor da vida.{162}Percorreram os admiraveis paizes da America do Sul, o Perú, o Brazil, visitaram as suas melhores cidades, atravessaram as mais esplendidas paisagens, aventurando-se até ás florestas virgens.Mas o que acima de tudo os absorvia era as suas proprias pessoas.Aquella magnifica natureza não era mais do que uma moldura apropriada para servir no quadro do seu amor.Ao cabo d'um anno, porém, começaram a achar, sem o dizer, nem mesmo dar por isso talvez, que um homem e uma mulher, vivendo sós, vivem em solidão.O quer que fosse parecido com o aborrecimento começou a avoejar sobre aquelle perpetuo colloquio.Durante tres mezes soffreram aquella sensação intermitentemente.Depois confessaram um ao outro que as viagens, a continua e fatigante mudança de logar, os dias passados em carruagem de caminho de ferro ou nos hoteis, tudo isso, por fim, cança o espirito e o corpo.Passou-se anno e meio, e o mais fagueiro sonho de Laura, ter um filho do homem que adorava, fugia, fugia sempre diante d'ella, como um phantasma.—Acautella-te! dizia-lhe Antonino. Um filho pode-te fazer perder a voz.{163}—Ah! se tivesse um filho, respondia Laura, jámais teria saudades!...E teria ella saudades, effectivamente?O marido começára por se apaixonar pela voz, e continuava-a amando por isso, sem prejuizo d'outros predicados.Todos os dias cantava para satisfazer os desejos d'Antonino, que, excellente musico, a acompanhava ao piano, extasiando-se como d'antes, e mais do que d'antes até, ante aquelle delicioso e divino canto.Mas se continuava a ser a mesma cantora, Laura deixára de ter o mesmo publico.Foi essa a razão porque, depois de dezoito mezes d'ausencia, elles annuiram em que o paiz natal, o socego do lar, a vida de familia, tinham tambem o seu encanto.E como estavam d'accordo, regressaram a França.{164}{165}XIVA vida no castelloO castello de Bizeux, proximo de Saint-Pol-de-Léon, e a um quarto de legua de Roscoff e do mar, estava edificado n'uma encantadora região, em que o ondeado da copa do arvoredo se perdia ao longe no accidentado das colinas.Como estava um pouco isolado, porque o castello mais proximo distava cinco kilometros, afóra durante a epoca da caça, a vida ali era muito retirada.No caso presente esse facto não devia considerar-se um inconveniente.Laura estaria no castello completamente ao abrigo d'indiscripções e encontros.Nos primeiros dias percorreu, a cavallo ou a pé,{166}as immediações do castello; mas depois de vistas as casas, as egrejas e as paysagens, recahiu na monotonia da vida ociosa, quebrada apenas pelas fidalgas e ininterruptas attenções do conde, sempre previdentemente delicado com a nora, sempre ancioso por lhe procurar distracções.A menina de Bizeux desapprovava o procedimento do pae para com a cunhada.A solteirona dizia por vezes comsigo:—Mas que fórma de tratar esta desconhecida! O que tem ella que a recommende? apenas a belleza, essa dadiva do demonio.Para Estephania a fealdade era certamente dadiva de Deus.O natural instincto de mulher invejosa fazia confusamente adivinhar a Estephania que o passado de sua cunhada devia ter tido uma phase brilhante, que lhe occultavam.Parecia-lhe que no menor gesto ou na mais insignificante palavra pronunciada por Laura havia sempre dissimulação.—Mais outro vestido novo! disse-lhe Estephania um dia, vendo-a sentar á mesa com umatoiletteque ainda não lhe conhecia. Lembre-se que estamos no campo!—Por isso o vestido é simples e campestre! replicou Laura rindo.{167}—Mas nós estamos em nossa casa... não recebemos visitas. A quem deseja agradar? A meu pae?—E porque não?—Agradecido! disse o conde sorrindo.—A seu marido?—Certamente...—Um marido não é um amante, minha querida!—Para mim é.E estendeu a mão ao visconde, que lh'a beijou com prazer.Antonino gracejou com a irmã, que conservou o seu habitual aspecto ironico e altivo.Aquellas picadas d'alfinete não tinham importancia, mas faziam soffrer Laura, que, como todos os espiritos ternos, resentia-se da falta de sympathia que a cunhada constantemente lhe testemunhava.Estephania tambem julgava Laura com severidade sob o ponto de vista religioso.Entretanto a viscondessa, educada por uma mãe excessivamente devota, era crente, e por vezes até supersticiosa como uma hespanhola.Para a menina de Bizeux, porém, havia duas religiões, a que os homens seguiam, e a que era seguida pelas mulheres.Os homens podiam contentar-se em ir á missa aos domingos, comer de magro ás sextas feiras, e confessar-se uma vez por anno, pela quaresma.{168}As mulheres deviam, alem d'isso, comer de magro todos os sabbados, dia em que deviam tambem confessar-se, commungar todos os domingos e jejuar nas vesperas dos dias santificados.Ora Laura limitava-se a seguir a religião dos homens; portanto era uma impia, votada ás chammas eternas!De fórma que a unica mulher com quem podia ter relações d'amisade fugia da sua convivencia.Em vez de ser amiga e irmã, Estephania era inimiga.E se Laura procurasse relações entre as damas que viviam nos castellos mais proximos não encontraria espiritos mais esclarecidos do que o de sua cunhada.O conde adorava a musica quasi tanto como Antonino, e sentia-se verdadeiramente feliz quando Laura se sentava ao piano e cantava qualquer das arias em que d'antes fôra tão applaudida.Se o canto fosse religioso ou mesmo popular, Estephania escutava com indulgencia.Se, porém, a palavraamorfosse uma só vez pronunciada, levantava-se cheia d'indignação e sahia altivamente da sala.Este ultimo caso dava-se com frequencia, porque o amor é um thema musical frequentemente usado pelos compositores.{169}Pelo menos Laura, agora, tinha mais um ouvinte: o conde.Isto não a impedia, como já estava em França e lia os jornaes parisienses, de suspirar quando encontrava nos periodicos noticias de theatro e as narrações dos debutes e das primeiras representações.O que lia era para ella o brilho, o ruido, a vida!Se não tivesse abandonado o theatro, seria d'ella que os jornaes fallariam!Esse eterno esquecido que se chama Paris, tinha-se por muito tempo occupado d'ella!Decerto não sentia a falta da antiga cantora, mas a diva d'outro tempo percebia que Paris lhe faltava.Estava prestes a ser inaugurada a nova Opera, e Laura não assistiria á inauguração!Felizmente, por entre as saudades e os desalentos, conservára intacto no coração o amor que tinha por Antonino.É verdade que o marido adorava-a como no primeiro dia de casados, mas elle não tinha um passado de que lembrar-se, em quanto que ella, ao casar-se, dera metade da sua vida despresando a arte.O amor dos dois esposos, substituira o ardor da paixão dos primeiros tempos pelo prazer ineffavel do habito tomado.E ella consolava-se, chegava a encantar-se até, quando, por uma bella manhã de sol, sahiam ambos,{170}e atravessavam bosques e prados, caminhando ou correndo, na alegria doida de dois collegiaes em férias. Passeiavam sobre a relva, ella appoiada ao braço do marido, e levantando um pouco as saias para não as molhar nas plantas humidas, ou conservando-se direita, o tronco bem vertical sobre os quadris airosos, em quanto Antonino, curvado, cortava com as unhas os pés das violetas, de que Laura fazia, ramos deliciosos, cercados de folhas d'um verde pallido.Muitas vezes o caminho que seguiam afundava-se n'um declive pedregoso, ou descia até á praia.Divertiam-se então em saltar precipitadamente, como creanças, elle segurando-a por uma das mãos, e ella levantando com a outra as saias, que tremulavam ao vento como um ruido d'azas, n'um vôo d'aves anciosas de liberdade.Paravam na areia, e sentavam-se para contemplar a baixamar ou a maré que subia.E ficavam-se por muito tempo a admirar as ondas lambendo com fragor as saliencias dos rochedos, ou traçando na superficie lisa e clara da areia o seu rasto sinuoso, coberto d'espuma.Uma manhã tiveram uma alegria que terminou em tristeza.Acharam um ninho de melros.Os passaritos tinham sahido da casca havia pouco tempo.{171}Antonino mostrou-os a Laura, quebrando um ramo de madresilva brava que os occultava por entre a espessura d'uma sebe d'espinheiros.Eram cinco.No fundo do ninho, apenas se viam bicos amarellos que se abriam com voracidade.Laura ficou penalisada por não ter que dar aos passarinhos.—Voltaremos ámanhã com provisões, disse-lhe Antonino.No dia seguinte voltaram com as algibeiras cheias de bolos.A mãe estava no ninho.Logo que sentiu ruido, levantou vôo para uma arvore proxima, saltando depois de ramo em ramo, dando gritos desolados, inquieta por ver os filhos á mercê de seres humanos.Laura sentiu um prazer quasi maternal, em metter pelos bicos dos passarinhos esfaimados, com a ponta do seu dedo côr de rosa, bocados de bolo, que previamente amolecia entre os labios.Ao outro dia foram tambem ver o ninho.Estava vasio.O pae e a mãe tinham levado os passaritos.Laura ficou triste, sem saber porque.Como Antonino lhe perguntasse a razão d'aquella tristeza, Laura respondeu:{172}—É lugubre este ninho abandonado, lugubre... como um berço vasio!Depois d'um momento de silencio, perguntou:—As aves, quando encasalam, teem sempre filhos, não é verdade?—Sempre, pela primavera, respondeu Antonino.—Como as aves são felizes!Antonino comprehendeu.Percebia perfeitamente qual era o vacuo que havia na vida de Laura, e esforçava-se sempre por lhe procurar distracções.Não servira na marinha, como muitos dos seus antepassados, mas todo o bretão é marinheiro.Adorava o mar, e um dos seus maiores prazeres era andar embarcado.Poucos dias depois de chegar a Saint-Malo, comprou uma chalupa de recreio.O barco era estreito na proa, baixo de caverna, branco, com uma larga facha vermelha, e tinha meia coberta.Os passageiros tomavam logar á pôpa, n'uma especie de camara oval, cercada d'um banco em que cabiam oito pessoas.Na coberta tinham improvisado um casinhoto em que mettiam as malas e as provisões, e um leito estreito, em que uma pessoa tinha suficiente espaço para dormir ao abrigo do vento.{173}O apparelho da chalupa compunha-se d'um mastro e d'um gurupés, d'uma vela grande e d'uma bergantina.Com mau tempo tomavam quatro rizes á vela grande, e como o mastro se inclinava para a proa, a chalupa navegava maravilhosamente com aquelle unico panno.Graças á largura do barco e ao pouco comprimento relativo do casco, a chalupa virava com facilidade, cedia bem ao vento e obedecia docilmente á canna do leme.Antonino mandou o barco para Roscoff, ensinando com precisão a Laura toda a manobra das velas.Era necessario um marinheiro, mas o visconde achava mais encanto a embarcar só com sua mulher, e Laura era um marinheiro agil e encantador.Muitas vezes embarcavam de manhã.Um creado levava-lhes, até ao caes, um cesto com provisões.Antonino embarcava primeiro, e, antes que Laura estivesse a bordo, armava a vela.Depois ajudava a esposa a saltar para a chalupa, e sentavam-se ambos na camara oval, tendo a resguardal-os do sol um toldo de lona.Então Antonino gritava ao creado, que ficava no caes:—Larga!{174}O cabo cahia na agua como um fustigamento de pingalim.O visconde amarrava a vela, suspendia a ancora, impellia o barco com o croque, e puchava a canna do leme para bombordo.A chalupa inclinava-se graciosamente ao vento, balouçava por instantes como indecisa, e por fim vogava.Cinco minutos depois, fendia a agua com uns movimentos de sereia.Percorreram assim as costas da Bretanha, d'um lado até Donamaner, e mesmo a Lorient, e do outro até ao Mont-Saint-Michel.Algumas vezes succedeu estarem ausentes durante dois ou tres dias, com grande inquietação do conde.O pae d'Antonino sabia que o vento contrario e o mau tempo não os fazia parar.O menos temerario dos dois, era justamente o visconde.Laura sentia-se bem a bordo.O perigo incitava-a porque era uma emoção, e eram as emoções o que faltava a Laura, a quem a vida socegada mais fazia recordar o passado.A caça divertia-a muito menos.Por vezes recusava-se até a acompanhar o marido e o sogro, e só ia á tapada do castello, se o almoço fosse servido ao ar livre.{175}Não acceitára até uma esplendida espingarda de caça, que Antonino lhe offerecera, e que passava por ser uma verdadeira maravilha.As poucas reuniões que o conde entendeu dever dar no castello, não lhe mereceram maior attenção, nem lhe proporcionaram o menor attractivo.Entretanto fazia as honras da casa com tão fino tacto e tão affavel dignidade, que a propria Estephania se admirava.Uma d'essas reuniões, mais solemne que as outras, teve, comtudo, para Laura, verdadeira importancia.Foi a festa da inauguração da capella restaurada do castello.Havia já tres annos que Estephania, que possuia fortuna pessoal, emprehendera, com o concurso, felizmente habil, d'um architecto de Rennes, a restauração da referida capella, uma verdadeira joia do seculo XV, no gosto de Folgoet.A obra terminara emfim.Faltava baptisar o sino e consagrar a capella.O arcebispo de Rennes fôra convidado para esse fim, respondendo que iria proceder á dupla ceremonia no primeiro domingo do mez d'agosto.Esta noticia, como era de suppôr, causou grande sensação em todos os castellos e parochias dos arredores, e todos foram unanimes em declarar que só{176}ao conde de Bizeux se poderia dever semelhante honra.Afinal o arcebispo accedera com tanta mais vontade ao convite que o conde lhe dirigira, quanto era certo que, da sua visita ao castello, esperava ganhar a annuencia e o concurso do velho fidalgo para uma obra tão excellente de certo, e muito mais util, que a inauguração da capella.Tratava-se de terminar um hospicio para marinheiros, edificado por subscripção em Saint-Servan, sob a direcção d'uma commissão, de que o arcebispo era presidente.Tinham angariado já umas centenas de mil francos, com que o edificio principiára a ser construido, mas faltava ainda mais uma centena para material e mobiliario, e as bolsas estavam exhaustas.Entretanto era indispensavel arranjar aquella quantia, e por isso o arcebispo desejava fallar com o conde.Estephania fez no castello uma verdadeira revolução, para que a recepção demonsenhorfosse em tudo digna do alto cargo ecclesiastico que elle desempenhava.Enfeitou a capella com arbustos e flores, e mandou vir organistas e coristas da cathedral de Rennes.A missa, por musica vocal e instrumental, estava distinada a produzir sensação, como effectivamente{177}produziu, mas devido talvez a uma circumstancia com que a menina de Bizeux não contava.Eram tantos os cuidados e attenções que a pessoa domonsenhorlhe merecia, que Estephania não deu pela falta da cunhada no banco da familia.Repentinamente, a seguir a uma nota grave soltada pelo orgão, elevou-se uma voz, melodiosa e pura, e cantou, com perfeição e expressão d'adoravel suavidade, um trecho de Handel, que conservou em extasi o auditorio maravilhado.
Discorrendo sobre Laura, a amante de Pozzoli absteve-se prudentemente de lhe apontar o mais insignificante defeito.
—Formosissima mulher! disse ella, mas sobretudo admiravel artista. Nasceu para cantar, mas se a voz lhe faltasse nem por isso deixaria de brilhar, porque á rara distincção de maneiras junta os mais invejaveis predicados de coração.
E continuou a elogiar a cantora, não perdendo occasião para, disfarçadamente, dirigir tambem elogios ao visconde.
Terminada a ceia, a Elvira gorda tomou o braço d'Antonino, para lhe fazer as honras da casa.
Mostrou-lhe a estufa, a galeria dos quadros, onde, entre algumas telas de mestres, abundavam as copias mediocres, que Pozzoli fazia passar por originaes authenticos.{124}
Fez parar o visconde deante d'uma estatua de Diana, para a qualpousara, tendo apenas á cinta, como se via no marmore, uma simples pelle de panthera.
E tentou córar aos cumprimentos forçados d'Antonino, que declarou admiraveis as formas.
—Quer vir á sala do jogo? Gosta dobacura? perguntou ella.
—Fará bem em ir, meu caro, disse repentinamente o dr. Despujolles surgindo ao lado d'elles. A nossa amiga Laura Linda, pela fórma como está jogando, arrisca-se a ficar arruinada esta noite.
Desde que chegou, Laura seguira sempre o visconde com o olhar, sentindo inexplicavel inquietação.
Tambem não perdia de vista Lauretto Mina.
Mas, percebendo que Antonino diligenciou por vezes approximar-se do tenor, socegou por lhe parecer que Lauretto evitava encontrar-se com o visconde.
O socego foi substituido por um sentimento irritante quando deu pelas attenções que a Elvira gorda prodigalisava ao visconde.
Esse sentimento, desconhecido para ella, fazia-a soffrer immenso.
Era o ciume.
O que quereria aquella mulher a Antonino?{125}
Julgou que o mal estar que sentia era resultante da natural apprehensão que lhe causava o pensamento de que o visconde podia correr perigo.
Pois porque razão soffreria ella pelas attenções que a amante de Pozzoli dispensava ao sr. de Bizeux?
Vi-os sahir da sala de jantar, despeitada.
Não tinha razão para se zangar por um facto tão insignificante, que de mais a mais se passava com um homem a quem declarára não poder amar.
Não devia considerar o visconde completamente livre, para escutar as phrases ternas d'aquella mulher?
E a cantora percebeu que era extraordinaria a sua preoccupação.
Pozzoli, ao levantar-se da mesa, perguntou-lhe se queria jogar.
Laura respondeu machinalmente que sim, mas não comprehendera o que lhe dissera o emprezario.
Chegaram á sala do jogo, conhecida peloshabituéssob a designação da sala verde, porque as paredes, o tecto e o proprio soalho eram forrados de veludo d'aquella côr.
Duas grandes mezas d'ebano, rodeadas por cadeiras, eram os unicos moveis que guarneciam a sala, alumiada por quatro candelabros de sete lumes cada um, collocados nos angulos da casa.{126}
Laura sentou-se, pensativa.
Ao principio não quiz jogar.
Depois, importunada e espicaçada por sentimentos diversos, passou a tomar pelo jogo o mais vivo interesse.
Chegou-lhe a vez de fazerbanca.
Pegou no baralho nervosamente, e jogou sem reflexão nem presença d'espirito.
Perdeu todos osbaccaras.
A sorte, sempre contraria a Laura, fez-lhes perder milluizesn'um instante.
Quando Pozzoli fez banca, disse graciosamente para a cantora:
—Vae recuperar todo o dinheiro perdido, verá!
A previsão não se realisou.
Laura, esperando rehaver o perdido, jogou quantias importantes.
O azar continuou.
Foi então que Despujolles, notando a infelicidade da cantora, e a sorte singular de Pozzoli, sahiu da sala em busca d'Antonino, a quem lhe pareceu conveniente avisar. Entraram juntos no salão do jogo.
A gorda Elvira segui-os de longe.
Laura viu o visconde assim que elle entrou.
—Ha vinte mil francos debaccara, dizia Pozzoli.
—Jogo-os! disse Laura lançando para Antonino como que um olhar de desafio.{127}
Pozzoli deu as cartas e ganhou.
—Ha quarenta mil francos... disse elle.
Laura ia abrir a bocca.
Antonino, porém, que se approximara, curvou-se, para ella, e disse-lhe em voz baixa e supplicante:
—Peço-lhe que não jogue mais!
Pozzoli percebeu o que o visconde dissera, e observou, sorrindo:
—Meu caro visconde, deixe-me dar a desforra á nossa amiga.
—Seja caridoso, replicou o visconde friamente. Deixe a desforra para outra vez!
Pozzoli empallideceu.
Laura, sem pronunciar uma só palavra, apontou cento e cincoenta francos.
O emprezario ganhou ainda.
—Já vê que tinha razão, disse Antonino a Laura, sorrindo por sua vez.
—A verdade é, replicou Pozzoli em laia d'explicação, que tenho uma sorte verdadeiramente compremettedora para dono da casa. Passo as cartas.
E levantou-se da mesa.
Obanqueiroque se seguia, deu ainda quatrobaccaras.
Antonino continuava sorrindo.
O emprezario não o desfitava.
O rosto d'aquelle homem transformára-se de subito.{128}
Brilhava-lhe sinistramente o olhar, rugas fundas vincavam-lhe a fronte, e gotas de suor perlavam-lhe o carmim das faces. Approximou-se de Antonino, a quem disse em voz baixa:
—Não joga, senhor visconde?
—Não...
—Como não se entretem aqui, se quer vamos até á sala d'esgrima...
—Pois sim.
—Muito bem. Para nos interessarmos um pouco mais no assalto, occorre-me uma idéa, que talvez não lhe desagrade tambem.
—Queira dizer.
—A um canto da sala ha dois floretes, cujos botões saltaram ha dias. Poderemos experimentar as nossas forças como elles... como quem não repara.
—Acceito, mas hei de eu escolher um dos floretes.
—Escolherá á sua vontade! respondeu Pozzoli tremente de raiva.
E accrescentou em seguida:
—A Linda está a olhar para nós. Não devemos sahir juntos. Vá o senhor adiante. D'aqui a cinco minutos sahirei eu.
Antonino fingiu seguir com attenção, por alguns segundos, a partidabaccara, que já não despertava interesse a Laura, assustada pelo colloquio do visconde com Pozzoli.{129}
Pouco depois Antonino sahiu da sala, sem afectação.
Laura procurou então o emprezario com o olhar.
Pozzoli conversava e ria n'um grupo de convidados, que não jogavam.
Passados dois minutos tomou o braço d'um d'elles, com quem pareceu entabolar uma conversação interessante, e sahiu com elle.
Quando chegou á sala d'esgrima, o visconde já o esperava.
Despujolles e Remissy, que não eram fortes em esgrima, estavam um em frente do outro, de sabre em punho.
—Queira examinar estas explendidas panoplias, sr. visconde, disse Pozzoli.
Antonino seguiu o emprezario, que, fingindo dar-lhe explicações sobre varias armas antigas, escolheu dois floretes desembolados, que deu ao visconde, sem pronunciar uma só palavra.
Antonino examinou-os, dobrou-os para lhes experimentar a tempera, escolheu um e deu o outro a Pozzoli.
—Está combinado, disse o emprezario, que, succeda o que succeder, não será mais do que o effeito d'um accidente?
—Está.
Todos os convidados presentes na sala d'armas seguiam{130}com curiosidade o assalto entre Despujolles e Remissy, que, em mangas de camisa, esgrimiam enfurecidamente, como dois demonios.
Ninguem reparou para Pozzoli e para o visconde, que fizeram tudo o que deixamos dito sem serem percebidos.
Quando, porém, acabavam de trocar as ultimas palavras, entrou na sala a gorda Elvira, acompanhada de Lauretto Mina.
Dirigiu-se para Pozzoli, dizendo-lhe:
—Vamos para a galeria grande. Aspequenasvão executar a dansa das bailadeiras.
O emprezario franziu as sobrancelhas.
Por fim respondeu com voz brusca:
—Logo dansarão.
Elvira tocou com o cotovello em Lauretto, imperceptivelmente.
E sem dizerem nada, mas percebendo-se, foram-se sentar n'umdivan, e accenderam umas cigarrilhas.
Despujolles tocava, pela terceira vez, o seu adversario, com applausos, um pouco ironicos, dos assistentes.
O violinista, já cançado, disse:
—Estou satisfeito, meu caro dr. Confesso-me vencido.
E ajuntou, sorrindo:{131}
—De resto, nenhum de nós é forte ao sabre.
N'esse momento Pozzoli dizia ao visconde, em voz baixa:
—Como estou em minha casa, parece-me conveniente que o sr. me convide, para desviar todas as suspeitas... na hypothese d'um accidente desagradavel.
—D'accordo, replicou Antonino no mesmo tom.
E em voz alta disse:
—Sr. Pozzoli, o sr. Lauretto Mina, disse, ha dias, na minha presença, que o meu amigo era de primeira força ao florete. Quer dar-me a honra de ser meu adversario?
—A honra será toda minha, sr. visconde, respondeu o emprezario.
Pegaram, como por acaso, nos dois floretes desembolados, como se fossem os primeiros que encontrassem á mão.
Ao despirem os casacos, Pozzoli disse a Antonino, baixo:
—Venha um pouco para a penumbra, para que não reparem na falta de botões dos floretes.
A sala era illuminada por uma enorme lampada persa, de cobre avermelhado, trabalhada com arte.
Estava suspensa ao centro da casa.
As extremidades da sala, que era rectangular, ficavam um pouco na sombra.{132}
Foi para uma d'essas extremidades que os dois esgrimistas se dirigiram.
Cumprimentaram-se com os floretes, segundo as regras, e cahiram em guarda.
Em volta formou-se rapidamente um circulo de curiosos, que engrossava de momento a momento.
Na sala não se ouvia mais do que o tenir das laminas.
Os dois adversarios começaram sem demora a bater-se com encarniçamento,parandocom toda a rapidez eripostandovigorosamente.
Lauretto Mina, que tinha boa vista, e estava meio prevenido por Elvira, percebeu immediatamente que os floretes estavam desembolados.
Sem deixar de fumar, apontou o facto á amante de Pozzoli. Ao cabo de dois minutos, continuando a observar os dois contendores, disse:
—Sabes, Elvira?...
—O quê?...
—Estás prestes a enviuvar, minha querida.
—Pois suppões?...
—Ou, pelo menos, destinada a enfermeira durante dois ou tres mezes.
—Que estopada? Parece-te então que Pozzoli?...
—Será ferido? Com certeza!... Nem parece meu discipulo! Verdade seja que o visconde é de primeira força. Repara para elle...{133}
Laura, que continuava na sala do jogo, reflexionou com temor que a sahida de Pozzoli, quasi immediata á de Antonino, não era natural.
Poucos minutos passados, não podendo conter-se por mais tempo, chamou o conde de Vereuil, que estava proximo, e disse-lhe:
—Não vejo Pozzoli. Queria fallar-lhe n'um assumpto urgente... Se o sr. conde o procurasse e trouxesse aqui muito me obsequiava.
O conde inclinou-se e sahiu.
Demorou-se dez minutos.
Á angustia de Laura parecia que elle partira ha mais de uma hora.
Por fim o conde voltou.
Vinha só.
Laura perguntou-lhe, logo que o viu:
—E então?... Pozzoli?
—Perdôe-me a demora, mas com difficuldade o encontrei. Fui dar com elle na sala d'armas.
—Ah! Fallou-lhe?
—Não. Era impossivel, porque no momento em que cheguei começava elle um assalto ao florete.
—Com quem?... com quem?...
—Com Bizeux.
Laura levantou-se, como que impellida por mola occulta.
Estava pallida como uma morta.{134}
Passados instantes disse ao conde:
—Queira dar-me o seu braço. Vamos até lá. Desejo ver o assalto. Sou tão curiosa!
Tomou o braço do conde, que, surprezo, a sentiu tremer.
Entretanto não se atreveu a perguntar-lhe o que tinha.
Laura apressou o passo.
Quando entraram na sala d'armas, Pozzoli, extremamente pallido—porque tinha percebido, antes de Lauretto Mina, que estava em frente d'um adversasario de primeira ordem,—concentrava toda a sua vontade e todos os seus recursos d'esgrimista em guardar a defensiva.
Comtudo sentia-se perdido.
No momento em que Laura se approximava, Antonino cahiu a fundo. Pozzoliparou, curvando-se.
A cantora, ao primeiro olhar, percebeu que o florete de Pozzoli não tinha botão.
—Acautelle-se!... gritou ella ao visconde.
Antonino olhou para o lado d'onde partira a voz de Laura.
Esta distracção fez com que se conservasse descoberto durante dois segundos.
Pozzoli aproveitou o momento para lhe vibrar uma estocada, de que o visconde não teve tempo de defender-se.{135}
A ponta do florete attingiu-o debaixo do sovaco.
Antonino cambaleou e cahiu nos braços do dr. Despujolles.
Um ruido confuso espalhou-se por entre as testemunhas d'aquella scena tragica.
Transportaram o ferido para umdivan.
Laura, fóra de si, d'olhos esgazeados, gritava:
—Fui eu que o matei.
O dr. examinou cuidadosamente o ferimento do visconde.
Passados momentos, disse:
—Ferida quadrangular!... Não sangra!
Alargou com a ponta do dedo a abertura do ferimento, d'onde apenas sahiam umas gotas de sangue, e introduziu a sonda, que sempre trazia comsigo.
O rosto alegrou-se-lhe.
Laura, ajoelhada junto d'elle, perguntou-lhe:
—Então, dr?...
—O ferimento é grave, mas não é mortal. Vou sangral-o.
Durante esse tempo, Pozzoli, tendo nas mãos os dois floretes, dizia para Lauretto Mina com aspecto consternado:
—Ah! Foi aquelle idiota do Antonio que deixou aqui os floretes que nós, a semana passada, tinhamos desembolado. Que miseravel! Nem mais uma noite dormirá em minha casa!{136}
E mostrou o florete do visconde, para provar que não tinha botão, como aquelle de que se servira.
Antonino reabriu um pouco os olhos depois de sangrado. Olhou para Laura, sorriu-lhe, e perdeu os sentidos.
Despujolles parecia ter pressa de o fazer sahir d'aquella casa.
—Pode já ser transportado, disse elle.
—Irá na minha carruagem, observou Laura.
—Não. Uma padiola é mais conveniente.
Foi improvisada a padiola sem detença.
Deitaram n'ella o ferido, e levaram-o.
O visconde continuava sem sentidos.
Ao chegarem ao vestibulo, cheio d'homens e senhoras emtoilettede baile, os conductores perguntaram:
—Para onde devemos seguir?
—Boulevard Haussmann.
—Não, disse Laura. Para minha casa, rua de Bolonha. É mais perto.
—Mas... ia a observar Despujolles.
—Em casa d'elle não terá ninguem que o trate. Para minha casa... para minha casa!...
—Veja o que faz... disse-lhe baixo Despujolles, que via trocarem-se entre os espectadores d'aquella scena, olhares e sorrisos significativos. Asseguro-lhe que respondo por elle...{137}
E voltando-se para os homens que conduziam a padiola, ajuntou em voz alta:
—Levem o sr. de Bizeux...
—Para minha casa, interrompeu Laura. Já lhe disse, doutor... quero que o levem para minha casa!
Ainda não eram tres horas da madrugada, e o baile devia prolongar-se até pela manhã.
Aquella scena inesperada, porém, desgostára todos os convidados de Pozzoli.
Em menos de meia hora as salas ficaram desertas.
Os convidados retiravam-se commentando, de mil formas diversas, o assalto, ou o duello, de Pozzoli e do visconde.
Remissy dizia ao baritono Lunier, com quem descia oboulevard:
—Ninguem sabia ao certo, até agora, o que era a casa de Pozzoli. Passava por ser um bordel. Desde hoje é tambem um covil. Completou-se.
Em quanto os creados apagavam as ultimas velas, Pozzoli, ficando só com Lauretto e a Elvira gorda, disse-lhes:
—Vamos para o salão reservado.
Contiguo ao quarto de cama de Pozzoli, no salão reservado não entravam senão os intimos do emprezario.
Era uma sala octogona, sem janellas, alumiada apenas por lampadas arabes mettidas em vidros de{138}côres, que espalhavam uma luz mysteriosa e sensual.
Espessos tapetes persas cobriam o sobrado e amontoavam-se para formar um largodivanbaixo, que circundava toda a casa.
Tamboretes de madrepérola e marfim, espalhados ao acaso, completavam a mobilia da casa, cujas paredes eram forradas d'espelhos caros.
A pintura do tecto representava a dansa de sete odaliscas nuas, deante do senhor, acocorado e fumando, com os olhos semi-cerrados e os labios, entre-abertos.
—Uff! Não posso mais! disse Pozzoli ao entrar na sala, atirando-se para odivan. Não bebi quasi nada durante a noite, para estar senhor de mim. Vou desforrar-me!
Carregou n'um botão.
Um dos espelhos moveu-se, deixando uma abertura, a que appareceu um creado.
—Antonio,chyprepara mim, echampagnepara a senhora e para o sr. Lauretto Mina.
—Temos de beber á tua dupla victoria, disse o tenor. Ah! meu caro, palavra! cheguei a suppôr-te um homem morto!
—Tambem eu cheguei a considerar-me n'esse lindo estado! replicou Pozzoli, tirando das algibeiras, á{139}mistura, notas de banco e moedas d'oiro, que ia pondo sobre um tamborete proximo.
Depois d'alguns instantes de silencio continuou:
—Se não fosse a intervenção da nossa querida Laura, tinha-me levado o diabo! Esteve toda a noite a meu favor, a Linda! Só lhe apanhei cinco mil francos, mas ficou-me a dever quatorze, o que prefaz um total de desanove. E aquelle grito de prevenção, que soltou, salvou-me a vida. Ah! é tão bom viver!
—O pobre visconde, chasqueou Lauretto, é que não pode dizer o mesmo por muito tempo. Entretanto é de esperar que viva ainda bastante. Reparaste? A Linda mandou-o conduzir para casa d'ella. Aposto em como o vae amar loucamente. A noite foi boa, Pozzoli. Trataste satisfatoriamente dos teus negocios e adeantaste os meus. Obrigado!
—Não te calarás? gritou a Elvira gorda acotovellando o tenor com rudeza.
Lauretto riu-se.
—Deixa-o fallar, Elvira, disse Pozzoli. Lauretto tem razão. Vou por elle. Has de ser amante de Laura!
E rindo-se, pegou em quatro notas de mil francos cada uma.
Dobrou-as e atirou com duas a Elvira, dizendo-lhe:
—São para ti.{140}
—Obrigado, Eurico!
E accrescentou dando as outras duas ao tenor:
—E estas para ti, Lauretto.
O tenor metteu as notas na algibeira, sem pronunciar palavra.
—Pois nem me agradeces?
—Para que? Dás sempre qualquer coisa com uns modos que provocam explicações.
—Então restitue-me o dinheiro!...
—Estás doido!... Olha, eis o vinho que chega. Bebamos. Para isso é que tu és um homem! Esvasias muito melhor os copos do que as algibeiras.
Pozzoli deu aos hombros despresadoramente.
Desrolhadas as garrafas, o creado sahiu.
Os tres começaram a beber em silencio.
Pozzoli, sobretudo, bebia com uma especie de bestialidade avida e feroz.
De repente interrompeu as libações para dizer:
—Então, não dizem nada?... Estão esta noite muito monos!...
—Espera, respondeu Elvira. Vou chamar aspequenas.
Carregou no botão d'uma campainha electrica.
Quasi immediatamente appareceram quatro bailarinas, jovens e formosas.
Elvira disse-lhes:
—Executem a dansa das bailadeiras, sem córtes.{141}
Lauretto Mina pegou n'uma guitarra, e cantou, acompanhando-se com o instrumento, uma canção arabe, primeiro lenta e terna, mas accelerando gradualmente o movimento, até tornar-se ardente e rapida.
As bailarinas seguiram-o, executando uma d'essas dansas egypciacas, brandas e lascivas, que terminou n'uma especie de furia de bacchantes.
Pozzoli soltava gargalhadas estridentes, batia as mãos, rebolava-se pelodivan.
Quando o bailado acabou, elle berrou:
—Mais! mais!...
—Mais não! replicou Lauretto. Eu e ellas é que sabemos se foi bastante.
—Então bebamos!
—Olha, cá está o teu copo grande, disse o tenor.
E apresentou-lhe um copo enorme, que podia conter todo o liquido d'uma garrafa.
Pozzoli encheu-o de vinho dechypre.
Depois de beber a grandes golos, disse:
—Ah! isto consola!
E bebeu o resto.
—Basta, disse-lhe Lauretto. Já estás bebedo.
—Deixa-o beber, meu querido Lauretto! observou a Elvira gorda sem se dar ao incommodo de baixar a voz. Mais depressa ficaremos livres e sós.{142}
Lauretto apenas respondeu com um movimento de hombros approvativo, e accendeu um cachimbo.
—Não fumes esse veneno, meu idolatrado! aconselhou Elvira. Repara, eu já não bebo...
Mas elle continuou a fumar em silencio.
Pozzoli rolára dodivanpara o tapete, balbuciando:
—Deem-me de beber!... Querochypre!... Estão na mesa quinhentosluizes... Aposta, visconde?...
As quatro bailarinas descançavam, sentadas nodivan, de pernas cruzadas, olhando com curiosidade para os patrões.
Elvira fez-lhe signal de que podiam retirar-se.
Ellas desappareceram immediatamente.
Entretanto Lauretto bebia e fumava.
—Meu querido Lauretto, peço-te que não bebas mais! supplicava a Elvira gorda.
E passava os braços em volta do pescoço do tenor, tentando tirar-lhe o cachimbo da bocca.
Elle deu-lhe um murro.
—Deixa-me, ursa!... Safa-te! Ou és tu como Laura? Se és, vem!... Mas, não... ella é mais formosa... Não te pareces com a Linda, nem ao longe... Ah! Laura!...
As palpebras cerraram-se-lhe.
No rosto desenhou-se-lhe uma expressão d'extasi voluptuoso.{143}
—Laura! vem!... Leva-me comtigo para o infinito, onde as estrellas executam uma dansa luminosa!... Meu Deus! como os teus cabellos cresceram desde a ultima vez que os acariciei, Laura!... Vejo-os fluctuar ao longe, atraz de nós, cauda d'um cometa d'ouro, entre a harmonia dos astros... A brisa eterna fal-os soltar notas maviosas... Vibram como cordas d'harpas eolias... Ouço por toda a parte a sympathonia do amor, em que canta um beijo que dura um seculo!...
Calou-se.
Elvira passou apenas a ouvir os roucos estribulos de Pozzoli, curtindo socegadamente a bebedeira.
Lauretto foi em breve fazer companhia ao emprezario, sobre o tapete.
Elvira olhou primeiro para Pozzoli, que parecia dormir o somno da innocencia, e depois para Lauretto, que conservava a bocca e os olhos entreabertos, n'uma expressão mystica de Christo em extasi.
Por fim levantou-se; arredou-os com o pé para passar, dizendo despresadoramente:
—Que dois brutos!
E entrou, só, no quarto da cama.{144}
{145}
Durante uma semana em que fluctuou entre a vida e a morte, Antonino viu, atravez o delirio, passar e repassar uma sombra, branca e silenciosa, que corria para elle ao ouvil-o soltar um gemido, ou se inclinava para lhe humedecer a fronte escaldante de febre ou para lhe dar de beber.
Por vezes essa que para o visconde era apenas sombra, dirigia-lhe palavras meigas, que elle não comprehendia, mas que o embalavam, socegando-o.
Um dia o pensamento fixou-se no seu cerebro perturbado.
A febre diminuiu, e, como accordando d'um pesadello{146}terrivel, Antonino olhou em volta, parecendo distinguir e perceber.
A sombra branca lá estava junto d'elle.
Não sonhára, pois.
Ella lá estava, envolvendo-o n'um olhar em que o sorriso transparecia por entre as lagrimas.
O visconde reconheceu-a.
Sorriu-lhe tambem e murmurou:
—Laura!
—Não falle, observou ella. Está melhor, está salvo, mas não está ainda completamente curado. É necessario estar calado e quieto, porque foi essa a recommendação do doutor.
Elle repetiu com enlevo, despresando o conselho:
—Laura!
Depois, olhando em volta demoradamente, perguntou:
—Onde estou eu?
Despujolles entrava n'esse momento.
—Ah! doutor! disse Laura indo ao encontro do medico, ainda bem que chegou! Elle vê e falla. Voltou completamente a si!
—Admire a minha sciencia! Preveni-a hontem de que hoje se daria esse facto, respondeu Despujolles.
E depois, voltando-se para o visconde, accrescentou:{147}
—Vejamos o pulso. Bem. A febre quasi desappareceu de todo. Tudo vae bem.
—É o senhor, meu caro Despujolles? disse Antonino. Mas o que succedeu?... Porque não estou eu em minha casa?...
—Não falle, recommendou o medico. Vou pôl-o ao corrente do caso. O meu amigo foi ferido ha oito dias, n'um pretendido assalto d'esgrima, pelo patife do Pozzoli. O ferimento era serio, muito serio até! A nossa querida Laura mandou-o transportar para casa d'ella. O meu amigo está no salão da nossa amiga, deitado n'um leito que eu mandei arranjar de proposito, e que facilita muito os pensos. Durante essa terrivel semana, o meu caro visconde não teve, tanto de dia como de noite, senão uma enfermeira: Laura Linda, que apenas admittia que Jacintha a ajudasse algumas vezes na sua dedicada missão e nas vigilias longas. Está em via de cura rapida e completa, mas é necessario ter juizo, obedecendo ao seu medico como a um deus, não se mover, fallar pouco e pensar menos.
—Seguirei á risca as suas instrucções, meu caro doutor, e agradeço-lhe reconhecido os seus desvelados serviços, disse Antonino.
Em seguida estendeu a mão para Laura. A cantora pegou n'aquella mão descarnada, e disse, sem poder suster as lagrimas, que lhe deslisaram pelas faces:{148}
—Como é estupido chorar d'alegria!
—Sobretudo, accrescentou Despujolles, quando se corre o risco d'enternecer um doente. Nada de pieguices! Vou fazer o penso.
Antonino não cessava d'olhar para Laura, com expressão de reconhecimento e amor.
—Juizo! disse o medico no tom brusco que lhe era habitual, quando estava no desempenho das suas funcções. Espero que, logo que eu sahir, não comecem a contar historias um ao outro ou a cantar duetos. Addiem, addiem as explicações e os projectos para mais tarde. Creio que dei ao ferido todos os esclarecimentos necessarios...
—Entretanto, meu caro doutor... interrompeu Antonino.
—O que quer dizer?... Deixaria eu d'explicar claramente tudo o que se passou? Ah! como está em casa de Laura, é possivel que deseje que lhe expliquem o caso...
—Sim, doutor, disse a cantora, parece-me necessario...
—Bem, seja... concedo... Mas procedam de fórma que não pronunciem mais de tres palavras.
—Oh! doutor!...
—Nem mais uma. Expliquem-se em tres palavras, sem commentarios, e com a condição de que depois{149}serão mudos como dois peixes. Adeus, meu caro visconde, até ámanhã e juizo.
Laura acompanhou Despujolles até á porta da escada.
O medico mais uma vez lhe assegurou que o doente não corria perigo, recommendando-lhe de novo socego absoluto para Antonino.
O visconde, com o olhar fixo na porta da sala, esperava com impaciencia a volta de Laura.
A cantora entrou.
Elle quiz fallar, mas ella collocou um dedo sobre os labios do doente, ajoelhou junto do leito, e com voz d'anjo, disse:
—Amo-o!
Amava-o! Oito dias antes nem ella propria o sabia.
Os diversos acontecimentos que successivamente se deram revelaram-lhe aquelle amor, que existia latente no seu coração.
Primeiro o sacrificio d'Antonino surprehendera-a.
Aquelle honesto e grave fidalgo bretão, rico e considerado, dera-lhe a mais irrefutavel prova de confiança e d'amor, offerecendo-lhe a sua mão e permittindo que ficasse no theatro.
A insolente interrupção de Lauretto Mina no momento em que o seu contentamento de mulher e de artista mais se expandia, tinha-lhe torturado o coração, demonstrando-lhe a impossibilidade d'acceitar o{150}offerecimento inesperado d'Antonino, que n'um momento, sem hesitação, renunciava a todos os prejuizos d'educação e de familia.
Mas tudo o que sentia então podia ser apenas admiração e reconhecimento pelo cego amor do visconde.
Nasoiréede Pozzoli, Laura não tinha percebido que era ciume o que sentira, quando viu uma outra mulher parecendo querer monopolisar a attenção e as amabilidades do visconde, que ella considerava como pertencendo-lhe.
Depois, quando Pozzoli e Antonino tinham trocado em voz baixa as phrases pelas quaes deviam bater-se, poderia ella classificar a angustia que experimentou, sentindo os espinhos da desconfiança picarem-lhe o coração?
Por fim, toda a chamma do seu amor latente rebentou, como no incendio da Opera, ao ver Antonino prostrado pelo florete de Pozzoli, morto talvez, e morto por ella!
Então tudo esquecera: posição, reputação compromettida, futuro perdido.
Quizera levar para casa o seu amado, para o ter bem junto a si, morto ou vivo.
No dia seguinte pela manhã, levada pelo horror que sentia por aquelle miseravel Pozzoli, Laura nada quiz dever ao que ella considerava assassino, nem{151}mesmo o dinheiro que na vespera elle lhe tinha roubado ao jogo.
Para obter esse dinheiro mandou Jacintha, com parte dos diamantes que possuia, a um joalheiro, que n'outra occasião lhe adiantára, com um juro modico, uma quantia importante sobre o mesmo penhor.
Antes do meio dia, Pozzoli, esfregando as mãos de contente, estava pago.
Durante oito dias, volteando em redor do leito de Antonino, espiara, attribulada, o soffrimento do ferido.
Emfim o dr. Despujolles annunciou um dia que o doente estava livre de perigo.
Elle estava salvo, e ella salva tambem!
Tinha a certeza d'isso, porque, emfim, sentia que amava.
Desde então aquella alma tão ardente e sincera não teria que confranger-se, nem que hesitar.
Seria sua esposa, seria sua amante, o que importava, com tanto que pertencessem um ao outro para sempre!
A cura d'Antonino caminhou rapidamente, activada pela felicidade.
Ao cabo de quinze dias, o visconde levantava-se, pallido ainda e enfraquecido pela dieta e pelo sangue perdido, mas sentindo que a força e a vida lhe voltavam gradualmente.{152}
A Linda, obedecendo ás prescripções de Despujolles, fallava pouco a Antonino e não consentia que elle fallasse.
Por fim o medico declarou uma manhã, sorrindo indulgentemente, que, se ella tinha alguma coisa importante a dizer ao visconde, podia fazel-o, sem que o doente corresse risco de peorar.
Laura poude então abrir completamente o seu coração a Antonino.
—Ha um mez, disse-lhe ella, deu-me uma extraordinaria prova d'amor, fazendo por mim o maior sacrificio que uma mulher póde esperar do homem que ama. Hoje chegou a minha vez. Sei, sinto que o amo, e quero provar-lhe quanto esse amor é intenso. Dava-me o seu nome, e, para satisfazer a minha paixão d'artista, consentia em que eu continuasse no theatro. Depois do que me disse, reflecti muito. Tenho reconhecido duramente quanto, nas condições de fortuna e de posição em que o senhor está, me seria difficil, se não impossivel, ficar no theatro, passando a fazer parte da sua familia. Venho, pois, dizer-lhe o seguinte: acceito com a maior satisfação o seu nome, e, salvo uma condição que d'aqui a pouco exporei, renuncio ao theatro.
—Ah! minha querida Laura! murmurou Antonino no auge da alegria.
Ella continuou:{153}
—Seu pae, que tão bondoso é, ficará satisfeitissimo. Parece-me conveniente evitar o mais possivel que se torne do dominio publico o nosso projectado casamento. O visconde de Bizeux esposará a filha do conde de Marcia. A Linda desapparecerá.
—O que vale a minha abnegação ao lado da sua! disse Antonino. Eu repudiava prejuizos que considerava mesquinhos e absurdos; a minha querida Laura renuncia aos seus triumphos, á sua arte, ao que, segundo affirmava, era metade da sua vida! Pesou bem toda a importancia do sacrificio?
—Tudo pensei e tudo previ. É justamente por essa circumstancia que ha pouco resolvi apresentar-lhe uma condição. N'este momento creio firmemente que o nosso amor, e o amor dos nossos filhos se os tivermos,—como em tempo lhe disse, e decerto ainda se lembra, é esse o meu mais delicioso sonho,—creio, dizia, que a felicidade da esposa e da mãe não permittirá que me recorde das minhas satisfações e dos meus successos d'artista. Entretanto é possivel que um dia, d'aqui a cinco ou d'aqui a dez annos, a tristeza se apodere de mim e que uma irresistivel necessidade me leve a voltar á minha querida arte, e a procurar, ainda que não seja senão temporariamente, as luctas e as victorias d'outr'ora. Se tal succeder, meu amigo, peço-lhe, simplesmente sob a sua palavra de gentilhomem, que n'esse dia não se opporá a que eu volte{154}ao que era no passado, deixando-me de novo entrar para o theatro, que abandono apenas pelo muito amor que lhe tenho.
—Dou-lhe a minha palavra d'honra, Laura, de que não a impedirei de satisfazer o seu desejo, respondeu Antonino. De resto, amo-a tanto, fal-a-hei tão feliz, que certamente esquecerá para sempre o theatro.
—Assim o espero e desejo ardentemente. Mas comprehende que, para que eu caminhe de futuro sem preoccupações, desassombradamente, é indispensavel que me sinta sempre senhora da minha vontade, senhora de mim propria. Se eu tiver um dia de assignar um contracto com qualquer emprezario, a opposição de meu marido pode annullar esse contracto. Fica assente, Antonino, que renuncia por completo a qualquer opposição d'esse genero?
Elle reflectiu alguns instantes.
Depois dirigiu-se a uma secretária, pegou n'uma folha de papel e escreveu:
«Dou o meu consentimento e approvação ao contracto feito entre Laura Marcia, minha mulher, e...»
Assignou e entregou o papel a Laura, dizendo:
—Aqui tem a sua liberdade. O rouxinol pode sahir da gaiola quando quizer, que a porta está aberta.
—Obrigada, meu amigo! disse alegremente Laura.{155}
E agora cuidemos do presente, dos nossos projectos, do nosso amor. Concluamos o nosso romance.
A conclusão foi a seguinte:
Occultaram de todos a sua felicidade, mesmo de Despujolles e de Remissy.
Trataram do casamento com todo o segredo.
Só o pae d'Antonino teve conhecimento dos projectos do filho.
Combinaram que logo que o visconde estivesse completamente restabelecido, partiriam para Inglaterra, casando em qualquer povoação do littoral, religiosamente, por um padre catholico, e civilmente, no consulado de França.
Depois não partiriam para qualquer parte: desappareceriam.
Laura desejára sempre viver em qualquer ponto da America hespanhola.
Antonino, apesar de ter viajado muito, nunca fôra aquelles paizes calidos.
Refugiar-se-hiam ahi até que a nostalgia os vencesse, isto é, até que a felicidade diminuisse.
Trespassaram a casa da rua de Bolonha.
Os moveis que Laura mais estimava foram remettidos para Saint-Malo, e os restantes vendidos.
Antonino conservou os seus quartos de rapaz noboulevardHaussmann, residencia pouco dispendiosa que desejava conservar em Paris.{156}
Laura levaria Jacintha, que tinha fallado em matar-se se a separassem da sua senhora, e que era sufficientemente doida para executar a ameaça.
Pozzoli recebeu da Linda a multa de cincoenta mil francos, importancia estipulada no contracto para a rescisão d'elle.
—Tu estás meio contente, meio desapontado, disse Lauretto Mina ao emprezario. Eu estou satisfeitissimo. Eis aberto o massudo livro da virtude da Linda. O primeiro capitulo começa por um rapto. É promettedor o romance. Desejo chegar o mais breve possivel ao capitulo segundo.
Alguns dias depois lia-se nosEchosd'um jornalgeralmente bem informado:
«A Linda não cantará no Theatro Italiano este inverno. Falla-se n'um contracto fabuloso que assignou para umatournéenos Estados-Unidos.»
Poucas linhas mais a baixo via-se ess'outroecho:
«O visconde de B... parte, diz-se, para os Estados-Unidos logo que esteja completamente restabelecido. Cumpre assim um voto que fez durante a doença. Como chegou a julgar-se condemnado a deixar este mundo, prometteu, se escapasse, ir visitar o novo. Feliz viagem.»{157}
Dezoito mezes depois, no fim de abril, o conde de Bizeux e Estephania de Bizeux, sua filha, esperavam, no molhe de Saint-Malo, a chegada do vapor de Jersey, em que vinham o visconde e a viscondessa de Bizeux, de regresso da America do Sul, via Liverpool e Southampton.
O conde era um velho extremamente sympathico, de elevada estatura e aspecto veneravel e terno.
A menina de Bizeux contava trinta e seis annos.
Tinha o rosto ossudo, aspecto altivo e severo, e comtudo, do conjuncto das suas feições e de toda a sua pessoa, resaltava o cunho da alta estirpe.{158}
O conde esperava ancioso a chegada do filho que estremecia, e que ia tornar a vêr depois de prolongada ausencia.
Assistira ao casamento do visconde em Inglaterra, e depois viajára durante um mez, com os recém-casados, pela Escocia e pelo paiz de Galles.
A nora conquistara-o sem difficuldade logo nos primeiros dias, pelo finissimo espirito de que era dotada, e pelos cuidados, affectuosos e ternos, de que o rodeava.
Sentia tanta impaciencia de a abraçar, como de abraçar o filho.
A menina de Bizeux esperava a cunhada, que nunca vira, com disposições menos benevolas, e até com uma especie de desconfiança.
O pae occultara-lhe cautellosamente que Laura tinha sido cantora, e que estivera escripturada em diversos theatros.
Se a tivesse prevenido d'essa circumstancia sem duvida a menina de Bizeux abandonaria o lar paterno, refugiando-se n'um convento, para não estar em contacto com umacomediante.
Para não sympathisar com a cunhada bastava-lhe saber que o irmão a desposara por amor, e que, apezar de ser d'alto nascimento, filha d'um conde hespanhol, não tinha outro dote além da belleza.
Estephania soubera, pela que lhe dera o ser, a{159}historia do primeiro amor de seu pae, historia em tudo semelhante á de Antonino, á excepção de que no primeiro caso a moral social e religiosa e o direito augusto da familia tinham triumphado, emquanto que, no caso d'Antonino, fôra o amor, o amor profano, que vencera.
Parecia a Estephania que o irmão, esposando a mulher que amava, insultara a memoria de sua mãe.
O vapor de Jersey não tardou a chegar.
Logo que desembarcou, Antonino abraçou o pae com effusão, e seguidamente deu um abraço na irmã.
O conde, depois d'abraçar o filho, abraçou a nora, com alegria, e apresentou as duas senhoras uma á outra.
Laura, prevenida pelo marido, tinha resolvido tratar a cunhada por fórma identica áquella por que fosse tratada.
Estephania não a abraçou, limitando-se a estender-lhe a mão, dizendo:
—Senhora viscondessa!...
—Minha senhora...
As relações futuras ficaram assim fixadas, graves e dignas.
Ficou um creado para fazer conduzir as bagagens, e os quatro metteram-se n'uma carruagem que os levou a casa, ou antes, que os levou a suas casas.{160}
O visconde tinha casa sua, junto á do pae, que lhe legara um tio, fallecido, viuvo e sem filhos, dez annos antes.
As duas casas, juntas e separadas a um tempo, tinham portas de communicação em todos os andares.
Eram dois velhos palacetes patrimoniaes, de construcção antiga.
O primeiro pavimento habitavel era no terceiro andar, porque os antigos navegadores e corsarios de Saint-Malo desejavam poder deitar sempre a cabeça por cima das muralhas da cidade, afim de não deixarem de gozar a vista do mar.
Os Bizeux descendiam de velhos bretões, marinheiros de raça.
Da sua familia sahiram, nos reinados de Luiz XIV e de Luiz XV, dois almirantes francezes.
O pae e o filho tinham combinado, em cartas, que passariam uma vida simultaneamente separada e commum.
Viveria cada um em sua casa, mas tomariam as refeições juntos.
De resto, como chegara a primavera, demorar-se-hiam em Saint-Malo apenas uma ou duas semanas, o tempo indispensavel para apresentar a viscondessa ás pessoas mais intimas.
Depois partiriam para o castello da familia, situado proximo a Saint-Pol-de-Léon.{161}
Deviam tomar todas as cautellas possiveis para que a Linda não podesse ser reconhecida na viscondessa de Bizeux.
Depois de viverem por algum tempo juntos, o conde, que no fundo temia a filha, suppunha que, habituada á cunhada, attrahida pela meiguice e encanto de Laura, Estephania revoltar-se-hia com menor violencia, na hypothese d'uma revelação sempre possivel.
Laura installou-se, pois, em sua casa, e, como uma verdadeira artista que se accommoda a tudo que não seja burguez e vulgar, sentiu-se immediatamente á vontade no velho palacete, cujas rasgadas janellas e mobilia á Luiz XVI tinham a dupla vantagem de ser commodas, elegantes e hygienicas. A vida, no castello, seria mais desafogada ainda, apesar de dever ser, no fundo, um pouco monotona.
Laura, porém, não dava por essa monotonia.
Para isso era necessario que ella, habituada ás emoções do trabalho, da acção, do combate, achasse muita novidade e muita variedade em volta de si.
O primeiro anno do seu casamento foi para ella um verdadeiro encanto.
A lua de mel durára doze luas, sem uma nuvem no céu d'anil.
Gosou, sem a mais leve interrupção, o prazer d'amar e ser amada, que é o melhor da vida.{162}
Percorreram os admiraveis paizes da America do Sul, o Perú, o Brazil, visitaram as suas melhores cidades, atravessaram as mais esplendidas paisagens, aventurando-se até ás florestas virgens.
Mas o que acima de tudo os absorvia era as suas proprias pessoas.
Aquella magnifica natureza não era mais do que uma moldura apropriada para servir no quadro do seu amor.
Ao cabo d'um anno, porém, começaram a achar, sem o dizer, nem mesmo dar por isso talvez, que um homem e uma mulher, vivendo sós, vivem em solidão.
O quer que fosse parecido com o aborrecimento começou a avoejar sobre aquelle perpetuo colloquio.
Durante tres mezes soffreram aquella sensação intermitentemente.
Depois confessaram um ao outro que as viagens, a continua e fatigante mudança de logar, os dias passados em carruagem de caminho de ferro ou nos hoteis, tudo isso, por fim, cança o espirito e o corpo.
Passou-se anno e meio, e o mais fagueiro sonho de Laura, ter um filho do homem que adorava, fugia, fugia sempre diante d'ella, como um phantasma.
—Acautella-te! dizia-lhe Antonino. Um filho pode-te fazer perder a voz.{163}
—Ah! se tivesse um filho, respondia Laura, jámais teria saudades!...
E teria ella saudades, effectivamente?
O marido começára por se apaixonar pela voz, e continuava-a amando por isso, sem prejuizo d'outros predicados.
Todos os dias cantava para satisfazer os desejos d'Antonino, que, excellente musico, a acompanhava ao piano, extasiando-se como d'antes, e mais do que d'antes até, ante aquelle delicioso e divino canto.
Mas se continuava a ser a mesma cantora, Laura deixára de ter o mesmo publico.
Foi essa a razão porque, depois de dezoito mezes d'ausencia, elles annuiram em que o paiz natal, o socego do lar, a vida de familia, tinham tambem o seu encanto.
E como estavam d'accordo, regressaram a França.{164}
{165}
O castello de Bizeux, proximo de Saint-Pol-de-Léon, e a um quarto de legua de Roscoff e do mar, estava edificado n'uma encantadora região, em que o ondeado da copa do arvoredo se perdia ao longe no accidentado das colinas.
Como estava um pouco isolado, porque o castello mais proximo distava cinco kilometros, afóra durante a epoca da caça, a vida ali era muito retirada.
No caso presente esse facto não devia considerar-se um inconveniente.
Laura estaria no castello completamente ao abrigo d'indiscripções e encontros.
Nos primeiros dias percorreu, a cavallo ou a pé,{166}as immediações do castello; mas depois de vistas as casas, as egrejas e as paysagens, recahiu na monotonia da vida ociosa, quebrada apenas pelas fidalgas e ininterruptas attenções do conde, sempre previdentemente delicado com a nora, sempre ancioso por lhe procurar distracções.
A menina de Bizeux desapprovava o procedimento do pae para com a cunhada.
A solteirona dizia por vezes comsigo:
—Mas que fórma de tratar esta desconhecida! O que tem ella que a recommende? apenas a belleza, essa dadiva do demonio.
Para Estephania a fealdade era certamente dadiva de Deus.
O natural instincto de mulher invejosa fazia confusamente adivinhar a Estephania que o passado de sua cunhada devia ter tido uma phase brilhante, que lhe occultavam.
Parecia-lhe que no menor gesto ou na mais insignificante palavra pronunciada por Laura havia sempre dissimulação.
—Mais outro vestido novo! disse-lhe Estephania um dia, vendo-a sentar á mesa com umatoiletteque ainda não lhe conhecia. Lembre-se que estamos no campo!
—Por isso o vestido é simples e campestre! replicou Laura rindo.{167}
—Mas nós estamos em nossa casa... não recebemos visitas. A quem deseja agradar? A meu pae?
—E porque não?
—Agradecido! disse o conde sorrindo.
—A seu marido?
—Certamente...
—Um marido não é um amante, minha querida!
—Para mim é.
E estendeu a mão ao visconde, que lh'a beijou com prazer.
Antonino gracejou com a irmã, que conservou o seu habitual aspecto ironico e altivo.
Aquellas picadas d'alfinete não tinham importancia, mas faziam soffrer Laura, que, como todos os espiritos ternos, resentia-se da falta de sympathia que a cunhada constantemente lhe testemunhava.
Estephania tambem julgava Laura com severidade sob o ponto de vista religioso.
Entretanto a viscondessa, educada por uma mãe excessivamente devota, era crente, e por vezes até supersticiosa como uma hespanhola.
Para a menina de Bizeux, porém, havia duas religiões, a que os homens seguiam, e a que era seguida pelas mulheres.
Os homens podiam contentar-se em ir á missa aos domingos, comer de magro ás sextas feiras, e confessar-se uma vez por anno, pela quaresma.{168}
As mulheres deviam, alem d'isso, comer de magro todos os sabbados, dia em que deviam tambem confessar-se, commungar todos os domingos e jejuar nas vesperas dos dias santificados.
Ora Laura limitava-se a seguir a religião dos homens; portanto era uma impia, votada ás chammas eternas!
De fórma que a unica mulher com quem podia ter relações d'amisade fugia da sua convivencia.
Em vez de ser amiga e irmã, Estephania era inimiga.
E se Laura procurasse relações entre as damas que viviam nos castellos mais proximos não encontraria espiritos mais esclarecidos do que o de sua cunhada.
O conde adorava a musica quasi tanto como Antonino, e sentia-se verdadeiramente feliz quando Laura se sentava ao piano e cantava qualquer das arias em que d'antes fôra tão applaudida.
Se o canto fosse religioso ou mesmo popular, Estephania escutava com indulgencia.
Se, porém, a palavraamorfosse uma só vez pronunciada, levantava-se cheia d'indignação e sahia altivamente da sala.
Este ultimo caso dava-se com frequencia, porque o amor é um thema musical frequentemente usado pelos compositores.{169}
Pelo menos Laura, agora, tinha mais um ouvinte: o conde.
Isto não a impedia, como já estava em França e lia os jornaes parisienses, de suspirar quando encontrava nos periodicos noticias de theatro e as narrações dos debutes e das primeiras representações.
O que lia era para ella o brilho, o ruido, a vida!
Se não tivesse abandonado o theatro, seria d'ella que os jornaes fallariam!
Esse eterno esquecido que se chama Paris, tinha-se por muito tempo occupado d'ella!
Decerto não sentia a falta da antiga cantora, mas a diva d'outro tempo percebia que Paris lhe faltava.
Estava prestes a ser inaugurada a nova Opera, e Laura não assistiria á inauguração!
Felizmente, por entre as saudades e os desalentos, conservára intacto no coração o amor que tinha por Antonino.
É verdade que o marido adorava-a como no primeiro dia de casados, mas elle não tinha um passado de que lembrar-se, em quanto que ella, ao casar-se, dera metade da sua vida despresando a arte.
O amor dos dois esposos, substituira o ardor da paixão dos primeiros tempos pelo prazer ineffavel do habito tomado.
E ella consolava-se, chegava a encantar-se até, quando, por uma bella manhã de sol, sahiam ambos,{170}e atravessavam bosques e prados, caminhando ou correndo, na alegria doida de dois collegiaes em férias. Passeiavam sobre a relva, ella appoiada ao braço do marido, e levantando um pouco as saias para não as molhar nas plantas humidas, ou conservando-se direita, o tronco bem vertical sobre os quadris airosos, em quanto Antonino, curvado, cortava com as unhas os pés das violetas, de que Laura fazia, ramos deliciosos, cercados de folhas d'um verde pallido.
Muitas vezes o caminho que seguiam afundava-se n'um declive pedregoso, ou descia até á praia.
Divertiam-se então em saltar precipitadamente, como creanças, elle segurando-a por uma das mãos, e ella levantando com a outra as saias, que tremulavam ao vento como um ruido d'azas, n'um vôo d'aves anciosas de liberdade.
Paravam na areia, e sentavam-se para contemplar a baixamar ou a maré que subia.
E ficavam-se por muito tempo a admirar as ondas lambendo com fragor as saliencias dos rochedos, ou traçando na superficie lisa e clara da areia o seu rasto sinuoso, coberto d'espuma.
Uma manhã tiveram uma alegria que terminou em tristeza.
Acharam um ninho de melros.
Os passaritos tinham sahido da casca havia pouco tempo.{171}
Antonino mostrou-os a Laura, quebrando um ramo de madresilva brava que os occultava por entre a espessura d'uma sebe d'espinheiros.
Eram cinco.
No fundo do ninho, apenas se viam bicos amarellos que se abriam com voracidade.
Laura ficou penalisada por não ter que dar aos passarinhos.
—Voltaremos ámanhã com provisões, disse-lhe Antonino.
No dia seguinte voltaram com as algibeiras cheias de bolos.
A mãe estava no ninho.
Logo que sentiu ruido, levantou vôo para uma arvore proxima, saltando depois de ramo em ramo, dando gritos desolados, inquieta por ver os filhos á mercê de seres humanos.
Laura sentiu um prazer quasi maternal, em metter pelos bicos dos passarinhos esfaimados, com a ponta do seu dedo côr de rosa, bocados de bolo, que previamente amolecia entre os labios.
Ao outro dia foram tambem ver o ninho.
Estava vasio.
O pae e a mãe tinham levado os passaritos.
Laura ficou triste, sem saber porque.
Como Antonino lhe perguntasse a razão d'aquella tristeza, Laura respondeu:{172}
—É lugubre este ninho abandonado, lugubre... como um berço vasio!
Depois d'um momento de silencio, perguntou:
—As aves, quando encasalam, teem sempre filhos, não é verdade?
—Sempre, pela primavera, respondeu Antonino.
—Como as aves são felizes!
Antonino comprehendeu.
Percebia perfeitamente qual era o vacuo que havia na vida de Laura, e esforçava-se sempre por lhe procurar distracções.
Não servira na marinha, como muitos dos seus antepassados, mas todo o bretão é marinheiro.
Adorava o mar, e um dos seus maiores prazeres era andar embarcado.
Poucos dias depois de chegar a Saint-Malo, comprou uma chalupa de recreio.
O barco era estreito na proa, baixo de caverna, branco, com uma larga facha vermelha, e tinha meia coberta.
Os passageiros tomavam logar á pôpa, n'uma especie de camara oval, cercada d'um banco em que cabiam oito pessoas.
Na coberta tinham improvisado um casinhoto em que mettiam as malas e as provisões, e um leito estreito, em que uma pessoa tinha suficiente espaço para dormir ao abrigo do vento.{173}
O apparelho da chalupa compunha-se d'um mastro e d'um gurupés, d'uma vela grande e d'uma bergantina.
Com mau tempo tomavam quatro rizes á vela grande, e como o mastro se inclinava para a proa, a chalupa navegava maravilhosamente com aquelle unico panno.
Graças á largura do barco e ao pouco comprimento relativo do casco, a chalupa virava com facilidade, cedia bem ao vento e obedecia docilmente á canna do leme.
Antonino mandou o barco para Roscoff, ensinando com precisão a Laura toda a manobra das velas.
Era necessario um marinheiro, mas o visconde achava mais encanto a embarcar só com sua mulher, e Laura era um marinheiro agil e encantador.
Muitas vezes embarcavam de manhã.
Um creado levava-lhes, até ao caes, um cesto com provisões.
Antonino embarcava primeiro, e, antes que Laura estivesse a bordo, armava a vela.
Depois ajudava a esposa a saltar para a chalupa, e sentavam-se ambos na camara oval, tendo a resguardal-os do sol um toldo de lona.
Então Antonino gritava ao creado, que ficava no caes:
—Larga!{174}
O cabo cahia na agua como um fustigamento de pingalim.
O visconde amarrava a vela, suspendia a ancora, impellia o barco com o croque, e puchava a canna do leme para bombordo.
A chalupa inclinava-se graciosamente ao vento, balouçava por instantes como indecisa, e por fim vogava.
Cinco minutos depois, fendia a agua com uns movimentos de sereia.
Percorreram assim as costas da Bretanha, d'um lado até Donamaner, e mesmo a Lorient, e do outro até ao Mont-Saint-Michel.
Algumas vezes succedeu estarem ausentes durante dois ou tres dias, com grande inquietação do conde.
O pae d'Antonino sabia que o vento contrario e o mau tempo não os fazia parar.
O menos temerario dos dois, era justamente o visconde.
Laura sentia-se bem a bordo.
O perigo incitava-a porque era uma emoção, e eram as emoções o que faltava a Laura, a quem a vida socegada mais fazia recordar o passado.
A caça divertia-a muito menos.
Por vezes recusava-se até a acompanhar o marido e o sogro, e só ia á tapada do castello, se o almoço fosse servido ao ar livre.{175}
Não acceitára até uma esplendida espingarda de caça, que Antonino lhe offerecera, e que passava por ser uma verdadeira maravilha.
As poucas reuniões que o conde entendeu dever dar no castello, não lhe mereceram maior attenção, nem lhe proporcionaram o menor attractivo.
Entretanto fazia as honras da casa com tão fino tacto e tão affavel dignidade, que a propria Estephania se admirava.
Uma d'essas reuniões, mais solemne que as outras, teve, comtudo, para Laura, verdadeira importancia.
Foi a festa da inauguração da capella restaurada do castello.
Havia já tres annos que Estephania, que possuia fortuna pessoal, emprehendera, com o concurso, felizmente habil, d'um architecto de Rennes, a restauração da referida capella, uma verdadeira joia do seculo XV, no gosto de Folgoet.
A obra terminara emfim.
Faltava baptisar o sino e consagrar a capella.
O arcebispo de Rennes fôra convidado para esse fim, respondendo que iria proceder á dupla ceremonia no primeiro domingo do mez d'agosto.
Esta noticia, como era de suppôr, causou grande sensação em todos os castellos e parochias dos arredores, e todos foram unanimes em declarar que só{176}ao conde de Bizeux se poderia dever semelhante honra.
Afinal o arcebispo accedera com tanta mais vontade ao convite que o conde lhe dirigira, quanto era certo que, da sua visita ao castello, esperava ganhar a annuencia e o concurso do velho fidalgo para uma obra tão excellente de certo, e muito mais util, que a inauguração da capella.
Tratava-se de terminar um hospicio para marinheiros, edificado por subscripção em Saint-Servan, sob a direcção d'uma commissão, de que o arcebispo era presidente.
Tinham angariado já umas centenas de mil francos, com que o edificio principiára a ser construido, mas faltava ainda mais uma centena para material e mobiliario, e as bolsas estavam exhaustas.
Entretanto era indispensavel arranjar aquella quantia, e por isso o arcebispo desejava fallar com o conde.
Estephania fez no castello uma verdadeira revolução, para que a recepção demonsenhorfosse em tudo digna do alto cargo ecclesiastico que elle desempenhava.
Enfeitou a capella com arbustos e flores, e mandou vir organistas e coristas da cathedral de Rennes.
A missa, por musica vocal e instrumental, estava distinada a produzir sensação, como effectivamente{177}produziu, mas devido talvez a uma circumstancia com que a menina de Bizeux não contava.
Eram tantos os cuidados e attenções que a pessoa domonsenhorlhe merecia, que Estephania não deu pela falta da cunhada no banco da familia.
Repentinamente, a seguir a uma nota grave soltada pelo orgão, elevou-se uma voz, melodiosa e pura, e cantou, com perfeição e expressão d'adoravel suavidade, um trecho de Handel, que conservou em extasi o auditorio maravilhado.