XVSaint-Malo

A mesma voz cantou depois ooffertoriodo mesmo compositor, com tal arte e vigor que a todos causou espanto.O arcebispo de Rennes, que era profundo conhecedor de musica religiosa, balanceava a cabeça e movia as mãos com beatitude.Trocaram-se phrases d'admiração, e se não fosse o respeito á santidade do logar, com certeza todos os ouvintes teriam applaudido com delirio.Terminada a ceremonia, a primeira pergunta do arcebispo, ao entrar na sachristia, foi:—Mas quem é a admiravelvirtuoseque a todos nos encantou?O conde, que entrava acompanhado de Laura, respondeu triumphantemente:—Foi minha nora, a sr.ª viscondessa de Bizeux, que tenho a honra de apresentar-lhe, monsenhor.{178}—Na realidade a sr.ª viscondessa é uma artista de primeira ordem! disse o arcebispo.E depois accrescentou:—Isto fez com que eu tivesse uma ideia, que não me parece de todo má... Logo lhe communicarei um certo projecto em que penso, meu caro conde.Em seguida desfez-se em agradecimentos e cumprimentos, aos quaes dava um certo sabor particular a mistura que havia do padre e dodilettante.Não foi só Laura que recebeu esses agradecimentos e cumprimentos; Estephania tambem compartilhou d'elles, e tão interdicta ficou, que não sabia se devia estar satisfeita ou vexada.Laura commoveu-se e sorriu-se com melancholia.Era o seu primeiro successo em dois annos!{179}XVSaint-MaloTinham decidido que deixariam o castello para voltar a Saint-Malo quando chegassem os primeiros frios, nos fins d'outubro ou principios de novembro.Na segunda quinzena d'agosto, porem, Estephania foi atacada de rheumatismo agudo, que ao principio apresentou um caracter inquietante.Chamaram da cidade o medico da familia, clinico de talento e longa pratica, que, depois de dispensar os primeiros cuidados á doente, diagnosticou o mal de principio de rheumatismo articular.O doutor demorou-se um dia no castello.A sua ausencia da cidade não podia prolongar-se por mais tempo, porque, como era o medico mais considerado, tinha longa clientela a reclamal-o.{180}Prometteu voltar o maior numero de vezes possivel, duas ou tres por semana.Entretanto declarou que julgava indispensaveis as visitas diarias e attenções constantes.O medico de Saint-Pol-de-Léon inspirava mediocre confiança ao conde. Que fazer, pois?O tempo estava explendido; o mar socegado como um lago.Depois de pensar maduramente no caso, o conde resolveu-se.Estephania foi transportada, n'uma especie de maca, para bordo d'um vapor, fretado para esse fim em Saint-Malo.Algumas horas depois d'embarcar a doente estava installada no seu quarto do planalto da cidade.O conde de Bizeux queria partir só com a filha, deixando no castello Antonino e a esposa.Laura, porém, oppozera-se a essa determinação, dizendo:—Estephania necessita dos cuidados d'uma senhora. O meu logar é á cabeceira do leito da irmã de meu marido.Como a menina de Bizeux declarasse que não desejava incommodal-a, principalmente por ser ardua a tarefa, Laura respondeu:—Pergunto a Antonino se eu sou enfermeira descuidada...{181}Laura, aimpia, tinha o mais absoluto despreso pela morte, emquanto que Estephania, adevota, a temia sobremaneira, como d'ordinario succede a todos os espiritos fracos.Essa circumstancia fez com que a menina de Bizeux acceitasse, sem mais opposição, o offerecimento de sua cunhada.Durante mais de duas semanas em que a doença apresentou maior perigo, Laura tratou Estephania com a mais dedicada sollicitude, nem um momento desmentida. A menina de Bizeux parecia surpreza e commovida.Entretanto, no primeiro dia em que poude sahir do quarto, disse simplesmente a Laura:—Agradeço-lhe e peço lhe que acredite que, no seu logar, teria procedido da mesma fórma.—Não duvido, replicou Laura surprehendida da frieza d'aquellas palavras.D'este contratempo resultou que em pleno mez de setembro estavam em Saint-Malo.A convalescença de Estephania e o adeantado da estação, impediam a volta ao castello.Nos poucos dias que passara em Saint-Malo, de regresso da America, Laura apenas tivera tempo de ver superficialmente a cidade e a sociedade.Depois do restabelecimento d'Estephania teve occasião para mais de perto observar uma e outra.{182}A cidade encantou-a, mas a sociedade pouco lhe agradou.Das janellas de casa gosáva o largo panorama do mar e o aspecto da bahia, que se abre entre dois morros titanicos, a ponta da Verde e o cabo Frehel, gigantes de pedra que parecem estender os braços atravez as sete leguas de mar que os separam, por cima da ilha granitica de Cézambre, guardada por negros recifes, que por entre as suas pontas deixam apenas estreitas passagens aos navios.O mar entra por essas passagens com fragor medonho e enormes acotovellamentos de vagas, vindas do largo em plena liberdade, e penetrando á força na bahia pelas portas de pedra, que jámais poderam arrombar.Ao fundo do golpho, sobre uma ilhota, eleva-se a cidade dos corsarios, rodeada d'altas muralhas, onde se alinham os canhões de cerco, estendidos pachorrentamente nas suas carretas, e abrindo, sobre a herva dos revestimentos, as suas boccas ameaçadoras. O mar tem na bahia, durante o estio, a placidez langorosamente azulada dos lagos.As ondas esperguiçam-se suavemente sobre a areia, junto das velhas muralhas.Mas no inverno batem com furia nas pedras ennegrecidas, e sobem, em turbilhões d'espuma, a enorme altura.{183}A cidade, fechada pelas muralhas, assiste impassivel áquellas convulsões da agua.As altas casas, de janellas sem rotulas, elevam as suas fachadas geometricas, socegadamente, como que seguras de não serem attingidas pela impetuosidade das ondas.Mas nos angulos dos predios veem-se por vezes nichos da Virgem, aos quaes o vento arrebatou as imagens.A ilhota que serve de base á cidade apenas apresentava para fóra d'agua, transposta a muralha, uma especie de calçada em declive, relativamente larga, mas que, a pouco e pouco, as tempestades teem desconjunctado.D'antes Saint-Malo parecia um navio ancorado, e marinheiros os seus habitantes.Os costumes da cidade eram d'uma severidade quasi selvagem, proverbial a sua lealdade rude.A independencia d'aquelles homens não se curvava ante o governador da provincia, nem mesmo em frente da nobreza, á qual, de resto, d'uma vez emprestaram cincoenta milhões de francos.Que de mudanças se teem operado!Os caminhos de ferro, os casinos escalonados pela costa, o contacto periodico com estrangeiros, a convivencia com os banhistas que de toda a França ali concorrem, e, na cidade propriamente dita, a invasão{184}dos jesuitas, teem modificado as linhas, deprimido os angulos, alterado o caracter brusco mas franco d'aquelles homens, filhos da terra que deu á França Lammenais, Chateaubriand, Jacques Castier, Dagaray-Tronin, Surconf e tantos outros pensadores e homens de superior talento.O caracter dominante da geração moderna é, nas casas nobres, um formalismo devoto, de que o fanatismo não exclue a immoralidade.Apenas algumas familias de burguezes ricos resistiram ao contagio.Os membros d'essas familias tornaram-se republicanos, e fazem todos os esforços para que o povo adore a republica.Mas para esses nem chaves d'ouro lhes abririam as portas dos cenaculos aristocraticos, onde vêem a luz e se desenvolvem as intrigas monarchicas e clericaes. Sobre a grande massa banal da burguezia pouco dinheirosa, logistas, empregados, industriaes, sobresahem alguns, raros, perfis intelligentes d'advogados, de medicos, d'artistas, de jornalistas, isolados n'aquelle entorpecimento provincial.D'inverno ha bailes officiaes, e bailes no casino de verão.Esses bailes são frequentados por varias camadas sociaes, mas jámais tal facto produziu a mais insignificante mistura de castas.{185}O orgulho geral produz em todos a mais absoluta falta d'affabilidade.Comprehende-se, pois, que, na sociedade restricta e altiva da nobreza de Saint-Malo, Laura se achasse completamente deslocada.{186}{187}XVIA sr.ª baronezaA rainha da moda, a que dava as leis e fazia a opinião da alta sociedade em Saint-Malo, era a sr.ª baroneza de Pontual, uma formosa mulher de trinta annos. Havia umas cinco ou seis estações que ninguem se atrevia a disputar-lhe a elegante auctoridade.A baroneza era ainda parenta, em grau affastado, da menina por quem o conde se apaixonára antes de casar com a mãe d'Antonino, e parecia-se até, um pouco, com a infeliz a quem o desgosto matára.Essa circumstancia atrahira o conde, contra o seu habito, para a esphera d'acção mundana da joven baroneza, elle que tanto amava a vida retirada, onde podesse entregar-se completamente ás suas melancholicas recordações.{188}O barão de Pontual era um insignificante.Sendo o primeiro admirador e adorador da esposa, ella facilmente o conduzia por todos os caminhos, bons ou maus, por onde lhe aprouvesse caminhar.Adelia, que assim se chamava a baroneza, declarava teralma d'artista, o que é uma percebivel ambição, quando não seja pretenciosa.Ora, para completo esclarecimento do leitor, devemos dizer que á baroneza faltava simplicidade e sinceridade.Cultivava simultaneamente, segundo a sua propria phrase, as lettras, a pintura e a musica.A sua especialidade em litteratura era o genero epistolar, á semelhança da sr.ª de Sévigné, sua compatriota.Os correspondentes previligiados da baroneza, como no passado os da marqueza, colleccionavam as cartas e os bilhetes, em que havia tres estylos diversos: o serio, o sentimental e o jocoso.Em pinturaorvalhavaas suas aguarellas, edava vidaás paysagens.Mas a sua arte predilecta era a musica.Possuia voz agradavel, mas mal educada.Comtudo recebera lições de canto de Delle Sedia, como recebera lições de piano de Lecouppey.Tinha opiniões cortantes, audacias pouco vulgares em mulher.{189}O seu deus era Gounod.Eatretanto não desgostava de Berlioz, que ella declarava serquasi sempre extravagante, mas algumas vezes sublime.A baroneza, ao principio, quando no seu horisonte viu despontar a viscondessa, inquietou-se.Laura era mais formosa e mais nova que ella.Além d'isso a situação dos srs. de Bizeux era muito mais brilhante do que a do barão de Pontual.Tudo isto fazia com que Laura podesse ser uma rival terrivel.Mas socegou em breve, vendo o aspecto modesto e simples da viscondessa, que apenas parecia desejar não dar nas vistas, occultar-se na sombra.A formosa Adelia foi desde logo indulgente e quasi amiga de Laura.—A viscondessinha é encantadora! disse ella.O barão de Pontual era o thesoureiro da commissão que tratava da fundação do hospicio para marinheiros.O conde de Bizeux foi eleito, por essa occasião, vice-presidente da mesma commissão.Uma ultima subscripção produziu approximadamente sessenta mil francos.Faltava, pois, arranjar apenas os quarenta mil que faltavam para prefazer a quantia julgada indispensavel.{190}Esplendidas regatas, organisadas em Saint-Malo, produziram quinze mil francos.O arcebispo de Rennes foi então d'opinião que se devia angariar o restante, dando um grande concerto.Foi convencionado que o concerto se realisaria nos fins de setembro.Tratariam d'accumular attractivos, que justificassem os preços elevados, e attrahissem a Saint-Malo aéliteda nobreza e da finança de toda a Bretanha.A baroneza de Pontual estava naturalmente indicada para preparar e dirigir aquella festa.Haveria canções populares bretãs, para as quaes recrutariam executantes nas classes baixas.O celebre pianista Nobillet, natural de Lorient, prometteu o seu concurso, e egual promessa fez o barytono Gressier, que nascera em Nantes.O restante, para conservar ao Concerto o caracter aristocratico que devia ter, a baroneza de Pontual tratou de o procurar e encontrou-o, nos salões da melhor sociedade; homens e senhoras, cujos nomes e talento dessem ao programma grande attracção, tornando-o de fórma a aguçar a curiosidade de todos, prestaram-se a tomar parte na festa.O salão da baroneza era pequeno para n'elle se fazerem os ensaios.O conde de Bizeux offereceu o seu.A viscondessa, como Estephania estava ainda convalescente,{191}viu-se obrigada a fazer as honras da casa.O sr. de Bizeux, que tomára a peito a terminação da grande obra de caridade, perguntou á nora se não queria dar o seu contingente para o brilho do concerto.Laura, sem recusar abertamente, observou-lhe que se arriscava a trahir o seu incognito d'artista e a deixar descobrir a cantora na viscondessa, tomando parte n'esse espectaculo, a que de certo concorreria muita gente.O conde, ainda que com pesar, acceitou aquellas razões.Um incidente imprevisto tornou inutil aquella precaução.A baroneza devia cantar, no concerto, aAve Mariade Gounod, o seu deus.D'uma vez ensaiava, em casa do conde, aquelle delicioso trecho de musica, ante um auditorio que, n'aquelle dia, por acaso, era numeroso.Obteve o successo costumado, e todos os presentes foram, no fim, fazer-lhe os seus cumprimentos...Laura, como todos, foi testemunhar a sua admiração á baroneza.Adelia requebrou-se toda, segundo, o seu habito, defendendo-se dos cumprimentos com a mais falsa das modestias.—Não, não... Favores!... Hoje não estava com{192}voz... De certo reparou que, no fim, a respiração faltou-me!...—Permitte-me que lhe diga de que foi resultante essa falta? perguntou Laura com simplicidade.—Pois não, minha querida!... Falle... peço-lhe...—Parece-me, disse a viscondessa, que, em vez d'observar ocrescendophonico obrigado, a sr.ª baroneza o atacou demais no principio, faltando-lhe depois a força no final, que deve ser cantado com toda a intensidade de tom possivel.—Não percebo bem... objectou a baroneza deveras contrariada.E depois d'um momento de silencio, perguntou:—A sr.ª viscondessa sabe musica?—Um pouco...—Ah! sabe?... Então queira ter a bondade de juntar a pratica á theoria, cantando o trecho como entende que elle deve ser cantado.—Depois da sr.ª baroneza ter cantado, não devo eu...—Não faça ceremonia... Cante... peço-lhe, insistiu a baroneza com frieza.Com a insistencia esperava collocar em terrivel embaraço a imprudente conselheira.Laura fez um movimento de contrariada, mas accedeu ao pedido.{193}Começou muitopiano, com intensão de cantar a meia voz, quando muito.Mas o instincto d'artista foi mais forte que ella: arrastou-a.Quando chegou ás ultimas notas, a sonoridade da sua voz foi tal, manifestou-se tanto o conhecimento do methodo, que todos os assistentes, admirados, romperam em bravos e palmas.Antonino não estava presente, mas o conde de Bizeux assistiu ao triumpho de Laura, o que, no intimo, lhe deu grande satisfação.A baroneza de Pontual ficou abysmada!A incontestavel superioridade de Laura esmagava-a ao primeiro recontro.Entretanto assaltou-a uma duvida.Quem seria aquella mulher que tinha dissimulado, e que subitamente revelava, uma voz e uma arte de cantar pouco vulgares entre amadoras, e mais do que sufficientes para fazerem a reputação d'uma cantora de primeira ordem?Entretanto a baroneza não foi a ultima a felicitar Laura.—Mas que admiravel surpreza! disse ella. Porque me não fez conhecedora, ha mais tempo, do seu maravilhoso talento, sr.ª viscondessa?Comtudo cohibiu-se de perguntar a Laura se queria tomar no concerto o logar que lhe pertencia.{194}É porque percebeu perfeitamente que esse logar seria o primeiro, e a baroneza não desejava occupar o segundo plano.No dia seguinte, porém, a infeliz baroneza recebeu do arcebispo de Rennes, a quem enviára o programma, uma carta desoladora.O arcebispo admirava-se de não ver figurar n'esse programma, o nome d'aquella que devia ser a grande attracção, e que produziria o mais brilhante successo.Esse nome era o da viscondessa de Bizeux.Fôra ouvindo-a cantar na missa d'inauguração da capella do castello, que ao arcebispo occorrera a idéa de dar um concerto, cujo producto revertesse a favor da subscripção para o hospicio de marinheiros.Em seguida o arcebispo perguntava se a baroneza de Pontual desconhecia o raro talento da nora do conde de Bizeux.Pois a extrema modestia da viscondessa fazia com que ella não desejasse manifestar o seu talento em publico?Quando se tratava d'uma obra meritoria, não se tinha o direito de ser modesto, e por isso instava com a baroneza para que convidasse Laura.Ante esta especie d'intimação, a baroneza não poude deixar de convidar a viscondessa.Portanto, no dia seguinte, foi officialmente perguntar-lhe{195}se queria prestar ao concerto o seu valioso concurso.Laura, perplexa, respondeu que necessitava consultar o marido e o sogro.Houve conselho privado entre o conde de Bizeux, Antonino e Laura.O conde foi d'opinião que a nora não devia deixar de prestar-se a dar a sua contingente para tão santa obra.A Linda desapparecera havia mais de dois annos.Que mal podia resultar d'ella reapparecer, uma unica vez, n'uma cidade tão distanciada de Paris, diante d'um publico local, que não estava ao corrente do movimento dos theatros parisienses?O maior numero de probabilidades, era de que Laura não seria reconhecida.—Mas se o fôr? perguntou a viscondessa.—Se assim succedesse, respondeu o conde, a descoberta far-se-ia em condições tão honrosas, tão respeitaveis para todos nós, que, ante o facto consumado, os mais rigoristas não tinham o direito d'arguir meu filho de a ter amado sufficientemente, Laura, para lhe dar o seu nome, nem a mim por lhe chamar filha.Houve um momento de silencio.O conde, passados instantes, accrescentou:—Nada tem no seu passado, Laura, de que deva{196}envergonhar-se. Estephania, que tem os prejuizos que sabe, sem duvida ficaria contrariada se lhe tivessemos, de principio, revelado toda a verdade. Mas agora ella já a conhece e apprecia. Tratou-a com uma dedicação tão fraternal, que minha filha está reconhecidissima. O arcebispo de Rennes, que possue um espirito superior, reclama este serviço; depois seria o primeiro a não consentir que elle se voltasse contra aquelles a quem o pede. Se o seu segredo, que é tambem nosso, tem de ser conhecido mais tarde ou mais cedo, parece-me que não encontraremos occasião mais favoravel do que esta, para que todos saibam que a esposa de meu filho foi cantora.Antonino, menos optimista que seu pae, e vagamente inquieto, nada achou que oppôr ás razões apresentadas pelo conde.De resto, como sempre, desejava fazer-lhe a vontade.Assim pois, foi Laura a unica que resistiu á idéa de reapparecer e cantar em publico.Mas não queria ou não podia dizer tudo o que pensava sobre o caso.A verdade era que, sobretudo, ella temia-se a si propria.Sabia com que intima alegria estremecera no dia da inauguração da capella.{197}Dois dias antes, ao cantar, ante um auditorio ainda assim restricto, aAve Mariade Gounod, experimentára maior satisfação.Os bravos e palmas que então ouvira, tinham a como que transportado aos bellos tempos em que ella arrebatava uma platéa inteira.O que lhe succederia se de novo se encontrasse na frente d'um publico numeroso?Que effeito lhe produziriam os bravos, as chamadas, as corôas?Ah! a queda era tão facil e podia ser tão desastrosa!Tel-a-iam esquecido em Paris tanto quanto o conde julgava?Não.Poucos dias antes lera n'um jornal da capital, a proposito da abertura da nova Opera e da companhia que n'ella devia cantar, que o director do novo templo da arte, devia, se fosse habil, lembrar-se da Linda.N'essa mesma noticia accrescentava-se que a diva estava no Mexico, mas dizia-se tambem que o Mexico não era no fim do mundo, que se volta de lá dentro d'algumas semanas.Mas a Linda não estava longe!Podia chegar a Paris, ao seu querido Paris, em algumas horas.{198}Laura, em seguida, pensou no seu amor por Antonino, sempre inalteravel no seu coração.Era esse sentimento que ainda a retinha junto d'elle.Mas ao mesmo tempo recordava-se da palavra que o visconde lhe dera, e que a tornava livre se achasse muito pesada a cadeia que a prendia.Eram todos estes pensamentos que a tornavam hesitante. Não tinha, porém, a coragem de os expôr.Se a tivesse, seu marido e seu sogro ficariam convencidos de que ella não devia cantar no concerto de benificencia.O conde persistia, insistia, e Antonino juntava os seus rogos aos do pae. Ella, por fim, disse:—Reconhecem bem, não é verdade, que o que está mais em jogo não é o meu interesse pessoal, mas o interesse da familia?—Sem duvida, respondeu o conde, e é por isso mesmo que insistimos e somos de opinião que deve ceder, como nós cedemos.Laura, replicou então:—Visto assim o quererem, cantarei no concerto!N'essa noite, Laura disse á baroneza, pouco satisfeita, o seguinte:—Pode accrescentar no seu programma, minha senhora, que a viscondessa X... cantará as ariasFidelioe oRei dos Alamos.{199}XVIIA tempestadeO dia em que devia realisar-se o concerto foi por fim fixado: 29 de setembro.Faltavam, pois, dez dias.Laura propôz ao marido não os passasem em Saint-Malo.Que necessidade tinham de juntar ao perigo d'ella ser reconhecida no concerto, o risco de a reconhecerem nos ensaios?Até então a viscondessa não encontrára ninguem que a conhecesse.Os artistas que deviam tomar parte no concerto, Nobillet e Gressier, nunca a tinham visto.Fallava-se, comtudo, em reforçar o programma, accrescentando-lhe os nomes d'outros artistas.{200}O mais prudente, pois, era não apparecer senão na noite do espectaculo.Como escolhera dois trechos de musica que conhecia perfeitamente, bastava a Laura uma simples recordação com a orchestra, na manhã do dia do concerto.Nos seus passeios maritimos Antonino e Laura não tinham ido alem do Monte de Saint-Michel.Decidiram por isso visitar durante aquelles dias, na sua chalupa, as costas do departamento da Mancha, e Jersey, onde Laura nunca tinha ido.O conde de Bizeux e Estephania, já completamente restabelecida, receberiam as pessoas que iam ensaiar-se.A baroneza de Pontual seria a unica a dirigir a festa, sem temer a intervenção da que ella considerava sua rival.Laura partiu alegre e despreoccupadamente para aquella excursão, a mais longa que ainda tinham feito.A viagem foi encantadora.A volta da ilha de Jersey, que durou cinco a seis dias, foi sobretudo uma verdadeira delicia.Passaram em todos os portosinhos naturaes que a ilha tem, desembarcavam, jantavam e dormiam nas estalagens mais ou menos mediocres com que deparavam, rindo do jantar, rindo do leito, rindo de tudo.{201}Para descançarem das fadigas da navegação, davam esplendidos passeios de carruagem, visitando os melhores locaes e todas as curiosidades da ilha.Não abriram um jornal.Sentiam-se tão longe da França como se ainda estivessem na America.Esqueceram Saint-Malo, esqueceram o universo.Os dias corriam magnificos, uns dias d'outomno, tepidos e amenos.Laura sentia apenas que o mar se conservasse tão uniformemente tranquillo.—Está bello de mais o tempo, disse ella. Algum vento que encapellasse as ondas tornaria mais emotiva a nossa viagem.Que pesar sentiam de que aquelles dias tivessem que terminar!Na vespera do concerto estavam em Granville.Antonino sahiu depois do almoço para preparar a chalupa, e voltou ao hotel, onde tinham passado a noite.Laura reparou que o marido estava com aspecto de pouco satisfeito.—Diabo! diabo! disse elle. Parece-me que procederiamos acertadamente voltando a Saint-Malo por terra, tomando o comboio em Dol.—Porque?—Vejo nuvens de mau agoiro. Se o vento refrescar,{202}é provavel que, antes de chegarmos a Saint-Malo, tenhamos de luctar com mar bravo, e a nossa chalupa não tem condições para luctas d'essa ordem.—Levantae-vos, desejadas tempestades que deveis arrastar Renato!disse rindo Laura, respondendo aos temores do marido com uma citação de Chateaubriand.E accrescentou n'outro tom:—Ainda bem! Desejo defrontar-me com o perigo.Antonino dissera a verdade.O vento era contrario, e para os lados de Saint-Malo viam-se nuvens ameaçadoras.—Não valem nada! disse a viscondessa depois de olhar para as nuvens que o marido lhe indicava. Sobeja-nos o tempo para chegarmos antes que a tempestade se desencadeie. Mas se assim não acontecer, tanto melhor, Antonino, porque sinto grande desejo d'arrostar qualquer perigo a teu lado. Acho encantador terminar por um incidente um pouco dramatico a nossa socegada viagem.—Decididamente queres embarcar? perguntou Antonino depois de reflectir por alguns momentos.—Quero.—Que a tua vontade seja feita.E embarcaram.Antonino tomou tres rizes á vela grande e prendeu o gurupés.Em seguida envolveu Laura n'um manto, e fez-se{203}ao largo. Durante as duas primeiras horas correu bem a viagem.A chalupa navegava com uma velocidade de doze nós por hora.O visconde chegou a ter esperanças de que chegariam a Saint-Malo sem novidade.Mas repentinamente soprou rijo o vento, apanhando de flanco a chalupa, e as ondas encapelaram-se.A cada vaga Antonino dava ao leme, e o barco vencia obliquamente a onda, cuja espuma chegava ao cimo do mastro.O mar embravecia de minuto para minuto.O vento refrescava cada vez mais.A chalupa, inclinada para bombordo, seguia sempre, com a borda quasi ao nivel das ondas.Entretanto houve um momento em que o vento abrandou, como que para dar descanço ás vagas.Mas depois, bruscamente, saltou para sueste.Por felicidade Antonino viu chegar a borrasca.As montanhas d'agua que se moviam ao largo, batidas pelo vento contrario, elevaram-se a enorme altura.Depois, obedecendo á força impetuosa do vento, correram na mesma direcção.Houve um minuto de indiscriptivel cahos.O choque das massas d'agua batendo umas contra outras, produzia um ruido ensurdecedor.{204}A chalupa corria rapida como um vôo.Apanhada pelas ondas que vinham de terra impellidas pelo vento, encontrava outras ainda animadas da primeira impulsão.Se se encontrasse no ponto d'encontro d'essas montanhas moveis, estava perdida.Antonino, socegado, attento, nem por um instante se deixava surprehender.Laura poude então admirar esse espectaculo extraordinario: a lucta da destreza e da intelligencia humanas contra o poder brutal das forças naturaes.O ceu assombreava-se cada vez mais.Uma grande nuvem côr de chumbo, com reflexos sulphurosos nas extremidades, avançava rapidamente do lado de Saint-Malo. Laura disse a Antonino:—Corremos grande perigo, não é verdade?—O mais insignificante descuido perder-nos-ia, respondeu o visconde.—Para onde diriges a chalupa?—Vou tentar abordar á ilha de Cézambre, da qual distamos dois kilometros. E agora, minha querida, silencio!Laura approximou-se do unico homem que amara e que escolhera entre todos, feliz por se saber protegida por elle.Não fôra ella, de resto, que desejara observar de perto o mar irritado?{205}Chamára o cataclysmo, e elle viera, furioso por se ver arrostado por aquelles dois entes cheios de vida.Por isso Laura não sentia verdadeiro temor.Ao principio, vendo a extraordinaria força dos elementos, sentira um ligeiro calafrio.Mas, depois, socegou por completo.Pensava apenas:—Se nós fossemos separados por alguma vaga?E, sem pronunciar uma só palavra, pegou n'um cabo de linho, delgado mas forte, prendeu uma das extremidades ao braço, passando a corda por cima do hombro, e com a outra extremidade prendeu de fórma identica o braço d'Antonino. Depois disse:—Agora podemos morrer! Morrer juntos e amando-nos, é morrer feliz!A tempestade attingia o paroxismo.As vagas cabriolavavam e cahiam depois em salto de tigre.O ceu cobrira-se de funebre tela, côr de ardosia, com manchas violaceas.As nuvens desciam pesadamente sobre as regiões inferiores da atmosphera.A chalupa voava, branca e ligeira como uma ave aquatica, sobre o dorso das ondas.Por vezes desapparecia entre duas muralhas de vagas para reapparecer pouco depois, continuando na carreira rapida.{206}A ilha proxima a custo se avistava por entre as elevadas ondas, que a espuma franjava phantasticamente.Antonino, com toda a energica tensão que pode ter a vontade, combatia encarniçadamente, para não desapparecer no abysmo.Apenas uma vez foi surprehendido pelo quebrar de uma onda enorme, que corria sobre a chalupa, n'um encarniçamento de fera, soltando roncos temerosos.N'essa occasião a vela rasgou-se.Por felicidade, a chalupa adquirira grande velocidade.A onda, ao quebrar, inundou a embarcação.A chalupa esteve prestes a submergir-se.A especie de camara que havia a meia coberta, foi arrancada.O porão encheu-se d'agua.Felizmente chegavam.A praia da ilha de Cézambre, estava ali, muito proxima...Com mais um movimento da canna do leme Antonino achou-se no centro d'uma enseadinha, ao abrigo do vento. Dois minutos depois a quilha da chalupa afundava-se na areia.Antonino deitou ferro, e saltou sobre uma rocha, com uma ligeireza de gamo.Laura lançou-lhe a extremidade d'uma amarra,{207}que o visconde atou solidamente n'um adelgaçamento do rochedo.Depois estendeu as mãos para a esposa, que ligeiramente lhe saltou nos braços.Abraçaram-se apaixonadamente, com delirio.Estavam salvos!{208}XVIIIO encontroAntonino e Laura atravessaram a estreita facha arenosa que havia junto ao rochedo, e que era o unico ponto abordavel da ilha de Cézambre.Na praia estava amarrado um barco.Meio occulto n'uma especie de quebrada, encontraram o posto da Alfandega.A casa estava aberta e vazia.Sem duvida os guardas, tendo partido de manhã, não estavam ainda de volta.Antonino lembrou-se que proximo d'aquelle sitio havia uma cabana de pescadores.Depois de a terem procurado por alguns minutos, encontraram-a por fim, n'uma anfractuosidade dos rochedos.A porta apenas estava fechada na tranqueta.Abriram-a e entraram.Depararam com uma velha, meio surda, que concertava uma rêde.{209}A custo conseguiram saber que o velho—marido sem duvida—tinha partido de manhã para Saint-Malo e que ainda não voltára.Muito instada, disse mais que nada tinha que se Comesse e bebesse, além decidra, toucinho, peixe sêcco e pão.Uma moeda d'ouro, que Antonino atirou para cima d'uma meza, abriu-lhe um pouco mais os ouvidos e a intelligencia.A velha levantou-se então e tratou de fazer lume sem demora.Pouco depois brilhavam as chammas na chaminé.Laura approximou-se para se aquecer e seccar o fato.Depois de estar tambem alguns momentos junto do lume, Antonino disse:—E agora vou buscar as nossas provisões a bordo da chalupa, porque, antes d'embarcarmos novamente, necessitamos comer, e não me agrada o que a velha nos póde dar.E voltando-se para a dona do tegurio, accrescentou:—Acompanhe-me, porque, indicando-me o caminho, menos tempo me demorarei.A velha levantou-se sem responder, e seguiu Antonino.Laura conservou-se á chaminé, pensativa.{210}Pouco depois ouviu uma voz conhecida dizer-lhe:—Adeus, Linda, bom dia!Levantou-se sobresaltada e olhou.Tinha em frente Lauretto Mina.—Como vaes tu, carissima?Laura respondeu altivamente:—Eu chamo-me viscondessa de Bizeux!—Viscondessa?... Hum!... Emfim, seja! Effectivamente disseram-me, em Saint-Malo, que tinha casado com o sr. de Bizeux, e que pertencia officialmente á familia do visconde. Mas o casamento effectuou-se em Inglaterra, não é verdade? Ninguem desconhece essa especie de casamentos... enlaces pouco duraveis, tão faceis de fazer como de desfazer. Casa-se em frente d'um padre catholico, mas nem por isso o casamento deixa de ser civil, o que illude a lei.—Mas affianço-lhe... replicou Laura.Interrompeu-se para ajuntar em tom desprezador:—Que me importa o que o senhor pense! Acredite ou não, é-me indifferente!—Está bem! respondeu, rindo ironicamente, Lauretto Mina. Que a viscondessa esteja mal, ou bem tincta, é questão secundaria, que não me impede de prometter solemnemente tratal-a pelo seu titulo, com todas as attenções e o mais profundo respeito. Tomo a peito proceder de fórma que reconquiste as suas boas graças.{211}Depois d'um momento de silencio, olhando-a de revez, accrescentou:—É possivel que a sr.ª viscondessa tenha a maxima conveniencia de passar, para mim, como uma desconhecida em Saint-Malo. É possivel que não deseje que a reconheçam como sendo a celebre cantora Linda...Laura, surprehendida e interrogando-o com o olhar, interrompeu-o:—E se assim fosse!—Bravo! Já vejo que acertei! Pois está combinado! Ámanhã, no concerto...—Ah! o senhor canta no concerto d'ámanhã? perguntou a viscondessa.—Canto. Foi para isso que vim a Saint-Malo... Ámanhã será para mim uma desconhecida. Prometto-lh'o sob minha palavra d'honra.—Obrigada.—E agora que está certa da seriedade das minhas intenções, deixe-me dizer-lhe rapidamente, antes que... seu marido volte, o que vim fazer aqui, porque vim exclusivamente por sua causa.—Por minha causa? repetiu Laura como um echo.—Não me refiro precisamente á ilha de Cézambre. A estes rochedos conduziu-me apenas o acaso, a minha boa estrella. Esta manhã propozeram-me um passeio até á ilha, que me affiançaram ser extraordinariamente{212}pittoresca. A tempestade reteve-nos por mais tempo do que desejavamos. Mas a Saint-Malo, vim exclusivamente por sua causa, repito.Em seguida a uma pausa calculada, o tenor ajuntou:—O tempo passa. Vou direito ao fim. Sabe que no proximo mez é a inauguração da nova Opera. O director encarregou-me de dizer-lhe que tinha o maximo empenho em contratar a Linda. Elle acceita uma escriptura nas condições que mais lhe agradem, sr.ª viscondessa, ou seja por anno e por serie de representações.Laura córou, e esteve sem responder durante alguns segundos.Por fim disse:—É impossivel. Eu sou a esposa do visconde de Bizeux.—Ora adeus!... Nada de patetices!... replicou Lauretto com desdem. A sr.ª é e será sempre a Linda! É possivel que seja viscondessa, mas não deixou de ser artista! Usa agora, legitamente ou não, pouco importa, o nome dos nobres avós d'um fidalgo da provincia, mas,per Bacco!não lhe merecerá mais consideração, não collocará cem vezes mais alto o seu nome pessoal, o seu nome artistico, o grande nome que conquistou pelo seu talento previlegiado? Não posso deixar de lhe lembrar que seu pae tambem{213}era conde. Mas ninguem o conhecia por conde de Marcia, todos lhe chamavam o grande violinista, o grande artista Marcia. Acho extranho que a filha proceda de fórma contraria, deixando offuscar o seu glorioso nome de artista pelo vulgar titulo de nobreza!O tenor fallava com vehemencia e emphase italiana, mas as suas palavras correspondiam aos intimos pensamentos de Laura.A viscondessa não respondeu.Inclinara a cabeça para o peito, pensativamente.O tenor perguntou:—Então?... Que resposta devo dar ao director da Opera? Que acceita, não é verdade?Laura disse, como se fallasse comsigo mesma:—Ha uma coisa que a tudo sobreleva: amo meu marido!—Mas ha trinta mezes já que o ama! Parece-me sufficiente! O visconde confiscou-a por mais de dois annos, é tempo de a restituir a si propria, á arte, aos seus admiradores. Se a amasse, seria o primeiro a dar-lhe esse conselho. E apesar disso a sr.ª continua amando-o, se é que não a engana o coração. Mas eu conheço-a bem, e iria apostar em como está farta da vida que leva. Convença-se: a sr.ª não pertence a um só homem, pertence a todos! Eu nem um instante{214}duvidei que a Linda voltaria para o theatro. Se não fôr hoje, será ámanhã!Laura, fugindo de responder ao tenor, perguntou:—Como soube o director da Opera que eu estava em Saint-Malo?—Ah! isso é descoberta minha, replicou Lauretto Mina envaidecido. Quando a sr.ª desappareceu com o visconde, disse-se que tinha partido para a America do Norte ou do Sul. A verdade é que nunca se soube ao certo para onde tinham ido. Pouco tempo depois ninguem se lembrava da Linda, excepto eu, que nunca a esqueci. Velava, espiava. Ha pouco soube pelo barytono Gressier, que elle fôra convidado para cantar n'um espectaculo de beneficencia, em Saint-Malo. Lembrei-me que Saint-Malo era a terra da naturalidade do visconde de Bizeux. Tratei de ler os jornaes da provincia, e n'um, oCorreio d'Ille-et-Vilaine, vi que o conde de Bizeux era o vice-presidente da commissão que promovia o espectaculo. Li o programma do concerto e n'elle encontrei os nomes da baroneza de P... e da viscondessa de B... Procurei immediatamente «o director de Opera, para onde, tenho a honra de lh'o participar, estou escripturado. Logo que o vi, disse-lhe: Encontrei a Linda! Meia hora depois escrevia ao sr. conde de Bizeux, offerecendo-me desinteressadamente para cantar no concerto. O conde acceitou reconhecidamente o meu{215}valioso concurso, em telegramma. No dia seguinte, munido de plenos poderes pelo director da Opera, parti para Saint-Malo, onde cheguei ha poucos dias. Eu desejava ficar hospedado em casa de seu sogro. Infelizmente, porem, elle hospedava Nobillet e Gressier que considerava como patricios, e tive de contentar-me em ser hospede da sr.ª baroneza de Pontual—uma mulher encantadora, palavra d'honra! disse o tenor como que em aparte com sorriso fatuo. Pena é que a voz não corresponda á belleza com que Deus a dotou!—Está hospedado em casa da baroneza de Pontual? perguntou Laura inquieta. Disse-lhe quem eu era?—Admire a minha prudencia e delicadeza: fazendo com que a baroneza fallasse da minha ex-companheira de theatro, percebi com facilidade que a sr.ª viscondessa tinha realmente guardado o mais rigoroso incognito, e não trahi o seu segredo. Como antecipadamente tinha admittido essa hypothese e resolvido não a denunciar, guardei o mais absoluto silencio.—Agradeço-lhe, disse Laura pela segunda vez, durante a sua conversação com Lauretto.D'esta vez, porém, pronunciou a palavra mais delicadamente do que da primeira.—Nada tem que agradecer-me, replicou Lauretto. Repito-lhe; tenho o maximo desejo em que veja em{216}mim apenas um amigo. Escute-me, Laura: ha mais de dois annos que nem um só momento deixei de pensar em si. A sua imagem está sempre presente ao meu coração. Os sonhos de felicidade que tenho architectado teem sido tantos e taes que nem mesmo me atrevo a relatar-lh'os. É uma verdadeira obsessão! Ah! permitta-me que lhe diga, o que ainda, sentido, nunca disse a qualquer mulher: adoro-a, Laura!A viscondessa endireitou o corpo, irritada.Depois d'olhar fixamente, com altivez, o tenor, disse-lhe desdenhosa:—Creio que ha bocado prometteu tratar-me com todas as attenções e respeito?Lauretto não poude responder.Olhando pela porta, viu o visconde, que se approximava.Portanto disse a Laura, sorrindo maldosamente:—Não falle tão alto, que póde ouvil-a seu marido.Laura olhou tambem, e viu Antonino, seguido pela velha, que conduzia um cabaz.Ao transpor o limiar da porta, o visconde recuou, estupefacto.A voz tremia-lhe ao pronunciar o nome do tenor.—Lauretto Mina! disse elle apenas.—Em pessoa! respondeu o tenor com toda a presença d'espirito. Diz-se, e assim é, que o mundo é{217}enorme. Pois apesar d'isso os amigos encontram-se sempre. Portanto o nosso encontro, sr. visconde, apesar de ser perfeitamente casual, não é para admirar. Vim a Saint-Malo para cantar no concerto d'ámanhã. Uns amigos convidaram-me a passeio n'esta ilha. A tempestade, retendo-nos, fez com que nos encontrassemos. Os seus charutos devem estar molhados; permitti-me que lhe offereça um?—Obrigado, disse friamente Antonino, acompanhando a palavra com um gesto de recusa.O tenor fingiu não perceber a frieza com que o visconde o tratava.Deu um passo para a porta, olhou para o espaço e disse:—O tempo melhorou. O demonio do vento começa a socegar um pouco. Nada me prende já n'esta especie d'ilha selvagem. Não desejo importunal-os por mais tempo; deixo-os com a sua refeição. Senhor visconde, tenho a honra de o cumprimentar!... Senhora viscondessa, apresento-lhe a homenagem do meu mais profundo respeito!Tirou o chapéu n'um gesto largo e saiu da cabana.Antonino seguiu Lauretto com olhar colerico.—Que tempo esteve este homem aqui? perguntou elle a Laura.—Entrou pouco depois de tu sahires. Não sei d'onde veiu!{218}O visconde interrogou a velha.—Este senhor, respondeu a mulher, veiu passeiar á ilha paraver a vista. Trouxe almoço, e como a tempestade rebentou, demorou-se. Estava deitado entre as rochas a descançar, quando o senhor chegou.—O que te disse elle? interrogou o visconde logo que a velha terminou as explicações.—Fallou-me da nova Opera, onde está contractado. O director mandou-me offerecer escriptura, tambem.—E que lhe respondeste?—Que era tua mulher, que não podia pensar em voltar ao theatro.—É provavel que esse insolente continue a amar-te. Dirigiu-te algumas palavras offensivas?Deveria ella provocar um conflicto entre seu marido e o tenor?Lauretto Mina, em duello, era adversario muito mais para temer que Pozzoli.Por isso Laura respondeu, tremendo-lhe a voz:—Lauretto foi attencioso d'esta vez. Está ha alguns dias, em Saint-Malo, por causa do concerto, como te disse, e não fallou em mim, promettendo-me até fingir que não me conhecia.—Oh! E ficaste-lhe muito reconhecida, não é verdade? disse Antonino ironicamente.—O que tens? perguntou Laura com meiguice.{219}Não admira que te contrariasse o encontro com esse homem, mas isso não é rasão para me tratares com modos bruscos!—Perdoa-me, Laura! Não sei porque, mas a presença d'este homem irritou-me sobremaneira. Não podia nem devia provocal-o pela impertinente polidez com que me tratou, mas cada uma das palavras que pronunciava fizeram-me ferver o sangue nas veias!—Socega, não te exaltes. Vamos almoçar, que necessitamos readquirir forças, tu principalmente. Senta-te, que eu te sirvo.Auxiliada pela velha, Laura poz a mesa.Depois tirou do cabaz pão, vinho de Bordeus, e carne assada.O appetite que sentiram ao desembarcar, desapparecera.Mal provaram os alimentos.Emquanto estiveram á mesa poucas palavras trocaram.Pensavam.Antonino, que desembarcara na ilha, alegre e triumphante, apesar da fadiga physica, como se está sempre depois d'um combate de que se sae victorioso, estava agora triste e inquieto.Laura fallara-lhe com a costumada meiguice, mas o instincto do amor que sentia pela esposa, fazia{220}com que o visconde visse para além das apparencias, e entendesse o que as palavras não diziam.Esse instincto dizia-lhe que ella lhe occultava o quer que fosse, e que, no pensamento intimo da mulher amada, havia um segredo, como que uma sombra que lhe fugia e lhe era contraria.Pelo seu lado, Laura, repassando pelo espirito as tentadoras perspectivas que Lauretto lhe desenrolara, dizia comsigo que Antonino nem pronunciára uma palavra d'agradecimento pelo sacrificio que ella de novo fazia regeitando as propostas do director da Opera.Parecia-lhe que o marido se esquecera do compromisso tomado, de, quando ella lh'o pedisse, deixal-a em plena liberdade, ou, segundo as proprias palavras que então pronunciára, deixar-lhe a gaiola aberta.Porque seria que, em vez de profundo reconhecimento, elle lhe testemunhava uma especie de desconfiança amargurada?Porque pareceria temer a presença do insolente Lauretto Mina, que, como mulher honesta, ella repellira?Aquelles dois entes que se amavam, que acabavam de escapar, juntos, d'um perigo terrivel, e que se considerariam felizes de succumbir a elle, enlaçados n'um abraço ultimo, ao entrarem de novo na vida social,{221}procuravam divergencias e sentiam egoismos, que separam e dilaceram.No fundo do coração é provavel que se recordassem, saudosos, da tempestade.E comtudo essa tempestade passára, como se nada mais tivesse a fazer, uma vez que lhe fugira o encantador par que desejara victimar.A ilha de Cézambre dista apenas cinco kilometros de Saint-Malo, mas necessitavam apressar-se para poderem chegar á cidade antes d'anoitecer.Prepararam-se para partir.Antonino continuava pensativo.Laura perguntou-lhe porque estava triste.Elle desculpou-se com a fadiga.A verdade, porém, era que deixára de a sentir desde que chegara á ilha.O abalo moral quebrantára-o muito mais do que a lucta contra a borrasca.Laura insistiu com sollicitude.—Mas sentes apenas fadiga? Nada mais te atormenta e incommoda?Antonino hesitou, mas por ultimo disse:—Porque não hei-de confessar-te tudo? É verdade, sim, estou desgostoso! Sabes o que me incommoda? É a idéa de que devemos a Lauretto Mina o obsequio de fingir que te não conhece, de não se indicar como teu antigo companheiro no theatro, e, principalmente,{222}a certeza de que elle, como dantes, cantará ao teu lado, diante de numeroso publico. Se tivesse supposto que esse insolente cantaria no concerto, affianço que não consentiria que tu cantasses tambem.—Lembra-te de que, se vou cantar, é exclusivamente para te comprazer e a teu pae. De resto, é tempo ainda. Queres que não cante? Affianço-te que essa tua resolução não me entristecerá, pelo contrario, porque talvez assim tu fiques completamente socegado.—Sim, replicou Antonino. Se não cantares socegarei, porque desapparecerá a inexplicavel apprehensão que me assaltou, e de que só por essa fórma conseguirei libertar-me.—Abraça-me e socega. Não cantarei ámanhã, e ficarei tão satisfeita como tu.Quando chegaram a Saint-Malo a cidade estava já envolta em trevas. Prepararam-se rapidamente para o jantar, que era de cerimonia.Os artistas que cantariam no dia seguinte jantavam em casa do barão de Pontual.O conde de Bizeux tinha á sua meza, além do arcebispo de Rennes, todas as pessoas d'importancia que tinham chegado de varios pontos da Bretanha para assistir ao concerto, que em toda a provincia despertára o maior enthusiasmo.{223}Findo o jantar, Antonino e Laura chamaram o conde de parte.O visconde explicou ao pae a razão porque desejava que o nome de sua mulher fosse riscado do programma do espectaculo.Mas o conde declarou:—É completamente impossivel! É tarde para isso!E depois, um pouco exaltado por semelhante resolução, deu a sua opinião sobre o caso.Não comprehendia os escrupulos do filho.Vira e fallára com Lauretto Mina.O tenor parecera-lhe um homem delicadissimo.Era para agradecer-lhe que não tivesse feito a mais ligeira allusão á sua antiga collega, a Linda, e estava certo que o tenor se portaria com a viscondessa de Bizeux com todas as attenções e respeitos.O arcebispo de Rennes dissera a toda a gente que a admiravel voz que iam ouvir não a possuiam muitas cantoras de profissão, que o talento de Laura era inegualavel, despertando assim a geral curiosidade. Se, depois disto, fossem riscar do programma o nome de Laura era collocar pessimamente o conde que, como vice-presidente da commissão promotora do espectaculo, como que offenderia as numerosas pessoas que tinham ido a Saint-Malo para ouvir a viscondessa.{224}Ora Antonino de certo não quereria que o pae fizesse má figura.Ante estas razões apresentadas pelo conde, era impossivel a insistencia.Portanto Antonino disse:—Pois bem, Laura cantará!XIXO escandaloAntonino, ainda que excessivamente fatigado, teve, n'essa noite, um somno febril, cortado de sonhos sinistros.Laura não poude conciliar o somno, tão profunda sensação lhe tinham causado as scenas d'aquelle dia.De manhã teve nova emoção.Ao ler o programma completo do concerto, encontrou inesperadamente, o nome de Remissy.O que significava aquelle caso?Porque não a tinham prevenido?Estaria Remissy em Saint-Malo?Na vespera não o vira e nada lhe constára!{225}Uma carta de Lauretto Mina respondeu a todas as perguntas que a viscondessa a si propria fez.O tenor dizia o seguinte:Senhora viscondessaNão tive tempo de a prevenir hontem de que o nosso amigo Remissy tomava parte no concerto d'hoje. Não sei se ficará satisfeita ou contrariada com esta noticia. Se ha falta, confesso-me unicamente culpado d'ella. Fui eu quem, satisfeitissimo por encontral-a, participei o caso a Remissy, contratado em Vichy por uma quinzena, accrescentando se, elle tambem não queria vir commigo a Saint-Malo, tornar a vel-a commigo, e juntar, mais uma vez, n'este concerto de beneficencia, o nome d'elle, como o meu, ao nome da sr.ª viscondessa.Remissy respondeu-me:«Ver e ouvir mais uma vez a Linda,poi morir. Sim, sim, irei, mas não espere por mim para partir. Conhece a rapidez dos meus habitos ambulantes. Informei-me na estação do caminho de ferro, e soube que ha um comboio que chega a Saint-Malo ás sete e meia da noite. Ver-me-ha entrar na sala do concerto, de casaca e gravata branca, ás nove horas precisas da noite em que elle se efectua. Á cautella, peço-lhe que faça com que o meu nome feche o programma.{226}AMarselhezaestá interdiria pela censura imperial, e inquietaria os honrados legitimistas locaes. Executarei, pois, aMarselhezahungara, o hymno de Rakoçki.»Previno-a d'este caso, sr.ª viscondessa, mas peço-lhe que não se inquiete. Hontem, depois de ter tido a honra de a ver, não pude escrever ou telegraphar a Remissy, nem mesmo sabia para onde dirigir-lhe carta ou telegramma. Esperal-o-hei á chegada e instruil-o-hei de fórma que elle saiba que é compromettedora para a sr.ª viscondessa a mais ligeira indiscrição. Remissy é, como eu, excessivamente dedicado á sr.ª viscondessa, e por isso estou certo que elle annuirá ao meu pedido, e procederá de fórma que não a comprometta.Tenho a honra de me assignar, sr.ª viscondessa,Seu humilde criado.«Lauretto Mina.»Esta carta fôra escripta pelo tenor calculadamente, para que podesse ser lida pelo visconde.Laura mostrou-a effectivamente a Antonino.A leitura da missiva augmentou a inquietação do visconde.—Um risco mais! disse elle.E depois de pensar, por instantes, accrescentou:{227}—Afinal a quantidade pouco importa.Quem não estava inquieto nem triste era o conde de Bizeux.Annunciou triumphantemente, ao almoço, que o espectaculo seria magnifico.A casa fôra completamente passada.Renderia mais de cincoenta mil francos.Subtrahidas as despezas ficaria, com certeza, livre, mais do que a quantia necessaria para concluir o hospicio para os marinheiros.O conde agradeceu effusivamente a Laura o ter consentido em cantar, fazendo-lhe assim a vontade.Estephania, é claro, não partilhava do enthusiasmo do pae.—Confesso, opinara ella, que não approvo essas exhibições n'uma senhora nobre e titular, isso só se admitte nas mulheres que fazem vida pelo theatro.O conde, porém, no cumulo da satisfação, mofava da filha e dosprejuizos gothicosque ella tinha.Ao meio dia Laura ensaiou-se com a orchestra, rapidamente, como quem está segura do que executa.Na vespera fizera substituir no programma a ariaO Rei dos Alamospor um outro trecho de Schubert,Margarida, que exigia mais sentimento, mas que necessitava de menos voz, e que por isso era mais conveniente que a dama d'alta sociedade o executasse.{228}Era indispensavel não desprezar a mais insignificante circumstancia para que, nem por um momento, os espectadores se esquecessem que quem cantava era a viscondessa de Bizeux.Pelas oito horas da noite, nas socegadas ruas de Saint-Malo havia um desusado rodar de carruagens.Apesar da noite ser de luar, o caes fôra illuminado a gaz até á porta do Casino, onde devia realisar-se o espectaculo, logo que anoitecera.Um pouco antes das nove horas, Laura entrou no salão do Casino pelo braço do conde de Bizeux.A entrada da viscondessa produziu sensação.Estava adoravelmente formosa.Um magnifico colar de saphyras e diamantes fazia-lhe sobresahir a rosada epiderme do collo.Nos braços, d'uma belleza esculptural, trazia pulseiras semelhantes ao collar.O louro veneziano dos seus sedosos cabellos sustentava uma borboleta, collocada ao alto, cujo corpo era formado por uma enorme saphira, e cujas azas, salpicadas de diamantes, scintillavam com extraordinario brilho.Laços de finissima renda, fixos por colchetes de saphyra, alteavam-lhe os microscopicos sapatos de velludo azul.O visconde de Bizeux seguia o pae e a esposa,{229}dando o braço á irmã, que vestia umatoilettesimples, de seda preta, sem enfeites.Logo que o conde de Bizeux se sentou, foram-lhe entregar um telegramma.Participavam ao conde que o comboio descarrillára a dois kilometros da estação de La Fresnays.Não havia desastres pessoaes a lamentar, mas o comboio, forçado a demorar-se por aquella circumstancia, não poderia a chegar a Saint-Malo antes da meia-noite.Não podiam, pois, contar com Remissy.A noticia alegrou Antonino e Laura.O salão do Casino estava repleto, brilhante detoilettesprimorosas e caras, e animado pelas meias conversações dos espectadores satisfeitos.Logo que o concerto começou, fez-se o mais completo silencio.O espectaculo constava de duas partes.A primeira abriu pelos córos populares bretões, cantados por homens e mulheres do povo.Os espectadores, bretões na quasi totalidade, applaudiram com enthusiasmo.A baroneza de Pontual e Lauretto Mina, obtiveram successo naAve Mariade Gounod, e n'um outro trecho que cantaram juntos.Depois do terceiro numero do programma, executado pelo baritono, Laura cantou a ariaFidelio.{230}O desusado sentimento e a adoravel simplicidade com que ella interpretou o trecho musical, produziu em todos os espectadores um enthusiasmo indiscriptivel.O concerto foi interrompido pelas palmas, bravos e repetidas chamadas á viscondessa.A esposa dedicada executára a aria, imprimindo-lhe o cunho superior d'uma alma d'elite.Por isso os espectadores se sentiram como que chocados por invisivel pilha.Antonino, que comprehendera quanto amor significava a execução da aria, a custo retinha as lagrimas.Nobillet terminou a primeira parte do concerto, tocando uma rapsodia sobremotivosda Bretanha e da Vandêa, que foi coroada de palmas.O penultimo numero da segunda parte, tão interessante como a primeira, era a marcha hungara executada pelo violinista Remissy.Quando se chegou a essa altura do programma, o conde de Bizeux levantou-se para prevenir os espectadores de que se dera o descarrillamento, e que, por isso, Remissy não estava presente.O conde começou dizendo:—Um descarrillamento entre as estações de...Mas foi interrompido pelo proprio Remissy em pessoa, que, de violino debaixo do braço, avançou lentamente, e disse:{231}—O comboio descarrillou, mas por felicidade não se voltou a carruagem em que segui desde a estação de La Fresnays, e portanto eis-me aqui, á hora marcada, ao seu dispor, minhas senhoras e meus senhores.As palavras de Remissy foram recebidas com uma salva de palmas.Duas ou tres pessoas que chegavam com o violinista, contaram o que se passára.Em seguida ao descarrillamento, Remissy, com o violino a tiracollo e o sacco de viagem na mão, mettera-se a caminho para La Fresnays, tranquillamente.Chegado que foi, alugou uma carruagem, e uma hora depois chegava a Saint-Malo, e entrava no salão do concerto, correcto, impeccavel, de casaca e gravata branca, como se não chegasse d'uma viagem de trezentas leguas.Logo que o silencio se restabeleceu no salão, Remissy começou a tocar o hymno de Rakoçki.Como sempre, foi extraordinario d'execução.As primeiras notas foram ligeiras, simples, mas othemado hymno foi exposto com firmeza e arte.Depois, foi-se animando pouco a pouco, levado por subito arrebatamento, como se se sentisse no campo da batalha, ao lado do general Kossuth.Dir-se-ia que d'elle se apossava um enthusiasmo frenetico, tyrannico.{232}Em seguida o arco tocava ao de leve nas cordas do violino, e percebia-se o hymno como que tocado ao longe, mysteriosamente.Era a isso que elle chamavatocar nas estrellas.Mas, singular condão do genio, as notas, apesar de fracas e quasi indistinctas, tinham a mesma expressão e o mesmo encanto.

A mesma voz cantou depois ooffertoriodo mesmo compositor, com tal arte e vigor que a todos causou espanto.

O arcebispo de Rennes, que era profundo conhecedor de musica religiosa, balanceava a cabeça e movia as mãos com beatitude.

Trocaram-se phrases d'admiração, e se não fosse o respeito á santidade do logar, com certeza todos os ouvintes teriam applaudido com delirio.

Terminada a ceremonia, a primeira pergunta do arcebispo, ao entrar na sachristia, foi:

—Mas quem é a admiravelvirtuoseque a todos nos encantou?

O conde, que entrava acompanhado de Laura, respondeu triumphantemente:

—Foi minha nora, a sr.ª viscondessa de Bizeux, que tenho a honra de apresentar-lhe, monsenhor.{178}

—Na realidade a sr.ª viscondessa é uma artista de primeira ordem! disse o arcebispo.

E depois accrescentou:

—Isto fez com que eu tivesse uma ideia, que não me parece de todo má... Logo lhe communicarei um certo projecto em que penso, meu caro conde.

Em seguida desfez-se em agradecimentos e cumprimentos, aos quaes dava um certo sabor particular a mistura que havia do padre e dodilettante.

Não foi só Laura que recebeu esses agradecimentos e cumprimentos; Estephania tambem compartilhou d'elles, e tão interdicta ficou, que não sabia se devia estar satisfeita ou vexada.

Laura commoveu-se e sorriu-se com melancholia.

Era o seu primeiro successo em dois annos!{179}

Tinham decidido que deixariam o castello para voltar a Saint-Malo quando chegassem os primeiros frios, nos fins d'outubro ou principios de novembro.

Na segunda quinzena d'agosto, porem, Estephania foi atacada de rheumatismo agudo, que ao principio apresentou um caracter inquietante.

Chamaram da cidade o medico da familia, clinico de talento e longa pratica, que, depois de dispensar os primeiros cuidados á doente, diagnosticou o mal de principio de rheumatismo articular.

O doutor demorou-se um dia no castello.

A sua ausencia da cidade não podia prolongar-se por mais tempo, porque, como era o medico mais considerado, tinha longa clientela a reclamal-o.{180}

Prometteu voltar o maior numero de vezes possivel, duas ou tres por semana.

Entretanto declarou que julgava indispensaveis as visitas diarias e attenções constantes.

O medico de Saint-Pol-de-Léon inspirava mediocre confiança ao conde. Que fazer, pois?

O tempo estava explendido; o mar socegado como um lago.

Depois de pensar maduramente no caso, o conde resolveu-se.

Estephania foi transportada, n'uma especie de maca, para bordo d'um vapor, fretado para esse fim em Saint-Malo.

Algumas horas depois d'embarcar a doente estava installada no seu quarto do planalto da cidade.

O conde de Bizeux queria partir só com a filha, deixando no castello Antonino e a esposa.

Laura, porém, oppozera-se a essa determinação, dizendo:

—Estephania necessita dos cuidados d'uma senhora. O meu logar é á cabeceira do leito da irmã de meu marido.

Como a menina de Bizeux declarasse que não desejava incommodal-a, principalmente por ser ardua a tarefa, Laura respondeu:

—Pergunto a Antonino se eu sou enfermeira descuidada...{181}

Laura, aimpia, tinha o mais absoluto despreso pela morte, emquanto que Estephania, adevota, a temia sobremaneira, como d'ordinario succede a todos os espiritos fracos.

Essa circumstancia fez com que a menina de Bizeux acceitasse, sem mais opposição, o offerecimento de sua cunhada.

Durante mais de duas semanas em que a doença apresentou maior perigo, Laura tratou Estephania com a mais dedicada sollicitude, nem um momento desmentida. A menina de Bizeux parecia surpreza e commovida.

Entretanto, no primeiro dia em que poude sahir do quarto, disse simplesmente a Laura:

—Agradeço-lhe e peço lhe que acredite que, no seu logar, teria procedido da mesma fórma.

—Não duvido, replicou Laura surprehendida da frieza d'aquellas palavras.

D'este contratempo resultou que em pleno mez de setembro estavam em Saint-Malo.

A convalescença de Estephania e o adeantado da estação, impediam a volta ao castello.

Nos poucos dias que passara em Saint-Malo, de regresso da America, Laura apenas tivera tempo de ver superficialmente a cidade e a sociedade.

Depois do restabelecimento d'Estephania teve occasião para mais de perto observar uma e outra.{182}

A cidade encantou-a, mas a sociedade pouco lhe agradou.

Das janellas de casa gosáva o largo panorama do mar e o aspecto da bahia, que se abre entre dois morros titanicos, a ponta da Verde e o cabo Frehel, gigantes de pedra que parecem estender os braços atravez as sete leguas de mar que os separam, por cima da ilha granitica de Cézambre, guardada por negros recifes, que por entre as suas pontas deixam apenas estreitas passagens aos navios.

O mar entra por essas passagens com fragor medonho e enormes acotovellamentos de vagas, vindas do largo em plena liberdade, e penetrando á força na bahia pelas portas de pedra, que jámais poderam arrombar.

Ao fundo do golpho, sobre uma ilhota, eleva-se a cidade dos corsarios, rodeada d'altas muralhas, onde se alinham os canhões de cerco, estendidos pachorrentamente nas suas carretas, e abrindo, sobre a herva dos revestimentos, as suas boccas ameaçadoras. O mar tem na bahia, durante o estio, a placidez langorosamente azulada dos lagos.

As ondas esperguiçam-se suavemente sobre a areia, junto das velhas muralhas.

Mas no inverno batem com furia nas pedras ennegrecidas, e sobem, em turbilhões d'espuma, a enorme altura.{183}

A cidade, fechada pelas muralhas, assiste impassivel áquellas convulsões da agua.

As altas casas, de janellas sem rotulas, elevam as suas fachadas geometricas, socegadamente, como que seguras de não serem attingidas pela impetuosidade das ondas.

Mas nos angulos dos predios veem-se por vezes nichos da Virgem, aos quaes o vento arrebatou as imagens.

A ilhota que serve de base á cidade apenas apresentava para fóra d'agua, transposta a muralha, uma especie de calçada em declive, relativamente larga, mas que, a pouco e pouco, as tempestades teem desconjunctado.

D'antes Saint-Malo parecia um navio ancorado, e marinheiros os seus habitantes.

Os costumes da cidade eram d'uma severidade quasi selvagem, proverbial a sua lealdade rude.

A independencia d'aquelles homens não se curvava ante o governador da provincia, nem mesmo em frente da nobreza, á qual, de resto, d'uma vez emprestaram cincoenta milhões de francos.

Que de mudanças se teem operado!

Os caminhos de ferro, os casinos escalonados pela costa, o contacto periodico com estrangeiros, a convivencia com os banhistas que de toda a França ali concorrem, e, na cidade propriamente dita, a invasão{184}dos jesuitas, teem modificado as linhas, deprimido os angulos, alterado o caracter brusco mas franco d'aquelles homens, filhos da terra que deu á França Lammenais, Chateaubriand, Jacques Castier, Dagaray-Tronin, Surconf e tantos outros pensadores e homens de superior talento.

O caracter dominante da geração moderna é, nas casas nobres, um formalismo devoto, de que o fanatismo não exclue a immoralidade.

Apenas algumas familias de burguezes ricos resistiram ao contagio.

Os membros d'essas familias tornaram-se republicanos, e fazem todos os esforços para que o povo adore a republica.

Mas para esses nem chaves d'ouro lhes abririam as portas dos cenaculos aristocraticos, onde vêem a luz e se desenvolvem as intrigas monarchicas e clericaes. Sobre a grande massa banal da burguezia pouco dinheirosa, logistas, empregados, industriaes, sobresahem alguns, raros, perfis intelligentes d'advogados, de medicos, d'artistas, de jornalistas, isolados n'aquelle entorpecimento provincial.

D'inverno ha bailes officiaes, e bailes no casino de verão.

Esses bailes são frequentados por varias camadas sociaes, mas jámais tal facto produziu a mais insignificante mistura de castas.{185}

O orgulho geral produz em todos a mais absoluta falta d'affabilidade.

Comprehende-se, pois, que, na sociedade restricta e altiva da nobreza de Saint-Malo, Laura se achasse completamente deslocada.{186}

{187}

A rainha da moda, a que dava as leis e fazia a opinião da alta sociedade em Saint-Malo, era a sr.ª baroneza de Pontual, uma formosa mulher de trinta annos. Havia umas cinco ou seis estações que ninguem se atrevia a disputar-lhe a elegante auctoridade.

A baroneza era ainda parenta, em grau affastado, da menina por quem o conde se apaixonára antes de casar com a mãe d'Antonino, e parecia-se até, um pouco, com a infeliz a quem o desgosto matára.

Essa circumstancia atrahira o conde, contra o seu habito, para a esphera d'acção mundana da joven baroneza, elle que tanto amava a vida retirada, onde podesse entregar-se completamente ás suas melancholicas recordações.{188}

O barão de Pontual era um insignificante.

Sendo o primeiro admirador e adorador da esposa, ella facilmente o conduzia por todos os caminhos, bons ou maus, por onde lhe aprouvesse caminhar.

Adelia, que assim se chamava a baroneza, declarava teralma d'artista, o que é uma percebivel ambição, quando não seja pretenciosa.

Ora, para completo esclarecimento do leitor, devemos dizer que á baroneza faltava simplicidade e sinceridade.

Cultivava simultaneamente, segundo a sua propria phrase, as lettras, a pintura e a musica.

A sua especialidade em litteratura era o genero epistolar, á semelhança da sr.ª de Sévigné, sua compatriota.

Os correspondentes previligiados da baroneza, como no passado os da marqueza, colleccionavam as cartas e os bilhetes, em que havia tres estylos diversos: o serio, o sentimental e o jocoso.

Em pinturaorvalhavaas suas aguarellas, edava vidaás paysagens.

Mas a sua arte predilecta era a musica.

Possuia voz agradavel, mas mal educada.

Comtudo recebera lições de canto de Delle Sedia, como recebera lições de piano de Lecouppey.

Tinha opiniões cortantes, audacias pouco vulgares em mulher.{189}

O seu deus era Gounod.

Eatretanto não desgostava de Berlioz, que ella declarava serquasi sempre extravagante, mas algumas vezes sublime.

A baroneza, ao principio, quando no seu horisonte viu despontar a viscondessa, inquietou-se.

Laura era mais formosa e mais nova que ella.

Além d'isso a situação dos srs. de Bizeux era muito mais brilhante do que a do barão de Pontual.

Tudo isto fazia com que Laura podesse ser uma rival terrivel.

Mas socegou em breve, vendo o aspecto modesto e simples da viscondessa, que apenas parecia desejar não dar nas vistas, occultar-se na sombra.

A formosa Adelia foi desde logo indulgente e quasi amiga de Laura.

—A viscondessinha é encantadora! disse ella.

O barão de Pontual era o thesoureiro da commissão que tratava da fundação do hospicio para marinheiros.

O conde de Bizeux foi eleito, por essa occasião, vice-presidente da mesma commissão.

Uma ultima subscripção produziu approximadamente sessenta mil francos.

Faltava, pois, arranjar apenas os quarenta mil que faltavam para prefazer a quantia julgada indispensavel.{190}

Esplendidas regatas, organisadas em Saint-Malo, produziram quinze mil francos.

O arcebispo de Rennes foi então d'opinião que se devia angariar o restante, dando um grande concerto.

Foi convencionado que o concerto se realisaria nos fins de setembro.

Tratariam d'accumular attractivos, que justificassem os preços elevados, e attrahissem a Saint-Malo aéliteda nobreza e da finança de toda a Bretanha.

A baroneza de Pontual estava naturalmente indicada para preparar e dirigir aquella festa.

Haveria canções populares bretãs, para as quaes recrutariam executantes nas classes baixas.

O celebre pianista Nobillet, natural de Lorient, prometteu o seu concurso, e egual promessa fez o barytono Gressier, que nascera em Nantes.

O restante, para conservar ao Concerto o caracter aristocratico que devia ter, a baroneza de Pontual tratou de o procurar e encontrou-o, nos salões da melhor sociedade; homens e senhoras, cujos nomes e talento dessem ao programma grande attracção, tornando-o de fórma a aguçar a curiosidade de todos, prestaram-se a tomar parte na festa.

O salão da baroneza era pequeno para n'elle se fazerem os ensaios.

O conde de Bizeux offereceu o seu.

A viscondessa, como Estephania estava ainda convalescente,{191}viu-se obrigada a fazer as honras da casa.

O sr. de Bizeux, que tomára a peito a terminação da grande obra de caridade, perguntou á nora se não queria dar o seu contingente para o brilho do concerto.

Laura, sem recusar abertamente, observou-lhe que se arriscava a trahir o seu incognito d'artista e a deixar descobrir a cantora na viscondessa, tomando parte n'esse espectaculo, a que de certo concorreria muita gente.

O conde, ainda que com pesar, acceitou aquellas razões.

Um incidente imprevisto tornou inutil aquella precaução.

A baroneza devia cantar, no concerto, aAve Mariade Gounod, o seu deus.

D'uma vez ensaiava, em casa do conde, aquelle delicioso trecho de musica, ante um auditorio que, n'aquelle dia, por acaso, era numeroso.

Obteve o successo costumado, e todos os presentes foram, no fim, fazer-lhe os seus cumprimentos...

Laura, como todos, foi testemunhar a sua admiração á baroneza.

Adelia requebrou-se toda, segundo, o seu habito, defendendo-se dos cumprimentos com a mais falsa das modestias.

—Não, não... Favores!... Hoje não estava com{192}voz... De certo reparou que, no fim, a respiração faltou-me!...

—Permitte-me que lhe diga de que foi resultante essa falta? perguntou Laura com simplicidade.

—Pois não, minha querida!... Falle... peço-lhe...

—Parece-me, disse a viscondessa, que, em vez d'observar ocrescendophonico obrigado, a sr.ª baroneza o atacou demais no principio, faltando-lhe depois a força no final, que deve ser cantado com toda a intensidade de tom possivel.

—Não percebo bem... objectou a baroneza deveras contrariada.

E depois d'um momento de silencio, perguntou:

—A sr.ª viscondessa sabe musica?

—Um pouco...

—Ah! sabe?... Então queira ter a bondade de juntar a pratica á theoria, cantando o trecho como entende que elle deve ser cantado.

—Depois da sr.ª baroneza ter cantado, não devo eu...

—Não faça ceremonia... Cante... peço-lhe, insistiu a baroneza com frieza.

Com a insistencia esperava collocar em terrivel embaraço a imprudente conselheira.

Laura fez um movimento de contrariada, mas accedeu ao pedido.{193}

Começou muitopiano, com intensão de cantar a meia voz, quando muito.

Mas o instincto d'artista foi mais forte que ella: arrastou-a.

Quando chegou ás ultimas notas, a sonoridade da sua voz foi tal, manifestou-se tanto o conhecimento do methodo, que todos os assistentes, admirados, romperam em bravos e palmas.

Antonino não estava presente, mas o conde de Bizeux assistiu ao triumpho de Laura, o que, no intimo, lhe deu grande satisfação.

A baroneza de Pontual ficou abysmada!

A incontestavel superioridade de Laura esmagava-a ao primeiro recontro.

Entretanto assaltou-a uma duvida.

Quem seria aquella mulher que tinha dissimulado, e que subitamente revelava, uma voz e uma arte de cantar pouco vulgares entre amadoras, e mais do que sufficientes para fazerem a reputação d'uma cantora de primeira ordem?

Entretanto a baroneza não foi a ultima a felicitar Laura.

—Mas que admiravel surpreza! disse ella. Porque me não fez conhecedora, ha mais tempo, do seu maravilhoso talento, sr.ª viscondessa?

Comtudo cohibiu-se de perguntar a Laura se queria tomar no concerto o logar que lhe pertencia.{194}

É porque percebeu perfeitamente que esse logar seria o primeiro, e a baroneza não desejava occupar o segundo plano.

No dia seguinte, porém, a infeliz baroneza recebeu do arcebispo de Rennes, a quem enviára o programma, uma carta desoladora.

O arcebispo admirava-se de não ver figurar n'esse programma, o nome d'aquella que devia ser a grande attracção, e que produziria o mais brilhante successo.

Esse nome era o da viscondessa de Bizeux.

Fôra ouvindo-a cantar na missa d'inauguração da capella do castello, que ao arcebispo occorrera a idéa de dar um concerto, cujo producto revertesse a favor da subscripção para o hospicio de marinheiros.

Em seguida o arcebispo perguntava se a baroneza de Pontual desconhecia o raro talento da nora do conde de Bizeux.

Pois a extrema modestia da viscondessa fazia com que ella não desejasse manifestar o seu talento em publico?

Quando se tratava d'uma obra meritoria, não se tinha o direito de ser modesto, e por isso instava com a baroneza para que convidasse Laura.

Ante esta especie d'intimação, a baroneza não poude deixar de convidar a viscondessa.

Portanto, no dia seguinte, foi officialmente perguntar-lhe{195}se queria prestar ao concerto o seu valioso concurso.

Laura, perplexa, respondeu que necessitava consultar o marido e o sogro.

Houve conselho privado entre o conde de Bizeux, Antonino e Laura.

O conde foi d'opinião que a nora não devia deixar de prestar-se a dar a sua contingente para tão santa obra.

A Linda desapparecera havia mais de dois annos.

Que mal podia resultar d'ella reapparecer, uma unica vez, n'uma cidade tão distanciada de Paris, diante d'um publico local, que não estava ao corrente do movimento dos theatros parisienses?

O maior numero de probabilidades, era de que Laura não seria reconhecida.

—Mas se o fôr? perguntou a viscondessa.

—Se assim succedesse, respondeu o conde, a descoberta far-se-ia em condições tão honrosas, tão respeitaveis para todos nós, que, ante o facto consumado, os mais rigoristas não tinham o direito d'arguir meu filho de a ter amado sufficientemente, Laura, para lhe dar o seu nome, nem a mim por lhe chamar filha.

Houve um momento de silencio.

O conde, passados instantes, accrescentou:

—Nada tem no seu passado, Laura, de que deva{196}envergonhar-se. Estephania, que tem os prejuizos que sabe, sem duvida ficaria contrariada se lhe tivessemos, de principio, revelado toda a verdade. Mas agora ella já a conhece e apprecia. Tratou-a com uma dedicação tão fraternal, que minha filha está reconhecidissima. O arcebispo de Rennes, que possue um espirito superior, reclama este serviço; depois seria o primeiro a não consentir que elle se voltasse contra aquelles a quem o pede. Se o seu segredo, que é tambem nosso, tem de ser conhecido mais tarde ou mais cedo, parece-me que não encontraremos occasião mais favoravel do que esta, para que todos saibam que a esposa de meu filho foi cantora.

Antonino, menos optimista que seu pae, e vagamente inquieto, nada achou que oppôr ás razões apresentadas pelo conde.

De resto, como sempre, desejava fazer-lhe a vontade.

Assim pois, foi Laura a unica que resistiu á idéa de reapparecer e cantar em publico.

Mas não queria ou não podia dizer tudo o que pensava sobre o caso.

A verdade era que, sobretudo, ella temia-se a si propria.

Sabia com que intima alegria estremecera no dia da inauguração da capella.{197}

Dois dias antes, ao cantar, ante um auditorio ainda assim restricto, aAve Mariade Gounod, experimentára maior satisfação.

Os bravos e palmas que então ouvira, tinham a como que transportado aos bellos tempos em que ella arrebatava uma platéa inteira.

O que lhe succederia se de novo se encontrasse na frente d'um publico numeroso?

Que effeito lhe produziriam os bravos, as chamadas, as corôas?

Ah! a queda era tão facil e podia ser tão desastrosa!

Tel-a-iam esquecido em Paris tanto quanto o conde julgava?

Não.

Poucos dias antes lera n'um jornal da capital, a proposito da abertura da nova Opera e da companhia que n'ella devia cantar, que o director do novo templo da arte, devia, se fosse habil, lembrar-se da Linda.

N'essa mesma noticia accrescentava-se que a diva estava no Mexico, mas dizia-se tambem que o Mexico não era no fim do mundo, que se volta de lá dentro d'algumas semanas.

Mas a Linda não estava longe!

Podia chegar a Paris, ao seu querido Paris, em algumas horas.{198}

Laura, em seguida, pensou no seu amor por Antonino, sempre inalteravel no seu coração.

Era esse sentimento que ainda a retinha junto d'elle.

Mas ao mesmo tempo recordava-se da palavra que o visconde lhe dera, e que a tornava livre se achasse muito pesada a cadeia que a prendia.

Eram todos estes pensamentos que a tornavam hesitante. Não tinha, porém, a coragem de os expôr.

Se a tivesse, seu marido e seu sogro ficariam convencidos de que ella não devia cantar no concerto de benificencia.

O conde persistia, insistia, e Antonino juntava os seus rogos aos do pae. Ella, por fim, disse:

—Reconhecem bem, não é verdade, que o que está mais em jogo não é o meu interesse pessoal, mas o interesse da familia?

—Sem duvida, respondeu o conde, e é por isso mesmo que insistimos e somos de opinião que deve ceder, como nós cedemos.

Laura, replicou então:

—Visto assim o quererem, cantarei no concerto!

N'essa noite, Laura disse á baroneza, pouco satisfeita, o seguinte:

—Pode accrescentar no seu programma, minha senhora, que a viscondessa X... cantará as ariasFidelioe oRei dos Alamos.{199}

O dia em que devia realisar-se o concerto foi por fim fixado: 29 de setembro.

Faltavam, pois, dez dias.

Laura propôz ao marido não os passasem em Saint-Malo.

Que necessidade tinham de juntar ao perigo d'ella ser reconhecida no concerto, o risco de a reconhecerem nos ensaios?

Até então a viscondessa não encontrára ninguem que a conhecesse.

Os artistas que deviam tomar parte no concerto, Nobillet e Gressier, nunca a tinham visto.

Fallava-se, comtudo, em reforçar o programma, accrescentando-lhe os nomes d'outros artistas.{200}

O mais prudente, pois, era não apparecer senão na noite do espectaculo.

Como escolhera dois trechos de musica que conhecia perfeitamente, bastava a Laura uma simples recordação com a orchestra, na manhã do dia do concerto.

Nos seus passeios maritimos Antonino e Laura não tinham ido alem do Monte de Saint-Michel.

Decidiram por isso visitar durante aquelles dias, na sua chalupa, as costas do departamento da Mancha, e Jersey, onde Laura nunca tinha ido.

O conde de Bizeux e Estephania, já completamente restabelecida, receberiam as pessoas que iam ensaiar-se.

A baroneza de Pontual seria a unica a dirigir a festa, sem temer a intervenção da que ella considerava sua rival.

Laura partiu alegre e despreoccupadamente para aquella excursão, a mais longa que ainda tinham feito.

A viagem foi encantadora.

A volta da ilha de Jersey, que durou cinco a seis dias, foi sobretudo uma verdadeira delicia.

Passaram em todos os portosinhos naturaes que a ilha tem, desembarcavam, jantavam e dormiam nas estalagens mais ou menos mediocres com que deparavam, rindo do jantar, rindo do leito, rindo de tudo.{201}

Para descançarem das fadigas da navegação, davam esplendidos passeios de carruagem, visitando os melhores locaes e todas as curiosidades da ilha.

Não abriram um jornal.

Sentiam-se tão longe da França como se ainda estivessem na America.

Esqueceram Saint-Malo, esqueceram o universo.

Os dias corriam magnificos, uns dias d'outomno, tepidos e amenos.

Laura sentia apenas que o mar se conservasse tão uniformemente tranquillo.

—Está bello de mais o tempo, disse ella. Algum vento que encapellasse as ondas tornaria mais emotiva a nossa viagem.

Que pesar sentiam de que aquelles dias tivessem que terminar!

Na vespera do concerto estavam em Granville.

Antonino sahiu depois do almoço para preparar a chalupa, e voltou ao hotel, onde tinham passado a noite.

Laura reparou que o marido estava com aspecto de pouco satisfeito.

—Diabo! diabo! disse elle. Parece-me que procederiamos acertadamente voltando a Saint-Malo por terra, tomando o comboio em Dol.

—Porque?

—Vejo nuvens de mau agoiro. Se o vento refrescar,{202}é provavel que, antes de chegarmos a Saint-Malo, tenhamos de luctar com mar bravo, e a nossa chalupa não tem condições para luctas d'essa ordem.

—Levantae-vos, desejadas tempestades que deveis arrastar Renato!disse rindo Laura, respondendo aos temores do marido com uma citação de Chateaubriand.

E accrescentou n'outro tom:

—Ainda bem! Desejo defrontar-me com o perigo.

Antonino dissera a verdade.

O vento era contrario, e para os lados de Saint-Malo viam-se nuvens ameaçadoras.

—Não valem nada! disse a viscondessa depois de olhar para as nuvens que o marido lhe indicava. Sobeja-nos o tempo para chegarmos antes que a tempestade se desencadeie. Mas se assim não acontecer, tanto melhor, Antonino, porque sinto grande desejo d'arrostar qualquer perigo a teu lado. Acho encantador terminar por um incidente um pouco dramatico a nossa socegada viagem.

—Decididamente queres embarcar? perguntou Antonino depois de reflectir por alguns momentos.

—Quero.

—Que a tua vontade seja feita.

E embarcaram.

Antonino tomou tres rizes á vela grande e prendeu o gurupés.

Em seguida envolveu Laura n'um manto, e fez-se{203}ao largo. Durante as duas primeiras horas correu bem a viagem.

A chalupa navegava com uma velocidade de doze nós por hora.

O visconde chegou a ter esperanças de que chegariam a Saint-Malo sem novidade.

Mas repentinamente soprou rijo o vento, apanhando de flanco a chalupa, e as ondas encapelaram-se.

A cada vaga Antonino dava ao leme, e o barco vencia obliquamente a onda, cuja espuma chegava ao cimo do mastro.

O mar embravecia de minuto para minuto.

O vento refrescava cada vez mais.

A chalupa, inclinada para bombordo, seguia sempre, com a borda quasi ao nivel das ondas.

Entretanto houve um momento em que o vento abrandou, como que para dar descanço ás vagas.

Mas depois, bruscamente, saltou para sueste.

Por felicidade Antonino viu chegar a borrasca.

As montanhas d'agua que se moviam ao largo, batidas pelo vento contrario, elevaram-se a enorme altura.

Depois, obedecendo á força impetuosa do vento, correram na mesma direcção.

Houve um minuto de indiscriptivel cahos.

O choque das massas d'agua batendo umas contra outras, produzia um ruido ensurdecedor.{204}

A chalupa corria rapida como um vôo.

Apanhada pelas ondas que vinham de terra impellidas pelo vento, encontrava outras ainda animadas da primeira impulsão.

Se se encontrasse no ponto d'encontro d'essas montanhas moveis, estava perdida.

Antonino, socegado, attento, nem por um instante se deixava surprehender.

Laura poude então admirar esse espectaculo extraordinario: a lucta da destreza e da intelligencia humanas contra o poder brutal das forças naturaes.

O ceu assombreava-se cada vez mais.

Uma grande nuvem côr de chumbo, com reflexos sulphurosos nas extremidades, avançava rapidamente do lado de Saint-Malo. Laura disse a Antonino:

—Corremos grande perigo, não é verdade?

—O mais insignificante descuido perder-nos-ia, respondeu o visconde.

—Para onde diriges a chalupa?

—Vou tentar abordar á ilha de Cézambre, da qual distamos dois kilometros. E agora, minha querida, silencio!

Laura approximou-se do unico homem que amara e que escolhera entre todos, feliz por se saber protegida por elle.

Não fôra ella, de resto, que desejara observar de perto o mar irritado?{205}

Chamára o cataclysmo, e elle viera, furioso por se ver arrostado por aquelles dois entes cheios de vida.

Por isso Laura não sentia verdadeiro temor.

Ao principio, vendo a extraordinaria força dos elementos, sentira um ligeiro calafrio.

Mas, depois, socegou por completo.

Pensava apenas:

—Se nós fossemos separados por alguma vaga?

E, sem pronunciar uma só palavra, pegou n'um cabo de linho, delgado mas forte, prendeu uma das extremidades ao braço, passando a corda por cima do hombro, e com a outra extremidade prendeu de fórma identica o braço d'Antonino. Depois disse:

—Agora podemos morrer! Morrer juntos e amando-nos, é morrer feliz!

A tempestade attingia o paroxismo.

As vagas cabriolavavam e cahiam depois em salto de tigre.

O ceu cobrira-se de funebre tela, côr de ardosia, com manchas violaceas.

As nuvens desciam pesadamente sobre as regiões inferiores da atmosphera.

A chalupa voava, branca e ligeira como uma ave aquatica, sobre o dorso das ondas.

Por vezes desapparecia entre duas muralhas de vagas para reapparecer pouco depois, continuando na carreira rapida.{206}

A ilha proxima a custo se avistava por entre as elevadas ondas, que a espuma franjava phantasticamente.

Antonino, com toda a energica tensão que pode ter a vontade, combatia encarniçadamente, para não desapparecer no abysmo.

Apenas uma vez foi surprehendido pelo quebrar de uma onda enorme, que corria sobre a chalupa, n'um encarniçamento de fera, soltando roncos temerosos.

N'essa occasião a vela rasgou-se.

Por felicidade, a chalupa adquirira grande velocidade.

A onda, ao quebrar, inundou a embarcação.

A chalupa esteve prestes a submergir-se.

A especie de camara que havia a meia coberta, foi arrancada.

O porão encheu-se d'agua.

Felizmente chegavam.

A praia da ilha de Cézambre, estava ali, muito proxima...

Com mais um movimento da canna do leme Antonino achou-se no centro d'uma enseadinha, ao abrigo do vento. Dois minutos depois a quilha da chalupa afundava-se na areia.

Antonino deitou ferro, e saltou sobre uma rocha, com uma ligeireza de gamo.

Laura lançou-lhe a extremidade d'uma amarra,{207}que o visconde atou solidamente n'um adelgaçamento do rochedo.

Depois estendeu as mãos para a esposa, que ligeiramente lhe saltou nos braços.

Abraçaram-se apaixonadamente, com delirio.

Estavam salvos!{208}

Antonino e Laura atravessaram a estreita facha arenosa que havia junto ao rochedo, e que era o unico ponto abordavel da ilha de Cézambre.

Na praia estava amarrado um barco.

Meio occulto n'uma especie de quebrada, encontraram o posto da Alfandega.

A casa estava aberta e vazia.

Sem duvida os guardas, tendo partido de manhã, não estavam ainda de volta.

Antonino lembrou-se que proximo d'aquelle sitio havia uma cabana de pescadores.

Depois de a terem procurado por alguns minutos, encontraram-a por fim, n'uma anfractuosidade dos rochedos.

A porta apenas estava fechada na tranqueta.

Abriram-a e entraram.

Depararam com uma velha, meio surda, que concertava uma rêde.{209}

A custo conseguiram saber que o velho—marido sem duvida—tinha partido de manhã para Saint-Malo e que ainda não voltára.

Muito instada, disse mais que nada tinha que se Comesse e bebesse, além decidra, toucinho, peixe sêcco e pão.

Uma moeda d'ouro, que Antonino atirou para cima d'uma meza, abriu-lhe um pouco mais os ouvidos e a intelligencia.

A velha levantou-se então e tratou de fazer lume sem demora.

Pouco depois brilhavam as chammas na chaminé.

Laura approximou-se para se aquecer e seccar o fato.

Depois de estar tambem alguns momentos junto do lume, Antonino disse:

—E agora vou buscar as nossas provisões a bordo da chalupa, porque, antes d'embarcarmos novamente, necessitamos comer, e não me agrada o que a velha nos póde dar.

E voltando-se para a dona do tegurio, accrescentou:

—Acompanhe-me, porque, indicando-me o caminho, menos tempo me demorarei.

A velha levantou-se sem responder, e seguiu Antonino.

Laura conservou-se á chaminé, pensativa.{210}

Pouco depois ouviu uma voz conhecida dizer-lhe:

—Adeus, Linda, bom dia!

Levantou-se sobresaltada e olhou.

Tinha em frente Lauretto Mina.

—Como vaes tu, carissima?

Laura respondeu altivamente:

—Eu chamo-me viscondessa de Bizeux!

—Viscondessa?... Hum!... Emfim, seja! Effectivamente disseram-me, em Saint-Malo, que tinha casado com o sr. de Bizeux, e que pertencia officialmente á familia do visconde. Mas o casamento effectuou-se em Inglaterra, não é verdade? Ninguem desconhece essa especie de casamentos... enlaces pouco duraveis, tão faceis de fazer como de desfazer. Casa-se em frente d'um padre catholico, mas nem por isso o casamento deixa de ser civil, o que illude a lei.

—Mas affianço-lhe... replicou Laura.

Interrompeu-se para ajuntar em tom desprezador:

—Que me importa o que o senhor pense! Acredite ou não, é-me indifferente!

—Está bem! respondeu, rindo ironicamente, Lauretto Mina. Que a viscondessa esteja mal, ou bem tincta, é questão secundaria, que não me impede de prometter solemnemente tratal-a pelo seu titulo, com todas as attenções e o mais profundo respeito. Tomo a peito proceder de fórma que reconquiste as suas boas graças.{211}

Depois d'um momento de silencio, olhando-a de revez, accrescentou:

—É possivel que a sr.ª viscondessa tenha a maxima conveniencia de passar, para mim, como uma desconhecida em Saint-Malo. É possivel que não deseje que a reconheçam como sendo a celebre cantora Linda...

Laura, surprehendida e interrogando-o com o olhar, interrompeu-o:

—E se assim fosse!

—Bravo! Já vejo que acertei! Pois está combinado! Ámanhã, no concerto...

—Ah! o senhor canta no concerto d'ámanhã? perguntou a viscondessa.

—Canto. Foi para isso que vim a Saint-Malo... Ámanhã será para mim uma desconhecida. Prometto-lh'o sob minha palavra d'honra.

—Obrigada.

—E agora que está certa da seriedade das minhas intenções, deixe-me dizer-lhe rapidamente, antes que... seu marido volte, o que vim fazer aqui, porque vim exclusivamente por sua causa.

—Por minha causa? repetiu Laura como um echo.

—Não me refiro precisamente á ilha de Cézambre. A estes rochedos conduziu-me apenas o acaso, a minha boa estrella. Esta manhã propozeram-me um passeio até á ilha, que me affiançaram ser extraordinariamente{212}pittoresca. A tempestade reteve-nos por mais tempo do que desejavamos. Mas a Saint-Malo, vim exclusivamente por sua causa, repito.

Em seguida a uma pausa calculada, o tenor ajuntou:

—O tempo passa. Vou direito ao fim. Sabe que no proximo mez é a inauguração da nova Opera. O director encarregou-me de dizer-lhe que tinha o maximo empenho em contratar a Linda. Elle acceita uma escriptura nas condições que mais lhe agradem, sr.ª viscondessa, ou seja por anno e por serie de representações.

Laura córou, e esteve sem responder durante alguns segundos.

Por fim disse:

—É impossivel. Eu sou a esposa do visconde de Bizeux.

—Ora adeus!... Nada de patetices!... replicou Lauretto com desdem. A sr.ª é e será sempre a Linda! É possivel que seja viscondessa, mas não deixou de ser artista! Usa agora, legitamente ou não, pouco importa, o nome dos nobres avós d'um fidalgo da provincia, mas,per Bacco!não lhe merecerá mais consideração, não collocará cem vezes mais alto o seu nome pessoal, o seu nome artistico, o grande nome que conquistou pelo seu talento previlegiado? Não posso deixar de lhe lembrar que seu pae tambem{213}era conde. Mas ninguem o conhecia por conde de Marcia, todos lhe chamavam o grande violinista, o grande artista Marcia. Acho extranho que a filha proceda de fórma contraria, deixando offuscar o seu glorioso nome de artista pelo vulgar titulo de nobreza!

O tenor fallava com vehemencia e emphase italiana, mas as suas palavras correspondiam aos intimos pensamentos de Laura.

A viscondessa não respondeu.

Inclinara a cabeça para o peito, pensativamente.

O tenor perguntou:

—Então?... Que resposta devo dar ao director da Opera? Que acceita, não é verdade?

Laura disse, como se fallasse comsigo mesma:

—Ha uma coisa que a tudo sobreleva: amo meu marido!

—Mas ha trinta mezes já que o ama! Parece-me sufficiente! O visconde confiscou-a por mais de dois annos, é tempo de a restituir a si propria, á arte, aos seus admiradores. Se a amasse, seria o primeiro a dar-lhe esse conselho. E apesar disso a sr.ª continua amando-o, se é que não a engana o coração. Mas eu conheço-a bem, e iria apostar em como está farta da vida que leva. Convença-se: a sr.ª não pertence a um só homem, pertence a todos! Eu nem um instante{214}duvidei que a Linda voltaria para o theatro. Se não fôr hoje, será ámanhã!

Laura, fugindo de responder ao tenor, perguntou:

—Como soube o director da Opera que eu estava em Saint-Malo?

—Ah! isso é descoberta minha, replicou Lauretto Mina envaidecido. Quando a sr.ª desappareceu com o visconde, disse-se que tinha partido para a America do Norte ou do Sul. A verdade é que nunca se soube ao certo para onde tinham ido. Pouco tempo depois ninguem se lembrava da Linda, excepto eu, que nunca a esqueci. Velava, espiava. Ha pouco soube pelo barytono Gressier, que elle fôra convidado para cantar n'um espectaculo de beneficencia, em Saint-Malo. Lembrei-me que Saint-Malo era a terra da naturalidade do visconde de Bizeux. Tratei de ler os jornaes da provincia, e n'um, oCorreio d'Ille-et-Vilaine, vi que o conde de Bizeux era o vice-presidente da commissão que promovia o espectaculo. Li o programma do concerto e n'elle encontrei os nomes da baroneza de P... e da viscondessa de B... Procurei immediatamente «o director de Opera, para onde, tenho a honra de lh'o participar, estou escripturado. Logo que o vi, disse-lhe: Encontrei a Linda! Meia hora depois escrevia ao sr. conde de Bizeux, offerecendo-me desinteressadamente para cantar no concerto. O conde acceitou reconhecidamente o meu{215}valioso concurso, em telegramma. No dia seguinte, munido de plenos poderes pelo director da Opera, parti para Saint-Malo, onde cheguei ha poucos dias. Eu desejava ficar hospedado em casa de seu sogro. Infelizmente, porem, elle hospedava Nobillet e Gressier que considerava como patricios, e tive de contentar-me em ser hospede da sr.ª baroneza de Pontual—uma mulher encantadora, palavra d'honra! disse o tenor como que em aparte com sorriso fatuo. Pena é que a voz não corresponda á belleza com que Deus a dotou!

—Está hospedado em casa da baroneza de Pontual? perguntou Laura inquieta. Disse-lhe quem eu era?

—Admire a minha prudencia e delicadeza: fazendo com que a baroneza fallasse da minha ex-companheira de theatro, percebi com facilidade que a sr.ª viscondessa tinha realmente guardado o mais rigoroso incognito, e não trahi o seu segredo. Como antecipadamente tinha admittido essa hypothese e resolvido não a denunciar, guardei o mais absoluto silencio.

—Agradeço-lhe, disse Laura pela segunda vez, durante a sua conversação com Lauretto.

D'esta vez, porém, pronunciou a palavra mais delicadamente do que da primeira.

—Nada tem que agradecer-me, replicou Lauretto. Repito-lhe; tenho o maximo desejo em que veja em{216}mim apenas um amigo. Escute-me, Laura: ha mais de dois annos que nem um só momento deixei de pensar em si. A sua imagem está sempre presente ao meu coração. Os sonhos de felicidade que tenho architectado teem sido tantos e taes que nem mesmo me atrevo a relatar-lh'os. É uma verdadeira obsessão! Ah! permitta-me que lhe diga, o que ainda, sentido, nunca disse a qualquer mulher: adoro-a, Laura!

A viscondessa endireitou o corpo, irritada.

Depois d'olhar fixamente, com altivez, o tenor, disse-lhe desdenhosa:

—Creio que ha bocado prometteu tratar-me com todas as attenções e respeito?

Lauretto não poude responder.

Olhando pela porta, viu o visconde, que se approximava.

Portanto disse a Laura, sorrindo maldosamente:

—Não falle tão alto, que póde ouvil-a seu marido.

Laura olhou tambem, e viu Antonino, seguido pela velha, que conduzia um cabaz.

Ao transpor o limiar da porta, o visconde recuou, estupefacto.

A voz tremia-lhe ao pronunciar o nome do tenor.

—Lauretto Mina! disse elle apenas.

—Em pessoa! respondeu o tenor com toda a presença d'espirito. Diz-se, e assim é, que o mundo é{217}enorme. Pois apesar d'isso os amigos encontram-se sempre. Portanto o nosso encontro, sr. visconde, apesar de ser perfeitamente casual, não é para admirar. Vim a Saint-Malo para cantar no concerto d'ámanhã. Uns amigos convidaram-me a passeio n'esta ilha. A tempestade, retendo-nos, fez com que nos encontrassemos. Os seus charutos devem estar molhados; permitti-me que lhe offereça um?

—Obrigado, disse friamente Antonino, acompanhando a palavra com um gesto de recusa.

O tenor fingiu não perceber a frieza com que o visconde o tratava.

Deu um passo para a porta, olhou para o espaço e disse:

—O tempo melhorou. O demonio do vento começa a socegar um pouco. Nada me prende já n'esta especie d'ilha selvagem. Não desejo importunal-os por mais tempo; deixo-os com a sua refeição. Senhor visconde, tenho a honra de o cumprimentar!... Senhora viscondessa, apresento-lhe a homenagem do meu mais profundo respeito!

Tirou o chapéu n'um gesto largo e saiu da cabana.

Antonino seguiu Lauretto com olhar colerico.

—Que tempo esteve este homem aqui? perguntou elle a Laura.

—Entrou pouco depois de tu sahires. Não sei d'onde veiu!{218}

O visconde interrogou a velha.

—Este senhor, respondeu a mulher, veiu passeiar á ilha paraver a vista. Trouxe almoço, e como a tempestade rebentou, demorou-se. Estava deitado entre as rochas a descançar, quando o senhor chegou.

—O que te disse elle? interrogou o visconde logo que a velha terminou as explicações.

—Fallou-me da nova Opera, onde está contractado. O director mandou-me offerecer escriptura, tambem.

—E que lhe respondeste?

—Que era tua mulher, que não podia pensar em voltar ao theatro.

—É provavel que esse insolente continue a amar-te. Dirigiu-te algumas palavras offensivas?

Deveria ella provocar um conflicto entre seu marido e o tenor?

Lauretto Mina, em duello, era adversario muito mais para temer que Pozzoli.

Por isso Laura respondeu, tremendo-lhe a voz:

—Lauretto foi attencioso d'esta vez. Está ha alguns dias, em Saint-Malo, por causa do concerto, como te disse, e não fallou em mim, promettendo-me até fingir que não me conhecia.

—Oh! E ficaste-lhe muito reconhecida, não é verdade? disse Antonino ironicamente.

—O que tens? perguntou Laura com meiguice.{219}Não admira que te contrariasse o encontro com esse homem, mas isso não é rasão para me tratares com modos bruscos!

—Perdoa-me, Laura! Não sei porque, mas a presença d'este homem irritou-me sobremaneira. Não podia nem devia provocal-o pela impertinente polidez com que me tratou, mas cada uma das palavras que pronunciava fizeram-me ferver o sangue nas veias!

—Socega, não te exaltes. Vamos almoçar, que necessitamos readquirir forças, tu principalmente. Senta-te, que eu te sirvo.

Auxiliada pela velha, Laura poz a mesa.

Depois tirou do cabaz pão, vinho de Bordeus, e carne assada.

O appetite que sentiram ao desembarcar, desapparecera.

Mal provaram os alimentos.

Emquanto estiveram á mesa poucas palavras trocaram.

Pensavam.

Antonino, que desembarcara na ilha, alegre e triumphante, apesar da fadiga physica, como se está sempre depois d'um combate de que se sae victorioso, estava agora triste e inquieto.

Laura fallara-lhe com a costumada meiguice, mas o instincto do amor que sentia pela esposa, fazia{220}com que o visconde visse para além das apparencias, e entendesse o que as palavras não diziam.

Esse instincto dizia-lhe que ella lhe occultava o quer que fosse, e que, no pensamento intimo da mulher amada, havia um segredo, como que uma sombra que lhe fugia e lhe era contraria.

Pelo seu lado, Laura, repassando pelo espirito as tentadoras perspectivas que Lauretto lhe desenrolara, dizia comsigo que Antonino nem pronunciára uma palavra d'agradecimento pelo sacrificio que ella de novo fazia regeitando as propostas do director da Opera.

Parecia-lhe que o marido se esquecera do compromisso tomado, de, quando ella lh'o pedisse, deixal-a em plena liberdade, ou, segundo as proprias palavras que então pronunciára, deixar-lhe a gaiola aberta.

Porque seria que, em vez de profundo reconhecimento, elle lhe testemunhava uma especie de desconfiança amargurada?

Porque pareceria temer a presença do insolente Lauretto Mina, que, como mulher honesta, ella repellira?

Aquelles dois entes que se amavam, que acabavam de escapar, juntos, d'um perigo terrivel, e que se considerariam felizes de succumbir a elle, enlaçados n'um abraço ultimo, ao entrarem de novo na vida social,{221}procuravam divergencias e sentiam egoismos, que separam e dilaceram.

No fundo do coração é provavel que se recordassem, saudosos, da tempestade.

E comtudo essa tempestade passára, como se nada mais tivesse a fazer, uma vez que lhe fugira o encantador par que desejara victimar.

A ilha de Cézambre dista apenas cinco kilometros de Saint-Malo, mas necessitavam apressar-se para poderem chegar á cidade antes d'anoitecer.

Prepararam-se para partir.

Antonino continuava pensativo.

Laura perguntou-lhe porque estava triste.

Elle desculpou-se com a fadiga.

A verdade, porém, era que deixára de a sentir desde que chegara á ilha.

O abalo moral quebrantára-o muito mais do que a lucta contra a borrasca.

Laura insistiu com sollicitude.

—Mas sentes apenas fadiga? Nada mais te atormenta e incommoda?

Antonino hesitou, mas por ultimo disse:

—Porque não hei-de confessar-te tudo? É verdade, sim, estou desgostoso! Sabes o que me incommoda? É a idéa de que devemos a Lauretto Mina o obsequio de fingir que te não conhece, de não se indicar como teu antigo companheiro no theatro, e, principalmente,{222}a certeza de que elle, como dantes, cantará ao teu lado, diante de numeroso publico. Se tivesse supposto que esse insolente cantaria no concerto, affianço que não consentiria que tu cantasses tambem.

—Lembra-te de que, se vou cantar, é exclusivamente para te comprazer e a teu pae. De resto, é tempo ainda. Queres que não cante? Affianço-te que essa tua resolução não me entristecerá, pelo contrario, porque talvez assim tu fiques completamente socegado.

—Sim, replicou Antonino. Se não cantares socegarei, porque desapparecerá a inexplicavel apprehensão que me assaltou, e de que só por essa fórma conseguirei libertar-me.

—Abraça-me e socega. Não cantarei ámanhã, e ficarei tão satisfeita como tu.

Quando chegaram a Saint-Malo a cidade estava já envolta em trevas. Prepararam-se rapidamente para o jantar, que era de cerimonia.

Os artistas que cantariam no dia seguinte jantavam em casa do barão de Pontual.

O conde de Bizeux tinha á sua meza, além do arcebispo de Rennes, todas as pessoas d'importancia que tinham chegado de varios pontos da Bretanha para assistir ao concerto, que em toda a provincia despertára o maior enthusiasmo.{223}

Findo o jantar, Antonino e Laura chamaram o conde de parte.

O visconde explicou ao pae a razão porque desejava que o nome de sua mulher fosse riscado do programma do espectaculo.

Mas o conde declarou:

—É completamente impossivel! É tarde para isso!

E depois, um pouco exaltado por semelhante resolução, deu a sua opinião sobre o caso.

Não comprehendia os escrupulos do filho.

Vira e fallára com Lauretto Mina.

O tenor parecera-lhe um homem delicadissimo.

Era para agradecer-lhe que não tivesse feito a mais ligeira allusão á sua antiga collega, a Linda, e estava certo que o tenor se portaria com a viscondessa de Bizeux com todas as attenções e respeitos.

O arcebispo de Rennes dissera a toda a gente que a admiravel voz que iam ouvir não a possuiam muitas cantoras de profissão, que o talento de Laura era inegualavel, despertando assim a geral curiosidade. Se, depois disto, fossem riscar do programma o nome de Laura era collocar pessimamente o conde que, como vice-presidente da commissão promotora do espectaculo, como que offenderia as numerosas pessoas que tinham ido a Saint-Malo para ouvir a viscondessa.{224}

Ora Antonino de certo não quereria que o pae fizesse má figura.

Ante estas razões apresentadas pelo conde, era impossivel a insistencia.

Portanto Antonino disse:

—Pois bem, Laura cantará!

Antonino, ainda que excessivamente fatigado, teve, n'essa noite, um somno febril, cortado de sonhos sinistros.

Laura não poude conciliar o somno, tão profunda sensação lhe tinham causado as scenas d'aquelle dia.

De manhã teve nova emoção.

Ao ler o programma completo do concerto, encontrou inesperadamente, o nome de Remissy.

O que significava aquelle caso?

Porque não a tinham prevenido?

Estaria Remissy em Saint-Malo?

Na vespera não o vira e nada lhe constára!{225}

Uma carta de Lauretto Mina respondeu a todas as perguntas que a viscondessa a si propria fez.

O tenor dizia o seguinte:

Senhora viscondessa

Não tive tempo de a prevenir hontem de que o nosso amigo Remissy tomava parte no concerto d'hoje. Não sei se ficará satisfeita ou contrariada com esta noticia. Se ha falta, confesso-me unicamente culpado d'ella. Fui eu quem, satisfeitissimo por encontral-a, participei o caso a Remissy, contratado em Vichy por uma quinzena, accrescentando se, elle tambem não queria vir commigo a Saint-Malo, tornar a vel-a commigo, e juntar, mais uma vez, n'este concerto de beneficencia, o nome d'elle, como o meu, ao nome da sr.ª viscondessa.

Remissy respondeu-me:

«Ver e ouvir mais uma vez a Linda,poi morir. Sim, sim, irei, mas não espere por mim para partir. Conhece a rapidez dos meus habitos ambulantes. Informei-me na estação do caminho de ferro, e soube que ha um comboio que chega a Saint-Malo ás sete e meia da noite. Ver-me-ha entrar na sala do concerto, de casaca e gravata branca, ás nove horas precisas da noite em que elle se efectua. Á cautella, peço-lhe que faça com que o meu nome feche o programma.{226}AMarselhezaestá interdiria pela censura imperial, e inquietaria os honrados legitimistas locaes. Executarei, pois, aMarselhezahungara, o hymno de Rakoçki.»

Previno-a d'este caso, sr.ª viscondessa, mas peço-lhe que não se inquiete. Hontem, depois de ter tido a honra de a ver, não pude escrever ou telegraphar a Remissy, nem mesmo sabia para onde dirigir-lhe carta ou telegramma. Esperal-o-hei á chegada e instruil-o-hei de fórma que elle saiba que é compromettedora para a sr.ª viscondessa a mais ligeira indiscrição. Remissy é, como eu, excessivamente dedicado á sr.ª viscondessa, e por isso estou certo que elle annuirá ao meu pedido, e procederá de fórma que não a comprometta.

Tenho a honra de me assignar, sr.ª viscondessa,

Seu humilde criado.

«Lauretto Mina.»

Esta carta fôra escripta pelo tenor calculadamente, para que podesse ser lida pelo visconde.

Laura mostrou-a effectivamente a Antonino.

A leitura da missiva augmentou a inquietação do visconde.

—Um risco mais! disse elle.

E depois de pensar, por instantes, accrescentou:{227}

—Afinal a quantidade pouco importa.

Quem não estava inquieto nem triste era o conde de Bizeux.

Annunciou triumphantemente, ao almoço, que o espectaculo seria magnifico.

A casa fôra completamente passada.

Renderia mais de cincoenta mil francos.

Subtrahidas as despezas ficaria, com certeza, livre, mais do que a quantia necessaria para concluir o hospicio para os marinheiros.

O conde agradeceu effusivamente a Laura o ter consentido em cantar, fazendo-lhe assim a vontade.

Estephania, é claro, não partilhava do enthusiasmo do pae.

—Confesso, opinara ella, que não approvo essas exhibições n'uma senhora nobre e titular, isso só se admitte nas mulheres que fazem vida pelo theatro.

O conde, porém, no cumulo da satisfação, mofava da filha e dosprejuizos gothicosque ella tinha.

Ao meio dia Laura ensaiou-se com a orchestra, rapidamente, como quem está segura do que executa.

Na vespera fizera substituir no programma a ariaO Rei dos Alamospor um outro trecho de Schubert,Margarida, que exigia mais sentimento, mas que necessitava de menos voz, e que por isso era mais conveniente que a dama d'alta sociedade o executasse.{228}

Era indispensavel não desprezar a mais insignificante circumstancia para que, nem por um momento, os espectadores se esquecessem que quem cantava era a viscondessa de Bizeux.

Pelas oito horas da noite, nas socegadas ruas de Saint-Malo havia um desusado rodar de carruagens.

Apesar da noite ser de luar, o caes fôra illuminado a gaz até á porta do Casino, onde devia realisar-se o espectaculo, logo que anoitecera.

Um pouco antes das nove horas, Laura entrou no salão do Casino pelo braço do conde de Bizeux.

A entrada da viscondessa produziu sensação.

Estava adoravelmente formosa.

Um magnifico colar de saphyras e diamantes fazia-lhe sobresahir a rosada epiderme do collo.

Nos braços, d'uma belleza esculptural, trazia pulseiras semelhantes ao collar.

O louro veneziano dos seus sedosos cabellos sustentava uma borboleta, collocada ao alto, cujo corpo era formado por uma enorme saphira, e cujas azas, salpicadas de diamantes, scintillavam com extraordinario brilho.

Laços de finissima renda, fixos por colchetes de saphyra, alteavam-lhe os microscopicos sapatos de velludo azul.

O visconde de Bizeux seguia o pae e a esposa,{229}dando o braço á irmã, que vestia umatoilettesimples, de seda preta, sem enfeites.

Logo que o conde de Bizeux se sentou, foram-lhe entregar um telegramma.

Participavam ao conde que o comboio descarrillára a dois kilometros da estação de La Fresnays.

Não havia desastres pessoaes a lamentar, mas o comboio, forçado a demorar-se por aquella circumstancia, não poderia a chegar a Saint-Malo antes da meia-noite.

Não podiam, pois, contar com Remissy.

A noticia alegrou Antonino e Laura.

O salão do Casino estava repleto, brilhante detoilettesprimorosas e caras, e animado pelas meias conversações dos espectadores satisfeitos.

Logo que o concerto começou, fez-se o mais completo silencio.

O espectaculo constava de duas partes.

A primeira abriu pelos córos populares bretões, cantados por homens e mulheres do povo.

Os espectadores, bretões na quasi totalidade, applaudiram com enthusiasmo.

A baroneza de Pontual e Lauretto Mina, obtiveram successo naAve Mariade Gounod, e n'um outro trecho que cantaram juntos.

Depois do terceiro numero do programma, executado pelo baritono, Laura cantou a ariaFidelio.{230}

O desusado sentimento e a adoravel simplicidade com que ella interpretou o trecho musical, produziu em todos os espectadores um enthusiasmo indiscriptivel.

O concerto foi interrompido pelas palmas, bravos e repetidas chamadas á viscondessa.

A esposa dedicada executára a aria, imprimindo-lhe o cunho superior d'uma alma d'elite.

Por isso os espectadores se sentiram como que chocados por invisivel pilha.

Antonino, que comprehendera quanto amor significava a execução da aria, a custo retinha as lagrimas.

Nobillet terminou a primeira parte do concerto, tocando uma rapsodia sobremotivosda Bretanha e da Vandêa, que foi coroada de palmas.

O penultimo numero da segunda parte, tão interessante como a primeira, era a marcha hungara executada pelo violinista Remissy.

Quando se chegou a essa altura do programma, o conde de Bizeux levantou-se para prevenir os espectadores de que se dera o descarrillamento, e que, por isso, Remissy não estava presente.

O conde começou dizendo:

—Um descarrillamento entre as estações de...

Mas foi interrompido pelo proprio Remissy em pessoa, que, de violino debaixo do braço, avançou lentamente, e disse:{231}

—O comboio descarrillou, mas por felicidade não se voltou a carruagem em que segui desde a estação de La Fresnays, e portanto eis-me aqui, á hora marcada, ao seu dispor, minhas senhoras e meus senhores.

As palavras de Remissy foram recebidas com uma salva de palmas.

Duas ou tres pessoas que chegavam com o violinista, contaram o que se passára.

Em seguida ao descarrillamento, Remissy, com o violino a tiracollo e o sacco de viagem na mão, mettera-se a caminho para La Fresnays, tranquillamente.

Chegado que foi, alugou uma carruagem, e uma hora depois chegava a Saint-Malo, e entrava no salão do concerto, correcto, impeccavel, de casaca e gravata branca, como se não chegasse d'uma viagem de trezentas leguas.

Logo que o silencio se restabeleceu no salão, Remissy começou a tocar o hymno de Rakoçki.

Como sempre, foi extraordinario d'execução.

As primeiras notas foram ligeiras, simples, mas othemado hymno foi exposto com firmeza e arte.

Depois, foi-se animando pouco a pouco, levado por subito arrebatamento, como se se sentisse no campo da batalha, ao lado do general Kossuth.

Dir-se-ia que d'elle se apossava um enthusiasmo frenetico, tyrannico.{232}

Em seguida o arco tocava ao de leve nas cordas do violino, e percebia-se o hymno como que tocado ao longe, mysteriosamente.

Era a isso que elle chamavatocar nas estrellas.

Mas, singular condão do genio, as notas, apesar de fracas e quasi indistinctas, tinham a mesma expressão e o mesmo encanto.


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