XXDiscordia conjugal

Parecia ouvir-se e ver-se, a centenas de leguas de distancia, cargas furiosas de cavallaria, e o embate titanico de dois corpos d'exercito.Remissy, foi escutado com o mais profundo silencio.Quando terminou, romperam delirantemente os applausos, e todos os espectadores gritaram:—Bis!... bis!...Remissy, depois de agradecer a ovação, disse:—Desculpem-me, mas não repito nunca os trechos que executo. Tocarei qualquer outra coisa. D'esta vez será alegre a musica.E começou a executar as celebres variações, que compozera sobre oCarnaval de Veneza.Foi com endiabrado estro e rara exuberancia de malicia e de jovialidade, que Remissy resuscitou a eterna e pittoresca festa da praça de S. Marcos.Sentia-se mover e reviver todos esses alegres e encantadores personagens dos companheiros daCommedia dell'arte.{233}Por vezes, atravez de toda a alegria, resaltando do trecho musical, passava uma nota melancholica e triste como uma saudade ou como um suspiro.As palmas retiniram novamente.Laura applaudiu com alegria o grande artista, que fôra amigo de seu pae.Remissy, habituado a estes triumphos, sorria com bondade e agradecia modestamente.O ultimo numero do programma, era aMargarida, de Schubert, cantado pela viscondessa de Bizeux.Laura, ao caminhar para o logar onde devia fazer-se ouvir, encontrou Remissy, que se retirava.O violinista, ao vel-a, disse-lhe com arrebatamento:—Ah! encontro-a emfim! não a via...A viscondessa não o deixou terminar.Apertou-lhe expressivamente a mão, e continuou andando.Remissy procurou na sala uma cadeira vazia, d'onde podesse ouvir a Linda.A baroneza de Pontual, que percebeu, levantou-se e indicou-lhe com a mão a cadeira que Laura acabava de deixar.O violinista approximou-se.A baroneza disse-lhe então:—Quererá o sr. Remissy fazer-me a honra de se sentar a meu lado?{234}Elle inclinou-se diante d'aquella mulher, e sentou-se sem ceremonia, não se dando mesmo ao trabalho de responder.Lauretto Mina não estava longe.Podia facilmente approximar-se de Remissy e avisal-o, como promettera, de que a Linda desejava guardar o incognito.Não se moveu, porém.—O acaso é contra a Linda? Tanto peor! pensou o tenor. Nada terão a censurar-me por faltar ao compromisso tomado.A viscondessa de Bizeux, saudada pelos applausos dos espectadores, cumprimentou graciosamente antes de começar.Remissy, como fallando comsigo mesmo, disse a meia voz, com grande espanto da baroneza:—Que felicidade! Não a ouvia ha tanto tempo!Laura pronunciou as primeiras phrases da aria com admiravel pureza e nitida pronuncia, tão desprezadas actualmente, que é raro perceber-se uma só das palavras ditas pelas cantoras.—Ah! Tem a voz mais volumosa! murmurou Remissy em extasi. Nunca qualquer outra voz me emocionou como a da Linda!Laura chegou ao crescendo de melodia, para o qual reservava toda a potencia da sua maravilhosa{235}voz, enchendo, por assim dizer, o salão com a mais bella e profunda sonoridade.Tres salvas de palmas, successivas, acclamaram a cantora.Os bravos resoavam.Remissy, enthusiasmado com o successo de Laura, gritava como possesso!—Bravo, diva!... bravo, Linda!...Felizmente, a voz do violinista perdeu-se entre o ruido do salão.Mas a baroneza ouvira perfeitamente o que dissera Remissy.Augmentava a sua surpreza.—Que quererá elle dizer? perguntou ella a si propria. Porque comparará a voz da celebre Linda á voz da viscondessa?Laura proseguia.Os impulsos da paixão, e os gritos de dôr do final da aria, exprimiu-os e pronunciou-os ella de uma fórma surprehendente.A sua voz foi simultaneamente tão penetrante e suave, o som tão sentido, a emoção que experimentava manifestava-se-lhe no rosto formoso com tão adoravel expressão, que o auditorio estava como que galvanisado.Os homens tinham-se levantado das cadeiras como impellidos por mola occulta.{236}As damas choravam.Logo que Laura terminou, houve uma verdadeira explosão d'applausos, de bravos, de gritos d'admiração unanime.Remissy estava fóra de si.Levantava-se, sentava-se, gritava, chorava.A baroneza a custo lhe percebia algumas palavras.—Que artista!... dizia elle. Não tem egual!... É extraordinarissima!...Quando o ruido dos applausos diminuiu um pouco, Remissy estava como doido.Dir-se-ia que elle proprio não fôra alvo, pouco antes, de manifestação quasi semelhante.É que os applausos dispensados ao seu idolo produziam n'elle centuplicado effeito.Com o rosto innundado de lagrimas, dirigiu-se ao estrado sobre o qual Laura cantára.A viscondessa retirava-se, agradecendo com venias a ovação que lhe era feita.Remissy approximou-se d'ella, tomou-lhe as mãos e disse bem alto:—Ah! minha cara diva, tu és sublime!... Não posso conter-me, minha querida Linda!... Se não te beijar, rebento!E envolvendo-a nos braços, beijou-a com sofreguidão nas duas faces.{237}Laura, deixando-se beijar, sorriu com tristeza, e disse baixo ao violinista:—Não póde calcular o mal que acaba de me fazer, meu caro Remissy!—Hein! o quê!... Fiz-te mal, eu?... murmurou o violinista estupefacto.E lançou em volta um olhar admirado.Era curiosa a mudança operada no auditorio.Os bravos interrompidos foram substituidos por murmurios hostis.Evidentemente, os dois grandes artistas, que pouco antes tinham com o seu superior talento emocionado todos os espectadores, incommodavam-os agora.Aquella scena final, completamente imprevista, chocava o nobre auditorio.E com gestos largos, todos, mais ou menos, pronunciavam phrases indignadas.—O que quer isto dizer? O que significa esta extraordinaria familiaridade entre o violinista e a viscondessa?... Elle tratou-a por tu!.. Beijou-a em publico!...Shocking!...É escandaloso!... É ridiculo!...Por entre o ruido ouviu-se repentinamente a voz da baroneza de Pontual, que gritava, com irreprimivel satisfação:—A Linda! É a Linda! Tudo se explica! A viscondessa de Bizeux é a Linda!{238}Ao ouvir aquellas palavras o arcebispo de Rennes sahiu precipitadamente do salão, pelo braço do vigario geral, murmurando a meia voz:—Vade retro, Satanaz!Estephania, inclinando-se para o conde, disse-lhe ironicamente:—O que pensa agora dos meus prejuizos gothicos, meu pae?Entretanto alguns jornalistas e poucos espectadores applaudiam ainda Laura.O violinista, comprehendendo, vendo tudo, como ao brilho d'um relampago, indignou-se por sua vez, e gritou, para ser ouvido por todos:—Mas o que significa este espanto? Os nobres, n'esta cidade, serão por acaso burguezes?... Trato-a por tu, é verdade... Mas o que admira, se a Linda é o meu idolo!... Beijo-a?... D'accordo, mas é aMargaridaque beijo, selvagens!... Por ventura ignorarão os srs. barões, condes e marquezes presentes que a verdadeira divisa da nobreza éHonny soit qui mal y pense?Antonino approximára-se de sua mulher.Deitou-lhe sobre os hombros a capa de baile, e dando-lhe o braço disse-lhe:—Anda, Laura, vem.Atravessou altivamente o salão, com a mulher pelo braço.{239}Empallidecera um pouco, mas conservava levantada a cabeça, e frio e sereno o olhar.Os espectadores abriram alas.Á medida que avançavam, deixavam de se ouvir as phrases hostis.Quasi á sahida do salão os applausos resoaram de novo, tão entusiasticos como no fim da aria.Remissy foi ter com Lauretto Mina, a quem disse:—Não me preveniu!... Dando a saber que a viscondessa era a nossa querida Linda, pratiquei uma grande tolice!Mas depois d'um momento de silencio ajuntou:—Comtudo parece-me que depois reparei a asneira feita.O tenor respondeu apenas, sarcasticamente:—Parece-lhe?XXDiscordia conjugalLaura e Antonino subiram para a carruagem, que os devia conduzir a casa.Iam tristes.{240}Olhavam-se silenciosamente, encostados aos cantos do trem.O visconde pensava com amargura no escandalo que acabava de dar-se, que tão fóra de proposito rebentára.Acceitára antecipadamente, com todo o desassombro, o effeito que devia seguir-se, cedo ou tarde, á revelação do nome e do passado da esposa, mas jámais calculara que essa revelação se faria em circumstancias tão estrondosas e desagradaveis.Apesar do espirito independente que possuia, Antonino conservava comtudo certos prejuizos de raça, de educação, impossiveis de fazer desapparecer por completo.Ao atravessar na carruagem os caes desertos calculava com tristeza o que se passaria no dia seguinte.Parecia-lhe estar vendo já o aspecto severo de sua irmã, e até de seu pae, a frieza dos seus amigos, e a circumstancia, mais dolorosa ainda, de sua esposa não continuar a ser recebida pela primeira sociedade de Saint-Malo.Laura, pelo seu lado, magoada pelo silencio do marido, dizia comsigo que nada tinha de que censurar-se.Não só não pedira para cantar no concerto, mas até se recusara a tomar parte n'elle, apontando as inconvenientes que d'ahi podiam advir.{241}Consentira em cantar em publico unicamente para annuir ás reiteradas instancias do marido e do sogro.Fôra culpa sua que aquelle doido Remissy, com o seu exaltado enthusiasmo, transformasse em escandalo o que não devia passar de triumpho?Chegaram a casa sem trocar uma só palavra.Operava-se, de subito, uma verdadeira separação entre aquelles dois seres, que, entretanto, por inexplicavel aberração, continuavam amando-se.As desigualdades d'educação, e as educações diversas, produzem muitas vezes affeições que a todas as contrariedades e desgostos resistem.Antonino acompanhou a mulher até ao quarto, e em seguida caminhou para a porta, retirando-se.—Deixas-me assim? perguntou Laura com voz triste.Elle indicou-lhe, com um gesto, a creada, que entrava para despir Laura, e respondeu:—Voltarei d'aqui a pouco.A viscondessa impoz silencio ás curiosas perguntas que Jacintha lhe fazia sobre o concerto, e disse á creada que se retirasse logo que lhe despiu o vestido que levara para o concerto, substituindo-o por um outro, de trazer por casa.Depois foi, apesar da humidade da noite, encostrar-se ao parapeito da janella aberta.{242}Ao longe, o mar, tão tempestuoso na vespera, estava sereno como um lago.Ouvia-se o regular sussurro da vagas, e o ruido monotono das ondas desfazendo-se na areia da praia.Nas aguas cahiam com lentidão os remos d'alguns escaleres da alfandega.No ceu azul, semeado d'estrellas, uma comprida nuvem clara, como longa facha branca, listava o espaço, por baixo da lua impassivel.Um sino badalou triste, lugubremente.Aquelle som fez-lhe mal.Parecia-lhe que dobravam a finados, pela morte de alguem que lhe era caro.Seria esse morto o seu amor?Abriu-se a porta do quarto.Laura voltou-se.Era Antonino que entrava.Ao chegar junto da esposa, disse-lhe com voz grave e firme.—Vim, porque prometti voltar. Mas o que venho fazer aqui? O que poderemos nós dizer sobre a deploravel scena que ha pouco se passou?—Parece-me, respondeu Laura, que devias consolar-me pelo desgosto que soffri. Como conscienciosamente sabes, eu não tive a menor culpa do que succedeu.Antonino replicou com amargura:{243}—E eu muito menos, concorda. Tens, minha querida, amigos bem perigosos e bem ridiculos!—Não é d'hoje que os conheces. Apresentei-te Remissy nos primeiros dias das nossas relações. Foi a fatalidade que dispoz as coisas. De resto, se era improvavel, não era impossivel que o facto se desse. Ter-se-hia evitado se, como eu desejava, não me obrigassem a cantar no concerto. Pois se eu não tivesse como que uma especie de pressentimento de que se passaria o quer que fosse de desagradavel, insistiria por ventura para não ser incluida no programma? Foi teu pae, e tu proprio, que não annuiram aos meus pedidos. Cedi, porque não podia deixar de o fazer. O enthusiasmo de Remissy desmascarou-me. Se eu tivesse cantado mal não teriamos agora que lamentar-nos. Censurar-me-has, por ventura, por ter cantado bem, fazendo com que me applaudissem? Não devo ser accusada d'esse crime, se o foi, porque não sou responsavel por elle. Lavo d'ahi as minhas mãos.—A verdade é que não és tu quem mais soffre com tudo isto, respondeu Antonino meio irritado. Que te importa que se saiba que és a Linda? É um nome que tornaste celebre, e que estimas,—sem duvida muito mais,—do que aquelle que actualmente usas. Mas para mim e para a minha familia, esse nome, cahindo bruscamente, sem preparações, sobre o{244}publico, vae servir de maná á malignidade de toda a gente, que nos escarnecerá e diffamará. Seremos repellidos da sociedade que até aqui frequentavamos, passaremos por pessoas que desprezaram a opinião publica, enganando os amigos e os parentes.—N'uma palavra: deshonrei a tua familia, não é verdade? interrompeu Laura.—Não digo tanto, mas...—Na realidade admiro-te! disse a viscondessa irritando-se tambem. Para que quizeste introduzir-me n'essa sociedade que não era a minha, n'essa sociedade em que entrei como que de surpreza, e que, segundo todas as probabilidades, me fechará ámanhã as suas portas? E eu por que accedi aos teus desejos? Sabes porque? Porque te amava! Censurar-me-has tambem por isso? Tens pouca memoria, Antonino; Quem te ouvisse, pensaria que, casando commigo, tu me levantaste da lama, em que eu vivia. Sabes bem que não é assim, sabes bem que eu, casando comtigo, pratiquei um acto d'abnegação, immolando-te e ao amor que por ti sentia, o que até então fôra a minha alegria e a minha vida, a arte, o renome, a gloria! E esse sacrificio do primeiro dia, dura ainda, perpetua-se, persisto n'elle e renovo-o incessantemente. E jámais te dei a perceber quanto elle por vezes me tem sido pesado e cruel, sobretudo depois do nosso regresso a França, depois que vivo n'esta atmosphera{245}de provincia em que respiro a custo, e que sinto diminuir em mim os dotes artisticos que possuia. Pois em vez de tentares fazer-me esquecer esse passado que me é querido, vens, pelas tuas palavras, como que transformal-o n'um crime! É muito! Revolto-me contra o teu procedimento! E visto que me forças, recordar-te-hei que me prometteste solemnemente deixar-me voltar para o theatro, logo que assim o desejasse, voltar para esse passado que te envergonha, mas que é a minha maior gloria!—Prometti-te tambem, Laura, que o meu amor te recompensaria do sacrificio feito. Deixei de amar-te por ventura? Não te amo agora como te amava d'antes?—Não, não me amas! Se me amasses como d'antes, não te porias ao lado da sociedade contra mim, collocar-te-ias a meu lado contra a sociedade!—A sociedade! repetiu Antonino inquieto. Reconciliar-nos-hemos com ella..—Muito bem! Empregarás todas as diligencias para que me tolerem, não é verdade? Não, não, obrigada. Despreso esse obsequio, que se assemelha a dó. Deixo-te n'ella; fica, fica n'essa sociedade em que eu era uma estranha, em que eu não passava de pária!Laura fallava com vehemencia, exaltada pela colera e pelo desgosto.{246}Antonino respondeu passados alguns instantes de silencio:—Estás como eu, Laura, sob a impressão do incidente que ambos lamentamos. Como ha pouco te preveni, nada podemos dizer agora sobre esse assumpto, que não augmente o mal estar que sentimos. Vou deixar-te. Ámanhã estarás mais socegada. Até ámanhã...Pegou-lhe na mão, que ella lhe abandonou, inerte e fria, e repetiu:—Até ámanhã.Laura respondeu a meia voz:—Pois sim... deixa-me. Até ámanhã.Antonino olhou-a, ancioso.Depois deu tres passos para a porta, e parou, como sentindo desejo de voltar.Por fim sahiu do quarto, fazendo um gesto de desanimado.Logo que o visconde fechou a porta e ella sentiu apenas o ruido de passos, que se affastavam, Laura, que até então se reprimira, rompeu em soluços.Chorou muito tempo.As lagrimas faziam-lhe diminuir a angustia que sentia.Passado algum tempo, um pouco socegada, ora passeiando pelo quarto, ora encostada a uma mesa, ella reflectiu na sua situação.{247}Tomado um partido, abriu uma porta que dava para o escada de serviço, e, pegando n'uma vela, subiu ao quarto de Jacintha.O quarto estava vasio!Jacintha nem mesmo abrira a roupa da cama.Laura, ante este contratempo, ficou indecisa por momentos.Depois, fazendo um gesto de resolução, desceu ao seu quarto novamente.Davam quatro horas n'um relogio da casa.Vestiu apressadamente umatoilettede viagem.Logo que terminou, sentou-se á mesa, e escreveu a seguinte carta, precipitadamente:AntoninoReclamo de ti a palavra dada.Volto para o theatro.Parto sem te ver.Temi a tua resistencia e a minha fraqueza.Evito assim, a ambos nós o desgosto da despedida.A vida, no seio d'uma familia que me repelle e d'uma sociedade que me despresa, era para mim impossivel.Aqui te deixo as ultimas palavras que o meu coração te envia:Amo-te, Antonino, amo-te muito! Não posso continuar{248}vivendo comtigo uma vida que me incommodaria, mas espero e peço-te que me dês a felicidade de viver commigo a minha vida passada.Sou e serei sempre tuaLaura.XXIA fugaLaura perguntou a si mesma se fazia bem abandonando á sua sorte essa louca inconsciente, Jacintha.Pensou:—Devo deixar aqui toda a especie d'affeição?Lembrou-se da dedicação cega que Jacintha tinha por ella, dedicação que a levaria a lançar-se ao mar, quando soubesse que Laura a tinha deixado.Depois de reflectir, resolveu-se.Escreveu em meia folha de papel algumas palavras a Jacintha, e foi ao quarto da creada collocar o papel sobre uma mesa.Recommendava-lhe que de manhã tomasse, o mais{249}occultamente que lhe fosse possivel, o comboio de Paris, que partia ás oito e meia.Logo que chegasse á capital, procural-a-hia no Grande Hotel, designando-a pormadameLinda.A Marieta, a outra creada, recommendava Laura que lhe enviasse, para o Grande Hotel tambem, os vestidos e de mais roupas do seu uso.Ao escrever estas recommendações, Laura pensava:—Por esta fórma saberá Antonino onde encontrar-me.Isto feito, metteu n'uma pequena mala o dinheiro que possuia, joias, cartas, alguns objectos insignificantes,—pura recordação,—e outros essenciaes.Depois olhou tristemente, correndo-lhe as lagrimas pelas faces, para aquelle quarto, onde, apesar de tudo, passara horas tão felizes.Foi appoiar a fronte, que abrasava, ao vidro frio da janella.Uma claridade, baça ainda, envolvia a cidade e estendia-se sobre as aguas da bahia.As ondas tomavam reflexos cinzentos.Os pharoes distantes picavam de pontos avermelhados a meia obscuridade, e desappareciam pouco a pouco na claridade livida, em que as ultimas estrellas se perdiam.Os pombos voavam dos beiraes para as ruas.{250}No azul pardacento do ceu destacavam-se as velas dos barcos, que manchavam a côr d'ardosia do mar.Laura saccudiu bruscamente a cabeça.Parecia querer, com aquelle movimento, afugentar os pensamentos que a torturavam.Retirou de sobre a mesa tudo o que n'ella havia, para que a sua carta para Antonino ficasse bem em evidencia.Poz um chapeu de côr escura, um veu espesso, e embrulhou-se n'uma capa cinzenta.A escada de serviço, que subia até ao quarto de Jacintha, descia para a rua, do lado da casa opposto ao mar.A porta estava sempre fechada por um ferrolho interior.Laura abriu a porta do seu quarto com toda a precaução, caminhando na ponta dos pés, para abafar o ruido dos passos, porque o quarto d'Antonino, separado do d'ella apenas por um corredor, tinha tambem uma porta para aquella escada.No patamar parou por um minuto.O coração batia-lhe apressadamente. Escutou.Antonino não estava deitado.Laura ouvia o ruido dos passos d'elle.Passeiava vagarosamente.A Linda esteve quasi a entrar no quarto do marido, lançando-se-lhe nos braços.{251}Resistiu á tentação.Enviou-lhe apenas, com as pontas dos dedos, um beijo silencioso, e principiou a descer lentamente, sem fazer o menor ruido.Um dos degraus gemeu sob o peso.Teve medo.Com um movimento ligeiro saltou os tres ultimos degraus, cahindo sobre o tapete que havia ao fim da escada.Levantou-se, abriu cautellosamente o ferrolho, descerrou a porta e sahiu para a rua.O ar frio da madrugada fez-lhe bem.Dirigiu-se para o caes, atravessando as ruas estreitas e tortuosas da velha cidade.Um relogio dava cinco horas n'uma torre proxima.Os carpinteiros, os pintores e os calafates, caminhavam em grupos, dirigindo-se ao trabalho.As mulheres das hortas proximas, sentadas sobre os burros carregados de legumes e hortaliças, chegavam do campo, em cavalgadas alegres, rindo alto, e dirigindo, umas ás outras, os velhos motejos gaulezes, para attrahirem a attenção dos homens que encontravam.Laura percebeu que todas aquellas mulheres a olhavam curiosamente, e ouviu, ao passar, os seus commentarios licenciosos.Quando chegou ágareera dia.{252}O comboio expresso da manhã partia ás cinco e meia.Tomou um compartimento completo, e foi sentar-se para a sala d'espera, pensativamente.Estava como que alheiada do que se passava em volta d'ella, quando o silvo da locomotiva a chamou á realidade.Faltavam apenas cinco minutos para a partida do comboio. Entrou apressadamente nagare.De repente estremeceu.A primeira pessoa que viu foi Lauretto Mina, fumando no seu charuto.Ao vel-a, o tenor dirigiu-se a Laura e disse-lhe, um pouco admirado:—Parte para Paris, Linda?—Parto, respondeu ella, continuando a caminhar para a sua carruagem.Mas logo em seguida perguntou:—Remissy não parte agora?—Não, respondeu o tenor caminhando ao lado da sua interlocutora. Está muito fatigado. Deve seguir no comboio do meio dia. Eu parto, porque necessito fallar esta noite com o director da Opera, sem falta. Quer que lhe falle de si, ou, como não podia dizer em Saint-Malo que a senhora era a Linda, ser-me-ha interdicto dizer em Paris que a Linda é a viscondessa de Bizeux?{253}—Proceda como entender...Chegou ao compartimento que tomára.Ao abrir a portinhola, o tenor disse-lhe:—Mas diga-me,cara mia...—Senhor, respondeu Laura com dignidade, já nos cumprimentámos. Como vê, estou só e o senhor é um homem sufficientemente bem educado para não me acompanhar por mais tempo.E subiu lestamente para a carruagem.Lauretto cumprimentou-a, mordendo os labios.Deitou fóra o charuto e tomou logar n'outra carruagem, murmurando por entre dentes:—Tu me pagarás, vibora!Quando o comboio estava proximo da estação de Dol, o tenor escreveu algumas palavras a lapis n'uma folha da carteira, rasgou essa folha, e, logo que o comboio parou na estação, apeiou-se, chamou um empregado a quem entregou o papel e uma moeda de cinco francos, dizendo apenas:—Para o telegrapho.O telegramma era concebido da seguinte fórma:Visconde de Bizeux.—Saint-Malo.Vi no expresso de Paris a Linda e Lauretto Mina.Um amigo.Antonino, estendido sobre o divan do quarto, dormia um somno pesado, respirando a custo.{254}Um pouco antes das nove horas, o criado entrou, apesar do visconde não ter chamado.Antonino acordou ao ruido feito pela porta ao abrir-se. O criado disse:—Perdão; o sr. visconde não chamou, mas como este telegramma chegou ha mais de uma hora, pareceu-me conveniente trazer-lh'o.O marido de Laura esfregou os olhos injectados de sangue, e abriu o telegramma.Leu e soltou um grito estridente.Depois, cambaleando como um ebrio, abriu a porta que dava para o corredor de communicação que percorreu, entrando no quarto de sua mulher.O leito estava intacto.Sobre a mesa viu a carta que Laura deixára.Pegou-lhe, quiz abril-a, mas o papel cahiu-lhe das mãos tremulas.Agitou os braços no espaço, e cahiu como uma massa inerte, fulminado por uma congestão cerebral.XXIIUma representação dos «Huguenottes»O cartaz da Opera annunciava para aquella noite osHuguenottes, cantando a Linda a parte de Valentina.{255}Lauretto Mina desempenhava o papel de Raul, em substituição do primeiro tenor, que adoecera.Pelas seis horas e meia da tarde, Antonino de Bizeux, um pouco pallido e magro, apoiando-se á bengala, entrava n'uma das agencias theatraes então recentemente abertas nosboulevards, e comprava umfauteuild'orchestra, que pagou por trinta francos, ou fosse o dobro do preço da casa.Tinham-se passado tres mezes menos alguns dias, desde que Laura abandonara a casa do caes de Saint-Malo, e durante todo esse tempo, a Linda só tivera noticias indirectas e incertas de seu marido.Cinco dias depois de chegar a Paris recebera,—enviados por Marieta Dauvin,—seis grandes volumes contendo, não só os vestidos e demais roupa do seu uso, como tambem os moveis que guarneciam o seu quarto, e que provinham, quasi todos, da sua antiga casa da rua de Bolonha.Nem uma carta, nem uma só palavra, acompanhava a remessa. Laura sentiu profunda anciedade.O que significava aquelle silencio?N'um primeiro movimento de inergia resolvera quebrar a cadeia que a prendia e que achava pesada, e fizera-o immediatamente, sem hesitar, sem reflectir.Agora estava livre.Todavia, essa liberdade, inquietava-a e consternava-a.{256}Em Saint-Malo tinha saudades da sua querida arte, em Paris recordava-se, saudosa, do seu amor.O director da Opera, prevenido por Lauretto da volta da Linda, pedira-lhe uma entrevista.Laura respondeu-lhe que esperasse por alguns dias.Addiava, por instincto, a sua conversação com o emprezario, que de certo a queria contractar.Lia todas as manhãs oCorreio de Saint-Malo, que mandava comprar á agencia Havas.Se qualquer facto se passasse em casa do conde de Bizeux,—uma partida, um accidente imprevisto—encontraria a noticia n'aquella folha local.Mas nada se passava, com certeza, porque o nome de Bizeux, que ella procurava todos os dias com o olhar, avidamente, nem uma só vez foi mencionado pelo jornal.A quem devia dirigir-se? A quem escrever?Na Bretanha vivera sempre retirada, pensando apenas em Antonino.Essa circumstancia fez com que não se relacionasse intimamente com pessoa alguma.Ao cabo de dez dias não poude conter-se, e escreveu ao proprio Antonino.Entre outras coisas dizia-lhe o seguinte:«Porque guardas silencio? Não recebeste a carta{257}que te deixei? Não comprehendeste, por ventura, o grito d'amor com que a terminei? Responde, peço-te! Responde, ainda que seja colerica ou desdenhosamente.»Depois supplicava ao marido que só escrevesse uma palavra, uma só, que podesse allivial-a da terrivel angustia em que vivia.Dois dias depois recebeu uma carta com o carimbo do correio de Saint-Malo.Rasgou o sobrescripto e procurou a assignatura.A carta era do conde de Bizeux.Escrevia o pae d'Antonino:Minha senhora:Não é o filho que lhe responde, é o pae, é o chefe da familia que a senhora abandonou tão bruscamente, tão cruelmente, e na qual deixou a desolação e o lucto.Esse chefe de familia não lhe dirigirá, comtudo, a mais leve censura, nem em seu nome, nem em nome do filho.Desejou ser livrepara voltar para o theatro. Satisfez o seu desejo, está livre.Nós desejamos, apenas, ter a liberdade de soffrer em silencio, sem que nos importune quem quer que seja.{258}Só lhe pedimos uma coisa: é que nos deixe esquecer, e esqueça o passado.Augusto, conde de Bizeux.Laura offendeu-se pela frieza e rispidez que d'aquella carta transparecia.Nem Antonino se dera ao incommodo de lhe responder!Era o pae que intimava á fugitiva aquella especie de sentença, com ares de juiz justiceiro!O que houvera no seu procedimento de tão reprehensivel e criminoso que justificasse uma tal attitude?Se ella na realidade fosse uma mulher culpada, se tivesse trahido e deshonrado seu marido, d'accordo que a tratassem por aquella fórma!Teria provocado a colera de toda a familia d'Antonino, e até o despreso geral, se assim fosse.Mas a verdade era que o seu procedimento, uma vez que estava dentro das leis estabelecidas, não podia ser julgado com tanta severidade por seu sogro ou por seu marido.A injustiça, elevada ao excesso d'injuria, revoltou o espirito nobre e altivo de Laura.A sua consciencia e o seu coração diziam-lhe que não merecia ser tratada de semelhante modo.{259}Resolveu, pois, por muito que a penalisasse uma tal abstenção, guardar o mais completo silencio, para que a sua dignidade não soffresse a menor quebra.Foi então, e só então, que marcou o dia para a entrevista que o director da Opera solicitára.O emprezario queria escriptural-a.Laura recusou em absoluto um contracto de longa duração, apezar das magnificas condições que lhe offereciam.Não desejava prender-se por muito tempo, e por isso só acceitou o contracto por um limitado numero de representações.O director da Opera, apesar d'uma escriptura n'aquellas condições ir alterar o seu plano d'exploração theatral, curvou-se á imposição de Laura, e acceitou.A Linda arrendou então, na rua Boudreau, a dois passos da Opera, um rez do chão modesto, que mobilou com simplicidade e bom gosto, aproveitando os moveis que lhe tinham enviado de Saint-Malo.Além de Jacintha, tomou, para a servirem, um creado, homem de cincoenta annos, casado; a mulher do creado, velha tambem, passou a desempenhar as funcções de cosinheira.Tres dias depois de receber a carta do conde estava installada na sua nova casa, satisfeita, na sua dôr e no seu isolamento, de sentir-se, pelo menos, senhora absoluta das suas acções.{260}Ostensivamente parecia alegre, mas intimamente o desgosto minava-a.Não lhe teria produzido tão doloroso effeito a carta do conde, se soubesse em que circumstancias o velho fidalgo a escrevera.Oito dias depois da congestão o ter prostrado, ainda Antonino não percebia o estado em que se achava.A doença aggravara-se dia a dia.Nem um só dos muitos medicos chamados deixou d'opinar que elle estava condemnado.A robustez da sua constituição fazia augmentar a violencia da doençaD'hora para hora, de minuto para minuto, o pobre pae suppunha que ia perder o filho unico, a quem tanto amava.Foi n'este paroxismo de magua paterna que chegou a carta dirigida por Laura a Antonino.O conde, para estar ao facto do que succedera, tinha aberto a carta que a nora deixára em casa, á partida.Abriu, portanto, a que chegou de Paris, pela mesma razão.D'aquellas duas cartas transpirava um affecto immenso.Mas quem garantia ao fidalgo que Laura não mentia?Lera tambem o telegramma de Lauretto Mina, que{261}fôra como que um punhal a enterrar-se no coração d'Antonino.Seu filho acreditára no que dizia o telegramma.Que razão tinha o conde para não acreditar tambem?Mas, culpada ou não, Laura era a causadora unica da morte do seu filho. O conde não era juiz, era pae.Escrevera sem medir o alcance das palavras, respondera o que a sua indignação lhe inspirára.Laura matava-lhe o filho; não podia deixar de detestar, d'amaldiçoar essa mulher.A crise, que para todos era agonia, prolongou-se ainda por mais duas semanas.Durante todo esse tempo Antonino não reconheceu pessoa alguma.O delirio não o abandonára um só instante.Mas a prolongação da doença passou a significar esperança.Ao vigessimo quinto dia os medicos disseram:—É possivel salvar-se.Quinze dias depois accrescentaram, emfim:—Está salvo!Effectivamente Antonino pareceu ter, n'esse dia, alguma consciencia de si mesmo. Apertou ao de leve a mão da irmã, que estava sentada junto ao leito.Depois, olhando em torno ao quarto, murmurou com voz enfraquecida:{262}—Laura?...Felizmente o pensamento era ainda vago e fraco.Em seguida áquelle esforço, Antonino recahiu de novo n'uma somnolencia pesada, que era a sua salvação.A natureza, essa maravilhosa enfermeira, só lhe fez recuperar completamente a razão, quando o doente estava em estado de já poder supportar a verdade.Recordou-se de tudo.Laura, a sua Laura, que nos accessos febris nem um momento deixava de chamar, não estava alli, abandonára-o.Porque?Quando?Ah! sim, recordava-se... fôra uma manhã...Mas ella fugira só?Accudiu-lhe á memoria o fatal telegramma...Mas ao mesmo tempo lembrou-se d'uma carta,—d'uma carta d'ella!—que não tivera tempo d'abrir.Interrogou seu pae.O conde entregou-lhe então as duas cartas de Laura, cuja leitura só podia fazer bem ao doente.E com efeito assim foi.Antonino poude chorar.O correr das lagrimas diminuiu a profundeza do desgosto.—Ah! meu pae! disse elle, Laura continua amando-me.{263}Chama-me, espera-me! Nunca deixára d'amar-me! E ha já dois mezes que ella me espera? Mas como poude Laura estar tanto tempo longe de mim, sabendo-me perigosamente enfermo? Ou ella ignora que eu estou doente? Não lhe deram noticias minhas?O conde teve de confessar-lhe que, n'um instante de desvairamento em que lhe parecia inevitavel a morte do filho, escrevera a Laura aquella carta implacavel que lhe interdizia qualquer pergunta, e lhe assegurava que jámais teria noticias de seu marido.De resto, o conde declarou que n'aquella resposta influira tambem o ter acreditado no que dizia o telegramma desconfiando, por isso, que Laura mentia nas duas cartas. Ao ouvir a explicação do conde, Antonino respondeu:—Não, não!... Foi o telegramma que mentiu! Laura diz a verdade, porque declara continuar amando-me! Ah! meu pae!... não a conhece! Ella possue o mais sincero e leal coração que é possivel imaginar-se! Tenho a certeza que Laura não sente despreso por esse Lauretto Mina, sente tambem horror!O conde de Bizeux, apesar de não estar convencido, não quiz contrariar o filho, temendo que de tal contrariedade resultasse aggravamento da doença.Antonino desejou escrever immediatamente a Laura, perdoando-lhe, chamando-a para junto d'elle sem detença.{264}O medico, porém, impedia-o de realisar a intenção, declarando-lhe que ainda não tinha forças sufficientes para escrever, e que, fazendo-o, arriscava-se a peorar.Como não o deixassem satisfazer aquelle desejo, o visconde, reflectindo, resolveu não escrever a Laura dias depois, quando o medico entendesse que o podia fazer.Logo que estivesse restabelecido partiria para Paris, correria em procura de Laura, fazendo-lhe assim mais surpreza.Por essa occasião os jornaes da capital noticiaram as representações de Linda na Opera.Ao ter conhecimento d'esse facto, Antonino disse ao conde:—Não a incommodemos. Deixemol-a satisfazer o seu desejo, realisar o seu sonho doirado. Voltará depois mais socegada.O conde, depois de ter perdido completamente as esperanças de que os medicos salvassem Antonino, ao ter a certeza de que o filho não morreria, estava louco de satisfação.Cria em tudo que o visconde acreditava, e, como elle, tinha confiança no futuro.De resto, em consciencia, elle censurava-se pela fórma porque procedera com Laura, respondendo desabridamente á carta que ella dirigira a Antonino.{265}Fôra injusto, fôra cruel até, e desejava por isso tornar a vel-a para nobremente lhe pedir perdão.Comtudo, occasiões houve em que se inquietou.Nas noticias dadas pelos jornaes sobre os espectaculos em que Laura tomava parte, viu, por vezes, o nome de Lauretto Mina ao lado do nome da Linda.Entretanto cohibiu-se d'apontar o facto a Antonino.Foi o proprio visconde que um dia lhe fallou nisso.Com essa intuição que é como a segunda vista do amor, tinha a convicção absoluta que esse homem, esse Lauretto insolente, nada era, nada podia ser para Laura.Não lhe restava a maior duvida.Elle, tão concentrado e tão ciumento, como todos os que amam verdadeiramente, sentia que era amado por Laura, que ella não podia amar outro homem.Lembrou-se dos ultimos dias que tinham passado juntos, das ultimas caricias trocadas, d'algumas injustiças que Laura lhe censurára, e percebia, interrogando o seu coração, que ella seria sempre d'elle, só d'elle.E tinha razão, porque não só a Linda não amava o tenor, como até o despresava.Não se limitava a detestal-o, fazia-lh'o sentir.Laura suspeitava vagamente que Lauretto Mina influira de qualquer fórma no que ella chamava ter sido abandonada por Antonino.{266}Na noite do concerto o tenor não estava longe de Remissy, podia ter avisado o violinista de que a Linda não desejava ser reconhecida, e Laura lembrava-se tambem do sorriso mau, vingativo, que entre-abria os labios de Lauretto, quando, no dia da fuga, a cumprimentara em silencio, pouco antes do comboio se pôr em marcha.De tudo isto concluia a cantora que o tenor praticara qualquer indignidade, o que, de resto, lhe estava nos habitos.Todavia a fatuidade de Lauretto não lhe fazia perder as esperanças, e quando viu Laura no theatro, pela primeira vez, tentou ainda, empregando meios quasi respeitosos e reservados, fazer-lhe a côrte.Não amava a Linda, apenas a desejava com violencia, como nunca desejara qualquer outra mulher, segundo affiançava. D'uma vez exprimiu-lhe o seu amor n'um tom serio que não lhe era habitual.—Vejo-a, disse-lhe elle, isolada e como abandonada, Laura. Aquelle a quem em Saint-Malo chamava seu marido parece despresal-a. Se necessitar d'um amigo, deveras devotado, que com alegria se fará matar pela minha amiga, bastar-lhe-ha fazer um gesto a este seu collega e respeitoso admirador.A prudencia ordenava que Laura recusasse o offerecimento do tenor com uma certa brandura, sem o irritar, sem o ferir.{267}Mas a repugnancia que sentia por Lauretto foi mais forte do que a prudencia com que estava resolvida a responder.Portanto deixou transparecer nas suas palavras todo o despreso que sentia por elle.Desde esse dia Lauretto juntou ao seu amor um odio sem limites, e tornou-se inimigo de Laura.—Ah! ella despresa-me? dizia elle comsigo. Pois bem, juro que será minha!Companheiros antigos, que com Lauretto tinham passado do theatro Italiano para a Opera, recordaram-lhe, rindo, o que em tempo dissera:—Não serei o primeiro, mas juro que serei o segundo!Motejavam d'elle, diziam-lhe que não poderia cumprir o juramento feito, porque, decididamente, a fórma pela qual a diva o tratava, os seus cumprimentos frios, despresadores, não lhe deviam deixar esperança de ser bem succedido.—Veremos, veremos! respondia Lauretto aos companheiros mordendo os labios com raiva contrahida. Quem espera, sempre alcança. O visconde está ausente, portanto não tenho que temer o rival. Aposto o que quizerem em como poderão verificar qualquer dia... ou qualquer noite, a predicção do nosso antigo emprezario, Pozzoli, que dizia:—A Linda será d'elle!{268}O odiento adorador da Linda estava n'estas disposições ameaçadoras na occasião em que Antonino chegou a Paris.O conde de Bizeux manifestara desejos d'acompanhar o filho á capital, em primeiro logar para não se separar d'elle, e depois para velar por Antonino, porque o visconde estava ainda convalescente da terrivel doença que o ia matando.Mas Antonino tinha a sua idéa.Instou com o pae para que o deixasse partir só.Para conseguir a annuencia paterna teve de fazer duas concessões: addiar a partida para oito dias mais tarde, de modo que a convalescença avançasse mais uma semana, e parar em Mans, dividindo a viagem em duas partes, para evitar o cansaço que lhe adviria de uma viagem tão longa.Pelas noticias dos jornaes elaborara o seu programma d'artista e de amante.Logo que chegou a Paris, acompanhado por um só creado, installou-se na sua antiga casa de solteiro, noboulevardHaussmann.Conservou-se deitado sobre um canapé até quasi ás seis horas da tarde, descançando, sonhando.Pouco depois sahiu, e comprou, como já dissemos, umfauteuild'orchestra n'uma agencia theatral dosboulevards.{269}Em seguida foi jantar aoCafé Inglez, e ás sete horas e meia entrava na Opera.Tivera a phantasia, que se transformára em ideia fixa, de tornar a ver sua mulher,—de tornar a ver a Linda,—cantando a parte de Valentina dosHuguenottes, que era justamente o papel que ella representára a ultima vez que a ouvira no theatro, na noite em que lhe salvara a vida.Tornaria a vel-a, do seufauteuild'orchestra, apenas como um simples espectador, e sem que ella desconfiasse da presença d'elle.Esperava sentir dupla alegria.Tornaria a ver, simultaneamente, a sua artista predilecta e a sua adorada mulher.Sentiria as emoções do amador, e os estremecimentos do amante.A verdade era que, depois da meia anniquilação, da meia morte de que sahia, não se lembrava de experimentar uma tal intensidade de vida nem tanta exhuberancia d'amor.A sua vida e o seu amor tinham passado, na realidade, por uma terrivel crise.Mas a convalescença chegara.Havia em todo o seu ser, e em todo o seu coração uma especie de renascimento.A força physica e o espirito augmentavam ao mesmo tempo.{270}Amava Laura com esperança e embriaguez, mais, muito mais, do que d'antes a amara.Chegando, como um provinciano, meia hora antes de começar o espectaculo, admirou a escadaria, ofoyer, as pinturas de Paulo Baudry, o salão!Extasiou-se ante astoilettesclaras das senhoras, que sobresahiam do vermelho do forro dos camarotes.Maravilhou-se das columnas de marmore polychromo, do bronze dos candelabros, do ouro dos lustres, do enorme panno de bocca purpurino, que dentro em pouco se elevaria para lhe deixar ver Laura.Um ruido confuso de conversação espalhou-se pela sala.Os violinos e os baixos afinavam-se indistinctamente.Antonino adorava aquelle sussurro, como adorava o do mar. O director da orchestra levantou a batuta.A opera começou.Antonino, porém, conhecia a partitura de cór, escutava como em sonho, apenas vagamente via passar Lauretto Mina.Todo o seu ser esperava por Laura.Quando, emfim, a Linda entrou, quando passou, velada, ao fundo da scena, sentiu a louca tentação de se precipitar para o palco, e esteve prestes a soltar um grito.{271}Quasi immediatamente depois, porém, voltando a si, olhou em volta para ver se tinha chamado a attenção dos demais espectadores.Mas não; mercê do instinctivo habito adquirido, conservára-se correcto.A representação seguia como um encanto para o visconde.No segundo acto a Linda foi admiravel no dueto com Marcel.Disse a phraseA offensa mortal do ingrato...com um sentimento tão penetrante e tão meigo, que os olhos d'Antonino marejaram-se de lagrimas.A sua emoção, porém, foi elevada ao cumulo no recitativo de Valentina, que abre o terceiro acto, e começaEstou só com a minha dor!Quando Laura soltou o grito doloroso:Meu Deus! afugentae esta lembrança fatal...a vibração da sua voz maravilhosa foi tão pungente e tão vivida, que não podia deixar de ser palpavel para Antonino que era Laura quem se lamentava e não Valentina.O visconde sentiu, por isso, percorrer-lhe as veias uma especie de terror gelado.{272}Pensou que Laura o vira na sala, que era exclusivamente para elle que cantava, unicamente a elle que se dirigia.Segundo as suas impressões, até então tudo se passara, por assim dizer, entre ella e elle.Todavia no quarto acto teve que passar por um outro genero de prova.Depois da benção dos punhaes, Raul fica só com Valentina.Raul, por substituição n'aquella noite, era Lauretto Mina.O dueto sublime começou.Aquelle trecho de musica produz o que não poderia produzir qualquer outra arte, nem a pintura ou a poesia.Explica, delinia, faz sentir o amor completo, o amor da alma e o amor dos sentidos.Ha n'aquelle dueto assombroso, com todas as dilacerações da paixão, com todos os horrores do passado susto, todas as delicias e todos os extasis da voluptuosidade!E Raul era Lauretto! e Valentina era Laura!Antonino ouvira muitas vezes a parte de Valentina cantada por Laura.D'antes, a Linda cantava aquelle dueto com o superior talento evirtuosidadeque possuia, com vigor e expressão.{273}Jámais, porém, a ouvira cantar com aquella paixão e embriaguez.N'outro tempo ella comprehendia, adivinhava.Agora sentia, recordava-se.No espirito d'Antonino passou como que uma hallucinação extranha.Quando viu Laura—porque, para elle, aquella mulher deixára de ser Valentina—lançar-se, supplicante, aos pés de Lauretto—que já não considerava como Raul—acerbo ciume se apossou d'elle.Pouco a pouco, o admiravel jogo physionomico da Linda acabou por dar á ficção uma realidade terrivel.O salão, o publico, desappareceram.Parecia-lhe que assistia, immovel e mudo, a uma verdadeira scena d'amor entre sua mulher e aquelle homem detestado.E no cerebro fervia-lhe, confusamente, este pensamento:—Por grande tragica que seja, poderia Laura, se Lauretto lhe fosse indifferente, envolvel-o em arrebatados abraços, dirigir-lhe tão ardentes supplicas? Poderia, se não o amasse, attrahil-o e retel-o contra o coração com tal accesso de ternura e de dôr?Quando Laura dirigiu ao tenor o desesperado appello;Fica, Raul, eu amo-te!o visconde mordeu a mão para não gritar:{274}—Miseravel!Raul parte e Valentina cae desmaiada.Antonino, no seufauteil, parecia ter desmaiado tambem.Voltou a si aos primeiros compassos do terceto entre Valentina, Raul e Marcial.A presença d'um terceiro personagem bastou, caso extraordinario, para o despertar d'aquelle terrivel pesadello, chamando-o á verdade da situação theatral.Os olhos viram claro.Laura passou novamente a ser Valentina para elle.Desempenhava superiormente o papel d'um drama, nada mais.Se ella representava com tanto ardor e enthusiasmo, se cantava o inegualavel dueto d'amor com tanta paixão pessoal, deixando n'elle, por assim dizer, a sua alma, não era um tenor qualquer que ella escongurava, que ella adorava com aquelle abandono e aquellas lagrimas, mas o homem que amava, o homem que não via, mas que estava sempre presente á sua imaginação, o homem que primeiro lhe revelára as alegrias celestes que podem gosar duas almas irmãs.E Antonino sentia agora vontade de rir da horrivel visão que tivera, como se ri quando a luz do dia nos mostra os objectos sob as suas verdadeiras formas, deturpadas pela illusão das trevas. Estava já{275}completamente senhor de si quando o panno caiu, no fim do espectaculo, para de novo se levantar ás duas chamadas que o publico enthusiasmado fez a Laura.O visconde sentia-se satisfeito pela resolução que tomara, antes de partir para Paris.Sahiu, deu a volta ao edificio do theatro e entrou pela porta do palco, perguntando ao porteiro onde era o camarim demadameLaura Linda.Entrou.Ao atravessar um corredor, viu Lauretto Mina que sahia dofoyer.O tenor, ainda vestido de Raul, ia de certo para o seu camarim. Ao ver Antonino, recuou admirado.—O sr. de Bizeux! disse elle estupefacto.Mas quasi immediatamente voltou-lhe a presença d'espirito, e accrescentou no tom de cortezia que exasperava Antonino:—O sr. visconde procura sem duvidamadameLaura Linda?... É a segunda porta, n'esse corredor da direita. Creio quemadameLinda está só esta noite.Antonino inclinou ligeiramente a cabeça, e passou sem responder.Logo que o viu desapparecer no corredor que lhe indicára, Lauretto murmurou colerico:—Delicadissimo, este neto de fidalgos! Bem, bem! Isto é para juntar ao total!{276}Antonino parou em frente da segunda porta do corredor, e bateu.Jacintha foi abrir.Ao ver o visconde soltou um grito.Deixou-o entrar para a especie de sala d'espera que antecedia o camarim, para o qual correu, gritando:—Minha senhora... minha senhora... é o sr. visconde!Laura, de penteador de cachemira branca, entrançava o cabello diante d'um espelho.—O que dizes tu?... perguntou ella a Jacintha, voltando-se.No limiar da porta viu Antonino, pallido, magro, d'olhos fundos, phantasma de si proprio.Conservaram-se por algum tempo contemplando-se, sem fazerem um só gesto nem pronunciarem uma só palavra. Antonino disse por fim:—Laura!Depois caminhou para ella lentamente.A Linda, indecisa, olhava-o estupefacta.Ao chegar junto d'ella, disse-lhe em voz baixa e extraordinariamente terna.—Minha Laura... amo-te!Ella juntou as mãos, extasiada, e replicou:—Meu Antonino!... És tu?... Ah! tambem eu te amo!{277}Lançou-lhe os braços em volta do pescoço, alegremente.Foi longo o abraço.Por fim Laura desprendeu-se d'Antonino, e perguntou-lhe:—Mas porque estás n'este estado?O visconde respondeu, sorrindo:—Vou contar-te tudo em duas palavras. Estive, durante mez e meio, entre a vida e a morte, mas mais proximo da morte que da vida. Ia-me matando uma terrivel febre cerebral. Todos me suppozeram perdido. Meu pae, afflictissimo, e de mais a mais illudido por uma abominavel denuncia anonyma, escreveu-te uma carta, que sem duvida te magoou muito. Elle está arrependido do que fez, e pede-te perdão. Eu, logo que estive em estado de partir, vim procurar te. Eis-me aqui.Quiz tomal-a nos braços.Ella impediu-o de realisar a intenção.Fez-o sentar n'um canapé e ajoelhou no tapete, contemplando-o com paixão.—Estiveste quasi a morrer, meu querido Antonino, e eu estava longe de ti! Porque não me chamaste?—Estive muito tempo sem consciencia...—Mas depois?—Depois ias tu entrar para o theatro. Tinhas reclamado a minha palavra, não quiz privar-te da liberdade{278}promettida Não desejei ser um impedimento, um obstaculo á vontade que tinhas de voltar para o theatro, que é como o teu paiz natal. Álem disso, considerei-me obrigado a expiar algumas culpas, Eras tu que tinhas rasão, Laura, n'aquella funesta noite em que partiste. Que me importava a opinião d'estranhos? Não devia inquietar-me com os prejuizos da sociedade. Existe, porventura, a sociedade para o amor? A sociedade, para nós, somos nós proprios. Ama-me como eu te amo, e nada mais te pedirei. Que me importa que ames tambem Mozart, Beethoven e Meyerbeer? Não os amo eu tambem, principalmente por tua causa?—Ah! como és bondoso! disse Laura. Sim, amas-me, sinto-o! A proposito: assististe ao espectaculo de hoje?—Assisti.—Não te vi, mas adivinhei-te!... Sentiste no meu canto que pensava em ti, não é verdade? Nem por um momento me esqueces quando desempenho o papel de Valentina, cheio dephrasesque parecem ter sido escriptas para a situação d'espirito em que me encontro. Aquella musica faz-me mal, especialmente depois que estou só, e comtudo sinto-me feliz quando a canto! E o dueto do quarto acto? Não é verdade que o canto agora melhor do que d'antes?—Sim, sim, cem vezes melhor!{279}Laura ajuntou, collocando as mãos sobre os hombros, do marido:—Foste tu que me ensinaste a cantar aquelle dueto!Antonino sentiu o coração innundado d'alegria.A segunda impressão que tivera durante o espectaculo, não o havia enganado.Era o seu amor, que Laura cantara tão apaixonadamente.Ella proseguiu:—A partir d'hoje vou amar sem reserva esse afortunado papel que duas vezes me trouxe a felicidade. Eis-te aqui, meu Antonino, és novamente meu. Estão reunidas as duas partes da minha alma. Eu tinha, por vezes, junto de ti, a nostalgia do theatro; mas, no theatro, tive sempre a nostalgia do teu amor!Em seguida contaram-se mutuamente tudo o que os interessava.Laura estava completamente entregue á sua querida arte.A casa da rua Boudreau era pequena demais para receber os seus amigos d'outr'ora.Apenas algumas vezes alli ia o dr. Despujolles, que a tratara d'uma bronchite.Remissy, terminado o contracto que o retinha em Vichy, partira para a Italia, e devia passar o resto do inverno na Hungria.Por sua parte, Antonino contava não receber ninguem{280}nos seus aposentos doboulevardHaussmann.Era possivel que o pae viesse vel-o, mas só muito mais tarde.—Bem, disse Laura satisfeita, sorridente, qual é a vontade do meu senhor e amo? Irei eu para sua casa, ou irá elle para a minha?—Escuta, replicou Antonino, vou contar-te um sonho que tive durante os longos dias de convalescença. É provavel que aches n'elle o quer que seja de romanesco. Se te desagradar, dil-o com franqueza! Quebraste bruscamente a nossa vida em commum, que talvez fosse um pouco monotona para a tua alma d'artista. Se quizeres, viveremos agora d'outra forma. Recuperaste a tua liberdade; como tenho plena confiança em ti, deixo-t'a. Não serei mais teu marido, passarei a ser teu amante. Queres?—Quero, sim, quero, porque é a verdade!—Então nem eu irei para tua casa, nem tu te installarás na minha. Concede-me oito dias d'espera. Durante esse tempo encontrarei e prepararei em qualquer canto de Paris, um ninho, occulto, secreto, apenas por nós conhecido, onde ninguem poderá surprehender-nos ou incommodar-nos. Dar-nos-hemos entrevistas n'esse ninho, furtivamente, clandestinamente, de noite, como quem teme a policia. De dia seremos correctissimos. Eu irei visitar-te de tarde,{281}e tu convidar-me-has algumas vezes para jantar com Despujolles.—Oh! mas isso é encantador! disse Laura.—Agrada-te a minha idéa?—Immenso!—Bem! Havemos de ser muito felizes, verás. Está combinado. Chama Jacintha. Vou deixar-te, para só te tornar a ver d'aqui a oito dias. Necessito de todos os minutos d'esta semana para tratar da nossa felicidade. O que me fará diminuir o pesar d'esta separação, será lembrar-me que me occupo da minha querida Laura.—E eu, durante esse tempo, só em ti pensarei!Antonino levantou-se.Laura, pegando-lhe nas mãos, disse:—Troquemos, ao menos, o beijo dos esponsaes.Beijaram-se longamente, ardentemente.Depois, trocando um ultimo adeus, separaram-se.

Parecia ouvir-se e ver-se, a centenas de leguas de distancia, cargas furiosas de cavallaria, e o embate titanico de dois corpos d'exercito.

Remissy, foi escutado com o mais profundo silencio.

Quando terminou, romperam delirantemente os applausos, e todos os espectadores gritaram:

—Bis!... bis!...

Remissy, depois de agradecer a ovação, disse:

—Desculpem-me, mas não repito nunca os trechos que executo. Tocarei qualquer outra coisa. D'esta vez será alegre a musica.

E começou a executar as celebres variações, que compozera sobre oCarnaval de Veneza.

Foi com endiabrado estro e rara exuberancia de malicia e de jovialidade, que Remissy resuscitou a eterna e pittoresca festa da praça de S. Marcos.

Sentia-se mover e reviver todos esses alegres e encantadores personagens dos companheiros daCommedia dell'arte.{233}

Por vezes, atravez de toda a alegria, resaltando do trecho musical, passava uma nota melancholica e triste como uma saudade ou como um suspiro.

As palmas retiniram novamente.

Laura applaudiu com alegria o grande artista, que fôra amigo de seu pae.

Remissy, habituado a estes triumphos, sorria com bondade e agradecia modestamente.

O ultimo numero do programma, era aMargarida, de Schubert, cantado pela viscondessa de Bizeux.

Laura, ao caminhar para o logar onde devia fazer-se ouvir, encontrou Remissy, que se retirava.

O violinista, ao vel-a, disse-lhe com arrebatamento:

—Ah! encontro-a emfim! não a via...

A viscondessa não o deixou terminar.

Apertou-lhe expressivamente a mão, e continuou andando.

Remissy procurou na sala uma cadeira vazia, d'onde podesse ouvir a Linda.

A baroneza de Pontual, que percebeu, levantou-se e indicou-lhe com a mão a cadeira que Laura acabava de deixar.

O violinista approximou-se.

A baroneza disse-lhe então:

—Quererá o sr. Remissy fazer-me a honra de se sentar a meu lado?{234}

Elle inclinou-se diante d'aquella mulher, e sentou-se sem ceremonia, não se dando mesmo ao trabalho de responder.

Lauretto Mina não estava longe.

Podia facilmente approximar-se de Remissy e avisal-o, como promettera, de que a Linda desejava guardar o incognito.

Não se moveu, porém.

—O acaso é contra a Linda? Tanto peor! pensou o tenor. Nada terão a censurar-me por faltar ao compromisso tomado.

A viscondessa de Bizeux, saudada pelos applausos dos espectadores, cumprimentou graciosamente antes de começar.

Remissy, como fallando comsigo mesmo, disse a meia voz, com grande espanto da baroneza:

—Que felicidade! Não a ouvia ha tanto tempo!

Laura pronunciou as primeiras phrases da aria com admiravel pureza e nitida pronuncia, tão desprezadas actualmente, que é raro perceber-se uma só das palavras ditas pelas cantoras.

—Ah! Tem a voz mais volumosa! murmurou Remissy em extasi. Nunca qualquer outra voz me emocionou como a da Linda!

Laura chegou ao crescendo de melodia, para o qual reservava toda a potencia da sua maravilhosa{235}voz, enchendo, por assim dizer, o salão com a mais bella e profunda sonoridade.

Tres salvas de palmas, successivas, acclamaram a cantora.

Os bravos resoavam.

Remissy, enthusiasmado com o successo de Laura, gritava como possesso!

—Bravo, diva!... bravo, Linda!...

Felizmente, a voz do violinista perdeu-se entre o ruido do salão.

Mas a baroneza ouvira perfeitamente o que dissera Remissy.

Augmentava a sua surpreza.

—Que quererá elle dizer? perguntou ella a si propria. Porque comparará a voz da celebre Linda á voz da viscondessa?

Laura proseguia.

Os impulsos da paixão, e os gritos de dôr do final da aria, exprimiu-os e pronunciou-os ella de uma fórma surprehendente.

A sua voz foi simultaneamente tão penetrante e suave, o som tão sentido, a emoção que experimentava manifestava-se-lhe no rosto formoso com tão adoravel expressão, que o auditorio estava como que galvanisado.

Os homens tinham-se levantado das cadeiras como impellidos por mola occulta.{236}

As damas choravam.

Logo que Laura terminou, houve uma verdadeira explosão d'applausos, de bravos, de gritos d'admiração unanime.

Remissy estava fóra de si.

Levantava-se, sentava-se, gritava, chorava.

A baroneza a custo lhe percebia algumas palavras.

—Que artista!... dizia elle. Não tem egual!... É extraordinarissima!...

Quando o ruido dos applausos diminuiu um pouco, Remissy estava como doido.

Dir-se-ia que elle proprio não fôra alvo, pouco antes, de manifestação quasi semelhante.

É que os applausos dispensados ao seu idolo produziam n'elle centuplicado effeito.

Com o rosto innundado de lagrimas, dirigiu-se ao estrado sobre o qual Laura cantára.

A viscondessa retirava-se, agradecendo com venias a ovação que lhe era feita.

Remissy approximou-se d'ella, tomou-lhe as mãos e disse bem alto:

—Ah! minha cara diva, tu és sublime!... Não posso conter-me, minha querida Linda!... Se não te beijar, rebento!

E envolvendo-a nos braços, beijou-a com sofreguidão nas duas faces.{237}

Laura, deixando-se beijar, sorriu com tristeza, e disse baixo ao violinista:

—Não póde calcular o mal que acaba de me fazer, meu caro Remissy!

—Hein! o quê!... Fiz-te mal, eu?... murmurou o violinista estupefacto.

E lançou em volta um olhar admirado.

Era curiosa a mudança operada no auditorio.

Os bravos interrompidos foram substituidos por murmurios hostis.

Evidentemente, os dois grandes artistas, que pouco antes tinham com o seu superior talento emocionado todos os espectadores, incommodavam-os agora.

Aquella scena final, completamente imprevista, chocava o nobre auditorio.

E com gestos largos, todos, mais ou menos, pronunciavam phrases indignadas.

—O que quer isto dizer? O que significa esta extraordinaria familiaridade entre o violinista e a viscondessa?... Elle tratou-a por tu!.. Beijou-a em publico!...Shocking!...É escandaloso!... É ridiculo!...

Por entre o ruido ouviu-se repentinamente a voz da baroneza de Pontual, que gritava, com irreprimivel satisfação:

—A Linda! É a Linda! Tudo se explica! A viscondessa de Bizeux é a Linda!{238}

Ao ouvir aquellas palavras o arcebispo de Rennes sahiu precipitadamente do salão, pelo braço do vigario geral, murmurando a meia voz:

—Vade retro, Satanaz!

Estephania, inclinando-se para o conde, disse-lhe ironicamente:

—O que pensa agora dos meus prejuizos gothicos, meu pae?

Entretanto alguns jornalistas e poucos espectadores applaudiam ainda Laura.

O violinista, comprehendendo, vendo tudo, como ao brilho d'um relampago, indignou-se por sua vez, e gritou, para ser ouvido por todos:

—Mas o que significa este espanto? Os nobres, n'esta cidade, serão por acaso burguezes?... Trato-a por tu, é verdade... Mas o que admira, se a Linda é o meu idolo!... Beijo-a?... D'accordo, mas é aMargaridaque beijo, selvagens!... Por ventura ignorarão os srs. barões, condes e marquezes presentes que a verdadeira divisa da nobreza éHonny soit qui mal y pense?

Antonino approximára-se de sua mulher.

Deitou-lhe sobre os hombros a capa de baile, e dando-lhe o braço disse-lhe:

—Anda, Laura, vem.

Atravessou altivamente o salão, com a mulher pelo braço.{239}

Empallidecera um pouco, mas conservava levantada a cabeça, e frio e sereno o olhar.

Os espectadores abriram alas.

Á medida que avançavam, deixavam de se ouvir as phrases hostis.

Quasi á sahida do salão os applausos resoaram de novo, tão entusiasticos como no fim da aria.

Remissy foi ter com Lauretto Mina, a quem disse:

—Não me preveniu!... Dando a saber que a viscondessa era a nossa querida Linda, pratiquei uma grande tolice!

Mas depois d'um momento de silencio ajuntou:

—Comtudo parece-me que depois reparei a asneira feita.

O tenor respondeu apenas, sarcasticamente:

—Parece-lhe?

Laura e Antonino subiram para a carruagem, que os devia conduzir a casa.

Iam tristes.{240}

Olhavam-se silenciosamente, encostados aos cantos do trem.

O visconde pensava com amargura no escandalo que acabava de dar-se, que tão fóra de proposito rebentára.

Acceitára antecipadamente, com todo o desassombro, o effeito que devia seguir-se, cedo ou tarde, á revelação do nome e do passado da esposa, mas jámais calculara que essa revelação se faria em circumstancias tão estrondosas e desagradaveis.

Apesar do espirito independente que possuia, Antonino conservava comtudo certos prejuizos de raça, de educação, impossiveis de fazer desapparecer por completo.

Ao atravessar na carruagem os caes desertos calculava com tristeza o que se passaria no dia seguinte.

Parecia-lhe estar vendo já o aspecto severo de sua irmã, e até de seu pae, a frieza dos seus amigos, e a circumstancia, mais dolorosa ainda, de sua esposa não continuar a ser recebida pela primeira sociedade de Saint-Malo.

Laura, pelo seu lado, magoada pelo silencio do marido, dizia comsigo que nada tinha de que censurar-se.

Não só não pedira para cantar no concerto, mas até se recusara a tomar parte n'elle, apontando as inconvenientes que d'ahi podiam advir.{241}

Consentira em cantar em publico unicamente para annuir ás reiteradas instancias do marido e do sogro.

Fôra culpa sua que aquelle doido Remissy, com o seu exaltado enthusiasmo, transformasse em escandalo o que não devia passar de triumpho?

Chegaram a casa sem trocar uma só palavra.

Operava-se, de subito, uma verdadeira separação entre aquelles dois seres, que, entretanto, por inexplicavel aberração, continuavam amando-se.

As desigualdades d'educação, e as educações diversas, produzem muitas vezes affeições que a todas as contrariedades e desgostos resistem.

Antonino acompanhou a mulher até ao quarto, e em seguida caminhou para a porta, retirando-se.

—Deixas-me assim? perguntou Laura com voz triste.

Elle indicou-lhe, com um gesto, a creada, que entrava para despir Laura, e respondeu:

—Voltarei d'aqui a pouco.

A viscondessa impoz silencio ás curiosas perguntas que Jacintha lhe fazia sobre o concerto, e disse á creada que se retirasse logo que lhe despiu o vestido que levara para o concerto, substituindo-o por um outro, de trazer por casa.

Depois foi, apesar da humidade da noite, encostrar-se ao parapeito da janella aberta.{242}

Ao longe, o mar, tão tempestuoso na vespera, estava sereno como um lago.

Ouvia-se o regular sussurro da vagas, e o ruido monotono das ondas desfazendo-se na areia da praia.

Nas aguas cahiam com lentidão os remos d'alguns escaleres da alfandega.

No ceu azul, semeado d'estrellas, uma comprida nuvem clara, como longa facha branca, listava o espaço, por baixo da lua impassivel.

Um sino badalou triste, lugubremente.

Aquelle som fez-lhe mal.

Parecia-lhe que dobravam a finados, pela morte de alguem que lhe era caro.

Seria esse morto o seu amor?

Abriu-se a porta do quarto.

Laura voltou-se.

Era Antonino que entrava.

Ao chegar junto da esposa, disse-lhe com voz grave e firme.

—Vim, porque prometti voltar. Mas o que venho fazer aqui? O que poderemos nós dizer sobre a deploravel scena que ha pouco se passou?

—Parece-me, respondeu Laura, que devias consolar-me pelo desgosto que soffri. Como conscienciosamente sabes, eu não tive a menor culpa do que succedeu.

Antonino replicou com amargura:{243}

—E eu muito menos, concorda. Tens, minha querida, amigos bem perigosos e bem ridiculos!

—Não é d'hoje que os conheces. Apresentei-te Remissy nos primeiros dias das nossas relações. Foi a fatalidade que dispoz as coisas. De resto, se era improvavel, não era impossivel que o facto se desse. Ter-se-hia evitado se, como eu desejava, não me obrigassem a cantar no concerto. Pois se eu não tivesse como que uma especie de pressentimento de que se passaria o quer que fosse de desagradavel, insistiria por ventura para não ser incluida no programma? Foi teu pae, e tu proprio, que não annuiram aos meus pedidos. Cedi, porque não podia deixar de o fazer. O enthusiasmo de Remissy desmascarou-me. Se eu tivesse cantado mal não teriamos agora que lamentar-nos. Censurar-me-has, por ventura, por ter cantado bem, fazendo com que me applaudissem? Não devo ser accusada d'esse crime, se o foi, porque não sou responsavel por elle. Lavo d'ahi as minhas mãos.

—A verdade é que não és tu quem mais soffre com tudo isto, respondeu Antonino meio irritado. Que te importa que se saiba que és a Linda? É um nome que tornaste celebre, e que estimas,—sem duvida muito mais,—do que aquelle que actualmente usas. Mas para mim e para a minha familia, esse nome, cahindo bruscamente, sem preparações, sobre o{244}publico, vae servir de maná á malignidade de toda a gente, que nos escarnecerá e diffamará. Seremos repellidos da sociedade que até aqui frequentavamos, passaremos por pessoas que desprezaram a opinião publica, enganando os amigos e os parentes.

—N'uma palavra: deshonrei a tua familia, não é verdade? interrompeu Laura.

—Não digo tanto, mas...

—Na realidade admiro-te! disse a viscondessa irritando-se tambem. Para que quizeste introduzir-me n'essa sociedade que não era a minha, n'essa sociedade em que entrei como que de surpreza, e que, segundo todas as probabilidades, me fechará ámanhã as suas portas? E eu por que accedi aos teus desejos? Sabes porque? Porque te amava! Censurar-me-has tambem por isso? Tens pouca memoria, Antonino; Quem te ouvisse, pensaria que, casando commigo, tu me levantaste da lama, em que eu vivia. Sabes bem que não é assim, sabes bem que eu, casando comtigo, pratiquei um acto d'abnegação, immolando-te e ao amor que por ti sentia, o que até então fôra a minha alegria e a minha vida, a arte, o renome, a gloria! E esse sacrificio do primeiro dia, dura ainda, perpetua-se, persisto n'elle e renovo-o incessantemente. E jámais te dei a perceber quanto elle por vezes me tem sido pesado e cruel, sobretudo depois do nosso regresso a França, depois que vivo n'esta atmosphera{245}de provincia em que respiro a custo, e que sinto diminuir em mim os dotes artisticos que possuia. Pois em vez de tentares fazer-me esquecer esse passado que me é querido, vens, pelas tuas palavras, como que transformal-o n'um crime! É muito! Revolto-me contra o teu procedimento! E visto que me forças, recordar-te-hei que me prometteste solemnemente deixar-me voltar para o theatro, logo que assim o desejasse, voltar para esse passado que te envergonha, mas que é a minha maior gloria!

—Prometti-te tambem, Laura, que o meu amor te recompensaria do sacrificio feito. Deixei de amar-te por ventura? Não te amo agora como te amava d'antes?

—Não, não me amas! Se me amasses como d'antes, não te porias ao lado da sociedade contra mim, collocar-te-ias a meu lado contra a sociedade!

—A sociedade! repetiu Antonino inquieto. Reconciliar-nos-hemos com ella..

—Muito bem! Empregarás todas as diligencias para que me tolerem, não é verdade? Não, não, obrigada. Despreso esse obsequio, que se assemelha a dó. Deixo-te n'ella; fica, fica n'essa sociedade em que eu era uma estranha, em que eu não passava de pária!

Laura fallava com vehemencia, exaltada pela colera e pelo desgosto.{246}

Antonino respondeu passados alguns instantes de silencio:

—Estás como eu, Laura, sob a impressão do incidente que ambos lamentamos. Como ha pouco te preveni, nada podemos dizer agora sobre esse assumpto, que não augmente o mal estar que sentimos. Vou deixar-te. Ámanhã estarás mais socegada. Até ámanhã...

Pegou-lhe na mão, que ella lhe abandonou, inerte e fria, e repetiu:

—Até ámanhã.

Laura respondeu a meia voz:

—Pois sim... deixa-me. Até ámanhã.

Antonino olhou-a, ancioso.

Depois deu tres passos para a porta, e parou, como sentindo desejo de voltar.

Por fim sahiu do quarto, fazendo um gesto de desanimado.

Logo que o visconde fechou a porta e ella sentiu apenas o ruido de passos, que se affastavam, Laura, que até então se reprimira, rompeu em soluços.

Chorou muito tempo.

As lagrimas faziam-lhe diminuir a angustia que sentia.

Passado algum tempo, um pouco socegada, ora passeiando pelo quarto, ora encostada a uma mesa, ella reflectiu na sua situação.{247}

Tomado um partido, abriu uma porta que dava para o escada de serviço, e, pegando n'uma vela, subiu ao quarto de Jacintha.

O quarto estava vasio!

Jacintha nem mesmo abrira a roupa da cama.

Laura, ante este contratempo, ficou indecisa por momentos.

Depois, fazendo um gesto de resolução, desceu ao seu quarto novamente.

Davam quatro horas n'um relogio da casa.

Vestiu apressadamente umatoilettede viagem.

Logo que terminou, sentou-se á mesa, e escreveu a seguinte carta, precipitadamente:

Antonino

Reclamo de ti a palavra dada.

Volto para o theatro.

Parto sem te ver.

Temi a tua resistencia e a minha fraqueza.

Evito assim, a ambos nós o desgosto da despedida.

A vida, no seio d'uma familia que me repelle e d'uma sociedade que me despresa, era para mim impossivel.

Aqui te deixo as ultimas palavras que o meu coração te envia:

Amo-te, Antonino, amo-te muito! Não posso continuar{248}vivendo comtigo uma vida que me incommodaria, mas espero e peço-te que me dês a felicidade de viver commigo a minha vida passada.

Sou e serei sempre tua

Laura.

Laura perguntou a si mesma se fazia bem abandonando á sua sorte essa louca inconsciente, Jacintha.

Pensou:

—Devo deixar aqui toda a especie d'affeição?

Lembrou-se da dedicação cega que Jacintha tinha por ella, dedicação que a levaria a lançar-se ao mar, quando soubesse que Laura a tinha deixado.

Depois de reflectir, resolveu-se.

Escreveu em meia folha de papel algumas palavras a Jacintha, e foi ao quarto da creada collocar o papel sobre uma mesa.

Recommendava-lhe que de manhã tomasse, o mais{249}occultamente que lhe fosse possivel, o comboio de Paris, que partia ás oito e meia.

Logo que chegasse á capital, procural-a-hia no Grande Hotel, designando-a pormadameLinda.

A Marieta, a outra creada, recommendava Laura que lhe enviasse, para o Grande Hotel tambem, os vestidos e de mais roupas do seu uso.

Ao escrever estas recommendações, Laura pensava:

—Por esta fórma saberá Antonino onde encontrar-me.

Isto feito, metteu n'uma pequena mala o dinheiro que possuia, joias, cartas, alguns objectos insignificantes,—pura recordação,—e outros essenciaes.

Depois olhou tristemente, correndo-lhe as lagrimas pelas faces, para aquelle quarto, onde, apesar de tudo, passara horas tão felizes.

Foi appoiar a fronte, que abrasava, ao vidro frio da janella.

Uma claridade, baça ainda, envolvia a cidade e estendia-se sobre as aguas da bahia.

As ondas tomavam reflexos cinzentos.

Os pharoes distantes picavam de pontos avermelhados a meia obscuridade, e desappareciam pouco a pouco na claridade livida, em que as ultimas estrellas se perdiam.

Os pombos voavam dos beiraes para as ruas.{250}

No azul pardacento do ceu destacavam-se as velas dos barcos, que manchavam a côr d'ardosia do mar.

Laura saccudiu bruscamente a cabeça.

Parecia querer, com aquelle movimento, afugentar os pensamentos que a torturavam.

Retirou de sobre a mesa tudo o que n'ella havia, para que a sua carta para Antonino ficasse bem em evidencia.

Poz um chapeu de côr escura, um veu espesso, e embrulhou-se n'uma capa cinzenta.

A escada de serviço, que subia até ao quarto de Jacintha, descia para a rua, do lado da casa opposto ao mar.

A porta estava sempre fechada por um ferrolho interior.

Laura abriu a porta do seu quarto com toda a precaução, caminhando na ponta dos pés, para abafar o ruido dos passos, porque o quarto d'Antonino, separado do d'ella apenas por um corredor, tinha tambem uma porta para aquella escada.

No patamar parou por um minuto.

O coração batia-lhe apressadamente. Escutou.

Antonino não estava deitado.

Laura ouvia o ruido dos passos d'elle.

Passeiava vagarosamente.

A Linda esteve quasi a entrar no quarto do marido, lançando-se-lhe nos braços.{251}

Resistiu á tentação.

Enviou-lhe apenas, com as pontas dos dedos, um beijo silencioso, e principiou a descer lentamente, sem fazer o menor ruido.

Um dos degraus gemeu sob o peso.

Teve medo.

Com um movimento ligeiro saltou os tres ultimos degraus, cahindo sobre o tapete que havia ao fim da escada.

Levantou-se, abriu cautellosamente o ferrolho, descerrou a porta e sahiu para a rua.

O ar frio da madrugada fez-lhe bem.

Dirigiu-se para o caes, atravessando as ruas estreitas e tortuosas da velha cidade.

Um relogio dava cinco horas n'uma torre proxima.

Os carpinteiros, os pintores e os calafates, caminhavam em grupos, dirigindo-se ao trabalho.

As mulheres das hortas proximas, sentadas sobre os burros carregados de legumes e hortaliças, chegavam do campo, em cavalgadas alegres, rindo alto, e dirigindo, umas ás outras, os velhos motejos gaulezes, para attrahirem a attenção dos homens que encontravam.

Laura percebeu que todas aquellas mulheres a olhavam curiosamente, e ouviu, ao passar, os seus commentarios licenciosos.

Quando chegou ágareera dia.{252}

O comboio expresso da manhã partia ás cinco e meia.

Tomou um compartimento completo, e foi sentar-se para a sala d'espera, pensativamente.

Estava como que alheiada do que se passava em volta d'ella, quando o silvo da locomotiva a chamou á realidade.

Faltavam apenas cinco minutos para a partida do comboio. Entrou apressadamente nagare.

De repente estremeceu.

A primeira pessoa que viu foi Lauretto Mina, fumando no seu charuto.

Ao vel-a, o tenor dirigiu-se a Laura e disse-lhe, um pouco admirado:

—Parte para Paris, Linda?

—Parto, respondeu ella, continuando a caminhar para a sua carruagem.

Mas logo em seguida perguntou:

—Remissy não parte agora?

—Não, respondeu o tenor caminhando ao lado da sua interlocutora. Está muito fatigado. Deve seguir no comboio do meio dia. Eu parto, porque necessito fallar esta noite com o director da Opera, sem falta. Quer que lhe falle de si, ou, como não podia dizer em Saint-Malo que a senhora era a Linda, ser-me-ha interdicto dizer em Paris que a Linda é a viscondessa de Bizeux?{253}

—Proceda como entender...

Chegou ao compartimento que tomára.

Ao abrir a portinhola, o tenor disse-lhe:

—Mas diga-me,cara mia...

—Senhor, respondeu Laura com dignidade, já nos cumprimentámos. Como vê, estou só e o senhor é um homem sufficientemente bem educado para não me acompanhar por mais tempo.

E subiu lestamente para a carruagem.

Lauretto cumprimentou-a, mordendo os labios.

Deitou fóra o charuto e tomou logar n'outra carruagem, murmurando por entre dentes:

—Tu me pagarás, vibora!

Quando o comboio estava proximo da estação de Dol, o tenor escreveu algumas palavras a lapis n'uma folha da carteira, rasgou essa folha, e, logo que o comboio parou na estação, apeiou-se, chamou um empregado a quem entregou o papel e uma moeda de cinco francos, dizendo apenas:

—Para o telegrapho.

O telegramma era concebido da seguinte fórma:

Visconde de Bizeux.—Saint-Malo.

Vi no expresso de Paris a Linda e Lauretto Mina.

Um amigo.

Antonino, estendido sobre o divan do quarto, dormia um somno pesado, respirando a custo.{254}

Um pouco antes das nove horas, o criado entrou, apesar do visconde não ter chamado.

Antonino acordou ao ruido feito pela porta ao abrir-se. O criado disse:

—Perdão; o sr. visconde não chamou, mas como este telegramma chegou ha mais de uma hora, pareceu-me conveniente trazer-lh'o.

O marido de Laura esfregou os olhos injectados de sangue, e abriu o telegramma.

Leu e soltou um grito estridente.

Depois, cambaleando como um ebrio, abriu a porta que dava para o corredor de communicação que percorreu, entrando no quarto de sua mulher.

O leito estava intacto.

Sobre a mesa viu a carta que Laura deixára.

Pegou-lhe, quiz abril-a, mas o papel cahiu-lhe das mãos tremulas.

Agitou os braços no espaço, e cahiu como uma massa inerte, fulminado por uma congestão cerebral.

O cartaz da Opera annunciava para aquella noite osHuguenottes, cantando a Linda a parte de Valentina.{255}

Lauretto Mina desempenhava o papel de Raul, em substituição do primeiro tenor, que adoecera.

Pelas seis horas e meia da tarde, Antonino de Bizeux, um pouco pallido e magro, apoiando-se á bengala, entrava n'uma das agencias theatraes então recentemente abertas nosboulevards, e comprava umfauteuild'orchestra, que pagou por trinta francos, ou fosse o dobro do preço da casa.

Tinham-se passado tres mezes menos alguns dias, desde que Laura abandonara a casa do caes de Saint-Malo, e durante todo esse tempo, a Linda só tivera noticias indirectas e incertas de seu marido.

Cinco dias depois de chegar a Paris recebera,—enviados por Marieta Dauvin,—seis grandes volumes contendo, não só os vestidos e demais roupa do seu uso, como tambem os moveis que guarneciam o seu quarto, e que provinham, quasi todos, da sua antiga casa da rua de Bolonha.

Nem uma carta, nem uma só palavra, acompanhava a remessa. Laura sentiu profunda anciedade.

O que significava aquelle silencio?

N'um primeiro movimento de inergia resolvera quebrar a cadeia que a prendia e que achava pesada, e fizera-o immediatamente, sem hesitar, sem reflectir.

Agora estava livre.

Todavia, essa liberdade, inquietava-a e consternava-a.{256}

Em Saint-Malo tinha saudades da sua querida arte, em Paris recordava-se, saudosa, do seu amor.

O director da Opera, prevenido por Lauretto da volta da Linda, pedira-lhe uma entrevista.

Laura respondeu-lhe que esperasse por alguns dias.

Addiava, por instincto, a sua conversação com o emprezario, que de certo a queria contractar.

Lia todas as manhãs oCorreio de Saint-Malo, que mandava comprar á agencia Havas.

Se qualquer facto se passasse em casa do conde de Bizeux,—uma partida, um accidente imprevisto—encontraria a noticia n'aquella folha local.

Mas nada se passava, com certeza, porque o nome de Bizeux, que ella procurava todos os dias com o olhar, avidamente, nem uma só vez foi mencionado pelo jornal.

A quem devia dirigir-se? A quem escrever?

Na Bretanha vivera sempre retirada, pensando apenas em Antonino.

Essa circumstancia fez com que não se relacionasse intimamente com pessoa alguma.

Ao cabo de dez dias não poude conter-se, e escreveu ao proprio Antonino.

Entre outras coisas dizia-lhe o seguinte:

«Porque guardas silencio? Não recebeste a carta{257}que te deixei? Não comprehendeste, por ventura, o grito d'amor com que a terminei? Responde, peço-te! Responde, ainda que seja colerica ou desdenhosamente.»

Depois supplicava ao marido que só escrevesse uma palavra, uma só, que podesse allivial-a da terrivel angustia em que vivia.

Dois dias depois recebeu uma carta com o carimbo do correio de Saint-Malo.

Rasgou o sobrescripto e procurou a assignatura.

A carta era do conde de Bizeux.

Escrevia o pae d'Antonino:

Minha senhora:

Não é o filho que lhe responde, é o pae, é o chefe da familia que a senhora abandonou tão bruscamente, tão cruelmente, e na qual deixou a desolação e o lucto.

Esse chefe de familia não lhe dirigirá, comtudo, a mais leve censura, nem em seu nome, nem em nome do filho.

Desejou ser livrepara voltar para o theatro. Satisfez o seu desejo, está livre.

Nós desejamos, apenas, ter a liberdade de soffrer em silencio, sem que nos importune quem quer que seja.{258}

Só lhe pedimos uma coisa: é que nos deixe esquecer, e esqueça o passado.

Augusto, conde de Bizeux.

Laura offendeu-se pela frieza e rispidez que d'aquella carta transparecia.

Nem Antonino se dera ao incommodo de lhe responder!

Era o pae que intimava á fugitiva aquella especie de sentença, com ares de juiz justiceiro!

O que houvera no seu procedimento de tão reprehensivel e criminoso que justificasse uma tal attitude?

Se ella na realidade fosse uma mulher culpada, se tivesse trahido e deshonrado seu marido, d'accordo que a tratassem por aquella fórma!

Teria provocado a colera de toda a familia d'Antonino, e até o despreso geral, se assim fosse.

Mas a verdade era que o seu procedimento, uma vez que estava dentro das leis estabelecidas, não podia ser julgado com tanta severidade por seu sogro ou por seu marido.

A injustiça, elevada ao excesso d'injuria, revoltou o espirito nobre e altivo de Laura.

A sua consciencia e o seu coração diziam-lhe que não merecia ser tratada de semelhante modo.{259}

Resolveu, pois, por muito que a penalisasse uma tal abstenção, guardar o mais completo silencio, para que a sua dignidade não soffresse a menor quebra.

Foi então, e só então, que marcou o dia para a entrevista que o director da Opera solicitára.

O emprezario queria escriptural-a.

Laura recusou em absoluto um contracto de longa duração, apezar das magnificas condições que lhe offereciam.

Não desejava prender-se por muito tempo, e por isso só acceitou o contracto por um limitado numero de representações.

O director da Opera, apesar d'uma escriptura n'aquellas condições ir alterar o seu plano d'exploração theatral, curvou-se á imposição de Laura, e acceitou.

A Linda arrendou então, na rua Boudreau, a dois passos da Opera, um rez do chão modesto, que mobilou com simplicidade e bom gosto, aproveitando os moveis que lhe tinham enviado de Saint-Malo.

Além de Jacintha, tomou, para a servirem, um creado, homem de cincoenta annos, casado; a mulher do creado, velha tambem, passou a desempenhar as funcções de cosinheira.

Tres dias depois de receber a carta do conde estava installada na sua nova casa, satisfeita, na sua dôr e no seu isolamento, de sentir-se, pelo menos, senhora absoluta das suas acções.{260}

Ostensivamente parecia alegre, mas intimamente o desgosto minava-a.

Não lhe teria produzido tão doloroso effeito a carta do conde, se soubesse em que circumstancias o velho fidalgo a escrevera.

Oito dias depois da congestão o ter prostrado, ainda Antonino não percebia o estado em que se achava.

A doença aggravara-se dia a dia.

Nem um só dos muitos medicos chamados deixou d'opinar que elle estava condemnado.

A robustez da sua constituição fazia augmentar a violencia da doença

D'hora para hora, de minuto para minuto, o pobre pae suppunha que ia perder o filho unico, a quem tanto amava.

Foi n'este paroxismo de magua paterna que chegou a carta dirigida por Laura a Antonino.

O conde, para estar ao facto do que succedera, tinha aberto a carta que a nora deixára em casa, á partida.

Abriu, portanto, a que chegou de Paris, pela mesma razão.

D'aquellas duas cartas transpirava um affecto immenso.

Mas quem garantia ao fidalgo que Laura não mentia?

Lera tambem o telegramma de Lauretto Mina, que{261}fôra como que um punhal a enterrar-se no coração d'Antonino.

Seu filho acreditára no que dizia o telegramma.

Que razão tinha o conde para não acreditar tambem?

Mas, culpada ou não, Laura era a causadora unica da morte do seu filho. O conde não era juiz, era pae.

Escrevera sem medir o alcance das palavras, respondera o que a sua indignação lhe inspirára.

Laura matava-lhe o filho; não podia deixar de detestar, d'amaldiçoar essa mulher.

A crise, que para todos era agonia, prolongou-se ainda por mais duas semanas.

Durante todo esse tempo Antonino não reconheceu pessoa alguma.

O delirio não o abandonára um só instante.

Mas a prolongação da doença passou a significar esperança.

Ao vigessimo quinto dia os medicos disseram:

—É possivel salvar-se.

Quinze dias depois accrescentaram, emfim:

—Está salvo!

Effectivamente Antonino pareceu ter, n'esse dia, alguma consciencia de si mesmo. Apertou ao de leve a mão da irmã, que estava sentada junto ao leito.

Depois, olhando em torno ao quarto, murmurou com voz enfraquecida:{262}

—Laura?...

Felizmente o pensamento era ainda vago e fraco.

Em seguida áquelle esforço, Antonino recahiu de novo n'uma somnolencia pesada, que era a sua salvação.

A natureza, essa maravilhosa enfermeira, só lhe fez recuperar completamente a razão, quando o doente estava em estado de já poder supportar a verdade.

Recordou-se de tudo.

Laura, a sua Laura, que nos accessos febris nem um momento deixava de chamar, não estava alli, abandonára-o.

Porque?

Quando?

Ah! sim, recordava-se... fôra uma manhã...

Mas ella fugira só?

Accudiu-lhe á memoria o fatal telegramma...

Mas ao mesmo tempo lembrou-se d'uma carta,—d'uma carta d'ella!—que não tivera tempo d'abrir.

Interrogou seu pae.

O conde entregou-lhe então as duas cartas de Laura, cuja leitura só podia fazer bem ao doente.

E com efeito assim foi.

Antonino poude chorar.

O correr das lagrimas diminuiu a profundeza do desgosto.

—Ah! meu pae! disse elle, Laura continua amando-me.{263}Chama-me, espera-me! Nunca deixára d'amar-me! E ha já dois mezes que ella me espera? Mas como poude Laura estar tanto tempo longe de mim, sabendo-me perigosamente enfermo? Ou ella ignora que eu estou doente? Não lhe deram noticias minhas?

O conde teve de confessar-lhe que, n'um instante de desvairamento em que lhe parecia inevitavel a morte do filho, escrevera a Laura aquella carta implacavel que lhe interdizia qualquer pergunta, e lhe assegurava que jámais teria noticias de seu marido.

De resto, o conde declarou que n'aquella resposta influira tambem o ter acreditado no que dizia o telegramma desconfiando, por isso, que Laura mentia nas duas cartas. Ao ouvir a explicação do conde, Antonino respondeu:

—Não, não!... Foi o telegramma que mentiu! Laura diz a verdade, porque declara continuar amando-me! Ah! meu pae!... não a conhece! Ella possue o mais sincero e leal coração que é possivel imaginar-se! Tenho a certeza que Laura não sente despreso por esse Lauretto Mina, sente tambem horror!

O conde de Bizeux, apesar de não estar convencido, não quiz contrariar o filho, temendo que de tal contrariedade resultasse aggravamento da doença.

Antonino desejou escrever immediatamente a Laura, perdoando-lhe, chamando-a para junto d'elle sem detença.{264}

O medico, porém, impedia-o de realisar a intenção, declarando-lhe que ainda não tinha forças sufficientes para escrever, e que, fazendo-o, arriscava-se a peorar.

Como não o deixassem satisfazer aquelle desejo, o visconde, reflectindo, resolveu não escrever a Laura dias depois, quando o medico entendesse que o podia fazer.

Logo que estivesse restabelecido partiria para Paris, correria em procura de Laura, fazendo-lhe assim mais surpreza.

Por essa occasião os jornaes da capital noticiaram as representações de Linda na Opera.

Ao ter conhecimento d'esse facto, Antonino disse ao conde:

—Não a incommodemos. Deixemol-a satisfazer o seu desejo, realisar o seu sonho doirado. Voltará depois mais socegada.

O conde, depois de ter perdido completamente as esperanças de que os medicos salvassem Antonino, ao ter a certeza de que o filho não morreria, estava louco de satisfação.

Cria em tudo que o visconde acreditava, e, como elle, tinha confiança no futuro.

De resto, em consciencia, elle censurava-se pela fórma porque procedera com Laura, respondendo desabridamente á carta que ella dirigira a Antonino.{265}

Fôra injusto, fôra cruel até, e desejava por isso tornar a vel-a para nobremente lhe pedir perdão.

Comtudo, occasiões houve em que se inquietou.

Nas noticias dadas pelos jornaes sobre os espectaculos em que Laura tomava parte, viu, por vezes, o nome de Lauretto Mina ao lado do nome da Linda.

Entretanto cohibiu-se d'apontar o facto a Antonino.

Foi o proprio visconde que um dia lhe fallou nisso.

Com essa intuição que é como a segunda vista do amor, tinha a convicção absoluta que esse homem, esse Lauretto insolente, nada era, nada podia ser para Laura.

Não lhe restava a maior duvida.

Elle, tão concentrado e tão ciumento, como todos os que amam verdadeiramente, sentia que era amado por Laura, que ella não podia amar outro homem.

Lembrou-se dos ultimos dias que tinham passado juntos, das ultimas caricias trocadas, d'algumas injustiças que Laura lhe censurára, e percebia, interrogando o seu coração, que ella seria sempre d'elle, só d'elle.

E tinha razão, porque não só a Linda não amava o tenor, como até o despresava.

Não se limitava a detestal-o, fazia-lh'o sentir.

Laura suspeitava vagamente que Lauretto Mina influira de qualquer fórma no que ella chamava ter sido abandonada por Antonino.{266}

Na noite do concerto o tenor não estava longe de Remissy, podia ter avisado o violinista de que a Linda não desejava ser reconhecida, e Laura lembrava-se tambem do sorriso mau, vingativo, que entre-abria os labios de Lauretto, quando, no dia da fuga, a cumprimentara em silencio, pouco antes do comboio se pôr em marcha.

De tudo isto concluia a cantora que o tenor praticara qualquer indignidade, o que, de resto, lhe estava nos habitos.

Todavia a fatuidade de Lauretto não lhe fazia perder as esperanças, e quando viu Laura no theatro, pela primeira vez, tentou ainda, empregando meios quasi respeitosos e reservados, fazer-lhe a côrte.

Não amava a Linda, apenas a desejava com violencia, como nunca desejara qualquer outra mulher, segundo affiançava. D'uma vez exprimiu-lhe o seu amor n'um tom serio que não lhe era habitual.

—Vejo-a, disse-lhe elle, isolada e como abandonada, Laura. Aquelle a quem em Saint-Malo chamava seu marido parece despresal-a. Se necessitar d'um amigo, deveras devotado, que com alegria se fará matar pela minha amiga, bastar-lhe-ha fazer um gesto a este seu collega e respeitoso admirador.

A prudencia ordenava que Laura recusasse o offerecimento do tenor com uma certa brandura, sem o irritar, sem o ferir.{267}

Mas a repugnancia que sentia por Lauretto foi mais forte do que a prudencia com que estava resolvida a responder.

Portanto deixou transparecer nas suas palavras todo o despreso que sentia por elle.

Desde esse dia Lauretto juntou ao seu amor um odio sem limites, e tornou-se inimigo de Laura.

—Ah! ella despresa-me? dizia elle comsigo. Pois bem, juro que será minha!

Companheiros antigos, que com Lauretto tinham passado do theatro Italiano para a Opera, recordaram-lhe, rindo, o que em tempo dissera:

—Não serei o primeiro, mas juro que serei o segundo!

Motejavam d'elle, diziam-lhe que não poderia cumprir o juramento feito, porque, decididamente, a fórma pela qual a diva o tratava, os seus cumprimentos frios, despresadores, não lhe deviam deixar esperança de ser bem succedido.

—Veremos, veremos! respondia Lauretto aos companheiros mordendo os labios com raiva contrahida. Quem espera, sempre alcança. O visconde está ausente, portanto não tenho que temer o rival. Aposto o que quizerem em como poderão verificar qualquer dia... ou qualquer noite, a predicção do nosso antigo emprezario, Pozzoli, que dizia:—A Linda será d'elle!{268}

O odiento adorador da Linda estava n'estas disposições ameaçadoras na occasião em que Antonino chegou a Paris.

O conde de Bizeux manifestara desejos d'acompanhar o filho á capital, em primeiro logar para não se separar d'elle, e depois para velar por Antonino, porque o visconde estava ainda convalescente da terrivel doença que o ia matando.

Mas Antonino tinha a sua idéa.

Instou com o pae para que o deixasse partir só.

Para conseguir a annuencia paterna teve de fazer duas concessões: addiar a partida para oito dias mais tarde, de modo que a convalescença avançasse mais uma semana, e parar em Mans, dividindo a viagem em duas partes, para evitar o cansaço que lhe adviria de uma viagem tão longa.

Pelas noticias dos jornaes elaborara o seu programma d'artista e de amante.

Logo que chegou a Paris, acompanhado por um só creado, installou-se na sua antiga casa de solteiro, noboulevardHaussmann.

Conservou-se deitado sobre um canapé até quasi ás seis horas da tarde, descançando, sonhando.

Pouco depois sahiu, e comprou, como já dissemos, umfauteuild'orchestra n'uma agencia theatral dosboulevards.{269}

Em seguida foi jantar aoCafé Inglez, e ás sete horas e meia entrava na Opera.

Tivera a phantasia, que se transformára em ideia fixa, de tornar a ver sua mulher,—de tornar a ver a Linda,—cantando a parte de Valentina dosHuguenottes, que era justamente o papel que ella representára a ultima vez que a ouvira no theatro, na noite em que lhe salvara a vida.

Tornaria a vel-a, do seufauteuild'orchestra, apenas como um simples espectador, e sem que ella desconfiasse da presença d'elle.

Esperava sentir dupla alegria.

Tornaria a ver, simultaneamente, a sua artista predilecta e a sua adorada mulher.

Sentiria as emoções do amador, e os estremecimentos do amante.

A verdade era que, depois da meia anniquilação, da meia morte de que sahia, não se lembrava de experimentar uma tal intensidade de vida nem tanta exhuberancia d'amor.

A sua vida e o seu amor tinham passado, na realidade, por uma terrivel crise.

Mas a convalescença chegara.

Havia em todo o seu ser, e em todo o seu coração uma especie de renascimento.

A força physica e o espirito augmentavam ao mesmo tempo.{270}

Amava Laura com esperança e embriaguez, mais, muito mais, do que d'antes a amara.

Chegando, como um provinciano, meia hora antes de começar o espectaculo, admirou a escadaria, ofoyer, as pinturas de Paulo Baudry, o salão!

Extasiou-se ante astoilettesclaras das senhoras, que sobresahiam do vermelho do forro dos camarotes.

Maravilhou-se das columnas de marmore polychromo, do bronze dos candelabros, do ouro dos lustres, do enorme panno de bocca purpurino, que dentro em pouco se elevaria para lhe deixar ver Laura.

Um ruido confuso de conversação espalhou-se pela sala.

Os violinos e os baixos afinavam-se indistinctamente.

Antonino adorava aquelle sussurro, como adorava o do mar. O director da orchestra levantou a batuta.

A opera começou.

Antonino, porém, conhecia a partitura de cór, escutava como em sonho, apenas vagamente via passar Lauretto Mina.

Todo o seu ser esperava por Laura.

Quando, emfim, a Linda entrou, quando passou, velada, ao fundo da scena, sentiu a louca tentação de se precipitar para o palco, e esteve prestes a soltar um grito.{271}

Quasi immediatamente depois, porém, voltando a si, olhou em volta para ver se tinha chamado a attenção dos demais espectadores.

Mas não; mercê do instinctivo habito adquirido, conservára-se correcto.

A representação seguia como um encanto para o visconde.

No segundo acto a Linda foi admiravel no dueto com Marcel.

Disse a phrase

A offensa mortal do ingrato...

com um sentimento tão penetrante e tão meigo, que os olhos d'Antonino marejaram-se de lagrimas.

A sua emoção, porém, foi elevada ao cumulo no recitativo de Valentina, que abre o terceiro acto, e começa

Estou só com a minha dor!

Quando Laura soltou o grito doloroso:

Meu Deus! afugentae esta lembrança fatal...

a vibração da sua voz maravilhosa foi tão pungente e tão vivida, que não podia deixar de ser palpavel para Antonino que era Laura quem se lamentava e não Valentina.

O visconde sentiu, por isso, percorrer-lhe as veias uma especie de terror gelado.{272}

Pensou que Laura o vira na sala, que era exclusivamente para elle que cantava, unicamente a elle que se dirigia.

Segundo as suas impressões, até então tudo se passara, por assim dizer, entre ella e elle.

Todavia no quarto acto teve que passar por um outro genero de prova.

Depois da benção dos punhaes, Raul fica só com Valentina.

Raul, por substituição n'aquella noite, era Lauretto Mina.

O dueto sublime começou.

Aquelle trecho de musica produz o que não poderia produzir qualquer outra arte, nem a pintura ou a poesia.

Explica, delinia, faz sentir o amor completo, o amor da alma e o amor dos sentidos.

Ha n'aquelle dueto assombroso, com todas as dilacerações da paixão, com todos os horrores do passado susto, todas as delicias e todos os extasis da voluptuosidade!

E Raul era Lauretto! e Valentina era Laura!

Antonino ouvira muitas vezes a parte de Valentina cantada por Laura.

D'antes, a Linda cantava aquelle dueto com o superior talento evirtuosidadeque possuia, com vigor e expressão.{273}

Jámais, porém, a ouvira cantar com aquella paixão e embriaguez.

N'outro tempo ella comprehendia, adivinhava.

Agora sentia, recordava-se.

No espirito d'Antonino passou como que uma hallucinação extranha.

Quando viu Laura—porque, para elle, aquella mulher deixára de ser Valentina—lançar-se, supplicante, aos pés de Lauretto—que já não considerava como Raul—acerbo ciume se apossou d'elle.

Pouco a pouco, o admiravel jogo physionomico da Linda acabou por dar á ficção uma realidade terrivel.

O salão, o publico, desappareceram.

Parecia-lhe que assistia, immovel e mudo, a uma verdadeira scena d'amor entre sua mulher e aquelle homem detestado.

E no cerebro fervia-lhe, confusamente, este pensamento:

—Por grande tragica que seja, poderia Laura, se Lauretto lhe fosse indifferente, envolvel-o em arrebatados abraços, dirigir-lhe tão ardentes supplicas? Poderia, se não o amasse, attrahil-o e retel-o contra o coração com tal accesso de ternura e de dôr?

Quando Laura dirigiu ao tenor o desesperado appello;

Fica, Raul, eu amo-te!

o visconde mordeu a mão para não gritar:{274}

—Miseravel!

Raul parte e Valentina cae desmaiada.

Antonino, no seufauteil, parecia ter desmaiado tambem.

Voltou a si aos primeiros compassos do terceto entre Valentina, Raul e Marcial.

A presença d'um terceiro personagem bastou, caso extraordinario, para o despertar d'aquelle terrivel pesadello, chamando-o á verdade da situação theatral.

Os olhos viram claro.

Laura passou novamente a ser Valentina para elle.

Desempenhava superiormente o papel d'um drama, nada mais.

Se ella representava com tanto ardor e enthusiasmo, se cantava o inegualavel dueto d'amor com tanta paixão pessoal, deixando n'elle, por assim dizer, a sua alma, não era um tenor qualquer que ella escongurava, que ella adorava com aquelle abandono e aquellas lagrimas, mas o homem que amava, o homem que não via, mas que estava sempre presente á sua imaginação, o homem que primeiro lhe revelára as alegrias celestes que podem gosar duas almas irmãs.

E Antonino sentia agora vontade de rir da horrivel visão que tivera, como se ri quando a luz do dia nos mostra os objectos sob as suas verdadeiras formas, deturpadas pela illusão das trevas. Estava já{275}completamente senhor de si quando o panno caiu, no fim do espectaculo, para de novo se levantar ás duas chamadas que o publico enthusiasmado fez a Laura.

O visconde sentia-se satisfeito pela resolução que tomara, antes de partir para Paris.

Sahiu, deu a volta ao edificio do theatro e entrou pela porta do palco, perguntando ao porteiro onde era o camarim demadameLaura Linda.

Entrou.

Ao atravessar um corredor, viu Lauretto Mina que sahia dofoyer.

O tenor, ainda vestido de Raul, ia de certo para o seu camarim. Ao ver Antonino, recuou admirado.

—O sr. de Bizeux! disse elle estupefacto.

Mas quasi immediatamente voltou-lhe a presença d'espirito, e accrescentou no tom de cortezia que exasperava Antonino:

—O sr. visconde procura sem duvidamadameLaura Linda?... É a segunda porta, n'esse corredor da direita. Creio quemadameLinda está só esta noite.

Antonino inclinou ligeiramente a cabeça, e passou sem responder.

Logo que o viu desapparecer no corredor que lhe indicára, Lauretto murmurou colerico:

—Delicadissimo, este neto de fidalgos! Bem, bem! Isto é para juntar ao total!{276}

Antonino parou em frente da segunda porta do corredor, e bateu.

Jacintha foi abrir.

Ao ver o visconde soltou um grito.

Deixou-o entrar para a especie de sala d'espera que antecedia o camarim, para o qual correu, gritando:

—Minha senhora... minha senhora... é o sr. visconde!

Laura, de penteador de cachemira branca, entrançava o cabello diante d'um espelho.

—O que dizes tu?... perguntou ella a Jacintha, voltando-se.

No limiar da porta viu Antonino, pallido, magro, d'olhos fundos, phantasma de si proprio.

Conservaram-se por algum tempo contemplando-se, sem fazerem um só gesto nem pronunciarem uma só palavra. Antonino disse por fim:

—Laura!

Depois caminhou para ella lentamente.

A Linda, indecisa, olhava-o estupefacta.

Ao chegar junto d'ella, disse-lhe em voz baixa e extraordinariamente terna.

—Minha Laura... amo-te!

Ella juntou as mãos, extasiada, e replicou:

—Meu Antonino!... És tu?... Ah! tambem eu te amo!{277}

Lançou-lhe os braços em volta do pescoço, alegremente.

Foi longo o abraço.

Por fim Laura desprendeu-se d'Antonino, e perguntou-lhe:

—Mas porque estás n'este estado?

O visconde respondeu, sorrindo:

—Vou contar-te tudo em duas palavras. Estive, durante mez e meio, entre a vida e a morte, mas mais proximo da morte que da vida. Ia-me matando uma terrivel febre cerebral. Todos me suppozeram perdido. Meu pae, afflictissimo, e de mais a mais illudido por uma abominavel denuncia anonyma, escreveu-te uma carta, que sem duvida te magoou muito. Elle está arrependido do que fez, e pede-te perdão. Eu, logo que estive em estado de partir, vim procurar te. Eis-me aqui.

Quiz tomal-a nos braços.

Ella impediu-o de realisar a intenção.

Fez-o sentar n'um canapé e ajoelhou no tapete, contemplando-o com paixão.

—Estiveste quasi a morrer, meu querido Antonino, e eu estava longe de ti! Porque não me chamaste?

—Estive muito tempo sem consciencia...

—Mas depois?

—Depois ias tu entrar para o theatro. Tinhas reclamado a minha palavra, não quiz privar-te da liberdade{278}promettida Não desejei ser um impedimento, um obstaculo á vontade que tinhas de voltar para o theatro, que é como o teu paiz natal. Álem disso, considerei-me obrigado a expiar algumas culpas, Eras tu que tinhas rasão, Laura, n'aquella funesta noite em que partiste. Que me importava a opinião d'estranhos? Não devia inquietar-me com os prejuizos da sociedade. Existe, porventura, a sociedade para o amor? A sociedade, para nós, somos nós proprios. Ama-me como eu te amo, e nada mais te pedirei. Que me importa que ames tambem Mozart, Beethoven e Meyerbeer? Não os amo eu tambem, principalmente por tua causa?

—Ah! como és bondoso! disse Laura. Sim, amas-me, sinto-o! A proposito: assististe ao espectaculo de hoje?

—Assisti.

—Não te vi, mas adivinhei-te!... Sentiste no meu canto que pensava em ti, não é verdade? Nem por um momento me esqueces quando desempenho o papel de Valentina, cheio dephrasesque parecem ter sido escriptas para a situação d'espirito em que me encontro. Aquella musica faz-me mal, especialmente depois que estou só, e comtudo sinto-me feliz quando a canto! E o dueto do quarto acto? Não é verdade que o canto agora melhor do que d'antes?

—Sim, sim, cem vezes melhor!{279}

Laura ajuntou, collocando as mãos sobre os hombros, do marido:

—Foste tu que me ensinaste a cantar aquelle dueto!

Antonino sentiu o coração innundado d'alegria.

A segunda impressão que tivera durante o espectaculo, não o havia enganado.

Era o seu amor, que Laura cantara tão apaixonadamente.

Ella proseguiu:

—A partir d'hoje vou amar sem reserva esse afortunado papel que duas vezes me trouxe a felicidade. Eis-te aqui, meu Antonino, és novamente meu. Estão reunidas as duas partes da minha alma. Eu tinha, por vezes, junto de ti, a nostalgia do theatro; mas, no theatro, tive sempre a nostalgia do teu amor!

Em seguida contaram-se mutuamente tudo o que os interessava.

Laura estava completamente entregue á sua querida arte.

A casa da rua Boudreau era pequena demais para receber os seus amigos d'outr'ora.

Apenas algumas vezes alli ia o dr. Despujolles, que a tratara d'uma bronchite.

Remissy, terminado o contracto que o retinha em Vichy, partira para a Italia, e devia passar o resto do inverno na Hungria.

Por sua parte, Antonino contava não receber ninguem{280}nos seus aposentos doboulevardHaussmann.

Era possivel que o pae viesse vel-o, mas só muito mais tarde.

—Bem, disse Laura satisfeita, sorridente, qual é a vontade do meu senhor e amo? Irei eu para sua casa, ou irá elle para a minha?

—Escuta, replicou Antonino, vou contar-te um sonho que tive durante os longos dias de convalescença. É provavel que aches n'elle o quer que seja de romanesco. Se te desagradar, dil-o com franqueza! Quebraste bruscamente a nossa vida em commum, que talvez fosse um pouco monotona para a tua alma d'artista. Se quizeres, viveremos agora d'outra forma. Recuperaste a tua liberdade; como tenho plena confiança em ti, deixo-t'a. Não serei mais teu marido, passarei a ser teu amante. Queres?

—Quero, sim, quero, porque é a verdade!

—Então nem eu irei para tua casa, nem tu te installarás na minha. Concede-me oito dias d'espera. Durante esse tempo encontrarei e prepararei em qualquer canto de Paris, um ninho, occulto, secreto, apenas por nós conhecido, onde ninguem poderá surprehender-nos ou incommodar-nos. Dar-nos-hemos entrevistas n'esse ninho, furtivamente, clandestinamente, de noite, como quem teme a policia. De dia seremos correctissimos. Eu irei visitar-te de tarde,{281}e tu convidar-me-has algumas vezes para jantar com Despujolles.

—Oh! mas isso é encantador! disse Laura.

—Agrada-te a minha idéa?

—Immenso!

—Bem! Havemos de ser muito felizes, verás. Está combinado. Chama Jacintha. Vou deixar-te, para só te tornar a ver d'aqui a oito dias. Necessito de todos os minutos d'esta semana para tratar da nossa felicidade. O que me fará diminuir o pesar d'esta separação, será lembrar-me que me occupo da minha querida Laura.

—E eu, durante esse tempo, só em ti pensarei!

Antonino levantou-se.

Laura, pegando-lhe nas mãos, disse:

—Troquemos, ao menos, o beijo dos esponsaes.

Beijaram-se longamente, ardentemente.

Depois, trocando um ultimo adeus, separaram-se.


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