XXIIIO amante legitimo

XXIIIO amante legitimoEm Paris, como em todas as grandes cidades, o dinheiro faz milagres.No dia seguinte pela manhã, Antonino percorreu o bairro da Magdalena em busca d'uma casa onde fizesse oninhopromettido.{282}Encontrou o que desejava na rua da Arcada, a meio caminho da casa de Laura e d'aquella em que elle vivia.Era o rez-do-chão d'um predio de dois andares.Ficava alguns degraus acima do nivel da rua, e tinha, além da entrada principal, á esquerda do vestibulo, para o qual se entrava por largo portão, uma entrada particular que abria para a rua.A casa era composta d'um salão, d'uma sala de jantar, d'um quarto grande e claro, cosinha e um outro quarto de menores dimensões.Arrendado o rez-do-chão, Antonino chamou um estofador dos mais conceituados de Paris, e depois de conferenciar com elle durante duas horas, ficou assente que moveis e estofos guarneceriam a casa.O estofador prometteu ter tudo concluido na tarde do setimo dia, tendo, para isso, que trabalhar no domingo d'aquella semana. E cumpriu.Era deliciosa a ornamentação, apesar de simples.Na sala de jantar, forrada de coiro de Cordova, elevava-se, em dois corpos, um aparador da Renascença, guarnecido de baixela de prata antiga e de faianças de Ruen, Nevers e Marselha.O fogão, de marmore de Nuremberg, era notavel pelo relevo das suas figuras biblicas.A mesa fôra coberta com um tapete de velludo de Gênes.{283}O movel principal do salão era um piano Erard, construido no esqueleto d'um cravo do seculo XVIII, todo coberto de pinturas no genero das de Boucher, representando a dansa d'amores e de nymphas, n'uma paisagem celeste.Ao fundo, as tres graças voavam para o Olympo.A cór viva da tapeçaria que forrava o salão fazia sobresahir os quadros que Antonino mandára vir da casa de Saint-Malo, duas paysagens de Lancret, uma Venus de Fragonard, e um duplicado do Gilles, de Watteau, assignado pelo mestre.Um lago, de Julio Dupré, defrontava com um outro, visto á hora crepuscular, de Corot.O quarto de cama era a maior casa do rez-do-chão.Dividiram-a, por tanto, fazendo-lhe aos lados, com divisorias, uns gabinetesinhos detoilette.O leito, do seculo XVIII, cinzento e dourado, de linhas simples, tinha por unico ornamento, na cabeceira, dois amores sustentando um medalhão, em que se viam dois LL entrelaçados e encimados por uma corôa.Dizia-se que aquelle leito pertencera a Luiz XV; mas os dois LL, para Antonino, queriam dizer Laura Linda.Nas paredes, côr de perola e cereja, avultavam seis pannos chinezes, bordados, representando paysagens{284}com figuras finamente desenhadas e admiravelmente coloridas.Viam-se por todos os lados tapetes, da Persia do mais raro bom gosto.Nem um só objecto que compunha a mobilia do rez do chão era de mediano valor.Mas, mais do que riqueza, impunha-se a elegancia e o fino gosto de quem presidira á decoração das casas.O estofador encarregára-se d'enviar da praça da Magdalena tudo o que respeitasse a cosinha.D'esta fórma apenas d'um creado necessitariam.Jacintha estava naturalmente indicada para esse serviço.Laura e Antonino podiam contar com a dedicação e a discrição da creada.Ella bastaria para servir á meza e para vestir a cantora.O visconde mandou mobilar para Jacintha o outro quarto da casa.Como a ornamentação não destoasse da restante, Jacintha, satisfeitissima, declarou que nunca tivera quarto mais bello.Com um simples toque de campainha, ella estaria em tres segundos junto de Laura, quando os seus serviços fossem necessarios.A nova casa foi inaugurada á hora prefixa, precisamente{285}oito dias depois da representação dosHuguenottes.N'essa noite a Linda cantava oRoberto o Diabo.Antonino levou-a, com Jacintha, logo que o espectaculo terminou, encantado,—tanto como ella, de resto,—da sua nova felicidade conjugal.Combinaram, como regra geral, mas sem prejuiso de quaesquer outras noites, que elles partiriam para oninhoem seguida a cada representação, quando Laura estivesse ainda vibrante da emoção que lhe causassem os applausos, e duplamente palpitante da vida do papel que desempenhára e da vida propria.Antonino assignára umfauteuild'orchestra junto á scena.Como d'antes, applaudia pouco a Linda, não juntava as suas ás acclamações que a chamavam nos finaes d'acto.Mas como d'antes, mais do que d'antes talvez, saboreava em silencio o extasi em que o mergulhava a voz da mulher adorada.Ella, pelo seu lado, não lhe sorria, não o olhava.Mas sabia que o visconde estava proximo, conhecia a cadeira em que elle se sentava, e como era para Antonino que cantava, jámais cantara melhor.O visconde nunca mais sentiu ciumes de Lauretto Mina, ou de quem quer que fosse.Ambos se consideravam felicissimos por aquella{286}encantadora vida, alegre como a phantasia, doce como o habito.O creado d'Antonino, de cada vez que o visconde não dormia em casa, dizia que elle ficava em casa de Linda.Os creados da cantora sempre que ella só de manhã voltava para casa, pensavam que Laura tivesse passado a noite em casa do visconde.Geralmente Antonino voltava para oboulevardHaussmann ao amanhecer.Laura, porém, só deixava o ninho a hora adiantada da manhã.Sahiam e entravam sempre pela porta que abria para a rua.O porteiro, que tinha o seu cubiculo no vestibulo do predio, nunca vira a Linda.De dia os dois esposos viam-se officialmente.Passeavam de dia no Bosque, de carruagem, e á noite partiam juntos para o theatro.Antonino, uns dias por outros, mandava presentes a Laura: flores ou joias.De tarde visitava-a, invariavelmente á mesma hora, e jantava com a esposa muitas vezes.Sempre, porém, que Laura não estava só, elle retirava-se conjuntamente com as outras visitas, d'ordinario o dr. Despujolles, ou raros outros amigos.{287}Laura recebia menos admiradores na casa da rua Boudreau, do que d'antes na rua de Bolonha.Reatára apenas relações com tres ou quatro admiradores mais intimos, e que o eram tambem do visconde.Todos elles tinham estado, n'outro tempo, mais ou menos apaixonados pela Linda.Mas como eram homens bem educados, e de mais a mais amigos d'Antonino, que consideravam o amante official de Laura, não faziam a côrte á diva.Apenas não tinham perdido completamente a coragem.Pensavam que mais cedo ou mais tarde conseguiriam os seus fins, e esperavam com paciencia digna de melhor sorte.Lauretto Mina, mais indelicado que elles, não guardava a mesma reserva nem possuia identica paciencia.No mundo dos bastidores sabe-se tudo o que respeita a qualquer artista.O tenor sabia portanto, a situação em que se encontravam Laura e o visconde, e agourava bem d'essa situação.Um dia disse á Linda, nofoyerdos artistas, motejando:E então, minha querida, tinha ou não razão quando lhe dizia na ilha de Cézambre,—lembra-se?—que{288}o seu casamento não me parecia dos mais serios? Os habitantes de Saint-Malo, que não primam pela finura, parece que viram o demonio quando tiveram conhecimento de semelhante união. De resto, acho que procedeu sensatamente definindo a sua situação. Vale mais ter um amante certo, de que um marido duvidoso.—Sinto-me satisfeitissima por merecer a sua approvação! respondeu Laura no mesmo tom.—Por esta fórma, proseguiu Lauretto, todos terão esperanças. Os que estão apaixonados pela sua pessoa,—e eu creio que pelo menos conhece um,—veem agora augmentar infinitamente o numero das probabilidades favoraveis.—Suppõe isso? Pois eu supponho que o numero de probabilidades não augmenta nem diminue pelo facto do sr. de Bizeux ser meu marido ou meu amante. O que influirá n'esse numero é que eu ame ou não o sr. de Bizeux.—Perdão! o caso é diverso! insistiu o tenor.E accrescentou, dirigindo-se ao baritono, que n'esse momento entrava nofoyer:—Não é verdade, Gressier, que amando eu Laura Linda, tenho mais probabilidades de conseguir os meus fins defrontando-me com um amante de que tendo na frente o marido?—Está enganado, sr. Lauretto Mina, apressou-se{289}Laura a responder sem dar tempo a que o baritono fallasse. Não é porque eu ame um outro homem que não o amaria ao sr. Posso não amar ninguem, que nem por isso lhe pertencera o meu amor.E voltando as costas ao tenor, sahiu.—Ah! ah! decididamente não avanças um passo, meu caro! disse Gressier, rindo.—Engano! respondeu seccamente Lauretto, que empallidecera extraordinariamente. Estou quasi a attingir o meu fim, e em breve te darei provas irrefutaveis do que avanço.Laura, passado o primeiro momento, arrependeu-se de provocar a irritação do tenor, respondendo-lhe por fórma a feril-o no seu amor proprio.Agora mais do que nunca ella temia um possivel conflicto entre Antonino e Lauretto.Lembrava-se incessantemente das palavras, prefurantes como laminas, que o tenor pronunciára uma noite, sentado tranquillamente junto ao fogão dofoyer.Fallava-se d'um duello realisado n'aquelle dia, que tinha chamado a attenção de toda a gente.—Ora adeus! dissera Lauretto. As galerias facilmente se commovem pelos duellos d'agora, que quasi sempre terminam por simples arranhaduras! Por mim, estou resolvido a nunca provocar ninguem, e, mesmo quando provocado, a só me bater se o insulto{290}recebido fôr d'ordem a não acceitar desculpas, porque eu, infelizmente, não arranho nem firo, mato.Era por essa razão que Laura deligenciava não sentir-se offendida pelas impertinencias que o tenor lhe dirigia por vezes.Fingia não as comprehender, e até não as ouvir.Ella era tão feliz!...E aquella felicidade que gosava, prolongou-se por tres mezes, sem uma só nuvem que a escurecel-a.Antonino, pela sua parte, só tinha um desejo: tornar a ver seu pae.Mas o conde, a quem o filho não quizera occultar o que elle chamava o seu romance, não queria, por dignidade, ir a Paris emquanto durasse uma tal situação.—Acautella-te, escrevia elle ao visconde, occultas tua mulher como se occulta uma amante. Acho perigoso esse teu procedimento. Não me parece razoavel tentar o perigo, misturar o que ha de mais serio e de mais sagrado no amor com o disfarce, com a mascara, com a aventura.Seria isto um presentimento da fina intuição paterna?Uma noite, pelas quatro horas da madrugada, Laura, envolvida n'um largo manto, foi, segundo o costume, acompanhar e alumiar seu marido até á escada que descia para a rua.{291}Demorou-se no patamar até que Antonino, sahindo, fechou a porta sobre si.Ao entrar no quarto, a Linda soltou um grito.Lauretto Mina estava sentado na cadeira de que pouco antes Antonino se levantara.XXIVJacinthaJacintha, como já dissemos, tinha por Laura uma dedicação sem limites.Far-se-ia matar pela cantora, e, se a diva morresse, ella não lhe sobreviveria por muito tempo, com certeza.O peor era que a creada não possuia apenas a fidelidade canina do irracional.As admoestações, as severidadese as irritações de Laura faziam-a chorar deveras, porque possuia um bom coração.Mas arrependia-se e não se emendava.A Venus antiga divertia-se, ligando-se completamente áquella humilde presa.Por infelicidade, a belleza picante de Jacintha, os seus grandes olhos pretos e brilhantes, a tez morena{292}e fresca d'andaluza, a cintura delicada e o agradavel conjuncto de toda a sua pessoa, davam-lhe um grande numero de cumplices.Lauretto Mina, como indicámos, pertencera a esse numero.O formoso tenor não desdenhára colher aquella flôr modesta.Colhera-a e passára.Não era homem para perder muito tempo em negocios de semelhante natureza.Apesar d'isso Jacintha ficára singularmente lisongeada por contar, na collecção dos seus admiradores, umartista, um verdadeiro artista, de que grande quantidade de damas da primeira sociedade tinham disputado a posse, segundo ella suppunha.Em Saint-Malo, na numerosa creadagem das casas proximas, Jacintha, sempre picante e attrahente, fôra muito cortejada.E não tinham sido apenas os creados a darem-se a esse passatempo.Os proprios patrões deram-se ao incommodo de render homenagens á creada de Laura.Afinal, na grande sociedade—está provado!—as cosinhas não recebem peor gente que os salões.Lembrar-se-hão sem duvida que, na manhã em que Laura resolvera abandonar a casa de seu marido, encontrára vasio o quarto de Jacintha.{293}No dia seguinte, quando a creada se reuniu á cantora em Paris, Laura admoestou-a com toda a severidade, como costumava.Sem se incommodar com a torrente de lagrimas que corria pelas faces de Jacintha, e com as quaes a creada tratava lavar a falta commettida, Laura demonstrou-lhe quanto era indigno um procedimento d'aquella ordem.Disse-lhe que a devia abandonar completamente.Mais uma vez, porém, lhe perdoaria, sob condição de Jacintha lhe dar a sua palavra de que não voltaria a praticar o menor desmando.E affiançou-lhe que, no primeiro caso dado, a encontraria inflexivel.Jacintha, desfeita em lagrimas, prestou todos os juramentos possiveis.Tomou para testemunhas todas as virgens da côrte do ceu, promettendo seguir os seus exemplos.Antes quereria perder a vida do que ser abandonada por Laura.A admoestação aproveitar-lhe-ia.Jámais o demonio se apossaria dos seus sentidos.Laura fingiu acreditar nas promessas de Jacintha, que, sem serem solidas, eram com certeza sinceras.Entretanto tomou algumas precauções.Resolveu não admittir creados moços na sua modesta casa da rua Boudreau.{294}Escolheu um casal já idoso.O marido tinha cincoenta annos e a mulher quarenta e cinco.Durante tres mezes Jacintha foi um verdadeiro modelo de honestidade.Nunca sahia só, e quando acompanhava Laura ao theatro jámais transpunha a porta do camarim.Mas no momento da chegada do visconde a Paris, os seus remorsos começavam a cicatrisar.A installação mysteriosa no rez-do-chão da rua da Arcada produziu-lhe terrivel effeito.Laura, porém, percebeu sem perda de tempo que Jacintha começava novamente a andar mais ligeira.Aquella acceleração de movimento no corpo correspondia a movimentos, accelerados tambem, no espirito.Ao ver a felicidade que disfructava Laura, sentia extraordinaria melancholia.—Como o sr. visconde ama a senhora! murmurava ella. Ah! a senhora é bem feliz!...—Se continuares a portar-te bem, dizia-lhe Laura, acharás qualquer dia um bom marido.—A senhora achou, respondia Jacintha, mas eu, para o achar, necessitarei procurar.Uma busca d'este genero é sempre um perigo para uma natureza inflammavel. Se Laura, n'aquella occasião, tivesse reparado, comprehenderia o perigo, verificaria{295}que a virtude começava a ser demasiado pesada para Jacintha.Uma noite, ao atravessar um corredor do theatro, a creada deu de cara com Lauretto Mina.O tenor pôz-lhe uma das mãos na fronte, levantou-lhe o queixo com a outra, e disse-lhe:—Sabes que estás cada vez mais bonita? Declaro-te que nunca te amei tanto como agora.Não se contentou com palavras.Passou-lhe um braço em volta da cintura, levou-a para um canto pouco alumiado, inclinou-lhe o corpo para traz e deu-lhe um demorado beijo na bocca.Jacintha voltou para o camarim muito perturbada.O seu quarto na rua da Arcada era tão bonito!Devia haver muitas senhoras que o invejassem!Esta circumstancia foi mais uma tentação.Pois só ella é que havia admirar aquella verdadeira belleza?Era possivel que o tenor, mesmo em casa de duquezas, não tivesse visto um quarto tão encantador como aquelle.Jacintha por coisa alguma trahiria Laura.Em tempo, Lauretto Mina tinha tido a prova d'essa verdade.Não se arriscou, por isso, a fazer-lhe perguntas directas sobre o visconde ou sobre a Linda.Mas, depois d'uma scena de seducção admiravelmente{296}bem desempenhada pelo tenor, uma noite, durante um entre-acto, Jacintha foi forçada a dar-lhe todas as indicações necessarias, para que elle podesse entrar n'aquelle delicioso quarto, que para ella era um verdadeiro ninho d'amor.Pela uma hora da manhã, em quanto Antonino e Laura estivessem á mesa, ceiando, ella iria abrir-lhe a porta da rua, e, pelo longo corredor, para o qual abriam todas as portas interiores, introduzil-o-hia no quarto. Depois iria ter com elle, logo que os dois esposos se deitassem.O tenor sahiria, entre as quatro e as cinco horas da manhã, quando o visconde tivesse partido.Nada era mais simples, mais facil, mais seguro.Foi assim que, na noite de que já fallámos, Lauretto Mina estava ás tres horas e meia da madrugada no quarto de Jacintha.Áquella hora a creada dormia profundamente.Lauretto levantou-se sem fazer ruido.Sobre a meza da cabeceira estava acceso um candieiro.O tenor tirou uma navalha da algibeira, abriu-a, e cortou os cordões d'um reposteiro.Em seguida voltou ao leito, pegou na mão direita de Jacintha e approximou-a levemente da esquerda.Ella descerrou vagamente as palpebras e perguntou:{297}—Já te levantaste?—Não, não, respondeu o tenor. Ainda é cedo.Reuniu bruscamente as duas mãos e, n'um segundo, ligou os pulsos de Jacintha com tres ou quatro voltas do cordão, que atou n'um nó rapido. Ella accordou sobresaltada e tentou gritar.Mas o tenor applicou-lhe sobre a bocca uma mordaça que levava, prendendo-lh'a solidamente atraz do pescoço.Jacintha deu com os pés na roupa da cama, tentando saltar do leito.O tenor ligou-lhe os pés com o cordão, como lhe ligara as mãos.Em seguida verificou se todos os nós estavam bem dados.Assim presa, Jacintha apenas podia fazer alguns movimentos quasi imperceptiveis, que Lauretto impossibilitou ainda comprimindo-a com a roupa da cama.Depois, o tenor vestiu-se lentamente.Entreabriu a porta do quarto, e escutou.Voltou para junto do leito, e vendo que Jacintha não se movia, destapou-a, inquieto, e tirou-lhe a mordaça.A infeliz estava desmaiada.O ar livre que respirou, reanimou-a um pouco.Antes que a creada recuperasse completamente os{298}sentidos, Lauretto tornou-lhe a pôr a mordaça, mas apertando-lh'a menos, e deixando-lhe as narinas a descoberto.Depois voltou novamente para junto da porta.Sentiu o visconde sahir, sendo acompanhado por Laura até á escada.Ouviu as palavras de despedida que ambos trocaram.Então transpôz o corredor, abriu a porta do quarto de Laura, e entrou.Jacintha, que recuperara os sentidos, viu e comprehendeu tudo.O miseravel armara ardilosamente aquelle laço á sua fraqueza, e ella cahira estupidamente, como uma ingenua.Não era por ella, mas por Laura, que elle ali fôra.A Linda, é claro, não tornara a sua creada de quarto confidente das impertinencias de Lauretto.Jacintha, porém, recordava-se agora de certas circumstancias e d'algumas palavras pronunciadas pelo tenor.Não podia duvidar.Era Laura quem elle desejava.A Linda estava n'esse momento á discrição do insolente.E fôra ella, Jacintha, ella, que teria dado a vida pela cantora, que a entregara áquelle miseravel!{299}Ao ter este pensamento a infeliz sentiu-se gelada de pavor.Deixaria ella commetter um tão infame crime?Apenas podia soltar alguns gemidos inarticulados.As mãos e os pés ligados paralysavam-lhe todos os movimentos. Como arrancar a mordaça?Como cortar os cordões que a atavam?O tempo passava, e ella não achava que responder áquellas perguntas.As lagrimas corriam-lhe pelas faces.Olhou para o candieiro acceso.Lauretto achara desnecessario apagal-o. Para que?Subitamente accudiu-lhe ao espirito uma idéa.Nem um instante hesitou.Encolheu-se, torceu-se, rebolou-se, e, lentamente, firmando-se nos cotovellos e nos joelhos, conseguiu elevar-se pouco a pouco, acima do travesseiro.Esta operação difficultosa durou dez minutos.Quando chegou com as mãos ligadas até ao angulo do leito, agarrou-se a elle, e, com um esforço acabou de se elevar.Então, com um movimento decidido, chegou á luz do candieiro os cordões que lhe prendiam os pulsos, que foram tambem attingidos pela chamma.A dôr era insupportavel.Por vezes, sentindo-se prestes a soltar um grito, retirava os pulsos da luz.{300}Mas em seguida, considerando aquelle facto como uma indesculpavel cobardia, chegava novamente á chamma a carne já queimada.Uma das voltas do cordão quebrou por fim.Mas não era a que formava o nó.Foi indispensavel continuar a tortura, com todas as precauções e cuidados.E sentia-se feliz por poder dizer de si para comsigo:—Soffre, leviana, soffre o castigo da tua falta!O cordão cedeu emfim.Então, com um movimento rapido, desembaraçou-se dos bocados que ainda a prendiam, e, sem reparar para o misero estado em que tinha os pulsos—porque o tempo urgia—sentou-se na cama, e desligou os pés, ainda que com bastante custo.Levantou-se, procurou uma tesoura, e cortou os cordões da mordaça.Estava livre!Vestiu-se sem perda d'um segundo.As mãos, tremulas ainda pelo supplicio supportado, difficilmente cumpriam a sua missão.Sentia-se banhada em suor frio.Não prestou attenção á fórma pela qual se vestia.Pensava.O que deveria fazer? Acordar o porteiro? Esse meio poderia ser bom meia hora antes. N'aquelle momento,{301}como era possivel que o crime estivesse consumado, era necessario não fazer escandalo. N'aquelle negocio não devia intervir qualquer pessoa estranha.Logo que se apromptou, metteu na algibeira o dinheiro que pozera sobre a meza, e seguiu pelo corredor, abafando o ruido dos passos.Parou em frente da porta do quarto de Laura e escutou.Não duviu o menor rumor.Aquelle silencio seria de bom ou de mau presagio?Não se atrevia a decidir.Continuou pelo corredor, desceu a escada, abriu cautellosamente a porta e achou-se na rua, deserta áquella hora.XXVO infameSe não fosse fatuo e mau como era, Lauretto Mina, ao entrar no quarto de Laura, teria apagado a lampada que o alumiava.Depois, quando a cantora voltasse, soprando a chamma do candieiro que ella trazia, tel-a-hia tomado{302}por surpreza na sombra, e a Linda podia então considerar-se perdida.Mas elle quiz saborear o seu triumpho, divertir-se com o temor e mesmo com a colera da cantora.Portanto mostrou-se, apresentou-se.—Boa noite, minha querida Linda, disse elle levantando-se logo que Laura entrou. Não te admires nem te assustes por me veres em tua casa a hora tão adiantada da noite. As minhas intenções são tudo o que ha de mais amigaveis, e estou certo que havemos de nos entender.Laura olhava-o petreficada, sentindo como que fugir-lhe a razão.O tenor proseguiu:—Se entrei aqui, empregando meios menos usados e algum tanto violentos, a culpa foi tua. Estou, como muitos outros, loucamente apaixonado por ti. Mas isso não é uma razão para me escarneceres, para me tornares ridiculo para com os nossos collegas, e para mofares de mim com o visconde, teu amante. Tens procedido commigo imprudentemente. Resolvi desforrar-me. Para o conseguir conquistei um coração mais sensivel que o teu, o da Jacintha. Ella introduziu-me na praça—e eis-me aqui!—Foi bem combinado o assalto, respondeu Laura fazendo um gesto de resignação.Voltára-lhe a presença d'espirito.{303}Como se conservasse no limiar da porta, passou resolutamente em frente do tenor e entrou no quarto.—Estimo que acceites a situação com essa desenvoltura! disse Lauretto sorrindo victoriosamente.Como ella não respondesse, o tenor continuou:—Para que me havias de receber com ares tragicos? Tens razão. Jámais se devem desprezar estas palavras: amo-te!Laura encostára-se a uma secretária Riesener.O tenor estava na frente d'ella. Elle proseguiu:—Pois não é verdade que é absurdo fazer barulho por causa d'um beijo?Caminhou para ella ao acabar de pronunciar aquellas palavras.Laura abriu rapidamente com a mão esquerda a gaveta da secretaria, pegando, com a direita, n'um objecto que estava dentro.E repentinamente, como Lauretto se approximasse mais, visou-o com um revolver que acabava de engatilhar.—Se dá um só passo mais, mato-o! gritou ella.Lauretto empallideceu horrivelmente.Mas replicou, tentando sorrir-se:—Suppunha-te mais sensata. A menos que não estejas brincando...—Prohibo-o de me tratar por tu, disse Laura ameaçando-o novamente com o revolver.{304}—Perdão, sr.ª viscondessa, respondeu o miseravel inclinando-se com afectação, para dissimular o estremecimento que lhe percorreu todo o corpo. Não considero de bom gosto ameaçar com um revolver um homem desarmado, entretanto...E ia dar mais um passo.Laura, porém, fel-o parar, dizendo com energia:—Não se mecha, ou disparo! E previno-o de que não repetirei o aviso. Acautelle-se! Tenho na mão uma arma admiravel, de precisão extraordinaria. Comprei-a no Mexico, quando nos internamos na região dospampas. Ao dar um passo terá quatro balas no corpo.Ella fallava n'um tom firme e resoluto, tanto mais para admirar, quanto era certo que omittia um pormenor importante.O revolver estava descarregado.Suppozera, e com razão, que um homem capaz de proceder como Lauretto Mina, não podia deixar de ser cobarde.Ao ouvir Laura, o tenor teve uma idéa, que mais o assustou.Lembrou-se que o tiro podia partir, mesmo sem que a cantora puxasse pelo gatilho.Entretanto, fazendo-se forte, disse:—Acautelle-se tambem, porque ao primeiro tiro precipitar-me-hei, e então...{305}—Socegue, interrompeu a Linda. Sei servir-me bem d'este revolver. Tinha o direito, se quisesse, mesmo sem que o senhor chegasse a vias de facto, de o matar como se mata um cão hydrophobo. Mas a vista do sangue horrorisa-me. Conserve-se quieto, e nada terá a temer.Um pouco mais socegado, o tenor disse, ao cabo d'alguns minutos de silencio, com riso forçado:—Nada d'isto tem senso commum! Ficaremos aqui toda a noite, a olhar um para o outro, como dois cães de faiança?Laura não respondeu.Conservava-se immovel como uma estatua.—Permitte-me, ao menos, que me sente? perguntou elle.Ella replicou:—Pode sentar-se. Tem ahi proximo uma cadeira. Mas previno-o de que, uma vez sentado, o prohibirei de se levantar.—Percebo, ficaria com uma vantagem a mais. Pois conservar-me-hei de pé.—Faria melhor sahindo d'esta casa. Deve seguir o conselho, que é bom.—Devéras?... disse Lauretto indiciso.Perguntou a si proprio se, realmente, o mais prudente não seria bater em retirada.Aquelle revolver imprevisto mudára a situação.{306}O negocio falhára, decididamente.Mas deveria fugir cobardemente d'uma mulher?No dia seguinte ella contaria a aventura ao amante, e talvez aos collegas, que com razão o escarneceriam. Fugir, era, pois, impossivel.Era indispensavel sustentar a situação até ao fim, custasse o que custasse.Depois d'alguns minutos de reflexão, Lauretto disse com voz um pouco mais firme:—Não partirei. Tenho ainda pelo meu lado uma probabilidade.—Qual?—Ha vinte minutos que nos olhamos fixamente; eu, que não tenho uma arma na mão, sinto-me já fatigado. Pesa-me a cabeça e cerram-se-me as palpebras. O relogio marca quatro horas e trinta e cinco minutos. Só amanhecerá d'aqui a hora e meia. Quando nos tivermos hypnotisado mutuamente, veremos se o seu olhar não se turbará, se os seus joelhos não se dobrarão, se o braço não se baixará por si proprio. Veremos se a gallinha não acabará fatalmente por ser magnetisada, immobilisada... e tomada pela raposa!—Veremos! respondeu Laura apertando com mais força a coronha do revolver.Desde esse momento guardaram ambos o mais absoluto silencio.{307}No quarto ouvia-se apenas o tic-tac monotono da pendula.O relogio deu os tres quartos para as cinco horas.Os minutos passavam com uma lentidão mortal.Laura sentia, com temor crescente, que o miseravel dissera a verdade.A tensão enorme em que desejava conservar o espirito fazia-lhe diminuir as forças do corpo.Via como que sombras passarem-lhe pela frente; sentia nos ouvidos um ruido extranho, as pernas dobravam-se-lhe, e a custo conservava o braço meio estendido, empunhando o revolver.O que mais a angustiava era a arma estar descarregada.Se assim não fôra, mesmo dada a hypothese do desfallecimento, poderia defender-se contra uma aggressão subita, ferindo ou pelo menos assustando o seu inimigo.Emfim, haveria lucta, em que o maior numero de probabilidades estaria do seu lado.Mas se, aproveitando um momento de torpor, Lauretto se precipitasse sobre ella, e a agarrasse, a Linda nada mais tinha na mão do que um bocado d'aço e de madeira, não poderia defender-se.E como que ouvia o grito de triumpho soltado por Lauretto, e o rir infame d'aquelle miseravel.O relogio deu cinco horas.{308}Laura sentiu necessidade de interromper aquelle silencio pesado e d'ouvir uma voz humana, ainda que não fosse senão a propria.Disse portanto em voz alta:—Cinco horas!Lauretto replicou, e ella escutou-o quasi satisfeita:—Faço-lhe os meus cumprimentos. Possue energia rara em mulher. É triste que não empregue essa energia ao serviço de melhor causa. Admittindo mesmo,—o que é duvidoso,—que consiga sustentar até ao fim esse magnanimo esforço para preservar a sua honra, nem por isso ficará menos deshonrada. Quer saber como?Laura não respondeu.O tenor proseguiu:—O meu amor é muito sincero e ardente. Se não fosse para a possuir não poria em pratica esta tentativa arrojada, ou criminosa, segundo o modo de ver de cada um de nós. Mas o meu amor proprio está agora comprometido n'esta empreza tambem. A sr.ª, ha muito tempo, tem-me despresado, motejado, ridicularisado; eu, declarei, jurei publicamente, que mereceria todo o seu desprezo se não conseguisse tel-a um dia nos meus braços. Por emquanto ainda não perdi a esperança, e espero, até, conseguir em breve o fim desejado. Em todo o caso, mesmo na peor das hypotheses, deve concordar que as apparencias são{309}por mim. Por agora pouco importa que eu seja ou não seu amante. O essencial é que, para os espectadores, o pareça. Ora parecel-o-hei, evidentemente...Laura sorriu com desdem.Elle continuou:—Deixe-me acabar e ria depois. Medite,—porque ainda é tempo,—e verá que o que mais lhe convém é baixar o revolver e entregar-se á minha generosidade. Procederei como um perfeito cavalheiro, desde já o declaro. Mas reservar-me-hei o direito de fallar, e previno-a de que fallarei. Será essa a minha compensação e a minha desforra.O tenor fez uma pausa.A Linda deu aos hombros despresadoramente.—Imagina que não me acreditarão? Ouça: limitar-me-hei a affirmar que a tive esta noite nos meus braços. Estamos sós: quem poderá contradizer-me? É de suppor que o visconde de Bizeux me peça explicações; espero mesmo que isso succeda. Recusar-me-hei a dar-lh'as. Elle esbofetear-me-ha e eu matal-o-hei, porque desgraçadamente succede-me esse precalço sempre que me bato. Não será em virtude d'esse duello em perspectiva e da morte do visconde que as minhas palavras deixarão de ser acreditadas, ao contrario. Mas haverá mais do que as minhas palavras, haverá provas e testemunhas. A prova eil-a: ao entrar vi sobre aquella mesa o seu retrato em miniatura,{310}ao lado do retrato do visconde. Dei-me pressa em guardal-o—para possuir uma recordação sua. Eis o testemunho: pela manhã sahirei, não pela porta que deita para a rua, mas pela que abre para o vestibulo. O porteiro, ao ver-me, perguntar-me-ha sem duvida quem eu sou e d'onde venho a hora tão matinal, e eu responder-lhe-hei que me chamo Lauretto Mina, que sou tenor da Opera, e que saio de casa da sr.ª Laura Linda, amante do sr. visconde de Bizeux...—É engenhoso, mas um pouco cobarde! disse uma voz por detraz de Lauretto.A cantora soltou um grito d'alegria.—Antonino! disse ella.O tenor voltou-se admirado, e viu na sua frente Antonino de Bizeux, de braços cruzados sobre o peito, dominando-o, com a alta estatura do seu corpo herculeo.Na sombra do corredor, Lauretto viu Jacintha, pela porta entreaberta. Lançou em volta um olhar assustado, como que procurando por onde fugir.Antonino bateu-lhe pesadamente com a mão no hombro.Laura, deitando fóra o revolver inutil, correu para o marido.O visconde disse, dirigindo-se ao tenor:—É triste que eu venha desmanchar as suas combinações{311}infames. Graças á coragem e á dedicação d'aquella pobre rapariga que me foi chamar, eil-o preso no proprio laço que armou. Ao que parece é forte em violentar e insultar mulheres, mas defronte d'um homem não faz tão boa figura.Lauretto respirava a custo sob o peso da mão de Antonino.Apenas teve força para balbuciar:—Senhor... estarei ás suas ordens... quando quizer...—Na realidade? Consente em dar-me razão? Pois não sabe, miseravel, que quando se apanha um patife da sua especie em flagrante delicto d'attentado nocturno e de roubo... (com a mão que tinha livre procurou na algibeira de Lauretto e tirou d'ella a miniatura de Laura, que lançou sobre a mesa) só ha a escolher entre entregar o mariola á policia ou de lhe pegar pelas orelhas e lançal-o pela porta fóra a ponta-pés? Não sabe? Pois fique sabendo que n'um caso d'esta ordem o infame nunca offende. Teria graça considerar-me eu offendido e bater-me com o gatuno que me roubasse a bolsa!—Ouça-me, senhor, replicou Lauretto tremendo-lhe a voz de medo, de vergonha e de colera. Ouça-me: n'este momento estou á sua discrição, é verdade, mas aconselho-o a que não abuse da sua vantagem.Deixe-me sahir d'aqui sem ruido nem escandalo. Asseguro-lhe{312}que isso será mais conveniente não só para mim, como tambem para o senhor e para esta senhora.—Concede-lhe o que elle pede, meu amigo, disse Laura intervindo. Que parta, com a raiva de ver abortado o seu crime, e que não ouçamos mais fallar d'elle.—Sim, sr. visconde, deixe-o partir! repetiu Jacintha do corredor, com voz timida.—Pois quê! Este homem fez-te passar, Laura, por angustias mortaes, fez soffrer a essa rapariga a mais horrivel tortura moral e physica, e ha de sahir d'aqui socegadamente para acabar na cama a noite que tão mal começou? Ah! eu considerar-me-ia tão cobarde como elle, se lhe concedesse a impunidade que pedem. Dizes, Laura: que parta, e que não ouçamos mais fallar d'elle? Mas não ouves as ameaças que o biltre acaba de pronunciar? Elle irá ámanhã dizer por toda a parte que passou a noite aqui, que eu cheguei muito tarde! Sinto ferver-me o sangue, pensando em tal. Se não estivesses presente, tosal-o-hia por fórma que jámais se esqueceria d'esta noite!E ao mesmo tempo que fallava, sacudia violentamente Lauretto, que tremia.—Não estarei eu em frente d'um homem bem educado?... atreveu-se elle a dizer.—Está em frente d'um justiceiro!{313}—Como?... O que vae fazer?...—O que o senhor proprio projectava.Antonino largou o hombro de tenor, e agarrou-o pelo casaco.—Vamos... venha!...—Não quero!... deixe-me!... murmurou Lauretto debatendo-se em vão. Protesto contra as suas indignas violencias!O visconde apenas respondeu sorrindo desdenhosamente.—Não lhe faças mal! aconselhou Laura em voz baixa.Mas Antonino nada escutava.Estava possuido da mais profunda colera, colera fria, que é a mais terrivel.Repetiu—Vamos!... venha!...E accrescentou, dirigindo-se á creada:—Jacintha, alumia-nos. Sahimos pela porta do vestibulo.Arrastou pelo corredor fóra o tenor, que empregava inoffensiva resistencia, e chegou assim á porta que dava para o vestibulo do predio.Jacintha seguia-o, tendo um candieiro na mão tremula.Laura, anciosa, caminhava alguns passos mais atraz.{314}Desceram ao vestibulo.Em frente do cubiculo do porteiro, o visconde gritou com voz forte:—Sr. Durandeau! peço-lhe que se levante e abra-nos a porta.Segurava Lauretto apenas com uma das mãos.O tenor, de labios trementes, pronunciava ameaças e palavras indistinctas.O porteiro appareceu pouco depois á porta do cubiculo, em mangas de camisa e de chinellas.—O que suceedeu? perguntou elle vendo Lauretto. É um ladrão?—Peor do que isso, respondeu Antonino. Este biltre introduziu-se em minha casa com intenção de violentar a creada de quarto!—Oh! que patife! disse o porteiro!Depois, reparando para o rosto apavorado de Lauretto, submettido ao pulso nervoso d'Antonino, ajuntou:—Que cara de velhaco! Sabe quem elle é, sr. visconde?—Sei. Chama-se Lauretto Mina, e é cantor da Opera.O porteiro abriu a porta.Antonino, pegando no tenor pelas espaduas, arremeçou-o para a rua.Em seguida lançou para o passeio o chapéu e o sobretudo{315}do tenor, objectos que Jacintha trouxera na mão, cuidadosamente.A porta foi fechada quasi immediatamente depois.Lauretto, pallido pela colera, rangendo os dentes, voltou-se, e estendendo o punho cerrado para a porta, murmurou enraivecido:—Chegar-me-ha a vez!E distanciou-se com passo rapido.XXVIO desafioAo entrar no quarto de sua mulher, Antonino encontrou Jacintha ajoelhada aos pés de Laura, dizendo-lhe arrependida:—Oh! minha senhora, perdôe-me!Levantou a creada e contou o que ella fizera, a sua presença d'espirito, a sua coragem.—Sahiu, metteu-se n'uma carruagem que encontrou noboulevardMalesherbes, e foi chamar-me a casa. Felizmente eu não me deitára ainda, e vim immediatamente. Foi ella que causou todo o mal, mas devemos confessar que foi ella tambem que tudo remediou.{316}Laura socegou Jacintha, consolou-a.Pelas suas proprias mãos envolveu em algodão em rama os pulsos queimados da creada de quarto, emquanto não podesse ser feito outro tratamento, acompanhou-a ao quarto, deitou-a, e só a deixou quando a viu adormecida.Voltou para junto d'Antonino.Até então podéra conter-se, mas a reacção veiu, por fim.Cahiu sobre umfauteuile chorou, murmurando:—Ah! que noite! que scena!...—Socega, minha querida Laura, disse-lhe Antonino pegando-lhe nas mãos. Passaste uma hora terrivel, que felizmente não se repetirá. Acabou-se!—Acabou-se! repetiu Laura abanando a cabeça. Se tudo estivesse terminado não me sentiria eu inquieta. Comprehendo que pelo espantoso perigo que corri tu não podesses suffocar a tua indignação. Insultaste terrivelmente esse miseravel. Conheço-o. Lauretto não possue apenas uma alma vil, possue tambem uma alma má. Vingar-se-ha com certeza.—Pois suppões?... Estás enganada. Eu puni-o justamente para não ter que o provocar. Verás que, elle tambem, não se atreverá a ser o provocador.—E se fôr?—Dão-se explicações d'um insulto e não d'um castigo. Recusarei bater-me com esse homem.{317}—Promettes, Antonino? juras? Necessito ter a certeza... A duvida incommoda-me sobremaneira; Tinha razão teu pae na ultima carta que te escreveu, e me mostraste. O muito que me amas fez com que quizesses agradar á minha phantasia d'artista, collocando-me n'um meio romanesco e poetico, que tinha muitos encantos, mas que não era isempto de perigos. Seriamos felizes se não houvesse invejosos e maus. Estou convencida que foi a nossa situação equivoca que causou todo o mal.Calou-se por instantes, como que absorvida por occulto pensamento.Depois proseguiu:—Lauretto ter-me-ia respeitado se estivesse certo de que eu era tua mulher. Porque será que, amando-nos tanto, não podemos pôr d'accordo as nossas existencias, como puzemos os nossos corações?Novas lagrimas rolaram-lhe pelas faces.Antonino seccou-as com beijos, esforçando-se por tranquillisar a esposa com phrases ternas.—Escuta, disse ella, tenho o presentimento que atravessamos uma hora terrivel, e quero fallar-te com toda a gravidade. Tenho a annunciar-te uma resolução seria que tomei, e uma noticia agradavel a dar-te. A resolução é que, decididamente, renuncio ao theatro. A noticia...—fallemos baixo!—desejava esperar alguns dias para te fallar nisso... Mas não...{318}não posso esperar... tenho a certeza!... A noticia é que, o meu constante sonho de mezes e annos, vae realisar-se emfim! Antonino, no meu ser havia duas partes distinctas: tinha, por meu pae, o sentimento artistico, e por minha mãe o sentimento maternal. Até hoje pareci-me com meu pae, d'hoje para o futuro parecer-me-hei com minha mãe!Antonino ajoelhou aos pés de sua mulher, envolvendo-a nos braços, louco d'alegria.—Um filho!... O nosso filho!... murmurou elle.E cobriu-lhe de beijos as mãos.Ella retribuiu-lhe as caricias, e continuou:—És feliz, não é verdade? Pois bem: procede de fórma a dissipar a nuvem sombria que, n'este momento, escurece a minha felicidade. Tens agora novos deveres. A tua vida não te pertence unicamente, é tambem minha, é nossa. Peço ao pae um juramento sagrado: peço-te, sob tua palavra d'honra, que em caso algum, nem mesmo provocado por Lauretto Mina, exporás a tua vida contra a d'esse miseravel.Antonino hesitou.—Sob minha palavra d'honra?... Nem mesmo provocado?... repetiu elle.—Ah! hesitas!... disse Laura.Elle percebeu a profunda anciedade de Laura.Reflectiu n'um instante que uma mulher póde acreditar n'um compromisso tomado por aquella fórma,{319}mas que em taes circunstancias esse compromisso não obriga um homem.Portanto replicou:—Não hesito. Dou-te a palavra que me pedes.—Ah! obrigada!...Tomou-lhe a cabeça entre as mãos e beijou-o na fronte.Seguidamente começaram, cheios de confiança e de fé, a traçar o plano da sua nova vida.Laura desejava deixar Paris immediatamente, mas concordou que a partida, assim precipitada, semelhava a fuga.Demorarar-se-iam ainda quatro ou cinco dias, para regular os seus negocios.Como estava escripturada por espectaculo, a Linda não tihha de pagar multa na Opera.Partiriam, depois, para Italia, onde o conde de Bizeux se lhes juntaria.Em regra, passariam o inverno nos paizes do sul, Italia, Hespanha, Grecia, Egypto, Algeria, e os estios em Saint-Pol-de-Léon.Conversaram até ás sete horas da manhã.A essa hora Antonino deixou Laura, para que ella dormisse um pouco.Ficou resolvido que elle não voltaria mais áquella casa. O visconde procuraria Laura, de tarde, na rua Boudreau.{320}Até ao dia da partida, jantariam e dormiriam ali, devendo Antonino voltar á casa doboulevardHaussmann apenas para tratar de pormenores materiaes.Laura adormeceu em breve, esperançosa e feliz.Antonino, chegado que foi aos seus aposentos de rapaz, estirou-se sobre um canapé.Não podia conciliar o nome.Previa, preoccupado, o que se ia passar.Desejava lavar, com uma execução summaria, a offensa recebida, principalmente para que o nome de sua mulher não fosse envolvido na questão.Entretanto, percebia que se descobrira ante Lauretto Mina, e que entre elles o insulto e o conflicto não podia deixar de terminar por duello.Ás onze horas o creado foi levar-lhe os cartões de Nobillet, o pianista, e de Gressier, o baritono.Não poude deixar d'estremecer, dando ordem para que fosse introduzidas as visitas.Laura tinha razão: a vida para elle duplicára de valor, desde a vespera.Lauretto Mina escolhera aquellas testemunhas, porque tanto Nobillet como Gressier, tinham assistido á scena de Remissy no concerto de Saint-Malo, e conheciam um pouco os incidentes e o visconde.Foi Nobillet quem fallou.—Vimos da parte, do sr. Lauretto Mina, sr. visconde, disse elle. O nosso collega assegura que vossa{321}ex.ª o insultou esta noite, gravemente. O nosso primeiro dever era procurar o sr. visconde para vereficarmos se as suas explicações condizem com as do nosso constituinte. Disse-nos o sr. Lauretto Mina que em tempo tivera relações com uma rapariga ao serviço da sr.ª viscondessa de Bizeux; parece que essas relações foram agora reatadas, e que elle passou a noite anterior no quarto d'essa rapariga. Por acaso vossa ex.ª encontrou-o, e sem razão, sem provocação da parte d'elle, agarrou-o pelo casaco como se fôra um gatuno vil, arrastou-o para o vestibulo, indicando o nome d'elle, por entre injurias, ao porteiro do predio, e arremessando-o depois para a rua, com violencia. São verdadeiras estas declarações, sr. visconde?—Completamente...—Vossa ex.ª pode naturalmente interpretal-as e explical-as, e nós estamos ás suas ordens para acceitar os esclarecimentos com que quizer honrar-nos.—Nada tenho que explicar, replicou Antonino. Encontrei o sr. Lauretto Mina sahindo do quarto da creada da minha mulher, na casa que ella habita. Irritei-me e pul-o fóra.—Vossa ex.ª disse em voz alta que elle tinha violentado a rapariga. O sr. Lauretto Mina affiança que não houve a menor violencia.—Ignorava e ignoro esse facto.Nobillet proseguiu:{322}—Ser encontrado no quarto d'uma mulher, ainda que ella seja creada, não é deshonra para um homem. Para que vossa ex.ª se irritasse até á indignação e á violencia, por um facto que realmente não tem gravidade, de certo houve razões estranhas a esse mesmo facto. Somos homens honrados fallando com um homem honrado, sr. visconde; esperamos, pois, que nos julgue capazes d'apreciar e comprehender essas razões.Nobillet e Gressier adivinhavam que havia um mysterio em todo aquelle negocio.Nem um nem outro tinha grande consideração pelo caracter de Lauretto Mina, de quem conheciam os terriveis antecedentes de duellista.Comtudo não tinham podido recusar-se a servir-lhe de intermediarios na conclusão do conflicto.Entretanto esperavam que o visconde lhes fornecesse uma razão ou ao menos um pretexto para declinar a sua penosa missão.Desejavam pois que Antonino pronunciasse uma só palavra n'esse sentido.O visconde, porém, limitou-se a responder:—Agradeço-lhes os termos delicados com que expozeram a questão. Sinto a mais alta consideração por vossas ex.as, mas não só posso dar do meu procedimento outras razões além das que já conhecem, porque não existem.{323}As duas testemunhas olharam-se consternadas.Depois Gressier disse:—Observar-lhe-hei, sr. visconde, que se o sr. Lauretto Mina o não offendeu tambem, é elle que deve considerar-se offendido, tendo, portanto, o direito de exigir ou desculpas ou uma reparação pelas armas.—Não estou disposto a pedir desculpas, disse Antonino com voz firme. De resto supponho que não seriam acceites.—É claro que, reconhecendo-lhe a qualidade d'offendido, deixa-lhe a escolha das armas... disse Gressier.—E sei antecipadamente que elle escolherá o sabre, respondeu Antonino, sorrindo.E levantando-se, accrescentou:—Mais uma vez lhes agradeço, meus senhores, a sua delicada intervenção, e a fórma correctissima do seu procedimento. Terei a honra de os pôr em relações com dois dos meus amigos, os srs. conde de Bauriac e barão de Chazeuil. Procural-o-hão esta tarde em sua casa, sr. Nobillet.Os tres cumprimentaram-se com silencio.O visconde acompanhou-os até á escada.Cumprimentaram-se novamente, e as duas testemunhas desceram, mais inquietas que o proprio visconde.{324}XXVIIPreliminaresAntonino, voltando para o interior da casa, disse apenas de si para comsigo:—Era fatal este resultado!E principiou immediatamente, com a mais perfeita tranquillidade, a tomar as suas disposições.Em primeiro logar expediu um telegramma a seu pae, dizendo-lhe que tinha, no dia seguinte, um duello grave, e pedindo-lhe para tomar o expresso da noite, que o devia trazer á capital pelas oito da manhã.A essa mesma hora deixaria sua mulher na casa da rua Boudreau, e encontrar-se-ia com o conde, nos seus aposentos doboulevardHausmann ás nove horas.Desejava que, em caso de fatalidade, o conde estivesse junto de Laura.Em seguida foi para casa do conde de Bauriac, d'onde mandou chamar o barão de Chazeuil, que morava proximo, na rua dos Campos Elyseus.Os tres conferenciaram em seguida sobre o duello em perspectiva.{325}O conde de Bauriac, entendedor na materia, disse, movendo a cabeça com ar preoccupado:—Um duello com Lauretto Mina tem um caracter extremamente excepcional. Esse homem, em dois duellos que teve, matou um dos adversarios, e feriu gravemente o outro, que só escapou por milagre. Jámais foi possivel explicar e justificar os botes que lhe valeram esta dupla e sangrenta victoria. Em virtude da rapidez do ataque, ninguem viu como os botes tinham sido vibrados. Conheço a sua força ao sabre, meu caro visconde, e vel-o-ia, sem inquietação, bater-se com os melhores esgrimistas. Mas considerando a fórma... italiana de Lauretto, todas as cautellas são poucas. A nossa responsabilidade, como testemunhas d'este duello é duplamente seria. Não se trata de regular o negocio, ou de apresentar desculpas; mas, emfim, deve haver, e ha com certeza, no conflicto apparente, razões occultas, que eu não lhe perguntarei. Nós sabemos, Chazeuil e eu, que o meu amigo é corajoso como poucos. Encarregue-nos de dizer ás testemunhas de Lauretto Mina que se recusa a dar-lhe explicações, e nós acceitaremos a missão satisfeitissimos, não é verdade, barão?Chazeuil respondeu com um gesto affirmativo.—Agradeço-lhes a confiança que em mim depositam, replicou Antonino, mas não posso nem devo acceitar o seu offerecimento. Insultei esse homem, sabendo{326}bem quem elle era, e conhecendo o risco que corria. Se eu recusasse a bater-me hoje, elle ámanhã offender-me-hia por fórma que fosse então inevitavel o duello. Minha mulher não desconfia agora que eu fui desafiado, e podia ser informada do novo conflicto que se daria de futuro. Peço-lhes, pois, que me deixem terminar este negocio sem perda de tempo.—Estamos á sua disposição, disse o conde de Bauriac. Tem algumas instrucções a dar-nos?—Não. Desejo apenas que o duello se realise, sem falta, ámanhã ás onze horas. Meu pae só chega ás oito, e eu tenho que fallar-lhe.Ficou combinado que os dois iriam buscar Antonino, á casa doboulevardHausmann, pelas dez horas da manhã.Pouco depois d'Antonino sahir, entraram as testemunhas de Lauretto Mina.Estavam ainda mais perplexos do que de manhã.Gressier, sobretudo, não podia occultar a inquietação de que estava possuido.Quando o conde de Bauriac lhe disse que era inevitavel o duello, o baritono fez um gesto de profundo desgosto.É que Lauretto rira diabolicamente quando elles lhe tinham dito que o visconde acceitava o desafio.Gressier lembrou-lhe o que o tenor d'uma vez dissera nofoyerdos artistas:{327}—N'um duello eu não arranho nem firo, mato. E ajuntou:—Aquella sua phrase de certo foi simples modo de fallar, meu caro. Sem duvida não teremos que temer ámanhã um resultado tão tragico.—Está enganado! replicou Lauretto, com sorriso feroz. Hei de matar o visconde! Hei de matal-o!Gressier estremecera violentamente, por tal fórma Lauretto pronunciára as ultimas palavras.Quando entrou em casa do conde de Bauriac, o baritono estava ainda sob o peso d'aquella desagradavel impressão.O barão de Chazeuil reparou para o gesto de Gresnier, e disse:—Não me parece que seja caso para temores. O sr. Lauretto Mina é um adversario para respeitar... como esgrimista, bem entendido, mas o sr. visconde de Bizeux saberá defender-se, com certeza.Os infelizes artistas temiam as responsabilidades que pesam sobre as testemunhas de duellos que occasionam a morte, e desejavam encontrar um meio que os levasse a não continuar com as negociações.Quando se tratou de resolver que sabres serviriam o conde de Bauriac disse, segundo o costume, que a sorte decediria.Nós acceitamos sem o mais leve inconveniente os sabres do sr. visconde de Bizeux, disse Nobillet.{328}—O sr. Lauretto Mina não ratificaria a sua concessão, observou o conde.—N'esse caso retirar-nos-iamos, replicou Gressier apressadamente.O conde viu-se obrigado a conter aquelle ardor... d'abstenção, affirmando que não poderiam ser censurados por tomar a sorte como arbitro.Foi resolvido que o duello se efectuaria no bosque de Bolonha.O barão de Chazeuil indicou uma clareira, sobre o mappa.Encontrar-se-iam n'aquelle sitio pelas onze horas do dia seguinte.Gressier e Nobillet retiraram-se, porque nada mais tinha que ser combinado.Durante esse tempo Antonino fôra a casa do dr. Despujolles, que deu um salto ao saber que o visconde se batia com Lauretto.Depois, readquirindo a presença d'espirito, disse:—Lá estarei com os meus instrumentos, mas, não sei porque, estou convencido que elles não servirão ao meu amigo. Já o vi de sabre em punho; ia affiançar em como dará uma lição ao ajudante do professor d'esgrima. O que é necessario é que não se distraia.Antonino quiz que o doutor o acompanhasse a jantar em casa de Linda.{329}Despujolles, porém, pretextando affazeres, mas na realidade por temer não estar sempre de bom humor, desculpou-se de não acceitar o convite.O visconde, que não desejava estar só com sua mulher, ao sahir de casa de Despujolles procurou e convidou dois amigos para jantar.Chegando a casa, disse a Laura:—Encontrei Heitor e Linage; jantarão comnosco.—Desejava antes jantar só comtigo.E depois, olhando fixamente para o marido, perguntou:—Nada de novo sobre Lauretto Mina?—Nada. O biltre nem bulio, respondeu Antonino.O jantar correu alegremente.A fatalidade, porém, quiz que, pelas dez horas da noite, quando o visconde acompanhava os dois amigos até á porta, Jacintha lhe entregasse um telegramma.Antonino voltou para junto da esposa.Ella viu o carimbo de Saint-Malo, e estremeceu.—É um telegramma de teu pae? perguntou.—Ah! sim, é verdade. Escrevi-lhe sobre a nossa proxima mudança de vida. Elle ficou satisfeitissimo e participa-me que vem ver-nos. Chega ámanhã, talvez...—Deixa ver... disse Laura estendendo a mão para o telegramma.{330}—Curiosa!... respondeu elle, rindo.Fez uma bola com o papel, e lançou-o ao fogão.Laura pensou immediatamente:—Bate-se ámanhã com Lauretto Mina.Mas ao mesmo tempo reflectiu que coisa alguma impediria, que os seus pedidos e as suas lagrimas podiam dessocegar Antonino, e resolveu calar-se.—Em que pensas? perguntou-lhe elle.—Penso que teu pae será um magnifico avô.E não fallaram mais senão no pae e no filho.No dia seguinte o visconde levantou-se cedo.Ás oito horas estava prompto para sahir.Laura deu-lhe um beijo tranquillo, e limitou-se a recommendar-lhe:—Volta depressa, pensa em mim e n'elle!...O visconde calculou:—Não desconfia de nada!E Laura dizia para comsigo:—Não suppõe que eu adivinhei tudo!

Em Paris, como em todas as grandes cidades, o dinheiro faz milagres.

No dia seguinte pela manhã, Antonino percorreu o bairro da Magdalena em busca d'uma casa onde fizesse oninhopromettido.{282}

Encontrou o que desejava na rua da Arcada, a meio caminho da casa de Laura e d'aquella em que elle vivia.

Era o rez-do-chão d'um predio de dois andares.

Ficava alguns degraus acima do nivel da rua, e tinha, além da entrada principal, á esquerda do vestibulo, para o qual se entrava por largo portão, uma entrada particular que abria para a rua.

A casa era composta d'um salão, d'uma sala de jantar, d'um quarto grande e claro, cosinha e um outro quarto de menores dimensões.

Arrendado o rez-do-chão, Antonino chamou um estofador dos mais conceituados de Paris, e depois de conferenciar com elle durante duas horas, ficou assente que moveis e estofos guarneceriam a casa.

O estofador prometteu ter tudo concluido na tarde do setimo dia, tendo, para isso, que trabalhar no domingo d'aquella semana. E cumpriu.

Era deliciosa a ornamentação, apesar de simples.

Na sala de jantar, forrada de coiro de Cordova, elevava-se, em dois corpos, um aparador da Renascença, guarnecido de baixela de prata antiga e de faianças de Ruen, Nevers e Marselha.

O fogão, de marmore de Nuremberg, era notavel pelo relevo das suas figuras biblicas.

A mesa fôra coberta com um tapete de velludo de Gênes.{283}

O movel principal do salão era um piano Erard, construido no esqueleto d'um cravo do seculo XVIII, todo coberto de pinturas no genero das de Boucher, representando a dansa d'amores e de nymphas, n'uma paisagem celeste.

Ao fundo, as tres graças voavam para o Olympo.

A cór viva da tapeçaria que forrava o salão fazia sobresahir os quadros que Antonino mandára vir da casa de Saint-Malo, duas paysagens de Lancret, uma Venus de Fragonard, e um duplicado do Gilles, de Watteau, assignado pelo mestre.

Um lago, de Julio Dupré, defrontava com um outro, visto á hora crepuscular, de Corot.

O quarto de cama era a maior casa do rez-do-chão.

Dividiram-a, por tanto, fazendo-lhe aos lados, com divisorias, uns gabinetesinhos detoilette.

O leito, do seculo XVIII, cinzento e dourado, de linhas simples, tinha por unico ornamento, na cabeceira, dois amores sustentando um medalhão, em que se viam dois LL entrelaçados e encimados por uma corôa.

Dizia-se que aquelle leito pertencera a Luiz XV; mas os dois LL, para Antonino, queriam dizer Laura Linda.

Nas paredes, côr de perola e cereja, avultavam seis pannos chinezes, bordados, representando paysagens{284}com figuras finamente desenhadas e admiravelmente coloridas.

Viam-se por todos os lados tapetes, da Persia do mais raro bom gosto.

Nem um só objecto que compunha a mobilia do rez do chão era de mediano valor.

Mas, mais do que riqueza, impunha-se a elegancia e o fino gosto de quem presidira á decoração das casas.

O estofador encarregára-se d'enviar da praça da Magdalena tudo o que respeitasse a cosinha.

D'esta fórma apenas d'um creado necessitariam.

Jacintha estava naturalmente indicada para esse serviço.

Laura e Antonino podiam contar com a dedicação e a discrição da creada.

Ella bastaria para servir á meza e para vestir a cantora.

O visconde mandou mobilar para Jacintha o outro quarto da casa.

Como a ornamentação não destoasse da restante, Jacintha, satisfeitissima, declarou que nunca tivera quarto mais bello.

Com um simples toque de campainha, ella estaria em tres segundos junto de Laura, quando os seus serviços fossem necessarios.

A nova casa foi inaugurada á hora prefixa, precisamente{285}oito dias depois da representação dosHuguenottes.

N'essa noite a Linda cantava oRoberto o Diabo.

Antonino levou-a, com Jacintha, logo que o espectaculo terminou, encantado,—tanto como ella, de resto,—da sua nova felicidade conjugal.

Combinaram, como regra geral, mas sem prejuiso de quaesquer outras noites, que elles partiriam para oninhoem seguida a cada representação, quando Laura estivesse ainda vibrante da emoção que lhe causassem os applausos, e duplamente palpitante da vida do papel que desempenhára e da vida propria.

Antonino assignára umfauteuild'orchestra junto á scena.

Como d'antes, applaudia pouco a Linda, não juntava as suas ás acclamações que a chamavam nos finaes d'acto.

Mas como d'antes, mais do que d'antes talvez, saboreava em silencio o extasi em que o mergulhava a voz da mulher adorada.

Ella, pelo seu lado, não lhe sorria, não o olhava.

Mas sabia que o visconde estava proximo, conhecia a cadeira em que elle se sentava, e como era para Antonino que cantava, jámais cantara melhor.

O visconde nunca mais sentiu ciumes de Lauretto Mina, ou de quem quer que fosse.

Ambos se consideravam felicissimos por aquella{286}encantadora vida, alegre como a phantasia, doce como o habito.

O creado d'Antonino, de cada vez que o visconde não dormia em casa, dizia que elle ficava em casa de Linda.

Os creados da cantora sempre que ella só de manhã voltava para casa, pensavam que Laura tivesse passado a noite em casa do visconde.

Geralmente Antonino voltava para oboulevardHaussmann ao amanhecer.

Laura, porém, só deixava o ninho a hora adiantada da manhã.

Sahiam e entravam sempre pela porta que abria para a rua.

O porteiro, que tinha o seu cubiculo no vestibulo do predio, nunca vira a Linda.

De dia os dois esposos viam-se officialmente.

Passeavam de dia no Bosque, de carruagem, e á noite partiam juntos para o theatro.

Antonino, uns dias por outros, mandava presentes a Laura: flores ou joias.

De tarde visitava-a, invariavelmente á mesma hora, e jantava com a esposa muitas vezes.

Sempre, porém, que Laura não estava só, elle retirava-se conjuntamente com as outras visitas, d'ordinario o dr. Despujolles, ou raros outros amigos.{287}

Laura recebia menos admiradores na casa da rua Boudreau, do que d'antes na rua de Bolonha.

Reatára apenas relações com tres ou quatro admiradores mais intimos, e que o eram tambem do visconde.

Todos elles tinham estado, n'outro tempo, mais ou menos apaixonados pela Linda.

Mas como eram homens bem educados, e de mais a mais amigos d'Antonino, que consideravam o amante official de Laura, não faziam a côrte á diva.

Apenas não tinham perdido completamente a coragem.

Pensavam que mais cedo ou mais tarde conseguiriam os seus fins, e esperavam com paciencia digna de melhor sorte.

Lauretto Mina, mais indelicado que elles, não guardava a mesma reserva nem possuia identica paciencia.

No mundo dos bastidores sabe-se tudo o que respeita a qualquer artista.

O tenor sabia portanto, a situação em que se encontravam Laura e o visconde, e agourava bem d'essa situação.

Um dia disse á Linda, nofoyerdos artistas, motejando:

E então, minha querida, tinha ou não razão quando lhe dizia na ilha de Cézambre,—lembra-se?—que{288}o seu casamento não me parecia dos mais serios? Os habitantes de Saint-Malo, que não primam pela finura, parece que viram o demonio quando tiveram conhecimento de semelhante união. De resto, acho que procedeu sensatamente definindo a sua situação. Vale mais ter um amante certo, de que um marido duvidoso.

—Sinto-me satisfeitissima por merecer a sua approvação! respondeu Laura no mesmo tom.

—Por esta fórma, proseguiu Lauretto, todos terão esperanças. Os que estão apaixonados pela sua pessoa,—e eu creio que pelo menos conhece um,—veem agora augmentar infinitamente o numero das probabilidades favoraveis.

—Suppõe isso? Pois eu supponho que o numero de probabilidades não augmenta nem diminue pelo facto do sr. de Bizeux ser meu marido ou meu amante. O que influirá n'esse numero é que eu ame ou não o sr. de Bizeux.

—Perdão! o caso é diverso! insistiu o tenor.

E accrescentou, dirigindo-se ao baritono, que n'esse momento entrava nofoyer:

—Não é verdade, Gressier, que amando eu Laura Linda, tenho mais probabilidades de conseguir os meus fins defrontando-me com um amante de que tendo na frente o marido?

—Está enganado, sr. Lauretto Mina, apressou-se{289}Laura a responder sem dar tempo a que o baritono fallasse. Não é porque eu ame um outro homem que não o amaria ao sr. Posso não amar ninguem, que nem por isso lhe pertencera o meu amor.

E voltando as costas ao tenor, sahiu.

—Ah! ah! decididamente não avanças um passo, meu caro! disse Gressier, rindo.

—Engano! respondeu seccamente Lauretto, que empallidecera extraordinariamente. Estou quasi a attingir o meu fim, e em breve te darei provas irrefutaveis do que avanço.

Laura, passado o primeiro momento, arrependeu-se de provocar a irritação do tenor, respondendo-lhe por fórma a feril-o no seu amor proprio.

Agora mais do que nunca ella temia um possivel conflicto entre Antonino e Lauretto.

Lembrava-se incessantemente das palavras, prefurantes como laminas, que o tenor pronunciára uma noite, sentado tranquillamente junto ao fogão dofoyer.

Fallava-se d'um duello realisado n'aquelle dia, que tinha chamado a attenção de toda a gente.

—Ora adeus! dissera Lauretto. As galerias facilmente se commovem pelos duellos d'agora, que quasi sempre terminam por simples arranhaduras! Por mim, estou resolvido a nunca provocar ninguem, e, mesmo quando provocado, a só me bater se o insulto{290}recebido fôr d'ordem a não acceitar desculpas, porque eu, infelizmente, não arranho nem firo, mato.

Era por essa razão que Laura deligenciava não sentir-se offendida pelas impertinencias que o tenor lhe dirigia por vezes.

Fingia não as comprehender, e até não as ouvir.

Ella era tão feliz!...

E aquella felicidade que gosava, prolongou-se por tres mezes, sem uma só nuvem que a escurecel-a.

Antonino, pela sua parte, só tinha um desejo: tornar a ver seu pae.

Mas o conde, a quem o filho não quizera occultar o que elle chamava o seu romance, não queria, por dignidade, ir a Paris emquanto durasse uma tal situação.

—Acautella-te, escrevia elle ao visconde, occultas tua mulher como se occulta uma amante. Acho perigoso esse teu procedimento. Não me parece razoavel tentar o perigo, misturar o que ha de mais serio e de mais sagrado no amor com o disfarce, com a mascara, com a aventura.

Seria isto um presentimento da fina intuição paterna?

Uma noite, pelas quatro horas da madrugada, Laura, envolvida n'um largo manto, foi, segundo o costume, acompanhar e alumiar seu marido até á escada que descia para a rua.{291}

Demorou-se no patamar até que Antonino, sahindo, fechou a porta sobre si.

Ao entrar no quarto, a Linda soltou um grito.

Lauretto Mina estava sentado na cadeira de que pouco antes Antonino se levantara.

Jacintha, como já dissemos, tinha por Laura uma dedicação sem limites.

Far-se-ia matar pela cantora, e, se a diva morresse, ella não lhe sobreviveria por muito tempo, com certeza.

O peor era que a creada não possuia apenas a fidelidade canina do irracional.

As admoestações, as severidadese as irritações de Laura faziam-a chorar deveras, porque possuia um bom coração.

Mas arrependia-se e não se emendava.

A Venus antiga divertia-se, ligando-se completamente áquella humilde presa.

Por infelicidade, a belleza picante de Jacintha, os seus grandes olhos pretos e brilhantes, a tez morena{292}e fresca d'andaluza, a cintura delicada e o agradavel conjuncto de toda a sua pessoa, davam-lhe um grande numero de cumplices.

Lauretto Mina, como indicámos, pertencera a esse numero.

O formoso tenor não desdenhára colher aquella flôr modesta.

Colhera-a e passára.

Não era homem para perder muito tempo em negocios de semelhante natureza.

Apesar d'isso Jacintha ficára singularmente lisongeada por contar, na collecção dos seus admiradores, umartista, um verdadeiro artista, de que grande quantidade de damas da primeira sociedade tinham disputado a posse, segundo ella suppunha.

Em Saint-Malo, na numerosa creadagem das casas proximas, Jacintha, sempre picante e attrahente, fôra muito cortejada.

E não tinham sido apenas os creados a darem-se a esse passatempo.

Os proprios patrões deram-se ao incommodo de render homenagens á creada de Laura.

Afinal, na grande sociedade—está provado!—as cosinhas não recebem peor gente que os salões.

Lembrar-se-hão sem duvida que, na manhã em que Laura resolvera abandonar a casa de seu marido, encontrára vasio o quarto de Jacintha.{293}

No dia seguinte, quando a creada se reuniu á cantora em Paris, Laura admoestou-a com toda a severidade, como costumava.

Sem se incommodar com a torrente de lagrimas que corria pelas faces de Jacintha, e com as quaes a creada tratava lavar a falta commettida, Laura demonstrou-lhe quanto era indigno um procedimento d'aquella ordem.

Disse-lhe que a devia abandonar completamente.

Mais uma vez, porém, lhe perdoaria, sob condição de Jacintha lhe dar a sua palavra de que não voltaria a praticar o menor desmando.

E affiançou-lhe que, no primeiro caso dado, a encontraria inflexivel.

Jacintha, desfeita em lagrimas, prestou todos os juramentos possiveis.

Tomou para testemunhas todas as virgens da côrte do ceu, promettendo seguir os seus exemplos.

Antes quereria perder a vida do que ser abandonada por Laura.

A admoestação aproveitar-lhe-ia.

Jámais o demonio se apossaria dos seus sentidos.

Laura fingiu acreditar nas promessas de Jacintha, que, sem serem solidas, eram com certeza sinceras.

Entretanto tomou algumas precauções.

Resolveu não admittir creados moços na sua modesta casa da rua Boudreau.{294}

Escolheu um casal já idoso.

O marido tinha cincoenta annos e a mulher quarenta e cinco.

Durante tres mezes Jacintha foi um verdadeiro modelo de honestidade.

Nunca sahia só, e quando acompanhava Laura ao theatro jámais transpunha a porta do camarim.

Mas no momento da chegada do visconde a Paris, os seus remorsos começavam a cicatrisar.

A installação mysteriosa no rez-do-chão da rua da Arcada produziu-lhe terrivel effeito.

Laura, porém, percebeu sem perda de tempo que Jacintha começava novamente a andar mais ligeira.

Aquella acceleração de movimento no corpo correspondia a movimentos, accelerados tambem, no espirito.

Ao ver a felicidade que disfructava Laura, sentia extraordinaria melancholia.

—Como o sr. visconde ama a senhora! murmurava ella. Ah! a senhora é bem feliz!...

—Se continuares a portar-te bem, dizia-lhe Laura, acharás qualquer dia um bom marido.

—A senhora achou, respondia Jacintha, mas eu, para o achar, necessitarei procurar.

Uma busca d'este genero é sempre um perigo para uma natureza inflammavel. Se Laura, n'aquella occasião, tivesse reparado, comprehenderia o perigo, verificaria{295}que a virtude começava a ser demasiado pesada para Jacintha.

Uma noite, ao atravessar um corredor do theatro, a creada deu de cara com Lauretto Mina.

O tenor pôz-lhe uma das mãos na fronte, levantou-lhe o queixo com a outra, e disse-lhe:

—Sabes que estás cada vez mais bonita? Declaro-te que nunca te amei tanto como agora.

Não se contentou com palavras.

Passou-lhe um braço em volta da cintura, levou-a para um canto pouco alumiado, inclinou-lhe o corpo para traz e deu-lhe um demorado beijo na bocca.

Jacintha voltou para o camarim muito perturbada.

O seu quarto na rua da Arcada era tão bonito!

Devia haver muitas senhoras que o invejassem!

Esta circumstancia foi mais uma tentação.

Pois só ella é que havia admirar aquella verdadeira belleza?

Era possivel que o tenor, mesmo em casa de duquezas, não tivesse visto um quarto tão encantador como aquelle.

Jacintha por coisa alguma trahiria Laura.

Em tempo, Lauretto Mina tinha tido a prova d'essa verdade.

Não se arriscou, por isso, a fazer-lhe perguntas directas sobre o visconde ou sobre a Linda.

Mas, depois d'uma scena de seducção admiravelmente{296}bem desempenhada pelo tenor, uma noite, durante um entre-acto, Jacintha foi forçada a dar-lhe todas as indicações necessarias, para que elle podesse entrar n'aquelle delicioso quarto, que para ella era um verdadeiro ninho d'amor.

Pela uma hora da manhã, em quanto Antonino e Laura estivessem á mesa, ceiando, ella iria abrir-lhe a porta da rua, e, pelo longo corredor, para o qual abriam todas as portas interiores, introduzil-o-hia no quarto. Depois iria ter com elle, logo que os dois esposos se deitassem.

O tenor sahiria, entre as quatro e as cinco horas da manhã, quando o visconde tivesse partido.

Nada era mais simples, mais facil, mais seguro.

Foi assim que, na noite de que já fallámos, Lauretto Mina estava ás tres horas e meia da madrugada no quarto de Jacintha.

Áquella hora a creada dormia profundamente.

Lauretto levantou-se sem fazer ruido.

Sobre a meza da cabeceira estava acceso um candieiro.

O tenor tirou uma navalha da algibeira, abriu-a, e cortou os cordões d'um reposteiro.

Em seguida voltou ao leito, pegou na mão direita de Jacintha e approximou-a levemente da esquerda.

Ella descerrou vagamente as palpebras e perguntou:{297}

—Já te levantaste?

—Não, não, respondeu o tenor. Ainda é cedo.

Reuniu bruscamente as duas mãos e, n'um segundo, ligou os pulsos de Jacintha com tres ou quatro voltas do cordão, que atou n'um nó rapido. Ella accordou sobresaltada e tentou gritar.

Mas o tenor applicou-lhe sobre a bocca uma mordaça que levava, prendendo-lh'a solidamente atraz do pescoço.

Jacintha deu com os pés na roupa da cama, tentando saltar do leito.

O tenor ligou-lhe os pés com o cordão, como lhe ligara as mãos.

Em seguida verificou se todos os nós estavam bem dados.

Assim presa, Jacintha apenas podia fazer alguns movimentos quasi imperceptiveis, que Lauretto impossibilitou ainda comprimindo-a com a roupa da cama.

Depois, o tenor vestiu-se lentamente.

Entreabriu a porta do quarto, e escutou.

Voltou para junto do leito, e vendo que Jacintha não se movia, destapou-a, inquieto, e tirou-lhe a mordaça.

A infeliz estava desmaiada.

O ar livre que respirou, reanimou-a um pouco.

Antes que a creada recuperasse completamente os{298}sentidos, Lauretto tornou-lhe a pôr a mordaça, mas apertando-lh'a menos, e deixando-lhe as narinas a descoberto.

Depois voltou novamente para junto da porta.

Sentiu o visconde sahir, sendo acompanhado por Laura até á escada.

Ouviu as palavras de despedida que ambos trocaram.

Então transpôz o corredor, abriu a porta do quarto de Laura, e entrou.

Jacintha, que recuperara os sentidos, viu e comprehendeu tudo.

O miseravel armara ardilosamente aquelle laço á sua fraqueza, e ella cahira estupidamente, como uma ingenua.

Não era por ella, mas por Laura, que elle ali fôra.

A Linda, é claro, não tornara a sua creada de quarto confidente das impertinencias de Lauretto.

Jacintha, porém, recordava-se agora de certas circumstancias e d'algumas palavras pronunciadas pelo tenor.

Não podia duvidar.

Era Laura quem elle desejava.

A Linda estava n'esse momento á discrição do insolente.

E fôra ella, Jacintha, ella, que teria dado a vida pela cantora, que a entregara áquelle miseravel!{299}

Ao ter este pensamento a infeliz sentiu-se gelada de pavor.

Deixaria ella commetter um tão infame crime?

Apenas podia soltar alguns gemidos inarticulados.

As mãos e os pés ligados paralysavam-lhe todos os movimentos. Como arrancar a mordaça?

Como cortar os cordões que a atavam?

O tempo passava, e ella não achava que responder áquellas perguntas.

As lagrimas corriam-lhe pelas faces.

Olhou para o candieiro acceso.

Lauretto achara desnecessario apagal-o. Para que?

Subitamente accudiu-lhe ao espirito uma idéa.

Nem um instante hesitou.

Encolheu-se, torceu-se, rebolou-se, e, lentamente, firmando-se nos cotovellos e nos joelhos, conseguiu elevar-se pouco a pouco, acima do travesseiro.

Esta operação difficultosa durou dez minutos.

Quando chegou com as mãos ligadas até ao angulo do leito, agarrou-se a elle, e, com um esforço acabou de se elevar.

Então, com um movimento decidido, chegou á luz do candieiro os cordões que lhe prendiam os pulsos, que foram tambem attingidos pela chamma.

A dôr era insupportavel.

Por vezes, sentindo-se prestes a soltar um grito, retirava os pulsos da luz.{300}

Mas em seguida, considerando aquelle facto como uma indesculpavel cobardia, chegava novamente á chamma a carne já queimada.

Uma das voltas do cordão quebrou por fim.

Mas não era a que formava o nó.

Foi indispensavel continuar a tortura, com todas as precauções e cuidados.

E sentia-se feliz por poder dizer de si para comsigo:

—Soffre, leviana, soffre o castigo da tua falta!

O cordão cedeu emfim.

Então, com um movimento rapido, desembaraçou-se dos bocados que ainda a prendiam, e, sem reparar para o misero estado em que tinha os pulsos—porque o tempo urgia—sentou-se na cama, e desligou os pés, ainda que com bastante custo.

Levantou-se, procurou uma tesoura, e cortou os cordões da mordaça.

Estava livre!

Vestiu-se sem perda d'um segundo.

As mãos, tremulas ainda pelo supplicio supportado, difficilmente cumpriam a sua missão.

Sentia-se banhada em suor frio.

Não prestou attenção á fórma pela qual se vestia.

Pensava.

O que deveria fazer? Acordar o porteiro? Esse meio poderia ser bom meia hora antes. N'aquelle momento,{301}como era possivel que o crime estivesse consumado, era necessario não fazer escandalo. N'aquelle negocio não devia intervir qualquer pessoa estranha.

Logo que se apromptou, metteu na algibeira o dinheiro que pozera sobre a meza, e seguiu pelo corredor, abafando o ruido dos passos.

Parou em frente da porta do quarto de Laura e escutou.

Não duviu o menor rumor.

Aquelle silencio seria de bom ou de mau presagio?

Não se atrevia a decidir.

Continuou pelo corredor, desceu a escada, abriu cautellosamente a porta e achou-se na rua, deserta áquella hora.

Se não fosse fatuo e mau como era, Lauretto Mina, ao entrar no quarto de Laura, teria apagado a lampada que o alumiava.

Depois, quando a cantora voltasse, soprando a chamma do candieiro que ella trazia, tel-a-hia tomado{302}por surpreza na sombra, e a Linda podia então considerar-se perdida.

Mas elle quiz saborear o seu triumpho, divertir-se com o temor e mesmo com a colera da cantora.

Portanto mostrou-se, apresentou-se.

—Boa noite, minha querida Linda, disse elle levantando-se logo que Laura entrou. Não te admires nem te assustes por me veres em tua casa a hora tão adiantada da noite. As minhas intenções são tudo o que ha de mais amigaveis, e estou certo que havemos de nos entender.

Laura olhava-o petreficada, sentindo como que fugir-lhe a razão.

O tenor proseguiu:

—Se entrei aqui, empregando meios menos usados e algum tanto violentos, a culpa foi tua. Estou, como muitos outros, loucamente apaixonado por ti. Mas isso não é uma razão para me escarneceres, para me tornares ridiculo para com os nossos collegas, e para mofares de mim com o visconde, teu amante. Tens procedido commigo imprudentemente. Resolvi desforrar-me. Para o conseguir conquistei um coração mais sensivel que o teu, o da Jacintha. Ella introduziu-me na praça—e eis-me aqui!

—Foi bem combinado o assalto, respondeu Laura fazendo um gesto de resignação.

Voltára-lhe a presença d'espirito.{303}

Como se conservasse no limiar da porta, passou resolutamente em frente do tenor e entrou no quarto.

—Estimo que acceites a situação com essa desenvoltura! disse Lauretto sorrindo victoriosamente.

Como ella não respondesse, o tenor continuou:

—Para que me havias de receber com ares tragicos? Tens razão. Jámais se devem desprezar estas palavras: amo-te!

Laura encostára-se a uma secretária Riesener.

O tenor estava na frente d'ella. Elle proseguiu:

—Pois não é verdade que é absurdo fazer barulho por causa d'um beijo?

Caminhou para ella ao acabar de pronunciar aquellas palavras.

Laura abriu rapidamente com a mão esquerda a gaveta da secretaria, pegando, com a direita, n'um objecto que estava dentro.

E repentinamente, como Lauretto se approximasse mais, visou-o com um revolver que acabava de engatilhar.

—Se dá um só passo mais, mato-o! gritou ella.

Lauretto empallideceu horrivelmente.

Mas replicou, tentando sorrir-se:

—Suppunha-te mais sensata. A menos que não estejas brincando...

—Prohibo-o de me tratar por tu, disse Laura ameaçando-o novamente com o revolver.{304}

—Perdão, sr.ª viscondessa, respondeu o miseravel inclinando-se com afectação, para dissimular o estremecimento que lhe percorreu todo o corpo. Não considero de bom gosto ameaçar com um revolver um homem desarmado, entretanto...

E ia dar mais um passo.

Laura, porém, fel-o parar, dizendo com energia:

—Não se mecha, ou disparo! E previno-o de que não repetirei o aviso. Acautelle-se! Tenho na mão uma arma admiravel, de precisão extraordinaria. Comprei-a no Mexico, quando nos internamos na região dospampas. Ao dar um passo terá quatro balas no corpo.

Ella fallava n'um tom firme e resoluto, tanto mais para admirar, quanto era certo que omittia um pormenor importante.

O revolver estava descarregado.

Suppozera, e com razão, que um homem capaz de proceder como Lauretto Mina, não podia deixar de ser cobarde.

Ao ouvir Laura, o tenor teve uma idéa, que mais o assustou.

Lembrou-se que o tiro podia partir, mesmo sem que a cantora puxasse pelo gatilho.

Entretanto, fazendo-se forte, disse:

—Acautelle-se tambem, porque ao primeiro tiro precipitar-me-hei, e então...{305}

—Socegue, interrompeu a Linda. Sei servir-me bem d'este revolver. Tinha o direito, se quisesse, mesmo sem que o senhor chegasse a vias de facto, de o matar como se mata um cão hydrophobo. Mas a vista do sangue horrorisa-me. Conserve-se quieto, e nada terá a temer.

Um pouco mais socegado, o tenor disse, ao cabo d'alguns minutos de silencio, com riso forçado:

—Nada d'isto tem senso commum! Ficaremos aqui toda a noite, a olhar um para o outro, como dois cães de faiança?

Laura não respondeu.

Conservava-se immovel como uma estatua.

—Permitte-me, ao menos, que me sente? perguntou elle.

Ella replicou:

—Pode sentar-se. Tem ahi proximo uma cadeira. Mas previno-o de que, uma vez sentado, o prohibirei de se levantar.

—Percebo, ficaria com uma vantagem a mais. Pois conservar-me-hei de pé.

—Faria melhor sahindo d'esta casa. Deve seguir o conselho, que é bom.

—Devéras?... disse Lauretto indiciso.

Perguntou a si proprio se, realmente, o mais prudente não seria bater em retirada.

Aquelle revolver imprevisto mudára a situação.{306}

O negocio falhára, decididamente.

Mas deveria fugir cobardemente d'uma mulher?

No dia seguinte ella contaria a aventura ao amante, e talvez aos collegas, que com razão o escarneceriam. Fugir, era, pois, impossivel.

Era indispensavel sustentar a situação até ao fim, custasse o que custasse.

Depois d'alguns minutos de reflexão, Lauretto disse com voz um pouco mais firme:

—Não partirei. Tenho ainda pelo meu lado uma probabilidade.

—Qual?

—Ha vinte minutos que nos olhamos fixamente; eu, que não tenho uma arma na mão, sinto-me já fatigado. Pesa-me a cabeça e cerram-se-me as palpebras. O relogio marca quatro horas e trinta e cinco minutos. Só amanhecerá d'aqui a hora e meia. Quando nos tivermos hypnotisado mutuamente, veremos se o seu olhar não se turbará, se os seus joelhos não se dobrarão, se o braço não se baixará por si proprio. Veremos se a gallinha não acabará fatalmente por ser magnetisada, immobilisada... e tomada pela raposa!

—Veremos! respondeu Laura apertando com mais força a coronha do revolver.

Desde esse momento guardaram ambos o mais absoluto silencio.{307}

No quarto ouvia-se apenas o tic-tac monotono da pendula.

O relogio deu os tres quartos para as cinco horas.

Os minutos passavam com uma lentidão mortal.

Laura sentia, com temor crescente, que o miseravel dissera a verdade.

A tensão enorme em que desejava conservar o espirito fazia-lhe diminuir as forças do corpo.

Via como que sombras passarem-lhe pela frente; sentia nos ouvidos um ruido extranho, as pernas dobravam-se-lhe, e a custo conservava o braço meio estendido, empunhando o revolver.

O que mais a angustiava era a arma estar descarregada.

Se assim não fôra, mesmo dada a hypothese do desfallecimento, poderia defender-se contra uma aggressão subita, ferindo ou pelo menos assustando o seu inimigo.

Emfim, haveria lucta, em que o maior numero de probabilidades estaria do seu lado.

Mas se, aproveitando um momento de torpor, Lauretto se precipitasse sobre ella, e a agarrasse, a Linda nada mais tinha na mão do que um bocado d'aço e de madeira, não poderia defender-se.

E como que ouvia o grito de triumpho soltado por Lauretto, e o rir infame d'aquelle miseravel.

O relogio deu cinco horas.{308}

Laura sentiu necessidade de interromper aquelle silencio pesado e d'ouvir uma voz humana, ainda que não fosse senão a propria.

Disse portanto em voz alta:

—Cinco horas!

Lauretto replicou, e ella escutou-o quasi satisfeita:

—Faço-lhe os meus cumprimentos. Possue energia rara em mulher. É triste que não empregue essa energia ao serviço de melhor causa. Admittindo mesmo,—o que é duvidoso,—que consiga sustentar até ao fim esse magnanimo esforço para preservar a sua honra, nem por isso ficará menos deshonrada. Quer saber como?

Laura não respondeu.

O tenor proseguiu:

—O meu amor é muito sincero e ardente. Se não fosse para a possuir não poria em pratica esta tentativa arrojada, ou criminosa, segundo o modo de ver de cada um de nós. Mas o meu amor proprio está agora comprometido n'esta empreza tambem. A sr.ª, ha muito tempo, tem-me despresado, motejado, ridicularisado; eu, declarei, jurei publicamente, que mereceria todo o seu desprezo se não conseguisse tel-a um dia nos meus braços. Por emquanto ainda não perdi a esperança, e espero, até, conseguir em breve o fim desejado. Em todo o caso, mesmo na peor das hypotheses, deve concordar que as apparencias são{309}por mim. Por agora pouco importa que eu seja ou não seu amante. O essencial é que, para os espectadores, o pareça. Ora parecel-o-hei, evidentemente...

Laura sorriu com desdem.

Elle continuou:

—Deixe-me acabar e ria depois. Medite,—porque ainda é tempo,—e verá que o que mais lhe convém é baixar o revolver e entregar-se á minha generosidade. Procederei como um perfeito cavalheiro, desde já o declaro. Mas reservar-me-hei o direito de fallar, e previno-a de que fallarei. Será essa a minha compensação e a minha desforra.

O tenor fez uma pausa.

A Linda deu aos hombros despresadoramente.

—Imagina que não me acreditarão? Ouça: limitar-me-hei a affirmar que a tive esta noite nos meus braços. Estamos sós: quem poderá contradizer-me? É de suppor que o visconde de Bizeux me peça explicações; espero mesmo que isso succeda. Recusar-me-hei a dar-lh'as. Elle esbofetear-me-ha e eu matal-o-hei, porque desgraçadamente succede-me esse precalço sempre que me bato. Não será em virtude d'esse duello em perspectiva e da morte do visconde que as minhas palavras deixarão de ser acreditadas, ao contrario. Mas haverá mais do que as minhas palavras, haverá provas e testemunhas. A prova eil-a: ao entrar vi sobre aquella mesa o seu retrato em miniatura,{310}ao lado do retrato do visconde. Dei-me pressa em guardal-o—para possuir uma recordação sua. Eis o testemunho: pela manhã sahirei, não pela porta que deita para a rua, mas pela que abre para o vestibulo. O porteiro, ao ver-me, perguntar-me-ha sem duvida quem eu sou e d'onde venho a hora tão matinal, e eu responder-lhe-hei que me chamo Lauretto Mina, que sou tenor da Opera, e que saio de casa da sr.ª Laura Linda, amante do sr. visconde de Bizeux...

—É engenhoso, mas um pouco cobarde! disse uma voz por detraz de Lauretto.

A cantora soltou um grito d'alegria.

—Antonino! disse ella.

O tenor voltou-se admirado, e viu na sua frente Antonino de Bizeux, de braços cruzados sobre o peito, dominando-o, com a alta estatura do seu corpo herculeo.

Na sombra do corredor, Lauretto viu Jacintha, pela porta entreaberta. Lançou em volta um olhar assustado, como que procurando por onde fugir.

Antonino bateu-lhe pesadamente com a mão no hombro.

Laura, deitando fóra o revolver inutil, correu para o marido.

O visconde disse, dirigindo-se ao tenor:

—É triste que eu venha desmanchar as suas combinações{311}infames. Graças á coragem e á dedicação d'aquella pobre rapariga que me foi chamar, eil-o preso no proprio laço que armou. Ao que parece é forte em violentar e insultar mulheres, mas defronte d'um homem não faz tão boa figura.

Lauretto respirava a custo sob o peso da mão de Antonino.

Apenas teve força para balbuciar:

—Senhor... estarei ás suas ordens... quando quizer...

—Na realidade? Consente em dar-me razão? Pois não sabe, miseravel, que quando se apanha um patife da sua especie em flagrante delicto d'attentado nocturno e de roubo... (com a mão que tinha livre procurou na algibeira de Lauretto e tirou d'ella a miniatura de Laura, que lançou sobre a mesa) só ha a escolher entre entregar o mariola á policia ou de lhe pegar pelas orelhas e lançal-o pela porta fóra a ponta-pés? Não sabe? Pois fique sabendo que n'um caso d'esta ordem o infame nunca offende. Teria graça considerar-me eu offendido e bater-me com o gatuno que me roubasse a bolsa!

—Ouça-me, senhor, replicou Lauretto tremendo-lhe a voz de medo, de vergonha e de colera. Ouça-me: n'este momento estou á sua discrição, é verdade, mas aconselho-o a que não abuse da sua vantagem.

Deixe-me sahir d'aqui sem ruido nem escandalo. Asseguro-lhe{312}que isso será mais conveniente não só para mim, como tambem para o senhor e para esta senhora.

—Concede-lhe o que elle pede, meu amigo, disse Laura intervindo. Que parta, com a raiva de ver abortado o seu crime, e que não ouçamos mais fallar d'elle.

—Sim, sr. visconde, deixe-o partir! repetiu Jacintha do corredor, com voz timida.

—Pois quê! Este homem fez-te passar, Laura, por angustias mortaes, fez soffrer a essa rapariga a mais horrivel tortura moral e physica, e ha de sahir d'aqui socegadamente para acabar na cama a noite que tão mal começou? Ah! eu considerar-me-ia tão cobarde como elle, se lhe concedesse a impunidade que pedem. Dizes, Laura: que parta, e que não ouçamos mais fallar d'elle? Mas não ouves as ameaças que o biltre acaba de pronunciar? Elle irá ámanhã dizer por toda a parte que passou a noite aqui, que eu cheguei muito tarde! Sinto ferver-me o sangue, pensando em tal. Se não estivesses presente, tosal-o-hia por fórma que jámais se esqueceria d'esta noite!

E ao mesmo tempo que fallava, sacudia violentamente Lauretto, que tremia.

—Não estarei eu em frente d'um homem bem educado?... atreveu-se elle a dizer.

—Está em frente d'um justiceiro!{313}

—Como?... O que vae fazer?...

—O que o senhor proprio projectava.

Antonino largou o hombro de tenor, e agarrou-o pelo casaco.

—Vamos... venha!...

—Não quero!... deixe-me!... murmurou Lauretto debatendo-se em vão. Protesto contra as suas indignas violencias!

O visconde apenas respondeu sorrindo desdenhosamente.

—Não lhe faças mal! aconselhou Laura em voz baixa.

Mas Antonino nada escutava.

Estava possuido da mais profunda colera, colera fria, que é a mais terrivel.

Repetiu

—Vamos!... venha!...

E accrescentou, dirigindo-se á creada:

—Jacintha, alumia-nos. Sahimos pela porta do vestibulo.

Arrastou pelo corredor fóra o tenor, que empregava inoffensiva resistencia, e chegou assim á porta que dava para o vestibulo do predio.

Jacintha seguia-o, tendo um candieiro na mão tremula.

Laura, anciosa, caminhava alguns passos mais atraz.{314}

Desceram ao vestibulo.

Em frente do cubiculo do porteiro, o visconde gritou com voz forte:

—Sr. Durandeau! peço-lhe que se levante e abra-nos a porta.

Segurava Lauretto apenas com uma das mãos.

O tenor, de labios trementes, pronunciava ameaças e palavras indistinctas.

O porteiro appareceu pouco depois á porta do cubiculo, em mangas de camisa e de chinellas.

—O que suceedeu? perguntou elle vendo Lauretto. É um ladrão?

—Peor do que isso, respondeu Antonino. Este biltre introduziu-se em minha casa com intenção de violentar a creada de quarto!

—Oh! que patife! disse o porteiro!

Depois, reparando para o rosto apavorado de Lauretto, submettido ao pulso nervoso d'Antonino, ajuntou:

—Que cara de velhaco! Sabe quem elle é, sr. visconde?

—Sei. Chama-se Lauretto Mina, e é cantor da Opera.

O porteiro abriu a porta.

Antonino, pegando no tenor pelas espaduas, arremeçou-o para a rua.

Em seguida lançou para o passeio o chapéu e o sobretudo{315}do tenor, objectos que Jacintha trouxera na mão, cuidadosamente.

A porta foi fechada quasi immediatamente depois.

Lauretto, pallido pela colera, rangendo os dentes, voltou-se, e estendendo o punho cerrado para a porta, murmurou enraivecido:

—Chegar-me-ha a vez!

E distanciou-se com passo rapido.

Ao entrar no quarto de sua mulher, Antonino encontrou Jacintha ajoelhada aos pés de Laura, dizendo-lhe arrependida:

—Oh! minha senhora, perdôe-me!

Levantou a creada e contou o que ella fizera, a sua presença d'espirito, a sua coragem.

—Sahiu, metteu-se n'uma carruagem que encontrou noboulevardMalesherbes, e foi chamar-me a casa. Felizmente eu não me deitára ainda, e vim immediatamente. Foi ella que causou todo o mal, mas devemos confessar que foi ella tambem que tudo remediou.{316}

Laura socegou Jacintha, consolou-a.

Pelas suas proprias mãos envolveu em algodão em rama os pulsos queimados da creada de quarto, emquanto não podesse ser feito outro tratamento, acompanhou-a ao quarto, deitou-a, e só a deixou quando a viu adormecida.

Voltou para junto d'Antonino.

Até então podéra conter-se, mas a reacção veiu, por fim.

Cahiu sobre umfauteuile chorou, murmurando:

—Ah! que noite! que scena!...

—Socega, minha querida Laura, disse-lhe Antonino pegando-lhe nas mãos. Passaste uma hora terrivel, que felizmente não se repetirá. Acabou-se!

—Acabou-se! repetiu Laura abanando a cabeça. Se tudo estivesse terminado não me sentiria eu inquieta. Comprehendo que pelo espantoso perigo que corri tu não podesses suffocar a tua indignação. Insultaste terrivelmente esse miseravel. Conheço-o. Lauretto não possue apenas uma alma vil, possue tambem uma alma má. Vingar-se-ha com certeza.

—Pois suppões?... Estás enganada. Eu puni-o justamente para não ter que o provocar. Verás que, elle tambem, não se atreverá a ser o provocador.

—E se fôr?

—Dão-se explicações d'um insulto e não d'um castigo. Recusarei bater-me com esse homem.{317}

—Promettes, Antonino? juras? Necessito ter a certeza... A duvida incommoda-me sobremaneira; Tinha razão teu pae na ultima carta que te escreveu, e me mostraste. O muito que me amas fez com que quizesses agradar á minha phantasia d'artista, collocando-me n'um meio romanesco e poetico, que tinha muitos encantos, mas que não era isempto de perigos. Seriamos felizes se não houvesse invejosos e maus. Estou convencida que foi a nossa situação equivoca que causou todo o mal.

Calou-se por instantes, como que absorvida por occulto pensamento.

Depois proseguiu:

—Lauretto ter-me-ia respeitado se estivesse certo de que eu era tua mulher. Porque será que, amando-nos tanto, não podemos pôr d'accordo as nossas existencias, como puzemos os nossos corações?

Novas lagrimas rolaram-lhe pelas faces.

Antonino seccou-as com beijos, esforçando-se por tranquillisar a esposa com phrases ternas.

—Escuta, disse ella, tenho o presentimento que atravessamos uma hora terrivel, e quero fallar-te com toda a gravidade. Tenho a annunciar-te uma resolução seria que tomei, e uma noticia agradavel a dar-te. A resolução é que, decididamente, renuncio ao theatro. A noticia...—fallemos baixo!—desejava esperar alguns dias para te fallar nisso... Mas não...{318}não posso esperar... tenho a certeza!... A noticia é que, o meu constante sonho de mezes e annos, vae realisar-se emfim! Antonino, no meu ser havia duas partes distinctas: tinha, por meu pae, o sentimento artistico, e por minha mãe o sentimento maternal. Até hoje pareci-me com meu pae, d'hoje para o futuro parecer-me-hei com minha mãe!

Antonino ajoelhou aos pés de sua mulher, envolvendo-a nos braços, louco d'alegria.

—Um filho!... O nosso filho!... murmurou elle.

E cobriu-lhe de beijos as mãos.

Ella retribuiu-lhe as caricias, e continuou:

—És feliz, não é verdade? Pois bem: procede de fórma a dissipar a nuvem sombria que, n'este momento, escurece a minha felicidade. Tens agora novos deveres. A tua vida não te pertence unicamente, é tambem minha, é nossa. Peço ao pae um juramento sagrado: peço-te, sob tua palavra d'honra, que em caso algum, nem mesmo provocado por Lauretto Mina, exporás a tua vida contra a d'esse miseravel.

Antonino hesitou.

—Sob minha palavra d'honra?... Nem mesmo provocado?... repetiu elle.

—Ah! hesitas!... disse Laura.

Elle percebeu a profunda anciedade de Laura.

Reflectiu n'um instante que uma mulher póde acreditar n'um compromisso tomado por aquella fórma,{319}mas que em taes circunstancias esse compromisso não obriga um homem.

Portanto replicou:

—Não hesito. Dou-te a palavra que me pedes.

—Ah! obrigada!...

Tomou-lhe a cabeça entre as mãos e beijou-o na fronte.

Seguidamente começaram, cheios de confiança e de fé, a traçar o plano da sua nova vida.

Laura desejava deixar Paris immediatamente, mas concordou que a partida, assim precipitada, semelhava a fuga.

Demorarar-se-iam ainda quatro ou cinco dias, para regular os seus negocios.

Como estava escripturada por espectaculo, a Linda não tihha de pagar multa na Opera.

Partiriam, depois, para Italia, onde o conde de Bizeux se lhes juntaria.

Em regra, passariam o inverno nos paizes do sul, Italia, Hespanha, Grecia, Egypto, Algeria, e os estios em Saint-Pol-de-Léon.

Conversaram até ás sete horas da manhã.

A essa hora Antonino deixou Laura, para que ella dormisse um pouco.

Ficou resolvido que elle não voltaria mais áquella casa. O visconde procuraria Laura, de tarde, na rua Boudreau.{320}

Até ao dia da partida, jantariam e dormiriam ali, devendo Antonino voltar á casa doboulevardHaussmann apenas para tratar de pormenores materiaes.

Laura adormeceu em breve, esperançosa e feliz.

Antonino, chegado que foi aos seus aposentos de rapaz, estirou-se sobre um canapé.

Não podia conciliar o nome.

Previa, preoccupado, o que se ia passar.

Desejava lavar, com uma execução summaria, a offensa recebida, principalmente para que o nome de sua mulher não fosse envolvido na questão.

Entretanto, percebia que se descobrira ante Lauretto Mina, e que entre elles o insulto e o conflicto não podia deixar de terminar por duello.

Ás onze horas o creado foi levar-lhe os cartões de Nobillet, o pianista, e de Gressier, o baritono.

Não poude deixar d'estremecer, dando ordem para que fosse introduzidas as visitas.

Laura tinha razão: a vida para elle duplicára de valor, desde a vespera.

Lauretto Mina escolhera aquellas testemunhas, porque tanto Nobillet como Gressier, tinham assistido á scena de Remissy no concerto de Saint-Malo, e conheciam um pouco os incidentes e o visconde.

Foi Nobillet quem fallou.

—Vimos da parte, do sr. Lauretto Mina, sr. visconde, disse elle. O nosso collega assegura que vossa{321}ex.ª o insultou esta noite, gravemente. O nosso primeiro dever era procurar o sr. visconde para vereficarmos se as suas explicações condizem com as do nosso constituinte. Disse-nos o sr. Lauretto Mina que em tempo tivera relações com uma rapariga ao serviço da sr.ª viscondessa de Bizeux; parece que essas relações foram agora reatadas, e que elle passou a noite anterior no quarto d'essa rapariga. Por acaso vossa ex.ª encontrou-o, e sem razão, sem provocação da parte d'elle, agarrou-o pelo casaco como se fôra um gatuno vil, arrastou-o para o vestibulo, indicando o nome d'elle, por entre injurias, ao porteiro do predio, e arremessando-o depois para a rua, com violencia. São verdadeiras estas declarações, sr. visconde?

—Completamente...

—Vossa ex.ª pode naturalmente interpretal-as e explical-as, e nós estamos ás suas ordens para acceitar os esclarecimentos com que quizer honrar-nos.

—Nada tenho que explicar, replicou Antonino. Encontrei o sr. Lauretto Mina sahindo do quarto da creada da minha mulher, na casa que ella habita. Irritei-me e pul-o fóra.

—Vossa ex.ª disse em voz alta que elle tinha violentado a rapariga. O sr. Lauretto Mina affiança que não houve a menor violencia.

—Ignorava e ignoro esse facto.

Nobillet proseguiu:{322}

—Ser encontrado no quarto d'uma mulher, ainda que ella seja creada, não é deshonra para um homem. Para que vossa ex.ª se irritasse até á indignação e á violencia, por um facto que realmente não tem gravidade, de certo houve razões estranhas a esse mesmo facto. Somos homens honrados fallando com um homem honrado, sr. visconde; esperamos, pois, que nos julgue capazes d'apreciar e comprehender essas razões.

Nobillet e Gressier adivinhavam que havia um mysterio em todo aquelle negocio.

Nem um nem outro tinha grande consideração pelo caracter de Lauretto Mina, de quem conheciam os terriveis antecedentes de duellista.

Comtudo não tinham podido recusar-se a servir-lhe de intermediarios na conclusão do conflicto.

Entretanto esperavam que o visconde lhes fornecesse uma razão ou ao menos um pretexto para declinar a sua penosa missão.

Desejavam pois que Antonino pronunciasse uma só palavra n'esse sentido.

O visconde, porém, limitou-se a responder:

—Agradeço-lhes os termos delicados com que expozeram a questão. Sinto a mais alta consideração por vossas ex.as, mas não só posso dar do meu procedimento outras razões além das que já conhecem, porque não existem.{323}

As duas testemunhas olharam-se consternadas.

Depois Gressier disse:

—Observar-lhe-hei, sr. visconde, que se o sr. Lauretto Mina o não offendeu tambem, é elle que deve considerar-se offendido, tendo, portanto, o direito de exigir ou desculpas ou uma reparação pelas armas.

—Não estou disposto a pedir desculpas, disse Antonino com voz firme. De resto supponho que não seriam acceites.

—É claro que, reconhecendo-lhe a qualidade d'offendido, deixa-lhe a escolha das armas... disse Gressier.

—E sei antecipadamente que elle escolherá o sabre, respondeu Antonino, sorrindo.

E levantando-se, accrescentou:

—Mais uma vez lhes agradeço, meus senhores, a sua delicada intervenção, e a fórma correctissima do seu procedimento. Terei a honra de os pôr em relações com dois dos meus amigos, os srs. conde de Bauriac e barão de Chazeuil. Procural-o-hão esta tarde em sua casa, sr. Nobillet.

Os tres cumprimentaram-se com silencio.

O visconde acompanhou-os até á escada.

Cumprimentaram-se novamente, e as duas testemunhas desceram, mais inquietas que o proprio visconde.{324}

Antonino, voltando para o interior da casa, disse apenas de si para comsigo:

—Era fatal este resultado!

E principiou immediatamente, com a mais perfeita tranquillidade, a tomar as suas disposições.

Em primeiro logar expediu um telegramma a seu pae, dizendo-lhe que tinha, no dia seguinte, um duello grave, e pedindo-lhe para tomar o expresso da noite, que o devia trazer á capital pelas oito da manhã.

A essa mesma hora deixaria sua mulher na casa da rua Boudreau, e encontrar-se-ia com o conde, nos seus aposentos doboulevardHausmann ás nove horas.

Desejava que, em caso de fatalidade, o conde estivesse junto de Laura.

Em seguida foi para casa do conde de Bauriac, d'onde mandou chamar o barão de Chazeuil, que morava proximo, na rua dos Campos Elyseus.

Os tres conferenciaram em seguida sobre o duello em perspectiva.{325}

O conde de Bauriac, entendedor na materia, disse, movendo a cabeça com ar preoccupado:

—Um duello com Lauretto Mina tem um caracter extremamente excepcional. Esse homem, em dois duellos que teve, matou um dos adversarios, e feriu gravemente o outro, que só escapou por milagre. Jámais foi possivel explicar e justificar os botes que lhe valeram esta dupla e sangrenta victoria. Em virtude da rapidez do ataque, ninguem viu como os botes tinham sido vibrados. Conheço a sua força ao sabre, meu caro visconde, e vel-o-ia, sem inquietação, bater-se com os melhores esgrimistas. Mas considerando a fórma... italiana de Lauretto, todas as cautellas são poucas. A nossa responsabilidade, como testemunhas d'este duello é duplamente seria. Não se trata de regular o negocio, ou de apresentar desculpas; mas, emfim, deve haver, e ha com certeza, no conflicto apparente, razões occultas, que eu não lhe perguntarei. Nós sabemos, Chazeuil e eu, que o meu amigo é corajoso como poucos. Encarregue-nos de dizer ás testemunhas de Lauretto Mina que se recusa a dar-lhe explicações, e nós acceitaremos a missão satisfeitissimos, não é verdade, barão?

Chazeuil respondeu com um gesto affirmativo.

—Agradeço-lhes a confiança que em mim depositam, replicou Antonino, mas não posso nem devo acceitar o seu offerecimento. Insultei esse homem, sabendo{326}bem quem elle era, e conhecendo o risco que corria. Se eu recusasse a bater-me hoje, elle ámanhã offender-me-hia por fórma que fosse então inevitavel o duello. Minha mulher não desconfia agora que eu fui desafiado, e podia ser informada do novo conflicto que se daria de futuro. Peço-lhes, pois, que me deixem terminar este negocio sem perda de tempo.

—Estamos á sua disposição, disse o conde de Bauriac. Tem algumas instrucções a dar-nos?

—Não. Desejo apenas que o duello se realise, sem falta, ámanhã ás onze horas. Meu pae só chega ás oito, e eu tenho que fallar-lhe.

Ficou combinado que os dois iriam buscar Antonino, á casa doboulevardHausmann, pelas dez horas da manhã.

Pouco depois d'Antonino sahir, entraram as testemunhas de Lauretto Mina.

Estavam ainda mais perplexos do que de manhã.

Gressier, sobretudo, não podia occultar a inquietação de que estava possuido.

Quando o conde de Bauriac lhe disse que era inevitavel o duello, o baritono fez um gesto de profundo desgosto.

É que Lauretto rira diabolicamente quando elles lhe tinham dito que o visconde acceitava o desafio.

Gressier lembrou-lhe o que o tenor d'uma vez dissera nofoyerdos artistas:{327}

—N'um duello eu não arranho nem firo, mato. E ajuntou:

—Aquella sua phrase de certo foi simples modo de fallar, meu caro. Sem duvida não teremos que temer ámanhã um resultado tão tragico.

—Está enganado! replicou Lauretto, com sorriso feroz. Hei de matar o visconde! Hei de matal-o!

Gressier estremecera violentamente, por tal fórma Lauretto pronunciára as ultimas palavras.

Quando entrou em casa do conde de Bauriac, o baritono estava ainda sob o peso d'aquella desagradavel impressão.

O barão de Chazeuil reparou para o gesto de Gresnier, e disse:

—Não me parece que seja caso para temores. O sr. Lauretto Mina é um adversario para respeitar... como esgrimista, bem entendido, mas o sr. visconde de Bizeux saberá defender-se, com certeza.

Os infelizes artistas temiam as responsabilidades que pesam sobre as testemunhas de duellos que occasionam a morte, e desejavam encontrar um meio que os levasse a não continuar com as negociações.

Quando se tratou de resolver que sabres serviriam o conde de Bauriac disse, segundo o costume, que a sorte decediria.

Nós acceitamos sem o mais leve inconveniente os sabres do sr. visconde de Bizeux, disse Nobillet.{328}

—O sr. Lauretto Mina não ratificaria a sua concessão, observou o conde.

—N'esse caso retirar-nos-iamos, replicou Gressier apressadamente.

O conde viu-se obrigado a conter aquelle ardor... d'abstenção, affirmando que não poderiam ser censurados por tomar a sorte como arbitro.

Foi resolvido que o duello se efectuaria no bosque de Bolonha.

O barão de Chazeuil indicou uma clareira, sobre o mappa.

Encontrar-se-iam n'aquelle sitio pelas onze horas do dia seguinte.

Gressier e Nobillet retiraram-se, porque nada mais tinha que ser combinado.

Durante esse tempo Antonino fôra a casa do dr. Despujolles, que deu um salto ao saber que o visconde se batia com Lauretto.

Depois, readquirindo a presença d'espirito, disse:

—Lá estarei com os meus instrumentos, mas, não sei porque, estou convencido que elles não servirão ao meu amigo. Já o vi de sabre em punho; ia affiançar em como dará uma lição ao ajudante do professor d'esgrima. O que é necessario é que não se distraia.

Antonino quiz que o doutor o acompanhasse a jantar em casa de Linda.{329}

Despujolles, porém, pretextando affazeres, mas na realidade por temer não estar sempre de bom humor, desculpou-se de não acceitar o convite.

O visconde, que não desejava estar só com sua mulher, ao sahir de casa de Despujolles procurou e convidou dois amigos para jantar.

Chegando a casa, disse a Laura:

—Encontrei Heitor e Linage; jantarão comnosco.

—Desejava antes jantar só comtigo.

E depois, olhando fixamente para o marido, perguntou:

—Nada de novo sobre Lauretto Mina?

—Nada. O biltre nem bulio, respondeu Antonino.

O jantar correu alegremente.

A fatalidade, porém, quiz que, pelas dez horas da noite, quando o visconde acompanhava os dois amigos até á porta, Jacintha lhe entregasse um telegramma.

Antonino voltou para junto da esposa.

Ella viu o carimbo de Saint-Malo, e estremeceu.

—É um telegramma de teu pae? perguntou.

—Ah! sim, é verdade. Escrevi-lhe sobre a nossa proxima mudança de vida. Elle ficou satisfeitissimo e participa-me que vem ver-nos. Chega ámanhã, talvez...

—Deixa ver... disse Laura estendendo a mão para o telegramma.{330}

—Curiosa!... respondeu elle, rindo.

Fez uma bola com o papel, e lançou-o ao fogão.

Laura pensou immediatamente:

—Bate-se ámanhã com Lauretto Mina.

Mas ao mesmo tempo reflectiu que coisa alguma impediria, que os seus pedidos e as suas lagrimas podiam dessocegar Antonino, e resolveu calar-se.

—Em que pensas? perguntou-lhe elle.

—Penso que teu pae será um magnifico avô.

E não fallaram mais senão no pae e no filho.

No dia seguinte o visconde levantou-se cedo.

Ás oito horas estava prompto para sahir.

Laura deu-lhe um beijo tranquillo, e limitou-se a recommendar-lhe:

—Volta depressa, pensa em mim e n'elle!...

O visconde calculou:

—Não desconfia de nada!

E Laura dizia para comsigo:

—Não suppõe que eu adivinhei tudo!


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