Chapter 2

Após o silencio de alguns segundos, que eu não ousei quebrar com alguma pergunta melindrosa, o padre, erguendo a face inflammada, com a luz dos olhos estranhamente viva, disse n'um impeto de espirito:

—Hei-de mostrar-lhe algumas datas que tenho assentadas n'um livro. Não é auto-biographia, nem romance simulado com suppostos nomes, nem «Memorias» ambiciosas de futura vulgaridade. São cauterios applicados á chaga ínsanavel... Ha-de lêr os meus papeis.

—Mereço eu tanto?!—disse, sentindo-me vaidoso da confiança, e lisonjeado na minha cubiçosa curiosidade.

—A leitura do meu livro não paga merecimentos de quem quer que seja, nem sequer é uma lição nem um bom exemplo: é a parte d'um dia, menos fastidioso, que eu dou ao meu hospede. Lerá esta tarde.

Esteve-se em meditação o padre, sem desfitar os olhos do alamo e das letras, e continuou depois d'este theor:

—Se a não tivesse escripto, contava-lhe a minha vida. Tinha precisão d'este desafogo. Digo-a a cada noite que Deus manda com os seus silencios para m'a ouvir. Repito-a a cada aurora, que se aclara, não já para mim, que só espero vêl-a despontar além da sepultura. É natural este desejo de infelizes que se querem lastimados na sua dor. Esse mesmo desejo tenho submettido ao jugo de todos os outros. Nunca fallei do homem que foi aos que a mera curiosidade tem aqui trazido a ver o homem que é, em sua mesma obscuridade, um segredo estimulante de ociosos. A parte essencial da minha vida sabem-na muitos, e eu não sei quantos romances por ahi correm á conta dos meus soffrimentos. Sei que os velhos da minha creação me chamam «romantico» ou «tolo» que monta o mesmo. D'esses alguns não quizeram envelhecer ainda, e a cada passo os encontro em Lisboa, como os lá deixei ha vinte annos, gentis, perfumados, galãs, viciosos, e salvando-se da irrisão com o pouco cabedal que fazem da sua mesma dignidade. Outros avelhentou-os o mesmo vicio, e de crêr é que me julguem por si, ao verem-me assim encanecido. Haverá algum que me leia no coração e desculpe das injustiças dos outros; esse, porém, não me perdoa o feio envez em que eu espontaneamente voltei uma vida, que principiára mostrando uma face agradavel, e esperançosa de todos os bens que se tomam em conta de melhores n'este mundo. E assim é que tenho vivido e morrido só commigo, e affeiçoado aos que me lastimam e aos que me escarnecem. Uns e outros erram sem vontade. Na sociedade, em que elles medraram e se acreditaram, sou e devo ser aquillo que de mim pensam: um exquisito, que se goza das suas singularidades; ou um martyr excruciado por sua infeliz e dissociavel imaginação. Hypocrita é de presumir que me não taxem, porque a hypocrisia tem n'este mundo a sua ganancia, e elles bem sabem que eu nada tenho ganhado, nem solicitado. Isto, que vou dizendo, tem sombras de defeza propria, não tem, meu amigo?

—De defeza, não me parece, senhor padre Alvaro!—respondi—Quem é que o accusa? Escarnecer ou lastimar não é accusação. O que eu entendo das palavras de vossa senhoria é que perdoa aos baixos espiritos, que se querem levantar para avalial-o, e resvalam á lama.

—Não tanto—replicou sem embiocar a caridade—Sejamos generosos e até piedosos com as almas remissas e afrouxadas na trabalhosa fabrica das posições, das honrarias, dos bens da fortuna, da immortalidade e da perpetuidade dos seus nomes na riqueza e gloria herdada á sua descendencia. Entre estes, que muito é ser eu olhado como inutil, como o menos previdente dos tres a quem o Senhor distribuiu os talentos? O sacerdocio é havido como officio, e o sacerdote que não cura sequer de agenciar uma murça, ou uma abbadia rendosa, é um inhabil, que retrocedeu pela estrada obscura ao tempo escuro da religião. Que ha-de dizer a gente illuminada, segundo o tempo, d'um homem, que foi abastado, que se fez padre antes de ser pobre, e que empobreceu, e não cuidou de voltar a si com artes infalliveis o bom rosto da fortuna, e nem sequer escassamente soltou uma palavra de queixume contra os ingratos?

—Deve dizer—respondi commovido—que homem, que tal fez, é um dos escolhidos de Deus, um exemplo, e uma gloria da especie humana.

—A especie humana não dá fé de glorias tão baratas, meu amigo. Eu tive alguns annos de homem social e amoldado ao feitio vulgar. Pois saiba que se a mim me perguntassem então o que eram glorias da especie humana, eu apontaria Cesar, Alexandre, João de Castro, Colombo, Vasco da Gama, Camões, e os outros que escreveram para sempre os seus nomes no padrão d'um mundo novo descoberto, na pagina d'um livro, ou na lamina d'uma espada. Se me lá fossem dizer que aqui nos «Olivaes» vivia um padre, que nem sequer escrevera os sermões de Vieira, ou as «Orações funebres» de Bossuet, eu de certo responderia com um sorriso desdenhoso á admiração de quem me viesse fallar em tão pêcas glorias da especie humana.

A conversação prolongou-se n'este sentido até horas de jantar.

Jantamos.

Não quero que o leitor diga que ninguem sabe o que comem e quando comem os heroes dos meus romances. Eu tenho a sinceridade de fazer comer, com vulgar semceremonia, não só os heroes de más manhas, mas ainda os santos, como o padre Alvaro.

Ibit homo in domam œternitatis suœIrá o homem para a casa da sua eternidade.

ECCLES.—12. 5.

Na tarde d'aquelle dia chamou-me o padre para junto de si, diante da mesa em que escrevia. Abriu uma das quatro gavetas da escrivaninha, e tirou um grosso volume de papel almaço, encadernado em papelão, sem alguma outra cobertura.

—Ahi tem—disse entregando-me o livro—Leia, como quem lê um romance de historia authentica, escripto por pulso não vezado a escrever novellas. Ahi vai o coração do seu amigo, a cinza das flôres de vinte primaveras, flôres que se abriam já queimadas, porque o bolbo de cada uma rebentava já doentio da venenosa rega das lagrimas.

Lembra-me que recebi das mãos do sacerdote o livro com o respeito do acolito ao receber o evangelho das mãos do celebrante. Póde ser que na minha reverencia houvesse menos ceremonia de ritual e mais religiosa devoção.

Recolhi-me ao meu quarto, e juro que me tremia a mão, quando abri o livro. Na primeira pagina, li este dictame de Isaias:

Ingredere in petram, et abscondere fosso humo

Quer dizer:

ENTRA NA SEPULTURA, E SOME-TE NA TERHA D'ESSACOVA.

E mais abaixo o verso do psalmo 117:

Non moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini.

Póde assim trasladar-se em vulgar:

NÃO MORREREI; TEREI VIDA PARA NARRAR AS OBRAS DO SENHOR.

A fórma da narrativa é em divisões de annos, mezes e dias. Alguns capitulos estão incompletos, e d'estes vi uns poucos suspensos em conjuncções, ou n'uma virgula. O dizer é singelo, familiar, mas correcto e sempre puro na linguagem. Rara é a pagina com emenda ou entrelinha. De vêr é que fallava o coração, e que as suas primeiras palavras eram as mais expressivas, e respondiam fielmente ao pensamento.

Na primeira tarde poucas paginas li: tão detidamente as ponderava e relia. Entrei por noite alta com a leitura, e apaguei a luz, já quando a do sol me dispensava da outra.

Conhecia já Alvaro Teixeira de Macedo desde os dezeseis até aos seus vinte e sete annos. Isto me bastava para eu não poder sujeitar á modestia do levita os raptos da minha admiração, que melhor se entendera por idolatria.

O escripto dispensava os commentarios do author. Não pedi elucidação, nem promenores. Era tudo claro e minudencioso como historia escripta de hora a hora, entre lagrima e lagrima, com o coração na humanidade, e a consciencia em Deus.

Ao oitavo dia, fechei o manuscripto, e fui restituil-o ao padre. Não cheguei a dobrar o joelho, quando me elle tomava das mãos o livro; mas o coração pesava-me como para cahir e humilhar-se aos pés d'aquelle justo. Conheceu-o elle, e abriu-me os braços, e apertou-me ao seio, balbuciando commovido do meu embaraço:

—Tem o meu segredo: não abracei ainda outro seio que o tivesse. Diga-me agora: que aproveitou?

—Aprendi a conhecer a magestade do ultimo ser da creação. Assim, sei agora, o que não podéra ainda perceber na sagrada escriptura: «que Deus fizera o homem á sua imagem e semelhança.»

—E viu que o barro do homem se recoze ao fogo da desgraça...

—E d'essa depuração ao fogo lento, vi eu tambem que sahia o anjo...

—Pouco aprendeu...—replicou o padre—Eu queria mais que tudo isso... Queria ensinal-o a ser paciente, quando for desgraçado. Não lhe posso dizer mais singelamente o resumo de tudo que leu, nem lhe darei, se m'o pede, e mesmo se m'o não pede, mais encarecido conselho. Paciencia, é a arma, é o triumpho, é a porção divina do homem, é a bemaventurança. A padecer é que os olhos da alma se destoldam, e encontram os de Deus. Padecer é a quebra, a falha irremediavel e commum; resignar-se é a perfeição. A virtude, que todos alcançam, se a querem, é dar largo e por igual a amigos e inimigos, uns o seu ouro, outros as suas luzes, outros o seu braço, e o seu descanço. A virtude dos raros, a maxima virtude, a mais edificativa, é soffrer sem amaldiçoar, no asco da pobreza, no desamparo do descredito, na ignominia de não ter um amigo. Isto ninguem o vê, ninguem o admira, ninguem o vulga aos respeitos publicos. E que vai n'isso? Basta-me Deus. Não posso duvidar que elle me está vendo. Sinto-o no repouso da minha consciencia. O coração está passado de dores, o espirito conturba-se de angustias, a noite não acaba no termo de vinte annos. Assim é; mas que importa. Basta que a consciencia me diga: «não devias padecer, porque és bom.» Quando o homem que soffre se diz isto a si, é Deus que lh'o diz. Esta é a altissima rocha que vê em baixo as tormentas a fremir-lhe na base. Este é o berço providencial do menino, lançado ás ondas, e mandado buscar por Deus, para contar ao mundo os seus primeiros dias. Esta é a arca do justo, a caverna dos leões inofensivos, opost tenebras spero lucemde Job.[1]

Vá o meu amigo escutando com boa sombra estes «Exercicios espirituaes» com que eu principio a ensaiar a sua paciencia. Isto lhe ha-de acontecer mais vezes, porque é vêzo padresco entrar de vontade pelas homilias, quando o auditorio lhe não dá campo para prégar, e até para passear desassombradamente.

Veio a senhora Eufemia cortar-me a resposta. Trazia ella uma carta chegada de Lisboa. Padre Alvaro enfiou ao lêl-a; mas a pallidez habitual voltou, passados instantes. A perseverante desgraça já lhe havia dado pulso de ferro para sofrear os impetos do sangue.

—Vou hoje de tarde a Lisboa—me disse elle, placido e triste—Se quer ficar, e esperar, meu amigo, cá fica a boa Eufemia para cuidar de si. Se quizer vir tambem, e lá ficar, fique; e, se prefere tornar para as ruinas, mais contente voltarei.

Fui com o padre para Lisboa. Sem elle, a solidão dos «Olivaes» ser-me-ia dolorosa.

Separamo-nos no Rocio, onde apeamos do carro que nos transportou de Santa Apolonia. O padre disse-me a sua pousada, e eu fui para a minha hospedaria. Procurei-o no dia seguinte: estava elle a ponto de sahir para o convento de religiosas de Santa Martha. Opportunamente saberá o leitor o que elle ia fazer duas vezes em cada dia ao convento de Santa Martha.

Vinte dias, ou mais seria, acompanhei padre Alvaro Teixeira até ao pateo do convento, e d'alli a sua casa. N'este breve termo, o semblante do homem das dores declinou rapidamente para a lividez e magreza cadavericas. As ultimas idas ao mosteiro fêl-as de sege, e ahi mesmo tinha syncopes que o extenuavam a ponto de uma vez o levarmos em braços da sege a uma grade, onde o esperava uma senhora muito idosa, de veneravel aspecto, a quem o padre chamou prioreza. De relance, vi que esta, senhora estava soluçando e limpando as lagrimas, quando entramos na grade.

Sahi logo com o boleeiro, que me ajudara a amparar o meu amigo; mas ainda ouvi estas palavras da religiosa: «Acabaram-se os seus trabalhos.»

Ao toque de Ave-Marias fui chamado pela porteira do convento, e esta me disse que o senhor padre Alvaro me pedia a esmola de lhe ir dar o meu braço para se elle encostar. Maravilhei-me da reanimação em que o achei; mas conheci logo que era excitação de febre. Nada lhe ouvi durante o transito. Levava, como da primeira vez que o vi, as mãos encruzadas sobre o seio, e as palpebras descidas como se quizesse esconder de mim as lagrimas, que eu bem via estancadas nas rugas, á semelhança das que regelam na face d'um cadaver.

E eu, que não podia enganar-me no motivo d'aquella afflicção, tão absorvido ia, e tamanha parte quinhoava n'ella, que não tive uma palavra só de lenitivo, que lhe dissesse!

Parou a sege.

Saltei para amparar o padre na descida.

—Tenha a bondade, me disse elle, sem mover-se, de subir ao terceiro andar, e dizer ao dono da casa, que tenha a paciencia de vir aqui fallar-me.

Subi, e desceu commigo o dono da casa, ao qual o padre disse o seguinte:

—Meu amigo, não tenho mais que fazer em Lisboa. Vou para os «Olivaes» agora mesmo, se o boleeiro quizer fazer a jornada de noite. Escuso dizer-lhe que está com Deus a pobre senhora. Agora é erguermos as mãos em acção de graças aquelles que a conhecemos. Eu cá me vou avisinhando das minhas ruinas como o reptil, ferido de morte, da conhecida caverna, onde se quer sósinho com as suas agonias. Dê-me a sua mão de amigo, e adeus.

Voltou-se para mim, e disse-me:

—Quando eu lhe escrever, a pedir a sua companhia, vá ter commigo, se o poder fazer sem custo.

—Pois não me quer comsigo agora?!—atalhei.

—Não, por ora não. Estes primeiros dias não podem ser repartidos nem consolados por ninguem.

Beijei-lhe a mão, que transpirava um suor rescaldado.

—Queira perguntar ao boleeiro se me leva aos «Olivaes»—ajuntou elle. Levei-lhe a resposta affirmativa, e a sege partiu, a passo rapido.

Fiquei conversando com o amigo do padre.

—Não o tornaremos a ver—disse-me elle consternado—Padre Alvaro não vive muitos dias; o senhor verá. Eu d'antes, quando o via desconfortado e com signaes de pouca vida, dizia-lhe:—«lembre-se d'aquella infeliz, que não tem mais ninguem no mundo.» Parece que isto lhe dava alma nova! Agora, não ha nada que o prenda á vida, senão o sofrimento...

—Mas eu cuido—interrompi—que o padre Alvaro ha-de achar sempre na sua vida occasiões de ser util a muitos outros desgraçados, embora se ofereçam com titulos menos valiosos á sua beneficencia. Em quanto houver um homem que lhe peça conselhos, esmolas, ou intercessão com Deus, o padre, qual elle é, não póde julgar terminada a sua missão n'este mundo.

—Essas conjecturas são conceituosas, e de bom juizo—redarguiu o sujeito—mas os negocios do coração alheio correm de modo muito diferente das nossas razões, pensadas, a espirito socegado, embora nos doam os infortúnios do nosso amigo.

E ficamos concertados a mandar no dia seguinte saber novas do nosso amigo.

O portador não nos trouxe resposta á carta. A snr.aEufemia hesitara em levar-lh'a á camara, onde se elle fechára; fôra por fim; mas voltara sem resposta, ou promessa de responder, quando podesse.

Decorrera uma semana em esperanças, até que um dia o amigo do padre me procurou para me dizer que a velha Eufemia lhe escrevera, dizendo-lhe que o seu amo estava em perigo de vida. D'alli partimos no mesmo ponto para Santa Apolonia, e de lá para os «Olivaes».

Estava o sacerdote sentado n'uma poltrona, junto á janella que olhava para o palacete fronteiro do negociante de Lisboa. Deu-nos as mãos, que cada um de nós aproximou dos labios. Respondeu a esta reverencia com um sorriso, e estas palavras pausadamente pronunciadas:

—O martyrio, que se alcança com as paixões da terra, tem tambem a sua santificação. Os meus amigos igualam-me nos seus respeitos a um S. Francisco de Sales ou Vicente de Paula...

—Esse sorriso abre-se em luz de esperança para os seus amigos, senhor padre Alvaro—disse-lhe eu.

—E eu me congratulo na esperança dos meus bons amigos. Tambem vejo a luz, que illumina e abraza...Ardere et lucere...[2]Padeci muito, e esperei muito d'estas horas finaes. Misérias e oppressões de uma longa vida aqui se acabam:Miser factus sim ego, et curvatus sum usque ad finem[3]. Curvado o corpo, sim, que o desconcerto total d'esta fragil machina é a repellões de dôr; mas a alma folga, e sorri no extremo dia:Ridebit in die novissimo[4].

Estas vozes extenuaram-no como se fossem um desafogo vehemente. O meu companheiro disse abundancia de palavras que, a seu juizo, deviam refrigerar o afogo febril do enfermo. Eu não tinha alguma fé nas consolações d'elle, e menos ainda nas minhas. Assisti silencioso á perdoavel verbosidade de um, e ao recolhimento offegante do outro.

Fallou-se em ir buscar medicos a Lisboa. O padre sorriu-se, encarando no amigo, que propozera a consulta.

—Medicos!...—murmurou elle—O caixão... Mortalha cá está esta...

Dizia, tomando em ambas as mãos convulsas as abas da batina. Ao fim da tarde, pedimos que se recolhesse á cama, e elle respondeu, fitando os olhos no céo:

—D'aqui vejo melhor a patria; mas a hora não chegou ainda. Já era muito esperar... O Senhor é piedoso com os que não desesperam, e com os pacientes. Espero... e, posto que padeci muito, não direi como o néscio: «minha alma descança, que possues muitos bens»[5]. Eu espero tudo da misericordia Divina.

Proseguiu fallando a intervallos, e até alta noite não consentiu que fechassemos a janella.

Pernoitamos ao seu lado, e vimol-o dormir duas horas serenamente. Palpei-lhe o pulso, e senti-o refrigerado e sem ponta de febre. Cobrei esperanças, contra o parecer do meu companheiro de vigilia.

Ao repontar da aurora, o padre olhou em nós ambos, e disse em tom compadecido:

—Caro tributo paga a amisade!... Vão deitar-se, meus amigos. Estou melhor. Digam á minha criada que vá chamar o parocho.

Fui dar as ordens, e voltei ao quarto, d'onde sahi, quando entrou o prior.

Durante o dia conheci que as minhas esperanças eram desmentidas por desfallecimentos e agonias passageiras do enfermo. A criada chorava alto a cada accidente, e eu via, no semblante contrahido do meu amigo, quanto o pungiam aquelles gritos. Pedi á criada que reprimisse o choro, e ella respondeu-me:

—O senhor talvez não saiba que eu criei aos meus peitos esse santo que está a morrer!...—E lançou-se de joelhos a orar em voz alta. Curvei-me diante d'esta dor, e adivinhei as angustias d'aquella mulher através dos ultimos vinte annos.

Ao fim da tarde, foi ungido o moribundo. Quizemos então quasi de força passal-o á cama: não o conseguimos.

—A morte é suave em toda a parte. Aqui adormecerei.Dulcis est somnus soperanti[6]—disse elle.

E, fitando no azul do céo os olhos embaciados, continuou:

—O céo da minha mocidade! Assim era n'aquellas noites de tanto e tão puro amor! A serenidade da natureza, e as agonias da creatura! Só o homem se dóe do homem, e Deus de todos. As creações sublimes do universo olham todas para o seu Creador, e não sabem como morre o reptil, nem quando despega da arvore a folha secca.

Vinham ditas com cançasso e violencia estas palavras. Pedimos-lhe que não fallasse, e elle apoiou a barba no seio, e cruzou as mãos, murmurando vozes imperceptiveis.

As onze horas da noite, estremeceu o agonisante na cadeira, e estirou os braços convulsivos. Pensei que era o extremo estertor. Volveu, porém, á sua quietação, e viu-me de joelhos, com as mãos apoiadas nos seus joelhos. Pôz-me no rosto a mão, e disse:—Beati qui lugent[7].

Soaram as doze horas n'um relogio de parede. O padre parecia contal-as, por um movimento nervoso dos labios. Tinha cahido a ultima pancada, e elle disse:

—Media autem nocte clamor factus est: ecce sponsus venit[8].

Ergueu as mãos em oração, inclinou a cabeça para o espaldar da cadeira, e suspirou. Cuidei que elle ia adormecer, quando vi calarem-lhe lentamente as mãos por sobre os braços da cadeira.

Era aquelle glacial dormir, que espera novo dia annunciado pelo anjo do ultimo juizo.

Ajoelhei de novo, e disse:

—Santo! pede a Deus por mim, e por todos os infelizes.

[1]Espero a luz, depois das trevas. Cap. VII, v. 12.

[1]Espero a luz, depois das trevas. Cap. VII, v. 12.

[2]S. João—5. 35.

[2]S. João—5. 35.

[3]Psal. 37—7.

[3]Psal. 37—7.

[4]L. dos Prov. Cap. 31. 25.

[4]L. dos Prov. Cap. 31. 25.

[5]S. Lucas—12. 19.

[5]S. Lucas—12. 19.

[6]É suave o dormir a quem trabalhou.

[6]É suave o dormir a quem trabalhou.

[7]Felizes os que choram.

[7]Felizes os que choram.

[8]Ouviu-se á meia noite este grande clamor: é chegado o esposo. S. Matheus. 25. 6.

[8]Ouviu-se á meia noite este grande clamor: é chegado o esposo. S. Matheus. 25. 6.

Grande, très-grande révélation. Cen'est pas ici un vain spectacle d'art etde sensibilité, simple volupté du cœuret des yeux. Non, c'est un acte de foi,un mystère...

MICHELET (La Femme.)

Alvaro Teixeira de Macedo nasceu, em Lisboa, no anno de 1813. Foi seu pae um commerciante rico, bastardo d'um fidalgo da côrte.

Cresceu Alvaro, e nunca seus labios proferiram a palavra mãe, nem tinha o coração memoria d'ella. Entrou n'um collegio. Ahi, ouviu de seus companheiros aquella dulcissima palavra, como grande parte e incentivo das saudades d'elles. Dizia um «minha mãe recommenda-me, que estude muito, que me ha-de levar á feira do Campo Grande», outro, repartindo confeitos ou amendoas pelos condiscipulos, dizia: «foi minha mãe que m'as mandou»; este escrevia a sua mãe, pedindo-lhe que o mandasse buscar no sabbado; aquelle chorava e adoecia de saudades de sua mãe.

Alvaro devia acreditar que a sua tinha morrido; mas ninguem lh'o dissera; nunca seu pae, nem sequer sua ama lhe fallaram em mãe.

Estava de ferias em casa, e tinha nove annos, quando perguntou a Eufemia, sua ama de leite, porque não lhe tinha fallado nunca de sua mãe. Eufemia, atalhada pelo repente da pergunta, tartamudeou algumas palavras, que exprimiam o em baraço d'ella, suspeitoso á precoce esperteza de Alvaro.

—Vou perguntar a meu pae—disse elle.

—Ora!—acudiu a ama—para que ha-de ir o menino fazer essa pergunta a seu pae?! Não queira saber d'essas cousas.

—Então que tem?!—tornou Alvaro, cada vez mais enleado, e curioso como creança—Eu havia de ter mãe por força, não é assim?

—Isso é; mas...

—Mas quê?

—E se ella morresse!?...

—Se morreu, é outra cousa... Então diga-me que morreu. Morreu ou não?

—Está bom, menino; deixe-se de querer saber o que não lhe importa—disse, em conclusão, a perturbada ama, fugindo a novas perguntas.

Manoel Teixeira, pae de Alvaro, queria do coração ao seu filho unico. Amimava-o n'aquella idade como no berço. Parecia crescer o amor á proporção que as feições do menino se iam compondo, retrato fiel das suas.

N'esse mesmo dia de inquietação para a boa Eufemia, estava o menino sentado nos joelhos de seu pae, que lhe anediava os cabellos, e aparava as unhas.

—Ó papá—disse Alvaro com um gesto carinhoso—a minha mãe já morreu?

Manoel Teixeira ficou por um pouco tempo suspenso; mas continuou a aparar as unhas do menino, e disfarçou a resposta com algumas perguntas concernentes ao collegio.

Estava Alvaro a ponto de sahir do gabinete de seu pae, e, como levado de providencial impulso, retrocedeu, e disse:

—O papá não me disse se a minha mãe morreu...

—Morreu—disse seccamente o pae.

Foi o primeiro gesto de enfado que viu Alvaro no rosto d'elle, sempre de riso e meiguice.

Contou o menino este caso á ama, e esta, profundamente magoada, disse-lhe em ar de reprehensão:

—Não lhe disse eu que não fizesse taes perguntas?

Tornou Alvaro para o collegio, e contou innocentemente a um dos mestres, que mais seu amigo era, o que passara com a ama e com o pae. Ficou o mestre admirado do acontecimento, e entendeu de si para si que Alvaro era filho natural do capitalista, e póde ser que da propria criada, a quem elle chamava ama. Estas desconfianças não eram boas para serem communicadas aos nove annos do collegial, e calou-se com ellas o mestre. O menino, porém, não fallava n'outra cousa, e instava por esclarecimentos, até que uma vez o mestre, mal assombrado, lhe disse:

—Estude, Alvaro; não lhe importe saber o que não lhe é necessario.

O alumno mais estudioso do collegio fora Alvaro até áquelle dia. Maravilhava o pae e os mestres com o seu adiantamento, e cuidado em aproveitar o natural engenho. De repente, com igual admiração dos mestres e do pae, o mais descurioso e desleixado do estudo era Alvaro; mas tambem, ao mesmo tempo, o mais triste e recolhido dos seus condiscipulos.

Manoel Teixeira, informado d'isto, sentiu a tristeza do filho e deu medíocre apreço ao desgosto dos mestres, no tocante a estudo. O negociante não; queria que seu filho seguisse as letras, nem se gloriava de procrear um talento. O que elle desejava era dar-lhe um verniz de boa sociedade, e habilital-o para casar com uma sobrinha sua, morgada rica, da linha paterna, menina que teria dez annos n'esse tempo. Entrava n'isto por muito o orgulho do bastardo, que pelos degraus da riqueza conseguira hombrear com os filhos legitimos de seu pae, e acudir-lhes, por orgulho tambem, nas crises fidalgas em que se elles viam apertados, no dia immediato á noite do jogo, ou do baile, ou dos casamentos e natalicios da côrte.

Decorreram tres annos. Quiz Manoel Teixeira, n'este espaço de tempo, por muitas vezes tirar o filho do collegio, á conta de magreza, de fastio, de doença, e de mil causas que inventa um pae extremoso. Alvaro resistia á ternura paternal, pedindo que o deixasse estar no collegio, onde se affeiçoára ao seu quarto, aos seus mestres, e a alguns condiscipulos, de quem o separar-se lhe seria muito penoso.

Tinha Alvaro já doze annos. Os tres ultimos, mal aproveitados nos livros, fructearam temporãos em discernimento e porte varonil. D'entre os professores, aquelle que muito o estimava e conversava, tinha-o em conta de homem, e como a homem lhe fallava. Por vezes, em intima pratica, relembravam aquella instancia de um, acerca de sua mãe, e a resposta enfadosa do outro. Notou, porém, o mestre que estas recordações traziam tristeza mais sombria para o alumno, e abstinha-se de revivel-as. Que montava isso, se Alvaro não podia esquecel-as, nem o mestre desconhecer a origem da melancolia do discipulo!?

—O senhor Alvaro está homem no espirito;—disse-lhe um dia o seu affeiçoado mestre de inglez—vou dizer-lhe o que não quiz explicar á sua ignorancia dos nove annos, quando o senhor me pedia esclarecimentos ácerca de sua mãe. Presumi eu n'aquelle tempo que seu pae tinha alguma forte, ou pelo menos desculpavel, razão para não lhe dizer quem era sua mãe. Bem podia ser que o menino fosse filho de uma das criadas de seu pae, ou mesmo ainda de uma senhora, cuja reputação corresse risco de ser manchada. Creio que me comprehende...

—Manchada... por que?—disse Alvaro.

—Por ser sua mãe.

—Por ser minha mãe!... Não entendo!...

—Assim me quer parecer; mas eu lhe aclaro a escuridade. Honram-se de serem mães, e o mundo honra aquellas mães, que estão ligadas por um sacramento aos paes de seus filhos. Agora de certo me entendeu.

Alvaro fez um gesto afirmativo, e disse:

—E minha mãe não estava assim ligada a meu pae?

—Era isso que eu cuidava; mas, estimulado tambem da sua curiosidade, pedi informações, que obtive logo, e já podéra ter-lh'as revelado, se as julgasse d'alguma utilidade, ha mais de dous annos. Vou agora contar-lhe o que sei de sua mãe. Conheço a causa da sua tristeza: é ella. Esse seu amor vago de filho tem influxo do céo. Alguma cousa quer Deus que se esconda n'esse amor; e a minha consciencia manda-me fallar.

Seu pae casou ha quatorze annos com uma senhora de rara formosura e rica, filha d'um negociante portuguez em Macáo. Maria da Gloria é o nome de sua mãe.

Os olhos de Alvaro reluziam, e a purpura do rosto inflammava-se á medida que o professor ia rompendo o véo que, para assim dizer, lhe velava um novo mundo de affectos, de sentimento, de esperanças, e um destino imprevisto.

Continuou o mestre:

—Seus paes viviam extremamente felizes, e o menino nasceu ainda na época da felicidade. Tinha Alvaro alguns mezes, quando sua mãe sahiu da companhia de seu pae, para, volvidos alguns dias, entrar n'um convento da provincia do Minho, onde vive agora. Não me peça esclarecimentos que não posso dar á sua idade, nem os daria ao seu pundonor, se o senhor Alvaro, em vez de doze, tivesse vinte e quatro annos. Fique sabendo que sua mãe é viva.

Foram as breves e ultimas palavras que o mestre lhe disse a tal respeito.

Alvaro não respondeu, de confuso que devia naturalmente ficar. A educação, a convivencia de moços como elle innocentes, a ignorancia das novellas que ensinam o espirito a tirar, por comparação, os vicios reaes da desnudez dos vicios imaginarios, eram causa a serem de todo o ponto mysteriosas para Alvaro as razões que haviam levado sua mãe a um convento, de modo que seu pae a tinha em conta de morta, e queria que seu filho assim a julgasse.

Foi Alvaro, de vontade sua, passar alguns dias a casa. Fez especie em Manoel Teixeira a extraordinaria vivacidade do moço. Folgou com a mudança, e foi agradecer aos professores, e especialmente ao mais amigo de seu filho, as melhoras do pequeno. De feito, Alvaro estava preoccupado de uma idéa que lhe dava novos espiritos.

Estava elle, um dia, em conversação acintemente promovida com Eufemia, e encaminhada ao ponto de lhe dizer:

—Quem me dera vêr um retrato de minha mãe!

Eufemia fitou os olhos n'elle, abraçou-o, beijou-o, como quando o tinha ao peito, e, entre lagrimas e soluços, balbuciou:

—Se a visse!...

—Ella de certo morreu, minha Eufemia?—tornou elle, acariciando-a—Falle a verdade... Não minta ao seu Alvaro!...

—Para que me faz essa pergunta, menino Valha-me nossa Senhora dos Remedios! Deus me não salve, se eu sei o que lhe hei-de dizer.

—Diga a verdade, que é o mais agradavel a Deus.

Eufemia quiz fugir; Alvaro susteve-a pela saia, e acrescentou:

—Venha cá, sente-se aqui, e responda-me, se é minha amiga: Porque está minha mãe n'um convento?

—Santo nome de Jesus!—exclamou Eufemia, levantando as mãos á cabeça—Quem lhe disse isso, menino?

—Que lhe importa a vossemecê saber quem m'o disse? É isto verdade? É, sei que é; o que eu lhe pergunto é a razão por que minha mãe não está n'esta casa.

—Senhor Alvaro, se continua a perguntar-me cousas assim, eu vou-me embora d'esta casa—replicou a ama com resolução feita de sahir.

—Está bom—redarguiu Alvaro—não se afflija, que eu não fallo mais n'isto; mas prometta de não dizer a meu pae nada.

—Eu, menino! Eu cahia lá n'essa! Tomára eu que elle nem por sonhos se lembre de que o senhor Alvaro me disse taes palavras!...

N'um dos proximos dias, Manoel Teixeira de Macedo, tinha sahido apressadamente, e deixára aberta uma gaveta cuja chave nunca lhe esquecera.

Alvaro entrou no escriptorio, e reflectindo disse entre si:

Não haverá aqui alguma cousa que me falle de minha mãe?

E diz elle no seu livro, por estas ou consentaneas palavras, que ouvira uma como voz do céo que o mandava abrir a gaveta da escrivaninha.

A tremerem-lhe as mãos, abalançou-se o moço ao que nunca se atrevera a fazer. Viu uma caixa de velludo encarnado, com fechos de prata. Abriu a caixa: era um retrato de mulher, sobre marfim.

—Será?—disse elle—«Senhora de rara formosura» me disse o mestre; e esta é tão formosa!...

Entrou de golpe Eufemia no gabinete particular de seu amo, e, como visse Alvaro ao pé da mysteriosa gaveta, com um retrato na mão, correu para junto d'elle, dizendo:

—Que está a vêr o menino?

—E de minha mãe este retrato?—respondeu elle sem turbação.

Eufemia, apenas lhe relanceou os olhos, exclamou:

—É, é; mas, pelo amor de Deus, não esteja aqui, metta o retrato na gaveta, de modo que seu pae não dê fé. Venha, venha commigo, menino!

—Não vou,—disse elle com firmeza—n'esta gaveta é que está o segredo que a Eufemia não quer contar-me. Hei-de procurar entre estes papeis alguma carta de minha mãe.

Eufemia espantou-se e assustou-se da gravidade inabalavel d'aquella resposta.

—Feche a gaveta, que eu prometto contar-lhe tudo—disse ella—Venha depressa, que eu ouço passos... E o paesinho que vem...

Não era; mas o medo figurava horrores na cabeça da pavida mulher.

Alvaro sahiu, depois que repoz o retrato no seu lugar, com tal cautela, que não podia denunciar mão estranha.

—Conte-me agora o que souber—instou elle com a ama.

Eufemia oscillou ainda; mas, obrigada por um gesto de justa severidade com que Alvaro censurava a hesitação, disse o seguinte:

—A razão por que sua mãesinha foi para o convento... ainda que eu lh'a diga, o menino não a entende.

—Mas diga, e depois me explicará, se eu não entender.

—Olhe, o seu pae foi a Macáo receber a herança de sua mãe, que era de lá...

—Já sei.

—Sabe?! quem lh'o disse? Credo! Aqui parece que anda bruxaria!

—E depois?

—Seu pae, quando voltou, passados dias mandou sua mãe para um convento...

—Na provincia do Minho, já sei tambem; mas isso não é o que lhe pergunto: o que eu quero é saber porque foi.

—Foi porque assacaram uma calumnia á sua mãesinha. Agora já sabe... Deixe-me, menino, por piedade lhe peço que me deixe.

—Calumnia! que calumnia!?... Então é isso o que me prometteu, Eufemia?

—Sabe que mais, senhor Alvaro?... quem lhe disse o que sabe, que lhe diga o resto...

Eufemia sahiu da beira de Alvaro, e foi, a correr como douda, refugiar-se no seu quarto, e pedir a Deus que trouxesse depressa o patrão para casa.

Alvaro dirigiu-se placidamente ao gabinete, abriu de novo a gaveta, e tirou ao acaso um massête de cartas d'entre muitos sobre que assentava a boceta do retrato. A tempo foi isto que se ouviu o toque conhecido da campainha: era Manoel Teixeira. Alvaro, tão senhor estava seu, que metteu na algibeira o massête de cartas, fechou a gaveta, e sahiu do gabinete.

Manoel Teixeira trazia o pensamento na chave esquecida. Apenas entrou no gabinete, correu á gaveta, e examinou-a; tornou a fechal-a, e não suspeitou levemente da curiosidade do filho, nem dos criados, que, salvo Eufemia, nunca entravam n'aquella recamara.

Alvaro, a hora segura da noite, quando todos estavam recolhidos, deslacrou o massête das cartas, e leu-as e releu-as sofregamente como se as houvesse recebido da primeira mulher amada, n'aquelles dias de santo amor, de luz celestial, e de flores sem espinhos, em que tudo nos vem fadado do céo, e as cartas mesmo as cuidamos dictadas pelos anjos.

A primeira, conheceu logo que eram de sua, mãe as cartas, escriptas do convento de Vairão, em 1820, quatro annos depois da sua reclusão, e cinco anteriores áquella data.

Todas ellas expressavam a mesma supplica, não de perdão, nem de piedade; mas a esmola de um beijo de seu filho, esperança unica de que se alimentava e vivia a mãe infeliz. Os termos carinhosos do amor maternal, e commoventes rogos ao pae inflexivel da creança, iam crescendo de ponto, segundo o silencio desprezador com que as cartas de Maria da Gloria eram recebidas. Na ultima, que leu Alvaro, dizia ella que já não tinha forças para rebellar-se contra a vontade da Providencia, e receiava muito que a confiança na divina justiça a desamparasse. Terminava emprazando o seu algoz, e protestando pela sua innocencia, diante de Deus.

Na seguinte manhã, Alvaro disse ao pae que ia para o collegio, e não viria um mez a casa, porque se ia entregar todo a uma traducção de um livro inglez. Quiz o negociante dissuadil-o do trabalho como nocivo á sua saude; mas o moço, com afagos, e promessas de não fatigar-se, obteve licença de estar no collegio um mez.

D'aqui passou Alvaro a ter com Eufemia este dialogo:

—Vou ver minha mãe, Eufemia.

—Que diz, menino!? Está doudo!?

—Já lhe disse que vou vêr minha mãe: o pae não vem a saber nada, porque pensa que estou no collegio.

Eufemia replicou amontoando razões que não poderam nada com Alvaro, sendo a mais forte de todas esta:

—E o menino cuida que se póde ir ao convento sem dinheiro? Olhe que são sete ou oito dias de jornada para lá, e outros, tantos para cá. Quem lhe dá o dinheiro?

—Ha-de emprestar-m'o a Eufemia, para eu ir vêr minha mãe; e, se m'o não emprestar, vou a pedir esmola.

A ama abraçou a chorar o seu filho, como ella lhe chamava, e d'aquelle lance em diante não lhe negou dinheiro nem conselhos a fim de realisar-se o intento. Ella mesma, á tarde d'esse dia, ajudada por um seu irmão, foi alugar cavalgadura, e ajustar criado que acompanhasse o menino a Vairão, guardando n'estes passos tal recato que não ficasse alguem sujeito ás iras de Manoel Teixeira, se a desfortuna os descobrisse.

Foi Alvaro ao collegio, e contou ao seu mestre predilecto a ida a Vairão. Tão digno e respeitavel achou o mestre o arrojo do moço, que nem sequer lh'o tentou impedir com reflexões. Abraçou-o com vehemente admiração de tão energica e nobre alma em tal verdura de annos, e prometteu por sua parte mentir piamente ao pae, caso acertasse de encontrar-se com elle. Aos outros professores disse Alvaro que ia passar um mez nos «Olivaes» com seus tios, onde costumava ir ás temporadas.

Na madrugada do proximo dia, sahiu de Lisboa, o filho de Maria da Gloria.

Começa o céo a dilucidar-se.

GOLDSMITH (o vigario de Wakefield.)

Maria da Gloria, depois que leu em tremuras uma carta que recebera do correio de Villa do Conde, correu transportada á cella da sua amiga Cecilia, e lançou-se aos braços d'ella, chorando de alegria.

—Que é, filha?—exclamou a religiosa alvoroçada.

—É a primeira alegria que Deus me dá em onze annos de martyrio. Olha, vê esta carta da Eufemia... deixa que eu leio...

E leu Maria uma carta em que a sua criada lhe contava miudamente as conversações, que tivera com o menino, até áquella hora em que o foi achar a contemplar o retrato de sua mãe.

—Oh meu Deus, meu Deus!—clamou a enlevada senhora, ajoelhando ante o oratorio de Cecilia—Bem haja a vossa mão que até hoje me opprimiu para que eu sentisse o immenso prazer d'esta noticia! Fallai, meu divino Jesus, fallai ao coração de meu filho, e dizei-lhe que sua mãe, se foi culpada, já deliu com lagrimas de sangue as nodoas do coração, para receber dignamente a vossa misericordia, e o amor de seu filho!

Esta curta e arrobada prece foi seguida do desfallecimento. De crêr é que o espirito quebrantado da penitente não tivesse força para vibrar longo tempo abalado pela felicidade. Cecilia tomou-a nos braços, e reanimou-a, communicando-lhe as visões de futuros gozos que a vinham resgatar, pelo amor do filho, e talvez pelo remorso do pae.

Esta nova correu logo os dormitorios, e todas as freiras se alegraram, porque Maria da Gloria era amada de todas, e respeitada das mais escrupulosas por sua resignação e conformidade. Encheu-se de gente o seu quarto, a dar-lhe os parabens, como se no animo das mais virtuosas senhoras preluzisse o vaticinio de começar d'alli a desenredar-se a trama que a desgraça urdira á innocencia da reclusa, nos melhores annos de sua vida.

Passou a febril mãe algumas horas da noite escrevendo ao filho e á criada. Eram paginas sobre paginas levantadas em amor e jubilo, como um hymno de acção de graças, a carta que ella escreveu a Alvaro. Todo e tanto amor, onze annos retraindo, e sem desafogo no proprio seio da religião, dilatou-se alli em termos de sorte amoraveis, que nunca a imaginação apaixonada do poeta os achou assim.

Passaram tres dias n'esta abrazada ancia de outras noticias. Ao quarto, Maria da Gloria recebia nova carta de Eufemia, escripta na occasião em que andava alugando cavalgadura para a jornada do menino a Vairão.

O ambicioso coração d'aquella mãe não esperava, nem sequer sonhava tanto. Sossobrou-a o transporte de alegria; e as formidaveis angustias nunca poderam tanto. Quizeram as amigas, e sobre todas a inseparavel Cecilia, modificar os sobresaltos da esperança em contentamento sereno. Não poderam. A vehemencia das pulsações denotava febre, e já as timidas senhoras se arreceiavam mais da felicidade imprevista, que das flagellações de onze annos de saudade.

Maria cahiu de cama; e, ao terceiro dia, depois da ultima carta, mallogrou se-lhe o desejo de levantar-se. Agora já a enfermava tambem o receio de que as tenções do filho fossem estorvadas por algum dos mil successos que a phantasia escaldada lhe antepunha. A bondosa abbadessa, a fim de socegal-a, promettia-lhe, chegando o menino, abrir-lhe a portaria, contra o estatuido na regra benedictina, e dar-lhe quarto ao pé do de sua mãe. Dissereis que Alvaro era o bem-vindo de todas as monjas, e para a festa da chegada se apostavam todas, com offertas e mimos, e um ar commum de festa, como se estivesse á porta o solemnissimo dia do patriarcha, cujas filhas eram.

Que folgazãs, e não sei se, ao mesmo tempo, santas, eram aquellas creaturas do mosteiro de Vairão, onde, n'esse tempo, florejava em dons do espirito e primores de coração a secular que depois esposou um dos maiores talentos de Portugal, o inimitavel poeta Antonio Feliciano de Castilho! Com que amor e enlevo se liam então alli as riquezas balbuciantes do bardo de «Ecco e Narciso» e os maviosos regorgeios d'aquella «Primavera» em que ainda hoje o espirito inverniço do leitor se póde sentir verdejar aos balsamos das flôres, que lá estão em perpetuo viçor e aroma na grinalda do então, e hoje, e sempre juvenil poeta!

E vinda a hora da acção, e frouxo ha-de ser o traslado, não á conta de o termos escassamente debuxado na idéa, mas é que o desenho de Maria da Gloria, ao dizerem-lhe que entrara o filho no pateo do mosteiro, não o faz a linguagem, e só o pincel de artista de sentir delicado o tiraria a limpo.

Chegou Alvaro ao pateo do mosteiro.

Foi Cecília a da nova, e depós ella vinham todas, alviçareiras, a esbofar de cançadas.

Maria sentou-se de impeto no leito, e abraçava, vertiginosamente, quantas entravam ao pé da cama, onde todas vieram. Até a prelada, menos gotosa que nos outros dias, regamboleava a perna, revel á propria sineta de matinas! A mãe de Alvaro pedia os vestidos, e todas á porfia lhes davam os fatos em duplicado para se vestir, chilreando destoadamente uma inglezia de que as proprias noviças estavam como pasmadas. Já Maria saltava do leito meio-vestida, quando entrou a dona abbadessa, e a obrigou brandamente a recolher-se á cama, que assim o mandára o medico, e não se fazia mistér ir buscar nos braços quem alli vinha ter por seu pé.

A este tempo, correu a chusma das noviças á porta da cella, como ouvissem de longe o rangido de botas nos sonoros corredores dos dormitorios. Vinha Alvaro com a madre porteira, com a madre escrivã, e com a madre que estava de semana no encargo de acompanhar os facultativos ás cellas das suas doentes.

O filho de Maria da Gloria quando viu um grupo de treze noviças, com os seus véos brancos e as toucas graciosas, onde enquadravam rostos mais encarnados que seraphicos, não formou idéa de todo horrorosa do carcere de sua mãe. O interior d'um mosteiro era-lhe novidade; e posto quer n'aquelle tempo, a frequencia das grades monasticas era uso e moda das boas familias, Alvaro nunca vira freiras, e julgava d'ellas pelas que via macilentas e magras nos retabulos das igrejas.

As noviças, como já não coubessem no quarto de Maria da Gloria, agruparam-se no corredor a um lado da porta, abrindo passagem ao hospede e ás tres senhoras. No limiar da cella estava a prelada, que tomou a mão do menino, e o guiou ao pé do leito. Maria, quasi a resvalar da cama, recebeu o filho nos braços, e apertou-o contra o seio em silencio de sofregos beijos, e, a rapidos intervallos, o afastava de si e contemplava com olhar frenetico, e tregeitos convulsivos como os da loucura.

—É o meu filho!—exclamou ella circumvagando os olhos mais soberbos que maviosos pelas religiosas que choravam—É o meu filho! é a minha riqueza! tenho vivido em tormentos de onze annos para este instante... Deixem-me desabafar, que a felicidade suffoca-me...

E bracejava, atirando a repellões as tranças soltas para as costas.

Alvaro contemplava a mãe com ar de assombro. Tinha visto um retrato, como elle, n'aquelles annos, poderia imaginar um anjo. A mulher, que alli via, era magra, livida, e com as rugas da velhice precoce nos rebordos macerados dos olhos. Raros vestigios das feições antigas conservava a infeliz aos trinta e quatro annos, idade em que o toque morbido e desmaiado da belleza é muitas vezes mais de captivar que o viço dos vinte annos.

—Não me esperavas assim ver tão velha, meu filho?—disse ella, correndo as mãos no rosto de Alvaro.

—Faz muita differença do seu retrato, que lá tem o papá—disse o menino a custo, de apertado que estava nos braços da mãe.

—Quando eu tirei aquelle retrato, meu filho, era feliz, e tinha dezeseis annos. Não sabes que me foste arrancado, ha onze annos, dos meus braços, Alvaro? Onze annos a pedir a Deus este dia, meu querido filho!... Onze annos!... E Deus sabe se tornarei a vêr-te!

Maria da Gloria debulhou-se em lagrimas, e rompeu em gritos. Todas as freiras a um tempo lhe disseram palavras consolativas e de esperança. Alvaro, vendo que sua mãe ia cahir exhaurida de forças para o espaldar do leito, tomou-a para si, e submetteu o hombro ao rosto pendido e gotejante de suor.

A prelada mandou sahir as religiosas, que pejavam o quarto mal arejado. Abriu-se a pequena janella, e Maria tornou a si, sentindo a mão do filho afastar-lhe da face os cabellos já passados da copiosa transpiração.

A discreta abbadessa tambem sahiu, cerrando a porta.

—Sinto-me vigorosa...—disse Maria—Olha, meu filho, entra n'aquella cella, e espera-me lá.

Alvaro passou á especie de ante-camara que sua mãe tinha, com serventia interior, por graça especial da prelada, e porque lhe sobejavam recursos para as mal denominadas regalias do convento.

Viu Alvaro n'este recinto, pequeno, mas bem assombrado e até bonito com aceio de adornos, uma livraria, que tomava um dos quatro lados, e alguns retratos, que eram os de seus avós maternos, e outros paineis de devoção. Sentou-se á banca onde sua mãe escrevia, e relanceou os olhos por sobre os papeis espalhados n'ella. Entre estes estava aberta a ultima carta, que Eufemia escrevera a sua ama. O pequeno não adivinhou a delicadeza de furtar os olhos ao estimulo da curiosidade. Leu a carta, e entendeu a promptidão com que lhe foram abertas as portas do mosteiro, onde a sua ama lhe havia dito que não era permittido o accesso, salvo ás grades, e um momento na portaria, se sua mãe solicitasse o prazer de abraçal-o. Maravilhou-se do segredo que Eufemia velára d'elle, occultando-lhe as suas relações epistolares com a mãe. Sentiu-se mais obrigado a estimar a virtuosa mulher, que para escrever á encarcerada, de todo o mundo se escondia, temendo ser repellida da casa, onde estava o filho da martyr, e ella, a alma unica de quem podia a mãe fiar as suas queixas, e receber palavras que lhe temperassem as desesperadas saudades.

Maria da Gloria, vestida em desalinho, entrou no quarto, onde Alvaro estava.

Sentou-se n'uma cadeira de espaldar, e achegou de si o filho, que parecia tomado de melancolico espasmo.

—Estás tão triste, Alvaro?... É a vista de tua velha mãe que te entristece?

—Não, minha senhora; é o pesar que eu tenho de a não vêr em nossa casa. Porque está aqui ha tantos annos, minha mãe?

Maria empallideceu, e balbuciou por entre beijos, em que parece que desabafava a vehemente oppressão da innocente pergunta:

—Tu não me entenderias, se te eu dissesse a causa d'esta minha desgraça, filho do meu coração. Es muito menino ainda para comprehenderes a calumnia de que sou victima.

—Mas—atalhou Alvaro com intervallos de suspensão, que denunciavam mais a innocencia de sua ignorancia das calamidades da vida—o pae não póde ser tão mau que tenha aqui presa sem alguma culpa a minha mãe... Diz a Eufemia que elle fora muito seu amigo, e o meu mestre de inglez tambem me disse que eu nascera na época da felicidade.

—Cala-te, cala-te, meu filho—exclamou Maria, afogada em soluços.

—Não chore assim, minha mãe—acudiu o menino, a chorar com ella—Escreva ao papá, peça-lhe que a tire d'aqui; talvez que elle tenha pena de si agora. A mãe já não lhe escreve como ha quatro annos?

—Quem te disse que eu lhe escrevia, filho?

—Eu li as cartas, ás escondidas do pae, e trago-as commigo, porque não tornei a encontrar aberta a gaveta d'onde as tirei. São todas de 1820. A mãe não escreveu mais algumas?

—Não, porque teu pae nunca me respondeu a ellas.

—Escreva-lhe agora, sim? Escreva-lhe quando eu já estiver em Lisboa...

—Que farias tu, meu querido filho, que importaria escrever eu a teu pae?

—Eu pedia-lhe que tivesse compaixão da minha mãe...

O dialogo durou assim até á hora em que Maria da Gloria e seu filho foram chamados a jantar em casa da abbadessa.

Todas as religiosas e noviças foram commensaes no banquete dado pela prelada ao filho da senhora, querida de todas. Alvaro ficou sentado entre sua mãe e a abbadessa. Defronte estava uma religiosa de annos dilatados, a qual, desde muitos mezes, só na sua cella e no coro se encontrava. Não tinha sido convidada, em respeito â sua austera soledade e continuada oração mental em que praticava com Deus. Foi ella mesmo que se offereceu para o jantar, dizendo que não podia faltar áquella honra feita a um anjo de dor e de paciencia. Isto, dito por soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor, impressionara fundamente o animo de algumas senhoras para quem a innocencia de Maria da Gloria era uma piedosa hypothese. Durante o jantar, a santa, que n'esta conta era tida e assim denominada a decrepita monja, fallou algumas vezes com Alvaro, já perguntando-lhe se desejava ficar com sua mãe, já queixando-se de que a sua vinda fosse o prognostico de ella ser brevemente furtada ás suas amigas do convento.

A este dito, respondeu Maria da Gloria que a vinda do seu filho era uma felicidade, que ella devia ás orações de soror Joanna, e d'outras virtuosas senhoras, suas dignas companheiras na terra e no céo; accrescentava, porém, que não esperava ser restituida a seu filho e á sua dignidade de esposa.

Viram todas erguer a religiosa o braço descarnado, e abrir a mão como quem impõe silencio ás palavras de duvida, e contradictorias com as do espirito divino que lhe fallava. Deu-se um religioso silencio, tal que nem as respirações se ouviam.

Estas foram as palavras de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor:

«A mãe será restituida ao filho, e a esposa ao coração de seu marido, e aos respeitos do mundo».

Por que é que os cabellos estremeceram, e o calefrio vibrou os nervos de quantas pessoas ouviram o tom prophetico da virtuosa anciã? De feito, havia instincto do céo n'aquellas palavras, o som d'ellas tinha a um tempo a força electrica de que o ouvido se estremece, e a uncção suavissima que banha a alma de luz da fé.

Maria da Gloria mandou o filho beijar o habito da religiosa. Alvaro foi, tão passado de devoção e como alheado na santa poesia do lance, que lhe tomou de joelhos a mão.

Soror Joanna deu-lhe a beijar a mão tremula, fez um geito de levantal-o da postura humilde, e, assentando os dedos afilados sobre as faces descoradas do menino, disse com um ar de graça maviosa como se nos labios lhe abrisse Deus um sorriso de sua misericordia:

—O anjo do resgate veio emfim; e não veio tarde, porque chegou á hora em que Deus o mandou chegar.

Os animos ficaram tão absorvidos n'esta affectuosa scena, que só volveram os risos e os gracejos depois que, findo o jantar, a santa se retirou encostada a duas religiosas, que haviam sido suas discipulas de noviciado, e contavam para mais de setenta annos.

Duas horas depois do jantar, foi Maria da Gloria com seu filho visitar soror Joanna. Encontraram-a em oração, e iam retroceder, quando ella fez signal de ficarem.

—Que pena tenho eu—disse a freira com muito alegre semblante—de não ter n'esta minha pobre cella um mimo que dê a este menino, para se lembrar da velha que viu no mosteiro de Vairão!

As suas palavras gravam-se para sempre no coração, minha senhora—disse Maria da Gloria, beijando-lhe o escapulario.

—Ora, deixe estar—tornou a religiosa—hei-de ver se o não deixo ir sem uma lembrança minha... Quando vae embora o menino?... não deve demorar-se muito...

—Eu desejava estar mais tempo—disse Alvaro—mas não tenho remedio senão ir ámanhã, que não vá o papá dar fé da minha falta.

—Ámanhã!—exclamou Maria—pois já me deixas ámanhã!?

—E deve ir ámanhã—respondeu soror Joanna com impressiva firmeza, como se désse ordens.

—Quando tornarei a vêr-te, ó filho da minha alma?—tornou debulhada em pranto a mãe de Alvaro.

—Mulher de pouca fé...—murmurou a santa, com brando sorriso, e um meneio triste de cabeça—O menino—ajuntou voltando-se para elle, e tomando-lhe as mãos entre as suas—sahe de madrugada, sim?

—Sim, minha senhora, se a minha mãe deixar.

—Sua mãe deixa. Pois ás quatro horas, antes do toque a matinas, venha dizer-me adeus. Vá agora, menino, vá com a mãesinha para as outras senhoras, que hão-de estar saudosas d'ella.

E sahiram ambos com sobrenatural alegria de esperanças no coração. Vieram-lhes ao encontro nos dormitorios, na claustra, na cerca, as freiras, as noviças, e as criadas a felicitarem-se com ella do termo dos seus males, jurando todas no vaticinio da santa. Maria já não duvidava. Recebia os parabens como se a promessa lhe descesse directamente do céo. Já o apartar-se de seu filho não lhe doía tanto. Fez-se um mundo novo n'aquelle espirito. As aves da floresta entoavam por ella louvores a Deus. As flores dos taboleiros recendiam os perfumes das flôres da sua mocidade. O azul do céo já não tinha o aspecto triste e de ferro com que se mostra a olhos marejados de lagrimas. Riam-lhe as aves, e o céo, e as flôres. A natureza inteira a dar-lhe as boas vindas do seu filho! E elle, sempre ao pé d'ella, com as faces anuviadas de tão doce melancolia, que fazia lembrar o grave e sereno rosto do cherubim, que no retabulo do templo, traz á Virgem de Nazareth o annuncio da sua maternidade!

Fugiam as horas do dia. As do silencio, na breve noite que se seguiu, passou-as desveladas a ditosa mãe ao pé do filho que adormecera de fatigado. De hora a hora despertava-o com a pressão dos beijos, e acalentava-o depois, como douda de felicidade com lembrar-se do amor com que o velara no seu primeiro anno.

Soaram tres horas. O criado estava já no pateo com a cavalgadura arreada. Maria, forçada pelas instancias, tentava, mas não podia acordar o filho.

—Acordal-o para o vêr ir de mim!...—dizia ella, chorosa.

Resolveu-a um recado de soror Joanna; mandava dizer que estava esperando o menino, e que fosse, porque eram horas de coro. As palavras da santa deram-lhe alma para o trance.

Foi Alvaro ao cubiculo da religiosa, e sua mãe com elle.

—Entrem, meus filhos—disse soror Joanna—Venha aqui o menino: não ha tempo para demoras. Aqui tem a lembrança que leva d'esta sua velha amiga. Logo que chegue a Lisboa, antes de entrar na sua casa, vá entregar esta carta. A pessoa é bem conhecida. Quem quer lhe dirá onde mora esta pessoa. Agora vá com a Virgem Santissima. Quando voltar, me dará novas da pessoa a quem escrevo. Emquanto a vós, minha penitente—continuou acariciando Maria—notae bem o que vos digo. Prohibo-vos de vêr o subscripto da carta que vosso filho leva. Entendeis, Maria?

—Oh minha senhora!—disse a conturbada mãe, beijando-lhe a mão.—Sou incapaz de desobedecer-lhe.

—Bem o sei: conheço o vosso coração melhor que vós mesma. Ide com Deus, meus filhos.

Do ultimo abraço que Maria deu em seu filho passou sem sentidos para os braços de Cecilia.

Alvaro escassamente chorava. Sentia em si o coração forte do homem. Quando, porém, relançou os olhos para a portaria, que se fechava, não viu senão o alvacento véo das suas lagrimas.

Quem não vê por isto que o mundoé um juiz iniquo?

S. FRANCISCO DE SALES (Introd.á vida devota).

Temo que me chamem milagreiro, e tomem este livro como additamento á «Flôr dos Santos» de Ribadeneira. Não quero semelhante nota. Vou demonstrar que soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor não fazia milagres: antevia unicamente, com os olhos de sua virtuosissima alma, as consequencias do que já sabia. Saiba tambem o leitor que este romance, por ter o merito da verdade, pouco tem que fazer: é a natureza que o faz.

É já sabido que Manoel Teixeira de Macedo foi a Macáo, em 1815, liquidar a herança paterna de sua mulher.

Maria da Gloria tinha então vinte e tres annos, e muita formosura. Não direi que amava, mas estimava grandemente seu marido, mais velho que ella doze annos. Não casara apaixonada, nem sequer voluntaria. Seu pae, commerciante laborioso, sympathisou com o incansavel bastardo do titular; tomou-lhe o pulso dos haveres, e achou-o já rico aos trinta e dous annos; e, como deixasse o seu negocio na India entregue a caixeiros, accelerou o casamento com o duplo fim de desapressar-se de cuidados, que lhe inquietavam os ocios de ricaço aposentado. Não quero dizer que os esposorios de paixão assegurem felicidade duradoura: sobejam ahi exemplos do contrario; estou, porém, em affirmar que os casamentos involuntarios é que não asseguram felicidade nenhuma.

Na ausencia de seu marido, a vida de Maria da Gloria era o amor de encanto á criancinha de tres mezes. Não a mortificavam grandes saudades, e menos ainda ciumes. Toda no filho, não curava d'outras sensações, como quem já não era sua, e só vivia para elle.

Defrontava com a sua casa um cavalheiro de annos adiantados, quarenta teria, mas sobravam-lhe qualidades para ser presado. Umas dava-lh'as a figura, outras a posição e os creditos. Era um magistrado, e chamava-se João de Mattos e Vasconcellos Barbosa de Magalhães.

Está o leitor como attonito de vêr em romance um galan que não se chamaAlfredo, Ernesto, Arthur, ouJulio.Acceite-o assim, que era aquelle o nome do cavalheiro, que foi depois intendente geral da policia, e ministro d'estado, e holocausto de suas idéas liberaes no desterro, se bem que exilado pelo illegitimo soberano a quem honradamente servira.

João de Mattos reverenciava a sã moral, nunca violara os deveres de bom cidadão, respeitava os direitos alheios por amor de si, tinha que farte d'este util egoismo que equilibra os actos humanos, e fórma o pilar das virtudes sociaes, sem absoluta dependencia dos preceitos religiosos. Pensava com Benthan, e não tinha ido mal com tal guia. O caminho do philosopho inglez não é tão abrolhado de dificuldades como o dos moralistas ascéticos, e tem de bom que conduz ao mesmo ponto—á virtude, sem penitenciar o corpo nem a alma.

João de Mattos amou Maria da Gloria.

Mandam-me, talvez, cancellar o periodo em que ficam elogiadas as qualidades do magistrado. Não consentem que se compadeçam as virtudes sociaes com aquelle amor. Isso é juizo de vulgo errado.

Aqui tenho eu aberto um livro de grande nomeada. É o DEVER, d'um professor de moral em França. A academia premiou-lh'o, e os seus concidadãos consomem as edições, e moralisam-se. Este livro dá preceitos para regrar todas as propensões da alma. Explora a origem d'estas, e tenta corrigil-as desde a raiz.

Quando, porém, entende no sublime verbo do «amor», exprime-se d'est'arte: «A origem do amor, e os alimentos que o nutrem, quaes são? Como cresce? Como acaba? Não lia dizel-o: tão variavel é tal sentimento. No maximo dos casos, é pelos olhos que nos sentimos captivos; mas o amor acha mil avenidas por onde insinuar-se na alma. É notorio o modo como o poeta fazia fallar Othello: «Contava-lhe os meus azares: não empreguei outra magia...»

N'outro relanço diz:

«D'onde vem o amarmos as cousas bellas? porque são bellas; e as boas? porque são boas.» Vão tomando nota.

Outra passagem:

«Uma paixão nos senhoreia e nos abandona, sem podermos atinar com o porquê. Sahimos a negocios, e depara-se-nos ao dobrar d'uma esquina a mulher, que vae transfigurar-nos o coração.»

Ultima citação:

«Como havemos de conjecturar uma paixão que a si mesma se defenda de demasias? Absurda cousa! Para a paixão ha um freio sómente: é o desgosto ou o fastio.»

Conclusões a tirar em favor da paixão de João de Mattos, sem implicancia das suas excellentes qualidades:

Não sabia elle como nascera o seu amor; menos sabia ainda como havia de matal-o. Amou pelos olhos Maria da Gloria; mas as mil avenidas da sua alma tinham sido escaladas pelo amor. Amou a formosa porque era formosa. Achou-se transfigurado no coração, quando o cria esmagado sob a graveza dos cálculos ambiciosos de gloria. Quiz enfrear os impetos do sentimento; mas, antes do fastio, não ha hora alguma em que o amor, coma o leão sezonatico, se deixe acorrentar.

Ahi está. Se eu não consegui desculpar o magistrado com o livro—O DEVER, perdôem-lhe os leitores por misericordia.

Quaes foram, porém, ás demasias do visinho de Maria da Gloria? Escreveu uma, duas, seis cartas, longas e eloquentes como devia dictal-as o coração e o genio. A esposa de Manoel Teixeira peccou lendo a primeira, e lendo todas; mas não respondeu a alguma.

João de Mattos subiu um dia as escadas da esposa leal, e ajoelhou-lhe, quando ella sahia da sua antecamara para ir beijar o filho no berço. Maria da Gloria estendeu o braço para a porta da sahida, e disse ao homem corrido e allucinado:

—Quem lhe abriu as portas para esta infamia? Sáia, senhor!

Não respondeu, e sahiu.

A mulher pura chamou o criado, que lhe entregara as cartas, por intervenção da ama. Não lhe viu os olhos. Atirou-lhe com a soldada, e despediu-o. O criado quiz explicar a entrada de João de Mattos. Maria da Gloria fez-lhe um gesto severo de silencio, e mandou-o descer no rasto de quem lhe comprara a fidelidade. Vacillou em despedir a criada. N'esta oscillação olhou para o menino, e disse á ama: «perdôo-te por amor do meu filho, e porque sei que a tua culpa é de estupidez e não de immoralidade.»

Maria da Gloria tinha este crime: lêra seis cartas de João de Mattos, e dissera comsigo:—«Isto entretem.»

Voltou de Macáo Manoel Teixeira de Macedo. Depois de abraçar a esposa, acordou o filho, e tanto o acarinhou que pôz a criança a pique de morrer abafada. A bemaventurança estava alli no viver de Manoel Teixeira. Senhor d'uma mulher bella, e virtuosa, e meiga; pae d'um menino lindo como os amores; rico sem ambições que não podesse logo comprar a ouro; estimado de uns sinceramente, e lisongeado por outros; cheio de saude e promessas de longa vida... que mais póde dar este mundo?

O mundo não póde dar mais; mas póde tirar n'um momento tudo isto.

Uma tarde, entrou no quarto de sua esposa Manoel Teixeira, e disse-lhe, com rosto sêcco e pesado:

—Por que despediste o criado Gregorio?

—Porque me não convinha respondeu Maria, descórando.

—Porque descóras?

—Pois eu descórei?!—balbuciou ella—Impressionou-me a mudança do teu rosto.

Sahiu Manoel Teixeira, porque n'este ponto entrou Eufemia com o menino.

Maria seguiu-o, e entrou com elle n'uma sala.

—Por que me fazes semelhante pergunta?!—disse-lhe ella, resolvida a contar-lhe o acontecimento.

O marido fitou os olhos n'ella e nas janellas de João de Mattos. Maria ia a fallar, quando lhe elle voltou de golpe as costas, e sahiu.


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