—Deus sabe a minha innocencia: nada temo—disse ella.
É certo que Deus vê o crime e a innocencia de nós todos; consente, porém (e louvados sejam por isso os altissimos juizos do Senhor!) que os innocentes sejam condemnados em muitas instancias, antes de serem citados ao seu tribunal supremo, e—n'isto vai muito a dizer—parece que vê sem offensa de sua justiça a impunidade dos que delinquiram. Os theologos é que sabem dizer como isto é, e convencem a gente de que os romancistas são os menos azados para deslindarem esta meada. Consultem-se, pois, os theologos.
Na porta visinha de João de Mattos morava um especieiro que fora criado de Manoel Teixeira, e se estabelecêra com o credito d'este. O logista procurou o seu antigo amo, e contou-lhe que vira entrar e sahir João de Mattos de sua casa, uma vez pelo menos, em quanto o seu protector estivera em Macáo. Antes e depois da revelação, o mercieiro deu as razões da denuncia: achava-se obrigado a não consentir que o seu segundo pae fosse deshonrado por uma mulher indigna. E taes cousas disse n'este sentido, e com tamanha dôr, que chorou!
Manoel Teixeira não viu sua mulher durante vinte e quatro horas. Decorridas estas, convidou-a a dar um passeio de carruagem ao campo. Maria da Gloria tremia de vago terror, quando se vestia para sahir. Já preparada, foi ao berço do menino, e ajoelhou para beijal-o. Manoel Teixeira contemplava inalteravel este lance. Que esforço de homem! não digamos maldade.
Fora de portas estava uma liteira, uma mulher sobre umas andilhas, e dous cavalleiros, que D. Maria não conheceu. A carruagem parou.
—Apeie-se,—disse elle depois que saltou rapidamente da sege.
Maria sahiu machinalmente.
—Entre n'aquella liteira.
—Para onde vou?!—exclamou ella.
—Sabel-o-ha onde a pozerem. Não ha tempo para explicações. Aquella mulher é sua criada.
—E meu filho?
—Lá irá. Estes homens são seus criados até ao ponto onde a deixarem. Adeus.
—Mas o meu filho!—exclamou, estendendo os braços ao marido—Dá-me ao menos aquelle menino, se me lanças barbaramente de ti!...
—Olhe que nos ouvem, senhora! As altercações aqui, além de tardias, são indecentes.
A criada tinha apeado. Maria da Gloria foi transportada quasi sem sentidos á liteira. Manoel Teixeira já não viu este doloroso conflicto.
Deixemos ir aquella martyr, e esperemos em Deus.
O capitalista não entrou mais em sua casa. Pessoas estranhas tomaram conta de todo o contheudo n'ella. Eufemia e o menino foram recebidos em casa de uma familia, e d'ahi levados para outro domicilio, onde os esperava Manoel Teixeira. N'esta nova casa, medianamente adornada, não havia um só movel da antiga, que suggerisse execraveis lembranças.
Correu a fama a contar os successos pelas mil bocas da diffamação. Dizia-se que a criminosa esposa do desditoso fora encerrada n'um convento de Hespanha; que os remorsos a matariam alli; que o extremoso marido estava a ponto de enlouquecer; que os seus amigos desvelavam as noites á beira d'elle, receiosos d'um suicidio. Isto é o que se dizia no gremio das familias, onde as atoardas da fama iam buscar a sancção de evangelhos.
No entanto, João de Mattos, indigitado amante de Maria da Gloria, estava em Barcellos, sua terra natal, convalescendo da enfermidade do coração, medicada a tempo pelas offensas do amor proprio. De volta á capital, ouviu a historia, e deliberou-se nobremente a procurar Manoel Teixeira, e contar-lhe a innocencia de sua mulher, confessando a propria culpa. Era honrada; mas extemporanea a tenção. O ricaço tinha ido viajar pela Italia, com o filho aos peitos da ama, e comprara uma quinta nos arrabaldes de Napoles.
Decorreram tres annos primeiro que Manoel Teixeira voltasse á patria. João de Mattos, já no topo das grandezas sociaes, nem deu conta da chegada do negociante, nem é de crer que a lembrança dos passados successos o perturbasse no exercicio dos seus altos cargos. Imaginava Maria da Gloria em Hespanha, e, por decoro seu e d'ella nunca inquiriu o local, nem lhe parecia facil averigual-o. O homem é isto.
E o homem era tambem Manoel Teixeira de Macedo. Não ha julgal-o d'outro estôfo, vendo-o trazer comsigo de Napoles uma gentil italiana, e dous filhinhos, que aposentou em Lisboa n'um palacete de Belem. Consola, porém, dizer que o filho de Maria da Gloria era o mais querido, o que elle apertava ao coração com lagrimas, o que desde os quatro annos, trazia sempre sobre os joelhos, na carruagem, e offerecia aos carinhos de todos os seus amigos.
Entretanto, a martyr de Vairão, ajoelhando supplicante ou recuando blasphema dos degraus do altar, sentiu-se morrer em agonias atrozes durante os milhões de instantes de quatro annos. Estava da mão de Deus, por que era de Deus um anjo, que ella via ao seu lado, envolvido no habito de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor.
N'este largo espaço, teve noticias de seu filho a longos prasos: eram cartas que Eufemia lhe escrevia de Napoles. Logo que as recebeu de Lisboa, escreveu a seu marido muitas cartas, que elle lia commovido. Não alcançou resposta de alguma. Já sabem o que ella pedia: vêr seu filho, antes de ser chamada com o pae ao tribunal de Deus.
Dico vobis: Omnia quœcumque orantespetitis, credite quia accipietis, etevenient vobis.
Eu vos affirmo que todas as cousas,que na oração pedirdes, as recebereis,e succeder-vos-hão.
S. MARC. 11. 24.
Em 1825, era empregado, em qualidade de aguazil, na intendencia geral da policia, um homem que merecera a confiança de João de Mattos nos mais importantes segredos d'aquella magistratura.
Na presença do intendente e d'este homem, alguem fallou um dia em Manoel Teixeira de Macedo, como suspeito partidario de D. Carlota Joaquina, e dos assassinos do marquez de Loulé, no anno anterior.
Cahiu a proposito fallar da graciosa napolitana, que vivia ostentosamente em Belem, e da esposa, que fora encarcerada n'um mosteiro de Hespanha.
O quadrilheiro, que assistira mudo a esta conversação em que João de Mattos denotava ainda vestigios do antigo sofrimento, a sós com elle, pediu-lhe, muito em secreto, licença para lhe dizer que a mulher de Manoel Teixeira não estava em Hespanha; mas sim em Vairão, onde elle a conduzira com outro homem da sua confiança, diligencia de que fora liberalissimamente pago, sob condição de divulgar que D. Maria da Gloria tinha sido entregue na raia a pessoas encarregadas de conduzirem-na ao convento hespanhol.
João de Mattos recebeu de bom rosto semelhante nova, e sem detença escreveu a uma sua tia professa no convento de Vairão, pedindo-lhe mui reservadamente esclarecimentos acerca de Maria da Gloria, entrada no seu mosteiro em 1817. Soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor era a tia de João de Mattos.
A discreta religiosa, sem dar a saber tal carta á sua infeliz amiga, contou ao sobrinho, com piedosas expressões, o atormentado viver da pobre mãe, que, a ser de todo innocente como a ella julgava, devia já ter nas mãos dos anjos a sua corôa de gloria.
Escreveu de novo o magistrado a sua tia, confirmando a conta em que ella tinha a enclausurada, por uma confissão exacta dos simples successos, que precederam a desgraça da infeliz senhora. Accrescentava elle que punha á disposição de Maria da Gloria todo o seu valimento para ella intentar contra o marido acção de divorcio, separação do casal, e posse do filho, visto que o pae escandalosamente amancebado com a mãe de filhos bastardos, não podia curar dignamente da educação nem bem gerir o património do filho legitimo.
Soror Joanna contrariou o plano judiciario de seu sobrinho, dizendo que o Senhor não faltava em tempo opportuno aos padecentes humildes, e gostava que os desgraçados fiassem d'Elle a inteira execução da sua justiça.
João de Mattos recalcitrou ainda na opinião de que a justiça humana era a expressão da vontade divina; mas a freira redarguiu de força que o sobrinho não teve animo de contradizel-a, e meditou mais summaria traça a libertar Maria da Gloria, sem dependencia da vontade do marido.
A ponto estavam estas intenções de serem executadas, quando chegou a Maria da Gloria a carta em que lhe era dada a noticia da ida de Alvaro. Soror Joanna, n'aquelles ultimos dias anteriores á fausta nova, raras horas sahira do coro. Ahi a viam como arrobada em oração mental, e tão fervoroso devia de ser o seu orar, que as lagrimas, nunca vistas no rosto sereno da santa, eram inexhauriveis durante aquellas horas do coro. Ás vezes, em communidade, erguia a voz, clamando: «Peçam commigo a nosso Senhor Jesus Christo que manifeste o poder do seu braço n'uma obra de muita necessidade.» E as freiras, e Maria da Gloria com ellas, rezavam ferventemente.
Dizem que Soror Joanna estava no coro, a tempo que chegou a noticia da vinda de Alvaro, e que, sem ninguem lh'a ter communicado, rompera em altas vozes de acção de graças, na presença de muitas testemunhas, que não souberam atinar com a causa d'aquella subitanea exaltação. Eu não affirmo isto; mas quero acredital-o para mim. A poesia do céo é esta. Não sei que hajam ahi outros incentivos que me chamem aos olhos as lagrimas do coração. Quem me quizer ver chorar, e vibrar de não sei que vehemente e religioso enthusiasmo, conte-me casos da natureza d'aquelles: faça-me acreditar, na existencia d'umas almas que vão entender-se com Deus por um raio resplendoroso de graça divina.
Dispensa o leitor que lhe refresquem a memoria dos successos decorridos com Soror Joanna, durante as vinte e quatro horas de visita de Alvaro a sua mãe. Agora sabe que, no tom prophetico das palavras da santa, não ha que vêr com milagres. Aquelles acontecimentos vieram de seu, naturalmente, depois da troca das cartas antecedentes, entre a freira e o sobrinho. Per si mesma tem a virtude umas sahidas tão maravilhosas que não ha que dizer se as lançamos á conta de milagres, nós, os cegos d'aquella celestial claridade a que as almas escolhidas a si se veem, e se vão alumiando nas escuridades da vida, sempre tenebrosas para nós...Para mim, devia ter dito; porque, em verdade, não posso nem devo duvidar das lavadas entranhas e clara fama dos meus leitores.
É tempo de voltarmos a Lisboa com Alvaro. Iremos; porém, vejamos, em quanto elle caminha chorando d'alma com saudades de sua mãe, e sorrindo ás esperanças que lhe dera a freira, os successos que tão triste resultado promettem á temeridade do bom filho.
Ao terceiro dia da sua supposta ida para o collegio, o morgado dos Olivaes Sebastião de Brito e Macedo, e sua filha Leonor, foram a Lisboa, e hospedaram-se em casa de Manoel Teixeira, irmão natural, como se disse, d'aquelle fidalgo de antiga linhagem.
Leonor era a destinada esposa de Alvaro, desde o berço. N'este enlace pozera o bastardo o fito de sua vaidade, e o legitimo o da sua ambição. A passo igual, enriquecia Manoel Teixeira, e alcançava-se Sebastião de Brito. Este encostava-se ao plano restaurador dos seus haveres; o outro gozava-se a cada nova hypotheca que o irmão fazia. Se lhe emprestava quantias avultadas, cobrava titulo d'ellas, armas de vingança com que um dia, infringida a palavra do morgado dos Olivaes, cortaria as esperanças cubiçosas de outro pretendente.
Leonor perguntou logo por seu primo, ao subir a escada. Manoel Teixeira disse que Alvaro estava no collegio, e que pedira um mez de solidão para se dar todo a traduzir uma obra. Sebastião de Brito mofou das canceiras litterarias de seu sobrinho, e disse que não queria philosophos nem poetas para genros. Censurou que Alvaro não tivesse ainda recebido lições de equitação, indispensaveis n'um mancebo que era Brito e Macedo. Manoel Teixeira gostou da censura, e disse que o pequeno apenas tinha doze annos, e era de compleição franzina para aturar as fadigas da cavallaria. Redarguiu o morgado que era uso na familia dos Britos e Macedos passarem os varões do berço para a sella. Se outrem o dissesse, era epigramma de certo.
No entanto, Leonor dizia que, a não vir o primo vêl-a, iria ella sósinha ao collegio, na carruagem do tio. Foi applaudida a galanteria da menina; e Sebastião de Brito, deixando-a ao irmão, foi visitar alguns primos e primas.
Foram Manoel Teixeira e a sobrinha ao collegio com o intento de surprehenderem Alvaro e trazerem-no comsigo. O professor de inglez é que foi o surprehendido.
—Não mande parte a meu filho,—disse o negociante,—que eu quero apparecer-lhe de repente com a prima.
—O senhor Alvaro não está cá—disse o director do collegio.
—Como?!—meu filho sahiu?
—Ha quatro dias que nos disse que ia passar um mez com os seus parentes dos Olivaes—tornou o director.
—Isto que significa?!—replicou, entre colerico e espantado, Manoel Teixeira, interrogando o mestre de inglez.
—O senhor director disse a verdade...—respondeu aquelle, denotando enleio e turbação.
—Então foi o meu filho que me mentiu?—tornou já muito alterado o commerciante—Não creio! Aqui ha embrulhada!
—Que embrulhada póde haver aqui?—disse com azedume o proprietario do estabelecimento.
—Não sei; é preciso que me digam onde está meu filho.
—Não sabemos, senhor Macedo; já dissemos a vossa senhoria que o suppunhamos nos Olivaes: se seu filho mentiu, castigue-o vossa senhoria, e não nos culpe a nós por nos havermos fiado na palavra d'um menino, que nos merecia toda a confiança.
Manoel Teixeira sahiu de maneira aturdido que deixaria a sobrinha, se o ella não seguisse. A sua primeira idéa foi... quem póde dizer qual foi a primeira idéa do negociante, cujo amor paternal era de extremos? Levar a casa Leonor foi de certo a primeira idéa.
Eufemia, desconfiada do que havia de succeder, logo que viu Leonor sahir com o tio, ficou em sezões, e esmoreceu de todo quando ouviu a voz clamorosa de seu amo chamando o filho.
Acudiram os criados todos, menos ella. Leonor foi ao quarto de Eufemia, e achou-a em desmaios. Tornou ao tio, contando lhe o estado em que deixava a pobre ama.
N'estas aperturas, soou a campainha, e annunciou-se o professor de inglez, que pedia fallar particularmente com o dono da casa. Manoel Teixeira reanimou-se.
—Vem dar-me alguma boa noticia?—exclamou o negociante com alegre rosto.
—Creio que sim.
—Appareceu o meu filho? diga, diga.
—Seu filho nunca esteve perdido, snr. Macedo.
—Onde está, pois?
—Vossa senhoria sabe que eu sou o mestre que seu filho mais tem presado.
—Sei, e merece-o.
—A nobre alma de seu filho não podia ter um segredo que eu não soubesse. Ha quatro dias que elle disse ao director do collegio que ia estar nos Olivaes algum tempo; a mim, porém, disse-me que ia vêr sua mãe ao convento de Vairão.
Manoel Teixeira deu tres upas na cadeira, e, á quarta, exclamou:
—Quem disse a Alvaro que a sua mãe está em Vairão?!
—Fui eu, snr. Macedo.
—E como sabe o snr. que ella está em Vairão?!
—Sei-o da voz publica.
—E que lhe importa ao senhor'o que diz a voz publica para o communicar a meu filho?
—Não me importa muito o que a voz publica diz; mas interessava-me muito servir os nobres sentimentos do filho de vossa senhoria.
—Fez-lhe um grande serviço, não tem duvida nenhuma!—disse ironicamente o negociante—Quer-me mais alguma cousa?
—Quasi nada,—disse o professor—restituir a vossa senhoria seis mezes da prestação que o director do collegio recebeu adiantados.
E, dizendo, tirou d'uma carteira dinheiro em papel, que estendeu sobre a banca a que Manoel Teixeira encostava o cotovelo direito.
Na garganta do negociante ficou afogada uma insolencia.
O brioso mestre tinha sahido voltando as costas ao ricaço.
A inquieta Leonor entrou logo perguntando as novidades. O tio não respondeu, e mandou-a sahir com insolito enfadamento. A breve espaço, sahiu de carruagem, a dar execução a uma traça concebida rapidamente. Era simples: logo que o filho chegasse, mandal-o para Inglaterra, demoral-o annos n'um collegio, interceptar-lhe a correspondencia com a mãe, e removêl-a a ella para convento estrangeiro. Chegou a dar ordens para ser procurado Alvaro em Vairão, ou no caminho; mas, reflectindo, entendeu que era mais prudente deixal-o chegar inadvertido, que não fosse elle evadir-se ao castigo premeditado.
Eufemia foi severamente interrogada, acerca das revelações que poderá ter feito ao menino; e, como balbuciasse nas respostas, foi despedida, e ameaçada de cadêa, se elle viesse a descobril-a cumplice na fuga de seu filho. Sahiu a pobre mulher, e escreveu a sua ama; esta carta, porém, chegou a Vairão dous dias depois da sahida de Alvaro, e não foi subtrahida no correio de Lisboa, porque ia endereçada a uma das criadas de Maria da Gloria.
Agora é que temos Alvaro em Lisboa.
Mal apeou, informou-se da residencia de João de Mattos Vasconcellos Barbosa de Magalhães, e foi apresenta-lhe a carta da religiosa. Estava o magistrado com altos dignatarios d'estado em occupações gravissimas, quando se lhe deu parte de um menino, que era portador de uma carta de Vairão. Afastou-se á parte com Alvaro, leu a carta, muitas vezes interrompida pelo relance de olhos embaciados que lançou ao menino. No fim da leitura, tomou-o para si, beijou-o, e disse-lhe com muita meiguice:
—Sua mãe fez-lhe muitos carinhos? Que horas de felicidade o menino lhe levou!... Ora deixe estar, que ha-de ser muito feliz com ella... Espere aqui um pouco, que eu volto já.
Voltando, tocou uma campainha. Appareceu, afastando o reposteiro, o aguazil, que escoltára Maria da Gloria a Vairão.
—Onde mora o menino?—disse João de Mattos.
—Na rua de S. Bento, numero 12—respondeu o esbirro.
—Vá já ter á rua de S. Bento n.° 12 com aquelle homem do Limoeiro—disse o intendente—Agora vamos, menino.
Esperava-os a carruagem blasonada do sobrinho da santa de Vairão.
—Quem será ohomem do Limoeiro?!—ia dizendo entre si o filho de Maria da Gloria.
Os insensatos não comprehendemcomo se enlaçam o merecimento e afelicidade.
GOETHE (Fausto).
N'uma das suas muitas horas de desgraça impaciente e raivosa, é que estava Manoel Teixeira, ao annunciarem-lhe que parára á sua porta uma carruagem com a libré do intendente geral da policia. Não tinha elle ainda despregado a lingua do céo da boca meio-aberta de pasmo, quando o guarda-portão fez annunciar João de Mattos, e Alvaro. Aqui nos fallecem termos com que digamos ao justo o esgar de surpreza com impetos de loucura rapidamente figurados no aspecto do negociante. E da alçada de todos imaginar a turbação que devia sentir o marido de Maria da Gloria, vendo entrar seu filho ao lado do amante de sua mulher!
Estava já na sala de espera João de Mattos, algum tanto embaraçado em sua especial posição; mas tranquillo na apparencia. Já o dono da casa se ia demorando, quando a sala immediata se abriu, e o escudeiro veio ahi dizer a sua excellencia que o snr. Teixeira de Macedo não se demorava.
Alvaro tremia, e enfiava. João de Mattos tomava entre as suas as mãos do menino, e dizia-lhe:
—Que medo é esse, menino?! Seu pae não lhe faz mal... Tranquillise-se, que isto não é nada. Por que treme?
—Nem eu sei dizer... Não é medo...
Durante um curto dialogo assim travado entre o homem e a criança, vagava como allucinado o negociante, remettendo contra a porta que o separava da sala em que era esperado, e recuando com o gesto cada vez mais descomposto. N'esta afflictiva oscillação, tornou ao seu quarto, tirou d'um estojo uma pistola de dous tiros, accommodou-a na algibeira do chambre de cachemira, e entrou na sala com sinistra serenidade.
João de Mattos ergueu-se, e disse com pausada gravidade:
—Não me é difficil lêr no rosto de vossa senhoria o abalo que o meu nome lhe fez. E tão natural esse sentimento de odio, que deshonrado seria vossa senhoria se o não sentisse contra mim.
—E vem a minha casa?!—disse Manoel Teixeira com os olhos fitos no pavimento que se interpunha aos dous.
—Venho a sua casa, senhor Macedo, offerecer-me desarmado e sósinho á sua justa vingança...
—E como se acha meu filho ao lado do senhor intendente?—interrompeu o commerciante, relanceando os olhos fuzilantes sobre Alvaro.
—Vai vossa senhoria sabel-o; mas eu peço que o menino nos deixe sósinhos por alguns segundos.
Alvaro sahiu da sala; João de Mattos fechou a porta; e Manoel Teixeira encostou-se ao bordo de um tremo, e cruzou os braços em postura, que seria dramatica, se não fosse incivil.
João de Mattos, com a mão esquerda na lapella da casaca, e a direita, segurando o chapéo, sobre a cintura, fallou assim:
—Creio que o snr. Manoel Teixeira tem sobeja intelligencia para conhecer que um homem, como eu, na sua presença e em sua casa, significa um successo extraordinario movido por um impulso tambem extraordinario.
—Eu desejo realmente saber o que vem vossa excellencia fazer a minha casa.
—Venho...
Um criado cortou a resposta, dizendo que um meirinho que acompanhava um preso entre soldados queria fallar a sua excellencia.
—A mim?!—disse o negociante.
—É a mim—acudiu sorrindo João de Mattos.—Queira vossa senhoria consentir que o preso esteja ás minhas ordens na sua sala de espera.
Manoel Teixeira ergueu os hombros, e disse enleiado das estupendas occorrencias:
—Mas esse preso é cousa que tenha relação commigo?!
—É o facto importante da nossa pratica—respondeu João de Mattos, e accrescentou com tristeza:—é o fecho d'esta abobada, debaixo da qual vossa senhoria ha-de sentir esmagado o coração... Queira attender-me. Eu morei, ha onze annos, em frente do seu palacete. Não era já moço de paixões violentas; mas... era homem. Amei a snr.aD. Maria da Gloria porque a vi, e porque ella me não dava o mais leve signal de estima nem sequer de preoccupação das minhas constantes solicitações. O coração humano é assim absurdo. Vossa senhoria foi n'essa época á India, e eu cuidei miseravelmente que a esposa fiel deixaria de o ser na ausencia de seu marido. Havia na sua casa um criado, que adivinhara as minhas intenções, e se me offereceu para entregar uma carta a sua ama. Acceitei e paguei liberalmente o serviço do seu criado; porém, escrevi mais cinco cartas instando pela resposta da primeira. Sua esposa nunca me respondeu. Um dia, fui animado pelo meu confidente a entrar furtivamente em casa de sua esposa, e esperal-a na passagem do seu quarto para uma sala. Cego da minha paixão, não comprehendi que praticava uma deshonra; mas sua mulher lançou-m'a em rosto, e eu sahi de sua casa, cuidando que me era sobejo castigo o despreso com que fui expulso por um ligeiro aceno de mulher. Momentos depois, o criado era despedido tambem, e a esposa sem macula ficou pensando que Deus abençoara a sua resolução, e que o mundo lhe seria sempre uma testemunha e um applauso da sua dignidade. Terminei. Agora peço licença para ser trazido á nossa presença o preso.
Manoel Teixeira fez um gesto como de automato. João de Mattos levantou o feixo da porta, e disse ao meirinho:
—Entrem... Conhece este homem?—disse elle ao negociante, indigitando o preso.
—Tenho idéas...—respondeu Manoel Teixeira, affirmando-se.
—Diz a este senhor quem és—tornou o intendente com terrivel sombra ao preso.
—Eu sou aquelle criado, chamado Gregorio, que cá estive ha onze annos em casa de vossa senhoria.
Mal o preso proferiu estas palavras, cahiu de joelhos aos pés de Manoel Teixeira.
—Mande erguer esse homem—disse o intendente.—O juiz aqui sou eu. Levanta-te, e responde. Entregaste alguma vez cartas minhas a tua ama, esposa d'este senhor?
Gregorio balbuciava, e João de Mattos atalhou com formidavel e colerico accento:
—Se faltas n'um só ponto á verdade, mando-te espedaçar os pulsos com dous anneis de ferro. Responde. Entregaste cartas minhas á senhora D. Maria da Gloria?
—Sim, senhor—disse o preso.
—Entregaste-me algumas cartas da senhora D. Maria da Gloria?
—Não, senhor.
—Quem me disse que entrasse na casa de tua ama, e me encaminhou até ao lugar onde ella havia de passar?
—Fui eu, senhor.
—Qual foi o procedimento de tua ama, quando me viu ajoelhado a seus pés?
—Mandou-o sahir de casa...
—E a ti que te disse?
—Mandou-me embora.
—Que disseste tu a teu amo, quando elle voltou de Macáo?
O preso ajoelhou outra vez aos pés de Manoel Teixeira, exclamando:
—Eu menti a vossa senhoria, e fui a causa da desgraça de minha ama; mas quem me aconselhou foi um logista, que tinha sido caixeiro de vossa senhoria. Perdôe-me pelo amor de Deus, que estou ha tres mezes com ferros aos pés n'uma enxovia sem ar nem luz!
João de Mattos fez um signal ao quadrilheiro. Este, puxando pela gola da vestia de Gregorio, quasi o arrastou para fóra da sala, a tempo que Manoel Teixeira, como se espertasse d'um sonho vertiginoso, engatilhava a pistola, visando com olhos convulsivos e escarlates de sangue o peito do preso.
João de Mattos collocou-se entre o negociante e o preso, dizendo:
—Este homem não se castiga assim, senhor Macedo. E preciso matar-lhe uma existencia em cada fibra. A morte instantanea d'este miseravel não vale onze annos de lagrimas.
O negociante, offegando, já com as lagrimas no rosto, e a voz embargada pelos soluços, lançou-se a um canapé.
Alvaro, alvoroçado pelo ruido, correu á sala. João de Mattos tomou a mão do menino, e approximou-o do pae, dizendo-lhe:
—Diga a seu pae que sua mãe lhe perdoa; e peça-lhe de joelhos o perdão para quem unicamente precisa d'elle, que sou eu.
Alvaro ajoelhou, e sentiu-se apertado nos braços do pae, que escassamente balbuciava exclamações cortadas de gemidos.
João de Mattos, abrasado d'aquella flamma electrica que experimentam as almas apaixonadas da terrivel sublimidade da angustia, tirou da algibeira uma carta, que leu com voz solemne, cava, e pungitiva por seu tremor nervoso:
«Meu sobrinho.«Quando esta carta receberes da mão do filho de Maria da Gloria, pede a Deus, no fervor de tua alma, que te dite ao coração as palavras com que has-de convencer o pae d'esse menino da innocencia d'esta santa. Não seja contra ti e contra a vontade Divina, a soberba da tua posição. Vai, filho de meu irmão, vai, e não peças perdão para Maria da Gloria, que não tem culpas; pede-o para ti, que foste a causa da sua desgraça, e d'outra que te ha-de castigar ainda, se fores testemunha dos remorsos do marido. Vai, meu sobrinho, vai, guiado por esse anjo, e Deus te ajudará n'essa hora a alumiares o coração do infeliz marido; infeliz, sim, porque eu tenho uma quasi certeza de que as horas de agonia d'esse homem podem bem comparar-se ás d'esta sublime e nobre desgraçada. Vai já, meu João, não demores o resgate d'esta martyr que é pura aos olhos do Senhor, mas está perdida no conceito das pessoas a quem Deus não conta os segredos do coração das suas creaturas escolhidas. Eu espero com ancia que me digas o que o meu coração espera. Se a minha fé tem luz do céo, Maria da Gloria cedo estará com seu marido e com o filhinho que lhe leva o coração. Eu perco a companhia do anjo d'esta communidade; mas ganho-a para a sua felicidade, e onde quer que ella esteja dar-me-ha sempre o mais doce dos seus sorrisos, e a mais amarga das suas lagrimas. Não te digo mais nada, porque as minhas muitas enfermidades, bemdito seja Nosso Senhor Jesus Christo, não me deixam escrever. Eu te deito a minha benção, sobrinho da minha alma. Escreve-me na volta do correio. Deus te guarde. Tua tia muito amiga.Joanna das Cinco Chagas do Senhor.»
«Meu sobrinho.
«Quando esta carta receberes da mão do filho de Maria da Gloria, pede a Deus, no fervor de tua alma, que te dite ao coração as palavras com que has-de convencer o pae d'esse menino da innocencia d'esta santa. Não seja contra ti e contra a vontade Divina, a soberba da tua posição. Vai, filho de meu irmão, vai, e não peças perdão para Maria da Gloria, que não tem culpas; pede-o para ti, que foste a causa da sua desgraça, e d'outra que te ha-de castigar ainda, se fores testemunha dos remorsos do marido. Vai, meu sobrinho, vai, guiado por esse anjo, e Deus te ajudará n'essa hora a alumiares o coração do infeliz marido; infeliz, sim, porque eu tenho uma quasi certeza de que as horas de agonia d'esse homem podem bem comparar-se ás d'esta sublime e nobre desgraçada. Vai já, meu João, não demores o resgate d'esta martyr que é pura aos olhos do Senhor, mas está perdida no conceito das pessoas a quem Deus não conta os segredos do coração das suas creaturas escolhidas. Eu espero com ancia que me digas o que o meu coração espera. Se a minha fé tem luz do céo, Maria da Gloria cedo estará com seu marido e com o filhinho que lhe leva o coração. Eu perco a companhia do anjo d'esta communidade; mas ganho-a para a sua felicidade, e onde quer que ella esteja dar-me-ha sempre o mais doce dos seus sorrisos, e a mais amarga das suas lagrimas. Não te digo mais nada, porque as minhas muitas enfermidades, bemdito seja Nosso Senhor Jesus Christo, não me deixam escrever. Eu te deito a minha benção, sobrinho da minha alma. Escreve-me na volta do correio. Deus te guarde. Tua tia muito amiga.
Joanna das Cinco Chagas do Senhor.»
—Que hei-de eu responder a esta carta, senhor Manoel Teixeira?—disse João de Mattos.
O negociante ergueu-se, enxugando as lagrimas; estendeu a mão a João de Mattos, e disse:
—Eu vou levar a resposta a sua tia.
O magistrado pôde suster-se contra o impeto do coração que o impellia aos braços do negociante. Conteve-o a lembrança de que nunca podia merecer a amisade do marido de Maria da Gloria, porque a paixão não era desculpa, nem a impossibilidade do delicto innocencia.
E este sentimento adivinhava o de Manoel Teixeira. Qualquer que fosse a commoção sentida, ouvindo o sobrinho da religiosa de Vairão, não era isso bastante para que o homem compadecido offerecesse a sua amisade a outro que entrára em sua casa supplicando de joelhos a deshonra de uma familia, embora o effeito da tentativa criminosa fosse apenas a desgraça de onze annos, e a certeza da causa vilipendiosa d'ella. Sem embargo, não era tudo dor no animo de Manoel Teixeira. Era-lhe de grande alegria a evidencia da lealdade de sua mulher; sentia-se como rehabilitado perante sua propria consciencia. N'isto vae muito para a vaidade, quando não seja tudo para o coração do homem. Se remorsos o alanceavam, o muito amor ás victimas da injustiça é a penitencia d'estas culpas. O arrependimento inventa carinhos novos; e a innocente parece vingar-se, perdoando, e sorrindo ao algoz, que exora perdão com lagrimas. Assim é, assim quer Deus que seja; mas o que não póde ser é um marido, que amou sua mulher e se amou a si por orgulho de a ter, perdoar ao homem, quer elle seja primeiro ou infimo, que pôz em acção os meios de empeçonhar uma legitima felicidade, embora a pureza invulneravel da mulher mais depure o quilate da sua virtude, encarecendo a vaidade do marido. A toda a luz se vê que Manoel Teixeira, no recesso de sua alma, odiava João de Mattos; e este, homem de altos espiritos e coração, conhecia o odio, e apertara a mão do negociante por não poder, sem desaire, recusar-lhe a sua.
Alvaro não desfitava os olhos lagrimosos do affavel e magestoso semblante do intendente.
Trinta e quatro annos depois, o padre Alvaro Teixeira, apontando o retrato de João de Mattos, me dizia n'aquella casa dos Olivaes:
—Contemplava-me assim com aquelle rosto de graça! Nem a minha alma conserva tão fiel a cópia do momento em que me elle disse: «Se seus paes lhe derem licença, menino, seja meu amigo; aproveite a minha velhice; eu lhe direi o que é o mundo, e o amargo castigo das acções más.»
Foram estas as palavras do homem virtuoso, ao despedir-se de Manoel Teixeira. Este escassamente curvou a cabeça respondendo á cortezia do intendente. É que, esfriado o momento do abalo, o negociante pejava-se talvez já de ter offerecido a mão a João de Mattos com a vehemencia expansiva de amigo.
Apollon prend les armes.
VOLTAIRE (Sat.)
N'um dos ultimos dias de setembro de 1825, amanheceram embandeiradas as janellas, e as torres do mosteiro de Vairão. Os sinos repicavam desde o abrir da manhã. Feixes de murta, e as flores da estação entravam ás cargas e em taboleiros para o convento. As criadas chilreavam de janella em janella, e em magotes, á portaria. As religiosas, misturadas com as moças, e as velhas com as noviças, tinham provisoriamente rasoirado as jerarchias da posição e dos annos. A criada passava a correr por diante da ama; a noviça não beijava a mão á prelada; a prelada consentia que as moças lhe desfolhassem rosas sobre a touca. Das noviças algumas vestiam trajes masculinos: esta remedava um alferes de milicias, aquella um desembargador, uma um camponio, outra um pescador. E á volta de cada qual eram tantos os grupos, quantas as estridulas risadas, que applaudiam o chiste da noviça mascarada.
Estas folias celebravam um abbadessado, em que devia ser reeleita pela duodécima vez a prelada, a quem todas davam mais o coração de filhas, que a submissão de subditas.
Do meio dia em diante, começaram a confluir de diversas estradas uns sujeitos bem postos sobre as suas cavalgaduras, e de semblantes radiosos, que de si mesmos estavam dizendo cujos eram, e que altíssimos destinos alli vinham a cumprir: eram os poetas. D'estes, uns vinham por convite, outros espontaneos, ou esporeados pelo furor metrico. Uns tinham alli os seus idealissimos amores; outros já os tinham tido e encanecido com elles; e alguns iriam com esperanças de merecêl-os. Poetas de Guimarães eram tres; do Porto um, que valia por muitos, o celebrado Ferro; de Braga dous conegos em Apollo, e alguns abbades circumvisinhos; de Villa Real o famigerado Mormo, e o não menos conhecido Mesquita, cujo nome se laureara entre os contemporaneos da Universidade.
Quanto pode de Athenas desejar-se,Tudo o soberbo Apollo aqui reserva;Aqui as capellas dá tecidas de ouro,Do bacharo, e do sempre verde louro.
Pelas capellas tecidas de ouro não fico eu; mas que as monjas hospedavam lautamente os seus poetas das mais raras gulosinas e carissimos licores com que já de mezes antes enriqueciam a frasqueira, isso juro eu, e ainda estão vivos alguns, que deram como esgotada a Castallia, no dia em que os garrafões monasticos seccaram requeimados pelo sol ardente da civilisação, a qual (digamol-o muito á puridade) trouxe comsigo o segredo de civilisar pela fome, e de restaurar direitos, violando-os.
A noite illuminaram se as janellas, e os postigos, e os frisos das torres, e as cornijas da igreja. O chá foi servido na espaçosa grade da abbadessa, primeiro aos vates e seus amigos, depois aos notaveis d'aquellas cercanias. O terreiro do espaçoso pateo estava colmeado de gente, anciosa de versos. As freiras, mais expeditas em improvisação de motes, estavam a postos. As senhas tinham já sido pactuadas entre a freira e o seu poeta, entre a noviça delambida e o seu incognito versista, e entre a propria criada, outacho, e o bardo menos aristocrata, que não se dedignava incensar a mocinha conhecida, e dadivosa das mais recheadas cestinhas de bolos e garrafas do vinho furtado á ama por amor de Apollo.
Rompeu o outeiro auspiciosamente. O doutor Ferro improvisára um magnifico soneto, sem resaibos da sua costumada licença. Os conegos bracarenses traziam odes de grande fôlego, que o Ferro dizia seremôdrese nãoódes.Os de Guimarães chamavam á octogenaria prelada a paphia deusa, e decima musa. Tudo isto ia intervallado por libações amiudadas, que accendiam a furia sonorosa, e trasbordavam do peito em colloquios rimados de tanto amor que o proprio patriarcha S. Bento, se alli estivera, e tomara quinhão dos enfeitados cestinhos, que desciam das rêxas, pediria mote para uma decima, sem damno da sua santidade e bom siso.
Depois da meia noite, é que o gloriosissimo santo não quereria de certo tal camaradagem. Os poemas rebentavam já, não da vehemencia do coração, mas da exuberancia do espirito. Qual este espirito fosse, vae dizel-o um dos proprios inspirados.
Era este o abbade Mormo, de Villa Real, inimigo do seu patricio Mesquita. Nunca se haviam encontrado em outeiro d'onde não sahissem mal-feridos de estocadas metricas, e desafiados para o outeiro proximo. Mesquita era filho d'um cortador de carnes, e gastara muitos milhares de cruzados para conseguir cartas de bacharel, que a estulticia do tempo não concedia sem attestados de sangue limpo. O ingeneroso Mormo mais de uma vez, em redondilha maior, alludira cruelmente á filiação de Mesquita, e este como desforço unico, lancetava a devassidão do abbade.
O doutor Mesquita foi vexado do demonio da satyra mais cedo que o seu patrício Mormo. Os remoques eram já pungentes, como este:
Já cede Pégaso o passo,Escoucinha, espirra, e rincha,Ouvindo ornear o pechincha,O abbade sujo e devasso, etc.
isto o concitavam as gargalhadas de alguns seus contemporaneos; e a mais se prostituiria a musa alcoolisada, se um mote não viesse impôr aos poetas mais respeitosa linguagem. Era o mote:—«A melhor de entre as preladas.»
O abbade Mormo ergueu-se de sobre uma alfombra de relva onde parecia sopitado, e bateu as palmas, apenas soou o mote.
—Lá vai!—disse elle—A melhor de entre as preladas.
Boas noites! vou-me embora;Já não posso estar com somno,Nem me apraz soffrer o mono,Borrachão a toda a hora.Oh! quanto melhor lhe foraTer as facas amoladas,E ir cortar as colladasNo outeiro sanguinoso,Em quanto eu louvo ditosoA melhor de entre as preladas!
Não podia ser mais nú o insulto ao filho do magarefe! A multidão riu muito, salvo os partidarios de Mesquita. Este, espicaçado pelos glosadores da injuria, procurou o velho abbade entre a populaça, que o victoriava, e remetteu com elle a murros fechados. O aggredido não podia com o adversario; mas sobravam-lhe alli admiradores que o defenderam, immolando-lhe o nariz contuso de Mesquita. Acudiram os amigos do doutor, e a briga assanhou-se entre os dous partidos a ponto de ficar despejado o pateo do mosteiro. As freiras de compleição mais debil desmaiaram. As noviças fugiram das janellas para não insultarem com o riso as monjas velhas. As criadas estendiam as bugias e lanternas fóra das grades para alumiarem o terraço, onde estalavam as bordoadas ora nos paus, ora nas cabeças com um som mais surdo. As lages do pateo estavam juncadas de chapéos e capotes. O reboliço afastára-se em turbilhões cujo alarido redobrava o terror. A prelada ordenou que se apagassem as luzes, e mandou tocar a silencio. Meia hora depois, os poetas e os demais hospedes do mosteiro voltaram á hospedaria conventual, e passaram o restante da noite em regalado somno, excepto os dous conegos bracarenses, que d'alli se partiram logo para suas casas com as melhores odes ineditas, e sem chapéo. O doutor Ferro, como estivesse já na cama, e soubesse que os conegos não voltaram, nem voltariam ao outeiro das seguintes noites, ergueu-se de golpe, e de pé sobre a cama, com um lençol sobre as espádoas, lançado em fórma de clamyde grega, e os cabellos descompostos, improvisou um soneto, que começava assim:
Altissimo Senhor, que tudo pódes!Transfigura em cajadas os cajadosQue pozeram em fuga os desalmadosEstomagos, que tem só vinho e odes. . . . . . . . . . . . . . . . .
Queria a abbadessa dar por concluida a festividade da eleição, á conta da desordem, e do receio que se ella repetisse. Conjuraram muitas religiosas em demovêl-a da tenção, e os poetas, acaudilhados pelo doutor Ferro, foram incorporados solicitar a continuação do outeiro. Os requerimentos em verso foram a final deferidos, e á noite seguinte concorreram, afóra os conegos bracarenses, os mesmos poetas, sem excepção de Mesquita e Mormo, que vieram ás boas, mediante as diligencias de algumas senhoras, que muito podiam com elles.
Correu a noitada muito à prazer de freiras e poetas. Nenhuma senhora deixou de contribuir com os seus applausos para a glorificação dos vates, salvo Maria da Gloria que passava a noite no quarto de soror Joanna, recontando-lhe pormenores da sua feliz infancia, e tristonha mocidade. O pendor de todas as conversações de ambas era para Alvaro. A religiosa consolava com a esperança; Maria chorava de saudades, e temores do futuro incerto. Se, porém, a santa lhe punha os olhos expressivos de reprehensão, a turbada senhora, dizia em tom de supplica:
—Perdoe, minha amiga, perdoe á minha desgraça a sua tibieza de fé. Eu sei que Deus a escuta; mas, se me olho inculpada, e tão infeliz, pergunto a mim mesma que virtudes novas tenho eu agora para merecer que o Senhor esqueça as minhas culpas passadas! Eu pensei sempre como hoje. O crime nunca teve para mim outra cor nem o meu coração se abriu aos encantos do vicio. Sou a que era; penso que serei sempre desgraçada como tenho sido.
Soror Joanna fez um esforço para ajoelhar á beira da poltrona em que estava sentada, e conseguiu-o coadjuvada por Maria da Gloria. Esta, sem convite da santa, ajoelhou tambem, e ouviu da freira estas brandas palavras:
—A nosso Senhor falla-se com humildade. Supplique, filha; mas não se queixe. Job tinha uma pedra por leito, e outra com que se alliviava da flagellação das suas chagas. Esse ousou perguntar a Deus, porque o tirou do ventre materno. A misericordia divina perdoou-lhe ao tom arrogante da sua afflicção. Não duvide de ser tambem perdoada, Maria. Afervore-sa e rese commigo.
Durava a oração mental alguns minutos, quando subitamente se levantou um grande reboliço nos dormitorios. Maria da Gloria alvoroçou-se, e disse:
—Será outra vez bulha lá fóra?
A freira não respondeu, nem sequer desfitou os olhos do Senhor crucificado.
Cresceu o rumor já perto do quarto, e vozes distinctas, clamando «milagre!»
—Gritammilagre!—exclamou Maria da Gloria, erguendo-se, com os olhos na freira.
Soror Joanna sorriu e disse:
—Não é milagre, filha: é a justiça de Deus, que a razão humana comprehende.
Entrou uma chusma de fieiras e noviças, conclamando á mistura:
—Ahi está o menino!
—E acho que vem tambem o pae!
—E muita gente a cavallo!
—E duas liteiras com senhoras!
—E traziam archotes!
Soror Joanna estava em pé, encostada a Maria da Gloria, cujas pernas tremiam de modo, que ella chamou Cecilia para se amparar.
—Ó filhas! vós fallaes todas juntas, e quebraes a minha pobre cabeça!—disse a santa—Falla tu, Cecilia, diz o que viste.
—Vi o snr. Alvaro, e um senhor com elle, que deve ser o pae. Vi mais pessoas a apear dos cavallos, e umas senhoras saltaram das liteiras, e já lá ficou a senhora abbadessa á portaria.
Maria da Gloria, posto que sustentada nos braços de Cecilia, dobrou os joelhos para orar; mas a perturbação era tanta que perdeu a consciencia de si, se não é antes que a sua alma se entranhou toda no seio misericordioso do Senhor.
Novos estrondos se aproximaram do quarto, e logo entraram tres senhoras de mui gentil presença e entre estas uma ainda menina de treze annos, que o leitor já viu e reconhece agora por aquella Leonor dos Olivaes, sobrinha de Manoel Teixeira. Com estas senhoras vinha tambem Alvaro, a quem os seus poucos annos consentiram, por segunda especial graça da prelada, ingresso no convento. Fóra da portaria tinham ficado o marido de Maria, Sebastião de Brito, pae de Leonor, e tres cavalleiros casados com as tres damas. Entrara depois d'estas uma mulher, que não ousava mostrar-se ao pé das outras, receiosa de que o amor fizesse mal á sua humildade: era a criada Eufemia.
As senhoras cercaram Maria da Gloria, chamando-a todas, e perguntando cada uma se a conhecia ainda. Leonor dizia-lhe que era a sua sobrinha. Alvaro dava-lhe aquelle doce nome, a cujo som toda ella se estremecia. Eufemia, essa, obscura a um canto do quarto, estava como esperando que sua ama a chamasse.
—Onde está Eufemia?!—disse Alvaro admirado.—Ella vinha comnosco!
—Estou aqui, senhor Alvaro—disse a criada, a quem as freiras abriram passagem.
—Venha cá ao pé de minha mãe, Eufemia...
Maria da Gloria abrira os olhos apavorados, relanceando-os por todos até encontrar os de Alvaro, que fora ao encontro de Eufemia. Reconheceu-os ambos, ergueu-se, expediu um grito, e abraçou-os juntos com tamanho impeto, que foi preciso ampararem o grupo as senhoras mais chegadas. Leonor acudiu de novo dizendo quem era. Maria fitou-a com amor, e disse-lhe:
—Bem vinda sejas! isto é uma festa de anjos!
As tres senhoras offereceram-se aos olhos d'ella, perguntando se as não conhecia.
—Conheço—disse Maria com a voz extenuada,—conheço as minhas amigas de ha quatorze annos. São as mesmas formosas meninas. A felicidade não deixa envelhecer... E a mim conhecerme-hiam?
Não responderam: tão absurda seria a lisonja, se quizessem mentir ao seu proprio assombro.
—Senhora D. Maria—disse a abbadessa—á portaria está seu marido. Vossa senhoria poderá descer até lá?
—Póde, pois não póde?!—disse soror Joanna das Cinco Chagas—Se eu lá vou com os meus oitenta e oito e a minha gota, por que não ha-de ir ella? Ora vamos. Quem lhe dá o braço sou eu, e o senhor Alvaro dá-me o braço a mim. Imaginem que levam a eternidade no meio; e acho que não é mal posta a comparação: a boa eternidade começa pela innocencia da vida, que é o menino, e continua-se na bemaventurança do soffrimento, que é a minha Maria, e esta, de mais a mais, chama-seGloria!
No emtanto, a poesia do pateo estava estagnada nos corações repletos dos vates espantadiços. Tinham elles visto chegar a caravana ladeada de archotes, e por pouco que o doutor Ferro não improvisa uma elegia áquelle simulacro de sahimento. Dos poetas noveis, alguns rodearam as esbeltas matronas, sahidas das liteiras, e sentiram intumecida a veia da poesia ao profano. O Mormo queria vêr n'aquillo tudo uma violencia de clausura feita áquellas senhoras, e teve o zeloso desafogo de ir perguntar aos proprios maridos que senhoras eram aquellas, e por ordem de quem eram inclausuradas á meia noite. Os maridos tiveram a complacencia de desvelar o mysterio; com a qual explicação se afoguearam os filhos de Apollo, e em cada labio borbulhou uma estrophe de enthusiastica ode á redempção de Maria da Gloria. O Ferro, sabendo que se machinava um fogo preso de odes, disse em voz alta, que dava uma peça a quem fosse buscar n'um carro os dous conegos de Braga e as odes correlativas.
Com estas e outras facecias mantiveram os poetas o outeiro animado, apesar de sahirem das janellas todas as freiras, noviças, e criadas attrahidas pelo espectaculo novo, e mais levadas do coração que da curiosidade.
Ficou de memoria a primeira quadra de um soneto declamado n'esse intervallo pelo doutor Ferro:
Vão freiras, vá noviça, e vá a moçaGosar d'um coração que desabafa;Mas deixem na janella quem nos ouça;Seja um vulto qualquer... uma garrafa!
Na oração que ha senão aquelladuplicada força, capaz de amparar-nosna queda, ou solicitar-nos o perdão,se nos despenhamos?
SCHAKSPEARE (Hamlet).
Manoel Teixeira esperava encostado a uma columna do portico. Os amigos cuidavam em preparal-o para a impressão. Tão agitado o viam que receiavam o effeito do abalo que a primeira vista de Maria da Gloria devia fazer-lhe.
Dizia Sebastião de Brito:
—Deves estar prevenido, mano Manoel, para veres uma mulher muito differente d'aquella gentil dama, que era Maria da Gloria ha onze annos. No ar do convento dizem os santos que as almas respiram regaladamente; mas eu, que não sou medico, nem sequer santo, defendo que o ar do convento deve ser como peste para os pulmões de uma menina galante.
A comitiva fez o favor de rir á graça do morgado dos Olivaes; o negociante, porém, fez um gesto de enfado, e limpou o suor da fronte.
Abriu-se a porta: era a prelada, á frente d'uma procissão de monjas, noviças, e criadas. Entre todas, vinha Maria da Gloria pelo braço de soror Joanna das Cinco Chagas, e esta com a mão apoiada no hombro esquerdo de Alvaro. A luz, que as alumiava, era de tochas de cera, ao clarão das quaes procurava Manoel Teixeira, com espavorido olhar, sua mulher. Viu-a e reconheceu-a. Levado da sua ancia, chegou a transpôr o limiar da porta; mas a prelada, estendendo para elle a mão, disse com affectuoso sorriso:
—Queira ter a paciencia de esperal-a aqui: não é permittida a entrada nem mesmo aos maridos penitentes.
Maria da Gloria não podia ver claramente os vultos que divisava fora da portaria. Quasi suspensa do fragil braço da decrepita freira, pediu a Cecilia que a amparasse pelo outro braço. Porfiavam em sustental-a todas, e quasi no collo a trouxeram á porta. Ahi sentiu ella que uns labios lhe osculavam a mão com afogo e tremor. Era Manoel Teixeira, que dobrara o joelho diante d'ella.
—És tu?—disse ella—E podeste conhecer-me?
—Quando te não conheceria eu, infeliz?—respondeu elle afogado de lagrimas e gemidos.
—Tambem tu tens cabellos brancos!...—tornou Maria da Gloria, sorrindo—Os felizes envelhecem tanto como os desgraçados! Não estejas assim, Manoel... Aos pés de uma amiga não se ajoelha... Ou ella perdoou antes da posição humilhada; ou não perdoa nunca. Ergue-te...
—Ajoelhe diante de Deus, diante de Deus, senhor Manoel Teixeira—disse soror Joanna—e dê-lhe muitas lagrimas de louvor e gratidão por este anjo. Agora, torno a fugir-lhe com ella; por ora é nossa; ámanhã lh'a daremos. Vá vossa senhoria e mais os seus amigos para a hospedaria do mosteiro. A nossa boa prelada lá lhes manda o chá. Vão repousar, ou façam versos, se são poetas, que esta noite todos somos poetas, todos temos no coração hymno em acção de graças ao Senhor da misericordia e da justiça.
Maria da Gloria apertou a mão do marido, balbuciando algumas palavras, e o mesmo fez ao cunhado, que a saudou com esta tirada de palaciano e enamorado de todas as palacianas:
—Olhe que eu não a esperava ver tão encantadora, mana Maria! Agora vejo que o condão das perpetuas se mudou para as rosas da sua formosura—(Sebastião de Brito havia dito isto, mezes antes, a uma marqueza bem conservada, e soubera que a marqueza repetira em ar de enfado a toda a gente a fineza; porém, gostosa de que a metaphora fosse applaudida, como de feito era). A graça do mundo—continuou elle, offerecendo simonte em caixa de ouro á abbadessa—desbota as flôres, e a de Deus reflorece-as. A mana Maria está como era; e, se não fosse a sympathica pallidez que lhe realça o mimo, seria menos bella, ou tão bella como foi.
Maria da Gloria riu-se, e as senhoras de Lisboa com ella, mas delicadamente. Ao mesmo tempo espirraram de um grupo uns frouxos de riso, que estalaram em gargalhada mais longe: eram as noviças, gente bravia, como a abbadessa lhes chamava, que traziam o mosteiro em desordem, e nunca podiam dar grande sahida pelos caminhos do céo.
A madre porteira fez menção de fechar a porta, quando Brito calou o refolhudo comprimento. Manoel Teixeira beijou a mão de Maria, e perguntou-lhe se o menino ficava.
—O menino fica—disse soror Joanna com ar alegre—porque tem de me levar á cella. Estas senhoras, se quizerem, e a senhora dona abbadessa consentir, podem tambem ficar. O patriarcha S. Bento tudo tolera hoje, por amor do nosso anjo, que não pediu a felicidade só para si. Ora vamos com Deus.
Fecharam-se as portas. Maria passou a noite de vigilia, com o seu leito rodeado das antigas amigas, das freiras mais da sua alma, e do filho acariciado, que adormecera com a fronte encostada ao travesseiro de sua mãe.
Manoel Teixeira e os seus companheiros, excepto Sebastião de Brito, pernoitaram na hospedaria do mosteiro. O dos Olivaes, tão amante das musas, quanto o ellas tratavam esquivamente, foi até ás quatro da manhã o primeiro enthusiasta do auditorio, batendo palmas delirantes, e bradando osbiscom todas as potencias da sua admiração pulmonar.
Agora, abro mão do seguimento da historia, para acudir a uns reparos d'algum leitor.
Diz elle:
«Eu estava preparado para lêr algumas paginas bonitas e sentimentaes, occasionadas pelo encontro de Maria da Gloria e Manoel Teixeira. Fiquei logrado. Nenhum d'elles disse cousa que fizesse chorar, nem escassamente commover a gente. O author deixa perder as marés cheias de poesia. Aqui era que devia ostentar os thesouros do seu estilo lamuriante. Nem um aprendiz de romances deixava, pelo menos, de tirar do peito do marido quatro apostrophes, com grande chuveiro de lagrimas. Era bello fazêl-o discorrer uma hora de joelhos aos pés da esposa, desfallecida de cinco em cinco minutos. Que ella perdoasse, isso sobre ser justo, era dramatico; todavia, a palavra misericordiosa devia fugir-lhe do coração, depois que as freiras todas chorassem em coro, e soror Joanna discorresse dilatadamente acerca do perdão das injurias. Além de que, nenhum desmaiou! O tocante era ir ella nos braços das esposas do Senhor para cima, e elle ficar cá fóra, senão sem sentidos, ao menos declamando um quarto de hora, e cahir a final extenuado nos braços dos amigos. Isso sim, era uma passagem que bastava á reputação da novella, e a venderem-se mais alguns milhares de volumes. Escrever as cousas como ellas se passam no mundo, como nós as vêmos por ahi! Então é melhor não dar cópias da realidade. O que a gente quer é que o romancista nos pinte a sociedade, a vida e as paixões melhores ou peores do que são. Regala estar lendo uma scena sem naturalidade, e dizer «isto não é assim; mas, se assim fosse, era mais agradavel o mundo.» Onde está a imaginação do novellista, que repete o que viu, ou leu, ou lhe contaram?! E como dizerem que o theatro deve ser a photographia da vida! Vão para lá com os seus dramasinhos verdadeiros, e verão que nem os musicos da orchestra lh'os aturara. O romance é tal e qual a mesma cousa. Se nos não maravilha, enfada-nos. Viram cousa assim?! Deixar o author correr glacialmente aquella scena da portaria do convento! Ainda agora podiam estar os conjuges a dissertar a respeito da calumnia que custou onze annos de martyrio á esposa sem nodoa! Pois o remorso não era aguilhão sufficiente para fazer andar o marido em bolina n'aquelle local tão poetico, e obrigal-o a raivar contra si, e a desentranhar-se em eloquencia de phrases e lagrimas aos pés da mulher! Nem umah!nem umoh!lhe ouvimos!... É de mais! Póde ser que assim acontecesse, e que o facto assim descripto o lêsse o author no manuscripto do padre Alvaro Teixeira; mas isso não indulta o artista, que recebe das mãos da natureza uma pedra, e faz d'ella uma Nióbe ou um Laocoonte. O romancista é o esculptor das paixões: enfeital-as, corrigil-as, dar-lhes com palavras a expressão que ellas estheticamente não podem exprimir, é seu officio. E, se o author me não entende, eu lhe aclaro a idéa: É de crêr que as pessoas testemunhas do lance, entre Manoel Teixeira e sua esposa, se commovessem, porque lhes viram nos semblantes os movimentos da alma; nós, porém, que os não vimos, precisávamos de receber da phantasia do escriptor uma descripção, que nos sacudisse os nervos, e levantasse o espirito á altura em que o levantam os romancistas da moda. Fique-lhe, pois, de memoria esta amigavel censura; e, para outra vez, belisque a imaginação, se quer que o seu nome de romancista reverdeça, orvalhado com as nossas lagrimas, ou festejado com as nossas gargalhadas. Chorar ou rir, é onde bate o ponto. Quem não conseguir uma das cousas, não nos importune.»
Respondendo, digo ao leitor sisudo que me conformo com o seu parecer, e de experiencia tenho que a verosimilhança, qualidade em que tenho aperfeiçoado esta minha arte, me tem grandemente desmerecido a valia dos meus romances. Ha muito tempo que não mato ninguem senão de molestia: quando muito, para aformosentar a morte com um nome bemquisto dos poetas, e dos leitores sentimentaes, tenho denominado tisica pulmonar, ou congestão cerebral, o que em boa pathologia se denomina hydropesia ou inflammação intestinal. Não se tem suicidado ninguem nos meus ultimos romances, nem mulher alguma perdida tem sido rehabilitada ao amor virginal. Isto é nocivo ás minhas curtas aspirações, bem o sei; mas já agora não arripio a carreira; liei-de ir indo assim, dispendendo-me pouco em imaginações, de que me sinto muito alcançado, e pondo as melhores tintas e pinceis na copia da verdade, embora a verdade seja descorada e dissaborida aos amigos das visualidades. Já n'outros livros me tenho cançado a responder a reparos que a critica, não impressa mas em familia, me tem feito. Paciencia. A França, de Bernardin de Saint-Pierre menosprezava a historia singela de Paulo. Arguiam de infecundidade o author que o não fez carpir-se em desesperado monologo ao pé do cadaver de Virginia. Quem me dera a mim para um dos meus livros uma sombra do renome d'aquelle romance! Quantos milhares de romances, decantados uma hora, pensa o leitor que a voragem do esquecimento enguliu, desde que a obrinha do grande naturalista recebe o tributo de lagrimas, que Napoleão lhe dava em Santa Helena?
N'este genero de escriptos, o sello da perpetuidade grava-o a natureza. O templo dos livros immortaes é servido de poucos sacerdotes; mas, grande gloria lhes é esse culto sem estrondo! Não vão agora cuidar que eu estou já d'aqui espreitando o nicho do templo da eternidade em que me hão-de encolher os vindouros—encolher, digo, porque não podemos lá caber todos! Não, senhores! eu no que penso é em converter o meu leitor á religião da verdade, e levo em vista movel-o a lêr outra vez aquella fria e frouxa scena da portaria de Vairão. E, se alguém disser que eu estou dando satisfações impertinentes, respondo que é isto respeitar os meus leitores, e proposito de adelgaçar as rudezas de alguns raros, que me trazem entre os dentes da sua critica, porque os eu não faço chorar nem rir.
Respondi, e volto ao outeiro.
Alvorecia a manhã, quando a maior parte dos poetas se retirou com as musas roufenhas da friagem matinal. As damas lisbonenses, captivas da novidade do outeiro, nem se deitaram, e com Leonor andaram, de grade em grade, pedindo que lhes ensinassem a dar motes. Notaram as freiras que particularmente a menina, se o verso que lhe davam era para assumpto sagrado, não ficava contente, nem se enthusiasmava a repetil-o ao poeta. Se, porém, no mote vislumbrava idéa amorosa, era muito de vêr e admirar o desembaraço com que a azougada menina se espevitava, proferindo eom certo requebro as palavras do verso. O pae, que andava, como dissemos, entre os poetas, regosijava-se de ouvir a voz da filha, e como tal a apresentava aos trovadores embellecados da voz argentina e insinuante, que ella tinha. D'estes, o mais verde em annos, e mais verde em esperanças, sentiu-se namorado d'aquella voz, e d'amor tão engenhoso que, até dos motes ao divino, profanava a idéa convertendo-os em madrigaes. Leonor estava encantada de ouvir o seu poeta, e já perguntava com anciosa curiosidade quem elle era. Disseram-lhe que era um filho segundo de uma nobre casa de Villa do Conde, tão bom poeta como mau filho, que tinha dado grandes desgostos a seus paes. Esta ultima parte da informação não a desviou de já, sol nado, sustentar com algumas noviças o outeiro, cujo unico poeta era o de Villa do Conde. Não queria ella retirar sem vêr o rosto do vate dos amorosos sonetos. Viu-o, e ouviu-o em prosa, e achou-o na sympathia igual ao poeta. Disse-lhe de entre as grades um adeus affectuoso, e foi passear na cêrca, e scismar, como podem os corações fatidicos scismar aos quatorze annos.
Oh!..............................Nec te aleator ullus est sapientior...Nunca velhaco algum mais destro fora.
PLAUTO.
Maria da Gloria, Leonor, e as damas, depois do almoço do dia seguinte, sahiram com Alvaro para o recinto exterior da grade mais ampla do mosteiro. Ahi eram esperadas pelos cavalheiros, tirando Manoel Teixeira, que fizera pedir á prelada uma grade especial em que elle podesse estar a sós com sua mulher. Maria da Gloria, sabedora da petição, escreveu a seu marido estas linhas:
«A tua dignidade e a minha impõe a nós ambos a delicada obrigação de não proferirmos uma palavra com relação aos acontecimentos que me trouxeram a esta casa. Sobeja e inutilmente te fallei da minha innocencia: emenda tu agora a culpa de me não teres attendido, portando-te aos meus olhos como se a consciencia te não doesse. Se precisas desafogo, procura-o em Deus, e sentirás allivio. A Divina Providencia escuta os innocentes e os criminosos.
«O pedido, que fizeste á senhora abbadessa, não póde ser por minha parte satisfeito. Irei á grade; mas Alvaro estará comnosco. Sei que te has-de cohibir de confessar as tuas culpas, na presença de teu filho, que as ignora.»
Estava já Manoel Teixeira na grade, quando recebeu o bilhete, e minutos depois chegou Maria e Alvaro. O marido apertou-a ao coração, e disse-lhe:
—É assim que te vingas, Maria?
—Que me vingo!...
—Sabias que estas dôres do remorso só podiam as lagrimas allivial-as, e prohibes-me de fallar, e chorar, para que eu não ouça da tua boca a palavra «perdão»!...
—Perdoei...—balbuciou ella.
—E o teu perdão, minha amiga, devo tomal-o como esperança de me poderes, um dia, restituir o amor que tão mal paguei?
—Cala-te... Não me falles em amor... Que vens tu pedir a uma desgraçada mulher, que envelheceu e morreu aqui?! Parece que não sabes imaginar os dias e as noites de onze annos! Quem espera achar coração em mulher que padeceu tanto! Pergunta-me se eu posso amar meu filho, e mais nada. E que mais queres tu de mim, Manoel?
—Queria ter com meu filho quinhão do teu amor. E impossivel? não me queixarei. Acceito a tua indifferença como castigo; mas não me odeies, filha, não. Fui teu algoz porque era teu verdadeiro amante...
—Basta!...—disse com esforço Maria, relanceando sobre Alvaro os olhos sem lagrimas—Esqueces o meu pedido?
Manoel Teixeira obedeceu a sua mulher e contemplou-a em silencio, a tempo que Maria encostava ao coração a face do filho. N'esta contemplação de minutos o que seria o espirito d'aquelle homem? Uma agonia mortal, tormento sem nome, nem remedio, quando a piedade recusa abrir-lhe o espiraculo das lagrimas. Que via elle? As reliquias d'uma grande formosura, os cabellos brancos, as palpebras roxas, as rugas sobre os ossos aridos, a decomposição de um rosto que fora a imagem, o symbolo vivente da graça e da harmonia. Que fizera elle durante os onze annos que devoraram a belleza e o coração d'aquella martyr? Devia de ser esta a pergunta que elle a si se fez, quando o choro lhe borbulhou dos olhos. Que fizera elle? Vivera em toda a parte a vida exterior da alegria e da opulência. Tivera palacios em Napoles, e alteára-se em suas pompas a tão elevado ponto, que deram d'elle fé os indifferentes de Paris. Em quanto a esposa pura d'alli pedia uma visita de seu filha unicamente, e deixava ao pae o gozo inteiro das regalias do seu patrimonio d'ella, quem era aquella mulher que, fatigada de felicidade, se reclinava na espaldar-setim das suas carruagens, e se aborrecia do luxo dos seus palacios de Napoles e de Belem? Como pôde elle tão depressa mitigar as saudades da esposa com as venaes caricias da italiana, a cujos pés elle rolava o ouro, que trouxera de Macáo, grangeado pelo incansavel lavor d'um pae, que a si tirava o que lhe parecia necessario á futura magnificencia de sua filha!
Devia ser este o affligido meditar do negociante, ou maiores seriam suas dores, quando elle de impeto se lançou aos pés de Maria, exclamando:
—Tu não podes perdoar-me!
Acudiu Maria a erguel-o, e disse-lhe:
—Se te mereço compaixão pelo passado, não me afflijas. Ergue-te. Vamos sahir, que me sinta aqui sem ar. Vamos experimentar as minhas forças. Dá-me o teu braço, Manoel. Iremos vêr de perto as arvores, que eu vejo, ha onze annos, da minha cella.
Manoel Teixeira recobrou vigor dos alentos e sorrisos de sua mulher. Sahiram, e sósinhos, e silenciosos. Queria Alvaro chamar Leonor, mas o pae rejeitou a lembrança.
—Vamos sós—disse elle—sejamos egoistas d'esta felicidade... embora minha sómente...
Maria sorriu-se, e disse com accentuação melancolica:
—Felicidade!...Tem-l'a conhecido no amor d'este anjo?... Creio-a, se me disseres que sim... De resto... como poderias tu ser feliz, se ha Deus!...
Teixeira sentiu o golpe involuntario d'estas palavras, e murmurou:
—Deus, que deixou a tua innocencia nas trevas de onze annos... Que Deus!...
—Não offendas a mão Divina que me amparou...—tornou Maria.
As familias, reunidas na grade, sabendo que os esposos tinham sahido do pateo, desceram a seguil-os. Sebastião de Brito bradou de longe:
—Olé! Esperem lá, que nós vamos tambem. Duas luas de mel é muita lua! Conversem sósinhos em Lisboa, e dêem á gente uma particula da sua felicidade.
Quando se ajuntaram, continuou o morgado dos Olivaes:
—Queres saber, Manoel? A tua sobrinha Leonor está poeta... Não falla senão em versos. E preciso que Alvaro seja poeta.
Riram todos, porque de todos era sabido o projecto de matrimonio entre os dous primos.
—Então gostas muito de versos, Leonor?—disse Maria.
—Muito, principalmente dos que faz o senhor Sotto-Mayor.
—Quem é o senhor Sotto-Mayor?!—tornou Maria da Gloria com espanto.
—Já conhece os poetas pelo nome—respondeu o pae com alegria—O Sotto-Mayor é um rapaz de Villa do Conde, por cuja musa a pequena perdeu a noite, e perderia a vida, se elle lhe promettesse uma eternidade de sonetos.
—Já é paixão de versos!—tornou a mãe de Alvaro—Sabes tu fazer versos, meu filho?
—Não, minha senhora: sou ainda muito nova—respondeu Alvaro—A prima Leonor é que tem lido muitos versos.
—Já li o Bocage;—acudiu a menina, acompanhando a expressão de tregeitos exquisitos—li tambem oBelmiro, e as poesias do Garção, e do Quita, e do Lobo, e muitas outras que o papá lá tem. E a senhora D. Catharina de Balsemão, e a senhora marqueza de Alorna gostam muito de me ouvir recitar sonetos, e ensinam-me quando eu não declamo bem.
—Bem está—disse Maria—estás uma doutora, minha sobrinha!... Queres tu ser freira para gozares as delicias d'um outeiro de tres em tres annos?
—Freira! Deus me livre! Eu não sei como ha quem possa viver n'um convento! Antes morte que tal sorte!
O morgado achou muita graça á esperteza da menina, e concordou com ella em não saber tambem como houvesse gente que quizesse sequestrar-se do mundo, que, segundo elle, não era tão mau como os misanthropos o calumniavam.
Todos os passeantes se empenharam n'esta questão, que Maria da Gloria defendia encarecendo a felicidade dos mosteiros, quando reina a paz no coração e na consciencia. N'isto appareceu o poeta de Villa do Conde, e Leonor, estremecendo, exclamou:
—Elle lá vem! é elle!
—Quem?—disseram algumas vozes.
—O meu poeta!
—O teu poeta!—disse, com molesta accentuação, Maria da Gloria: e chamando a segredo o cunhado, disse-lhe ao ouvido:—Não deixe assim fallar sua filha, que não é bonito aquillo!...
—Por que, mana?—disse em voz alta o morgado—Ahi está o effeito dos conventos! Temos bioquice! Que tem que ella digao seu poeta?Palavras n'aquella bôca não significam nada, mana Maria! É uma criança: deixal-a fallar.
Miguel de Sotto-Mayor tinha chegado ao grupo, e cortejou-o com desembaraço e elegancia.
—Viva o poeta!—disse Sebastião de Brito,—Eu amo os poetas, e gosto das suas relações. A sua bella musa está accesa para a noite?
—A minha musa—disse o moço—está sempre fria; e, se alguma fortuna tiver, devel-a-ha aos calorosos louvores que vossa excellencia lhe dá, posto que os não mereça.
—Pelo contrario: minha filha está encantada dos seus versos, e já sabe quem o senhor é. Alli tem uma criança que já leu os melhores poetas portuguezes!...
—Razão de mais—redarguiu o de Villa do Conde—para não gostar das minhas poesias incultas e sem mais merito que o da natureza.