Chapter 4

O poeta foi indo no grupo, respondendo com frivolidades a outras do palavroso morgado, e agradecendo com delicados olhares á expressão penetrante dos olhos de Leonor, que parecia embevecida nas palavras d'elle.

Esmerou-se a communidade em lauto e primoroso banquete n'aquelle dia. A dona abbadessa, que tambem era capitão-mór de Vairão, infringiu amplamente a regra da ordem, admittindo as familias de Lisboa a jantarem com ella e outras religiosas de mais graduação. Ao mesmo tempo, os poetas, que o não eram senão de noite, comeram durante o dia como quem não fora alli senão para versejar, e honrar o refeitorio das monjas. Estas, porém, de ricas e generosas que eram, não se queixaram, como as do tempo d'el-rei D. Diniz, do muito que os ricos homens e infanções lhes comiam[9].

Os hospedes do convento sahiram ao cahir da tarde para o cruzeiro do pateo. Era um formoso intardecer de estio o d'aquelle dia de Setembro. Maria da Gloria não respondia ás alegrias de tanta gente que a felicitava, e não sabia entender a tristeza d'ella. Fallavam-lhe da sociedade de Lisboa as suas amigas desejosas de lá se verem. A melancolica senhora respondia:

—Que tenho eu que vêr com a sociedade!... O braço, que fere com a infamação jamais recua arrependido sem deixar ferida incuravel. Eu não detesto, mas desprezo o mundo. Dêem-me uma casinha e o meu filho, que eu não quero mais. Se este menino tivesse morrido, ha muito que eu dormiria na claustra d'esta casa; ou, se Deus me quizesse provar até mais tarde, nunca sahiria d'aqui.

Manoel Teixeira ouvira estas palavras, e interrompeu-as com muita amargura:

—Tens-me em conta de nada na tua vida, Maria?

—És o pae de Alvaro: estimo-te e respeito-te, hoje como sempre. Que mais queres de mim? A felicidade da mulher é muito fragil, e de certo irreparavel, depois que a matam com a peçonha da ingratidão... Desculpa-me, meu amigo. Não queiras milagres, que as orações das servas de Deus não conseguiram. Houve ahi muito quem pedisse ao Senhor um raio de conforto e de alegria para mim: o que o céo me concedeu foi a conformidade, e o amor d'este menino.

Maria já evitava o praticar a sós com seu marido. Magoavam-na os termos amorosos com que elle enfeitava a sua paixão para dar lenitivo aos pungimentos do seu remorso. Não o amava ella: afoutamente o digamos em nome da verdade e da natureza: não podia amal-o. Deveria perdoar e perdoou á paixão do ciume, enfurecido pelo orgulho; mas ao pertinaz desprezo de onze annos, ao silencio affrontoso áquellas apaixonadas cartas de mãe, que implorara em vão deixar no rosto de seu filho as ultimas lagrimas, não, não podia perdoar a virtuosa mulher.

Ao diante veremos que nobres e singulares espiritos eram os de Maria da Gloria.

Estamos na ultima noite de outeiro. A partida das familias para Lisboa foi marcada para as quatro horas da seguinte madrugada. Os poetas encarregaram-se de espancar o somno dos viandantes até essa hora, e galhardamente se tiraram da dificuldade. Bons tempos aquelles em que a poesia era inimiga do somno!

Quem de certo nunca bocejou foi Leonor. O vate de Villa do Conde excedeu-se a si proprio no mimo, na doçura, no amoravel dos seus sonetos e decimas. A paixão palpitava em todas as metrificações: no soneto, impetuosa e energica; na decima, toda em flores e maviosidades. O Ferro ouvira-lhe alguns versos de relance, e cantou-o assim n'um soneto, que, a meu pesar, me não repetiram completo:

Que dôces rullos rulla aquelle pomboA pomba enamorada e toda secia!Cuidado! que a virtude soffre um tombo,E vamos ter alguma peripecia!

Miguel de Sotto-Mayor, posto em riso pelas chufas da plebe, azedou-se contra o repentista portuense, e quiz desafial-o. Intercederam as senhoras religiosas, conscias do conflicto, e Leonor pediu com ellas, dizendo em voz de quem manda e não pede:

—Faça o que eu lhe digo, senão não sou sua amiga.

Ora o Ferro, que fingira escassamente entender que o desafiavam, apasiguada a sanha do trovador de Villa do Conde, deu mostra da sua impenitencia n'um soneto de cujos tercetos resta memoria:

. . . . . . . . . . . . . . . . . .Tão negro quadro meu pincel não toque!Calcarem do perdão as santas leis,Matarem-me por causa d'um remoque!...Que homem tão cruel, ó Deus, fazeis!Se me elle ao ventre aponta o agudo estoque,Que diluvio de vinho e de pasteis!

Não averiguei as innocentes manhas de que usou Leonor para sahir da roda das senhoras, e sumir-se entre as criadas, que conversavam em prosa com os seus conhecidos, em janellas afastadas dos pontos concorridos. Miguel de Sotto-Mayor devia ter aviso d'esta mudança, porque desalojou tambem do local dos seus triumphos, dando a desconfiar de que sahira estomagado das facecias do doutor Ferro. As criadas convisinhas de Leonor ouviram este breve dialogo entre a menina e o poeta:

—D'aqui a uma hora vamos para Lisboa—disse ella.

—Para nunca mais nos vermos?!—respondeu elle—Este outeiro foi-me fatal! Permittisse o céo que os meus olhos se fechassem antes de eu vos ter visto, Leonor!

—Póde ser que eu vos torne a vêr; mas vós me esquecereis quando me não virdes!

—Primeiro esquecerei a vida, sentirei morrer o coração devodo de saudades. Jurai-me um eterno amor! Promettei escrever ao infeliz poeta, que, d'ora em diante, contará pelas lagrimas os minutos da existencia.

—Juro amar-vos eternamente...

—Juraes?! mas esqueceis que já sois a esposa promettida de vosso primo?

—O meu coração é livre—replicou ella...—Adeus, que me procuram; adeus, amai-me, e tende esperança!

Estavam as senhoras já na portaria, quando Leonor desceu. Faltava Maria da Gloria, e havia no convento, além do reboliço, afflicção em muitas freiras. Maria da Gloria tinha entrado no quarto de soror Joanna das Cinco Chagas, a dar-lhe o ultimo beijo, e desfallecera nos braços da religiosa e de Cecilia. Voltara a si, rompendo em gemidos, como se a partida fosse um arrancarem-na á felicidade. Alvaro chorava ao pé d'ella. Eufemia já pedia que a deixassem alli ficar com sua ama e com o menino. A santa, simulando coragem, impunha-lhe o dever de demudar o semblante para alegre, e feliz do bem-estar de seu marido. A força dos acontecimentos venceu a final; e Maria da Gloria, abraçando com phrenesi o filho, cobrou animo para trocar por elle a amisade angelica d'aquellas senhoras.

Rompia a luz da manhã, quando partiram, caminho do Porto. Tocou a matinas o sino de Vairão. As religiosas entraram no côro, e já encontraram soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor. Findos os psalmos, a santa ergueu a sua voz, sempre ouvida como a palavra d'um anjo, e disse:

—Suppliquemos á Misericordia Divina que aceite o calix da innocente Maria da Gloria, como desconto ás futuras amarguras d'esta familia, se os mysteriosos juizos de Deus lh'as reservam.

Quaes seriam as tuas visões, ó santa!?

[9]Aos leitores daIntroducçãoaoDiccionario dos nonymos, de Fonseca, é bem conhecida esta antigualha, divulgada por João Pedro Ribeiro:Dom Danys, pela graça de Deus, Rey de Portugal... A vos meu Meyrinho moor saude. Sabede, que a abadessa do de Vairam mi envyou dizer que Ricos homens e Infançoens, etc. que son naturaes do dito moesteyro veem a este moesteyro comer as turas e albergar i desmesuradamente, e con mays ca he contheudo no meu Degredo, de guisa que ela e as outras Donas, que iam a servir a Deus, não podem i viver, nem manter o dito moesteyro; isto non tenho eu por bem, se asi he; por que vos mando que não sofrades aos desusuditos, etc. Unde al non ffaçades se não a vos me tornaria eu porem, e faryavos coreger de vossa cassa todos danos, etc.Que fidalgos aquelles que iam de caso pensado albergar-se no mosteiro para comerem as naturas (quer dizer—os rendimentos) das monjas!

[9]Aos leitores daIntroducçãoaoDiccionario dos nonymos, de Fonseca, é bem conhecida esta antigualha, divulgada por João Pedro Ribeiro:Dom Danys, pela graça de Deus, Rey de Portugal... A vos meu Meyrinho moor saude. Sabede, que a abadessa do de Vairam mi envyou dizer que Ricos homens e Infançoens, etc. que son naturaes do dito moesteyro veem a este moesteyro comer as turas e albergar i desmesuradamente, e con mays ca he contheudo no meu Degredo, de guisa que ela e as outras Donas, que iam a servir a Deus, não podem i viver, nem manter o dito moesteyro; isto non tenho eu por bem, se asi he; por que vos mando que não sofrades aos desusuditos, etc. Unde al non ffaçades se não a vos me tornaria eu porem, e faryavos coreger de vossa cassa todos danos, etc.Que fidalgos aquelles que iam de caso pensado albergar-se no mosteiro para comerem as naturas (quer dizer—os rendimentos) das monjas!

Proichè suo fui, non ebbi ora tranquilla,Nè spero aver...

PETRARCA (Rime).

Em breves termos darei conta do viver de cinco annos em casa de Manoel Teixeira de Macedo. Seria talvez do agrado do leitor a historia minudenciosa dos menores actos, que naturalmente se encadearam para reflorir a primavera de Maria da Gloria, e adoçar o agro que uma supposta deshonra devêra ter instillado no animo do banqueiro. É um engano. As primaveras da alma, se a aza negra d'uma tormenta as esfolha, nunca mais reverdecem; e os algozes, que afiam o gume de seu orgulho para lhe immolarem sem piedade as victimas, a si se golpêam, e tal chaga abrem de remorso que nem o balsamo do arrependimento a cerra.

Maria da Gloria, ao entrar em casa de seu marido, lhe disse a elle, sem testemunhas:

—Recebes em tua casa uma tuairmã, meu amigo. D'esta casa dá-me um quarto ao pé do quarto de teu filho. Se isto me concederes, enches o meu coração ambicioso: nada mais quero; e violentar-me a acceitar mais do que isto é mortificar-me. Acostumei-me á clausura: hei-de continual-a aqui. Se me lá era penosa por me Deus abençoar com o ardente amor de mãe, aqui, na tua casa, serei feliz porque tenho commigo tudo que me prendia á vida pela esperança. Não me leves á sociedade, nem me peças que a receba n'esta casa. Ser-me-ia doloroso contrariar-te, ou contrafazer-me. Não alteres, tu, Manoel, os teus habitos. Continua a ser o que eras antes de me ir buscar para a tua companhia. Nada te pergunto do teu passado, nem quero que m'o digas: basta que eu o tenha ouvido da malevola curiosidade de pessoas, que, ainda ha quinze dias, te absolviam a ti para me infamarem a mim. Isto bastaria para eu odiar o mundo, e presar viver em odio d'elle. A tua bondade tem-me ouvido com indulgencia para ser em tudo generosa. Dás-me assim a vida, que te peço, de portas a dentro?

—Vive como quizeres, Maria—respondeu Teixeira com semblante magoado—Hei-de obedecer a quantas condições estipulares, se d'ellas depender o teu bem-estar. Disseste-me que eras, em tua casa, meramente minha irmã.

—Tua irmã.

—Confirmas o que já me tens dito: o teu coração morreu para mim.

—Coração de irmã não é coração morto, meu amigo. A esposa has-de conhecel-a nos extremos com que ama teu filho, e na estima respeitosa com que ha doze annos te presava. A mesma te sou hoje e serei sempre.

—Comprehendi... Serás obedecida, Maria. Não me revolto contra o castigo: descontar em amarguras a culpa é allivio de remorso nas almas, que não estão de todo pervertidas. Acceito tudo.

E cumpriu religiosamente.

Aquella italiana do palacio de Belem achou-se de repente augmentada em riqueza; mas a riqueza era o ultimo saldo de contas. O millionario dera-lhe, com o dinheiro, o conselho de retirar-se a Napoles com os dous filhos. A cantora ficou com o dinheiro, e devolveu-lhe o conselho. Se até alli a perfidia fôra clandestina, d'alli em diante até por soberba se patenteava. O novo amante orgulhou-se da substituição, e ostentou-se redobrando a magnificencia da napolitana. Quiz Manoel Teixeira tomar conta dos filhos; ella, porém, respondeu que as velleidades da mulher não tinham nada commum com o coração de mãe; e não lhe deu os filhos.

Alvaro não voltou ao collegio, a não ser para ir mostrar ao seu mestre e amigo as lagrimas de alegria.

—Minha mãe—dizia-lhe elle—é agora a minha mestra. Tudo o que eu sabia era muito pouco comparativamente ao que ella me ensina. Disse-me que as horas de resignação, que teve em onze annos, as dera ao estudo. É um prazer ouvil-a discorrer a proposito de qualquer passagem de historia; mas o que mais me prende é o que ella diz da vida.

—Seu pae—disse o professor—deve sentir-se feliz, ouvindo-a...

—Meu pae raras vezes entra n'estas nossas conversações. Ha dous annos que minha mãe veio do convento, e desde então não sei como explicar o ar sombrio de meu pae. Falla-lhe com brandura e contentamento a ella; mas, se o encontro sósinho no seu gabinete, parece que vejo estarem-lhe os cabellos a embranquecer, e não tem ainda quarenta annos, penso eu. Começo a entender tudo, e o meu amigo ha-de dizer-me o que eu não souber. Lembro-me que meu pae é desgraçado porque minha mãe involuntariamente o mortifica com os signaes do sofrimento a que elle a obrigou. Ella é que envelheceu, e está para pouca vida. Muitas vezes me diz a chorar: «Quererá Deus que eu não vá d'este mundo sem te vêr homem, e no caminho da felicidade?» Receio muito que ella succumba aos effeitos dos padecimentos passados...

Um dia, Alvaro Teixeira encontrou João de Mattos, sentado ao lado do conde de Basto, na carruagem d'este. João de Mattos viu-o, e fez parar a carruagem. O ministro da justiça apeou, e abraçou Alvaro.

—Nunca mais se lembrou de mim?—disse-lhe elle.

—Lembro sempre; mas não me atrevi a procurar vossa excellencia.

—Pois procure-me, e nunca esqueça as minhas ultimas palavras.

Este encontro é posterior cinco annos á visita do intendente geral da policia a Manoel Teixeira.

Em 1830, o negociante abandonou inteiramente o trafico commercial. Falleciam-lhe forças para o trabalho, e sobravam-lhe os haveres. O seu estado era relativamente limitado. As antigas equipagens tinham sido reduzidas ao indispensavel. Maria da Gloria apenas ia com seu filho aos Olivaes, a horas em que não podesse ser observada. Alvaro, e só elle, era a sua constante companhia. As antigas amisades de sua casa retiraram ofendidas do ar ceremonioso e reservado com que eram recebidas, e mais se irritaram contra uma feroz virtude que não pagava visitas. As bem-vindas palavras ao quarto de Maria da Gloria eram as cartas de Vairão, umas da santa, outras de Cecilia, e muitas de todas as religiosas, a quem ella respondia sempre. As de soror Joanna cessaram ao cabo de cinco annos; dizia, porém, Maria da Gloria que a via em sonhos, e a ouvia do céo. Depós ella, como se a santa fosse eleita para guia da bemaventurança, algumas outras levaram a sua luz ao altar do Eterno. Os dias d'estas novas eram celebrados com muitas lagrimas de Maria. «Se tu não existisses, dizia ella ao filho, estas santas creaturas teriam expirado nos meus braços.»

Manoel Teixeira peorava de dia para dia. A medicina aconselhou-lhe os ares de Italia, depois um passeio recreativo pela Europa. Perguntou a sua mulher se o acompanhava, e ella respondeu que a magoava a pergunta, sendo esse não só o dever d'ella, que tambem a sua mais ardente vontade. Lembrou-se o pae de Alvaro levar tambem Leonor. Maria approvou a lembrança e Alvaro não soube esconder a alegria que lhe ella dava. O morgado dos Olivaes folgou tambem com o convite; Leonor, porém, nem sequer por condescendencia contrafez o desgosto de tal viagem. Disse que não tinha inclinação a viajar, e fez com que o pae inventasse desculpas que dispensassem a filha.

Maria da Gloria, como adivinhasse a tristeza do filho, fallou-lhe assim:

—Alvaro, o coração não se esconde a tua mãe. Tens dezoito annos: posso fallar-te sem rebuçar as palavras. Tu amas tua prima?

Alvaro corou, e balbuciou.

Maria proseguiu:

—Já respondeste, meu filho. Amas tua prima; e eu te digo que faças tudo quanto podem forças humanas para esquecel-a.

—Por que, minha mãe?!

—Aquella menina tem condão fatal. Os instinctos seriam bons; mas a educação degenerou-lh'os. Pódes tu imaginar que espaço vai abrir-se diante de teus olhos? A chave das maravilhas d'este mundo ha-de dar-t'as a riqueza. Não quero dizer que o teu ouro descubra corações nobres e dignos de ti; mas é certo que em volta do homem que tu has-de ser, se ajuntam os thesouros mais raros, e tu escolherás então o mais primoroso. Esquece Leonor, filho. Faz de conta que viste uma vibora enroscada entre as flores, que amavas desde a infancia. Um dia verás seccas as flôres, e a vibora em toda a sua peçonha. Perguntarás então á imagem de tua mãe que voz do céo lhe disse á alma a prophecia, que te faço hoje.

Alvaro não respondeu, senão com um sorriso de complacencia, triste sorriso, e dolorosa significação de uma angustia, que se peja de confessar-se. Estas linhas escriptas de Alvaro a Leonor dizem mais:

«Eu cuidava, minha prima, que eras feliz acompanhando a nossa familia. Meus paes amam-te muito, e eu... bem sabes quanto te amo. Não és grata ao nosso amor, Deus sabe os motivos, que tens para ficar. Lembra-te de nós, e de mim; e vem dar-me um abraço antes da nossa partida.»

No dia seguinte, veio o morgado e a filha a Lisboa.

—Não sabe quem eu hoje encontrei nos Olivaes?!—disse Sebastião de Brito a Maria da Gloria—A mana lembra-se d'aquelle poeta, chamado Miguel de Sotto-Mayor?

—Perfeitamente... Está nos Olivaes?!

—O mesmo em pessoa. Perguntei-lhe o que fazia por alli, e elle respondeu que viera a Lisboa, e andava visitando os arrabaldes. E o caso é que o rapaz viaja como grão-senhor! Traz criado de libré, e dous bonitos cavallos. Pelos modos, ha poetas que tem libré e cavallos.

—Isso que admira?!—acudiu com azedume Leonor—O pae não ouviu dizer que elle era filho segundo da casa mais antiga de Villa do Conde! É boa! querem que os poetas sejam todos uns maltrapilhos, porque Camões, Bocage, Tolentino e outros não tiveram senão versos que mostrar ao mundo! Eu cá de mim, não lhe admirei os cavallos nem a libré; o que mais notavel vejo no poeta é o seu talento!

—E o fogo que tu tomas n'estas cousas da poesia, minha sobrinha!—disse Maria da Gloria.

—A pequena é maniaca por versos—replicou o pae—E o mais é que já os faz tambem. Tu ainda não fizeste versos a teu primo, Leonor?

—Meu primo não gosta de versos...—respondeu ella com fastio.

—Eu não desgosto;—disse Alvaro—e, se fossem teus, gostaria muito, prima...

—Ora! não ha muitos dias que eu estava a lêr-te oOriente, e tu disseste que os versos do padre José Agostinho eram gordos e atoucinhados como o author.

—Pois sim, eu disse isso a brincar; mas, se não gosto doOriente, poderei, lendo os teus versos, tomar gosto pela poesia.

O coração de Alvaro estava cheio de lagrimas. Fizera-se-lhe uma luz súbita no espirito. Recordou-se do enthusiasmo pueril de Leonor pelo poeta de Villa do Conde, e concluiu d'elle para a visita aos Olivaes. Apenas nascido, o abutre do ciume recurvou-lhe as garras no seio. A paixão deu-lhe o desembaraço, e a dor a eloquencia. Buscou ensejo de estar só com Leonor, e disse-lhe com os olhos marejados de pranto:

—Tu de certo não vens comnosco para Italia?

—Que pergunta! Eu já disse que não ia.

—E por que não vaes, Leonor?

—Porque não quero deixar meu pae, nem troco os regalos de ver mundo pelos afagos d'elle.

—Mas teu pae tem vontade que venhas...

—Deixal-o ter; se elle não présa a minha companhia, préso eu a d'elle.

—Ha outro motivo, minha prima—redarguiu Alvaro com muita tristeza corada por um suave sorriso de artificio.

—Qual?

—Tu amas o poeta, que hoje viste nos Olivaes.

Leonor descompôz-se n'uma risada toda da garganta, e disse a final:

—Tens graça, primo! Estou eu agora feita castellan, com trovador debaixo do balcão do castello a chorar amores!... Valha-te Deus, Alvaro! A mim importa-me cá o homem de Villa do Conde!

—Mas elle de certo alli foi por tua causa...

—E, se foi, que culpa tenho eu! Os poetas tem aquellas cousas, e eu não posso ser responsavel das tolices alheias...

Leonor lançou mão do primeiro pretexto para rematar o dialogo. Alvaro, quasi repellido quando ia a fallar, foi ter com sua mãe, e desabafou por estas palavras no seio d'ella:

—Tem razão... devo esquecer minha prima.

—Menos, quando ella fôr desgraçada...—disse Maria da Gloria—Lembre-te isto sempre, meu filho.

Sahiram para Veneza.

Auras bonançosas lhes assopre brandamente as vélas, e renasçam para elles debaixo d'outros céos as lagrimas do coração!

Se alguem provou já o golpe d'umdesprezo aconselhe á minha dôr osremedios da sua.

D. F. MANOEL (Epanaphoras).

Não estava em si Leonor em quanto se não viu nos Olivaes. A olhos enxutos vira ella sumir-se o navio, e já dizia ao pae que lhe doía o braço de agitar o lenço para responder ao adeus de Alvaro.

Miguel de Sotto-Mayor, decorridos dous dias, appareceu nos Olivaes, de volta de Sacavem, e Villa-Franca, para acceitar a honrosa hospedagem de Sebastião de Brito, offerecida no primeiro e casual encontro, casual digo com respeito ao morgado.

Leonor sabia que Miguel de Sotto-Mayor alli vinha. O juramento, feito em Vairão aos quatorze annos, não tinha sido ainda quebrantado aos dezenove. Recebera sempre cartas, e respondera a todas do seu poeta, na esperança de ser um dia, embora tarde, sua esposa.

Havemos de esboçar a indole d'este moço, se trinta e dous annos podem adornar-se com as graças da mocidade.

As freiras tinham dito que Miguel de Sotto-Mayor era mau filho; péssimo devia elle de ser, quando as virtuosas linguas do mosteiro não escrupulisavam em murmurar do proximo. Fora elle academico, duas vezes riscado por contumaz na desordem e outros effeitos da vinolencia. Este vicio dominava-o no seio da familia, e desafogava por maus tratos e injurias aos paes e irmãos. Entendêra elle que o éstro da poesia carecia a confirmação da extravagancia. Lêra de Byron os atrevimentos do genio conformados com os desvarios da vida, e não achou cousa impossivel nascer em Villa do Conde o Byron de Portugal. Em verdade, as musas não lhe eram avêssas; mas, posto que na desordem se avantajasse ao lord inglez, o genio ficava-lhe áquem, na distancia que vai d'um soneto de abbadessado ás «Peregrinações de Childe-Harold».

Por vezes alcançára a casa de seus paes, exigindo dinheiro para excursões ao Porto: davam-lh'o para se livrarem dos escandalos na terra, e tinham muitas vezes de ir resgatal-o á cadêa onde o levavam os escandalos de fóra.

Em 1828, morrera o morgado, e succedera Miguel no vinculo, onerado de grandes dividas. Muita gente espantou-se do favor que a Providencia dá aos maus: gente van dos seus juizos que quer com olhos do rosto abranger o infinito dos juizos divinos.

Constituido senhor da casa, vieram de seu os desperdicios, com o nome de despezas necessarias á sustentação da dignidade de seus maiores e sua. Os sustentaculos d'esta dignidade estavam na estrebaria: eram-os arrogantes cavallos, que escouceavam os velhos machos de seu pae.

Posto que Miguel de Sotto-Mayor mantivesse correspondencia com Leonor de Brito, o coração era estranho áquella constancia, umas vezes passatempo, e outras calculo. Em quanto filho segundo, convinha lhe o patrimonio de Leonor, se bem que desfalcado pelo pae. Informára-se, e sabia ao certo o valor da morgada dos Olivaes. Depois que succedeu no vinculo, curou de agenciar mulher mais rica, e têl-a-ia, se a reputação lhe não deslustrasse o nascimento e os bens da fortuna. N'estas tentativas, malbaratou novos empenhos levantados sobre a casa, e em menos de dous annos—eram-lhe escassos para viver limpamente os rendimentos d'ella.

No entanto como quer que nunca deixasse de escrever a Leonor, ao vêr-se assim repellido das ricas herdeiras, e ameaçado d'uma fidalga pobreza, reaccendeu a poesia das cartas, e afogueou á mais alta temperatura o coração da donzella. Animou-o ella a pedil-a ao pae, ainda que não asseverava o bom exito da petição; todavia, tão da alma era escrava d'elle, e tão livre se sentia n'essa escravidão que, no dizer d'ella, quando o pae a negasse, o coração se obrigava a emendar o erro do pae.

Tinham assentado n'isto, quando Miguel de Sotto-Mayor, explorando o cançado veio das dividas, levantou o dinheiro para a jornada e consequencias d'ella.

Agora o temos nós em casa de Sebastião de Brito, como passageiro que se faz recommendavel pelos dous cavallos e lacaio. Ahi, primeiro, desenrola o hospede os pergaminhos da sua linhagem, e diz quantos reis godos lhe giram no sangue. Sebastião de Brito, regalado com uma pratica de sua maior predilecção, mostra os retratos de alguns avós, e lastima que os não retratados fossem mais antigos que a arte da pintura.

No dia immediato, fallaram em casamentos desiguaes, e prostituição da nobreza ao ouro das classes mecanicas. Sotto-Mayor verberava os indignos herdeiros d'um castello avoengueiro, que o arrazavam para erguerem pala cios, á custa de dotes ganhados ao balcão e na balança.

Brito foi remisso nos gabos á soberba de Sotto-Mayor, por que tinha de lhe dizer que sua filha ia casar com o filho d'um negociante seu irmão bastardo, e d'uma filha d'outro negociante de Macáo. Dito isto, perguntou o de Villa do Conde se era irrevogavel o plano de tal consorcio. O morgado dos Olivaes deu a sincera explicação do casamento, descrevendo o mau estado da sua casa, e a necessidade de braço forte que a subtrahisse aos vexames da usura. Desanimou algum tanto o poeta-fidalgo; mas a subita apparição de Leonor, linda como ouro aos olhos d'um aváro, fulminou com um relance de amoroso olhar a idéa sordida que surgira da baixa alma do seu poeta. Ousou Miguel pedir a filha ao pae, na propria presença d'ella. Sebastião de Brito disse a Leonor que respondes-se: tamanha segurança tinha de a ter conforme nos seus calculos, e no conhecimento do seu desvaliado dote.

Leonor respondeu que não podia ser esposa de outro, com approvação da sua alma. Gelou-se o sangue nas veias do pae, e nunca o ella vira tão mal assombrado e iroso. Mandou-a sahir da sua presença, e disse ao hospede que, em sua casa, só eram bemquistos os amigos, que lhe não traziam planos de completarem sua ruina.

Miguel de Sotto-Mayor mandou apparelhar os cavallos, esperou no pateo que o lacaio lhe apresentasse o seu, e disse ao capellão de Brito:

—Diga ao cavalheiro que lhe não pergunto quanto devo de hospedagem, por que hei-de fazer contas com elle, quando for seu genro.

Isto entendeu elle que era purobyronianismo; o dono da casa, porém, é que deu á cousa o seu verdadeiro nome, chamando-lhe «patifaria»; e lamentou que os seus criados lhe não pozessem o espirito e a carne em lençoes de vinho.

Ao romper da manhã do dia proximo, Sebastião de Brito foi com Leonor para Lisboa, e deu-a em guarda a parentes, que lhe vigiavam as minimas acções. D'ahi a dias, foi ella intimada para recolher-se ao convento das Commendadeiras, e esperar alli que seu primo voltasse da viagem para se realisar o casamento. Leonor ostentou brava reacção; mas cedeu, por fim, á força, dizendo que o tempo era a arma e a victoria dos fracos.

Miguel de Sotto-Mayor, abonado e recommendado por cartas que apresentou ao ministro da justiça, vindas de Barcellos, tentou remover judicialmente do convento Leonor. João de Mattos, ouvindo do proprio morgado dos Olivaes as razões da sua negativa, afastou de si o pretendente, e foi em pessoa ao convento para despersuadir a filha rebelde, e concital-a a reservar o coração para Alvaro, que, no dizer do ministro, havia de ser o herdeiro dos centenares de contos de seu pae e do angelico espirito de sua mãe. Leonor passou da contumacia á dissimulação, e prometteu submetter se á vontade paternal.

A traça ardilosa d'esta condescendencia fôra-lhe suggerida por Sotto-Mayor. João de Mattos era barreira mais insuperavel á primeira tentativa que os muros e grades do convento. Apesar de sua ousadia, o de Villa do Conde receiou que o Limoeiro lhe embargasse o passo. A inimisade do ministro da justiça equivalia a um cerco de esbirros lançado no seu encalço. Soccorreu-se, por isso, da velhacaria, e, delineado o plano por cartas a Leonor, sahiu de Lisboa.

Sebastião de Brito duvidou da reforma da filha. Decorreram seis mezes, sem que os rogos de Leonor o movessem a tiral-a do convento. «Ha-de sobejar-te tempo de seres feliz—dizia-lhe o pae—Teu primo não póde demorar-se... Que te diz elle nas cartas?»

—Diz que o tio está cada vez peor.

—Pois ahi tens, Leonor. Se peora, vem; e, se morre, mais depressa vem, e mais depressa és senhora da enorme riqueza de teu sogro.

—E que dirá meu primo—replicava ella—vendo-me reclusa n'um convento?! O pae não receia que elle me rejeite, sabendo os motivos que eu dei para ser aqui encarcerada? Se elle tiver dignidade, não me quer; e, se a não tiver, não o devo eu querer a elle.

—A tua fama não está manchada—volveu o pae—Teu primo de certo perdoa a innocente volubilidade d'uma menina, engodada por um homem matreiro, ou apaixonado por ti. Não ha dama da corte a quem não tenham succedido estes episodios trinta vezes, e raras sahem d'elles com a sua reputação illesa como tu. Que culpa tens tu, se por ti enlouqueceu o poeta minhoto? E quem pede contas da sua fascinação a um espirito noviço, incauto, e impersistente d'uma menina da tua idade? Se toda a gente te desculpa, que fará Alvaro que te ama desde criança?!

Replicava a tudo isto Leonor instando por sahir do mosteiro, e mostrar-se com o arrependimento, e quietação na casa do pae, mais digna de desculpa. A passo igual cresciam as suspeitas, e o morgado dilatava a época da sahida. Leonor, levada da sua irritabilidade, resolveu fugir, e preveniu Sotto-Mayor. Não era sujeito de emendar desatinos alheios o poeta: quando muito, mais por medo da justiça que do descredito, abstinha-se de os aventar primeiro. Pareceu-lhe heroica e byroniana a fuga da morgada. Deu-se pressa em chegar a Lisboa, avisando Leonor por intercessão de terceira pessoa, que os trazia vendidos ambos a Sebastião de Brito. E o caso foi que Miguel de Sotto-Mayor, horas depois que chegava a Lisboa, era preso por malhado, e conduzido ao castello de S. Julião da Barra.

João de Mattos fôra estranho áquella vil arteirice do morgado dos Olivaes, e, conscio d'ella, deu-lhe o nome que ella devia ter; chamou-lhe infamia. Contra vontade do intendente geral da policia, chefe dos quadrilheiros, mandou o ministro da justiça dar liberdade ao preso, e chamal-o á sua presença.

Miguel de Sotto-Mayor teve uma hora de lucidez, na presença de João de Mattos: adoptou o conselho de sahir de Portugal por algum tempo, unica sahida por onde podia salvar-se da perseguição politica, e dos tormentos que elle testemunhára nas cavernas da Torre. Partiu, pois, sem demora para França, onde então o nucleo do partido liberal fomentava a restauração dos legitimos poderes. No entanto, João de Mattos, suspeito liberal por este e semelhantes actos de consciencia honrada, attrahia sobre si accusações, que mais tarde lhe sortiram a deportação para Abrantes.

Por esses dias, recebeu Leonor esta carta de Alvaro:

«Estou sem pae, minha prima. Deixei minha mãe n'um lethargo para vir escrever-te estas linhas. Estava tudo prompto para a partida, quando meu pae morreu, nos braços d'esta santa. Como ella o amava, ou como é o amor das martyres n'este mundo! Em quatro mezes de agonia, minha mãe nunca desamparou o leito do infeliz, que parecia contar os instantes de vida nas dores do coração. Foi uma aneurisma que o matou. Dizia em cada dia:—Que tristeza! contemplar-vos, amar-vos tanto, e ter n'esta agonia a certeza de que hei-de deixar-vos breve! Viver sem ti os melhores annos da vida, minha querida esposa, e chamar-te para mim, quando já via esta morte! Que fiz eu da tua felicidade e da minha! Que espectaculo eu te dou para levar a tua desgraça á perfeição! Cinco annos de doença, de desgosto, e de pedir a Deus, por intercessão da tua santa alma, que me abrevie estas penas! Se as padeço como expiação, diz tu ao Senhor que me perdoas-te as culpas. Pede-lhe, Maria, que me deixe viver tres annos por amor de ti e d'este filho, d'este anjo da reconciliação que nos veio das mãos de Deus. Pede-lhe, minha virtuosa amiga, que me dê horas de descanço e horas de tribulação. E, se Deus quer que eu acabe, roga-lhe que seja já, antes que eu perca a fé na misericordia Divina.» «—Minha mãe debulhava-se em lagrimas; sentia-se extremosa amante pelas palavras de consolação que lhe dava; ia invocar a alma da santa de Vairão; e voltava cheia de esperança ao leito de meu afflicto pae a pedir-lhe paciencia e confiança. Aqui tens a nossa vida dos ultimos quatro mezes. Bem fizeste em não vir comnosco: terias um quinhão d'estas amarguras, minha prima. Mas, ao mesmo tempo, que allivio para mim, se eu te visse ao pé de minha mãe! Eu não sei como hei-de consolal-a! Tu saberias, Leonor, porque no coração da mulher é que Deus depositou as suas palavras de consolação para os desgraçados sem culpa... Chama-me a minha pobre Eufemia... Minha mãe está delirando; faz contra si propria accusações que me traspassam a alma. Pede perdão a meu pae por lhe não ter podido dar a felicidade, que ella em si não tinha!... Não te accuses, minha santa mãe! Tu foste o anjo que se fez nas cinzas do teu coração, anjo de ternura e de piedade, anjo de perdão e de supplica por todos que te injuriaram, e te mataram, primeiro que a meu pae... Não posso mais... Logo que minha mãe tenha forças vamos para Portugal. Adeus, minha querida Leonor. Chora uma lagrima, que t'a merecem os infelizes que mais te amam n'este total desamparo, de amigos.«Napoles—Maio 15 de 1831.«Do teuAlvaro.»

«Estou sem pae, minha prima. Deixei minha mãe n'um lethargo para vir escrever-te estas linhas. Estava tudo prompto para a partida, quando meu pae morreu, nos braços d'esta santa. Como ella o amava, ou como é o amor das martyres n'este mundo! Em quatro mezes de agonia, minha mãe nunca desamparou o leito do infeliz, que parecia contar os instantes de vida nas dores do coração. Foi uma aneurisma que o matou. Dizia em cada dia:—Que tristeza! contemplar-vos, amar-vos tanto, e ter n'esta agonia a certeza de que hei-de deixar-vos breve! Viver sem ti os melhores annos da vida, minha querida esposa, e chamar-te para mim, quando já via esta morte! Que fiz eu da tua felicidade e da minha! Que espectaculo eu te dou para levar a tua desgraça á perfeição! Cinco annos de doença, de desgosto, e de pedir a Deus, por intercessão da tua santa alma, que me abrevie estas penas! Se as padeço como expiação, diz tu ao Senhor que me perdoas-te as culpas. Pede-lhe, Maria, que me deixe viver tres annos por amor de ti e d'este filho, d'este anjo da reconciliação que nos veio das mãos de Deus. Pede-lhe, minha virtuosa amiga, que me dê horas de descanço e horas de tribulação. E, se Deus quer que eu acabe, roga-lhe que seja já, antes que eu perca a fé na misericordia Divina.» «—Minha mãe debulhava-se em lagrimas; sentia-se extremosa amante pelas palavras de consolação que lhe dava; ia invocar a alma da santa de Vairão; e voltava cheia de esperança ao leito de meu afflicto pae a pedir-lhe paciencia e confiança. Aqui tens a nossa vida dos ultimos quatro mezes. Bem fizeste em não vir comnosco: terias um quinhão d'estas amarguras, minha prima. Mas, ao mesmo tempo, que allivio para mim, se eu te visse ao pé de minha mãe! Eu não sei como hei-de consolal-a! Tu saberias, Leonor, porque no coração da mulher é que Deus depositou as suas palavras de consolação para os desgraçados sem culpa... Chama-me a minha pobre Eufemia... Minha mãe está delirando; faz contra si propria accusações que me traspassam a alma. Pede perdão a meu pae por lhe não ter podido dar a felicidade, que ella em si não tinha!... Não te accuses, minha santa mãe! Tu foste o anjo que se fez nas cinzas do teu coração, anjo de ternura e de piedade, anjo de perdão e de supplica por todos que te injuriaram, e te mataram, primeiro que a meu pae... Não posso mais... Logo que minha mãe tenha forças vamos para Portugal. Adeus, minha querida Leonor. Chora uma lagrima, que t'a merecem os infelizes que mais te amam n'este total desamparo, de amigos.

«Napoles—Maio 15 de 1831.

«Do teu

Alvaro.»

Leonor não tinha lagrimas. Requeimára-lh'as o odio ao pae, e o anceio da vingança.

Pouco antes de lêr aquella carta, recebera ella a noticia do desterro violento de Miguel de Sotto-Mayor.

As commendadeiras do convento houveram horror e não piedade dos esgares phreneticos da morgada.

C'était Ninon de Lenclos qui disa-tiqu'elle remerciait tous lessoirs, de son esprit, et qu'elle lepriait, tons les matins, de la préserverdes erreurs de son cœur.

MIRABEAU (Lettres à la marquisede Monnier).

Já Leonor não estava no mosteiro, quando Maria da Gloria, mez e meio depois da morte de seu marido, chegou a Lisboa. O pae, temendo que a exasperação a allucinasse até o extremo do suicidio, levou-a para os Olivaes, e cuidou em amaciar-lhe a braveza com os antigos carinhos e distracção de amigos e parentes, devotados todos a delir-lhe da lembrança a imagem do expatriado.

Alvaro, no dia immediato ao da sua chegada, recebeu recado urgente de João de Mattos, para ir fallar-lhe.

—Chamei-o—disse-lhe elle—para lhe dar o que o senhor Macedo me não pede: é um conselho. Seu pae, que Deus haja, tinha em vista casal-o com sua prima Leonor de Brito. O senhor consultou alguma vez o seu coração sobre este designio de seu pae?

—Sim, senhor, e achei-o conforme aos meus mais ardentes desejos.

—Tem o senhor Alvaro alguma especie de confiança nos merecimentos de sua prima? Crê que ella o estima?

—Devo suppôr que sim.

—Está n'um erro. Agora o conselho sem preambulos: não case com sua prima, nem exponha o seu bom coração ao escarneo e á deshonra que inevitavelmente lhe ha-de vir com o arrependimento extemporaneo. Se não póde esquecêl-a, converta essa lembrança em estima, e a estima em virtude: quando a vir desgraçada, ampare-a. Imagine que sua prima ha-de passar pelos élos d'uma cadêa fatal. Não está nas suas mãos quebrar-lhe a cadêa; mas a misericordia póde muito, e a caridade faz milagres. Ainda o chamei para outro fim. Eu vou depois de ámanhã deportado para Abrantes, á ordem do senhor D. Miguel. Vou ralado de desgostos, e vaticino que toda a força de minha alma, e a muita energia que me dá a consciência pura, me não sustenham na queda. Se eu cahir, e o não tornar a vêr, lembre-se, no longo curso da sua vida, d'estas lagrimas que viu na face de um velho, e por ellas lhe rogo que, em meu nome, ajoelhe aos pés de sua santa mãe, e lhe peça perdão para mim que lhe matei a felicidade de toda a vida.

João de Mattos apertou ao seio o filho de Maria da Gloria, e disse-lhe:

—Vá!... Eu não o verei mais... Na eternidade saberei se sua mãe me perdoou.

Alvaro appareceu a sua mãe ainda com lagrimas. Interrogado acerca d'ellas, contou o successo, e fez de joelhos a supplica. Maria da Gloria ergueu as mãos, e disse em seu coração: «Vós bem sabeis, meu Deus, que eu perdoo a quantos me fizeram mal; e a este, que peccou, e se rehabilitou pela contrição da honra, dai vós, Senhor misericordioso, as consolações que a mim me daes por intervenção de meu filho.» E accrescentou em voz alta:

—Vai dizer a esse nossoamigoque tua mãe lhe deu este nome. Pede-lhe licença para saber as intimidades da sua vida. Se elle quizer emigrar, e não tiver recursos, diz-lhe que és rico: pede-lhe com encarecimento que t'os acceite. Ouvi dizer á santa de Vairão que seu sobrinho era pobre, e morreria pobre. Disse-m'o em elogio da sua probidade. Vai, meu filho, que esse homem perdeu tua mãe para a felicidade; mas restituiu-t'a para o amor.

João de Mattos ouviu da bôca de Alvaro as textuaes palavras de sua mãe. Balbuciou muito commovido expressões de reconhecimento, e apontando para um grande painel, disse:

—Guarde de mim aquella lembrança: o retrato de um pae honrado é um constante pregão de honra; o do amigo verdadeiro, e inflexivel no infortunio, é um consolador, quando não póde ser um conselheiro mudo.

Agradeceu Alvaro a dadiva, e ajudou a deslocar o quadro, para o levar comsigo. Foi esse mesmo o que eu vi nas ruinas dos Olivaes.

D'este probo e desditoso estadista não fallaremos mais. Logrou ser propheta do seu repouso. Finou-se com pouco tempo de desterro. A sua ultima carta ao filho de Maria da Gloria era uma reminiscencia dorida dos dias em que a paixão o ensandecera a ponto de não vêr o abysmo em que a virtude e a paz d'uma mulher se despenhavam com a honra d'elle. Esta carta denotava desconcerto de espirito; e, por ser a ultima, de perto se seguiu o apagar-se aquella grande luz, que de mais, no entender dos magnates e dos aulicos, alumiava a ignominia e a protervia d'aquelles que empeçavam na virtude do homem, leal ao throno; mas leal ainda mais á honra.

Choraram-no Alvaro e sua mãe. Tão afeiçoado lhe era o moço, que pedira licença a Maria da Gloria para o ir visitar em Abrantes, e conduzil-o para sua casa, indultada a sentença. Algumas horas, scismando n'elle, pensava Alvaro em vêr sua mãe ligada em segundas núpcias a um homem de quem elle já tinha no coração palavras paternaes, e segura base para o amar e respeitar no futuro com o amor e veneração de filho. Deu mate a estas doces cogitações a morte; mas a saudade ficou imperecivel no coração de Alvaro, e a gratidão no espirito de Maria da Gloria.

Se não cahisse a proposito este incidente, logo de começo teria eu dito que Sebastião de Brito foi logo visitar sua cunhada, e offerecer-lhe a sua casa dos Olivaes. A viuva não acceitou, porque a soledade com seu filho era tudo o que lhe restava bom e acceitavel n'este mundo. Leonor, algum tanto desvanecida de Miguel de Sotto-Mayor, cujo silencio de alguns mezes a desmemoriára, e ao mesmo tempo industriada por amigas e parentas, mostrou affavel sombra ao primo, por entre uns gestos de tristeza insinuante. Dizia ella que um anno de vida lhe modificara em muito o genio, e que ainda agora começava a sentir-se no coração. Recebia carinhosa, ou antes desafiava, os agrados de Alvaro, já commovendo-se com arte ás saudades com que elle relembrava o pae, já seguindo-o ás inspirações da vindoura felicidade, e phantasiando-a com elle na vida do campo, na ausencia dos esplendores sociaes, e na permutação intima e obscura dos sentimentos de duas almas apaixonadas. Com Maria da Gloria não era ella menos artificial, ou encarecendo-lhe as virtudes do filho, ou pedindo-lhe conselhos para o igualar em merecimentos.

Escutava Alvaro sua prima com assombro e desconfiança; e Maria da Gloria ouvia a sobrinha, notando-lhe a sagacidade, em que fora industriada pelo pae ambicioso, e pelas mulheres da roda illustre, professas no logro e nas fraudes do coração. E d'ahi, o silencio de ambos no tocante a casamento; e os sustos de Sebastião de Brito, e os despeitos da filha orgulhosa, á conta d'aquelle silencio.

Seccára a fonte perennal dos recursos do morgado com a morte do irmão bastardo. A cunhada não se afoutava elle a pedir as grandes quantias, nas occasiões apertadas; e ainda menos ao sobrinho, o qual, se bem que tivesse dezoito annos, nada pedia nem acceitava dos grandes haveres de sua mãe. Lastimava-se o morgado á filha, arguindo-a de ser causa de tantos desgostos e vexames com o seu proceder. Esta, que os principiava a sentir em certas faltas que a superabundancia sem regimen faz conhecer, duplicava as ciladas ao coração do primo e á bemquerença da tia.

Uma vez estava ella a sós com Alvaro. Este entretinha-se n'esse tempo a escrever as memorias da sua infancia, e deixára o manuscripto aberto na mesa de estudo. Pediu Leonor licença para lêr algumas paginas, e elle hesitou; mas insistiu Leonor tão meigamente que o primo deixou-a lêr as duas ultimas. Tinham estas referencia aos oito annos de sua idade, e terminavam assim: «Não esqueceria nunca os dias dos Olivaes, ainda mesma que da affeição, então nascida, mais odiosa me fosse a lembrança.» Seguiam-se algumas reticencias.

Leonor depoz o manuscripto, e disse triste:

—Estes pontinhos que significam?

—Nada, minha prima.

—Dás-me licença que eu complete o teu pensamento? Deixas-me escrevêl-o sobre as reticencias?

—Escreve—disse Alvaro risonho.

Leonor, sem demora de pensar, continuou assim a escripta:

«Aquella criança, innocente e formosa como um anjo aos meus olhos, n'aquella idade, amava-me, e não sei que amor era o seu, porque o amor dos anjos deve ser mysterioso, e é. Mais tarde, eu não podia amal-a, porque não poderá entendel-a. Senti-me enfastiado d'ella, como as crianças das flôres com que brincam uma hora. Não a esqueci porque a vejo sempre; mas esquecel-a-hei quando a mulher, que vagamente me falla nos sonhos, me disser:Sou eu.A tua Leonor era o amor da innocencia; e eu sou a mulher da paixão.»

—Aqui tens—disse ella—Agora, sim; está completa a pagina.

Alvaro leu, fitou os olhos em sua prima, e disse:

—Por que te enganas a ti propria, ou por que me mentes, Leonor?!

—É uma nova injuria que o meu coração te agradece assim...—E dizendo, beijou-lhe a face e retirou-se.

Ai! Maria da Gloria, como has-de tu combater o veneno corrosivo d'aquelle beijo?!

João de Mattos, varão justo, que tinhas no tom e no gesto a modulação e a postura do propheta, as tuas palavras esculpiram-se no espirito de Alvaro; mas o coração não fora chamado a jurar nas promessas do espirito!

Venceste, Leonor, venceste!... Uma victoria só te falta: olha se rebellas o filho submisso contra a vontade da mãe; espedaça os liames, que prendem essas duas almas; e então levarás a rojo da tua astucia os mais sagrados deveres do coração.

Como se é criança!... como se écriança!

GOETHE (Werther).

Viu Maria da Gloria seu filho amargurado, e mysterioso. Notou igualmente a ausencia prolongada de Leonor e do cunhado. Industriosamente, se fazia admirada, a vêr se surprehendia o coração do filho. Mallogrados estes meios, foi em direitura à chaga suspeita, e descobriu-a.

—O teu sofrimento são saudades de tua prima, Alvaro.

—Eu não posso mentir a minha mãe...

—São?—interrompeu Maria.

—Saudades, e duvidas que me atormentam.

—Que duvidas? se te ama?

—Penso que temos sido injustos com ella, minha mãe...

—Diz-me o que te faz assim pensar, Alvaro.

Não se fez rogar o moço: contou a scena das «memorias da infancia» e mostrou o acrescentamento escripto da mão de Leonor. Maria leu, sorriu, e disse:

—Tanta palavra! tanta palavra!... Crês isto, filho?

—Diga-me a minha mãe se não devo acreditar.

—Não deves. Vai ao convento das commendadeiras e pergunta o que fez alli tua prima, durante oito mezes.

—Minha prima esteve no convento das commendadeiras!?

Maria abriu a gaveta d'uma escrivaninha, e mostrou a Alvaro uma carta, recentemente recebida, de uma senhora, sua amiga de collegio, que a predispunha contra o enlace de seu filho e umadouda furiosa, dizia a carta. Era isto o prologo de miuda noticia de todos os actos de Leonor, desde a entrada e tentativa de fuga, até ás contorsões de possessa que a fizeram suppôr demente.

Alvaro dobrou a carta, e encostou a fronte á mão para esconder de sua mãe as lagrimas.

—Crês no arrependimento de Leonor?—continuou a mãe serena e affavel—É possível; mas o segredo que teu tio escondeu de nós, e o ar de candura com que ella se tem offerecido á nossa estima, qual provam mais, arrependimento ou astucia? A culpa arrepende-se, confessando-se. Estas palavras são uma hypocrisia, e o beijo d'essa menina é...

Maria da Gloria susteve a palavra que era a própria, e córou-a assim:

—É uma liberdade que deve magoar um coração delicado como o teu.

Seguiram-se alguns segundos de silencio, e, após elles, Maria continuou com vehemencia e magestade:

—Alvaro! tu és um homem. A tua dor é questão mais de honra que de coração. Eu tenho ciumes dos bons sentimentos da tua alma, e, por vontade minha, hei-de cedel-a unicamente a quem te chamar «esposo» com o extremoso amor com que te eu chamo «filho». Se Deus não quer que as minhas contas com o infortunio estejam saldadas, casa embora com Leonor. Não te lanço da minha alma; mas não contarei mais com a tua. A minha vida não alcançará a tua desgraça. Morrerei a tempo de ir pedir a Deus que te dê forças para ella.

Alvaro ergueu-se de golpe, e apertou nos braços a mãe lavada em lagrimas.

—Não me falle assim, minha mãe!—exclamou elle—Perdeu a confiança no poder da sua vontade?! Eu não lhe disse que casava com Leonor, nem mesmo lhe disse que a amava com paixão... Deixe-me ser para ella o que minha mãe uma vez me disse que eu fosse:—amigo d'ella, quando a visse desgraçada...

—Seja assim, filho!—disse Maria com desafogo e alegria—seja assim, converte em sentimentos de bom irmão esse amor, cuja profundeza tu não sabes sondar ainda... Ainda mais te cede a tua boa mãe... Escuta, meu querido Alvaro... Fazes-me a vontade?... Olha... estuda dous annos o caracter de Leonor, espera-lhe o desenvolvimento que ella ha-de ter n'este praso; e, se, decorridos dous annos, a vires igual, toda absorvida na esperança de ser tua, e tão amante como virtuosa, dá-m'a como filha, e eu do amor que te tenho farei um segundo coração para lhe dar a ella.

Desanuviou-se por momentos a fronte do moço; mas a tempestade lá estava na alma. A carta da commendadeira estava ainda alli sobre a banca, e contra a exactidão d'aquella historia é que o praso do estudo não podia prevalecer.

Coincidiu com estes successos a vinda do morgado dos Olivaes, a convidar seu sobrinho para festejar os vinte annos de Leonor. Não trocaram palavra resabiada de despeito, nem o semblante de Maria denotou differença.

Alvaro é que notou magreza e pallidez no rosto da prima. A natureza tem ás vezes a caprichosa benevolencia de entrar n'estas comedias humanas. Duas noites mal dormidas, um defluxo, uma dispepsia, sombream o aspecto das cores morbidas de uma certa tristeza, que fica bem. Pode ser, e de certo é, não ter parte o espirito nas contingencias do ar atmospherico, da insomnia, e do alimento indigesto; mas a critica de poetas, e amantes, mesmo sem poesia, é tão phantasiosa, que quer ver, nas desfigurações do rosto macerado, o desfibrar-se o coração a si mesmo com as presas da sua propria paixão.

Se aos trinta e aos quarenta annos ha muita gente que se prende ao visco d'esta armadilha, que fariam os dezoito annos de Alvaro Teixeira? Sinceramente acreditou que sua prima padecia as dores do arrependimento e as do amor sem esperança. Se, porém, ia no exordio d'uma falla carinhosa, assalteavam-lhe a lembrança as palavras d'aquella carta da commendadeira, e o coração retrahia-se-lhe sobre si, como se o sangue congelasse subito.

Estavam sósinhos na janella de uma saleta. Leonor apoiara a testa na mão e o braço no peitoril. Alvaro tinha os olhos no céo estrellado, e ouvidos e coração banhados das ondas de harmonia que vinham das salas.

—Por que me não amas tu?!—disse Leonor encarando repentinamente no primo.

—Que fizeste tu no convento das commendadeiras, Leonor?—respondeu serenamente Alvaro.

—Expiei um desvario do espirito em que o coração não tinha parte alguma; obedeci á fatalidade, e abrandei-a com as agonias que padeci. Purifiquei a minha alma das manchas que me deixou a indiscreta educação que me deram. Paguei amargamente a culpa de perder minha mãe aos treze annos. Aqui tens o que fiz no convento das commendadeiras, Alvaro. Quando alguma mulher virtuosa te fizer semelhante pergunta, responde-lhe pela minha bôca.

Retirava-se; mas Alvaro susteve-a, e disse-lhe com muita ternura:

—Tu não amavas aquelle homem, Leonor?

—Não o amava; via n'elle a minha desgraça; obedecia-lhe á fascinação; sentia de antemão o prazer de me sentir despedaçar na queda ao meu abysmo. Poupa-me, Alvaro; não festejes assim os meus annos. Tenho vinte; e, se podesses vêr a minha alma, tão extenuada, tão envelhecida, chorarias, e dirias ásvirtuosasdo convento que o seu rir das minhas loucuras era como atirar lama ao rosto de quem chora... Vamos para a sala, que é tempo.

Alvaro ficou n'aquella janella com os olhos sempre fitos na mesma estrella. Era alli que elle a via e ouvia, vinte e nove annos depois, áquella janella, quando o eu contemplava na outra das ruinas. Era alli!... que tristeza para quem tiver de Deus ou da desgraça o condão de compadecer-se nas dores alheias!

«Não serão precisos dous annos para te estudar o lento supplicio da tua purificação, minha pobre Leonor!» Isto dizia Alvaro em si, quando Sebastião de Brito o chamou para pedir á inflexivel Leonor que dançasse um minuete da corte. Alvaro pediu, e foi obedecido com um ar de victima contente do seu martyrio. Depois dos applausos, sentou-se junto á prima, e disse-lhe:

—Amas minha mãe, Leonor?

—Affiz-me a julgai-a tambem minha: queria poder... e cuidei que devia chamar-lhe mãe.

—Has-de chamar, Leonor... Por que não vaes vêl-a?! por que lhe não contas esses desgraçados desvarios, que se deram durante a nossa ausencia?!

—Quiz contar-lh'os, antes que a sociedade lh'os dissesse; mas a minha confissão devia ser do coração, e esse não tinha que confessar, e, se tivesse, só a ti se confessaria. Além de que, tua mãe deve ter vaidade da sua virtude soffredora, e seria intolerante commigo.

—A mãe não tem vaidade da sua virtude, prima!—redarguiu mansamente Alvaro—Eu queria que te ella amasse como a mim, e sei que tu o conseguirás, se quizeres. Vai ámanhã vêr-nos, conversa muito com ella, e não te molestes, se a vires menos risonha que de seu costume, não?

—Irei lá ámanhã; mas não me peças o supplicio de relatar extravagancias, que me envergonham. Sei que tua mãe m'as perdoaria aos meus annos; sei-o porque ella é boa, e padeceu. Os felizes é que não perdoam nem sabem os amargos descontos da leviandade... E de mais...—continuou ella passando da brandura á irritação—Que crime foi o meu? Em que perdi? que desaire pratiquei de que deva envergonhar-se meu futuro marido, ou minha futura sogra?

Alvaro ia responder, quando viu o rosto inflammado e o olhar sinistro de sua prima. Era o natural colerico de Leonor superando os empeços do artificio, e mostrando-se em toda a sua deformidade e nudez. A menina estorcia-se na cadeira, o arquejava de modo que lhe rangiam os espartilhos. Este accesso durou minutos, e tamanha força teve com ella que a obrigou a ir raivar sósinha no seu quarto, em quanto Alvaro, procurando o tio lhe dizia que a prima Leonor sahira de ao pé d'elle incommodada.

Voltou já outra, depois de meia hora, e explicou o accidente com dores de peito causadas pela compressão do collete.

Alvaro contou na manhã do dia seguinte estes acontecimentos a sua mãe, sobre o que dizia respeito a ella, e o conflicto do collete.

Maria da Gloria respondeu a tudo n'estes termos breves e sêccos:

—Muito bem, meu filho. Principiaste os teus estudos: continua-os. Tens dous annos, e vagar para estudal-a.

Decorreram oito mezes, sem, que Alvaro descobrisse sensiveis desigualdades no amor de sua prima. Se a encontrava triste, a si se dava conta d'aquella tristeza, attribuindo-a ao fastio de esperar na incerteza. Se lhe ella respondia com enfado agora, a arte corrigia logo as sabidas inconvenientes da natureza; e os reparos do moço desvaneciam-se. N'este longo intervallo, Sebastião de Brito fallou á cunhada na realisação do casamento, e esta decidiu-se pela vontade de seu filho: tão segura estava da palavra d'elle. O morgado, porém, infatigavel em desbaratar a casa, e forçado não tanto pelos credores como pela vocação do desperdicio, pediu dinheiro avultado á viuva, e obteve-o. Este resultado esfriou a actividade do morgado, e comprazeu a Leonor.

Em Março de 1832, foi Maria da Gloria com seu filho e Leonor a Vairão visitar algumas das suas amigas que ainda viviam, orar de joelhos sobre a sepultura de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor, e apresentar á prelada um aviso regio que concedia a Cecilia viver fora do mosteiro por tempo indeterminado na convivencia de Maria da Gloria.

Uma freira de Villa do Conde, amiga da familia Sotto-Mayor, fallando de poetas, disse que Miguel tinha escripto aos parentes, da ilha Terceira, d'onde o duque de Bragança brevemente sahiria com uma expedição para desembarcar em Portugal. Alvaro, durante a narrativa, não desfitou os olhos de Leonor, e viu-a muito attenta e excitada com a noticia. Interrogou-a particularmente, e recebeu como explicação uma casquinada de riso, com que o seu coração, absurdo como todos, se deu por satisfeito.

De volta de Vairão, dous mezes depois, Leonor e Alvaro subiram á collina dos arvoredos dos Olivaes, onde estão aquelles escabellos de pedra musgosa em que me eu sentei com o padre em 1859. Levava Alvaro um álamo para plantar, e, segundo elle, essa arvore era o symbolo da alliança eterna. Mal escolhida arvore, cuja folhagem tão movediça é! N'outro já mais entroncado talhou elle as duas letras:L. A.e dos sarmentos da arvore fez duas grinaldas com arte entretecidas, e as deixou pendentes dos braços tenros da arvore.

Finda esta bucolica, Leonor olhou para o interior de sua consciencia e coração. Chorou, e disse:

—Quem me déra ser feliz, meu Deus!

Nunca da consciencia e coração de mulher sahiu tão sincero grito! Se ha fatalidade, era aquelle presentimento da desgraça que lhe fazia tomar como escarneo e mentira o que para Alvaro estava sendo sacratissima poesia, pacto do coração confirmado por Deus, e uma festa de anjos celebrada com a innocencia da mais santa fé e esperança.

—Pois não és tu feliz, Leonor!?—exclamou o apaixonado moço, apertando ao seio a incomprehensivel mulher.

—Sou feliz, sou, primo... Tenho momentos de louca, de perdida... Nem sei o que quero, nem o que digo!... Talvez que o mais acertado fosse desejar a morte...

—A morte!...—atalhou com espanto Alvaro—E eu a amar-te tanto, e a não pensar senão na vida, na felicidade d'este mundo, em que eu creio como nas palavras de minha mãe...

Leonor não replicou: tomou-lhe o braço, e desceu para o palacete, onde os esperavam Maria da Gloria e Cecilia.

Quando, alta noite, Alvaro ia contando na carruagem a mysteriosa scena do bosque, Maria sahiu d'um recolhimento profundo, e disse:

—Já lá vão dezenove mezes de estudo, e parece que não estudastes ainda nada, meu pobre filho!... Espero que a Providencia te abra os olhos... Foi o que eu pedi á alma da santa de Vairão, e descancei na efficacia da supplica. Has-de vêr Leonor como eu te vejo a ti Alvaro.

«Adeus!»... palavra fatal!

BYRON (O Corsario).

Um mez ao certo, depois da plantação do alamo symbolico de eterna alliança, e do entalhe das iniciaes, desembarcou no Mindelo a annunciada expedição do duque de Bragança. Miguel de Sotto-Mayor era um dos sete mil e quinhentos, e soubera validar-se em intelligencia e linhagem para occupar entre os homens de porte uma apreciação distincta, sendo que o facto do exilio por amor á legitimidade, depois dos carceres de S. Julião, lhe bastaria a merecel-a.

Sabia Sotto-Mayor que as suas cartas, enviadas do estrangeiro, nunca chegariam ás mãos de Leonor, se as escrevesse. Apenas saltou em Portugal, aproveitou a desordem dos espiritos, e expediu aos Olivaes um caminheiro sagaz com carta a Leonor, prevenindo-a da sua chegada, caso ella estivesse fóra do convento. O enviado devia aventurar-se a entrar em Lisboa, e levar-lhe a nova ás commendadeiras. O habil confidente pernoitou na propria casa de Leonor, disse aos criados que vira desembarcar o exercito, e conseguiu entrar á presença do morgado e de sua filha. Em quanto aquelle, praguejando contra malhados e agourando-lhes derrota inteira em quinze dias, passeava na sala gesticulando, o hospede, que o applaudia, deixou cahir no regaço de Leonor a carta, e pronunciou subtilmente a palavraSotto-Mayor.

A sobresaltada menina sahiu da sala, e leu a longa carta com arrebatada alegria e convulsões de louca.

Miguel, exhaurida a linguagem maviosa do amor, fallava da sua esperançosa posição e dos grandes destinos a que o chamavam os seus talentos. Se não era modesto, seria injusto acoimal-o de visionario. Capacidades somenos o igualavam no immoderado das ambições, e lograram realisal-as muito além do escopo em que punham o fito. Dizia, porém; elle que renunciava á gloria, se Leonor a não quinhoasse com elle, e que poria o peito ás primeiras balas dos inimigos, se a encontrasse infiel aos juramentos.

Respondeu Leonor contando-lhe mentidamente o assedio em que seu coração tinha gemido até aquella hora. Louvava-se da sua constancia, attribuindo-a mais á dôce fatalidade que os aproximava, do que ás debeis forças de mulher. Pedia-lhe que a salvasse sem demora dos últimos assaltos do amor do primo e da ambição do pae. Sujeitava-se a fugir para o Porto, com qualquer pessoa da confiança de Sotto-Mayor, e ser sua esposa lá, como da alma o era desde a primeira vez que o vira.

O portador da nova, sem o menor empeço, entrou no Porto, e sahiu dias depois a nova commissão para os Olivaes, onde a anciedade de Leonor alongava as horas interminaveis. A resposta correspondeu á ancia. Na sahida da aldêa estavam as cavalgaduras, tomadas em povoação fóra da estrada real, e o confidente, espiando hora propicia, entregara a carta, e planeara o momento da fuga.

Era no ultimo dia de Julho d'aquelle anno de 1832.

Alvaro Teixeira e sua mãe sahiram de Lisboa n'uma tarde de muita calma, e foram gozar a fresca da noite nos Olivaes, com o intento de levarem Leonor, no dia seguinte, ao valle de Santarem, onde a viuva tinha um casal, que não via desde que fora enclausurada.

A inesperada visita conturbou Leonor. Era aquella a noite da fuga, e o morgado, se a cunhada não viesse, iria para Lisboa, curioso de saber se os rebeldes tinham sido espingardeados no Porto. Como, porém, Alvaro dissesse que se movia o exercito em direcção á cidade heroica, Sebastião de Brito esfregou as mãos, e disse que os malhados áquella hora de certo já tinham embarcado para salvarem as orelhas. Leonor intimidou-se, mas o seu brilhante futuro não lh'o empanou sequer uma sombra de desistencia.

Ás onze horas, disse-lhe Alvaro:

—Vamos ao lago, Leonor? Vejo-o d'aqui tão lindo e prateado pela lua!...

—Vamos—respondeu ella após curta hesitação.

E Alvaro replicou:

—Parece que não vaes de vontade!

—Vou; mas deixa-me ir buscar um chale, que estou levemente constipada.

—Então não vamos, não, minha prima... Eu não sabia...

—Havemos de ir...—tornou ella—Espera um pouco...

Foram. A superficie do lago estava em verdade encantadora. A bacia era franjada de festões curvados e espelhados na agua morta e limpida. Entre os arbustos relampejavam os vaga-lumes, e á flôr da agua saltitavam uns insectos cujas azas reluziam douradas pelo luar. A espaços, resaltavam os escallos á tona, e abriam muitos circulos e em cada circulo uma zona de prata.

—É dizem que não ha felicidade n'este mundo?...—murmurou Alvaro, tomando nas suas as mãos de Leonor—Que é isto que eu sinto, e tu deves sentir agora!...

Leonor não respondeu, e Alvaro proseguiu:

—Estás em extasis diante d'este formoso quadro, prima? Tens razão! Tudo isto diz melhor o que sentimos do que a pobre linguagem do homem...

—Isto é bello!...—disse Leonor machinalmente, e ouviu, ou não ouviu o amor eloquente de Alvaro, que n'aquella noite fora mais que nunca eloquente; e amante.

Soaram os tres quartos depois das onze.

—Ó primo, disse Leonor inquieta, vaes tu buscar-me a minha capa de capuz?

—Vou; mas tens frio?

—Receio têl-o e não quero sahir d'aqui...

—É melhor irmos, vamos, prima...

—Não vamos: vai buscar a minha capa, sim?

Apenas Alvaro desappareceu no fundo da rua fechada de murtas, Leonor correu ao longo d'uma alea de acacias em direcção opposta. Da extrema d'este passeio, desceu por degraus a um pomar de laranja, e tirou da abertura d'um aqueducto uma pequena caixa, e um chapéu de velludo emplumado. D'alli seguiu rente com o muro da quinta, e abriu uma pequena janella de umas poucas eminentes á estrada, e saltou, auxiliada por um homem que a esperava, e a quem entregou o cofre das joias de sua mãe. A poucos passos, estavam as cavalgaduras, e o caminho franco para celerada fugida.

Alvaro tinha pedido a capa com aquella pressa do amor que nas menores cousas se desvela e impacienta. O morgado acudiu perguntando o que tinha Leonor; e, como o primo não respondesse para ganhar tempo, vieram depós elle Sebastião de Brito, Cecilia, e Maria da Gloria.

Quando abordaram o lago, ouviram Alvaro chamar Leonor.

—Onde está ella!?—perguntou o pae—Falla, Leonor, não andes a fazer fosquinhas!...

—O local é proprio para jogar as escondidas...—acrescentou Maria da Gloria.

—Eu vou dar com ella—tornou o morgado, batendo os caramanchões, e dando gargalhadas do seu logro, e da esperteza da menina.

N'isto demoraram alguns minutos, até que Alvaro disse:

—Leonor já não está aqui.

—Pois onde ha-de estar? essa é boa?—replicou o tio. Vamos dar com ella no laranjal.

E foi com o sobrinho pelo caminho, que ella seguira. Correram o pomar, e viram aberta uma janella.

—Aquella janella aberta!—disse Sebastião de Brito.

—Foi por alli que ella sahiu—ajuntou Alvaro; mas a ultima palavra proferiu-a tão afogada, como se fosse a ultima da sua vida.

O morgado debruçou-se no peitoril da janella, e viu um lenço branco. Tentou saltar ao caminho; mas o instincto do rheumatismo da perna esquerda conteve-o em contemplação arquejante. Chamou a altos brados os servos; mas ninguem o ouviu: dormiam todos. Chegavam n'este conflicto Maria da Gloria e Cecilia perguntando ambas por Alvaro. O morgado não lhes respondeu, de açodado que ia, caminho de casa. Correram o pomar, e acharam Alvaro encostado ao tanque, como se fora uma estatua de adorno. Pôz-lhe a mão na testa a mãe, e sentiu-a fria de marmore, tirou por elle para o seio, e dissereis que a estatua cahia hirta e inteiriça, impulsada pelos braços de Maria da Gloria.

—A maldita de Deus matar-te-ia, meu caro filho—exclamou a mãe.

Alvaro desligou-se dos braços de ambas, pediu que o deixassem, e sentou-se, escondendo nas mãos a face.

—Por que não ergues as mãos a Deus, Alvaro?—tornou Maria da Gloria—Vês agora o abysmo de que tua mãe te queria salvar?

—Não me falle, minha mãe—disse Alvaro com energia—A que vem Deus aqui?!... Deixe-me ver se esta agonia acaba commigo.

Maria da Gloria sentou-se ao lado do filho, invocou a alma da santa de Vairão, e pediu a Cecilia que orasse com ella. Eram passados minutos, quando no palacete se levantou grande rumor de vozes, de portas, e de passos. O morgado mandara apparelhar cavallos, e destinou um criado para a estrada de Lisboa, e outro para Villa Franca. Maria da Gloria disse a Cecilia que mandasse pôr a parelha á carruagem. Alvaro ouvindo esta ordem, ergueu-se, e disse chorando:

—Tenho ainda minha mãe... Bemdito seja Deus!...

Maria, abraçando-o com transporte, exclamou:

—E que coração de mãe tu tens aqui, meu querido filho!... Não morrerás, não, Alvaro?

—Morrer!... Não se morre assim, minha amiga... Os seus onze annos de martyrio envergonham a fraqueza de quem succumbe... Hei-de viver, minha mãe...

Alvaro, perpassando certos sitios, parava, e contemplava-os alguns instantes. Ao sahir do jardim, voltou-se de rosto para elle, e articulou:

—Adeus!...

Depois, fitou os olhos em sua mãe, e acrescentou:

—Ora veja que mocidade a minha!... Estou no principio da vida!...

Não lhe respondeu a mãe: os soluços cortavam-lhe a palavra. A carruagem veio tomal-os no pateo. Sebastião de Brito acudiu á portinhola perguntando se o deixavam sósinho com a sua afflicção: Maria disse lhe que não havia alli ninguem que podesse consolal-o.

O cavalleiro, que seguiu estrada do Porto, só de madrugada encontrou almocreves que não tinham visto senhora alguma. No decurso de algumas leguas nenhum viandante lhe deu melhores noticias. Retrocedeu á noite, ignorando que as pessoas, que fogem, só aproveitam o melhor caminho, quando não tem o peor atalho. Ora o confidente de Miguel de Sotto-Mayor tivera tempo de estudar a topographia do terreno, e atravessai o por povoações menos praticadas até Coimbra. D'ahi passou a Aveiro onde tomou um hiate, e desembarcou a salvamento em Mathosinhos, quando a esquadra de D. Miguel se estava batendo com a de almirante Sartorius, defronte de Vigo, e a costa do Porto era de facil accesso.

Miguel de Sotto-Mayor foi surprehendido nos trabalhos do entrincheiramento por Leonor, e apresentou-a como esposa aos seus camaradas, attonitos da formosura d'ella. O titulo com que a apresentara foi d'ahi a poucas horas confirmado pelo primeiro padre, que em sua consciencia se julgou idoneo para supprir o consentimento paterno. Miguel não daria grande valor sacramental ao acto mas entendeu que pendia d'elle a dignidade de Leonor, e o respeito de si proprio.

Não direi que a apaixonada e viril senhora seguisse o esposo ás trincheiras, ou fizesse ondear as plumas do seu chapéo ao sopro das batalhas. Seria falsear a chronica affirmar que o poeta se achou muitas vezes ao lado dos Garretts e Herculanos que mordiam o cartucho com tanta seriedade de espirito como escreviam a «Harpa do Crente» ou «O Arco de Sant'Anna.» O fidalgo de Villa do Conde, oferecendo os seus talentos especulativos, conseguiu empregar-se nas rodas intellectuaes d'aquelle grande apparelho de guerra; e, tão acrisolado foi nas funcções do espirito, que chegou ao termo da guerra com as carnes intactas, e grande fama de prudente. Os bravos, que o viam com mulher tão bella, achavam-lhe racional o medo, e diziam que por tal preço todos aceitariam o estigma de cobardes. Os assustadiços cogitavam na traça de salvarem as immunidades pessoaes, á sombra de tão bella egide, sem damno da sua reputação patriotica. Os casamentos, porém, eram difficeis n'aquella época, e o imperador costumava dizer que a namorada dos valentes era sua filha.


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