Chapter 5

Abriram-se as linhas, entrou o exercito libertador em Lisboa, e Miguel de Sotto-Mayor, com quanto não assistisse á victoria de Cacilhas, foi um dos expedicionarios. Dias depois chegou a Lisboa Leonor, e procurou noticias de seu pae. Soube que sahira dos Olivaes para uma quinta do Além-Tejo, logo que a tropa liberal estanceou em Leiria. Escreveu ella a seu pae, em termos que os não diria mais amaveis uma boa filha. Convidava-o a aceitar a validissima protecção de seu marido, e recolher-se a Lisboa, sem temor de desfeita, ou desforço de antigos odios politicos.

Sebastião de Brito era um tolo com uma boa alma, amigo extremoso de si mesmo, apegado á vida por muitos, posto que apodrentados liames do coração, e namorado ainda de algumas velhas matronas da corte, que tinham tido a temeridade de ficar em Lisboa, sem receio dos barbaros invasores. Ir para Lisboa, quando toda a sua gente fugia, excepto ellas, pareceu-lhe cousa de aproveitar, e foi.

Leonor recebeu-o com muito carinho; deu-lhe de seu marido uma conta que invejariam anjos; ostentou felicidade nos menores incidentes da sua gloriosa aventura; convenceu o pae de que o seu destino era aquelle, e rematou pedindo-lhe novas de seu primo.

—Nunca mais o vi—disse elle—consta-me, porém, que vive muito triste, e que passa a maior parte do tempo com a mãe no valle de Santarem. Pobre rapaz!...

—Mas não morreu!—acudiu Leonor.—Todas as paixões assim são, meu pae. Uma mulher deixa muitas vezes de seguir o anjo do seu destino para se inundar a um homem, cuidando que o matará, se não renunciar á vida, ao coração, á gloria, e ás imperiosas exigencias da sua indole. A mulher sacrifica-se; e o homem, a quem se deu, passado tempo, não reconhece o sacrificio, nem se julga devedor da abnegação da martyr. E o que me estava reservado com meu primo, cujo genio é perfeitamente o envez do meu. O que seria eu agora com elle? Uma mulher muito rica e muito enjoada da minha riqueza. Assim que sou? Uma esposa que não tem tempo de calcular quantos contos de reis necessita para comprar um capricho. E elle? Soffreu no seu orgulho, soffreria tambem no coração; mas estas duas dores, quando se juntam, lá se curam uma á outra. Ora aqui tem, meu pae!

—Parece-me que tens razão, filha...—disse Sebastião de Brito, tingindo umas mechas de cabello, que tinham passado do branco ao escarlate.

...Que direz vous de l'indigence?

MONTAIGNE (Essais.)

Levantado o cerco de Lisboa, Miguel de Sotto-Mayor foi visitar as herdades de seu sogro, e soube dos caseiros e feitores que os bens livres não valiam as hypothecas, e os vinculados não se remiriam com os rendimentos de cincoenta annos, se os credores chamassem o morgado a juizo. Miguel de Sotto-Mayor disse a sua mulher: «olha que não tens nada; teu pae não tem um tecto que o cubra se os credores lh'o não quizerem dar por caridade.»

Leonor doeu-se do modo secco d'estas palavras, e respondeu:

—Meu pae não acceita esmolas de ninguem, nem tuas.

O marido achou bonita a reflexão; mas accrescentou que a verdade era aquella.

Convem saber que os haveres de Miguel de Sotto-Mayor em Villa do Conde tinham sido grandemente rebatidos no espaço de dous annos de emigração. Feridos de morte já elles estavam quando o fidalgo foi aos Olivaes procurar o balsamo que tão escasso lá era. Os arrendatarios da terra e dos foros haviam adiantado as rendas de alguns annos, descontando n'ellas a perigosa hypothese de morrer o administrador do vinculo, e apossar-se o legitimo successor dos bens desonerados.

Isto, vertido á lettra, quer dizer que Leonor podia replicar assim ao seu marido: «Olha que não tens nada. Não tens um tecto, que te cubra, se os credores t'o não quizerem dar por caridade.»

Sotto-Mayor fez o que faziam todos os camaradas: pediu um emprego, e ajuizou-se merecedor de tudo o que pedia. Deram-lhe uma prefeitura no Além-Tejo. Breve tempo exerceu o lugar: minguavam-lhe paciencia, habilidade, e recursos para sustentar-se dignamente. Tornou para Lisboa, requereu de novo, e foi recebido dos ministros com frieza, e esperado no livro da secretaria.

N'este tempo conjuravam os credores na total ruina de Sebastião de Brito. O velho fidalgo abandonava os processos sem contestal-os. Os bens livres foram penhorados, e os de vinculo obrigados pela renda. Ficou um palacio em ruinas deshabitado desde o terremoto, os terrenos contiguos, e uma quinta, bens hypothecados a Manoel Teixeira de Macedo, quando o bastardo, solteiro ainda, não cuidava em saldar contas com seu irmão por um enlace matrimonial dos filhos ambos.

Os homens, que parece gozarem-se em coadjuvar a má fortuna empurrando ao abysmo os que para lá pedem, não queriam que Sebastião de Brito podesse deitar-se em tabuas suas: insinuaram Maria da Gloria a senhorear-se do restante dos bens.. Esta, sem ouvir seu filho, respondeu:

—Quem castiga é Deus.

O palacete, onde nascera Leonor, passou ao dominio de um negociante, sob condição de ficarem n'elle como inquilinos por tempo de tres annos os devedores. A mobilia contheuda foi tambem penhorada, e Sebastião de Brito depositario d'ella.

N'estes termos, o espirito de Miguel de Sotto-Mayor passou da inquietação ao desespero. Leonor tragava as impaciencias do marido, e enfreava as suas, com medo de irrital-o. O velho morgado deixou a familia, e foi para Lisboa viver das sopas de parentes.

Aqui temos face a face estes dous infelizes. Afigura-se-nos que o severo anjo do castigo os está contemplando com formidavel silencio. Miguel tem um cavallo, que o leva para longe do semblante amargurado e desbotado de sua mulher. Leonor tem no jardim uns caramanchões, que a escondem a ser observada pelos olhos iracundos de seu marido. No recesso d'aquelles caramanchões estão os bancos rusticos em que Alvaro se assentava. Alli á beira do lago está o escabello de cortiça em que ella ficara sentada, quando Alvaro foi buscar a capa. Por que não creremos na muita dor e muita saudade d'aquellas lagrimas, que Leonor está chorando!?

Ahi estava sósinha ao entardecer, quando uma sege entrou no pateo.

Leonor admirou-se: já ninguem a visitava de carruagem. A nova criada não conhecia as relações antigas. Disse-lhe que a procurava uma mulher, que não tinha geito de senhora.

—Isso me quiz parecer...—disse Leonor entre si—mas de carruagem!... Alguma nova credora, a quem eu hei-de pagar a carruagem...

—O boleeiro traz libré—disse a criada.

—Libré!—murmurou Leonor—Então enganei-me...

Era Eufemia, a ama de leite de Alvaro.

Fitou com espanto a sobrinha de sua ama, e pediu-lhe licença para a abraçar!

—Abraça-me, Eufemia! e deixa-me chorar no teu seio, que não tenho mais ninguem!—disse a soluçar Leonor.

—Está muito infeliz, minha senhora?!—perguntou Eufemia.

—Estou pobre: escusas de perguntar-me mais nada. E minha tia vive feliz?

—Feliz, não! Com aquelle filho sempre triste, como ha-de ella ser feliz!... Pobre menina! Quem a viu e quem a vê! Era tão linda!...

—E achas-me feia, Eufemia?!—perguntou Leonor com um triste sorriso, expressão talvez da vaidade ferida, da vaidade, extremo reducto em que a mulher, que foi bella, ainda affronta a desgraça.

—Feia, não, minha querida senhora... Acho-a mais magrinha, e sem aquellas côres de roman, que pareciam dar saude á gente... Em fim, é conformar-se com a vontade de Deus, e pedir á Virgem Maria que dê saude a sua tia, que é uma santa. De mando d'ella é que eu vim aqui trazer-lhe uma encommenda, e dizer a vossa excellencia que, nos fins dos mezes, cá venho trazer-lhe outra assim.

Eufemia depositou sobre uma mesa um rôlo de dinheiro.

—Dirás a minha boa tia—disse Leonor com as lagrimas estancadas nas palpebras—que a pobre Leonor acceita a sua esmola, e lh'a agradece com este pranto que vês.

Eufemia pediu nova licença para abraçal-a, e disse-lhe por ultimo:

—D'hora a hora Deus melhora, minha menina. Lembre-se que sua tia padeceu onze annos...

—Minha tia era um anjo de innocencia, e eu estou expiando culpas enormes: ella consolava-se com a mesma injustiça, eu sinto que mereço o castigo.

Eufemia deu conta da sua commissão a Maria da Gloria, e retirou-se quando Alvaro entrava.

—Olha que está muito infeliz a pobre Leonor!—disse a mãe.

—Não lh'o tinha eu dito?! Acceitou?

—Acceitou, e agradeceu com lagrimas.

—Deve de estar muito quebrado aquelle genio pela desgraça!—tornou Alvaro—Acceitou a esmola!... Pobre mulher!... Deve estar mudada tambem de rosto...

—Diz a Eufemia que muito, e até trajada com pouco aceio.

—Perguntaria por mim?

—Não sei, filho... Eu presumo que não teria força para tanto!... Fiz-te a vontade, Alvaro?

—E a sua vontade, minha mãe, não era soccorrer tambem a infeliz?

—Era, era, meu filho...

—Pois não se esqueça de lhe mandar todos os mezes o que a mãe julgar necessario á decencia d'ella.

—Mas tu não pensaste ainda na parte que o marido ha-de tomar n'este soccorro?

—Que importa, minha mãe? O nosso fim é melhorar a situação de minha prima, e só o podemos conseguir melhorando a situação de ambos.

—Esperava essa resposta: a tua generosidade, Alvaro, é desinteressada, e nobre. Vejo que não pode nada comtigo o ciume...

—Não, minha mãe—disse Alvaro n'um falso tom de verdade, movimento de feições que não enganaria olhos e ouvidos mais amestrados.

—Assim é que eu entendo a virtude—continuou Maria da Gloria—são estas as joias de puro ouro que trazem do céo o signal da sua valia. Se te deixasses levar d'um calculo, o mesmo seria lançares á balança das culpas estes punhados de ouro, Alvaro. Da antiga Leonor o que resta para ti é a mulher desgraçada, não é assim?

—De certo... Que mais pode restar?!...

—Mais nada... O Senhor te abençoe o coração, e t'o encha de alegria e de santos estimulos para a caridade, sem lucro de gloria, nem orgulho das boas acções.

Alvaro, logo que pôde estar sósinho com Eufemia, perguntou:

—Minha prima não lhe perguntou por mim?

—Não, meu senhor.

—E Eufemia proferiu o meu nome?

—Sim, senhor, disse-lhe que o menino andava sempre triste... e ella... ficou assim pensativa... e fallou n'outra cousa.

—Mas ficou pensativa? e viu-lhe lagrimas?

—Ora, se vi!... quando lhe dei o dinheiro, as lagrimas rebentavam-lhe dos olhos como punhos.

—Mas a Eufemia não lhe disse que eu sabia d'estas cousas de minha mãe?...

—Nada, não disse, porque o menino e a mãesinha assim m'o ordenaram.

—Fez bem, e nunca lh'o diga, e escusa de dizer a minha mãe que lhe fiz estas perguntas.

—Não digo, esteja o meu filho descançado.

—Olhe, Eufemia... Leonor está muito acabada?

—Se está! nem parece ella! lembra-se d'aquellas rosas que ella tinha no rosto? Nem signal d'ellas! Está muito magrinha, e tem á volta dos olhos umas pisaduras que parecem de tisica...

Alvaro recolheu-se ao seu quarto, e escreveu algumas paginas d'uma saudade tão triste que, se a mãe as visse, cuidaria que seu filho amava Leonor.

Aqui vai trasladado um fragmento:

«Que sentes, que recordas tu hoje, ó desventurada, quando a minha imagem te contempla? Perguntarás a ti mesma o que fizeste de tua belleza, e o que serás ámanhã aos olhos d'esse homem que te encravou na fronte os espinhos da coroa, que eu, a victima das tuas proprias dôres, te arrancaria, se podesse!? Ó Leonor, que supplicio tu mesma escolheste! Por que não foges d'ahi onde estão as flôres da nossa infancia! Com que alma podes tu olhar aquelle lago, aquelles bosques, e aquellas arvores da collina!? Foi o teu demonio que te acorrentou á sepultura onde enterraste o meu pobre coração!?

«Eu não sou mais feliz que tu, Leonor! O tedio da existencia é a maior das tribulações. Tu desejas, talvez, a antiga felicidade, e gozas os tormentos da saudade; mas eu desejo morrer, e, a cada rebate do passado, é um novo trago de peçonha, que bebo das tuas mãos.»

Quer-me parecer que ha ahi expressões indicativas d'um sentimento que não é desprezo, nem sequer desamor. Sem medo de errar, affirmo que só a amisade, paixão muito mais entranhada que o amor, poderia exprimir-se assim. A mim me tem acoimado de paradoxal n'este meu sentir sobre a amisade: que monta isso? quero-me até ao fim com o paradoxo; e terei sempre em cousa de pouco o amor, que não enraizou na fibra mais nobre do coração: esta, a meu ver, é a que se diz «amisade» e nada se me dá que a lingua humana por ahi traga a palavra envilecida nos enxovalhos de falsos affectos, com que a civilidade e a conveniencia infamam aquelle divino dom da alma humana.

Por me não distrahir em dilações impertinentes, irei aos Olivaes.

Miguel de Sotto-Mayor, recolhendo noite alta do seu passeio, achou Leonor a pé.

—Esperei-te—disse ella—para te contar que minha tia me remetteu este dinheiro, e a promessa de me dar uma mezada. A nossa posição melhora, e o teu espirito, se me não engano, está livre das afflicções da desfortuna domestica.

—Sendo assim, de certo!...—disse Sotto-Mayor com alegria—Bem sabes que felicidade e pobreza não se compadecem. Quem teve muito e aspirou a mais, por grande que tenha o coração, esmorece ante o aspecto da miseria. Eu espero a independencia, quando entrarem no ministerio outros homens; e não me pejo de acceitar de tua tia este dinheiro como emprestimo.

—Agora, outra cousa—proseguiu Leonor—Que fazes tu fóra de casa até estas horas, Miguel?

—Que faço!? divago sem destino, fatigo o corpo e alma: são exigências do soffrimento, minha Leonor.

—Pois bem—replicou ella entre ironica e meiga—agora que o soffrimento deve ser menos exigente, vive mais commigo.

—Viverei, filha, e compensar-te-hei dos dissabores que te dei involuntarios.

Houve grande reforma no viver da morgada dos Olivaes: cresceram os criados; cuidou-se no aceio da casa; emparelhou-se outro cavallo, com o que existia, para uso da carruagem; sacudiam-se as librés do pó de quatro annos; a mesa era servida por criado de gravata branca; algumas parentas de Lisboa reconheceram de novo os pergaminhos de Leonor; o proprio Sebastião de Brito voltou á casa de seus avós, com os cabellos cada vez mais variegados de côr do barro e azeviche. Trezentos mil reis mensaes, entregues no principio de cada mez, davam que farte para satisfazer as necessidades do luxo.

Maria da Gloria disse uma vez ao filho:

—Tua prima não aprendeu nada no infortunio.

—Por que, minha mãe?

—Não a vês toda embebida em pompas, e visitas, e jantares?

—E será ella feliz?

—Parece que é.

—Pois é esse o fim para que minha mãe lhe dá dos seus sobejos. Desgraçada era ella antes dos seus soccorros.

—Mas eu achava acertado que Leonor não gastasse em frivolidades o que recebe de esmola.

—Não digamosesmola, minha mãe: a palavra é humilhante... Leonor é sua sobrinha; e meu pae daria tudo para não vêr em miseria aquella familia. Deixai-os ser felizes, que, por mais que o sejam, não nos roubam o nosso quinhão de felicidade que é o melhor.

—Que alma a tua, Alvaro!—exclamou Maria da Gloria, abraçando o filho—E de que te serve a ti a tua riqueza!? Tens vinte e tres annos, e vives como aos dezoito! Por que não compras um trem novo? Por que não vaes aos salões, onde um coração perfeito como o teu faria a maravilha da sociedade? Queres tu viajar que eu vou comtigo, filho?

—Não, minha mãe—respondeu Alvaro—Tenho tudo, que mais quero, n'este estreito recinto: aqui, minha mãe; alli, os meus livros. As viagens instruem; mas a minha ambição de saber está limitada no que posso aprender lendo e pensando; tambem distrahem; mas, se ha magoas na minha vida, são ellas de tal natureza, que o remedial-as seria igual a renovar o coração. Esta obra ha-de fazel-a o tempo. Não se é feliz em parte alguma, quando se não póde ser entre as reliquias da infancia, e os braços de uma mãe como a minha. Continuemos assim a vida, e cuidemos em a dar com menos amarguras aos que soffrem mais que nós.

Lata porta ... quœ ducit ad perditionem.A larga porta que dá passagem para a perdição.

S. MATT.—7. 13.

A legua e meia distante dos Olivaes, morava, em antiquissimo, solar, o morgado de Porto-Alvo, casado com sua sobrinha, filha segunda de uma nobre casa de Alemquer.

Era mui gentil de sua pessoa a dama, e gozava de preclara fama de virtudes, até ao momento em que Miguel de Sotto-Mayor frequentou a familia, muito aparentada com sua mulher.

Se a isenção da morgada do Porto-Alvo degenerou, empeçonhada pelas seducções do poeta de Villa do Conde, não serei eu quem o affirme; porém, não terei de que dar contas a Deus, se disser que a sua fama corria desluzida e mareada á conta d'elle. Aquelles passeios nocturnos, nos arrabaldes de Porto-Alvo, não eram certamente o que Sotto-Mayor dizia serem a sua mulher:exigencias do soffrimento; exigencias de intenção ruim é que elles eram.

Leonor, avisada das suspeitas publicas, não teve mão do seu ciume ou da sua vaidade, que ambas as cousas correm com o mesmo nome. Invectivou a deslealdade de seu marido, e o impudor de sua prima de Porto-Alvo. Sotto-Mayor recebeu com desagrado os ciumes de sua esposa, e despresou-lh'os a ponto de amiudar os passeios a horas mortas. Aguilhoada pela raiva congenial da sua indole, Leonor escreveu uma carta anonyma ao morgado, prevenindo-o da deshonra, que lhe rodeava o palacio de noite, e teria astucia de o visitar na camara nupcial.

O velho fidalgo espantou-se da infamação. Nunca sua mulher lhe incutira suspeitas, nem de si arguira leveza de espirito. Calou o aviso como prudente, e sobreroldou as avenidas da sua casa como acautelado.

Era uma das seguintes noites disseram-lhe os vigias que, a distancia de cem passos, parara um cavalleiro, e se estivera quieto contemplando as janellas do palacio; e accrescentaram que, por volta d'uma hora, apparecera atraz da vidraça uma luz, que subitamente se sumira depois d'alguns segundos.

Eu de mim não tiro conclusões algumas d'esta luz; mas o morgado tirou-as, e terriveis. Informou-se da janella em que os vigias avistaram a luz, e pôz ponto nas suas indagações. Duas noites passaram sem descobrimento. Á terceira, por volta de uma hora, ouviu o velho sua mulher tossir no leito, paredes meias com o seu, e ao mesmo tempo um signal convencionado e mui subtil debaixo da sua janella. Ergueu-se de golpe, passou ao quarto de sua mulher, e viu-a na cama; atravessou um corredor, e passou, pé ante pé, á sala, cuja era a janella d'onde fora dado o signal. Quando entrava na sala, viu uma criada com um castiçal, junta á vidraça. Não fez o mais leve rumor, retrocedeu, e entrou no quarto da criada, quando ella entrava. Em presença d'um punhal, estrangulou-se na garganta da moça um pavido grito.

—Morres, se gritas!—disse o morgado com a postura e phrase de Tarquinio, que não quadra bem aqui, já porque a moça era solteira, já porque, sendo casada, não tinha geito algum para Lucrecia—Morres—continuou elle com voz soturna—se me não dizes o que significa o signal que tens ido dar á janella com a luz!

A criada respondeu, e o morgado retirou-se ao seu quarto, tranquillo como se houvesse descoberto que sua esposa era uma das virtudes theologaes em pessoa, e pessoa que fingia dormir profundamente.

Decorreram tres noites depois d'esta.

Foram dias e noites de supplicio para Leonor. A consciencia gritava-lhe. Aquella carta anonyma podia ser causa á morte de seu marido. Mas o orgulho, e o coração, talvez, diziam-lhe tambem que ella não merecia uma infidelidade, e os desprezos que estava soffrendo, por não poder enfrear o seu ciume.

Na terceira noite, disse ella a Miguel de Sotto-Mayor, com caricia:

—Não vás, meu amigo, não tornes a Porto-Alvo.

—E quem te disse que eu vou a Porto-Alvo?!—respondeu carregando o sobr'olho.

—Diz-m'o o coração...

—O coração!...—redarguiu sorrindo o marido—O que é o coração!... O coração não diz nada. O coração é um vaso onde passa o sangue. O coração, que não é isto e simplesmente isto, é um tolo. Eu não vou a Porto-Alvo. Vou ao Poço do Bispo onde me esperam alguns amigos para conjurarmos na derrota do ministerio, e na morte de Agostinho José Freire.

—Mentes, Miguel!—exclamou Leonor.

—Agradeço a amabilidade, e vou, porque não posso deixar de ir.

—Miguel!—tornou ella com vehemencia e excitada a lagrimas—não vás... Olha que o tio morgado teve aviso, e elle é mau, e tu ficas um dia morto.

—Quem o avisou?!—replicou, risonho, o marido—Serias tu? Capaz serias da calumnia!... Como sabes que elle foi avisado?!

—Sei-o... Não vás, peço-t'o com as mãos erguidas!...—e chegou a dobrar os joelhos diante d'elle.

—Como queres tu que eu deixe de ir a um compromisso de honra, Leonor? O meu destino é o Poço do Bispo, já t'o disse.

—Juras-me que não vais a Porto-Alvo?

—Juro, dizia Molière.

—Mas lembra-te que Molière cahiu na scena moribundo, quando dissejuro.

Achou Miguel de Sotto-Mayor engraçada a observação, e despediu-se de Leonor, beijando-a na testa.

Cavalgou, guiou o cavallo na direcção do Poço do Bispo, e, a grande distancia, retrocedeu por um atalho conhecido até sahir á estrada de Porto-Alvo.

Parou Miguel a distancia de meia legua, e reflectiu. «Se o morgado tivesse sido avisado, já eu teria a esta hora noticia da menor alteração. É verdade que o signal em duas noites alguma cousa póde significar; mas tambem é certo que o mesmo caso já se deu, sem significação alguma. Quem inventou o aviso foi o ciume de minha mulher.» Depois de tão seguro remate, Sotto-Mayor deu de esporas ao cavallo, e venceu o espaço em poucos minutos.

Antes d'elle avistar o palacio de Porto-Alvo, é de bom historiador dizer que o morgado, na madrugada do dia seguinte áquella noite do punhal, ergueu-se, tornou ao quarto da criada, fechou a porta, e guardou a chave. Voltando, fechou tambem a porta de sua mulher, e não respondeu ao modo de espanto com que a sobrinha lhe perguntou a causa de tal novidade. As comidas eram ministradas a uma e outra, ás suas horas, por um homem estranho de má catadura, que não respondia a pergunta alguma. Esta situação durou dous dias, e durava ainda quando Miguel de Sotto-Mayor fazia galopar o ginete por uma quebrada de cujo topo se avistava o signal.

Estacára o cavallo na chã, onde o brioso animal já sabia que descançava. Miguel afagava-lhe o pescoço, e dobrava-se sobre os ilhaes a examinar-lhe os violentos arquejos, quando, ao erguer a cabeça para examinar a um raio da lua o seu relogio, dous tiros simultaneos lhe vararam o peito. O cavallo atirou-se em galões impetuosos ribanceira abaixo, com o cavalleiro agarrado ás crinas. A poucos passos, as mãos do cadaver abriram-se, o corpo resvalou ao chão, mas foi de rojo, largo espaço, suspenso n'um dos estribos.

Ás tres horas da madrugada, os criados da casa dos Olivaes sentiram o estrepito das ferraduras nas lages do pateo, e sahiu o cavallariço a amantar e recolher, como de costume, o cavallo. Como não visse o amo, cuidou que elle havia já subido, como d'outras vezes, deixando o cavallo com as redeas ao pescoço; mas, relanceando casualmente os olhos sobre o estribo esquerdo, viu o ensanguentado. Subiu as escadarias, bateu á porta, e disse para dentro que acontecera uma grande desgraça. Leonor saltou do leito, e desceu ao pateo a examinar o sangue do estribo. Fugiu, como seguida por um espectro; entrou no seu quarto com os olhos esgazeados da demencia, e soltou estas pavorosas palavras:

—Fui eu que o matei!

D'alli em diante, o que ella dizia eram palavras sem nexo, e blasphemias, acompanhadas de medonhos tregeitos.

Sahiram os criados, uns na direcção do Poço do Bispo, outros na estrada de Porto-Alvo, por alvitre de um que sabia os segredos de seu amo.

Os segundos, a tres quartos de legua, ao voltar de uma charneca para um atalho pedregoso, acharam o cadaver de Miguel de Sotto-Mayor. A maceração e retalhado do rosto era tal, que escassamente lh'o reconheceram. Camisa e collete cheiravam ainda a queimados: os tiros tão á queima-roupa tinham sido apontados, que as mesmas buchas se lhe pegaram ao sangue empastado do peito.

Volveu um dos criados a buscar a carruagem, que devia transportal-o para casa. Leonor não atinava a dar ordem alguma para o enterro de seu marido. A noticia levada a Lisboa, onde então estava Sebastião de Brito, chamou aos Olivaes algumas familias, a quem as desventuras de Leonor tinham restituido a antiga estima. Curaram da sepultura, e a justiça dos seus deveres. Foi a justiça ao local onde estava o morto, e lavrou o auto. Proseguiu na devassa; mas era tudo escuro e indecifravel. Entre os parentes da casa, que assistiram ao funeral, estava o morgado de Porto-Alvo, de casaca preta e aspecto lagrimoso. Leonor, ao vêl-o, ergueu-se de golpe, apontou-o de perto, e exclamou:

—Foi este o assassino de meu marido.

O morgado abriu a bôca e os olhos, cruzou os braços, circumvagou a vista por todos, e perguntou:

—A infeliz acho que endoudeceu?... Pobre senhora!...

Os circumstantes confirmaram a suspeita do morgado, e lastimaram-a tambem.

—Por que não está aqui a mulher que matou meu marido? Onde está a devassa, que lhe quero gravar na testa um ferrete com sangue?

Estas vociferações augmentavam as probabilidades da demencia.

—Agora diz que foi uma mulher que o matou!...—dizia o morgado—Não ha duvida! está louca a infeliz senhora!

—Não estou louca, não, scelerado!—bradou Leonor, contorcendo-se nos braços das amigas—Mataste-o tu, cobardemente, feroz villão! Mataste-o e cuidas que a boca do morto não ha-de revelar a infamia de tua...

N'este ponto, os labios de Leonor foram cerrados pelos dedos de mão, que não era de alguma das senhoras, que a estavam a custo segurando. Leonor olhou de revez para quem lhe fazia a violencia, e viu Maria da Gloria.

O mesmo foi vêl-a, e lançar-se-lhe aos braços, exclamando:

—Ó minha tia, eu sou muito desgraçada!... Abra-me por piedade o seu coração, e esconda-me ao espectro do meu remorso...

Maria da Gloria abraçou-a com transporte, e disse ás senhoras e cavalheiros:

—Eu entendo que não devemos ter minha sobrinha exposta a estes accessos da sua doente imaginação. Consintam que eu me recolha com ella ao seu quarto, e haja ahi uma alma piedosa, que nos dispense de cuidarmos do enterro d'esse infeliz. Vamos, Leonor.

Suadeo tibi emere à me aurum ignitumprobatum, ut locuples fias.

Admoesto-te a que me compres omeu ouro de fino quilate para te locupletares.

APOC. 3. 18.

Os primeiros dias de sua viuvez passou-os Leonor no seu quarto, e Maria da Gloria com ella. Era de vêr os assiduos desvelos com que as familias de sua numerosa parentela aporfiavam em mitigar-lhe as penas, desde que a souberam restituida á graça da supposta millionaria Maria da Gloria. E, como fosse notorio e vulgar o amor de Alvaro a Leonor, já diziam os aruspices, atarefados em prognosticar a vida alheia, que as segundas nupcias da morgada pobre com o filho unico do banqueiro Macedo seriam espectaculo de pouca delonga e muita graça. Houveram sujeitos imaginadores de tragedias que aventaram a verosimilhança de ter sido assassinado Miguel de Sotto-Mayor por ordem de Alvaro de Macedo. A sociedade teve sempre d'estes carrascos, para assim dizer, encarregados de mostrarem do cadafalso á canalha, sedenta de escandalos, as melhores reputações a escorrerem sangue. Eufemia ouviu, uma vez, n'uma, loja de capellista esta calumnia. Chegou a chorar e espavorida ao pé da ama, repetindo o que ouvira. Maria da Gloria respondeu ás afflicções da criada com um sorriso, e estas palavras:

—Deus sabe quem matou o marido de minha sobrinha: a calumnia é que não mata a honra de ninguem.

Ficou Leonor com seu pae.

Dizer que a viuva se definhava de dia para dia, consumida de saudades do defuncto marido, seria inventar. Não seria mais exacto o dizer que a purpura da juventude lhe retingiu as faces, e que o lindo oval do rosto se recompoz. Leonor nunca mais foi bella, desde o primeiro dia que se viu desmerecida aos olhos do marido pela mesma causa que a sociedade a lançava de si:—a pobreza. Devorou-lhe a vaidade, insoffrida e furiosa na dôr, a alegria da alma, e o mesmo foi tirar-lhe ás flôres do rosto a seiva que as alindava.

Em que pensava Leonor, n'aquella sua rapida mudança de vida? Parecia não pensar. Decorridos seis mezes, sahiu a pagar visitas em Lisboa, menos a de Maria da Gloria, que lhe não dera a isso azo. Viram-na nos theatros, e nos bailes, passado um anno. Apontaram-lhe os binoculos os conquistadores da época; e, com quanto a denominassem «bellas ruinas», fosse ella menos esquiva, e teria sobeja belleza, para acorrentar os leões de S. Carlos, jaula então muito mais de aterrar que hoje.

Em que pensava Alvaro? Como scismava elle em sua prima? Amava aquella mulher, que vira cinco annos antes. Não formava idéa alguma da mulher, que era cinco annos depois. Nunca mais a vira, nem quizera ver. Desde que pessoa descuriosa lhe disse, sem proposito, que a vira, muito outra do que era, em casa da prima condessa de tal, e no theatro de S. Carlos, Alvaro deixou de frequentar o theatro, local unico onde o levava a suave tristeza da musica.

Dizia-lhe sua mãe, um dia, que Leonor se queixava a Eufemia de não ser convidada para casa de sua tia. Alvaro respondeu:

—A mãe póde recebel-a; mas avise-me com antecipação para nos não encontrarmos.

—E, todavia, meu filho—replicou a mãe—estás sempre perguntando-me se a mezada será sufficiente para o bem-estar de Leonor!...

—Que tem que ver uma cousa com outra, minha mãe!? É um pouco de dinheiro inutil, dinheiro que nunca me lembrou quando eu pensava em ser feliz com Leonor. Se o dinheiro não entrava por nada nas minhas contas, signal é de que não representa algum affecto de coração a minha prima.

—E se ella se despenhasse em novo precipicio? Se casasse com um homem que a expozesse a novas miserias?

—Dando-me minha mãe licença, continuaria a soccorrel-a, e a luctar contra a estrella fatal d'aquella infeliz.

—E crês tu na fatalidade, filho?...

—Creio, minha mãe.

—E a virtude que fica sendo?

—A fatalidade do bem.

—Não achas mais racional submetter á Providencia Divina, e á deducção dos actos humanos o que tu chamas fatalidade?!

—Eu—disse Alvaro com profunda amargura—não sei o que é melhor, nem mais racional, minha mãe... Se quer que eu lhe diga o que sinto... o melhor é... não viver; o bem supremo da vida é esquecêl-a. O que é a embriaguez no homem de espirito que conhece o travo da peçonha que bebe? O que é o suicidio, senão a passagem para o esquecimento?

—Deves ter soffrido muito, meu filho, porque te vejo sem religião?...

—Não tenho a religião que ora, tenho a que perdôa, e se amisera de amigos e inimigos. Minha virtuosa mãe tem esta, e a da oração. Deus me será bom e piedoso pelos merecimentos de minha mãe...

Este dialogo foi interrompido por um recado de uma senhora que desejava fallar a Alvaro.

—A mim!?...—disse elle, admirado—e foi á sala onde o esperava a senhora.

Viu elle uma dama trajada de preto, com semblante de quarenta annos amargurados, e um complexo de adornos, que denotavam pobreza.

—Não a conheço, minha senhora—disse Alvaro.

—De certo, não. Eu sou a mãe de dous filhos de seu pae—respondeu ella em italiano—sou a desgraçada que acompanhou seu pae do theatro de Milão para Lisboa ha dezeseis annos. Vi o snr. Alvaro criancinha ao peito de sua ama, e torno a vêl-o homem com a reputação igual á das virtudes de sua nobre mãe.

A italiana enxugava as lagrimas.

—Queira continuar—disse Alvaro.

—Quando seu pae me abandonou ao meu funesto destino, tinha eu dous filhos, dos quaes elle quiz senhorear-se; eu, porém, sobre ser infeliz, era caprichosa, e não sei mesmo se boa mãe: não lhe dei os filhos. Em quanto a belleza me inflorava o vicio, aturdi-me nas pompas, e nos delirios d'uma brilhante ignominia; mas não olvidei a educação dos meus pobres filhos: sustentei-os n'um collegio, até 1832, época em que eu envelheci, e de repente cahi dos ouropeis da minha opulencia ao charco da miseria. Tirei do collegio os meus filhos: o mais velho era um demonio, o outro um anjo. O anjo levou-m'o Deus um anno depois, quasi fulminado pela colera-morbus; o outro ficou ao pé de mim como instrumento nas mãos da Providencia para minha expiação. Meu filho pedia-me contas do luxo, que vira em minha casa, quando criança: eu não podia responder-lhe. Quiz eu forçal-o a respeitar-me, e elle reagiu com ameaças á minha severidade. Um dia desamparou a minha casa, roubando-me as poucas alfaias de algum valor, que eu guardava para não ir tratar-me na ultima doença a um hospital. Passados dias, soube que elle estava no Limoeiro, preso por furto. Desfiz-me de quanto tinha para as primeiras necessidades do meu uso, e consegui restituir o furto ao dono, e a liberdade a meu filho. Fui, depois, lançar-me aos pés d'um homem, que me conhecera em tempos felizes...felizes!... que falsa apreciação!... Pedi uma qualquer occupação para meu filho, e alcancei empregar-se na alfandega, em lugar de bastante responsabilidade. O desgraçado parecia regenerar-se; não houve queixa d'elle em dous annos; eu julgava-me bemquista da sorte, e contava com o pão da velhice. Ha oito mezes que um grande roubo se descobriu na alfandega, e meu filho é convencido de ladrão de grandes valores, valores que elle perdeu no jogo e dissipou na libertinagem. Ha quinze dias que o filho de seu pae, senhor Alvaro, foi condemnado á grilheta por toda a vida.

A italiana esperou que os soluços a desafogassem, e continuou:

—Eu não venho pedir ao generoso filho do pae do condemnado que o salve, pagando o roubo, que sobe a muitos contos de reis. O que venho de mãos erguidas supplicar é que vossa excellencia empregue o valimento dos seus amigos para que a pena seja commutada em degredo perpetuo, sem o ferro aos pés, que assim o pede o desgraçado.

Alvaro ergueu'a mulher, que ajoelhara, e disse-lhe:

—O nome de seu filho?

—É Julio de Macedo.

—Farei o que poder. Vá a senhora dizer-lhe que espera alguma cousa dos meus esforços.

A italiana fez menção de ajoelhar outra vez, desconfiada da frieza d'aquellas palavras: impediu-a Alvaro, e seguiu-a até ao topo da escada.

Maria da Gloria, mais por amor de mãe que por curiosidade de mulher, tinha ouvido tudo. Sahiu, como desapercebida ao encontro de Alvaro, e disse-lhe risonha:

—Com que então as damas de Lisboa vem assim á hora do dia procurar-te em casa!? Queira Deus que me não raptem o meu Alvaro!...

Sorriu-se o moço, e ficou pensativo, cogitando no modo como fallaria a sua mãe.

—Em que pensas, filho!?—tornou ella rindo em gargalhada—Estás ainda arrobado na visão da deidade, que te veio roubar o socego?!... Diz o que sentes, Alvaro!

—Logo, minha mãe, logo...—respondeu Alvaro, cada vez mais enleado.

—E por que não ha-de ser já?!—redarguiu Maria da Gloria com gravidade—Estarás tu espantado, ou envergonhado de saber que uma boa arvore produziu fructos tão maus!?

Alvaro encarou com assombro em sia mãe, e tartamudeou alguns monossyllabos.

—São aberrações—proseguiu ella—Não lhe ouviste dizer á pobre mulher que o mais novo era um anjo? Ahi tens... Foi como as arvores que dão aromas e veneno... Não tens porque scismar, meu Alvaro. Faz a tua vontade completa e generosa como eu a adivinho. Tens authorisação minha para levantares o dinheiro que quizeres. O teu fausto, segundo vejo, é a caridade obscura: pois bem, goza plenamente as regalias que a fortuna te dá.

Alvaro Teixeira foi encarregar o advogado de sua casa de solicitar o perdão do condemnado a preço da quantia em que fôra avaliado o roubo. O solicitador desanimou quando lhe disseram o avultado da quantia. Alvaro, porém, authorisou-o a advogar o livramento, por todo o preço. Julio de Macedo foi um dia chamado para receber o alvará de soltura, e appareceu em casa de sua mãe, quando esta, esperançada nas promessas de Alvaro, desfazia os ultimos lençoes para fazer camisas, que seu filho levasse para Africa. O perdoado não sabia dizer como fora livre; a mãe, desvariada de alegria, não atinava a contar ao filho o modo como o salvara. N'este lance, appareceu Alvaro, e recebeu nos braços a italiana, e o filho de seu pae, a quem chamou irmão.

O filho da italiana não conhecia o filho de seu pae. Balbuciava palavras de gratidão, tão envergonhado do crime, como assombrado d'uma virtude em que não acreditava. Alvaro atalhou assim as exclamações da antiga locataria do palacio de Belem:

—Seu filho inutilmente pediria hoje um emprego. A senhora não póde contar com os meios d'elle para a sua sustentação. Meu pae, como a senhora sabe, tinha uma propriedade nos arrabaldes de Napoles, que eu conservo ainda, da qual, com o consentimento de minha mãe, lhe faço doação. Acho acertado que a senhora e seu filho vão lá viver, e levem as lições da desgraça para a conservarem.

D'um mesmo impulso, mãe e filho se lançaram aos pés de Alvaro, com exclamações e lagrimas.

—As lagrimas são um segundo baptismo em alguns olhos—disse Alvaro—Permitta Deus que o filho de meu pae se regenere com as que lhe vejo no rosto.

D. Maria da Gloria firmou a doação, e a milaneza com seu filho, partiram para Italia. Vinte e dous annos depois, me disse aquelle santo dos Olivaes que a antiga actriz morrera velha e feliz; que Julio de Macedo conservava ainda a quinta, e honrava uma alta patente no exercito da Sardenha. Perguntando-lhe eu quanto lhe custou a regeneração d'aquelle homem e a velhice venturosa da amante de seu pae, elle me respondeu:

—A fortuna de duas familias independentes.

Un groupe de Dalila et de Sansonavec celui de la farouche Judith seraittoute la femme expliquée.

BALZAC.

Tinham decorrido dous annos depois da viuvez de Leonor. Na correnteza d'este espaço e quasi no termo d'elle, falleceu Sebastião de Brito, legando simplesmente alguns rolos de pergaminhos e a memoria dos seus desvarios senis. De paixão d'alma diziam os facetos que elle tinha acabado; mais serias averiguações, porém, dão que o homem succumbiu a uma febre gastrica, procedente de uma cêa no Farrobo, em casa do hospedeiro e luxuoso conde d'aquelle titulo. Não devem esquecer alguns desastrados successos pertinentes a esta época, e vem a ser que o fidalgo de Porto-Alvo morreu envenenado, consoante a fama dizia; e que sua sobrinha passou a segundas nupcias com um primo de Alemquer, e vivia ainda honrada e feliz em 1859. Achei tambem nota de que a criada, confidente da morgada, dias depois do assassinio de Miguel de Sotto-Mayor viera á margem direita do Tejo, cuspida por uma onda, e com claros vestigios de ter sido estrangulada. E de presumir que o fidalgo atirasse ao Tejo com a unica testemunha do seu crime. Se o boato da peçonha é exacto, não será peccado dizer que a casa do Porto-Alvo, não desfazendo no seu brazão, encerrava uma tribu de scelerados.

Leonor, não podendo com a soledade dos Olivaes, pediu a sua tia licença para viver em Lisboa. Maria da Gloria hesitava em conceder lh'a; mas Alvaro achou rasoavel o pedido, e desculpou a solicitação de sua prima.

Transferiu-se para Lisboa a viuva e com ella o seu trem. Tomou um palacete em Buenos-Ayres, e abriu os seus salões a uma partida semanal de parentes e amigos intimos. Estes chapados «amigos intimos» são ás vezes os inimigos de fóra. Taes foram os que vulgaram o cortejo da viuva a um moço sem nascimento nem posição, homem de letras em disponibilidade, insinuando-se, a titulo de genio, entre as pessoas, tambem de genio tão benevolo e tolerante que o recebiam.

Soube Maria da Gloria as atoardas que corriam á conta de sua sobrinha, e communicou-as a Alvaro.

—Pois a mãe que esperava!?—disse este—Leonor teve treguas de dous annos. A fatalidade refez-se de vigor, e volta á lucta.

—E qual achas tu que é o nosso dever?

—Luctar a favor da mais fraca. Aconselhe-a, minha mãe; e, se não podér nada com ella, ampare-a como até aqui.

—E se eu lhe retirasse os meios—replicou Maria da Gloria—crês tu que o segundo calculista a não deixaria em paz?

—Deixaria: mas Leonor desceria na escala social até achar um indigente como ella.

—Á vista d'isso, filho, julgas incurável tua prima!?

—Julgo, mãe.

Foi Maria da Gloria a Buenos-Ayres, em hora de não receiar concorrencia, e poz logo o dedo na chaga.

—O teu mau anjo não te deixa, Leonor?

—Porque falla assim, minha tia?

—Dizem-me que estás á beira d'um segundo abysmo. São falladas as tuas intelligencias com um homem, que offerece menos condições de felicidade que o primeiro. Como tens tu coração para o amor, filha? Por que não quer Deus que chegue para ti a hora da reflexão? Como pagas tu o que deves a ti, á sociedade, e a mim? Levanta-te d'essa miseria, Leonor! Recobra a tua dignidade enxovalhada! Lembra-te das lagrimas, que choraste nos braços de Eufemia! Medita um pouco no nobre coração de meu filho, cuja alegria mataste, e envergonha-te dos novos ultrajes que preparas áquelle anjo, que te protege!

Leonor sahiu d'uma reconcentração de minutos para beijar a mão de sua tia, soltando estas palavras:

—Agradeço a esmola a minha tia, e a meu primo a philantropia. Agora fallarei, se me dá licença. Meu primo tem-me beneficiado: eu bem sabia que elle não era estranho á esmola que tenho recebido; mas quizera antes a certeza de que esta beneficencia pertencia exclusivamente a vossa excellencia. Meu primo tem-me favorecido para me humilhar.

—Explica-te, Leonor...—atalhou Maria da Gloria estarrecida de espanto.

—Eu vou explicar-me, minha tia. Se Alvaro olhasse com piedosa vista para os meus infortunios, aliás respeitaveis por serem do coração, teria apparecido a meu lado, não como o amante despeitado, mas como o parente, que sacrifica os caprichos do coração ao dever misericordioso de rehabilitar moralmente uma mulher. Fui muito desgraçada, e era-o mais por entender que meu primo se regosijava a cada escaleira, que me via descer para a miseria, na esperança d'elle ahi descer com alguns punhados de ouro a fartar-se de vingança. Quando minha tia me enviou a sua criada com a primeira esmola, cuidei que mais tarde acharia nos meus parentes proximos a esmola de consideração, que mais necessaria me era. Passaram mezes, e o vilipendio do ouro vinha regularmente ás mesmas horas, e no mesmo dia; mas uma palavra de amor, o pão do espirito, essa nunca. Eu aceitava o ouro porque tinha um marido que me culpava da minha pobreza; porque tinha um pae que me regalára a mocidade com magnificencias superiores ás suas posses; porque tinha um nome que as sombras do infortunio empanavam, como se a arvore de tronco illustre se atascasse no lodaçal da pobreza; porque tivera uma educação com que a penuria se não conformava; porque, finalmente, humilhada por parentes, começava a sentir-me despresivel aos meus proprios olhos. Depois de viuva, permaneci dous annos nas austeridades que raros exemplos me tinham ensinado. Contrafiz a minha indole para bem merecer a estima de Alvaro; esperei que elle fosse á minha soledade santificar a esmola com uma palavra de irmão. Se elle ahi tivesse ido, eu curvaria a cabeça diante do heroe, e pedir-lhe-ia licença para beijar a terra honrada pelas suas botas. Vim para Lisboa, depois de dous annos de humilhação; e pedi licença a minha tia, porque receei que meu primo, não saciado ainda da desforra, contrariasse a minha vontade, e me reduzisse a voltar ao ermo dos Olivaes por não ter com que comprar a vida luxuosa de Lisboa. Quer minha tia saber como eu denomino este acto de desesperação? É uma cousa que modernamente chamam «cynismo»; é aquillo que eu já disse—o despreso de mim propria. Agora vamos ao ponto da sua inesperada visita. E certo que eu amo um homem, que nasceu não sei de que mulher, e tem tanto a dizer-me das suas qualidades pessoaes que nunca fallou das qualidades dos seus avós. É pobre como eu. Não pede a ninguem o pão de cada dia; lavra-o com a sua intelligencia. E creia, minha tia, que elle acha quem lhe dê por duas horas de trabalho o que me não dariam a mim pelas pedras de armas da quinta que meu pae desbaratou. Este homem pobre é quem convém á mulher nas minhas circumstancias. Eu hoje comprehendo melhor as privações com um amigo do que as pompas na solidão. Tenho vinte e sete annos. E cedo para o claustro, e é tarde para esperar, no recato de donzella, que algum singular amante da Thebaida me vá procurar na minha obscuridade. Se minha tia me vem dizer que retira a sua esmola, beijo-lhe as mãos pelo que lhe devo, e beijaria as de meu primo tambem pela sua philantropia. Ámanhã voltarei para os Olivaes. É verdade que os bens que possuo estão hypothecados a uma antiga divida de meu pae a meu tio Manoel, e vossa excellencia póde mandal-os tomar como seus. Não importa. Está lá uma casinha, que eu mandei fazer para uma velha criada de minha avó. A velha morreu ha pouco, e testou-me a casinha, que os credores de certo não querem; irei lá viver.

Calou-se Leonor.

Maria da Gloria, já em pé, olhou com muita amargura a sobrinha, e disse:

—Foste injusta, Leonor. Devem até os anjos compadecer-se da alma injuriada de meu filho. Não te castigue Deus, que eu, em nome de Alvaro, te perdôo. Cumpre o teu destino, desgraçada; e, quando o remorso te perseguir no extremo refugio do que tu chamas «cynismo», foge para mim que eu te abrirei os braços.

Leonor não ergueu os olhos das alcatifas: era de soberba, e não de abatida, que ella desfitara a vista do magestoso aspecto de sua tia.

Sahiu Maria da Gloria, e não teve que dizer ao filho. Interrogada por elle, escassamente referia alguns dos queixumes de Leonor, como a necessidade d'um amigo, a negação para a vida solitaria, o cançasso do sofrimento, e a sympathia que a ligava ao homem, com quem desejava casar-se.

Alvaro apparentou natural placidez, e, n'outro ensejo em que fallavam sobre o mesmo motivo, disse:

—Esse homem julgará rica a prima Leonor?

—Cuido que não: elle deve saber que Leonor vive da beneficencia dos seus parentes.

—Hei-de sabel-o com certeza. Se o homem a ama pobre, e não conta com o beneplacito nem com os recursos dos parentes para o casamento, é um nobre caracter. Estou que a belleza de Leonor não fascina alguem...

—Como has-de tu sabel-o, filho. Conheces por ventura o homem?

—Conheço-lhe os escriptos, e recordo-me vagamente de o ter visto no collegio, nos meus ultimos tempos.

Foi Alvaro ao collegio, e fallou largo tempo com o seu antigo amigo, professor de inglez. Dias depois, procurou-o o mestre, e respondeu assim ao encargo, que recebera:

—Fallei com o jornalista. Aquillo é uma alma lavada como pedras de amolar! Apenas lhe toquei no assumpto, accendeu o cachimbo, cobriu as pernas com as abas do chambre de sêda desbotada, e refestelou-se na poltrona velha como um turco, para me dizer o seguinte: «Não ha duvida que eu namoro a viuva, primeiro porque é romantica, segundo porque é romantica, terceiro porque é romantica.»

—E porque é rica—atalhei eu.

—Ah! sim! e porque é rica: então é por quatro razões, e não por tres. Acho eu que vem a ser quatro as razões...

—Não, senhor, são simplesmente tres, porque a quarta é uma sem-razão. D. Leonor é pobre.

—Pobre! ora essa! conte-me isso, meu bom amigo!

Disse-lhe eu que a viuva vivia da beneficencia dos seus parentes, e que os parentes da viuva não estendiam a sua caridade até aos maridos inconvenientes das suas parentas necessitadas.

—Mas aquelle palacete dos Olivaes, que eu hontem fui vêr—redarguiu elle—e aquell'outro de ruinas tão poeticas; e aquellas duas quintas que se espreguiçam na margem do aurifero Tejo... que me diz o senhor a isto?

—Digo-lhe que os palacetes e as quintas não são mais da viuva que meus. Tudo aquillo está hypothecado, penhorado, consumido, &c., &c. Mas—conclui eu—as tres razões, que o meu nobre amigo expendeu, prevalecem, apesar de tudo. A viuva Sotto-Mayor é sem questão tres vezes romantica.

—Diz muito bem—acudiu elle:—o casamento ha-de fazer-se, quando eu for tres vezes romantico; mas, por em quanto, bem vê o meu caro mestre e amigo que eu laboro na prosa villôa do artigo de fundo.

—Quer dizer...

—Que hei-de abrir o meu coração á viuva, e a minha bolsa mesmo, se ella quizer. Se me não engano, a viuva é litterata, e sabe da seita philosophica, que tinha, como eu tenho, horror ao vacuo. Resta-me agradecer-lhe as tão espontaneas como miudas informações, e aqui estou ás ordens.

—Aqui tem o senhor Alvaro—continuou o professor de inglez—o que passei com o litterato Mascarenhas. Agora, peço perdão da liberdade com que expuz fielmente o texto da nossa conversação.

Alvaro, tendo contado a sua mãe o picaresco dialogo do litterato e do mestre de inglez, disse:

—Agora, minha mãe, esperemos. Não estão muito no meu genio estas encobertas operações; mas a intenção é salvar Leonor.

Mascarenhas foi á partida da viuva, como costumava. Nunca tão amorosa e manifestamente se revelara Leonor, a elle e aos hospedes maravilhados. Ao despedir-se do escriptor, disse-lhe ella:

—Extremamente desejo fallar-lhe ámanhã depois do meio dia. O cavalheiro de certo não falta.

—Oh! minha senhora!... quem quer faltar á sua propria dignidade!?

—E por que não diz «ao seu proprio coração...»?—retorquiu ella com despeitado sorriso.

—O coração, minha senhora, é tão de vossa excellencia, que não se atreve a entrar nos juizos do espirito...

Leonor achou conceituosa a razão alambicada do litterato, e esperou anciosa o dia seguinte.

—Vou responder—disse ella—cathegoricamente ás suas cartas. O pensamento reservado de todas ellas é uma ligação, que faça respeitavel e sagrada a paixão que o meu amigo encarece nas suas cartas, não é assim?

—Com que outro intento podia eu dirigir-me a vossa excellencia?!

—Bem! Resolvido está por tanto a ser meu marido?... Não lhe cause estranheza o estilo secco e desornado da pergunta... assim é preciso.

—Respondo, minha senhora. Primeiro que tudo, eu amo tanto vossa excellencia quanto a respeito. Acima d'estes dous sentimentos está o da amisade, que lhe dedico, e o da gratidão à benevolencia com que me tem distinguido em sua casa. Vossa excellencia não ama os grandes preambulos, e por isso vou já direito á materia sujeita. Se eu acceitasse a honra, que vossa excellencia me dá de querer alliar-se á minha vida, sacrifical-a-ia, minha senhora. O mesmo seria obrigal-a a trocar por um coração dedicado as regalias de que se está gozando com grande inveja das suas amigas. Que vale um coração dedicado em confronto do bem-estar, da segurança do dia seguinte, das considerações desveladas, que rodêam vossa excellencia?

—Elucide-me...—atalhou Leonor—A sua linguagem é escura!

—Escura é a existencia sem meios de a fazer brilhar, minha senhora. Eu sei, tambem como vossa excellencia, que os seus muitos recursos procedem da amisade d'uma tia millionaria, que vossa excellencia tem.

—Não ha duvida; mas eu não disse ainda a vossa senhoria que me dotava com estes recursos, e vossa senhoria, nas suas cartas, falla-me da felicidade da solidão, e da doçura do pão ganhado com o nobre trabalho da intelligencia.

—Tambem é certo—redarguiu algum tanto confuso o jornalista—era, porém, intento meu fazer o elogio da mediocridade em relação áquelles que não conheceram a opulencia. Neste caso não está vossa excellencia: estou eu; mas eu é que não devo sacrificar a felicidade real da senhora D. Leonor ás minhas phantasias de philosopho. Todavia...

—Queira dizer-me—interrompeu a viuva—a quem pediu informações dos meus recursos?

—Não as pedi, minha senhora: seria grandemente ignobil o pedil-as; não as averiguei; deram-m'as.

—Quem?

—Conhece vossa excellencia por ventura um mestre de inglez!?

—Conheço.

—Como conhece, minha senhora?

—Fallou-lhe esse homem em meu primo Alvaro Teixeira de Macedo?

—Não, minha senhora; limitou-se a dizer-me que vossa excellencia não tinha absolutamente nada que lhe segurasse a futura subsistencia, se contrahisse segundas nupcias contra vontade dos seus parentes.

Leonor ergueu-se, sahiu da sala pisando com soberana arrogancia, e o litterato ficou perplexo com os olhos cravados na porta por onde a vira sahir.

Instantes depois, entrou um criado de farda, e disse ao cavalheiro:

—Sua excellencia manda sahir.

Mascarenhas tomou o chapéo, e retirou-se tão affrontado como se tivesse espirito muito susceptivel ás injurias.

Leonor não recebeu alguém n'aquelle dia. O seguinte era o ultimo de Setembro de 1838. Eufemia era esperada com a mezada n'esse dia. Não era esperar, era ancear em phrenesis a agitação de Leonor.

Quando Eufemia entrou, estava a viuva vestida de preto, com o fato avelhentado do lucto de ha quatro annos e já de chapéo.

—A senhora vai sahir, e de lucto carregado?!—disse a criada—Que tem, senhora D. Leonor?! a menina tem febre!

—Trazes-me a esmola?—disse Leonor com desabrimento—Leva-a a tua ama, e ao teu amo. Diz-lhes mais que venham tomar conta do que esta casa encerra. Tudo isto não vale um terço do dinheiro, que recebi; mas é honra pagar pouco, e ficar sem nada. Diz a meu primo que esta nobre desgraçada repelle a mão bemfeitora que larga o ouro, e aperta o cabo do punhal com que se mata a dignidade dos infelizes. Diz a meu primo que o rotulo da sua caridade é um insulto a mim, que não lhe esmolei o seu ouro, ganhado sobre o balcão. Diz a minha virtuosa tia que a virtude não está sómente nos temperamentos de gelo, que facilmente são virtuosos. Diz isto. Agora, vai, ou fica.

Leonor ia a sahir, e Eufemia abraçou-se a ella, chamando soccorro, por julgal-a demente. Os criados vieram; mas recuaram ante o olhar imperioso de sua ama. Leonor sahiu a pé, só, com os olhos raiados de sangue, e o coração em convulsões. A longa distancia de casa, entrou n'uma sege de praça, e deu ordens ao boleeiro.

Eufemia contou o succedido. Maria da Gloria chorou, e pediu a Deus que não desamparasse da sua vista a perdida mulher. Alvaro ouviu serenamente repetirem-se os afrontamentos de sua prima, e parecia gozar-se dos novos espinhos, que lhe sangravam o coração.

—Esperemos...—disse elle a sua mãe.

N'aurez-vous point pitié, jeune homme?...Non, non, j'en ai le pressentiment,une ère nouvelle commence...

R. de LORGUES. (L. das Communas.)

Leonor, apeando no pateo do palacete dos Olivaes, chamou o feitor, e pediu a chave da casa da Luiza: por este nome era conhecida a casa que Leonor dera á sua velha criada, e herdara d'ella, mezes antes. A passo firme abriu a porta, fechou-se dentro, abriu os dous postigos envidraçados, e sentou-se no bahú, que estava aos pés da cama em que morrera a criada. Alli estava tudo como a fallecida o deixára, pobre, mas limpo, a não ser a capa de pó que assentara no verniz de alguns velhos moveis, que Leonor lhe dera. O feitor, se bem que prohibido de a seguir, teimou em vigial-a, suspeitoso do descuido em que a vira vestida, e do desconcerto do rosto. Afoutou-se a pedir-lhe que abrisse a porta, e entrou, rogando que não repellisse o seu velho servo, se estava afflicta. Leonor pediu-lhe um copo de agua, e a chave do bahú de Luiza, parte da herança que ella não tivera tempo de examinar, nem quizera dar a outras criadas, que lh'a pediam, como farrapagem inutil á herdeira.

Abriu Leonor o bahú, e entre a roupa branca, recendendo a alfazema, encontrou um embrulho de dinheiro em prata. «Isto é que é verdadeiramente meu, disse ella; posso com este legado da minha Luiza resistir á morte da fome por alguns dias.» Como o mordomo persistia em rondar as avenidas da casinha, Leonor deu-lhe dinheiro para lhe comprar um jantar como costumava ser o de Luiza, e accrescentou:

—Não cuide que isto é dinheiro de minha tia... É meu, que m'o deixou a minha criada. Achei-o no bahú. A boa velha, que criou minha mãe, economisou toda a sua vida para matar a fome de alguns dias á filha da sua ama, a Leonor de Brito, á ultima morgada dos Olivaes.

O tom d'este dizer dava azo a que o mordomo ia tivesse em conta de douda. Assim o creu, e mandou aviso a Maria da Gloria.

Alli passou o restante do dia. Ao trazerem-lhe o jantar, recebeu-o por um dos postigos, e tomou d'elle o prato menos exquisito, uma pouca de vacca, dizendo que não tinha posses para mais. Pernoitou no leito de Luiza, e abriu alta noite as janellas porque sentiu aquelle especial e nauseabundo cheiro das exhalações cadavericas.

De madrugada, abriu a porta, e sentou-se no unico degrau. Estava abrazada em febre, e, a intervallos, deixava pender para o seio a cabeça extenuada de vagados. Quando presentiu passos nos arredores da casa, recolheu-se e fechou a porta: era o feitor, que passara a noite velando a casinha onde dormia a filha de seus amos.

A febre abrazou-se até ao delirio. Leonor prostrou-se na barra, e sacudia vertiginosamente os braços e a roupa. O feitor chamou criados, arrombou a porta, e collocou sua mulher ao pé do leito da febricitante. Como recobrasse alentos, e se visse rodeada de gente pobre da aldêa, Leonor sorriu a todos, e pediu que a deixassem. Queria ficar de força a mulher do mordomo; ella, porém, tão affligida se mostrou da contrariedade, que conseguiu ficar sósinha. Ergueu-se, cambaleando aturdida, e trancou a porta, porque a fechadura tinha saltado aos empuxões de fóra.

Depois, abriu o bahú, tirou o cesto de costura da criada, e experimentou na extremidade do dedo indicador da mão esquerda a ponta d'uma tesoura. Feita a experiencia e ensanguentado o dedo, escreveu no verso de um papel sellado, que era a certidão de idade da defunta criada, as seguintes palavras, com a cabeça de um alfinete:

«A minha tia Maria da Gloria.«Não posso com a dependencia, nem tive educação para agenciar a independencia com o meu trabalho. Matei-me d'uma só vez para não morrer mil vezes, aceitando esmolas com a condição de me fazer escrava d'ellas. Dou louvores a Deus por me ter defendido de alguma tentação deshonrosa, até cahir n'esta desgraça. A minha memoria será longo tempo escarmento para infelizes; mas não será vexame para os meus parentes. Agradeço o bem que me fez minha tia; e sinto não ter tido uma alma bastante vil para se não conhecer aviltada. Escrevo no meu perfeito juizo.Leonor de Brito.»

«A minha tia Maria da Gloria.

«Não posso com a dependencia, nem tive educação para agenciar a independencia com o meu trabalho. Matei-me d'uma só vez para não morrer mil vezes, aceitando esmolas com a condição de me fazer escrava d'ellas. Dou louvores a Deus por me ter defendido de alguma tentação deshonrosa, até cahir n'esta desgraça. A minha memoria será longo tempo escarmento para infelizes; mas não será vexame para os meus parentes. Agradeço o bem que me fez minha tia; e sinto não ter tido uma alma bastante vil para se não conhecer aviltada. Escrevo no meu perfeito juizo.

Leonor de Brito.»

Dobrou o papel, e collocou-o sobre a mesa em que o escrevera. Arregaçou a manga do vestido, e cravou a ponta da tesoura no sangradouro do braço esquerdo. Como a cisura apenas revesse o sangue, ligou e comprimiu o braço com uma tira de lençol. O sangue espirrou com força; e, de o ver, turvou-se-lhe o animo de modo que já não pôde passar á cama.

Era á hora do jantar. A mulher do feitor batera e chamára sobresaltada; o marido veio depós ella, e quebrou os caixilhos das vidraças, por onde saltou dentro.

Estava Leonor cahida no pavimento. O braço nú gotejava sangue, que salpicava e fazia rego no soalho. Tomou-a nos braços, e levou-a sem sentidos ao leito. Sondou-lhe o pulso, e achou-a viva. Mandou chamar o cirurgião, que morava a um quarto de legua, e vedou-lhe o sangue com pannos adhesivados e compressas.

De repente, deram passagem a alguem os muitos visinhos, que alli chamara a gritaria da mulher do feitor, e se agrupavam á porta: era Alvaro Teixeira.

Foi direito á barra, onde Leonor arquejava, com a vista terrivel de mortal espasmo.

—Leonor! minha prima!—exclamou elle—passando-lhe a mão na fronte—Que sangue é este?!—bradou, vendo as compressas tingidas.

—É que a senhora morgada abriu a veia do braço com uma tesoura...—disse o feitor.

—A minha carruagem depressa aqui!—bradou Alvaro—Ajudem-me a transportal-a.

Tomou-a elle em todo o peso nos braços, fez entrar a mulher do feitor na carruagem, e, com o auxilio d'ella, pôde encostar Leonor ao respaldo, e, com duas cadeiras, formou-lhe apoio para o restante do corpo. Recebeu das mãos do mordomo o papel escripto com sangue, leu-o quanto as lagrimas lhe permittiam, e mandou seguir a carruagem para Lisboa, a passo.

A meio caminho, Leonor reconheceu seu primo, e estremeceu. Fitou os olhos esgazeados nas compressas, e agitou o braço direito como se tentasse arrancar o apparelho. Alvaro segurou-lhe o braço, e disse:

—Que queres fazer, minha prima?! Espera mais algum tempo... Morre, quando me não vires n'este mundo... Deixa-me viver, e vive tu, o tempo necessario para ires d'este teu inferno com a certeza de que eu te amei sempre...

Dilataram-se os labios roxos de Leonor n'um gesto que podéra chamar-se um sorriso, e murmurou:

—Um cadaver...

Alvaro tomou para o peito a cabeça, outra vez, desfallecida de Leonor, e chorou-lhe sobre a face algumas d'aquellas lagrimas, que são no coração humano, como o alimento, a seiva das ultimas esperanças.

E contemplou-a.

Nunca mais a vira desde aquella noite de Julho de 1832. D'aquelle viço esplendido, d'aquella belleza viva e irrequieta, da exuberancia de vida que lhe sahia aos olhos em faiscas e em risos expansivos aos labios, restava a pelle cortada dos ardores da febre, os ossos descarnados, o pallor da agonia, e a desfiguração inteira de todas as feições. E parecia absorvido n'aquelle atormentador enlevo! A expressão dos seus olhos não a soube dizer elle mesmo! Fôra-lhe aquella uma infernal hora de cujas sensações a alma, desmemoriada de tamanho horror, não guardou lembrança.

A carruagem parou á porta de Alvaro. Maria da Gloria e as suas criadas, chamadas pelo desvariado moço, desceram ao pateo, e ajudaram a tirar Leonor, e leval-a a um leito.

—Creio que vem morta...—disse Alvaro—e sahiu para logo voltar com dous medicos. Do exame rapido que estes fizeram, concluiram por esperanças de vida; mas vida de continuados padecimentos, disseram elles.

—A vida da alma—dizia Alvaro com assombro dos medicos—deem-lhe a vida da alma, que eu quero que ella me veja, e me julgue antes de morrer! Um corpo varado de dores, não importa; mas um espirito com a luz da razão!

E, fallando assim, erguia as mãos supplicantes aos medicos. D'estes dizia um ao outro com o frio desdem da sciencia:

—Espirito sem luz de razão creio eu que é o d'elle.

E o outro bamboando sinistramente a cabeça, dizia ao ouvido do collega que Leonor perdera em sangue o que Alvaro perdera em sizo.

Maria da Gloria, a martyr sem treguas, andava repartida entre Deus, e o filho, e Leonor. Invocava o Altissimo pedindo-lhe a vida da sobrinha, que chamava e beijava, cuidando que o halito dos seus labios lhe coavam vida; abraçava-se ao filho alvoroçado, rogando-lhe que esperasse em Deus o salvamento da prima.

Leonor descerrou os olhos quebrantados, mas serenos. Reconheceu a tia e comprimiu-lhe a mão, que sentiu na sua; fitou-os com doçura em Alvaro, e balbuciou:

—Salvam-me as tuas lagrimas, meu amigo!... Pobre Alvaro!... o que tu tens penado!...

Não se enganaram os medicos. A vida voltou lentamente a Leonor, mas jamais a saude. Afrouxaram-lhe os musculos motores de todas as articulações; generalisou-se a enervação, a atrophia, e a frialdade, excepto na cabeça, de que se ella queixava como de fogo que lhe estivesse calcinando as fontes. A isto succederam espasmos, senão antes intermittentes de paralysia em parte dos vasos sanguineos, que formam o coração. O ancear d'estas horas era angustissimo.

Maria da Gloria e Alvaro revesavam-se ao pé do seu leito. Um e outro, conversando, chamavam-lhe o espirito ás ridentes imagens d'uma esperançosa viagem que os tres fariam aos locaes mais pittorescos da Italia. Leonor agradecia-lhes, com sinceras lagrimas de remorso, o amor com que velavam os seus longos paroxismos, e dizia que a viagem a fazer era certa, e de encantadoras visões para sua virtuosa tia e primo; mas não para ella.

É bem de vêr que então a mãe de Alvaro se desentranhava em encarecimentos á misericordia divina, convidando a sobrinha a rezar com ella as orações que soror Joanna das Cinco Chagas lhe ensinára. E Leonor rezava, e com ardente fé, e muito pranto, em cujo espectaculo o coração de Maria da Grioria se embriagava de santas delicias.

Alvaro simulava jovial semblante a sua prima. Fechado, porém, no seu quarto, desafogava chorando, ou escrevendo paginas de muitissima tristeza, mixto de saudade e desespero, saudade da Leonor da sua mocidade, e desespero de não poder tornal-a á belleza de alma e de feições, perdidas para sempre. Cegueira da sua paixão! Alma, com as bellezas da innocencia, quando a teve a fatidica Leonor? Ai! a belleza das fórmas essa é que não ha olhos enxutos que a vejam fenecer de hora a hora; essa é que influe ao animo um pungimento de saudade tão vivo, que eu não sei se ha dor a igualar-se áquella saudade da perdida formosura da mulher que amamos, perdida tambem para nós, no instante em que mais fervorosa adoração lhe da vamos!...

O primeiro dia em que Leonor sahiu do leito, foi festejado não com bailes nem banquetes, mas com liberalidades de esmolas, levadas por Alvaro, de ordem de sua mãe, a muitas familias indigentes, que a denominavam anjo de beneficencia, e gloria do céo. A todos os conventos de religiosas pobres, ou empobrecidas pela mudança do regimen, enviava Maria mensalmente uma delicada dadiva, e Alvaro tinha de sua mão soccorrer alguns egressos, que corriam de noite as ruas de Lisboa, estendendo a mão á caridade indifferente d'aquelles primeiros annos rancorosos do velho odio civil.

Com o lento crescer de forças, accedeu Leonor ao empenho de Alvaro e sua tia: sahiram de Lisboa no estio, correram as provincias do norte, e visitaram Vairão, onde Cecilia, sempre saudosa da sua cella, se deixou ficar esperando a morte bemaventurada dos que a esperam ao pé do altar. Nas visinhanças de Hespanha, Maria da Gloria, desde muito valetudinaria, e então muito quebrantada, causou receios a seu filho, e retrocedeu para Lisboa. Aqui, melhorou de aspecto, e transferiu a sua residencia para a quinta do valle de Santarem.

Leonor escassamente se vigorisára para um curto passeio. Tinha semanas de soffrer e chorar, pedindo a Deus que lhe tirasse a vida. Alvaro era o consolador d'estes desconfortos, umas vezes rodeando-a de improficuas juntas de medicos, outras abalando-lhe o espirito com alegres esperanças. Perguntava-lhe se a convivencia com as suas relações lhe seria desagradavel; experimentou, apesar d'ella, chamando alguns parentes e amigos ao campo, e preenchendo as horas tristes, que lá se vivem, com o que podia inventar o seu espirito attento a minorar as amarguras da inconsolavel doente: inutil tudo, Leonor rogou a seu primo que a não obrigasse a esconder os seus soffrimentos de pessoas estranhas; que a deixasse gozar os instantes de allivio na companhia d'elle e de sua mãe.


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