IX

Ora já cá temos o senhor parochoNos chás da S. Joanneira.Isto já parece outra coisa,Volta a bella cavaqueira!Houve palmas. E a S. Joanneira, toda banhada de riso:—Ai, tem sido uma ingratidão d'elle!—Uma ingratidão, diz a senhora? rosnou o conego. Uma casmurrice, digo eu!Amelia não fallava, com as faces abrazadas, os olhos humidos pasmados para o padre Amaro—a quem tinham dado a poltrona do conego, e que se repoltreava n'ella, tumido de gozo, fazendo rir as senhoras pelas pilherias com que contava os desleixos da Vicencia.João Eduardo, isolado a um canto, ia folheando o velho album.IXAssim recomeçou a intimidade de Amaro na rua da Misericordia. Jantava cedo, depois lia o seu Breviario; e apenas na igreja batiam as sete horas, embrulhava-se no seu capote e dava volta pela Praça passando rente da botica, onde os frequentadores caturravam, com as mãos molles apoiadas ao cabo dos guardachuvas. Mal avistava a janella da sala de jantar alumiada, todos os seus desejos se erguiam; mas ao toque agudo da campainha sentia ás vezes um susto indefinido d'achar a mãi já desconfiada ou Amelia mais fria!... Mesmo por superstição entrava sempre com o pé direito.Encontrava já as Gansosos, a D. Josepha Dias; e o conego, que jantava agora muito com a S. Joanneira, e que áquella hora, estirado na poltrona, findava a sua somneca, dizia-lhe bocejando:—Ora viva o menino bonito!Amaro ia sentar-se ao pé d'Amelia que costurava á mesa; o olhar penetrante que se trocavam era todos os dias como o mutuo juramento mudo que o seu amor crescera desde a vespera; e ás vezes mesmo, debaixo da mesa, roçavam os joelhos com furor. Começava então a «cavaqueira». Eram sempre os mesmos interessesinhos, as questões que iam na Misericordia, o que dissera o senhor chantre, o conego Campos que despedira a criada, o que se rosnava da mulher do Novaes...—Mais amor do proximo! resmungava o conego mexendo-se na poltrona. E com um arrôto curto tornava a cerrar as palpebras.Então as botas de João Eduardo rangiam na escada, e Amelia immediatamente abria a mesinha para a partida demanilha: os parceiros eram a Gansoso, D. Josepha, o parocho: e como Amaro jogava mal, Amelia, que eramestra, sentava-se por detraz d'elle para o «guiar». Logo ás primeiras vasas havia altercações. Então Amaro voltava o rosto para Amelia, tão perto que confundiam os seus halitos.—Esta? perguntava, indicando a carta com o olho languido.—Não! não! espere, deixe vêr, dizia ella, vermelha.O seu braço roçava o hombro do parocho: Amaro sentia o cheiro da agua de colonia que ella usava com exagero.Defronte, ao pé de Joaquina Gansoso, João Eduardo,mordicando o bigode, contemplava-a com paixão; Amelia, para se desembaraçar d'aquelles dois olhos langorosos fitos n'ella, tinha-lhe dito por fim «que até era indecente, diante do parocho que era de ceremonia, estar assim a cocal-a toda a noite».Ás vezes mesmo dizia-lhe, rindo:—Ó snr. João Eduardo, vá conversar com a mamã, senão têmol-a aqui têmol-a a dormir.E João Eduardo ia sentar-se ao pé da S. Joanneira, que, de lunetas na ponta do nariz, fazia somnolentamente a sua meia.Depois do chá Amelia sentava-se ao piano. Causava então enthusiasmo em Leiria uma velha canção mexicana, aChiquita. Amaro achava-ade appetite; e sorria de gozo, com os seus dentes muito brancos, apenas Amelia começava com muita languidez tropical:Quando sali de la HabanaValga-me Dios!...Mas Amaro amava sobretudo a outra estrophe, quando Amelia, com os dedos frouxos no teclado, o busto deitado para traz, rolando os olhos ternos, em movimentos dôces de cabeça, dizia toda voluptuosa, syllabando o hespanhol:Si á tua ventana llegaUna paloma,Trata-la com cariño,Que es mi persona.E como a achava graciosa, creoula, quando ella gorgeava:Ay chiquita que si,Ay chiquita que no-o-o-o!Mas as velhas reclamavam-o para continuar amanilha, e elle ia sentar-se, cantarolando as ultimas notas, com o cigarro ao canto da boca, os olhos humidos de felicidade.Ás sextas-feiras era a grande partida. A snr.aD. Maria da Assumpção apparecia sempre com o seu bello vestido de sêda preta: e como era rica e tinha parentela fidalga davam-lhe com deferencia o melhor logar ao pé da mesa—que ella ia occupar, meneando pretenciosamente os quadris, comruge-rugesde sêda. Antes do chá a S. Joanneira levava-a sempre ao seu quarto, onde guardava para ella uma garrafa de geropiga velha: e alli as duas amigas tagarellavam muito tempo, sentadas em cadeirinhas baixas. Depois Arthur Couceiro, cada dia mais chupado e mais tisico, cantava ofadonovo que compuzera, chamado oFado da Confissão; eram quadras feitas para regalar aquella piedosa reunião de saias e de batinas:Na capellinha do amor,No fundo da sacristia,Ao senhor padre CupidoConfessei-me n'outro dia...Vinha depois a confissão de peccadinhos dôces, um acto de contrição de amor, uma penitencia terna:Seis beijinhos de manhã,De tarde um abraço só...E p'ra acalmar dôces chammasJejuar a pão de ló.Aquella composição galante e devota fôra muito apreciada na sociedade ecclesiastica de Leiria. O senhor chantre pedira uma cópia, e perguntára, referindo-se ao poeta:—Quem é o habil Anacreonte?E informado que era o escrevente da administração, fallou d'elle com tanto apreço á esposa do senhor governador civil, que Arthur obteve a gratificação de oito mil reis, que havia annos implorava.Áquellas reuniões nunca faltava o Libaninho. A sua ultima pilheria era furtar beijos á snr.aD. Maria da Assumpção; a velha escandalisava-se muito alto, e abanando-se com furor atirava-lhe de revez um olhar guloso. Depois o Libaninho desapparecia um momento, e entrava com uma saia d'Amelia vestida, uma touca da S. Joanneira, fingindo uma chamma lubrica por João Eduardo—que, entre as risadas agudas das velhas, recuava, muito escarlate. Brito e Natario vinham ás vezes: formava-se então um grandequino. Amaro e Amelia ficavam sempre juntos; e toda a noite, com os joelhos collados, ambos vermelhos, permaneciam vagamente entorpecidos no mesmo desejo intenso.Amaro sahia sempre de casa da S. Joanneira mais apaixonado por Amelia. Ia pela rua devagar, ruminando com gozo a sensação deliciosa que lhe dava aquelle amor—uns certos olhares d'ella, o arfar desejoso do seu peito, os contactos lascivos dos joelhos e das mãos. Em casa despia-se depressa, porque gostava de pensar n'ella, ás escuras, atabafadonos cobertores; e ia percorrendo em imaginação, uma a uma, as provas successivas que ella lhe dera do seu amor, como quem vai aspirando uma e outra flôr, até que ficava como embriagado d'orgulho: era a rapariga mais bonita da cidade! e escolhera-o a elle, a elle padre, o eterno excluido dos sonhos femininos, o sêr melancollico e neutro que ronda como um sêr suspeito á beira do sentimento! Á sua paixão misturava-se então um reconhecimento por ella; e com as palpebras cerradas murmurava:—Tão boa, coitadinha, tão boa!Mas na sua paixão havia ás vezes grandes impaciencias, Quanto tinha estado, durante tres horas da noite, recebendo o seu olhar, absorvendo a voluptuosidade que se exhalava de todos os seus movimentos,—ficava tão carregado de desejos que necessitava conter-se «para não fazer um disparate alli mesmo na sala, ao pé da mãi». Mas depois, em casa, só, torcia os braços de desespero: queria-a alli de repente, offerecendo-se ao seu desejo: fazia então combinações—escrever-lhe-hia, arranjariam uma casita discreta para se amarem, planeariam um passeio a alguma quinta! Mas todos aquelles meios lhe pareciam incompletos e perigosos, ao recordar o olho finorio da irmã do conego, as Gansosos tão mexeriqueiras! E diante d'aquellas difficuldades que se erguiam como as muralhas successivas d'uma cidadella,voltavam as antigas lamentações: não ser livre! não poder entrar claramente n'aquella casa, pedil-a á mãi, possuil-a sem peccado, commodamente! Porque o tinham feito padre? Fôra «a velha pêga» da marqueza de Alegros! Elle não abdicára voluntariamente a virilidade do seu peito! Tinham-o impellido para o sacerdocio como um boi para o curral!Então, passeando excitado pelo quarto, levava as suas accusações mais longe, contra o Celibato e a Igreja: porque prohibia ella aos seus sacerdotes, homens vivendo entre homens, a satisfação mais natural, que até têm os animaes? Quem imagina que desde que um velho bispo diz—serás casto—a um homem novo e forte, o seu sangue vai subitamente esfriar-se? e que uma palavra latina—accedo—dita a tremer pelo seminarista assustado, será o bastante para conter para sempre a rebellião formidavel do corpo? E quem inventou isso? Um concilio de bispos decrepitos, vindos do fundo dos seus claustros, da paz das suas escólas, mirrados como pergaminhos, inuteis como eunucos! Que sabiam elles da Natureza e das suas tentações? Que viessem alli duas, tres horas para o pé da Ameliasinha, e veriam, sob a sua capa de santidade, começar a revoltar-se-lhe o desejo! Tudo se illude e se evita, menos o amor! E se elle é fatal, porque impediram então que o padre o sinta, o realise com pureza e com dignidade? É melhor talvez que o vá procurar pelas viellas obscenas!—Porque a carne é fraca!A carne! Punha-se então a pensar nos tres inimigosda alma—Mundo,DiaboeCarne. E appareciam á sua imaginação em tres figuras vivas: uma mulher muito formosa; uma figura negra d'olho de braza e pé de cabra; e omundo, coisa vaga e maravilhosa (riquezas, cavallos, palacetes)—de que lhe parecia uma personificação sufficiente o senhor conde de Ribamar! Mas que mal tinham elles feito á sua alma? O diabo nunca o vira; a mulher formosa amava-o e era a unica consolação da sua existencia; e do mundo, do senhor conde, só recebera protecção, benevolencia, tocantes apertos de mão... E como poderia elle evitar as influencias da Carne e do Mundo? A não ser que fugisse, como os santos d'outr'ora, para os areaes do deserto e para a companhia das feras! Mas não lhe diziam os seus mestres no seminario que elle pertencia a uma Igreja militante? O ascetismo era culpado, sendo a deserção d'um serviço santo.—Não comprehendia, não comprehendia!Procurava então justificar o seu amor com exemplos dos livros divinos. A Biblia está cheia de nupcias! Rainhas amorosas adiantam-se nos seus vestidos recamados de pedras; o noivo vem-lhe ao encontro, com a cabeça coberta de faxas de linho puro, arrastando pelas pontas um cordeiro branco; os levitas batem em discos de prata, gritam o nome de Deus; abrem-se as portas de ferro da cidade para deixar passar a caravana que leva os bem esposados; e as arcas de sandalo onde vão os thesouros do dote rangem, amarradas com cordas de purpura, sobre o dorso dos camêlos! Os martyres no circo casam-se n'umbeijo, sob o bafo dos leões, ás acclamações da plebe! Jesus mesmo não vivêra sempre na sua santidade inhumana; era frio e abstracto nas ruas de Jerusalem, nos mercados do Bairro de David; mas lá tinha o seu logar de ternura e de abandono em Bethania, sob os sycomoros do Jardim de Lazaro; alli, emquanto os magros nazarenos seus amigos bebem o leite e conspiram á parte, elle olha defronte os tectos dourados do templo, os soldados romanos que jogam o disco ao pé da Porta de Ouro, os pares amorosos que passam sob os arvoredos de Gethesemani—e pousa a mão sobre os cabellos louros de Martha, que ama e fia a seus pés!O seu amor era pois uma infracção canonica, não um peccado da alma: podia desagradar ao senhor chantre, não a Deus: seria legitimo n'um sacerdocio de regra mais humana. Lembrava-se de se fazer protestante: mas onde, como? Parecia-lhe mais extraordinariamente impossivel que transportar a velha Sé para cima do monte do Castello.Encolhia então os hombros, escarnecendo toda aquella vaga argumentação interior. «Philosophia e palhada»! Estava doido pela rapariga,—era o positivo. Queria-lhe o amor, queria-lhe os beijos, queria-lhe a alma... E o senhor bispo se não fosse velho faria o mesmo, e o Papa faria o mesmo!Eram ás vezes tres horas da manhã, e ainda passeava no quarto, fallando só.Quantas vezes João Eduardo, passando alta noite pela rua das Sousas, tinha visto na janella do parocho uma luz amortecida! Porque ultimamente João Eduardo, como todos que têm um desgosto amoroso, tomára o habito triste de andar até tarde pelas ruas.O escrevente, logo desde os primeiros tempos, percebêra a sympathia de Amelia pelo parocho. Mas conhecendo a sua educação e os habitos devotos da casa, attribuia aquellas attenções quasi humildes com Amaro ao respeito beato pela sua batina de padre, pelos seus privilegios de confessor.Instinctivamente porém começou a detestar Amaro. Sempre fôra inimigo de padres! achava-os um «perigo para a civilisação e para a liberdade»; suppunha-os intrigantes, com habitos de luxuria, e conspirando sempre para restabelecer «as trevas da meia idade»; odiava a confissão que julgava uma arma terrivel contra a paz do lar; e tinha uma religião vaga—hostil ao culto, ás rezas, aos jejuns, cheia de admiração pelo Jesus poetico, revolucionario, amigo dos pobres, e «pelo sublime espirito de Deus que enche todo o Universo»! Só desde que amava Amelia é que ouvia missa, para agradar á S. Joanneira.E desejaria sobretudo apressar o casamento para tirar Amelia d'aquella sociedade de beatas e padres,receando ter mais tarde uma mulher que tremesse do inferno, passasse horas a rezar estações na Sé, e se confessasse aos padres «que arrancam ás confessadas os segredos d'alcova»!Quando Amaro voltára a frequentar a rua da Misericordia, ficou contrariado. «Cá temos outra vez o marmanjo»! pensou. Mas que desgosto, quando reparou que Amelia tratava agora o parocho com uma familiaridade mais terna, que a presença d'elle lhe dava visivelmente uma animação singular, «e que havia uma especie de namoro»! Como ella se fazia vermelha, mal elle entrava! Como o escutava, com uma admiração babosa! Como arranjava sempre a ficar ao pé d'elle nas partidas dequino!Uma manhã, mais inquieto, veio á rua da Misericordia,—e emquanto a S. Joanneira tagarellava na cozinha, disse bruscamente a Amelia:—Menina Amelia, sabe? Está-me a dar um grande desgosto com essas maneiras com que trata o senhor padre Amaro.Ella ergueu os olhos muito espantados:—Que maneiras?! Ora essa! então como quer que o trate? É um amigo da casa, esteve aqui d'hospede...—Pois sim, pois sim...—Ah! mas socegue. Se isso o quezila, verá. Não me torno a chegar ao pé do homem.João Eduardo, tranquillisado, raciocinou—que «não havia nada». Aquelles modos eram excessos de beaterio. Enthusiasmo pela padraria!Amelia decidiu então disfarçar o que lhe ia no coração: sempre considerára o escrevente um pouco tapado—e se elle percebêra, que fariam as Gansosos tão finas, e a irmã do conego que era cortida em malicia! Por isso mal sentia Amaro na escada, d'ahi por diante, tomava uma attitude distrahida, muito artificial: mas, ai! apenas elle lhe fallava com a sua voz suave ou voltava para ella aquelles olhos negros que lhe faziam correr estremeções nos nervos,—como uma ligeira camada de neve que se derrete a um sol muito forte a sua attitude fria desapparecia, e toda a sua pessoa era uma expressão continua de paixão. Ás vezes, absorvida no seu enlevo, esquecia que João Eduardo estava alli; e ficava toda surprehendida quando ouvia a um canto da sala a sua voz melancolica.Ella sentia de resto que as amigas da mãi envolviam a sua «inclinação» pelo parocho n'uma approvação muda e affavel. Elle era, como dizia o conego, o menino bonito: e das maneirinhas e dos olhares das velhas exhalava-se uma admiração por elle que fazia ao desenvolvimento da paixão d'Amelia uma atmosphera favoravel. D. Maria da Assumpção dizia-lhe ás vezes ao ouvido:—Olha para elle! É d'inspirar fervor. É a honra do clero. Não ha outro!...E todas ellas achavam João Eduardo «um presta-p'ra-nada»! Amelia então já não disfarçava a sua indifferença por elle: as chinelas que lhe andava a bordar tinham ha muito desapparecido do cestodo trabalho, e já não vinha á janella vel-o passar para o cartorio.A certeza agora tinha-se estabelecido na alma de João Eduardo—na alma, que, como elle dizia, lhe andava mais negra que a noite.—A rapariga gosta do padre, tinha elle concluido. E á dôr da sua felicidade destruida juntava-se a afflicção pela honra d'ella ameaçada.Uma tarde, tendo-a visto sahir da Sé, esperou-a adiante da botica, e muito decidido:—Eu quero-lhe fallar, menina Amelia... Isto não póde continuar assim... Eu não posso... A menina traz namoro com o parocho!Ella mordeu o beiço, toda branca:—O senhor está a insultar-me!—E queria seguir, indignada.Elle reteve-a pela manga do casabeque:—Ouça, menina Amelia. Eu não a quero insultar, mas é que não sabe... Tenho andado, que até se me parte o coração!—E perdeu a voz, de commovido.—Não tem razão... Não tem razão... balbuciava ella.—Jure-me então que não ha nada com o padre!—Pela minha salvação!...Não ha nada!... Mas tambem lhe digo, se torna a fallar em tal, ou a insultar-me, conto tudo á mamã, e o senhor escusa de nos voltar a casa.—Oh, menina Amelia...—Não podemos continuar aqui a fallar... Está alli já a D. Michaela a cocar...Era uma velha, que levantára a cortina de cassa n'uma janella baixa, e espreitava com olhinhos reluzentes e gulosos, a face toda resequida encostada sôfregamente á vidraça. Separaram-se então—e a velha desconsolada deixou cahir a cortina.Amelia n'essa noite—emquanto as senhoras discutiam com algazarra os missionarios que então prégavam na Barrosa—disse baixo a Amaro, picando vivamente a costura:—Precisamos ter cautela... Não olhe tanto para mim nem esteja tão chegado... Já houve quem reparasse.Amaro recuou logo a cadeira para junto de D. Maria da Assumpção; e, apesar da recommendação d'Amelia, os seus olhos não se despregavam d'ella, n'uma interrogação muda e anciosa, já assustado que as desconfianças da mãi ou a malicia das velhas «andassem armando escandalo». Depois do chá, no rumor das cadeiras que se accommodavam aoquino, perguntou-lhe rapidamente:—Quem reparou?—Ninguem. Eu é que tenho medo. É preciso disfarçar.Desde então cessaram as olhadellas dôces, os logares chegadinhos á mesa, os segredos; e sentiam um gozo picante em affectar maneiras frias, tendo a certeza vaidosa da paixão que os inflammava. Era para Amelia delicioso—emquanto o padre Amaroafastado tagarellava com as senhoras—adorar a sua presença, a sua voz, as suas graças, com os olhos castamente applicados ás chinelas do João Eduardo que muito astutamente recomeçára a bordar.Todavia o escrevente vivia ainda inquieto: amargurava-o encontrar o parocho installado alli todas as noites, com a face próspera, a perna traçada, gozando a veneração das velhas. «A Ameliasinha, sim, agora portava-se bem, e era-lhe fiel, era-lhe fiel...»: mas elle sabia que o parocho a desejava, a «cocava»; e apesar do juramento d'ellapela sua salvação,da certezaque não havia nada—temia que ella fosse lentamente penetrada por aquella admiração caturra das velhas, para quem o senhor parochoera um anjo: só se contentaria em arrancar Amelia (já empregado no governo civil) áquella casa beata: mas essa felicidade tardava a chegar—e sahia todas as noites da rua da Misericordia mais apaixonado, com a vida estragada de ciumes, odiando os padres, sem coragem para desistir. Era então que se punha a andar pelas ruas até tarde; ás vezes voltava ainda vêr as janellas fechadas da casa d'ella; ia depois á alameda ao pé do rio, mas o frio ramalhar das arvores sobre a agua negra entristecia-o mais; vinha então ao bilhar, olhava um momento os parceiros carambolando, o marcador, muito esguedelhado, que bocejava encostado aoreste. Um cheiro de mau petroleo suffocava. Sahia; e dirigia-se, devagar, á redacção daVoz do Districto.XO redactor daVoz do Districto, o Agostinho Pinheiro, era ainda seu parente. Chamavam-lhe geralmente oRachitico, por ter uma forte corcunda no hombro e uma figurinha enfezada d'hectico. Era extremamente sujo; e a sua carita de femea, amarellada, d'olhos depravados, revelava vícios antigos, muito torpes. Tinha feito (dizia-se em Leiria) toda a sorte de maroteira. E ouvira tantas vezes exclamar: «Se vossê não fosse um rachitico, quebrava-lhe os ossos»—que, vendo na sua corcunda uma protecção sufficiente, ganhára um descaro sereno. Era de Lisboa, o que o tornava mais suspeito aos burguezes sérios: attribuia-se a sua voz rouca e acre «a fartar-lhe as campainhas»: e os seus dedos queimadosterminavam em unhas muito compridas—porque tocava guitarra.AVoz do Districtofôra creada por alguns homens, a quem chamavam em Leiria ogrupo da Maia, particularmente hostis ao senhor governador civil. O doutor Godinho, que era o chefe e o candidato dogrupo, tinha encontrado em Agostinho, como elle dizia, ohomem que se precisa: o que ogrupoprecisava era um patife com orthographia, sem escrupulos, que redigisse em linguagem sonora os insultos, as calumnias, as allusões que elles traziam informemente á redacção, em apontamentos. Agostinho era um estylista de vilezas. Davam-lhe quinze mil reis por mez e casa de habitação na redacção—um terceiro andar desmantelado n'uma viella ao pé da Praça.Agostinho fazia o artigo de fundo, as locaes, aCorrespondenciade Lisboa; e o bacharel Prudencio escrevia o folhetim litterario sob o titulo dePalestras Leirienses: era um moço muito honrado, a quem o snr. Agostinho era repulsivo; mas tinha uma tal gula de publicidade, que se sujeitava a sentar-se todos os sabbados fraternalmente á mesma banca, a revêr as provas da sua prosa—prosa tão florida de imagens, que se murmurava na cidade, ao lêl-a: «Que opulencia! Que opulencia, Jesus!»João Eduardo reconhecia tambem que o Agostinho era «um trastesito»; não se atreveria a passear com elle de dia nas ruas; mas gostava de ir para a redacção, alta noite, fumar cigarros, ouvir o Agostinhofallar de Lisboa, do tempo que lá vivêra empregado na redacção de dois jornaes, no theatro da rua dos Condes, n'uma casa de penhores, e em outras instituições. Estas visitas eramsegredos!Áquella hora da noite a sala da typographia no primeiro andar estava fechada (o jornal tirava-se aos sabbados); e João Eduardo encontrava em cima Agostinho abancado, com uma velha jaqueta de pelles cujos colchetes de prata tinham sido empenhados—ruminando, curvado, á luz d'um medonho candieiro de petroleo, sobre longas tiras de papel: estava fazendo o jornal, e a sala escura em redor tinha o aspecto d'uma caverna. João Eduardo estirava-se no canapé de palhinha, ou indo buscar a um canto a velha guitarra de Agostinho repenicava ofado corrido. O jornalista no emtanto, com a testa apoiada a um punho, produzia laboriosamente: «a coisa não lhe sahia catita»: e como nem ofadinhoo inspirava, erguia-se, ia a um armario engulir um copinho de genebra que gargarejava nas fauces estanhadas, espreguiçava-se escancaradamente, accendia o cigarro, e aproveitando o acompanhamento cantarolava roucamente:Ora foi o fado tyrannoQue me levou á má vida,E a guitarra: dir-lin, din, din, dir-lin, din, don.Na vida do negro fado Ai!Que me traz assim perdida...Isto trazia-lhe sempre as recordações de Lisboa, porque terminava por dizer, com odio:—Que possilga de terra esta!Não se podia consolar de viver em Leiria, de não poder beber o seu quartilho na taberna do tio João, á Mouraria, com a Anna alfaiata ou com o Bigodinho—ouvindo o João das Biscas de cigarro ao canto da boca, o olho choroso meio fechado pelo fumo do tabaco, fazer chorar a guitarra dizendo a morte da Sophia!Depois, para se reconfortar com a certeza do seu talento, lia a João Eduardo os seus artigos, muito alto. E João interessava-se—porque essas «producções», sendo ultimamente sempre «desandas ao clero», correspondiam ás suas preoccupações.Era por esse tempo que, em virtude da famosa questão da Misericordia, o doutor Godinho se tornára muito hostil ao cabido e «á padraria». Sempre detestára padres; tinha uma má doença de figado, e como a Igreja o fazia pensar no cemiterio, odiava a sotaina, porque lhe parecia uma ameaça da mortalha. E Agostinho, que tinha um profundo deposito de fel a derramar, instigado pelo doutor Godinho, exagerava as suas verrínas: mas, com o seu fraco litterario, cobria o vituperio de tão espessas camadas de rhetorica que, como dizia o conego Dias, «aquillo era ladrar, não era morder»!Uma d'essas noites João Eduardo encontrou Agostinho todo enthusiasmado com um artigo que compuzerade tarde, e que lhe «sahira cheio de piadas á Victor Hugo»!—Tu verás! Coisa de sensação!Como sempre, era uma declamação contra o clero e o elogio do doutor Godinho. Depois de celebrar as virtudes do doutor, «esse tão respeitavel chefe de familia» e a sua eloquencia no tribunal que «arrancára tantos desventurados ao cutelo da lei», o artigo, tomando um tom roncante, apostrophava Christo:—«Quem te diria a ti (bradava Agostinho), ó immortal Crucificado! quem te diria, quando no alto do Golgotha expiravas exangue, quem te diria que um dia, em teu nome, á tua sombra, seria expulso d'um estabelecimento de caridade o doutor Godinho,—a alma mais pura, o talento mais robusto...»—E as virtudes do doutor Godinho voltavam, em passo de procissão, solemnes e sublimadas, arrastando caudas de adjectivos nobres.Depois, deixando por um momento de contemplar o doutor Godinho, Agostinho dirigia-se directamente a Roma:—«É no seculo XIX que vindes atirar á face de Leiria liberal os dictames doSyllabus! Pois bem. Quereis a guerra? Tel-a-heis!»—Hein, João?! dizia. Está forte! Está philosophico!E retomando a leitura:—«Quereis a guerra? Tel-a-heis! Levantaremos bem alto o nosso estandarte, que não é o da demagogia, comprehendei-o bem! e arvorando-o, com braço firme, no mais alto baluarte das liberdades publicas, gritaremos á facede Leiria, á face da Europa: Filhos do seculo XIX! ás armas! Ás armas pelo progresso!»—Hein? Está de os enterrar!João Eduardo, que ficára um momento calado, disse então, levantando as suas expressões em harmonia com a prosa sonora de Agostinho:—O clero quer-nos arrastar aos funestos tempos do obscurantismo!Uma phrase tão litteraria surprehendeu o jornalista: fitou João Eduardo, disse:—Porque não escreves tu alguma coisa, tambem?O escrevente respondeu, sorrindo:—E eu, Agostinho, eu é que te escrevia uma desanda aos padres... E eu tocava-lhes os pôdres. Eu é que os conheço!...Agostinho instou logo com elle para que escrevesse adesanda.—Vem a calhar, menino!O doutor Godinho ainda na vespera lhe recommendára:—«Em tudo que cheirar a padre, para baixo! Havendo escandalo, conta-se! não havendo, inventa-se!»E Agostinho acrescentou, com benevolencia:—E não te dê cuidado o estylo, que eu cá o florearei!—Veremos, veremos, murmurou João Eduardo.Mas d'ahi por diante Agostinho perguntava-lhe sempre:—E o artigo, homem? Traze-me o artigo.Tinha avidez d'elle, porque sabendo como João Eduardo vivia na intimidade da «panellinha canonica da S. Joanneira» suppunha-o no segredo de infamias especiaes.João Eduardo, porém, hesitava. Se se viesse a saber...?—Qual! affirmava Agostinho. A coisa publica-se como minha. É artigo da redacção. Quem diabo vai saber?Succedeu na noite seguinte que João Eduardo surprehendeu o padre Amaro resvalando sorrateiramente um segredinho a Amelia—e ao outro dia appareceu de tarde na redacção com a pallidez d'uma noite velada, trazendo cinco largas tiras de papel, miudamente escriptas n'uma letra de cartorio. Era o artigo, e intitulava-se:Os modernos phariseus!—Depois de algumas considerações, cheias de flôres, sobre Jesus e o Golgotha, o artigo de João Eduardo era, sob allusões tão diaphanas como teias d'aranha, um vingativo ataque ao conego Dias, ao padre Brito, ao padre Amaro e ao padre Natario!... Todos tinham a suadóse, como exclamou cheio de jubilo o Agostinho.—E quando sae? perguntou João Eduardo.O Agostinho esfregou as mãos, reflectiu, disse:—É que está forte, diabo! É como se tivesse os nomes proprios! Mas descansa, eu arranjarei.Foi cautelosamente mostrar o artigo ao doutor Godinho—que o achou «uma catilinaria atroz». Entre o doutor Godinho e a Igreja havia apenas um arrufo:elle reconhecia em geral a necessidade da religião entre as massas; sua esposa, a bella D. Candida, era além d'isso d'inclinações devotas, e começava a dizer que aquella guerra do jornal ao clero lhe causava grandes escrupulos: e o doutor Godinho não queria provocar odios desnecessarios entre os padres, prevendo que o seu amor da paz domestica, os interesses da ordem e o seu dever de christão o forçariam bem cedo a uma reconciliação,—«muito contra as suas opiniões, mas...»Disse por isso a Agostinho sêccamente:—Isto não póde ir como artigo da redacção, deve apparecer como communicado. Cumpra estas ordens.E Agostinho declarou ao escrevente—que a coisa publicava-se como umCommunicado, assignado:Um liberal. Sómente João Eduardo terminava o artigo exclamando:—Álerta, mães de familia!O Agostinho suggeriu que este finalálertapodia dar logar á réplica jocosa—Álerta está!E depois de largas combinações decidiram-se por este fecho:—Cuidado, sotainas negras!No domingo seguinte appareceu o communicado assignado:Um liberal.Durante toda essa manhã de domingo, o padre Amaro, á volta da Sé, estivera occupado em compôr laboriosamente uma carta a Amelia. Impaciente, como elle dizia, «com aquellas relações que não andavamnem desandavam, que era olhar e apertos de mão e d'alli não passava»—tinha-lhe dado uma noite, á mesa do quino, um bilhetinho onde escrevera com boa letra, a tinta azul:—Desejo encontral-a só, porque tenho muito que lhe fallar. Onde póde ser sem inconveniente? Deus proteja o nosso affecto.Ella não respondera:—E Amaro despeitado, descontente tambem por não a ter visto n'essa manhã á missa das nove, resolveu «pôr tudo a claro n'uma carta de sentimento»: e preparava os periodos sentidos que lhe deviam ir revolver o coração, passeando pela casa, juncando o chão de pontas de cigarro, a cada momento curvado sobre oDiccionario de synonymos.«Ameliasinha do meu coração: (escrevia elle) Não posso atinar com as razões maiores que a não deixaram responder ao bilhetinho que lhe dei em casa da senhora sua mamã; pois que era pela muita necessidade que tinha de lhe fallar a sós, e as minhas intenções eram puras, e na innocencia d'esta alma que tanto lhe quer e que não medita o peccado.«Deve ter comprehendido que lhe voto um fervente affecto, e pela sua parte me parece, (se não me enganam esses olhos que são os pharoes da minha vida, e como a estrella do navegante) que tambem tu, minha Ameliasinha, tens inclinação por quem tanto te adora; pois que até outro dia, quando o Libano quinou com os seis primeiros numeros, e que todos fizeram tanta algazarra, tu apertaste-mea mão por baixo da mesa com tanta ternura, que até me pareceu que o céo se abria e que eu sentia os anjos entoarem o Hossana! Porque não respondeste pois? Se pensas que o nosso affecto póde ser desagradavel aos nossos anjos da guarda, então te direi que maior peccado commettes trazendo-me n'esta incerteza e tortura, que até na celebração da missa estou sempre com o pensar em ti, e nem me deixa elevar a minha alma no divino sacrificio. Se eu visse que este mutuo affecto era obra do tentador, eu mesmo te diria: oh minha bem amada filha, façamos o sacrificio a Jesus, para lhe pagar parte do sangue que derramou por nós! Mas eu tenho interrogado a minha alma e vejo n'ella a brancura dos lirios. E o teu amor tambem é puro como a tua alma, que um dia se unirá á minha, entre os córos celestes, na bemaventurança. Se tu soubesses como eu te quero, querida Ameliasinha, que até às vezes me parece que te podia comer aos bocadinhos! Responde pois, e dize se não te parece que poderia arranjar-se a vermo-nos no Morenal, pela tarde. Pois eu anceio por te exprimir todo o fogo que me abraza, bem como fallar-te de coisas importantes, e sentir na minha mão a tua que eu desejo que me guie pelo caminho do amor, até aos extases d'uma felicidade celestial. Adeus, anjo feiticeiro, recebe a offerta do coração do teu amante e pai espiritual«Amaro».Depois de jantar copiou esta carta a tinta azul, e com ella bem dobrada no bolso da batina foi á rua da Misericordia. Logo da escada sentiu em cima a voz aguda de Natario, discutindo.—Quem está por cá?—perguntou áRuça, que alumiava, encolhida no seu chale.—As senhoras todas. Está o senhor padre Brito.—Ólá! Bella sociedade!Galgou os degraus, e á porta da sala, com o seu capote ainda pelos hombros, tirando alto o chapéo:—Muito boas noites a todos, começando pelas senhoras.Natario, immediatamente, plantou-se diante d'elle e exclamou:—Então que lhe parece?—O quê? perguntou Amaro. E reparando no silencio, nos olhos cravados n'elle:—O que é? Alguma coisa de novo?—Pois não leu, senhor parocho!? exclamaram. Não leu oDistricto!?Era papel em que elle não puzera os olhos, disse. Então as senhoras indignadas romperam:—Ai! é um desafôro!—Ai! é um escandalo, senhor parocho!Natario, com as mãos enterradas nas algibeiras, contemplava o parocho com um sorrisinho sarcastico, soltando d'entre os dentes:—Não leu! Não leu! Então que fez?Amaro reparava, já aterrado, na pallidez d'Amelia,nos seus olhos muito vermelhos. E emfim o conego erguendo-se pesadamente:—Amigo parocho, dão-nos uma desanda!...—Ora essa! exclamou Amaro.—Têsa!O senhor conego, que trouxera o jornal, devia ler alto—lembraram.—Leia, Dias, leia, acudiu Natario. Leia, para saborearmos!A S. Joanneira deu mais luz ao candieiro: o conego Dias accommodou-se á mesa, desdobrou o jornal, pôz os oculos cuidadosamente, e, com o lenço do rapé nos joelhos, começou a leitura doCommunicadona sua voz pachorrenta.O principio não interessava: eram periodos enternecidos em que oliberalexprobrava aos phariseus a crucifixão de Jesus:—«Por que o matasteis? (exclamava elle). Respondei!» E os phariseus respondiam:—«Matamol-o porque elle era a liberdade, a emancipação, a aurora de uma nova era», etc. Oliberalentão esboçava, a largos traços, a noite do Calvario:—«Eil-o pendente da cruz, traspassado de lanças, a sua tunica jogada aos dados, a plebe infrene», etc. E, voltando a dirigir-se aos phariseus infelizes, oliberalgritava-lhes com ironia:—«Contemplai a vossa bella obra!» Depois, por uma gradação habil, oliberaldescia de Jerusalem a Leiria:—«Mas pensam os leitores que os phariseus morreram? Como se enganam! Vivem! conhecemol-osnós; Leiria está cheia d'elles, e vamos apresental-os aos leitores...»—Agora é que ellas começam, disse o conego olhando para todos em redor, por cima dos oculos.Com effeito «ellas começavam»; era, n'uma fórma brutal, uma galeria de photographias ecclesiasticas: a primeira era a do padre Brito:—«Vêde-o, (exclamava oliberal) grosso como um touro, montado na sua egua castanha...»—Até a côr da egua! murmurou com uma indignação piedosa a snr.aD. Maria da Assumpção.«...Estupido como um melão, sem sequer saber latim...»O padre Amaro, assombrado, fazia: Oh! oh! E o padre Brito, escarlate, mexia-se na cadeira, esfregando devagar os joelhos.«...Especie de caceteiro», continuava o conego que lia aquellas phrases crueis com uma tranquillidade dôce, «desabrido de maneiras, mas que não desgosta de se dar á ternura, e, segundo dizem os bem informados, escolheu para Dulcinêa a propria e legitima esposa do seu regedor...»O padre Brito não se dominou:—Eu racho-o de meio a meio! exclamou erguendo-se e recahindo pesadamente na cadeira.—Escute, homem! disse Natario.—Qual escute! O que é, é que o racho!Mas se elle não sabia quem era oliberal!—Qualliberal! Quem eu racho é o doutor Godinho.O doutor Godinho é que é o dono do jornal. O doutor Godinho é que eu racho!A sua voz tinha tons roucos: e atirava furioso grandes palmadas á côxa.Lembraram-lhe o dever christão de perdoar as injurias. A S. Joanneira com unção citou a bofetada que Jesus Christo supportou. Devia imitar Christo.—Qual Christo, qual cabaça! gritou Brito apopletico.Aquella impiedade creou um terror.—Credo, senhor padre Brito, credo! exclamou a irmã do conego recuando a cadeira.O Libaninho, com as mãos na cabeça, vergado sob o desastre, murmurava:—Nossa Senhora das Dôres, que até póde cahir um raio!E, vendo mesmo Amelia indignada, o padre Amaro disse gravemente:—Brito, realmente vossê excedeu-se.—Pois se estão a puxar por mim!...—Homem, ninguem puxou por vossê, disse severamente Amaro. E com um tom pedagogo:—Apenas lhe lembrarei, como devo, que em taes casos, quando se diz ablasphemia má, o reverendo padre Scomelli recommenda confissão geral e dois dias de recolhimento a pão e agua.O padre Brito resmungava.—Bem, bem, resumiu Natario. O Brito commetteu uma grande falta, mas saberá pedir perdão a Deus, e a misericordia de Deus é infinita!Houve uma pausa commovida em que se ouviu a snr.aD. Maria da Assumpção murmurar «que ficára sem pinga de sangue»; e o conego, que durante a catastrophe pousára os oculos sobre a mesa, retomou-os, e continuou serenamente a leitura:«...Conheceis um outro com cara de furão?...»Olhares de lado fixaram o padre Natario.«...Desconfiai d'elle: se puder trahir-vos, não hesita; se puder prejudicar-vos, folga: as suas intrigas trazem o cabido n'uma confusão porque é a vibora mais damninha da diocese, mas com tudo isso muito dado á jardinagem, porque cultiva com cuidadoduas rosas do seu canteiro.»—Homem, essa! exclamou Amaro.—É para que vossê veja, disse Natario erguendo-se lívido. Que lhe parece? Vossê sabe que eu, quando fallo das minhas sobrinhas, costumo dizeras duas rosas do meu canteiro. É um gracejo. Pois senhores, até vem com isto!—E com um sorriso macilento, de fel:—mas ámanhã hei de saber quem é! Ólaré! Eu hei de saber quem é!—Deite ao desprezo, senhor padre Natario, deite ao desprezo, disse a S. Joanneira pacificadora.—Obrigado, minha senhora, acudiu Natario curvando-se com uma ironia rancorosa—obrigado! Cá recebi!Mas a voz imperturbavel do conego retomára a leitura. Agora era o retrato d'elle, traçado com odio:«...Conego bojudo e glutão, antigo caceteiro do senhor D. Miguel, que foi expulso da fregueziade Ourem, outr'ora mestre de Moral n'um seminario e hoje mestre de immoralidade em Leiria...»—Isso é infame! exclamou Amaro exaltado.O conego pousou o jornal, e com a voz pachorrenta:—Vossê pensa que me dá isto cuidado? disse elle. Boa! Tenho que comer e que beber, graças a Deus! Deixar rosnar quem rosna!—Não, mano, interrompeu a irmã, mas a gente sempre tem o seu bocadinho de brio!—Ora, mana! replicou o conego Dias com um azedume de raiva concentrada. Ora, mana! ninguem lhe pede a sua opinião!—Nem preciso que m'a peçam! gritou ella impertigando-se. Sei-a dar muito bem quando quero e como quero. Se não tem vergonha, tenho-a eu!—Então! então!... disseram em roda, acalmando-a.—Menos lingua, mana, menos lingua! disse o conego fechando os seus oculos. Olhe não lhe cáiam os dentes postiços!—Seu malcriado!Ia fallar, mas suffocou-se; e começou subitamente a soltarais.Recearam logo que lhe désse oflato: a S. Joanneira e a D. Joaquina Gansoso levaram-na para o quarto, em baixo, amparando-a, com palavras brandas:—Estás doida! Por quem és, filha! Olha que escandalo! Nossa Senhora te valha!Amelia mandava buscar agua de flôr de laranja.—Deixe-a lá, rosnou o conego, deixe-a lá! Aquillo passa-lhe. São calores!Amelia deu um olhar triste ao padre Amaro, e desceu ao quarto com a snr.aD. Maria da Assumpção e a Gansoso surda, que iam tambem «socegar a D. Josepha, coitadita»! Os padres agora estavam sós; e o conego voltando-se para Amaro:—Ouça vossê, que é a sua vez—disse retomando o jornal.—E verá que dóse! disse Natario.O conego escarrou, aproximou mais o candieiro, e declamou:«...Mas o perigo são certos padres novos e ajanotados, parochos por influencias de condes da capital, vivendo na intimidade das familias de bem onde ha donzellas inexperientes, e aproveitando-se da influencia do seu sagrado ministerio para lançar na alma da innocente a semente de chammas criminosas!»—Pouca vergonha! murmurou Amaro livido.«...Dize, sacerdote de Christo, onde queres arrastar a impolluta virgem? Queres arrastal-a aos lodaçaes do vicio? Que vens fazer aqui ao seio d'esta respeitavel familia? Porque rondas em volta da tua prêsa como o milhafre em torno da innocente pomba? Para traz, sacrilego! Murmuras-lhe seductoras phrases, para a desviares do caminho da honra; condemnas á desgraça e á viuvez algum honrado moço que lhe queira offerecer sua mão trabalhadora;e vaes-lhe preparando um horroroso futuro de lagrimas. E tudo para quê? Para saciares os torpes impulsos de tua criminosa lascivia!...»—Que infame! rosnou com os dentes cerrados o padre Amaro.«...Mas acautela-te, presbytero perverso!» E a voz do conego tinha tons cavos ao soltar aquellas apostrophes. «Já o archanjo levanta a espada da justiça. E sobre ti, e teus cumplices, já a opinião da illustrada Leiria fita seu olho imparcial. E nós cá estamos, nós, filhos do trabalho, para vos marcar na fronte o estigma da infamia. Tremei, sectarios doSyllabus! Cuidado, sotainas negras!»—D'escacha! fez o conego suado, dobrando aVoz do Districto.O padre Amaro tinha os olhos ennevoados de duas lagrimas de raiva: passou devagar o lenço pela testa, soprou, disse com os beiços a tremer:—Eu, collegas, nem sei o que hei de dizer! Pelo Deus que me ouve, isto é a calumnia das calumnias.—Uma calumnia infame... rosnaram.-E a mim o que me parece, continuou Amaro, é que nos dirijamos á auctoridade!—É o que eu tinha dito, acudiu Natario, é necessario fallar ao secretario geral...—Um cacete é que é! rugiu o padre Brito. Auctoridade! O que é, é rachal-o! Eu bebia-lhe o sangue!...O conego, que meditava coçando o queixo, disse então:—E vossê, Natario, é que deve ir ao secretario geral. Vossê tem lingua, tem logica.—Se os collegas decidem, disse Natario curvando-se, vou. E hei de lh'as cantar, á auctoridade!Amaro ficára junto da mesa com a cabeça entre as mãos, aniquilado. E o Libaninho murmurava:—Ai, filhos, eu não é nada commigo, mas só de ouvir todo esse aranzel, até se me estão a vergar as pernas. Ai, filhos, um desgosto assim...Mas sentiram a voz da snr.aJoaquina Gansoso subindo a escada; e o conego immediatamente com uma voz prudente:—Collegas, o melhor, diante das senhoras, é não se fallar mais n'isto. Bem basta o que basta.D'ahi a momentos, apenas Amelia entrou, Amaro ergueu-se, declarou que estava com uma forte dôr de cabeça, e despediu-se das senhoras.—E sem tomar chá? acudiu a S. Joanneira.—Sim, minha senhora, disse elle embrulhando-se no seu capote, não me estou a sentir bem. Boas noites... E vossê, Natario, appareça ámanhã pela Sé á uma hora.Apertou a mão de Amelia, que se lhe abandonou entre os dedos passiva e molle,—e sahiu com os hombros vergados.A S. Joanneira notou, desconsolada:—O senhor parocho ia muito pallido...O conego levantou-se, e com um tom impaciente e quezilado:—Se ia pallido, ámanhã estará córado. E agoraquero dizer uma coisa: esse aranzel do jornal é a calumnia das calumnias! Eu não sei quem o escreveu, nem para que o escreveu. Mas são tolices e são infamias. É pateta e maroto, quem quer que seja. O que devemos fazer já o sabemos, e como já se tagarellou bastante sobre o caso, a senhora mande vir o chá. E o que lá vai, lá vai, não se falla mais na questão.As faces em roda continuavam contristadas.—E então o conego acrescentou:—Ah! e quero dizer outra coisa: como não morreu ninguem, não ha necessidade de estar aqui com cara de pezames. E tu, pequena, senta-te ao instrumento e repenica-me essaChiquita!O secretario geral, o snr. Gouvêa Ledesma, antigo jornalista, e, em annos mais expansivos, auctor do livro sentimentalDevaneios de um sonhador, estava então dirigindo o districto na ausencia do governador civil.Era um moço bacharel que passava por ter talento. Representára de galan no theatro academico, em Coimbra, com muito applauso; e tomára a esse tempo o habito de passear á tarde na Sophia, com o ar fatal com que no palco arrepellava os cabellos, ou levava, nos transes d'amor, o lenço aos olhos. Depois em Lisboa arruinára um pequeno patrimonio com o amor de Lolas e de Carmens, ceias no Matta,muita calça no Xafredo e perniciosas convivencias litterarias: aos trinta annos estava pobre, saturado de mercurio e auctor de vinte folhetins romanticos naCivilisação: mas tornára-se tão popular, que era conhecido nos lupanares e nos cafés por um cognome carinhoso—era oBibi. Julgando então que conhecia a fundo a existencia, deixou crescer as suiças, começou a citar Bastiat, frequentou as camaras e entrou na carreira administrativa; chamava agora á republica que tanto exaltára em Coimbrauma absurda chimera; e Bibi era um pilar das instituições.Detestava Leiria, onde passava por espirituoso; e dizia ás senhoras, nassoiréesdo deputado Novaes,—«que estava cansado da vida». Rosnava-se que a esposa do bom Novaes andava doida por elle: e em verdade Bibi escrevêra a um amigo da capital:—«emquanto a conquistas, pouco por ora; tenho apenas no papo a Novaesitos».Levantava-se tarde; e n'essa manhã, de robe-de-chambre á mesa do almoço, partia os seus ovos quentes, lendo com saudade no jornal a narração apaixonada d'uma pateada em S. Carlos, quando o criado,—um gallego que trouxera de Lisboa—veio dizer que «estava alli um cura».—Um cura? Que entre para aqui!—E murmurou para sua satisfação pessoal:—O Estado não deve fazer esperar a Igreja.Ergueu-se, e estendeu as duas mãos ao padre Natario que entrava, muito composto, na sua longa batina de lustrina.—Uma cadeira, Trindade! Toma uma chavena de chá, senhor cura? Soberba manhã, hein? Estava justamente pensando em v. s.a—isto é, estava pensando no clero em geral... Acabava de lêr as peregrinações que se estão fazendo a Nossa Senhora do Lourdes... Grande exemplo! Milhares de pessoas da melhor roda... É realmente consolador vêr renascer a fé... Ainda hontem eu disse em casa do Novaes: «no fim de tudo a fé é a mola real da sociedade». Tome uma chavena de chá... Ah! é um grande balsamo!...—Não, obrigado, almocei já.—Mas não! Quando digo um grande balsamo refiro-me á fé, não ao chá! Ah! ah! É boa, não?E prolongou a sua risadinha com complacencia. Queria agradar a Natario, pelo principio que repetia muito, com um sorriso astuto—«que quem está mettido na politica deve ter por si a padraria».—E depois, acrescentou, como eu dizia hontem em casa do Novaes, que vantagem para as localidades! Lourdes, por exemplo, era uma aldeola; pois com a affluencia dos devotos está uma cidade... Grandes hoteis,boulevards, bellas lojas... É por assim dizer o desenvolvimento economico, correndo parelhas com o renascimento religioso.E deu com satisfação um puxãosinho grave ao collarinho.—Pois eu vinha aqui fallar a v. exc.aa respeito d'um communicado naVoz do Districto.—Ah! interrompeu o secretario geral, perfeitamente,li! Uma famosa verrina... Mas litterariamente, como estylo e como imagens, que miseria!—E que tenciona v. exc.afazer, senhor secretario geral?O snr. Gouvéa Ledesma apoiou-se nas costas da cadeira, perguntou pasmado:—Eu!?Natario disse, distillando as palavras:—A auctoridade tem o dever de proteger a religião do Estado, e implicitamente os seus sacerdotes... Que tenha v. exc.aem vista, eu não venho aqui em nome do clero...E acrescentou com a mão sobre o peito:—Sou apenas um pobre padre sem influencia... Venho, como particular, perguntar ao senhor secretario geral se se póde permittir que caracteres respeitaveis da Igreja diocesana sejam assim diffamados...—É certamente lamentavel que um jornal...Natario interrompeu, impertigando o busto com indignação:—Jornal que já devia estar suspenso, senhor secretario geral!—Suspenso!? Por quem é, senhor cura! Mas v. s.adecerto não quer que eu volte aos tempos dos corregedores-móres! Suspender o jornal! Mas a liberdade de imprensa é um principio sagrado! Nem as leis de imprensa o permittem... Mesmo querelar pelo ministerio publico porque um periodico diz duas ou tres pilherias sobre o cabido, impossivel!Tínhamos de querelar de toda imprensa de Portugal, com excepção daNaçãoe doBem Publico!Onde iria parar a liberdade de pensamento, trinta annos de progresso, a propria idéa governamental? Mas nós não somos os Cabraes, meu caro senhor! Nós queremos luz, muitissima luz! Justamente o que nós queremos é luz!Natario tossiu devagarinho, disse:—Perfeitamente. Mas então quando, pelas eleições, a auctoridade nos vier pedir o nosso auxilio, nós, vendo que não encontramos n'ella protecção, diremos simplesmente:Non possumus!—E pensa o senhor cura, que por amor de alguns votos que dão os senhores abbades, nós vamos trahir a civilisação?E o antigoBibi, tomando uma grande attitude, soltou esta phrase:—Somos filhos da liberdade, não renegaremos nossa mãi!—Mas o doutor Godinho, que é a alma do jornal, é opposição, observou então Natario; proteger-lhe o jornal é implicitamente proteger-lhe as manobras...O secretario geral teve um sorriso:—Meu caro senhor cura, v. s.anão está no segredo da politica. Entre o doutor Godinho e o governo civil não ha inimizade, ha apenas um arrufo... O doutor Godinho é uma intelligencia... Vai reconhecendo que ogrupo da Maianão produz nada... O doutor Godinho aprecia a politica do governo, e o governo aprecia o doutor Godinho.E, rebuçando-se todo n'um mysterio d'Estado, acrescentou:—Coisas d'alta política, meu caro senhor.Natario ergueu-se:—De modo que...—Impossibilis est, disse o secretario. De resto acredite, senhor cura, que como particular revolto-me contra oCommunicado; mas como auctoridade devo respeitar a expressão do pensamento... Mas creia, e póde dizel-o a todo o clero diocesano, a Igreja catholica não tem um filho mais fervente que eu, Gouvêa Ledesma... Quero porém uma religião liberal, de harmonia com o progresso, com a sciencia... Foram sempre as minhas idéas; préguei-as bem alto, na imprensa, na universidade e no gremio... Assim, por exemplo, não acho que haja poesia maior que a poesia do christianismo! E admiro Pio IX, uma grande figura! Sómente lamento que elle não arvore a bandeira da civilisação!—E o antigo Bibi, contente da sua phrase, repetia:—Sim, lamento que elle não arvore a bandeira da civilisação... OSyllabusé impossivel n'este seculo de electricidade, senhor cura! E a verdade é que nós não podemos querelar d'um jornal porque elle diz duas ou tres pilherias sobre o sacerdocio, nem nos convém, por altas razões de política, escandalisar o doutor Godinho. Aqui tem o meu pensamento.—Senhor secretario geral... disse Natario curvando-se.—Um criado de v. s.aSinto que não tome umachavena de chá... E como vai o nosso chantre?—S. exc.an'estes ultimos dias, segundo creio, tem tornado a soffrer de tonturas.—Sinto. Uma intelligencia tambem! Grande latinista... Tenha cuidado com o degrau!...Natario correu á Sé, com um passo nervoso, resmungando alto de cólera. Amaro passeava devagar no terraço, com as mãos atraz das costas: tinha as olheiras batidas e a face envelhecida.—Então? disse elle, indo rapidamente ao encontro de Natario.—Nada!Amaro mordeu o beiço: e emquanto Natario lhe contava, excitado, a conversação com o secretario geral, «e como argumentára com elle, e como o homem tagarellára, tagarellára»,—a face do parocho cobria-se d'uma sombra desconsolada, e ia arrancando raivosamente, com a ponta do guardasol, a herva que crescia nas fendas do terraço.—Um patarata! resumiu o padre Natario com um grande gesto. Pela auctoridade não se faz nada. É escusado... Mas a questão agora é entre mim e oliberal, padre Amaro! Eu hei de saber quem é, padre Amaro! E quem o esmaga sou eu, padre Amaro, sou eu!...No emtanto João Eduardo desde o domingo triumphava: o artigo fizera escandalo: tinham-se vendidooitenta numeros avulsos do jornal, e o Agostinho affirmára-lhe que na botica da Praça a opinião era «que oliberalconhecia a padraria a fundo e tinha cabeça»!—És um genio, rapaz! disse o Agostinho. É trazer-me outro, é trazer-me outro!João Eduardo gozava prodigiosamente «d'aquelle fallatorio que ia pela cidade».Relia então o artigo com uma deleitação paternal; se não receasse escandalisar a S. Joanneira, desejaria ir pelas lojas dizer bem alto—fui eu, eu é que o escrevi!—E já ruminava outro, mais terrivel, que se deveria intitular:O diabo feito ermita, ouO sacerdocio de Leiria perante o seculo XIX!O doutor Godinho encontrára-o na Praça, e parára com condescendencia, para lhe dizer:—A coisa tem feito barulho. Vossê é o diabo! E a piada ao padre Brito é bem jogada. Que eu não sabia... E diz que é bonita, a mulher do regedor...—V. exc.anão sabia?—Não sabia, e saboreei. Vossê é o diabo! Eu fui que disse ao Agostinho que publicasse a coisa como um communicado. Vossê comprehende... Eu não me convém ter turras de mais com o clero... E depois lá minha esposa tem seus escrupulos... Emfim é mulher, e é conveniente que as mulheres tenham religião... Mas no meu fôro interior saboreei... Sobretudo a piada ao Brito. O patife fez-meuma guerra dos diabos na eleição passada... Ah! e outra coisa, o seu negocio arranja-se. Lá para o mez que vem tem vossê o seu emprego no governo civil.—Oh, snr. doutor... v. exc.a...—Qual historia! vossê é um benemerito!João Eduardo foi para o cartorio, tremulo d'alegria. O snr. Nunes Ferral sahira: o escrevente aparou devagar uma penna, começou a cópia d'uma procuração—e de repente, agarrando o chapéo, correu á rua da Misericordia.A S. Joanneira costurava só á janella; Amelia fôra ao Morenal; e João Eduardo, logo da porta:—Sabe, D. Augusta? Estive agora com o doutor Godinho. Diz que lá para o mez que vem tenho o meu emprego...A S. Joanneira tirou a luneta, deixou cahir as mãos no regaço:—Que me diz?...—É verdade, é verdade...E o escrevente esfregava as palmas, com risinhos nervosos de jubilo.—Que pechincha! exclamou. De modo que agora, se a Ameliasinha estiver d'accordo...—Ai, João Eduardo! fez a S. Joanneira com um grande suspiro, que me tira um peso do coração... Que tenho estado... Olhe, nem tenho dormido!...João Eduardo presentiu que ella ia fallar doCommunicado. Foi pôr o chapéo n'uma cadeira ao canto;e voltando á janella, com as mãos nos bolsos:—Então porquê, porquê?—Aquella pouca vergonha noDistricto!Que diz vossê? Aquella calumnia! Ai! tenho-me feito velha!João Eduardo escrevera o artigo sob as solicitações do ciume, só para «enterrar» o padre Amaro; não previra o desgosto das duas senhoras; e vendo agora a S. Joanneira com duas lagrimas no branco dos olhos, sentia-sequasi arrependido. Disse ambíguamente:—Eu li, é o diabo...Mas aproveitando o sentimento da S. Joanneira para servir a sua paixão, acrescentou sentando-se, chegando a cadeira para ao pé d'ella:—Eu nunca lhe quiz fallar d'isso, D. Augusta, mas... olhe que a Ameliasinha tratava o parocho com muita familiaridade... E pelas Gansosos, pelo Libaninho, mesmo sem quererem, a coisa ia-se sabendo, ia-se rosnando... Eu bem sei que ella, coitada, não via o mal, mas... a D. Augusta sabe o que é Leiria. Que linguas, hein!A S. Joanneira então declarou que lhe ia fallar como a um filho: o artigo affligira-a, sobretudo por causa d'elle, João Eduardo. Porque emfim elle podia acreditar tambem, desfazer o casamento, e que desgosto! E ella podia dizer-lhe, como mulher de bem, como mãi, que não havia entre a pequena e o senhor parocho nada, nada, nada! Era a rapariga que tinha aquelle genio communicativo! E o parochotinha boas palavras, sempre muito delicado... Que ella sempre o dissera, o senhor padre Amaro tinha maneiras que tocavam o coração...—Decerto, disse João Eduardo mordendo o bigode, com a cabeça baixa.A S. Joanneira então poz a mão de leve sobre o joelho do escrevente, e fitando-o:—E olhe, não sei se me fica mal dizer-lh'o, mas a rapariga quer-lhe devéras, João Eduardo.O coração do escrevente teve uma palpitação commovida.—E eu! disse. A D. Augusta sabe a paixão que eu tenho por ella... E lá do artigo que me importa a mim!Então a S. Joanneira limpou os olhos ao avental branco. Ai! era uma alegria para ella! Ella sempre o dissera, como rapaz de bem, não havia outro na cidade de Leiria!—Vossê sabe, quero-lhe como filho!O escrevente enterneceu-se:—Pois vamos a isso, e tapam-se as bocas do mundo...E erguendo-se, com uma solemnidade engraçada:—snr.aD. Augusta! Tenho a honra de lhe pedir a mão...Ella riu-se—e na sua alegria João Eduardo beijou-a na testa, filialmente.—E falle á noite á Ameliasinha, disse ao sahir. Eu venho ámanhã, e felicidade não ha de faltar...—Louvado seja Nosso Senhor! acrescentou a S. Joanneira retomando a sua costura, com um suspiro de muito allivio.Apenas n'essa tarde Amelia voltou do Morenal, a S. Joanneira, que estava pondo a mesa, disse-lhe:—Esteve ahi o João Eduardo...—Ah!...—Ahi esteve a fallar, coitado...Amelia, calada, dobrava a sua manta de lã.—Ahi esteve a queixar-se... continuou a mãi.—Mas de quê? perguntou ella muito vermelha.—Ora de quê! Que se fallava muito na cidade do artigo doDistricto; que se perguntava a quem alludia o periodico com asdonzellas inexperientes, e que a resposta era: «Quem ha de ser? a Amelia da S. Joanneira, da rua da Misericordia!» O pobre João diz que tem andado tão desgostoso!... Não se atrevia, por delicadeza, a fallar-te... Emfim...—Mas que hei de eu fazer, minha mãi? exclamou Amelia com os olhos subitamente cheios de lagrimas áquellas palavras que cahiam sobre os seus tormentos como gotas de vinagre sobre feridas.—Eu digo-te isto para teu governo. Faze o que quizeres, filha. Eu bem sei que são calumnias! Mas tu sabes o que são linguas do mundo... O que te posso dizer é que o rapaz não acreditou no periodico. Que era isso que me dava cuidado!... Credo! tirou-me o somno... Mas não, diz que não lhe importa o artigo, que te quer da mesma maneira, e está a arder por que se faça o casamento... E eu pormim o que fazia, para calar toda essa gente, era casar-me já. Eu bem sei que tu não morres por elle, bem sei. Deixa lá! Isso vem depois. O João é bom rapaz, vai ter o emprego...—Vai ter o emprego!?—Pois foi o que elle me veio dizer tambem... Esteve com o doutor Godinho, diz que lá para o fim do mez está empregado... Emfim tu fazes o que entenderes... Que olha que eu estou velha, filha, posso faltar-te d'um momento para o outro...Amelia não respondeu, olhando de frente no telhado voarem os pardaes—menos desassocegados, n'aquelle instante, que os seus pensamentos.Desde domingo vivia atordoada. Sabia bem que adonzella inexperientea que alludia oCommunicadoera ella, Amelia, e torturava-a o vexame de vêr assim o seu amor publicado no jornal. Depois (como ella pensava, mordendo o beiço n'uma raiva muda, com os olhos afogados de lagrimas), aquillo vinha estragar tudo! Na Praça, na Arcada já se diria com risinhos perversos:—«Então a Ameliasita da S. Joanneira mettida com o parocho, hein?» Decerto o senhor chantre, tão severo em «coisas de mulheres,» reprehenderia o padre Amaro... E por alguns olhares, alguns apertos de mão, ahi estava a sua reputação estragada, estragado o seu amor!

Ora já cá temos o senhor parochoNos chás da S. Joanneira.Isto já parece outra coisa,Volta a bella cavaqueira!

Quando sali de la HabanaValga-me Dios!...

Si á tua ventana llegaUna paloma,Trata-la com cariño,Que es mi persona.

Ay chiquita que si,Ay chiquita que no-o-o-o!

Na capellinha do amor,No fundo da sacristia,Ao senhor padre CupidoConfessei-me n'outro dia...

Seis beijinhos de manhã,De tarde um abraço só...E p'ra acalmar dôces chammasJejuar a pão de ló.

Ora foi o fado tyrannoQue me levou á má vida,

Na vida do negro fado Ai!Que me traz assim perdida...

«Amaro».


Back to IndexNext