XII

Na segunda-feira, ao ir ao Morenal, parecera-lhe sentir pelas costas risinhos a escarnecel-a; no aceno que lhe fez da porta da botica o respeitavel Carlos julgou vêr uma seccura reprehensível; á volta encontrára o Marques da loja de ferragens, que não lhe tirou o chapéo, e ao entrar em casa julgava-se desacreditada—esquecendo que o bom Marques era tão curto da vista que usava na loja duas lunetas sobrepostas.—Que hei de eu fazer? que hei de eu fazer? murmurava, às vezes, com as mãos apertadas na cabeça. O seu cerebro de devota apenas lhe fornecia soluções devotas—entrar n'um recolhimento, fazer uma promessa a Nossa Senhora das Dôres «para que a livrasse d'aquelle apuro», ir confessar-se ao padre Silverio... E terminava por se vir sentar resignadamente ao pé da mãi com a sua costura, considerando, muito enternecida, que desde pequena fôra sempre bem infeliz!A mãi não lhe fallára claramente sobre oCommunicado; tivera apenas palavras ambíguas:—É uma pouca vergonha... É deitar ao desprezo... Quando a gente tem a sua consciencia socegada, o mais historias...Mas Amelia via-lhe bem o desgosto—na face envelhecida, nos tristes silencios, nos suspiros repentinos quando fazia meia á janella com a luneta na ponta do nariz: e então mais se convencia que havia «grande fallatorio na cidade», de que a mãi, coitada, estava informada pelas Gansosos e pela D.Josepha Dias—cuja boca produzia o mexerico mais naturalmente que a saliva. Que vergonha, Jesus!E então o seu amor pelo parocho, que até ahi, n'aquella reunião de saias e batinas da rua da Misericordia se lhe afigurára natural, agora, julgando-o reprovado pelas pessoas que desde pequena fora acostumada a respeitar—os Guedes, os Marques, os Vazes,—apparecia-lhe já monstruoso: assim as côres d'um retrato pintado á luz d'azeite, e que á luz d'azeite parecem justas, tomam tons falsos e disformes quando lhes cae em cima a luz do sol. E quasi estimava que o padre Amaro não tivesse voltado á rua da Misericordia.No emtanto, com que anciedade esperava todas as noites o seu toque de campainha! Mas elle não vinha; e aquella ausencia, que a sua razão julgava prudente, dava ao seu coração o desespero d'uma traição. Na quarta-feira á noite não se conteve, disse, córando sobre a sua costura:—Que será feito do senhor parocho?O conego, que na sua poltrona parecia dormitar, tossiu grosso, mexeu-se, rosnou:—Mais que fazer... E escusam de esperar por elle tão cedo!...E Amelia, que ficára branca como a cal, teve immediatamente a certeza que o parocho, aterrado com o escandalo do jornal, aconselhado pelos padres timoratos zelosos «do bom nome do clero»—tratava de se descartar d'ella! Mas, cautelosa, diante das amigas da mãi, escondeu o seu desespero: foimesmo sentar-se ao piano, e tocou mazurkas tão estrondosas—que o conego, tornando a mexer-se na poltrona, grunhiu:—Menos espalhafato e mais sentimento, rapariga!Passou uma noite agoniada, e sem chorar. A sua paixão pelo parocho flammejava mais irritada; e todavia detestava-o pela sua cobardia. Mal uma allusão n'um jornal o picára, ficára a tremer na sua batina, apavorado, não se atrevendo sequer a visital-a—sem se lembrar que tambem ella se via diminuida na sua reputação, sem ser satisfeita no seu amor! E fôra elle que a tentára com as suas palavrinhas dôces, as suas denguices! Infame!... Desejava violentamente apertal-o ao coração—e esbofeteal-o. Teve a idéa insensata de ir ao outro dia à rua das Sousas atirar-se-lhe aos braços, installar-se-lhe no quarto, fazer um escandalo que o obrigasse a fugir da diocese... Porque não? Eram novos, eram robustos, poderiam viver longe, n'outra cidade—e a sua imaginação começou a repastar-se logo hystericamente nas perspectivas deliciosas d'essa existencia, em que se figurava constantemente a dar-lhe beijos! Através da sua intensa excitação, aquelle plano parecia-lhe muito pratico, muito facil: fugiriam para o Algarve; lá, elle deixaria crescer o cabello (que mais bonito seria então!) e ninguem saberia que era um padre; poderia ensinar latim, ella coseria para fóra; e viveriam n'uma casinha—onde o que mais a attrahia era o leito com as duas travesseirinhaschegadas... E a unica difficuldade que via em todo este plano radiante era fazer sahir de casa, às escondidas da mãi, o bahú com a sua roupa!—Mas quando acordou, essas resoluções morbidas, á luz clara do dia, desfizeram-se como sombras: tudo aquillo lhe parecia agora tão impraticavel, e elle tão separado d'ella, como se entre a rua da Misericordia e a rua das Sousas se erguessem inaccessivelmente todas as montanhas da terra. Ai, o senhor parocho abandonára-a, era certo! Não queria perder os lucros da sua parochia nem a estima dos seus superiores!... Pobre d'ella! Considerou-se então para sempre infeliz e desinteressada da vida. Guardou, todavia, muito intenso o desejo de se vingar do padre Amaro.Foi então que reflectiu, pela primeira vez, que João Eduardo desde a publicação doCommunicadonão apparecera na rua da Misericordia. Tambem me volta as costas—pensou com amargura. Mas que lhe importava! No meio da afflicção que lhe dava o abandono do padre Amaro, a perda do amor do escrevente, piegas e pesado, que lhe não trazia utilidade nem prazer, era uma contrariedade imperceptivel: uma infelicidade viera que lhe arrebatava bruscamente todas as affeições—a que lhe enchia a alma e a que apenas lhe acariciava a vaidadesinha: e irritava-a, sim, não sentir já o amor do escrevente collado a suas saias, com a docilidade d'um cão—mas todas as suas lagrimas eram para o senhor parocho, «que já não queria saber d'ella»!Só lamentava a deserção de João Eduardo, porque perdia assim um meio sempre prompto de fazer enraivecer o padre Amaro...Por isso n'essa tarde á janella, calada, olhando no telhado defronte voarem os pardaes—depois de saber que João Eduardo, certo do emprego, viera fallar emfim á mãi,—pensava com satisfação no desespero do parocho ao vêr publicados na Sé os banhos do seu casamento. Depois as palavras muito praticas da S. Joanneira trabalhavam-lhe silenciosamente n'alma: o emprego do governo civil rendia 25$000 reis mensaes; casando, reentrava logo na sua respeitabilidade de senhora; e se a mãi morresse, com o ordenado do homem e com o rendimento do Morenal, podia viver com decencia, ir mesmo no verão aos banhos... E via-se já na Vieira, muito comprimentada pelos cavalheiros, conhecendo talvez a do governador civil.—Que lhe parece, minha mãi?—perguntou bruscamente. Estava decidida pelas vantagens que entrevia; mas, com a sua natureza lassa, desejava ser persuadida e forçada.—Eu ia pelo seguro, filha—foi a resposta da S. Joanneira.—É sempre o melhor—murmurou Amelia entrando no quarto. E sentou-se muito triste aos pés da cama, porque a melancolia que lhe dava o crepusculotornava-lhe agora mais pungente a saudade «dos seus bons tempos com o senhor parocho».N'essa noite choveu muito, as duas senhoras passaram sós. A S. Joanneira, repousada agora das suas inquietações, estava muito somnolenta, a cada momento cabeceava com a meia cahida no regaço. Amelia então pousava a costura, e com o cotovêlo sobre a mesa, fazendo girar oabat-jourverde do candieiro, pensava no seu casamento: o João Eduardo era bom rapaz, coitado; realisava o typo de marido tão estimado na pequena burguezia—não era feio e tinha um emprego; decerto o offerecimento da sua mão, apesar das infamias do jornal, não lhe parecia, como a mãi dissera, «um rasgo de mão cheia»; mas a sua dedicação lisonjeava-a, depois do abandono tão cobarde de Amaro: e havia dois annos que o pobre João gostava d'ella... Começou então laboriosamente a lembrar tudo o que n'elle lhe agradava—o seu ar sério, os seus dentes muito brancos, a sua roupa aceada.Fóra ventava forte, e a chuva, fustigando friamente as vidraças, dava-lhe appetites de confortos, um bom lume, o marido ao lado, o pequerrucho a dormir no berço—porque seria um rapaz, chamar-se-hia Carlos e teria os olhos negros do padre Amaro. O padre Amaro!... Depois de casada, decerto, tornaria a encontrar o senhor padre Amaro... E então uma idéa atravessou todo o seu sêr, fêl-a erguer bruscamente, ir por instincto procurar a escuridão da janella para occultar a vermelhidão dorosto. Oh! isso não, isso não! Era horrível!... Mas a idéa implacavelmente apoderára-se d'ella como um braço muito forte que a suffocava e lhe dava uma agonia deliciosa. E então o antigo amor, que o despeito e a necessidade tinham recalcado no fundo da_sua alma, rompeu, inundou-a: murmurou repetidamente, com paixão, torcendo as mãos, o nome d'Amaro: desejou avidamente os seus beijos—oh! adorava-o! E tudo tinha acabado, tudo tinha acabado! E devia casar, pobre d'ella!... Então á janella, com a face contra a escuridão da noite, choramingou baixinho.Ao chá a S. Joanneira disse-lhe, de repente:-Pois a coisa a fazer-se, filha, devia ser já... Era começar o enxoval, e se fosse possivel casar-te para o fim do mez.Ella não respondeu—mas a sua imaginação alvoroçou-se áquellas palavras. Casada d'ahi a um mez, ella! Apesar de João Eduardo lhe ser indifferente, a idéa d'aquelle rapaz, novo e apaixonado, que ia viver com ella, dormir com ella, deu uma perturbação a todo o seu sêr.E quando a mãi ia descer ao quarto disse-lhe:—Que lhe parece, minha mãi? Eu está-me a custar entrar em explicações com o João Eduardo, dizer-lhe que sim. O melhor era escrever-lhe...—Tambem acho, filha, escreve-lhe... ARuçaleva a carta pela manhã... Uma carta bonita, e que agrade ao rapaz.Amelia ficou na sala de jantar até tarde fazendo o rascunho da carta. Dizia:«Snr. João Eduardo,«A mamã cá me pôz ao facto da conversação que teve comsigo. E se a sua affeição é verdadeira, como creio e me tem dado muitas provas, eu estou pelo que se decidiu com muito boa vontade, pois conhece os meus sentimentos. E a respeito d'enxoval e papeis, ámanhã se fallará, pois que o esperamos para o chá. A mamã está muito contente e eu desejo que tudo seja para nossa felicidade, como espero ha de ser, com a ajuda de Deus. A mamã recommenda-se e eu soua que muito lhe quer,«Amelia Caminha».Apenas fechou a carta, as folhas de papel branco espalhadas diante d'ella deram-lhe o desejo d'escrever ao padre Amaro. Mas o quê? Confessar-lhe o seu amor, com a mesma penna, molhada na mesma tinta, com que aceitava por marido ooutro?... Accusal-o da sua cobardia, mostrar o seu desgosto—era humilhar-se! E, apesar de não ter motivo para lhe escrever, a sua mão ia traçando com gozo as primeiras palavras«Meu adorado Amaro...»Deteve-se, considerando que não tinha por quemmandar a carta. Ai! tinham de separar-se assim, em silencio, para sempre!... Separarem-se porquê?—pensou. Depois de casada podia bem vêr o senhor padre Amaro. E a mesma idéa voltava, subtilmente, mas n'uma fórma tão honesta agora, que a não repellia: decerto, o senhor padre Amaro podia ser o seu confessor; era em toda a christandade a pessoa que melhor guiaria a sua alma, a sua vontade, a sua consciencia; haveria então entre elles uma troca deliciosa e constante de confidencias, de dôces admoestações; todos os sabbados iria receber ao confessionario, na luz dos seus olhos e no som das suas palavras, uma provisão de felicidade; e aquillo seria casto, muito picante, e para gloria de Deus.Sentiu-se quasi satisfeita com a impressão, que não definia bem, d'uma existencia em que a carne estaria legitimamente contente, e a sua alma gozaria os encantos d'uma devoção amorosa. Tudo vinha a calhar bem, por fim... E d'ahi a pouco dormia serenamente, sonhando que estava nasuacasa, com oseumarido, e que jogava a manilha com as velhas amigas, no meio do contentamento de toda a Sé, sentada nos joelhos do senhor parocho.Ao outro dia aRuçalevou a carta a João Eduardo, e toda a manhã as duas senhoras, costurando á janella, fallaram do casamento. Amelia não se queria separar da mãi, e, como a casa tinha accommodações, os noivos viveriam no primeiro andar, e a S. Joanneira dormiria no quarto em cima; decerto o senhor conego ajudaria para o enxoval; podiamir passar a lua de mel para a fazenda da D. Maria. E Amelia áquellas perspectivas felizes fazia-se toda escarlate, sob o olhar da mãi que, de luneta na ponta do nariz, a admirava babosa.Ás Ave-Marias a S. Joanneira fechou-se em baixo no seu quarto a rezar a sua corôa, e deixou Amelia só «para se entender com o rapaz».—D'ahi a pouco, com effeito, João Eduardo bateu á campainha. Vinha muito nervoso, de luvas pretas, enfrascado em agua de colonia. Quando chegou á porta da sala de jantar não havia luz, e a bonita fórma d'Amelia destacava de pé, junto á claridade da vidraça. Elle pôz o chale-manta a um canto como costumava, e vindo para ella que ficára immovel, disse-lhe, esfregando muito as mãos:—Lá recebi a cartinha, menina Amelia...—Eu mandei-a pelaRuçalogo pela manhã para o pilhar em casa, disse ella immediatamente com as faces a arder.—Eu ia para o cartorio, até já ia na escada... Haviam de ser nove horas...—Haviam de ser... disse ella.Calaram-se, muito perturbados. Elle então tomou-lhe delicadamente os pulsos, e baixo:—Então sempre quer?—Quero, murmurou Amelia.—E o mais depressa possivel, hein?—Pois sim...Elle suspirou, muito feliz.—Havemos de nos dar muito bem, havemos denos dar muito bem! dizia. E as suas mãos, com pressões ternas, iam-se apoderando dos braços d'ella, dos pulsos aos cotovêlos.—A mamã diz que podemos viver juntos, disse ella, esforçando-se por fallar tranquillamente.—Está claro, e eu vou mandar fazer lençoes, acudiu elle, todo alterado.Attrahiu-a então a si, subitamente, beijou-lhe os labios; ella teve um soluçosinho, abandonou-se-lhe entre os braços, toda fraca, toda languida.—Oh, filha! murmurava o escrevente.Mas os sapatos da mãi rangeram na escada, e Amelia foi vivamente para o aparador accender o candieiro.A S. Joanneira parou á porta; e para dar a sua primeira approvação maternal, disse, com bonhomia:—Então vossês estão aqui ás escuras, filhos?Foi o conego Dias que participou ao padre Amaro o casamento d'Amelia, uma manhã, na Sé. Fallou no «a proposito do enlace», e acrescentou:—Eu estimo, porque é a contento da rapariga, e é um descanso para a pobre velha...—Está claro, está claro...—murmurou Amaro que se fizera muito branco.O conego pigarreou grosso, e ajuntou:—E vossê agora appareça por lá, agora estátudo na ordem... A patifaria do jornal isso pertence á historia... O que lá vai, lá vai!—Está claro, está claro...—rosnou Amaro. Traçou bruscamente a capa, sahiu da igreja.Ia indignado; e continha-se, para não praguejar alto, pelas ruas. Á esquina da viella das Sousas quasi esbarrou com Natario, que o agarrou logo pela manga, para lhe soprar ao ouvido:—Ainda não sei nada!—De quê?—Doliberal, doCommunicado. Mas trabalho, trabalho!Amaro, que anciava por desabafar, disse logo:—Então ouviu a novidade? O casamento d'Amelia... Que lhe parece?—Disse-me o animal do Libaninho. Diz que o rapaz apanhou o emprego... Foi o doutor Godinho... É outro que tal!... Veja vossê esta corja: o doutor Godinho no jornal ás bulhas com o governo civil, e o governo civil a atirar postas aos afilhados do doutor Godinho... Vá lá entendel-os! Isto é um paiz de biltres!—Diz que grande alegrão na casa da S. Joanneira!—disse o parocho, com um azedume negro.—Que se divirtam! Eu não tenho tempo de lá ir... Eu não tenho tempo para nada!... Eu cá ando no meu fito, saber quem é oliberale escachal-o! Não posso vêr esta gente que leva a chicotada, coça-se, e curva a orelha. Eu cá não! eu guardo-as!—E,com uma contracção de rancor que lhe curvou os dedos em garra e lhe encolheu o peito magro. disse por entre os dentes cerrados:—Eu, quando odeio, odeio bem!Esteve um momento calado, gozando o sabôr do seu fel.—Vossê se fôr á rua da Misericordia dê lá os parabens a essa gente...—E acrescentou com os olhinhos em Amaro:—O palerma do escrevente leva a rapariga mais bonita da cidade! Vai encher o papo!—Até á vista! exclamou bruscamente Amaro, abalando pela rua furioso.Depois d'aquelle terrivel domingo em que apparecera oCommunicado, o padre Amaro, ao principio, muito egoistamente, apenas se preoccupára com as consequências—«consequencias fataes, santo Deus!»—que lhe podia trazer o escandalo. Hein! se pela cidade se espalhasse que era elle opadre ajanotadoque oliberalapostrophava! Viveu dois dias aterrado, tremendo de vêr apparecer o padre Saldanha, com a sua cara ameninada e voz melliflua, a dizer-lhe «que sua excellencia o senhor chantre reclamava a sua presença»! Passava já o tempo preparando explicações, respostas habeis, lisonjas a sua excellencia.—Mas quando viu que, apesar da violencia do artigo, sua excellencia parecia disposto «a fazer a vista grossa», occupou-se então, mais tranquillo, dos interesses do seu amor tão violentamente perturbados. O medo tornava-o astucioso; edecidiu não voltar algum tempo á rua da Misericordia.—Deixar passar o aguaceiro, pensou.Ao fim de quinze dias, tres semanas, quando o artigo estivesse esquecido, appareceria de novo em casa da S. Joanneira: deixaria vêr bem á rapariga que a adorava sempre, mas evitaria a antiga familiaridade, as conversasinhas baixas, os logarzinhos chegados ao quino; depois, pela D. Maria da Assumpção, pela D. Josepha Dias, obteria que Amelia deixasse o padre Silverio, e se confessasse a elle: poderiam então entender-se, no segredo do confessionario: combinariam uma conducta discreta, encontros cautelosos aqui e além, cartinhas pela criada: e aquelle amor assim conduzido, com prudenciasinha, não teria o perigo de apparecer uma manhã annunciado no periodico! E regosijava-se já da habilidade d'esta combinação, quando lhe vinha o grande choque—casava-se a rapariga!Depois dos primeiros desesperos, desabafados em patadas no soalho e blasphemias de que pedia logo perdão a Nosso Senhor Jesus Christo, quiz serenar, estabelecer a razão das coisas. Aonde o levava aquella paixão? Ao escandalo. E assim, casada ella, cada um entrava no seu destino legitimo e sensato—ella na sua familia, elle na sua parochia. Depois, quando se encontrassem, um comprimento amavel; e elle poderia passear a cidade com a sua cabeça bem direita, sem medo dos ápartes da Arcada, das insinuações da gazeta, das severidades de sua excellenciae das picadinhas da consciencia! E a sua vida seria feliz.—Não, por Deus! a sua vida não poderia ser feliz sem ella! Tirado á sua existencia aquelle interesse das visitas à rua da Misericordia, os apertosinhos de mão, a esperança de delicias melhores—que lhe restava a elle? Vegetar, como um dos tortolhos nos cantos humidos do adro da Sé! E ella, ella que o entontecera com os seus olhinhos e as suas maneirinhas, voltava-lhe as costas mal lhe apparecia outro, bom para marido, com 25$000 reis por mez! Todos aquelles suspiros, aquellas mudanças de côr—chalaça! Mangára com o senhor parocho!...O que a odiava!—menos que o outro porém, o outro que triumphava porque era um homem, tinha a sua liberdade, o seu cabello todo, o seu bigode, um braço livre para lhe dar na rua! Repastava então a imaginação rancorosamente nas visões de felicidade do escrevente: via-o trazendo-a da igreja triumphantemente; via-o beijando-lhe o pescoço e o peito... E a estas idéas dava patadas furiosas no soalho—que assustavam a Vicencia na cozinha.Depois procurava socegar, retomar a direcção das suas faculdades, applical-as todas a achar uma vingança, uma boa vingança! E voltava então o antigo desespero de não viver no tempo da inquisição, e com uma denuncia de irreligião ou de feiticeria, mandal-os ambos para um carcere. Ah! n'esse tempo um padre gozava! Mas agora, com os senhores liberaes, tinha de vêr aquelle miseravel escrevente aseis vintens por dia apoderar-se-lhe da rapariga—e elle, sacerdote instruido, que podia ser bispo, que podia ser Papa, tinha de vergar os hombros e ruminar solitariamente o seu despeito! Ah! se as maldições de Deus tinham algum valor—malditos fossem elles! Quereria vêl-os cheios de filhos, sem pão na prateleira, com o ultimo cobertor empenhado, resequidos de fome, injuriando-se,—e elle a rir-se, elle a regalar-se!...Na segunda-feira não se conteve, foi á rua da Misericordia. A S. Joanneira estava em baixo na saleta com o conego Dias. E apenas viu Amaro:—Oh, senhor parocho! bem apparecido! Estava a fallar em v. s.a! Já estranhava não o vermos, agora que ha alegria em casa.—Já sei, já sei, murmurou Amaro pallido.—Alguma vez havia de ser, disse o conego jovialmente. Deus os faça felizes e lhes dê poucos filhos, que a carne está cara.Amaro sorriu—escutando em cima o piano.Era Amelia que tocava como outr'ora a valsa dosDois Mundos; e João Eduardo, muito chegado a ella, voltava as folhas da musica.—Quem entrou,Ruça? gritou ella sentindo os passos da rapariga nas escadas.—O senhor padre Amaro.Um fluxo de sangue abrazou-lhe o rosto—e ocoração batia-lhe tão forte, que ficou um momento com os dedos immoveis sobre o teclado.—Não se precisava cá do senhor padre Amaro, rosnou João Eduardo por entre dentes.Amelia mordeu o beiço. Teve odio ao escrevente: n'um instante repugnou-lhe a sua voz, os seus modos, a sua figura de pé junto d'ella: pensou com deleite como depois de casada (já que tinha de casar) se confessaria toda ao padre Amaro, e não deixaria de o amar! Não sentia n'aquelle momento escrupulos; e quasi desejava que o escrevente lhe visse no rosto a paixão que a revolvia.—Credo, creatura! disse-lhe. Chegue-se um pouco mais para lá, que nem me deixa os braços livres para tocar!Terminou bruscamente a valsa dosDois Mundos, começou a cantar oAdeus:Ai! adeus! acabaram-se os diasQue ditosa vivi a teu lado!A sua voz elevava-se, com uma modulação ardente,—dirigindo o canto, através do soalho, ao coração do parocho, em baixo.E o parocho, com a sua bengala entre os joelhos, sentado no canapé, devorava todos os tons da voz d'ella—emquanto a S. Joanneira tagarellava, contando as peças de algodão que comprára para lençoes, os arranjos que ia fazer no quarto dos noivos, e as vantagens de viverem juntos...—Uma felicidade por ahi além, interrompeu oconego erguendo-se pesadamente. E vamos lá para cima, que isto de noivos não se querem sós...—Ah, lá n'isso, disse a S. Joanneira rindo, fio-me n'elle, que é homem de bem ás direitas.Amaro, ao subir a escada, tremia—e, mal entrou na sala, o rosto d'Amelia, alumiado pelas luzes do piano, deu-lhe um deslumbramento, como se as vesperas do noivado a tivessem embellezado e a separação lh'a tornasse mais appetitosa. Foi dar-lhe gravemente um aperto de mão, outro ao escrevente, disse baixo, sem os olhar:—Os meus parabens... Os meus parabens...Voltou as costas, e foi conversar com o conego que se enterrára na sua poltrona queixando-se d'enfastiamento e reclamando o chá.Amelia ficára como abstracta, correndo inconscientemente os dedos pelo teclado. Aquelle modo do padre Amaro confirmava a sua idéa: queria a todo o custo descartar-se d'ella, o ingrato! fazia «como se nada tivesse havido», o villão! Na sua cobardia de padre, com o terror do senhor chantre, do jornal, da Arcada, de tudo,—sacudia-a da sua imaginação, do seu coração, da sua vida, como se sacode um insecto que tem peçonha!... Então, para o enraivecer, começou a cochichar ternamente com o escrevente; roçava-se-lhe pelo hombro, rendida, com risinhos, segredinhos; tentaram, em alarido jovial, tocar uma peça a quatro mãos; depois ella beliscou-o, elle deu um gritinho exagerado.—E a S. Joanneira contemplava-os babosa, emquanto o conego dormitavajá, e o padre Amaro, abandonado a um canto como outr'ora o escrevente, ia folheando o velho album.Mas um brusco repique da campainha veio sobresaltal-os todos: passos rapidos galgaram a escada, pararam em baixo na saleta: e aRuçaappareceu dizendo «que era o senhor padre Natario, que não desejava subir, e queria dar uma palavra ao senhor conego».—Fracas horas para embaixadas, rosnou o conego, arrancando-se com custo ao fundo confortavel da poltrona.Amelia fechou logo o piano—e a S. Joanneira pousando a meia foi em bicos de pés escutar ao alto da escada: fóra ventava forte, e para os lados da Praça afastava-se o toque de retreta.Emfim a voz do conego chamou, de baixo, da porta da saleta:—Ó Amaro!—Padre-Mestre?—Venha cá, homem. E diga á senhora que póde vir tambem.A S. Joanneira desceu logo, muito assustada: Amaro imaginava que o padre Natario emfim descobrira oliberal!A saleta parecia muito fria com a luz pequenina da vela sobre a mesa: e na parede, n'um velho painel muito escuro—que ultimamente o conego dera á S. Joanneira—destacava uma face livida de monge e um osso frontal de caveira.O conego Dias accommodára-se ao canto do canapé, sorvendo reflectidamente a pitada; e Natario, que se agitava pela sala, exclamou logo:—Boas noites, senhora! Olá, Amaro! Trago novidades!... Não quiz subir porque imaginei que estaria o escrevente, e estas coisas são cá para nós. Estava a começar a dizer ao collega Dias... Tive lá em casa o padre Saldanha. Temol-as boas!O padre Saldanha era o confidente do senhor chantre. E o padre Amaro, já inquieto, perguntou:—Coisa que nos toca?Natario começou com solemnidade erguendo alto o braço:—Primo: o collega Brito mudado da freguezia d'Amor para ao pé d'Alcobaça, para a serra, para o inferno...—Que me diz!? exclamou a S. Joanneira.—Obras doliberal, minha senhora! O nosso digno chantre levou-lhe tempo a meditar oCommunicadodoDistricto, mas por fim sahiu-se! O pobre Brito lá vai esfogueteado!...—Sempre é o que se dizia da mulher do regedor... murmurou a boa senhora.—Ólá! interrompeu severamente o conego. Então, senhora, então! Isto aqui não é casa de murmuração!... Siga com o seu recado, collega Natario.—Secundo, continuou Natario: é o que eu ia dizer ao collega Dias... O senhor chantre, em vista doCommunicadoe d'outros ataques da imprensa, está decidido a «reformar os costumes do clero diocesano»,palavras do padre Saldanha. Que lhe desagradam summamente os conciliabulos de ecclesiasticos e de senhoras... Que quer saber o que é isso de sacerdotes ajanotados tentando meninas bonitas... Emfim, palavras textuaes de sua excellencia—está decidido a limpar as cavalhariças d'Augias!...—o que quer dizer em bom portuguez, minha senhora, que vai andar tudo n'uma roda-viva.Houve uma pausa consternada. E Natario, plantado no meio da saleta com as mãos enterradas nas algibeiras, exclamou:—Que lhes parece esta á ultima hora, hein?O conego ergueu-se pachorrentamente:—Olhe, collega, disse, entre mortos e feridos ha de escapar alguem... E a senhora não se fique ahi com essa cara deMater-dolorosa, e mande servir o chá, que é o importante.—Eu lá disse ao padre Saldanha...—começou Natario perorando.Mas o conego interrompeu-o com força:—O padre Saldanha é um patarata!... Vamos nós ás torradinhas, e lá em cima, diante dos rapazes, caluda.O chá foi silencioso. O conego, a cada bocado de torrada, respirava affrontado, franzia muito o sobr'olho; a S. Joanneira, depois de fallar da D. Maria da Assumpção que estava mal do catarrho, ficou toda murcha, com a testa sobre o punho; Natario, a grandes passadas, fazia uma ventania na sala com as abas do casacão.—E quando vem essa boda? exclamou elle, estacando subitamente diante d'Amelia e do escrevente; que tomavam o chá sobre o piano.—Um dia cedo, respondeu ella sorrindo.Amaro então ergueu-se devagar, e tirando o seucebolão:—São horas de me ir chegando á rua das Sousas, minhas senhoras, disse com uma voz desalentada.Mas a S. Joanneira não consentiu. Credo, estavam todos mônos como se estivessem de pêzames!... Que fizessem um quino para espairecer...—O conego porém, sahindo do seu torpor, disse com severidade:—Está a senhora muito enganada, ninguem está môno. Não ha razões senão para estar alegre. Pois não é verdade, senhor noivo?João Eduardo mexeu-se, sorriu:—Eu cá por mim, senhor conego, não tenho razão senão para estar feliz.—Pois está claro, disse o conego. E agora Deus lhes dê boas noites a todos, que eu vouquinarpara valle de lençoes. E o Amaro tambem.Amaro foi apertar silenciosamente a mão d'Amelia,—e os tres padres desceram calados.Na saleta a vela ainda ardia com um murrão. O conego entrou a buscar o seu guardachuva; e então, chamando os outros, cerrando devagarinho a porta, disse-lhes baixo:—Eu, collegas, não quiz assustar ha pouco apobre senhora, mas essas coisas do chantre, esses fallatorios... É o diabo!—É ter cautelinha, meninos! aconselhou Natario, abafando a voz.—É sério, é sério, murmurou lugubremente o padre Amaro.Estavam de pé no meio da saleta. Fóra o vento uivava: a luz da vela agitada fazia alternadamente destacar e reentrar na sombra do quadro o osso frontal da caveira: e em cima Amelia cantarolava aChiquita.Amaro recordava outras noites felizes em que elle, triumphante e sem cuidados, fazia rir as senhoras,—e Amelia, gorgeandoAi chiquita que si, revirava-lhe olhares rendidos...—Eu, disse o conego, os collegas sabem, tenho que comer e beber, não me importa... Mas é necessario manter a honra da classe!—E não carece duvida, acrescentou Natario, que se ha outro artigo e mais fallatorios, estala com certeza o raio...—Olha o pobre Brito, murmurou Amaro, esfogueteado para a serra!...Em cima decerto houve alguma graça, porque sentiram as risadas do escrevente.Amaro rosnou com rancor:—Grande galhofa, lá em cima!...Desceram. Ao abrir a porta uma rajada de vento bateu a face de Natario d'uma chuva miudinha.—Olha que noite! exclamou furioso.Só o conego tinha guardachuva; e abrindo-o devagar:—Pois meninos, não ha que vêr, estamos em calças pardas...Da janella de cima, alumiada, sahiam os sons do piano, nos acompanhamentos daChiquita. O conego soprava, agarrando fortemente o guardachuva contra o vento; ao lado Natario, cheio de fel, rilhava os dentes, encolhido no seu casacão; Amaro caminhava de cabeça cahida, n'um abatimento de derrota; e emquanto os tres padres, assim agachados sob o guardachuva do conego, iam chapinhando as poças pela rua tenebrosa, por traz a chuva penetrante e sonora ia-os ironicamente fustigando!XIID'ahi a dias, os frequentadores da botica, na Praça, viram com espanto o padre Natario e o doutor Godinho conversando em harmonia, á porta da loja de ferragens do Guedes. O recebedor,—que era escutado com deferencia em questões de politica estrangeira—observou-os com attenção através da porta vidrada da pharmacia, e declarou com um tom profundo «que não se admiraria mais se visse Victor Manoel e Pio IX passearem de braço dado»!O cirurgião da camara porém não estranhava aquelle «commercio d'amizade».—Segundo elle o ultimo artigo daVoz do Districto, evidentemente escripto pelo doutor Godinho, (era o seu estylo incisivo,cheio de logica, atulhado d'erudição!) mostrava que a gente da Maia se queria ir aproximando da gente da Misericordia. O doutor Godinho (na expressão do cirurgião da camara) fazia tagatés ao governo civil e ao clero diocesano: a ultima phrase do artigo era significativa—«não seremos nós que regatearemos ao clero os meios de exercer proficuamente a sua divina missão!»A verdade era (como observou um individuo obeso, o amigo Pimenta) que, se não havia ainda paz, já havia negociações—porque na vespera elle vira, com aquelles seus olhos que a terra tinha de comer, o padre Natario sahindo de manhã muito cedo da redacção daVoz do Districto!—Oh, amigo Pimenta, essa é fabricada!O amigo Pimenta ergueu-se com magestade, deu um puxão grave ao cós das calças, e ia indignar-se—quando o recebedor acudiu:—Não, não, o amigo Pimenta tem razão. A verdade é que eu n'outro dia vi o patife do Agostinho fazer grande barretada ao padre Natario. E que o Natario traz intriga na mão, isso é seguro! Eu gósto d'observar as pessoas... Pois senhores, o Natario, que nunca apparecia aqui na Arcada, agora vejo-o sempre ahi com o nariz pelas lojas... Depois a grande amizade com o padre Silverio... Hão de reparar que são ambos certos ahi na Praça ás Ave-Marias... E é negocio com a gente do doutor Godinho... O padre Silverio é o confessor da mulher do Godinho... Umas coisas pegam com as outras!Era muito commentada, com effeito, a nova amizade do padre Natario com o padre Silverio. Havia cinco annos tinha occorrido na sacristia da Sé, entre os dois ecclesiasticos, uma questão escandalosa: Natario correra até de guardachuva erguido para o padre Silverio, quando o bom conego Sarmento, banhado em lagrimas, o reteve pela batina, gritando:—«Oh, collega, que é a perdição da religião»! Desde então Natario e Silverio não fallavam—com desgosto de Silverio, um bonacheirão, d'uma obesidade hydropica, que, segundo diziam as suas confessadas, «era todo affeição e perdão». Mas Natario, sêcco e pequeno, tinha tenacidade no rancor. Quando o snr. chantre Valladares começou a governar o bispado, chamou-os, e, depois de lhes lembrar com eloquencia a necessidade «de manter a paz na Igreja», de lhes recordar o exemplo tocante de Castor e Pollux, empurrou Natario com uma brandura grave para os braços do padre Silverio—que o teve um momento sepultado na vastidão do peito e do estomago, murmurando todo commovido:—Todos somos irmãos, todos somos irmãos!Mas Natario, cuja natureza dura e grosseira nunca perdia, como o papelão, as dobras que tomava, conservou com o padre Silverio um tom amuado: na Sé ou na rua, resvalando junto d'elle com um geito brusco do pescoço, rosnava apenas:Senhor padre Silverio, ás ordens!Havia porém duas semanas, uma tarde de chuva Natario fizera repentinamente uma visita ao padreSilverio—sob pretexto que «o pilhàra alli uma pancada d'agua, e que se vinha recolher um instante».—E tambem, acrescentou, para lhe pedir a sua receita para a dôr d'ouvidos, que uma das minhas sobrinhas, coitada, está como doida, collega!O bom Silverio, esquecendo decerto que ainda n'essa manhã vira as duas sobrinhas de Natario sãs e satisfeitas como dois pardaes, apressou-se a escrever a receita, todo feliz de utilisar os seus queridos estudos de medicina caseira; e murmurava, banhado de riso:—Ora que alegria, collega, vêl-o aqui de novo n'esta sua casa!A reconciliação foi tão publica—que o cunhado do senhor barão de Via-Clara, bacharel de grandes dotes poeticos, lhe dedicou uma d'aquellas satyras que elle intitulavaFerrões, que iam manuscriptas de casa em casa, muito saboreadas e muito temidas; e chamára a composição, tendo presente decerto a figura dos dois sacerdotes:Famosa reconciliação do Macaco e da Baleia!Era com effeito frequente, agora, vêr a pequena figura de Natario gesticulando e saltitando ao lado do vulto enorme e pachorrento do padre Silverio.Uma manhã mesmo os empregados da administração (que era então no largo da Sé) gozaram muito, observando da sacada os dois padres que passeavam no terraço, ao tepido sol de maio. O senhor administrador,—que passáva as horas da repartiçãonamorando com um binoculo, por traz da vidraça do seu gabinete, a esposa do Telles alfaiate—começára subitamente a dar gargalhadas á janella: o escrivão Borges correu logo, de penna na mão, á varanda, a vêr de que ria sua senhoria, e, muito divertido, a fungar, chamou á pressa o Arthur Couceiro que estava copiando, para estudar á guitarra, uma canção daGrinalda: o amanuense Pires, severo e digno, aproximou-se, carregando para a orelha o seu barretinho de sêda, com horror ás correntes d'ar; e em grupo, d'olho arregalado, observavam os dois padres, que tinham parado á esquina da igreja. Natario parecia excitado: procurava decerto persuadir, abalar o padre Silverio; e em bicos de pés, plantado diante d'elle, agitava phreneticamente as mãos muito magras. Depois, subitamente, apoderou-se-lhe do braço, arrastou-o ao comprido do terraço lageado: ao fundo parou, recuou, fez um gesto largo e desolado, como attestando a perdição possivel d'elle, da Sé ao lado, da cidade, do universo em redor; o bom Silverio, com os olhos muito abertos, parecia apavorado. E recomeçaram a passear. Mas Natario exaltava-se: dava recuões bruscos, atirava estocadas com um longo dedo ao vasto estomago de Silverio, batia patadas furiosas nas lages polidas; e de repente, de braços pendentes, mostrava-se acabrunhado. Então o bom Silverio fallou um momento com a mão espalmada sobre o peito; immediatamente, a face biliosa de Natario illuminou-se; pulou, bateu no hombro do collega palmadinhasde muito jubilo,—e os dois sacerdotes entraram na Sé, chegados e rindo baixinho.—Que patuscos! disse o escrivão Borges, que detestava sotainas.—Aquillo tudo é a respeito do jornal, disse Arthur Couceiro, vindo retomar o seu trabalho lyrico. O Natario não socega emquanto não souber quem escreveu oCommunicado; disse-o elle em casa da S. Joanneira... E a coisa pelo Silverio vai bem, que é o confessor da mulher do Godinho.—Corja! rosnou o Borges com nojo. E continuou pachorrentamente o officio que compunha, remettendo para Alcobaça um preso—que ao fundo da saleta, entre dois soldados, esperava sobre um banco, prostrado e embrutecido, com uma face de fome e as mãos em ferros.D'ahi a dias tinha havido na Sé o Officio de corpo presente pelo rico proprietario Moraes, que morrera d'um aneurisma, e a quem sua esposa (em penitencia decerto dos desgostos que lhe dera com a sua affeição desordenada por tenentes d'infanteria) estava fazendo, como se disse, «exequias de pessoa real».—Amaro desvestira-se, e na sacristia, á luz d'um velho candieiro de latão, escrevia assentos atrazados, quando a porta de carvalho rangeu, e a voz agitada de Natario disse:—Ó Amaro, vossê está ahi?—Que temos?O padre Natario fechou a porta, e atirando os braços para o ar:—Grande novidade, é o escrevente!—Que escrevente?—O João Eduardo! É elle! É oliberal! Foi elle que escreveu oCommunicado!—Que me diz vossê!?—fez Amaro attonito.—Tenho provas, meu amigo! Vi o original, escripto pela letra d'elle. O que se chamavêr! Cinco tiras de papel!Amaro, com os olhos esgazeados, fitava Natario.—Custou! exclamou Natario. Custou, mas soube-se tudo! Cinco tiras de papel! E quer escrever outro! O senhor João Eduardo! O nosso rico amigo senhor João Eduardo!—Vossê está certo d'isso?—Se estou certo!... Estou a dizer-lhe que vi, homem!—E como soube vossê, Natario?Natario dobrou-se; e com a cabeça enterrada nos hombros, arrastando as palavras:—Ah, collega, lá isso... Oscomose osporquês... Vossê comprehende...Sigillus magnus!E com uma voz aguda de triumpho, a largos passos pela sacristia:—Mas ainda isto não é nada! O senhor Eduardo que nós viamos alli na casa da S. Joanneira, tão bom mocinho, é um patife antigo! É o intimo do Agostinho, o bandido daVoz do Districto! Está mettido naredacção até altas horas da noite... Uma orgia, vinhaça, mulheres... E gaba-se de ser atheu... Ha seis annos que se não confessa... Chama-nos acanalha canonica... É republicano... Uma fera, meu caro senhor, uma fera!Amaro, escutando Natario, arrumava atarantadamente, com as mãos tremulas, papeis no gavetão da escrivaninha.—E agora?... perguntou.—Agora? exclamou Natario. Agora é esmagal-o!Amaro fechou o gavetão, e muito nervoso, passando o lenço pelos labios seccos:—Uma assim, uma assim! E a pobre rapariga, coitada... Casar agora com um homem d'esses... Um perdido!Os dois padres, então, olharam-se fixamente. No silencio, o velho relogio da sacristia punha o seutic-tacplangente. Natario tirou da algibeira dos calções a caixa do rapé, e com os olhos ainda fixos em Amaro, a pitada nos dedos, disse sorrindo friamente:—Desmanchar-lhe o casamentosinho, hein?—Vossê acha? perguntou sôffregamente Amaro.—Caro collega, é uma questão de consciencia... Para mim era uma questão de dever! Não se póde deixar casar a pobre pequena com um bréjeiro, um pedreiro-livre, um atheu...—Com effeito! com effeito! murmurava Amaro.—Vem a calhar, hein? fez Natario; e sorveu com gozo a pitada.Mas o sacristão entrou; eram as horas de fechara igreja; vinha perguntar se suas senhorias se demoravam.—Um instante, snr. Domingos.E, emquanto o sacristão corria os pesados ferrolhos da porta interior do pateo, os dois padres muito chegados fallavam baixo.—Vossê vai ter com a S. Joanneira, dizia Natario. Não, escute, é melhor que lhe falle o Dias; o Dias é que deve fallar á S. Joanneira. Vamos pelo seguro. Vossê falle á pequena e diga-lhe simplesmente que o ponha fóra de casa!—E ao ouvido de Amaro:—Diga á rapariga que elle vive ahi de casa e pucarinho com uma desavergonhada!—Homem! disse Amaro recuando, não sei se isso é verdade!—Ha de ser. Elle é capaz de tudo. E depois é um meio de levar a pequena...E foram descendo a igreja atraz do sacristão, que fazia tilintar o seu mólho de chaves, pigarreando grosso.Nas capellas pendiam as armações de paninho negro agaloadas de prata; ao centro, entre quatro fortes tocheiras de grosso murrão, estava a eça, com o largo pano de velludilho cobrindo o caixão do Moraes, recahindo em pregas franjadas; á cabeceira tinha uma larga corôa de perpetuas; e aos pés pendia, d'um grande laço de fita escarlate, o seu habito de cavalleiro de Christo.O padre Natario então parou; e tomando o braço d'Amaro com satisfação:—E depois, meu caro amigo, tenho outra preparada ao cavalheiro...—O quê?—Cortar-lhe os víveres!—Cortar-lhe os víveres!?—O pateta estava para ser empregado no governo civil, primeiro amanuense, hein? Pois vou-lhe desmanchar o arranjinho!... E o Nunes Ferral que é dos meus, homem de boas idéas, vai pôl-o fóra do cartorio... E que escreva entãoCommunicados!Amaro teve horror áquella intriga rancorosa:—Deus me perdôe, Natario, mas isso é perder o rapaz...—Emquanto o não vir por essas ruas a pedir um bocado de pão, não o largo, padre Amaro, não o largo!—Oh, Natario! oh, collega! Isso é de pouca caridade... Isso não é de christão... E então aqui que Deus está a ouvil-o...—Não lhe dê isso cuidado, meu caro amigo... Deus serve-se assim, não é a resmungar Padre-nossos. Para impíos não ha caridade! A inquisição atacava-os pelo fogo, não me parece mau atacal-os pela fome. Tudo é permittido a quem serve uma causa santa... Que se não mettesse commigo!Iam a sahir; mas Natario deitou um olhar para o caixão do morto, e apontando com o guarda-chuva:—Quem está alli?—O Moraes, disse Amaro.—O gordo, picado das bexigas?—Sim.—Boa bêsta!E depois d'um silencio:—Foram os Officios do Moraes... Eu nem dei por isso, occupado cá na minha campanha... E a viuva fica rica. É generosa, é presenteadora... Quem a confessa é o Silverio, hein? Tem as melhores pechinchas de Leiria, aquelle elephante!Sahíram. A botica do Carlos estava fechada, o céo muito escuro.No largo, Natario parou:—Resumindo: o Dias falla á S. Joanneira, e vossê falla á pequena. Eu por mim me entenderei com a gente do governo civil e com o Nunes Ferral. Encarreguem-se vossês do casamento, que eu me encarrego do emprego!—E batendo no hombro do parocho jovialmente:—É o que se póde dizer atacal-o pelo coração e pelo estomago! E adeusinho, que as pequenas estão á espera para a ceia! Coitadita, a Rosa tem estado com um defluxo!... É fraquita, aquella rapariga, dá-me muito cuidado... Que eu em a vendo murcha até perco logo o somno. Que quer vossê? Quando se tem bom coração...—Até ámanhã, Amaro.—Até ámanhã, Natario.E os dois padres separaram-se, quando davam nove horas na Sé.Amaro entrou em casa ainda um pouco tremulo, mas muito decidido, muito feliz: tinha um dever delicioso a cumprir! E dizia alto, com passos graves pela casa, para se compenetrar bem d'essa responsabilidade estimada:—É do meu dever! É do meu dever!Como christão, como parocho, como amigo da S. Joanneira oseu deverera procurar Amelia, e, com simplicidade, sem paixão interessada, contar-lhe que fôra João Eduardo, o seu noivo, que escrevera oCommunicado.Foi elle! Diffamou os íntimos da casa, sacerdotes de sciencia e de posição; desacreditou-a a ella; passa as noites em deboche na possilga do Agostinho; insulta o clero, baixamente; gaba-se de irreligião; ha seis annos que se não confessa! Como diz o collega Natario, é uma fera! Pobre menina! Não, não podia casar com um homem que lhe impediria avida perfeita, lhe achincalharia as boas crenças! Não a deixaria rezar, nem jejuar, nem procurar no confessor a direcção salutar, e, como diz o santo padre Chrysostomo, «amadureceria a sua alma para o inferno»! Elle não era seu pai, nem seu tutor; mas era parocho, era pastor:—e se a não subtrahisse áquelle destino heretico pelos seus conselhos graves, pela influencia da mãi e das amigas,—seriacomo aquelle que tem a guarda d'um rebanho n'uma herdade, e abre indignamente a cancella ao lobo! Não, a Ameliasinha não havia de casar com oatheu!E o seu coração então batia forte sob a effusão d'aquella esperança. Não, o outro não a possuiria! Quando viesse a apoderar-se legalmente d'aquella cinta, d'aquelles peitos, d'aquelles olhos, d'aquella Ameliasinha,—elle, parocho, lá estava para lhe dizer alto:Para traz, seu canalha! isto aqui é de Deus!E tomaria então bem cuidado em guiar a pequena á salvação! Agora oCommunicadoestava esquecido, o senhor chantre tranquillisado: d'ahi a dias poderia voltar sem susto á rua da Misericordia, recomeçar os deliciosos serões—apoderar-se de novo d'aquella alma, formal-a para o paraiso...E aquillo, Jesus! não era uma intriga para a arrancar ao noivo: os seus motivos (e dizia-o alto, para se convencer melhor) eram muito rectos, muito puros: aquillo era um trabalho santo para a arrancar ao inferno: elle não a queria para si, queria-a para Deus!...Casualmente, sim, os seus interesses de amante coincidiam com os seus deveres de sacerdote. Mas se ella fosse vesga e feia e tola, elle iria igualmente à rua da Misericordia, em serviço do céo, desmascarar o snr. João Eduardo, diffamador e atheu!E, socegado por esta argumentação, deitou-se tranquillamente.Mas toda a noite sonhou com Amelia. Tinha fugido com ella: e ia-a levando por uma estrada queconduzia ao céo! O diabo perseguia-o; elle via-o, com as feições de João Eduardo, soprando e rasgando com os cornos os delicados seios das nuvens. E elle escondia Amelia no seu capote de padre, devorando-a por baixo de beijos! Mas a estrada do céo não findava.—«Onde é a porta do paraiso?» perguntava elle a anjos de cabelleiras d'ouro que passavam, n'um dôce rumor de azas, levando almas nos braços. E todos lhe respondiam:—«Na rua da Misericordia, na rua da Misericordia numero nove!» Amaro sentia-se perdido: um vasto ether côr de leite, penetravel e macio como uma pennugem d'ave, envolvia-o, e elle procurava debalde uma taboleta de hospedaria! Por vezes resvalava junto d'elle um globo reluzente d'onde sahia o rumor d'uma creação; ou um esquadrão d'archanjos, com couraças de diamantes, erguendo alto espadas de fogo, galopavam n'um rhythmo nobre...Amelia tinha fome, tinha frio. «Paciencia, paciencia, meu amor!» dizia-lhe elle. Caminhando, vieram a encontrar uma figura branca, que tinha na mão uma palma verde. «Onde está Deus, nosso pai?» perguntou-lhe Amaro, com Amelia conchegada ao peito. A figura disse:—«Eu fui um confessor, e sou um santo: os seculos passam, e immutavelmente, sempiternamente sustento na mão esta palma e banha-me um extase igual! Nenhuma tinta modifica esta luz para sempre branca; nenhuma sensação sacode o meu sêr para sempre immaculado; e immobilisado na bemaventurança, sinto a monotonia docéo pesar-me como uma capa de bronze. Oh! pudesse eu caminhar a passos largos nas torpezas differentes da terra—ou bracejar, sob as variedades da dôr, nas chammas do purgatorio!»Amaro murmurou: «Bem fazemos nós em peccar!»—Mas Amelia desfallecia fatigada. «Durmamos, meu amor!» E, deitados, viam estrellas fluctuando n'uma poeirada como o joio sacudido vivamente do crivo. Então nuvens começaram a dispôr-se em torno d'elles, em pregas de cortinados, dando um perfume desachets; Amaro pousou a sua mão sobre o peito d'Amelia: um enleio muito dôce enervava-os: enlaçaram-se, os seus labios pegavam-se humidos e quentes:—«Oh, Ameliasinha!» murmurava elle.—«Amo-te, Amaro, amo-te!» suspirava ella.—Mas de repente as nuvens afastaram-se como os cortinados d'um leito; e Amaro viu diante o diabo que os alcançara, e que, com as garras na cinta, esgaçava a boca n'uma risada muda. Com elle estava outro personagem: era velho como a substancia; nos anneis dos seus cabellos vegetavam florestas; a sua pupilla tinha a vastidão azul d'um oceano; e nos dedos abertos, com que cofiava a barba infindavel, caminhavam, como em estradas, filas de raças humanas.—«Aqui estão os dois sujeitos», dizia-lhe o diabo retorcendo a cauda.—E por traz Amaro via agglomerarem-se legiões de santos e de santas. Reconheceu S. Sebastião com as suas settas cravadas; Santa Cecilia trazendo na mão o seu orgão; por entre elles sentia balarem os rebanhos de S. João; e no meioerguia-se o bom gigante S. Christovão apoiado ao seu pinheiro. Espreitavam, cochichavam! Amaro não se podia desenlaçar de Amelia, que chorava muito baixo; os seus corpos estavam sobrenaturalmente collados; e Amaro, afflicto, via que as saias d'ella levantadas descobriam os seus joelhos brancos.—«Aqui estão os dois sujeitos», dizia o diabo ao velho personagem, «e repare o meu prezado amigo, porque todos aqui somos apreciadores, que a pequena tem bonitas pernas!» Santos vetustos alçaram-se sôfregamente em bicos de pés, estendendo pescoços onde se viam cicatrizes de martyrios: e as onze mil virgens bateram o vôo como pombas espavoridas! Então o personagem, esfregando as mãos d'onde se esfarelavam universos, disse grave: «Fico inteirado, meu caro amigo, fico inteirado! Com que, senhor parocho, vai-se á rua da Misericordia, arruina-se a felicidade do snr. João Eduardo (um cavalheiro), arranca-se a Ameliasinha á mamã, e vem-se saciar concupiscencias reprimidas a um cantinho da Eternidade? Eu estou velho—está rouca esta voz que outr'ora tão sabiamente discursava pelos valles. Mas pensa que me assombra o senhor conde de Ribamar, seu protector, apesar de ser um pilar da Igreja e uma columna da Ordem? Pharaó era um grande rei—e eu afoguei-o, e os seus principes captivos, os seus thesouros, os seus carros de guerra, e as manadas dos seus escravos! Eu cá sou assim! E se os senhores ecclesiasticos continuarem a escandalisar Leiria—eu ainda sei queimar uma cidade como umpapel inutil, e ainda me resta agua para diluvios!» E voltando-se para dois anjos armados de espadas e lanças, o personagem bradou: «Chumbem uma grilheta aos pés do padre, e levem-no ao abysmo numero sete!» E o diabo gania: «Ahi estão as consequencias, senhor padre Amaro!» Elle sentiu-se arrebatado de sobre o seio d'Amelia por mãos de braza; e ia luctar, bradar contra o juiz que o julgava—quando um sol prodigioso que vinha nascendo do Oriente bateu no rosto do personagem, e Amaro, com um grito, reconheceu o Padre Eterno!Acordou banhado em suor. Um raio de sol entrava pela janella.N'essa noite João Eduardo, indo da Praça para casa da S. Joanneira, ficou assombrado, ao vêr apparecer á outra boca da rua, do lado da Sé, o Santissimo em procissão.E vinha para casa das senhoras! Por entre as velhas de mantéo pela cabeça, as tochas faziam destacar opas de paninho escarlate; sob o pallio os dourados da estola do parocho reluziam; uma campainha tocava adiante, ás vidraças appareciam luzes;—e na noite escura o sino da Sé repicava, sem descontinuar.João Eduardo correu aterrado—e soube logo que era a extrema-unção á entrevada.Tinham posto na escada um candieiro de petroleosobre uma cadeira. Os serventes encostaram á parede da rua os varaes do pallio, e o parocho entrou. João Eduardo, muito nervoso, subiu tambem: ia pensando que a morte da entrevada, o luto retardariam o seu casamento; contrariava-o a presença do parocho e a influencia que elle adquiria n'aquelle momento; e foi quasi quezilado que perguntou áRuçana saleta:—Então como foi isto?—Foi a pobre de Christo que esta tarde começou a esmorecer, o senhor doutor veio, diz que estava a acabar, e a senhora mandou pelos sacramentos.João Eduardo, então, julgou delicado ir assistir «á ceremonia».O quarto da velha era junto á cozinha, e tinha n'aquelle momento uma solemnidade lugubre.Sobre uma mesa coberta de toalha de folhos, estava um prato com cinco bolinhas de algodão entre duas velas de cera. A cabeça da entrevada, toda branca, a sua face côr de cera mal se distinguiam do linho do travesseiro; tinha os olhos estupidamente dilatados; e ia apanhando incessantemente com um gesto lento a dobra do lençol bordado.A S. Joanneira e Amelia rezavam ajoelhadas á beira da cama: a snr.aD. Maria da Assumpção (que casualmente entrára, ao voltar da fazenda) ficára á porta do quarto aterrada, agachada sobre os calcanhares, murmurando Salve-Rainhas. João Eduardo, sem ruido, dobrou o joelho junto d'ella.O padre Amaro, curvado quasi ao ouvido da entrevada, exhortava-a a que se abandonasse á Misericordia divina; mas, vendo que ella não comprehendia, ajoelhou, recitou rapidamente oMisereatur; e no silencio, a sua voz erguendo-se nas syllabas latinas mais agudas, dava uma sensação de enterro que enternecia, fazia soluçar as duas senhoras. Depois ergueu-se, molhou o dedo nos santos oleos: murmurando as expressões penitentes do ritual ungiu os olhos, o peito, a boca, as mãos—que ha dez annos só se moviam para chegar a escarradeira, e as plantas dos pés que ha dez annos só se applicavam a buscar o calor da botija. E depois de queimar as bolinhas de algodão humidas de oleo, ajoelhou-se, ficou immovel, com os olhos postos no Breviario.João Eduardo voltou em pontas de pés á sala, sentou-se no mocho do piano: agora decerto, durante quatro ou cinco semanas. Amelia não tornaria a tocar... E uma melancolia amolleceu-o, vendo no dôce progresso do seu amor aquella brusca interrupção da morte e dos seus ceremoniaes.A snr.aD. Maria entrou então, toda transtornada d'aquella scena—e seguida d'Amelia que trazia os olhos muito vermelhos.—Ah! ainda bem que aqui está, João Eduardo! disse logo a velha. Que quero que me faça um favor, que é acompanhar-me a casa... Estou toda a tremer... Estava desprevenida, e com perdão de Deus seja dito, não posso ver gente na agonia... Que ella, coitadinha, vai-se como um passarinho... E peccadosnão os tem... Olhe, vamos pela Praça que é mais perto. E desculpe... Tu, filha, dispensa, mas não posso ficar... É que me dava a dôr... Ai, que desgosto!... Que para ella até é melhor... Pois olhem, sinto-me a desfallecer...Foi mesmo necessario que Amelia a levasse a baixo, ao quarto da S. Joanneira, a reconfortal-a caridosamente com um calix de geropiga.—Ameliasinha, disse então João Eduardo, se eu sou cá necessario para alguma coisa...—Não, obrigada. Ella está por instantes, coitadinha.—Não te esqueças, filha, recommendou descendo a snr.aD. Maria da Assumpção, põe-lhe as duas velas bentas á cabeceira... Allivia muito na agonia... E se tiver muitos arrancos, põe outras duas apagadas, em cruz... Boas noites... Ai, que nem me sinto!Á porta, mal viu o pallio, os homens com as tochas, apoderou-se do braço de João Eduardo, collou-se toda a elle com terror—um pouco tambem, com o accesso de ternura que lhe dava sempre a geropiga.Amaro promettera voltar mais tarde, para «as acompanhar, como amigo, n'aquelle transe». E o conego (que chegára, quando a procissão com o pallio dobrava a esquina para o lado da Sé), informado d'esta delicadeza do senhor parocho, declarou logoque visto que o collega Amaro vinha fazer a noitada, elle ia descansar o corpo porque, Deus bem o sabia, aquellas commoções arrazavam-lhe a saude.—E a senhora não havia de querer que eu apanhasse alguma e me visse nos mesmos assados...—Credo, senhor conego! exclamou a S. Joanneira, nem diga isso!...—E começou a choramingar, muito abalada.—Pois então boas noites, disse o conego, e nada de affligir. Olhe, a pobre creatura, alegria não a tinha: e como não tem peccados não lhe importa achar-se na presença de Deus. Tudo bem considerado, senhora, é uma pechincha! E adeusinho, que me não estou a sentir bem...Tambem a S. Joanneira não se sentia bem. O choque, logo depois de jantar, dera-lhe ameaças de enxaqueca:—e quando Amaro voltou, ás onze, Amelia que fôra abrir a porta, disse-lhe, ao subir á sala de jantar:—O senhor parocho desculpe... A mamã veio-lhe a enxaqueca, coitada... Estava que nem via... Deitou-se, pôz agua sedativa e adormeceu...—Ah! Deixal-a dormir!Entraram no quarto da entrevada. Tinha a cabeça virada para a parede; dos seus beiços abertos sahia um gemido muito debil e continuo. Sobre a mesa agora, uma grossa vela benta, de murrão negro, erguia uma luz triste; e ao canto, transida de medo, aRuça, segundo as recommendações da S. Joanneira, ia rezando a corôa.—O senhor doutor, disse Amelia baixo, diz que morre sem o sentir... Diz que ha de gemer, gemer, e de repente acabar como um passarinho...—Seja feita a vontade de Deus, murmurou gravemente o padre Amaro.Voltaram á sala de jantar. Toda a casa estava silenciosa: fóra ventava forte. Havia muitas semanas que não se encontravam assim sós. Muito embaraçado, Amaro aproximou-se da janella: Amelia encostou-se ao aparador.—Vamos ter uma noite d'agua, disse o parocho.—E está frio, disse ella, encolhendo-se no chale. Eu tenho estado passada de medo...—Nunca viu morrer ninguem?—Nunca.Calaram-se—elle immovel ao pé da janella, ella encostada ao aparador, de olhos baixos.—Pois está frio, disse Amaro, com a voz alterada da perturbação que lhe ia dando a presença d'ella áquella hora da noite.—Na cozinha está a brazeira accêsa, disse Amelia. É melhor irmos para lá.—É melhor.Foram. Amelia levou o candieiro de latão: e Amaro, indo remexer com as tenazes o brazido vermelho, disse:—Ha que tempo que eu não entro aqui na cozinha!... Ainda tem os vasos com os raminhos fóra da janella?—Ainda, e um craveiro...Sentaram-se em cadeirinhas baixas, ao lado da brazeira.—Amelia, inclinada para o lume, sentia os olhos do padre Amaro devora-la silenciosamente. Elle ia fallar-lhe, decerto! Tinha as mãos a tremer; não ousava mover-se, erguer as palpebras, com medo que lhe rompessem as lagrimas; mas anciava pelas suas palavras, ou amargas ou dôces...Ellas vieram emfim, muito graves.—Menina Amelia, disse, eu não esperava poder assim fallar-lhe a sós. Mas as coisas arranjaram-se... É decerto a vontade de Nosso Senhor! E depois, como as suas maneiras mudaram tanto...Ella voltou-se bruscamente, toda escarlate, o beicinho tremulo:—Mas bem sabe porquê! exclamou quasi chorando.—Sei. Se não fosse aquelle infameCommunicado, e as calumnias... nada se tinha passado, e a nossa amizade seria a mesma, e tudo iria bem... É justamente a esse respeito que eu lhe quero fallar.Chegou a cadeira mais para junto d'ella, e muito suave, muito tranquillo:—Lembra-se d'esse artigo em que todos os amigos da casa eram insultados? em que eu era arrastado pela rua da amargura? em que a menina mesma, a sua honra era offendida?... Lembra-se, hein? Sabe quem o escreveu?—Quem? perguntou Amelia toda surprehendida.—O snr. João Eduardo! disse o parocho muitotranquillamente, cruzando os braços diante d'ella.—Não póde ser!Tinha-se erguido. Amaro puxou-lhe devagarinho pelas saias para a fazer sentar; e a sua voz continuou paciente e suave:—Ouça. Sente-se. Foi elle que o escreveu. Soube hontem tudo. O Natario viu o original escripto pela letra d'elle. Foi elle que descobriu. Por meios dignos decerto... e porque era a vontade de Deus que a verdade apparecesse. Agora escute. A menina não conhece esse homem.—Então, baixo, contou-lhe o que sabia de João Eduardo, por Natario; as suas noitadas com o Agostinho, as suas injurias contra os padres, a sua irreligião...—Pergunte-lhe se elle se confessa ha seis annos, e peça-lhe os bilhetes da confissão!Ella murmurava, com as mãos cahidas no regaço:—Jesus... Jesus!...—Eu então entendi que como intimo da casa, como parocho, como christão, como seu amigo, menina Amelia... porque acredite que lhe quero... emfim, entendi que era o meu dever avisal-a! Se eu fosse seu irmão, dizia-lhe simplesmente: «Amelia, esse homem fóra de casa!» Não o sou, infelizmente. Mas venho, com dedicação d'alma, dizer-lhe: «O homem com quem quer casar surprehendeu a sua boa fé e de sua mamã; vem aqui, sim senhor, com apparencias de bom moço, e no fundo é...»Ergueu-se, como ferido d'uma indignação irreprimivel:—Menina Amelia, é o homem que escreveu esseCommunicado!que fez ir o pobre Brito para a serra de Alcobaça! que me chamou a mimseductor!que chamou devasso ao senhor conego Dias!Devasso!Que lançou veneno nas relações de sua mamã com o conego! e que a accusou á menina, em bom portuguez, de se deixar seduzir! Diga, quer casar com esse homem?Ella não respondeu, com os olhos cravados no lume, duas lagrimas mudas sobre as faces.Amaro deu passos irritados pela cozinha; e voltando ao pé d'ella, com a voz abrandada, gestos muito amigos:—Mas supponhamos que não era elle o auctor doCommunicado, que não tinha insultado em letra redonda a sua mamã, o senhor conego, os seus amigos: resta ainda a sua impiedade! Veja que destino o seu se casasse com elle! Ou teria de condescender com as opiniões do homem, abandonar as suas devoções, romper com os amigos de sua mãi, não pôr os pés na igreja, dar escandalo a toda a gente honesta, ou teria de se pôr em opposição com elle, e a sua casa seria um inferno! Por tudo uma questão! Por jejuar á sexta-feira, por ir á exposição do Santíssimo, por cumprir o domingo... Se se quizesse confessar, que desavenças! Um horror! E sujeitar-se a ouvil-o escarnecer os mysterios da fé! Ainda me lembro, na primeira noite que aqui passei, com que desacato elle fallou da santa da Arregassa!... E ainda me lembro uma noite que o padre Natarioaqui fallava dos soffrimentos do nosso santo padre Pio IX, que seria preso, se os liberaes entrassem em Roma... Como elle tinha risinhos de escarneo, como disse que eram exagerações!... Como se não fosse perfeitamente certo que por vontade dos liberaes veriamos o chefe da Igreja, o vigario de Christo, dormir n'um calabouço em cima d'umas poucas de palhas! São as opiniões d'elle, que elle apregôa por toda a parte! O padre Natario diz que elle e o Agostinho estavam no café ao pé do Terreiro a dizer que o baptismo era um abuso, porque cada um devia escolher a religião que quizesse, e não ser forçado, de pequeno, a ser christão! Hein, que lhe parece? Como seu amigo lh'o digo... Para bem de sua alma antes a queria vêr morta do que ligada a esse homem! Case com elle, e perde para sempre a graça de Deus!Amelia levou as mãos ás fontes, e deixando-se cahir para as costas da cadeira, murmurou, muito desgraçada:—Oh, meu Deus, meu Deus!Amaro então sentou-se ao pé d'ella, tocando-lhe quasi o vestido com o joelho, pondo na voz uma bondade paternal:—E depois, minha filha, pensa que um homem assim póde ter bom coração, apreciar a sua virtude, querer-lhe como um marido christão? Quem não tem religião não tem moral. Quem não crê não ama, diz um dos nossos santos padres. Depois de lhe passar o fogacho da paixão, começaria a ser duro comsigo,mal humorado, voltaria a frequentar o Agostinho e as mulheres da vida, e maltrata-la-hia talvez... E que susto constante para si! Quem não respeita a religião não tem escrupulos: mente, rouba, calumnia... Veja oCommunicado. Vir aqui apertar a mão ao senhor conego, e ir para o jornal chamar-lhe devasso! Que remorsos não sentiria a menina, mais tarde, á hora da morte! É muito bom emquanto se tem saude e se é nova; mas quando chegasse a sua ultima hora, quando se achasse, como aquella pobre creatura que está alli, nos ultimos arrancos, que terror não sentiria de ter de apparecer diante de Jesus Christo, depois de ter vivido em peccado ao lado d'esse homem! Quem sabe se elle não recusaria que lhe dessem a extrema-unção! Morrer sem sacramentos, morrer como um animal!...

«Snr. João Eduardo,

a que muito lhe quer,

«Amelia Caminha».

Ai! adeus! acabaram-se os diasQue ditosa vivi a teu lado!


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