Dorme, dorme, meu menino.Que a tua mãi foi á fonte!Como ella conhecia aquella cantiga! Quando tinha sete annos sua mãi dizia-a, nas longas noites de inverno, ao irmãosinho que morrera!Lembrava-se bem! Moravam então n'outra casa, ao pé da estrada de Lisboa; á janella do seu quarto havia um limoeiro e a mãi punha, na sua ramagem luzidia, os coeiros do Joãosinho a seccarem ao sol. Não conhecera o papá. Fôra militar, morrera novo; e a mãi ainda suspirava ao fallar da sua bella figura com o uniforme de cavallaria. Aos oito annos ella foi para a mestra. Como se lembrava! A mestra era uma velhita roliça e branca, que fôra tacho das freiras de Santa Joanna d'Aveiro; com os seus oculos redondos, junto á janella, empurrando a agulha, morria-se por contar historias do convento: as perrices da escrivã, sempre a escabichar os dentes furados; a madre rodeira, preguiçosa e pacata, com uma pronuncia minhota; a mestra de cantochão, admiradora de Bocage e que se dizia descendente dos Tavoras; e a legenda de uma freira que morrera de amor, e cuja alma ainda em certas noites percorria os corredores, soltando gemidos dolorosos e clamando:—Augusto! Augusto!Amelia ouvia aquellas historias, encantada. Gostava então tanto de festas d'igreja e da convivenciados santos, que desejava ser uma «freirinha, muito bonita, com um véosinho muito branco.» A mamã era muito visitada por padres. O chantre Carvalhosa, um homem velho e robusto, que soprava de asthma ao subir a escada e tinha uma voz fanhosa, vinha todos os dias, como amigo da casa. Amelia chamava-lhepadrinho. Quando ella voltava da mestra, á tarde, encontrava-o sempre a palestrar com a mãi, na sala, de batina desabotoada, deixando vêr o longo collete de velludo preto com raminhos bordados a amarello. O senhor chantre perguntava-lhe pelas lições e fazia-a dizer a taboada.Á noite havia reuniões: vinha o padre Valente; o conego Cruz; e um velhito calvo, de perfil de passaro, com oculos azues, que fôra frade franciscano e a quem chamavam frei André. Vinham as amigas da mãi, com as suasmeias; e um capitão Couceiro, de caçadores, que tinha os dedos negros do cigarro e trazia sempre a sua viola. Mas ás nove horas mandavam-na deitar; pela frincha do quarto ella via a luz, ouvia as vozes; depois fazia-se um silencio, e o capitão, repenicando a guitarra, cantava olundum da Figueira.Foi assim crescendo entre padres. Mas alguns eram-lhe antipathicos: sobretudo o padre Valente, tão gordo, tão suado, com umas mãos papudas e molles, d'unhas pequenas! Gostava de a ter entre os joelhos, torcer-lhe devagarinho a orelha, e ella sentia o seu halito impregnado de cebola e de cigarro. O seu amiguinho era o conego Cruz, magro, com ocabello todo branco, a volta sempre aceada, as fivelas luzidias; entrava devagarinho, comprimentando com a mão sobre o peito e uma voz suave cheia de ss. Já então sabia o catecismo e a doutrina: na mestra, em casa, por qualquer «bagatella» fallavam-lhe sempre dos castigos do céo; de tal sorte que Deus apparecia-lhe como um sêr que só sabe dar o soffrimento e a morte e que é necessario abrandar, rezando e jejuando, ouvindo novenas, amimando os padres. Por isso, se ás vezes ao deitar lhe esquecia uma Salve-Rainha, fazia penitencia no outro dia, porque temia que Deus lhe mandasse sezões ou a fizesse cahir na escada.Mas o seu melhor tempo foi quando começou a tomar lições de musica. A mãi tinha na sala de jantar, ao canto, um velho piano, coberto com um pano verde, tão desafinado, que servia de aparador! Amelia costumava cantarolar pela casa; a sua voz fina e fresca agradava ao senhor chantre, e as amigas da mãi diziam-lhe:—Tu tens ahi um piano, porque não mandas ensinar a rapariga? Sempre é uma prenda! olha que lhe póde servir de muito!O chantre conhecia um bom mestre, antigo organista da Sé d'Evora, extremamente infeliz: a filha unica, muito linda, fugira-lhe com um alferes para Lisboa; e, passados dois annos, o Silvestre da Praça, que ia muito á capital, vira-a descer a rua do Norte, degaribaldiescarlate e alvaiade n'um olho, com um marinheiro inglez. O velho cahira em grandemelancolia e grande miseria; e por piedade tinham-lhe dado um emprego no cartorio da camara ecclesiastica. Era uma figura triste de romance picaresco. Muito magro, alto como um pinheiro, deixava crescer até aos hombros os seus cabellos brancos e finos; os olhos, cansados, lagrimejavam-lhe sempre; mas o seu sorriso resignado e bom enternecia: e parecia muito transido, no seu capote côr de vinho que só lhe chegava á cintura e que tinha uma gola d'astrakan. Chamavam-lhe oTio Cegonhapela sua alta magreza e o seu ar solitario. Amelia um dia tinha-lhe chamadoTio Cegonha; mas mordeu logo o beiço, toda envergonhada.O velho poz-se a sorrir:—Ai, chame, minha rica menina, chame!Tio Cegonha?... ora, que tem? Cegonha sou eu, e bem cegonha!Era então no inverno. As grandes chuvas com os sudoestes não cessavam; a aspera estação opprimia os pobres. Viam-se n'aquelle anno familias esfomeadas indo á camara pedir pão. OTio Cegonhavinha sempre ao meio-dia dar a lição; o seu guardachuva azul deixava um ribeiro na escada; tiritava; e quando se sentava escondia, na sua vergonha de velho, as botas encharcadas com a sola aberta. Queixava-se sobretudo do frio das mãos, que o impedia de ferir com justeza o teclado e não o deixava escrever no cartorio.—Prendem-se-me os dedos... dizia tristemente.Mas quando a S. Joanneira lhe pagou o primeiromez das lições, o velho appareceu muito contente, com umas grossas luvas de lã.—Ah,Tio Cegonha, como vem quentinho! disse-lhe Amelia.—Foi o seu dinheiro, minha rica menina. Agora ando a juntar para umas meias de lã. Deus a abençôe, minha menina, Deus a abençôe!E tinham-se-lhe arrasado os olhos de lagrimas. Amelia tornára-se a «sua rica amiguinha». Já lhe fazia confidencias: contava-lhe as suas necessidades, as saudades da filha, as suas glorias na Sé d'Evora, quando diante do senhorarcebispo, vistoso na sua sobrepelliz escarlate, acompanhava oLausperenne.Amelia não se esqueceu das meias de lã doTio Cegonha. Pediu ao chantre que lhe désse umas meias de lã.—Ora essa! para quê? para ti? disse elle com o seu riso grosso.—Para mim, sim senhor.—Deixe fallar, senhor chantre! disse a S. Joanneira. Olha a idéa!—Não deixe fallar, não! dê, sim?Lançou-lhe os braços ao pescoço, fez-lhe olhinhos dôces.—Ah, sereia! dizia o chantre rindo: que esperanças! ha de ser o diabo!... Pois sim, ahi tens.—E deu-lhe dois pintos para umas meias de lã.No dia seguinte tinha-os ella embrulhados n'um papel, que dizia por fóra em letras garrafaes:Ao meu rico amigo Tio Cegonha, a sua discipula.Uma manhã, depois, viu-o mais amarello, mais chupado:—ÓTio Cegonha, disse de repente, quanto lhe dão lá no cartorio?O velho sorriu-se:—Ora, minha rica menina, quanto me hão de dar? uma bagatella. Quatro vintens por dia. Mas o snr. Netto faz-me algum bem...—E chegam-lhe, quatro vintens?—Ora! como hão de chegar!Sentiram-se os passos da mãi; e Amelia, retomando gravemente a attitude de lição, começou a solfejar alto, com um ar profundo.E desde esse dia tanto pediu, tanto exclamou, que levou a mãi a dar de almoçar e de jantar aoTio Cegonhanos dias de lição. Assim se estabeleceu entre ella e o velho uma grande intimidade. E o pobreTio Cegonha, sahindo do seu frio isolamento, acolhia-se áquella amizade inesperada, como a um conchego tepido. Encontrava n'ella o elemento feminino que amam os velhos, com as caricias, as suavidades de voz, as delicadezas de enfermeira; achava n'ella a unica admiradora da sua musica; e via-a sempre attenta ás historias do seu tempo, ás recordações da velha Sé d'Evora que elle amava tanto, e que lhe fazia dizer, quando se fallava de procissões ou de festas de igreja:—Para isso Evora! em Evora é que é!Amelia applicava-se muito ao piano: era a coisa boa e delicada da sua vida: já tocava contradansase antigas arias de velhos compositores; a snr.aD. Maria da Assumpção estranhava que o mestre lhe não ensinasse oTrovador.—Coisa mais linda! dizia.Mas oTio Cegonhasó conhecia a musica classica, arias ingenuas e dôces de Lully, motivos de minuetes, motetes floridos e piedosos dos dôces tempos freiraticos.Uma manhã oTio Cegonhaencontrou Amelia muito amarella e triste. Desde a vespera queixava-se de «mal-estar». Era um dia nublado, muito frio. O velho queria ir-se embora.—Não, não,Tio Cegonha, disse ella, toque alguma coisa para eu me entreter.Elle tirou o seu capote, sentou-se, tocou uma melodia simples, mas extremamente melancolica.—Que lindo! que lindo! dizia Amelia, de pé junto ao piano.E quando o velho deu as ultimas notas:—O que é? perguntou ella.OTio Cegonhacontou-lhe que era o começo de umaMeditaçãofeita por um frade seu amigo.—Coitado, disse, teve bem o seu tormento!Amelia quiz logo saber a historia; e sentando-se no mocho do piano, embrulhando-se no seu chale:—Diga,Tio Cegonha, diga!Era um homem que tivera em novo uma grande paixão por uma freira; ella morrera no convento d'aquelle amor infeliz; e elle, de dôr e de saudade, fizera-se frade franciscano...—Parece que o estou a vêr...—Era bonito?—Se era! Um rapaz na flôr da vida, rico... Um dia veio ter commigo ao orgão: «Olha o que eu fiz», disse-me elle. Era um papel de musica. Abria em ré menor. Poz-se a tocar, a tocar... Ai, minha rica menina, que musica! Mas não me lembra o resto!E o velho, commovido, repetiu no piano as notas plangentes daMeditaçãoem ré menor.Amelia todo o dia pensou n'aquella historia. De noite veio-lhe uma grande febre, com sonhos espessos, em que dominava a figura do frade frasciscano, na sombra do orgão da Sé d'Evora. Via os seus olhos profundos reluzirem n'uma face encovada: e, longe, a freira pallida, nos seus habitos brancos, encostada ás grades negras do mosteiro, sacudida pelos prantos do amor! Depois, no longo claustro, a ala dos frades franciscanos caminhava para o côro: elle ia no fim de todos, curvado, com o capuz sobre o rosto, arrastando as sandalias, emquanto um grande sino, no ar nublado, tocava o dobre dos finados. Então o sonho mudava: era um vasto céo negro, onde duas almas enlaçadas e amantes, com habitos de convento e um ruido ineffavel de beijos insaciaveis, giravam, levadas por um vento mystico; mas desvaneciam-se como nevoas, e na vasta escuridão ella via apparecer um grande coração em carne viva, todo trespassado de espadas—e as gotas de sangue que cahiam d'elle enchiam o céo d'uma chuva escarlate.Ao outro dia a febre acalmou. O doutor Gouvêa tranquillisou a S. Joanneira com uma simples palavra:—Nada de sustos, minha rica senhora, são os quinze annos da rapariga. Hão de lhe vir ámanhã as vertigens e os enjôos... Depois acabou-se. Temol-a mulher.A S. Joanneira comprehendeu.—Esta rapariga tem o sangue vivo e ha de ter as paixões fortes! acrescentou o velho pratico, sorrindo e sorvendo a sua pitada.Por esse tempo o senhor chantre, uma manhã, depois do seu almoço d'açorda, cahiu de repente morto com uma apoplexia. Que consternação inesperada para a S. Joanneira! Durante dois dias, esguedelhada, em saias brancas, chorou, gemeu pelos quartos. D. Maria da Assumpção, as snr.asGansosos vieram acalmar, amansar a sua dôr: e a snr.aD. Josepha Dias resumiu as consolações de todas, dizendo:—Deixa, filha, que te não ha de faltar quem te ampare!Era então no começo de setembro; a snr.aD. Maria da Assumpção, que tinha uma casa na praia da Vieira, propôz levar a S. Joanneira e Amelia para a estação dos banhos, para ella espalhar, nos bons ares saudaveis, em logar differente, aquella dôr.—É uma esmola que me fazes, dissera a S. Joanneira. Sempre me lembra que era alli que elle punha o guardachuva... Alli que elle se sentava a vêr-me costurar!—Está bom, está bom, deixa-te d'isso. Come ebebe, toma os teus banhos, e o que lá vai lá vai. Olha que elle tinha bem os seus sessenta.—Ah, minha rica! a gente é pela amizade que lhes ganha!Amelia tinha então quinze annos, mas era já alta e de bonitas fórmas. Foi uma alegria para ella a estação na Vieira! Nunca vira o mar; e não se fartava de estar sentada na areia, fascinada pela vasta agua azul, muito mansa, cheia de sol; ás vezes no horisonte passava um fumo delgado de paquete; a monotona e gemente cadencia da vaga adormentava-a; e em redor o areal faiscava, a perder de vista, sob o céo azul-ferrete.Como se lembrava bem! Logo pela manhã estava a pé. Era a hora do banho: as barracas de lona alinhavam-se ao comprido da praia; as senhoras, sentadas em cadeirinhas de pau, de sombrinhas abertas, olhavam o mar, palrando; os homens, de sapatos brancos, estendidos em esteiras, chupavam o cigarro, riscavam emblemas na areia; emquanto o poeta Carlos Alcoforado, muito fatal, muito olhado, passeava só, soturno, junto da vaga, seguido do seu Terra-Nova. Ella sahia então da barraca com o seu vestido de flanella azul, a toalha no braço, tiritando de susto e de frio: tinha-se persignado ás escondidas e toda tremula, agarrada á mão do banheiro, escorregando na areia, entrava na agua, rompendo a custo a maresia esverdeada que fervia em redor. A onda vinha espumando, ella mergulhava, e ficava aos saltos, suffocada e nervosa, cuspindo a agua salgada.Mas, quando sahia do mar, como vinha satisfeita! Arfava, com a toalha pela cabeça, arrastando-se para a barraca, mal podendo com o peso do vestido encharcado, risonha, cheia de reacção; e em redor vozes amigas perguntavam:—Então que tal, que tal? Mais fresquinha, hein?Depois, de tarde, eram os passeios à beira-mar, a apanhar conchinhas; o recolher das redes, onde a sardinha toda viva ferve aos milheiros, luzidia sobre a areia molhada; e que longas perspectivas de occasos ricamente dourados, sobre a vastidão do mar triste, que escurece e geme!D. Maria da Assumpção tinha sido visitada, logo ao chegar, por um rapaz, filho do snr. Brito de Alcobaça, seu parente. Chamava-se Agostinho, ia frequentar o quinto anno de direito na Universidade. Era um moço delgado, de bigode castanho, pera, cabello comprido deitado para traz, e luneta: recitava versos, sabia tocar guitarra, contava anecdotas de caloiros, faziapartidas, e era famoso na Vieira, entre os homens, «por saber conversar com senhoras».—O Agostinho, patife! diziam. É chalaça a esta, chalaça áquella. Lá para sociedade não ha outro!Logo desde os primeiros dias Amelia reparou que os olhos do snr. Agostinho Brito se fitavam constantemente n'ella, «p'ra namoro». Amelia córava muito, sentia o seio alargar-se-lhe dentro do vestido; e admirava-o, achava-o muito «dengueiro».Um dia em casa da snr.aD. Maria da Assumpção pediram a Agostinho para recitar.—Oh, minhas senhoras, isto aqui não é forja de ferreiro! exclamou elle, jovial.—Ora vá! não se faça rogado, disseram, insistindo.—Bem, bem, por isso não nos havemos de zangar.—AJudia, Brito, lembrou o recebedor de Alcobaça.—QualJudia! disse elle, ha de ser mas ha do ser aMorena!—E olhou para Amelia.—Foi uma poesia que fiz hontem.—Valeu, valeu!—E cá o rapaz acompanha, disse um sargento do 6 de caçadores, tomando logo a guitarra.Fez-se um silencio: o snr. Agostinho deitou o cabello para traz, fincou a luneta, apoiou as duas mãos ás costas d'uma cadeira, e fitando Amelia:—ÁMorenade Leiria! disse.Nasceste nos verdes camposOnde Leiria é famosa,Tens a frescura da rosa,E o teu nome sabe a mel...—Perdão! exclamou o recebedor, a snr.aD. Juliana não está boa...Era a filha do escrivão de direito de Alcobaça; tinha-se feito muito pallida, e, lentamente, desmaiava na cadeira, com osbraçospendentes, o queixo sobre o peito. Borrifaram-na de agua, levaram-n'a para o quarto de Amelia; quando lhe desapertaramo vestido e lhe deram vinagre a respirar, ergueu-se sobre o cotovêlo, olhou em redor, começaram a tremer-lhe os beiços e rompeu a chorar. Fóra, os homens em grupo, commentavam:—Foi o calor, diziam.—O calor que ella tinha sei eu... rosnou o sargento de caçadores.O snr. Agostinho torcia o bigode, contrariado. Algumas senhoras foram a casa acompanhar a snr.aD. Juliana. D. Maria da Assumpção e a S. Joanneira, atabafadas nos seus chales, iam tambem. Havia vento, um criado levava um lampeão, e todos caminhavam na areia, calados.—Tudo isto é teu proveito, disse a snr.aD. Maria da Assumpção baixo á S. Joanneira, demorando-se um pouco atraz.—Meu!?—Teu. Pois tu não percebeste? A Juliana, em Alcobaça, era namoro do Agostinho. Mas o rapaz aqui anda pelo beiço pela Amelia. A Juliana percebeu, viu-o recitar aquelles versos, olhar para ella, zás!—Ora essa!... disse a S. Joanneira.—Deixa lá, o Agostinho tem um par de mil cruzados que lhe deixam as tias. É um partidão!Ao outro dia, á hora do banho, a S. Joanneira vestia-se na sua barraca, e Amelia, sentada na areia, esperava, pasmada para o mar.—Olá! sósinha! disse uma voz por detraz.Era Agostinho. Amelia, calada, começou a riscar a areia com a sombrinha. O snr. Agostinho suspirou,alisou outro pedaço d'areia com o pé, escreveu—Amelia. Ella, muito vermelha, quiz apagar com a mão.—Então! disse elle. E debruçando-se, baixo:—É o nome daMorena, bem vê.O seu nome sabe a mel!...Ella sorriu:—Ande que fez hontem desmaiar aquella pobre Juliana, disse.—Ora! importa-me a mim bem com ella! Estou farto d'aquelle estafermo! Então que quer? Eu cá sou assim. Tanto digo que me não importo com ella, como digo que ha uma pessoa por quem dava tudo... Eu sei...—Quem é? É a snr.aD. Bernarda?Era uma velha hedionda, viuva de um coronel.—É, disse elle rindo. É justamente por quem eu ando apaixonado, é pela D. Bernarda.—Ah! o senhor anda apaixonado! disse ella devagar, com os olhos baixos, riscando a areia.—Diga-me uma coisa, está a mangar commigo? exclamou Agostinho puxando uma cadeirinha, sentando-se junto d'ella.Amelia pôz-se de pé.—Não quer que eu me sente ao pé de si? perguntou elle offendido.—Eu é que estava cansada de estar sentada.Calaram-se um momento.—Já tomou banho? disse ella.—Já.—Estava frio hoje?—Estava.As palavras de Agostinho eram agora muito sêccas.—Zangou-se? disse ella dôcemente, pondo-lhe de leve a mão no hombro.Agostinho ergueu os olhos, e vendo o bonito rosto trigueiro, todo risonho, exclamou com vehemencia:—Estou mesmo doido por si!—Chut!... disse ella.A mãi de Amelia, levantando o pano da barraca, sahia, muito abafada, de lenço amarrado na cabeça.—Mais fresquinha, hein? perguntou logo Agostinho, tirando o chapéo de palha.—Estava por aqui?—Vim dar uma vista d'olhos. E agora toca ao almocinho, hein?—Se é servido... disse a S. Joanneira.Agostinho, muito galante, offereceu o braço á mamã.E desde então seguia sempre Amelia, de manhã no banho, de tarde á beira-mar; apanhava-lhe conchas; e tinha-lhe feito outros versos—oSonho. Uma estrophe era violenta:Senti-te contra o meu peitoTremer, palpitar, ceder...Ella murmurava-os com grande commoção, de noite, suspirando, abraçando o travesseiro.Outubro findava, as férias tinham acabado. Uma noite o alegre rancho da snr.aD. Maria da Assumpção e das amigas fôra dar um passeio ao luar. Á volta, porém, erguera-se vento, nuvens pesadas empastaram o céo, cahíram gotas d'agua. Estavam então junto a um pequeno pinheiral, e as senhoras, aos gritinhos, quizeram abrigar-se. Agostinho, com Amelia pelo braço, rindo alto, foi penetrando longe dos outros na espessura; e então, sob o monotono e gemente rumor das ramas, disse-lhe baixo, cerrando os dentes:—Estou doido por ti, filha!—Creio lá n'isso! murmurou ella.Mas Agostinho, tomando subitamente um tom grave:—Sabes? talvez eu tenha de me ir ámanhã embora.—Vai-se?—Talvez; não sei ainda. Além d'ámanhã é a matricula.—Vai-se... suspirou Amelia.Elle então tomou-lhe a mão, apertou-lh'a com furor:—Escreve-me! disse.—E a mim escreve-me? disse ella.Agostinho agarrou-a pelos hombros e machucou-lhe a boca de beijos vorazes.—Deixe-me! deixe-me! dizia ella suffocada.De repente teve um gemido dôce como um arrulho de ave, e abandonava-se—quando a voz aguda de D. Joaquina Gansoso gritou:—Ha uma aberta. É andar! é andar!E Amelia, desprendendo-se, atarantada, correu a agachar-se sob o guardachuva da mamã.Ao outro dia, com effeito, o snr. Agostinho partiu. Vieram as primeiras chuvas, e dentro em pouco tambem Amelia, a mãi, a snr.aD. Maria da Assumpção voltaram para Leiria.Passou o inverno.E um dia, em casa da S. Joanneira, D. Maria da Assumpção deu parte que o Agostinho Brito, segundo lhe escreviam de Alcobaça, tinha o casamento justo com a menina do Vimeiro.—Caspitè! exclamou D. Joaquina Gansoso, apanha nada menos que os seus trinta contos! Olha o méco!E diante de todos Amelia rompeu a chorar.Amava Agostinho; e não podia esquecer aquelles beijos de noite no pinheiral cerrado. Pareceu-lhe então que não tornaria a ter alegria! Ainda lembrada d'aquelle moço da historia doTio Cegonha, que por amor se escondera na solidão de um convento, começou a pensar em ser freira: deu-se a uma forte devoção, manifestação exagerada das tendencias que desde pequenina as convivencias de padres tinham lentamente creado na sua natureza sensivel; lia todo o dia livros de rezas; encheu as paredes do quarto de lithographias coloridas de santos; passava longas horas na igreja, accumulando Salve-Rainhas á Senhora da Encarnação. Ouvia todos os dias missa, quiz commungar todas as semanas—e as amigasda mãi achavam-na «um modêlo, de dar virtude a incredulos»!Foi por esse tempo que o conego Dias e sua irmã, a snr.aD. Josepha Dias, começaram a frequentar a casa da S. Joanneira. Dentro em pouco o conego tornou-se o «amigo da familia». Depois do almoço era certo com a sua cadellinha, como outr'ora o chantre com o seu guardachuva.—Tenho-lhe muita amizade, faz-me muito bem, dizia a S. Joanneira. Mas o senhor chantre não ha dia nenhum que me não lembre d'elle!A irmã do conego tinha então organisado com a S. Joanneira aAssociação das Servas da Senhora da Piedade. A snr.aD. Maria da Assumpção, as Gansosos «filiaram-se»; e a casa da S. Joanneira tornou-se um centro ecclesiastico. Foi esse o momento melhor da vida da S. Joanneira; «a Sé, como dizia com tedio o Carlos da botica, era agora na rua da Misericordia». Parte dos conegos, o novo chantre vinham todas as sextas-feiras. Havia imagens de santos na sala de jantar e na cozinha. As criadas, por escrupulo, eram examinadas em doutrina antes de serem aceitas. Alli muito tempo fizeram-se as reputações: se se dizia de um homem—não é temente a Deus, havia o dever de o desacreditar santamente. As nomeações de sineiros, coveiros, serventes de sacristia arranjavam-se alli por intrigas subtis e palavras piedosas. Tinham tomado um certo vestuario entre o preto e o rôxo: toda a casa cheirava a cera e a incenso;e a S. Joanneira, mesmo, monopolisára o commercio das hostias.Assim passaram annos. Pouco a pouco, porém, o grupo devoto dispersou-se: a ligação do conego Dias e da S. Joanneira, muito commentada, afastou os padres do cabido; o novo chantre morrera de apoplexia tambem—como era de tradição n'aquella diocese, fatal aos chantres; e já não eram divertidos os quinos das sextas-feiras. Amelia mudára muito; crescera: fizera-se uma bella moça de vinte e dois annos, d'olhar avelludado, beiços muito frescos—e achava a sua paixão pelo Agostinho uma «tontice de criança». A sua devoção subsistia, mas alterada: o que amava agora na religião e na igreja era o apparato, a festa—as bellas missas cantadas ao orgão, as capas recamadas de ouro, reluzindo entre os tocheiros, o altar-mór na gloria das flôres cheirosas, o roçar das correntes dos incensadores de prata, os unisonos que rompem briosamente no côro das alleluias. Tomava a Sé como a sua Opera: Deus era o seu luxo. Nos domingos de missa gostava de se vestir, de se perfumar com agua de colonia, de se ir aninhar sobre o tapete do altar-mór, sorrindo ao padre Brito ou ao conego Saldanha.—Mas em certos dias, como dizia a mãi, «murchava»: voltavam então os abatimentos d'outr'ora, que a amarellavam, lhe punham duas rugas velhas ao canto dos labios: tinha n'essas occasiões horas d'uma vaga saudade parva e morbida, em que só a consolava cantar pela casa oSantissimo ou as notas lugubres do toque da Agonia. Com a alegria voltava-lhe o gosto do culto alegre—e lamentava então que a Sé fosse uma ampla estructura de pedra d'um estylo frio e jesuitico: quereria uma igreja pequenina, muito dourada, tapetada, forrada de papel, illuminada a gaz; e padres bonitos officiando a um altar ornado como umaétagère.Fizera vinte e tres annos quando conheceu João Eduardo, no dia da procissão deCorpus-Christi, em casa do tabellião Nunes Ferral, onde elle era escrevente. Amelia, a mãi, a snr.aD. Josepha Dias tinham ido vêr a procissão da bella varanda do tabellião, guarnecida de colchas de damasco amarello. João Eduardo estava lá, modesto, sério, todo vestido de preto. Havia muito que Amelia o conhecia; mas n'aquella tarde, reparando na brancura da sua pelle e na gravidade com que ajoelhava, pareceu-lhe «muito bom rapaz».Á noite, depois do chá, o gordalhufo Nunes, de collete branco, foi pela sala exclamando, enthusiasmado, com a sua voz de grillo:—É tirar pares, é tirar pares!—emquanto a filha mais velha ao piano tocava com brio estridente uma mazurka franceza. João Eduardo aproximou-se de Amelia:—Ai, eu não danso!... disse ella logo com ar sêcco.João Eduardo não dansou tambem, foi encostar-se a uma hombreira com a mão na abertura do collete, os olhos fitos em Amelia. Ella percebia, desviavao rosto, mas estava contente; e quando João Eduardo, vendo uma cadeira vazia, veio sentar-se ao pé d'ella, Amelia fez-lhe logo logar accommodando os folhos de sêda, agradada. O escrevente, embaraçado, torcia o bigode com a mão tremula. Por fim Amelia voltando-se para elle:—Então o senhor não dansa tambem?—E a snr.aD. Amelia? disse elle baixo.Ella inclinou-se para traz, e batendo nas pregas do vestido:—Ai! eu estou velha para estes divertimentos, sou uma pessoa séria.—Nunca se ri? perguntou elle, pondo na voz uma intenção fina.—Ás vezes rio quando ha de quê, disse ella olhando-o de lado.—De mim, por exemplo.—De si!? ora essa! Está a caçoar commigo? Porque me hei de eu rir do senhor? Boa!... Então o senhor que tem que faça rir?—E agitava o seu leque de sêda preta.Elle calou-se, procurando as idéas, as delicadezas.—Então sério, sério, não dansa?—Já lhe disse que não. Ai, que é tão perguntador!—É porque me interesso por si.—Ora, deixe lá! disse ella fazendo um indolente gesto de negativa.—Palavra!Mas a snr.aD. Josepha Dias, que os vigiava,aproximou-se, de testa muito franzida—e João Eduardo levantou-se, intimidado.Á sahida, quando Amelia no corredor punha os seus agasalhos, João Eduardo veio dizer-lhe, de chapéo na mão:—Cubra-se bem, não apanhe frio!—Então continúa a interessar-se por mim? disse ella apertando em redor do pescoço as pontas da sua manta de lã.—O mais possivel, creia.Duas semanas depois veio a Leiria uma companhia ambulante dezarzuela. Fallava-se muito da contralto, aGamacho. A snr.aD. Maria da Assumpção tinha um camarote, levou a S. Joanneira e Amelia—que duas noites antes estivera costurando, com uma pressa commovida, um vestido de cassa todo florido de laços de sêda azul. João Eduardo na platéa—emquanto a Gamacho, empastada de pó de arroz sob a sua mantilha valenciana, vibrando com uma graça decrepita o leque de lentejoulas, garganteava malaguenhas agudas—não se fartou de contemplar, de desejar Amelia. Á sahida veio comprimental-a, offerecer-lhe o braço até á rua da Misericordia: a S. Joanneira, a snr.aD. Maria da Assumpção seguiam atraz com o tabellião Nunes.—Então gostou da Gamacho, snr. João Eduardo?—A fallar-lhe a verdade nem sequer reparei n'ella.—Então que fez?—Olhei para si, respondeu elle resolutamente.Ella parou immediatamente, disse com a voz um pouco alterada:—Onde vem a mamã?—Deixe lá a mamã!E João Eduardo, então, fallando-lhe junto do rosto, disse-lhe «a sua grande paixão». Tomou-lhe a mão, repetia todo perturbado:—Gósto tanto de si! Gósto tanto de si!Amelia estava nervosa da musica do theatro; a noite quente de verão, com a sua vasta scintillação de estrellas, tornava-a toda languida. Abandonou a mão, suspirou baixinho.—Gosta de mim, não é verdade? perguntou elle.—Sim, respondeu ella—e apertou os dedos de João Eduardo, com paixão.Mas, como ella pensou, «fôra decerto um fogacho»—porque, dias depois, quando conheceu mais João Eduardo, quando pôde fallar livremente com elle, reconheceu que «não tinha nenhuma inclinação pelo rapaz». Estimava-o, achava-o sympathico, bom moço; poderia ser um bom marido; mas sentia dentro em si o coração adormecido.O escrevente porém começou a ir á rua da Misericordia quasi todas as noites. A S. Joanneira estimava-o pelo seu «proposito» e pela sua honradez. Mas Amelia ia-se mostrando «fria»: esperava-o á janella pela manhã quando elle passava para o cartorio, fazia-lhe olhos dôces á noite,—mas só para o não descontentar, para ter na sua existencia desoccupada um interessesinho amoroso.João Eduardo um dia fallou à mãi em casamento:—Como a Amelia quizer, eu por mim... disse a S. Joanneira.E Amelia, consultada, respondeu ambiguamente:—Mais tarde, por ora não me parece, veremos.Emfim accordou-se tacitamente em esperar, até que elle obtivesse o lugar de amanuense do governo civil, rasgadamente promettido pelo doutor Godinho—o temido doutor Godinho!Assim vivera Amelia até à chegada d'Amaro: e, durante a noite, estas recordações vinham-lhe por fragmentos, como pedaços de nuvens que o vento vai trazendo e desmanchando. Adormeceu tarde, acordou já o sol ia alto: e espreguiçava-se, quando ouviu dizer aRuçana sala de jantar:—É o senhor parocho que vai sahir com o senhor conego; vão á Sé.Amelia saltou da cama, correu á janella em camisa, ergueu uma pontinha da cortina de cassa, olhou. A manhã resplandecia: e o padre Amaro pelo meio da rua conversando com o conego, assoava-se ao seu lenço branco, muito airoso na sua batina de pano fino.VILogo desde os primeiros dias, envolvido suavemente em commodidades, Amaro sentiu-se feliz. A S. Joanneira, muito maternal, tomava um grande cuidado na sua roupa branca, preparava-lhe petiscos, e o «quarto do senhor parocho andava que nem um brinco»! Amelia tinha com elle uma familiaridade picante de parenta bonita: «tinham calhado um com outro», como dissera, encantada, D. Maria da Assumpção. Os dias iam assim passando para Amaro, faceis, com boa mesa, colchões macios e a convivencia meiga de mulheres. A estação ia tão linda que até as tilias floresceram no jardim do Paço: «quasi milagre»! disse-se: o senhor chantre, contemplando-as todas as manhãs da janella do seu quarto, em robe-de-chambre, citava versos dasEclogas. E depois das longas tristezas da casa do tio da Estrella,dos desconsolos do seminario e do aspero inverno na Gralheira—aquella vida em Leiria era para Amaro como uma casa sêcca e abrigada onde o alegre lume estala e a sôpa cheirosa fumega, depois d'uma noite de jornada na serra, sob trovões e chuveiros.Ia cedo dizer missa à Sé, bem embrulhado no seu grande capote, com luvas de casimira, meias de lã por baixo das botas de alto cano vermelho. As manhãs estavam frias: e àquella hora só algumas devotas, com o mantéo escuro pela cabeça, rezavam aqui e além, ao pé d'um altar envernizado de branco.Entrava logo na sacristia, revestia-se depressa batendo os pés no lagedo, emquanto o sacristão, pachorrento, contava «as novidades do dia».Depois, com o calice na mão, d'olhos baixos, passava á igreja; e tendo dobrado o joelho rapidamente diante do Santissimo Sacramento, subia devagar ao altar onde as duas velas de cera esmoreciam com uma claridade pallida na larga luz da manhã, juntava as mãos, murmurava, curvado:—Introibo ad altare Dei.—Ad Deum qui lætificat juventutem meam, resmungava, n'um latim syllabado, o sacristão.Amaro já não celebrava a missa como nos primeiros tempos, com uma devoção enternecida. «Estava agora habituado», dizia. E como não ceava, e áquella hora, em jejum, com a frescura cortante do ar, já sentia appetite, engorolava depressa, monotonamente, as santas leituras da Epístola e dos Evangelhos.Por traz o sacristão, com os braços cruzados, passava vagarosamente a mão pela sua espessa barba bem rapada, olhando de revez para a Casimira França, mulher do carpinteiro da Sé, muito devota, que elle «trazía d'olho» desde a Paschoa. Largas resteas de sol cahiam das janellas lateraes. Um vago aroma de junquilhos sêccos adocicava o ar.Amaro, depois de recitar rapidamente o Offertorio, limpava o calice com o purificador; o sacristão, um pouco vergado dos rins, ia buscar as galhetas, apresentava-as, curvado—e Amaro sentia o cheiro do oleo rançoso que lhe reluzia no cabello. N'aquella parte da missa, por um antigo habito de emoção mystica, Amaro tinha um recolhimento sentido: com os braços abertos, voltava-se para a igreja, clamava, com largueza, a exhortação universal á oração—Orate, fratres!E as velhas encostadas aos pilares de pedra, com o aspecto idiota, a boca babosa, apertavam mais as mãos contra o peito, d'onde pendiam grandes rosarios negros. Então o sacristão ia ajoelhar-se por traz d'elle, sustentando ligeiramente com uma das mãos a capa, erguendo na outra a sineta. Amaro consagrava o vinho, levantava a hostia—Hoc est enim corpus meum!—elevando alto os braços para o Christo cheio de chagas rôxas sobre a sua cruz de pau preto; a campainha tocava devagar; as mãos batiam concavamente nos peitos; e no silencio sentiam-se os carros de bois rolando, com solavancos, sobre o largo lageado da Sé, à volta do mercado.—Ite, missa est!dizia Amaro emfim.—Deo gratias!respondia o sacristão respirando alto, com o allivio da obrigação finda.E quando, depois de ter beijado o altar, Amaro vinha do alto dos degraus dar a benção, era já pensando na alegria do almoço, na clara sala de jantar da S. Joanneira e nas boas torradas. Áquella hora já Amelia o esperava com o cabello cahido sobre o penteador, tendo na pelle fresca um bom cheiro de sabão d'amendoas.Pelo meio do dia ordinariamente Amaro subia à sala de jantar onde a S. Joanneira e Amelia costuravam. «Estava aborrecido em baixo, vinha um bocado para o cavaco», dizia. A S. Joanneira, n'uma cadeira pequena, ao pé da janella, com o gato aninhado na roda do vestido de merino, cosia de luneta na ponta do nariz. Amelia, junto da mesa, trabalhava com o cesto da costura ao lado: a cabeça inclinada sobre o trabalho mostrava a sua risca fina, nitida, um pouco afogada na abundancia do cabello; os seus grandes brincos de ouro, em fórma de pingos de cera, oscillavam, faziam tremer e crescer sobre a finura do pescoço uma pequenina sombra; as olheiras leves côr debistreesbatiam-se delicadamente sobre a pelle de um trigueiro mimoso, que um sangue forte aviventava; e o seu peito cheio respirava devagar. Ás vezes, cravando a agulha na fazenda,espreguiçava-se devagarinho, sorria, cansada. Então Amaro gracejava:—Ah preguiçosa, preguiçosa! Olha que mulher de casa!Ella ria; conversavam. A S. Joanneira sabia as coisas interessantes do dia: o major despedira a criada; ou havia quem offerecesse dez moedas pelo porco do Carlos do correio. De vez em quando aRuçavinha ao armario buscar um prato ou uma colhér: então fallava-se do preço dos generos, do que havia para o jantar. A S. Joanneira tirava as lunetas, traçava a perna e, balouçando o pé calçado n'uma chinela d'ourelo, punha-se a dizer os pratos:—Hoje temos grão de bico. Não sei se o senhor parocho gostará, foi para variar...Mas Amaro gostava de tudo; e mesmo em certas comidas descobria affinidade de gostos com Amelia.Depois, animando-se, bolia-lhe no cesto da costura. Um dia encontrára uma carta; perguntou-lhe peloderriço; ella respondeu, picando vivamente o posponto:—Ai! a mim ninguem me quer, senhor parocho...—Não é tanto assim, acudiu elle.—Mas suspendeu-se, muito vermelho, affectando tossir.Amelia ás vezes fazia-se muito familiar; um dia mesmo pediu-lhe para sustentar nas mãos uma meadinha de retroz que ella ia dobar.—Deixe fallar, senhor parocho! exclamou a S.Joanneira. Ora a tolice! Isto, em se lhe dando confiança!...Mas Amaro promptificou-se, rindo, todo contente:—elle estava alli para o que quizessem, até para dobadoura! Era mandarem, era mandarem! E as duas mulheres riam, d'um riso calido, enlevadas n'aquellas maneiras do senhor parocho, «que até tocavam o coração»! Ás vezes Amelia pousava a costura e tomava o gato no collo; Amaro chegava-se, corria a mão pela espinha doMaltezque se arredondava, fazendo umron-ronde gozo.—Gostas? dizia ella ao gato, um pouco córada, com os olhos muito ternos.E a voz de Amaro murmurava, perturbada:—Bichaninho gato! bichaninho gato!Depois a S. Joanneira erguia-se para dar o remedio á idiota ou ir palrar á cozinha. Elles ficavam sós; não fallavam, mas os seus olhos tinham um longo dialogo mudo, que os ia penetrando da mesma languidez dormente. Então Amelia cantarolava baixo oAdeusou oDescrente: Amaro accendia o seu cigarro, e escutava bamboleando a perna.—É tão bonito isso! dizia.Amelia cantava mais accentuadamente, cosendo depressa; e a espaços, erguendo o busto, mirava o alinhavado ou o posponto, passando-lhe por cima, para o assentar, a sua unha polida e larga.Amaro achava aquellas unhas admiraveis, porque tudo que eraellaou vinha d'ellalhe parecia perfeito: gostava da côr dos seus vestidos, do seu andar,do modo de passar os dedos pelos cabellos, e olhava até com ternura para as saias brancas que ella punha a seccar á janella do seu quarto, enfiadas n'uma cana. Nunca estivera assim na intimidade d'uma mulher. Quando percebia a porta do quarto d'ella entreaberta, ia resvalar para dentro olhares gulosos, como para perspectivas d'um paraiso: um saiote pendurado, uma meia estendida, uma liga que ficára sobre o bahú, eram como revelações da sua nudez, que lhe faziam cerrar os dentes, todo pallido. E não se saciava de a vêr fallar, rir, andar com as saias muito engommadas que batiam as hombreiras das portas estreitas. Ao pé d'ella, muito fraco, muito langoroso, não lhe lembrava que era padre: o Sacerdocio, Deus, a Sé, o Peccado ficavam em baixo, longe; via-os muito esbatidos do alto do seu enlevo, como d'um monte se vêem as casas desapparecer no nevoeiro dos valles; e só pensava então na doçura infinita de lhe dar um beijo na brancura do pescoço, ou mordicar-lhe a orelhinha.Ás vezes revoltava-se contra estes desfallecimentos, batia o pé:—Que diabo, é necessario ter juizo! é necessario ser homem!Descia, ia folhear o seu Breviario; mas a voz de Amelia fallava em cima, otic-ticdas suas botinas batia o soalho... Adeus! a devoção cahia como uma vela a que falta o vento; as boas resoluções fugiam, e lá voltavam as tentações em bando a apoderar-se do seu cerebro, frementes, arrulhando, roçando-se umaspelas outras como um bando de pombas que recolhem ao pombal. Ficava todo subjugado, soffria. E lamentava então a sua liberdade perdida: como desejaria não a vêr, estar longe de Leiria, n'uma aldeia solitaria, entre gente pacifica, com uma criada velha cheia de proverbios e de economia, e passear pela sua horta quando as alfaces verdejam e os gallos cacarejam ao sol! Mas Amelia, de cima, chamava-o—e o encanto recomeçava, mais penetrante.A hora do jantar, sobretudo, era a sua hora perigosa e feliz, a melhor do dia. A S. Joanneira trinchava, emquanto Amaro conversava cuspindo os caroços das azeitonas na palma da mão e enfileirando-os sobre a toalha. ARuça, cada dia mais etica, servia mal, sempre a tossir: Amelia ás vezes erguia-se para ir buscar uma faca, um prato ao aparador. Amaro queria levantar-se logo, attencioso.—Deixe-se estar, deixe-se estar, senhor parocho! dizia ella. E punha-lhe a mão no hombro, e os seus olhos encontravam-se.Amaro, com as pernas estendidas e o guardanapo sobre o estomago, sentia-se regalado, gozava muito no bom calor da sala; depois do segundo copo da Bairrada tornava-se expansivo, tinha gracinhas; ás vezes mesmo, com um brilho terno no olho, tocava fugitivamente o pé de Amelia debaixo da mesa; ou, fazendo um ar sentido, dizia «que muito lhe pezava não ter uma irmãzinha assim»!Amelia gostava de ensopar o miolo de pão no môlho do guisado; a mãi dizia-lhe sempre:—Embirro que faças isso diante do senhor parocho.E elle então rindo:—Pois olhe, também eu gósto. Sympathia! magnetismo!E molhavam ambos o pão, e sem razão davam grandes risadas. Mas o crepusculo crescia, aRuçatrazia o candieiro. O brilho dos copos e das louças alegrava Amaro, enternecia-o mais; chamava á S. Joanneiramamã; Amelia sorria, d'olhos baixos, trincando com a ponta dos dentes cascas de tangerina. D'ahi a pouco vinha o café; o o padre Amaro ficava muito tempo partindo nozes com as costas da faca e quebrando a cinza do cigarro na borda do pires.Áquella hora apparecia sempre o conego Dias; sentiam-no subir pesadamente, dizendo da escada:—Licença para dois!Era elle e a cadella, aTrigueira.—Ora Nosso Senhor nos dê muito boas noites! dizia assomando á porta.—Vai a gotinha de café, senhor conego? perguntava logo a S. Joanneira.Elle sentava-se, exhalando um profundouff!—Vá lá a gotinha do café! E batendo no hombro do parocho, olhando para a S. Joanneira:—Então como vai cá o seu menino?Riam; vinham as historias do dia. O conego costumava trazer no bolso oDiario Popular; Ameliainteressava-se pelo romance, a S. Joanneira pelas correspondencias amorosas nos annuncios.—Ora vejam que pouca vergonha!... dizia ella, deliciando-se.Amaro então fallava de Lisboa, de escandalos que lhe contára a tia, dos fidalgos que conhecera «em casa do senhor conde de Ribamar». Amelia, enlevada, escutava-o com os cotovêlos sobre a mesa, roendo vagarosamente a ponta do palito.Depois do jantar iam visitar a entrevada. A lamparina esmorecia à cabeceira da cama: e a pobre velha, com uma medonha touca de rendas negras que tornava mais lívida a sua carinha engelhada como uma maçã raineta, fazendo debaixo da roupa uma saliencia quasí imperceptivel, fixava em todos, com custo, os seus olhinhos concavos e chorosos.—É o senhor parocho, tia Gertrudes! gritava-lhe Amelia ao ouvido. Vem vêr como está.A velha fazia um esforço, e com uma voz gemida:—Ah! é o menino!—É o menino, é, diziam rindo.E a velha ficava a murmurar, espantada:—É o menino, é o menino!—Pobre de Christo! dizia Amaro. Pobre de Christo! Deus lhe dê uma boa morte!E voltavam para a sala de jantar onde o conego Dias, todo enterrado na velha poltrona de chita verde, com as mãos cruzadas sobre o ventre, dizia logo:—Ora vá um bocadinho de musica, pequena!Amelia ia sentar-se ao piano.—Ó filha, toca oAdeus! recommendava a S. Joanneira começando a sua meia.E Amelia, ferindo o teclado:
Dorme, dorme, meu menino.Que a tua mãi foi á fonte!
Nasceste nos verdes camposOnde Leiria é famosa,Tens a frescura da rosa,E o teu nome sabe a mel...
Senti-te contra o meu peitoTremer, palpitar, ceder...