VII

Ai! adeus! acabaram-se os diasQue ditoso vivi a teu lado...A sua voz arrastava-se com melancolia; e Amaro, soprando o fumo do cigarro, sentia-se todo enleado n'um sentimentalismo agradavel.Quando descia para o seu quarto, à noite, ia sempre exaltado. Punha-se então a lêr osCanticos a Jesus, traducção do francez publicada pela sociedade dasEscravas de Jesus. É uma obrasinha beata, escripta com um lyrismo equivoco, quasi torpe—que dá á oração a linguagem da luxuria: Jesus é invocado, reclamado com as sofreguidões balbuciantes d'uma concupiscencia allucinada: «Oh! vem, amado do meu coração, corpo adoravel, minha alma impaciente quer-te! Amo-te com paixão e desespero! Abraza-me! queima-me! Vem! esmaga-me! possue-me!» E um amor divino, ora grotesco pela intenção, ora obsceno pela materialidade, geme, ruge, declama assim em cem paginas inflammadas onde as palavrasgozo,delicia,delírio,extase, voltam a cada momento, com uma persistencia hysterica. E depois de monologos phreneticos d'onde se exhala um bafo de cio mystico, vêm então imbecilidades de sacristia,notasinhas beatas resolvendo casos difficeis de jejuns, e orações para as dôres de parto! Um bispo approvou aquelle livrinho bem impresso; as educandas lêem-n'o no convento. É beato e excitante; tem as eloquencias do erotismo, todas as pieguices da devoção; encaderna-se em marroquim e dá-se ás confessadas: é a cantharida canonica!Amaro lia até tarde, um pouco perturbado por aquelles periodos sonoros, tumidos de desejo; e no silencio, por vezes, sentia em cima ranger o leito de Amelia: o livro escorregava-lhe das mãos, encostava a cabeça ás costas da poltrona, cerrava os olhos, e parecia-lhe vêl-a em collete diante do toucador desfazendo as trancas; ou, curvada, desapertando as ligas, e o decote da sua camisa entreaberta descobria os dois seios muito brancos. Erguia-se, cerrando os dentes, com uma decisão brutal de a possuir.Começára então a recommendar-lhe a leitura dosCanticos a Jesus.—Verá, é muito bonito, de muita devoção! disse elle, deixando-lhe o livrinho uma noite no cesto da costura.Ao outro dia, ao almoço, Amelia estava pallida, com as olheiras até ao meio da face. Queixou-se de insomnia, de palpitações.—E então, gostou dosCanticos?—Muito. Orações lindas! respondeu.Durante lodo esse dia não ergueu os olhos para Amaro. Parecia triste—e sem razão, ás vezes, o rosto abrazava-se-lhe de sangue.Os peores momentos para Amaro eram as segundas e quartas-feiras, quando João Eduardo vinha passar as noites «em familia». Até ás nove horas o parocho não sahia do quarto; e quando subia para o chá desesperava-se de vêr o escrevente embrulhado no seu chale-manta, sentado junto de Amelia.—Ai o que estes dois têm para ahi palrado, senhor parocho! dizia a S. Joanneira.Amaro tinha um sorriso livido, partindo devagar a sua torrada, com os olhos fitos na chavena.Amelia, na presença de João Eduardo, agora, não tinha com o parocho a mesma familiaridade alegre, mal levantava os olhos da costura; o escrevente calado chupava o cigarro; e havia grandes silencios em que se sentia o vento uivar, encanado na rua.—Olha quem andar agora nas aguas do mar! dizia a S. Joanneira fazendo devagar a sua meia.—Safa!... acrescentava João Eduardo.As suas palavras, os seus modos irritavam o padre Amaro: detestava-o pela sua pouca devoção, pelo seu bonito bigode preto. E diante d'elle sentia-se mais enleado no seu acanhamento de padre.—Toca alguma coisa, filha, dizia a S. Joanneira.—Estou tão cansada! respondia Amelia apoiando-se nas costas da cadeira, com um suspirosinho de fadiga.A S. Joanneira, então, que não gostava de «vêrgente mona», propunha umabisca de tres; e o padre Amaro, tomando o seu candieiro de latão, descia para o quarto, muito infeliz.N'essas noites quasi detestava Amelia; achava-acasmurra. A intimidade do escrevente na casa parecia-lhe escandalosa: decidia mesmo fallar á S. Joanneira, dizer-lhe «que aquelle namoro de portas a dentro não podia ser agradavel a Deus». Depois, mais razoavel, resolvia esquecel-a, pensava em sahir da casa, da parochia. Representava-se então Amelia com a sua corôa de flôres de laranjeira, e João Eduardo, muito vermelho, de casaca, voltando da Sé, casados... Via a cama de noivado com os seus lençoes de renda... e todas as provas, as certezas do amor d'ella pelo «idiota do escrevente» cravavam-se-lhe no peito como punhaes...—Pois que casem, e que os leve o diabo!...Odiava-a então. Fechava violentamente a porta à chave como para impedir que lhe penetrasse no quarto o rumor da sua voz ou ofrou-froudas suas saias. Mas d'ahi a pouco, como todas as noites, escutava com o coração aos saltos, immovel e ancioso, os ruidos que ella fazia em cima ao despir-se, palrando ainda com a mãi.Um dia Amaro jantára em casa da snr.aD. Maria da Assumpção; fôra depois passear pela estrada de Marrases, e á volta, ao fim da tarde, encontrou, aoentrar em casa, a porta da rua aberta; sobre o capacho, no patamar, estavam os chinelos de ourelo daRuça.—Tonta de rapariga! pensou Amaro, foi á fonte e esqueceu-se de fechar a porta.Lembrou-se que Amelia tinha ido passar a tarde com a snr.aD. Joaquina Gansoso, n'uma fazenda ao pé da Piedade, e que a S. Joanneira fallára em ir á irmã do conego. Fechou devagar a cancella, subiu á cozinha a accender o seu candieiro; como as ruas estavam molhadas da chuva da manhã, trazia ainda galochas de borracha; os seus passos não faziam rumor no soalho; ao passar diante da sala de jantar sentiu no quarto da S. Joanneira, através do reposteiro de chita, uma tosse grossa; surprehendido, afastou subtilmente um lado do reposteiro, e pela porta entreaberta espreitou.—Oh Deus de Misericordia! a S. Joanneira, em saia branca, atacava o collete; e, sentado á beira da cama, em mangas de camisa, o conego Dias resfolegava grosso!Amaro desceu, collado ao corrimão, fechou muito devagarinho a porta, e foi ao acaso para os lados da Sé. O céo ennevoára-se, leves gotas de chuva cahiam.—E esta! E esta! dizia elle assombrado.Nunca suspeitára um tal escandalo! A S. Joanneira, a pachorrenta S. Joanneira! O conego, seu mestre de Moral! E era um velho, sem os impetos do sangue novo, já na paz que lhe deveriam ter dado a idade, a nutrição, as dignidades ecclesiasticas!Que faria então um homem novo e forte, que sente uma vida abundante no fundo das suas veias reclamar e arder!... Era, pois, verdade o que se cochichava no seminario, o que lhe dizia o velho padre Sequeira, cincoenta annos parocho da Gralheira:—«Todos são do mesmo barro!» Todos são do mesmo barro,—sobem em dignidades, entram nos cabidos, regem os seminarios, dirigem as consciencias envoltos em Deus como n'uma absolvição permanente, e têm no emtanto, n'uma viella, uma mulher pacata e gorda, em casa de quem vão repousar das attitudes devotas e da austeridade do officio, fumando cigarros de estanco e palpando uns braços rechonchudos!Vinham-lhe então outras reflexões: que gente era aquella, a S. Joanneira e a filha, que viviam assim sustentadas pela lubricidade tardia de um velho conego? A S. Joanneira fora decerto bonita, bem feita, desejavel—outr'ora! Por quantos braços teria passado até chegar, pelos declives da idade, áquelles amores senis e mal pagos? As duas mulherinhas, que diabo, não eram honestas! Recebiam hospedes, viviam da concubinagem. Amelia ia sósinha á igreja, ás compras, á fazenda; e com aquelles olhos tão negros, talvez já tivesse tido um amante!—Resumia, filiava certas recordações: um dia que ella lhe estivera mostrando na janella da cozinha um vaso de rainunculos, tinham ficado sós, e ella, muito córada, puzera-lhe a mão sobre o hombro e os seus olhos reluziam e pediam; outra occasiãoella roçára-lhe o peito pelo braço! A noite cahira, com uma chuva fina. Amaro não a sentia, caminhando depressa, cheio de uma só idéa deliciosa que o fazia tremer: ser o amante da rapariga, como o conego era o amante da mãi! Imaginava já a boa vida escandalosa e regalada; emquanto em cima a grossa S. Joanneira beijocasse o seu conego cheio de difficuldades asthmaticas,—Amelia desceria ao seu quarto, pé ante pé, apanhando as saias brancas, com um chale sobre os hombros nús... Com que phrenesi a esperaria! E já não sentia por ella o mesmo amor sentimental, quasi doloroso: agora a idéa muito magana dos dois padres e as duas concubinas, de panellinha, dava áquelle homem amarrado pelos votos uma satisfação depravada! Ia aos pulinhos pela rua.—Que pechincha de casa!A chuva cahía, grossa. Quando entrou havia já luz na sala de jantar. Subiu.—Ih, como vem frio! disse-lhe Amelia sentindo, ao apertar-lhe a mão, a humidade da nevoa.Sentada á mesa, costurava com um chale-manta pelos hombros: João Eduardo, ao pé, jogava a bisca com a S. Joanneira.Amaro sentou-se um pouco embaraçado; a presença do escrevente dera-lhe de repente, sem saber porque, o duro choque d'uma realidade antipathica: e todas as esperanças, que lhe tinham vindo a dansar uma sarabanda na imaginação, encolhiam-se uma a uma, murchavam—vendo alli Amelia ao pédo noivo, curvada sobre uma costura honesta, com o seu escuro vestido afogado, junto do candieiro de familia!E tudo em redor lhe apparecia como mais recatado, as paredes com o seu papel de ramagens verdes, o armario cheio de louça luzidia da Vista-Alegre, o sympathico e bojudo pote d'agua, o velho piano mal firme nos seus tres pés torneados; o paliteiro tão querido de todos—um Cupido rechonchudo com um guardachuva aberto erriçado de palitos, e aquella tranquilla bisca jogada com os dichotes classicos. Tudo tão decente!Affirmava-se então nas grossas roscas do pescoço da S. Joanneira, como para descobrir n'ellas as marcas das beijocas do conego: ah! tu, não ha duvida, és «uma barregã de clerigo ». Mas Amelia! com aquellas longas pestanas descidas, o beiço tão fresco!... Ignorava decerto as libertinagens da mãi; ou, experiente, estava bem resolvida a estabelecer-se solidamente na segurança d'um amor legal!—E Amaro, da sombra, examinava-a longamente como para se certificar, na placidez do seu rosto, da virgindade do seu passado.—Cansadinho, senhor parocho, hein? disse a S. Joanneira. E para João Eduardo:—Trunfo, faz favor, seu cabeça no ar?O escrevente, namorado, distrahia-se.—É o senhor a jogar, dizia-lhe a S. Joanneira a cada momento.Depois elle esquecia-se decomprar cartas.—Ah menino, menino! dizia ella com a sua voz pachorrenta, que lhe puxo essas orelhas!Amelia ia cosendo com a cabeça baixa: tinha um pequeno casabeque preto com botões de vidro, que lhe disfarçava a fórma do seio.E Amaro irritava-se d'aquelles olhos fixos na costura, d'aquelle casaco amplo escondendo a belleza que mais appetecia n'ella! E nada a esperar! Nada d'ella lhe pertenceria, nem a luz d'aquellas pupillas, nem a brancura d'aquelles peitos! Queria casar—e guardavatudopara o outro, o idiota, que sorria baboso, jogando paus! Odiou-o então, d'um odio complicado d'inveja ao seu bigode negro e ao seu direito d'amar...—Está incommodado, senhor parocho? perguntou Amelia, vendo-o mexer-se bruscamente na cadeira.—Não, disse elle sêccamente.—Ah! fez ella com um leve suspiro, picando rapidamente o posponto.O escrevente, baralhando as cartas, começára a fallar de uma casa que queria alugar; a conversa cahiu sobre arranjos domesticos.—Traze-me luz! gritou Amaro àRuça.Desceu para o seu quarto, desesperado. Pôz a vela sobre a commoda; o espelho estava defronte, e a sua imagem appareceu-lhe; sentiu-se feio, ridiculo com a sua cara rapada, a volta hirta como uma colleira, e por traz a corôa hedionda. Comparou-se instinctivamente com o outro que tinha um bigode,o seu cabello todo, a sua liberdade! Para que hei de eu estar a ralar-me? pensou. O outro era um marido; podia dar-lhe o seu nome, uma casa, a maternidade; elle só poderia dar-lhe sensações criminosas, depois os terrores do peccado! Ella sympathisava talvez com elle, apesar de padre; mas antes de tudo, acima de tudo, queria casar; nada mais natural! Via-se pobre, bonita, só: cubiçava uma situação legitima e duradoura, o respeito das visinhas, a consideração dos lojistas, todos os proveitos da honra!Odiou-a então, e o seu vestido afogado, e a sua honestidade! A estupida, que não percebia que ao pé d'ella, sob uma negra batina, uma paixão devota a espreitava, a seguia, tremia e morria de impaciencia! Desejou que ella fosse como a mãi,—ou peor, toda livre, com vestidos garridos, uma cuia impudente, traçando a perna e fitando os homens, uma femea facil como uma porta aberta ...—Boa! Estou a desejar que a rapariga fosse uma desavergonhada!—pensou, recahíndo em si um pouco envergonhado. Está claro: não podemos pensar em mulheres decentes, temos que reclamar prostitutas! Bonito dogma!Abafava. Abriu a janella. O céo estava tenebroso; a chuva cessára; o piar das corujas na Misericordia cortava só o silencio.Enterneceu-se, então, com aquella escuridão, aquella mudez de villa adormecida. E sentiu subir outra vez, das profundidades do seu sêr, o amor que sentira ao principio por ella, muito puro, d'um sentimentalismodevoto: via a sua linda cabeça, d'uma belleza transfigurada e luminosa, destacar da negrura espessa do ar; e toda a sua alma foi para ella n'um desfallecimento d'adoração, como no culto a Maria e na Saudação Angelica; pediu-lhe perdão anciosamente de a ter offendido; disse-lhe alto: És uma santa! perdôa!—Foi um momento muito dôce, de renunciamento carnal...E, espantado quasi d'aquellas delicadezas de sensibilidade que descobria subitamente em si, pôz-se a pensar com saudade—que se fosse um homem livre seria um marido tão bom! Amoravel, dedicado, dengueiro, sempre de joelhos, todo d'adorações! Como amaria oseufilho, muito pequerruchinho, a puxar-lhe as barbas! Á idéa d'aquellas felicidades inaccessiveis, os olhos arrazaram-se-lhe de lagrimas. Amaldiçoou, n'um desespero, «a pêga da marqueza que o fizera padre», e o bispo que o confirmára!—Perderam-me! perderam-me! diria, um pouco desvairado.Sentiu então os passos de João Eduardo que descia, e o rumor das saias de Amelia. Correu a espreitar pela fechadura, cravando os dentes no beiço, de ciume. A cancella bateu, Amelia subiu cantarolando baixo.—Mas a sensação d'amor mystico que o penetrára um momento, olhando a noite, passára; e deitou-se, com um desejo furioso d'ella e dos seus beijos.VIIDias depois o padre Amaro e o conego Dias tinham ido jantar com o abbade da Cortegassa.—Era um velho jovial, muito caridoso, que vivia ha trinta annos n'aquella freguezia e passava por ser o melhor cozinheiro da diocese. Todo o clero das visinhanças conhecia a sua famosacabedella de caça. O abbade fazia annos, havia outros convidados—o padre Natario e o padre Brito: o padre Natario era uma creaturinha biliosa, sêcca, com dois olhos encovados, muito malignos, a pelle picada das bexigas e extremamente irritavel. Chamavam-lhe oFurão. Era esperto e questionador; tinha fama de ser grande latinista, e ter uma logica de ferro; e dizia-se d'elle:é uma lingua de vibora! Vivia com duas sobrinhas orphãs, declarava-se extremoso por ellas, gabava-lhessempre a virtude, e costumava chamar-lhes asduas rosas do seu canteiro. O padre Brito era o padre mais estupido e mais forte da diocese; tinha o aspecto, os modos, a forte vida de um robusto beirão que maneja bem o cajado, emborca um almude de vinho, péga alegremente á rabiça do arado, serve de trolha nos arranjos de um alpendre, e nas séstas quentes de junho atira brutalmente as raparigas para cima das medas de milho. O senhor chantre, sempre correcto nas suas comparações mythologicas, chamava-lhe—oleão de Nemeia.A sua cabeça era enorme, de cabello lanigero que lhe descia até ás sobrancelhas: a pelle cortida tinha um tom azulado, do esforço da navalha de barba; e, nas suas risadas bestiaes, mostrava dentinhos muito miudos e muito brancos do uso da brôa.Quando iam sentar-se á mesa chegou o Libaninho todo azafamado, gingando muito, com a calva suada, exclamando logo em tons agudos:—Ai, filhos! desculpem-me, demorei-me mais um bocadinho. Passei pela igreja de Nossa Senhora da Ermida, estava o padre Nunes a dizer uma missa de intenção. Ai, filhos! papei-a logo, venho mesmo consoladinho!A Gertrudes, a velha e possante ama do abbade, entrou então com a vasta terrina do caldo de gallinha; e o Libaninho, saltitando em roda d'ella, começou os seus gracejos:—Ai, Gertrudinhas! quem tu fazias feliz bem eu sei!A velha aldeã ria com o seu espesso riso bondoso, que lhe sacudia a massa do seio.—Olhe que arranjo me apparece agora pela tarde!...—Ai, filha! as mulheres querem-se como as peras, maduras e de sete cotovêlos. Então é que é chupal-as!Os padres gargalharam; e, alegremente, accommodaram-se á mesa.O jantar fôra todo cozinhado pelo abbade: logo á sopa as exclamações começaram:—Sim, senhor, famoso! D'isto nem no céo! Bella coisa!O excellente abbade estava escarlate de satisfação. Era, como dizia o senhor chantre, «um divino artista»! Lera todos osCozinheiros completos, sabia innumeras receitas: era inventivo—e, como elle affirmava dando martelladinhas no craneo, «tinha-lhe sahido muito petisco d'aquella cachimonia»! Vivia tão absorvido pela sua «arte» que lhe acontecia, nos sermões de domingo, dar aos fieis ajoelhados para receberem a palavra de Deus, conselhos sobre o bacalhau guisado ou sobre os condimentos do sarrabulho. E alli vivia feliz, com a sua velha Gertrudes, de muito bom paladar tambem, com o seu quintal de ricos legumes, sentindo uma só ambição na vida—ter um dia a jantar o bispo!—Oh, senhor parocho! dizia elle a Amaro, por quem é! mais um bocadinho de cabedella, faça favor! Essas côdeasinhas de pão ensopadas no môlho!Isso! isso! Que tal, hein?—E com um aspecto modesto:—Não é lá por dizer, mas a cabedella hoje sahiu-me boa!Estava com effeito, como disse o conego Dias, de tentar Santo Antonio no deserto! Todos tinham tirado as capas, e, só com as batinas, as voltas alargadas, comiam devagar, fallando pouco. Como no dia seguinte era a festa da Senhora da Alegria, os sinos na capella, ao lado, repicavam; e o bom sol do meio-dia dava tons muito alegres á louça, ás bojudas canecas azues com vinho da Bairrada, aos pires de pimentões escarlates, ás frescas malgas de azeitonas pretas—emquanto o bom abbade, d'olho arregalado, mordendo o beiço, ia cortando com cuidado nacos brancos do peito do capão recheado.As janellas abriam para o quintal. Viam-se dois largos pés de camelias vermelhas crescendo junto ao peitoril, e para além das copas das macieiras um pedaço muito vivo de céo azul-ferrete. Uma nora chiava ao longe, lavadeiras batiam a roupa.Sobre a commoda, entrein-folios, na sua peanha um Christo perfilava tristemente contra a parede o seu corpo amarello, coberto de chagas escarlates: e, aos lados, sympathicos santos sob redomas de vidro, lembravam legendas mais dôces de religião amavel: o bom gigante S. Christovão atravessando o rio com o divino pequerrucho que sorri, e faz saltar o mundo sobre a sua mãosinha como uma pella; o dôce pastor S. Joãosinho coberto com uma pelle de ovelha, e guardando os seus rebanhos, nãocom um cajado, mas com uma cruz; o bom porteiro S. Pedro, tendo na sua mão de barro as duas santas chaves que servem nas fechaduras do céo! Nas paredes, em lithographias de coloridos crueis, o patriarcha S. José apoiava-se ao seu cajado onde florescem lirios brancos; o cavallo empinado do bravo S. Jorge pisava o ventre d'um dragão surprehendido; e o bom Santo Antonio, á beira d'um regato, sorria, fallando a um tubarão. Otlim-tlimdos copos, o ruido das facas animavam a velha sala de tecto de carvalho defumado, d'uma alegria desusada. E Libaninho devorava, dizendo pilherias:—Gertrudinhas, flôr do caniço, passa-me as vagens. Não me olhes assim, magana, que me fazes revolver os intestinos!—O diabo é o homem! dizia a velha. Olha p'r'ó que lhe deu! Fallasse-me aqui ha trinta annos, seu perdido!—Ai, filha! exclamava revirando os olhos, nem me digas isso que sinto coisas pela espinha acima!Os padres engasgavam-se de riso. Já duas canecas de vinho estavam vazias: e o padre Brito desabotoára a batina, deixando vêr a sua grossa camisola de lã da Covilhã, onde a marca da fabrica, feita de linha azul, era uma cruz sobre um coração.Um pobre então viera á porta rosnar lamentosamente Padre-Nossos; e emquanto Gertrudes lhe mettia no alforge metade d'uma brôa, os padres fallaram dos bandos de mendigos que agora percorriam as freguezias.—Muita pobreza por aqui, muita pobreza! dizia o bom abbade. Ó Dias, mais este bocadinho da aza?—Muita pobreza, mas muita preguiça, considerou duramente o padre Natario.—Em muitas fazendas sabia elle que havia falta de jornaleiros, e viam-se marmanjos, rijos como pinheiros, a choramingar Padre-Nossos pelas portas.—Sucia de mariolas! resumiu.—Deixe lá, padre Natario, deixe lá! disse o abbade. Olhe que ha pobreza devéras. Por aqui ha familias, homem, mulher e cinco filhos, que dormem no chão como porcos e não comem senão hervas.—Então que diabo querias tu que elles comessem? exclamou o conego Dias lambendo os dedos depois de ter esburgado a aza do capão. Querias que comessem perú? Cada um como quem é!O bom abbade puxou, repoltreando-se, o guardanapo para o estomago, e disse com affecto:—A pobreza agrada a Deus Nosso Senhor.—Ai, filhos! acudiu o Libaninho n'um tom choroso, se houvesse só pobresinhos isto era o reininho dos céos!O padre Amaro considerou com gravidade:—É bom que haja quem tenha cabedaes para legados pios, edificações de capellas...—A propriedade devia estar na mão da Igreja, interrompeu Natario com auctoridade.O conego Dias arrotou com estrondo e acrescentou:—Para o esplendor do culto e propagação da fé.Mas a grande causa da miseria, dizia Natario com uma voz pedante, era a grande immoralidade.—Ah! lá isso não fallemos! exclamou o abbade com desgosto. N'este momento ha só aqui na freguezia mais de doze raparigas solteiras gravidas! Pois senhores, se as chamo, se as reprehendo, põem-se-me a fungar de riso!—Lá nos meus sitios, disse o padre Brito, quando foi pela apanha da azeitona, como ha falta de braços, vieram asmaltastrabalhar. Pois agora o verás! Que desafôro!—Contou a historia dasmaltas, trabalhadores errantes, homens e mulheres, que andam offerecendo os braços pelas fazendas, vivem na promiscuidade e morrem na miseria.—Era necessario andar sempre de cajado em cima d'elles!—Ai! disse o Libaninho para os lados apertando as mãos na cabeça. Ai, o peccado que vai pelo mundo! Até se me estão a erriçar os cabellos!Mas a freguezia de Santa Catharina era a peor! As mulheres casadas tinham perdido todo o escrupulo.—Peores que cabras, dizia o padre Natario alargando a fivela do collete.E o padre Brito fallou de um caso na freguezia de Amor: raparigas de dezeseis e dezoito annos que costumavam reunir-se n'um palheiro—o palheiro do Silverio—e passavam lá a noite com um bando de marmanjos!Então o padre Natario, que já tinha os olhos luzidios, a língua solta, disse, repoltreando-se na cadeira e espaçando as palavras:—Eu não sei o que se passa lá na tua freguezia, Brito; mas se ha alguma coisa o exemplo vem de alto... A mim têm-me dito que tu e a mulher do regedor...—É mentira! exclamou o Brito fazendo-se todo escarlate.—Oh, Brito! oh, Brito! disseram em redor, reprehendendo-o com bondade.—É mentira! berrou elle.—E aqui para nós, meus ricos, disse o conego Dias baixando a voz, com o olhinho acceso n'uma malicia confidencial, sempre lhes digo que é uma mulher de mão cheia!—É mentira! clamou o Brito. E fallando de um jacto:—Quem anda a espalhar isso é o morgado da Cumiada, porque o regedor não votou com elle na eleição... Mas tão certo como eu estar aqui, quebro-lhe os ossos!—Tinha os olhos injectados, brandia o punho:—Quebro-lhe os ossos!—O caso não é para tanto, homem, considerou Natario.—Quebro-lhe os ossos! Não lhe deixo um inteiro!—Ai, socega, leãosinho! disse o Libaninho com ternura. Não te percas, filhinho!Mas recordando a influencia do morgado da Cumiada, que era então opposição e que levava duzentos votos á urna, os padres fallaram de eleições e dos seus episodios. Todos alli, a não ser o padre Amaro, sabiam, como disse Natario, «cozinhar um deputadosinho».Vieram anecdotas; cada um celebrou as suas façanhas.O padre Natario na ultima eleição tinha arranjado oitenta votos!—Caspitè! disseram.—Imaginam vossês como? Com um milagre!—Com um milagre!? repetiram espantados.—Sim, senhores.Tinha-se entendido com um missionario, e na vespera da eleição receberam-se na freguezia cartas vindas do céo e assignadas pela Virgem Maria, pedindo, com promessas de salvação e ameaças do inferno, voto para o candidato do governo. De chupeta, hein?—De mão cheia! disseram todos.Só Amaro parecia surprehendido.—Homem! disse o abbade com ingenuidade, d'isso é que eu cá precisava. Eu então tenho de andar ahi a estafar-me de porta em porta.—E sorrindo bondosamente:—Com o que se faz ainda alguma coisita é com o relaxe da congrua!—E com a confissão, disse o padre Natario. A coisa então vai pelas mulheres, mas vai segura! Da confissão tira-se grande partido.O padre Amaro, que estivera calado, disse gravemente:—Mas emfim a confissão é um acto muito sério, e servir assim para eleições...O padre Natario, que tinha duas rosetas escarlates na face e gestos excitados, soltou uma palavra imprudente:—Pois o senhor toma a confissão a sério?Houve uma grande surpreza.—Se tomo a confissão a serio!? gritou o padre Amaro recuando a cadeira, com os olhos arregalados.—Ora essa! exclamaram. Oh, Natario! Oh, menino!O padre Natario exaltado queria explicar, attenuar:—Escutem, creaturas de Deus! Eu não quero dizer que a confissão seja uma brincadeira! Irra! Eu não sou pedreiro-livre! O que eu quero dizer é que é um meio de persuasão, de saber o que se passa, de dirigir o rebanho para aqui ou para alli... E quando é para o serviço de Deus, é uma arma. Ahi está o que é—a absolvição é uma arma!—Uma arma! exclamaram.O abbade protestava, dizendo:-Oh, Natario! oh, filho! isso não!O Libaninho tinha-se benzido; e, dizia, «tinha já um tal terror que até lhe tremiam as pernas»!Natario irritou-se:—Então talvez me queiram dizer, gritou, que qualquer de nós, pelo facto de ser padre, porque o bispo lhe impoz tres vezes as mãos e porque lhe disse oaccipe, tem missão directa de Deus,—é Deus mesmo para absolver?!—Decerto! exclamaram, decerto!E o conego Dias disse, meneando uma garfada de vagens:—Quorum remiseris peccata, remittuntur eis.É a fórmula. A fórmula é tudo, menino...—A confissão é a essencia mesma do sacerdocio, soltou o padre Amaro com gestos escolares, fulminando Natario. Leia Santo Ignacio! leia S. Thomaz!—Anda-me com elle! gritava o Libaninho pulando na cadeira, apoiando Amaro.—Anda-me com elle, amigo parocho! Salta-me no cachaço do impio!—Oh, senhores! berrou Natario furioso com a contradicção, o que eu quero é que me respondam a isto. E voltando-se para Amaro:—O senhor, por exemplo, que acaba de almoçar, que comeu o seu pão torrado, tomou o seu café, fumou o seu cigarro, e que depois se vai sentar no confessionario, ás vezes preoccupado com negocios de familia ou com faltas de dinheiro, ou com dôres de cabeça ou com dôres de barriga, imagina o senhor que está alli como um Deus para absolver?O argumento surprehendeu.O conego Dias, pousando o talher, ergueu os braços, e com uma solemnidade comica exclamou:—Hereticus est!É hereje!—Hereticus est!tambem eu digo, rosnou o padre Amaro.Mas a Gertrudes entrava com a larga travessa do arroz dôce.—Não fallemos n'essas coisas, não fallemos n'essas coisas, disse logo prudentemente o abbade. Vamos ao arrozinho. Gertrudes, dá cá a garrafinha do Porto!Natario, debruçado sobre a mesa, ainda arremessava argumentos a Amaro:—Absolver é exercer a graça. A graça só é attributo de Deus: em nenhum auctor encontra que a graça seja transmissivel. Logo...—Ponho duas objecções... gritou Amaro com o dedo em riste, em attitude de polemica.—Oh, filhos! oh, filhos! acudiu o bom abbade afflicto. Deixem a sabbatina, que até nem lhes sabe o arrozinho!Serviu o vinho do Porto, para os acalmar, enchendo os copos devagar, com as precauções classicas:—Mil oitocentos e quinze! dizia. D'isto não se bebe todos os dias.Para o saborear, depois de o fazer reluzir á luz na transparencia dos copos, repoltreavam-se nas velhas cadeiras de couro; começaram assaudes!A primeira foi ao abbade, que murmurava:—Muita honra... muita honra... Tinha os olhos chorosos de satisfação.—A sua santidade Pio IX! gritou então o Libaninho brandindo o calix. Ao martyr!Todos beberam commovidos. Libaninho entoou em voz de falsete o hymno de Pio IX: o abbade, prudente, fêl-o calar por causa do hortelão que no quintal aparava o buxo.A sobremesa foi longa, muito saboreada. Natario tornára-se terno, fallava das suas sobrinhas, «as suas duas rosas», e citava Virgilio, molhando as castanhas em vinho. Amaro, todo deitado para traz na cadeira,as mãos nos bolsos, olhava machinalmente as arvores do jardim, pensando vagamente em Amelia, nas suas fórmas: suspirou mesmo com um desejo d'ella—emquanto o padre Brito, rubro, queria convencer os republicanos amarmeleiro.—Viva o marmeleiro do padre Brito! gritou enthusiasmado o Libaninho.Mas Natario começára a discutir com o conego historia ecclesiastica: e, muito questionador, voltou aos seus argumentos vagos sobre a doutrina da Graça: affirmava que um assassino, um parricida poderia ser canonisado—se se tivesse revelado o estado de Graça! Divagava, com phrases d'escóla em que se lhe pegava a lingua. Citou santos que tinham sido escandalosos; outros que pela sua profissão deviam ter conhecido, praticado, amado o vicio. Exclamou com as mãos na cinta:—Santo Ignacio foi militar!—Militar!? gritou o Libaninho.—E erguendo-se correndo a Natario, lançando-lhe um braço ao pescoço com uma ternura pueril e avinhada:—Militar!? E que era elle? Que era elle, o meu devoto Santo Ignacio?Natario repelliu-o:—Deixa-me, homem! Era sargento de caçadores.Houve uma enorme risada.O Libaninho ficára extatico.—Sargento de caçadores! dizia erguendo as mãos n'um impeto beato. Meu rico Santo Ignacio! Bemdito e louvado seja elle por toda a eternidade!E então o abbade propôz que fossem tomar café para debaixo da parreira.Eram tres horas. Ao erguer-se todos cambaleavam um pouco, arrotando formidavelmente, com risadas espessas; só Amaro tinha a cabeça lucida, as pernas firmes—e sentia-se muito terno.—Pois agora, collegas, disse o abbade sorvendo o ultimo gole de café, o que está a calhar é um passeio à fazenda.—Para esmoer, rosnou o conego erguendo-se com difficuldade. Vamos lá á fazenda do abbade!Foram pelo atalho da Barroca, um caminho estreito de carros. O dia estava muito azul, d'um sol tepido. A vereda seguia entre vallados erriçados de silvas; para além as terras lisas estendiam-se cobertas de rastolho; a espaços as oliveiras destacavam, com grande nitidez, na sua folhagem fina; para o horisonte arredondavam-se collinas cobertas da rama verde-negra dos pinheiros; havia um grande silencio; só ás vezes, ao longe, n'um caminho, um carro chiava. E n'aquella serenidade da paizagem e da luz, os padres iam caminhando devagar, tropeçando um pouco, d'olho acceso, estomago enfartado, chacoteando e achando a vida boa.O conego Dias e o abbade, de braço dado, caturravam. O Brito, ao lado de Amaro, jurava que havia de beber o sangue ao morgado da Cumiada.—Prudencia, collega Brito, prudencia, dizia Amaro chupando o cigarro.E o Brito, com passadas de carretão, rosnava:—Hei de comer-lhe os figados!O Libaninho atraz, só, cantarolava em falsete:

Ai! adeus! acabaram-se os diasQue ditoso vivi a teu lado...


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