VIII

—Passarinho trigueiro,Salta cá fóra...Adiante de todos ia o padre Natario: levava a capa no braço, arrastando pelo chão; a batina desabotoada por traz deixava vêr o forro immundo do collete; e as suas pernas escanifradas, com as meias pretas de lã cheias de passagens, faziam bordos que o atiravam contra o silvado.E no emtanto Brito, com grandes bafos de vinho, roncava:—Eu só me contentava em agarrar n'um cajado e correr tudo! tudo!—E gesticulava com um gesto immenso que abrangia o mundo.—Tem as azas quebradas,Não póde agora...gania atraz o Libaninho.Mas pararam de repente: Natario adiante gritava com uma voz furiosa:—Seu burro, vossê não vê? Sua bêsta!Era á volta do atalho. Tropeçára com um velho que conduzia uma ovelha; ia cahindo; e ameaçava-o com o punho fechado n'uma raiva avinhada.—Queira vossa senhoria perdoar, dizia humildemente o homem.—Sua bêsta! berrava Natario com os olhos chammejantes. Que o racho!O homem balbuciava, tinha tirado o chapéo;viam-se os seus cabellos brancos; parecia ser um antigo criado de lavoura envelhecido no trabalho; era talvez avô—e curvado, vermelho de vergonha, encolhia-se com as sebes para deixar passar no estreito caminho de carros os senhores padres joviaes e excitados da vinhaça!Amaro não os quiz acompanhar até á fazenda. Ao fim da aldeia, no cruzeiro, tomou pelo caminho de Sobros, voltou para Leiria.—Olhe que é uma legoa á cidade, dizia o abbade. Eu mando-lhe apparelhar a egoa, collega.—Qual historia, abbade, a perninha é rija!—E, traçando alegremente a capa, partiu cantarolando oAdeus.Ao pé da Cortegassa o atalho de Sobros alarga-se, ao comprido d'um muro de quinta coberto de musgos e erriçado no alto de luzidios fundos de garrafas. Quando Amaro chegou proximo ao portão de carros, baixo e pintado de vermelho, encontrou no meio do caminho, parada, uma grande vacca malhada; Amaro divertido espicaçou-a com o guarda-chuva; a vacca trotou balouçando a papeira—e Amaro ao voltar-se viu Amelia, ao portão, que saudava, dizendo toda risonha:—Então está-me a espantar o gado, senhor parocho?—É a menina! Que milagre é este?Ella fez-se um pouco vermelha:—Vim á quinta com a D. Maria da Assumpção. Vim dar uma vista d'olhos á fazenda.Ao pé de Amelia uma rapariga acamava couves n'uma canastra.—Então esta é que é a quinta da D. Maria?E Amaro deu um passo para dentro do portão.Uma rua larga de velhos sobreiros, dando uma sombra dôce, estendia-se até á casa que se entrevia no fundo, branquejando ao sol.—É. A nossa fazenda fica do outro lado, mas entra-se tambem por aqui. Vá, Joanna, avia-te!A rapariga pôz a canastra á cabeça, deu as boas tardes, metteu pelo caminho de Sobros, batendo muito os quadris.—Sim, senhor! sim, senhor! Parece uma boa propriedade... considerava o parocho.—Venha vêr a nossa fazenda! disse Amelia. É uma migalhinha de terra, mas para fazer uma idéa. Vai-se por aqui mesmo... Olhe, vamos ter lá baixo com a D. Maria, quer?—Valeu. Vamos lá á D. Maria, disse Amaro.Foram subindo a rua dos sobreiros, calados. O chão estava cheio de folhas sêccas, e, entre os troncos espaçados, moitas de hortensias pendiam abatidas, amarelladas dos chuveiros; ao fundo a casa baixa, velha, de um andar só, assentava pesadamente. Ao longo da parede grandes aboboras amadureciam ao sol, e no telhado, todo negro do inverno, esvoaçavam pombos. Por traz o laranjal formavauma massa de folhagens verde-escuras; uma nora chiava monotonamente.Um rapazito passou com um balde de lavagem.—Para onde foi a senhora, João? perguntou Amelia.—Foi p'r'ó olival, disse o rapaz com a sua vozinha arrastada.O olival era longe, no fundo da quinta: havia ainda grandes lamas, não se podia ir lá sem tamancos.—Vai-se a gente sujar toda, disse Amelia. Deixar lá a D. Maria, hein? Vamos nós vêr a quinta... Por aqui, senhor parocho...Estavam defronte d'um velho muro onde cresciam clematites. Amelia abriu uma porta verde; e por tres degraus de pedra desconjuntados desceram a uma rua toldada por uma larga parreira. Junto do muro cresciam rosas de todo o anno; do outro lado, por entre os pilares de pedra que sustentavam a latada e os pés torcidos das cepas, via-se, batido de luz, com tons amarellados, um grande campo de herva; os tectos baixos do curral coberto de colmo destacavam ao longe em escuro, e d'esse lado um fumosinho leve e branco perdia-se no ar muito azul.Amelia a cada momento parava, explicava a quinta:—Alli ia semear-se cevada; além havia de vêr o cebolinho, estava muito bonito...—Ah! a D. Maria da Assumpção traz isto muito bem tratado!Amaro ouvia-a fallar, com a cabeça baixa, olhando-ade lado; a sua voz n'aquelle silencio dos campos parecia-lhe mais rica, mais dôce; o grande ar dava-lhe uma côr mais picante ás faces; o seu olhar rebrilhava. Para saltar umas lamas tinha apanhado o vestido; e a brancura da meia, que elle entreviu, perturbou-o como um começo da sua nudez.Ao fundo da parreira atravessaram um campo ao comprido d'um regueiro. Amelia riu muito do parocho, que tinha medo de sapos. Elle então exagerou os seus sustos. Ó menina Amelia, haveria viboras? E roçava-se por ella, afastando-se das hervas altas.—Vê aquelle vallado? Pois para o lado de lá é a nossa fazenda. Entra-se pela cancella, vê? Mas veja lá se está cansado! Que o senhor parece-me que não é grande caminhador... Ai, um sapo!Amaro deu um pulinho, tocou-lhe o hombro. Ella empurrou-o dôcemente, e com um riso calido:—Seu medroso! seu medroso!Estava toda contente, toda viva. Fallava nasua fazendacom uma vaidadesinha satisfeita de entender da lavoura, de ser proprietaria.—A cancella está fechada, parece, disse Amaro.—Está? fez ella.—Apanhou as saias, deu uma carreirinha. Estava fechada! Que pena! E abalava, impaciente, as grades estreitas, entre as duas fortes hombreiras de madeira encravadas na espessura do silvado.—Foi o caseiro que levou a chave!Agachou-se, gritou para o lado do campo, arrastando muito tempo a voz:—Antonio! Antonio!Ninguem respondeu.—Anda lá para o fundo da quinta! disse ella. Que sécca! Se o senhor parocho quizesse, aqui adiante póde-se passar. Ha uma abertura no vallado, chamam-lhe osalto da cabra. Póde a gente saltar para o outro lado.E caminhando rente ao silvado, chapinhando a lama, toda alegre:—Quando eu era pequena nunca passava pela cancella, saltava sempre por alli. E cada trambolhão quando o chão estava resvaladiço com a chuva! Era um vivo demonio, aqui onde me vê! Ninguém ha de dizer, senhor parocho, hein? Ai! vou-me a fazer velha!—E voltando-se para elle, com um risinho onde luzia o esmalte dos dentes:—Não é verdade? Estou-me a fazer velha, hein?Elle sorria. Custava-lhe fallar. O sol, batendo-lhe nas costas, depois do vinho do abbade, amollecia-o: e a figura d'ella, os seus hombros, os seus encontros davam-lhe um desejo continuo e intenso.—Aqui está osalto da cabra, disse Amelia parando.Era uma abertura estreita no vallado: a terra do outro lado, mais baixa, estava toda lamacenta. Via-se d'alli a fazenda da S. Joanneira: o campo plano estendia-se até um olival, com a herva fina muito estrellada de pequenos malmequeres brancos; uma vacca preta, de grandes malhas, pastava; e para além viam-se tectos aguçados de casaes onde voavam revoadas de pardaes.—E agora? perguntou Amaro.—Agora saltar, disse ella rindo.—Cá vai! exclamou elle.Traçou a capa, saltou; mas escorregou nas hervas humidas—e immediatamente Amelia, debruçando-se, rindo muito, com grandes acenos de mãos:—E agora adeus, senhor parocho, que eu vou ter com a D. Maria. Ahi fica preso na fazenda. Para cima não póde o senhor pular, pela cancella não póde o senhor passar! É o senhor parocho que está preso...—Ó menina Amelia! ó menina Amelia!Ella cantarolava-lhe, escarnecendo:Fico sósinha á varandaQue o meu bem está na prisão!Aquellas maneirinhas excitavam o padre—e com os braços erguidos, a voz calida:—Salte, salte!Ella então fez voz de mimo:—Ai, tenho medinho! tenho medinho...—Salte, menina!—Lá vai! gritou ella bruscamente.Saltou, foi cahir-lhe sobre o peito com um gritinho. Amaro resvalou, firmou-se—e, sentindo entre os braços o corpo d'ella, apertou-a brutalmente e beijou-a com furor no pescoço.Amelia desprendeu-se, ficou diante d'elle, suffocada, com a face em braza, compondo na cabeça e em roda do pescoço, com as mãos tremulas, as pregas da manta de lã. Amaro disse-lhe:—Ameliasinha!Mas ella de repente apanhou os vestidos, correu ao comprido do vallado. Amaro, com grandes passadas, seguiu-a atarantado. Quando chegou á cancella, Amelia fallava ao caseiro, que apparecia com a chave.Atravessaram o campo junto ao regueiro, depois a rua coberta com a parreira. Amelia adiante palrava com o caseiro; e atraz Amaro, de cabeça baixa, seguia muito murcho. Ao pé da casa Amelia parou, fazendo-se vermelha, compondo sempre a manta em redor do pescoço:—Ó Antonio, disse, ensine o portão ao senhor parocho. Muito boas tardes, senhor parocho.E através das terras humidas correu para o fundo da quinta, para os lados do olival.A snr.aD. Maria da Assumpção ainda lá estava, sentada n'uma pedra, tagarellando com o tio Patricio; um bando de mulheres, com grandes varas, batiam em redor a ramagem das oliveiras.—Que é isso, tonta? D'onde vens tu a correr, rapariga? Credo, que doida!—Vim a correr, disseellatoda vermelha, suffocada.Sentou-se ao pé da velha; e ficou immovel, com as mãos cahídas no regaço, respirando fortemente, os beiços entreabertos, os olhos fixos n'uma abstracção. Todo o seu sêr se abysmava n'uma só sensação:—Gosta de mim! Gosta de mim!Estava ha muito namorada do padre Amaro—e ás vezes, só, no seu quarto, desesperava-se por imaginar que elle não percebia nos seus olhos a confissão do seu amor! Desde os primeiros dias, apenas o ouvia pela manhã pedir de baixo o almoço, sentia uma alegria penetrar todo o seu sêr sem razão, punha-se a cantarolar com uma volubilidade de passaro. Depois via-o um pouco triste. Porquê? Não conhecia o seu passado; e, lembrada do frade d'Evora, pensou que elle se fizera padre por um desgosto d'amor. Idealisou-o então: suppunha-lhe uma natureza muito terna, parecia-lhe que da sua pessoa airosa e pallida se desprendia uma fascinação. Desejou tel-o por confessor: como seria bom estar ajoelhada aos pés d'elle, no confessionario, vendo de perto os seus olhos negros, sentindo a sua voz suave fallar do paraiso! Gostava muito da frescura da sua boca; fazia-se pallida à idéa de o poder abraçar na sua longa batina preta! Quando Amaro sahia, ia ao quarto d'elle, beijava a travesseirinha, guardava os cabellos curtos que tinham ficado nos dentes do pente. As faces abrazavam-se-lhe quando o ouvia tocar a campainha.Se Amaro jantava fóra com o conego Dias estava todo o dia impertinente, ralhava com aRuça, ás vezes mesmo dizia mal d'elle, «que era casmurro, que era tão novo que nem inspirava respeito».Quando elle fallava d'alguma nova confessada, amuava, com um ciume pueril. A sua antiga devoção renascia, cheia de um fervor sentimental: sentia um vago amor physico pela Igreja; desejaria abraçar, com pequeninos beijos demorados, o altar, o orgão, o missal, os santos, o céo, porque não os distinguia bem d'Amaro, e pareciam-lhe dependencias da sua pessoa. Lia o seu livro de missa pensando n'elle como no seu Deus particular. E Amaro não sabia, quando passeava agitado pelo quarto, que ella em cima o escutava, regulando as palpitações do seu coração pelas passadas d'elle, abraçando o travesseiro, toda desfallecida de desejos, dando beijos no ar, onde se lhe representavam os labios do parocho!A tarde cahia quando D. Maria e Amelia voltaram para a cidade. Amelia adiante, calada, chibatava a sua burrinha, emquanto D. Maria da Assumpção vinha palrando com o moço da quinta, que segurava a arreata. Ao passar junto á Sé tocou a Ave-Marias. E Amelia, rezando, não podia destacar os olhos das cantarias da igreja tão grandiosamente erguidas, decerto para que elle alli celebrasse! Lembravam-lhe então domingos em que o vira, ao repicar dos sinos, dar a benção dos degraus do altar-mór; e todos se curvavam, mesmo as senhoras do morgado Carreiro, mesmo a senhora baroneza de Via-Clara e a mulher do governador civil, tão orgulhosa,com o seu nariz de cavallete! Dobravam-se sob os seus dedos erguidos, e achavam decerto tambem bonitos os seus olhos negros! E era elle que a tinha apertado nos braços, ao pé do vallado! Sentia ainda no pescoço a pressão calida dos seus beiços: uma paixão flammejou como uma chamma por todo o seu sêr: largou a arreata do burrinho, apertou as mãos contra o peito, e cerrando os olhos, lançando toda a sua alma n'uma devoção:—Ó Nossa Senhora das Dôres, minha madrinha, faze que elle goste de mim!No adro lageado conegos passeavam, conversando. A botica defronte já tinha luz, os bocaes reluziam; e por detraz da balança a figura do pharmaceutico Carlos, com o seu boné bordado a missanga, movia-se magestosamente.VIIIO padre Amaro voltára para casa aterrado.—E agora? E agora? dizia elle encostado ao canto da janella, sentindo o coração encolhido.Devia sahir immediatamente da casa da S. Joanneira! Não podia continuar alli, na mesma familiaridade, depois de ter tido «aquelle atrevimento com a pequena».Que ella não ficára muito indignada—apenas atordoada; contivera-a talvez o respeito ecclesiastico, a delicadeza para com o hospede, a attenção para com o amigo do conego. Mas podia contar á mãi, ao escrevente... Que escandalo! E via já o senhor chantre, traçando a perna e fitando-o,—que era a sua attitude de reprehensão—dizer-lhe com pompa:—«São esses desregramentos que deshonram o sacerdocio. Não se comportaria d'outro modoum Satyro no monte Olympo!»—Poderiam desterral-o outra vez para alguma freguezia da serra!... Que diria a senhora condessa de Ribamar?E depois, se persistisse em vêl-a na intimidade, ter constantemente presentes aquelles olhos negros, o sorriso calido que lhe fazia uma covinha no queixo, a curva d'aquelle peito—a sua paixão, crescendo surdamente, irritada a toda a hora, recalcada para dentro, tornal-o-hia doido, «podia fazer alguma asneira»!Decidiu-se então a ir fallar ao conego Dias: a sua natureza fraca necessitava sempre receber forças d'uma razão, d'uma experiencia alheia: costumava consultar ordinariamente o conego que, pelo habito da disciplina ecclesiastica, elle julgava mais intelligente por ser seu superior na hierarchia; e não perdera, desde o seminario, a sua dependencia de discipulo. Depois, se quizesse arranjar uma casa e uma criada para ir viver só, necessitava o auxilio do conego, que conhecia Leiria como se a tivesse edificado.Encontrou-o na sala de jantar. O candieiro de azeite esmorecia com um murrão avermelhado. Os tições da brazeira, cobertos d'uma pulverisação de cinza, revermelhavam vagamente. E o conego, sentado n'uma cadeira de braços, com o capote pelos hombros, os pés embrulhados n'um cobertor, amodorrado no calor do lume, com o Breviario sobre os joelhos, dormitava. Na dobra do cobertor, aTrigueiraestirada dormitava como elle.Aos passos de Amaro o conego abriu muito devagar os olhos, rosnou:—Ia adormecendo, hein!—É cedo, disse o padre Amaro. Ainda não tocou a recolher. Então que preguiça é essa?—Ah! é vossê? disse o conego com um enorme bocejo. Cheguei tarde de casa do abbade, tomei uma gota de chá, veio o quebranto... Então que é feito?—Vim por aqui.—Pois o abbade deu-nos um rico jantar. A cabedella estava de mão cheia! Eu carreguei-me um bocado, disse o conego rufando com os dedos na capa do Breviario.Amaro, sentado ao pé d'elle, remexia devagar o brazido:—Sabe vossê, padre-mestre? disse elle de repente. Ia acrescentar:—Aconteceu-me um caso!—Mas reteve-se, murmurou:—Estou hoje exquisito; tenho andado ultimamente fóra dos eixos...-Vossê com effeito anda amarello, disse o conego, considerando-o. Purgue-se, homem!Amaro esteve um momento calado, a olhar o lume.—Sabe? estou com idéa de mudar de casa.O conego ergueu a cabeça, arregalou os olhinhos somnolentos:—Mudar de casa! Ora essa! Porquê?O padre Amaro chegou a cadeira para elle, e fallando baixo:—Vossê percebe... Tenho estado a pensar, éassim exquisito estar em casa de duas mulheres, com uma rapariga...—Ora, historias! Que me vem vossê contar? Vossê é hospede... Deixe-se d'isso, homem! É como quem está na hospedaria.—Não, não, padre-mestre, eu cá me entendo...E suspirou; desejava que o conego o interrogasse, facilitasse as confidencias.—Então só hoje é que pensa n'isso, Amaro?!—É verdade, tenho estado a pensar hoje n'isto. Tenho minhas razões.—Ia a dizer:—Fiz uma tolice,—mas acanhou-se.O conego olhou para elle um momento:—Homem, seja franco!—Sou.—Vossê acha aquillo caro?—Não! disse o outro com uma negação impaciente.—Bem, então é outra coisa...—É. Vossê que quer?—E n'um tom magano, com que julgou agradar ao conego:—A gente tambem gosta do que é bom...—Bem, bem, disse o conego rindo, percebo. Vossê, como eu sou amigo da casa, quer-me dizer por bons modos que tem nojo de tudo aquillo!—Tolice! disse Amaro erguendo-se, irritado de tanta obtusidade.—Oh, homem! exclamou o conego abrindo os braços. Vossê quer sahir da casa? Por alguma é! Ora a mim parece-me que melhor...—É verdade, é verdade, dizia Amaro que dava agora grandes passadas pela sala. Mas estou com esta ferrada! Veja vossê se me arranja uma casita barata com alguma mobilia... Vossê entende melhor d'essas coisas...O conego ficou calado, muito enterrado na poltrona, coçando devagar o queixo.—Uma casita barata... rosnou por fim. Eu verei, eu verei... Talvez.—Vossê comprehende, acudiu vivamente Amaro, chegando-se ao conego. A casa da S. Joanneira...Mas a porta rangeu, D. Josepha Dias entrou: e depois de conversarem sobre o jantar do abbade, o catarrho da pobre D. Maria da Assumpção, a doença de figado que ia minando o engraçado conego Sanches—Amaro sahiu, quasi contente agora de se não «ter desabotoado com o padre-mestre».O conego ficou ainda ao pé do lume, ruminando. Aquella resolução d'Amaro de deixar a casa da S. Joanneira era bem vinda; quando elle o trouxera d'hospede para a rua da Misericordia, combinára com a S. Joanneira diminuir-lhe a mezada que havia annos lhe dava, regularmente, no dia 30. Mas arrependeu-se logo; a S. Joanneira, se não tinha hospede, dormia só no primeiro andar: o conego podia então saborear livremente os carinhos da sua velhota,—e Amelia, na sua alcova, em cima, era alheia a este «conchêgosinho». Quando veio o padre Amaro, a S. Joanneira cedeu-lhe o quarto e dormia n'uma cama de ferro ao pé da filha: e o conego então reconheceu,como elle disse, desconsolado—«que aquelle arranjo tinha estragado tudo». Para gozar as doçuras da sésta com a sua S. Joanneira era necessario que Amelia jantasse fóra, que aRuçaestivesse na fonte, outras combinações importunas; e elle, conego do cabido, na egoista velhice, quando precisava ter recato com a sua saude, via-se obrigado a esperar, a espreitar, a ter nos seus prazeres regulares e hygienicos as difficuldades d'um collegial que ama a senhora professora. Ora se Amaro sahisse, a S. Joanneira descia ao seu quarto, no primeiro andar; vinham as antigas commodidades, as tranquillas séstas. É verdade que tinha de dar a antiga mezada... Daria a mezada!—Que diabo! ao menos está um homem á sua vontade, resumiu elle.—Que está para ahi o mano a fallar só? perguntou a snr.aD. Josepha despertando do quebranto em que ia cahindo, ao pé do lume.—Estava cá a malucar como hei de castigar a carne na quaresma...—disse o conego com um riso grosso.A essa hora aRuçachamava o padre Amaro para o chá: e elle subia devagar, com o coração pequenino, receando encontrar a S. Joanneira muito carrancuda, já informada do insulto. Achou só Amelia—quetendo-lhe sentido os passos na escada tomára rapidamente a costura e, com a cabeça muito baixa, dava grandes agulhadas, vermelha como o lenço que abainhava para o conego.—Muito boa noite, menina Amelia.—Muito boa noite, senhor parocho.Amelia costumava sempre ter umolá!ou umora viva!muito amavel; aquella seccura aterrou-o; disse-lhe logo muito perturbado:—Menina Amelia, eu peço-lhe que me perdôe... Foi um atrevimento... Eu nem soube o que fiz... Mas acredite... Estou resolvido a sahir d'aqui. Até já pedi ao senhor conego Dias que me arranjasse casa...Fallava com o rosto baixo—e não via Amelia erguer os olhos para elle, surprehendida e toda desconsolada.N'este momento a S. Joanneira entrou, e logo da porta, abrindo os braços:—Viva! Então já sei, já sei! Disse-me o senhor padre Natario: grande jantar! Conte lá, conte lá!Amaro teve de dizer os pratos, as pilherias do Libaninho, a discussão theologica; depois fallaram da fazenda: e Amaro desceu, sem se ter atrevido a dizer á S. Joanneira que ia deixar a casa,—o que era, coitada, para a pobre mulher, uma perda de seis tostões por dia!Na manhã seguinte o conego foi a casa d'Amaro, pela manhã, antes d'ir ao côro. O parocho fazia a barba á janella:—Ólá, padre-mestre! Que ha de novo?—Parece-me que se arranja a coisa! E foi por acaso, esta manhã... Ha uma casita lá para os meus lados, que é um achado. Era do major Nunes, que vai mudado para o 5.Aquella precipitação desagradou a Amaro: perguntou, dando desconsoladamente o fio á navalha:—Tem mobilia?—Tem mobilia, tem louças, tem roupas, tem tudo.—Então...—Então é entrar e começar a gozar. E aqui para nós, Amaro, vossê tem razão. Estive a pensar no caso... É melhor para vossê viver só. De modo que vista-se, e vamos vêr a casita.Amaro, calado, rapava a cara com desespero.A casa era na rua das Sousas, d'um andar, muito velha, com a madeira carunchosa: a mobilia, como disse o conego, «podia passar a veteranos»; algumas lithographias desbotadas pendiam lugubremente de grandes prégos negros; e o immundo major Nunes deixára os vidros quebrados, os soalhos todos escarrados, as paredes riscadas de phosphoros, e até sobre um poial da janella duas piugas quasi negras.Amaro aceitou a casa. E n'essa mesma manhã o conego ajustou-lhe uma criada, a snr.aMaria Vicencia, pessoa muito devota, alta e magra como um pinheiro, antiga cozinheira do doutor Godinho. E (como considerou o conego Dias) era a propria irmã da famosa Dionysia!A Dionysia fôra outr'ora aDama das Camelias, a Ninon de Lenclos, a Manon de Leiria: gozára a honra de ser concubina de dois governadores civis e do terrivel morgado da Sertejeira; e as paixões phreneticas que inspirára tinham sido para quasi todas as mães de familia de Leiria causa de lagrimas e de fanicos. Agora engommava para fóra, encarregava-se de empenhar objectos, entendia muito de partos, protegia «o rico adulteriosinho» segundo a singular expressão do velho D. Luiz da Barrosa cognominado oinfame, fornecia lavradeirinhas aos senhores empregados publicos, sabia toda a historia amorosa do districto. E via-se sempre na rua a Dionysia com o seu chale de xadrez traçado, o pesado seio tremendo dentro d'um chambre sujo, o passinho discreto e os antigos sorrisos—mas a que faltavam já os dois dentes de diante.O conego logo n'essa tarde deu parte á S. Joanneira da resolução d'Amaro. Foi um grande espanto para a excellente senhora! Queixou-se, com amargura, da ingratidão do senhor parocho.O conego tossiu grosso e disse:—Escute, senhora. Fui eu que arranjei a coisa. E eu lhe digo porquê: é que este arranjo de quarto em cima, etc., está-me a arrazar a saude.Deu outras razões de prudencia hygienica e acrescentou, passando-lhe com bondade os dedos pelo pescoço:—E o que é perder a conveniencia, não se afflija a senhora! Eu darei p'r'á panella como d'antes;e como a colheita foi boa porei mais meia moeda para os arrebiques da pequena. Ora venha de lá uma beijoca, Augustinha, sua bréjeira! E ouça, hoje como-lhe cá as sopas.Amaro no emtanto em baixo ia emmalando a sua roupa. Mas a cada momento parava, dava umaitriste, ficava a olhar em redor o quarto, a cama fôfa, a mesa com a sua toalha branca, a larga cadeira forrada de chita onde elle lia o Breviario, ouvindo, por cima, cantarolar Amelia.—Nunca mais! pensava. Nunca mais!Adeus as boas manhãs passadas ao pé d'ella, vendo-a costurar! Adeus as alegres sobremesas, que se prolongavam á luz do candieiro! Adeus os chás, ao pé da brazeira, quando o vento uivava fóra e cantavam as frias goteiras! Tudo tinha acabado!A S. Joanneira e o conego appareceram então á porta do quarto. O conego resplandecia; e a S. Joanneira disse, muito magoada:—Já sei, já sei, seu ingrato!—É verdade, minha senhora, fez Amaro encolhendo os hombros tristemente. Mas ha razões... Eu sinto...—Olhe, senhor parocho, disse a S. Joanneira, não se offenda com o que lhe vou dizer, mas eu já lhe queria como filho...—E levou o lenço aos olhos.—Tolices! exclamou o conego. Pois então elle não póde vir aqui em amizade, passar as noites para o cavaco, tomar o seu café?... O homem não vai para o Brazil, senhora!—Pois sim, pois sim, dizia a pobre senhora desconsolada, mas sempre era tel-o de portas a dentro!Emfim, ella bem sabia que a gente na sua casa está muito melhor... Fez-lhe então grandes recommendações sobre a lavadeira, que mandasse buscar o que quizesse, louças, lençoes...—E veja lá não lhe esqueça alguma coisa, senhor parocho!—Muito obrigado, minha senhora, muito obrigado...E, continuando a arrumar a sua roupa, o parocho desesperava-se agora contra a resolução que tomára. A pequena evidentemente não tinha aberto bico! Para que sahiria então d'aquella casa tão barata, tão confortavel, tão amiga? E odiava o conego pelo seu zelo tão precipitado.O jantar foi triste. Amelia, decerto para explicar a sua pallidez, queixava-se de dôres na cabeça. Ao café o conego quiz a sua «dóse de musica»; e Amelia, ou machinalmente ou com intenção, disse a canção querida:Ai! adeos! acabaram-se os diasQue ditoso vivi a teu lado!Sôa a hora, o momento fadado,É forçoso deixar-te e partir!Então, áquella chorosa melodia repassada das tristezas da separação, Amaro sentiu-se tão perturbado que teve de se erguer bruscamente, ir encostar o rosto á vidraça, esconder as duas lagrimas queirreprimivelmente lhe saltavam das palpebras. Os dedos d'Amelia embrulhavam-se tambem no teclado; até a mesma S. Joanneira disse:—Oh filha, toca outra coisa, credo!Mas o conego erguendo-se pesadamente:—Pois senhores, vão sendo horas. Vamos lá, Amaro. Eu vou comsigo até a rua das Sousas...Amaro então quiz dizer adeus á idiota; mas, depois d'um forte accesso de tosse, a velha dormia, muito fraca.—Deixal-a socegada, disse Amaro. E apertando a mão á S. Joanneira:—Muito obrigado por tudo, minha senhora, acredite...Calou-se, com um soluço na garganta.A S. Joanneira tinha levado aos olhos a ponta do seu avental branco.—Oh, senhora! disse o conego rindo-se, já ha bocado lhe disse, o homem não vai p'r'ás Indias!—A gente é pela amizade que lhes ganha... choramingou a S. Joanneira.Amaro tentou gracejar. Amelia, muito branca, mordia o beicinho.Emfim Amaro desceu: e o João Ruço que na sua chegada a Leiria lhe trouxera o bahú para a rua da Misericordia, muito bebedo, cantarolando oBemdito,—levava-lh'o agora para a rua das Sousas, bebedo tambem, mas trauteando oRei-chegou.Quando Amaro, n'essa noite, se viu só n'aquella casa tristonha, sentiu uma melancolia tão pungente e um tedio tão negro da vida, que, com a sua natureza lassa, teve vontade de se encolher a um canto e ficar alli a morrer!Parava no meio do quarto, punha-se a olhar em redor: a cama era de ferro, pequena, com um colchão duro e uma coberta vermelha; o espelho com o aço gasto luzia sobre a mesa; como não havia lavatorio, a bacia e o jarro, com um bocadinho de sabonete, estavam sobre o poial da janella; tudo alli cheirava a môfo; e fóra, na rua negra, cahia sem cessar a chuva triste. Que existencia! E seria sempre assim!...Desesperou-se então contra Amelia: accusou-a, com o punho fechado, das commodidades que perdera, da falta de mobilia, da despeza que ia ter, da solidão que o regelava! Se fosse mulher de coração devia ter vindo ao seu quarto e dizer-lhe: «Senhor padre Amaro, para que sae de casa? Eu não estou zangada!» Porque emfim quem irritára o seu desejo? Ella, com as suas maneirinhas ternas, os seus olhinhos adocicados! Mas não, deixára-o emmalar a roupa, descer a escada, sem uma palavra amiga, indo tocar com estrondo a valsa doBeijo!Jurou então não voltar a casa da S. Joanneira. E, a grandes passadas pelo quarto, pensara no que havia de fazer para humilhar Amelia. O quê? Desprezal-acomo uma cadella! Ganhar influencia na sociedade devota de Leiria, ser muito do senhor chantre; afastar da rua da Misericordia o conego e as Gansosos; intrigar com as senhoras da boa roda para que se afastassem d'ella, com seccura, no altar-mór, á missa do domingo; dar a entender que a mãi era uma prostituta... Enterral-a! cobril-a de lama! E na Sé, ao sahir da missa, regalar-se de a vêr passar encolhida no seu mantelete preto, escorraçada de todos, emquanto elle, á porta, de proposito, conversaria com a mulher do senhor governador civil e seria galante com a baroneza de Via-Clara!... Depois prégaria um grande sermão, na quaresma, e ella ouviria dizer, na arcada, nas lojas: «Grande homem, o padre Amaro!» Tornar-se-hia ambicioso, intrigaria e, protegido pela senhora condessa de Ribamar, subiria nas dignidades ecclesiasticas: e o que pensaria ella quando o visse um dia bispo de Leiria, pallido e interessante na sua mitra toda dourada, passando, seguido dos incensadores, ao longo da nave da Sé, entre um povo ajoelhado e penitente, sob os roucos cantos do orgão? E ella o que seria então? Uma magra creatura murcha, embrulhada n'um chale barato! E o snr. João Eduardo, o escolhido d'agora, o esposo? Seria um pobre amanuense mal pago, com uma quinzena roçada, os dedos queimados do cigarro, curvado sobre o seu papel almasso, imperceptivel na terra, adulando alto e invejando baixo! E elle, bispo, na vasta escadaria hierarchica que sobe até ao céo, estaria já muito para cima dos homens,na zona de luz que faz a face de Deus-Padre!—E seria par do reino, e os padres da sua diocese tremeriam de o vêr franzir a testa!Na igreja, ao lado, bateram devagar dez horas.Que faria ella áquella hora? pensava. Costurava decerto, na sala de jantar: estava o escrevente: jogavam a bisca, riam—ella roçava-lhe talvez com o pé, no escuro, debaixo da mesa! Recordou o seu pé, o bocadinho da meia que vira quando ella saltava as lamas na quinta; e essa curiosidade inflammada subia pela curva da perna até ao seio, percorrendo bellezas que suspeitava... O que elle gostava d'aquella maldita! E era impossivel obtel-a! E todo o homem feio e estupido podia ir á rua da Misericordia pedil-a á mãi, vir á Sé dizer-lhe: «Senhor parocho, case-me com esta mulher», e beijar, sob a protecção da Igreja e do Estado, aquelles braços e aquelle peito! Elle não. Era padre! Fôra aquella infernal pêga da marqueza d'Alegros!...Abominava então todo o mundo secular—por lhe ter perdido para sempre os privilegios: e, como o sacerdocio o excluia da participação nos prazeres humanos e sociaes, refugiava-se, em compensação, na idéa da superioridade espiritual que elle lhe dava sobre os homens. Aquelle miseravel escrevente podia casar e possuir a rapariga—mas que era elle em comparação d'um parocho a quem Deus conferira o poder supremo de distribuir o céo e o inferno?...—E repastava-se d'este sentimento, enchendo o espirito d'orgulhos sacerdotaes. Mas vinha-lhebem depressa a desconsoladora idéa que esse dominio só era valido na região abstracta das almas; nunca o poderia manifestar, por actos triumphantes, em plena sociedade. Era um Deus dentro da Sé—mas, apenas sahia para o largo, era apenas um plebeu obscuro. Um mundo irreligioso reduzira toda a acção sacerdotal a uma mesquinha influencia sobre almas de beatas... E era isto que lamentava, esta diminuição social da Igreja, esta mutilação do poder ecclesiastico, limitado ao espiritual, sem direito sobre o corpo, a vida e a riqueza dos homens... O que lhe faltava era a auctoridade dos tempos em que a Igreja era a nação e o parocho dono temporal do rebanho. Que lhe importava, no seu caso, o direito mystico d'abrir ou fechar as portas do céo? O que elle queria era o velho direito d'abrir ou fechar a porta das masmorras! Necessitava que os escreventes e as Amelias tremessem da sombra da sua batina... Desejaria ser um sacerdote da antiga Igreja, gozar das vantagens que dá a denuncia e dos terrores que inspira o carrasco, e alli n'aquella villa, sob a jurisdicção da sua Sé, fazer estremecer, á idéa de castigos torturantes, aquelles que aspirassem a realisar felicidades—que lhe eram a elle interdictas: e pensando em João Eduardo e em Amelia, lamentava não poder accender as fogueiras da Inquisição!—Assim aquelle inoffensivo moço tinha durante horas, sob a excitação colerica d'uma paixão contrariada, ambições grandiosas de tyrannia catholica:—porque todo o padre, o mais boçal, tem um momento em que é penetradopelo espirito da Igreja ou nos seus lances de renunciamento mystico ou nas suas ambições de dominação universal: todo o sub-diacono se julga uma hora capaz de ser santo ou de ser Papa: não ha seminarista que não tenha, durante um instante, aspirado com ternura á caverna no deserto em que S. Jeronymo, olhando o céo estrellado, sentia descer-lhe sobre o peito a Graça como um abundante rio de leite: e o abbade pansudo que á tardinha, á varanda, palita o dente furado saboreando o seu café com um ar paterno, traz dentro em si os indistinctos restos d'um Torquemada.A vida d'Amaro tornou-se monotona. Março ia muito molhado, muito frio; e, depois do serviço na Sé, Amaro entrava em casa, tirava as botas enlameadas, ficava em chinelas a aborrecer-se. Ás tres horas jantava; e nunca levantava a tampa rachada da terrina sem se lembrar, com uma saudade pungente, do jantarinho na rua da Misericordia, quando Amelia, com o seu collar muito branco, lhe passava a sopa de grãos de bico, sorrindo, toda carinhosa. Ao lado a Vicencia servia, têsa e enorme, com o seu corpo de soldado vestido de saias, sempre constipada; e de vez em quando, desviando a cabeça, assoava-se ao avental com ruido. Era muito suja: as facas tinham o cabo humido da agua gordurosa das lavagens. Amaro, desgostoso e indifferente,não se queixava; comia mal, á pressa; mandava vir o café, e ficava horas esquecidas sentado á mesa, quebrando a cinza do cigarro na borda do prato, perdido n'um tedio mudo, sentindo os pés e os joelhos frios do vento que entrava pelas frinchas da sala desabrigada.Ás vezes o coadjutor, que nunca o visitára na rua da Misericordia, apparecia ao fim do jantar: sentava-se arredado da mesa, e ficava calado, com o seu guardachuva entre os joelhos. Depois, julgando agradar ao parocho, repetia, invariavelmente:—Vossa senhoria aqui está melhor, sempre é estar em sua casa.—Está claro... rosnava Amaro.Ao principio, para consolar o seu despeito, dizia ligeiramente mal da S. Joanneira, provocando, animando o coadjutor (que era de Leiria) a contar os escandalos da rua da Misericordia. O coadjutor, por servilismo, tinha sorrisos mudos, repassados de perfidia.—Alli ha pôdres, hein? dizia o parocho.O outro encolhia os hombros, com as mãos muito espalmadas ao pé das orelhas, n'uma expressão de malicia; mas não pronunciava um som, receando que as suas palavras, repetidas, escandalisassem o senhor conego. Ficavam então soturnos, trocando, a espaços, phrases molles: um baptisado que havia; o que dissera o conego Campos; um frontal do altar que era necessario limpar. Aquella conversa enfastiava Amaro: sentia-se muito pouco padre, muitodistante da panellinha ecclesiastica: não o interessavam as intriguinhas do cabido, as parcialidades tão commentadas do senhor chantre, os roubos da Misericordia, as turras da camara ecclesiastica com o governo civil; e achava-se sempre alheio, mal informado, nas palestras ecclesiasticas em que tão femininamente se deleitam os padres, e que têm a puerilidade d'uma caturrice e a tortuosidade d'uma conspiração.—O vento está sul? perguntava elle emfim, bocejando.—Sempre! respondia o coadjutor.Accendia-se a luz; o coadjutor erguia-se, sacudia o guardachuva, e sahia com um olhar de revez á Vicencia.Era aquella a peor hora, a da noite, quando ficava só. Procurava lêr, mas os livros enfastiavam-n'o: deshabituado da leitura não comprehendia «o sentido». Ia olhar á vidraça: a noite estava tenebrosa, o lagedo reluzia vagamente. Quando acabaria aquella vida? Accendia o cigarro, e do lavatorio para a janella recomeçava os seus passeios, com as mãos atraz das costas. Deitava-se sem rezar ás vezes: e não tinha escrupulos: julgava que ter renunciado a Amelia era já uma penitencia, não necessitava cansar-se a lêr orações no livro; celebrára o «seu sacrificio»—sentia-se vagamente quite com o céo!E continuava a viver só: o conego nunca vinha á rua das Sousas, «porque, dizia, era casa que só o entrar n'ella até se lhe agoniava o estomago». EAmaro, cada dia mais amuado, não voltára a casa da S. Joanneira. Escandalisára-se muito que ella não lhe tivesse mandado pedir para ir ás partidas da sexta-feira; attribuira «a desfeita» á hostilidade d'Amelia; e, mesmo para a não vêr, trocára com o padre Silveira a missa do meio-dia onde ella costumava ir, e dizia a das nove horas, furioso com aquelle novo sacrificio!Todas as noites Amelia, ao ouvir tocar a campainha, tinha uma palpitação tão forte no coração que ficava como suffocada um momento. Depois os botins de João Eduardo rangiam na escada, ou ella conhecia os passos fôfos das galochas das Gansosos: apoiava-se então às costas da cadeira, cerrando os olhos, como na fadiga d'uma desesperança repetida. Esperava o padre Amaro; e ás vezes, pelas dez horas, quando já não era possível que elle viesse, a sua melancolia era tão pungente que se lhe entumecia a garganta de soluços, tinha de pousar a costura, dizer:—Vou-me deitar, estou com umas dôres de cabeça que não paro!Atirava-se para a cama de bruços, murmurava n'uma agonia:—Oh Senhora das Dôres, minha madrinha! porque não vem elle, porque não vem elle?Nos primeiros dias, apenas elle se fôra embora,toda a casa lhe pareceu deshabitada e lugubre! Quando vira no quarto d'elle os cabides sem a sua roupa, a commoda sem os seus livros, rompeu a chorar. Foi beijar a travesseirinha onde elle dormia, apertou ao peito com delirio a ultima toalha a que elle limpára as mãos! Tinha constantemente o seu rosto presente, elle entrava sempre nos seus sonhos. E com a separação o seu amor ardia mais forte e mais alto, como uma fogueira que se isola.Uma tarde, que fôra visitar uma prima enfermeira no hospital, viu ao chegar á ponte gente parada, embasbacada com gozo para uma rapariga de cuia á banda egaribaldiescarlate, que, de punho no ar, já rouca, praguejava contra um soldado: o rapazola, um beirão de cara redonda e lorpa coberta de pennugem loura, virava-lhe as costas, encolhendo os hombros, as mãos muito enterradas nos bolsos, rosnando:—Não lhe fez mal, não lhe fez mal...O snr. Vasques, com loja de panos na Arcada, parára a olhar, descontente d'aquella «falta d'ordem publica».—Algum barulho? perguntou-lhe Amelia.—Olá, menina Amelia! Não, uma brincadeira do soldado. Atirou-lhe um rato morto á cara, e a mulher está a fazer aquelle espalhafato. Bebedas!Mas a rapariga degaribaldivermelha voltára-se—e Amelia aterrada reconheceu a Joanninha Gomes, sua amiga da mestra, que fôra amante do padre Abilio! O padre fôra suspenso, deixára-a; ella partirapara Pombal, depois para o Porto; de miseria em miseria voltára a Leiria, e ahi vivia n'alguma viella ao pé do quartel, entisicando, gasta por todo um regimento!—Que exemplo, santo Deus, que exemplo!E tambem ella gostava d'um padre! Tambem ella, como outr'ora a Joanninha, chorava sobre a sua costura quando o senhor padre Amaro não vinha! Onde a levava aquella paixão? Á sorte da Joanninha! A ser aamiga do parocho! E via-se já apontada a dedo, na rua e na Arcada, mais tarde abandonada por elle, com um filho nas entranhas, sem um pedaço de pão!... E, como uma rajada de vento que limpa n'um momento um céo ennevoado, o terror agudo que lhe dera o encontro de Joanninha varreu-lhe do espirito as nevoas amorosas e morbidas em que ella se ia perdendo. Decidiu aproveitar a separação, esquecer Amaro: lembrou-se mesmo de apressar o seu casamento com João Eduardo para se refugiar n'um dever dominante; durante alguns dias forçou-se a interessar-se por elle; começou mesmo a bordar-lhe umas chinelas...Mas pouco a pouco aidéa máque, atacada, se encolhera e se fingira morta,—principiou lentamente a desenroscar-se, a subir, a invadil-a! De dia, de noite, costurando e rezando, a idéa do padre Amaro, os seus olhos, a sua voz appareciam-lhe, tentações teimosas! com um encanto crescente. Que faria elle? porque não vinha? gostava d'outra? Tinha ciumes indefinidos, mas mordentes, que a queimavam. E aquella paixão ia-a envolvendo como uma atmospherad'onde não podia sahir, que a seguia se ella fugia, e que a fazia viver! As suas resoluções honestas resequiam-se, morriam como debeis florinhas n'aquelle fogo que a percorria. Se ás vezes a lembrança de Joanninha ainda voltava, repellia-a com irritação; e acolhia alvoroçadamente todas as razões insensatas que lhe vinham de amar o padre Amaro! Tinha agora só uma idéa:—atirar-lhe os braços ao pescoço e beijal-o... oh! beijal-o! Depois, se fosse necessario, morrer!Começou então a impacientar-se com o amor de João Eduardo. Achava-o «palerma».—Que massada! pensava quando lhe sentia os passos na escada, á noite.Não o supportava com os seus olhos voltados sempre para ella, a sua quinzena preta, as suas monotonas conversas sobre o governo civil.E idealisava Amaro! As suas noites eram sacudidas de sonhos lubricos; de dia vivia n'uma inquietação de ciumes, com melancolias lugubres, que a tornavam, como dizia a mãi, «uma môna, que até enraivece»!O genio azedava-se-lhe.—Credo, rapariga! que tens tu? exclamava a mãi.—Não me sinto boa. Estou para ter alguma!Andava, com effeito, amarella, perdera o appetite. E emfim uma manhã ficou de cama com febre. A mãi, assustada, chamou o doutor Gouvêa. O velho pratico, depois de vêr Amelia, veio à sala de jantar sorvendo com satisfação a sua pitada.—Então, senhor doutor? disse a S. Joanneira.—Case-me esta rapariga, S. Joanneira, case-me esta rapariga. Tenho-lh'o dito tantas vezes, creatura!—Mas, senhor doutor...—Mas case-a por uma vez, S. Joanneira, case-a por uma vez! repetia elle pelas escadas, arrastando um pouco a perna direita que um rheumatismo teimoso encolhia.Amelia emfim melhorou—com grande alegria de João Eduardo, que emquanto ella estivera doente vivera n'uma afflicção, lamentando não poder ser seu enfermeiro, e derramando ás vezes no cartorio uma lagrima triste sobre os papeis sellados do severo Nunes Ferral.No domingo seguinte, á missa das nove horas na Sé, Amaro, ao subir para o altar, entre as devotas que se arredavam viu de relance Amelia ao pé da mãi, com o seu vestido de sêda preta de largos folhos. Cerrou um momento os olhos; e mal podia sustentar o calix com as mãos tremulas.Quando, depois de resmungar o Evangelho, Amaro fez uma cruz sobre o missal, se persignou e se voltou para a igreja dizendoDominus vobiscum—a mulher do Carlos da botica disse baixo a Amelia «que o senhor parocho estava tão amarello, que devia ter alguma dôr». Amelia não respondeu, curvada sobre o livro, com todo o sangue nas faces. Edurante a missa, sentada sobre os calcanhares, absorta, a face banhada n'um extase baboso, gozou a sua presença, as suas mãos magras erguendo a hostia, a sua cabeça bem feita curvando-se na adoração ritual; uma doçura corria-lhe na pelle quando a voz d'elle, apressada, dizia mais alto algum latim: e quando Amaro, tendo a mão esquerda no peito e a direita estendida, disse para a igreja oBenedicat vos, ella, com os olhos muito abertos, arremessou toda a sua alma para o altar, como se elle fosse o proprio Deus a cuja benção as cabeças se curvavam ao comprido da Sé, até ao fundo, onde os homens do campo com os seus varapaus pasmavam para os dourados do sacrario.Á sahida da missa começára a chover; e Amelia e a mãi, á porta com outras senhoras, esperavam uma «aberta».—Ólá! por aqui!? disse de repente Amaro, chegando-se, muito branco.—Estamos á espera que passe a chuva, senhor parocho, disse a S. Joanneira voltando-se. E immediatamente, muito reprehensiva:—E porque não tem apparecido, senhor parocho? Realmente! Que lhe fizemos nós? Credo, até dá que fallar...—Muito occupado, muito occupado... balbuciou o parocho.—Mas um bocadinho á noite. Olhe, póde crêr, tem-me causado desgosto... E todos têm reparado. Não, lá isso, senhor parocho, tem sido ingratidão!Amaro disse, córando:—Pois acabou-se. Hoje á noite lá appareço, e estão as pazes feitas ...Amelia, muito vermelha, para encobrir a sua perturbação olhava para todos os pontos o céo carregado, como assustada do temporal.Amaro então offereceu-lhe o seu guardachuva. E emquanto a S. Joanneira o abria, apanhando com cuidado o vestido de sêda, Amelia disse ao parocho:—Até á noite, sim?—E mais baixo, olhando em redor, com medo:—Oh, vá! Tenho estado tão triste! tenho estado como doida! Vá, peço-lh'o eu!Amaro, voltando para casa, continha-se para não correr de batina pelas ruas. Entrou no quarto, sentou-se aos pés da cama, e alli ficou saturado de felicidade, como um pardal muito farto n'um raio de sol muito quente: recordava o rosto d'Amelia, a redondeza dos seus hombros, a belleza dos encontros, as palavras que lhe dissera:—Tenho estado como doida!A certeza de que «a rapariga gostava d'elle» entrou-lhe então na alma com a violencia de uma rajada, e ficou a susurrar por todos os recantos do seu sêr com um murmurio melodioso de felicidades agitadas. E passeava pelo quarto com passadas de covado, estendendo os braços, desejando a posse immediata do seu corpo: sentia um orgulho prodigioso: ia defronte do espelho altear a arca do peito, como se o mundo fosse um pedestal expresso que só o sustentasse a elle! Mal pôde jantar. Com que impaciencia desejava a noite! A tarde clareára;a cada momento tirava o seu «cebolão» de prata, indo olhar á janella, com irritação, a claridade do dia que se arrastava devagar no horisonte. Engraxou elle mesmo os seus sapatos, lustrou o cabello de banha. E antes de sahir rezou cuidadosamente o seu Breviario—porque, em presença d'aquelle amor adquirido, viera-lhe um susto supersticioso que Deus ou os santos escandalisados o viessem perturbar: e não queria, com desleixos de devoção,dar-lhes razão de queixa.Ao entrar na rua d'Amelia o coração bateu-lhe tão forte que teve de parar, suffocado; e pareceu-lhe melodioso o piar das corujas na velha Misericordia, que ha tantas semanas não ouvia.Que admiração quando elle appareceu na sala de jantar!—Ditosos olhos que o vêem! Pensavamos que tinha morrido! Grande milagre!...Estava a snr.aD. Maria da Assumpção, as Gansosos. Arredaram as cadeiras com enthusiasmo para lhe dar logar, admiral-o.—Então que tem feito, que tem feito? E olhe que está mais magro!O Libaninho, no meio da sala, imitava foguetes subindo ao ar. O snr. Arthur Couceiro improvisou-lhe umfadinhoá viola:

—Passarinho trigueiro,Salta cá fóra...

—Tem as azas quebradas,Não póde agora...

Fico sósinha á varandaQue o meu bem está na prisão!

Ai! adeos! acabaram-se os diasQue ditoso vivi a teu lado!Sôa a hora, o momento fadado,É forçoso deixar-te e partir!


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