XVI

E as senhoras, em alarido, arremetteram para a cozinha. A mesma S. Joanneira as seguiu, como boa dona de casa, para fiscalisar a fogueira.Os tres padres então, sós, olharam-se—e riram.—As mulheres têm o diabo no corpo, disse o conego philosophicamente.—Não senhor, padre-mestre, não senhor, acudiu logo Natario fazendo-se sério. Eu rio porque a coisa, assim vista, parece patusca. Mas o sentimento é bom. Prova a verdadeira devoção ao sacerdocio, horror á impiedade... Emfim o sentimento é excellente.—O sentimento é excellente, confirmou Amaro, tambem sério.O conego ergueu-se:—E é que se pilhassem o homem eram capazes de o queimar... Não lh'o digo a brincar, que a manatem figados para isso... É um Torquemada de saias...—Está na verdade, está na verdade, affirmou Natario.—Eu não resisto a ir vêr a execução! exclamou o conego. Eu quero vêr com os meus olhos!E os tres padres então foram até á porta da cozinha. As senhoras lá estavam, em pé diante da lareira, batidas da luz violenta da fogueira que fazia destacar estranhamente as mantas d'agasalho de que já se tinham coberto. ARuça, de joelhos, soprava esfalfada. Tinham cortado com o facão a encardernação doPanorama; e as folhas retorcidas e negras, com um faiscar de fagulhas, voavam pela chaminé nas linguas do fogo claro. Só a luva de pellica não se consumia. Debalde com as tenazes a punham no vivo da chamma: tisnava, reduzida a um caroço engorolado; mas não ardia. E a sua resistencia aterrava as senhoras.—É que é a da mão direita com que commetteu o desacato! dizia furiosa D. Maria da Assumpção.—Bufa-lhe, rapariga, bufa-lhe! aconselhava da porta o conego muito divertido.—O mano faz favor de não troçar com coisas sérias! gritou D. Josepha.—Oh, mana! a senhora quer saber melhor que um sacerdote como é que se queima um impio? A pretenção não está má! É bufar-lhe, é bufar-lhe!Então, confiadas na sciencia do senhor conego, a Gansoso e D. Maria da Assumpção, acocoradas, bufaramtambem. As outras olhavam, n'um sorriso mudo, o olho brilhante e cruel, no gozo d'aquella exterminação grata a Nosso Senhor. O fogo estalava, pulando com uma força galharda, na gloria da sua antiga funcção de purificador dos peccados.—E por fim sobre as achas em braza, nada restou doPanorama, do lenço e da luva do impio.A essa hora João Eduardo, o impio, no seu quarto, sentado aos pés da cama, soluçava, com a face banhada em lagrimas, pensando em Amelia, nos bons serões da rua da Misericordia, na cidade para onde iria, na roupa que empenharia, e perguntando em vão a si mesmo porque o tratavam assim, elle que era tão trabalhador, que não queria mal a ninguem, e que a adorava tanto, a ella?XVINo domingo seguinte havia missa cantada na Sé, e a S. Joanneira e Amelia atravessaram a Praça para ir buscar D. Maria da Assumpção, que em dias de mercado e de «populacho» nunca sahia só, receosa que lhe roubassem as joias ou lhe insultassem a castidade.N'essa manhã, com effeito, a affluencia das freguezias enchia a Praça: os homens em grupo, atravancando a rua, muito sérios, muito barbeados, de jaqueta ao hombro; as mulheres aos pares, com uma fortuna de grilhões e de corações d'ouro sobre peitos pejados; nas lojas, os caixeiros azafamavam-se por traz dos balcões alastrados de lençaria e de chitas; nas tabernas apinhadas gralhava-se alto; pelo mercado, entre os saccos de farinha, os montões delouça, os cestos de brôa, ia um regatear sem fim; havia multidão ao pé das tendas onde reluzem os espelhinhos redondos e transbordam os mólhos de rosarios; velhas faziam pregão por traz dos seus taboleiros de cavacas; e os pobres, afreguezados á cidade, choramingavam Padre-nossos pelas esquinas.Já senhoras passavam para a missa, todas em sêdas, de rostinho sisudo; e a Arcada estava cheia de cavalheiros, têsos nos seus fatos de casimira nova, fumando caro, gozando o domingo.Amelia foi muito olhada: o filho do recebedor, um atrevido, disse mesmo alto d'um grupo:Ai, que me leva o coração!E as duas senhoras, apressando-se, dobravam para a rua do Correio, quando lhes appareceu o Libaninho de luvas pretas e cravo ao peito. Não as tinha visto desde «o desacato do largo da Sé», e rompeu logo em exclamações. Ai, filhas, que desgosto aquelle! O malvado do escrevente! Elle tinha tido tanto que fazer, que só n'essa manhã é que pudera ir ao senhor parocho dar-lhe os sentimentos; o santinho recebera-o muito bem, estava-se a vestir; elle quiz-lhe vêr o braço e felizmente, louvores a Deus, nem uma pisadura... E se ellas vissem, que carnadura tão delicada, que pelle tão branca... Uma pellinha d'archanjo!—Mas querem vossês saber, filhas? Encontrei-o n'uma grande afflicção!As duas senhoras assustaram-se. Porquê, Libaninho?A criada, a Vicencia, que havia dias se queixava,tinha ido n'essa madrugada para o hospital com um febrão...—E alli está o pobre santo sem criada, sem nada! Vejam vossês! Para hoje bem, que vai jantar com o nosso conego (tambem lá estive, ai, que santo!), mas ámanhã, mas depois? Que elle já tem em casa a irmã da Vicencia, a Dionysia... Mas, oh, filhas, a Dionysia! Foi o que eu lhe disse: a Dionysia póde ser uma santa, mas que reputação!... É que não ha peor em Leiria... Uma perdida que não põe os pés na igreja... Tenho a certeza que o senhor chantre até havia de reprovar!As duas senhoras concordaram logo que a Dionysia (mulher que não cumpria os preceitos, que representára em theatros de curiosos) não convinha ao senhor parocho...—Olha, S. Joanneira, disse Libaninho, sabes o que lhe convinha? Eu lá lh'o disse, lá lhe fiz a proposta. É ferrar-se outra vez em tua casa. Que é onde está bem, com gente que o acarinha, que lhe trata da roupa, que lhe sabe os gostos, e onde tudo é virtude! Elle não disse quenãonem quesim. Mas olha que se lhe podia lêr na cara que está a morrer por isso... Tu é que lhe devias fallar, S. Joanneirinha!Amelia fizera-se tão escarlate como a sua gravata de sêda da India. E a S. Joanneira disse ambiguamente:—Fallar-lhe não... Eu n'essas coisas sou muito delicada... Bem comprehendes...—Era como teres um santo de portas a dentro, filha! disse com calor o Libaninho. Lembra-te d'isso! E era um gosto para todos... Tenho a certeza que até Nosso Senhor se havia d'alegrar... E agora adeus, pequenas, que vou de fugida. Não vos demoreis, que está a missinha a cahir.As duas senhoras continuaram caladas até casa de D. Maria da Assumpção. Nenhuma queria arriscar primeiro uma palavra sobre aquella possibilidade tão inesperada, tão grave, do senhor parocho voltar para a rua da Misericordia! Foi só quando pararam que a S. Joanneira disse, ao puxar à campainha:—Ai, o senhor parocho realmente não póde ter a Dionysia de portas a dentro...—Credo, até causa horror!Foi tambem a expressão da snr.aD. Maria da Assumpção quando lhe contaram, em cima, a doença da Vicencia e a installação da Dionysia: causava horror!—Que eu não a conheço, disse a excellente senhora. E tenho até vontade de a conhecer. Que me dizem que é dos pés à cabeça uma crosta de peccado!A S. Joanneira então fallou da «proposta do Libaninho». D. Maria da Assumpção declarou logo com ardor que era uma inspiração de Nosso Senhor. Que nunca o senhor parocho devia ter sahido da rua da Misericordia! Até parece que mal elle se fôra embora, Deus retirára a sua graça da casa... Não houvera senão desgostos—oCommunicado, a dôr de estomago do conego, a morte da entrevadinha, aquelledesgraçado casamento (que estivera por umtriz, que horror!), o escandalo do largo da Sé... A casa tinha parecido enguiçada!... E era até peccado deixar viver o santinho n'aquelle desarranjo, com a suja da Vicencia, que nem lhe sabia dar uma passagem nas meias!—Em parte nenhuma póde estar melhor que em tua casa... Tem tudo o que necessita, de portas a dentro... E para ti é uma honra, é estar em graça. Olha, filha, se eu não fosse só, sempre o digo, quem o hospedava era eu! Que aqui é que elle estava bem... Que salinha para elle, hein?Riam-se-lhe os olhos, contemplando em redor as suas preciosidades.A sala com effeito era toda ella uma immensa armazenagem de santaria e debric-à-bracdevoto: sobre as duas commodas de pau preto com fechaduras de cobre apinhavam-se, sob redomas, em peanhas, as Nossas Senhoras vestidas de sêda azul, os Meninos Jesus frizados com o ventresinho gordo e a mão abençoadora, os Santo Antonios no seu burel, os S. Sebastiões bem fréchados, os S. Josés barbudos. Havia santos exoticos, que eram o seu orgulho, que lhe fabricavam em Alcobaça—S. Paschoal Baylão, S. Didacio, S. Chrisolo, S. Gorislano... Depois eram os bentinhos, os rosarios de metal e de caroços d'azeitonas, contas de côres, rendas amarellas d'antigas alvas, corações de vidro escarlate, almofadinhas com J. M. entrelaçados a missanga, ramos bentos, palmas de martyres, cartuchinhos d'incenso.As paredes desappareciam forradas de estampas de Virgens de todas as devoções,—equilibradas sobre o orbe, enrodilhadas aos pés da cruz, trespassadas d'espadas. Corações d'onde gotejava sangue, corações d'onde sahia uma fogueira, corações d'onde dardejavam raios: orações encaixilhadas para as festas particularmente amadas—oCasamento de Nossa Senhora, aInvenção da Santa Cruz, osEstigmas de S. Francisco, sobretudo oParto da Santa Virgem, a mais devota, que vem pelas quatro temporas. Sobre as mesas lamparinas accêsas, para serem collocadas sem demora aos santos especiaes, quando a boa senhora tivesse a sua sciatica, ou que o catarrho se assanhasse, ou lhe viessem as caimbras. Ella mesma, só ella, arrumava, espanejava, lustrava toda aquella santa população celeste, aquelle arsenal beato, que era apenas sufficiente para a salvação da sua alma e o allivio dos seus achaques. O seu grande cuidado era a collocação dos santos; alterava-a constantemente, porque ás vezes, por exemplo, sentia que Santo Eleuterio não gostava d'estar ao pé de S. Justino, e ia então pendural-o a distancia, n'uma companhia mais sympathica ao santo. E distinguia-os (segundo os preceitos do ritual que o confessor lhe explicava), dando-lhes uma devoção graduada, e não tendo por S. José de segunda classe o respeito que sentia por S. José de primeira classe. Aquella riqueza era a inveja das amigas, a edificação dos curiosos, e fazia sempre dizer ao Libaninho, quando avinha visitar, abrangendo a sala n'um olhar langoroso:—Ai, filha, é o reininho dos céos!—Não é verdade, continuava a excellente senhora radiante, que elle aqui é que estava bem, o santinho do parocho? É como ter o céo debaixo da mão!As duas senhoras concordaram. Ella podia ter a sua casa arranjada com devoção, ella que era rica...—Não o nego, tenho aqui empregadinhos alguns centos de mil reis. Sem contar o que está no relicario...Ah, o famoso relicario de sandalo forrado de setim! Tinha lá uma lascasinha da verdadeira Cruz, um bocado quebrado do espinho da Corôa, um farrapinho do cueiro do Menino Jesus. E murmurava-se com azedume, entre as devotas, que coisas tão preciosas, d'origem divina, deviam estar no sacrario da Sé. D. Maria da Assumpção, temendo que o senhor chantre soubesse d'aquelle thesouro seraphico, só o mostrava ás intimas, mysteriosamente. E o santo sacerdote, que lh'o obtivera, fizera-a jurar sobre o Evangelho de não revelar a procedencia «para evitar fallatorios».A S. Joanneira, como sempre, admirou sobretudo o farrapinho do cueiro.—Que reliquia, que reliquia! murmurava.E D. Maria da Assumpção muito baixo:—Não ha melhor. Trinta mil reis me custou... Mas dava sessenta, mas dava cem! mas dava tudo!—E babando-se toda, diante do trapinho precioso:—Ocueirinho! dizia quasi a chorar. Meu rico Menino, o seu cueirinho...Deu-lhe um beijo muito repenicado, e foi fechar o relicario no gavetão.Mas o meio dia ia bater—e as tres senhoras apressaram-se para a Sé, para pilhar logar no altar-mór.Já no largo encontraram D. Josepha Dias, que se precipitava para a igreja, sôfrega da missa, com o mantelete descahido sobre o hombro e uma pluma do chapéo a despregar-se. Tinha estado toda a manhã n'um phrenesi com a criada! Fôra necessario fazer ella todos os preparos para o jantar... Ai, tinha medo que nem a missinha lhe dêsse virtude, de nervosa que estava...—Que temos lá o senhor parocho hoje... Vossês sabem que adoeceu a criada... Ah, já me esquecia, o mano quer que tu lá vás jantar tambem, Amelia. Diz que é para haverem duas damas e dois cavalheiros...Amelia riu d'alegria.—E tu vai depois buscal-a, S. Joanneira, á noitinha... Credo, vesti-me tanto á pressa, que até parece que me está a cahir o saiote!Quando as quatro senhoras entraram, a igreja estava já cheia. Era uma missa cantada ao Santissimo. E apesar de contrario ao rigor do ritual, por um costume diocesano (que o bom Silverio, muito estricto na liturgia, nunca cessava de reprovar) havia, estando presente a Eucharistia, musica de rebeca, violoncelloe flauta. O altar, muito ornado, com as reliquias expostas, destacava n'uma alvura festiva; docel, frontal, paramentos dos missaes eram brancos, com relevos d'ouro desmaiado; nos vasos erguiam-se ramos pyramidaes de flôres e folhagens brancas; os velludilhos decorativos, dispostos como velarios, punham dos dois lados do tabernaculo a brancura de duas vastas azas desdobradas, lembrando a Pomba Espiritual; e os vinte castiçaes erguiam as suas chammas amarellas em throno até ao sacrario aberto, que mostrava d'alto, engastada n'um rebrilhar d'ouros vivos, a hostia redonda e baça. Por toda a igreja apinhada corria uma susurração lenta; aqui e além um catarrho expectorava, uma criança choramigava; o ar adensava-se já dos halitos juntos e d'um cheiro d'incenso; e do côro, onde as figuras dos musicos se moviam por traz dos braços dos rebecões e das estantes, vinha a cada momento um afinar gemido de rebeca, ou um pio de flautim. As quatro amigas tinham-se apenas accommodado junto do altar-mór, quando os dois acolythos, um têso como um pinheiro, o outro gordalhufo e enxovalhado, entraram do lado da sacristia, sustentando alto e direito nas mãos os dois castiçaes consagrados; atraz o Pimenta vesgo, com uma sobrepelliz muito vasta para elle, lançando os seus sapatões em passadas pomposas, trazia o incensador de prata; depois successivamente, durante o rumor do ajoelhar pela nave e do folhear dos livrinhos, appareceram os dois diaconos; e emfim, paramentado de branco,d'olhos baixos e mãos postas, com aquelle recolhimento humilde que pede o ritual e que exprime a mansidão de Jesus marchando ao Calvario, entrou o padre Amaro—ainda vermelho da questão furiosa que tivera na sacristia, antes de se revestir, por causa da lavagem das alvas.E o côro immediatamente atacou oIntroito.Amelia passou a sua missa embebecida, pasmada para o parocho—que era, como dizia o conego, «um grande artista para missas cantadas»; todo o cabido, todas as senhoras o reconheciam. Que dignidade, que cavalheirismo nas saudações ceremoniosas aos diaconos! Como se prostrava bem diante do altar, aniquilado e escravisado, sentindo-se cinza, sentindo-se pó diante de Deus, que assiste de perto, cercado da sua côrte e da sua familia celeste! Mas era sobretudo admiravel nas bençãos; passava devagar as mãos sobre o altar como para apanhar, recolher a graça que alli cahia do Christo presente, e atirava-a depois com um gesto largo de caridade por toda a nave, por sobre o estendal de lenços brancos de cabeça, até ao fundo onde os homens do campo muito apertados, de varapau na mão, pasmavam para a scintillação do sacrario! Era então que Amelia o amava mais, pensando que aquellas mãos abençoadoras lh'as apertava ella com paixão por baixo da mesa do quino: aquella voz, com que elle lhe chamavafilhinha, recitava agora as orações ineffaveis, e parecia-lhe melhor que o gemer das rebecas, revolvia-a mais que os graves do orgão! Imaginava com orgulho que todas as senhoras decerto o admiravam tambem; mas só tinha ciumes, um ciume de devota que sente os encantos do céo, quando elle ficava diante do altar, na posição extatica que manda o ritual, tão immovel como se a sua alma se tivesse remontado longe, para as alturas, para o Eterno e para o Insensivel. Preferia-o, por o sentir mais humano e mais accessivel, quando, durante oKirieou a leitura da Epistola, elle se sentava com os diaconos no banco de damasco vermelho; ella queria então attrahir-lhe um olhar; mas o senhor parocho permanecia de olhos baixos n'uma compostura modesta.Amelia, sentada sobre os calcanhares, com a face banhada n'um sorriso, admirava-lhe o perfil, a cabeça bem feita, os paramentos dourados—e lembrava-se quando o vira a primeira vez descendo a escada da rua da Misericordia, com o seu cigarro na mão. Que romance se passára desde essa noite! Recordava o Morenal, o salto do vallado, a scena da morte da titi, aquelle beijo ao pé da lareira... Ai, como acabaria tudo aquillo? Queria então rezar; folheava o livro, mas vinha-lhe á idéa o que o Libaninho n'essa manhã dissera: «o senhor parocho tinha uma pellesinha tão branca como um archanjo...» Devia-a ter decerto muito delicada, muito tenra... Um desejo intenso queimava-a: imaginava que era uma tentadora visitação do demonio,—e para a repellir arregalavaos olhos para o sacrario e para o throno que o padre Amaro, cercado dos diaconos, incensava em semi-circulos significando a Eternidade dos Louvores, emquanto o côro berrava oOffertorio... Depois elle mesmo, de pé, no segundo degrau do altar, de mãos postas, foi incensado; o Pimenta vesgo fazia ranger galhardamente as correntes de prata do thurifero; um perfume d'incenso derramava-se, como uma annunciação celeste; ennevoava-se o sacrario sob os rolos alvos de fumo; e o parocho apparecia a Amelia transfigurado, quasi divinisado!... Oh, adorava-o então!A igreja tremia ao clamor do orgão em pleno; de bocas abertas, os coristas solfejavam a toda a força; em cima, alçando-se entre os braços dos rebecões, o mestre da capella, no fogo da execução, brandia desesperadamente a sua batuta feita d'um rolo de canto-chão.Amelia sahiu da igreja muito fatigada, muito pallida.Ao jantar, em casa do conego, a snr.aD. Josepha censurou-a repetidamente de «não dar palavra».Não fallava, mas debaixo da mesa o seu pésinho não cessava de roçar, pisar o do padre Amaro. Como escurecera cedo tinham accendido as velas; o conego abrira uma garrafa, não do seu famosoduquede 1815, mas do «1847», para acompanhar atravessa d'aletria, que enchia o centro da mesa, com as iniciaes do parocho desenhadas a canella; era, como explicára o conego, «uma galanteria da mana ao convidado». Amaro fizera logo uma saude com o 1847 «á digna dona da casa». Ella resplandecia, medonha no seu vestido de bareje verde. O que sentia é que o jantar fosse tão mau... Que aquella Gertrudes estáva-se a fazer uma desleixada... Ia-lhe deixando esturrar o pato com macarrão!—Oh, minha senhora, estava delicioso! protestou o parocho.—São favores do senhor parocho. É porque eu lhe acudi a tempo... Mais uma colhérzinha d'aletria, senhor parocho.—Nada mais, minha senhora, tenho a minha conta.—Então para desgastar, vá mais esse copito do 47, disse o conego.Elle mesmo bebeu pausadamente um bom gole, deu umahde satisfação, e repoltreando-se:—Boa gota! Assim póde-se viver!Estava já rubro, e parecia mais obeso, com o seu grosso jaquetão de flanella e o guardanapo atado ao pescoço.—Boa gota! repetiu, d'este não provou hoje vossê nas galhetas...—Credo, mano! exclamou D. Josepha com a boca cheia de fios d'aletria, muito escandalisada da irreverencia.O conego encolheu os hombros com desprezo.—O credo é p'r'á missa! Esta pretenção de se metter sempre em questões que não percebe! Pois fique sabendo que é d'uma grande importancia a questão da qualidade do vinho, na missa. É que é necessario que o vinho seja bom...—Concorre para a dignidade do santo sacrificio, disse o parocho muito sério, fazendo uma caricia de joelho a Amelia.—E não é só isso, disse o conego tomando logo o tom pedagogo. É que o vinho, quando não é bom e tem ingredientes, deixa um deposito nas galhetas; e, se o sacristão não é cuidadoso e não as limpa, as galhetas ganham um cheiro pessimo. E sabe a senhora o que acontece? Acontece que o sacerdote, quando vai a beber o sangue de Nosso Senhor Jesus Christo, não está prevenido e faz-lhe uma careta. Ora ahi tem a senhora!E deu um forte chupão ao calix. Mas estava fallador n'essa noite, e depois d'arrotar devagar, interpellou de novo D. Josepha, assombrada de tanta sciencia.—E diga-me lá então a senhora, já que é tão doutora: o vinho, no divino sacrificio, deve ser branco ou tinto?D. Josepha parecia-lhe que devia ser tinto, para se parecer mais com o sangue de Nosso Senhor.—Emende a menina, mugiu o conego de dedo em riste para Amelia.Ella recusou-se, com um risinho. Como não era sacristão, não sabia...—Emende o senhor parocho!Amaro galhofou. Se era erro ser tinto, então devia ser branco...—E porquê?Amaro ouvira dizer que era o costume em Roma.—E porque? continuava o conego, pedante e roncão.Não sabia.—Porque Nosso Senhor Jesus Christo, quando pela primeira vez consagrou, fel-o com vinho branco. E a razão é muito simples: é porque na Judéa n'esse tempo, como é notorio, não se fabricava vinho tinto... Repita-me a senhora a aletria, faça favor.Então, a proposito do vinho e da limpeza das galhetas, o padre Amaro queixou-se do Bento sacristão. N'essa manhã antes de se paramentar—justamente quando entrára o senhor conego na sacristia—acabava de lhe dar uma desanda a respeito das alvas. Em primeiro logar dava-as a lavar a uma Antonia que vivia amancebada com um carpinteiro, em grande escandalo, e que era indigna de tocar os paramentos santos. Esta era a primeira. Depois, a mulher trazia-as tão enxovalhadas que era um desacato usal-as no divino sacrificio...—Ai, mande-m'as a mim, senhor parocho, mande-m'as a mim, acudiu D. Josepha. Dou-as á minha lavadeira, que é pessoa de muita virtude e traz a roupa escarolada. Ai, até era uma honra para mim! Eu mesmo as passava a ferro, e até se podia benzer o ferro...Mas o conego (que positivamente estava n'aquella noite d'uma loquacidade copiosa) interrompeu-a, e voltando-se para o padre Amaro, fixando-o profundamente:—Ora a proposito de eu entrar na sacristia, sempre lhe quero dizer, amigo e collega, que commetteu hoje um erro de palmatoria.Amaro pareceu inquieto.—Que erro, padre-mestre?—Depois de se revestir, continuou o conego pausadamente, já com os diaconos ao lado, quando fez a cortezia á imagem da sacristia, em logar de fazer a cortezia profunda, fez só a meia cortezia.—Alto lá, padre-mestre! exclamou o padre Amaro. É o texto da rubrica.Facta reverentia cruci, feita a reverencia á cruz: isto é, a reverencia simples, abaixar ligeiramente a cabeça...E, paraexemplificar, fez uma cortezia a D. Josepha que lhe sorriu toda, torcendo-se.—Nego! exclamou formidavelmente o conego que em sua casa, á sua mesa, punha d'alto as suas opiniões. E nego com os meus auctores. Elles ahi vão!—E deixou-lhe cahir em cima, como penedos d'autoridade, os nomes venerados de Laboranti, Baldeschi, Merati, Turrino e Pavonio.Amaro afastára a cadeira, puzera-se em attitude de controversia, contente de poder, diante d'Amelia, «enterrar» o conego, mestre de theologia moral e um colosso de liturgia pratica.—Sustento, exclamou, sustento com Castaldus...—Alto, ladrão, bramiu o conego, Castaldus é meu!—Castaldus é meu, padre-mestre!E encarniçaram-se, puxando cada um para si o veneravel Castaldus e a auctoridade da sua facundia. D. Josepha pulava de gozo na cadeira, murmurando para Amelia com a cara franzida de riso:—Ai, que gostinho vêl-os! Ai, que santos!Amaro continuava, com o gesto alto:—E além d'isso tenho por mim o bom-senso, padre-mestre.Primò, a rubrica, como expuz.Secundò, o sacerdote, tendo na sacristia o barrete nacabeça, não deve fazer cortezia inteira, porque lhe póde cahir o barrete e temos desacato maior.Tertiò, seguir-se-hia um absurdo, porque então a cortezia antes da missa á cruz da sacristia seria maior que a que se faz depois da missa á cruz do altar!—Mas a cortezia á cruz do altar... bradou o conego.—É meia cortezia. Leia a rubrica:Caput inclinat. Leia Gavantus, leia Garriffaldi. E nem podia deixar de ser assim! Sabe porquê? Porque depois da missa o sacerdote está no auge da dignidade, uma vez que tem dentro em si o corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Christo. Logo, o ponto é meu!E de pé, esfregou vivamente as mãos, triumphando.O conego abatera a papeira sobre as pregas do guardanapo, como um boi atordoado. E depois d'um momento:—Vossê não deixa de ter razão... Eu foi para o ouvir... Faz-me honra cá o discipulo, acrescentou piscando o olho a Amelia. Pois é beber, é beber! E depois salta o cafésinho bem quente, mana Josepha!Mas um forte repique á campainha sobresaltou-os.—É a S. Joanneira, disse D. Josepha.A Gertrudes entrou com um chale e uma manta de lã:—Aqui está isto que vem de casa da menina Amelia. A senhora manda muitos recados, que não póde vir, que se achou incommodada.—Então com quem hei de eu ir? disse logo Amelia, inquieta.O conego estendeu o braço sobre a mesa, e dando-lhe uma palmadinha na mão:—Em ultimo caso com este seu criado. E essa virtudesinha podia ir socegada...—Tem coisas, mano! gritou a velha.—Deixe lá, mana. O que passa pela boca d'um santo, santo fica.O parocho approvou ruidosamente:—Tem muita razão o senhor conego Dias! O que passa pela pela boca d'um santo, santo fica! Para que viva!—Á sua!E tocaram os copos, com um olho gaiato, reconciliados da controversia.Mas Amelia ficára assustada.—Jesus, que terá a mamã! Que será?—Ora o que ha de ser! preguiça! disse-lhe o parocho, rindo.—Não te agonies, filha, disse D. Josepha. Vou-te eu levar, vamos todos levar-te...—Vai a menina em charola, rosnou o conego descascando a sua pêra.Mas de repente pousou a faca, arregalou os olhos em redor, e passando a mão pelo estomago:—Pois olhem, disse, não me estou tambem a sentir bem...—Que é? que é?—Um ameaçosito da dôr. Passou, não vale nada.D. Josepha, já assustada, não queria que elle comesse a pêra. Que a ultima vez que lhe dera fôra por causa da fructa...Mas elle, obstinado, cravou os dentes na pêra.—Passou, passou, rosnava.—Foi sympathia com a mamã, disse o parocho baixo a Amelia.De repente o conego afastou a cadeira, e torcendo-se de lado:—Não estou bem, não estou bem! Jesus! Oh, diabo! Oh, caramba! Ai! ai! morro!Alvoroçaram-se em volta d'elle. D. Josepha amparou-o pelo braço até ao quarto, gritando á criada que fosse buscar o doutor. Amelia correu á cozinha a aquecer uma flanella para lhe pôr no estomago. Mas não apparecia flanella. Gertrudes topava contra as cadeiras, espavorida, á procura do seu chale para sahir.—Vá sem chale, sua estupida! gritou-lhe Amaro.A rapariga abalou. Dentro o conego dava urros.Amaro então, realmente assustado, entrou-lhe no quarto. D. Josepha de joelhos diante da commoda gemia orações a uma grande lithographia de Nossa Senhora das Dôres; e o pobre padre-mestre, estirado de barriga sobre a cama, rilhava o travesseiro.—Mas, minha senhora, disse o parocho severamente, não se trata agora de rezar. É necessario fazer-lhe alguma coisa... Que se lhe costuma fazer?—Ai, senhor parocho, não ha nada, não ha nada, choramingou a velha. É uma dôr que vem e vai n'um momento. Não dá tempo p'ra nada! Um chá de tilia allivia-o ás vezes... Mas por desgraça hoje nem tilia tenho! Ai, Jesus!Amaro correu a casa a buscar tilia. E d'ahi a pouco voltava esbaforido com a Dionysia, que vinha offerecer a sua actividade e a sua experiencia.Mas o senhor conego, felizmente, sentira-se de repente alliviado!—Muito agradecida, senhor parocho, dizia D. Josepha. Rica tilia! É de muita caridade. Elle agora naturalmente cae em somnolencia. Vem-lhe sempre depois da dôr... Eu vou para ao pé d'elle, desculpem-me... Esta foi peor que as outras... São estas fructas mald...—Reteve a blasphemia, aterrada.—São as fructas de Nosso Senhor. É a sua divina vontade... Desculpem-me, sim?Amelia e o parocho ficaram sós na sala. Os seus olhares reluziram logo do desejo de se tocar, de sebeijar, mas as portas estavam abertas; e sentiam no quarto, ao lado, as chinelas da velha. O padre Amaro disse então alto:—Pobre padre-mestre! É uma dôr terrivel.—Dá-lhe todos os tres mezes, disse Amelia. A mamã já andava com o presentimento. Ainda me tinha dito antes d'hontem: é o tempo da dôr do senhor conego, estou com mais cuidado...O parocho suspirou, e baixinho:—Eu é que não tenho quem pense nas minhas dôres...Amelia pousou n'elle longamente os seus bellos olhos humedecidos de ternura:—Não diga isso...As suas mãos iam apertar-se ardentemente por sobre a mesa; mas D. Josepha appareceu, encolhida no seu chale. O mano tinha adormecido. E ella estava que não se podia ter nas pernas. Ai, aquelles abalos arrazavam-lhe a saude! Accendera duas velas a S. Joaquim e fizera uma promessa a Nossa Senhora da Saude. Era a segunda aquelle anno, por causa da dôr do mano. E Nossa Senhora não lhe tinha faltado...—Nunca falta a quem a implora com fé, minha senhora, disse com unção o padre Amaro.O alto relogio d'armario bateu então cavamente oito horas. Amelia fallou outra vez no cuidado em que estava pela mamã... Demais a mais ia-se a fazer tão tarde...—E é que quando eu sahi estava a choviscar, disse Amaro.Amelia correu á janella, inquieta. O lagedo defronte, debaixo do candieiro, reluzia muito molhado. O céo estava tenebroso.—Jesus, vamos ter uma noite d'agua!D. Josepha estava afflicta com o contratempo; mas a Amelia bem via, ella agora não podia despegar de casa; a Gertrudes fôra ao doutor; naturalmente não o encontrára, andava a procural-o de casa em casa, quem sabe quando viria...O parocho então lembrou que a Dionysia (que viera com elle e esperava na cozinha) podia ir acompanhar a snr.aD. Amelia. Eram dois passos, não havia ninguem pelas ruas. Elle mesmo iria com ellas até á esquina da Praça... Mas deviam apressar-se, que ia cahir agua!D. Josepha foi logo buscar um guardachuva para Amelia. Recommendou-lhe muito que contasse á mamã o que tinha succedido. Mas que não se affligisse ella, que o mano estava melhor...—E olha! gritou-lhe ainda de cima da escada, dize-lhe que se fez tudo o que se pôde, mas que a dôr não deu tempo para nada!—Sim, lá direi. Boa noite.Ao abrirem a porta a chuva cahia grossa. Amelia então quiz esperar. Mas o parocho, apressado, puxou-a pelo braço:—Não vale nada, não vale nada!Desceram a rua deserta, aconchegados debaixo do guardachuva, com a Dionysia ao lado, muito calada, de chale pela cabeça. Todas as janellas estavam apagadas; no silencio as goteiras cantavam d'enxurrão.—Jesus, que noite! disse Amelia. Vai-se-me a perder o vestido.Estavam então na rua das Sousas.—É que agora cae a cantaros, disse Amaro. Realmente parece-me que o melhor é entrar no pateo de minha casa e esperar um bocado...—Não, não! acudiu Amelia.—Tolices! exclamou elle impaciente. Vai-se-lhe estragar o vestido... É um instante, é um aguaceiro. Para aquelle lado, vê, está a alliviar. Vai passar... É uma tolice... A mamã, se a visse apparecer debaixo d'uma carga d'agua, zangava-se, e com razão!—Não, não!Mas Amaro parou, abriu rapidamente a porta, e empurrando Amelia de leve:—É um instante, vai passar, entre...E alli ficaram, calados, no pateo escuro, olhando as cordas d'agua que reluziam á luz do candieiro defronte. Amelia estava toda atarantada. A negrura do pateo e o silencio assustavam-n'a; mas parecia-lhe delicioso estar assim n'aquella escuridão, ao pé d'elle, ignorada de todos... Insensivelmente attrahida, roçava-se-lhe pelo hombro; e recuava logo, inquieta de ouvir a sua respiração tão agitada, de o sentirtão junto das saias. Percebia por traz, sem a vêr, a escada que levava ao quarto d'elle; e tinha um desejo immenso de lhe ir vêr acima os seus moveis, os seus arranjos... A presença da Dionysia, encolhida contra a porta e muito calada, embaraçava-a; todavia a cada momento voltava os olhos para ella, receando que desapparecesse, se sumisse na negrura do pateo ou da noite...Amaro então começou a bater com os pés no chão, a esfregar as mãos, arripiado.—Estamos aqui a apanhar alguma, dizia. As lages estão regeladas... Realmente era melhor esperar em cima na sala de jantar...—Não, não! disse ella.—Pieguices! Até a mamã se havia de zangar... Vá, Dionysia, accenda luz em cima.A matrona immediatamente galgou os degraus.Elle então, muito baixo, tomando o braço d'Amelia:—Porque não? Que pensas tu? É uma pieguice. É emquanto não passa o aguaceiro. Dize...Ella não respondia, respirando muito forte. Amaro pousou-lhe a mão sobre o hombro, sobre o peito, apertando-lh'o, acariciando a sêda. Toda ella estremeceu. E foi-o emfim seguindo pela escada, como tonta, com as orelhas a arder, tropeçando a cada degrau na roda do vestido.—Entra p'r'áhi, é o quarto, disse-lhe elle ao ouvido.Correu á cozinha. Dionysia accendia a vela.—Minha Dionysia, tu percebes... Eu fiquei de confessar aqui a menina Amelia. É um caso muito sério... Volta d'aqui a meia hora. Toma.—Metteu-lhe tres placas na mão.A Dionysia descalçou os sapatos, desceu em pontas de pés e fechou-se na loja do carvão.Elle voltou ao quarto com a luz. Amelia lá estava, immovel, toda pallida. O parocho fechou a porta—e foi para ella, calado, com os dentes cerrados, soprando como um touro.Meia hora depois Dionysia tossiu na escada. Amelia desceu logo, muito embrulhada na manta: ao abrirem a porta do pateo passavam na rua dois borrachos galrando: Amelia recuou rapidamente para o escuro. Mas Dionysia d'ahi a pouco espreitou; e vendo a rua deserta:—Está a barra livre, minha rica menina...Amelia embrulhou mais o rosto e apressaram o passo para a rua da Misericordia. Já não chovia; havia estrellas; e uma frialdade sêcca annunciava o norte e o bom tempo.XVIIAo outro dia Amaro, vendo no relogio que tinha á cabeceira que ia chegando a hora da missa, saltou alegremente da cama. E, enfiando o velho paletot que lhe servia de robe-de-chambre, pensava n'essa outra manhã em Feirão em que acordára aterrado por ter na vespera, pela primeira vez depois de padre, peccado brutalmente sobre a palha da estrebaria da residencia com a Joanna Vaqueira. E não se atrevera a dizer missa com aquelle crime na alma, que o abafava com um peso de penedo. Considerára-se contaminado, immundo, maduro para o inferno, segundo todos os santos padres e o seraphico concilio de Trento. Tres vezes chegára á porta da igreja, tres vezes recuára assombrado. Tinha a certeza de que, se ousasse tocar na Eucharistia comaquellas mãos com que repanhára os saiotes da Vaqueira, a capella se aluiría sobre elle, ou ficaria paralysado vendo erguer-se diante do sacrario, d'espada alta, a figura rutilante de S. Miguel Vingador! Montára a cavallo e trotára duas horas, pelos barreiros de D. João, para ir á Gralheira confessar-se ao bom abbade Sequeira... Ah! Era nos seus tempos de innocencia, de exagerações piedosas e de terrores noviços! Agora tinha aberto os olhos em redor á realidade humana. Abbades, conegos, cardeaes e monsenhores não peccavam sobre a palha da estrebaria, não—era em alcovas commodas, com a ceia ao lado. E as igrejas não se aluiam, e S. Miguel Vingador não abandonava por tão pouco os confortos do céo!Não era isso o que o inquietava—o que o inquietava era a Dionysia, que elle ouvia na cozinha, arrumando e tossicando, sem se atrever a pedir-lhe agua para a barba. Desagradava-lhe sentir aquella matrona introduzida, installada no seu segredo. Não duvidava decerto da sua discrição, era o seuofficio; e algumas meias libras manteriam a sua fidelidade. Mas repugnava ao seu pudor de padre saber que aquella velha concubina de auctoridades civis e militares, que rolára a sua massa de gordura por todas as torpezas seculares da cidade, conhecia as suas fragilidades, as concupiscencias que lhe ardiam sob a batina de parocho. Preferiria que fosse o Silverio ou Natario que o tivesse visto na vespera, todo inflammado: era entre sacerdotes, ao menos!...E o que o incommodava era a idéa de ser observado por aquelles olhinhos cynicos, que não se impressionavam nem com a austeridade das batinas nem com a respeitabilidade dos uniformes, porque sabiam que por baixo estava igualmente a mesma miseria bestial da carne...—Acabou-se, pensou, dou-lhe uma libra e imponho-a.Nós de dedos bateram discretamente à porta do quarto.—Entre! disse Amaro sentando-se logo, curvando-se vivamente sobre a mesa, como absorvido, abysmado nos seus papeis.A Dionysia entrou, pousou o pucaro da agua sobre o lavatorio, tossiu, e fallando sobre as costas d'Amaro:—Ó senhor parocho, olhe que isto assim não tem geito. Hontem iam vendo sahir daqui a pequena. É muito sério, menino... Para bem de todos é necessario segredo!Não, não a podia impôr! A mulher estabelecia-se, à força, na sua confidencia. Aquellas palavras mesmo, murmuradas com medo das paredes, revelando uma prudencia de officio, mostravam-lhe a vantagem d'uma cumplicidade tão experiente.Voltou-se na cadeira, muito vermelho.—Iam vendo, hein?—Iam vendo. Eram dois bebedos... Mas podiam ser dois cavalheiros.—É verdade.—E na sua posição, senhor parocho, na posição da pequena!... Tudo se deve fazer pelo calado... Nem os moveis do quarto devem saber! Em coisas que eu protejo, exijo tanta cautela como se se tratasse de morte!Amaro então decidiu-se bruscamente a aceitar aprotecçãoda Dionysia.Rebuscou n'um canto da gaveta, metteu-lhe meia libra na mão.—Seja pelo amor de Deus, filho, murmurou ella.—Bem; e agora, Dionysia, que lhe parece? perguntou elle recostado na cadeira, esperando os conselhos da matrona.Ella disse muito naturalmente, sem affectação de mysterio ou de malicia:—A mim parece-me que para vêr a pequena não ha como a casa do sineiro!—A casa do sineiro!?Ella recordou-lhe, muito tranquillamente, a excellente disposição do sitio. Um dos quartos ao pé da sacristia, como elle sabia, dava para um pateo onde se tinha feito um barracão no tempo das obras. Pois bem, justamente do outro lado eram as trazeiras da casa do sineiro... A porta da cozinha do tio Esguelhas abria para o pateo: era sahir da sacristia, atravessal-o, e o senhor parocho estava no ninho!—E ella?—Ella entra pela porta do sineiro, pela porta da rua que dá para o adro. Não passa viva alma, éum ermo. E se alguem visse, nada mais natural, era a menina Amelia que ia dar um recado ao sineiro... Isto, já se vê, é ainda pelo alto, que o plano póde-se aperfeiçoar...—Sim, comprehendo, é um esboço, disse Amaro que passeava pelo quarto reflectindo.—Eu conheço bem o sitio, senhor parocho, e creia o que lhe digo: para um senhor ecclesiastico que tem o seu arranjinho, não ha melhor que a casa do sineiro!Amaro parou diante d'ella, rindo, familiarisando-se:—Ó tia Dionysia, diga lá com franqueza: não é a primeira vez que vossê aconselha a casa do sineiro, hein?Ella então negou, muito decisivamente. Era homem que nem conhecia, o tio Esguelhas! Mas tinha-lhe vindo aquella idéa de noite, a malucar na cama. Pela manhã cedo fôra examinar o sitio, e reconhecera que estava a calhar.Tossicou, foi-se aproximando sem ruido da porta; e voltando-se ainda, com um ultimo conselho:—Tudo está em que vossa senhoria se entenda bem com o sineiro.Era isso agora o que preoccupava o padre Amaro.O tio Esguelhas passava na Sé, entre os serventes e os sacristães, por ummacambusio. Tinha umaperna cortada e usava muleta: e alguns sacerdotes, que desejariam o emprego para os seus protegidos, sustentavam mesmo que aquelle defeito o tornava, segundo a Regra, improprio para o serviço da Igreja. Mas o antigo parocho José Migueis, em obediencia ao senhor bispo, conservára-o na Sé, argumentando que o trambolhão desastroso que motivára a amputação fôra na torre, n'uma occasião de festa, collaborando no culto:ergoestava claramente indicada a intenção de Nosso Senhor em não prescindir do tio Esguelhas. E quando Amaro tomára conta da parochia, o côxo valera-se da influencia da S. Joanneira e d'Amelia para conservar, como elle dizia, acorda do sino. Era além d'isso (e fôra a opinião da rua da Misericordia) uma obra de caridade. O tio Esguelhas, viuvo, tinha uma filha de quinze annos paralytica, desde pequena, das pernas. «O diabo embirrou com as pernas da familia», costumava dizer o tio Esguelhas. Era decerto esta desgraça que lhe dava uma tristeza taciturna. Contava-se que a rapariga (cujo nome era Antonia, e que o pai chamava Tótó) o torturava com perrices, phrenesis, caprichos abominaveis. O doutor Gouvêa declarára-ahysterica: mas era uma certeza, para as pessoas de bons principios, que a Tótó estavapossuida do Demonio. Houvera mesmo o plano de a exorcismar: o senhor vigario geral, porém, sempre assustado com a imprensa, hesitára em conceder a permissão ritual, e tinham-lhe feito apenas, sem resultado, as aspersões simples de agua benta. De resto não se sabia a natureza doendemoninhamentoda paralytica: a snr.aD. Maria da Assumpção ouvira dizer que consistia em uivar como um lobo; a Gansosinho, em outra versão, assegurava que a desgraçada se dilacerava com as unhas... O tio Esguelhas, esse, quando lhe perguntavam pela rapariga, respondia sêccamente:—Lá está.Os intervallos do seu serviço da igreja passava-os todos com a filha no casebre. Só atravessava o largo para ir á botica por algum remedio, ou comprar bolos á confeitaria da Thereza. Todo o dia aquelle recanto da Sé, o pateo, o barracão, o alto muro ao lado coberto de parietarias, a casa ao fundo com a sua janella de portada negra n'uma parede lazeirenta, permaneciam n'um silencio, n'uma sombra humida: e os meninos do côro, que ás vezes se arriscavam a ir pé-ante-pé, pelo pateo, espreitar o tio Esguelhas, viam-no invariavelmente curvado á lareira, com o cachimbo na mão, cuspilhando tristemente para as cinzas.Costumava todos os dias respeitosamente ouvir a missa do senhor parocho. E Amaro, n'essa manhã, ao revestir-se, sentindo-lhe nas lageas do pateo a muleta, ia já ruminando a sua historia—porque não podia pedir ao tio Esguelhas o uso do seu casebre sem explicar, d'algum modo, que o desejava para um serviço religioso... E que serviço, a não ser preparar, em segredo e longe das opposições mundanas, alguma alma terna para o convento e para a santidade?Ao vêl-o entrar na sacristia, deu-lhe logo uns«bons dias» amaveis. Achou-lhe uma bella cara de saude! Tambem não admirava—porque, segundo todos os santos padres, a frequentação dos sinos, pela virtude particular que lhes communica a consagração, dão uma alegria e um bem-estar especiaes. Contou então com bonhomia ao tio Esguelhas e aos dois sacristães que, quando era pequeno, em casa da senhora marqueza d'Alegros, o seu grande desejo era ser um dia sineiro...Riram muito, extasiando-se com a pilheria de sua senhoria.—Não se riam, é verdade. E não me ficava mal... N'outros tempos eram clerigos d'ordens menores que tocavam os sinos. Os nossos santos padres consideram-n'os um dos meios mais efficazes da piedade. Lá disse a glosa pondo o verso na bôca do sino:


Back to IndexNext