XVIII

Laudo Deum, populum voco, congrego clerum.Defunctum ploro, pestem fugo, festa decoro...O que quer dizer, como sabem:Louvo a Deus, chamo o povo, congrego o clero, choro os mortos, afugento as pestes, alegro as festas.Citava a glosa com respeito, já revestido d'amicto e alva, no meio da sacristia; e o tio Esguelhas impertigava-se sobre a sua muleta áquellas palavras que lhe davam uma auctoridade e uma importancia imprevista.O sacristão tinha-se aproximado com a casularôxa. Mas Amaro não terminára a glorificação dos sinos;—explicou ainda a sua grande virtude em dissipar as tempestades (apesar do que dizem alguns sabios presumpçosos), não só porque communicam ao ar a unção que recebem da benção, mas porque dispersam os demonios que erram entre os vendavaes e os trovões. O santo concilio de Milão recommenda que se toquem os sinos sempre que haja tormenta...—Em todo o caso, tio Esguelhas, acrescentou sorrindo com solicitude pelo sineiro, aconselho-lhe que n'esses casos é melhor não se arriscar. Sempre é estar no alto, e perto da trovoada... Vamos a isso, tio Mathias.E recebeu sobre os hombros a casula, murmurando com muita compostura:-Domine, quis dixisti jugum meum... Aperte mais os cordões por traz, tio Mathias.Suave est, et onus meum leve...Fez uma cortezia á imagem e entrou na igreja, na attitude da rubrica, d'olhos baixos e corpo direito; emquanto o Mathias, depois de ter tambem saudado com um raspão de pé o Christo da sacristia, se apressava com as galhetas, tossindo forte para clarear a garganta.Durante toda a missa, ao voltar-se para a nave, noOffertorioe aoOrate fratres, o padre Amaro dirigia-se sempre (por uma benevolencia que o ritual permitte) para o sineiro, como se o Sacrificio fosse por sua intenção particular;—e o tio Esguelhas, coma sua muleta pousada ao lado, abysmava-se então n'uma devoção mais respeitosa. Mesmo aoBenedicat, depois de ter começado a benção voltado para o altar para recolher do Deus vivo o deposito da Misericordia, terminou-a, virando-se devagar para o tio Esguelhas especialmente, como para lhe dar a elle só as Graças e Dons de Nosso Senhor!—E agora, tio Esguelhas, disse-lhe baixo ao entrar na sacristia, vá-me esperar ao pateo que temos que conversar.Não tardou a vir ter com elle, com uma face grave que impressionou o sineiro.—Cubra-se, cubra-se, tio Esguelhas. Pois eu venho fallar-lhe d'um caso sério... Verdadeiramente pedir-lhe um favor...—Oh, senhor parocho!Não, não era um favor... Porque, quando se tratava do serviço de Deus, todos tinham o dever de concorrer na proporção das suas forças... Tratava-se d'uma menina que se queria fazer freira. Emfim, para lhe provar a confiança que tinha n'elle, ia-lhe dizer o nome...—É a Ameliasinha da S. Joanneira!—Que me diz, senhor parocho?!—Uma vocação, tio Esguelhas! Vê-se o dedo de Deus! É extraordinario...Contou-lhe então uma historia diffusa que ia forjando laboriosamente, segundo as sensações que imaginava vêr na face pasmada do sineiro. A rapariga desgostára-se da vida, com as desavenças que tiveracom o noivo. Mas a mãi, que estava velha, que a necessitava para o governo da casa, não queria consentir, suppondo que era uma velleidade... Mas não, era vocação... Elle sabia-o... Infelizmente, quando havia opposição, a conducta do sacerdote era muito delicada... Todos os dias os jornaes impios (e infelizmente era a maioria!) gritavam contra as influencias do clero... As auctoridades, mais impias que os jornaes, punham obstaculos... Havia leis terriveis... Se soubessem que elle andava a instruir a menina para professar, ferravam-no na cadeia! Que queria o tio Esguelhas?... Impiedade, alheismo do tempo! Ora, elle necessitava ter com a pequena muitas e muitas conferencias: para a experimentar, para conhecer as suas disposições, vêr bem se é para a Solidão que ella tem geito, ou para a Penitencia, ou para o serviço dos enfermos, ou para a Adoração Perpetua, ou para o ensino... Emfim, estudal-a por dentro e por fóra.—Mas onde? exclamou, abrindo os braços como na desolação d'um santo dever contrariado. Onde? Em casa da mãi não póde ser, já andam desconfiados. Na igreja impossivel, era o mesmo que na rua. Em minha casa, já vê, menina nova...—Está claro.—De modo que, tio Esguelhas... E estou certo que vossê m'o ha de agradecer... pensei na sua casa...—Oh, senhor parocho, acudiu o sineiro, eu, a casa, os trastes, está tudo ás ordens!—Bem vê, é no interesse d'aquella alma, é um regosijo para Nosso Senhor...—E p'ra mim, senhor parocho, e p'ra mim!O que o tio Esguelhas receava é que a casa não fosse decente e não tivesse as commodidades...—Ora! fez o padre sorrindo, n'um renunciamento de todos os confortos humanos. Comtanto que haja duas cadeiras e uma mesa para pôr o livro da oração...De resto, por outro lado, dizia o sineiro, lá como sitio retirado e casa socegada estava a preceito. Ficavam alli, elle e a menina, como os monges no deserto. Nos dias em que o senhor parocho viesse, elle sahia a dar o seu giro. Na cozinha não poderiam accommodar-se, porque o quartito da pobre Tótó era ao pé... Mas tinham o quarto d'elle, em cima.O padre Amaro bateu com a mão na testa. Não se lembrára da paralytica!—Isso estraga-nos o arranjinho, tio Esguelhas! exclamou.Mas o sineiro tranquillisou-o, vivamente. Estava agora todo interessado n'aquella conquista d'uma noiva para Nosso Senhor; queria por força que o seu telhado abrigasse a santa preparação da alma da menina... Talvez lhe attrahisse a elle a piedade de Deus! Mostrou com calor as vantagens, as facilidades da casa. A Tótó não embaraçava. Não se mexia da cama. O senhor parocho entrava pela cozinha do lado da sacristia, a menina vinha pela porta da rua: subiam, fechavam-se no quarto...—E ella que faz, a Tótó? perguntou o padre Amaro, hesitando ainda.Coitadita, para alli estava... Tinha manias: ora fazia bonecas e apaixonava-se por ellas a ponto de ter febre; outros dias passava-os n'um silencio medonho com os olhos cravados na parede. Mas ás vezes estava alegre, palrava, chalaceava... Uma desgraça!—Devia-se entreter, devia lêr, disse o padre Amaro para mostrar interesse.O sineiro suspirou. Não sabia lêr, a pequena, nunca quizera aprender. Era o que elle lhe dizia—se pudesses lêr já te não pesava tanto a vida! Mas então? Tinha horror a applicar-se... O senhor padre Amaro devia ter a caridade de a persuadir, quando viesse a casa...Mas o parocho não o escutava, todo abysmado n'uma idéa que lhe alumiára a face d'um sorriso. Achára subitamente a explicação natural a dar á S. Joanneira e ás amigas das visitas d'Amelia a casa do sineiro: era a ensinar a lêr a paralytica! A educal-a! A abrir-lhe a alma ás bellezas dos livros santos, da historia dos martyres e da oração!...—Está decidido, tio Esguelhas, exclamou, esfregando as mãos de jubilo. É em sua casa que se ha de fazer da rapariga uma santa. E d'isto—e a sua voz deu um grave profundo—um segredo inviolavel!—Oh, senhor parocho! fez o sineiro, quasi offendido.—Conto comsigo! disse Amaro.Veio logo á sacristia escrever um bilhete, que devia passar em segredo a Amelia, em que lhe explicava detalhadamente «o arranjinho que fizera para gozarem novas e divinas felicidades». Prevenia-a que o pretexto para ella vir todas as semanas a casa do sineiro devia ser a educação da paralytica: elle mesmo o proporia á noite em casa da mamã. «Que n'isto, dizia, ha alguma verdade, pois seria grato a Deus que se alumiasse com uma boa instrucção religiosa as trevas d'aquella alma. E matamos assim, querido anjo, dois coelhos com uma só cacheirada!»Depois entrou em casa. Como se sentou regalamente á mesa do almoço, com um contentamento pleno de si, da vida e das dôces facilidades que n'ella encontrava! Ciumes, duvidas, torturas do desejo, solidão da carne, tudo o que o consumira mezes e mezes, além na rua da Misericordia e alli na rua das Sousas, passára. Estava emfim installado á larga na felicidade! E recordava, abysmado n'um gozo mudo, com o garfo esquecido na mão, toda aquella meia hora da vespera, prazer por prazer, resaboreando-os mentalmente um a um, saturando-se da deliciosa certeza da posse—como o lavrador que percorre a leira de terra adquirida que os seus olhos invejaram muitos annos. Ah, não tornaria a olhar de lado, com azedume, os cavalheiros que passeavam na Alameda com as suas mulheres pelo braço! Tambem elle agora tinha uma, toda sua, alma e carne, linda, que o adorava, que usava boas roupas brancas,e trazia no peito um cheirinho d'agua de colonia! Era padre, é verdade... Mas para isso tinha o seu grande argumento: é que o comportamento do padre, logo que não dê escandalo entre os fieis, em nada prejudica a efficacia, a utilidade, a grandeza da religião. Todos os theologos ensinam que a ordem dos sacerdotes foi instituida para administrar os sacramentos; o essencial é que os homens recebam a santidade interior e sobrenatural que os sacramentos contêm; e comtanto que elles sejam dispensados segundo as formulas consagradas, que importa que o sacerdote seja santo ou peccador? O sacramento communica a mesma virtude. Não é pelos meritos do sacerdote que elles operam, mas pelos meritos de Jesus Christo. O que é baptisado ou ungido, ou seja por mãos puras ou por mãos torpes, fica igualmente bem lavado da macula original, ou bem preparado para a vida eterna. Isto lê-se em todos os santos padres, estabeleceu-o o seraphico concilio de Trento. Os fieis nada perdem, na sua alma e na sua salvação, com a indignidade do parocho. E se o parocho se arrepende á hora extrema, tambem se lhe não fecham as portas do céo. Logo em definitiva tudo acaba bem, e em paz geral...—E o padre Amaro, raciocinando assim, sorvia com prazer o seu café.A Dionysia, ao fim do almoço, veio saber, muito risonha, se o senhor parocho fallára ao tio Esguelhas...—Fallei por alto, disse elle ambiguamente. Nãoha nada decidido... Roma não se construiu n'um dia.—Ah! fez ella.E recolheu-se á cozinha, pensando que o senhor parocho mentia como um hereje. Tambem, não se importava... Nunca gostára de arranjos com os senhores ecclesiasticos; pagavam mal, e suspeitavam sempre...E mesmo ouvindo Amaro que sahia, correu á escada a dizer-lhe—que emfim, ella tinha a olhar pela sua casa, e quando o senhor parocho tivesse arranjado criada...—A snr.aD. Josepha Dias anda-me a tratar d'isso, Dionysia. Espero ter alguem ámanhã. Mas vossê appareça... Agora que somos amigos...—Quando o senhor parocho quizer é chamar-me da janella para o quintal, disse ella do alto da escada. Para tudo que precisar. De tudo sei um bocadinho, até de desarranjos e de partos... E n'este ponto posso até dizer...Mas o padre não a escutava: atirára com a porta de repellão, fugindo, indignado d'aquella utilidade torpe assim brutalmente offerecida.Foi d'ahi a dias que elle fallou em casa da S. Joanneira da filha do sineiro.Na vespera dera o bilhete a Amelia; e n'essa noite, emquanto na sala se galrava alto, aproximára-se do piano, onde Amelia, com os dedos preguiçosos,corria escalas, e abaixando-se para accender o cigarro á vela, murmurára:—Leu?—Optimo!Amaro recolheu logo ao grupo das senhoras, onde a Gansoso estava contando uma catastrophe que lêra n'um jornal, succedida em Inglaterra: uma mina de carvão que desabára, sepultando cento e vinte trabalhadores. As velhas arripiavam-se horrorisadas. A Gansoso então, gozando o effeito, accumulou loquazmente os detalhes: a gente que estava fóra esforçára-se por desatulhar os infelizes; ouviam-se-lhes em baixo os gemidos e os ais; era ao lusco-fusco; havia uma tormenta de neve...—Desagradavel! rosnou o conego, aconchegando-se na sua poltrona, gozando o calor da sala e a segurança dos tectos.A snr.aD. Maria da Assumpção declarou que todas essas minas, essas machinas estrangeiras lhe causavam medo. Vira uma fabrica ao pé d'Alcobaça, e parecera-lhe uma imagem do inferno. Estava certa que Nosso Senhor não as via com bons olhos...—É como os caminhos de ferro, disse D. Josepha. Tenho a certeza que foram inspirados pelo demonio! Não o digo a rir. Mas vejam aquelles uivos, aquelle fogaracho, aquelle fragor! Ai, arripia!O padre Amaro galhofou,—assegurando á snr.aD. Josepha que eram ricamente commodos para andar depressa! Mas, tornando-se logo sério, acrescentou:—Em todo o caso é incontestavel, que ha n'essas invenções da sciencia moderna muito do demonio. E é por isso que a nossa santa Igreja as abençôa, primeiro com orações e depois com agua benta. Hão de saber que é o costume. Com agua benta para lhes fazer o exorcismo, expulsar o espirito inimigo: e com orações para as resgatar do peccado original que não só existe no homem, mas nas coisas que elle construe. É por isso que se benzem e se purificam as locomotivas... Para que o demonio não se possa servir d'ellas para seu uso.D. Maria da Assumpção quiz immediatamente uma explicação. Como era a maneira usual do Inimigo se servir dos caminhos de ferro?O padre Amaro esclareceu-a, com bondade. O Inimigo tinha muitas maneiras, mas a habitual era esta: fazia descarrilar um trem de modo que morressem passageiros, e como essas almas não estavam preparadas pela Extrema-Unção, o demonio alli mesmo, zás, apoderava-se d'ellas!—É de velhaco! rosnou o conego, com uma admiração secreta por aquella manha tão habil do Inimigo.Mas D. Maria da Assumpção abanou-se langorosamente, com o rosto banhado n'um sorriso de beatitude:—Ai, filhas! dizia pausadamente para os lados, a nós é que não nos succedia isso... Que não nos pilhava desprevenidas!Era verdade; e todas gozaram um momentoaquella certeza deliciosa de estarem preparadas, de poderem lograr a malicia do Tentador!O padre Amaro então tossiu como para preparar as vias, e apoiando as duas mãos sobre a mesa, n'um tom de pratica:—É necessario muita vigilancia para conservar de longe o demonio. Ainda hoje eu estava a pensar n'isso (foi mesmo a minha meditação) a respeito de um caso bem triste que tenho lá ao pé da Sé... É a filhita do sineiro.As senhoras tinham chegado as cadeiras, bebendo-lhe as palavras, n'uma curiosidade subitamente excitada, esperando ouvir a historia picante d'alguma façanha de Satanaz. E o parocho continuou com uma voz a que o silencio em redor dava solemnidade:—Alli está aquella rapariga, todo o santo dia, pregada na cama! Não sabe lêr, não tem devoções habituaes, não tem o costume da meditação; é por consequencia, para empregar a expressão de S. Clemente—uma alma sem defeza. O que succede? Que o demonio, que ronda constantemente e não perde dentada, estabelece-se alli como em sua casa! Por isso, como me dizia hoje o pobre tio Esguelhas, são phrenesis, desesperos, furores sem razão... Emfim o pobre homem tem a vida estragada.—E a dois passos da igreja do Senhor! exclamou D. Maria da Assumpção, indignada d'aquella impudencia de Satanaz,installando-sen'um corpo, n'um leito, que apenas a estreiteza do pateo separava dos contrafortes da Sé.Amaro acudiu:—Tem a D. Maria razão. O escandalo é enorme. Mas então? Se a rapariga não sabe lêr! Se não sabe uma oração, se não tem quem a instrua, quem lhe leve a palavra de Deus, quem a fortifique, quem lhe ensine o segredo de frustrar o Inimigo!...Ergueu-se animado, deu alguns passos pela sala, de hombros vergados, n'uma mágoa de pastor a quem uma força desproporcional arrebata uma ovelha amada. E, exaltado pelas suas palavras, sentia, com effeito, uma piedade que o invadia, uma compaixão verdadeira por aquella pobre creatura, a quem a falta de consolações devia tornar mais intensa a agonia da immobilidade...As senhoras olhavam-se, magoadas com aquelle caso triste d'abandono d'alma,—sobretudo pela dôr que elle parecia trazer ao senhor parocho.A snr.aD. Maria da Assumpção, que percorria em imaginação o abundante arsenal da devoção, lembrára logo que se lhe puzessem alguns santos á cabeceira, como S. Vicente, Nossa Senhora das Sete Chagas... Mas o silencio das amigas exprimiu bem a insufficiencia d'aquella galeria devota.—As senhoras dir-me-hão talvez, disse o padre Amaro sentando-se de novo, que se trata apenas da filha do sineiro. Mas é uma alma! É uma alma como as nossas!—Todos têm direito á graça do Senhor, disse o conego gravemente, n'um sentimento d'imparcialidade, admittindo a igualdade das classes logo quenão se tratava de bens materiaes e apenas dos confortos do céo.—P'ra Deus não ha pobre nem rico, suspirou a S. Joanneira. Antes pobre, que dos pobres é o reino do céo!—Não, antes rico, acudiu o conego, estendendo a mão para deter aquella falsa interpretação da lei divina. Que o céo tambem é para os ricos. A senhora não comprehende o preceito.Beati pauperes, bemditos os pobres, quer dizer que os pobres devem-se achar felizes na pobreza; não desejarem os bens dos ricos; não quererem mais que o bocado de pão que têm; não aspirarem a participar das riquezas dos outros, sob pena de não serem bemditos. É por isso, saiba a senhora, que essa canalha que préga que os trabalhadores e as clases baixas devem viver melhor do que vivem, vai d'encontro á expressa vontade da Igreja e de Nosso Senhor, e não merece senão chicote, como excommungados que são! Ouf!E estirou-se, extenuado de ter fallado tanto. O padre Amaro, esse, permanecia calado, com o cotovêlo sobre a mesa, esfregando devagar a testa. Ia lançar a sua idéa, como vinda d'uma inspiração divina, propôr que fosse Amelia levar uma educação devota á triste paralytica... E hesitava supersticiosamente diante do seu motivo todo carnal, todo de concupiscencia. A filha do sineiro apparecia-lhe agora, exageradamente, abysmada n'uma treva d'agonia. Sentia toda a caridade que haveria em consolal-a, entretel-a, fazer-lhe os dias menos amargos...Esta acção redimiria decerto muitas culpas, encantaria Deus, se fosse feita n'um puro espirito de fraternidade christã! Vinha-lhe uma compaixão sentimental de bom rapaz por aquelle miseravel corpo pregado n'uma cama, sem nunca vêr o sol nem a rua... E alli estava embaraçado, n'aquella piedade que o invadia, sem se decidir, coçando a nuca, arrependido quasi de ter fallado ás senhoras da Tótó...Mas D. Joaquina Gansoso tivera uma idéa:—Ó senhor padre Amaro, se se lhe mandasse aquelle livro com pinturas de vidas dos santos? Eram pinturas que edificavam. A mim tocavam-me alma... Não és tu que o tens, Amelia?—Não, disse ella, sem erguer os olhos da costura.Amaro então olhou-a. Tinha-a quasi esquecido. Estava agora do outro lado da mesa, abainhando um esfregão: a risca muita fina desapparecia na abundancia espessa do cabello, onde a luz do candieiro ao lado punha um traço lustroso; as pestanas pareciam mais longas, mais negras sobre a pelle da face, d'um trigueiro calido, que uma tinta rosada aquecia; o vestido justo, que se franzia n'uma prega sobre o hombro, elevava-se amplamente sobre a fórma dos peitos, que elle via arfar no rhythmo da respiração igual... Era aquella a belleza que mais appetecia n'ella; imaginava-os d'uma côr de neve, redondos e cheios; tivera-a nos braços, sim, mas vestida, e as suas mãos sôfregas tinhamencontradosó a sêda fria... Mas na casa do sineiro seriamd'elle, sem obstaculo, sem vestidos, á disposição dos seus labios. Por Deus! e nada impedia que ao mesmo tempo consolassem a alma da Tótó! Não hesitou mais. E erguendo a voz, no meio do palratorio das velhas que discutiam agora a desapparição daVida dos Santos:—Não, minhas senhoras, não é com livros que se vale á rapariga... Sabem a idéa que me veio? Era um de nós, o que estiver menos occupado, levar-lhe a palavra de Deus e educar aquella alma!—E acrescentou, sorrindo:—E a fallar a verdade, a pessoa mais desoccupada aqui de todos nós é a menina Amelia...Então foi uma surpreza! Pareceu a mesma vontade de Nosso Senhor vinda n'uma revelação. Os olhos de todas accenderam-se n'uma excitação devota, á idéa d'aquella missão de caridade, que partia alli d'ellas, da rua da Misericordia... Extasiavam-se, no ante-gosto guloso dos elogios do senhor chantre e do cabido! Cada uma dava o seu conselho, n'uma assiduidade de participar da santa obra, de partilharem as recompensas que o céo certamente prodigalisaria. D. Joaquina Gansoso declarou com calor que invejava Amelia; e chocou-se muito vendo-a de repente rir.—Imaginas que não o faria com a mesma devoção? Já estás com o orgulho da boa acção... Olha que assim não t'aproveita!Mas Amelia continuava tomada d'um riso nervoso,deitada para as costas da cadeira, suffocando-se para se conter.Os olhinhos de D. Joaquina chammejavam.—É indecente, é indecente! gritava.Calmaram-na: Amelia teve de lhe jurar sob os Santos Evangelhos que fôra uma idéa extravagante que tivera, que era nervoso...—Ai, disse D. Maria da Assumpção, ella tem razão em s'orgulhar. Que é uma honra p'r'á casa! Em se sabendo...O parocho interrompeu com severidade:—Mas não se deve saber, snr.aD. Maria da Assumpção! De que serve, aos olhos do Senhor, uma boa obra de que se tire alarde e vangloria?D. Maria vergou os hombros, humilhando-se á reprehensão. E Amaro, com gravidade:—Isto não deve sahir d'aqui. É entre Deus e nós. Queremos salvar uma alma, consolar uma enferma, e não ter elogios nos periodicos. Pois não é assim, padre-mestre?O conego ergueu-se pesadamente:—Vossê esta noite tem fallado com a lingua de ouro de S. Chrysostomo. Eu estou edificado; e não se me dava agora de vêr apparecer as torradas.Foi então, emquanto aRuçanão trazia o chá, que se decidiu que Amelia, todas as semanas, uma ou duas vezes segundo fosse a sua devoção,iria emsegredo, para que a acção fosse mais valiosa aos olhos de Deus, passar uma hora à cabeceira da paralytica,lêr-lhe aVida dos Santos, ensinar-lhe rezas e insufflar-lhe a virtude.—Emfim, resumiu a snr.aD. Maria da Assumpção voltando-se para Amelia, não te digo senão uma coisa: abichaste!ARuçaentrou com o taboleiro, no meio dos risos que provocára a «tolice de D. Maria», como disse Amelia, que se fizera escarlate.—E foi assim que ella e o padre Amaro se puderam vêr livremente, para gloria do Senhor e humilhação do Inimigo.Encontravam-se todas as semanas, ora uma ora duas vezes, de modo que as suas visitas caridosas á paralytica perfizessem ao fim do mez o numero symbolico de sete, que devia corresponder, na idéa das devotas, ásSete lições de Maria. Na vespera o padre Amaro tinha prevenido o tio Esguelhas, que deixava a porta da rua apenas cerrada, depois de ter varrido toda a casa e preparado o quarto para a pratica do senhor parocho. Amelia n'esses dias erguia-se cedo: tinha sempre alguma saia branca a engommar, algum laçarote a compôr; a mãi estranhava-lhe aquelles arrebiques, o desperdicio d'agua de colonia de que ella se inundava; mas Amelia explicava que «era para inspirar á Tótó idéas de aceio e de frescura». E depois de vestida sentava-se, esperando as onze horas, muito séria, respondendo distrahidamente ás conversas da mãi, comuma côr nas faces, os olhos cravados nos ponteiros do relogio: emfim a velha matraca gemia cavamente as onze horas, e ella, depois d'uma olhadella ao espelho, sahia, dando uma beijoca á mamã.Ia sempre receosa, n'uma inquietação de ser espreitada. Todas as manhãs pedia a Nossa Senhora da Boa Viagem que a livrasse de maus encontros; e se via um pobre dava-lhe invariavelmente esmola, para lisonjear os gostos de Nosso Senhor, amigo dos mendigos e vagabundos. O que a assustava era o largo da Sé, sobre o qual a Amparo da botica, costurando por traz da janella, exercia uma vigilancia incessante. Fazia-se então pequenina no seu mantelete, e abaixando o guardasol sobre o rosto, entrava emfim na Sé, sempre com o pé direito.Mas a mudez da igreja, deserta e adormecida n'uma luz fusca, amedrontava-a: parecia-lhe sentir, na taciturnidade dos santos e das cruzes, uma reprehensão ao seu peccado; imaginava que os olhos de vidro das imagens, as pupillas pintadas dos paineis se fixavam n'ella, com uma insistencia cruel, e percebiam o arfar que ao seu seio dava a esperança do prazer. Ás vezes mesmo, atravessada d'uma superstição, para dissipar o descontentamento dos santos, promettia dar-se n'essa manhã toda á Tótó, occupar-se caridosamente só d'ella, e não se deixar tocar sequer no vestido pelo senhor padre Amaro. Mas se ao entrar na casa do sineiro o não encontrava, ia logo, sem se deter ao pé da cama da Tótó, postar-se à janella da cozinha, vigiando a porta massiça da sacristiade que ella conhecia uma por uma as chapas negras de ferro.Elle apparecia, emfim. Era então nos começos de março; já tinham chegado as andorinhas; ouviam-n'as chilrear, n'aquelle silencio melancolico, esvoaçando entre os contrafortes da Sé. Aqui e além, plantas dos logares humidos cobriam os cantos d'uma verdura escura. Amaro, ás vezes muito galante, ia procurar uma florzinha. Amelia impacientava-se, rufava na vidraça da cozinha. Elle apressava-se; ficavam um momento á porta, apertando-se as mãos, com olhos brilhantes que se devoravam; e iam emfim vêr a Tótó—e dar-lhe os bolos que o parocho lhe trazia no bolso da batina.A cama da Tótó era na alcova, ao lado da cozinha; o seu corpinho de tisica quasi não fazia saliencia enterrado na cova da enxerga, sob os cobertores enxovalhados que ella se entretinha a esfiar. N'esses dias tinha vestido um chambre branco, os cabellos reluziam-lhe d'oleo; porque ultimamente, desde as visitas d'Amaro, viera-lhe «uma birra de parecer alguem», como dizia encantado o tio Esguelhas, a ponto de se não querer separar d'um espelho e d'um pente que escondia debaixo do travesseiro e obrigar o pai a encafuar sob a cama, entre a roupa suja, as bonecas que agora desprezava.Amelia sentava-se um instante aos pés do catre, perguntando-lhe se estudára o A B C, obrigando-a a dizer aqui e além o nome d'uma letra. Depois queria que ella repetisse sem a errar a oração que lheandava ensinando;—emquanto o padre, sem passar da porta, esperava, com as mãos nos bolsos, enfastiado, embaraçado com os olhos reluzentes da paralytica que o não deixavam, penetrando-o, percorrendo-lhe o corpo com pasmo e com ardor, e que pareciam maiores e mais brilhantes no seu rosto trigueiro tão chupado que se lhe via a saliencia das maxillas. Não sentia agora nem compaixão nem caridade pela Tótó; detestava aquella demora; achava a rapariga selvagem e embirrenta. A Amelia tambem pesavam aquelles momentos em que, para não escandalisar muito Nosso Senhor, se resignava a fallar à paralytica. A Tótó parecia odial-a; respondia-lhe muito carrancuda; outras vezes persistia n'um silencio rancoroso, voltada para a parede; um dia despedaçára o alphabeto; e encolhia-se toda encruada se Amelia lhe queria compor o chale sobre os hombros ou conchegar-lhe a roupa...Emfim Amaro, impaciente, fazia um signal a Amelia; ella punha logo diante da Tótó o livro com estampas daVida dos Santos.—Vá, ficas agora a vêr as figuras... Olha, este é S. Matheus, esta Santa Virginia... Adeus, eu vou lá a cima com o senhor parocho rezarmos para que Deus te dê saude e te deixe ir passear... Não estragues o livro, que é peccado.E subiam a escada, emquanto a paralytica, estendendo o pescoço sôfregamente, os seguia, escutando o ranger dos degraus, com olhos chammejantes que lagrimas de raiva ennevoavam. O quarto,em cima, era muito baixo, sem forro, com um tecto de vigas negras sobre que assentavam as telhas. Ao lado da cama pendia a candeia que puzera sobre a parede um penacho negro do fumo. E Amaro ria sempre dos preparativos que fizera o tio Esguelhas—a mesa ao canto com o Novo Testamento, uma caneca d'agua, e duas cadeiras dispostas ao lado...—É p'r'á nossa conferencia, para te ensinar os deveres de freira, dizia elle, galhofando.—Ensina, então! murmurava ella de braços abertos, pondo-se diante do padre, com um sorriso calido onde brilhava um branquinho dos dentes, n'um abandono que se offerecia.Elle atirava-lhe beijos vorazes pelo pescoço, pelos cabellos; às vezes mordia-lhe a orelha; ella dava um gritinho; e ficavam então muito quedos, escutando, com medo da paralytica em baixo. O parocho depois fechava as portadas da janella e a porta muito perra que tinha d'empurrar com o joelho. Amelia ia-se despindo devagar; e com as saias cahidas aos pés ficava um momento immovel, como uma fórma branca na escuridão do quarto. Em redor o padre, preparando-se, respirava forte. Ella então persignava-se depressa, e sempre ao subir para o leito dava um suspirosinho triste.Amelia só podia demorar-se até ao meio dia. O padre Amaro por isso pendurava o seucebolãono prego da candeia. Mas quando não ouviam as badaladas da torre, Amelia conhecia a hora pelo cantar d'um gallo visinho.—Devo ir, filho, murmurava toda cansada.—Deixa lá... Estás sempre com a pressa...Ficavam ainda um momento calados, n'uma lassidão dôce, muito chegados um ao outro. Pelas vigas separadas do telhado mal junto viam aqui e além fendas de luz: ás vezes sentiam um gato, com as suas passadas fofas, vadiar, fazendo bolir alguma telha solta; ou um passaro, pousando, chilreava e ouviam-lhe o fremito das azas.—Ai, são horas, dizia Amelia.O padre queria detel-a; não se fartava de lhe beijar a orelhinha.—Lambão! murmurava ella. Deixa-me!Vestia-se á pressa no escuro do quarto; depois ia abrir a janella, vinha ainda abraçar o pescoço de Amaro, que ficára estatelado sobre o leito; e ia emfim arrastar a mesa e as cadeiras, para a paralytica sentir em baixo, saber que tinha acabado a conferencia.Amaro não findava ainda de a beijocar: ella então, para acabar, fugia-lhe, ia escancarar a porta do quarto; o padre descia, atravessava em duas passadas a cozinha sem olhar para a Tótó, e entrava na sacristia.Amelia, essa, antes de sahir, vinha vêr a paralytica, saber se gostára das estampas. Encontrava-a ás vezes com a cabeça debaixo dos cobertores, que entalava e prendia com as mãos para seesconder; outras vezes, sentada na cama, examinava Amelia com olhos em que se accendia uma curiosidade viciosa;chegava o rosto para ella, com as narinas dilatadas que pareciam cheiral-a; Amelia recuava, inquieta, córando tambem; queixava-se então de ser tarde, recolhia aVida dos Santos,—e sahia, amaldiçoando aquella creatura tão maliciosa na sua mudez.Ao passar no largo, áquella hora, via sempre a Amparo á janella. Ultimamente mesmo julgára prudente contar-lhe em segredo a sua caridade com a Tótó. A Amparo, mal a via, chamava-a; e debruçando-se toda na varanda:—Então como vai a Tótó?—Lá vai.—Já lê?—Já soletra.—E a oração a Nossa Senhora?—Já a diz.—Ai, que devoção a tua, filha!Amelia baixava os olhos, modesta. E o Carlos, que estava tambem no segredo, deixava o balcão para vir á porta admirar Amelia.—Vem da sua grande missão de caridade, hein? dizia, d'olho arregalado, balanceando-se na ponta das chinelas.—Estive um bocado com a pequena, a entretel-a...—Grandioso! murmurava o Carlos. Um apostolado! Pois vá, minha santa menina, recados á mamã.Voltava-se então para dentro, para o praticante:—Veja o snr. Augusto aquillo... Em logar de passar o seu tempo, como as outras, em namoros, faz-se anjo da guarda! Passa a flôr dos annos com uma entrevada! Veja o senhor se a philosophia, o materialismo, e essas porcarias são capazes d'inspirar acções d'este jaez... Só a religião, meu caro senhor! Eu queria que os Renans e essa cambada de philosophos vissem isto! Que eu, tenha o senhor em vista, admiro a philosophia, mas quando ella, por assim dizer, vai de mãos dadas com a religião... Sou homem de sciencia e admiro um Newton, um Guizot... Mas (e grave o senhor estas palavras) se a philosophia se afasta da religião... (grave bem estas palavras) dentro de dez annos, snr. Augusto, está a philosophia enterrada!E continuava a mexer-se pela pharmacia a passos lentos, de mãos atraz das costas, ruminando o fim da philosophia.XVIIIFoi aquelle o periodo mais feliz da vida de Amaro.«Ando na graça de Deus», pensava elle ás vezes á noite, ao despir-se, quando por um habito ecclesiastico, fazendo o exame dos seus dias, via que elles se seguiam faceis, tão confortaveis, tão regularmente gozados. Não houvera, nos ultimos dois mezes, nem attritos nem difficuldades no serviço da parochia; todo o mundo, como dizia o padre Saldanha, andava d'um humor de santo. D. Josepha Dias arranjára-lhe muito barata uma cozinheira excellente, e que se chamava Escolastica. Na rua da Misericordia tinha a sua côrte admiradora e devota; cada semana, uma ou duas vezes, vinha áquella hora deliciosa e celeste na casa do tio Esguelhas; e para completar a harmonia até a estação ia tão linda, que já no Morenal começavam a abrir as rosas.Mas o que o encantava era que nem as velhas, nem os padres, ninguem da sacristia suspeitava os seusrendez-vouscom Amelia. Aquellas visitas á Tótó tinham entrado nos costumes da casa; chamavam-lhe «as devoções da pequena»; e não a interrogavam com particularidades, pelo principio beato que as devoções são um segredo que se tem com Nosso Senhor. Só ás vezes alguma das senhoras perguntava a Amelia—como ia a doente; ella assegurava que estava muito mudada, que começava a abrir os olhos á lei de Deus; então, muito discretamente, fallavam de coisas differentes. Havia apenas o plano vago de irem um dia, mais tarde, quando a Tótó soubesse bem o seu catecismo e pela efficacia da oração se tivesse tornado boa, admirar em romaria a obra santa de Amelia e a humilhação do Inimigo.Amelia mesmo, perante esta confiança tão larga na sua virtude, propuzera um dia a Amaro, como muito habil—dizer ás amigas que o senhor parocho ás vezes vinha assistir á pratica piedosa que ella fazia á Tótó...—Assim, se alguem te surprehendesse a entrar para a casa do tio Esguelhas, já não havia suspeitas.—Não me parece necessario, disse elle. Deus está comnosco, filha, é claro. Não queiramos intrometter-nos nos seus planos. Elle vê mais longe que nós...Ella concordou logo—como em tudo que sahia dos seus labios. Desde a primeira manhã, na casado tio Esguelhas, ella abandonára-se-lhe absolutamente, toda inteira, corpo, alma, vontade e sentimento: não havia na sua pelle um cabellinho, não corria no seu cerebro uma idéa a mais pequenina, que não pertencesse ao senhor parocho. Aquella possessão de todo o seu sêr não a invadira gradualmente; fôra completa, no momento que os seus fortes braços se tinham fechado sobre ella. Parecia que os beijos d'elle lhe tinham sorvido, esgotado a alma: agora era como uma dependencia inerte da sua pessoa. E não lh'o occultava; gozava em se humilhar, offerecer-se sempre, sentir-se toda d'elle, toda escrava; queria que elle pensasse por ella e vivesse por ella; descarregára-se n'elle, com satisfação, d'aquelle fardo da responsabilidade que sempre lhe pesára na vida; os seus juizos agora vinham-lhe formados do cerebro do parocho, tão naturalmente como se sahisse do coração d'elle o sangue que lhe corria nas veias. «O senhor parocho queria ou o senhor parocho dizia» era para ella uma razão toda sufficiente e toda poderosa. Vivia com os olhos n'elle, n'uma obediencia animal: tinha só a curvar-se quando elle fallava, e quando vinha o momento a desapertar o vestido.Amaro gozava prodigiosamente esta dominação; ella desforrava-o de todo um passado de dependencias—a casa do tio, o seminario, a sala branca do senhor conde de Ribamar... A sua existencia de padre era uma curvatura humilde que lhe fatigava a alma; vivia da obediencia ao senhor bispo, á camaraecclesiastica, aos canones, á Regra que nem lhe permittia ter uma vontade propria nas suas relações com o sacristão. E agora, emfim, tinha alli aos seus pés aquelle corpo, aquella alma, aquelle sêr vivo sobre quem reinava com despotismo. Se passava os seus dias, por profissão, louvando, adorando e incensando Deus,—era elle tambem agora o Deus d'uma creatura que o temia e lhe dava uma devoção pontual. Para ella ao menos, era bello, superior aos condes e aos duques, tão digno da mitra como os mais sabios. Ella mesmo, um dia, dissera-lhe, depois de ter estado um momento pensativa:—Tu podias chegar a Papa!—D'esta massa se fazem, respondeu elle com seriedade.Ella acreditava-o—com um receio, todavia, que as altas dignidades o afastassem d'ella, o levassem para longe de Leiria. Aquella paixão, em que estava abysmada e que a saturava, tornára-a estupida e obtusa a tudo o que não respeitava ao senhor parocho ou ao seu amor. Amaro de resto não lhe consentia interesses, curiosidades alheias á sua pessoa. Prohibia-lhe até que lêsse romances e poesias. Para que se havia de fazer doutora? Que lhe importava o que ia no mundo? Um dia que ella fallára, com algum appetite, d'um baile que iam dar os Vias-Claras, offendeu-se como d'uma traição. Fez-lhe em casa do tio Esguelhas accusações tremendas: era uma vaidosa, uma perdida, uma filha de Satanaz!...—Mas mato-te! Percebes? Mato-te!—exclamou,agarrando-lhe os pulsos, fulminando-a com o olhar accêso.Tinha um medo, que o pungia, de a vêr subtrahir-se ao seu imperio, perder-lhe a adoração muda e absoluta. Pensava ás vezes que ella se fatigaria, com o tempo, d'um homem que não lhe satisfazia as vaidades e os gostos de mulher, sempre mettido na sua batina negra, com a cara rapada e a corôa aberta. Imaginava que as gravatas de côres, os bigodes bem torcidos, um cavallo que trota, um uniforme de lanceiros exercem sobre as mulheres uma fascinação decisiva. E se a ouvia fallar d'algum official do destacamento, d'algum cavalheiro da cidade, eram ciumes desabridos...—Góstas d'elle? Hein? É pelos trapos, pelo bigode?...—Gósto d'elle! Oh, filho, eu nunca vi o homem!Mas escusava de fallar da creatura, então! Era ter curiosidade, pôr o pensamento n'outro! D'essas faltas de vigilancia sobre a alma e a vontade é que se aproveitava o demonio!...Viera assim a ter um odio a todo o mundo secular—que a poderia attrahir, arrastar para fóra da sombra da sua batina. Impedia-lhe, com pretextos complicados, toda a communicação com a cidade. Convenceu mesmo a mãi que a não deixasse ir só á Arcada e ás lojas. E não cessava de lhe representar os homens como monstros d'impiedade, cobertos de peccados como d'uma crosta, estupidos e falsos, votados ao inferno! Contava-lhe horrores de quasitodos os rapazes de Leiria. Ella perguntava-lhe aterrada, mas curiosa:—Como sabes tu?—Não te posso dizer, respondia com uma reticencia, indicando que lhe fechava os labios o segredo da comfissão.E ao mesmo tempo martellava-lhe os ouvidos com a glorificação do sacerdocio. Desenrolava-lhe com pompa a erudição dos seus antigos compendios, fazendo-lhe o elogio das funcções, da superioridade do padre. No Egypto, grande nação da antiguidade, o homem só podia ser rei se era sacerdote! Na Persia, na Ethiopia, um simples padre tinha o privilegio de desthronar os reis, dispôr das corôas! Onde havia uma auctoridade igual á sua? Nem mesmo na côrte do céo. O padre era superior aos anjos e aos seraphins—porque a elles não fôra dado como ao padre o poder maravilhoso de perdoar os peccados! Mesmo a Virgem Maria, tinha ella um poder maior que elle, padre Amaro? Não: com todo o respeito devido à magestade de Nossa Senhora, elle podia dizer com S. Bernardino de Sena: «o sacerdote excede-te, ó mãi amada!»—porque, se a Virgem tinha incarnado Deus no seu castissimo seio, fôra só uma vez, e o padre, no santo sacrificio da missa, incarnava Deus todos os dias! E isto não era argucia d'elle, todos os santos padres o admittiam...—Hein, que te parece?—Oh, filho! murmurava ella pasmada, desfallecida de voluptuosidade.Então deslumbrava-a com citações venerandas: S. Clemente, que chamou ao padre «o Deus da terra»; o eloquente S. Chrysostomo, que disse «que o padre é o embaixador que vem dar as ordens de Deus». E Santo Ambrosio que escreveu: «entre a dignidade do rei e a dignidade do padre ha maior differença que a que existe entre o chumbo e o ouro»!—E o ouro é cá o menino, dizia Amaro com palmadinhas no peito. Que te parece?Ella atirava-se-lhe aos braços, com beijos vorazes, como para tocar, possuir n'elle o «ouro de Santo Ambrosio», o «embaixador de Deus», tudo o que na terra havia mais alto e mais nobre, o sêr que excede em graça os archanjos!Era este poder divino do padre, esta familiaridade com Deus, tanto ou mais que a influencia da sua voz—que a faziam crêr na promessa que elle lhe repetia sempre: que ser amada por um padre chamaria sobre ella o interesse, a amizade de Deus; que depois de morta dois anjos viriam tomal-a pela mão para a acompanhar e desfazer todas as duvidas que pudesse ter S. Pedro, chaveiro do céo; e que na sua sepultura, como succedera em França a uma rapariga amada por um cura, nasceriam espontaneamente rosas brancas, como prova celeste de que a virgindade não se estraga nos abraços santos d'um padre...Isto encantava-a. Áquella idéa da sua cova perfumada de rosas brancas, ficava toda pensativa, n'umantegosto de felicidades mysticas, com suspirinhos de gozo. Affirmava, fazendo beicinho, que queria morrer.Amaro galhofava.—A fallar da morte, com essas carnesinhas...Engordára com effeito. Estava agora d'uma belleza ampla e toda igual. Perdera aquella expressão inquieta que lhe punha nos labios uma seccura e lhe afilava o nariz. Nos seus beiços havia um vermelho quente e humido; o seu olhar tinha risos sob um fluido sereno; toda a sua pessoa uma apparencia madura de fecundidade. Fizera-se preguiçosa: em casa, a cada momento suspendia o seu trabalho, ficava a olhar longamente com um sorriso mudo e fixo; e tudo parecia ficar adormecido um momento, a agulha, o panno que ella costurava, toda a sua pessoa... Estava revendo o quarto do sineiro, o catre, o senhor parocho em mangas de camisa.Passava os seus dias esperando as oito horas, em que elle apparecia regularmente com o conego. Mas os serões agora pezavam-lhe. Elle recommendára-lhe muita reserva; ella exagerava-a, por um excesso de obediencia, a ponto de nunca se sentar ao pé d'elle ao chá, e de nem mesmo lhe offerecer bolos. Odiava então a presença das velhas, a gralhada das vozes, as pachorras do quino: tudo lhe parecia intoleravel no mundo, excepto estar só com elle... Mas depois, em casa do sineiro, que desforra! Aquelle rosto todo alterado, aquellas suffocações de delirio, aquelles ais agonisantes, depois a immobilidade damorte, assustavam ás vezes o padre. Erguia-se no cotovêlo, inquieto:—Estás incommodada?Ella abria os olhos espantados, como resurgindo de muito longe; e era realmente bella, cruzando os braços nús sobre o peito descoberto, dizendo lentamente com a cabeça que não...XIXUma circumstancia inesperada veio estragar aquellas manhãs da casa do sineiro. Foi a extravagancia da Tótó. Como disse o padre Amaro, «a rapariga sahia-lhes um monstro»!Tinha agora por Amelia uma aversão desabrida. Apenas ella se aproximava da cama, atirava a cabeça para debaixo dos cobertores, torcendo-se com phrenesi se lhe sentia a mão ou a voz. Amelia fugia, impressionada com a idéa de que o diabo que habitava a Tótó, recebendo o cheiro que ella trazia da igreja nos vestidos, impregnados d'incenso e salpicados d'agua benta, se espolinhava de terror dentro do corpo da rapariga...Amaro quiz reprehender a Tótó, fazer-lhe sentir, em palavras tremendas, a sua ingratidão demoniacapara com a menina Amelia que vinha entretel-a, ensinal-a a conversar com Nosso Senhor... Mas a paralytica rompeu n'um chôro hysterico; depois, de repente, ficou immovel, hirta, esbugalhando os olhos em alvo, com uma escuma branca na bôca. Foi um grande susto; inundaram-lhe a cama d'agua; Amaro, por prudencia, recitou os exorcismos... E Amelia desde então resolveu «deixar a fera em paz». Não tentou mais ensinar-lhe o alphabeto, nem orações a Sant'Anna.Mas, por escrupulo, iam sempre ao entrar vêl-a um instante. Não passavam da porta da alcova, perguntando-lhe d'alto «como ia». Nunca respondia. E elles retiravam-se logo aterrados com aquelles olhos selvagens e brilhantes, que os devoravam, indo d'um a outro, percorrendo-lhes o corpo, fixando-se com uma faiscação metallica nos vestidos d'Amelia e na batina do padre, como para lhe adivinhar o que estava por baixo, n'uma curiosidade avida que lhe dilatava desesperadamente as narinas e lhe arreganhava os beiços lividos. Mas era a mudez, obstinada e rancorosa, que os incommodava sobretudo. Amaro, que não acreditava muito em possessos e endemoninhados, via alli os symptomas deloucura furiosa. Os sustos d'Amelia augmentaram.—Felizmente que as pernas inertes cravavam a Tótó alli na enxerga! Senão, Jesus, era capaz de lhes entrar no quarto e mordêl-os n'um accesso!Declarou a Amaro que nem lhe sabia bem o prazer da manhã, «depois d'aquelle espectaculo»; edecidiu então, d'ahi por diante, subir para o quarto sem fallar á Tótó.Foi peor. Quando a via atravessar da porta da rua para a escada, a Tótó debruçava-se para fóra do leito, agarrada ás bordas da enxerga, n'um esforço ancioso para a seguir, para a vêr, com a face toda descomposta do desespero da sua immobilidade. E Amelia ao entrar no quarto sentia vir de baixo uma risadinha sêcca, ou umui!prolongado e uivado que a gelava...Andava agora aterrada: viera-lhe a idéa que Deus estabelecera alli, ao lado do seu amor com o parocho, um demonio implacavel para a escarnecer e apupar. Amaro, querendo-a tranquillisar, dizia-lhe que o nosso santo padre Pio IX, ultimamente, declarára peccado crêr empessoas possessas...—Mas para que ha rezas, então, e exorcismos?—Isso é da religião velha. Agora vai-se mudar tudo isso... Emfim a sciencia é a sciencia...Ella presentia que Amaro a enganava—e a Tótó estragava a sua felicidade. Emfim Amaro achou o meio de escaparem «á maldita rapariga»: era entrarem ambos pela sacristia: tinham apenas a atravessar a cozinha para subir a escada, e a posição da cama da Tótó, na alcova, não lhe permittia vêl-os, quando elles cautelosamente passassem pé ante pé. Era facil, de resto, porque á hora dorendez-vous, entre as onze e o meio dia, nos dias de semana, a sacristia estava deserta.Mas succedia que, quando elles entravam empontas de pés e mordendo a respiração, os seus passos, por mais subtis, faziam ranger os velhos degraus da escada. E então a voz da Tótó sahia da alcova, uma voz rouca e aspera, berrando:—Passa fóra cão! passa fóra cão!Amaro tinha um desejo furioso de estrangular a paralytica. Amelia tremia, toda branca.E a creatura uivava de dentro:—Lá vão os cães! lá vão os cães!Elles refugiavam-se no quarto, aferrolhando-se por dentro. Mas aquella voz d'um desolamento lugubre, que lhes parecia vir dos infernos, chegava-lhes ainda, perseguia-os:—Estão a pegar-se os cães! estão a pegar-se os cães!Amelia cahia sobre o catre, quasi desmaiada de terror. Jurava não voltar áquella casa maldita...—Mas que diabo queres tu? dizia-lhe o padre furioso. Onde nos havemos de vêr então? Queres que nos deitemos nos bancos da sacristia?—Mas que lhe fiz eu? que lhe fiz eu? exclamava Amelia, apertando as mãos.—Nada! É doida... E o pobre tio Esguelhas tem tido um desgosto... Emfim, que queres que lhe faça?Ella não respondia. Mas em casa, quando se ia aproximando o dia derendez-vous, começava a tremer á idéa d'aquella voz que lhe atroava sempre nos ouvidos e que sentia em sonhos. E este terror ia-a despertando lentamente do adormecimento detodo o sêr, era que cahira nos braços do parocho. Interrogava-se agora: não andaria commettendo um peccado irremissivel? As affirmações de Amaro, assegurando-lhe o perdão do Senhor, já não a tranquillisavam. Ella bem via, quando a Tótó uivava, uma pallidez cobrir o rosto do parocho, como correr-lhe no corpo um calefrio do inferno entrevisto. E se Deus os desculpava—porque deixava assim o demonio atirar-lhes, pela voz da paralytica, a injuria e o escarneo?Ajoelhava então aos pés da cama, arremessava orações sem fim para Nossa Senhora das Dôres, pedindo-lhe que a alumiasse, que lhe dissesse o que era aquella perseguição da Tótó, e se era sua intenção divina mandar-lhe assim um aviso medonho. Mas Nossa Senhora não lhe respondia. Não a sentia como outr'ora descer do céo ás suas orações, entrar-lhe na alma aquella tranquillidade suave como uma onda de leite que era uma visitação da Senhora. Ficava toda murcha, torcendo as mãos, abandonada da graça. Promettia então não voltar a casa do sineiro;—mas quando o dia chegava, á idéa d'Amaro, do leito, d'aquelles beijos que lhe levavam a alma, d'aquelle fogo que a penetrava, sentia-se toda fraca contra a tentação; vestia-se, jurando que era a ultima vez; e ao toque das onze partia, com as orelhas a arder, o coração tremendo da voz da Tótó que ia ouvir, as entranhas abrazando-se no desejo do homem que a ia atirar para cima da enxerga.Ao entrar na igreja não rezava, com medo dos santos.Corria para a sacristia para se refugiar em Amaro, abrigar-se á auctoridade sagrada da sua batina. Elle então, vendo-a chegar tão pallida e tão transtornada, galhofava para a tranquillisar. Não, era uma tolice, se iam agora estragar o regalosinho d'aquellas manhãs, porque havia uma doida na casa! Promettera-lhe de resto procurar outro sitio para se vêrem: e mesmo com o fim de a distrahir, aproveitando a solidão da sacristia, mostrava-lhe ás vezes os paramentos, os calices, as vestimentas, procurando interessal-a por um frontal novo ou por uma antiga renda de sobrepelliz, provando-lhe, pela familiaridade com que tocava nas reliquias, que era ainda o senhor parocho e não perdera o seu credito no céo.Foi assim que uma manhã lhe fez vêr uma capa de Nossa Senhora, que havia dias chegára de presente d'uma devota rica d'Ourem. Amelia admirou-a muito. Era de setim azul, representando um firmamento, com estrellas bordadas, e um centro, de lavor rico, onde flammejava um coração d'ouro cercado de rosas d'ouro. Amaro desdobrára-a, fazendo scintillar junto da janella os bordados espessos.—Rica obra, hein? centos de mil reis... Experimentamol-a hontem na imagem... Vai-lhe como um brinco. Um bocadito comprida, talvez...—E olhando Amelia, n'uma comparação da sua alta estatura com a figura atarracada da imagem da Senhora:—Ati é que te havia de ficar bem. Deixa vêr...Ella recuou:—Não, credo, que peccado!—Tolice! disse elle adiantando-se com a capa aberta, mostrando o forro de setim branco, d'uma alvura de nuvem matutina. Não está benzida... É como se viesse da modista.—Não, não, dizia ella frouxamente, com os olhos já luzidios de desejo.Elle então zangou-se. Queria talvez saber melhor do que elle o que era peccado, não? Vinha agora a menina ensinar-lhe o respeito que se deve aos vestuarios dos santos?—Ora não seja tola. Deixe vêr.Poz-lh'a nos hombros, apertou-lhe sobre o peito o fecho de prata lavrada. E afastou-se para a contemplar toda envolvida no manto, assustada e immovel, com um sorriso cálido de gozo devoto.—Oh filhinha, que linda que ficas!Ella então, movendo-se com uma cautela solemne, chegou-se ao espelho da sacristia—um antigo espelho de reflexo esverdeado com um caixilho negro de carvalho lavrado, tendo no topo uma cruz. Mirou-se um momento, n'aquella sêda azul celeste que a envolvia toda, picada do brilho agudo das estrellas, com uma magnificencia sideral. Sentia-lhe o peso rico. A santidade que o manto adquirira no contacto com os hombros da imagem penetrava-a d'uma voluptuosidade beata. Um fluido mais dôce que o ar da terra envolvia-a, fazia-lhe passar nocorpo a caricia do ether do paraiso. Parecia-lhe ser uma santa no andor, ou mais alto, no céo...Amaro babava-se para ella:—Oh filhinha, és mais linda que Nossa Senhora!Ella deu uma olhadella viva ao espelho. Era, decerto, linda. Não tanto como Nossa Senhora... Mas com o seu rosto trigueiro, de labios rubros, alumiado por aquelle rebrilho dos olhos negros, se estivesse sobre o altar, com cantos ao orgão e um culto susurrando em redor, faria palpitar bem forte o coração dos fieis...Amaro então chegou-se por detraz d'ella, cruzou-lhe os braços sobre o seio, apertou-a toda—e estendendo os labios por sobre os d'ella, deu-lhe um beijo mudo, muito longo... Os olhos d'Amelia cerravam-se, a cabeça inclinava-se-lhe para traz, pesada de desejo. Os beiços do padre não se desprendiam, avidos, sorvendo-lhe a alma. A respiração d'ella apressava-se, os joelhos tremiam-lhe: e com um gemido desfalleceu sobre o hombro do padre, descórada e morta de gozo.Mas endireitou-se de repente, fixou Amaro batendo as palpebras como acordada de muito longe; uma onda de sangue escaldou-lhe o rosto:—Oh Amaro, que horror, que peccado!...—Tolice! disse elle.Mas ella desprendia-se do manto, toda afflicta:—Tira-m'o, tira-m'o! gritava, como se a sêda a queimasse.Então Amaro fez-se muito sério. Realmente não se devia brincar com coisas sagradas...—Mas não está benzida... Não tem duvida...Dobrou o manto cuidadosamente, envolveu-o no lençol branco, collocou-o no gavetão, sem uma palavra. Amelia olhava-o petrificada: e só os seus labios pallidos se moviam n'uma oração.Quando elle lhe disse, emfim, que eram horas d'irem a casa do sineiro—recuou, como diante do demonio que a chamasse.—Hoje não! exclamou, implorando-o.Elle insistiu. Era levar realmente muito longe a pieguice... Ella bem sabia que não era peccado, quando as coisas não estavam benzidas... Era ser muito pobre d'espirito... Que demonio, só meia hora, ou um quarto d'hora!Ella, sem responder, ia-se aproximando da porta.—Então não queres?Ella voltou-se, e com uns olhos supplicantes:—Hoje não!Amaro encolheu os hombros. E Amelia atravessou rapidamente a igreja, de cabeça baixa e olhos nas lages, como se passasse entre as ameaças cruzadas dos santos indignados.No dia seguinte de manhã, a S. Joanneira, que estava na sala de jantar, sentindo o senhor conego subir soprando forte, veio encontral-o á escada e fechou-se com elle na saleta.Queria contar-lhe a afflicção que tivera de madrugada. A Amelia acordára de repente aos gritos, que Nossa Senhora lhe estava a pousar o pé no pescoço! que suffocava! que a Tótó a queimava por detraz! e que as labaredas do inferno subiam mais alto que as torres da Sé!... Emfim um horror!... Viera encontral-a em camisa a correr pelo quarto, como doida. D'ahi a pouco cahira para o lado com um ataque de nervos. Toda a casa estivera em alvoroço... A pobre pequena lá estava de cama, e em toda a manhã apenas tocára n'uma colher de caldo.—Pesadêlos, disse o conego. Indigestão!—Ai, senhor conego, não! exclamou a S. Joanneira, que parecia acabrunhada, sentada diante d'elle na borda d'uma cadeira. É outra coisa: são aquellas desgraçadas visitas á filha do sineiro!E então desabafou, com a effusão labial de quem abre os diques a um descontentamento accumulado. Nunca quizera dizer nada, porque emfim reconhecia que era uma grande obra de caridade. Mas, desde que aquillo começára, a rapariga parecia transtornada. Ultimamente, então, andava de todo. Ora alegrias sem razão, ora umas trombas de dar melancolia aos moveis. De noite sentia-a passear pela casa até tarde, abrir as janellas... Ás vezes tinha até medo de lhe vêr o olhar tão exquisito: quando vinha de casa do sineiro era sempre branca como a cal, a cahir de fraqueza. Tinha de tomar logo um caldo... Emfim, dizia-se que a Tótó tinha o demonio no corpo. E o senhor chantre, o outro quetinha morrido (Deus lhe falle n'alma), costumava dizer que n'este mundo as duas coisas que se pegavam mais ás mulheres eram tisicas e demonio no corpo. Parecia-lhe, pois, que não devia consentir que a pequena fosse a casa do sineiro, sem estar certa que aquillo nem lhe prejudicava a saude nem lhe prejudicava a alma. Emfim, queria que uma pessoa de juizo, d'experiencia, fosse examinar a Tótó...—N'uma palavra, disse o conego que escutára d'olhos cerrados aquella verbosidade repassada de lamuria, o que a senhora quer é que eu vá vêr a paralytica e saber á justa o que se passa...—Era um allivio p'ra mim, riquinho!Aquella palavra, que S. Joanneira, na sua gravidade de matrona, reservava para a intimidade das séstas, enterneceu o conego. Fez uma caricia ao pescoço gordo da sua velhota, prometteu com bondade ir estudar o caso...—Ámanhã, que a Tótó está só, lembrou logo a S. Joanneira.Mas o conego preferia que Amelia estivesse presente. Podia assim vêr como as duas se davam, se havia influencia do espirito maligno...—Que isto que eu faço é d'agradecer... É por ser p'ra quem é... Que bem me bastam os meus achaques, sem me occupar dos negocios de Satanaz.A S. Joanneira recompensou-o com uma beijoca sonora.—Ah, sereias, sereias!... murmurou o conego philosophicamente.No fundo aquelle encargo desagradava-lhe: era uma perturbação nos seus habitos, toda uma manhã desarranjada; ia decerto fatigar-se, tendo d'exercitar a sua sagacidade; além d'isso odiava o espectaculo de doenças e de todas as circumstancias humanas relacionadas com a morte. Mas, emfim, fiel á sua promessa, d'ahi a dias, na manhã em que fôra prevenido que Amelia ia á Tótó, arrastou-se contrariado para a botica do Carlos; e installou-se, com um olho noPopulare outro na porta, á espera que a raparigaatravessassepara a Sé. O amigo Carlos estava ausente; o snr. Augusto occupava os seus vagares sentado á escrivaninha, de testa sobre o punho, relendo o seu Soares de Passos; fóra, o sol já quente dos fins de abril fazia rebrilhar o lageado do largo; não passava ninguem; e só quebravam o silencio as martelladas nas obras do doutor Pereira. Amelia tardava. E o conego, depois de ter considerado longo tempo, com oPopularcahido nos joelhos, o medonho sacrificio que fazia pela sua velhota, ia cerrando as palpebras, já tomado da quebreira, n'aquelle repouso calado do meio dia proximo—quando entrou na botica um ecclesiastico.—Oh, abbade Ferrão, vossê pela cidade! exclamou o conego Dias despertando do seu quebranto.—De fugida, collega, de fugida, disse o outro collocando cuidadadosamente sobre uma cadeira dois grossos volumes que trazia, amarrados n'um barbante.Depois voltou-se e tirou com respeito o seu chapéo ao praticante.Tinha o cabello todo branco; devia passar já dos sessenta annos; mas era robusto, uma alegria bailava sempre nos seus olhinhos vivos, e tinha dentes magnificos a que uma saude de granito conservava o esmalte; o que o desfigurava era um nariz enorme.Informou-se logo com bondade se o amigo Dias estava alli de visita ou infelizmente por motivo de doença.—Não, estou aqui á espera... Uma embaixada de truz, amigo Ferrão!—Ah, fez o velho discretamente.—E emquanto tirava com methodo d'uma carteira atulhada de papeis a receita para o praticante, deu ao conego noticias da freguezia. Era lá, nos Poyaes, que o conego tinha a fazenda, a Ricoça. O abbade Ferrão passára de manhã diante da casa e ficára surprehendido vendo que lhe andavam a pintar a fachada. O amigo Dias tinha algumas idéas d'ir lá passar o verão?Não, não tinha. Mas como trouxera obras dentro e a fachada estava uma vergonha, mandára-lhe dar uma mão d'oca. Emfim era necessario alguma apparencia, sobretudo n'uma casa que estava á beira da estrada, onde passava todos os dias o morgadelho dos Poyaes, um parlapatão que imaginava que só elle tinha um palacete decente em dez leguas á roda... Só para metter ferro áquelle atheu! Pois não lhe parecia, amigo Ferrão?O abbade estava justamente lamentando comsigo aquelle sentimento de vaidade n'um sacerdote; mas, por caridade christã, para não contrariar o collega, apressou-se a dizer:—Está claro, está claro. A limpeza é a alegria das coisas...O conego então, vendo passar no largo uma saia e um mantelete, foi á porta affirmar-se se era Amelia. Não era. E voltando, retomado agora da sua preoccupação, vendo que o praticante fôra dentro ao laboratorio, disse ao ouvido do Ferrão:—Uma embaixada da fortuna! Vou vêr uma endemoninhada!—Ah, fez o abbade, todo sério á idéa d'aquella responsabilidade.—Quer vossê vir commigo, abbade? É aqui perto...O abbade desculpou-se polidamente. Viera fallar ao senhor vigario geral, fôra depois ao Silverio para lhe pedir aquelles dois volumes, vinha alli aviar uma receita para um velho da freguezia, e tinha d'estar de volta aos Poyaes ao toque das duas horas.O conego insistiu; era um instante, e o caso parecia curioso...O abbade então confessou ao caro collega que eram coisas que não gostava d'examinar. Aproximava-se sempre d'ellas com um espirito rebelde á crença, com desconfianças e suspeitas que lhe diminuiam a imparcialidade.—Mas emfim ha prodigios! disse o conego.—Apesardas suas proprias duvidas, não gostava d'aquella hesitação do abbade, a proposito d'um phenomeno sobrenatural, em que elle, conego Dias, estava interessado. Repetiu com seccura:—Tenho alguma experiencia, e sei que ha prodigios.—Decerto, decerto ha prodigios, disse o abbade. Negar que Deus ou a Rainha do céo possa apparecer a uma creatura é contra a doutrina da Igreja... Negar que o demonio possa habitar o corpo de um homem, seria estabelecer um erro funesto... Aconteceu a Job, sem ir mais longe, e á familia de Sara. Está claro, ha prodigios. Mas que rarissimos que são, conego Dias!Calou-se um momento olhando o conego, que tapava o nariz com rapé em silencio—e continuou mais baixo, com o olho brilhante e fino:—E depois não tem o collega notado que é uma coisa que só succede ás mulheres? É só a ellas, cujamaliciaé tão grande que o proprio Salomão não lhes pôde resistir, cujo temperamento é tão nervoso, tão contradictorio que os medicos não as comprehendem. É só a ellas que succedem prodigios!... O collega já ouviu de ter apparecido a nossa Santa Virgem a um respeitavel tabellião? Já ouviu d'um digno juiz de direito possuido do espirito maligno? Não. Isto faz reflectir... E eu concluo que é malicia n'ellas, illusão, imaginação, doença, etc... Não lhe parece? A minha regra n'esses casos é vêr tudo isso d'alto e com muita indifferença.Mas o conego, que vigiava a porta, brandiu subitamente o guardasol, fazendo para o largo:—Pst, pst! Eh lá!Era Amelia que passava. Parou logo, contrariada d'aquelle encontro que a ia ainda retardar mais. E já o senhor parocho devia estar desesperado...—De modo que, disse o conego á porta abrindo o seu guardasol, vossê, abbade, era lhe cheirando a prodigio...—Suspeito logo escandalo.O conego contemplou-o um momento, com respeito:—Vossê, Ferrão, é capaz de dar quinaus a Salomão em prudencia!—Oh, collega! oh, collega! exclamou o abbade, offendido com aquella injustiça feita á incomparavel sabedoria de Salomão.—Ao proprio Salomão! affirmou ainda o conego da rua.Tinha preparado uma historia habil para justificar a sua visita á paralytica; mas durante a sua conversação com o abbade ella escapára-lhe, como tudo o que deixava um momento nos reservatorios da memoria; e foi sem transição que disse simplesmente a Amelia:—Vamos lá, tambem quero ir vêr essa Tótó!Amelia ficou petrificada. E o senhor parocho, naturalmente, já lá estava! Mas sua madrinha Nossa Senhora das Dôres, que ella invocou logo n'aquellaafflicção, não a deixou enleada no embaraço.—E o conego, que caminhava ao lado d'ella, ficou surprehendido ouvindo-lhe dizer com um risinho:—Viva, hoje é o dia das visitas á Tótó! O senhor parocho disse-me que tambem talvez hoje apparecesse por lá... Talvez lá esteja até.—Ah! O amigo parocho tambem? Está bom, está bom. Faremos uma consulta á Tótó!Amelia então, contente da sua malicia, tagarellou sobre a Tótó. O senhor conego ia vêr... Era uma creatura incomprehensivel... Ultimamente, ella não tinha querido contar em casa, mas a Tótó tomára-lhe birra... E dizia coisas, tinha um modo de fallar de cães e d'animaes, d'arripiar!... Ai, era um encargo que já lhe pesava... Que a rapariga não lhe escutava as lições, nem as orações, nem os conselhos... Era uma fera!—O cheiro é desagradavel! rosnou o conego entrando.Que queria! A rapariga era uma porca, não havia tel-a arranjado. O pai, esse, um desleixado tambem...—É aqui, senhor conego, disse, abrindo a porta da alcova—que agora, em obediencia ás ordens do senhor parocho, o tio Esguelhas deixava sempre fechada.Encontraram a Tótó meio erguida sobre a cama, com a face accêsa n'uma curiosidade, áquella voz do conego que não conhecia.—Ora viva lá a snr.aTótó! disse elle da porta, sem se aproximar.—Vá, comprimenta o senhor conego, disse Amelia, começando logo, com uma caridade desacostumada, a compôr a roupa da cama, a arrumar a alcova. Dize-lhe como estás... Não te faças amuada!Mas a Tótó permaneceu tão muda como a imagem de S. Bento que tinha á cabeceira, examinando muito aquelle sacerdote tão gordo, tão grisalho, tão differente do senhor parocho... E os seus olhos, mais brilhantes todos os dias á medida que se lhe cavavam as faces, iam, como de costume, do homem para Amelia, n'uma anciedade de perceber porque o trazia ella alli, aquelle velho obeso, e se ia tambem subir com elle para o quarto.Amelia agora tremia. Se o senhor parocho entrasse, e alli, diante do cónego, a Tótó, tomada do seu phrenesi, rompesse aos gritos, tratando-os de cães!... Com o pretexto de dar uma arrumadella foi à cozinha vigiar o pateo. Faria um signal da janella, apenas Amaro apparecesse.E o conego, só na alcova da Tótó, preparando-se para começar as suas observações, ia perguntar-lhe quantas eram as pessoas da Santissima Trindade,—quando ella, adiantando a face, lhe disse n'uma voz subtil como um sôpro:—E o outro?O conego não comprehendeu. Que fallasse alto! Que era?—O outro, o que vem com ella!O conego chegou-se, com a orelha dilatada de curiosidade:—Que outro?—O bonito. O que vai com ella p'ró quarto. O que a belisca...Mas Amelia entrava: e a paralytica calou-se logo, repousada, com os olhos cerrados e respirando regaladamente, como n'um allivio repentino de todo o seu soffrimento. O conego, esse, immobilisado d'assombro, permanecia na mesma postura, dobrado sobre a cama como para ascultar a Tótó. Ergueu-se por fim, soprou como n'uma calma d'agosto, sorveu d'espaço uma pitada forte; e ficou com a caixa aberta entre os dedos, os olhos muito vermelhos cravados na colcha da Tótó.—Então, senhor conego, que lhe parece cá a minha doente? perguntou Amelia.Elle respondeu, sem a olhar:—Sim senhor, muito bem... Vai bem... É exquisita... Pois é andar, é andar... Adeus...Sahiu, resmungando que tinha negocios,—e voltou immediatamente á botica.—Um copo d'agua! exclamou, cahindo em cheio sobre a cadeira.

Laudo Deum, populum voco, congrego clerum.Defunctum ploro, pestem fugo, festa decoro...


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