Lembras-te d'esse tempo da delicias,Ó anjo feiticeiro, Amelia amada,Quando tudo eram risos e venturaE a vida nos corria socegada?Lembras-te d'essa noite de poesiaEm que a lua brilhava pelos céos,E nós unindo as almas, ó Amelia,Erguemos nossa prece para Deus?...Mas a despeito de todos os esforços nunca passára d'estas duas quadras—apesar de as ter produzido com uma facilidade promettedora—como se o seu sêr contivesse apenas estas duas gottas isoladas de poesia, e, soltas ellas á primeira pressão, nada mais restasse senão a sêcca prosa do temperamento carnal.E esta existencia varia relaxára-lhe tão subtilmente todo o machinismo da vontade e da acção,que qualquer trabalho que lhe pudesse encher a fastidiosa concavidade das horas infindaveis era-lhe odioso como o peso d'um fardo injusto. Preferia ainda os tedios da ociosidade aos tedios da occupação. A não serem os deveres estrictos que elle não podia desleixar sem escandalo e sem censura—desembaraçára-se, pouco a pouco, de todas as praticas do zelo interior: nem a oração mental, nem as visitas regulares ao Santissimo, nem as meditações espirituaes, nem o rosario á Virgem, nem a leitura á noite do Breviario, nem o exame de consciencia—todas estas obras da devoção, estes meios secretos de santificação progressiva substituia-os pelos infindaveis passeios pelo quarto, do lavatorio á janella, e por maços de cigarros fumados até ao negro dos dedos. A missa, pela manhã, era rapidamente engorolada; o serviço da parochia feito com surdas revoltas de impaciencia; tornára-se consummadamente oIndignus sacerdosdos ritualistas; e tinha na sua ampla totalidade os trinta e cinco defeitos e os sete meios defeitos que os theologos attribuem aomau padre.Só lhe restava através da sua sentimentalidade um appetite tremendo. E como a cozinheira era excellente, e a snr.aD. Maria da Assumpção, antes da sua partida para a Vieira, lhe deixára um fornecimento de cento e cincoenta missas a cruzado—banqueteava-se, tratando-se a gallinha e a geleia, regando-se d'um vinho picante da Bairrada que o padre-mestre lhe escolhera. E alli ficava á mesa, horas esquecidas,de perna esticada, fumando sobre o café, e lamentando não ter á mão a sua Ameliasita...—Que fará ella por lá, a pobre Ameliasita! pensava, espreguiçando-se com tedio e com langor.A pobre Ameliasita, na Ricoça, amaldiçoava a sua vida.Logo durante a jornada nochar-à-bancD. Josepha lhe fizera tacitamente sentir que d'ella não tinha a esperar nem a antiga amizade, nem o perdão do escandalo... E assim foi, quando se installaram. A velha tornou-se intratavel: era todo um modo cruel de abandonar otu, de a tratar pormenina; uma recusa rispida se Amelia lhe queria arranjar a almofada ou aconchegal-a no chale; um silencio reprehensivo quando ella lhe passava o serão no quarto, costurando; e a todo o momento allusões suspiradas ao triste encargo que Deus lhe mandava no fim dos seus dias...Amelia, comsigo, accusava o parocho: elle promettera-lhe que a madrinha seria toda caridade, toda cumplicidade; entregava-a por fim a uma semelhante ferocidade de velha virgem devota!...Quando se viu n'aquelle casarão da Ricoça, n'um quarto regelado, pintado a côr de canario, lugubremente mobilado com uma cama de docel e duas cadeiras de couro, chorou toda a noite com a cabeça, enterrada no travessseiro—torturada por um cão que debaixo das janellas, estranhando sem duvidaas luzes e o movimento na casa, uivou até de madrugada.Ao outro dia desceu á quinta a vêr os caseiros. Era talvez boa gente com quem podia distrahir-se. Encontrou uma mulher, alta e lugubre como um cypreste, carregada de luto: um grande lenço negro tingido, muito puxado para a testa, dava-lhe um ar de farricoco; e a sua voz gemebunda tinha uma tristeza de dobre a finados. O homem pareceu-lhe ainda peor, semelhante a um ourango-tango, com duas orelhas enormes muito despegadas do craneo, uma saliencia bestial de queixo, as gengivas deslavadas, um corpo desengonçado de tisico, de peito mettido para dentro. Abalou bem depressa, foi vêr o pomar: andava maltratado; as ruasitas estavam invadidas por um hervaçal humido; e a sombra das arvores muito juntas, n'um terreno baixo, cercado d'altos muros, dava uma sensação doentia.Era ainda preferivel passar os seus dias mettida no casarão; dias infindaveis em que as horas se iam movendo com o vagar fastidioso d'um desfilar funerario.O seu quarto era na frente; e pelas duas janellas recebia a impressão triste da paizagem que se estendia defronte, uma ondulação monotona de terras estereis com alguma magra arvore aqui e além, um ar abafado em que parecia errar constantemente a exhalação de paues proximos e de baixas humidas, e a que nem o sol de setembro dissipava o tom sezonatico.Logo pela manhã ia ajudar a levantar D. Josepha, accommodal-a no canapé; depois vinha costurar para ao pé d'ella—como outr'ora na rua da Misericordia para ao pé da mãi; mas agora em logar das boas «cavaqueiras» tinha só o silencio intratavel da velha e a sua ronqueira incessante. Pensára em fazer vir o seu piano da cidade; mas, apenas em tal fallou, a velha exclamou com azedume:—A menina está doida... Não tenho saude para tocatas! Ora o desproposito!A Gertrudes tambem não lhe fazia companhia; nas horas em que não estava ao pé da velha, ou na cozinha, desapparecia; era justamente d'aquella freguezia, e passava o seu tempo pelos casaes, palrando com as antigas visinhas.A peor hora era ao anoitecer. Depois de rezar o seu rozario, ficava junto á janella olhando estupidamente as gradações da luz poente; todos os campos pouco a pouco se perdiam no mesmo tom pardo; um silencio parecia descer, pousar sobre a terra; depois uma primeira estrellinha tremeluzia e brilhava; e diante d'ella era então só uma massa inerte de sombra muda até ao horisonte, aonde ainda ficava um momento uma delgada tira côr de laranja desbotada. O seu pensamento, sem nenhum tom de luz ou contorno de objecto em redor que o prendesse, ia muito saudoso para longe, para a Vieira; áquella hora a mãi e as amigas recolhiam do passeio na praia; já todas as redes estavam apanhadas; já pelos palheiros começam a apparecer as luzes; é a hora do chá,dos quinos alegres, quando os rapazes da cidade vão em rancho pelas casas amigas, com uma viola e uma flauta, improvisandosoirées. E ella alli, só!...Era então necessario deitar a velha, rezar com ella e com a Gertrudes o terço. Accendiam depois o candieiro de latão, pondo-lhe diante uma velha chapeleira para dar sombra ao rosto da doente; e todo o serão, no silencio lugubre, apenas se ouvia o rumor do fuso da Gertrudes que fiava agachada a um canto.Antes de se deitarem, iam trancar todas as portas, n'um medo constante de ladrões; e então começava para Amelia a hora dos terrores supersticiosos. Não podia adormecer, sentido ao pé a negrura d'aquellas antigas salas deshabitadas e em redor o tenebroso silencio dos campos. Ouvia ruidos inexplicaveis: era o soalho do corredor que estalava, sob passadas mulplicadas; era a luz da vela que de repente se dobrava como sob um halito invisivel; ou a distancia, para os lados da cozinha, o baque surdo d'um corpo. Accumulava então as orações, encolhida debaixo da roupa; mas, se adormecia, as visões do pesadêlo continuavam-lhe os terrores da vigilia. Uma vez acordára de repente, a uma voz que dizia, gemendo, por traz da alta barra da cama:—Amelia, prepara-te, o teu fim chegou!Espavorida, em camisa, atravessou correndo a casa, foi refugiar-se na cama da Gertrudes.Mas na noite seguinte a voz sepulchral voltou quando ella ia adormecer:Amelia, lembra-te dos teus peccados! Prepara-te, Amelia!Deu um grito, desmaiou.Felizmente a Gertrudes, que ainda se não deitára, correu áquelle ai agudo que cortára o silencio do casarão. Achou-a estirada ao través do leito, com os cabellos soltos da rede rojando no chão, as mãos geladas e como mortas. Desceu a acordar a mulher do caseiro, e até de madrugada foi uma azafama para a chamar á vida. Desde esse dia a Gertrudes dormia ao pé d'ella—e a voz não tornou a ameaçal-a por traz da barra.Mas, de noite e de dia, não a deixou mais a idéa da morte e o pavor do inferno. Por esse tempo, um vendedor ambulante d'estampas passou pela Ricoça; e a snr.aD. Josepha comprou-lhe duas lithographias—aMorte do Justoe aMorte do Peccador.—Que é bom que cada um tenha o exemplo vivo diante dos olhos, disse ella.Amelia não duvidou ao principio que a velha, que contava morrer no mesmo apparato de gloria com que expirava oJustoda estampa, lhe quizera mostrar a ella, apeccadora, a scena pavorosa que a esperava. Odiou-a por aquella «picardia». Mas a sua imaginação aterrada não tardou a dar á compra da estampa outra explicação: era Nossa Senhora que alli mandára o vendedor de pinturas, para lhe mostrar ao vivo na lithographia daMorte do Peccadoro espectaculo da sua agonia: e estava então certa que tudo seria assim, traço por traço—o seu anjo da guarda fugindo aos soluços; Deus-Padre desviando o rosto d'ella com repugnancia; o esqueleto da morte rindo ás gargalhadas; e demonios de côres rutilantes,com todo um arsenal de torturas, apoderando-se d'ella, uns pelas pernas, outros pelos cabellos, arrastando-a com uivos de jubilo para a caverna chammejante toda abalada da tormenta de rugidos que solta a Eterna Dôr... E ella podia vêr ainda, no fundo dos céos, a grande balança—com um dos pratos muito alto onde as suas orações não pesavam mais que uma penna de canario, e o outro prato cahido, de cordas retesadas, sustentando a enxerga da cama do sineiro e as suas toneladas de peccado.Cahiu então n'uma melancolia hysterica que a envelhecia; passava os dias suja e desarranjada, não querendo dar cuidado ao seu corpo peccador; todo o movimento, todo o esforço lhe repugnava; as mesmas orações lhe custavam, como se as julgasse inuteis; e tinha atirado para o fundo d'uma arca o enxoval que andava a costurar para o filho—porque o odiava, aquelle sêr que ella sentia mexer-se-lhe já nas entranhas e que era a causa da sua perdição. Odiava-o—mas menos que o outro, o parocho que lh'o fizera, o padre malvado que a tentára, a estragára, a atirára ás chammas do inferno! Que desespero quando pensava n'elle! Estava em Leiria socegado, comendo bem, confessando outras, namorando-as talvez—e ella alli sósinha, com o ventre condemnado e enfartado do peccado que elle lá depuzera, ia-se afundindo na perdição sempiterna!Decerto esta excitação a teria matado—se não fosse o abbade Ferrão que começára então a vir vêr muito regularmente a irmã do amigo conego.Amelia ouvira fallar muitas vezes n'elle na rua da Misericordia; dizia-se lá que o Ferrão tinha «idéas exquisitas»: mas não era possivel recusar-lhe nem a virtude da vida nem a sciencia de sacerdote. Havia muitos annos que era alli abbade; os bispos tinham-se succedido na diocese, e elle alli ficára esquecido n'aquella freguezia pobre, de congrua atrazada, n'uma residencia onde chovia pelos telhados. O ultimo vigario geral, que nunca dera um passo para o favorecer, dizia-lhe todavia, liberal de palavriado:—Vossê é um dos bons theologos do reino. Vossê está predestinado por Deus para um bispado. Vossê ainda apanha a mitra. Vossê ha de ficar na historia da Igreja portugueza como um grande bispo Ferrão!—Bispo, senhor vigario geral! Isso era bom! Mas era necessario que eu tivesse o arrojo d'um Affonso d'Albuquerque ou d'um D. João de Castro, para aceitar aos olhos de Deus semelhante responsabilidade!E alli ficára, entre gente pobre, n'uma aldeia de terra escassa, vivendo de dois pedaços de pão e uma chavena de leite, com uma batina limpa onde os remendos faziam um mappa, precipitando-se a uma meia legua por um temporal desfeito se um parochiano tinha uma dôr de dentes, passando uma hora a consolar uma velha a quem tinha morrido uma cabra... E sempre de bom humor, sempre com um cruzado no fundo do bolso dos calções para uma necessidade do seu visinho, grande amigo de todos os rapazitos a quem fazia botes de cortiça, e não duvidandoparar, se encontrava uma rapariga bonita, o que era raro na freguezia, e exclamar: «Linda moça, Deus a abençôe!»E todavia, em novo, a pureza dos seus costumes era tão celebre, que lhe chamavam «a donzella».De resto, padre perfeito no zelo da Igreja; passando horas d'estação aos pés do Santissimo Sacramento; cumprindo com uma felicidade fervente as menores praticas da vida devota; purificando-se para os trabalhos do dia com uma profunda oração mental, uma meditação de fé, d'onde a sua alma sahia mais agil, como d'um banho fortificante; preparando-se para o somno com um d'estes longos e piedosos exames de consciencia, tão uteis, que Santo Agostinho e S. Bernardo faziam do mesmo modo que Plutarcho e Seneca, e que são a correcção laboriosa e subtil dos pequenos defeitos, o aperfeiçoamento meticuloso da virtude activa, emprehendido com um fervor de poeta que revê um poema querido... E todo o tempo que tinha vago, abysmava-se n'um cahos de livros.Tinha só um defeito o abbade Ferrão: gostava de caçar! Cohibia-se, porque a caça tira muito tempo, e é sanguinario matar uma pobre ave que anda azafamada pelos campos nos seus negocios domesticos. Mas nas claras manhãs d'inverno, quando ainda ha orvalho nas giestas, se via passar um homem d'espingarda ao hombro, o passo vivo, seguido do seu perdigueiro—iam-se-lhe os olhos n'elle... Ás vezesporém, a tentação vencia: agarrava furtivamente a espingarda, assobiava áJanota, e com as abas do casacão ao vento, lá ia o theologo illustre, o espelho de piedade, através de campos e valles... E d'ahi a pouco—pum... pum! Uma codorniz, uma perdiz em terra! E lá voltava o santo homem com a espingarda debaixo do braço, os dois passaros na algibeira, cosendo-se com os muros, rezando o seu rosario á Virgem, e respondendo aosbons diasda gente pelo caminho com os olhos baixos e o ar muito criminoso.O abbade Ferrão, apesar do seu aspecto «gêbo» e do seu grande nariz, agradou a Amelia, logo desde a primeira visita á Ricoça; e a sua sympathia cresceu, quando viu que D. Josepha o recebia com pouco alvoroço, apesar do respeito que o mano conego tinha pela sciencia do abbade.A velha, com effeito depois de ter estado só com elle n'uma pratica d'horas, condemnára-o com uma unica palavra, na sua auctoridade de velha devota experiente:—É relaxado!Não se tinham realmente comprehendido. O bom Ferrão, tendo vivido tantos annos n'aquella parochia de quinhentas almas, as quaes cahiam todas, de mães a filhas, no mesmo molde de devoção simples a Nosso Senhor, Nossa Senhora e S. Vicente, patrono da freguezia, tendo pouca experiencia de confissão, encontrava-se subitamente diante d'uma alma complicada de devota de cidade, d'um beaterio caturrae atormentado; e ao ouvir aquella extraordinaria lista de peccados mortaes, murmurava espantado:—É estranho, é estranho...Percebera bem ao principio que tinha diante de si uma d'essas degenerações morbidas do sentimento religioso, que a theologia chamaDoença dos escrupulos—e de que na sua generalidade estão affectadas hoje todas as almas catholicas; mas depois, a certas revelações da velha, receou estar realmente em presença d'uma maniaca perigosa; e instinctivamente, com o singular horror que os sacerdotes têm pelos doidos, recuou a cadeira.Pobre D. Josepha! Logo na primeira noite em que chegára á Ricoça (contava ella), ao começar o rosario a Nossa Senhora, lembrára-lhe de repente que lhe esquecera o saiote de flanella escarlate, que era tão efficaz nas dôres das pernas... Trinta e oito vezes de seguida recomeçára o rosario, e sempre o saiote escarlate se interpunha entre ella e Nossa Senhora!... Então desistira, d'exhausta, d'esfalfada. E immediatamente sentira dôres vivas nas pernas, e tivera como uma voz de dentro a dizer-lhe que era Nossa Senhora por vingança a espetar-lhe alfinetes nas pernas...O abbade pulou:—Oh, minha senhora!...—Ai, não é tudo, senhor abbade!Havia outro peccado que a torturava: quando rezava, às vezes, sentia vir a expectoração; e, tendo ainda o nome de Deus ou da Virgem na bôca, tinhade escarrar; ultimamente engulia o escarro, mas estivera pensando que o nome de Deus ou da Virgem lhe descia d'embrulhada para o estomago e se ia misturar com as fezes! Que havia de fazer?O abbade, d'olhar esgazeado, limpava o suor da testa.Mas isto não era o peor: o grave era, que na noite antecedente estava toda socegada, toda em virtude, a rezar a S. Francisco Xavier—e de repente, nem ella soube como, põe-se a pensar como seria S. Francisco Xavier nú em pêllo!O bom Ferrão não se moveu, atordoado. Emfim, vendo-a a olhar anciosa para elle, á espera das suas palavras e dos seus conselhos, disse:—E ha muito que sente esses terrores, essas duvidas...?—Sempre, senhor abbade, sempre!—E tem convivido com pessoas que, como a senhora, são sujeitas a essas inquietações?—Todas as pessoas que conheço, duzias d'amigas, todo o mundo... O Inimigo não me escolheu só a mim... A todos se atira...—E que remedio dava a essas anciedades d'alma...?—Ai, senhor abbade, aquelles santos da cidade, o senhor parocho, o snr. Silverio, o snr. Guedes, todos, todos nos tiravam sempre d'embaraços... E com uma habilidade, com uma virtude...O abbade Ferrão ficou calado um momento: sentia-setriste, pensando que por todo o reino tantos centenares de sacerdotes trazem assim voluntariamente o rebanho n'aquellas trevas d'alma, mantendo o mundo dos fieis n'um terror abjecto do céo, representando Deus e os seus santos como uma côrte que não é menos corrompida nem melhor que a de Caligula e dos seus libertos.Quiz então levar áquelle nocturno cerebro de devota, povoado de phantasmagorias, uma luz mais alta e mais larga. Disse-lhe que todas as suas inquietações vinham da imaginação torturada pelo terror d'offender a Deus... Que o Senhor não era um amo feroz e furioso, mas um pai indulgente e amigo... Que é por amor que é necessario servil-o, não por medo... Que todos esses escrupulos, Nossa Senhora a enterrar alfinetes, o nome de Deus a cahir no estomago, eram perturbações da razão doente. Aconselhou-lhe confiança em Deus, bom regimen para ganhar forças. Que não se cansasse em orações exageradas...—E quando eu voltar, disse emfim erguendo-se e despedindo-se, continuaremos a conversar sobre isto, e havemos de serenar essa alma.—Obrigada, senhor abbade, respondeu a velha sêccamente.E apenas a Gertrudes d'ahi a pouco entrou a trazer-lhe a botija para os pés, D. Josepha exclamou, toda indignada, quasi choramingando:—Ai, não presta p'ra nada, não presta p'ra nada!...Não me percebeu... É um tapado... É um pedreiro-livre, Gertrudes! Que vergonha n'um sacerdote do Senhor...Desde esse dia não tornou a revelar ao abbade os peccados medonhos que continuava a commetter; e quando elle, por dever, quiz recomeçar a educação da sua alma, a velha declarou-lhe sem rodeios que, como se confessava com o senhor padre Gusmão, não sabia se seria delicado receber d'outro a direcção moral...O abbade fez-se vermelho, respondeu:—Tem razão, minha senhora, tem razão, deve-se ter muita delicadeza n'essas coisas...Sahiu. E d'ahi por diante, depois de ter entrado no quarto a saber-lhe da saude, de ter fallado do tempo, da estação, das doenças que iam, d'alguma festa na igreja,—apressava-se em se despedir e ir para o terraço conversar com Amelia.Vendo-a sempre tão tristonha, interessára-se por ella; para Amelia, as visitas do abbade eram uma distracção, n'aquella solidão da Ricoça; e assim se iam familiarisando, a ponto que nos dias em que elle regularmente vinha, Amelia punha um mantelete e ia pelo caminho dos Poyaes esperal-o até junto á casa do ferrador. As conversas do abbade, fallador incansavel, entretinham-na, tão differentes dos mexericos da rua da Misericordia,—como o espectaculo d'um largo valle com arvores, plantações, aguas, pomares e rumor de lavouras, recreia os olhos habituados ás quatro paredes caiadas d'uma trapeirada cidade. Tinha com effeito uma d'estas conversações semelhantes aosjornaes semanaes de recreio, oThesouro das familiasou asLeituras para serões, em que de ha tudo—doutrina moral, historias de viagens, anecdotas dos grandes homens, dissertações sobre a lavoura, citação d'uma boa chalaça, traços sublimes da vida d'um santo, um verso aqui e além, e até receitas, como uma muito util que deu a Amelia para lavar as flanellas sem encolherem. Só era monotono quando fallava da sua familia parochiana, dos casamentos, baptisados, doenças, questões, ou quando começava as suas historias de caça.—Uma vez, minha rica senhora, ia eu pelo Corrego das Tristes, quando uma revoada de perdizes...Amelia sabia que, pelo menos uma hora, tudo seriam façanhas daJanota, pontarias fabulosas contadas em mimica, com imitações de vozes de passaros, epum, pumde fusilaria. Ou então eram descripções das caçadas selvagens que elle lêra com gula—a caça ao tigre do Nepal, ao leão d'Argelia e ao elephante, historias ferozes que arrastavam a imaginação da rapariga para longe, para os paizes exoticos onde a herva é alta como os pinheiros, o sol queima como um ferro em braza, e entre cada ramagem reluzem os olhos d'uma fera... E depois, a proposito de tigres e de malaios, lembrava-lhe uma historia curiosa de S. Francisco Xavier, e eil-o lançado, o terrivel palrador, na descripção dos feitos da Asia, das armadas da India e das estocadas famosas do cerco de Diu!Foi mesmo um d'esses dias, no pomar, em que o abbade, tendo começado por enumerar as vantagens que o conego tiraria de transformar o pomar em terra de lavoura, acabára por contar perigos e valores dos missionarios da India e do Japão—que Amelia, então em toda a intensidade dos seus terrores nocturnos, fallou dos ruidos que ouvia na casa e dos sobresaltos que lhe davam.—Oh, que vergonha! disse o abbade rindo; uma senhora da sua idade ter medo de papões...Ella então, attrahida por aquella bondade do senhor abbade, contou-lhe as vozes que ouvia de noite por detraz da barra da cama.O abbade pôz-se sério:—Minha senhora, isso são imaginações que deve a todo o custo dominar... Decerto tem havido prodigios no mundo, mas Deus não se põe assim a fallar a qualquer, por detraz das barras das camas, nem permitte ao demonio que o faça... Essas vozes, se as ouve, e se os seus peccados são grandes, não vêm de detraz da cama, vêm-lhe de si mesmas, da sua consciencia... E póde então fazer dormir ao pé de si a Gertrudes, e cem Gertrudes, e todo o batalhão de infanteria, que as ha de continuar a ouvir... Havia de as ouvir, mesmo que fosse surda. O que é necessario é calmar a consciencia que reclama penitencia e purificação...Tinham subido ao terraço, fallando assim: e Amelia sentára-se fatigada n'um dos bancos de pedra que alli havia, e ficára a olhar a quinta ao longe,os tectos dos curraes, a longa rua de loureiros, a eira, e a distancia os campos que se succediam planos e avivados do tom humido que lhes dera a chuva ligeira da manhã: agora a tarde estava d'uma placidez clara, sem vento, com grandes nuvens paradas que o sol do poente tocava de vivos côr de rosa tenro... Pensava n'aquellas palavras tão sensatas do abbade, no descanso que gozaria se cada peccado que lhe pesava na alma como um penedo se tornasse ligeiro e se dissipasse sob a acção da penitencia. E vinham-lhe desejos de paz, d'um repouso igual á quietação dos campos que se estendiam diante d'ella.Um passaro cantou, depois calou-se; e recomeçou d'ahi a um momento com um trinado tão vibrante, tão alegre, que Amelia sorria, escutando-o.—É um rouxinol...—Os rouxinoes não cantam a esta hora, disse o abbade. É um melro... Ahi está um que não tem medo de phantasmas, nem ouve vozes... Olha que enthusiasmo, o maganão!Era com effeito um gorgear triumphante, um delírio de melro feliz, que dera de repente a todo o pomar uma sonoridade festiva.E Amelia, diante d'aquelle chilrear glorioso d'um passaro contente, subitamente, sem razão, n'um d'estes abalos nervosos que vem às mulheres hystericas, rompeu a chorar.—Então, que é isso, que é isso? fez o abbade muito surprehendido.Tomou-lhe a mão, com uma familiaridade de velho e d'amigo, calmando-a.—Que infeliz que sou!... murmurou ella aos soluços.Elle então muito paternal:—Não tem razão para o ser... Sejam quaes forem as afflicções, as inquietações, uma alma christã tem sempre a consolação á mão... Não ha peccado que Deus não perdôe, nem dôr que não calme, lembre-se d'isso... O que não deve é guardar em si o seu desgosto... É isso que a suffoca, que a faz chorar... Se eu lhe posso valer, socegal-a, é procurar-me...—Quando? disse ella toda desejosa já de se refugiar na protecção d'aquelle santo homem.—Quando quizer, disse elle rindo. Eu não tenho horas para consolar... A igreja está sempre aberta, Deus está sempre presente...Ao outro dia cedo, antes da hora em que a velha se erguia, Amelia foi á residencia; e durante duas horas esteve prostrada diante do pequeno confessionario de pinho—que o bom abbade por suas mãos pintára d'azul escuro, com extraordinarias cabecinhas d'anjos que em logar d'orelhas tinham azas, uma obra d'alta arte de que elle fallava com uma secreta vaidade.XXIIIO padre Amaro acabára de jantar, e fumava, com os olhos no tecto, para não vêr o carão chupado do coadjutor que havia meia hora alli estava, immovel e espectral, fazendo cada dez minutos uma pergunta que cahia no silencio da sala como os quartos melancolicos que dá de noite um relogio de cathedral.—O senhor parocho já não é assignante daNação?—Não senhor, leio oPopular.O coadjutor recahiu no silencio, começando logo a colligir laboriosamente as palavras para uma nova pergunta. Soltou-a emfim, com lentidão:—Não se tornou a saber d'aquelle infame que escreveu oCommunicado?—Não senhor, foi para o Brazil.A criada entrou, n'este momento, dizendo que «estava alli uma pessoa que queria fallar ao senhor parocho». Era a sua maneira d'annunciar a presença de Dionysia na cozinha.Havia semanas que ella não apparecia—e Amaro, curioso, sahiu logo da sala fechando a porta sobre si, e chamou a matrona ao patamar.—Grande novidade, senhor parocho! E vim a correr, que é sério. Está cá o João Eduardo!—Ora essa! exclamou o parocho. E eu justamente a fallar d'elle! É extraordinario! Olha que coincidencia...—É verdade, vi-o hoje. Fiquei banzada... E já estou informada de tudo. O homem está mestre dos filhos do Morgadinho.—Que Morgadinho?—O Morgadinho dos Poyaes... Se vive lá, ou se vai pela manhã e vem á noite, isso não sei. O que sei é que voltou... E janota, fato novo... Eu entendi que devia avisar, porque póde estar certo que elle, mais dia menos dia, dá pela Ameliasinha lá na Ricoça... É no caminho p'ra casa do Morgado... Que lhe parece?...—Forte besta! rosnou Amaro com rancor. Quando não serve é que apparece. Então por fim não foi para o Brazil?—Pelos modos, não... Que a sombra d'elle não era, era elle mesmo em carne e osso... A sahir da loja do Fernandes por signal, e todo peralta... Sempreé bom avisar a rapariga, senhor parocho, que se não vá ella plantar de janella...Amaro deu-lhe as duas placas que ella esperava—e d'ahi a um quarto d'hora, desembaraçado do coadjutor, ia no caminho da Ricoça.Batia-lhe forte o coração quando avistou o casarão amarello, pintado de novo, o largo terraço lateral em linha com o muro do pomar, ornado d'espaço a espaço no parapeito de vasos nobres de pedra. Ia emfim, depois de tão longas semanas, vêr a sua Ameliasinha! E já se alvoroçava á idéa das exclamações apaixonadas com que ella lhe cahiria nos braços.Ao rez do chão eram as cavallariças, do tempo da familia morgada que outr'ora alli habitára, agora abandonadas ás ratazanas e aos tortulhos, recebendo a luz por estreitas janellas gradeadas que quasi desappareciam sob camadas de teias de aranha; entrava-se por um immenso pateo escuro, onde havia longos annos se acastellava a um canto toda uma montanha de pipas vazias; e o lance d'escadaria nobre, que levava aos aposentos, era á direita, flanqueado de dois leõesinhos de pedra, benignos e somnolentos.Amaro subiu até um sotão de tecto de carvalho apainelado, sem mobilia, com a metade do soalho coberta de feijão sêcco.E, embaraçado, bateu as palmas.Uma porta abriu-se. Amelia appareceu um instante, toda despenteada e em saia branca; deu um gritinho, bateu com a porta—e o parocho sentiu-a fugir para o interior do casarão. Ficou muito desconsolado no meio do salão, com o seu guardasol debaixo do braço, pensando na boa familiaridade com que entrava na rua da Misericordia—que até pareciam as portas abrir-se de si mesmo e o papel das paredes clarear-se d'alegria.Ia bater as palmas outra vez, já quesilado, quando a Gertrudesappareceu.—Oh, senhor parocho! Entre, senhor parocho! Ora até que emfim! Minha senhora, é o senhor parocho!—gritava, na alegria de vêr emfim uma visita querida, um amigo da cidade, n'aquelle desterro da Ricoça.Levou-o logo para o quarto de D. Josepha, ao fundo da casa, um quarto enorme, onde, n'um pequeno canapé perdido a um canto, a velha passava os dias encolhida no seu chale, com os pés embrulhados n'um cobertor.—Oh, D. Josepha! Como está? Como está?Ella não pôde responder, tomada d'um accesso de tosse que lhe dera a commoção da visita.—Como vê, senhor parocho, murmurou emfim muito fraca. Para aqui vou, arrastando esta velhice. E vossa senhoria? Porque não tem apparecido?Amaro desculpou-se vagamente com os afazeres da Sé. E comprehendia agora, ao vêr aquella faceamarella e cavada, com uma medonha touca de rendas negras, que tristes horas Amelia alli devia passar. Perguntou por ella; avistára-a de longe, mas ella deitára a fugir...—É que não estava decente para apparecer, disse a velha. Hoje foi dia de barrela.Amaro quiz então saber em que se entretinham, como passavam os dias n'aquella solidão...—Eu para aqui estou. A pequena para ahi anda.Depois de cada palavra, parecia abater-se n'uma fadiga e a sua ronqueira crescia.—Então não se tem dado bem com a mudança, minha senhora?Ella disse que não, n'um movimento de cabeça.—Deixe fallar, senhor parocho, acudiu a Gertrudes que ficára de pé, ao lado do canapé, gozando a presença do senhor parocho.—Deixe fallar... É que a senhora exagera tambem... Levanta-se todos os dias, dá o seu passeinho até á sala, come a sua azita de frango... Temol-a aqui, temol-a arribada... É o que diz o senhor abbade Ferrão, a saude foge a toda a brida e para voltar vem a passo...A porta abriu-se. Amelia appareceu, muito escarlate, com o seu antigo robe-de-chambre de merino rôxo, o cabello arranjado á pressa.—Desculpe, senhor parocho, balbuciou, mas hoje tem sido um dia de balburdia...Elle apertou-lhe a mão gravemente: e ficaram calados, como se estivessem separados pela distancia d'um deserto. Ella não tirava os olhos do chão, enrolandocom a mão tremula uma ponta da manta de lã que trazia solta pelos hombros. Amaro achava-a mudada, um pouco inchada das faces, com uma ruga de velhice aos cantos da bôca. Para romper aquelle silencio estranho, perguntou-lhe tambem se se dava bem...—Para aqui vou indo... É um pouco triste isto. É como diz o senhor abbade Ferrão, é muito grande para a gente se sentir em familia.—Ninguem veio para aqui para se divertir, disse a velha sem descerrar as palpebras, com uma voz sêcca que perdera toda a fadiga.Amelia baixou a cabeça, fazendo-se pallida.Amaro então, comprehendendo n'um relance que a velha torturava Amelia, disse com muita severidade:—É verdade, não foi para se divertirem... Mas tambem não foi para se entristecerem de proposito... Pôr-se uma pessoa de mau humor e fazer aos outros a vida negra, é uma falta horrivel de caridade; não ha peccado peor aos olhos do Senhor... É indigno da graça de Deus quem tal pratica...A velha rompeu a choramingar, muito excitada:—Ai, o que Deus me guardou para os ultimos annos da vida...Gertrudes amimou-a. Então, senhora, que até lhe fazia peor estar a affligir-se assim... Ora o disparate! Tudo se havia de remediar com a ajuda de Deus. Saude não havia de faltar, nem alegria...Amelia chegára-se á janella, decerto para esconder tambem as lagrimas que lhe saltavam dos olhos. E o parocho, consternado com a scena, começou a dizer que D. Josepha não estava supportando com a verdadeira resignação d'uma christã aquelles dias de doença... Nada escandalisava mais Nosso Senhor que vêr as creaturas revoltarem-se contra as dôres ou os encargos que elle mandava... Era insultar a justiça dos seus decretos...—Tem razão, senhor parocho, tem razão, murmurou a velha muito contrita. Eu ás vezes nem sei o que digo... São coisas da doença.—Bem, bem, minha senhora, é resignar-se e tratar de vêr tudo côr de rosa. É o sentimento que Deus mais aprecia. Eu comprehendo que é duro, estar para aqui enterrada...—É o que diz o senhor abbade Ferrão, acudiu Amelia voltando da janella, a madrinha estranha... Assim arrancada aos habitos de tantos annos...Notando então a citação repetida das palavras do abbade Ferrão, Amaro perguntou se elle costumava vir vêl-as...—Ai, tem-nos feito muita companhia, disse Amelia. Vem quasi todos os dias.—É um santo! exclamou a Gertrudes.—Decerto, decerto, murmurou Amaro descontente d'um enthusiasmo tão vivo. Pessoa de muita virtude...—De muita virtude, suspirou a velha. Mas...—Calou-se, não ousando decerto exprimir as suasreservas de devota.—E exclamou n'uma supplica:—Ai, o senhor parocho é que devia vir por aqui, ajudar-me a levar esta cruz da doença...—Hei de vir, minha senhora, hei de vir. É bom para a distrahir, para lhe dar as noticias... E a proposito, tive hontem carta do nosso conego.Rebuscou na algibeira, leu alguns periodos da carta. O padre-mestre já tinha quinze banhos. A praia estava cheia de gente. A D. Maria passára doente com um furunculo. O tempo famoso. Todas as tardes grandes passeatas a vêr recolher as rêdes. A S. Joanneira, boa, mas fallando sempre na filha...—Pobre mamã... choramingou Amelia.Mas a velha não se interessava com as novidades, gemendo a sua ronqueira. Foi Amelia que perguntou pelos amigos de Leiria, pelo senhor padre Natario, pelo senhor padre Silverio...Ia escurecendo já: a Gertrudes fôra preparar o candieiro. Amaro emfim ergueu-se:—Pois, minha senhora, até outro dia. Esteja certa que hei de apparecer de vez em quando. E nada d'affligir... Agasalho, boa dieta, e a misericordia de Deus não a ha de abandonar...—Não nos falte, senhor parocho, não nos falte!...Amelia estendera-lhe a mão, para se despedir alli no quarto; mas Amaro gracejando:—Se não lhe causa incommodo, menina Amelia, sempre é bom vir mostrar-me o caminho, que eu perco-me n'este casarão.Sahiram ambos. E apenas no salão, a que as tres largas vidraças davam ainda uma claridade:—A velha faz-te a vida negra, filha, disse Amaro parando.—Que mereço eu mais? respondeu ella baixando os olhos.—Desavergonhada, eu lh'as cantarei!... Minha Ameliasinha, se soubesses o que me tem custado...E fallando, ia abraçal-a pelo pescoço.Mas ella recuou, toda perturbada.—Que é isso? fez Amaro assombrado.—O quê?—Esse modo! Tu não me queres dar um beijo, Amelia? Tu estás doida?Ella ergueu as mãos para elle, n'uma supplicação anciosa, fallando toda tremula:—Não, senhor parocho, deixe-me! Isso acabou. Bem basta o que peccamos... Quero morrer na graça de Deus... Que nunca mais se falle em semelhante coisa!... Foi uma desgraça... Acabou-se... Agora o que quero é o socego de minha alma...—Tu estás tola! Quem te metteu isso na cabeça? Ouve cá...Foi para ella outra vez, com os braços abertos.—Não me toque, pelo amor de Deus,—e vivamente recuou até á porta.Elle olhou-a um momento, n'uma cólera muda.—Bem, como queira, disse por fim. Em todo o caso, quero prevenil-a que o João Eduardo voltou,que passa aqui todos os dias, e que é bom não se pôr de janella.—Que me importa a mim o João Eduardo e os outros e tudo o que passou?...Elle acudiu, trasbordando d'um sarcasmo amargo:—Está claro, agora o grande homem é o senhor abbade Ferrão!—Devo-lhe muito, é o que sei...A Gertrudes n'este momento entrava com o candieiro accêso. E Amaro, sem se despedir d'Amelia, abalou, de guardachuva em riste, rilhando os dentes de raiva.Mas a longa caminhada até á cidade calmou-o. Aquillo na rapariga por fim era apenas um accesso de virtude e d'escrupulos! Vira-se alli só n'aquelle casarão, amargurada pela velha, impressionada pelos palavrões do moralista Ferrão, longe d'elle, e tinha-lhe vindo aquella reacção de devota com os seus terrores do outro-mundo e appetites de innocencia... Chalaça! Se elle começasse a ir á Ricoça, n'uma semana reganhava todo o seu dominio... Ah, conhecia-a bem! Era só tocar-lhe, piscar-lhe o olho... Estava logo rendida.Passou porém uma noite inquieta, desejando-a mais que nunca. E ao outro dia á uma hora marchou para a Ricoça, levando-lhe um ramo de rosas.A velha ficou toda contente ao vêl-o. É que lhedava saude a presença do senhor parocho! E se não fosse a distancia havia de lhe pedir a esmola de vir todas as manhãs. Até depois d'aquella visitinha rezava com mais fervor...Amaro sorria, distrahido, com os olhos cravados na porta.—E a menina Amelia? perguntou por fim.—Sahiu... Isso agora todas as manhãs é a passeata, disse a velha com azedume. Vai á residencia, é tôda do abbade...—Ah! fez Amaro com um sorriso livido. Nova devoção, hein?... é pessoa de muitos meritos, o abbade.—Ai, não presta, não presta! exclamou D. Josepha. Não me percebe. Tem idéas muito exquisitas. Não dá virtude...—Homem de livros... disse Amaro.Mas a velha erguera-se sobre o cotovêlo, e baixando a voz, com o magro carão accêso em odio:—E aqui p'ra nós, a Amelia tem-se portado muito mal! Nunca lh'o hei de perdoar... Confessou-se ao abbade... É uma indelicadeza, sendo a confessada do senhor parocho, não tendo recebido de vossa senhoria senão favores... É uma ingrata, é uma traiçoeira!...Amaro fizera-se pallido.—Que me diz a senhora?—A verdade! Que ella não o nega. Até se orgulha! É uma perdida, é uma perdida! Depois do favor que lhe estamos a fazer...Amaro disfarçou a indignação que o revolvia. Riu até. Era necessario não exagerar... Não havia ingratidão. Era uma questão de fé. Se a rapariga pensava que o abbade a podia dirigir melhor, tinha razão em se abrir com elle... O que todos queriam é que ella salvasse a sua alma... Que fosse pela direcção de fulano ou sicrano, isso não importava... E nas mãos do abbade estava bem.E chegando vivamente a cadeira para o leito da velha:—E então agora, todas as manhãs vai à residencia?—Quasi todas... Que ella não ha de tardar, vai depois d'almoço, volta sempre a esta hora... Ai, tem-me causado isto um desgosto!...Amaro deu um passeiosinho nervoso pelo quarto, e estendendo a mão á velha:—Pois minha senhora, eu não me posso demorar, que vim de fugida... Até um dia cedo.E sem escutar a velha, que lhe pedia com anciedade que ficasse para jantar—-desceu os degraus como uma pedra que rola, metteu furioso pelo caminho da residencia, ainda com o seu ramo na mão.Esperava encontrar Amelia na estrada; e não tardou em a avistar quasi ao pé da casa do ferreiro, agachada ao pé do vallado, apanhando sentimentalmente florinhas silvestres.—Que fazes tu aqui? exclamou, chegando junto d'ella.Ella ergueu-se, com um gritinho.—Que fazes tu aqui!? repetiu.Áquelletu, e áquella voz colerica, ella poz rapidamente um dedo na bôca, assustada. O senhor abbade estava dentro da casa com o ferreiro...—Ouve lá, disse Amaro com os olhos chammejantes, agarrando-lhe o braço—tu confessaste-te ao abbade?...—P'ra que quer saber? Confessei... Não é vergonha nenhuma...—Mas confessastetudo, tudo? perguntou elle com os dentes cerrados de raiva.Ella perturbou-se, e tratando-o ainda portu:—Foste tu que me disseste muitas vezes... Que era o maior peccado n'este mundo, esconder alguma coisa ao confessor!—Bebeda! rugiu Amaro.Os seus olhos devoravam-na. E, através da nevoa de cólera que lhe enchia o cerebro e lhe fazia latejar as veias na fronte, achava-a mais bonita, com umas redondezas em todo o corpo que ardia por abraçar, com uns labios vermelhos avivados pelo largo ar do campo que elle queria morder até ao sangue.—Ouve, disse-lhe cedendo a uma invasão brutal do desejo. Ouve... Acabou-se, não me importa. Confessa-te ao diabo se te agrada... Mas has de ser a mesma para mim!—Não, não! disse ella com força, desprendendo-se, prompta a fugir para casa do ferreiro.—Tu m'as pagarás, maldita!—rosnou o padre por entre dentes, voltando as costas, descendo o caminho com passadas de desesperado.E não abrandou o passo até á cidade, levado de um impulso d'indignação que, sob aquella dôce paz d'um meio d'outono, lhe suggeria planos de vinganças ferozes. Chegou a casa esfalfado, ainda com o ramo na mão. Mas ahi, na solidão do quarto, veio-lhe pouco a pouco o sentimento da sua impotencia. Que lhe podia fazer por fim? Ir pela cidade dizer que ella estava gravida? Seria denunciar-se a si. Espalhar que estava amigada com o abbade Ferrão? Era absurdo: um velho de quasi setenta annos, d'uma fealdade de caricatura, com todo um passado de virtude santa... Mas perdel-a, não tornar a ter nos braços aquelle corpo de neve, não ouvir mais aquellas ternuras balbuciadas que lhe arrebatavam a alma para alguma coisa de melhor que o céo... Isso não!E era possivel que ella, em seis ou sete semanas, tivesse assim esquecido tudo? N'aquellas longas noites na Ricoça, só na cama, não lhe viria uma recordação das manhãs no quarto do tio Esguelhas?... Decerto: elle sabia-o da experiencia de tantas confessadas que lhe tinham revelado afflictas a tentação muda e teimosa que não deixa a carne que uma vez peccou...Não: devia perseguil-a, e por todos os modos soprar-lhe aquelle desejo que agora ardia n'elle mais alto e mais ruidoso.Passou a noite a escrever-lhe uma carta de seis paginas, absurda, cheia d'implorações apaixonadas, de argucias mysticas, de pontos d'exclamação e de ameaças de suicidio...Mandou-a ao outro dia cedo, pela Dionysia. A resposta veio só á noite, por um rapazito da quinta. Com que sofreguidão rasgou o sobrescripto! Eram apenas estas palavras: «Peço-lhe que me deixe em paz com os meus peccados.»Não desistiu: ao outro dia lá estava na Ricoça a visitar a velha. Amelia achava-se no quarto de D. Josepha, quando elle appareceu. Fez-se muito pallida; mas os seus olhos não deixaram a costura—durante a meia hora que elle alli ficou, ora n'um silencio sombrio acabrunhado para o fundo da poltrona, ora respondendo distrahidamente á tagarellice da velha, muito falladora essa manhã.E na semana seguinte foi o mesmo: se o ouvia entrar fechava-se rapidamente no quarto: só vinha, se a velha mandava a Gertrudes dizer-lhe «que estava alli o senhor o parocho que a queria vêr». Ia então, estendia-lhe a mão, que elle achava sempre a escaldar—e tomando a sua eterna costura, junto da janella, ia picando o posponto com uma taciturnidade que desesperava o padre.Tinha-lhe escripto outra carta. Ella não respondera.Então jurava não voltar á Ricoça, desprezal-a,—mas depois de ter passado a noite, rolando-se pela cama sem poder dormir, com a mesma visão danudez d'ella cravada intoleravelmente no cerebro, lá partia de manhã para a Ricoça, córando quando o apontador das obras na estrada, que o via passar todos os dias, lhe tirava o seu boné d'oleado.N'uma tarde que choviscava, ao entrar no casarão, dera com o abbade Ferrão que á porta abria o seu guardachuva.—Olá, por aqui, senhor abbade! disse elle.O abbade respondeu naturalmente:—Em vossa senhoria é que não ha que estranhar, que vem por aqui todos os dias...Amaro não se conteve; e tremendo de cólera:—E que lhe importa ao senhor abbade se eu venho ou não? A casa é sua?Aquella brutalidade tão injustificavel offendeu o abbade:—Pois era melhor para todos que não viesse...—E porque, senhor abbade? e porque?—gritou Amaro, perdido.Então o bom homem estremeceu. Commettera, alli, a culpa mais grave do sacerdote catholico: o que sabia d'Amaro, dos seus amores, era em segredo de confissão; e era trahir o mysterio do sacramento, mostrar que desapprovava aquella insistencia no peccado. Tirou muito baixo o seu chapéo e disse humildemente:—Tem vossa senhoria razão. Peço perdão do que disse, sem reflectir. Muito boas tardes, senhor parocho.—Muito boas tardes, senhor abbade.Amaro não entrou na Ricoça. Voltou para a cidade sob a chuva que batia forte agora. E, apenas em casa, escreveu uma longa carta a Amelia, em que lhe contava a scena com o abbade, acabrunhando-o d'accusações—sobretudo de lhe trahir indirectamente o segredo da confissão. Como das outras, d'esta carta não veio resposta da Ricoça.Então Amaro começou a acreditar que tanta resistencia não podia vir só do arrependimento e do terror do inferno... «Alli ha homem», pensou. E devorado d'um ciume negro principiou a rondar de noite a Ricoça; mas não viu nada; o casarão permanecia adormecido e apagado. Uma occasião, porém, ao aproximar-se do muro do pomar, sentiu adiante no caminho que desce dos Poyaes uma voz cantarolar sentimentalmente a valsa dosDois mundos, e um ponto brilhante de charuto accêso adiantar-se na escuridão. Assustado, refugiou-se n'um casebre que desmantelava em ruinas do outro lado da estrada. A voz calou-se; e Amaro, espreitando, viu então um vulto que parecia embrulhado n'um chalemanta claro, parado, contemplando as janellas da Ricoça. Um furor de ciume apossou-se d'elle, e ia saltar e atacar o homem—quando o viu seguir tranquillamente ao comprido da estrada, de charuto alto, trauteando:
Lembras-te d'esse tempo da delicias,Ó anjo feiticeiro, Amelia amada,Quando tudo eram risos e venturaE a vida nos corria socegada?Lembras-te d'essa noite de poesiaEm que a lua brilhava pelos céos,E nós unindo as almas, ó Amelia,Erguemos nossa prece para Deus?...