Ouves ao longe retumbar na serraO som do bronze que nos causa horror...Pela voz, pelo chale-manta, pelo andar tinha reconhecido João Eduardo. Mas teve a certeza que se um homem fallava de noite a Amelia ou entrava na quinta—não era decerto o escrevente. Todavia, receoso de ser descoberto, não tornou a rondar o casarão.Era com effeito João Eduardo, que sempre que passava pela Ricoça, de dia ou de noite, parava um momento a olhar melancolicamente as paredes queellahabitava. Porque apesar de tantas desillusões, Amelia permanecera para o pobre rapaz aella, a bem amada, a coisa mais preciosa da terra. Nem em Ourem, nem em Alcobaça, nem pelas estalagens onde errára, nem em Lisboa onde chegára como vem á praia uma quilha de barco naufragado, deixára um momento de a ter presente na alma e de se enternecer com as saudades d'ella. Durante esses dias tão amargos de Lisboa, os peores da sua vida, em que fôra fiel de feitos d'um cartorio obscuro, perdido n'aquella cidade que lhe parecia ter a vastidão d'uma Roma ou d'uma Babylonia e em que sentia o duro egoismo das multidões azafamadas, esforçava-se mesmo por desenvolver mais esse amor que lhe dava como a doçura d'uma companhia. Achava-se menos isolado, tendo sempre no espirito aquella imagem com quem travava dialogos imaginados, nos seus infindaveis passeios ao longo do Caes doSodré, accusando-a das tristezas que o envelheciam.E esta paixão, sendo para elle como a indefinida justificação das suas miserias, tornava-o aos seus proprios olhos interessante. Era «um martyr de amor»; isto consolava-o, como o consolára nas suas primeiras desesperações considerar-se «uma victima das perseguições religiosas». Não era um pobre diabo banal a quem o acaso, a preguiça, a falta d'amigos, a sorte e os remendos do casaco mantêm fatalmente nas privações da dependencia: era um homem de grande coração, a quem uma catastrophe em parte amorosa e em parte politica, um drama domestico e social, forçára assim, depois de luctas heroicas, a viajar d'um a outro cartorio com um sacco de lustrina cheio d'autos. O destino tornára-o igual a tantos heroes que lera nas novellas sentimentaes... E o seu paletot coçado, os seus jantares a quatro vintens, os dias em que não tinha dinheiro para tabaco, tudo attribuia ao amor fatal d'Amelia e á perseguição d'uma classe poderosa, dando assim, por um instincto muito humano, uma origem grandiosa ás suas miserias triviaes... Quando via passar os que elle chamava osfelizes—individuos batendo tipoia, rapazes que encontrava com uma linda mulher pelo braço, gente bem atabafada que se dirigia aos theatros, sentia-se menos desgraçado pensando que tambem elle possuia um grande luxo interior que era aquelle amor infeliz. E quando emfim por um acaso obteve a certeza d'um empregono Brazil, o dinheiro da passagem, idealisava a sua aventura banal d'emigrante, repetindo-se durante todo o dia que ia passar os mares, exilado do seu paiz por uma tyrannia combinada de padres e auctoridades e por ter amado uma mulher!Quem lhe diria então, ao emmalar o seu fato no bahú de lata, que d'ahi a semanas estaria outra vez a meia legua d'esses padres e d'essas auctoridades, contemplando d'olho terno a janella d'Amelia! Fôra aquelle singular Morgadinho de Poyaes,—que não era nem Morgadinho nem de Poyaes, e apenas um ricaço excentrico de ao pé d'Alcobaça que comprára aquella velha propriedade dos fidalgos de Poyaes, e que com a posse da terra recebia do povo da freguezia a honra do titulo: fôra esse santo cavalheiro que o livrára dos enjôos no paquete e dos acasos da emigração. Encontrára-o casualmente no cartorio onde elle ainda trabalhava nas vesperas da viagem. O Morgadinho, cliente do velho Nunes, conhecia-lhe a historia, a façanha doCommunicado, o escandalo no largo da Sé; e já de ha muito concebera por elle uma sympathia ardente.O Morgadinho tinha com effeito por padres um odio maniaco, a ponto de não lêr no jornal a noticia d'um crime, sem decidir (ainda mesmo quando o culpado estava já sentenciado) que «no fundo devia d'haver na historia um sotaina». Dizia-se que este rancor provinha dos desgostos que lhe dera sua primeira mulher, devota celebre d'Alcobaça. Apenas viu João Eduardo em Lisboa e soube da viagem proxima,teve immediatamente a idéa de o trazer para Leiria, installal-o nos Poyaes, e entregar-lhe a educação das primeiras letras dos seus dois pequenos como um insulto estridente feito a todo o clero diocesano. Imaginava de resto João Eduardo um impio; e isto convinha ao seu plano philosophico d'educar os rapazitos n'um «atheismo desbragado». João Eduardo aceitou, com as lagrimas nos olhos: era um salario magnifico que lhe vinha, uma posição, uma familia, uma rehabilitação estrondosa...—Oh, senhor Morgado, nunca hei de esquecer o que faz por mim!...—É p'ra meu gosto proprio!... É p'ra arreliar a canalha! E partimos ámanhã!Em Chão de Maçãs, apenas desceu do wagon, exclamou logo para o chefe da estação que não conhecia João Eduardo, nem a sua historia:—Cá o trago, cá o trago em triumpho! Vem p'ra quebrar a cara a toda a padraria... E se houver custas a pagar, sou eu que as pago!O chefe da estação não estranhou—porque o Morgadinho passava no districto por maluco.Foi ahi, nos Poyaes, logo ao outro dia da sua chegada, que João Eduardo soube que Amelia e D. Josepha estavam na Ricoça. Soube-o pelo bom abbade Ferrão, o unico sacerdote a quem o Morgado fallava, e que recebia em casa, não como padre, mas como cavalheiro.—Eu como cavalheiro estimo-o, snr. Ferrão, costumava elle dizer, mas como padre abomino-o!E o bom Ferrão sorria, sabendo que, sob aquella ferocidade d'impio obtuso, havia um santo coração, um pai-de-pobres na freguezia...O Morgado era tambem grande amador de alfarrabios, questionador incansavel; ás vezes os dois tinham pelejas tremendas sobre historia, botanica, systemas de caça... Quando o abbade, no fogo da controversia, punha d'alto alguma opinião contraria:—O senhor apresenta-me isso como padre ou como cavalheiro? exclamava, empinando-se, o Morgado.—Como cavalheiro, senhor Morgado.—Então aceito a objecção. É sensata. Mas se fosse como padre, quebrava-lhe os ossos.Ás vezes, pensando irritar o abbade, mostrava-lhe João Eduardo, batendo d'alto no hombro do rapaz, n'uma caricia de amador, como um cavallo favorito:—Veja-me isto! Já ia dando cabo d'um. E ainda ha de matar dois ou tres... E se o prenderem hei de eu livral-o da forca!—Isso não é difficil, senhor Morgado, dizia o abbade tomando tranquillamente a sua pitada. Que já não ha forcas em Portugal...Então era uma indignação do Morgado. Não havia forcas? E porque não? Porque tinhamos um governo livre e um rei constitucional! Que se se seguisse a vontade dos padres, havia uma forca em cada praça e uma fogueira em cada esquina!—Diga-me uma coisa, snr. Ferrão, o senhor vem defender aqui em minha casa a inquisição?—Oh, senhor Morgado, eu nem sequer fallei da inquisição...—Não fallou por medo! Porque sabe perfeitamente que lhe enterrava uma faca no estomago!E tudo isto aos gritos e aos pulos pela sala, fazendo um vendaval com as abas prodigiosas do seu robe-de-chambre amarello.—No fundo um anjo, diria o abbade a João Eduardo. Capaz de dar a camisa mesmo a um padre, se o soubesse em necessidade... E vossê aqui está bem, João Eduardo... É não lhe reparar nas manias...Tinha tomado affeição a João Eduardo, o abbade Ferrão: e sabendo por Amelia a famosa legenda doCommunicadoquizera, segundo a sua expressão querida, «folhear o homem aqui e além». Conversára com elle tardes inteiras na rua de loureiros da quinta, na residencia onde João Eduardo se ia fornecer de livros; e sob o «exterminador de padres», como dizia o Morgado, encontrára um pobre moço sensivel, com uma religião sentimental, ambições de paz domestica, e prezando muito o trabalho. Então viera-lhe uma idéa que, sobretudo por lhe ter acudido um dia que sahia das suas devoções ao Santissimo, lhe pareceu descida de cima, da vontade do Senhor: era o casal-o com Amelia. Não seria difficil levar aquelle coração fraco e terno a perdoar o erro d'ella; e a pobre rapariga, depois de tantostranses, extincta aquella paixão que lhe entrára na alma como um sôpro do Demonio, levando-lhe a vontade, a paz e o pudor d'empurrão para o abysmo, encontraria na companhia de João Eduardo todo um resto de vida calmo, e contente, um canto suave d'interior, refugio dôce e purificação do passado. Não fallou nem a um, nem a outro, n'esta idéa que o enternecia. Não era o momento agora, que ella trazia nas entranhas o filho dooutro. Mas ia preparando com amor aquelle resultado,—sobretudo quando estava com Amelia, contando-lhe as suas conversas com João Eduardo, algum dito muito sensato que elle tivera, os bons cuidados de preceptor que estava desenvolvendo na educação dos Morgaditos.—É um bom rapaz, dizia. Homem de familia... D'estes a quem uma mulher póde realmente confiar a sua vida e a sua felicidade. Se eu pertencesse ao mundo, se tivesse uma filha, dava-lh'a...Amelia não respondia, córando.Já não podia objectar áquelles elogios persuasivos a antiga, a grande objecção—oCommunicado, a impiedade! O abbade Ferrão destruira-lh'a um dia, com uma palavra:—Eu li o artigo, minha senhora. O rapaz não escreveu contra os sacerdotes, escreveu contra os phariseus!E para attenuar este julgamento severo, o menos caridoso que tivera havia muitos annos, acrescentou:—Emfim, foi uma falta grave... Mas está muito arrependido. Pagou-o com lagrimas, e com fome.E isto enternecia Amelia.Fôra tambem por esse tempo que o doutor Gouvéa começára a vir á Ricoça, porque D. Josepha tinha peorado com os dias mais frios do outono. Amelia, ao principio, á hora da visita, fechava-se no seu quarto, tremendo á idéa de vêr o seu estado descoberto pelo velho doutor Gouvêa, o medico da casa, aquelle homem d'uma severidade legendaria. Mas emfim fôra necessario apparecer no quarto da velha, para receber as suas instrucções de enfermeira sobre as horas dos remedios e as dietas. E um dia que acompanhára o doutor até á porta, ficou gelada, vendo-o parar, voltar-se para ella cofiando a sua grande barba branca que lhe cahia sobre o jaquetão de velludo, e dizer-lhe sorrindo:—Eu bem tinha dito a tua mãi que te casasse!Duas lagrimas saltaram-lhe dos olhos.—Bem, bem, pequena, não te quero mal por isso. Estás na verdade. A natureza manda conceber, não manda casar. O casamento é uma fórmula administrativa...Amelia olhava-o, sem o comprehender, com as duas lagrimas muito redondinhas a correrem-lhe devagar pela face. Elle bateu-lhe com os dedos no queixo, muito paternal:—Quero dizer que, como naturalista, regosijo-me. Acho que te tornaste util á ordem geral das coisas. Vamos ao que importa...Deu-lhe então conselhos sobre a hygiene que devia ter.—E quando chegar a occasião, se te vires atrapalhada, manda-me chamar...Ia descer; Amelia deteve-o, e com uma supplicação assustada:—Mas o senhor doutor não vai dizer nada na cidade...O doutor Gouvéa parou:—Então não é estupida?... Está bom, tambem t'o perdôo. Está na logica do teu temperamento. Não, não digo nada, rapariga. Mas p'ra que diabo, então, não casaste tu com esse pobre João Eduardo? Fazia-te tão feliz como o outro, e já não tinhas de pedir segredo... Emfim, isso para mim é um detalhe secundario... O essencial é o que te disse... Manda-me chamar. Não te fies muito nos teus santos... Eu entendo mais d'isso que Santa Brigida ou lá quem é. Que tu és forte, e has de dar um bom mocetão ao Estado.Todas estas palavras que em parte não comprehendera bem, mas em que sentia uma vaga justificação e uma bondade d'avô indulgente, sobretudo aquella sciencia que lhe promettia a saude e a que as barbas grisalhas do doutor, umas barbas de Padre Eterno, davam um ar d'infallibilidade, reconfortaram-na, augmentaram a serenidade que havia semanasgozava, desde a sua confissão desesperada na capella dos Poyaes.Ah, fôra decerto Nossa Senhora, compadecida emfim dos seus tormentos, que lhe mandára do céo aquella inspiração de se ir entregar toda dorida aos cuidados do abbade Ferrão! Parecia-lhe que deixára lá, no seu confessionario azul-ferrete, todas as amarguras, os terrores, a negra farrapagem de remorso que lhe abafava a alma. A cada uma das suas consolações tão persuasivas sentira desapparecer o negrume que lhe tapava o céo: agora via tudo azul; e quando rezava, já Nossa Senhora não desviava o rosto indignado. É que era tão differente aquella maneira de confessar do abbade! Os seus modos não eram os do representante rigido d'um Deus carrancudo; havia n'elle alguma coisa de feminino e de maternal que passava na alma como uma caricia; em logar de lhe erguer diante dos olhos o sinistro scenario das chammas do Inferno, mostrára-lhe um vasto céo misericordioso com as portas largamente abertas, e os caminhos multiplicados que lá conduzem, tão faceis e tão dôces de trilhar que só a obstinação dos rebeldes se recusa a tental-os. Deus apparecia, n'aquella suave interpretação da outra vida, como um bom bisavô risonho; Nossa Senhora era uma irmã de caridade; os santos, camaradas hospitaleiros! Era uma religião amavel, toda banhada de graça, em que uma lagrima pura basta para remir uma existencia de peccado. Que differente da soturna doutrina que desde pequena a trazia aterradae tremula! Tão differente—como aquella pequena capella d'aldeia da vasta massa de cantaria da Sé. Lá, na velha Sé, muralhas da espessura de covados separavam da vida humana e natural: tudo era escuridão, melancolia, penitencia, faces severas d'imagens; nada do que faz a alegria do mundo alli entrava, nem o alto azul, nem os passaros, nem o ar largo dos prados, nem os risos dos labios vivos; alguma flôr que havia era artificial; o enxota-cães lá se postava ao portal para não deixar passar as criancinhas; até o sol estava exilado, e toda a luz que havia vinha dos lampadarios funebres. E alli, na capellita dos Poyaes, que familiaridade da natureza com o bom Deus! Pelas portas abertas penetrava a aragem perfumada das madresilvas; pequerruchos brincando faziam sonoras as paredes caiadas; o altar era como um jardinete e um pomar; pardaes atrevidos vinham chilrear até junto aos pedestaes das cruzes; ás vezes um boi grave mettia o focinho pela porta com a antiga familiaridade do curral de Belem, ou uma ovelha tresmalhada vinha regosijar-se de vêr um da sua raça, o Cordeiro Paschal, dormir regaladamente ao fundo do altar com a santa cruz entre as patas.Além d'isso o bom abbade, como elle lhe dissera, «não queria impossiveis». Sabia bem que ella não podia arrancar n'um momento aquelle amor culpado, que ganhára raizes até ás profundezas do seu sêr. Queria apenas que quando a assaltasse a idéa de Amaro se abrigasse logo na idéa de Jesus. Coma força colossal de Satanaz, que tem o poder d'um Hercules, uma pobre rapariga não póde luctar braço a braço: póde sómente refugiar-se na oração quando o sente, e deixal-o fatigar-se de rugir e espumar em torno d'esse asylo impenetravel. Elle mesmo cada dia a ia ajudando n'aquella repurificação da alma, com uma solicitude de enfermeiro: fôra elle que lhe marcára, como um ensaiador n'um theatro, a attitude que devia ter na primeira visita de Amaro á Ricoça; era elle que chegava, com alguma breve palavra reconfortante como um cordial, se a via vacillar n'aquella lenta reconquista da virtude; se a noite fôra agitada das lembranças calidas dos prazeres passados, era durante toda a manhã uma boa palestra, sem tom pedagogico, em que lhe mostrava familiarmente que o céo lhe daria alegrias maiores que o quarto enxovalhado do sineiro. Chegára, com uma subtileza de theologo, a demonstrar-lhe que no amor do parocho não havia senão brutalidade e furor bestial; que, dôce como era o amor do homem, o amor do padre só podia ser uma explosão momentanea do desejo comprimido; quando tinham começado as cartas do parocho, analysára-lh'as phrase a phrase, revelando-lhe o que ellas continham de hypocrisia, de egoismo, de rhetorica, e de desejo torpe...Ia-a assim lentamente desgostando do parocho. Mas não a desgostava do amor legitimo, purificado pelo sacramento; conhecia bem que ella era toda de carne e de desejos, e que lançal-a violentamenteno mysticismo seria apenas torcer-lhe um momento o instincto natural e não crear-lhe uma paz duradoura. Não tentava arrancal-a bruscamente á realidade humana; elle não a queria para freira; só desejava que aquella força amante que sentia n'ella servisse á alegria d'um esposo e á util harmonia d'uma familia, e não se gastasse erradamente em concubinagens casuaes... No fundo, o bom Ferrão preferiria decerto na sua alma de sacerdote que a rapariga se separasse absolutamente de todos os interesses egoistas do amor individual, e se désse, como irmã da caridade, como enfermeira d'um recolhimento, ao amor mais largo de toda a humanidade. Mas a pobre Ameliasita tinha a carne muito bonita e muito fraca; não seria prudente assustal-a com sacrificios tão altos; era toda mulher—toda mulher devia ficar; limitar-lhe a acção era estragar-lhe a utilidade. Christo não lhe bastava com os seus membros ídeaes pregados na cruz: era-lhe necessario um homem como todos, de bigode e chapéo alto. Paciencia! Que ao menos elle fosse um esposo sob a legitimação sacramental...Assim a ia curando d'aquella paixão morbida com uma direcção de todos os dias, uma d'estas persistencias de missionario que só dá a fé sincera, pondo a subtileza d'um casuista ao serviço da moralidade d'um philosopho, paternal e habil—uma cura maravilhosa de que o bom abbade em segredo tirava alguma vaidade.E foi grande a sua alegria quando lhe pareceuque emfim a paixão por Amaro já não era na alma d'ella um sentimento vivo; mas estava morto, embalsamado, arrumado no fundo da sua memoria como n'um jazigo, escondido já sob a delicada florescencia d'uma virtude nova. Assim julgava pelo menos o bom Ferrão—vendo-a agora alludir ao passado com o olhar tranquillo, sem aquelles rubores que outr'ora lhe escaldavam a face ao simples nome de Amaro.Ella, com effeito, já não pensava no senhor parocho com a commoção d'outr'ora: o terror do peccado, a influencia penetrante do abbade, aquella brusca separação do meio devoto em que o seu amor se desenvolvera, o gozo que sentia n'uma serenidade maior, sem sustos nocturnos e sem a inimizade de Nossa Senhora, tudo concorrêra para que o fogo ruidoso d'aquelle sentimento se fosse reduzindo a alguma braza que rebrilhava surdamente. O parocho estivera ao principio na sua alma com o prestigio d'um idolo coberto d'oiro; mas tantas vezes, desde a sua gravidez, sacudira, nas horas de terror religioso ou de arrependimento hysterico, aquelle idolo, que todo o dourado lhe ficára nas mãos, e a fórma trivial e escura que apparecia por baixo já não a deslumbrava; viu por isso o abbade derrubar-lh'o inteiramente, sem chorar e sem luctar. Se ainda pensava em Amaro, é porque não podia deixar de pensar na casa do sineiro; mas o que a tentava ainda era o prazer e não o parocho.E com a sua natureza de boa rapariga tinha umreconhecimento sincero pelo abbade. Como dissera a Amaro n'aquella tarde, «devia-lhe tudo». Era o que sentia agora tambem pelo doutor Gouvêa, que vinha regularmente vêr a velha de dois em dois dias. Eram os seus bons amigos, como dois papás que o céo lhe mandava—um que lhe promettia a saude, outro a graça.Refugiada n'aquellas duas protecções, gozou uma paz adoravel nas ultimas semanas de outubro. Os dias iam muito serenos e muito tepidos. Era bom estar no terraço, pelas tardes, n'aquella serenidade outonal dos campos. O doutor Gouvêa ás vezes encontrava-se com o abbade Ferrão; ambos se estimavam; depois da visita á velha, iam para o terraço, e começavam logo as suas eternas questões sobre Religião e sobre Moral.Amelia, com a costura cahida nos joelhos, sentindo os seus dois amigos ao pé, aquelles dois colossos de sciencia e de santidade, abandonava-se ao encanto da hora suave, olhando a quinta onde as arvores já empallideciam. Pensava no futuro; elle apparecia-lhe agora facil e seguro; era forte, e o parto, com a presença do doutor, seria apenas uma hora de dôres; depois, livre d'aquella complicação, voltaria para a cidade e para a mamã... E então uma outra esperança, que nascera das conversas constantes do abbade sobre João Eduardo, vinha bailar-lhe na imaginação. Porque não?... Se o pobre rapaz a amasse ainda, e perdoasse!... Elle nunca lhe repugnára como homem, e seria um casamento esplendidoagora que elle tinha a amizade do Morgado. Dizia-se que João Eduardo ia ser o administrador da casa... E entrevia-se vivendo nos Poyaes, passeando na caleche do Morgado, chamada para jantar por uma campainha, servida por um escudeiro de libré... Ficava muito tempo immovel, banhada na doçura d'esta perspectiva, emquanto o abbade e o doutor ao fundo do terraço pelejavam sobre a doutrina da Graça e da Consciencia, e monotonamente a agua das regas murmurava no pomar.Foi por este tempo que D. Josepha, inquieta de não vêr apparecer o senhor parocho, mandára expressamente o caseiro a Leiria, pedir a sua senhoria a esmola d'uma visita. O homem voltára com a espantosa noticia de que o senhor parocho partira para a Vieira, e não viria senão d'ahi a duas semanas. A velha choramingou de desgosto. E Amelia, n'essa noite, no seu quarto, não pôde adormecer—na irritação que lhe dava aquella idéa do senhor parocho a divertir-se na Vieira, sem pensar n'ella decerto, chalaceando com as senhoras na praia, e andando de serão em serão...Com a primeira semana de novembro vieram as chuvas. A Ricoça parecia agora mais lugubre n'aquelles dias curtos, banhados d'agua, sob um céo de tempestade. O abbade Ferrão, tolhido de rheumatismo, já não apparecia na quinta. O doutor Gouvêa,depois da visita de meia hora, abalava no seu velhocabriolet. A unica distracção de Amelia era estar á janella por dentro dos vidros: tres vezes vira passar João Eduardo na estrada; mas elle ao avistal-a baixava os olhos ou refugiava-se mais sob o guardachuva.A Dionysia vinha tambem frequentemente: devia ser a parteira, apesar do doutor Gouvêa ter aconselhado a Michaela, matrona d'uma experiencia de trinta annos. Mas Amelia «não queria mais gente no segredo», e além d'isso Dionysia trazia-lhe as noticias d'Amaro, que ella sabia pela cozinheira. O senhor parocho tinha-se achado tão bem na Vieira que se ia demorar até dezembro. Aquelle «procedimento infame» indignava-a: não duvidava que o parocho queria estar longe quando chegassem os transes, os perigos do parto. Além d'isso era decidido d'ha muito que a criança havia de ser entregue a uma ama de ao pé de Ourem, que a criaria na aldeia: e agora o tempo chegava, e a ama não estava fallada, e o senhor parocho apanhava conchinhas á beira-mar!...—É indecente, Dionysia, exclamava Amelia furiosa.—Ah! não me parece bem, não. Que eu podia fallar á ama... Mas bem vê, são coisas muito sérias... O senhor parocho é que se encarregou de tudo...—É infame!Além d'isso ella descuidára-se do enxoval—e alliestava na vespera de ter a criança, sem um trapo para a cobrir, sem dinheiro para lh'o comprar! A Dionysia tinha-lhe mesmo offerecido algumas peças de enxoval, que uma mulher que ella tivera em casa lhe deixára empenhadas. Mas Amelia recusára-se a que o seu filho usasse cueiros alheios, trazendo-lhe talvez um contagio de doença ou uma sorte infeliz.E por orgulho não queria escrever a Amaro.Além d'isso as impertinencias da velha tornavam-se odiosas. A pobre D. Josepha, privada dos auxilios devotos d'um padre, um verdadeiro padre (não um abbade Ferrão), sentia a sua velha alma indefesa exposta a todas as audacias de Satanaz: a visão singular que tivera de S. Francisco Xavier nú, repetia-se agora com uma insistencia pavorosa a respeito de todos os santos: era toda uma côrte do céo, arrojando tunicas e habitos, e bailando-lhe na imaginação sarabandas em pêllo: e a velha estava morrendo da perseguição d'estes espectaculos dispostos pelo demonio. Reclamára o padre Silverio, mas parecia que um rheumatismo geral tolhia todo o clero diocesano: desde o principio do inverno o Silverio estava tambem de cama. O abbade da Cortegassa, chamado urgentemente, veio—mas para lhe communicar a receita nova que descobrira de fazer bacalhau à biscainha... Esta falta d'um padre virtuoso dava-lhe um humor feroz, que recahia sobre Amelia n'uma chuva de impertinencias.E a boa senhora estava pensando sériamente emmandar a Amor pelo padre Brito—quando uma tarde, ao fim do jantar, inesperadamente, o senhor parocho appareceu!Vinha magnifico, trigueiro do sol e do ar do mar, de casaco novo e botins de verniz. E palrando longamente ácerca da Vieira, dos conhecidos que estavam, da pesca que fizera, dos soberbos quinos fazia passar n'aquelle triste quarto de doente velha todo um sopro vivificante da vida divertida á beira-mar. D. Josepha tinha duas lagrimas nas palpebras do gozo de vêr o senhor parocho, de o ouvir.—E a mamã passa bem, disse elle a Amelia. Já tem os seus trinta banhos. Ganhou outro dia quinze tostões a uma batotinha que se arranjou... E por cá que têm feito?Então a velha rompeu em queixumes amargos: Uma solidão! Um tempo de chuva! Uma falta de amizades! Ai! ella estava alli a perder a sua alma n'aquella quinta fatal...—Pois eu, disse o padre Amaro traçando a perna, dei-me tão bem que estou com idéas de voltar para a semana.Amelia, sem se conter, exclamou:—Ora essa! outra vez!—Sim, disse elle. Se o senhor chantre me der uma licença d'um mez, vou lá passal-o... Fazem-me uma cama na sala de jantar do padre-mestre, e tomo um par de banhos... Estava farto de Leiria, e d'aquelle aborrecimento...A velha parecia desolada. O quê, voltar! Deixal-as alli a estarrecer de tristeza!Elle galhofou:—Ora, as senhoras não precisam cá de mim. Estão bem acompanhadas...—Eu não sei, disse a velha com azedume, se osoutros—e accentuou com rancor a palavra—se osoutrosnão precisam do senhor parocho... Eu é que não estoubem acompanhada, estou aqui a perder a minha alma... Que as companhias que ahi vêm não dão honra nem proveito.Mas Amelia acudiu para contrariar a velha:—E de mais a mais o senhor abbade Ferrão tem estado doente... Está com rheumatismo. Sem elle a casa parece uma prisão.D. Josepha deu um risinho d'escarneo. E o padre Amaro, erguendo-se para sahir, lamentou o bom abbade:—Coitado! Santo homem... Hei de ir vêl-o em tendo vagar. Pois ámanhã cá appareço, D. Josepha, e havemos de pôr essa alma em paz... Não se incommode, snr.aD. Amelia, eu sei agora o caminho.Mas ella insistiu em o acompanhar. Atravessaram o salão sem uma palavra. Amaro calçava as suas luvas novas de pellica preta. E no alto da escada, muito ceremoniosamente, tirando o chapéo:—Minha senhora...E Amelia ficou petrificada vendo-o descer muito tranquillo—como se ella lhe fosse mais indifferenteque os dois leões de pedra, que em baixo dormiam com o focinho nas patas.Foi para o quarto chorar de bruços sobre a cama, de raiva e de humilhação. O infame! E nem uma palavra sobre o filho, sobre a ama, sobre o enxoval! Nem um olhar d'interesse para o seu corpo desfigurado por aquella prenhez que elle lhe dera! Nem uma queixa irritada por todos os desprezos que ella lhe mostrára!... Nada! Calçava as luvas, com o chapéo ao lado. Que indigno!Ao outro dia o padre voltou mais cedo. Esteve muito tempo fechado no quarto com a velha.Amelia, impaciente, rondava no salão com os olhos como carvões. Elle appareceu emfim, como na vespera, calçando as suas luvas com um ar prospero.—Então já? disse ella n'uma voz que tremia.-Já, sim, minha senhora. Estive n'uma praticasinha com a D. Josepha.Tirou o chapéo, comprimentando muito profundamente:—Minha senhora...Amelia, livida, murmurou:—Infame!Elle olhou-a, como assombrado:—Minha senhora...—repetiu.E, como na vespera, desceu vagarosamente a larga escadaria de pedra.O primeiro pensamento d'Amelia foi denuncial-o ao vigario geral. Depois passou a noite escrevendo-lheuma carta—tres paginas de accusações e de lastimas. Mas toda a resposta d'Amaro, ao outro dia, mandada verbalmente pelo Joãosito da quinta, foi «que talvez apparecesse por lá na quinta-feira».Teve outra noite de lagrimas—emquanto na rua das Sousas o padre Amaro esfregava as mãos, no regosijo do seu «famoso estratagema». E todavia não o concebera elle mesmo; tinha-lhe sido suggerido na Vieira, onde fôra para desabafar com o padre-mestre e espalhar a mágoa nos ares da praia; fôra lá que elle o aprendera, o «famoso estratagema», n'umasoirée, ouvindo dissertar sobre o amor o brilhante Pinheiro, premiado em direito e gloria d'Alcobaça.—Eu n'isso, minhas senhoras—dizia o Pinheiro, passando a mão pela cabelleira de poeta, ao semi-círculo de damas que pendiam dos seus labios d'ouro—eu n'isso sou da opinião de Lamartine (era alternadamente da opinião de Lamartine ou de Pelletan). Digo como Lamartine: a mulher é igual á sombra; se correis atraz d'ella, foge-vos; se fugis d'ella, corre atraz de vós!Houve ummuito bem, exclamado com convicção: mas uma senhora de grandes proporções, mãi de quatro deliciosos anjos todos Marias (como dizia o Pinheiro), quiz explicações, porque nunca tinha visto fugir uma sombra.O Pinheiro deu-as, scientificamente:—É muito facil d'observar, snr.aD. Catharina. Colloque-se vossa excellencia na praia, quando o solcomeça a declinar, com as costas para o astro. Se vossa excellencia caminha em frente, perseguindo a sombra, ella vai-lhe adiante, fugindo...—Physica recreativa, muito interessante! murmurou o escrivão de direito ao ouvido d'Amaro.Mas o parocho não o escutava; bailava-lhe já na imaginação «o famoso estratagema». Ah! mal voltasse a Leiria, havia de tratar Amelia como uma sombra e fugir-lhe para ser seguido...—E o resultado delicioso alli estava—tres paginas de paixão, com manchas de lagrimas no papel.Na quinta-feira appareceu, com effeito. Amelia esperava-o no terraço, d'onde estivera desde manhã vigiando a estrada com um binoculo de theatro. Correu a abrir-lhe o portãosinho verde no muro do pomar.—Então, por aqui! disse-lhe o parocho, subindo atraz d'ella ao terraço.—É verdade, como estou sósinha...—Sósinha?—A madrinha está a dormir e a Gertrudes foi á cidade... Tenho estado toda a manhã aqui ao sol.Amaro ía penetrando pela casa, sem responder; diante d'uma porta aberta parou, vendo um grande leito de docel, e em redor cadeiras de couro de convento.—É o seu quarto aqui, hein?—É.Elle entrou familiarmente, com o chapéo na cabeça.—Muito melhor que o da rua da Misericordia. E boas vistas... São as terras do Morgado, além...Amelia cerrára a porta, e indo direita a elle, com os olhos chammejantes:—Porque não respondeste á minha carta?Elle riu:—É boa! E porque não respondeste tu ás minhas? Quem começou? Foste tu. Dizes que não queres peccar mais. Tambem eu não quero peccar mais. Acabou-se...—Mas não é isso! exclamou ella pallida d'indignação. É que ha a pensar na criança, na ama, no enxoval... Não é abandonar-me p'r'áqui!...Elle poz-se sério, e com um tom resentido:—Peço perdão... Eu prezo-me de ser um cavalheiro. Tudo isso ha de ficar arranjado antes de voltar p'r'á Vieira...—Tu não voltas p'r'á Vieira!—Quem é que diz isso?—Eu, que não quero que vás!Puzera-lhe fortemente as mãos nos hombros, retendo-o, apoderando-se d'elle: e alli mesmo, sem reparar na porta apenas cerrada, abandonou-se-lhe como outr'ora.D'ahi a dois dias o abbade Ferrão appareceu restabelecido do seu ataque de rheumatismo. Contou a Amelia a bondade do Morgado, que chegára amandar-lhe todas as tardes, n'um apparelho de lata com agua quente, uma gallinha cozida em arroz. Mas era sobretudo a João Eduardo que devia a caridade melhor; todas as suas horas vagas as passava ao pé da cama, lendo-lhe alto, ajudando-o a voltar, ficando com elle até á uma hora da noite n'um zelo de enfermeiro. Que rapaz! que rapaz!E de repente, tomando as mãos ambas d'Amelia, exclamou:—Diga-me, dá licença que eu lhe conte tudo, que lhe explique?... Que arranje que elle perdôe. e esqueça... E que se faça este casamento, se faça esta felicidade?Ella balbuciou espantada, toda escarlate:—Assim de repente... Não sei... Hei de pensar...—Pense. E Deus a alumie! disse o velho com fervor.Era n'essa noite que Amaro devia entrar pelo portalzinho do pomar de que Amelia lhe dera a chave. Infelizmente tinham esquecido a matilha do caseiro. E apenas Amaro pôz o pé dentro do pomar, rompeu pelo silencio da noite escura um tão desabrido ladrar de cães—que o senhor parocho abalou pela estrada, batendo o queixo de terror.XXIVAmaro n'essa manhã mandou á pressa chamar a Dionysia, apenas recebeu o seu correio. Mas a matrona que estava no mercado veio tarde, quando elle á volta da missa acabava d'almoçar.Amaro queria saberao certo e immediatamentepara quando estava acoisa...—O bom successo da pequena?... Entre quinze a vinte dias... Porquê, ha novidade?Havia; e o parocho leu-lhe então em confidencia uma carta que tinha ao lado.Era do conego, que escrevia da Vieira, dizendo «que a S. Joanneira tinha já trinta banhos e queria voltar! Eu, (acrescentava), perco quasi todas as semanas tres, quatro banhos, de proposito para os espaçar e dar tempo, porque cá a minha mulher jásabe que eu sem os meus cincoenta não vai. Ora já tenho quarenta, veja lá vossê. Demais por aqui começa a fazer frio devéras. Já se tem retirado muita gente. Mande-me pois dizer pela volta do correio em que estado estão as coisas.» E n'umpost-scriptumdizia: «Tem vossê pensado que destino se ha de dar aofructo?»—Mais vinte dias, menos vinte dias, repetiu a Dionysia.E Amaro alli mesmo escreveu a resposta ao conego, que a Dionysia devia levar ao correio: «A coisa póde estar prompta d'aqui a vinte dias. Suspenda por todo o modo a volta da mãi! Isso de modo nenhum! Diga-lhe que a pequena não escreve nem vai, porque a excellentissima mana passa sempre adoentada.»E traçando a perna:—E agora, Dionysia, como diz o nosso conego, que destino se ha de dar aofructo?A matrona arregalou os olhos de surpreza:—Eu pensei que o senhor parocho tinha arranjado tudo... Que se ia dar a criança a criar fóra da terra...—Está claro, está claro, interrompeu o parocho com impaciencia. Se a criança nascer viva é evidente que se ha de dar a criar, e que ha de ser fóra da terra... Mas ahi é que está! Quem ha de ser a ama? É isso que eu quero que vossê me arranje. Vai sendo tempo...A Dionysia pareceu muito embaraçada. Nuncagostára de inculcar amas. Ella conhecia uma boa, mulher forte e de muito leite, pessoa de confiança; mas infelizmente entrára no hospital, doente... Sabia d'outra tambem, até tivera negocios com ella. Era uma Joanna Carreira. Mas não convinha porque vivia justamente nos Poyaes, ao pé da Ricoça.—Qual não convém! exclamou o parocho. Que tem que viva na Ricoça?... Em a rapariga convalescendo as senhoras vêm p'r'á cidade, e não se falla mais na Ricoça.Mas a Dionysia procurava ainda, arranhando devagar o queixo. Tambem sabia d'outra. Essa morava para o lado da Barrosa, a boa distancia... Criava em casa, era o seu officio... Mas n'essa nem fallar!—Mulher fraca, doente?A Dionysia chegou-se ao parocho, e baixando a voz:—Ai, menino, eu não gosto d'accusar ninguem. Mas, está provado, é uma tecedeira d'anjos!—Uma quê?—Uma tecedeira d'anjos!—O que é isso? Que significa isso? perguntou o parocho.A Dionysia gaguejou-lhe uma explicação. Eram mulheres que recebiam crianças a criar em casa. E sem excepção as crianças morriam... Como tinha havido uma muito conhecida que era tecedeira, eas criancinhas iam para o céo... D'ahi é que vinha o nome.—Então as crianças morrem sempre?—Sem falhar.O parocho passeava devagar pelo quarto, enrolando o seu cigarro.—Diga lá tudo, Dionysia. As mulheres matam-n'as?Então a excellente matrona declarou que não queria accusar ninguem! Ella não fôra espreitar. Não sabia o que se passava nas casas alheias. Mas as crianças morriam todas...—Mas quem vai então entregar uma criança a uma mulher d'essas?A Dionysia sorriu, apiedada d'aquella innocencia d'homem.—Entregam, sim senhor, ás duzias!Houve um silencio. O parocho continuava o seu passeio do lavatorio para a janella, de cabeça baixa.—Mas que proveito tira a mulher, se as crianças morrem? perguntou de repente. Perde as soldadas...—É que se lhe paga um anno de criação adiantado, senhor parocho. A dez tostões ao mez, ou quartinho, segundo as posses...O parocho agora, encostado á janella, rufava devagar nos vidros.—Mas que fazem as auctoridades, Dionysia?A boa Dionysia encolheu silenciosamente os hombros.O parocho então sentou-se, bocejou, e estirando as pernas disse:—Bem, Dionysia, vejo que a unica coisa a fazer é fallar á tal ama que vive ao pé da Ricoça, á Joanna Carreira. Eu arranjarei isso...A Dionysia fallou ainda das peças d'enxoval que já tinha comprado por conta do parocho, d'um berço muito barato em segunda mão que vira no Zé Carpinteiro—e ia sahir com a carta para o correio, quando o parocho erguendo-se e galhofando:—Ó tia Dionysia, essa coisa datecedeira d'anjosé uma historia, hein?Então a Dionysia escandalisou-se. O senhor parocho sabia que ella não era mulher d'intrigas. Conhecia a tecedeira d'anjos ha mais d'oito annos, de lhe fallar e de a vêr na cidade quasi todas as semanas. Ainda no sabbado passado a vira sahir da taberna do Grego... O senhor parocho já tinha ido á Barrosa?Esperou a resposta do parocho, e continuou:—Pois bem, sabe o começo da freguezia. Ha um muro cahido. Depois é um caminho que desce. Ao fundo d'esse corregosito encontra um poço atulhado. Adiante, retirada, ha uma casita que tem um alpendre. É lá que ella vive... Chama-se Carlota... Isto é p'ra lhe mostrar que sei, amiguinho!O parocho ficou toda a manhã em casa, passeando pelo quarto, alastrando o chão de pontas de cigarros. Alli estava agora diante d'aquelle episodiofatal que até ahi fôra apenas um cuidado distante—dispôr do filho!Era bem grave entregal-o assim a uma ama desconhecida, na aldeia. A mãi, naturalmente, havia de querer ir a todo o momento vêl-o, a ama poderia fallar aos visinhos. O rapaz viria a ser, na freguezia, ofilho do parocho... Algum invejoso, que lhe cubiçasse a parochia, poderia denuncial-o ao senhor vigario geral. Escandalo, sermão, devassa: e, se não fosse suspenso, poderia como o pobre Brito ser mandado para longe, para a serra, outra vez para os pastores... Ah! se ofructonascesse morto! Que solução natural e perpetua! E para a criança, uma felicidade! Que destino podia elle ter n'este duro mundo? Era oengeitado, era ofilho do padre. Elle era pobre, a mãi pobre... O rapaz cresceria na miseria, vadiando, apanhando o estrume das bestas, ramelloso e tosco... De necessidade em necessidade iria conhecendo todas as fórmas do inferno humano: os dias sem pão, as noites regeladas, a brutalidade da taberna, a cadeia por fim. Uma enxerga na vida, a valla na morte... E se morresse—era um anjinho que Deus recolhia ao paraiso...E continuava passeando tristemente pelo quarto. Realmente o nome era bem posto,tecedeira d'anjos... Com razão, quem prepara uma criança para a vida com o leite do seu peito, prepara-a para os trabalhos e para as lagrimas... Mais vale torcer-lhe o pescoço, e mandal-a direita para a eternidadebemaventurada! Olha elle! Que vida a sua, n'esses trinta annos atraz! Uma infancia melancolica, com aquella pêga da marqueza d'Alegros; depois a casa na Estrella, com o alarve do tio toucinheiro; e d'ahi as clausuras do seminario, a neve constante de Feirão, e alli em Leiria tantos transes, tanta amargura... Se lhe tivessem esmagado o craneo ao nascer, estava agora com duas azas brancas, cantando nos córos eternos.Mas emfim não havia que philosophar: era partir para Poyaes e fallar á ama, á snr.aJoanna Carreira.Sahiu, dirigindo-se para a estrada, sem pressa. Ao pé da ponte veio-lhe porém de repente a idéa, a curiosidade de ir á Barrosa vêr atecedeira... Não lhe fallaria: examinaria apenas a casa, a figura da mulher, os aspectos sinistros do sitio... Demais como parocho, como auctoridade ecclesiastica, devia observar aquelle peccado organisado n'um recanto d'estrada, impune e rendoso. Podia mesmo denuncial-o ao senhor vigario geral ou ao secretario do governo civil...Tinha ainda tempo, eram apenas quatro horas. Por aquella tarde suave e lustrosa fazia-lhe bem um passeio a cavallo. Não hesitou, então; foi alugar uma egoa á estalagem do Cruz; e d'ahi a pouco, d'espora no pé esquerdo, choutava a direito pelo caminho da Barrosa.Ao chegar ao corrego, de que lhe fallára a Dionysia,apeou, foi andando com a egoa pela arreata. A tarde estava admiravel; muito alto no azul, uma grande ave fazia semi-circulos vagarosos.Encontrou emfim o poço atulhado ao pé de dois castanheiros onde passaros ainda chilreavam; adiante n'um terreno plano, muito isolada, lá estava a casa com o seu alpendre: o sol declinando batia-lhe na unica janella do lado, accendendo-a n'um resplendor d'ouro e braza; e, muito delgado, elevava-se da chaminé um fumo claro no ar sereno.Uma grande paz estendia-se em redor; no monte, escuro da rama dos pinheiros baixos, a capellinha da Barrosa punha a alvura alegre da sua parede muito caiada.Amaro ia imaginando então a figura datecedeira; sem saber porque, suppunha-a muito alta, com um carão trigueiro onde dois olhos de bruxa refulgiam.Defronte da casa prendeu a egoa á cancella, e olhou pela porta aberta: era uma cozinha terrea, de grande lareira, com sahida para o pateo estradado de matto onde dois bacorinhos foçavam. Na prateleira da chaminé rebrilhava a louça branca. Dos lados pendiam grandes cassarolas de cobre, d'um lustro de casa rica. N'um velho armario meio aberto branquejavam pilhas de roupa: e havia tanta ordem que uma claridade parecia sahir do aceio e do arranjo das coisas.Amaro então bateu forte as palmas. Uma rôlapulou assustada, dentro da sua gaiola de vime pendurada da parede. Depois chamou alto:—Senhora Carlota!Immediatamente do lado do pateo uma mulher appareceu, com um crivo na mão. E Amaro, surprehendido, viu uma agradavel creatura de quasi quarenta annos, forte de peitos, ampla de encontros, muito branca no pescoço, com duas ricas arrecadas, e uns olhos negros que lhe lembraram os d'Amelia ou antes o brilho mais repousado dos da S. Joanneira.Assombrado, balbuciou:—Creio que me enganei... Aqui é que mora a senhora Carlota?Não se enganára, era ella; mas com a idéa que a figura medonha «que tecia os anjos» devia estar algures, agachada n'um vão tenebroso da casa, perguntou ainda:—Vossemecê vive aqui só?A mulher olhou-o desconfiada:—Não senhor, disse por fim, vivo com o meu marido...Justamente o marido sahia do pateo,—medonho, esse, quasi anão, com a cabeça embrulhada n'um lenço e muito enterrada nos hombros, a face d'uma amarellidão de cera oleosa e lustrosa; no queixo annelavam-se os pêllos raros d'uma barba negra; e sob as arcadas fundas sem sobrancelhas, vermelhejavam dois olhos raiados de sangue, olhos d'insomnia e de bebedeira.—Para o seu serviço, vossa senhoria quer alguma coisa? disse, muito collado á saia da mulher.Amaro foi entrando pela cozinha, e tartamudeando uma historia que ia forjando laboriosamente. Era uma parente que ia ter o seu bom successo. O marido não pudéra vir fallar-lhes porque estava doente... Queriam uma ama para lhes ir para casa, e tinham-lhe dito...—Não, fóra de casa, não. Cá em casa—disse o anão que não se despegava das saias da mulher, mirando o parocho de lado com o seu medonho olho injectado.Ah, então tinham-n'o informado mal... Sentia; mas o que o parente queria era uma ama para casa.Veio dirigindo-se para a egoa, devagar; parou, e abotoando o casacão:—Mas em casa recebem crianças para criação?...—perguntou ainda.—Convindo o ajuste, disse o anão que o seguia.Amaro arranjou a espora no pé, deu um puxão ao estribo, demorando-se, rondando em torno da cavalgadura:—É necessario trazer-lh'a cá, já se sabe.O anão voltou-se, trocou um olhar com a mulher que ficára á porta da cozinha.—Tambem se lhe vai buscar, disse.Amaro batia palmadas no pescoço da egoa.—Mas sendo a coisa de noite, agora com este frio, é matar a criança...Então os dois, fallando ao mesmo tempo, affirmaram que não lhe fazia mal. Havendo, já se sabe, carinho e agasalho...Amaro cavalgou vivamente a egoa, deu as boas tardes, e trotou pelo corrego.Amelia agora começava a andar assustada. De dia e de noite só pensava n'aquellas horas, que se avisinhavam, em que devia sentir chegarem as dôres. Soffria mais que durante os primeiros mezes; tinha tonturas, perversões de gosto—que o doutor Gouvêa observava, franzindo a testa descontente. As noites eram más, n'uma turbação de pesadêlos. Já não eram as allucinações religiosas: isso cessára n'uma subita aplacação de todo o terror devoto: não sentiria menos temor de Deus, se já fosse uma santa canonisada. Eram outros medos, sonhos em que o parto se lhe representava de modos monstruosos: ora era um sêr medonho que lhe saltava das entranhas, metade mulher e metade cabra; ora era uma cobra infindavel que lhe sahia de dentro, durante horas, como uma fita de leguas, enrolando-se no quarto em roscas successivas que ganhavam a altura do tecto: e acordava em tremuras nervosas que a deixavam prostrada.Mas anciava por ter a criança. Estremecia á idéa de vêr um dia inesperadamente a mãi apparecer na Ricoça. Ella escrevera-lhe, queixando-se do senhorconego que a retinha na Vieira, dos temporaes que já reinavam, da solidão que se ia fazendo na praia. Além d'isso D. Maria da Assumpção voltára; felizmente, uma noite providencialmente gelada dera-lhe durante a jornada uma inflammação dos bronchios—e estava de cama para semanas, segundo dizia o doutor Gouvêa. O Libaninho, esse, tambem viera á Ricoça; e sahira lastimando-se de não ter visto a Amelinha «que tinha n'esse dia enxaqueca».—Se isto se demora mais quinze dias, vem-se a descobrir tudo, dizia ella, choramigando, a Amaro.—Paciencia, filha. Não se póde forçar a natureza...—O que tu me tens feito soffrer! suspirava ella, o que tu me tens feito soffrer!Elle calava-se resignado—muito bom, muito terno agora com ella. Vinha-a vêr quasi todas as manhãs, porque não queria pelas tardes encontrar o abbade Ferrão.Tranquillisára-a a respeito da ama, dizendo-lhe que fallára á mulher da Ricoça inculcada pela Dionysia. Era uma escolha rica a snr.aJoanna Carreira! Mulher forte como um carvalho, com barricas de leite, e dentes de marfim...—Fica-me tão longe para vir vêr depois a criança...—suspirava ella.Tomavam-n'a agora pela primeira vez enthusiasmos de mãi. Desesperava-se em não poder ella mesma costurar o resto do enxoval. Queria que o rapaz—porque havia de ser um rapaz!—se chamasseCarlos. Scismava-o já homem, e official de cavallaria. Enternecia-se com a esperança de o vêr gatinhar...—Ai, eu é que o queria criar, se não fosse a vergonha!...—Vai muito bem para onde vai, dizia Amaro.Mas o que a torturava, a fazia chorar todos os dias era a idéa de elle ser um engeitadinho!Um dia veio ao abbade com um plano extraordinario «que lhe inspirára Nossa Senhora»: ella casaria já com João Eduardo, mas o rapaz devia por uma escriptura adoptar o Carlinhos! Que para que o anjinho não fosse um engeitado, casava até com um calceteiro da estrada! E apertava as mãos do abbade, n'uma supplicação loquaz. Que convencesse João Eduardo, que désse um papá ao Carlinhos! Queria ajoelhar aos pés d'elle, do senhor abbade, que era o seu pai e o seu protector.—Oh, minha senhora, socegue, socegue. Esse é tambem o meu desejo, como lhe disse. E ha de arranjar-se, mas mais tarde, disse o bom velho, atarantado d'aquella excitação.Depois, d'ahi a dias, foi outra exaltação; descobrira de repente, uma manhã, que não devia trahir Amaro, «porque era o papá do seu Carlinhos». E disse-o ao abbade; fez córar os sessenta annos do bom velho, palrando muito convencidamente dos seus deveres d'esposa para com o parocho.O abbade, que ignorava as visitas do parocho todas as manhãs, assombrou-se.—Minha senhora, que está a dizer? que está a dizer? Caia em si... Que vergonha!... Imaginei que lhe tinham passado essas loucuras.—Mas é o pai do meu filho, senhor abbade, disse ella, olhando-o muito séria.Fatigou então Amaro toda uma semana com uma ternura pueril. Lembrava-lhe cada meia hora que era o «papá do seu Carlinhos».—Bem sei, filha, bem sei, dizia elle impaciente. Obrigado. Não me gabo da honra...Ella chorava, então, aninhada no sofá. Era necessaria toda uma complicação de caricias para a calmar. Fazia-o sentar n'um banquinho junto d'ella; tinha-o alli como um boneco, contemplando-o, coçando-lhe devagarinho a corôa; queria que se tirasse a photographia ao Carlinhos para a trazerem ambos n'uma medalha ao pescoço; e se ella morresse, elle havia de levar o Carlinhos á sepultura, ajoelhal-o, pôr-lhe as mãosinhas, fazel-o rezar pela mamã. Atirava-se então para a almofada, tapando o rosto com as mãos:—Ai, pobre de mim, meu querido filho, pobre de mim!—Cala-te, que vem gente! dizia-lhe Amaro furioso.Ah, aquellas manhãs na Ricoça! Eram para elle como uma penalidade injusta. Ao entrar tinha de ir á velha escutar-lhe as lamurias. Depois, era aquella hora com Amelia, que o torturava com as pieguices d'um sentimentalismo hysterico,—estirada no sofá,grossa como um tonel, com a face entumecida, os olhos papudos...N'uma d'essas manhãs, Amelia, que se queixava de caimbras, quiz dar um passeio pelo quarto apoiada a Amaro: e ia-se arrastando, enorme no seu velho robe-de-chambre, quando se sentiram, em baixo no caminho, passos de cavallos: chegaram á janella—mas Amaro recuou vivamente, deixando Amelia que embasbacára com a face contra a vidraça. Na estrada, galhardamente montado n'uma egoa baia, passava João Eduardo de paletot branco e chapéo alto; ao lado trotavam os dois Morgaditos, um n'um poney, outro acorreado n'um burro; e atraz, a distancia, n'um passo de respeito e de cortejo, um criado de farda, de bota de cano e esporões enormes, com uma libré muito larga que lhe fazia na ilharga rugas grotescas, e no chapéo a roseta escarlate. Ella ficára assombrada, seguindo-os até que as costas do lacaio desappareceram à esquina da casa. Sem uma palavra, veio sentar-se no sofá. Amaro, que continuava passeando pelo quarto, teve então um risinho sarcastico:—O idiota, de lacaio á retaguarda!Ella não respondeu, muito escarlate. E Amaro, chocado, sahiu atirando com a porta, foi para o quarto de D. Josepha contar-lhe a cavalgada, e vituperar o Morgado.—Um excommungado de criado de farda! exclamava a boa senhora, com as mãos apertadas nacabeça. Que vergonha, senhor parocho, que vergonha para a nobreza d'estes reinos!Desde esse dia Amelia não tornou a choramigar, se pela manhã o senhor parocho não vinha. Quem esperava agora com impaciencia era o senhor abbade Ferrão, pela tarde. Apoderava-se d'elle, queria-o n'uma cadeira junto ao canapé: e depois de rodeios demorados d'ave que tenteia a presa, cahia sobre a pergunta fatal—se tinha visto o senhor João Eduardo?Queria saber o que elle dissera, se fallára n'ella, se a avistára á janella. Torturava-o com curiosidades sobre a casa do Morgado, a mobilia da sala, o numero de lacaios e de cavallos, se o criado de farda servia á mesa...E o bom abbade respondia com paciencia—contente de a vêr esquecida do parocho, occupada de João Eduardo: tinha agora a certeza que aquelle casamento se faria: ella evitava, de resto, pronunciar sequer o nome d'Amaro, e uma vez mesmo respondeu ao abbade que lhe perguntava se o senhor parocho voltára á Ricoça:—Ai, vem pela manhã vêr a madrinha... Mas eu não lhe appareço, que nem estou decente...Todo o tempo que podia estar de pé, passava-o agora á janella, muito arranjada da cinta para cima que era o que se podia vêr da estrada—enxovalhada das saias para baixo. Estava esperando João Eduardo, os Morgados e o lacaio; e tinha de vez em quando, com effeito, o gozo de os vêr passar, n'aquellepasso bem lançado de cavallos de preço, sobretudo o da egoa baia de João Eduardo, que elle defronte da Ricoça fazia sempre ladear, de chicote atravessado e perna á Marialva, como lhe ensinára o Morgado. Mas era o lacaio, sobretudo, que a encantava: e com o nariz nos vidros seguia-o n'um olhar guloso, até que á volta da estrada via desapparecer o pobre velho, de dorso corcovado, com a gola da farda até á nuca e as pernas bamboleantes.E para João Eduardo que delicia aquelles passeios com os Morgaditos, na egoa baia! Nunca deixava de ir á cidade: fazia-lhe bater o coração o som das ferraduras sobre o lagedo: ia passar diante da Amparo da botica, diante do cartorio do Nunes que tinha a sua banca ao pé da janella, diante da Arcada, diante do senhor administrador que lá estava na varanda de binoculo para a Telles—e o seu desgosto era não poder entrar com a egoa, os Morgaditos e o lacaio pelo escriptorio do doutor Godinho que era no interior da casa.Foi um dia, depois d'um d'esses passeios triumphaes, que voltando ás duas horas da Barrosa, ao chegar ao Poço das Bentas e ao subir para o caminho de carros, viu de repente o senhor padre Amaro que descia montado n'um garrano. Immediatamente João Eduardo fez caracolar a egoa. O caminho era tão estreito, que apesar de se chegarem às sebes quasi roçaram os joelhos—e João Eduardo pôde então, do alto da sua egoa de cincoenta moedas, agitando ameaçadoramente o chicote, esmagarcom um olhar o padre Amaro que se encolhia muito pallido, com a barba por fazer, a face biliosa, esporeando ferozmente o garrano ronceiro. No alto do caminho João Eduardo ainda parou, voltou-se sobre a sella, e viu o parocho que apeava á porta do casebre isolado onde ha pouco, ao passar, os Morgaditos tinham rido «do anão».—Quem vive alli? perguntou João Eduardo ao lacaio.—Uma Carlota... Má gente, snr. Joãosinho!Ao passar na Ricoça, João Eduardo, como sempre, poz a passo a egoa baia. Mas não viu por traz dos vidros a costumada face pallida sob o lenço escarlate. As portadas da janella estavam meio cerradas; e ao portão, desatrellado com os varões em terra, ocabrioletdo doutor Gouvêa.É que tinha chegado emfim o dia! N'essa manhã viera da Ricoça um moço da quinta com um bilhete de Amelia quasi inintelligivel—Dionysia depressa, a coisa chegou!Trazia ordem tambem de ir chamar o senhor doutor Gouvêa. Amaro foi elle mesmo avisar a Dionysia.Dias antes, tinha-lhe dito que D. Josepha, a propria D. Josepha, lhe inculcára uma ama—que elle já ajustára, grande mulher, rija como um castanheiro. E agora combinaram rapidamente que n'essa noite Amaro se postaria com a ama á portinha dopomar, e Dionysia viria dar-lhe a criança bem atabafada.—Ás nove da noite, Dionysia. E não nos faça esperar!—recommendou-lhe ainda Amaro vendo-a abalar n'um espalhafato.Depois voltou a casa e fechou-se no quarto, face a face com aquella difficuldade que elle sentia como uma coisa viva fixal-o e interrogal-o:—Que havia de fazer á criança? Tinha ainda tempo d'ir aos Poyaes ajustar a outra ama, a boa ama que a Dionysia conhecia; ou podia montar a cavallo e ir á Barrosa fallar á Carlota... E alli estava, diante d'aquelles dois caminhos, hesitando n'uma agonia. Queria serenar, discutir aquelle caso como se fosse um ponto de theologia, pesando-lhe ospróse oscontras: mas tinha temerariamente diante de si, em logar de dois argumentos, duas visões:—a criança a crescer e a viver nos Poyaes, ou a criança esganada pela Carlota a um canto da estrada da Barrosa...—E, passeando pelo quarto, suava d'angustia, quando no patamar a voz inesperada do Libaninho gritou:—Abre, parochosinho, que sei que estás em casa!Foi necessario abrir ao Libaninho, apertar-lhe a mão, offerecer-lhe uma cadeira. Mas o Libaninho felizmente não se podia demorar. Passára na rua, e subira a saber se o amigo parocho tinha noticias d'aquellas santinhas da Ricoça.—Vão bem, vão bem, disse Amaro que obrigava a face a sorrir, a prazentear.—Eu não tenho podido ir lá, que tenho andado mais occupado!... Estou de serviço no quartel... Não te rias, parochosinho, que estou lá fazendo muita virtude... Metto-me com os soldadinhos, fallo-lhes das chagas de Christo...—Andas a converter o regimento, disse Amaro que mexia nos papeis da mesa, passeava, n'uma inquietação d'animal preso.—Não é para as minhas forças, parocho, que se eu pudesse!... Olha, agora vou eu levar a um sargento uns bentinhos... Foram benzidos pelo Saldanhinha, vão cheios de virtude. Hontem dei outros iguaes a um anspeçada, perfeito rapaz, um amor de rapaz... Puz-lh'os eu mesmo por baixo da camisola... Perfeito rapaz!...—Devias deixar esses cuidados pelo regimento ao coronel, disse Amaro abrindo a janella, abafando d'impaciencia.—Credo, olha o impio! Se o deixassem desbaptisava o regimento. Pois adeus, parochosinho. Estás amarellinho, filho... Precisas purga, eu sei o que isso é.Ia a sahir, mas á porta, parando:—Ai, dize cá, parochosinho, dize cá: tu ouviste alguma coisa?—De quê?—Foi o padre Saldanha que m'o disse. Diz que o nosso chantre declarára (palavras do Saldanhinha) que lhe constava que ia na cidade um escandalo com um senhor ecclesiastico... Mas não dissequemnem oquê... O Saldanha quil-o sondar, mas o chantre diz que recebera só uma denuncia vaga, sem nome... Tenho estado a pensar: quem será?—Pataratas do Saldanha...—Ai, filho! Deus queira que sejam. Que quem folga são os impios... Quando fôres pela Ricoça dá recados áquellas santinhas...E pulou pelos degraus a ir levar «a virtude» ao batalhão.Amaro ficára aterrado. Era elle decerto, eram os seus amores com Amelia que já iam chegando ao vigario geral em denuncias tortuosas! E alli vinha agora aquelle filho, criado a meia legua da cidade, ficar como uma prova viva!... Parecia-lhe extraordinario, quasi sobrenatural, ter o Libaninho, que em dois annos não lhe viera a casa duas vezes, ter o Libaninho entrado com aquella nova terrivel, quando elle estava alli n'uma batalha com a consciencia. Era como a Providencia, que sob a fórma grotesca do Libaninho, vinha trazer-lhe o seu aviso, murmurar-lhe: «Não deixes viver quem te póde trazer o escandalo! Olha que já se suspeita de ti!»Era decerto Deus apiedado que não queria que houvesse na terra mais um engeitado, mais um miseravel,—e quereclamava o seu anjo!...Não hesitou: partiu para a estalagem do Cruz, e d'ahi a cavallo para a casa de Carlota.Demorou-se lá até ás quatro horas.De volta a casa atirou o chapéo para cima da cama,e sentiu emfim um allivio de todo o seu sêr. Estava acabado! Lá fallára á Carlota e ao anão; lá lhe pagára um anno adiantado; agora era esperar pela noite!...Mas na solidão do quarto toda a sorte de imaginações morbidas o assaltavam: via a Carlota a esganar a criancinha rôxa; via os cabos de policia mais tarde a desenterrar o cadaver, o Domingos da administração redigindo sobre um joelho o auto de corpo de delicto, e elle, de batina, arrastado para a cadeia de S. Francisco, em ferros, ao lado do anão! Tinha quasi vontade de montar a cavallo, voltar á Barrosa desfazer o ajuste. Mas uma inercia retinha-o. Depois, nada o forçava á noite a entregar a criança á Carlota... Podia leval-a bem agasalhada á Joanna Carreira, a boa ama dos Poyaes...Para escapar áquellas idéas que lhe faziam sob o craneo um ruido de tormenta, sahiu, foi vêr Natario que já se erguia—e que lhe gritou immediatamente do fundo da poltrona:—Então vossê viu, Amaro! O idiota, de lacaio atraz!João Eduardo passára-lhe na rua, na egoa baia, com os Morgadinhos; e Natario desde então rugia de impaciencia de estár alli amarrado á cadeira e não poder recomeçar a campanha, expulsal-o por uma boa intriga da casa do Morgado, arrancar-lhe a egoa e o lacaio.—Mas não as perde, em Deus me dando pernas...—Deixe lá o homem, Natario, disse Amaro.Deixal-o! quando tinha uma idéa prodigiosa—que era provar ao Morgado, com documentos, que o João Eduardo era um beato! Que lhe parecia, ao amigo Amaro?Era engraçado, com effeito. O homem não deixava de o merecer, só pela maneira como olhava para a gente de bem, do alto da egoa...—E Amaro fazia-se vermelho, ainda indignado do encontro, de manhã, no caminho de carros da Barrosa.—Está claro! exclamou Natario. Para que somos nós sacerdotes de Christo? Para exaltar os humildes e derrubar os soberbos.D'alli Amaro foi vêr D. Maria da Assumpção—que já se erguera tambem—que lhe fez a historia da sua bronchite e a enumeração dos ultimos peccados: o peor era que, para se distrahir um bocado na convalescença, recostava-se por traz da vidraça, e um carpinteiro que mórava defronte embasbacava para ella; e por influencia do maligno, não tinha forças para se retirar para dentro, e vinham-lhe pensamentos maus...—Mas vossa senhoria não está com attenção, senhor parocho.—Ora essa, minha senhora!E apressou-se a pacificar-lhe os escrupulos—porque a salvação d'aquella velha alma idiota era para elle um emprego melhor que a mesma parochia.Já escurecia quando entrou em casa. A Escolastica queixou-se da demora que lhe esturrára o jantar.Mas Amaro tomou apenas um copo de vinho e uma garfada d'arroz, que enguliu de pé, olhando com terror pela janella a noite que impassivelmente cahia.Entrava no quarto a vêr se os candieiros já estavam accêsos, quando o coadjutor appareceu. Vinha fallar-lhe sobre o baptisado do filho do Guedes, que estava marcado para o dia seguinte ás nove horas.—Trago luz?—disse de dentro a criada sentindo a visita.—Não! gritou logo Amaro.Temia que o coadjutor visse a alteração que sentia nas faces, ou que se installasse para toda a noite.—Diz que vem naNaçãod'antes d'hontem um artigo muito bom, observou o coadjutor, grave.—Ah! fez Amaro.Passeava no seu trilho costumado, do lavatorio para a janella; parava ás vezes a rufar nos vidros; já se tinham accendido os candieiros.Então o coadjutor, chocado com aquella treva do quarto e aquelle passear de fera n'uma jaula, ergueu-se, e com dignidade:—Estou a incommodar talvez...—Não!E o coadjutor satisfeito sentou-se, com o seu guardachuva entre os joelhos.—Agora anoitece mais cedo, disse.—Anoitece...Emfim Amaro desesperado declarou-lhe que tinha uma enxaqueca odiosa, que se ia encostar: e o homemsahiu, depois de lhe lembrar ainda o baptisado do menino do seu amigo Guedes.Amaro partiu logo para a Ricoça. Felizmente a noite estava tenebrosa e quente, annunciando chuva. Ia agora tomado d'uma esperança que lhe fazia bater o coração: era que a criança nascesse morta! E era bem possivel. A S. Joanneira em nova tivera duas crianças mortas; a anciedade em que vivera Amelia devia ter perturbado a gestação. E se ella morresse tambem? Então a esta idéa, que nunca lhe acudira, invadiu-o bruscamente uma piedade, uma ternura por aquella boa rapariga que o amava tanto, e que agora, por obra d'elle, gritava dilacerada de dôres. E todavia, se ambos morressem, ella e a criança, era o seu peccado e o seu erro que cahiam para sempre nos escuros abysmos da eternidade... Elle ficava, como antes da sua vinda a Leiria, um homem tranquillo, occupado da sua igreja, d'uma vida limpa e lavada como uma pagina branca!Parou junto ao casebre em ruinas á beira da estrada, onde devia estar a pessoa que da Barrosa vinha buscar a criança: não se tinha decidido se seria o homem ou a Carlota: e Amaro receava encontrar o anão, para lhe levar o filho, com aquelles olhos raiados d'um sangue mau. Fallou para dentro, para as trevas do casebre:—Olá!Foi um allivio quando a clara voz da Carlota disse da negrura:—Cá está!—Bem, é esperar, snr.aCarlota.Estava contente: parecia-lhe que não tinha nada a temer, se o filho partisse aninhado contra aquelle robusto seio de quarentona fecunda, tão fresca e tão lavada.Foi então rondar a casa. Estava apagada e muda, como um empastamento mais denso de sombra n'aquella lugubre noite de dezembro. Nem uma fenda de luz sahia das janellas do quarto d'Amelia. No ar muito pesado nenhuma folhagem ramalhava. E a Dionysia não apparecia.Aquella demora torturava-o. Podia passar gente e vél-o rondar na estrada. Mas repugnava-lhe ir occultar-se no casebre em ruinas ao pé de Carlota. Foi andando ao comprido do muro do pomar, voltou,—e viu então na porta envidraçada do terraço uma claridade de luz apparecer.Correu para a portinha verde do pomar que quasi immediatamente se abriu; e a Dionysia, sem uma palavra, poz-lhe nos braços um embrulho.—Morta? perguntou elle.—Qual! Vivo! Um rapagão!E fechou a porta devagarinho, quando os cães, farejando rumor, começavam a ladrar.Então o contacto do seu filho, contra o seu peito, desmanchou como um vendaval todas as idéas d'Amaro. O quê! ir dal-o áquella mulher, á tecedeira d'anjos, que na estrada o atiraria a algum vallado, ou em casa o arremessaria á latrina? Ah! não, era o seu filho!Mas que fazer, então? Não tinha tempo de correr aos Poyaes e acordar a outra ama... A Dionysia não tinha leite... Não o podia levar para a cidade... Oh! que desejo furioso de bater áquella porta da quinta, precipitar-se para o quarto d'Amelia, metter-lhe o pequerruchinho na cama, muito agasalhado, e todos tres ficarem alli como no conchego d'um céo! Mas quê, era padre! Maldita fosse a religião que assim o esmagava!
Ouves ao longe retumbar na serraO som do bronze que nos causa horror...